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ROBERT K.

MERTON

"-<.-

SOCIOLOGIA
TEORIA E ESTRUTURA

Tradução de
MIGUEL MAILLET

!j,

ÂI~>
EDITôRA MESTRE JOU
SÃO PAULO

. ~!
VI ESTRUTURA SOCIAL
E ANO MIA

A TÉ HÁ POUCO TEMPO - e outrora muito mais -, podia-se falar de


uzfta acentuada tendência nas teorias psicológicas e sociológicas, de atri-iC) '1 ;l;)\.\
buir o funcionamento defeituoso das estruturas sociais às falhas do con-L \ ,
trôle social sôbre os imperiosos impulsos biológicos do homem. A íma- .,'.' iv,:,;
gem das relações entre o homem e a sociedade insinuada por esta dou- =c/é r.".
trina é bastante clara mas é muito questionável. No comêço, existem os .
impulsos biológicos do homem, os quais procuram expressão total. Sur-
ge depois a ordem social, essencialmente um aparelhamento para o ma-
nejo dos impulsos, para o processamento social das tensões para a "re-
núncia às satisfações dos instintos", nas palavras de Freu.d..
omísmocom
º__
.!D.º-Q.g!Ql:-
as exigências de uma ..~:strutura social é assim·admitido._QQillQ '"
ests,º-º,º--,-3,Ea.!g-ª.clQ:Qª
J.1ªt~r~:z-ªº!,.iEi!:lªI. 1 São os impulsos biologicamen-
te enraizados que de vez em quando irrompem através do contrôle social.
E implicitamente, a conformidade é o resultado de um cálculo utilitário,
ou de um condicionamento não racional.
) Com o recente avanço da ciência social, êste conjunto de concepções
sofreu modificação básica. Um dos fatôres observados é que j!i, não oRa-
}':o~Q~tã_o.._ólJ'yi-º.qtl~ohomemseja colocado contra. a _ªº~*dade,r.tuma.gt,leJ,'-
ra incessante entre o impulso. biológico e as restrições sociais. A imagem
do homem como um indomado feixe de impulsos começa'li: parecer mais
uma caricatura do que um retrato. Por outro lado, as perspectivas so-
ciológicas têm contribuído cada vez mais à análise do comportamento
que se desvia das normas prescritas, pois qualquer que seja o papel dos
impulsos biológicos, ainda permanece de pé a questão de se saber por que

1. Ver, por exemplo, S. Freud, Civilizalion and Its Discontents (passim e esp. pág. 63); Er-
nest Jones, Social Aspects of Psychoanalysis (Londres, 1924), 28. Se a noção freudiana
é uma variedade da doutrina do "pecado original", então a Interpretação oferecida nes-
te estudo é uma doutrina do "pecado socialmente derivado".

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Robert K. M erton. SOCiologia - Teoria e Estrutura 205
2 freqüência do comportamento desviado varia dentro de estruturas so-
ciais diferentes, e por que sucede que os desvios têm diferentes formas e misturem em situações concretas. 10 primeiro consiste em QbJetivos C11.1-
tMr[tlm~nt!Lg.efinldºli, de propósitos e ínterêsses, mantidoscQmoobJeti,
moldes em estruturas diferentes. Hoje, como outrora, temos muito que l
aprender sôbre os processos pelos quais as estruturas sociais geram as cir- YºS...J~gíUWºSP.ªIª ..tºdo§, ou para membros diversamente localizados da
cunstâncias em que a infração dos códigos sociais constitui uma reação sociedade. Os objetivos são mais ou menos integrados - o grau de inte-
"normal" (isto é, qus pode ser esperaríaj.a Êste capítulo constitui uma gração é uma questão de fato empírico - e aproximadamente ordenados
tentativa de esclarecimento do problema. em alguma hierarquia de valôres. Envolvendo vários graus de sentímen-
A estrutura erigida neste ensaio pretende proporcionar um enfoque to e de significação, os objetivos predominantes compreendem uma arma-
sistemático da análise das fontes sociais e culturais de comportamento /;,ão de referência aspiracional , São coisas "que valem o esfôrço". São
transviado. Nosso objetivo principal é descobrir como é que algumas es- um componente básico, embora não exclusivo, do que .J:4!l:t!211- denominou
l :truturas sociais exercem uma pressão definida sôbre certas pessoas da "desígnios para a vida "do grupo". E embora alguns, não todos, de tais
' I sociedsuie, para que sigam conduta não conformista, ao invés de trilharem o objetivos culturais sejam diretamente relacionados aos impulsos bíológí-
[caminho conformista.Se pudermos localizar grupos peCUliarmente sujei. cos do homem, não são por êles determinados.
tos- a tais pressões, deveremos esperar encontrar proporções moderada. ]I Um segundo elemento .da,. estrutura cUlt11ralciefine,. reg11Ia e controla
mente elevadas de comportamento desviado em tais grupos, não porque as rnoqosaceitáveis de alcançar êsses objetivos. Cada grupo social, ínva-
os seres humanos, nêles compreendidos, sejam compostos de tendências riàvelmente, liga seus objetivos culturais a regulamentos, enraizados nos
biológicas diferentes, mas porque êles estão reagindo normalmente à si. costumes ou nas instituições, de procedimentos permissíveis para a procu-
tuação social na qual se encontram. liQ.s.sªQ~rspectiva. é socio16gÍ9a. ra de tais objetivos. EstasI1ormasr~g1l1[tdoras não são necessàríamen- J
Olhamos as variações nas proporções do comportamento desviado, e não te idênticas às normas técnicas ou de eficiência. Muitos procedimentos
i à sua incidência. 3 Se nossa indagação fôr bem sucedida, algumas formas que do ponto de vista de indivíduos isolados seriam os mais eficientes na
! de comportamento desviado serão encontradas como sendo psicológica- obtenção dos valôres desejados - o exercício da fôrça, da fraude, do po-
[mente normais, e a equação do desvio e da anormalidade psicológica der - estão excluídos da área institucional da conduta permitida. Por
[serã posta em dúvida. vêzes, os procedimentos desabonados incluem algo que seria eficiente para
o grupo em si mesmo, por exemplo, os tabus históricos contra .a vivissec-
PADRóES DE METAS CULTURAIS E
ção, ou a respeito das experiências médicas, ou a análise sociológica das
NORMAS INSTITUCIONAIS
normas "sagradas" - desde que o critério de aceítabilidado não é a efi·
Entre os diversos elemento" das estruturas sociais e culturais, dois ciência técnica, mas sim os sentimentos carregados de valôres (apóia-
são de imediata importância. São analiticamente separáveis embora se dos pela maior parte dos membros do grupo, ou por aquêles capazes de
promover tais sentimentos através do uso simultâneo do poder e da pro-
'~. "Normal" no sentido da reação a determinadas condições sociais, psicologicamente esperadz,
se não cuIturalmen te s,provada. Esta afirmação, evidentemente, não nega o papel das
paganda). Em todos os casos,.fI, escoíha jíos exp~clieI1tes para se esfor-
diferenças biológicas e de personalidade, na fixação da incidência do comportamento des- çar na obtenção dos objetivos. culturais é limitada pelas normas instituo
viado. Simplesmente, êste não é o problema aqui considerado. E, no mesmo sentido, _ciQU.aliz;aQa.s.
assim o considero, que ~ª--rç.§ª.__
§, J~J.ªI.1t ü/2. da "reação normal de pessoas normais a
condições anormais". Ver sua PersonaÜty and the Cultural Pattern (Nova Iorque, 1937)~
Os sociólogos falam freqüentemente de tais contrôles como estando
248. "nos costumes", ou operando através das instituições sociais. Tais afir-
3. A posição aqui tomada tem sido lucidamente descrita por Edward Sapir. " ... os proble. mações elipticamente são bastante verdadeiras, porém obscurecem o fa-
mas da ciência social diferem dos problemas do comportamento individu::;J em grau de to de que as práticas culturalmente 'padronizadas não são tôdas de uma
especificidade, e não de classe. Cada afirmação a respeto de comportamento que dirija n
ênfase, explíclts, ou implicitamente, sôbre as experiências atuais e integrais de pessoas só peça. São sujeitas a uma larga gama de contrôles. Êstes podem re-
definidas ou tipos de perso.nalidades, constitui um dado de psicologia ou de psiquíatrta, presentar padrões de comportamento prescritos em forma definida ou
não de ciência sociaã. Cada afirmação a respeito de comportamento que pretende não preferencial, ou permissiva, ou proibida. Na avaliação do funcionamento
estudar o indivíduo ou indivíduos em si mesmos, ou tratar do comportamento esperado
dos contrôles sociais, estas variações aproximadamente indicadas pelos
de um tipo de indivíduo física e psicolõgicamente definido, mas que prescinde de tal
',comportamento a fim de pôr em claro relêvo certas expectativas em relação aos aspec- têrmos prescrição, preferência, permissão e proibição devem ser natural-
tos de comportamento individual que vátias pessoas compartilham como norma inter- rnente levadas em conta.
pessoal ou 'social', constitui um dado, embora cruamente expresso, de ciência social", Nes-
Outrossím, dizer que os objetivos culturais e normas ínstítucíonalíza-
ta obra escolhi a segunda perspectiva; embora eu venha a ter ocasão de falar de .&tt!
tudes, valôres e funções, será do ponto de vista de como a estrutura social estimul •• das funcionam ao mesmo tempo para modelar práticas em vigor, não
ou inibe sua aparição, em tipos especírícos de situações. Ver Saplr, "Why cultural anthro- significa que elas exercem uma relação constante umas sôbre as outras.
pology needs the psychiatnst", Psychíatry, 1938, I, 7.12.
A ênfase cultural dada a certos objetivos varia independentemente do grau

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de ênfase sôbre os meios institucíonalízados. Pode-se desenvolver uma isso, para cada posição dentro da ordem distributiva. Do contrário, tal
tensão muito pesada, por vêzes virtualmente exclusiva, sôbre o valor de como o verificaremos adiante, surgirá o comportamento aberrante. Na, .1..:.
I", objetivos particulares, envolvendo em comparação pouca preocupação W verdade, minha hipótese central é que'q comportamento aberrante pode ..
f
com os meios institucionalmente recomendados de esforçar-se para a con- t ser considerado sociológicamente como um sintoma de díssocíação entre: C":;-"''ê ..
secução de tais objetivos, j O caso limite dêsse tipo é alcançado quando as aspirações culturalmente prescritas e as vias sociallIlente estruturadas] "h.
- .. l ...
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a amplitude de procedimentos alternativos é governada apenas pelas nor- para realizar essas aspirações. ')t." '.:;; ~.~~
\,. ., mas técnicas em vez das normas ínstítucíonaís. Neste caso extremo e· Dos tipos de sociedades que resultam da variação independente dos
"'-~. . i .
hipotético, seriam permitidos todos e quaisquer procedimentos que permi- objetivos culturais e dos meios ínstítucionalízados, daremos prioridade ao
tissem atingir êsse objetivo tão importante, Isto constitui um tipo de' estudo do primeiro: uma sociedade em que há ênfase excepcionalmente
cultura mal integrada.v Um segundo tipo limite é encontrado em grupos forte sôbre objetivos específicos, sem uma correspondente ênfase sôbre os ':'/\' ,',i' .
onde as atividades originalmente concebidas como instrumentais são trans- procedimentos íntitucíonais . Para evitar mal-entendidos, êste enun-
.,\, mudadas em práticas auto contidas, às quais faltem ulteriores objetivos. ciado deve ser bem explicado. Nenhuma sociedade carece de normas go- il'l,

As Jinalidad~~ c:rig~!lªi~ são esqueei<:l?138 8 estreita aderência à conduta vernantes da conduta, porém elas realmente se diferenciam na medi-
Instítucionajments recomendada tprna-se1,l!Dassllntod.e, ):it,1,lªJ.4 A con- da em que os usos e costumes populares e os contrôles institucíonais T II
formidade absoluta torna-se um valor central. Por algum tempo, a esta- estão efetivamente integrados com os objetivos que se destacam na hie-
bilidade social é assegurada às expensas da flexibilidade, Desde que a rarquia dos valôres culturais. A cultura pode ser tal que induza os indi-
amplitude dos comportamentos alternativos, permitidos pela cultura, +
é

víduos a centralizarem suas convicções emocionais sôbre o complexo de


severamente limitada, há pouca base para adaptá-Ia a novas condições. De- " ·f ;
fms culturalmente aplaudidos, com muito menos apoio emocional sõbre os
senvolve-se então uma sociedade limitada pela tradição, "sagrada", mar- métodos prescritos para alcançarem essas finalidades. Com tais ênfases di-
cada pela neofobia. Entre êsses tipos extremos estão as sociedades que ferenciais sóbre os objetivos e sôbre os procedimentos institucionais, os
mantêm um equilíbrio aproximado entre ênfases sôbre objetivos culturais últimos podem ser tão viciados pela tensão em alcançar os objetivos, que "! ."~,"\...
e práticas institucionalizadas, e estas constituem as sociedades integra- o comportamento de muitos indivíduos, fique sujeito apenas a conside- : : ,:
das e relativamente estáveis, embora mutáveis. rações de conveniência técnica. Neste contexto, a única pergunta signi-
Um equilíbrio efetivo entre essas duas fases da estrutura social é man- ficativa é a seguinte: Qual dos processos disponíveis lê o mais eficiente
tido enquanto as satisfações proporcionadas aos índívíduos se ajustam às a fim de apossar-se do valor culturalmente aprovado? 5 O processo mais
duas pressões culturais, por exemplo, satisfações provenientes da realiza- eficiente do ponto de vista técnico, quer seja culturalmente legítimo ou
ção dos objetivos e satisfação diretamente emergentes das formas de es- não, torna-se tipicamente preferido à conduta institucionalmente prescrí-
fôrço para atíngí-los, institucionalmente canalizados. É estimado em ta. À medida que se desenvolve êste processo de amaciamento das nor-
têrmo do produto e em têrrnos do processo, em têrmos do resultado e em mas, a sociedade torna-se instável e aparece o que .Durkheím denominava III'
têrmos das atividades. Assim devem derivar satisfações contínuas, da "anemia" (ou ausência de norma). 6
preocupação se transferir exclusivamente para o resultado da competi-
eclipsar os competidores, se a própria ordem deve ser sustentada Se a ~
preocupação se transferir exclusivarnente para o resultado da competi- 5. A éste respeito, percebe-se a relevância da paráfrase deEltlU1.M;~YÇl
- .. do titulo do bem c"~
/

ção, então aquêles que perenemente sofrem derrota podem, de modo bas-
conhecido livro de ~'I'awriey . UNa verdade o problema não ~ o da enfermidade de ~ . I!
uma sociedade aquisitiva; é o da. aquisitividade de uma sociedade doente". I-Juman Pre- ~. ';;-:, [I
tante compreensível, procurar alterar as regras do jôgo _O)LSaCJ;iJícios
ucasionalmente - e não ínvaríàvelrnente, segund0I<'.reud admitia -a.car-
blems of an Industrial Civilization, 153. Mayo lida com O processo através do qual a
r iquez a, vem a ser o símbolo básico da realização social, e encara isto como sendo pro- ~~l 1
ri3tado§. pela _gQnformidag,e com as _normasinstitucionaís devem ser com- veniente de um estado de anomia. Minha maior preocupação aqui é com as conseqüên- '1
cias sociais de uma pesada ênfase sôbre o sucesso monetário como objetivo, numa SOA
pensados ..pelas recompensas socializadas. A distribuição de posições so- ciedade que nã-o adaptou sua estrutura às correlações desta ênfase, Uma análise com-
ciais através da competição deve ser organizada de modo que se propor- ple ta exigiria. o exame simultâneo de ambos os processos.
cionem incentivos positivos para a adesão às obrigações da situação, e 6. A ressurreícão feita por Durkhc.im do termo "anomía", o qual, tanto quanto é de meu cc-
nhecímento , aparece em primeiro lugar no mesmo sentido no fim do século XVI, bem
poderia. ser objeto de uma investigação, por uni estudante interessado na ríliaçâo his-
4. Êste ritualismo pode ser ussoctnoo com urna rnitologia que racíonz.lizc estas prát.icas de tórica das idéias. Tal como ao frase "clima de opinião" trazida à popularidade acadê-
modo que elas aparentemente retenham sua situação como meio, porém, a pressão de- mica e politica por A. N. Wh~teheª.c!, três séculos depois de ter sido cunhada por J("!.
minantc é no sentido de conformidade ri tualísttca estrita, independente da mitologia. seph Glanvill, a palavra "anomía" entrou ultimamente em uso freqüente, desde que
I: :,' O ritualismo é cssím tanto mais completo, quanto tais racionalizações não são nem foi reíut.roduzida por .!?_~r~~i_l!!. Por que essa ressonância na sociedade contemporã-
sequer provocadas. nea? Um magnifico modélo do tipo de pesquisa exigido por questões dessa ordem, en-

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o funcionamento dêste processo que eventualmente resulta em ano-
mia pode ser fàcilmente percebida numa série de episódios familiares e
~ instrutivos, embora talvez triviais. Assim, na competição de atletismo,
I do sucesso, assim como seria irreal negar que os norte-americanos
atribuem um lugar saliente em sua escala de valôres.
Q ..dinheíro teIDsidoçºJ:l§ªgrl1dº~
lhe
Em grande parte,
corno um, yaIQ:l".,~!!1,,§.LI!!~Sm9,além e
I
".'_ .• ~._.J-'-

quando o alvo da vitória é despojado de suas roupagens ínstítucíonaís e o acima de seu gasto a trôco de artigos de consumo ou de seu uso para o
sucesso torna-se subentendido em "ganhar a partida" em vez de "ganhar aumento do poder. O "dínheíro" ~ peçuHarro~llt~._bflmarnmtado,_a __tor-
segundo as regras do jôgo", estabelece-se implicitamente um prêmio ao nar-se um símbolo de prestígio. Conforme Simmel salientou, o dínhei-
uso de melos ilegitimos, porém têcnicamente eficientes. O "craque" do ti- rõ'é' aítam~~te 'abstrato e- impessoal. Não importando como é adquiri-
me de futebol concorrente é sub-reptícíamente golpeado; o lutador é in-

I
do, fraudulenta ou dentro das instituições, pode ser usado para adquirir
capacitado por seu oponente, através de técnicas engenhosas, porém ilí- os mesmos bens e serviços. A anonímía da sociedade urbana, em con-
citas; os alunos da universidade encobertamente dão "colas" aos "estudan-
tes" cujos talentos são limitados ao campo do atletismo. A ênfase con- I junção com essas peculíarídades do dinheiro, permite que a riqueza, _
cujas origens podem ser desconhecidas da comunidade em que vive o plu-
cedida ao resultado de tal maneira atenuou as satisfações derivadas da tocrata ou, quando conhecidas, podem ser purifica das pelo decurso do
simples participação na atividade competitiva, que somente um resultado tempo - sirva como símbolo de elevado status. Ainda mais, no Sonho
bem sucedido fornece a satísracão. Através do mesmo processo, a ten- Norte-americano não há ponto de parada final. A medida de "sucesso
são gerada pelo desejo de ganhar numa partida de pôquer é afrouxada pe- monetário" é conveníentements indefinida e relativa. Em cada nível de ; (, I
la distribuição de quatro ases a si próprio ou, quando o culto do sucesso renda, conforme verificou H ·_E., , Gta"r.:i!:,. os norte-americanos querem sem-, ~ ,
chegou ao extremo, pelo sagaz embaralhamento de cartas numa partida pre uns 25% a mais (é claro que' esta' idéia. de "um pouco mais" volta a'
de paciência. A débil pontada de mal-estar no último exemplo e a natu- funcionar logo depois que o alvo anterior foi atingido). Neste fluxo de,
reza sub-reptícía dos delitos em público indicam claramente que _.ªs__re- padrões em mudança, não há ponto de descanso estável, ou, em outras
""'"1.-'-"
gras institucionais do jôgo são conhecidas por aquêles que as desprezam. palavras, é o ponto que se mantém sempre "um pouco adiante". O ob- i '-
Porém, o exagêro cultural (ou idíossíncrátíco ) que conduz o homem a ob- servador de uma comunidade na qual não são inconiuns os salários anuais i
ter sucesso de qualquer maneira, leva-o a desprezar o apoio emocional das l'epresentados por seis algarismos (isto é, de 100.000 dólares para cima) ~~ !
.regras.7 relata as palavras angustiadas ue uma vítíma do Sonho Americano: "Nes-
Êste processo evidentemente não se restringe às competições esporti- ta cidade, sou socialmente menosprezado, porque ganho apenas mil dó-
vas, as quaís simplesmente nos fornecem imagens mícrocósmícas do ma- lares por semana. Isto dói." 9
crocosmo social. O processo pelo qual _a exaltaçãQ._dQ Jim gera ..uma li- Dizer que o objetivo do sucesso monetário está entrincheirado na cul-
teral de$1!!-oralização, isto é, desinstítucíonalízacâo dos meios, ocorre em tura norte-americana é apenas repetir que os americanos são bombardea-
muitos 8 grupos, nos quais os dois competentes da estrutura social não dos de todos os lados por preceitos que afirmam o direito e, freqüente.
estejam altamente integrados. mente, o dever de alcançar o objetivo, mesmo em face a repetidas frus-
A cultura norte-americana contemporânea parece aproximar-se do ti- trações. Prestigiosos representantes da sociedade reforçam essa ênfase
po polar em que ocorre grande ênfase sôbre objetivos de êxito sem a ên- cultural. A família, a escola e o local de trabalho - principais organis-
fase equivalente sôbre os meios institucionais. Evidentemente seria irreal mos que modelam a estrutura da personalídad., e a formação dos objeti-
í asseverar que a riqueza acumulada permanece sózínha como um símbolo vos dos norte-americanos - unem-se a fim de impor a intensiva discipli-
na necessária para que um indivíduo consere intacta uma meta que está,
cada vez mais, fora do seu alcance e que obrigue a motivar seu compor-
contra-se em Leo Spitzer, "Milieu and Ambiance: an essay ín historical semantícs". tamento pela promessa de uma recompensa que não se cumpre. Tal co-
Philosophy and Phenomenologteal Research, 1942, 3, 1,42, 169·218.
7. Pa-rece improvável que as normas culturais, depois de assimiladas. possam ser totalmente
mo veremos, Qª_Im.!§.Il~:[Y~m_ge_,cº-w~iª _.<l€l" tral!ll!l1ill.llªº __
Pª,m,QIl._Vªl!ll"E!s
eliminadas. Qualquer resíduo que persista, induzirá tensões de personalidade e confli- _JLQbjetiyos dos grupos dos quais fazem parte, sobretudo os da sua clas- , . 'v-,
tos, com alguma medida de ambivalência. Uma rejeição ostensiva das normas insta- se social ou da classe com que se identificam, E as escolas são evidente-
tucionais já incorporadas, estará provávelmente ligada a algurns, retenção latente de
mente organismos oficiais para a transmissão dos valôres predominantes,
seus correlativos emocionais. Sensação de culpa, sentimento de pecado, a.ngústia d2
consciência, são têrmos diversos apltczdos a esta tensão não aliviada. A aderência com uma grande proporção de livros usados nas escolas da cidade, afir-
simbólica aos valõres nominalmente repudíados, ou as racionalizações da rejeição de ~ mando implicitamente, ou mesmo de modo explícito, "que a educação con-
t

8.
tais valôres, constituem expressões mais sutis dessas tensões.
Em "muitos", mas não em todos os grupos não integrados, pela razão antes mencionada.
\,~ duz à inteligência e conseqüentement« ao sucesso no emprêgo e ao êxí-
Nos grupos em que ae·ufzlSe
é normalmente
principal
um tipo de ritualismo,
recai sôbre os meios instituc1onais,
em vez de anomía,
o resultado
I 9. Leo C. Rosten, Hollywood (Nova Iorque, 1940), 40.

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I
1

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to monetário". 10 Os protótipos do sucesso, os documentos vivos que teso J. L. Bevan, presidente do IIlinois Cen- Protótipo de sucesso lIr: Se as tendên-
tral Railroad, que aos doze anos era men- cias seculares de nossa economia parecem:
temunham que o Sonho Norte-americano pode ser realizado contanto que
sageiro no escritório de frete de Nova dar pouco incentivo aos pequenos negó ..·
a pessoa tenha as habilidades exigidas, são peças centrais dêsse proces- Orleans. cios, então as pessoas podem subir dentro
so de disciplinar o povo, a fim de mantê-to prêso às suas ilusões insatis- das gigantescas burocracias das emprêsas
feitas. Considere-se a éste respeito os seguintes trechos do jornal de ne- p:;,rticulares. Se alguém já não pode ser
rei no âmbito de sua própria criação, pe-
gócios, Nation's Business, extraídos de uma grande quantidade de maté- lo menos pode ser um presidente em uma
ria análoga encontrada em comunicações de massa, estabelecendo os va- das democracias econômicas. Seja qual tõr
lôres de cultura predominantes, no mundo dos negócios: a situação atua' de um individuo, môço
de recados' ou escriturário, o seu olhar de-
o Documento Suas Implicações Sociológicas ve estar sempre fixado para o alto.
(Nation's Business, Vol. 27, n.o 8, pág. 7).

"Você tem que ter nascido para êsse Aqui está uma opinião herética possi- De diversas fontes jorra uma pressão contínua a fim de manter al-
trabalho, meu amigo, ou então ter um bom velmente nascida de uma frustração con- tas ambições. A literatura de exortação é imensa, e podemos escolher
pistolão", ttnuoda, a qual rejeita o' valor de alcançar somente correndo o risco de parecermos injustos. Lembremos apenas os
um objetivo aparentemente irreaUzável e~
mais ainda, põe em dúvida, a legitimidade
seguintes: O Rev. Russel H ..Cowell, cujo sermão Acres ot Diamonds foi
de uma estrutura social que oferece dife- ouvido e lido por centenas de milhares de pessoas, sendo seguido por
renças no acesso a esse meta. The New Day, ou Fresh Opportunities: A Book for Young Men, Elbert Hub-
Isto é um velho sedativo para a ambição. o contra-ataque, afirmando explicitamen- bard, que proferiu a famosa Mensagem a Garcui nos clubes de Chautau-
te o valor cultural de reter as aspirações qua, por tôda a extensão do país; Orison Swett Marden que, numa tor-
de cads, um intactas, de não perder a
rente de livros, publicou em primeiro lugar The secret o] Achievement,
"ambição".
elogiado por reitores de universidades; a seguir ensinou como "Ir para a
Antes de dar ouvidos a esta sedução, por Uma clara afirmação da função a ser
gunte a êstes homens:
frente" em seu livro Pushinq to lhe Front, recomendado pelo Presí-
servida pela seguinte lista de "sucessos",
Êstes homens são testemunhos vivos de que d.ente.McKinley e finalmente, não obstante êsses testemunhos democrá-
a estrutura social (:. t~l que permite que ttcos, cartografou os caminhos para fazer de todo homem um rei (Every
essas aspirações sejam alcançadas se a Man a King). O simbolismo do homem comum, elevando-se à situação de;
pessoa fôr corajosa e persistente. E cor-
realeza econômica, está profundamente entrelaçado à cultura norte-ernerí-:
relativamente, .0 rracasso ,,}~"l:º..._.~t~.~g~mento
dêsses_objetivºsdá testemunho das de fi- cana, encontrando talvez a sua definitiva expressão nas palavras de
_~~i.~QÇ.illJ:i-.P~§êºa,is! A reação provocada pelo alguém que sabia do que estava falando. Andrew Carnegie: "Seja um rei:
fracasso deveria, portanto, ser dirigida pa-
em seus sonhos. Diga a si mesmo "Meu lugar é no alto".l1 i
ra dentro e não para fora, contra as pró-
prias pessoas e não contra ums, estrutura Unida a esta ênfase positiva sôbre a obrigação de manter alvos ele-
social que proporciona acesso livre e igual vados, há uma ênfase correlativa sôbre o castigo daqueles que refreiam
à oportunidade. suas ambições. Os norte-americanos são admoestados a "não ser um dos
Elmer R. Jones, presidente da WeIls-Far- Protótipo de sucesso I: Todos podem ter que desistem" pois no dicionário da cultura daquele povo, tal como no lé-
go Co., que começou a vida como rapaz as mesmas corretas ambições elevadas, POi5
xico da sua juventude, "não existe a palavra 'fracasso'''. O manifesto
pobre e deixou a escola no 5.? ano para não importa que o ponto de partida seja
pegar seu primeiro emprêgo. muito bzdxo : o talento verdadeiro pode cultural é claro: não se_po<l~gesistir, não se devernoderar os esforços,
alcançar as maiores alturas. As aspirações _ráo_.s<J_ pode diminuir os objetivos, pois "não o fracasso, mas o alvo bai-
devem ser conservadas intactas. xo é crime".
Frank C. Ball, o pedreiro que veio a ser Protótipo de sucesso 11: Quaisquer que Assim a cultura impõe a aceitação de três axiomas culturais. . PrÍ-
o rei das frutas em conserva, que VÜ:'1joll sejam os atuaís resultados dos esforços de meíro, todos devem esforçar-se para atingir os mesmos elevados objeti-
de Buffalo até Muncie, Indiana, numa car- ::rJguém, o futuro é grande em suas pro-
1-
vos, já que estão à disposição de todos ;::segundo, o aparente fracasso mo"
roça, com O cavalo do irmão George, ali messas, pois .9 homem ...comum -ªj.nçl.ª .pode
iniciou um pequeno negócio que se tornou tornar-se um rei. As recompensas podem mentâneo é apenas uma estação no caminho .do sucesso final ;:=:eterceí-
o maior de sua espécie. parecer ad 'adas para sempre, mas final- ro, o fracasso genuíno consiste apenas na diminuição ou retirada da am-
mente elas serão concretizadas quando fi bição.
emprêsa de alguém se tornar "a maior
de sua espécie".
11. Cf., A. W. Griswold, The American Cult of Suecess (Yale University doctoral dísscrtatíon,
10. Malcolm S. MacLean, Scholars, Workers and Gentlemen (Harvard University Press, 1938), 1933); R. O. Carlson, "Personality Schools": A Sociological Analysis (Columbia trníver-
síty Masters Essay, 1948).
29.
212 Roõert K. Merton SOCiOlogia - Teoria e Estrutura 213

Numa paráfrase psicológica aproximativa, êsses axiomas representam TIPOLOGIA DE MODOS DE ADAPTAÇÃO INDIVIDUAL U

em .primeiro lugar.j. um refôrço secundário simbólico do incentivo; em .\fodos de' Adaptação Metas CuDturais Meios
segundo Iugar.Iurn freio à ameaça de extinção da reação mediante um es- I nstitucionalizados
idmulo associado ; em terceíro lugar,3,0 aumento da fôrça impulsora para I. Conformidade + +
." .responder ronstantemente ao estímulo, apesar da continuada ausência de II. Inovação +
recompensa. lII. Bítualísmo - +
Na paráfrase sociológica, êstes axiomas representam primeiro'.o des- IV. Retraimento
vio da crítica da estrutura social para a critica do próprio indivíduo, co- V. Rebelião 13 ± ±
locado entre aquêles situados de tal forma na sociedade, que não têm to-
", ~ <,

tal e igual acesso à oportunidade; segundo.ra preservação de uma estru- \ o exame do modo pelo qual a estrutura social opera a fim de exercer
:t. tura do pouer social, pela identificação dos indivíduos dos estratos so-
ciais inferiores, não com seus pares, mas com aquêles que estão no alto
'I. pressões sôbre os indivíduos, num ou outro dêsses modos alternativos de
comportamento, deve ser precedido pela observação de que as pessoas po-
dem mudar de uma alternativa. para outra, à medida que elas se lançam em
(a quem êles finalmente se juntarão); e terceíro.Ta atuação de pressões
favoráveis à confcrmidade com os ditames culturais de ambição irrepri- diferentes esferas de atividades sociais. Essas categorias se referem ao
mível, mediante a ameaça, para aquêles que não se acomodam aos referi- papel de comportamento em tipos específicos de situações, não à persona-
dos ditames, de não serem considerados plenamente pertencentes à so- lidade. São tipos de reação mais ou menos duradoura, não tipos de or-
ciedade. ganização de personalidade. Considerar êsses tipos de adaptação em di-
É nestes têrmos e através de tais processos que a cultura norte-amerí- versas esferas de conduta introduziria uma complexidade que não pode-
cana contemporânea continua a ser caracterizada por uma pesada ênfa- ria ser dominada na extensão dêste capítulo. Por esta razão, vamos nos
se sôbre a riqueza como símbolo básico do sucesso, sem uma ênfase cor- ocupar primordialmente com !J. atividade econômica. no sentido amplo
respondente sôbre as legítimas vias nas quais se deve marchar em dire- "da produção, troca, distribuição e consumo dos bens e serviços" em nos-
ção a êste objetivo. Como reagem os indivíduos que vivem nesse contex- sa sociedade competitiva, onde a. riqueza assumiu um papel altamente
to cultural? E como as nossas observações se refletem na doutrina de simbólico.
que o comportamento transviado deriva tipicamente dos impulsos bioló-
gicos que irrompem através das restrições impostas pela cultura? Em 12. Não faltam tipologias de diferentes modos de reação, em relação às condições de
frustração .• Ereud, em sua CiviJization and Jts Díscontents (pág. 30 e segs.) fornece
poucas palavras quaís são as conseqüências do comportamento das pes- um; tipologiaSderivativas,· freqüentemente diferentes em detalhes básicos, serão en-
soas situadas em várias posições na estrutura social de uma cultura, na contradas em ...Kª.rgn .H;aroey, Neuroii~ Personality of Our Time (Nova Iorque, 1937);
qual a ênfase sôbre os objetivos do sucesso dominante afastou-se' cada !h.~oselll'.weig,_ "The experim"ental measurement of types or reaction to frustration", em
vez mais de uma ênfase equivalente sôbre os processos tnstltucíonalíza- ª,_IL~Mtiril!Y, 'e outros, Explorations in Personality (Nova Iorque, 1938), 585·599; e nos
trabalhes de ,!911I!..I)QUarg, Harold Lasswell, Abram. Kar.diner._.e..-E.rich .. Fromm. Mas
dos para a obtenção dêsses objetivos? particularmente na. estrita típología rreT~diant:1 a perspecttva é de tipos
I de--reaçóes in-
dividuais, inteiramente separada do lugar do indivíduo dentro da estrutura social.
Apesar de sua constante preocupação com a "cultura", por exemplo, Horney não explo-
ra as diferenças no impacto dessa cultura sôbre o fazendeiro, o trabalhador e o homem
TIPOS DE ADAPTAÇÃO INDIVIDUAL de negócios, sõbre os indivíduos das classes baixa, média e z,lta, sôbre os membros de
vários grupos étnicos e raciais etc. Como resultado, o papel das "inconsistências da
Deixando êstes padrões de cultura, examinaremos agora os tipos tIe cultura" não é localizado em seu impacto diferencial sõbre grupos diversamente situa-
adaptação dos indivíduos, dentro da sociedade portadora da cultura. Em- dos. A cultura torna-se uma espécie de lençol que cobre Iguarnente todos os mem-
bros da sociedade, sem considerar as diferenças ídíossíncrátícas nas suas hístórías do
bora nosso enfoque seja ainda. a gênese cultural e social das proporções
vida. Uma suposição primordial da nossa tipología é que essas reações ocorrem com
variáveis e tipos de comportamento divergente, nossa perspectiva. se freqüência diferente dentro de vários subgrupos de nossa sociedade, precisamente por-
+ransferírá do plano dos moldes dos valôres culturais para o plano dos + que os membros de tais grupos ou estratos são diferencialmente sujeitos ao estímulo
cultural c às restrições sociais. Esta orientação sociológica será encontrada. nos escrí-
tipos de aaaptação a êstes valôres entre as pessoas que ocupam diferen-
tes posições na estrutura socia1. I tos de Dollard, e, menos sistemàticamente,
Do ponto de vista geral, ver a nota 3 dêste capitulo.
nos trabalhos de Fromnl, Kardiner e Lasswell.

Consideramos aqui cinco tipos de adaptação, tal como estão esquema-

I
r\, .)'..''.' .. :~~) Esta quinta alternativa está num plano claramente diferente d"," demais. Representa
ticamente dispostos na tabela seguinte, onde (+) significa "aceitação", uma reação de transição que procura institncionalizar novos objetivos e novos procedi.
.r mentos a serem compartilhados por outros membros da sociedade. Refere-se assím a
f -) significa "rejeíçâo", e (±) significa "rejeição de valôres predominan-
esforços para mudar a estrutura cultural e socísd existente, ao invés de acomodar es-
tes e sua substítuíção por novos valôres". i
I forços dentro dessa estrutura.

i
_~~~__. . . ~l_
Sociologia - Teoria e Estrutura 215
214 Robert K. Merton

manobras "espertas" além dos costumes. Conforme VeblelL.observou,


"não é fácil em qualquer caso dado - na verdade, é por --Vêzesímpossí-
L CONFORMIDADE
vel, até que os tribunais hajam se manítestado a respeito - dizer se é
Na medida em que uma sociedade é estável, o tipo I de adaptação um caso de elogiável habilidade de vendedor, ou uma ofensa punível".
conformidade tanto com os objetivos culturais como com os meios A história das grandes fortunas norte-americanas é um exemplo de ten-
ínstitucionalízados - é a mais comum e a mais difundida extensamen- sões rumo a inovações ínstítucíonalmente duvidosas, tal como é atesta-
te. Se assim não fôsse, não se poderia manter a estabilidade e contt- do por muitos elogios aos "Barões Ladrões". A relutante admiração fre-
nuidade sociais. A engrenagem de expectativas que constitui cada ordem qüentemente .expressa em particular, e não raramente em público, a ês-
social é sustentada pelo comportamento modal de seus membros, repre- ses homens "astutos, hábeis e bem sucedidos", é um produto da estrutu-
sentando a. conformidade com os padrões culturais estabelecidos, embora ra cultural em que a meta sacrossanta virtualmente consagra os meios.
êstes estejam talvez variando desde muitos séculos. De fato é somen- Êste fenômeno não é nôvo. Sem admitir que Charles ..PipJ.;:º-l}§ fôsse um
<.~
te porque o comportamento é tipicamente orientado em direção aos valô- observador inteiramente cuidadoso da cena norte-americana.ie com pleno
res básicos da sociedade, que podemos falar de um agregado .humano co- conhecimento de que êle era tudo, menos imparcial, citemos suas agudas
mo constituinte de trrna sooíedade.. 1\.-ID!:!.l1Qs ... glJ,·e. .l:Uol,j'LY..wrepO.sitÓr.io.de. observações sôbre o "amor dos norte-americanos"
y.ª!QI§_COlll-ºªIltlll,ªg9JLPQL.L11ºi.yíd}J.illL,glJ~ ....J;,e ...inHlJem .. reclP.l,:ocam~pj;e, às transações "espertas", que encobre muitas fraudes e grosseiras quebras de corifiança: muí-
existem relações soc~is (se é que assim possam ser chamadas as inte- tos desfalques, públicos e privados, e permite que muitos canalhas merecedores da rõrca ~(! t-, .. '
rações desordenadas), mas_ºª"Q. __s9.ciedª-Q.e. É assim que, em meados igualem com pessoas honestas... Os méritos de uma especulação irregular ou uma falência lLI
ou de um tratante bem sucedido, não são medidos por suas relações com a regra áurea.
dêste século XX, seria possível nos referirmos à extinta "Liga das Na-
"Faze a outrem o que queres que te façam". mas são apreciados pela sua "esperteza" ... Man-
ções" principalmente como uma figura de linguagem, ou como um objeti- tive o seguinte diálogo uma centena de vêzes: "Não é uma circunstância muito degradante
vo imaginado, mas não como uma realidade sociológica. que fulano esteja -adquirindo uma grande propriedade pelos meios os mais ínrames e odio-
Já que o nosso interêsse primordial se concentra sôbre as fontes de sos, e não obstante todos os crimes de que êle se tornou culpado, deva ser tolerado e esti-

comportamento desviado e já que temos examinado resumidamente os me- j' mulado pelos vossos concídedãos?
mentiroso confesso"? "Sim, senhor".
Ele é uma praga pública, não é"? "Sim, senhor". "Um
"Éle tem sido chutado e algemado, e prêso"? "Sim, se- io +
canismos que transformam a conformidade como a reação modal da so- i nhor". "É um indivíduo inteiramente desonrado, degradado e 'devasso"? "Sim, senhor", "Bantc -1;, C.~,";:-:· I
ciedade norte-americana, pouco mais necessita ser dito neste ponto, em ~
~
Deus, qual é então o seu mérito"? "Bem, senhor, êle é um homem esperto",
relação a êste tipo de adaptação. i, Nesta caricatura dos valôres culturais conflitantes, J:;>.ickJ\Il~. era evi-

lI. INOVAÇÃO
I dentemente apenas mais um dêsses espíritos agudos que demonstraram

Ii
sem piedade as conseqüências da importância dada ao sucesso financei-
ro. Os humoristas norte-americanos continuaram no ponto em que os
..A..g)'"ªlJc1eêpfase.clJ,ltural sóbre a meta de êxito estimula êste modo estrangeiros pararam. .Art~.mus __:W1!,rd. satirizou os lugares comuns da
ele adaptação através de meios institucionalmente proibidos, mas rre- vida americana, até que parecessem estranhamente incongruentes. Os
qüentemente eficientes, de atingir pelo menos o simulacro do sucesso - a.
riqueza e o poder. Esta reação ocorre quando o indivíduo assimilou a
ênfase cultural sôbre o alvo a alcançar sem ao mesmo tempo absorve!'
igualmente as normas institucionaís que governam os meios e processos
I "filósofos de praça pública", .B.ilLArn e Petroleurn volcano [mais tarde
Vesúvio] Nasby, puseram a sátira a serviço da íconoolastía, quebrando
as imagens das figuras públicas com prazer não oculto. ..:r9.§ll,
..Billjngs
e seu alter ego, 1l._'I'io.Esek, tornaram explícito o que muitos não podiam
para o seu atingimento. admitir livremente, quando êles observavam que a satisfação é relativa,
Do ponto de vista da psicologia, pode-se esperar que um grande inte- já que "a maior parte da felicidade neste mundo consiste em possuir o
rêsse emocional por determinado alvo em vista, produza a ~Qsiçªpde que os outros não podem conseguir". "Todos se dedicaram a demonstrar
.aceítar ...rísccs, e esta atitude pode ser adotada por pessoas de tôdas as as funções sociais do humorismo tendencioso, tal como foi mais tarde
camadas da sociedade. Do ponto de vista da sociologia, surge então esta analisado porFJ~ud) em sua monografia acêrca de Wit and Its Relation
pergunta: quaís as características

qüências de comportamento
de nossa estrutura social que predis-
põem em direção a êsse tipo de adaptáção, produzindo assim maiores fre-
divergente em uma camada social do que

;
,
!
to the Unconscious, usando como "uma arma de ataque tudo o que é
grande, dignificado e poderoso, contra aquilo que está protegido por obs-
táculos internos ou circunstâncias externas contra a detração dire-
em outra?
Nos níveis econômicos mais elevados a pressão rumo à inovação apa- I ta" . .. Porém, talvez mais apropriada tenha sido a exibição de espírito,
feita por _AmbrQ.sJL.:61~[ç!L numa forma que tornou evidente que o espíri-

I
ga, com não pouca freqüência, a distinção entre os esforços normalmente to não se havia de'stacado de suas origens etimológicas e ainda sígnífí-
usados no mundo dos negócios, ou seja, no lado "legal" dos costumes e as

í
~
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216 Robert K. Mertori Sociologia - Teoria e Estrutura 217 I


_-------
- ..

cava o poder pelo qual a gente sabe, aprende, ou pensa. Em seu en- Vivendo na era em que os barões ladrões floresceram, Bíerce não po-

f
saio caracteristicamente irônico e profundo acêrca do "crime e seus cor-
retivos", Bierce começa observando que "os sociólogos têm longamente
dería fàcilmente deixar de observar o que mais tarde se tornou conheci-
do como "d.§.li!1:q4~tes. çleeolRl'illl1o brilP,QQ". Não obstante, êle sabia
I
debatido a teoria de que o impulso para cometer o crime é uma molés- que nem todos êsses grandes é dramáticos afastamentos das normas ins-
tia; os que concordam com isso parecem sofrer dessa mesma moléstia".
Após tal prelúdio, descreve os modos pelos quais o malandro bem sucedi-
• do alcança a legitimação social e prossegue, analisando as discrepâncias
titucionais nos estratos superiores da economia são conhecidos, e que
possivelmente vêm à luz número menor de desvios entre as classes mé-
dias inferior€s.S_uth~rlª).).d _tem repetidamente documentado a predomi-
I
entre os valôres culturais e as relações sociais. nância da "criminãiidacte' de colarinho branco" entre os homens de negó-
cios. Êle nota, além disso, que muitos de tais crimes não foram levados
Via de regra, o bom norte-arnertcano é bastante contrário à velhacaria, mas êle suaviza
ao tribunal porque não foram descobertos; ou, se foram,' devido ao "sta-
sua &.!usteridade por uma amigável tolerância para com os velhacos. Sua única exigência é
tus social do homem de negócios, a tendência contrária ao castigo, e o
de que êle deva conhecer pessoalmente
voz alta, se não temos a honra de conhecê-Ios.
os tratantes. Todos nós "denunciamos" os ladrões em
Se tivermos essa honra, bem, isto é. dire- '1 ressentimento público relativamente não organizado contra os crimino-
rente, a menos que êles recendam à favela ou à prisão. Podemos saber que êles são delin- sos de colarinho branco". 15 Um estudo de aproximadamente 1.700 índi- C } ~'f~.
qüentes, mas quando os encontramos, sacudimos suas mãos) bebemos com êles, e se acon-
tece que sejam ricos, ou importantes sob algum outro aspecto, convidamo-tos às nossas
víduos, predominantemente da classe média, revelou que as Ülfra.çQgf;~n.ã.o: .c';:
essas e consideramos uma honra freqüentar as suas. Bem entendido, "não aprovamos os regístradas" eram comuns entre membros inteiramente. "respeitáveis" da .,.
seus métodos" e isto já constitui uma punição suficiente. A idéia de que um patife dá qual- so.c.i~da~.:. Noventa e nove por cento das pessoas pesquisadas contes- •. "
quer importância ao que dêle se pensa, parece ter sido inventado por um humorista. No saram ter cometido uma ou mais das 49 infrações à lei penal do Estado de: /
palco de vaudevilIe de Marte, isto provàvelmente teria feito sua fortuna.
[E acrescentr.l : Se fôsse negado o reconhecimento social aos velhacos, êles seriam em
Nova lorque, sendo cada uma de tais infrações Suficientemente séria Pª' ,- I
. ~<'. , \
número consideràvelmente menor. Alguns, apenas esconderiam com mais cuidado seus ras- ra ser passível de pena máxima de pelo menos um ano de prisão. O
tos ao longo do caminho da iniqüidade, mas outros contrariariam bastante os seus instintos número médio de infrações em idade adulta - excluídas tôdas as ínrra-
pcra renunciar às desvantagens da velhacaria em troca das de uma. vida honrada. Uma
ções cometidas antes dos dezesseís anos - era de 18 para os homens e
pessoa iJ?di~ª_~ª-çJ_ª-_.t~m_~.t~ºJ9. ~oPJ9.a.J;lega~iya._.d~ um._ apêrto de_ro~º .e o...gQJp~.~àemor~dcJ
mas inevitável de um olhar de desprêzo. de 11 para as mulheres. Mais de 64% dos homens ede 29% das mulheres
Temos velhacos ricos porque temos pessoas "respeitáveis" que não se envergonham de reconheciam sua culpa em um ou mais casos de crimes graves o que,
tomá-Ios pela mão, de serem vistas com êles, de dizer que os conhecem; consideram desleal
segundo as leis de Nova Iorque, são suficientes para privar a pessoa de
censurá-Ias; gritar quando se é roubado por êles equivaleria a testemunhar contra um cúm-
plice, todos os seus direitos de cidadão. Um caso frisante foi expresso por um
Pode-se sorrir para um canalha (a maior ps-rte de nós faz isso muitas vêzes por dia) eclesiástico, ao se referir às falsas declarações prestadas por êle a res-
se a gente não sabe que êle é um safado e não disse que êle é; mas sabendo que é, ou ten- peito de urna mercadoria que vendera: "Procurei primeiramente dizer a
do proclamado que é, sorrir para êle é ser hipócrita, apenas um simples hipócrita ou um
hipócrita adulador, de acôrdo com a posição na vida em que esteja o canalha que recebe
verdade, mas nem sempre ela dá bom resultado"· Com base em tais re-
nossos sorrisos. Há mais hipócritas simples do que hípócribas aduladores, pois há mais ve- sultados, os autores concluíram modestamente que "oII1ÍIl1ero de.a,tºs
lhacos de pouca importância do que canalhas ricos e distintos, embora' cada. um dos últimos que legalmente constituem crimes, excede de muito longe aquêle dos ofi-.
receba. menos sorrisos. O povo norte-americano será saqueado enquanto o seu caráter fôr
cialmente denunciados, O comportamento ilegal, longe de ser uma mani-
o que p.: enquanto fôr tolerante em relação aos canalhas bem sucedidos; enquanto a ínge-
nuidade norte-amerrcssna traçar uma distinção imaginária entre O caráter público de U1U festação anormal, do ponto de vista social ou psicológico, é na verdade
homem e o seu caráter parttcular, comercial ou pessoal. Em poucas palavras, o. P'?.Y9 dos Um fenômeno muito comumv.is
E§~ados .._{Jll!@.s.. s.eQ.Jouba.do, enquanto merecer ser roubado, Nenhuma lei humana pode
ne!I!.~~:ve _.eviy~:1(l,.
__ ..~lz~§~e~
PQ_~~_~~~.9_ vlría abrtgar urna "eí __ mais alta ~ mais salutar: "Haverás
~Ç2~E~.! __ 9_Ql!e_~jY~;LelLfi~_m~~ç19". ~4 do qual tirei tão extensa citação, pode ser enconrrsoo em "The Collecled Works of Am-
brose Bierce (Nova Iorque e Washington: The Neale Publishing Company, 1912), vol.
XI, 187-198, Qualquer que seja o seu valor, devo discordar do rude e injustificado jul·
14. As observações de Dickens são de SU2.S American No!es (por exemplo, na edição publí- gamento de Cargill a respeito de Bierce. Parece ser menos uma opinião do que a
cada em Boston: Books, Inc., 1940), 218, Uma análise sociológica das funções do hu- expressão de um preconceito que, na própria idéia que Bierce failia do "preconceito",
mor tendencioso e dos hurnoristas tendenciosos, que seria a contrapartida formal, embora seria apenas "urna opinião vadia sem qualquer meio visível de apoio".
Jnevlt àvelmente menor, da arrál ise psicolõgica de Preud , já. está tardando w aparecer. ,-1 15. E. H. Sutherla..nd, "White collar criminality". en. cit.; "Crime and business", Annals,
A dissertação doutoral de .rcannette 'I'a.ndy, embora não seja de caráter sociológico, American Academy of Political and Social Scicncc, 1941, 217, 112·118; "Is 'white collar
apresenta um ponto de pa.rtida: Crackcrbox Philosophcrs: Amcrioan Humor and Sat.ire crime' crime"? American SociologicaI Review 1945, 10, 132-139; Marshall B. Clinard.
(Nova Iorque: Columbia University Press, 1925). No Capítulo V de In!ellcctual America Thc Bl ack !\1arkct: A Study of White CoIlar Crime (Nova Iorque: Rinehart & CO.,
(Nova Iorque: MacmilIan, 1941), apropriadamente intitulado "The Iritcltigantsta,", Oscar 1952); Dorra.d R. Cressey, Olher People's IUoney: A Sludy in the Social Psychology ot
Cargill tece algumas sólidas observações sôbre o papel dos mestres da sátira norte- Embezz1emcnt (G1encoe: The Free Press, 1953).
-americana do século XIX; porém, isto naturalmente tem apenas um pequeno lugar em 16. Jarnes S. \\:z:Jlerstein and Clemcnt J. Wyle. "Our Iaw-abíding law-breakers", ProbatioD.
seu grande livro sôbre Ha marcha das idéias norte-americanas". O ensaio de Bierce, abril, 1947.

"~~: .."".':" .• ,.:;"" .."..:1•.•••. '.:, •.~.~


218 Robert K. Merto1~ 219
SOCiologia - Teoria e Estrutura

Porém, quaisquer que sejam as proporções diferenciais do comporta- ambiente cultural e as possibilidades oferecidas pela cultura social qUQ
mento desviado nos diversos estratos sociais, e sabemos por muitas ron- produz intensa pressão para o desvio de comportamento. O recurso a
tes que as estatísticas oficiais a respeito dos crimes mostram uniforme- ""'uais legítimos pará. "entrar no dinheiro" é limitado por uma estruü··
mente proporções maiores nos estratos inferiores, e que elas não são dig- ra de classe a qual não é inteiramente acessível, em todos os níveis, a
nas de confiança, resulta da nossa análise que. as maiores.P!e15sães para homens de boa capacidade. 19 Apesar de nossa .PJlIs.!ste1lte-idaol.ug.ia__ de
.9_ .,ǺJ:D..QQl'j;ª!!:IE?p!Q._~~l!:l1_s_,,-i~s!()_.
~f,() exerci d~il....:5.â..b.x:e
...asc:j,!p:.a.clª_s_
...ÍIlferiores . ho.p-ºIlyui.!JIj,.lÍesjguais..para. tºq.a~",20 o caminho para o êxito é relativamen-
Casos que podemos apontar nos permitem descobrir os mecanismos socio- te fechado e notavelmente difícil para os Que têm pouca instrução formal
lógicos responsáveis por essas pressões. Diversas pesquisas têm mostra- e parcos recursos. A pressão dominante conduz à atenuação da utiliza-
do que as áreas especializadas de vícios e crimes constituem uma reação ção das vias legais, mas ínefícientes, e ao crescente uso dos expedientes ile-
"normal" contra uma situação em que a Ênfase cultural sôbre o sucesso gítimos, porém mais ou menos eficientes.
pecuniário tem sido assimilada, mas onde há pouco acesso aos meios con- ..a....,Çl1ltur:ª_çlºm!.I),ª:Il,t.eJal'u:)~!gªnçilts_. il1.ço.mn\lt!yej,~, para os índíyíduos
vencionais e legítimos para que uma pessoa seja bem sucedida na vida. sltY.ª99?!la.l?.~amad.~ ipferioj."eso,a estmtura.s9C.Üil. De um lado, a êles
As oportunidades ocupacionais das pessoas destas áreas são grandernen- se pede que orientem sua conduta em direção à expectativa da grande
te confinadas ao trabalho manual e aos pequenos empregos de colarinho riqueza: - "Que cada homem seja um rei", diziam Marden, Carnegie c
branco. Dada a.eI'.1igJ,:!H.tJ;lzJKã-º
__Jl,Q]j&a.mericana.ao __trabalho .manual, Long - e do outro lado, a êles se negam, em larga medida, as oportuní-
..s()ciais,17 e
a qual se ve~yic.~.~_~e1'.~C!stl1:rI:~~Y7Ly?rrne_I!'f!!...t~_d:a.s_iJ:.s.!!!:I!:_~~l!.~ nades efetivas de assim fazer dentro das instituições vigentes. A conse-
a ausência de oportunidades realísticas para ultrapassar aquêle nível, c re- j
qüência desta inconsistência estrutural é uma grande porcentagem de
sultado tem sido uma tendência acentuada em direção ao comportamen- comportamento transviado. JL~JL~ilJJ;gto__ en.t:rg.º_sJiIl15 e .9ê.meiOS cultu-
to desviado. A situação social do trabalhador manual (não especializa- xa!lJlª-ut-ª---ª-c:ei tOilJ_.t-ºXI}?'-SELaltªlIl5!.Dtª jnst.ªy~L geyJgQ._Il, ..teI1c1~I1ciª_
crescen-
do) e o conseqüente baixo rendimento não o habilitam a competir den- . te __ª-.§.f...-ª1ingir..a:'?...metª.:,?_ç,ª!!,~gª.ºJ!.:'?_ºe_I1rest~iQ,_l}Q;t:..g.l!ªl<m~Lmej,9. Den-
tro dos padrões consagrados de honestidade, com as oportunidades de tro dêsse contexto, .AL"CaPQne_representa o triunfo da inteligência amo-
poder e de alto rendimento oferecidos pelos sindicatos do vício, da chan- ral sôbre o "fracasso" que a moral prescreve quando os canais da mobili-
tagem e do crime. 18 dade vertical são fechados ou estreitados numa sociedade que atribui al-
Para as finalidades dêste trabalho, essas situações exibem duas ca- to prêmio sôbre a afluência econômica e ascensão social para todos os
racterísticas salientes. ;J. Primeiro, os incentivos para o êxito são inculca- seus membros. 21
dos pelas normas estabelecidas da cultura eZ,.em segundo lugar, as vias Esta última qualiiicação é ele importância essencial. Ela implica em
disponíveis para o acesso a êste objetivo, são tão limitadas pela estrutu- que outros aspectos da estrutura social, além da extrema ênfase sôbre o
ra de classe, que não resta outra saída senão apelar para os desvios de sucesso pecuníárío, devem ser considerados, se quisermos entender as fon-
comportamento. É a jalta de entrosamento entre os alvos propostos pelo tes sociais do comportamento desviado. Altª ...p-ºIGept_ªgfill_º,e.GO!IlPor-
tam~l1,tQdesviado não é gerada8inm1E:)smente peJª.faJtade oportunidade
.;:.-.",:. 17. National Opinion Research Center, National Opinion on Occupatíons, abril, 1947. Esta
ou ..por. exagerada ênfase pecuniária. Uma estrutura de classes comparar
I_o pesquisa sôbre a classificação e avaliação de noventa ocupações. numa amostragem na-
cional, apresenta uma série de importantes dados empírícos. De grande significação ~ tivamente rígida, uma ordem ele castas, pedem limitar as oportunidades,
a constatação de que, apesar de uma leve tendência das pessoas a valorizarem sua pró- ~
.
muito além do ponto que hoje se observa na sociedade norte-americana .
pria ocupação e as correlctas mais alto do que as de outros grupos, há uma subsran-
~_~ concordância na avaliação dos empregos ou ocupações em todos os ambientes do
'.9.Numerosos estudos têm concluído que a pirâmide educacional funciona P(ü3 impedir
trabalho. Mais pesquisas desta espécie são necessárias a fim de cúrtografar a topo-
que uma grande proporção de jovens inquestionàvelmente hábeis mas econôrnicamente
grafia cultural das sociedades contemporâneas. (Ver o estudo comparativo do prestígio desvzmtajados obtenham uma instrução formal mais alta. Êste fato acêrca de nossa
concedido às principais ocupações em seis países industrializados: Alex Inkeles e Peter estrutura de classes tem sido observado com desalento, por exemplo, por Vannevar Bush
H. Rossí, "Natíonal comparrsons of occupational prestige", American Journal of 80-
em seu relatório ao govêrno , Science: The Endlcss Frontier. Veja-se ainda. W. L. War-
ciology, 1956, 61, 329·339). ner, R. J. Havighurst e M. B. Loeb, Who Shall Be Educated? (Nova Iorque, 1944).
18. Ver Joseph D. Lohman "The participant observer in community studies", American So-
20. O papel histórico cambiante desta ideologia é um assunto que merece ser estudado.
ciological Revíew, 1937, 2,. 880-'898 e William F. Whyte, street Comer Society (Chicago,
21. O papel do negro com relação a éste assunto faz surgir questões tão teóricas como
1943). Notem-se as conclusões de Whyte: "É difícil para o homem de Cornerville al-
cançar a escada (do sucesso), mesmo o seu primeiro degrau ... ~le é um italiano,
italianos são considerados pelas pessoas das classes superiores como os menos desejá-
e os
r práticas.

"ajustado
Jâ foi dito que grandes segmentos da população negra têm assimilado os va-
Iôres da casta dominante.
rellilisticamente"
de sucesso pecuniário e de progresso
ao "fato" de que a ascensão
social, mas se tem
social P atualmente confinada
veis dos povos imigrantes ... a sociedade promete recompensas
dinheiro e posses matertaís
de Cornerville essas recompensas
ao homem 'bem sucedido'.
só poderão ser alcançadas
atraentes em têrmos de
Para a maioria dos habitantes
pela influência das quadrl-
I quase inteiramente ao movimento dentro daquela casta. Ver Dollard, Caste and Class
in a Seuthern Town, págs. 66e segs.; Donald Young, Am-erican l\1inoriiy Peoples, 581;
Robert A. Warner, New Haven Negroes (Ne\V Haverr. 1940), 234. Ver também a subse-
lhas ("rackets") e da proteção pol itíca". (273-274)
qüente discussão neste capítulo. \

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I
220 221
Roberi K. Merton Sociologia - Teoria e Estrutura

É somente quando um sistema de valôres culturais exalta, virtualmente nossa; sociedade, do que em outras onde a estrutura de classes, rígida, é
acima de tudo o mais, certos objetivos de sucesso comuns à população associada a símbolos âe sucesso diferentes para as diversas classes.
\':
em geral, enquanto a estrutura social restringe rigorosamente ou fecha As vitimas dessa contradíçâo entre a ênfase cultural da ambição pe-
eomp:etamente o acesso aos rr.odos aprovados de alcançar êstes objeti- cuniária e os obstáculos sociais à oportunidade completa não são sempre
. vos, para uma parte considerável da mesma população, que o compor- conscientes das fontes estruturais de suas aspirações frustradas. Certa-
tamento desviado se apresenta em grande escala. Em outras palavras, mente, elas são freqüentemente conscientes de uma discrepância entre o
nossa ideologia igualitária nega implicitamente a existência de indivíduos valor pessoal e as recompensas sociais. Porém, elas não percebem, neces-
e grupos não competidores, na perseguição do sucesso pecuniário. Ao in- sàriamente, como é que isto ocorre. Aquêles Que encontram a fonte de
vés, o mesmo corpo de símbolos de sucesso é dado como se aplicando a tal fenômeno na estrutura social, podem tornar-se alienados em relação
. todos. Afirma-se que as metas transcendem as linhas de classe, não a essa estrutura e tornar-se candidatos prontos para a Adaptação V (re-
sendo limitadas por elas, mas a organização social de hoje é tal que exis- belião). Porém outros, e isto aparentemente inclui a grande maioria,
tem diferenças de classe na acessibilidade a essas metas. Neste contex- podem atribuir suas dificuldades a fontes maís místicas e menos socio-
to,. uma virtude cardeal norte-americana, a "ambição", estimula um vício lógicas. Pois, conforme o distinto classícísta e sociólogo "apesar de ~i
cardeal também norte-americano, o "comportamento desviado". mesmo", .Gilber.t .M1Jr.H!Y, tem observado em sua explicação geral, "O me-
Esta análise teórica pode auxiliar a explicar as correlações variáveis lhor terreno pari··-a'superstição é uma sociedade em que as fortunas dos
entre o crime e a pobreza. 22 A "pobreza" não é uma variável isolada homens parecem não comportar pràtícamente nenhuma relação entre seus
que opere precísaments da mesma forma, onde quer que seja encontrada; méritos e seus esforços. Uma sociedade estável e bem governada tende:
é apenas uma dentro de um complexo de variáveis sociais e culturais, mais ou menos a assegurar que o Aprendiz Virtuoso e Industrioso seja ,.- r! -:
identificávcis e interdependentes. A pobreza em si e a cqnseqüente limi- bem sucedido na vida, enquanto o Aprendiz Malvado e Preguiçoso virá f.' ... ' -t •
tação de oportunidades não bastam para produzir uma proporção alta e a fracassar. E em tal sociedade as pessoas tendem a pôr em evidência: . ,~.C
conspícua de comportamento criminoso. Mesmo a notória "pobreza no as correntes de causação, razoáveis ou visíveis. Porém, (numa socieda-,';:'
meio da opulência" não conduzirá, necessàriamente, a êste resultado. de sofrendo de anomia)... as virtudes comuns da diligência, honestida-
Porém, quando a pobreza e as desvantagens a ela associadas, em cornps- de e bondade parecem ser de pouca utilidade". 23 E em tal sociedade as
tição com os valôres aprovados para todos os membros da sociedade es- pessoas tendem a aliviar a tensão através do misticismo: os efeitos da
tão articul2.das com uma ênfase cultural do êxito pecuniário como obje- Fortuna, do Acaso, da Sorte.
tivo domina.nte, as altas proporções de comportamento criminoso são o De fato, tanto o indivíduo "bem sucedido" como o eminentemente "fra-
resultado normal. Assim, as estatísticas de, crimes, rudimentares (e não cassado", em nossa sociedade, freqüentemente atribui o resultado à "sor-
necessàríaments dignas de confiança), sugerem que a pobreza é menos te". Assim, o próspero homem de negócios, l!lJi!J..§_ª9.~I1J1ªld, declarou
altamente correlacionada com a delinqüência no sudoeste da Europa do que 95% das grandes fortunas eram "devidas à sorte". 24 E um impor-
que nos Estados Unidos. As oportunidades de vida econômica dos pobres, tante jornal de negócios num editorial explícatívo dos benefícios sociais
naquelas áreas européias, pareceriam ser ainda menos promissoras do que da grande riqueza individual, dizia que aQ:;t];>~ªQrjª,G..Qmplemen.t.a_da pela
neste país, de modo que nem a pobreza nem sua associação com oportu- sor~e.eramos f~~()~es r:~:?ponsáveis.pelas.grandes fortunas: "Quando um
nidades limitadas é suficiente para justificar as diferenças de correla- homem através de prudentes investimentos - auxiliado, conforme reco-
ções. Contudo, quando consideramos a configuração total - pobreza, nhecemos, pela boa sorte em muitos casos - acumula uns poucos mi-
oportunidar;!.es limitadas e Inculcaçâo de alvos culturais - aparece alguma lhões, nem por isso tira algo do bôlso dos outros". 25 De modo parecido,
base para explicar a mais alta correlação entre a pobreza e o crime em c trabalhador freqüentemente explica a situação econômica em têrmos de
acaso. "O trabalhador vê em seu derredor homens experimentados e
especíalízados, que não encontram trabalho. Se êle trabalha, sente-se
22. Êste esquema tmalítico pode servir para resolver algumas das inconsistências aparen-
tes na relação entre o crime e o status econômico, mencionados por I'~._A._8c9c,-,*in. 1!:le
observa, por exemplo, que "não é em tôda a parte, nem sempre, que os pobres mos-
tram maior proporção de crimes... muitos países mais pobres têm tido menos crime 23. Gilbert Murray, Fivc Stages of Grcek Rcli!(ion (Nova Iorque, 1925), 164·165. O capitulo
que países mais ricos... A mclhoría econôrnícs, da segunda metade do século XIX e do ProL Murray & respeito de "The Failure of Nerve", do qual tirei êste parágrafo,
.:». do com.êço do XX, não foi acompanhada pelo decréscimo da delinqüência". Ver seu Con- deve certamente ser classificado entre as msds civilizadas e penetrantes análises so-
\ ;y temporary Sociological Tbcorics (Nova Iorque, 1928), 560-561.Contudo, o ponto erucíal ciológicas de 110SS0 tempo.
é de que a baixa situação econômica, exerce um papel dinâmico diferente, em estrutu- 24. Ver '" citação de uma entrevista em Gustavus Meyers, nislory of the Grcat Aro.,.
ras sociais e culturais diferentes, tal como é estabelecido no texto. Portanto, .D-ªº._.~~. rícan Fortunes (Nova Iorque, 1937), 706.
.~ex~ .. ~p'~!a! ...~,?J:~__
correlação l~.~ar _entr~ o crime e a pobreza. 25. Naiion's Busíness, VoJ. 27, N." 9, pága. &-9.

..- -. -.---- •..... -----~--- ••.-. -_ .•.- --- .•• " .....•. -.•.• , .•..• __ .~ __ .•. , __"._~'.,~._~ •. c.•, JIh..
222
Robert K. M erton Sociologia - Teoria e Estrutura 223
com sorte.
Se êle está sem trabalho, considera-se a vitima de má sorte.
Estabelece ête pouca relação entre o valor e as conseqüências".26 Entre aquêles que não aplicam a doutrina da sorte à separação entre [
Porém, estas referências à atuação do acaso e da sorte servem a fun- o mérito, os esforços e as recompensas, pode-se desenvolver uma atitude
:'.:'
i .\_. ções distintas, conforme elas sejam feitas por aquêles que as atingiram, indívidualística e cínica para cem a estrutura social, melhor exemplífica-
ou por aquêles que não atingiram as metas valorizadas pelo ambiente da no clichê cultural de que "o que importa não é o que você conhece, mas
;i".

, , cultural. Para os bem sucedidos, isso constitui em têrmos psicológicos, quem você conhece".
, ..uma desarmante expressão de modéstia. Com efeito, está longe de qual- Em sociedades como a nossa, a grande ênfase cultural sôbre o sucesso
I, . \, quer aparência de presunção dizer que alguém teve sorte, em vez de di- pecuniárío para todos, e uma estrutura social que indevidamente limita.
i· zer que mereceu inteiramente sua própria boa fortuna. Em têrmos socío- o recurso prático aos meios aprovados, estabelecem para muitos uma ten-
I"
'1 ;-. .'. .: lógicos, a doutrina da sorte, tal como é exposta pelos bem sucedidos, ser- são rumo as práticas inovativas, em contraste com as normas institucio-
/. ve à dupla função de ..~..pltçacª- fregjj~.ntf'l_..dÜ:;çr_e.pápctaentre.o.mérito nais. Porém, esta forma de adaptação presupõe que os indivíduos te-
'e a .:reÇ9m,PE2I1.8a, .Jl·9...mesmo tempn , que. conserva imune da critica uma nham sido imperfeitamente socializados, de modo que abandonam os
estrtlt.url!. l:?ºGial que permite que tal discrepância se torne freqüente. meios ínstítncíonais, enquanto retêm a aspiração ao êxito. Por outro lado,
Pois se o sucesso fôr primàriamente matéria de sorte, se êíe existe sim- entre aquêles que têm assimilado completamente os valôres ínstítucíonaü-
plesmente na cega natureza das coisas, se êle sopra onde quiser, e não zados, é mais provável que uma situação comparável conduza a uma rea-
se pode prever de onde vem e para onde vai, então certamente êle será ção alternativa, na qual o alvo é abandonado, persistindo, porém, a con-
incontrolável e ocorrera na mesma medida qualquer que seja a esiru- formidade aos costumes. Ésse tipo de reação requer exame ulterior mais
tura social. definido.
Para os qus não são bem sucedidos, e particularmente para aquêles
entre êstes, que encontram pouca recompensa de seus méritos e seu esfôr-
ço, a doutrina da sorte serve à função psicológica de as habilitar a pre- III. RITUALISMO
servar sua auto-estima, face ao fracasso. Também pode implicar a dis-
função qUe consiste em reprimir a motivação para um esfôrço persisten- o tipo ritualista de adaptação pode ser prontamente identificado.
te.27 Sociolàgicamente, como é ensinado por_~ª,k~.~28, a doutrina pode re- Implica no abandono ou na redução dos elevados alvos culturais do gran-
fletir falta de compreensão do funcionamentõ 'do sistema econômlco so- de sucesso pecuniário e da rápida mobilidade social, até o ponto em que:
cial, e pode ser disfuncional na medida em que elimina a explicação ra- possam ser satisfeitas as aspirações de cada um. Porém, embora se re-
cional de trabalhar a favor das mudanças estruturais, proporcionando jeite a obrigação cultural de tentar "progredir na vida", embora se tracem
maior justiça nas oportunidades e nas recompensas. os próprios horizontes, quase compulsivamente continuam a ser seguidas
Esta. oríentação em direção à sorte e aos riscos, acentuada pela ten- as normas institucionais.
são de aspirações fr.ustradas, pode ajudar a explicar o acentuado ínterês- Seria um jôgo de palavras terminológico perguntar se isto constitui
se pelos jogos de azar em certos estados da sociedade, jogos êstes proibi- um comportamento divergente. Desde que a adaptação, com efeito, é
dos peja lei ou apenas tolerados, mas não reconhecidos ou estimuladosas uma decisão interna, e desde que o comportamento claro é instítucio-
nalmente permitido, embora não seja culturalmente preferido, nãCL.!Lg~·
26. E. W. Bakke, The Unemployed Man (Nova Iorque, 1934), pág. 14. (Os grifos são meus). I-ªlI!~~l1tJ!_e.ºD.§!g~rado.cºmo_ representativo de um m:oP.1em,a social. As
Bakke faz insinuação em relação às fontes estruturais que sugerem uma crença na
sorte entre os trabalhadores. I'Há certa dose de desârrirno na situação em que um ho-
pessoas íntimas dos indivíduos que estejam fazendo esta espécie de adap-
mem sabe que a maior parte de sua boa ou má fortuna está fora de seu contrõte e de- tação podem dar opinião em têrmos da ênfase cultural predominante,
pende do fator sorte". (O grifo é meu). Na medida em que êle é forçado a se acorno- e podem "ter pena dêles", e podem, no caso individual, sentir que "o
dar a decisões da gerência ocasionalmente imprevisíveis, o trabalhador está sujeito a
velho Jonesy está certamente em decadência". Quer isto seja ou não des-
inseguranças e ansiedades no seu trabalho: outra "semente" para a crença no destino,
fato, acaso. Seria Interessante saber se tais crenças diminuem quando os sindicatos crito como um comportamento desviado, claramente representa um aras-
operários reduzem a probabilidade de que seu destino ocupacional esteja fora de suas t.amento do modêlo cultural no qual os homens são obrigados a se esfor-
próprias mãos.
çarem ativamente, sendo preferível que o façam através dos procedimentos
27.
Em seu ponto extremo, pode estimular a resignação e a atividade rotineira (Adapta-
ção nD ou a passividade fatalista (Adaptação IV), de que nos ocuparemos adísmte.
institucionalizados, para caminharem para á frente e para cima, na hierar-
28. Ver Bakke, op , cit., 14, onde êle sugere que o "trabalhador sabe menos acêrca dos pro- quia social.
cessas que lhe permitam ser bem sucedido ou não ter nenhuma probabilidade de êxito,
do que os homens de negócio ou das profissões liberais. Portanto, há mais C:ioSOS em
que os acontecimentos parecem ser influenciados pela boa ou má sorte". go, 1935), 123~125, os quaís comentam o grande ínterésse pelo "jõgo de números- entre os
29. Cl., R. A. Warner, New IIaven Negroes e Harold F. Gosnell, .Negro Politicians (Ohica- negros norte-amertcanos de baixa situação econômica. (N. do trad.: "Number/s game " é
uma loteria clandestina, um tanto semelhante ao "jôgo do bicho" brasileiro).

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Socio/.o(!;n - J'eO'-;fl. e E!>trutura 225
224 Robert IL M erton

Seria de esperar que êsse tipo de adaptação fôsse bastante freqüente i estimula a probabilidade da Adaptação IJI. O severo treinamento faz

numa sociedade que faz a posição social de cada um, largamente depen- i~ com que muitos indivíduos carreguem mais tarde pesada carga de ansie-
dade. Os moldes de socialização. da classe média inferior estimulam as-
dente das próprias realizações. Pois, conforme tem sido observado com
muita freqüência,30 esta incessante luta competitiva produz agudo esta-
t :~I!!.aJ~r?Jl!.ia estrutura de.c.~rlÍtt)~.rnaisIJre.<1i'!IJOstO. .8111 . gtreção.ao ri.

do de ansiedade. Um dos recursos para suavizar estas ansiedades é bai- i


':J
tgalil'.!!.!Q,34 e é nesse estado, por conseguinte, que ocorre com mais fre-
qüência o molde adaptativo lH.35
xar o próprio nível de aspiração permanente. O mêdo produz a inação, ~l.
..
· , ou mais exatamente, a ação rotínízada. 31
. ... .9_E!nd~9me .cl9.U,tt!ªlista soeíal tanto é famili9,r como instrutivo. Sua
~:.
~;
ir
Devemos, porém, salientar novamente, tal como no princípio dêste
capítulo, qUE' estamos examinando aqui modos de·-'adaptação a contradi-
li
filosofia implícita de vida encontra expressão numa série de clichês cul- ~;, 34, Ver, por exemplo, Allison Davis e John Dollard, Cbildren of Bondage (Washington,
turais: "Não estou pondo o meu pescoço para fora", "vou jogando na 1940), Capo 12 ("Child Training and Class") o quaJ, embora trate dos moldes de socía-
certa", "estou satisfeito com o que já consegui", "não aspire alto e você (i liza.ção entre os negros da. classe inferior e média inferior no Extremo Sul dos Est~dos
Unidos, parece ser aplicável, com poucas modificações, à população branca. A respeito.
'(
não ficará desapontado". O tema que se entremeia nessas atitudes é que
~[ ver ainda M. C. Erickson, f'Child-rearing and social status", Amerrcan Jonrnal Df Secio-
as altas ambições convidam à frustração e ao perigo, ao passo- que as 11 Iogv, 1946, 53, 190·192; Allison Da-vis e R. J. Havighurst, "Social class and color dlf'Ie-
aspirações mais baixas produzem satisfação e segurança. É uma reação {I rences in chüd-rearíng", American Sociological Review, 1946, 11, 698·710: ", _.0 signi ..
ficado básico da classe social para os estudantes do desenvolvimento humano é que ele
a uma situação que aparece como ameaçadora .8 excita a desconfíança-
define e sistematiza diferentes ambientes de aprendtaadc para. crianças de classes dtte-
É a atitude implícita entre trabalhadores que regulam cuidadosamente rentes". "Genera.lizando a partir da evídêncía apresentada pelas tabelas, diríamos que
sua produção a uma. quota constante, numa organização na qual tem oca- as crianças da classe média (os autores não distinguem entre os estratos de média baixa
sião de temer que "serão observados" pelo pessoal da gerência e "alguma e média alta) são sujeitos mais cedo e mais insistentemente às influências que fazem
uma criança ser ordeira, conscienciosa, responsável e calma. No decurso da sua edu-
coisa acontecerá" se sua produção subir e descer. 32 É a perspectiva do cação, as crianças d~. classe média provàvelmente sofrem mais frustrações em seus
empregado assustado, do burocrata zelosamente conformista, na gaiola da impulsos",
caixa da ernprêsa bancária particular ou no escritório da emprêsa de 35, Esta hipótese ainda aguarda comprovação ernpírtca. ·Estudos iniciais nesta direção
têm sido feitos com as experiências de "nível de aspiração", as quaís exploram as deter-
utilidade pública. 33 Em poucas ipalavras, é o modo de adaptação para
minantes de formação das metas e de modificações nas a.tividades especificas e expe-
procurar individualmente uma fuga particular dos perigos e frustrações rimenta.lmente planejadas. Há, todavia, um obstáculo principal, ainda não sobrepu-
que parecem a êles inerentes r.a competição pela obtenção dos objetivos jado, parz, deduzir inferéncias da situação de laboratório. com seu relativamente leve au-
to-envolvímento nos labirintos fortuitos das taretas de lápis e papel, tomadas de posição,
principais, pelo abandono de tais objetivos, agarrando-se o quanto mais
problemas aritméticos etc., que sejam aplicáveis à forte -ínversão afetiva nas metas de
estreitamente às rotinas seguras e às normas ínstitucionaís . êxito, nzs rotinas da vida diária. Nem tais experiências, com suas formações de grupos
Se esperássemos que os norte-americanos das classes mais baixas exi- ad hoc, têm sido capa.zes de reproduzir as profundas pressões sociais que dominam ria
bissem a Adaptação H - "inovação" - às frustações cuja aderência re- vida diária, (Qual experiência de laboratório, por exemplo, poderia reproduzir o Ia-
rnentoso resmungo de uma moderna Xantipa: "O ruim com você, é que você não tem
sulta da ênfase predominante das grandes metas culturais e do fato das nenhuma ambição; um homem de verdade sa.rrs, de casa. e faria coisas"?) Entre os es·
:pequenas oportunidades sociais, deveríamos esperar que os americanos da tudos com relação definida, embora limitada, com êste assunto, veja-se especialmente
classe média inferior estivessem pesadamente representados entre os que R. GOlild, "Some sociological determinants of goaI strtvmgs", Journal or Social Psyoh o-
se incluem na Adaptação lU, "rítualísrno". Pois é na classe média infe- IOgJ', 1941, 13, 461·473; L. Festinger, "Wish, expectation and group standards as f"",to!"s

rior que os pais tipicamente exercem pressão sôbre as crianças a fim de ,I influencing levei of aspiration",
184.200.
JournaI of Abnormal and Social Psyohofcgy, 1942, 37,
Um resumo das pesquisas é 2,presentado por Lewin e outros "Levei ot Aspira-
se pautarem pelos mandatos morais da sociedade, e na qual a escalada ;:1·' tion", em J. McV. Hunt , ed., Personality and lhe Behavinr Disorders (Nova Iorque,
social para cima apresenta menos possibilidade de encontrar sucesso do
que entre a classe média superior. O forte disciplinamento
conformidade com os costumes reduz a probabilidade
a favor da
da Adaptação II e
lj 1944), I, Capo 10. ed ,
O conceito de "êxito" como proporção
sístemàticamente
entre a aspiração
nas experiências de nível de aspiração.
e a realização perseguida
tem, evidentemente, uma. longa.
história. Gilbert Murray (op. cit., 138·139) salienta a predomináncia desta concepção
entre oS pensadores da Grécia do século IV. E em Sartor Resartus, Carlyle observa que
30. Ver, por exemplo, H. S. Sullivan, "Modem conceptions of psychiatry", Psychiatry, 1940, a Hfelic!dade" (satisfação) pode ser representada por uma fração em Que o numerador
3-111·112; Margaret Mead, And Keep Your Powder Dry, (Nova Iorque, 1942), Capo VII; representa as reaüz a.côes. e o denominador. a aspiração. Algo muito parecido, é apre-
Merton , Fiske e Curtis, l\rJass Persuasion, 59-60. '.I: sentado por William James (The Principies of Psychology [Nova torque, 1902).
31. P. Janet, "The fear of action", Journal of Abnormal Psycb olo g-y, 1921, 16, 150·160, e o I, 310). Ver também F. L. Wells, OJl. cil.,. ·879, c P. A. Sorokin, Social and Cultural
extraordinário estudo de F. L. Wells, "Social maladjustments: s-dapt.íve regression", ..:j Dynamics (Nova Iorquc, 1937) 111, lG1·164. A questão crítica é saber se esta mtrospecão
op, cít. o qual trata de perto <> tipo de adaptação aqui examinado. i familiar pode ser sujeita a rigorosa cxpertmentacâo na qual a situação preparada [10
32. F. J. Roethlisberger e W. J. Dickson, l\Ianagemenl and the Worker, Capo 18 e pá g .. laboratório reproduza. adequadamente os aspectos satíentes da situação de vida real, ou
531 e segs.: e sôbre o tema mais geral, as anotações tipIcamente perspicazes de Grlber t se a observação bem disciplinada das rotinas do comportamento na vida real, dernons-
Murray, op, cit., 138·139. A trarão ser o método de inquirição mais produtivo.
33. Ver os três capitulas seguintes.
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226 Robert K. M erton SOCiologia - Teoria e Estrutura 227

de caráter ou de personalidade. Os índivíduos apanhados nestas contra- mum de valôres, podem ser incluídos como membros da socieâaâe (dis-
ções entre a estrutura cultural e a social: não estamos tocalízandc tipos tinguindo-se da população) sõmente num sentido fictício.
dições podem mover-se de um tipo de adaptação para outro, e efetiva- Pertencem a esta categoria algumas das atividades adaptativas dos _
mente o fazem. Assim, se pode conjeturar que alguns rttualistas, con- ~ psicóticos, artistas, párias, proscritos, errantes, mendigos, bêbados crôní- \::J,
formando-se meticulosamente com as regras ínstítucíonaís, estão de tal eos e viciados em drogas. ~ Êles renunciaram aos objetivos culturalmen-
modo embebidos nos regulamentos que se tornam "virtuoses" da burocra- te prescritos e o seu comportamento não se ajusta às normas ínstítucío-
cia e que se submetem de modo tão extremo porque estão sujeitos à ação nais. Isto não quer dizer que em alguns casos a fonte de seu modo de
do sentimento de culpa engendrada por anterior inconformidade com as adaptação não seja a própria estrutura social que êles efetivamente re-
regras (isto é, Adaptação Ll ). E a passagem ocasional da adaptação ri- pudiaram, nem que sua própria existência dentro de uma área não cons-
tualístíca para espécies impressionantes de adaptação ilícita é bem docu- titua um problema para os membros da sociedade.
mentada em histórias de casos clínicos e freqüentemente estabelecem te- if Do ponto de vista das suas fontes na estrutura social, êste modo de
mas de ficção cheios de introspecção .. Não é raro que a períodos de extre- adaptação ocorre com maior probabilidade quando os alvos culturais e as
ma submissão se sigam: explosões de rebeldia.36 Porém, embora os meca- práticas institucionais foram ambos inteiramente assimilados pelo indi-
nismos psíccdínâmícos dêsse tipo de adaptação tenham sido bastante víduo e embebidos de afeto e de altos valôres, sem que os caminhos íns-
bem identificados e articulados com moldes de disciplina e socialização titucicnais acessívos conduzam ao êxito. Daí resulta um duplo conflito:
na família, ainda é necessáría muita pesquisa sociológica para explicar a obrigação moral assimilada, de adotar os meios institucionais, confli-
porque êsses moldes são presumivelmente mais freqüentes em certos es- ta com as pressões para recorrer a meios ilícitos (os quais podem atin-
tratos e grupos sociais do que em outros. Nossa própria discussão não gir o alvo) e o indivíduo não pode utilizar meios que sejam ao mesmo
fêz mais que erigir uma armação analítica para a pesquisa sociológica fo- tempo legítimos e eficientes. O sistema competitivo é mantido, mas o
calizada sôbre êste problema. indivíduo frustrado e que encontra empecilhos que não pode sobrepujar,
é excluído do sistema. _º
_d~rrotismo, o.gtlietis~ng e a .res.~gnação_são ma-
IV. RETRAIMENTO níf~s.t~_~()s__
()!!l__
l?:ec.~.nismo.s9E)._
fu.gll..que .p()steri_()I'll!.ente.0 Ievam a "fu-
Assim como a Adaptação 1 (confonnidade) permanece como mais gir".9-()srequisitos da sociedade. É assim um expediente que resulta do

freqüente, !1 Adaptação IV (rejeição dos objetivos culturais e meios ínsti- fracasso continuado em aproximar-se da meta por meíos legítimos, e da
tuc.i{)l!:;ti!?Lçprovàye!IIl~!1te...a,IIlenos comum. As pessoas que se adap- mcapacídadc em usar a rota' ilegítima devido às proibições assimiladas; e
tam (ou mal se adaptam) desta maneira estão, para se falar estritamente este processo ocorre quando ainda não se deu a renúncia à concepção
na sociedade, mas não são da sociedade. Sociolàgicamente, t~i::j_p~1'ts_oas
. do valor supremo atribuído ao atingimento do êxito. O conflito é resol-
constitu_emº.~ ver:ciadf!r:()1!_E)str~mhos.Não compartilhando da escala co- vído, abandonando-se ambos os elementos conflitantes: os fins e os meios.
A fuga é completa, o conflito é eliminado e o indivíduo é assocializado.
16. Em sua novela, Tlle Bitter Box (Nova Iorque, 1946) Eleanor Clark retratou êste procer- Na vida pública e formal, êsse tipo de comportamento desviado é
so com grande sensibilidade. A discussão feita por Erich F'romrn, Escape from Freedom
(Nova Iorque, 1941), 185·206, pode ser citada, sem implicar aceitação de seu conceito
mais vigorosamente condenado pelos representantes convencionais da so-
de "espontaneidade" e lide tendência inerente do homem em direção ao autodesenvolvi· ciedade. Em contraste com o conformista que mantém funcionando as
mento". Um exemplo de sólida formulação sociológica: "Enquanto admitimos... que
( rodas da sociedade, êsse tipo de desviado representa uma responsabilida-
o caráter anal, como típico da classe média inferior européia é causado por certas prí-
oe improdutiva; em contraste com o inovador que, pelo menos é "sabi-
meiras experiências ligadas com a defecação, mal temos dados que nos levem a enten-
der porque urna classe específica devesse ter um caráter anal. Contudo, se entendemos do" e se esforça ativamente, êste não dá valor objetivo de sucesso na
isto como uma forma de relacionamento com outros, enraizada na estrutura. de cará- vida que a cultura conceítua tão altamente; em contraste com o ritualis-
ter e resultando de experiências com o mundo externo, temos uma chave para enten- ta que se conforma pelo menos com os costumes, êle presta. escassa aten-
der porque dado o modo de vida da classe média inferior, sua estreiteza" ísolamento
e hostilidade, foworeceu o desenvolvimento desta espécie de estrutura de caráter". (293-
ção às práticas institucionais.
294). Exemplo de formulação derivada de uma espécie de anarquísmo benevolente de
última hora, aqui julgado como dúbio: " ... existem também certas qualidades psicoló-
gicas inerentes ao homem que necessítam ser satisfeitas _. _ A mais importante parece ~. Obviamente, esta afirmação é elíptica. 1!:stes indivíduos podem reter alguma. orienta-
ser a tendência a crescer, a desenvolver e realizar potencialtdades que o homem tem ção dos valôres de seus próprios agrupamentos dentro da socíedade maior, ou ocasío-
adquirido no curso da História - como, por exemplo, a faculdade de pensamento cria- naJ.mente, dos valôres da própria sociedade convencional. Em outras .palavras, êles po-
dor e critico ... Também parece que esta tendência geral para crescer - a qual é o dem mudar para outros modos de adaptação. Porém, a Adaptação IV pode ser identi-
equivalente psicológico da tendência biológica íd.mttca - resulta em tendências esne- ficada fàcilmente. Nels Anderson relata o comportamento e as atitudes do vagabundo,
cíficas, como o desejo de liberdade e o ódio contra a opressão. uma vez que a Iíberdada e tal relato pode, por exemplo, ser prontamente refundido em têrmos de nosso esque-
é a condição fundamental para qualquer crescimento". (287-288). ma ••.nalítíco. Ver The Bobo (Chicago, 1923), 93-98, et passim.

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228 Robert K. Merton Sociologia - Teoria e Estrutura 229

Nem sequer a sociedade aceita indiferentemente êsses repúdios de


dade, também têm poucas das frustrações que esperam aquêles que con-
seus valôres, Assím agindo admitiria dúvidas quanto a tais valôres.
tinuam a buscar essas recompensas. Além disso, te.Ilr.es.enia_um..modo
Aquêles que abandonaram a busca do sucesso são implacàvelmente per-
- seguidos até seus esconderijos por uma sociedade que insiste em ter todos .. d~._ad.::l:pJ.~~o.~ais p.!!!"~i~~!~r._.qu_El_~Q!~J~~g.
Embora as pessoas que exí-
bem êste comportamento desviado possam gravitar em direção a centros
os seus membros orientados em direção aos esforços em adquirir o su-
onde entrem em contato com outros vagabundos e embora possam parti-
cesso. Assim, no coração dos quarteirões de Chicago, em que se reúnem
lhar da subcultura dêsses grupos divergentes, suas adaptações são gran-
os vagabundos. estão as prateleiras das livrarias recheadas com as mer-
demente particulares e isoladas em vez de serem unirícadas sob a égide
cadorias destinadas a revi talizar aspirações mortas.
de um nôvo código cultural. Êsse tipo de adaptação coletiva ainda está
A "Livraria da Costa do Ouro" fica no porão de uma velha residência, construída em para ser estudado.
recuo em relação à rua, e agora apertada entre duas quadras de prédios de escritórios. O
espaço da frente é cheio de barracas, cartazes berrantes e placares. ;;
~sses cartazes anunciam livros que atraem a ~tenção dos desprovidos de recursos. Um V. REBELIÃO
dêles diz: " ... Homens aos milhares passam por aqui diàriamente, porém a maioria dêles
não é bem sucedida. rmancetrsanente. Nunca estão mais que dois passos à frente do co- Esta adaptação conduz os homens que estão fora da estrutura social
brador de aluguel. Em vez disso êles deviam ser mais audazes e ousados". "Indo à frente circundante a encarar e procurar trazer à luz uma estrutura social nova,
do jôgo", antes que a velhice venha deftnhá-los e atírá-los ao monte de refugos dos nau-
frágios humanos. Se você quer escapar dês te mau destino - o destino da vasta maíorla
isto é, profundamente modificada. Ela pressupõe o afastamento dos ob-
dos homens, entre e compre um exemplar do The Law of Financial Sucesso Êle meterá aí- jetivos dominantes, e dos padrões vigentes, os quais vêm a ser conside-
gumas idéias novas em sua cabeça, e o colocará no caminho do sucesso. 35 centavos. rados como puramente arbitrários. E o arbitrário é precisamente aqui-
Sempre há homens rtans.ndo em roda das barracas. Mas raramente compram. Para o
lo que nem pode exigir sujeição, nem possui legitimidade, pois poderia
vagabundo, 38 c. sucesso custa caro mesmo a trinta e cinco centavos.
muito bem ser de outra maneira. Em nossa sociedade, os movimentos
Mas. se êste, desviado é condenado na vida. real, pocle ..transformar-se organizados para a rebelião, aparentemente, almejam introduzir uma. es-
..na, vida.. da fantasia.
em_!Q!J.Je..cte._s>ltisfliÇão Assim,. Kardiner observou trutura social na qual os padrões culturais de êxito seriam radicalmente
que tais figuras do folclore contemporâneo e da cultura popular erguem modificados e na qual se adotariam medidas para uma correspondência
"a moral e a auto-estima pelo espetáculo do homem que rejeita as idéias mais estreita entre o mérito, o esfôrço e a recompensa.
correntes e expressa seu desdém por elas". No cinema, o protótipo é, Antes de examinar, porém, a "rebelião" como um modo de adaptação
evidentemente, o "vagabundo" de Charlie Chaplin ("Carlitos"). devemos dtstínguí-Ia de um tipo superficialmente similar, mas essencial-
É êle o joâo-nirrguém e está muito consciente de sua própria insignificância. Êle É'- sem- mente diferente, o ressentimento. Introduzido num sentido técnico es-
pre o alvo de zombaria de um mundo louco e desconcertante, no qual êle não tem lugar e o conceito de ressentimento foi adotado e desenvol-
pecial, POr..~'lJ()t~lioch!'!+.
do qual constantemente roge para dentro de uma atitude satisfeita de vagabundagem. flle
está livre dos conflitos porque abandonou a busca da segurança e do prestíglo, e estã reslg- vído sociolàgicamente por Max.Jiçh!ller. 40 Êsse sentimento complexo tem
nado à falta de qualquer pretensão de virtude ou de distinção. (Retrato precíso do caráter três elementos entrelaçados. 'i Primeiro, sentimentos difusos de ódio, ínve-
da Adaptação IV). Sempre se envolve no mundo por acidente. Ali êle encontra maldade ja e hostilidade;: segundo, um senso de impotência para expressar tais
e agressão contra os fracos e incapazes, e contra isso não pode reagir, No entanto, sem-
sentimentos, ativamente, contra a pessoa ou estrato social que os evoque;
pre, apesar de si mesmo. toma-se o campeão dos injustiçados e dos oprimidos, não pela vir-
rude de sue grande habilidade de organização, mas por fôrça da simples e tõsca esperteza o terceiro, a consciência contínua desta hostílidade ímpotente.u O pon-
pela qual êle procura a fraqueza do ofensor. Êle sempre permanece humilde, pobre e ísola- ,
f'
to essencial cue distingue o ressentimento da rebelião é que o primeiro
do, mas desdenhoso do incompreensível mundo e de seus valõres. Portanto, êle representa não envolve uma genuína mudança de valôres. O ressentimento implica
o personagem do nosso tempo, que está perplexo ante o dilema de ou ser esmagado na luta
a fim de alcançar as metas do sucesso e do poder (êle o alcança apenas uma vez, no rnme 40. Max scheíer. L'hommt. du resentimcnt (Paris, sem data). Éste ensaio apareceu primei.
Em Busca do Ouro) ou de sucumbir fugindo das mesmas numa. resignação sem esperança.
ramente em 1912; revisto e aumentado, foi incluído na obra de scbeer, Abhandlungen nnd
O vagabundo de Carlitos representa um grande alívio, pois exulta em sua habilidade de ser
Aufsatze, aparecendo depois em Vom Umsturz der Werte (\919), o. últ mo texto rol
mais esperto que as fôrças perniciosas alinhadas contra, si e proporciona a cada homem fi
use.do para a tradução francesa. Teve considerável influência em varados c.rculos in-
satisfação de sentir que a derradeira fuga dos objetivos sociais, rumo à solidão, é um ato
telectuais. Para uma excelente e bem equilibrada discussão "o ensa'o de Scheler, que
de escolha e não um sintoma de SUEI derrota. Mickey Mouse é uma continuação da saga
indica algumas de suas inclinações e preconceitos, os aspectos em que êle prerígurou
de Chaplin. 39
os conceitos nazistas, suas -crtentações antídemocrátícas e sobretudo suas íntuíçõea
:Il:ste quarto modo de adaptação é, pois, o dos deserdados sociais, os ocas'onalmenta brilhantes. Ver V. J. McGill, "Scheler's theory of sympathy and love", -rn
Philosophy and Phenomenologlcal Research, 1942, 2, 273·291. . Outro rel sto critico que
quaís, se não têm nenhuma das recompensas proporcionadas pela socie-
analisa corretamente a visão de Scheler de que a estrutura social desempenha apenas
um papel secundário no ressentimento, aparece em Svend RE'l1ulf, Moral Inãígnatron
38. H. W. Zorbaugh, The Gold Coast and the Slum (Chicago, 1929), 108.
a nd l\liddle·Class Psycbology: A Soeiological Stndy (Copenhague, 1938), 199.204.
39. Abram Kardiner, The Psychological Frontiers of Soclety (Nova Iorque, 1945), 369·370. (OS
41. scneer, op. cit., 55·56. Nenhuma palavra inglêsa reproduz o complexo de elementos
grifos são nossos>. Las fronteras psicológicas de Ia sociedad (México: F. de C. E., 1955).
contidos na palavra ressentiment; "SU<laproximação maior em fulemão seria GroIl.
230 Sociologia - Teoria e Estrutura 231
Robert K. Merton

tílidade entre aquêles do seu grupo original, pois êle não só lança dúvi-
uma atitude "uvas verdes" que simplesmente afirma que os objetivos de-
das sôbre os valôres, como o faz o grupo rebelde, como também êle sígra-
sejados, mas não atingíveis, na verdade não encarnam 0& valôres apre-
fica que o grupo conservador tem sua unidade quebrada.44 No entanto,
ciados: - afinal, a rapôsa da fábula não diz que renuncia ao gôsto pelas
. uvas; diz apenas que precisamente aquelas uvas não estão maduras. Pe-
,. como tem sido observado com bastante freqüência, os organizadores dos
ressentidos e dos rebeldes em grupos revolucionários, são tipicamente
lo contrário a rebelião envolve uma genuina transvaloração, em que a
membros de uma classe em ascensão em vez de provirem dos estratos
experiência direta ou vicátia-·(la-frustraçã~-con-duz --àtõtai--deniinéi·a: -dos
.~~liJ_r_c:.~anteI:i~!~~~i~~-~preciados'-·A rapôsa-rebelde·· snnpiesmente -renun-
mais deprimidos .
cíaría ao gôsto geral pelas uvas maduras. No ressentimento, a gente con- TENDÊNCIA À ANOMIA
dena o que secretamente ambiciona; na rebelião a gente condena a pró-
A estrutura social que temos examinado produz uma tendência à ano-
pria ambição. Mas, embora as duas coisas sejam distintas, a rebelião
i
mia e ao comportamento divergente. A pressão de tal ordem social
organizada pode movimentar um vasto reservatório dos que acumulam
visa a que o indivíduo "faça melhor" que os competidores. Enquanto os
ressentimento, e de descontentes, à medida que se tornam agudas as des-
sentimentos que apóiam êste sistema competitivo estão distribuídos por
locações institucionais.
tôda a extensão das atividades, e não estão confinados ao resultado fi-
Quando o sistema ínstítucíonal é considerado como a barreira à sa-
nal do "êxito", a escolha dos meios permanecerá principalmente dentro do
tisfação de objetivos legítimízados, está preparado o palco para a rebe-
âmbito do contrôle ínstítucíonal. Contudo, quando a ênfase cultural mu-
lião como reação adaptativa. Para se passar à ação política organizada.
da da satisfação provinda da própria competição para a preocupação ex-
não somente deverá ser repudiada a lealdade à estrutura social predomi-
clusiva com o resultado final, a tensão resultante favorece a ruptura
nante, como também deverá ser transferida a novos grupos possuídos por
da estrutura reguladora. Com esta atenuação' dos contrôles institucío-
um nôvo mito. 42 A função dual do mito é localizar a fonte de frustra-
nais ocorre uma aproximação à situação que os filósofos utilitários con-
ções em larga escala, na estrutura social, e delinear uma estrutura que,
sideram errôneamente típica da sociedade, situação esta em que os cál-
presumlvelrr.ente, já não provocará a frustração dos indivíduos merecedo-
culos de vantagem pessoal e temor ao castigo são os únicos elementos
res. É um mapa para a ação. Neste contexto, as funções do contra-
reguladores.
-mito dos conservadores - brevemente esboçada numa seção anterior des-
Esta tensão rumo à anomia não opera uniformemente em todos os
te capítulo - tornam-se ainda mais claras: qualquer que seja a fonte da
setores da sociedade. Algum esfôrço tem sido feito na presente análise
frustração da massa, ela não será encontrada na estrutura básica da so-
para sugerir quais os estratos mais vulneráveis às pressões que favore-
ciedade. O mito conservador pode assim assegurar que essas frustra-
cem o comportamento transviado, e para estabelecer alguns dos mecanis-
ções estão na natureza das coisas e ocorreriam em qualquer sistema so-
mos que funcionam para produzir tais pressões. Com o propósito de sim-
cial: "O desemprêgo em massa, periódico, e as depressões dos negócios,
plificar o problema, SLb()rrJ._~;l{tt()..fiI1allCf;I!:Q
t()i tº.m~c:locºrno.oprincipal
não podem ser eliminados por atos de legislação; é como uma pessoa que
objetivo cul..t.1}Ial,embora haja, evidentemente, objetivos outros no repo-
se sente bem hoje, e mal no dia seguinte".43 Ou, se não se adota a teoria
sítõrío dos valôres comuns. Por exemplo, os campos da realízação inte-
da inevitabilidade. então se apega à doutrina do ajustamento gradual e
lectual e artística proporcionam tipos de carreira que podem não trazer
superficial. "Umas poucas mudanças aqui e ali, e teremos as coisas iun·· ,. grandes resultados pecuníáríos. Na medida em que a estrutura cultu-
cionando tão suavemente quanto possível". Ou, talvez, apregoa a doutrina
ral concede prestígio a estas profissões e a estrutura social permite acesso
que transfere a culpa da estrutura social para o indivíduo que "fracas-
a elas, o sistema permanece mais ou menos estabilizado. Os desvios po-
sa", já que "realmente, neste país, todo indivíduo consegue atingir o grau
tenciais ainda podem seguir :1 linha geral dêsses conjuntos auxiliares de
de prosperidade que almeja".
valôres ,
Os mitos da rebelião e do conservadorismo ,ambos trabalham na dire-
ção -de·-üm;;ii;~nopÓli-;"-dª'iI.illtgiii~ç~o~,,~piºçlt!;n~9de.firti.r· a situação em Mas persistem as tendências centrais em direção à anomia; para es-
tas é que o esquema analítico aqui estabelecido chama a atenção.
-tê~m~~- tais que encaminhem o frustrado em direção. à AdaptMii9_V, ou
ü- ãiastem-·dela .-i--~-~iii:i·;\·-dettid;-~- re;eg;d~·· que, e~bora bem colocado
n~id;':-re:;;ll;;cia aos valôres vigentes, que se torna o alvo; da maior hos-
o PAPEL DA FAMÍLIA
Deve-se dizer uma palavra final agrupando as implicações espalha-
das por tôda a extensão do discurso precedente, relativo ao papel de-
42. George S. Pettee, The Process of RevoJution (Nova Iorque, 1938), 8-24. Ver particular- sempenhado pela família nos tipos de conduta divergente.
mente seu relato de "monopólio da imaginação".
43. R. S. e H. M. Lynd. l\Iiddletown rn Transition (Nova Iorque, 1937).408, numa série de
44. Ver as perspicazes observações de Georg Simmel, Soainlogie (Leipzig, 1!l(8), 276-277.
clichés culturais que exempllficam o mito conservador.

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232 Robert K. Merton Sociologia - ,Teoria e Estrutura 233

É evidentemente a família que funciona como importante correia de ções e exortações a ela dirígídas pelos pais. Parece que, além das L'Il-
.!!ansmi_~s~o__~.ª-._gi!.l!§_ªº_d.<.J.l)_p_aJ1.rº.el)e1,l!t1.!rai$,
em relação à, geração se- portantes pesquisas das psicologias profundas no processo de socializa-
i. ,guinte. Porém, o que tem passado desapercebido até há pouco tempo,
! '
,·,~",.,cé que- a família transmite especialmente a porção de cultura acessível ao ., cão, haja necessidade de tipos suplementares de observação direta da di-
fusão da cultura na família. Pode muito bem acontecer que a crian-
':'. .:;;~
"\:'estrato social e aos grupos em que os próprios pais se encontram. É, ça retenha o paradígma implícito dos valôres culturais, descoberto no
~" portanto, um mecanismo para. disçiplínar as ,cJ:ianças, em têrmos dos ob- comportamento diário de seus pais, mesmo quando o mesmo entre em
. jetivos culturais e dos costumes característicos dessa estreita variedade conflito com seus conselhos e exortações explícitos .
de grupos. Nem é a socialização limitada ao treinamento e à disciplina- A projecão das .a.wbiç,QgL1J.ªt~!nª_L~J;>I.EL;LQtL~çª.t_ª!llb~m._t~m. tm-
ção diretos. O processo é fortuito, pelo menos parcialmente. Inteira- ..Pº-rj;ª~cia_J-,j·,mt!\_m.~.Il.tªJnº~§WltQ.qe queestamos ..tn~tªnqo. Conforme
mente à parte de repreensões diretas, recompensas e castigos, a criança é bem se sabe muitos pais confrontados com o "fracasso" pessoal ou um
.',.,
exposta a protótipos sociais no comportamento diàriamente testemunha- "sucesso" limitado, podem silenciar sua ênfase sôbre objetivos de sucesso
do e nas conversações casuais cios pais. Não raro as crianças descobrem e podem adiar ulteriores esforços para o atíngimento de tais objetivos,
e incorporam uniformidades culiurtüs, mesmo quando elas permanecem tentando alcançá-lo "por procuração", através de seus filhos. "A influên-
implícitas e não foram reduzidas a. regras. cia pode vir através da mãe ou do pai. Freqüentemente dá-se o caso de
Os padrões' de linguagem fornecem a mais impressionante evidên- um pai que alimenta a esperança de que seu filho atinja alturas que êle
cia, prontamente observável como se fôsse numa clínica, de que as crían- ou a espôsa deixaram de atingir". 46 Numa recente pesquisa da organí-
ças, no processo de socialização, descobrem uniformidades que não foram zaçâo sacia! de conjuntos de residências construí das pelo govêmo, temos
explicitamente formuladas para elas, pelos mais velhos ou contemporâ- encontrado, tanto entre negros como entre brancos, dos níveis ocupacio-
neos e que não são formuladas pelas próprias crianças. Erros de Iingua- nais inferiores, uma proporção substancial com aspirações de que seus
.c-, gem entre as crianças, são muito instrutivos. Assim, a criança usará filhos sigam uma profissão liberal. 47 Se tal descoberta fôr confirmada
espontãneamente palavras tais como "mouses" ou "morieys", mesmo que por pesquisas posteriores, terá grande significação para o caso que nos
'jamais tenha ouvido tais têrmos ou não lhe tenha sido ensinada a "reçra ocupa pois se a projeção compensatória da ambição dos pais sôbre as
":\, 'de formação Ou ela criará palavras, como "falled", "runned",
dos plurais". crianças fôr muito acentuada, isto significará que precisamente os pais
"singed", "hitted" embora não lhe tenham ensinado aos três anos de ida- menos capazes de proporcionar a seus filhos fácil acesso às oportunida-
de, as "regras" da conjugação. Ou dirá que um manjar predileto é des - os "fracassados" e os "frustrados" - são os que exercem maior
"gooder" como o que outro menos apreciado, ou talvez através de uma pressão sôllre os filhos para que êstes alcancem êxitos importantes. E ês-
extensão lógica, poderá descrevê-lo como o "gnodest" de todos.* Obvia- te síndrome de elevadas aspirações e limitadas oportunidades reais, co-
mente, a criança descobriu os paradigrnas implícitos para a expressão mo temos visto, é precisamente o padrão que provoca o comportamento
do plural, para a conjugação dos verbos e a fl,exão dos adjetivos. A pró- desviado. Isto aponta claramente para a necessidade de serem realiza-
pria natureza de seu êrro e a má aplicação do paradigma dão disso tes- das investigações focalizadas sôbre a formação das metas ocupacionais
temunno.xe nos diversos estratos, se quisermos entender, J!Q...JlQgtº_.g~ y~stª_ªº ...nosso
Pode-se, portanto, concluir, tentativamente, que a criança está também . eS!L~ID.ª-.a..n.!ilJJiç.oJ
.Q l?a,p.~Lg1J~.-ª
..giscipltnÇl,..fanÜ1.iar_.desemp.e.nl;J.ª,
ínadver-
#'
laboriosamente ocupada em descobrir e agir conforme os paradigmas im- tiQa,mente naorig~m.d.a. con.cluta.<:f!vez:gente.
plícitos de avaliação cultural, de categorização das pess-oas e das coisas e
de formação das metas dignas de estima, assim como assimilando a orien- NOTAS FINAIS
tação cultural explícita, baseada na infinita corrente de ordens, explica-
/(, , Deve ficar claro que a discussão anterior não é afinada a um plano
(~) N. do trad. Talvez convenha lembrar que, em inglês, o plural correto de "mouse" é moralístíco. Quaisquer que sejam os sentimentos do leitor referentes à
"rnice"; "rnoriey" é invariável. Em vez de "fal led", "runried", "singed", "hí tted", o pre- ~:i:; conveniência moral de coordenar as fases dos alvos e dos meios da es-
térito perfeito correto é "f'el!", "rari", "sarig" e "hit". O aumentatívo de "good" não ~ .sTI trutura social, é claro que a imperfeita coordenação das duas conduz
"gooder" mas "better" e o absoluto não é "goodest" mas "best", O que o autor quis
demonstrar é que as crianças tendem a adotar as formas regulares, isto é. mais "<r à anomia. Se _uma-.Ji-ª!Lt!l.nǺe!L.m..!\_!!> ..d?:. e..$tI'tltlll'ª social é. a de
__gel'§~!>
muns, em vez das formas irregulares que, como o nome indica, fogem das regras f9.D!~~r uma ba~:Rl!DLll .... p!,~evi~i1:>i~i.<i.ad~.
~"a Jeg!lJar~qa<ie do, comporta-
regulares.
45. W. Stern, Psychology of Early Childbood (Nova Iorque, 1924), 166, menciona a incidência
de tais erros (p. ex., "drinked", [que seria o pretérito perfeito regular mas incorreto], 46. H. A. Murray e outros, Explorations in Personality, 307.
em vez de "drank" (pretérito perfeito irregular, mas correto ]'), porém não tira as ínte- 47. Extraído de um estudo d:;, organização socIal das comunidades planejadas, por R. K.
Merton, Patricia S. West e M. Jahoda, Patterns of Social Life.
rências rel atdvas à descoberta 'dos paradigmas implícitos.

________ • • • '~,._.~.H_.~<~~._J_ . .-_ •. __


Robert K. M erton
234
VII CONTINUIDADES NA TEO~IA
_!!!~~() so_<:~1_e_~s.af.l!~Ç~()_t~~~=-S~_<:'~~~~~l!~_~Irl_eI1_!e
-'!mi!~~~ em efrciência,
DA ESTRUTURA SOCIAL
à medida que êsses elementos da. estrutura social se tornam díssocíados. E DA ANOMIA
Noi.Jontoextrelno, a-pre~isibiJidade --é -tliniirmÚla e sobrevém o que se
pode chamar corretamente de anomia ou caos cultural. 1
Êste ensaio acêrca das fontes estruturais do comportamento desviado
constitui apenas um prelúdio. Não inclui um estudo detalhado dos ele-
mentos estruturais que predispõem em direção a uma ou a outra das rea-
ções alternativas, abertas aos indivíduos que vivem numa estrutura mal
equilibrada; desprezou em grande parte, sem todavia negá-Ia, a relevân-
cia dos processos sociopsicológicos que cieterminam a incidência espe-
..$
cífica dessas reações; apenas considerou resumidamente as funções so-
ciais preenchidas pelo comportamento desviado; não submeteu o poder
explanatório do esquema analítico a um teste empírico completo, me-
diante a eleterminação das variações dos grupos no comportamento des-
viado e no conformista; abordou só de leve o comportamento rebelde que
procura rerormular a armação social.
Sugerimos que êstes problemas, e outros que lhes são relacionados, N OS úLTIMOS ANOS tem aparecido uma literatura SOCIOlógicade
podem ser analisados com vantagens, mediante o uso dêsse esquema. considerável expressão a qual trata de um outro aspecto da anomía Is-
to proporciona uma base mais extensa para clarificar e ampliar as ror-
mulações estabelecidas no trabalho anterior. Na verdade, o interêsse a r,
respeito da anomia cresceu, ràpídamente, o bastante para tornar-se (quase ~.: :,(.)
inevitàvelmente) vulgarizado, à medida que se difunde em círculos so-
ciais cada vez mais amplos. Como exemplo de vulgarização, observemos
o caso do semanário que publica uma investigação sóbria e cuidadosa, C·,,·.
efetuada por ..Q.~:r.bar~l~lJlEJ~.r, acêrca das conseqüências sociais da ano-
mia, e prontamente considera: o relato como "atração para o leitor",
começando nestes têrmos coloquiais e gritantes: "Menino, isso é o que
eu chamo de anemia aguda", exclamou com um assobio~le.e_cj{~.Totten,
um dos 225 estudantes da "Oglethorpe University".l Menos sibilantes, po-
rém mais instrutivos, são os estudos teóricos da anomía, substantivos e
pertinentes, que agora serão examinados.
,
o COI\CEITO AMPLIADO DE ANOMIA

Conforme foi elaborado por _pm:l<;!}~illl, o conceito de anomia se refe-


ria a uma Q.oIlçljçã9 de relativa normalidade numa sociedade ou grupo.
~':ll"~0~mdeixou claro que êste conceito se referia a uma propriedade da
estrutura social e cultural, e não a uma propriedade dos indivíduos que
confrontavam tal estrutura. Não obstante, enquanto se tornava evidente
a utilidade do conceito para entender diversas formas de comportamen-
to desviado, êle foi se ampliando até referir-se a uma condição de indíví-
CiUOS, em vez de se referir ao ambiente.

1. Pathfinrlcr, 17 de maio de 1950, 55.


Sociologia - Teoria e Estrutura 237
236 Robert K. M ertott

\ ocorrendo, ..RªrtJ<:::ur~l"!llentEl,
Cluan,~o l1~~a disJ\l.nç~~..aguda entre as nor-
Êste conceito psicológico da anemia foi simultâneamente formulado
,h • mas e metas culturais e as capacidades sOGia,lm,enteestruturacas dosmem- !J
por J.t .. M.~MJ!,ç.ly.er e por David !y.~~~::m. Uma vez que suas formula-
j; ,L:qbro'::;_d9_gr]'!P.Q~.!!Lagir de acõrdo com as primeiras. Conforme esta con- .
çóes são substancialmente semelhantes, o que se diz de uma pode-se di- ( - cepção, os valôres culturais podem ajudar a produzir um comportamen-
zer de ambas. ~
to que esteja em oposição aos mandatos dos próprios valôres.
. "Anemia", diz Maclver, - o qual adota a grafia da palavra tal como era usada no sé- Sob êste ponto de vista, a estrutura social pressiona os valóres cultu-
~:;'.....' culo XVI (Uanomy", enquanto outros adotam "anomie") - significa o estado de espirito de rais, tornando possível e fácil aos indivíduos que ocupam determinadas
r.Jguém que foi arrancado de suas raizes morais, que já não segue quaisquer padrões DIas situações sociais dentro da sociedade, agirem de acôrdo com os ditos va-
: somente necessidades avulsas, que já não tem qualquer senso de continuidade, de grupo e
de obrigação. O homem anônimo tornou-se espiritualmente estéril, reage somente diante de
lôres e impossível para os outros indivíduos. A estrutura social age co-
si mesmo, não é responsável para com ninguém. Êle ri dos valôres de outros homens. _mo barreira ou como porta aberta para o desempenho dos mandatos cul-
Sua única fé é a filosofia da negação. Vive sôbre a débil linha da sensação entre nenhum
i...: ~\;
i turais. Quando a estrutura social e cultural estão mal integradas, a
futuro e nenhum passado". E acrescenta: "A anomía é um estado de espírito no qual o -,
,. 'primeira exigindo um comportamento que a outra dificulta, há uma ten-
_senso de coesão social - mola principal da moral - está quebrado ou fatalmente enfra-
~quecído ". 2
" são rumo ao rompimento das normas ou ao seu completo dasprêzo. Evi-
dentemente, não se conclui que êste seja o único processo que favoreça a
Conforme tem sido observado, "o enfoque (e ~ª!:J:yer:. é assim psíco- condição social da anomia ; as teorias e pesquisas posteriores estão orien-
lógico Cisto é, a anomia para êle é um estado de espirito, não um estado tadas à procura de outras fontes padronizadas, geradoras de um alto grau
~~-.:.
de sociedade - embora o estado de espírito possa refletir tensões sociais), , de anemia.
e seus tipos psicológicos (de anomia) correspondem aos elementos r an- Esforços têm sido feitos para captar os conceitos psicológicos e socío-
siedade - isolamento - falta de finalidade) que formam o aspecto sub- lógicos que distinguem a anomia "simples" da anomía "aguda".4 A ano- ,/-jJ: !.:
jetivo do conceito de. DU.I.kh~!m".3 Que o conceito psicológico de ano- mia simples se refere a um estado de confusão num grupo ou socieda-
mia tenha uma referência derínída, que se refira a "estados de espírito" de, que está sujeito a conflito entre esquemas de valor, resultando em
identificáveis de indivíduos particulares, é fora de dúvida, tal como o algum grau de mal-estar e num senso de separação do grupo; a anomia-::
atestam as estantes repletas dos psiquiatras. Todavia, o.con(;~ito psico- aguda é a deterioração e, no caso extremo, a desintegração dos sistemas
lógico é uma contrapartida do conceito _ socíológico da ano mia, e não de valor, o Que resulta em proíundas angústias. Isto tem o mérito de as-
um substituto para êle. sinalar terminológicamente o fato algumas vêzes anunciado, mas tre-
O conceito sociológico da ano mia, conforme foi explicado nas pági- qüentemente esquecido de que. tal como sucede com outras condições
nas anteriores, pressupõe que o ambiente mais destacado dos indivíduos da sociedadeva a_nomiª..varia er,ngnl,U, efalvez em espécie.
possa ser concebido de maneira útil, como envolvendo a estrutura cultu- Tendo identificado alguns dos processos que conduzem à anomia, o ca-
JlIl, de um lado, e a estrutura social, de outro. Tal conceito pressupõe pítulo anterior formula uma típología de reações adaptativas a esta con-
que, mesmo sendo tais conceitos intimamente ligados, devem ser conser- dição e descreve as pressões estruturais que proporcionam maior ou me-
vados separados para finalidades de análise, antes que sejam novamen- nor freqüência de cada uma dessas reações entre os diversos estratos da
te reunidos. Neste contexto a estrutura cultural pode ser definida co- estrutura de classe. A premissa aqui subjacente é a de que os. estIª.tos
mo o .conjt:nto de valôres normativos que governam li conduta comum de classe não são apenas diferentemente sujeitos à anomia, mas. são
,.j.
f
dos membros de uma determinada so~i~.dade ou grupo. E por estrutu- também, diferentemente sujeitos. a um ou outro tipo de reação a ela.
ra social se entende o conjunto organizado de relações sociais no qual os Ta~çºtt ;.:paxson,sadotou esta tipologia e a derivou, quanto às motivações,
membros d~ sociedade ou grupo são implicados de várias maneiras. A do seu esquema conceptual de ínteraçâo social.s Esta análise parte da
anomia é então concebida como uma:rupturfl..na estrutura cultural': suposição de que nem as tendências a um comportamento desviado, nem
as tendências ao equilíbrio de um sistema de interação social podem de-
2. R. M. Maclver, The Rarnpar-ts We Guard (Nova Iorque : The MacrnilIan Co., 1950) 84, 85 senvolver-se no acaso; pelo contrário, trabalham em uma ou mais dire-
e todo o Capítulo X; (os grifas são nossos). Compare-se 2, descrição independent.emente ções identificáveis, escolhidas entre um número limitado. Isto quer di-
concebida mas equivalente, dos "anômícos", por David Riesman, em COlaboração com zer que Jl...PJ:C>pri::1,c()ndutadivergente tem suas n0J:lIl~s.
Reuel Denney e Nathan Olazer. Tile Lonely Growd (New Haven: Yale University Press,
1950), 287 e segs.
3. R. H. Brookes, "The anatomy of anorníe", Politic.al Scienee, 1951, 3, 44·51; 1952, 4, 38·49 4. Sebastian De Orazi ••, Tile Political Commnnity (trníversíw of Chicago Press, 1948), '12-74,
- um artigo em revista que examina cs recentes extensões conceptuais da anemia. H. L. passím: cf. Brookes, op.eít., 46.
Ansbacher procure relacionar a anornía com a noção adleriana de f<falta de ínterêsse 5_ Parsons, Tile Social System, 256.267, 321-325; Talcott Parsons, Robert F. Bales e Edward
social" num", nota publlcada em Individual Psychololy News Letter: Organ of the Jn- A. Shil., Workíng Papera ia the Tileory of Action (Glencoe: The l"ree Press, 1953) 67·78.
ternational Association of Individual Psycilology, Londres, junho- julho de 1956.
238 Robert K. MCTton Sociologia - Teoria e Estrutura 239

Nas palavras de _Parsons e 13aJes, "ficou demonstrado que o desvio to- Um passo nesta direção foi dado por _~fl()SJole, ao desenvolver uma
mava, fundamentalmente, quatro -direções, conforme fôsse a necessidade "escala de anemia" prelíminar.s Em parte, a escala incorpora itens que
de expressar a alienação do molde normativo - inclusive o repúdio à se referem à percepção do indivíduo em relação a seu ambiente social;
mudança como objetivo em si - ou de manter a conformidade compul- em parte, à percepção do seu próprio lugar dentro daquele ambiente.'
siva com o tipo normativo e com a adesão à mudança e, mais ainda, Mais especificamente, os cinco itens compreendidos nessa escala prelimi-
I;'
segundo fôsse o modo de ação orientado ativa GU passivamente. Isto da- nar se referem a: (1) a percepção de que os líderes das comunidades são
va quatro tipos de rumo: os de!agressividade e deCretraimento, do lado indiferentes às necessidades dos indivíduos; (2) a percepção de que pou-
da alienação, e as de3atuação compulsiva e de!aceitação compulsiva, do co pode ser realizado numa sociedade, que seja considerada como bàsi-
lado da conformidade compulsória. Demonstrou se ainda que êste pa- camente ímprevísível e onde falte ordem; (3), a percepção de que as
radigma, alcançado de modo independente, é essencialmente o mesmo metas da vida se afastam em vez de se realizarem; (4) um senso de fu-
que o anteriormente estabelecido por _~erig:n, para a análise das estrutu- tilidade; e (5), a convicção de que não se pode contar com associados
ras social e de anomía".e pessoais para apoio social e psicológico. 9 Conforme .sI:g~- indica com al-
Esta primeira ampliação da tipologia da reação, conforme se obser- guns detalhes, êste esfôrço para desenvolver uma escala de anornía tem
vará, continua a referir-se tanto à estrutura cultural - "o molde nor- várias limitações e algumas inadequações, porém fornece um ponto de
rnatdvo" - como à estrutura social - as conexões moldadas a outras pes- partida em direção a uma medida padronizada oe anomía, tal como é per-
soas, ou o afastamento em relação a elas. Continua, porém, a caracte- cebida e experimentada por indivíduos num grupo ou numa comunidade.
rizar os tipos de reação em têrmos de serem êles ativos ou passivos, sig- Esta escala pode ser tomada corno medida de ano mia, tal como é
nificando, assim, qus o comportamento desviado pode, seja ativamente subjetuuimente experimentada; é evidente que se necessita de outra me-
"'tomar a situação nas mãos', fazendo mais para tentar controlá-Ia, do aida da ano mia, como condição objetiva dz vida do grupo. Um progres- (Yí
que as expectativas [institucionalizadasJ" exigem ou, passivamente, "de-
so sintomático em direção a êste último tipo de medida foi feito por .Ber-
monstrando insuficiência em afirmar o grau de contrôIe ativo" exigi-
nard Lander , 10 Através da análise de fatõresem oito itens característi-
uo por essas expectativas. Os tipos de comportamento desviado podem
cos de formulários de recenseamento, feitos muna cidade norte-america-
ainda ser subdivididos pela distinção entre casos nos quais as tensõas
na, êle identificou dois feixes de variáveis, um dos quais êle designa co-
surgem principalmente nas relações sociais com outros, ou nas formas
mo "um fator anômico". Com isto êle significa que êste feixe de variá-
culturais para com as quais a conformidade é esperada. 7 Tais mani-
veis - possuindo os vaíõres de alta porcentagem de delinqüência, gran-
festações concretas de reação a tensões anômicas, como a delinqüência,
de quantidacie de residentes não-brancos na área e uma pequena porcen-
o crime e o suicídio, bem como tais tipos intermediàriamente conceptuais
tagem de moradias ocupadas pelos proprietários - parece, à. inspeção,
de reações, como a inovação, o ritualismo, o retraimento e a rebelião, tor-
nam-se assim classificáveis como resultantes de certas propriedades abs- r.aracterizar áreas de relativa ausência de normalidade e de instabilidade
tratas de -sistemas de interação identificados por iParsons. Êsse tipo de social. Como ~allQer é o primeiro a reconhecer, o fator anômico é, no
classificação mais complexa dos tipos de comportamento desviado ainda melhor dos casos, apenas medído com aproximação por êste particular
tem que ser utilizado de maneira extensa nas investigações empíricas, feixe de variáveis. Sua limitação decisiva deriva de uma circunstância
.iá que foi formulada tão recentemente. com que regularmente se defrontam os sociólogos que procuram estabe-
t'
lecer medidas de conceitos teóricos, elaborando os dados sociais que por

INDICADORES DA ANOMIA
Tal como muitos de nós que temos de seguir suas grandes pegadas e S. Num trabalho lido perante a Sociedade Sociológica Amerícans, em 1951, intitulado "Se-
cial dysrunction , persoriaãíty, and social distance attitudes", e ainda, numa versão am-
conseqüentemente vacilamos um tanto nestas áreas excessivamente espaço- pliada, porém ainda não publicada, intitulada "Social integration and certain corolla-
sas, _~1Jl'kheim não proporcionou direção explícita e metódica em relação nes".
aos vários sinais de anomia, às de ausência de norma observáveis e às rela- 9. A transcrição específica dU;tes itens é relatada em Alan H. Robcrts c Milton Rokeach,
ções sociais deterioradas. No entanto, é claro que se devam desenvolver ín- "Anornic, authoritarianism, and prejudice: a replication", Americau Journal of Secíologv.
1956, 61, 355-358, na nota 14. Num comentarto publicado a respeito deste trabalho,
dices, caso se deseje utilizar o conceito da anomia na pesquisa empírica.
8r01e duvida que seu estudo haja sido efetivamente replicado; Ibid .• 1956, 62; 63-67.
10. 'I'owards an Lnderst andíng of .Juvcnile Dcliuquency (Nova Iorque: Columbia trntvcr-
sity Press, 19,»4), especialmente os Capítulos V-VI. VPT também o instrutivo t.rabalho
6. Parsons e outros, lVorking Papers, 68.
em artigO de revista baseado sôbre ôste livro, por Ernest Greenwood, "New dircctions
7. Ibid. 74.
in delinqucncy research", Thc Social Scrvícc Review, 1956, 30, 147-157.
2,41
sociologia -Teoria e Estrutura
240 Robert K. M erton

parte da análise funcional e estrutural da anomia estabelecida no traba-


acaso estão regístrados na série estatística organizada pelas entidades ofi-
lho anterior.
ciais - a saber, a circunstância de que tais dados da contabilidade social
que acontecem estar à mão não são necessàríamente os dados que me-
lhor correspondem à medição do conceito. É por isso que descrevi o en-
o TEMA DE SUCESSO NA CULTURA AMERICANA
genhoso estôrço de. Larider; como "sintomático" ao invés de considerás Devemos recordar que temos considerado a ênfase sôbre o bom êxi-
-lo como um progresso decisivo. Pois assim como Dl:u:kbeim teve que se to monetário como um tema dominante na cultura americana, e indicado
basear apenas em estatísticas oficiais, obrigando-o a empregar essas apro- as tensões que o mesmo impõe diferencialmente sôbre as pessoas situa-
ximadas, indiretas e altamente provisórias medidas da anemia, como se- :' ,ç \: i das em várias posições na estrutura social. Evidentemente, isto não que-
jam a situação ocupacíonal, a situação conjugal e a desintegração da fa- ,lI
. )~ ria significar. _ conforme repetidamente salientamos - que a disjunção
mília (divórcio), assim o fato fortuito de Que os dados do recenseamento entre as metas ..çulttlIªis e os _~~i9.S_ ..i~!5ti~tlcioIJ,alrneIJ,te!egí~i!ll(Js derivas-
\\'.i."
de Baltimore incluíam itens sôbre a delinqüência, a composição racial e a se apenas desta extrema ênfase nos objetivos, A teoria mantém que
propriedade das casas conduziu Lander a usá-Ias como medida da ano- qualquer ênfase extrema sôbre as realizações - quer sejam de produti-
mia, aproximada, indireta e altamente provisória. Considerações pragmá- vidade científica, de acumulação de riqueza pessoal ou, por um pequeno
ticas desta espécie não são evidentemente uma alternativa adequada aos vôo da imaginação, as conquistas de um Dom Juan - atenuará a con-
índices do conceito, teàricamente derivados. Mudanças de residência po- formidade com as normas que governam o comportamento destinado :1
alcançar a forma especial de "sucesso", especialmente entre os indivíduos
dem ser uma medida indireta da proporção do rompimento nas relações n,) que estão em desvantagem social na corrida competitiva. .É.. O.. .conüíto
sociais estabelecidas, porém, é evidente que a medição seria substancialmen-
te melhorada se se pudesse obter dados diretamente colhidos, sôbre as ~ entre os objetivos culturais e <l.possibilidade .de .usarosmeiosinstitucio-
o
Q nais - qualquer que seja o caráter do objetivo - que produz uma ten-
relações sociais rompidas. li; assim, com os cutros componentes objeti- G·
vos da anomía, concebidos tanto como normatívos e como relativos ao são em direção à anon:lÍa.12
rompimento. Isto não é um simples conselho de perfeição inatingível. l O _QpjetJyo.do êxito monetário. foi escolhido para a análise üustratí-

Apenas afirma, o que é bastante evidente, que assim como as escalas 14 It>
va, pela admissão de que êle se enraizou firmemente na, cultura .norte-
:ª.m-.~rlçª,!l.!L Uma lista de estudos de história e de sociologia histórica
dos aspectos subjetivos da anomía devem ser ainda melhoradas, tam- ~. recentemente emprestou maior apoio àquela opinião muito generalizada, '--' . ..,
bém devem ser as escalas de seus aspectos subjetivos.·· A utilização de
Em sua detalhada monografia sôbre o evangelho norte-americano do suo
<:!~o? oficiais disponíveis da contabilidade social é apenas um substituto t L~
cesso mediante a ajuda a si mesmo, - o impulso para auto- realização -

1
.JJ.r_a.grnàticame!l.t_~.
adotado ....
e_.PX9vi;:;.ório. Irvin GOrãon Wy1lie tem demonstrado que, embora o "sucesso" tenha evi-
Ortginando-ss do conceito dos componentes subjetivos e objetivos da dentemente sido definido por diversos modos na cultura norte-americana, \. \)

anemia, está o requisito também evidente de que a pesquisa sôbre as (e por diversos modos entre os vários estratos sociais), nenhuma outra
rentes e as conseqüências da anornía devem tratar simuttãnearnente da definição "goza de tal prestígio universal nos Estados Unidos, do que
!ntegração dos dois tipos de componentes. Concreta e Ilustratívamente, "i\'~' aquêle que identifica o sucesso com a capacidade de ganhar dinheiro". 13
c :
isto Significa que o comportamento dos indivíduos "anômícos" e "eunômí Êste pesado acento sôbre c sucesso financeiro, evidentemente nâo é
cos", dentro dos grupos que tenham um grau determinado de anomía ob- ~ peculíar aos norte-americanos. Ainda é muito oportuna a observação ana- .:
c~
I (J~, rf t\:)(j\
jetiva, poderia ser sistemàticamente comparado, assim como o compor- V litica feita de longa data por Max ~~~%.: "O impulso de aquisição, a bus-
tamento dos indivíduos do mesmo tipo poderia ser examinado em grupos, i ca do ganho, da maior quantidade possível de dinheiro, nada tem a ver 0.:
com vários graus de anomía . Essa espécie de pesquisa constitui eviden- l i
em si com o capitalismo (e, no caso presente, com a cultura especifi~ "r'l
1;:\'·,;:\-::"I'\')
temente o próximo passo à frente no estudo da anomia. 11 ~ camente norte-americana). Êste impulso existe e tem existido entre gar-
As recentes contribuições teóricas e de processo clarificaram assim t
~,
çons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários desonestos, "U 7;,
o conceito da anomía e começaram a modelar as ferramentas necessá- soldados, nobres, cruzados, jogadores e mendigos. Pode-se dizer que tem ;)\'.:'\('~\:"
rias a seu estudo sistemático.

11.
Outras contribuições substantivas
surgido recentemente, as quaís têm influência direta sôbre uma outra
têm

Quanto à lógica geral desta espécie de análise, ver a seção acêrca de "índices esta-
i
n.
l
12,
sido comum a tôdas as espécies e oondíções de homens, em todos os tem-

W. J. H, Sprott tem expressado isto, com invejável clareza, nas conterências de Josinh
Mason , proferidas na Universidade de Birmingham.
Watts & Co., 1954>, 113.
13. Irvin Gordon Wyllie, The Self-Made Man in
Seienee and Social Action (Londres:

Ameriea (New Brunswiek: Rutgers trní-


tlsticos da estrutura social", 286-288 dêste volume e Paul F. Lazarsfeld e Morris Rosen-
versity Press, 1954), 3·~ e em tõda a extensão do livro .
berg, The Language of Social Researeh (Glencoe: The Free Press, 1955).

. -.---_ .• ------------ + ~.~=""'"~


242 Robert K. Merton. Sociologia - Teoria e Estrutura 243

pos, em todos os países da terra, onde quer que tenha existido a sua pos- Dreíser, Jack London, David Graham Phillips, Frank. Norris e Robert
síbílidade objetiva".14 Herrick. A durável presença do mesmo tema na série aparentemente
Mas o que distingue relativamente a cultura norte-americana sob és- inexaurível de leitores das obras de McGuffey é demonstrada por Ri-
te aspecto e foi tomado como ponto central para a análise dêste caso no chard D. Mosíer , 16 E na obra The Reputation ot the American Busi-
capitulo anterior, é que esta é "uma sociedade que atribui alto prêmio sô- neesmanu, Sígmund Díamond analisa uma grande lista de necrológios,
bre a afluência econômica e a ascensão social para todos os seus mem- êsses repositórios de sentimento moral, publicados após a morte de Ste-
bros" . Tal como uma cartílha de sucesso do fim do século XIX retra- phen Girard, John Jacób Astor, Cornelíus Vanderbilt, J. P. Morgan, John
:tou admiràvelmente essa crença cultural: "A estrada para a fortuna, tal D. Rockefeller e Henry Ford, e assinala a freqüência constante do conceí-;
como a estrada pública de pedágio, está aberta igualmente aos filhos to de que, quando um homem "tem as qualidades exígídas, Ü' sucesso será(p,,,.<7
do mendigo, e ao descendente de reis. Há taxas a serem pagas por to- seu em qualquer tempo, em qualquer lugar, sob quaisquer circunstân-j
dos, e no entanto todos têm direitos, e unicamente a nós compete utíli- cías". I

'zar êsses direitos". 15 A característica dessa doutrina.Gultural é dupla: Êsse tema cultural não só assevera que o sucesso monetário é possí-
'primeiro,'lo esfôrço à busca do sucesso não é-~m -;~;~nt~d~s--indivíduos vel para todos, não importando a posição inicial, como também que o es-
que por acaso tenham impulsos aquisitivos, enraizados na natureza huma- fôrço para conseguir o sucesso incumbe a todos, mas que, às vêzes, as apa-
na, mas sim uma _exp~cJ;[lçl1:~.s()c:ifl.llYlellte
.defillida;~ e segundo, esta ex- rentes desvantagens da pobreza são na verdade vantagens, pois, nas
pectação padronizada~_.9g!l~~c1.erlJ.cl[l CClUlO. apropriada parª, _cada compo- palavras de Henry Ward Beecher, é "o duro, mas bondoso seio da pobre-
ll~~tQ_ga_sociedade não levando em consideração sua situação inicial ou za, que lhes diz: 'Trabalhem!' e mediante o trabalho faz dêles homens".18
_posição na vida. Evidentemente, não se trata do fato de que os pa-
drões idênticos de realização sejam concretamente exigidos de cada C0'l11-
Isto conduz naturalmente ao tema subsidiário de que o êxiW_oJJ_.... º
nwlôgrore"mltamint",iram",ntedas qualidades pessoaís : de que quem fra- -
ponente da sociedade; a natureza e extensão dêsse movimento para cio cassa deve queixar-se apenas de si, poia o corolário do conceito do homem
- - -_o-
ma, na escada econômica, pode tornar-se definida diferentemente entre guevencena vida por esfôrço próprio (self-unmademg'flc)éodo homemque
os diversos estratos sociais; mas as orientações culturais predominantes se desfez a sjmesmo . Na medida em que esta definição cultural é as-
dão grande ênfase a esta forma, de êxito e consideram apropriado que to- símílada por aqueles que não acertaram em seu alvo, o fracasso repre-
dos se esforcem para atingi-Ia. (Como veremos adiante, esta proposi- senta uma dupla derrota: i a derrota manifesta de permanecer muito par.i
ção é bastante diferente da proposição empíríca de que as mesmas pro- trás na corrida para o sucessoje a derrota implícita de não ter a capaci-
porções de pessoas de tôdas as classes sociais aceitam de fato esta dade e a energia moral necessárias para se obter o êxito. Qualquer que
ênfase cultural e assimilam-na em sua estrutura pessoal de valôres) , É seja a verdade objetiva ou a falsidade da doutrina, em qualquer exemplo
apenas o fato de que no púlpito e na imprensa, na ficção e nos filmes t.omadoem particular, e é importante que isto não possa ser descoberto
cinematográficos, no decurso da educação formal e da socialização infor- com facilidade, a definição predominante arranca um tributo psíquico da-
mal, nos variados meios de comunicação públicos e particulares que queles que malograram. É neste terreno cultural que, numa significati-
atraem a atenção dos norte-americanos há uma ênfasé relativamente acen- va proporção de casos, a ameaça da derrota impulsiona os homens ao
tuada sôbre a obrigação moral, assim como sôbre a possibilidade efetiva, uso daquelas táticas, fora da lei ou dos costumes, mas que prometem
de lutar pelo êxito monetário e de conseguí-lo . "sucesso".
Conforme _Wy~li(3demonstra, palestras inspiradoras nas escolas, asso- O mandato moral de alcançar o êxito exerce assim pressão sôbre o
ciações meroanüs de livreiros, colégios comerciais, e uma grande biblio- indivíduo, para ser bem sucedido usando dos meios normais, se fôr pos-
teca de manuais de sucesso, propagam insistentemente êsse tema. (Págs. sível. ou mediante o emprêgo de meios fraudulentos, se fôr necessário.
137 e segs.). Isto é ainda amplamente documentado pelo resultado de uma As normas morais evidentemente continuam a reiterar as regras do jôgo
série de análises do conteúdo dos romances mais lidos, das cartilhas reírn- e a pedir que seja feito o "jôgo limpo", mesmo quando o comportamento
, pressas sem cessar, usadas nas escolas primárias por tôda a extensão do seja divergente da norma. Contudo, ocasionalmente, mesmo os manuais
país, e pelos valores reafirmados nos necrológios de alguns dos mais fa- de sucesso "instam os homens" a "irem para adiante e ganhar" fazendo
mosos homens de negócios. J:~~rm~lh_~_:I:,.YIl.n pesquisa o penetrante te-
ma da subida "dos andrajos para a riqueza" nos romances de Theodore 16. Kenneth S. Lynn, The Dream of Sucess (Baston: Líttle Brawn, 1955); Richard D.
Mosíer, lIfaking the American Mind (Nova larque: King's Crown Press, 1947)_Ver tain-
bém Marshall W. Fishwick, American Heroes: Myth and Reality (Washington, D.C.:
14. Max Weber, 'Ehe Pro testant Ethic and the Spirit of Capitalism (Nova lorque: Charles Publ ic Affairs Press, 1954>-
Scríbner's Sons, 1930),17. 17 Cambridge: Harvard University Press, 1955.
15. A. C. McCurdy, Win Who Will (Filadélfia, 1872),19, citado por Wyllie, op. cit., 22. 18. Citado por Wyllie, 22-23.
Sociologia - Teoria e Estrutum 245
244 Robert K. M erton

uso de todos os meios disponíveis para chegar à frentc dos competido- manda. Nem todos podemos ser generais. Se você é um bom soldado,
res", como no tratado compreensivelmente anônimo de 1878, Hou: to Be- numa mult.dâo selecionada, e tem boa reputação, isto é o sucesso em si
come Ricti . E "no período de 1880 a 1914, os populístas, os partidários de mesmo". Até um jornal como o American Banker diz ser possível afir-
uma só taxa, os jornalistas ínvestígadores de casos, de corrupção mar que "apenas uns poucos de nós que repartem o destino comum são
I. "muckrakers") e os socialistas, olharam por trás da fachada moral dos destinados a acumular grande riqueza, ou alcançar conspícuas posições.
negócios, l1, fim de examinar suas práticas. O que descobriram dificil- O número de tais posições e as oportunidades para tal acumulação de di-
mente se enquadrava no tema de riqueza através da virtude. Seus acha- nheiro nunca corresponderam, e jamais corresponderão ao número de
dos não eram inteiramente novos, pois os céticos já de há muito suspei- homens enêrgícos, ambiciosos e capazes que esperam alcançá-Ias. A lite-
tavam flue OULra coisa além d2.. virtude poderia estar envolvida no fato ratura pubíícada a respeito dos homens "que venceram na vida' finge
de se "fazer dinheiro". O que constituiu novidade foi a documentação ignorar essa desagradável verdade". 20
- prova concreta de que os maiores barões eram barões ladrões, homens Embora estas doutrinas, acomodando-se acs fatos visíveis do caso,
que abriam seu caminho corrompendo as câmaras legtslativas, aproprian- encontrem expressão teórica e forneçam uma explicação para subida va-
do-se de recursos oficiais, organizando monopólios e esmagando os com- garosa e limitada na hierarquia econômica, _Wyllie e outros recentes estu-
petidores". 19 uantes do assunto acham que tais conceitos são ainda somente secundá-
Éft,es recentes estudos confirmam o que fóra antes observado com rrcs na cultura da época. Numa considerável extensão, o tema de êxi-
!reqüênci.::.: que uma extrema ênfase. cultural sôbre .a meta do sucesso to ainda domina as manifestações públicas da cultura americana.
,.,.
ªt~n.t.!a__º".!esJ)eit~ª'().1? .!p~.tQd()sinstítucíonalmente recomendadoapara camí- Mas se as mensagens dirigi das a gerações de americanos continuam
_~h~_f;'m bUscfL.Qe.s.s.a.meta. A "ambição" vem a aproximar-se do sígní- a reiterar o evangelho do sucesso, não se deve concluir que os america-:
. licado de suas origens etimológicas; "correr em redor" e não apenas S8- DOS de todos os grupos, regiões e estratos de classes tenham assimilado
'gundo a forma praticada pelos pequenos políticos da Roma antiga, que uniformemente êsse conjunto de valôres. Não há nenhuma passagem
"f"' rápida e íninterrupta dos valôres expressos na cultura popular para os
.~
.solrcítavam os votos de um e de todos em suas "zonas eleitorais" Iançan-
.do mão de tôda espécie de truques para alcançar a porção de votos nc- valôres pelos quais os homens vivem presentemente. Seria igualmente
cessários. É desta forma que .oJ1Jvb_CllItur~lm~n.teestab.elecido tende a a. errado, contudo, admitir que os dois estejam inteiramente separados, sim-
~fHüificaT todos os meios que perrnitarn ao indivíduo alcançá-lo , Isto plesmente porque não são idênticos. É matéria para pesquisa, e não para
é o que S3 pretendia dizer-no ensaio anterior, sóbre o processo de "desmo- suposição, verificar em que extensão foram assimilados os valores sob
ralização", no qual as normas são despojadas de seu poder de regular a exame. É por isso que; na introdução da Parte Ir dêste livro, foi dito
conduta, resultando daí o componente da anomia, a "ausência de nor- que "entre os problemas que exigem ulterior pesquisa (está) o seguinte:
ma". a extensão em que os norte-americanos de diferentes estratos sociais as-
Éste processo que conduz à anomia, contudo, não tem que se desenro- similaram efetivamente os mesmos objetivos e valôres culturalmente indu-
lar necessariamente sem obstáculos. Sób condições ainda a serem iden- zidos ... " (123) Êste problema pode ser esclarecido mais adiante, exami-
nrícadas, podem-se produzir tendências compensadoras. Em certo grau, nando a pesquisa que sôbre êle tem sido focalizada.
a julgar pejo que diz a história, tal pode ter ocorrido na sociedade norte-
-americana. A ênfase cultural sôbre o êxito ao alcance de todos ficou DIFERENCIAIS NA ASSIMILAÇÃO DOS VALÔRES DO hXITO
contida dentro de certos limites, em parte talvez como reação ao conhe-
CImento cada vez maior da estrutura real de oportunidades e, em parte, Num trabalho recente, _H:e11:>~r.LB_._JIYJl1_an
abordou o problema, co-
como reação às conseqüências desmoralízadoras, da adesão irrestrita a lecionando e reanalisando dados disponíveis em pesquisas de opinião pú-
blica, os quaís tratam direta ou indiretamente da distribuição dos valô-
1-'ssa teoria. Isto equivale a dizer que, embora persista a teoria original,
res dados ao êxito entre os estratos econômicos e sociais. 21 Conforme
ela é de vez em quando contida dentro de limites que aconselham a mo-
êle colocou pela primeira vez o ponto em discussão: "É claro que a aná-
-{~erar as aspirações. Aquêle popular missionário do evangelho do suces-
'80, Ori~onSwett Marderi, advertiu seus leitores: "'O fato é que a maior
2D. Para essas e outras observações comparáveis, ver Wyllic, 144 e scgs.
parte de nós nunca pode esperar ficar rico' ". Um manual de sucesso, pu-
21. Herbcrt H. lIyman, "Thc valuc systems of dl Hercrit classes" em Bendix e Lipsct, edí-
licario no comêço do século, oferece uma filosofia de consolação que re- tõres, Class, Status and Power-, 426-442. Provas adequadas acêrca das aspirações e rea-
defina o sucesso: "Tanto vale ser um soldado raso, como um general que lizações das minorias religiosas e raciais, também são K!pTcsentadas por Gcrhart saen-
ger e Norma S. Gordon, "The influencc of discrinünation on minority group mernbers
in its relatíon to attempts to cornbat díscrimínatlon", Journal of Social Psychologl~,
19. WyJlie. 84-85. 146. 19~0, 31, 95·120,especialmente 113 c segs.
247
Robert li. M erion Sociologia - Teoria e Estrutura
246

sidade, assim como da extensão em que tais valôres são mantidos em


Iise de Merton admite que o objetivo cultural é realmente assimilado pe-
ai versos grupos, estratos sociais e comunidades.
los indivíduos das classes mais baixas".( 427) Em vista dos dados que
Devemos notar, então, que a hipótese do capítulo anterior requer que
são apresentados a seguir, torna-se essencial enunciar esta suposição
uma apreciável minoria, (não todos ou a maior parte), dos que estão nos
mais claramente mediante sua qualificação: a análise admite que alguns
estratos sociais inferiores haja assimilado o mandato cultural do sucesso
indivíduos dos estratos inferiores econômicos e sociais realmente adotam
monetário, e que isto pressuponha a assimilação afetivamente significa-
a meta do êxito. Pois, afinal, a análise não mantém que todos ou a
tiva de tal valor, e não a mera. aquiescência verbal com o dito objetivo.
maior parte dos membros dos estratos inferiores são sujeitos a pressão
Estas duas qualificações fornecem um contexto para localizar as corre-
em direção ao, comportamento não conformista das várias espécies esta-
lações teóricas da evidência empíríca reunida no trabalho pertinente e
beiecidas na típologia da adaptação, mas somente que maior número dê-
íes são sujeitos a essa pressão, do que os situados nos estratos mais altos, compacto de,1:IY1!lfl.!,l...
De modo geral, a lista das evidências, que não é revista aqui em
Na hipótese em foco, o comportamento desviado ainda é o molde subsi-
detalhe completo, pois é tàcilmente acessível, mostra uniformemente os
diário e a conformidade o padrão modal. Portanto, é suficiente que uma
diferenciais nas proporções de adultos e de jovens dos estratos sociais
minoria de tamanho considerável dos estratos inferiores assimile a meta
inferior, médio e superior que são positivamente orientados em direção
para que os seus componentes sejam diferencialmente sujeitos a esta pres-
ao êxito proríssíonal e em direção aos meios estabelecidos para ajudar a
são. como resultado de suas oportunidades relativamente menores, de al-
consecução de tal êxito. Por exemplo, uma pesquisa nacional de opi-
cançar o sucesso monetário.
nião no fim da década de 1930 encontrou diferenciais de classe na cren-
_Jj:yman inicia seu trabalho observando que "o que é obviamente exigi-
ça da oportunidade ocupacional, tal como se registra pelas respostas à
do é a evidência empírica sôbre o grau em que os indivíduos de estra-
pergunta: "Você pensa que hoje qualquer jovem que seja econômico, ca-
tos diferentes valorizam a meta do êxito culturalmente recomendada, acre-
paz e ambicioso tenha oportunidade de subir no mundo, possuir sua pró-
cdtam que a oportunidade é disponível para êles, e mantêm outros valõ-
pria casa, e ganhar cinco mil dólares por ano"? Entre "os prósperos", 53%
res que os ajudariam ou prejudicariam em suas tentativas de se move- confirmaram essa crença comparados com o que Hyman descreve como
rem em direção aos seus objetivos. Êste trabalho, de maneira prelimi- "apenas" 31% entre "os pobres".23 Outra pesquisa nacional encontra 63%
nar, é assim complementar à análise teórica de -M,eriün:'. 22 Aqui, no- dos profissionais liberais e empregados de escritório de categoria (geren-
<lamente, se os dados disponíveis foram ligados apropriadamente à hipó- tes e "executíve") expressando sua crença de que os anos vindouros ofe-
tese, o enunciado precisa ser delimitado. É verdade que a análise reclama
reciam boa possibilidade de progresso, além de sua presente situação,
evidência empírica a respeito do "grau em que os indivíduos dos diferen- comparados com 48% dos operários fabris; outrossim, 58% do primeiro
tes estratos" dão valor ao alvo do sucesso; é evidente que a meta do su- grupo (empregados de mais alta categoria) diziam que o trabalho mais
cesso proporcionará pouco, a titulo de motivação, a menos que êles sejarr, l:nérgico lhes proporcionaria uma promoção, enquanto que só 40% de
significativamente comprometidos ao tema. Na realidade, os dados de segundo grupo de trabalhadores manuais concordavam com esta opinião
pesauisa de que B:YI1151n. se valeu não discriminam entre os graus de com
otimista
prornísso com o objetivo, mas indicam somente a freqüência com que os A ésses dados, citados por ~LIl!ll:.D., podem acrescentar-se outros ex-
índívíduos da amostra tirada dos diversos estratos sociais expressam al- traídos de um estudo soclotógico dos moradores brancos e negros de um
gum grau desconhecido de aceitação do objetivo de sucesso e dos valôres bairro residencial nôvo, de aluguéis baixos. 24 Êstes 500 moradores, em
relacionados. Desde o comêço, então, verifica-se que a pesquisa subse- diferentes níveis dentro dos setores mais baixos da hierarquia ocupacío-
qüente poderia ser dirigida com proveito em direção ao estudo da inten-
23. Ibid., 437. A crença- nas probabilidades realísticas da oportunidade de progresso no
emprêgo parece ests.r razoàvelmente espathada entre os trabalhadores, pelo menos até
22. Ibid., 427·428 [os grifos são nossos). Investigações empíricas a respeito da freqüência nos últimos anos da década de 1940. Por exemplo, Roper relata que numa pesquisa ele
comparativa do motivo de sucesso em diferentes grupos sociais já foram iniciadas. Um trabalhadores. 70 por cento dizia que suas probabilidades de progredir eram melhores
de tais estudos é de R. W. Mack, R. J. Murphy e S. Yellin, "The Protestant ethic, levet que as que seus pais tinham tido e 62 por cento acreditava que as oportunidades para
'~
of aspiration and social mobítítv : an empirical test'' , Amer-Ican Socioto eical Review, seus filhos serram ainda meniorcs que as suas próprias. Esta avaliação relativa das
1956. 21, 295<mO. Éste estudo ínsínuu, embora não com intr:~nção ele demonstrá-Io, qUI?
npnrf un id a.düs ocupacionais, envolvendo comparações entre gcracões consecutivas. pode
a étrce, norte-arnericana do sucesso pode ser bastante mrütrante nara superar as di Ie- ser mais pertinente. em têrmos de uma Imagem das oportunidades, do que as n,valiações
rencas na l:nf3sr: cu't ural encontrada entre .protestantes e catól.oos, nos Estados Unidos. ;\bsoiutas para :;:.própría geração de quem as faz. Ver Elmo. Roper, "A self portrait ot
Outro estudo diz que "o mito de Horatio Atgcr é um mito da classe média que se
thc Amcrtoan people - 1947", Fortu ne, 1947, 35, 5-16.
infíltra em a'gurnaf; nrssoas , mas não em todos. os mcrnbros da classe do homem comum" 21. R. K. Merton, P.· S. West e M. Jahoda, Pa tter ns of Social Life, Capi tulo 3, não publi-
JoseDh A. Kahf. "Educational and occupational aspirattons oI 'common rnan ' bovs",
Harvurd Educationat Jtevtew, 1953, 23. 185-203. cado.
1
248 Robert K. M erton Sociologia - Teoria e Estrutura 249

I
nal, expuseram suas avaliações de oportunidade de melhoria, em suas estratos sociais mais altos do que dos mais baixos, expressam a crença de
ocupações em geral e em seu próprio local de trabalho em particular. 35 que "alguma educação universitária" é necessária "para progredir na vida";
Surgiram três significativos tipos de apreciação.I Primeiro, um tipo de mais uma vez, 91% dos indivíduos "prósperos", entrevistados em uma pes-
1.
crescente otimismo acêrca das oportunidades de "ir pax:aa. frente" nas
ocupações em geral em cada nível sucessivamente mais alto desta modes- li quisa nacional, comparados com 68% dos indivíduos "pobres", expressou o
desejo de que seus filhos freqüentassem 'urna universidade em vez de con-
ta hierarquia de empregos. É como se a mera existência de outros in- seguir um emprêgo imediatamente depois de sua diplomação colegial; além
divíduos em estratos ocupacíonaís mais baixos que o próprio, apoiasse disso, 74% de ·uma amostra de rapazes do grupo entre 13 e 19 anos de ia-
a convicção de que é possível a subida na escala, pois o entrevistado está mílias "ricas e prósperas", comparadas com 42% dos· de "classe inferior",
num estrato relativamente mais alto. Entre os negros com empregos preferiam ingressar nas universidades, como seqüência da dípíomação
um tanto especializa dos, ou de colarinho branco (empregados de comér- num colégio; e finalmente, nesta escolha dos numerosos dados resumidos
cio, de escritório) 63% acreditavam que as oportunidades de progresso em por ~, 14% dos jovens de ginásio, derivados de famílias "pobres", da-
suas ocupações eram boas ou razoáveis, comparados com 44% daqueles vam preferência por um emprêgo que proporcionasse alto salário mas
qUe tinham empregos semi-especializados, e 31% em empregos sem es- grande risco comparado com 31% daqueles provenientes de familias de
pecialização (trabalhadores manuais) ou ';a serviços domésticos. Embo- gerentes de negócios (".executives") e de profissionais liberais.26
ra não fôsse tão pronunciado o mesmo padrão prevalecia entre os bran- A evidência, embora ainda escassa, apresenta constantemente diferen-
cos. ças nas proporções dos diversos estratos sociais te talvez dos negros 6
JfEm segundo lugar, o mesmo tipo, embora com uma amplitude signi- brancos) que afirmam a crença. culturalmente moldada nas oportunida-
ficativamente mais estreita de variação, ocorre nas. estimativas das opor- des de sucesso ocupacíonal, que aspiram a empregos de alto salário, em-
..tunidades predornin.ant~s em ..seuprópriQ local de trabalho. guantoITlais bora sujeitos a riscos, e dão grande valor a melhor educação como meio
_lllto .0 nível de emprêgo,tanto maior ~ proporção dos que acreditavam de progresso ocupacíonal , Porém o que ~ymaD. deixa de anotar, em sua
que as oportunidades de progresso em seus locais de trabalho eram boas coleta de provas, aliás instrutiva e útil, é que do ponto de vista da hípó-
ou razoáveis. Entre os negros, as porcentagens que registravam seuoti- tese oferecida no trabalho anterior, o qU,E!,.interessa não são as proporções
mismo eram respectivamente 43, 32 e 27; entre os brancos, 58, 47 e 44. reiatioas das diversas classes 50ciais qu1'··adotam o alvo cultural do êxi-
.m·a terceiro tipo na avaliação das oportuniciades, contudo, distingue to mas os seus números Dizer que uma porcentagem
absolutos. maior
definitivamente a perspectiva dos trabalhadores brancos e dos negros, co- dos estratos superiores sociais e econômicos adota firmemente o obje-
mo grupos. Os trabalhadores brancos tendem a ver po_uca_diferença en- tivo cultural do êxito, não é dizer que o faça um número maior de indi-
tre as probabilidades das ocupações em geral e em seus próprios locais víduos da classe superior comparados com as pessoas da classe inferior.
de _t:ra.balhQ: o que êles tomam como verdade em geral, também tomam Na verdade, desde que o número de pessoas no estrato superior identi-
como verdadeiro em seus ambientes imediatos. Entre os trabalhadores ficado nestes estudos é substancialmente menor que o número do estra-
negros, particularmente entre os que detêm empregos um tanto mais ele. to mais baixo, acontece às vêzes que mais pessoas das classes mais bai-
vados, tudo isso muda. Qualquer que sejam suas estimativas de oportu- xas adotam êste objetivo, do (ue pessoas de classe superior.
nidades em sua ocupação em geral, tendem a ser decididamente mais pes- Centralizando-se quase que exclusivamente27 nas promoções compara-
simistas na avaliação das oportunidades nos locais onde trabalham. O tivas dos diversos estratos sociais que tenham um ou outro valor de orien-
que essas estatísticas de expectativa ocupacíonal parecem demonstrar é tação - assunto que efetivamente desperta interêsse por seu próprio mé-
que a freqüente convicção entre os trabalhadores negros em cada nível
de ocupação é que êles são barrados no acesso equítativo à melhoria. 26. Hyman, op. cit., 430·434.
A estas provas sôbre as diferenças de classe e de raça acêrca da 27. Numa passagem quase ao final de seu estudo, Hyman claramente observa a distinção
crença nas oportunidades ocupacíonaís, pode-se acrescentar outra evidên- entre ss proporções comparativas e as proporções absolutas (e os números absolutos).
Mas €Ie assim o faz em conexão com um problema especial de teoria do grupo de rere-
cia, citada por _Hy!Uan, sôbre diferenças de classe acêrca do valor atribuí-
do à ~ducação form-al como meio de aumentar a possibilidade de suces-
.. rêncía, e não extrai as conseqüências básicas da. hipótese que tem em mão. Sua obser-
vação é a seguinte: "Embora a evidência até agora apresentada proporcione prova con-
so ocupacional. Por exemplo, proporções substancialmente maiores dos sistente e forte, de que os indivíduos da classe inferior, como um grupo, têm um sistema
de valor que reduz a probabilidade de progresso individual, também é claro nos dado,
apresentados de que há uma considerável proporção do grupo inferior, que não in-
25. As perguntas que provocaram as estimativas eram estas: "Quais são as oportunidades corpora êsse sistema de valôres , [Com relação a alguns itens, Hyman relatou que esta
de progresso para uma pessoa do seu nível técnico, se ela realmente resolve empregar 'consíderãvei proporção' representa uma maioria substanciaJ]. Da mesma forma, hã
tõda a sua fôrça de vontade?" "A respeito do IUgE". onde você agora trabalha, quaís indivíduos nas classes superiores que não demonstram a tendência modal de seu gru-
são as oportunidades para melhorar de vida?" po". Ibid, 441.
250 Robert IC M erton Sociologia - Tecrui e Estrutura 251

- '-[J~>~~
'~:. i:; '.~-_:-Jf;.~.. ;',~~~:~ -.;~".Ff-~~'·~~t''':'f~~~~~1?~c~t.~~~;;~}?:.#:t~E~f~_,:(··-
~_~\.(::::~y:..:~"
~K,.;:1;2~:',-~;;:t~)
"{

rito - Hyman deixa de considerar os fatos que são mais pertinentes !t 3. relativa acessibilidade ao objetivo: ocasiões que se apresentam na
hipótese que está em foco. Pois, conforme tem sido dito repetidamente, vida, na estrutura das oportuuidades ;
a hipótese não exige que maiores proporções, ou mesmo maiores núme- 4. a extensão da discrepãncui entre o objetivo aceito e sua acessi-
lOS de pessoas dos estratos sociais inferiores sejam orientados em direção bilidade;
à meta de êxito, mas somente que um número substancial seja assim 5. o grau de anomia; e
.C
i orientado. Pois é a disjunção entre as altas aspirações culturalmente 6. as proporções de comportamentodesviado de várias espécies es-
~_..,\. o" s!.,:, ~. ; induzidas e os obstáculos socialmente estrutura dos em relação à realiza- tabelecidas na típología dos modos de adaptação.
,':·-;-~w·.• ição dessas aspirações, que' se sustenta como exercendo clara pressão a fa- É claro que não é fácil reunir dados adequados a todos êsses itens
..;;.).1'
I vor do comportamento divergente. Por "número substancial", se enten- úistintos embora relacionados. Até agora, os sociólogos têm tido que tra-
de, pois, um número suficientemente grande para resultar em uma. dis- balhar com medidas conressansmente aproximadas e írnperíeitas de qua-
junção mais freqüente entre os objetivos e a oportunidade, nos estratos se tódas essas variáveis - usando, pOr exemplo, o grau de educação for-
da classe inferior, do que entre os estratos da classe superior mais favo- mal, como sendo um indicador de acesso à oportunidade. Porém, é cada
recida. E mesmo, pode ser que esta dísjunção seja mais freqüente nos vez mais freqüente em sociologia que, uma vez identificadas teoricamente
estratos inferiores de que nos estratos médios, embora ainda fa.ltem da- as variáveis estratégicas, descobrem-se medidas aperfeiçoadas para [;,8
dos empíricos adequados sôbre isto, desde que o número evidentemen- mesmas. Há um crescente intercâmbio entre a teoria, que enuncia a sig-
te maior dos norte-americanos da classe média, que adotam a meta. de su- nificação de certas variáveis: a metodologia, que formula a lógica da pes-
cesso, pode incluir uma proporção suficiente menor dos que são séria- quisa empírica envolvida nessas variáveis e a técnica, que elabora as fer-
mente impedidos em seus esforços para avançar em direção â dita meta. ramentas e os procedimentos para medir as variáveis. Vimos que, ultima-
Em qualquer eventualidade, o requisito analítico fundamental é dis- mente, iniciativas definidas têm -sido tomadas para se achar as medidas
tinguir sistemàticamente entre os achados sôbre as proporções relativas e dos componentes da anemia, tanto subjetivos como objetivos. Talvez se
.',
sôbre os números absolutos 23 nas diversas classes sociais que aceitam () possa supor que estas medidas continuarão a ser melhoradas, e que me-
'~l~.;,:
objetivo cultural, e reconhecer qu~t é a freqüência da disjunção entre o al- didas adequadas para outras variáveis serão elaboradas, especialmente me-
\'0 e o acesso socialmente estrutu~ado em relação a êle, que tem interésse (lidas aperfeiçoadas para o conceito ainda utilizado frouxamente, mas im-
teórico. As pesquisas adicionais terão que resolver o difícil problema de portante daquilo que _\Y-~J~É'r denominou "ocasiões que se apresentam na
obter dados sistemáticos tanto sôbre as metas como sôbre o acesso pa- vida", na estrutura de oportunidades.
dronizado às oportunidades e de analisá-Ios juntamente a fim ele ver se ~ Desta maneira, tornar-se-à possível descobrir a topografía social da
combinação de elevadas aspirações e pequenas oportunidades ocorre anomía . 'I'ornar-se-á possível localizar os lugares estruturais na sociedade
com .freqüência substancialmente diferente em vários estratos sociais, norte-americana, por exemplo, onde esteja no ponto máximo, a disjunção
grupos e comunidades, e se, por sua vez estas diferenciais são relaciona- entre os valôros culturais que determinaram ao povo manter certos ob-
das em diferentes proporções, com o comportamento desviado. Esque- jetívos, e as possibilidades padronizadas de viver conforme êsses valôres. --:.
màticarnente, isto exigiria dados acêrca das diferenciais socialmente pa-
Tal inquérito viria contrariar qualquer tendência impensada em pressu-
dronizadas em ,;
'por que a sociedade norte-americana esteja uniformemente afetada pela .) .\(;.
1. exposição à meta cultural e às normas que regulam o comporta-
anornía. Ao contrário, determinaria pela pesquisa os status na estrutu-,
mento orientado em direção àquele objetivo;
ra da sociedade americana que acarretam a maior dificuldade para que'h. .> '>';\',.'
2. aceitação do objetivo e das normas como mandatos morais e va-
os indivíduos sigam os requisitos normativos, pois isto é que se Quer dizer
lóres assimiiados;
quando se afirma que a disjunção entre as normas aceitas e as oportuni- (
nades para uma conformidade com essas normas socialmente recompen-
28. Deve-se notar, pelo menos de passagem, que a necessidade de razer esta distinção tem sada, "exerce pressão" favorável ao comportamento desviado, e produz a
'C~
l:õ:.ügainfluencia na a.nálise da vida social. Por importantes que sejam em si mesmas, anomia.
as proporções retuttvas dos que se situam em vários estratos sociais e grupos que ex..
Assim como é oportuno identificar as fontes de diferentes graus de
bem atitudes particulares, talentos. riqueza ou qualquer molde de comportamento, não
deve ser permitido que obscureçam, como freqüentem ente o fazem em estudos sociotó- anomia em diferentes setores da sociedade, também é oportuno examinar
~icos, o fato igualmente importante dos números absolutos que manifest.am (f3tes itens em as variáveis adaptações, e as fôrças que favorecem um ou outro dêstes
diferentes estratos e grupos. Do ponto de vista dos efeitos sóbre a. sociedade. 33..0 rre-
tipos de adaptação. Um certo número de estudos recentes influi neste
qüentementc os núrneros absolutos e não proporções relativas que irnportam . Pare
0UtrOS exemplos desta mesma consideração, ver o Capítulo XII dêstc livro, nota 16. problema geral.
;;:;.

lt
~ Jõ2 Robert K. Merton Sociologia - Teoria e Estrutura t 253
i

A ANOMIA E AS FORMAS DE COMPORTAMENTO nificado semelhante à ação do jovem que periõdicamente assalta mem-
DIVERGENTE bros de outro grupo.
Além do mais, a decisão de abranger uma extensa lista de comporta-
Inovação mentos sob a rubrica de crime ou delinqüência, tende a fazer supor que
uma só teoria explicará todo o campo de conduta \olocado em tal catego-
A primeira forma de comportamento divergente identificada na tipo. ria. No pensamento lógico, isto não é muito distanciado da suposição
Jogía estabe!ecida no capítulo anterior foi descrita como inovação. Pode. de um Benjamin Rush ou de John Brown, de que deve haver uma teoria
·se recordar que isto se refere à rejeição de práticas institucionais, com da doença, ao invés de diferentes teorias de doenças: da tuberculose e da
a retenção dos objetivos culturais. Isto poderia na aparência caracte- artrite, do síndrome de Meniêre e da sífilis. Assim como classificar con-
rizar uma parte substancial do comportamento transviado que tem rece- dições e processos profundamente diversos sob o único título de doença,
bido a maior porção de atenção da pesquisa, por exemplo, aquela que se levou alguns zelosos e sistemáticos médicos a crer que era sua tarefa fa-
inclui vagamente nos conceitos gerais de "crime" e "delínqüência", Uma zer evoluir uma teoria geral da doença, que tudo abrangesse, também,
vez que a lei proporciona critérios formais para êsses tipos de desvio, ao que parece, o modismo consagrado, tanto coloquial como científico, de
êles vêm a ser relativamente observáveis e logo se tornam focos de estu- 13e referir à "delinqüência juvenil" como se tôsse uma só entidade, leva
do , Em contraste, outras formas de comportamento que do ponto de vis- alguns a crer que deve haver uma teoria básica de "sua" causação. _Tal.: ....
ta sociológico, embora não do legal, se consideram desvios das normas vez isto seja s1,Jficiepte para. suger:!r .o quep~Çl~fligr1Íficar rE;!fE!.r.ir·se
..ao cri~
aceitas, por exemplo, aquela que denominamos de "retraimento" _ são me OU à dE)linqüência juvenil, como um conceito que tud0!tl:Ju!:,ca e que
menos visíveis e recebem menor atenção. pode perturbar as formulações teóricas do problema.
Diversos estudos indicaram ultimamente que os conceitos convencío- riesde que se sabe que _Lc.QillPm1amentQ_.Q!:.cliiJ.àriameDte __4escrito_c_Q·
. "nais de "crime" e "delinqüência", podem servir para obscurecer ao invés mo crímínoso ou delinqüente é, da ponto de vístauocíotõgícç, JntE)iramen-
•.....".'.,de esclarecer o entendimento da numerosa variedade de comportamento te va.ria.do_€'díspar, torna-se evidente que a teoria em discussão não pode
desviado à qual se referem .. _. lLu.b~rt,por exemplo, observa que "a defi- dar. conta de tôdas as formas de comportamento desviado. Em seu li-
.'.nição legal de crime... provavelmente [representa] pouco em comum en- _.S!BJ:llp. sugere que esta teoria é "alta-
'.'TO sensível às teorias, l'l.lberLK ..
.tre todos os fenômenos cobertos pelo conceito... E o mesmo parece ser mente plausível como uma explicação do crime profissional dos adultos
.<, Terdadeiroem relação ao crime de 'colarinho branco'... Êsse tipo pode e dos delitos contra a propriedade cometidos por alguns ladrões juvenís
também diferir muito em sua natureza, e pode exigir explicações causais mais idosos e serniprofíssíonaís. "Infelizmente - continua êle - não
inteiramente diferentes".29 explica a qualidade não utilitária da subcultura ... Se o participante da
No processo de aplicação de um têrmo, tal como o de crime' ou delin- subcultura delinqüente estivesse empregando simplesmente meios ilícitos
qüência, a uma classe de comportamento, desenvolve-se uma tendência de para a finalidade de adquirir valôres econômicos, mostraria mais res-
atender primeiramente às semelhanças - conseqüentes ou não - entre peito pelos bens que assim adquiriu. Além do mais, a destrutividade, a
os itens de comportamento abrangidos na dita classe. Formas de com- versatilidade, o 'gostinho: especial em praticar ação proibida e o total
portamento sociológica e inteiramente distintas, por exemplo comporta- negativismo qUe caracterizam :1 subcultura delinqüente estão além do al-
;~
...

mento de jovens, vêm a ser designadas pelo têrmo genérico, "delinqüên- cance desta teoria". 30
cia juvenil". Isto acarreta com freqüência a suposição de que a extensa. A primeira e mais saliente afirmação feita por Cohen, convida ao con-
diversidade de comportamento dos indivíduos ~ue se lançam a uma ou senso e merece rsíteraçãoj A teoria da anemia anteriormente exposta
outra rorrna de tal conduta, sejam de espécie teõricamente semelhante.
No entanto, é questionável que 0 comportamento do jovem que haja des- 30. Albert K. Cohen , Delinquent Boys (Glencoe: The Free Press, 1955), 36. Uma vez que
alguns dos principais ternas teóricos estão sendo examinados em relação com o livro
viado algumas peças de "baseball" dos seus companheiros tenha um sig- de Cohen, são apenas citadas as seguintes discussões que se referem ao paradigma da

I
estrutura social e da anemia, como base para analisar o comportamento criminoso e
delinqüente: Milton L. Barron, "Juvenile delinquency and American values", American
29. Vilhelm Aubert, "White-collar crime and social structure", AmericanJournal of Socio- Suciological Review, 1951, 16, 208-214; Solomon Kobrin. "The conflict of values in delín-
logy, 1952, 58, 263·271, à pág. 270; conferir, também, R. K. Merton, "The sccial-cuf tural quency areas", American Sociological Review, 1951, 16, 653·662; Ralph H. Turner, "Value
envlronment and anomie", em Helen L. Witmer e Ruth Kotinsky, editõres, New Pers- conflict in social disorganization", Sociology and Social Research, 1954, 38, 301-308; W. J.
peelives for Research on Juvenile Delinquency (Washington, D.C.: U. S. Department of H. Sprott, The Social Background of Delinquency (Unlversity of Nottingham, 1954>.
Health Education and Welfare. Children 's Bureau, 1956), 24-50, inclusive discussões per contorme resenha de John C. Spencer, em The Howard Jnurnal, 1955, 9, 163-165; Her-
membros ds. conferência; Daniel Glaser, "Criminality theories and behavioral image.:-;H. mann Mannheim "Juvenile delinquency", British Journal of Sociology, 1956, 7, 147-152;
American Joum"! of Sociology, 1956, 61, 433·443, à pág; 434. Aubert, op. cit.; Glaser, op. cito

L
255
Sociologia - Teoria e Estrutura
254 Robert K. Mertrm.

Ao estudar a subcultura da delinqüência, .C.pJleJ:j"está evidentemente


serviu para explicar algumas, e não tôdas as formas de compor~mento numa linha direta de contínuiuade com os estudos anteriores de_S.h.a.Y>'~.
desviado, babitualmente descrito como criminoso ou delinqüente.j O se- .McKªy, e especialmente,_Tl}j::ª@g. 32 Contudo, êle prossegue observando
gundo ponto será importante, se se revelar verdadeiro; em qualquer ca- que "êstes estudos diziam respeito principalmente ao problema de como se
so, terá o mérito de focalizar futuras pesquisas sôbre suas correlações. transmite aos jovens a subcuttura da delinqüência e que o problema cor-
Êste é o ponto em que a teo!i[1_ct!_('!§'!!'_1:I_~!:l_ra_ spcial e da anomía não expli- relativo, ao qual êle própria se dirige, diz respeito à origem de tais mol-
ca o _car:M~r."n,ªº ),IJUitá,rio" de. boa parte do cor,nportgmeIJ..tQQJJe ocorre des culturais. De maneira muito semelhante, é possível distinguir entre
I!ºlLgrl,lIl..o.e_gE:!.º~}ipqijêneia. Mas ao explorar êste assunto mais profun- uma teoria que trata apenas das reações dos indivíduos às tensões cultu-
damente, deve-se recordar, para fins de clareza teórica, que esta teoria não ralmente induzidas, tal como foi proposto por _IS;:'H:t:m.J:!º:r!l,~'yy
por exem-
afirma que o resultante comportamento desviado seja racionalmente cal- plo, e uma teoria que trata também dos efeitos d.as reaçÓés -á'gregu-das e alo
culado e utilitário. Ao invés, centraliza-ss sôbre as pressões agudas cria- gumas véze~ socialmente organizadas, sôbre a própria estrutura norma-
das pela discrepância entre os objetivos culturalmente induzidos e as opor- tiua .
tunidades socialmente estruturadas , As reações a essas pressões, com .ºh~Jla1/l.CI3..ao VTOÇ,(!:)sgsqciqL q1te.Jiga. lL._.anomia. eo. comz;ort.a.~~nto
as conseqüentes tensões sôbre os indivíduos a elas sujeitos, podem envol- des.v.ia§:o. A.fim de colocar êste problema em seu contexto teórico apro-
ver um considerável grau de frustração e de comportamento não racio- priado, é necessário que vejamos a gênese e o crescimento da anemia co-
nal ou írractonai.si A "destrutívídade" tem sido amiúde psicológícamen- mo resultante de um processo social em movimento e não simplesmente
te identificada como urna forma de reação à rrustração continuada. Da como uma condição que ocasionalmente surge.33 Dentro dêsse contex-
mesma forma, parece que o "negatívísmo total" pode ser interpretado, sem to, o processo pode ser provisàriamente retratado do seguinte modo. D8'
alargar a teoria a fim de incorporar variáveis novas e ad hoc, como um vido à sua posição objetivamente desvantajosa no grupo, assim como as di-
repúdio persistente às autoridades que personificam a contradição entre Ierentes configurações de personalidade, 34 alguns indivíduos são sujeitos
as aspirações culturais Iegítimízadas e as oportunidades socialmente res-
tríngídas. 32. Entre as muitas publicações bem conhecidas por êste grupo de sociólogos, ver ClifIord
Contudo, parece que a "versattlidadeve o "gostinho" com que alguns ra- R. Sha',v e Henry D. Mckay, Juvenile DeUnquency and Urban Arcas (University Df

pazes praticam seus desvios apoiados pel,?se,!l grupoJ não. são diretameQ- Chicago Press, ]942); Frederic M. Thrasher, The Gang (University of Chicago Pres:.,
('\
~.: 1936), 2, edição.
te expliçados pela t~oria da estrutura social e da anomia. Quanto às fon-
33. Ver Merton, "The social and cultural environment and anornie", op. cito
tes dessas particularidades do comportamento desviado. deve-se presu- 34. É consistente com a teoria em exame reconhecer que constelações ramíüares caractr-
mivelmente observar a interaçáo social entre êstes indivíduos transviados rlstícas podem promover a vulnerabilidade a pressões anômícas , Por exemplo, _Fn::.nz.
~~xa.n-ºr;!.r._:escreve de seus pacientes oriundos "de norte-americanos da segunda gera-
.\ de mentalidade semelhante, os quais mutuamente reforçam suas atitudes
çao;··rllembros de famílias de lrntgr z-ntes, e.. de um grupo de minoria racial" que o
, e comportamentos divergentes que, em teoria, resultam da situação mais papel do pai é muito importante no sentido de incutir no filho uma preocupação do-
ou menos comum em que êles mesmos se encontram. É a esta fase do míriante em relação ao êxito monetário. Tal como o expltca. "um resu.tado habitual
\. progresso total de comportamento desviado, apoiado pela "gang" ou tUY- é que o rítho, usurpando o lugar do pai no areto da mãe, assim como em muitos
aspectos materiais desenvolve tremenda ambição. Quer justificar tôdas ao5 esperan-
ma, que_Ç.pJ;1~n aplica especialmente sua instrutiva análise. Porém, como ças e sacrifícios da mãe e assim acalmar sua consctêncta em relação ao pad. Há só-
indica mais adiante em seu livro (54), antes de prosseguir na análise mente um meio de rea.l ízar essa finalidade. Éle deve ter bom êxito, custe o que custar-
dos tipos de =soluções'' para as dificuldades que os "rapazes delinqüentes" Na. hierarquia de valóres. o sucesso torna-se supremo, sobrepuja.ndo tudo o mas, e C
rracasso torna-se equivalente ao pecado... Conseqüentemente, todos os outros vícios
encontram em seu meio social imediato, é preciso atentar para as fre- tais como a insinceridade nas relações humanas, a deslealdade na eoncorrênci a-, a in-
qüências vat íáveis com que tais dificuldades se apresentam. Nesta parte fidelidp.de, a õesccnsideraçãc para com os outros, parecem não ter a menor impor-
de sua análise, Cgn.en efetivamente examina as fontes sociais e culturais tànciz. relativamente; e então surge o formidável fenômeno do ímpíedoso carreírlsta ,
obcecado pela única idéia da autopromoção, caricatura do homem que se fêz por si
dessas pressões, em têrmos sensivelmente iguais aos que temos conside- mesmo, ameaça a civilização ocidental cujos prmcípios êle reduz a um absurdo". Franz
rado. Sua análise cabalmente sociológica faz progredir consideràvelmen- A'exander , "Educative influence ot personality factor<: in the environment", reimpres-
,:; so por Clyde Kluckhohn, Henry A_ Murray e David M. Schneider, edltôrcs, Pcrsonality
te nosso conhecimento de certas formas de comportamento transviado,
comurnente encontradas em grupos de delinqüência, e assim faz arnplian- In Nature, Society and Cn\turc (Nova torque : A. A. Knopf, lS53, 2>. ed.), 421-435, "'3
págs, 4:n·4:n.
do o tipo de teoria estrutural '! funcional que estamos examinando. Esta. análise essencialmente psicológica da formação dos objetivos de sucesso ilI
mitado e, portanto. destruidores das normas deve, contudo, ser ligada a uma aná.líse
sociológica. se desej a r mos ..f_Q!!§19~r.ªL_i.Q1.ll:a.rcUl.tlJl·cn.tç __os fatos. Pois, mesmo que êste.:
31. EIn seu comentário precisamente sôbre êste ponto, He rman Mnn nhcim indicr. que a esforços para o êxito possam se desenvolver de nõvo e mais ou menos índependerrtes
teoria "pode ser muito bem capaz de expftcaa- muito mais do que símp.esrncnte a em cada uma. das familias que estão sendo descrttas, o comportamento t rsmsvladu oco r
for-ma utilitária de expressar aspirações frustradas". OIto cit., 149.

1.
256 Robert K. Merton Sociologia - Teoria e Estrutura ~'1
2;).

mais do que outros, às tensõ~llju?!!rg~!lJ. __gafli.s.(}x:eJ!ªº.:;~ª_~tre os Qbje- por exemplo, que a teoria era aplicável a um caso de pesquisa científica
_.Qªr-ª_§:U.~ _realização . Conseqüen-
t.ivQLGIDturais __!Lº-ª-Jn~!9~.illID:? _.!#.tlYQ:? em que colaboraram várias disciplinas, a casos de comportamento em co-
t.emente, êles são mais vulneráveis ao comportamento desviado. Em al- municações de massas, S5 a um caso de desvio da ortodoxia religiosa 36 e 2.
guma proporção de casos, também dependentes da estrutura de contrô- um caso de conformidade com as normas sociais e de desvio das mesmas
Ie do grupo, êsses afastamentos das normas institucionais são socialmen- DUma prisão militar 37 - casos êsses que, pelo menos à primeira vista,
te recompensados pelo bom "êxito" em alcançar as metas. Porém, êstes pareceriam ter pouco ou nada em comum com a meta do êxito monetá-
modos desviados de alcançar os objetivos ocorrem dentro de sistemas rio. Como foi dito na exposição inicial da teoria, "o sucesso monetário
sociais. Em conseqüência, o comportamento desviado afeta não somente foi tomado como o principal objetivo cultural" somente "para os fins de
0.8 inc4:v.íquos q\leprimeirameIlte§~lançam.~. êle, ffiª,s cl~__
ce..r:tQIllQ.c!o,afeta simplificação do problema .. _ embora existam, naturalmente, outros objeti- .
La,gl~êfl:umtros_.i..tJ._<1!.Y!clUº_SǺm
qll~m.êle:?são ínter- relacíonadosno sistema. vos nos repositório de valôres comuns".(157) Em têrmos da concepção: 0, '}.-r,')!w.~
Uma freqüência crescente de comportamento desviado, mas "bem su- geral, quaisquer objetivos culturais que recebam ênfase extrema e ape-I/::;:, (;, pd.tj~
cedido", tende a diminuir e, até mesmo, como possibilidade extrema, a elij-' . nas insignificantemente qualificadas na cultura de um grupo. servirão! yí-\·'J\Q.i \.j
minar a legitimidade das normas tnstítucíonats para os demais compo- para atenuar a ênfase sõbre as práticas ínstítucionalízadas e contribuirão: nb.\, ~l·.
nentes do sístema. O processo aumenta assim a extensão da anemia para a anemia ..
dentro do sistema, de modo que outros indivíduos que não reagiam sob Da mesma maneira, é necessário reiterar que a tipologia do compor-r
forma de comportamento desviado à leve anomia que a princípio preva- tamento desviado está longe de ser confinada ao comportamento ordínà-
lecia, chegam assim a proceder, quando aanomia se espalha e é intensifi- riam ente descrito como criminoso ou delinqüente. Do ponto de vista da
cada. Isto, por sua vez, cria uma situação mais agudamente anômica, sociologia, outras formas de atastarnento das normas reguladoras podem
para outros indivíduos do sistema social, que de início seriam menos vul- ter pouco ou nada a ver com a violação das leis do país. Simplesmente
neráveis. Desta forma, a anemia e as proporções crescentes de compor- identificar alguns tipos de desvio, é em si mesmo um problema difícil de
tamento desviado podem ser concebidas como ínteratuantes, num preces- teoria social, que está sendo progressivamente esclarecido. Por exemplo.
so de dinâmica social e cultural, com conseqüências cumulativamente foi efetuado visível progresso teórico pela concepção de J?-ª.r.liiPJ1s, de que
destruidoras da estrutura normativa, a menos que entrem em jôgo meca- li doença num de seus principais aspectos. é "definida como uma form:t
nismos de contrôle e de retenção. Em cada caso específico em foco, é de comportamento desviado, e que os elementos da motivação do desvio,
essencial, como temos dito, identificar os mecanismos de contrôle que que são expressos no papel do doente, são conexos com aquêles expres-
"diminuem as tensões resultantes de contradições aparentes [ou reais] sos numa variedade de outros canais, inclusive tipos de conformidade com-
entre os objetivos culturais e o acesso socialmente restrito" a êles. {123i pulsiva que não são socialmente definidos como de desvio". 38
Como outro exemplo, o comportamento que se pode descrever com')
Conjeturas Ulteriores da Teoria
"superconformidade" ou "supersubmíssâo" às normas ínstitucíonais, tem
sido socíolõgícamente considerado como divergente, mesmo que à pri-
Uma seção anterior dêste capítulo examina as provas relativas às
meira vista possa parecer corno representativo da conformidade decla-
formas de reação à anomía, abrangidas no conceito afetivo e eticamente.
neutro de "inovação" ou seja, o uso de meios institucionalmente proibidos
,\, 35. Warren G. Bennis, "Some barriers to teamwork ín social research", Social Problems,
para atingir um objetivo culturalmente válido. Antes de estudar as pro- 1956, 3, 223-235; Matilda White Riley e Samuel H. Flowerman, "Group relations as a
vas relatívas a outros tipos principais de reação - ritualismo, retraimen- i
I
varrable in communications research", American Sociological Review, 1951. 16, 174·180;
to e rebelião - devemos salientar outra vez que a teoria geral da estru- Leonard 1. Pearlín, Thc Social and Psychologieal Setting of Communications Behavior,
tura social e da anomia não é confinada ao objetivo específico do êxito I (Columbia University, tese inédita de doutoramento
tata fortes tendõncias em usar a televisão
em sociologia, 1957). Pearlin cons-
como "fuga" entre aquêles que estejam
monetário e às restrições socíaís para o scesso ao mesmo. Verificou-se,
I altamente motivados a alcançar mobilidade social e ao mesmo tempo colocados numa
ocupação que não permita. a rápida satisfação de tal objetivo. Uma das prmcípaís
? conclusões dêste estudo empíríco é que fia televisão está bem definida como um íns-
re num sistema social que articula de várias maneiras êsses tipos de comportamento trumento pelo qual as pessoas podem fugir a conflitos e tensões que têm sua etíología
diversamente iniciados. Desta maneira, qualquer que seja a situação inicial de cada no sistema social".
indivíduo, o comportamento divergente elos indívíduos fora da família tende a apoiar- 36. Celi", Stopnicka Rosenthal, "Deviation and social change in the Jewish communlty or
-se mutuamente, tornando-se destrutivo das normas estabelecídas. A anom!a se trans- a small Polish town". American .Tournal of Sociology, 1954, 60, 177·181.
forma em fenômeno social, muito além dos limites de um grupo de fam11!as separa- 37. Richard cíoward, Tbe Culture of a !llilitary Prison: A Case Study of Anomie (Glencoe:
das e distintas. Uma análise relativa. a êstes dados encontra-se em Ralph Píería, , The Free Presa, ainda inédito); e o resumo parcial de Cloward, em Witmer e Kotins
"Ideologícal momentum and social equilibrium", American .Tournal of Sociology, 1952, ky, op. cit., 80·91.
57, 339-346. 38. Parsons, Tbe Social System, 476-477, e todo o Capitulo X.

--j
258 Robert K. Mertoni Sociologia - Teoria e Estrutura 259

rada.39 Como a tipologia das reações à anoznía pretende deixar claro, é justo mas parece o contrário, e como depois de tudo é melhor para é-e sofrer assim
esses são tipos distintos de comportamento que, em contraste com a sua do que seguir a multidão na prática do ma1.40

manifesta aparência de conformidade com as expectações Instítucíonaíí-


zadas, pode ser apresentado na análise sociológica como representativo de \'-_0. , Tudo isto não necessitaria ser repetido se não fôsse a suposição for-
VI ..
" tuíta e ao que parece, 'sempre mais freqüente, de que o comportamento
afastamento dessas mesmas expectativas. C,Yí; 2
desviado necessàríamente equivale à disfunção social, e a disfunção so-
Finalmente, a título de preâmbulo a esta revisão de outros tipos de /). cial, por sua vez, à violação de um código de ética. _NILbis.t6na de cadª
comportamento desviado, deve-se notar mais uma vez que, do ponto de ,1.:\."0: . sociedade, presumivelmente, alguns. dos .11Elróis.de sua cultura foram con-
vista da sociologia, nem todos êsses desvios das normas dominantes do
siderados heróicos, precisamente porque tiveram a coragem e a visão de
grupo são necessàriamente disfuncionais em relação aos valôres básicos
v' ."afastar-se de normas que então prevaleciam no grupo. Como bem sabe-
f; à adaptação ao grupo. Correlativamente, a aderência estrita e não
questionada a tôdas as normas dominantes seria funcional somente num
t ;)l-~,.~'~ -
-mos: - ô--~~beúi~:-o"~e;ólucÚ;nãriõ, o não-contormísta, o individualista, o
heróico, ou o· renegado da véspera é, muitas vêzes, o herói de hoje.
grupo que jamais existiu: um grupo que seria completamente estático e Também se deve dizer, pois isto é esquecido com tanta facilidade,
invariável, num ambiente social e cultural estático e invariável. Algum que centralizar esta teoria sôbre as fontes culturais e estruturais do com-
(desconhecido) grau de desvio das normas correntes é provàvelmente portamento desviado, não significa concluir que tal comportamento se-
funcional para os objetivos básicos de todos os grupos. Um certo grau. ja a reação característica, e muito menos exclusiva às pressões que te-
de "inovação", por exemplo, pode resultar na formação de novos padrões mos examinado. Esta é uma análise de proporções e tipos variáveis de
institucionalizados de comportamento que sejam mais adaptativos que os comportamentos desviados, não uma generalização empírica com a fina-
antigos, para favorecer a realização dos objetivos primordiais. lidade de provar que todos os que estão sujeitos a essas pressões reagem
Constituiria uma visão míope e, além disso, um julgamento ético dis- mediante o desvio. A teoria apenas assevera que os que se acham lo-
'. simulado admitir que mesmo o comportamento desviado disfuncional calizados em lugares na estrutura social, particularmente expostos a tais
em relação aos valôres correntes do grupo, seja também êticamente defi- tensões, têm maiores probabilidades que outros a apresentar desvio de con-
:(- ciente; pois, como temos tido freqüente ocasião de observar neste livro, o duta. No entanto, c0l!lQ..!esUlta~() dos mecanismos sociais contrários,
.conceíto de disfunção social não é um substituto terminológico de últí- mesmo estas posições carregadas de tensão não induzem tipicamente ao
[ma hora para a "moralidade" ou as "práticas antíétícas". Um ·determina,., desvio: a conformidade tende a permanecer como reação modal. Entr':!
do padrão de comportamento que se afaste das normas dominantes do ósmecanismos compensadores, - conforme foi "sugertclo--nü capítulo prece-
grupo pode ser dísfuncíonal quando diminui a estabilidade do grupo ou dente, está o acesso a "outros objetivos no repositório dos valôres co-
quando reduz suas probabilidades de alcançar as metas que o mesmo va- muns ... Na medida em que a estrutura cultural conceda prestígio e essas
loriza. Mas, do ponto de vista de outro conjunto de padrões éticos, pode alternativas, e a estrutura social permita acesso a elas, o sistema torna-
ser que os defeitos estejam nas normas do grupo e não no inovador que -se, de certo modo, estabilizado. Os transgressores potenciais ainda podem
as rejeita. Isto tem sido definido com característíca intuição e eloqüên- I se conformar com êsses conjuntos auxilares de valôres".(157) Já se ini-
cia por um dos homens verdadeiramente grandes de nossa época:
1 ciou a pesquisa do funcionamento
conduta divergente. 40 a
de tais alternativas como freios da

Na tribo primitiva cada classe tem sua :Thloira ou quota designada e seu Ergon Ou fun-

I
ção. e as coisas vão bem se cada classe e cada indivíduo preenche sua Moira e cumpre seu
Ergon, e não transgride ou viola os dos demais. Na linguagem moderna, cada classe ou 40. Gilbert Murray, Greek Studies (Oxrord : Clarendon Press, 1946), 75, A alusão é ao
indivíduo tem seu serviço social a realizar e gozz; seus direitos conseqüentes. E a velha segundo livro da República de Platão: se a formulação original de Pistão justif •.•• n
Themis [lei ou justiça personificada, e as coisas que "são feitas"]; mas uma Themis vasta-- paráfrase de Gílbert Murray, é sutil questão de opinião.
mente ampliada pela íms.gínação, e tornada mais positiva. Uma Themis em que podeis ser 40s. Ver o trabalho a ser publicado brevemente, de Ruth B. Granick. "Biographles of popu-
chamado não só para morrer por vosso pais - as mais antigas leis tribais já íncluícm isto lar Negro 'heroes"'. Seguindo os processos estaoelectdos por Leo Lowenthal em seu es-
- mas a morrer pela verdade, ou, conforme vem explicado Duma passagem maravilhosa do tudo das biografias populares, Granick analisou a composição soc'al dos "heróis ne-
segundo livro, a desafiar tôda a lei convencional da vossa sociedade por amor à verdadeira gros" em duas revistas populares Ilustradas. destinadas príncpatrnente a leitores ne-
lei que tenha sido desamparada ou esquecida. Ninguém que a tenha lido pode esquecer
fàcilmente o relato do homem justo na sociedade má ou equivocada, como êle é açoitado
'~..
11;
gros, dentro do contexto proporcionado pela teoria do comportamento transviado que
está sendo estudada. A autor •• encontra diferentes roteiros para alcançar êxito no
e cegado e por fim empalado ou crucificado pela sociedade que o entende mal, porque êle mundo das diversões) para negros e brancos, embora os status de valor aparente
pareçam bastante idênticos para êstes dois subgrupos. O mais interessante é a sua
conclusão provisória de que o acesso a diferentes metas de ·"tto proporciona amplo
39. Ver a discussão a respeito, na seção seguinte devotada ao padrão de retraimento em espaço para o comportamento conformista, e não para o desviado. O estudo bem
resposta à anomia. conhecido de Lowenthal encontra-se em "Biographies ín popular magazines', P. F .

.ij
-'-~"'-~'- --y ~~-.---- .•._-~~_._--_._-- ._ ...•... _--_._-- .. _,,--- _ •.••_---_.~ ....•._~--_. -._ .....",.,,-~--""'"'"'-'..••..."'---~.- .•.:.' •_- ~ .. _._~~-. .. _~.--ç- ..~
260 Robert K. Merion
Sociologia - Teoria e Estrutura 261

Resummdo, torna-se evidente que (1) a teoria em exame trata de


metas de diversas espécies, postas em relêvo pela cultura e não sórnen- mar-se precisamente porque estão sujeitos à culpa engendrada pela an-
te da meta do êxito monetáric. que já foi estudado a título de ilustra. terior não-conformidade com as regras". 41 Sôbre esta hipótese em espe-
\'.'

~.
ção; (2) ela distingue formas ÔC" comportamento desviado, que podem es- r-ia.I, ainda há poucas provas sistemáticas, além de um estudo psicanalí-
tar muito afastadas das que representam violações das leis; (3) que o tico de vinte "burocratas" que julgavam apresentar tendências à "neu-
comportamento desviado não é necessôruimente dísfuncíonal para a ope- rose compulsiva". 42 Mesmo estas provas escassas, contudo, não se rela--
ração eficiente e o desenvolvimento do grupo; (4) que os conceitos de cionam diretamente com a presente teoria, que tem de se haver, não com
desvio social e de disfunção social não agasalham premissas éticas ocul- tipos de personalidade, embora isto seja importante para outros propósí-
tas; e (5) que metas culturais alternativas proporcionam uma base para. tos, mas com tipos de desempenho do papel em resposta a situações so-
a estabilização dos sistemas sociais e culturais. cialmente estruturadas.
f De interêsse mais direto é o estudo feito por _r~t§.r.J\,.L",!3Jan 43 sôbre
Ritualismo o comportamento dos burocratas. Êle sugere que os casos observados de
superconformidade "não são devidos ao fato de que a aderência rítuaiís-
Tal como está situado na tipología, o rítuausmo é um tipo de reação tica aos procedimentos operacionais existentes se tenha tornado um hábi-
em que as aspirações culturalmente definidas são abandonadas, enquan- to inescapável" e que "o ritualismo resulta não tanto da superidentifica-
to "a gente continua a acatar quase compulsívornente as normas institu- ção com as regras e a profunda habítualidads com as práticas estabele-
cionais". Ao expor êste conceito, dissemos que "seria um jôgo de pala- cídas, como da falta de segurança em importantes relações sociais dentro
vras terrnlnológíco perguntar S8 isto constítuí um 'comportamento diver da organização", Em poucas palavras, quando a estrutura da situação
gente'. Desde que a adaptação, com efeito, é lima decisão interna e des- não suaviza a ansiedade de status e a ansiedade sôbre a capacidade de
de que o comportamento branco é ínstítucíonalmente permitido, embora satisfazer as expectativas institucionalizadas, os indivíduos destas organi-
não seja culturalmente preferido, não é geralmente considerado como re- zações reagem pela excessiva submissão.
presentatívo de 'um problema social'. As pessoas íntimas dos indivíduos As situações modeladas pela estrutura social que convidam à reação
que estejam fazendo esta adaptação podem dar opinião em têrrnos da ritualista ela superconformidade às expectações normativas têm sido re-
ênfase cultural predominante, e podem 'ter pena dêles'; num caso indivi- j.roduzidas experimentalmente e, evidentemente, de modo apenas hornó-
dual. podem sentir que 'o velho Jonesy está certamente em decadência'. logo, entre carneiros e bodes. (O leitor certamente resistirá à tentação
_Q,1..!?rse__descreva ,êste comportamento corno desviado ou não êle repre- de pensar que não se poderiam ter encontrado animais mais simbolica-
sgn.t.~_cJa,ral!lep.te,llI!l afastamento do modêlo cultural, no qual os homens mente apropriados), Convém lembrar que a situação que envolve o ritua-
são obrigados a se esforçar ativamente, de preferência através dos proces- Esmo, envolve II repetida frustração dos objetívos fortemente desejados,
sos ínstitueíonalizados, a fim de caminharem para a frente e para cima, ou a constante verifica;;ão de que a recompensa não é proporcionada à,
na hierarquia social" (224) eonformidade, O psicobiologista Howard S. Lidg.!ill, com efeito, reprodu-
, Desta maneira. sugeriu-se que a aguda ansiedade de status, numa so- ziu ambas essas condições em sua série de experiências, 44 Citamos um
~iedade que dá grande importância ao tema do sucesso na vida, pode exemplo, entre muitos:
\. induzir o comportamento desviado descrito como "superconformidade" e
"supersubmissâo", Por exemplo, tal supersubmissâo pode ser encontrada Um bode". é trazido ao laboratório cada dia, e submetido a uma prova simples: cr..da
dois minutos um aparelho de telegrafia bate uma vez por segundo, durante dez segundos
entre os "virtuosos burocráticos", alguns dos quais podem "superconfor-' seguidos de um choque aplicado à sua perna dianteira. Depois de vinte combinações díártas
de choques e sinais, o bode é devolvido a seu pasto. Logo êle adquire um satisfatório nível
Lazarsfetd e F. N. Stanton (edítôres), Radio Rcsearch , 1942-1843 (Nova Iorque : Duel l,
Sloan e Pearce. 1944\.
Tem-se considerado também que os moldes de comportamento de consumo, - por 41. Pág , 226, ver também a discussão das "fontes estruturais de superconformidades" no
exemplo, a transm.ssão decrescente dos estilos e das modas no sistema de estratirícação -t Cap ítujo VIII e do "reriegado= e do "convertido" nos Capitulas X e XI dêste livro; a
.- serve à função latente de tornar O sistema agradável mesmo para E,TLlêles que não observação de Pnrsons e Bales de que "a pnmeira ínt.rospecção importante nesta co-
prog-ridem apreciàvelmentc dentro dêle. Ver Bcr-na rd Barber e Lyle S. Lobcl, 11'Fashion' nexão" [de relacionar suas teorias independentemente desenvotvídas ] era que a "supercon-
in womcns clothes and the Amerícan social system", Social Forces, 1952, 31, 124-131 e f'orm idade' devia ser rtertntcta como desvio". Parsons e outros. worntug Papcrs , 75
um trabalho correlotrvo por Lloyd A. Fallers, "A note on the 'trickle elfect' ", Public 42_ Otto Sperlf ng, "Psvchoanntyue aspects or bureaucracy", l"sychoanalytic Quartcrly. 19501-
19, 88·100,
Ol)iníon Quartcrl~'_ Hl~4. 18, - 314-321.
Quanto às observações pertinentes acêrca de símbolos diferenciais de realização que 4~_ P. M_ Blau, The Dynnrntcs of Bureaucracy, Cap. XII, especialmente 184.193,
servem para mí tígar um senso de íracasso pessoal, ver Mz.rgaret M. Wood, Paths 01 44. Conven'cntemente resumid?,s em Howard S_ Liddell, "Adz.ptatton an the threshold QI
Loneliness (Nova Iorquc : Columbia Univcrsity Press, 1953), 212 e segs. ínte ligcncc", Adaptation, editado por John Romano. (Itha,.ca: Cornell University Press,
1949), 5!>-75.
262 Robert K. Merton Sociologia - Teoria e Estrutura
263

de habJlidade motora e aparentemente adapta-se bem a êste.. proceditnento de Imha-de-mon- pensado pela sua caracterização detalhada dos componentes que presumi-
taP."'J:1. Dentro de ses ou sete semanas, contudo, o observador nota que se desenvolveu
insidiosamente uma atteração no comportamento do animal. i;:le vem de boa vontade ao
velmeme entram nas reações ritualísticas a situações padronizadas e não
Iaborutórío, mas, ao entrar. exibe uma - certa deliberação afetada, e suas reações condicio- sómente na estrutura da personalidade rígida. Como foi dito num rápi-
nais são muitíssimo precisas. Parece estar procurando "fazer a coisa certa". Há alguns do e i:ecente balanço, os componentes de intolerância da ambigüidade
anos, nosso grupo começou a chamar tais animais de "perfeccionistas" ... Descobrhnos
incluem: "indevida preferência pela simetria e familiaridade, pelos 'propó-
que no laboratôrio de Favlov era usada a expressão "comportamento formal", para carac-
terizar tal conduta no cão. sitos definidos e pela regularidade; tendência a soluções do tipo 'ou bran-
co ou prêto', dicotomização simplificada, soluções do tipo 'um ou ou-
Isto parece apresentar mais do que uma semelhança passageira ao que tro' sem limites nem distinções, conclusão prematura, perseverança e es-
temos descrito como "o síndrome do ritualista social" que "reage a uma tereotipia; tendência para a forma excessivamente 'boa' (isto é, excessiva
situação na aparência ameaçadora e que excita a desconfiança agarran- Prdgnanz da organização de Gestalt), alcançada através da globalidade di-
no-se tanto mais estreitamente às rotinas seguras e às normas ínstítucío-
~,.. "
i
fusa ou pela superênfase nos detalhes concretos; compartimentalização,
nais." 45 E, na verdade, ~dell prossegue para relatar que "aquilo que po- limitação do estímulo; tendência a evitar 8, incerteza mediante a redução
eternos deduzir como sendo o comportamento similar no homem, sob cir- nos significados, pela inacessibilidade à experiência, pela mecânica repe-
cunstâncias ameaçadoras, vai ser encontrado na descrição de .1\1ir,~...y. tição das séries, ou mediante uma segmentação ao acaso, e uma absolu-
:M@Z. acerca dos seis estágios do mêdo humano [o primeiro vem descrito tização daqueles aspectos da realidade que foram conservados". 48
a seguir]: A significação substantiva de cada um de tais Componentes não pode ser
observada nesta lista compacta; os detalhes são encontrados em nume-
Prudência e a automoderação: Observado exteriorrriente, o paciente pz.rece ser mortes-
to, prudente e sem pretensões. Por meio de automoderação voluntária, êle limita seus obje- rosas publicações. Porém, o que é evidente, mesmo observando-se a lista
tivos e ambições. e renuncia aos prazeres que acarretam risco OU exíbíção. O indivíduo ~presentada, é que o conceito da intolerância da ambigüidade se refere a
em tal estágio. já está sob a influência inibitória do médo. Reage escapando profí làttca-
"um excesso" de classes determinadas de percepção, atitudes e comporta-
mente da situação que se aproxima. Introspectivarncnte, o paciente ainda não se acha
consciente de estar com mêdo. Ao contrário, está até um tanto auto-satisfeito e orgulhoso
mento (corno é indicado por têrrnos tais como "indevida preferência",
porque se considera dota-do de maior previsão que outros seres humanos. 46 "Simplificação excessiva", "não qualificada", "superêntass", e semelhan-
tes), Contudo, as normas em cujos têrmos elas são Julgadas como "ex-
Êste retrato caracterológico do conformista compulsivo· que agradece cessivas", não precisam ser confinadas às normas estatísticas observadas
a Deus porque êle não é como os outros homens, ilustra os elementos es- em um agregado de personalidades sob observação, ou a normas de "ade-:
senciais de uma espécie de reação ritualísta às situações ameaçadoras. quação funcional" estabelecida considerando os
indivíduos em série e
Cabe à teoria sociológica identificar os processos estruturais e culturais abstraindo-os de seus ambientes sociais. As normas também podem ser
que produzem altas proporções de tais condições de ameaça em certos derivadas das expectativas normativas padronizadas que prevalecem em
setores da sociedade, contra proporções negügíveís em outros, sendo o certos grupos, de modo que pelo primeiro conjunto de padrões o comporta-
tipo de problema que se dirige à teoria da estrutura social da anomia. mento que possa ser considerado como "super-rigidez psicológica" pode, às
Desta maneira produz-se uma consolidação de interpretações "psicológi- vêzes, ser considerado pelo segundo conjunto de padrões, como conformi-
ca" e "sociológica" dos padrões de comportamento observados, como aquê- dade Social adaptatíva. Isto equivale apenas a dizer que embora haja pro-
les representados pelo ritualismo.
••
vàvelmsnts uma articulação entre o conceito de personalidades demasiado
Nos estudos centralizados sôbre "a intolerância da ambigüidade" 47 rígidas, e o conceito de comportamento ritualístico socialmente induzido,
encontram-se outros dados e idéias oportunas, focalizados sôbre a persc- os dois estão longe de serem idênticos.
nalídade, ao invés de o serem sôbre o desempenho de papel em tipos de-
signados de situações. O que falta a tais estudos na sistemática incorpo- Retraimento
ração das variáveis e da dinâmica da estrutura social, é largamente com-
.. o padrão de retraimento consiste no abandono substancial tanto das
45, Ca:,itulo VI dêste livro, às págs. 224-225. metas culturais anteriormente estimadas, como das práticas instítucíona.
46. Emilio Mira y López, Psychia.try in \Var (Nova Iorque: Acaderny of Medícine. 19-13),citado lizadas dírigídas a tais metas. Recentemente têm sido identificadas apro-
por Liddctl , on. de. 70.
4'1. Else Frenkel-Brunswik, "Intnlerance of ambiguity as an ernotional and perccptual ner- ximações a êste tipo, entre o que tem sido descrito como "tamíjías eml
sonality vanablc" • .Iournal of Pcrsonality, 19411,18, 108·143; também T. W. Adorno e rroblemas" - ou seja, aquêles que não vivem de acõrdo com as expectatí-
outros, Th, Authoril<lrian l'crsonalôty (Nova Iorque : Harper & Brothers, 1950); Hi-
chard Christie e Ma r ie .rahoda, edítóres, Studies tu the Scope and Met.hod of "Th e
Authoritarian Pe rs o.na.li ty", (Glencoe: 'I'hc Free Press, 1954). 4" Else Frenkel-Brunswí k, em Christic e -Iahnda, cp. cit., 247.
:&-64 Robert K. li!erton Sociologia - Teoria e Estrutura 265

vas norrnatívas predominantes em seu ambiente social. 49 Provas adicio- no caso da "aposentadoria" imposta a pessoas sem o seu consentiment.o
nais dêste modo de reação são encontradas entre trabalhadores que de- e no caso de viuvez. 52
senvolvem um estado de passividade psíquico em reação a alguma dís-' Num estudo das pessoas viúvas e das que se aposentam de seus em-, .
cernível manifestação de anomia. 50 .~
..S~. Blau examina em pormenores as circunstâncias
pregos, .Z.e.n.a que fa- L;" > v
Contudo, de maneira geral, o retraimento parece ocorrer como reação vorecern o retraimento, como sendo um dos diversos tipos de reação. 53
à ano mia aguda, envolvendo uma quebra abrupta da estrutura normati- Conforme ela aponta, tanto a viúva como os "aposentados" perderam um
. h,;/l.
va aceita P. familiar e das relações sociais estabelecidas, particularmente papel principal e, de alguma forma, experimentam um senso de isolamen- r€',. "" ·.h
quando Ines parece, aos indivíduos sujeitos a ela, que a situação se pro- to. A autora acha que o retraimento tende a ocorrer mais amiúde entre
[longará indefinidamente. Conforme .Durkheím observou com característi- viúvas e ViÚVOSisolados e prossegue relatando sua freqüência ainda
.I ca penetração.ei tais rupturas podem -~~;-"encontradas na "aJ:)QIl1ia da
_4
maior entre mulheres viúvas do que entre os homens viúvos. O retrai-
i.jprpsperidade",.quando a fortuna sorri e muitos indivíduos ascendem a. mento se manifesta em nostalgia do passado e apatia no presente: Os
!'.• ,,\~;.!.u!p_a__p.?~iÇ~r)__I]?,1,lit().s1.l'pe_riºr.
à. queestavam .a,costumados e não apenas na retraídos são ainda mais relutantes em entrar em novas relações sociais
.;!: "anomia_Q.a_<lepr.!!.S.~ªo':,. quando a Jortuna franze os sobrolhos e parece'. com outros. do que os que são descritos como "alienados", daí resultan-,
ii : ';<Í'··;lJ'Jª.~tª.I:s~._-ºm::!Lª-em.Rre. Um estado anômi~o muito parecido surge com do que tendem a continuar em sua condição apática.
freqüência naquelas situações bem definidas que "isentam" o indivíduo e Possivelmente porque o retraimento representa uma forma de com-
uma longa lista de obrigações inerentes ao seu papel como, por exemplo, portamento desviado não publicamente registrado nas estatísticas de con-
tabilidade social, ao contrário do que aconteceu com outros desvios de
comportamento tais como o crime e a delinqüência, e porque não têm o
49 W. Baldarnus e Noel Timms, "The problem family: a sociological approach", British mesmo efeito dramático e altamente visível sôbre o funcionamento de gru-
Journal of Sociology, 1955, 6, 318·327. Os autores concluem dizendo que "embora 0' pos como as violações da lei, tem havido a tendência de ser negligencia-
traços individuais de estrutura da perscnaltdzde pareçam ter um efeito mais pode- do como assunto de estudos pelos sociólogos, quando não pelos psiquía-
rosa... do que era esperado, a evidência das crenças e orientações desviadas como
uma determinante separada ainda é suficiente para merecer uma pesquisa mais elahoraoa tras. No entanto,.o síndrome de,retr.ai!D:eIlt() .te!f1§i~o.l.<!.~º!g~c.ª<!()_g!cl-
na natureza e importância ctêste fator. Assim pareceu que, com certas qualificações, r§!Ilteséculos, e sob orótulo de acídia (ou sua variação, acídía [pregui-
os casos mais extremos de desorganízeção e ineficiência. em farrrílí a-problema aproxi- ça]) foi considerado pela Igreja Católica Romana como um dos peca-
mavam-se de uma situação de retraimento ... : a conformidade com os valóres estahe-
tecidos é virtualmente desprezada, especialmente com relação aos padrões de compor-
dos mortais. Tal como a indolência e o torpor, no qual "os poços do
tarnerito". Conforme tôdas as índlcaçôes, o retraimento parece ser mais freqüente entre espírito secam", a acídía tem interessado os teólogos desde a Idade Mé-
aquêles que estão no estrato social extremamente inferior, tal como foi descrito por dia, e ocupado a atenção de literatos de ambos os sexos, pelo menos des-
W. Lloyd W&.rner e Paul S. Lunt, Tlle Social Life of a l\'Iodern Community (New Ha-
de o tempo de .Langland e.Chaucer, passando por ..~y;rton, até. Aldous
ven: Yale University Press, 1941).
50. Ely Chinoy, Automobile Workers and the American Drearn (Nova Iorque: Doubleday & Huxley el}ebecca West . Inúmeros psiquiatras lidaram com a acídia na
Co., 1955); ver sôbre êste ponto, a resenha do livro de Paul Meadows, American Su- forma de apatia, melancolía, ou anedonía.es Mas é singular que os so-
ciological Revícw, 1955, 20, 624.
Conforme observamos na primeira apresentação dos tipos de adaptação, êstes se
reterem "ao comporta.mento de desempenho... não person z.lldade". Ev.de nt.emern e, <4
não se deve concluir que a adaptação permaneça fixa. durante tôda a vida dos indiví- 52. Aqui, novamente, o escritor percebe antecipadamente o que o cientista social irá exami.
duos; ao contrário. há espaço para uma investigação sistemática a respeito dos ~)aw nar, mais tarde, em seus detalhes e correlações. O ensaio clássico de Charles Larnb,
drões de seqüência do papel que se desenvolvem sob determinadas condições. Por acêrca de The Superannuated Man, descreve o sindrome de desorientação experírnen-
exemplo, o esfôrço de conformidade, pode ser seguido por uma adaptação r.tualísta, t.,do por aquêles que são afastados da obrigação (função, desempenho) que os amarra-
e esta, por sua vez, por retraimento; outros tipos de seqüência. do papel também P0- vam a uma escrivaninha, com tôdas as rotinas ínslpidas, mas inteiramente confortá-
dem ser identificados. Quanto a um interessante estudo que começa a tratar com as veis, que imprimiam ordem à sua existência diária. E êle prossegue, "recomendando
seqüências de adaptação de papel, ver Leonard Reíssmz.n , "Levels or aspiratíon and muito cuidado às pessoas que s.Jcançam idade avançada nos negócios ativos, para que
social class", Amerícan Sociological Review, 1953. 233-242. não abandonem levianamente seu emprêgo, sem avaliar previamente suas próprias pos-
51. Conforme acontece com a motor parte das introspecções acêrca do comportamento h-i- sibilidades em manter uma vida ativa, pois a passagem repentina e total à ociosidade
mano, esta havia sido evidentemente, "antecipada". Em Thc ',,"'ay of Ali Plesh , por •• pode SEr perigosa". Os grifos são nossos e foram colocados para chame-r a atenção stJ-
exemplo, Samuel Butler nota: "A adversidade, se o homem é levado a ela gradual- brc O que Durkheim, Butler e Larnb consideram como a essência do assuuto: a mu-
mente, é mais suportável com eqüanimidade pela maior parte das pessoas, do que dança .epcn t.i na de st s.tus e de funçã-o.
qualquer grande prosperidade alcançada numa vida inteira". (Capítulo V) A d ife- 53. Zena Smith Bl au, 01d Age: A Study of Changc in Status, dissertação inédita de dou-
rença. evidentemente, é que Du rkheim continuou a incorporar sua introspecção num toramento em sociologia, Columbia University, 1956.
conjunto ordenado de idéias teóricas, as quais êIe seguiu em suas conclusões; êste não 54. Qtu:-:.nto a alguns entre muitos relatos de acídía : Langland, Piers Plowman, e Chaucer,
era o "mé tíer" (oficio) de Butler, e êle prosseguiu, ao contrário, com 2..5 numerosas "Parsons T'ale"; Burton , Anatomy Or" Mclancholy; o ensaio de Aldous Huxley em ()nthe
outras int.rospecções sem conexão ao homem e à. sua sociedade. iHarginj Rebecca West, The TJtinking Reed, Ver também F. L. Wells, uSocial msaad-
r
i
!

266 Robert K. M erton. Sociologia - Teoria e Estrutura 267

ciõlogos tenham dispensado pouca atenção a tal síndrome , No entanto, por subgrupos distintos numa sociedade, freqüentemente resultam num
esta forma de comportamento desviado tem aparentemente seus antece- aumento de adesão às normas predominantes em cada subgrupo , É o
dentes sociais, assim como suas conseqüências sociais manifestas, e pode-
mos aguardar maiores inquirições sociológicas sôbre a mesma, da es- .,
/'
conflito entre os valôres culturalmente aceitos e as dificuldades social-
mente estruturadas em viver de acôrdo com êsses valôres, que exerce
pécie representada pelo recente estudo de Zena Blau. pressão para os desvios de comportamento e o rompimento do sistema
Resta verificar se os tipos de apatia política e organizacional que ago- normatívo . Contudo, o resultado da anomia pode ser apenas um prelú-
ra estão sendo investigados pelos cientistas sociais se relacionam às fôr- dio para a formulação de novas normas, e é esta reação que temos descri-
ças sociais que, segundo esta teoria, condícionam o comportamento de to como "rebelião", na tipologia da adaptação.
retraímento.ee Esta possibilidade tem sido enunciada nos seguinte" Quando a rebelião se limita a elementos relativamente pequenos e im-
têrmos:
potentes numa comunidade, fornece um potencial para a formação de
subgrupos, alienados do resto da comunidade porém unificados entre si .
. .. a rejeição de normas e metas inclui o fenômeno da apatia cultural, com respeít-,
aos padrões de conduta. Aspectos qualitativamente diferentes deste último estado são Êste padrão é exemplificado pelos adolescentes afastados da sociedade,
designados em várias formas, por têrmos como indiferença, cinismo, fadiga moral, desen- oue se agrupam em turmas ou se integram num movimento de juventu-
canto, falta de •.feto, oportunismo. Um sinal destacado de apatia é a perda de interêsse de .com uma .própría subcultura distintiva. 58 Esta reação à anomia tende,
por um alvo cultural anteriormente visado tal como ocorre quando um esrôrço contínua.
contudo, a ser instável, a menos que os novos grupos e normas sejam
do resulta em frustração persistente e na aparência inevitáveL A perda das metas tun-
damentais da vida deixa o indivíduo num vácuo social, sem direção focal ou propósito. Ou. suficientemente isolados do resto da sociedade que os rejeita.
tra espécie crucial de aps.tía parece emergir, porém, de condições de grande complexidade Quando a rebelião se torna endêmica numa parte substancial da so-
normativa, e/ou de rápidas mudanças, quando os indivíduos são empurrados numa evnou-
ciedade, proporciona um potencial para a revolução, a qual reformula tan-
tra direção mediante normas e objetivos numerosos e conflitantes, até ficarem literalmente
desorlentzdos e desmoralizados, incapazes de garantir um propósito firme em r-elação a to a estrutura normativa quanto a social. É neste sentido que um recen-
um conjunto de normas que êles possam sentir como autoconsistente. Sob certas condições, te estudo do papel mutável da burguesia da França no século XVIII am-
ainda não compreendidas, o resultado é uma espécie de "demissão de responsabilidade"; plia, significativamente, a atual concepção da anomia. Esta ampliação
a perda de tôda conduta atinente a princfpíos, a f",lta de preocupação pela manutenção
de uma comunidade moral. Parece que esta perda é uma. das condições básicas das quais
está sucintamente expressa nos seguintes têrmos :5~
emergem ~guns tipos de totalitarismo político. O indivíduo renuncia à autonomia moral
e sujeita-se a uma dtsctplma externa.ss
pelo mesmo prísms, as medidas a serem tomadas para reforma da sociedade, mas do
Rebelião ponto de vista dos defensores de RockefeIler e da 'livre ernprêsa", êsse desacôrdo era
talvez menos importante que a prova da desconfiança para com o regime de livre emprêsa
e da alienação - particularmente nas camadas inferiores da ordem social - em relação
Deve ter ficado claro que a teoria em exame considera o conflito en-
aos objetivos e padrões que proporcionavam base ideológica e segurança àquele regime.
tre os objetivos culturalmente definidos e as normas ínsütucíonaís como Para êstes críticos, tais objetivos P. padrões não possuíam rnads legitimidade, não mais
uma fonte de anomia, mas que não iguala o conflito de valôres com a podiam servir para exigir lealdade; e com a lealdade rompida, como então poderiam os
anomía 57 Muito ao contrário: os conflitos entre as normas mantidas empresários: de negócios esperar confiantemente que fôsse mantida a rotina de ações c
reações que caracterizava a disciplina industrial? Porém o que estava emboscado nas
diatribes dos criticos era algo além d., diferença de opinião e a falta de satisfação. Se as
justments: adaptative regresston", em Carl A. Murchison, ed., Handbook of Social Psycbc- atividades de um' empresário como Roclcefeller' eram funções de uma organização social
~.
logy, 869 e segs., e o trabalho citado de A. Meyerson. "Anhedonra", American Jonrna] que era em si mesma causa do descontentamento - de pobreza e desemprêgo, seus criti-
of Psychiatry, 1922, 2, 97-103.
cas sustentavam então que aquela, organização social já não merecia ser apoiada e que os
55. Cf. Bemard Barber,. 'Mass Apathy' and Volunlary Social Participa!ion in lhe Uniled •jovens' já não mais entrariam nas fileiras dos que seguiram êsses padrões entre si
States, tese inédita de doutoramento em sociologia, Harvard University, 1949; B. Za- mesmos - poder-se-ia alcançar uma nova e melhor organização social. Isto era - ou
wadski e Paul F. LazarsfeJd, "The psychological consequences or uriemployrnerrtv, Jonr. poderia tornar-se - mais do que uma simples discussão; era um planejamento para
nal of Social Psychology, 1935, 6.
ação. E como a ação tenderia a restringir a escopo e a liberdade de ação da iniciativa
56. Robin M. Williams, Jr., Amerícan Society (Nova Iorque: A .. A. Knopf, 1950, 534-535. privada, seus defensores na imprensa tinham que enfrentar o desafio. As lealdades em
57. Tal como foi formulada de inicio, a teoria é evidentemente mais obscura que de costu- perigo necessitavam de reafirmação, e cada nova. prova de que elas estavam em perigo,
me, sôbre êste ponto. No mínimo. esta conclusão parece estar indicada pelo fato de desde as greves de braços cruzados em Flint, até a legisla.ção do 'New Deal' em Was-
que dois _penetrantes estudos sugeriram que um conflito entre as normas foi equipa- ~ hington imprimiam urgência à tarefa" _ Sigmund Diamond, The Reputation of the
rado com a ausência de norma (aspecto cultural da anornía). Ralph H. Tumer, "Va- American Businessman, 116-117.
lue confllct ín social disorganization", Sociology and Social Research, 1954, 38, 301.308; 58, Ver o estudo altamente instrutivo de Howard Becker, German Youth: Bond or Free
Ch rfstaarr Bay, The Freedom of Expressíon, manuscrito inédito, Capitulo !IL (Londres: Routledge & Kegan Paul, 1946); S. N. Eisenstadt, From Generation to Gene-
Um sociólogo da história identificou os contornos de um processo de desencanta- ration: Age Groups and Social Structnre (Glencoe: The Free Press, 1956) especialmente
mento com os objetivos culturais e os meios institucionais nos últimos anos da decada O Capitulo VI.
de 1930, nos Estados Unidos, ao registrar os comentários da imprensa sôbre a morte .59. Elinor G. Barber, The Bourgeoisie in 18!h Century France (Prínceton : Princeton Uni-
de John D. Roekefeljer-. Observou 61e: "É evidente que o. dissidentes não encaravam versity Press, 1955), 56.
25!l
Bocioloqia - Teoria e Estrutura
::068 Robert K. M erton
Temos tido freqüentes ocasiões de notar que as organizações crimi-
Tem sido sugerido que... uma discrepância muito grande entre a expectativa da mo-o
bilidade e o atingimento real redundam num estado de anemia, o que vem a ser uma desin-
nosas ("rackets") e as camarilhas políticas que lhe são às vêzes associa-o
tegração social parcial, refletindo o enfraquecimento das normas morais. A mesma desmo das, persistem por fôrça das funções sociais que realizam para várias
rallzação também surgirá muito provàvelmente quando houver mobilidade de fato, desa- partes da população sUbjacente, 3 qual constitui a clientela confessada e
companhada de aprovação moral; foi com drscrepãncía de ambos os tipos que a burguesia.
inconfessada de ambos .61 portanto, seria de esperar que, à medida em
da França, no século XVIII, se viu confrontada numa extensão crescente, à medida que
o século transcorria. 'que se desenvolvem alternativas estruturais legítimas para desempenhar
estas funções, isto resultasse em mudanças substanciais na distribuição
Inteiramente à parte do caso histórico particular que apontamos, isto social do comportamento desviado É precisamente a tese desenvolvida
chama a atenção teórica para a concepção geral de que .a..anomíacncde ... por=-l}anieLBf!!I.num trabalho analiticamente penetrante. 62
.!"~§!!I.1~?-..!..g~
.c!.()i§,1J.p()l).c!e"
~l)cT~p'âll~i3:~I!.t!~.~::;p'r()l?_ors,i5e.s
..o.b..jetivª~~)!19: .J3~!Lobserva que "os quadrilheiros, de 'gangster mobsters' de modo ge-
)~m<ia<iesociale as defíníções culturais do direito moral (e da obriga- ~ - ral, eram imigrantes ou filhos de imigrantes e que o crime, na medida que
ção) de ascenª~, dentI:~ ..cl~,tl}.r!_-ªIl~~I!!ª-,llg(!~aLhierªrgtlicº. Até agora, I t. C' padrão demonstrou, era um caminho de acesso para uma posição social
temos examinado somente o tipo de discrepância em que a ascensão cul- na vida norte-americana". (142) E conforme foi observado freqüentemente
turalmente valorizada é objetivamente restrita, podendo acontecer que <r por estudiosos sociológicos do assunto, cada nõvo grupo de imigrantes
isto seja histõricamente o tipo de exemplo mais freqüente. A díscrepân- J.:, <

passava a ocupar o estrato social mais baixo, r,ecém-abandonado por um


cía correlativa, porém, como observa a )!Iª,-..1.3-ªrº~l." também produz gra- .,,1
,grupo imigratório que chegara anteriormente. Por exemplo, quando os ita-
ves tensões no sistema. Em têrmos gerais, isto"pode ser identificado co- c,'.:';. \ " líanos tinham a experiência de uma ou duas gerações de vida norte·ameri-
mo o tipo familiar, cada vez mais familiar para os norte-americanos, em cana, descobriam que "os caminhos mais evident.es na grande cidade, para
que prevalecem ao mesmo tempo normas de casta e normas de classe chegar dos farrapos à riqueza, já estavam ocupados" pelos judeus e Irlan.
aberta, numa sociedade, como uma ambivalência dela resultante em di- deses. E conforme continua ~Il,
reção à classe de fato e à mobilidade de casta daqueles apontados por
muitos como membros de uma casta inferior. A fase de ,desmoralização Excluidos da escada política _ nos primeiros anos da década de 1930 não havilà quase
nenhum nome italiano entre os altos funcionários da municipal1da-de, nem nos livros do
que resulta de uma situação estrutural desta espécie é exemplificada não
período índícsdo se podem encontrar referências a líderes políticos de nome ita.liano - {e 1
somente nas relações entre as raças nas várias partes dos Estados Uni- encontrando êles poucas vias abertas à riqueza, alguns se voltaram para os meios ilicito3.
dos como num grande número de sociedades que foram colonizadas pe- Nas estatisticas dos tribunais de menores da década de 1l,30, o m ••ior grupo de del in-
lo Ocidente. Êstes fatos familiares parecem formar um todo, em têrmos quentes era de origem italiana. _. (146)

de teoria sociológica, com os fatos referentes à burguesia do ancien ré-


çime que a Dra. Barber colocou neste marco teórico. 60 Foi O f:'x-camorrista, procurando respeitabilidade, diz ~~11_que "pro-
porcionou um dos maiores apoios ao impulso de conquistar uma voz po ..
íítíca para os descendentes de italianos na estrutura de fôrças das má-
ESTRUTURA SOCIAL EM TRANSIÇÃO E DESVIOS
quinas políticas urbanas". E uma decisiva mudança nas origens dos run-
DE COMPORTAMENTO
dos para as máquinas políticas urbanas proporcionou o contexto que ta-
Em têrrnos da teoria que estamos estudando, é claro que as pressões cilitava esta aliança entre os malfeitores ("racketeers") e organização po-
diferenciais do comportamento desviado continuarão a ser exerci das sô-
." lítica; pois os substanciais fundos que anteriormente vinham das gran-
bre certos grupos e estratos, apenas enquanto permanecer inalterada a des emprêsas estavam sendo desviados das organizações políticas mu-
estrutura da oportunidade e os objetivos culturais. Correlativamente, à. nicipais para as nacionais. Uma dessas fontes substitutivas para o fi-
medida que ocorrerem mudanças significativas na estrutura dos obje- nanciamento das organizações polítícas estava pronta e à mão, na "nova,
tivos, deveremos esperar mudanças correspondentes nos setores da po- e freqüentemente ganha ilegalmente, riqueza italiana. Isto é bem ilus-
pulação mais diretamente expostas a essas pressões. trado pela carreira de Costello e seu aparecimento como poder político
em Nova Iorque. Aqui o motivo dominante foi a busca de uma entrada
i' _ para si mesmo e para seu grupo étnico - nos círculos que governavam a
60. Uma. vez que o interêsse imediato é a contribuição teórica, em lugar dos achados empí-
ricos específicos, não resumo os materí.sas substantivos encontrados pela Dra. Barber.
Estão resumidos em sua tentativa de conclusão. segundo a qual u10i o enrijamento de
sistema de classe que precipitou a alienação dêste segmento (médio) da burguesia, 61. Ver a observação de Wllliam F. Whyte, citada no Capitulo III dêste livro (145) bem co-
atastando-o da exíst.mte estrutura, de classe, à qual se mantivera leal até a Revo.u- mo a discussão ulterior do delito como meio de mobilldade social, no Capitulo VI.
ção , Quando lhe negaram o direito de melhorar sua posição social, o burguês achou 62. Da.niel Bell, t'Crime as an American way of Iífe", Thc Antiocb RevielV, verão de 1953,
intolerável a tensão das moralidades conflitantes, de modo que passou •• rejeitar ín- 131-154.
telramente a desaprovação da mobilidade social", Ibid., 144.
270 Robert K. Merton

I
grande cidade"· (147) No devido tempo e pela primeira vez, os descen-
dentes de italianos chegaram a alcançar um grau substancial de influên-
da na política municipal de Nova Iorque .
'1'\"\,,.$,> Em resumo, êstes são os têrmos em que BeJl traça "uma seqüên-
\.. cia étnica distinta acêrca dos modos de obter riqueza ilícita". Embora
'I·J"'1>8 provas estejam ainda longe de ser adequadas, há alguma base para
\'h concluir, conforme Bell o faz, de que "os homens de origem italiana apa-
receram na maior parte dos papéis principais no alto drama do jôgo e
dos sindicatos do crime, assim como há vinte anos os filhos dos judeus do
C\. ~'I Leste europeu eram figuras proeminentes no crime organizado, e antes
iCL.
~.,~.~ ·,.dêstes, os indivíduos de origem irlandesa estiveram em evidência".(l50-151)
Porém, com as mudanças na estrutura da oportunidade, "um cres-
cente número de italianos nas profissões liberais e no comércio legítimo ...
ao mesmo tempo estimula e perrrite ao grupo italiano de exercer influên-
cia política crescente; e, cada VEOZ mais, são os membros das profissões
liberais e os homens de negcc.o que proporcionam modelos para a ju-
ventude de origem italiana de hoje, modelos que mal existiam há vinte
anos atrás".( 152-153)
Por fim e irônicamente, em vista da estreita ligação de Roosevelt com
I>S grandes máquinas políticas urbanas, foi a mudança estrutural bási-
ca na forma de prover benerícíos, através dos procedimentos racionali-
zados do que alguns chamam "o estado do bem-estar social", que em gran-
de parte iniciou o declínio da máquina política. Seria metafórico mas
essencialmente verdadeiro, dizer que foi o sistema da "previdência social"
e a criação de bôlsas de estudo distribuídas mais ou menos burocrática-
mente, que reduziu profundamente o poder da máquina política, mais que
o assalto direto dos reformadores. Tal como Bell concluiu,

Com a racionalização e a absorção de algumas atividades üícítas dentro da estrutura


da economia, o desaparecimento de uma geração mais velha que havia estabelecido urr.a
hegemonia sôbre o crime, a ascensão de grupos mmorítáríos a certas posições sociais e c
rompimento dos sistemas do chefe político urbano, o tipo de delito que vimos estudando
'~': está igualmente se desfazendo. O crime, evidentemente, permanecerá enquanto perrnane- r
~ cerem a paixão e o desejo de lucro; porém, o grande delito organizado das cidades, tal )~
como o conhecemos nos últimos setenta e cinco anos, baseava-se em motivos acima dêstes
móveis universais. Baseava-se nas característícas da economia dos grupos étnicos e da po
litica norte-senerícanos. As mudanças nessas áreas sígnificam que também o crime orga-
nizado, como temos conhecido, está no fim. (154)

Não precisamos procurar outro fecho mais adequado, em têrrnos de


análise essencialmente estrutural e funcional, para esta revista das con ..
tinuidades da análise da relação entre a estrutura social e a anomia. J:
Primeira edição em inglês . 1949
Décima primeira re impress ão em inglês . 1967
Primeira edição ampliada em inglês 1968
Primeira edição em espanhol . 1964
Segunda edição em espanhol . 1965
Primeira edição em .português . 1970

Título original

"SOCIAL THEORY AND SOCIAL STRUCTURE"

Capa

Wilson Tadei

© 1968 by Robert K. Merton


1957 by The Free Press, A. Corporation
1949 by The Free Press

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EDITORA MESTRE JOU
Rua Martíns Fontes, 99
São Paulo

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