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Colombo.

O famoso Diário de bordo da viagem descobridora, o primeiro documento da


História da América,

três grupos de causas que teriam levado seu pai a

engendrar a “empresa de las Índias”. Primeiro seriam as ideias sobre

a esfericidade do mundo, suas medidas e a proporção de águas

e terras existentes, vindas de autores antigos, como Ptolomeu,

Estrabão e Plínio. Depois, haveria a autoridade dos sábios que

achavam ser possível da Europa navegar pelo Atlântico até as Índias,

e, aqui, Fernando, que era um erudito e um bibliófilo, cita um rosário

de autores consagrados, cujas ideias teriam influenciado seu pai,

como Aristóteles e Sêneca, entre os clássicos, Averróis, no mundo

muçulmano, Marco Polo, no medieval, Toscanelli, Piccolomini

e d’Ailly, entre os contemporâneos de Colombo. E, finalmente,

existiriam os indícios (“señales”, diz Fernando) da existência de

terras a oeste que Colombo teria recolhido, excepcional observador

que era, de suas próprias experiências ou de navegantes de

suas relações, tais como plantas de espécie ignorada, barcos

de construção estranha, cadáveres de raças desconhecidas, que de

tempos em tempos chegavam às ilhas portuguesas do Atlântico.

Colombo chegou a Portugal, repitamos, já com a experiência

da navegação do Mediterrâneo; foi, entretanto, nos anos em que

viveu entre os lusos e com eles viajou que adquiriu sua ampla

experiência de navegação pelo mar aberto. As circunstâncias o

levarão a fazer sua viagem descobridora a serviço da Espanha,

mas é no conjunto das navegações atlânticas de Portugal que se

deve incluir sua proeza, como reconhecem autores insuspeitos de

parcialidade, como Morison: “A viagem de Colombo em 1492 [...]

foi um resultado indireto das viagens dos portugueses para o sul,

ao longo da costa oeste africana, e mar afora para a Madeira e

os Açores”27.
Na época de Colombo, só os portugueses sabiam navegar

no “mar oceano”, como era conhecido o Atlântico. Tinham

desenvolvido para isso um tipo de navio, a caravela, que enfrentava

ventos desfavoráveis melhor do que os outros e haviam adaptado

às condições do mar os instrumentos necessários às longas

jornadas, como a bússola, que indica direções, e o astrolábio, que

serve para se localizar pelos astros28. E, mais importante do

que tudo, conseguiram formar uma classe de navegantes sem

paralelo, em nenhuma outra nação.

Capitulo ii

Rui de Pina, que nesse mesmo ano seria nomeado Embaixador

para negociar na corte espanhola um tratado que solucionasse

os problemas criados pela nova descoberta,

Alexandre VI publicou as bulas

Eximiae Devotionis e Inter Caetera, que asseguravam à Espanha a

posse das terras descobertas. Por uma terceira bula, de 4 de maio,

também iniciada pelas palavras Inter Caetera e conhecida por

“bula da partição”, o Papa distinguiu as possessões da Espanha

das de Portugal, traçando a divisa pelo meridiano que passa 100

léguas a oeste dos Açores e Cabo Verde. Por essa bula, certamente

inspirada pelos monarcas espanhóis, que se louvavam aqui nos

conhecimentos teóricos e práticos de Colombo, a América seria

integralmente da Espanha. Alexandre VI emitiu duas outras bulas

(mais uma Eximiae Devotionis e Dudum Siquidem), ainda em 1493,

confirmando à Espanha a posse das terras e ilhas caribenhas, que

então não se imaginava fazerem parte de um novo continente.


Embora favorecida pelas bulas de Alexandre VI, a Espanha,

com sérios problemas na Itália e apenas recentemente unificada,

não queria correr os riscos de uma nova guerra com Portugal.

Resolveu transigir com o adversário tradicional e chegou a um

acordo que a deixava em posição menos vantajosa do que aquela

prevista pela bula da partição. As negociações foram completadas

em 7 de junho de 1494, na cidade de Tordesilhas, e o tratado, que

tinha o título pomposo de “Capitulação da Partição do Mar Oceano”,

acabou sendo conhecido pelo nome desse burgo fronteiriço de

tantas tradições na turbulenta história de Castela. Ratificado pela

Santa Sé em 1506, pela bula Ea quae pro bono pacis, seu parágrafo

essencial dividia as possessões ibéricas no Atlântico pelo meridiano

que passa 370 léguas a oeste do arquipélago do Cabo Verde: as

terras a leste seriam de Portugal; a oeste, da Espanha.

ambas as partes contratantes ficaram

satisfeitas com a conclusão das negociações.

O Tratado de Tordesilhas dava, ademais,

importante personalidade internacional à Espanha, nesse

momento em que estava ainda se consolidando como Estado:

afinal, colocava‑a

ao lado da primeira nação navegante da época,

Portugal, na divisão do mundo que estava sendo descoberto. E,

depois, o que estava a Espanha cedendo a Portugal? Nada mais,

pensavam seus negociadores (como também pensavam eruditos

como Toscanelli ou geógrafos como Behaim), do que uma zona

marítima onde poderia haver algumas ilhas.

Quanto a Portugal, embora nas negociações iniciais tivesse

preferido o paralelo traçado na altura das Canárias para dividir

o Atlântico, a aceitação de um meridiano, como queriam os


espanhóis, mas no número de léguas então acordado, garantiu‑lhe

tudo o que poderia razoavelmente almejar: o principal, que era o

caminho verdadeiro das Índias, já pressentido com as sucessivas

descobertas cada vez mais ao sul da costa africana; e o secundário,

que era uma boa porção das terras brasileiras de cuja existência já

teria indícios.

O Tratado de Tordesilhas, “a peça mais importante da nossa

história diplomática”56, na expressão de Capistrano de Abreu, “o

primeiro ato relevante da diplomacia moderna, porque negociando

entre Estados, e não, como era normal na Idade Média, decidido

pelo Papa”57, como diz um estudioso de nossos dias, tem dado

margem a muita discussão. Em primeiro lugar, por que 370

léguas? Por que não um número redondo, 300 ou 400 léguas?

Alguns especialistas lembram que essa longitude representaria

mais ou menos o meio do oceano Atlântico; na verdade, o centro

da distância entre Portugal e o golfo do México. O acordo teria,

então, o objetivo de fazer uma partilha equitativa do mundo que

estava sendo descoberto.

Vários historiadores portugueses

contemporâneos, Joaquim Bensaúde à frente, continuam a achar

que D. João II tinha conhecimento da existência do Brasil antes

de Tordesilhas.

Colombo teve dois rivais em notoriedade, em seu tempo:

Américo Vespúcio, que, graças à imensa difusão de suas cartas, foi

considerado por muitos, se não o único, o principal descobridor

do Novo Mundo; e Vasco da Gama, que, ao chegar a Calecute, em


1498, estabeleceu finalmente a tão procurada ligação por mar entre

a Europa e o Oriente, que parecia, então, o grande feito da época. Vespúcio foi o primeiro a
demonstrar que o Brasil e as Índias Ocidentais não representavam regiões periféricas do leste
da Ásia, como inicialmente pensou Colombo, mas massas de terra totalmente separadas e até
então desconhecidas do Velho Mundo. Coloquialmente conhecido como o Novo Mundo, este
segundo super-continente passou a ser chamado de "América", derivado de Americus, a
versão latina feminina do primeiro nome de Vespúcio.

realmente difícil saber o exato papel de Vespúcio nas

descobertas; mas, sem dúvida, foi relevante: além de ter sido

o primeiro que compreendeu, ou pelo menos divulgou, que as

terras descobertas eram outro continente, até então ignorado

pelos europeus,

capitulo iii

ortugal seria um deles, e o período seria

o dos descobrimentos, que dura, grosso modo, um século, da tomada

de Ceuta, em 1415, por D. João I, à circum‑navegação

da Terra por

Fernando de Magalhães e Sebastião de Elcano, entre 1519 e 1522.

A viagem de Vasco da Gama à Índia (1497‑1498)

é o momento

culminante do período: antes eram pequenas “barcas”, a partir de

1440 “caravelas”, descobrindo ilhas (Madeira, Açores, Cabo Verde,

São Tomé) e aportando cada vez mais ao sul da costa ocidental

da África, até o contorno do continente, por Bartolomeu Dias

(1487‑1488);

depois, as grandes “naus” artilhadas que transportavam

mais gente e especiarias, a abertura da Ásia para os europeus.


que se sabe ao certo é que a descoberta do Brasil foi fato

secundário na época; apenas no século seguinte, com a ruína do

império português na Índia e com o auge da produção de açúcar

do Nordeste, a colônia passa a ter importância, que cresceria ainda

mais no século XVIII, com a exploração aurífera das “minas gerais”.

A carta de Caminha é um notável exemplo da chamada

“literatura de viagem”, que inclui roteiros, diários de bordo,

descrição de lugares, narrações de naufrágios, existente em

Portugal no século XVI, mas particularmente bem representada

na Espanha do século XVII e na Inglaterra do século XVIII. E é, na opinião de muitos,

a melhor descrição do mundo recém‑encontrado,

pela leveza do

estilo, lucidez dos comentários e riqueza das informações

a viagem de Pedro

Álvares Cabral, a glória de terem sido os verdadeiros descobridores

do Brasil, “descobridores sociológicos” como diz Capistrano,

lembrando que só eles criaram aqui uma “sociedade”: é com Cabral

que, para usar sua expressão, “inicia‑se

nossa história”104.

Tratemos, para finalizar este capítulo, dos conceitos

“descobrimento”, “achamento”, “encontro de culturas”. Significam

coisas diferentes? Vejamos. A expressão encontro de culturas

vulgarizou‑se

quando da comemoração do quinto centenário da

Descoberta da América. Como já havia neste continente antigas

culturas, mais destruídas do que civilizadas pelos europeus,


tratou‑se

de identificar uma expressão que demonstrasse respeito

pelas civilizações autóctones, como encontro de culturas o faz;

embora não seja de todo verdadeira, pois a civilização que se

impôs foi a europeia. Achamento e descobrimento têm pequenas

variações semânticas − “descobrir” refere‑se

mais a uma exploração

sistemática, e “achar”, a um primeiro encontro casual −, mas

nos textos contemporâneos dos descobrimentos a sinonímia

mantém‑se

com muita frequência. Achamento tem hoje um ar

vetusto e o bom precedente de ter sido usado por Caminha; mas

nem por isso justifica fugir sempre da palavra mais comum para

descrever a chegada dos europeus ao continente, “descobrimento”.

Como mostra a formação do vocábulo original, “des‑cobrir”

simplesmente tirar a coberta (de algo que obviamente tem uma

existência prévia).

Em resumo, se algum navegante espanhol ou português

avistou a costa norte do Brasil antes de 22 de abril de 1500, o fato

tem importância histórica muito diminuta perante o desembarque

bem documentado de Cabral em Porto Seguro: aí nasce o Brasil.