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Uae waar Pret anh welt y SELEGAO DO EDITOR Crime de importnacso Gack oa cco eC cn eet) sextial: brectes lneueesuseteieeet do mérito nas audiéncias jiridicas & vista Entra tne Gace MM ecvistalll juris Ano 3114 656 | Few/Mar 2019 R$ 130,00 Piacoa eke oe eC 2 Quem tem medo do LOBBY? ‘Apesar de ainda esperar por regulamentago, a atividade esta presente em Brasilia e em todos 0s centros de poder politico do pais. Cabe agora dar a devida transparéncia e publicidade ao que ocorre nos bastidores da negociacao (Iicita) entre grupos de pressdo e agentes politicos ey ae oie Sec a eae ne Ae CT Lar) professor e escritorintegrou a comissao de jutistas nomeada pelo Senado para elaborar o anteprojeto do cédigo Carlo Velho Masi ADVOGADO CRIMINALISTA A REGULAMENTACAO DO LOBBY NO BRASIL forma séria e licita s relacionamentos en- tre entes piiblicos e privados nunca foram alvo de tanto controle e nunca ensejaram tanta cautela. Em tempos de verda- deira guerra ao crime organi- zado e na linha da entrada em vigor das leis de acesso a infor- macao (Lei 12.527/n), conflito de interesses (Lei 12.813/13) e anti- corrupcao (Lei 18.846/13), a re- gulamentacio da atividade de defesa de interesses perante a administracao ptblica, pratica conhecida como lobby (espécie de advocacy, isto é, atividade desenvolvida por pessoa ou or ganizacio para obter alguma forma de influéncia politica), deve continuar a ser defendi- da como prioridade pelo go- verno federal. Trata-se de um movimento global no sentido de demonstrar a integridade 32__ REVISTA BONYURIS | AN0 31 IEDIGAO. CON WEL Tee aro COMT PETER EY Tee Cerin eee grandes construtoras compoem segmentos que praticam a atividade de das instituigdes e promover 0 compliance e a accountability nestes dois setores. No ocaso da presidéncia de Michel Temer, 0 entéo minis- tro da Justica, Torquato Jar- dim, manteve posi¢ao solida acerca das demandas da socie- dade que, por serem amplas e variadas, nao seriam atendidas plenamente pelos partidos po- liticos: "E preciso um mecanismo legt- timo pela sua ado e legal pela sua regulamentagado que complemente a representagdo dos partidos poli- ticos,” A época, 0 ministério mon- tou grupo de trabalho que, por sua vez, produziu relatério, onde sugeriu a elaboragiio de um regulamento aplicavel ao Poder Executivo federal para que a pratica do lobby, que ocorre independentemente de normatizagéo, contemple as seguintes observacoes: I= acontega de forma or- ganizada (por canais insti- tucionais estabelecidos, com representantes identificados procedimentos transparentes); II ~ por grupos de interes- se definidos e legitimos (pre- viamente cadastrados e com registro dos participantes, a quem representam e assuntos tratados nas audiéncias); I~ dentro da lei e da ética (regras para recebimento de presentes ou qualquer tipo de beneficios por agentes pibli- cos). O GT propés ainda alterar a ‘expresso lobby para “relacdes governamentais” ou “repre- sentago social’, uma vez que se trata de uma atividade que promove, num ambiente de to- Carlo Velho Masi / CAPA = Muito em funcio do poder da midia, que bombardeia incessantemente aideia da depreciacao da classe politica como um todo, adquiriu-se a falsa nogao de que a pratica do lobby seria uma atividade espuria erancia e de democracia, 0 dié- Jogo multilateral entre as par- tes, na busca por representar aspiragées coletivas e eventu- almente a margem do interesse estatal. Nesse sentido, também seria necessério distinguir o lo- bby de relacoes publicas, ja que esta nao busca influenciar pro- cessos decis6rios. Muito em fungao do poder da midia, que bombardeia in- cessantemente a ideia de um aumento da criminalidade e da depreciacdo da classe poli- tica como um todo, adquiriu-se a falsa nocao de que a pratica do lobby seria uma atividade espliria, que envolve troca de favores, em sua génese, O proprio termo lobby re- mete a esta nogdo, na medida em que remonta ao tempo em que parlamentares e nobres britanicos se encontravam nos corredores (lobbies) do parlamento para debater in- teresses politicos. Entretanto, © lobby nao passa de uma re- presentacio de interesses ab- solutamente legitimos junto a agentes politicos, cujo objetivo é informar esses agentes das demandas de determinados segmentos sociais, para que vejam as vantagens de adotar determinadas medidas. © lobby ocorreré sempre, independentemente de re- gulamentagao. Os diferentes grupos de interesse, enquan- to representacao nao eletiva, sempre tentarao influenciar 0 processo decisério, ainda que a ae Se ee ee nao existam meios institucio- nais claros e definidos para 0 exercicio de tal representagio. O verdadeiro lobista nao é um criminoso. ONGs, bancos, indtstrias de produtos qui- micos, farmacéuticas, grandes construtoras, empresas do setor do fumo etc, compéem segmentos que sempre prati- caram lobby, na grande maio- tia das vezes de forma séria e licita. O que existe so pesso- as que se passam por lobistas para obter vantagens ilegiti- mas. Também no se nega que empresas de todos os portes possam se corromper e a ope- racdo Lava-Jato 6 exemplo disso, Mas o lobby nao se con- funde com os crimes de trafico de influéncia (antiga “explora- do de prestigio’), corrupgio e advocacia administrativa, que sd0 condutas verdadeiramen- te inaceitaveis, cuja proibicao visa a protegao do bom funcio- namento e da moralidade na administracao publica: ‘Tréfico de Infiuéncia Art. 332 - Solicitar exigir,cobrar ou obter, para si ou para outrem, vantagem ou promessa de vanta- gem, a pretexto de influir em ato praticado por funciondrio piiblico no exercicio da fungao: Pena ~ reclusao, de 2 (dots) a5 (cinco) anos, e mutta. Pardgrafo tinico ~ A pena é au- mentada da metade, se o agente alega ou insinua que a vantagem é também destinada ao funciondrio. Corrupedoativa Art. 333 - Oferecer ou prometer vantagem indevida a funciondrio itblico, para determiné-lo a prati- car, omitir ou retardar ato de oficio: Pena ~ reclusdo, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e muita. Parigrafo tnico - A pena é au- mentada de um ter¢o, se, era raztio da vantagem ou promessa, 0 funcio- nario retarda ou omite ato de oficio, ou 0 pratica infringindo dever fun- ional. Advocacia administrativa Art. 3a1 — Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administragdo publica, valendo-se da qualidade de funcio- nario: Pena ~ detencdo, de um a trés meses, ou multa Pardgrafo tinico ~ Se o interesse éilegitirno: Pena - detencio, de trés meses a um ano, além da multa Esta atividade pode, portan- to, sem problema algum, ser organizada e exercida dentro da lei, numa perspectiva abso- lutamente ética, Diversas associagdes, como a Anfavea (Associagéio Na- cional dos Fabricantes de Ve- {culos Automotores), a Fiesp (Federacao das Indiistrias do Estado de Sao Paulo), a CNI (Confederacao Nacional da In- dastria), dentre outras tantas, séo especializadas em lobby e © praticam de modo transpa- rente, REVISTA BONJURIS |ANO 31 | ED\GA0 656 | FEV/MAR 2019 33