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2. O Endemoninhado Gadareno (5.

1-20)
Por mais rotineiras que pareçam as palavras: E chegaram à outra margem do mar (1),
os discípulos devem ter ficado mais sábios e fortes pela recente experiência (cf; 4.35-
41)! “Na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza,
mas, depois...” (Hb 12.11). Quando Jesus e os seus discípulos entraram na província dos
gadarenos, saindo de um mar tempestuoso, imediatamente confrontaram-se com um
homem que tinha a alma tempestuosa, um homem com espírito imundo (2).
A descrição do endemoninhado gadareno (3-5) é uma descrição da desgraça e da
brutalidade do pecado. Ele tinha a sua morada nos sepulcros (3), uma possibilidade
real, pois os sepulcros frequentemente se localizavam nas cavernas. Ninguém o podia...
prender e ninguém era forte o suficiente para o amansar. As cadeias foram por ele
feitas em pedaços, e os grilhões, em migalhas (4). Era simplesmente impossível conter
o endemoninhado (uma série de frases negativas no texto grego destaca este fato). A
sua enorme força somente lhe trazia infelicidade, porque andava sempre, de dia e de
noite, clamando pelos montes e pelos sepulcros e ferindo-se com pedras (5).
0 Fim do Ministério n a Galiléia Marcos 5.5-13
O pecado é o “inimigo público número 1”, pois representa: 1) suicídio - morar no local
da morte, 3; 2) insanidade, 4; 3) autodestruição, 5.
Aqui podemos ver outro exemplo daquele misterioso reconhecimento de Jesus por
parte daqueles que estavam possuídos. Embora a alguma distância da costa, quando o
endemoninhado viu Jesus... correu e adorou-o (6), ou seja, caiu prostrado diante dele.
Nem mesmo os discípulos chegaram a entender quem Jesus verdadeiramente era, mas
o endemoninhado gritava: “Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?” (7)
A expressão Deus Altíssimo reflete um nome para Deus no Antigo Testamento, usado
“principalmente pelos não israelitas, para se referirem ao Deus de Israel”. As palavras:
Conjuro-te por Deus, representam a linguagem de alguém que expulsa demônios. Será
que foi tentada aqui uma inversão de valores? Não me atormentes provavelmente
reflete o medo do demônio de que Jesus o expulsasse (cf. Mt 8.29). O opressor estava
pedindo para escapar ao tormento; Jesus lhe dizia: Sai deste homem, espírito imundo
(8).
Talvez para ajudar esta alma confusa a voltar a si, Jesus perguntou-lhe: Qual é o teu
nome? (9). O adversário obter o nome do seu oponente era, conforme se julgava, o
primeiro passo para adquirir controle sobre ele. Ele lhe respondeu... Legião é o meu
nome, porque somos muitos. A alternância entre “eu” e “nós” na resposta do
endemoninhado dá uma idéia da extensão da divisão da sua personalidade devido à
presença das forças demoníacas. Ele estava subjugado por “um conglomerado de forças
do mal”,46 e o conjunto de quatro a seis mil homens em uma legião romana pode ter
sido uma descrição precisa de sua condição.
A súplica desesperada dos demônios para que Jesus os não enviasse para fora daquela
província (10) evidentemente reflete o medo que têm da punição eterna (cf. Lc 8.31,
“para o abismo”, ou para “a perdição eterna”). Reconhecendo a autoridade de Jesus e a
própria derrota, todos aqueles demônios lhe rogaram (12), pedindo permissão para
entrar em uma grande manada de porcos que andava ali pastando (11).
A história agora “passa a ter dificuldades” (Cranfield), pois Jesus lho permitiu
(13). Os espíritos imundos saíram da sua vítima e entraram nos porcos. Descendo
violentamente por um despenhadeiro, quase dois mil porcos se afogaram no mar.
Por que Jesus permitiu esta destruição de propriedade? Alguns estudiosos, procurando
suavizar essa ocorrência, concluíram que os últimos gritos selvagens do endemoninhado
assustaram os animais, e isto pode ter causado o desastre. Outros o classificam como
uma fábula judaica.
Essa história permanece como uma parte integral do registro Sinótico, e deve transmitir
uma verdade significativa. Talvez a melhor explicação seja que o pobre demente
gadareno precisava de alguma evidência exterior da sua libertação. A fuga e a destruição
dos porcos foram “demonstrações visíveis para o endemoninhado de que os demônios
tinham verdadeiramente saído dele”.48 A observação de Barclay nos parece correta:
Como pode o destino dos porcos ser comparado com o destino da alma imortal de um
homem?... Existe um sentimentalismo barato que promove a tristeza sobre a dor de um
animal e não move um dedo quanto à situação infeliz de milhões dos homens e mulheres
de Deus. Na escala de valores de Deus, não há nada tão importante quanto uma alma
humana.49
Marcos 5.14-21 O Fim do Ministério na Galiléia
E os que apascentavam os porcos fugiram e o anunciaram na cidade e nos campos (14).
Onde mais poderiam contar a história? E muito natural que os homens, inclusive os
proprietários dos porcos, tenham saído para ver o que... tinha acontecido (14). Eles
foram ter com Jesus (15), mas viram o endemoninhado, o que tivera a legião, e
“temeram” (15). Temeram a sanidade mental dele! Aquele que antes se enfurecia entre
os sepulcros, “não andava vestido” (Lc 8.27), e que era completamente destituído da
razão, agora estava assentado, vestido e em perfeito juízo (de uma palavra que significa
“estar com a mente saudável”).50
Os milagres de Jesus traziam admiração e espanto àqueles que os presenciavam.
Lembremo-nos de que os discípulos “sentiram um grande temor” quando
testemunharam a transformação da tempestade em bonança na Galiléia (4.41). Os
homens sempre sentiram um mysterium tremendum na presença de Deus. Moisés tirou
as sandálias dos pés diante da sarça ardente (Ex 3.5); Isaías clamou: “Ai de mim!” (Is 6.5)
no Templo cheio de glória; e quando João viu o Cristo glorificado, ele caiu “aos seus pés
como morto” (Ap 1.17). Marcos quer que nós sintamos, ao ler suas narrativas, que Jesus
é o Cristo, o “Filho de Deus” (1.1).
Quando as testemunhas oculares descreveram a libertação do endemoninhado e a
destruição dos porcos, os habitantes de Gerasa começaram a rogar (17; “implorar”,
“suplicar”) a Jesus que saísse do seu território. Talvez eles temessem que viesse a
acontecer uma perda ainda maior. Sem querer permanecer onde era indesejado, Jesus
“satisfez-lhes o desejo, mas fez definhar a sua alma” (SI 106.15).51 Registre-se que
nenhum outro milagre que Jesus realizou recebeu tal resposta negativa.
Em um nítido contraste estava o eloquente pedido do homem que fora endemoninhado
(18). Entrando [Jesus] no barco (ou “quando ele estava entrando no barco”), o homem
curado rogava-lhe (“suplicava” ou “implorava”) que o deixasse estar com ele. Jesus
colocou uma responsabilidade sobre o gadareno, embora novo na fé, pois não...
permitiu (19) que o acompanhasse. Vai para tua casa... e anuncia- lhes... quão grandes
coisas o Senhor te fez e como teve misericórdia de ti. Aqueles que tinham banido Jesus
do seu litoral teriam, assim, um mensageiro pregando em Seu lugar.
Corajosa e vigorosamente, o ex-endemoninhado obedeceu; em seguida, começou a
anunciar (20)52 em Decápolis quão grandes coisas Jesus lhe fizera. Observe que o
gadareno identificava o Senhor com Jesus (19-20; veja Lc 8.39). O seu testemunho
indiscutível evocava admiração. Todos se maravilhavam.