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O agravamento da obrigação

A obrigação de restituição do enriquecimento sem causa agrava-se nos seguintes casos (art.º 480.º,
CC):
1. Pelo perecimento ou deterioração culposa da coisa;
2. Pelos frutos que, por sua culpa, deixem de ser percebidos;
3. Pelos juros legais das quantias a que o empobrecido tiver direito.
Isso sucede logo que o enriquecido tenha sido judicialmente citado para a restituição ou tenha
conhecimento da falta de causa do seu enriquecimento ou da falta do efeito que se pretendia obter com
a sua prestação.

Existe neste ponto uma aparente desconexão com o artigo 479.º, n.º 1: segundo este preceito, quando a
restituição em espécie não seja possível, há que recorrer à restituição em valor e isso
independentemente de se verificarem as previsões que levam ao agravamento. Isto é explicado pelo
facto de o enriquecido responder pelo enriquecimento in concreto, sendo que o n.º 1 do art.º 479.º só
funciona quando, apesar da restituição em espécie não ser possível, o enriquecimento se mantiver na
sua esfera. Se todavia, por qualquer circunstância, o enriquecimento se perder, de tal modo que, no
momento em que devesse surgir a obrigação de restituição (que deve ser invocada, já que, antes disso,
apenas há um direito potestativo de a fazer surgir), não haja enriquecimento.
Mas não será assim se houver agravamento. Nessa altura, o enriquecido não responde, “apenas” se no
momento em que for invocado o enriquecimento, este (ainda) existir; responde, mesmo que já não
exista ou que tenha perdido valor ou se tenha deteriorado.

O agravamento da obrigação funciona de modo a cobrir danos ou menos-valias provocados com


“culpa”. Esta traduz, aqui, a censura subsequente à violação dos bens em jogo ou à inobservância de
deveres de cuidado que ao caso caibam. Além disso, funciona apenas depois da citação judicial do
enriquecido para a restituição ou após ele ter conhecimento da falta de causa do enriquecimento ou da
falta do efeito que se pretendia obter com a prestação.
Tem-se, pois, um juízo global de desvalor, embora não de ilicitude e culpa, no sentido em que esses
conceitos se usam na responsabilidade civil. Fundamentalmente, o preceito visa:
i. Compelir o enriquecido, que já saiba ir ter de devolver o enriquecimento, a ter cuidado, de
modo a não o desvalorizar;
ii.