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SUMÁRIO

Capa: Capitão Bandeira – Fernando Lobo / Montagem: Lancelott Martins


Sumário
Editorial – André Carim
Ilustração: Adriana, a Agente Laranja e o Escorpião Amarelo – Estêvão Moraes
HQ: “FRANKENSTEIN” – Adriana, a Agente Laranja –Hugo Máximo
HQ: “INDESTRUTÍVEIS – SAGA ORIGEM – Parte 2” – Criação e História: Guido
Van Pie e Arte: Marcos Gratão
Homenagem a Carlos Eugênio Baptista, por Edvaldo Cardozo
HQ: “UMBRAL” – Roteiro de Carlos Eugênio Baptista, Arte de Edvaldo Cardozo e
Letras de Max Piaga
Inclusão: Apresentação do Pedro Henrique Cypreste, por Gabriel Rocha
HQ: “A FESTA NO ÔNIBUS” – Arte, Roteiro, Cores e Letras de Pedro Henrique
Cypreste
Contracapa de Estêvão Moraes – Heróis de Força Extrema: Número 7, Águia Dou-
rada, Quartzo Dourado, Relâmpago Negro, Crossbell, Fantasticman e Cataloga-
dor de Universos

MÚLTIPLO – FANZINE DE HQs


Editor: André Carim de Oliveira
Periodicidade: Mensal – Nº 27 – Janeiro de 2019
Fanzine online que pode ser baixado em:
http://multiplozine.blogspot.com.br/ e
https://www.face-
book.com/groups/410201319362851/
Ou solicitado pelo e-mail:andrecarim@outlook.com

Fanzine Múltiplo e Adriana


Dee, a Agente Laranja, regis-
trados na Biblioteca Nacional
sob o número 83.569 em 19
de julho de 1993 – Autor e cri-
ador: André Carim de Oliveira.
Feliz Dia do Quadrinho Nacional, 2019
André Carim

Nada melhor do que comemorar o Dia do Quadrinho Nacional


(30/1) com muita HQ. E é assim que o Múltiplo de janeiro chega, recheado
de HQs.
Nesta edição temos uma homenagem ao Carlos Patati feita pelo
amigo Edvaldo Cardozo, nos contando um pouco de sua trajetória e nos tra-
zendo uma HQ produzida em parceria com o Patati. Justa homenagem a
quem sempre nos presenteou com grandes roteiros.
Hugo Máximo me surpreendeu essa semana com uma HQ da
Agente Laranja um tanto que inusitada, onde a detetive/espiã lida com o
lado sobrenatural nesta HQ cheia de estilo, uma das caracterizações mais
tudo a ver com a loira.
Quadrinhos é também INCLUSÃO. E com esse pensamento, temos a
participação mais do que especial do Pedro Henrique, aluno do amigo Ga-
briel Rocha que nos traz uma HQ completamente feita por ele, um incentivo
a quem não se deixa derrotar pelas limitações e cresce com o seu talento.
Parabéns ao Gabriel pela apresentação do garoto e a certeza que muitas
outras HQs virão por aí.
O Múltiplo continua pedindo passagem, apresentando grandes ar-
tistas, grandes HQs e já vislumbrando o TOMO 2 de Força Extrema, muito
em breve por aqui e com uma aventura cheia de surpresas.
As portas estão abertas, venha publicar com a gente, as páginas da
revista estão à disposição dos artistas nacionais para publicação de todo
material que venha a ser produzido. Que o ano de 2019 seja, realmente, o
nosso ano!

Até breve e bom entretenimento!!!


Essa é uma homenagem a Carlos
Eugênio Baptista (Carlos Patati),
feita por mim, Edvaldo Cardoso,
e pelo meu amigo, Editor da re-
vista Múltiplo, André Carim.
Mostraremos o carinho e a vir-
tude de um homem de 58 anos
sobre a cultura e a arte, que na
flor do pensamento literário nos
ensinou a arte, que depois viajou
em uma galáxia de conhecimen-
tos atômicos.
Menciono também a João Car-
palhau, que tive o prazer de co-
nhecer pelo Carlos Patati. Nós
três iríamos lançar esse material pela Capa Comics, mas o destino
mudou a natureza dos fatos!
Nascido em 08 de maio de 1960, no Rio de Janeiro. Na infância se
debruçou em literaturas como os heróis de Faroeste e toda a fan-
tasia de heróis Pulp, como Flash Gordon, O Homem Biônico e Fan-
tasma. Mergu-
lhou nos contos
e filosofia em
épocas de ado-
lescência, onde
o bailar das ca-
pas lhe era atra-
ente, como Su-
perman, Shazan,
Capitão 7, Raio
Negro. Creio
que sua mente
voou tanto que
deu asas à imaginação e sabedoria, porém, seu rumo eram as re-
vistas de terror. Lhe era mais conveniente, com 18 anos já estreava
nas páginas no ano de 1979, nas revistas Pesadelo e Sobrenatural
e Espectro. Carlos Patati (Análise das experiências com HQ). O prin-
cipal destes era “Drácula”, mas também havia “Naiara, a Filha de
Drácula”, “Terror”, “O Escorpião” (um super-herói sinistro), “Sele-
ções de Terror” e uns outros tantos. Conheci na banquinha de
revistas usadas, numa pequena galeria em Copacabana, no cami-
nho da casa da minha avó. Não numa banca de jornal. Isso os tor-
nava ainda mais misteriosos. Os super-heróis da Marvel e da DC
tinham trânsito fácil lá em casa, mas estes gibis vi logo que não
era bom deixar minha
mãe ver. Havia sangue,
e moças de pouca
roupa, mesmo que boa
parte das histórias fos-
sem de época. Uma
certa troca de frases,
que aconteceu naquela
lojinha, sentados no
chão lendo os gibis, a tí-
tulo de escolhê-los, fi-
cou comigo. O Drácula
do Nico Rosso, no gibi
que eu estava lendo
com um confrade mais
novo, agarrou sua ví-
tima e rasgou seu ves-
tido sem piedade. Seu
seio quase pulou fora
do decote, assim nos
pareceu. Meu colega,
fascinado, mandou:
-Caramba! Já imaginou se ele morde a bunda dela!?

Entretanto, o Carlos Patati em sua vincu-


lação em histórias, ramificava-as em suas
leituras, H.P Lovecraft, como os “Gatos de
Ulthar, Dagon, Em Sussurros Das Tre-
vas...” Assim como Edgar Allan Poe, “Gato
Preto, A esfinge misturada”, de Stephen
King a George Romero, e aos grandes
contos de lendas urbanas, e as metalin-
guagens nordestinas, assim como o
Grande Sertão Veredas, de Guimarães
Rosa... Creio que suas referências mistu-
radas inovaram o arco do terror. Partici-
pou da revista Mongo, a mulher Gorila,
em 1987, Editora Press. Em 1989, publi-
cando uma história ilustrada pelo vete-
rano Júlio Shimamoto na revista Pesadelo, da Editora Vecchi. Também
pela editora, publicou na revista
Spektro.
Teve trabalhos editados pela Eura
Editoriale, da Itália, e pela Editorial
Columba, da Argentina. Ao lado do
desenhista Allan Alex, criou o ta-
xista Nonô Jacaré publicado nas
revistas Porrada, em 1990, núme-
ros 1, 4, 5, 8, 9, e a especial. Mil Pe-
rigos, "Metal Pesado". Em 1996,
Brasilian Heavy Metal, e cujas pri-
meiras aventuras foram reunidas
numa edição especial pela Editora
carioca Tipológica. A dupla de cri-
ação nessa época também roteirizou diversos quadrinhos de
terror sem a presença do taxista. Ainda
com Allan Alex, publicou A Guerra dos
Dinossauros, pela Editora Escala; O Se-
gredo da Jurema, pela Opera Graphica.
Em 1995, Assombração número, 4, 5 e 8.

Mestre em Comunicação Social pela Es-


cola de Comunicação da Universidade
Federal do Rio
de Janeiro,
onde minis-
trou a cadeira "Introdução às Histórias
em Quadrinhos" durante dois anos. Este
trabalho deu origem à revista "PHQ",
publicada pela EBAL. Foi professor de Fi-
losofia e orientador de fanzine para es-
colas de segundo grau de 1990 a 1997,
foi professor assistente no curso de Co-
municação Social da UESC da Bahia,
também foi curador das Bienais de Qua-
drinhos do Rio de Janeiro e consultor do FIQ (Festival Internacio-
nal de Quadrinhos), de Belo Horizonte, e da ComicCon carioca,
além de eventos similares menores.

Escreveu ao lado de Flávio


Braga o livro Almanaque
dos quadrinhos - 100 anos
de uma mídia popular, pu-
blicado pela Ediouro em
2009 e ganhador do prêmio
de melhor livro de não-ficção para
jovens, oferecido pela Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
No mesmo ano, adaptou para os
quadrinhos o romance A Luneta
Mágica, de Joaquim Manuel de
Macedo. O álbum foi desenhado
por Márcio de Castro e publicado
pela Panda Books.

Em outubro de 2010, se tornou co-


lu-
nista no site Bigorna.net. Em 2014
publicou "A Noite na Taverna", adap-
tação para quadrinhos do livro de
contos de Álvares de Azevedo, com a
colaboração de cinco desenhistas,
pela editora paulista DCL. Também
republicou " A Noite Rompida", ro-
mance gráfico em colaboração com
o artista
plástico
Hélio Je-
suíno, originalmente realizada como
catálogo de uma exposição de traba-
lhos deste, em 1995. A nova e melho-
rada edição saiu pela Editora Estronho,
do Paraná. Em 2003, Sangue Bom, Edi-
tora: Opera Graphica.
Foi o colaborador brasileiro no livro
"1001 Comics you must read before
you die", Cassell Illustrated, London,
2011, organizado por Paul Gravett, que
dá um panorama mundial do estado da
arte sequencial, com textos oriundos de
diversas partes do mundo. Patati já es-
creveu e dirigiu vídeos institucionais e de
treinamento, escreveu programas de Te-
levisão para a TVE e a TV Manchete, co-
laborou no roteiro do programa “Ao Pé
da Letra”, exibido pelos canais Vinde e
Record, e foi diretor de diálogos em duas
coproduções estrangeiras de longa-me-
tragem, “O 5º Macaco” e “Lambada, The
Movie!”.

Também foi premiado pelos roteiros que escreveu para curtas-


metragens exibidos nos festivais de cinema de Gramado, Salvador
e Rio de Janeiro (Rio Cine) nos anos de 1984 e 1985.

É autor do romance de ficção-científica “A sorte dos Girinos” (Edi-


tora Quartet, 1999). Tradutor pela Editora: Conrad, janeiro de
2007, “Epicuro O Sábio”.

Além de seus trabalhos em quadrinhos,


e de suas prosas longas, tem diversos
contos publicados na imprensa lusó-
fona, e o mais recente "O Desenho da
Criatura", inspirado nos Mitos de Cthu-
lhu do escrito Pulp americano H. P.
Lovecraft que integra a antologia gaú-
cha "A Ascensão de Cthulhu", da edi-
tora Argonautas, 2014. Estronho, 1 de
maio de 2014, “A Noite Rompida”.
Em 2017, publicou pela Veneta
“Couro de Gato”, HQ ilustrada por João
Sanchez, sobre história do surgimento do samba, em formato de
quadrinhos participou no roteiro da Coleção Sobrenatural vol. 1:
Vampiros, da Avec Editora.

Creio que os últimos trabalhos que Carlos Patati fez foi co-
migo em 9-9-2017 quando iniciamos o projeto, ele já tinha me dito
que tinha feito com Carlos Henry, porém, lançado em junho de
2017 pela Universo: “Fronteiras do Além”.
Os dois dias que são, 15 de
junho de 2018, Carlos Pa-
tati, depois no 26 de julho
2018, João Carpalhau. Fo-
ram dias de revelação cós-
mica. creio que ao falar
isso parece coisa de bo-
boca.

No entanto quem passou


por uma Experiência Fora do Corpo (EFC) pode falar um pouco do
assunto a capacidade de projetar tal essência, o que tive na época
foi por alergia forte a uma medicação

” Irei falar do Caminho, que sempre é um caminho quando se fala


de EFC, assim dizia Raul Seixas em sua música, quase ninguém
acredita nisso.”

Eu senti a relva como se fosse de verdade, mas era de verdade


mesmo, o chão estava cheio de pedras ornamentadas, emparelha-
das por pequenas fendas milimétricas ao redor do verde da mata
-” não me lembro de jardim”- Eu sentia o cheiro do mato, da relva
em geral, meus extintos
sensoriais eram impulsio-
nados à paisagem.

De longe, um ser huma-


noide a me esperar. Eu não
posso dizer se era anjo,
apenas uma presença,
como se eu tivesse um
senso coerente, um tipo de
terceiro olho, uma visão áurea do objeto, eu andava até ele, pois
no decorrer sentia uma paz que nunca tive na minha vida, indes-
critível, que transcendeu toda a minha mente, eu só queria absor-
ver a paz, até parecia que estava com fome.
Ao acordar, devido à adrenalina no hospital, vi a morte com outros
olhos, porém, eu observo a vida como uma escola do contexto so-
bre uma realidade experimental, mas o que é realidade para nós,
creio que há uma freada nesse sentido, impedindo o fluxo natural
do pensamento, creio que vivemos em uma ilusão de realidade. O
povo mais antigo via como uma viagem.
Existe o conceito energético da alma se estabelecendo em pala-
vras, como Chacras, Eteria, Cordão de Prata... Existe também o
conceito do terceiro olho, uma espécime de sensor que nós des-
prezamos e transformamos em uma pantomina, desassociando
algo que nós sempre tivemos que é totalmente observado ao
pressentir o amor, os gêmeos, os animais de estimação ou até
mesmo de pais e filhos, esse instinto de proteção pelo amor e
dado para todos os seres vivos.
No conceito geral
pressentimos quando
estamos isolados, ou
até mesmo quando es-
tamos em perigo, o
amor é a essência vital
de tudo, mesmo tendo
adversidades no cami-
nho ou algum erro do
passado por certas ilu-
sões. O amor é assim,
cuidamos uns dos ou-
tros sem cobranças de nada, mesmo depois da morte sempre so-
mos lembrados por quem nos ama de verdade.
UMA BREVE APRESENTAÇÃO
Por Gabriel Rocha
Quem produz ou trabalha
com Histórias em Quadri-
nhos sabe que essa lingua-
gem sofre uma estigmatiza-
ção negativa, construída ao
longo do tempo, com o obje-
tivo de valorizar as artes e
manifestações literárias mais
tradicionais. Na verdade,
fica parecendo que as artes
ditas “cultas” possuem al-
guma necessidade de medi-
ocrizar as manifestações de
vanguarda por receio que
lhes substituam o status quo.
É um desassossego infeliz.
Um novo status quo nasce
sem que algum pregresso se
perca. Há espaço para todos.
Recentemente, quem en-
Pedro Henrique Cypreste
controu seu próprio cami-
nho foi o hoje companheiro
de artes, aluno Pedro Henrique Cypreste. Recebi a boa oportunidade de mi-
nistrar uma turma de histórias em quadrinhos para o curso Criar, em Niterói
-RJ, com um aluno muito especial. Portador de uma condição rara, as difi-
culdades de expressão não impediram o seu desenvolvimento ao longo de
2018 durante nossas atividades em sala de aula.
Pedro já desenhava muito bem. Frequenta o curso de artes faz algum
tempo, e gosta muito do que faz. No início, a comunicação era uma barreira.
Mas, o entusiasmo e simpatia do jovem são agregadores e permitiram que
uma estratégia de trabalho fosse implementada para o desenvolvimento
das nossas atividades.
Primeiro, o aluno foi deixado à vontade para se expressar livre-
mente. Ele desenvolveu interesse particular em reproduzir alguns quadros
da edição especial do Lagarto Negro (impresso pela Editora Kimera), em
painéis únicos, como se a percepção de cada quadro fosse individualizada.
Num segundo momento, foi pedido ao aluno que continuasse reproduzindo
os quadros, mas agora seguindo a estrutura de uma página de quadrinhos
tradicional, com as sarjetas entre os quadros e formando a ideia de uma se-
quência. Em seguida, a atividade consistiu em abandonar a revista do La-
garto Negro e começar a criar suas próprias sequencias.
As primeiras criações, sem referências, foram algumas páginas de
ação com personagens de filmes do cinema. Não haviam referências dos
personagens de filmes no ambiente do curso. O próprio aluno externava
agora um conceito que havia armazenado previamente dentro de si, e isso
abriu um caminho. Até este momento, não havia texto. Nos foi dito que o
aluno tinha pleno domínio da língua portuguesa, mas não desenvolvia mais
do que frases curtas. Começamos a trabalhar os balões, típicos da lingua-
gem dos quadrinhos, em sala de aula. A próxima atividade seria então o
grande desafio: desenvolver uma sequência de páginas, narrando uma his-
tória original, com personagens próprios! O resultado é a história em qua-
drinho A FESTA NO ÔNIBUS, que você lê a seguir.
A linguagem das Histórias em Quadrinhos permitiu que uma narra-
tiva completa se desenvolvesse, superando a limitação inicial apresentada
no início do curso. Deixo aqui meu grande agradecimento ao editor André
Carim, por compreender a importância deste nosso trabalho e ceder es-
paço, em sua publicação periódica digital, para a história em quadrinhos A
FESTA NO ÔNIBUS. Agradeço à família do Pedro, por permitir a publicação
da história em quadrinhos A FESTA NO ÔNIBUS como meio de recompen-
sar o aluno Pedro Henrique Cypreste por todo seu esforço ao longo do
curso. Na minha opinião, uma grande conquista! Uma narrativa completa,
com personagens próprios, apresentação, início, meio e fim.