Você está na página 1de 2

RECENSÕES     227

Cláudia Castelo autora caracteriza demográfica e sociologi-


passagens para áfrica: camente as populações que seguiram para
o povoamento de angola estes territórios ultramarinos, revelando na
e moçambique com naturais terceira parte as representações dos colonos
da metrópole sobre eles próprios, a terra e os habitan-
Porto, Edições Afrontamento, 2007, tes autóctones, pontuadas com episódios
405 páginas. das condições de vida no terreno e do
relacionamento com as populações locais.
As duas correntes – colonização intensiva
O império exige colonizadores, pessoas, quer com populações da metrópole dirigida pelo
seja para conquistar, impor a ordem, evan- Estado; colonização de capitais e quadros
gelizar, administrar o território e populações sem intervenção estatal – definiam o tipo de
locais, promover comércio ou indústria. ocupação, papel do Estado, perfil dos colo-
Apesar da centralidade dos diversos actores nos e relação destes com a população local.
colonizadores – militares, administradores, Ou seja, apresentavam abordagens diferen-
profissionais liberais, comerciantes, agri- tes ao projecto colonial, mas com a sobrevi-
cultores – a historiografia portuguesa não vência da Nação como base comum.
apresentava até à tese de doutoramento de A persistência de discursos e políticas de
Cláudia Castelo estudos aprofundados e crí- emigração do último quartel do século XIX
ticos sobre a colonização branca das colónias ao final do projecto colonial inferia a exis-
africanas portuguesas. O livro Passagens para tência de problemas na concretização des-
África: O Povoamento de Angola e Moçambique tas ideias. Angola e Moçambique, apesar de
com Naturais da Metrópole, corolário da tese, serem destinos preferenciais na emigração
tem como objecto a migração de naturais para as colónias, não eram, no entanto, o
da metrópole para as colónias de Angola e destino principal da emigração portuguesa.
Moçambique entre 1920 e 1970. Numa caracterização macro, a autora traba-
Após ter trabalhado sobre o impacte lha uma miríade de dados para apresentar os
e a incorporação do luso-tropicalismo de perfis dos emigrantes, revelando sexo, idade,
Gilberto Freyre na ideologia colonial portu- estado civil, escolaridade, aptidão profissio-
guesa (“O Modo Português de Estar no Mundo”: nal, distrito de origem na metrópole e de
O Luso-tropicalismo e a Ideologia Colonial Por- fixação na colónia, condições de viagem, e
tuguesa (1933-1961), Porto, Edições Afron- estabelece quais os momentos históricos de
tamento, 1998), Cláudia Castelo enfrentou maior ou menor fluxo migratório. A autora
uma montanha de fontes primárias e publi- revela ainda que, no que toca à colonização
cações da época com ferramentas metodo- dirigida, o Estado promoveu o oposto de
lógicas da história, demografia, sociologia, representações e políticas de povoamento,
antropologia e psicologia social para estudar demonstrando que a colonização livre, isto
os discursos coloniais de povoamento, os é, sem intervenção do governo, foi o grande
actores históricos e as representações destes motor da emigração para as colónias.
sobre os territórios e populações coloniais. Na terceira parte Cláudia Castelo ilus-
As diferentes perspectivas sobre o pro­ tra as representações dos colonos sobre eles
cesso de povoamento reflectem-se na segmen­ mesmos e o meio circundante, a metrópole,
tação do livro em três partes. Na primeira e ainda a centralidade destas representações
são analisados os modelos de povoamento para a construção da sua identidade. Paten-
branco, as políticas oficiais e concepções teia a distância existente entre os colonos e
ideológicas subjacentes, e posteriormente a a metrópole política. Mostra as condições
228     RECENSÕES etnográfica    maio de 2009    13 (1): 225-232
 

de vida de colonos e africanos em ambas as particular a parte iii, ganharia maior força
colónias ao longo do tempo, contrapondo analítica ao incluir elementos de história
às representações coloniais casos específicos oral. Tal iluminaria de forma clara aspec-
de terreno que revelam a complexidade da tos como as redes presentes no processo
situação colonial e a fragmentação da expe- de emigração, as motivações para emigrar
riência colonial. e a escolha do local de chegada, o papel
Metodologicamente, ao integrar instru­ da ideologia política do colono na ida para
men­tos de diversos campos do conheci- as colónias ou as representações africanas
mento, história, demografia, sociologia e dos colonos, e outorgaria maior detalhe às
antropologia, a autora fornece uma lufada situações de caracterização micro, como a
de ar fresco aos estudos coloniais portugue­ vivência do dia-a-dia dos colonos e as suas
ses. A base sólida de fontes primárias dificuldades, as hierarquias e tensões entre
pes­quisadas nos meandros dos arquivos colonizadores, o quotidiano e a capacidade
portugueses, angolanos e moçambicanos, o de agenciamento dos africanos. O resultado
olhar crítico sobre os censos e a literatura da seria um reforço da história crítica vista de
época, o entrelaçar de dados quantitativos e baixo, enfatizando-se o hiato entre a expe-
qualitativos, as análises de representações e riência no terreno colonial e os discursos
discursos e dos diferentes níveis activos no e representações coloniais, produzindo-se
objecto tornam o argumento deste trabalho uma imagem mais complexa e sofisticada
mais coerente e persuasivo. O corolário desta do projecto e da realidade coloniais.
interdisciplinaridade é um livro que avança Dito isto, este trabalho revela o processo
uma imagem mais complexa sobre o povoa- de maturação que os estudos coloniais em
mento das colónias de Angola e Moçambi- Portugal tiveram nos últimos anos. Apre-
que no Terceiro Império ­Português. senta um olhar crítico e contextualizado dos
A autora poderia ter dado outros passos discursos e políticas de povoamento, ilumina
em frente, por exemplo prosseguido a linha o hiato entre estes discursos e a prática dos
de investigação da história oral, seguindo planos de povoamento metropolitanos, inte-
o exemplo de estudos originários da aca- gra a metrópole e as colónias num mesmo
demia norte-americana – Nancy Hunt, A patamar de análise, mostra a força analítica
Colonial Lexicon: Of Birth Ritual, Medicali- ao descartar conceptualizações maniqueís-
zation and Mobility in the Congo (Durham, tas e homogeneizantes do contexto colonial
NC, Duke University Press, 1999); Luise e consegue uma harmonia salutar entre a
White, Speaking with Vampires: Rumor and extensão e a profundidade do estudo.
History in Colonial Africa (Berkeley, Uni- Quem trabalha sobre o Império defronta
versity of California Press, 2000); Jeremy um dilema quando procura encontrar o
Ball, “The Colossal Lie”: The Sociedade Agrí- ponto de equilíbrio entre os dois discursos
cola do Cassequel and Portuguese Colonial dominantes, as representações hegemóni-
Labor Policy in Angola, 1899-1977 (tese de cas do período colonial e as caracterizações
doutoramento, Los Angeles, University of anticoloniais, ambos com um lastro ainda
California, 2003). Os testemunhos orais, aceso no presente. Cláudia Castelo atinge
ao invés dos arquivos, desaparecem diaria- este equilíbrio, contribuindo de forma
mente, e apesar de divagações e visões de importante para uma imagem mais com-
um passado dourado, outorgam informa- plexa do projecto colonial português.
ções-chave ausentes de censos, relatórios
coloniais, bibliografia de época ou literatura Jorge Varanda
de memórias coloniais. Este trabalho, em CRIA, CMDT-LA