Os Pré-Socráticos

Dualismo Grego
A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísico-teológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta.

O Gênio Grego
A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Divisão da História da Filosofia Grega
Os Períodos Principais do Pensamento Grego Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: présocrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Primeiro Período
O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística.

Escola Jônica
A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente

em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas.

Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"
Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro. Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. Elemento Estático - a flutuação sobre a água. Elemento Dinâmico - a geração e nutrição de todas as coisas pela água. Tales acreditava em uma "alma do mundo", havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas.

Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"
Anaximandro de Mileto, geógrafo, matemático, astrônomo e político, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como princípio universal uma substância indefinida, o ápeiron (ilimitado), isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Eterno, o ápeiron está em constante movimento, e disto resulta uma série de pares opostos - água e fogo, frio e calor, etc. - que constituem o mundo. O ápeiron é assim algo abstrato, que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. Com essa concepção, Anaximandro prossegue na mesma via de Tales, porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. Para ele, o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Ampliando a visão de Tales, foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Diz-se também, que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron), infinito e em movimento perpétuo. Fragmentos "Imortal...e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) - Aristóteles, Física". Esta (a natureza do ilimitado, ele diz que) é sem idade e sem velhice. Hipólito, Refutação.

Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
Segundo Anaxímenes, a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar, um elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. As diversas coisas que existem, mesmo apresentando qualidades diferentes entre si, reduzem-se a variações quantitativas (mais raro, mais denso) desse único elemento. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente". (Plutarco). "Com nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém". (Aécio).

Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito
Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). Seu caráter altivo, misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. Desprezava a plebe. Recusou-se sempre a intervir na política. Manifestou desprezo pelos antigos poetas, contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. Sem ter sido mestre, Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza, em prosa, no dialeto jônico, mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro. Floresceu em 504-500 a.C. - Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, "como a do arco e da lira".

Filosofia de Heráclito
Heráclito concebe o próprio absoluto como processo, como a própria dialética. A dialética é: A. Dialética exterior, um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma; B. Dialética imanente do objeto, situando-se, porém, na contemplação do sujeito; C. Objetividade de Heráclito, isto é, compreender a própria dialética como princípio. É o progresso necessário, e é aquele que Heráclito fez. O ser é o um, o primeiro; o segundo é o devir - até esta determinação avançou ele. Isto é o primeiro concreto, o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. Nele encontra-se, portanto, pela primeira vez, a idéia filosófica em sua forma especulativa; o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato; por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece, à primeira vista, muito contraditório; mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir, em Heráclito, um homem de profundos pensamentos. Ele é a plenitude da consciência até ele uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia, o infinito, aquilo que é.

O Princípio Lógico
O princípio universal. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser", nem é menos; ou ser e nada são o mesmo, a essência é mudança. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos; nos eleatas, temos apenas o entendimento abstrato, isto é, apenas o ser é. Dizemos, em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser", desta maneira, não parece, então, produzir muito sentido, apenas destruição universal, ausência de pensamento. Temos, porém, ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo". E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele compara as coisas com a corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente"; o rio corre e toca-se outra água. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é. Além disso, Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece; disto todo o resto é formado, modificado, transformado; que todo o resto fora deste um flui, que nada é firme, que nada se demora; isto é, o verdadeiro é o devir, não o ser - a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. Os eleatas dizem: só o ser é, é o verdadeiro; a verdade do ser é o devir; ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. Heráclito diz: Tudo é devir; este devir é o princípio. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é". As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade; nela temos o ser e também o não-ser. Dela faz parte não apenas o surgir, mas também o desaparecer; ambos não são para si, mas são idênticos. É isto que Heráclito expressou com suas sentenças. O não ser é, por isso é o não-ser, e o não-ser é, por isso é o ser; isto é a verdade da identidade de ambos. É um grande pensamento passar do ser para o devir; é ainda abstrato, mas, ao mesmo tempo, também é o primeiro concreto, a primeira unidade de determinações opostas. Estas estão inquietas nesta relação, nela está o princípio da vida. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias - a falta de movimento; este movimento é aqui, agora mesmo, princípio. É uma grande convicção que se adquiriu, quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade, que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor; a razão, pelo contrário, reconhece um no outro, que num está contido seu outro - e assim o todo, o absoluto deve ser determinado como o devir. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo, como, por exemplo, "o mel é doce e amargo" - ser e não-ser ligam-se ao mesmo. Sexto observa: Heráclito parte, como os céticos, das representações correntes dos homens; ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce, e os que sofrem de icterícia que é amargo - se fosse apenas doce, não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe - um por limites e um sobressumir os limites; Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo - , por causa de sua contradição, como o não verdadeiro. Em Heráclito, vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito, que é em si e para si, é a unidade dos opostos e, na verdade, dos universalmente opostos, da pura oposição, ser e não-ser. Tomamos nós o ente em si e para si, não a representação do ente, do pleno, assim o puro ser é o pensamento simples, em que todo o determinado é negado, o absolutamente negativo - nada é o mesmo, apenas este igual a si mesmo - , passagem absoluta para o oposto, ao qual Zenão

não chegou! "Do nada, nada vem." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente; disto trata o conceito de toda a Filosofia. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser, numa forma bem imediata e universal; mais exatamente, porém, também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. É esta unidade de real e ideal, de objetivo e subjetivo; o objetivo somente é o devir subjetivo. Este verdadeiro é o processo do devir; Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. Aristóteles diz, por exemplo, que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) - o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo - , o "que se une e se opõe", do mesmo modo, "o que concorda e o dissonante"; e de que de tudo (que se opõe) resulta um, e de um tudo. Este um não é o abstrato, a atividade de dirimir-se; a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo; mas é também o mesmo que o todo é; a substância é o todo e a parte. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo, gerado seu Filho, etc. - todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. Platão diz, em seu Banquete, sobre o princípio de Heráclito: "O um, diferenciado de si mesmo, une-se consigo mesmo" - este é o processo da vida, "como a harmonia do arco e da lira". Deixa então que Erixímaco, que fala no Banquete, critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos, pois que a harmonia se formaria de altos e baixos, mas da unidade pela arte da música. Mas isto não contradiz Heráclito, que justamente quer isto. O simples, a repetição de um único som não é harmonia. Da harmonia faz parte a diferença; é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir, transformar-se - não devir outro, agora este, depois aquele. O essencial é que cada diferente, cada particular seja diferente de um outro - mas não de um abstrato qualquer outro, mas de seu outro; cada um apenas é, na medida em que seu outro em si esteja consigo, em seu conceito. Mudança é unidade, relação de ambos a um, um ser, este e o outro. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim; vemos, pensamos a mudança, a unidade essencial. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. Assim também no caso dos sons; devem ser diferentes, mas de tal maneira que também possam ser unidos - e isto os sons são em si. Da harmonia faz parte determinada oposição, seu oposto, como nas harmonia das cores. A subjetividade é o outro da objetividade, não de um pedaço de papel - o absurdo disto logo se mostra - , deve ser seu outro, e nisto reside sua identidade; assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. Este é o grande princípio de Heráclito; pode parecer obscuro, mas é especulativo; e isto é, para o entendimento que segura para si o ser, o não-ser, o subjetivo e objetivo, o real e o ideal, sempre obscuro.

Os Modos da Realidade
Heráclito não ficou parado, em sua exposição, nesta expressão em conceitos, no puro lógico, mas além desta forma universal, na qual expôs seu princípio, deu à sua idéia também uma expressão real. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica, ou sua forma é mais a forma natural; por isso, é incluído ainda na Escola Jônica, e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores, contudo, não estão de acordo entre si. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo, outros dizem que como ar, outros dizem que antes o vapor que o ar; mesmo o tempo é citado, em Sexto, como o primeiro ser do ente. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores, pois as testemunhas são as melhores, como Aristóteles e Sexto Empírico, que não falam destas formas de passagem, mas de modo bem determinado, sem, no entanto, chamar a atenção para estas diferenças e contradições. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito, o qual, na confusão de seu modo de expressão, poderia dar motivos para mal-entendidos. Mas, considerando mais detidamente, esta dificuldade desaparece; esta mostra-se mais para uma análise superficial; no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. De maneira alguma podia Heráclito afirmar, como Tales, que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta; e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro, na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. Assim, portanto, a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente, por exemplo, a água, mas a água enquanto se transforma, ou apenas o processo. A. - Processo abstrato, tempo. Heráclito, portanto, disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo, como exprime Sexto. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata; o tempo é a intuição abstrata do processo; diz que ele é o primeiro ser sensível. O tempo, portanto, é a essência verdadeira. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir, mas deu a seu princípio a forma de um ente, deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo; pois precisamente, no sensível, no que se pode ver, o tempo é o primeiro que se oferece como o devir; é a primeira forma do devir. Enquanto intuído, o tempo é o puro devir. O tempo é puro transformar-se, é o puro conceito, o simples, que é harmônico a partir de absolutamente opostos. Sua essência é ser e não-ser, sem outra determinação ser puro e abstrato não-ser, postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. Não como se o tempo fosse e não fosse, mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser - esta mudança de ser para não-ser, este conceito abstrato, é, porém, visto de maneira objetiva, enquanto é para nós. No tempo não é o passado e o futuro, somente o agora; e este é, para não ser, está logo destruído, passado - e este não-ser passa, do mesmo modo, para o ser, pois ele é. É a abstrata contemplação desta mudança. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência, nesta pura forma em que ele o reconheceu, não haveria outra que nomear a não ser o tempo; é, por conseguinte, absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo; assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito.

B. - A forma real como processo, fogo. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. No tempo estão os momentos, ser e não-ser, postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Além disso, Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. O tempo é intuição, mas inteiramente abstrata. Se quisermos representar-nos o que ele é, de modo real, isto é, expressar ambos os momentos como uma totalidade para si, como subsistente, então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo, dotado de tais momentos, é o processo; compreender a natureza significa apresentá-la como processo. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito; por isso, logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes, pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. O fogo, porém, é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência - e este é o modo real do processo heracliteano, a alma e a substância do processo da natureza. Justamente no processo distinguem-se os momentos, como no movimento: 1. o puro momento negativo, 2. os momentos da oposição subsistente, água e ar, e 3. a totalidade em repouso, a terra. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição, o pôr desta oposição, destes momentos - e a unidade negativa, o retorno para a unidade, o queimar da oposição subsistente. O fogo é o tempo físico; ele é esta absoluta inquietude, absoluta dissolução do que persiste - o desaparecer de outros, mas também de si mesmo; ele não é permanente. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. C. - O fogo está agora mais precisamente determinado, mais explicitado como processo real; ele é para si o processo real, sua realidade é o processo todo no qual, então, os momentos são determinados mais exata e concretamente. O fogo, enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas, é mudança, transformação do determinado, evaporação, transformação em fumaça; pois ele é, no processo, o momento abstrato do mesmo, não tanto o ar como antes a evaporação. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça, vapores do sol); evaporação é aqui apenas a significação superficial - é mais: passagem. Sob este ponto de vista, Aristóteles diz de Heráclito que, segundo sua exposição, o princípio era a alma, por ser ela a evaporação, o emergir de tudo, e este evaporar-se, devir, seria o incorpóreo e sempre fluído. As determinações mais próximas deste processo real são, em parte, falhas e contraditórias. Sob este ponto de vista, afirma-se, em algumas notícias, que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são, primeiro, o mar e, então, a metade disto, terra, e a outra metade, o raio" - o fogo em sua eclosão. Este é universal e muito obscuro. A natureza é assim esse círculo. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga.". Compreendemos o que Aristóteles cita, que o princípio é a alma, por ser a evaporação, este processo do mundo que a si mesmo se move; o fogo é a alma. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante, a alma, encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra, isto é, que a alma mais seca é a melhor. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor, mas, pelo contrário, a mais viva; seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro, e este não é a negação do vivo, mas a própria vida. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita, isto é, sua essência como processo. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia; ele é a idéia permanente, que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje, assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. "Os homens são deuses mortais e os deuses, homens imortais; viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos".

Pitágoras de Samos
Pitágoras, o fundador da escola pitagórica, nasceu em Samos pelos anos 571-70 a.C. Em 532-31 foi para a Itália, na Magna Grécia, e fundou em Crotona, colônia grega, uma associação científico-ético-política, que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Pitágoras aspirava - e também conseguiu - a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política; isto, porém, levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona, mudando-se para Metaponto, aí morrendo provavelmente em 497-96 a.C. Segundo o pitagorismo, a essência, o princípio essencial de que são compostas todas as coisas, é o número, ou seja, as relações matemáticas. Os pitagóricos, não distinguindo ainda bem forma, lei e matéria, substância das coisas, consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. Da racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas, passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. Mas, achada a substância una e imutável das coisas, os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser, precisamente mediante o uno e o imutável. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos, que são - segundo os pitagóricos - o ilimitado e o limitado, ou seja, o par e o ímpar, o imperfeito e o perfeito. O número divide-se em par, que não põe limites à divisão por dois, e, por conseguinte, é ilimitado (quer dizer, imperfeito, segundo a concepção grega, a qual via a perfeição na determinação); e ímpar, que põe limites à divisão por dois e, portanto, é limitado, determinado, perfeito. Os elementos constitutivos de cada coisa - sendo cada coisa número - são o par e o ímpar, o ilimitado e o limitado, o pior e o melhor. Radical oposição esta, que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice, que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática), que governa e deve governar o mundo material e moral, astronômico e sonoro. Como a filosofia da natureza, assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. De fato, os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, bem como a rotação da Terra, explicando assim o dia e a noite;

O ser é luz e. pois. O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. há também uma pluralidade. cinco o casamento. o domínio da química e das ciências naturais. contra o eleatismo. imóvel.] A música. é essencialmente uma força calculadora. o primeiro sistema de Parmênides. relação de intervalos. com analogias fantasiosas. Portanto. 3) portanto. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. e a delimitação. é uma especulação totalmente insólita. problemas secundários. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. quadrado. imóvel. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. Nossa ciência é. portanto. o número é a essência própria das coisas. masculino.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. De um lado têm-se. e da Harmonia que une as qualidades opostas. Pelo que diz respeito à moral. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. não há qualidades. nesse caso. o não-ser é noite e. os números quadrados. ímpar. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. foi em todo caso formado por dois princípios. 5): delimitado. portanto. par. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. ativo. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. etc. portanto há. e a pluralidade do ser. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. exclusivamente com o auxílio de números. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. portanto.). se se trata de sua quantidade. não-ser e. Para compreendermos seus princípios fundamentais. Na química. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. que não está em parte nenhuma. 2) que tampouco tem limites. quatro o volume. luz. direita. sutil. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. do qual a música é. portanto. impossível. Cosmogonia. Mas ambos compõem o Uno. A contribuição original dos pitagóricos é. mau. há também uma pluralidade. conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. agora. que reaparece aqui pela última vez. a Unidade veio a ser. A música. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. dualismo. davam nascimento a uma série limitada de números. dez a perfeição. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. etc. frio. depois. con efeito. ilimitado. e as práticas ascéticas e abstinenciais. curvo. pois. denso. bom. ablongo. que não se deve confundir com o Sol. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro. esquerda. etc. ímpar. agitado. os gnómones. O Universo e os planetas esféricos. portanto. modo dórico. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. encontra-se. e quanto à tonalidade. dois é a linha. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. trevas. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. uno. o Ápeiron de Anaximandro. feminino. assim. agora. como tal. um é o ponto. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. isso porque os ímpares. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. ablongo. Nos outros sistemas de física. cuja tarefa é. é preciso partir do eleatismo. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). a Anaximandro. pitagórica. Nela. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. masculino. a essa força. o Péras. ilimitado. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. nesse sentido. agitado. curvo. quadrado. uno. a imagem. e o número. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. trevas. se o Uno existe. evidentemente. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos).e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. passivo. as superfícies e os corpos. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. par. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. portanto a diversidade. têm-se também os objetos materiais. Contentou-se. a linha. portanto. I. A harmonia das esferas. do qual se pode dizer que é impar. De novo. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. Mas. toda coisa nasce de dois fatores opostos. etc. luz. poder-se-ia exprimir o ser do universo. Parmênides chamava Aphrodite. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as . bom. ao absolutamente Indeterminado. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. De outro lado. ponto de vista inteiramente novo. estritamente. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. quente. do Ápeiron. àquilo que não tem nenhuma qualidade. direita. mas delimitações do ilimitado. [Teoria das cordas sonoras. a possibilidade de uma investigação exata em física. inqualificado e qualificado. aqui. logo. quatro a justiça. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. tiveram de erigir a noção de número. Portanto. também uma pluralidade". três a superfície. pelo menos em certo sentido. esquerda. um conceito contraditório. reto. provisoriamente. pois. Portanto. em todo caso. Assim. dois a opinião. Remetem-se. enfim.. portanto: delimitado. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. Dizem. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. mau. por outro lado. feminino. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. múltiplo. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. enfim. Mas estes são apenas. e as partes múltiplas. inicialmente. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. Desde que se têm o ponto. À primeira vista. não há nada além de quantidades. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. E tal é. reto. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. se se trata de sua qualidade. múltiplo. que. pai de todas as coisas. tudo é uma unidade". não quantidades de elementos (água. No mesmo sentido. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. delimitado e ilimitado. fogo.

síria ou. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. Relata a lenda que Pitágoras. Se não existiu Pitágoras de Samos. Zoroastro (Zaratustra). afinal. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. que Pitágoras nasceu em Samos. . enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. em sua juventude. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. já em tempos de César. que liga Roma a Nápoles. foi descoberta uma cripta. como o Péras fixa o limite). mas provocaram. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. como foi Gautama Buda. cuja existência foi tantas vezes negada. contando-nos a lenda que. Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. influindo no pensamento Ocidentel. essa ordem. sob os trilhos da estrada de ferro. jaz envolta num véu de mistério. ainda. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. recomendado ao faraó Amom. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. foi iniciado nos mistérios egípcios.proporções. nos santuários de Mênfis. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. também. sinteticamente. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. mebora esteja. outros. certa vez. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. Antes de sua localização na Magna Grécia. por casualidade. durante vinte e cinco séculos. como já esteve no passado. que. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. junto com os seus mais amados discípulos. ou seja. segundo uns. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. tomando um rumo que permaneceu ignorado. inúmeras viagens e peregrinações. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. onde. perto de Porta Maggiori. natural de Tiro. Tendo esta. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. chamava-se Pitágoras. depois Ferécides de Siros. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. peremptoriamente. ademais. em Mileto. afirma-se. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. Observa-se. relata-se que esteve em contato com os órficos. onde. Conta-nos. porque há. ao nosso ver. que desde criança se revelava prodigioso. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. há 2. era filho de Menesarco e de Partêmis. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). O vir-a-ser é um cálculo.600 anos vem. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. levado o filho à Pítia de Delfos.. Foi depois discípulo de Sonchi. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. Numa obra. fundou o seu famoso Instituto. então tirano de Samos. um sacerdote egípcio. Afirma-se. posteriormente. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. que este realizou. em torno dessa lenda.C. Consta que Pitágoras. porém. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. vamos a seguir relatar algo. desde os tempos da antiguidade. Sabe-se hoje. em Babilônia. Isso lembra a palavra de Leibniz. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. averigou-se ser pitagórica. por volta de 41 a 54 d. ou Pythaia. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. Dentre as religiões de mistérios. Confúcio e Lao Tsé. de caráter iniciático. conhecido Zaratos. pereceu Pitágoras. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. por não se ter às mãos documentação bastante. Em 1917. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. entre 592 a 570 antes da nossa era. Dióspolis e Heliópolis. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. e ouvinte das conferências de Anaximandro. tendo. aluno de Tales. que ainda existe e tem seus seguidores. que preferem declará-lo como não existente. já em decadência. O fato de negar-se. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. no Peloponeso. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. proliferavam os templos pitagóricos. poderosamente. Mas. a inimizade de Policrates. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. e se essa seita foi tão combatida. que é representada inteiramente destituída de qualidade. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. foi finalmente destruído. em nossos dias. tendo sido. e que nada mais era do que um templo. ainda. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. também. esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. combatido pelos democratas de então. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. o qual. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. ao dizer que a música é "exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi" (¹). hoje cara aos pitagóricos. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. sem dúvida. com base histórica. em seu incêndio. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. em Crotona. e que. que antes. nessas descrições.

será qualificada como uma "harmonia". "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. por sua própria natureza. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. uma distinção . ou seja. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". entre todos os seres. já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. Para libertar-se. (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. às estrelas. porque basicamente intelectual. do ciclo das reincarnações. uma teve enorme difusão: o culto de Dioniso.era uma religião essencialmente esotérica. "Todas as coisas são números". sustentada pela ordem e pela proporção. A purificação resultaria do trabalho intelectual. em algumas regiões do mundo grego.vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" .C. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia .o que escuta. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto. Ou seja. e que se manifesta como beleza. representados figurativamente. que descobre a estrutura numérica das coisas e torna. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. de natureza divina. em geral. De acordo com essa concepção. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica. depois da derrota da liga crotoniata. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas.Segundo as melhores fontes.o mal seja entendido sempre como desarmonia. verificou-se.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação. de caráter iniciático. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. (Pitágoras) Em Todas as Coisas.C. Assim. são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior).que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. a retornar à sua pátria celeste. na segunda metade do século VI a. contudo. semeia . depois do pitagórico Filolau. tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. em substituição às representações literais mais arcaicas. as regras da vida individual e do governo das cidades. uma revivescência da vida religiosa. a alma semelhante ao cosmo. que. que ele teria deixado Samos (na Jônia).como virão a ser mais tarde -. mas não a carregues". fugindo à tirania de Polícrates. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte.esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. da música. entendido como unidade harmônica. usadas pelos gregos e depois pelos romanos. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. assim. Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. os números são reais. A religião órfica pressupunha. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. sobretudo.que descreve o cenário cósmico. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. A alma aspiraria. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480.de Orfeu. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito. originário da Trácia. os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. Estes não seriam. de onde caíra. são a própria "alma das coisas". (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a.não só de natureza como também de valor . que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. recolhe". as unidades comporiam os números. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga. Segundo a cosmologia pitagórica . Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora. vivo. garantida pela presença do divino em tudo. transformando o sentido da "via de salvação". transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa. portanto . mínimo de . na transmigração da alma através de vários corpos. portanto. a fim de efetivar sua purificação. O orfismo . de acordo com ela. das divindades "oficiais" -. porém.o Número A partir do próprio Pitágoras. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. Partindo de idéias órficas. Natural que dentro de tal concepção . teria sido antes de mais nada um reformador religioso. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. pelos tiranos. que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . "O que fala. onde se processa a purificação da alma . Os primeiros números. Parece certo. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente.

e ao perguntar pelos inimigos do Estado. em seu movimento. mordendo-lhe. Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado. para arrancar-lhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". o dois determina a linha. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação. no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado". faze aquilo que te parece justo". por não revelar o nome dos comparsas. permanentemente soante. Essa geometrização do cosmo estava aliada. a alma pura da ciência . mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. Sobre a Natureza. acabou preso. presos a esferas homocêntricas. A característica de Zenão é a dialética. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. unidade de extensão. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. descontínuo e divisível dos pitagóricos. como V¯². ao mesmo tempo. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano. tranqüila em si mesma. é o nada para ela. às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos intervalos musicais. a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. Assim. Apesar desses impasses .Escreveu várias obras em prosa: Discussões. . liquidá-lo e assim libertar-se. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. Também Zenão era um eleata. Defendeu o ser uno. Zenão. pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. o fez torturar de todos os modos. as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. Contra os Físicos. Ou então.corpo. tendo. dando leis à sua pátria. quanto na base mesma da matemática. . aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. Essa "harmonia das esferas". a orelha e . pleno para aquela mudança. porém. pelo contrário. Em Zenão. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar.ela aponta. começar com esta afirmação. interveio na política. a quantidade e sua expressão espacial. diante de seu povo. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração.é o iniciador da dialética. e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. torturado e. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". enquanto o quatro produz o volume. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança. Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). pelo contrário. Ele é o mestre da Escola Eleática. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. sons de acorde perfeito.Vida. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. é a razão que realiza o começo . mas não o vemos. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. não é. para lá colher fama. Este o amava muito e o adotou como filho. Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. Com efeito. principalmente os pitagóricos. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). De modo violento e furioso de sua reação. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. Nisto consistia o movimento determinado. Explicação Crítica de Empédocles.Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). no entanto.C. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. o três gera a superfície. O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. Parmênides afirmou: "O universo é imutável. Dessa maneira. Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. a hipotenusa seria igual a V¯². no pitagorismo. aquelas esferas produziram. Sua astronomia. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. perdeu a vida. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. Nasceu em Eléia (Itália). contra as críticas dos adversários. Quando o tirano. para caírem sobre o tirano. Parmênides. Ao contrário de Heráclito.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. "Pensem o que quiserem de ti. Segundo muitas lendas. esta sido traída.e em grande parte por causa deles . pois na mudança seria posto o não-ser daquilo que é. (Pitágoras) Zenão de Eléia . ou ela não é nada". "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". mas somente é ser. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número.

desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido. nem uma parte tal coisa é o ilimitado. se houvesse mais deuses". portanto. "que. por exemplo. deuses. b) Movido. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. nem é imóvel. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. em outra parte de outro modo. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. pois um dever-se-ia mover para o outro. a reflexão em si. Deus se comporta assim. Em seguida. ao igual. é o não-ente. pois não se pode atribuir.cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. então Ihe é próprio que seja um. estes diferentes não são expressos como diferentes. está afastada a determinação do negativo. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. nem vice-versa. os outros sentimentos. seria o nãoente. Se. passo a passo. inversamente. determinado como algo unilateral. "Sendo um. de argumentar é ainda. em seu pensamento. este afundarse no abismo da identidade do entendimento. que deixa o finito de lado. Se. a) ilimitado é o não-ente. o imóvel é negativo. houvesse mais deuses. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. vê e possui também." Movido só é o que é diferente de outro. Já em seu elemento tético vemos progresso. é apenas afirmativamente. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. mas assim já é. o que é impossível. então só há um Deus. Outros ainda dizem que. quer do igual quer do desigual. pelo contrário. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. o pior viesse do melhor. Ser é a igualdade expressa como imediata. Do nada é imediatamente nada. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. ou nada existe fora de Deus. o negativo de lado. válido. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. Deus é e se ele é de tal natureza. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . pois. porém. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. 0 ilimitado é o indeterminado. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. apenas com esta diferença fundamental. ele mesmo. nem vai para coisa alguma.ou não se distingue dele. e é assim. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. O ser. desta maneira. mas em toda parte igual. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. pois. Como Deus é em toda parte igual. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. do ser. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). Ser e não-ser situam-se assim. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. o poder de Deus.e pelo fato de. impossíveis. as coisas finitas e a mudança. gêneros. o mais antigo. não está nem em repouso nem se movimenta. reprimi-la-ia. ele não teria poder sobre eles. raciocinando-se. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. enquanto o ser supremo. "É impossível". pois este não possui nem meio. não seria capaz de tudo o que quisesse. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. do ser. "O um. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. Em tudo isto." Diz ainda: "Já que é eterno. enquanto limitado. e o gênero mais alto é então Deus. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. e deixamos." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. como é apenas um. ele não é limitado. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. que dele se produza mais do que deve ser produzido. da . surja" (ele relaciona isto com a divindade). como deve ela ser concebida. "o que é impossível. a mudança é em si contradição. assim. não fosse assim. ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. por conseguinte. negando-se predicados. Vemos. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. Deus é eterno. dizendo que o finito. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. b) Dar-se-ia delimitação mútua.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . "pois para ele nenhuma outra coisa advém. originar-se-ia o não-ser do ente. portanto. portanto. tanto no um mesmo. segurando-o assim. portanto. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. de outro lado. porém. Ou passamos do finito para o infinito." Com a aceitação da igualdade. a filosofia de Zenão é. Como. quando algo é. até o dia de hoje. de um lado temos. Ambas as coisas são. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. que. mas sem qualquer determinação. não seriam. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. a supressão do ser. de nosso modo de refletir comum. uma parte teria determinações que faltariam às outras). Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. ou se. nada pode provir". assim não é o ente. ou tudo é eterno. possui ele a forma esférica. pois não é aqui assim. a partir daí. ser. em seu conteúdo. diz ele. por exemplo. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. enquanto algo negativo. algo incompreensível: pois do um. não passa para o ser. somente é o múltiplo. nem fim. pois ele é eterno e um. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. portanto. depois disso teria sido triturado num pilão. nem em repouso nem em movimento. do igual. se houvesse diversos. Aristóteles conclui que. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. 1) Segundo seu elemento tético. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. assim como se pressupõe o ser. o que os eleatas desprezaram. ouve. mas. em toda parte. É a mesma separação. lado a lado. em tal tipo de raciocínio. porém. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. só que nós deixamos valer como ser também o finito. um e esférico. nem começo. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa ." Do fato de nada poder provir. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. Nós dizemos que Deus é imutável. o negativo. nosso caminho é trivial e mais óbvio. é em toda parte igual. espaço. terem mostrado que. Este modo. Pois." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). deve ter seu fundamento no infinito.

que raciocina. não segundo circunstâncias exteriores. o movimento. é a demonstração o movimento da convicção. o vazio. pois ele nega predicados que se opõem. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. que ele é o nulo. Parmênides. em Zenão. ser-em-si. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. Portanto. Zenão responde que escreveu isto. Eles põem-no fixamente. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. no movimento. dever-ser. mas em si mesmo. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. é o nada do movimento. então. é. ou é negada enquanto finita. sua nulidade não aparece nela mesma. . porém. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. por exemplo. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. como o nada. a multiplicidade está sobressumida. onde encontram. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. Xenófanes. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro". Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. levar a guerra para território inimigo. fortalecido. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações. também é determinação. conclui-se. sem pressuposições. em seu Parmênides. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. os eleatas foram mais conseqüentes. Conforme a representação corrente da ciência. Eu não devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. nos sofistas. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. Nesta consideração. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. Isto. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. porque previu que o ser é o oposto do nada. leis. em que proposições são resultado da demonstração. portanto. Mas. o descobridor da dialética em sua plenitude. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. isto é. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui. isto é. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição).multiplicidade. idéia. mas. a realidade do mundo finito. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. não menos. através de minha afirmação. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. 0 resultado desta dialética é zero. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. este movimento distinto do compreender deste movimento. é determinada como o negativo e. Do mesmo modo. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. demonstrei isto. esta dialética é muito bem descrita. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. Enquanto nós deixamos valer. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. A outra dialética. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. suprimem com isto essa determinação. ou seja. e. ligação através de mediação. mas apenas o ser para o outro é. assim. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. A dialética como tal é a) dialética exterior. não de maneira que se suprima a si mesma. isto é. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. segundo o pressuposto. ainda que deva ser por nós admirada. como a essência. que contenha em si uma contradição. A dialética subjetiva. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. que o múltiplo não é. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. Isto pressentiu Zenão. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. isto é. também ela finita. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. algo exterior. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. devendo então. no que vimos. eles afirmam um dos predicados que se opõem. o sistema que se opõe está errado. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. mas ambas as negações que se opõem. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. razões. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. não ser negada apenas uma determinação.o lado negativo da dialética. e então é puramente infinita. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. baseando-se em razões exteriores. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. contudo. ele se demonstra a si mesmo. porém. o nada não é. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. porque não concorda com o meu". com isto não permanece verdade alguma. isto se dá. ao menos é quem está em seu começo. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . o oposto. em nossa representação. mostra que possui determinações opostas. mas em si mesmo. Podem ser então razões bem exteriores. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. parte em Heráclito e. a essência do com-preender. assim. Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. o negativo. na negação absoluta. ela é posta através da negação. No Parmênides de Platão (127-128). pelo contrário. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão.conseqüência que. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. numa determinação. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. mas a partir da coisa mesma. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. esta somente se suprime através de um outro. de neles apontar razões e aspectos.

fora da representação que não pode atingi-lo. o que é movido deve antes ter percorrido a metade. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto. Até o infinito . e assim até o infinito. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos. A igualdade consigo mesmo. pois. o que é infinito não é mais grande. também não é. de todo ser para si. mas o movimento é não verdadeiro. ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. Que o movimento existe. ser afirmado um deles como o essencial. É um inacabado ultrapassar. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. entretanto. É conhecido como Diógenes de Sínope. dynámei. energeía). nem massa (ónkos). que ele é fenômeno.com isto nos representamos um além. não é. o Cínico. este caminho é um todo. mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. enquanto limite indiferente. o que é movido nunca atinge sua meta. Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. mas presente no conceito . Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. de maneira que não tem mais grandeza". . infinito é o negativo do múltiplo. isto nem está em questão. Mas estes dois estão postos numa unidade. portanto. Zenão nem teve a idéia de negar o movimento. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. a realidade do tempo e do espaço. na medida em que combate o movimento sensível. O mais fácil é mostrá-la no movimento. não poderiam ser divididos ao infinito . assim o múltiplo é infinito. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição interna. no processo. também é posto já o fenômeno da contradição. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina. mesmo onde colocamos um espaço o menor possível. se o professor havia discutido com argumentos. segundo a grandeza" (tò mégethos). A coisa tem.uma consciência dele. portanto. quando é o múltiplo. o não-ente.como nós dizemos. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. enquanto se move. mas põe o oposto nela . assim o que foi acrescentado não é nada. é novamente continuidade.do ponto contra a continuidade. primeiro em sua contradição . Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si. portanto. o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade. é pressuposta a continuidade do espaço. É a continuidade de um espaço. A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente. o ponto é.é novamente divisível em duas metades. a contradição. a continuidade é absoluta homogeneidade. ter atingido antes a metade desta metade. Mas esta metade é novamente um todo. de todo negativo. Parece. pois. enquanto são divisíveis (potentia. O que se move deve atingir uma determinada meta. não há rinocerontes. porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. do mesmo modo. ano). nem espessura. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si. é posta. átomos.limite que divide ao meio. levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá . ele o dá a si. não há elefantes. um determinado .A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada. o oposto é também posto para a representação. ou Zenão afirma o avanço neste limitar. Destes dois momentos pode. "Ele demonstra que. o puro ser para si. refutou tais provas da contradição do movimento. o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado. a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. Diógenes o castigou pela simples razão de que. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. Pelo contrário. mas é preciso compreender. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal. (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade .nenhum espaço limitado. a saber. nem mais múltiplo. portanto. e o movimento é: tornar-se outro. um posto segundo sua essência.e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza . para passar para o infinito. Pois o movimento e a essência. O movimento. o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse . mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade. como existem elefantes. o outro não seria por isso diminuído. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. Cada grandeza . mas apenas divisíveis. de negatividade para continuidade. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. pelo contrário. é o positivo que é posto. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. sempre surge este mesmo estado de coisas. Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles. "pequeno. nunca se pode parar com a divisão. que. é eliminação de toda diferença. também devem estar efetivamente divididos infinitamente. mas é algo limitado. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma. portanto. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. enquanto esta aparece. continuidade. Neste sentido. nada".uma resposta geral para a representação. se não tem tamanho e grandeza. Agora a meta é o fim desta metade. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível. O mesmo aconteceria ao ser retirado. estas devem ser percorridas e. de continuidade para negatividade. elas estão diante de nós. não actu. no movimento. que não pode ser atingido. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou. Para percorrer o todo. então é grande e pequeno: grande. deve-se ultrapassar a multiplicidade. deve. este espaço possui assim uma metade. no espaço e no tempo. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. sua dialética mesma em si. de outro modo. seu questionar vai em busca de sua verdade. espaço e tempo. sobressumir-se. pois. uma duração (dia. de maneira muito simples.um passar além de uma determinação oposta para outra. e nele o limite que o divide ao meio. pois ele é contradição. e. de maneira objetiva e dialética. o movimento possui certeza sensível.ele as refutou pela ação. É para esta contradição que Zenão chama a atenção.

na realidade unidos.aqui ambos devem ser somados. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa". isto. se admite que tempo e espaço são contínuos. Zenão apenas faz valer o limite. um espaço maior ou menor. no mesmo tempo. movendo-se. não chamamos movimento. No aqui agora como tais. Assim que dizemos que sempre é o mesmo. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras". Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si . Não é neste estado de coisas. alcançará o vagaroso. Ou avancei e retrocedi dois pés . katà tò íson). pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. etc. Se num navio caminho na direção oposta da direção em que se move o navio. não são distintos entre si. caminha dois pés para o oeste. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo. diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. um momento. mas também ressarce este prejuízo. o aqui é sempre o mesmo aqui. no "nãodistinguível" (en tõ nyn. disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. a interrupção da continuidade. mas repouso com relação a outra coisa. a diferença é apenas aparente. o olho repousa ou se move. a isto. porém. é inteiramente o mesmo. porém.2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles". e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo.no mesmo ponto. enquanto realiza para si apenas uma parte. porém. o comum. uma milha. com velocidade igual. em círculo. o outro a partir do meio. "É algo não verdadeiro. é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro. mais rapidamente que aquele. mas apenas continuidade absoluta. contudo. contudo. Se estão separados entre si por duas milhas. b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. o homem dos pés velozes. será percorrido por B na metade de uma hora. e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". um em direção do outro. na medida em que são dois também não dois . na distância de ambos. o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação. ao menos três. que trata disto. . A. assim estamos distantes um do outro quatro pés . então eles são. no que se move e no que está em repouso. o mesmo. B percorre numa hora duas milhas. No espaço. o tempo de que necessita. por exemplo. o ser limitado é posto como tal. com velocidade igual. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso. ele está aqui. sabemos que o segundo alcançará o primeiro. e. Zenão. um em torno do outro. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que. de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua. 0 pensamento produziu a queda original. pois o rápido. Mas o espaço (uma milha). se não se concede isto. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. o absoluto ser-limitado. dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância. e assim ao infinito. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior. que deve ser atribuído inteiramente a cada parte. Ou.. nem espaço limitado. a saber. ambos são positivos. se. contudo. é falso. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. Aristóteles. no começo desta determinada parte do tempo. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo. diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido"." A resposta é correta e contém tudo. não consegue ultrapassar seu espaço.isto é. repousa. nenhuma passagem para outro. isto é. transgredir todos os limites. não há diferença. também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual. conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram. o mover-me é movimento com relação ao navio. A continuidade. ao contrário. a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. portanto. e assim se vai até o infinito. porém.portanto. um a partir do fim do estádio. partindo do mesmo ponto. não saí do ponto em que estava. igualmente. porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto. no espaço absoluto. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. por isto surge a contradição. um ponto é tão bem um aqui como o outro. deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos. ainda que tenha andado quatro pés. o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro. pois. nulo. De dois corpos que se movem numa direção. Se. a divisão.são idênticos. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto. os fios estendidos (tensio filorum). 0 movimento é. a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual. Desta maneira. isto aqui e isto aqui e mais um outro. e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga". não conquista um outro espaço. este já avançou para mais longe. são limitados. mas o limitar é. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento. são limites um para o outro. Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava. surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. vencido por A. mas repouso: o que sempre está no aqui e agora. Ou deve-se dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo. o limitado. Cada lugar é lugar diferente . então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. se Ihe for permitido ultrapassar o limite. e aqui e aqui.

Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. dos quais são apenas as impressões: cor. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio. voltando-se para ele. 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo. pela ordem (diathigé. portanto. AN de NA pela ordem. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos. dotado de uma forma.enquanto seres sensíveis. é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. recorre-se à teoria das aporrhoaí. mas muitas lendas. odor. A principal diferença está na forma. a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. porque é obra nossa. Demócrito afirma. é definido como pleno. O que resta são os átomos. com os sofistas. segundo Zenão.este lado não possui verdade em si mesmo". Só nosso conhecimento é fenômeno. portanto. se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço. Mas. Todas as outras qualidades são secundárias. não haveria mais nenhuma grandeza. portanto. etc. som. pois. o número. o mundo é em si absolutamente verdadeiro. seu grande poder de trabalho. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. É preciso. No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno. Pode-se. em Kant. Segundo Kant. como Pitágoras. Nào é. O não ser é. Se um átomo fosse o que o outro não é. o que é uma contradição. Viagens extraordinárias. só nossa aplicação. é preciso que sejam de natureza idêntica. produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos. são: a extensão. como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". São chamadas também idéai ou skhémata. tornou se universal. ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório. O ser é a unidade indivisível. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio. mas. pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica. não haveria movimento. ou aperto). pois. dureza. os seres só diferem pela quantidade. a proposição universal da escola eleática foi. os elementos . portanto. nosso acréscimo o arruína para nós.Isto é então a dialética de Zenão. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo. tão bons ou tão maus como os pardais. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. não haveria mais ser. é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível. fora de nossa representação. gosto. skhéma). Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos . mas nisto também reside uma diferença. a forma. a impermeabilidade. se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque. rugoso. Se somente o não ser existisse. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio. Z de N pela posição. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito. Este conteúdo também é nulo em Zenão. Se deve subsistir um pleno. Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. não se pode fazer abstração delas. O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. também o pleno. isto é. o stereón. à mesma massa. O ser. thésis). porém. poderia haver uma infinidade deles. Demócrito adota uma posição adversa. haveria um não-ser. é nosso pensar. desaparece quando esse grupo se desfaz. os corpos são idênticos a esses predicados. se há separação no espaço. fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. tanto quanto o não-ser. a atividade de nosso espírito o elemento mau . pois o menor poderia acolher em si o maior. não pode haver movimento. Ele afirma: Voltando-se para o mundo. Isto é então a grande diferença. todo o resto é não-verdadeiro". táxis). o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. as honras que recebeu de seus concidadãos. pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo. é o mundo. determinações da reflexão. o mesmo peso. um ser. fazemos dele um fenômeno. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. com suas formas infinitamente diversas . o peso deve pertencer igualmente a todos. Como todos os seres são da mesma natureza. Mas o movimento demonstra o ser. nada verdadeiro". a ruína material. portanto: "0 verdadeiro é apenas o um. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. moleza. nastón (de nasso. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós. isto é. que Empédocles foi utilizado a fundo. Todas as qualidades são nómo. . Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal. 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio. o que acrescentamos. que indica diferença de grandeza e de peso.é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. pesado. O elemento universal da dialética. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). o que aparece em si que é não-verdadeiro. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos. Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. Se o espaço é absolutamente pleno. peia posição (tropé. quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior). que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. Percebe-se. isto que pensa Kant. sua solidão. A difere de N pela forma. Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. nos outros elementos estão misturados átomos diversos. polido. . etc. nada vale. muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. Anaxágoras reconhecia quatro elementos. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos.

Alguns formam massas espessas. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. Não há acaso. o fogo. disso nasce a representação das coisas. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas. lisos e arredondados (de fogo). alguns são repelidos. eles se encontram. p.distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. anánke sem intenções. não se pode indicar sua velocidade. Teoria das percepções dos sentidos. os outros permanecem juntos. enfim. no espaço infinito. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. o materialismo. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. ser feita da matéria mais móvel. segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. Nascimento dos seres animados. os mais leves são repelidos para o vazio exterior. aqueles que se elevam formam o céu. de átomos sutis. Assim a terra se solidifica. Disso resulta a morte. não procura logo de início.morte aparente. sempre foi da maior utilidade. Do mesmo modo. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. opera-se por meio das aporrhoaí. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. . . a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas. mas um conjunto de leis rigorosas. tem muita analogia com a minha. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. perpetuamente agitados. parte das qualidades reais da matéria. quando ela era ainda pequena e leve. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. Parece-me que se poderia dizer aqui. Esse turbilhão aproxima. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. que somente o semelhante age sobre o semelhante. tem em comum os ápeira ou matérias originais. a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. uma queda regular e eterna no infinito do espaço.. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. isso seria equivalente ao repouso absoluto. com Empédocles. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. e eu vos farei um mundo' ". como se fossem expulsos. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. embora não racionais. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. esta hipótese. Naturalmente. Cada vez que nasce um mundo. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. É disso que nos preserva a respiração. Com Anaxágoras. Os átomos centrais formam a terra. Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. primeiramente. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. De todos os sistemas antigos. Isso não acontece em um instante. Estes nasceram e perecerão. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento.. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. A alma deve. tem-se. em um estágio antigo de sua formação. 48. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar circundante. sob o efeito combinado de forças opostas. O ponto de partida de Demócrito. O pensamento é um movimento. pois. Demócrito. no começo. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". o fogo interior escapa. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. a realidade do movimento. É por isso que a água. bem entendido.. com o auxílio de um mecanismo cego. Epicuro. o ar. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). movia-se de um lado para outro. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. pelo choque. História Natural do Céu. a velocidade sendo desigual. Se a respiração cessa. Duas condições . É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. da espécie mais comum. A essência da alma reside em sua força animadora. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. seu movimento. Demócrito pensa. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. O sol e a lua. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. Leia-se Kant. o que é de mesma natureza. Estes se movem perpetuamente. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides.. a massa entra em rotação. É a concepção mais terra-a-terra. é este que domina todas as suas concepções fundamentais. é esta que move os seres animados. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. concursu quodam fortuito. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. em certo sentido. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. produz-se um movimento giratório. pois. uma hipótese cientificamente utilizável. O movimento original é. há infinitos mundos. Rosenkr. é antes de tudo de Parmênides que ele procede. as partes mais leves são empurradas para o alto. O sono .: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. Leucipo. O contato não é imediato. ultrapassar as forças mais simples. vertical.

É uma prodigiosa petição de princípios. Clareza. e a terra acaba por ser o que é. A ética de Demócrito é conservadora. Todos os materialistas pensam que. lembram Aristóteles e sua metropathía. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". agente. de uma completa clareza. Uma seqüência infinita de anos. Simplicidade do método. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. Tudo o que é objetivo. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. de repente. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. Sobre o problema da origem do mundo. sob sua marca. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. Mais tarde. Trata-se do mundo que é o nosso. se não no absoluto. É o que prova sua própria descrição. Sentimento de um progresso poderoso. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). É na moral que está a chave da física de Demócrito. resultado do estudo cientifico. que o veneno já estava por demais alastrado. o pensamento é sadio. Aitíai. "Contenta-te com o mundo tal como é". Fé absoluta em seu sistema.. Somente o semelhante sente o semelhante. é o cânon moral que o materialismo produziu. mas. Aversão ao bizarro. enquanto. Paz de espírito. É de um tal dado que o materialismo quer. Inquietações míticas: racionalismo. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma.são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe. seu juízo sobre os poetas. O Mal excluído de seu sistema. . tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. as representações são falsas e o pensamento é malsão. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós. a representação. que puxava para cima. Arrojo poético (poesia do atomismo). assim como os de Epicuro. Por outro lado. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. percebe exatamente os objetos. do espaço e da causalidade. Inquietações políticas: quietismo. o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. introduzindo. deduzir o único dado imediato. aqui e ali. O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. . graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural).. para cuja produção cooperamos sempre. Pitágoras. enfim. se o homem é infeliz. Assim. Entretanto. não passa de um dado extremamente mediato. Juntase a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. Não são indignos de Demócrito. mas sentimos sua força poética. É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. por um lado. A tradição não prova nada. quando atravessava o rio a cavalo. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. é por não conhecer a natureza. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. . que. Viagens. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. Com efeito. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. agora. como a encarnação do paganismo. extenso. Enfim. Inquietações morais: ascetismo. Se este é o inventor da idéia principal. Sobre a questão da criação do mundo. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. é uma representação cômoda nas ciências naturais. potanto material. na verdade. ele não perde o senso da poesia. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. Inquietações conjugais: adoção de filhos. um concreto extremamente relativo. O cristianismo nascente. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. A percepção é idêntica ao pensamento. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. Não acreditamos nos contos. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o materialismo. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. Demócrito é perfeitamente claro. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. igualmente. ele foi.

Racionalista encarnado. e sem dúvida alguma na Jonia. Parece. desprezado em vida. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. etc. a Anaxágoras. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. Se Demócrito morreu. acomodava à sua maneira os deuses. Como Protágoras. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. na biblioteca da Academia. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. porém. Retorna pobre e sem recursos. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. ao passar em revista os sistemas anteriores. temos apenas conjeturas para nos orientar. como Sócrates. Ao contrário de Sócrates. não obstante. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. quase morrera de fome. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. a queda e o choque. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. Quanto à data do seu nascimento. contudo. um racionalista confiante. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. como um mendigo. bem como. foi possível para Trasilo. Sabemos. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. e nós ainda podemos constatar. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. conhece bem Demócrito. pois deixavam subsistir um elemento irracional. não sabemos. Os epicuristas. pai do racionalismo. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. era natural de Abdera na Trácia. Diz-se ter visitado o Egito. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. sem dúvida. a de Glauco de Régio. Em uma das principais obras. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. fazer uma edição das obras de Demócrito. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. deu grande atenção ao problema do comportamento. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. sob o reinado de Tibério. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. cedo demais.aquilo que Ihe era homogêneo. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. Fez menção a Anaxágoras. organizada em tetralogias. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão . Se disse isto. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. porém. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. ele era jovem. como se diz. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. da mesma forma que ele. de fato. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. e obscurece o fato de que.C. esse Humboldt do mundo antigo. É. pois era também jônio do Norte. conservou.. de seus raros predecessores. ele era um autor volumoso. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. segundo a suposição dele. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. outrossim. outros aspectos do seu sistema. entretanto. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. pois. detestavam qualquer tipo de estudo. é como se não tivesse escrito quase nada. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. ao qual também os sofistas deram impulsos. Apolodoro de Quizico. o que parece muito provável. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. Sente-se impelido a correr o mundo. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. por outro lado. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. a viver das esmolas de seu irmão. Por isso. Ainda não havia notado. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si.– É a meta de sua filosofia. Demais. através dos scus fragmentos. que também os pitagóricos foram seus mestres. Recusam-lhe uma sepultura honrada. no qual parece que o reproduz.. Como Sócrates. Aristóteles. Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução. Um membro posterior da escola. É que sua vontade é a mola de sua investigação. quando. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. Ele se atrela a este. como aquelas de Anaxágoras e outrem. Para nos. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. reduzido. quando Anaxágoras era velho. o espetáculo dos sacrifícios. que geralmente fora atribuída em Atenas. Demócrito. Demócrito foi discípulo de Leucipo. Sua cidade natal o toma por um pródigo.. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. com a idade de noventa ou cem anos. e temos uma prova contemporânea. Disse também algures que. e. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. seu contemporâneo. isto ocorrera. É certo.

está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. se a distância for grande. mas sim o cabeça de uma escola regular. Por outro lado. mas as "imagens" (deíkela. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. A possibilidade de ciência havia sido negada. todavia. Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. não podemos vê-las de modo algum. Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. Não podemos conhecer a realidade deste modo. Demócrito. e era isto que exigia uma solução. o paladar e o tato. Chegou. Sua doutrina. pelo contrário. exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). Nisto. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. há os átomos e o vazio. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. as nossas sensações não representam nada de externo. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. por exemplo. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. entre nós e os objetos da visão. portanto. De modo idêntico. A audição explica-se de uma maneira similar. Porém. naturalmente. foi-nos preservada através de suas próprias palavras. diz ele (fragmento 11). O legítimo. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. e o olfato explica-se semelhantemente. o molhado e o seco e outros que tais. porém. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). pois. apesar de serem causadas por algo fora de nós. e o fato. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. o problema do comportamento tornara-se premente. contudo. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. afirmou Demócrito (fragmento 9). Ele diz que o mel. por convenção há a cor". A originalidade de Demócrito. Seguindo o exemplo de Protágoras. Seja como for. o tato. que acima foi descrito. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. isto não seria assim. "Pelos sentidos". as cores. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. Demócrito. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios.Protágoras. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. "há o doce. tais como forma. porém. está separado daquele". As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. Para compreender esta questão. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. ensinando e escrevendo em Abdera. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". tamanho e peso. por convenção há o quente e por convenção há o frio. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. felizmente. Na realidade. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. Este. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. uma semelhança exata do corpo do qual provém. na realidade (etee). "nós na verdade não conhecemos nada de certo. doce para mim e amargo para você. ressalva a possibilidade de ciência. Parmênides afirmara claramente que o paladar. pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). a audição. "Há". Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. o olfato. por convenção há o amargo. mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência". bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". que deriva mormente de Anaxágoras. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. é tanto amargo quanto doce. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. está fora da discussão. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. Ademais. A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. portanto. embora não com os mesmos detalhes. como eles. . skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). Não é. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. mas somente o vazio. Se não houvesse ar. Deveras. e por que. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. por conseguinte. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125).

que é composto de círculos iguais e não desiguais. a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. o que é o maior absurdo". É. Teu tiro é uma capitulação. que foi um verdadeiro gênio neste campo. pitagórico. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. que o seu real interesse está em outro sentido. chegando assim a conhecê-los como realmente são. a alma é a moradia do daímon" (fragmento 171). não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). O "conhecimento legítimo" é. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. se pudéssemos restabelecê-las integralmente. e o cone terá a aparência de um cilindro. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. se fosse preciso uma demonstração. hedonismo vulgar. Por outro lado. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". devemos lembrar que a palavra daímon." O conhecimento "legítimo" não é. 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". Segundo um comentário de Arquimedes. da mesma natureza do "ilegítimo". Infelizmente. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). que é a alegria. "Quem escolhe os bens da alma. Este é. como o fizera do ilegítimo. Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento. e o sossego da alma. com efeito. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. o corpo). pois. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. afinal de contas. a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. o aspecto individual de týkhe. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. Defendeu. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. Demócrito afirmou. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. pois. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. É muito difícil. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. farão irregular o cone. Além disso. Isto não é. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. Os homens puseram a culpa na sorte. apesar de tudo. então as partes cortadas serão iguais. Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. e facilmente se transformam ao contrário. porém. e Demócrito recusou-se. que significava propriamente um espírito protetor do homem. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. como Leucipo houvera feito. "A felicidade não reside em rebanhos. De um lado. mas uma espécie de sentido interno. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. É evidente. "Pobre Mente". porém. contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. quanto ao resto. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. poderemos alcançar o sossego. Para Demócrito. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. como Sócrates. pensamento. Para compreender isto. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. Para atingi-lo. escolhe os humanos" (fragmento 37). e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. mas nele penetram em qualquer direção. Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. Se forem iguais. como Sócrates. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável .Ao mesmo tempo. nem em ouro. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". a Terra era ainda um disco. Para o nosso presente objetivo. Se aplicarmos este critério aos prazeres. e. escolhe os mais divinos. como foi dito. e este é um estado da alma. "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. sem dúvida. o sossego do corpo. devemos ser capazes de ponderar. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. que é a saúde.

a Anaxágoras. porém. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. É certo. Como Protágoras. que foram dignas de constar nas antologias. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. respectivamente. culminando em Aristóteles. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. bem como. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. Fez menção a Anaxágoras. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. sob o reinado de Tibério. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. Este. Por isso. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. quando. o século IV a. Ao mesmo tempo.C. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. foi possível para Trasilo. entretanto. do estoicismo e do epicurismo do período seguinte. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. Parece. não em torno da natureza. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. e é a esta que devemos agora retornar. Esse período esplêndido do pensamento grego .C. porém. até então limitado à natureza exterior. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. outrossim. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. O interesse dos filósofos gira.. Abraça. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. Demócrito foi discípulo de Leucipo. a de Glauco de Régio. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. e sem dúvida alguma na Jonia. Por outro lado. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. Os epicuristas. Quanto à data do seu nascimento. que geralmente fora atribuída em Atenas. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. quando Anaxágoras era velho. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. não sabemos. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. substancialmente. organizada em tetralogias. Em uma das principais obras. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. Disse também algures que. e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. o que parece muito provável. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. Se Demócrito morreu. deles procedendo a Academia e o Liceu . Apolodoro de Quizico. então é possível que este . e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. Sabemos. ele era jovem. Com efeito. Demais. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. Se disse isto. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. sendo principais a cínica e a cirenaica. que também os pitagóricos foram seus mestres. fazer uma edição das obras de Demócrito. precursoras.das muitas perdas desse tipo. outros aspectos do seu sistema. Diz-se ter visitado o Egito. através de Sócrates e Platão . detestavam qualquer tipo de estudo. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. como se diz.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. e através também da precedente crise cética da sofística. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. isto ocorrera. Um membro posterior da escola. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. segundo a suposição dele. e obscurece o fato de que. de preferência. Do nosso ponto de vista. com a idade de noventa ou cem anos. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . era natural de Abdera na Trácia. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. e temos uma prova contemporânea. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. temos apenas conjeturas para nos orientar. cedo demais. como Sócrates. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. Platão e Aristóteles. mas em torno do homem e do espírito. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras.teve duração bastante curta.depois do qual começa a decadência . não obstante.

como norma universal de conduta . o único sistema jurídico admissível. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. a posição da sofística é extremista também. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos.bem como a moral natural . Não era um sofista itinerante do tipo moderno. Seja como for. o problema do comportamento tornara-se premente. isto é. não lhe interessa. A sofística move uma justa crítica. continuando até depois de Sócrates. e entendendo por natureza. chefe de escola e teórico da sofística. instintiva. superficial. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. contra o direito positivo. pelo menos . materiais. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. que a causa seja justa ou não. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. em nome do direito natural.de harmonia com o ceticismo deles . os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. contingente. Então.que a submissão à lei torne os homens felizes. embora sem importância filosófica. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. capital democrática de um grande império marítimo e cultural.pode-se dizer . visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. compreende-se a importância que. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . Protágoras foi o maior de todos. Mas este direito natural . devia ter a oratória e. o ensinamento dos sofistas não era ideal. A originalidade de Demócrito.a segunda metade do século V a. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. Então a realização da humanidade perfeita. A época de ouro da sofística foi . mortificador. houve um triunfo político da democracia. Ao sensualismo. não para si mesma. interessado. portanto. exige que o forte. E visto que o domínio pessoal. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. a Atenas de Péricles. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. os mestres de eloqüência. portanto. mas como meio para fins práticos e empíricos e. a experiência ensina que para triunfar no mundo. A moral. à paixão de cada um em cada momento. por conseguinte. em tal regime. de retórica. Os menores foram uma plêiade.segundo os sofistas. a única regra de conduta é o interesse particular. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. instintiva. passional. segundo o ideal dos sofistas. naturalmente. mas a natureza humana sensível. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico. ensinando e escrevendo em Abdera. e sim sobre a sua natureza animal.fragmento também seja apócrifo. em situação semelhante. portanto.é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. a sua força. destruidor da ciência. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior. Desta maneira. considerando a lei como fruto arbitrário. E tentam criticar a vaidade desta lei. contra o império persa. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. A respeito da religião e da divindade. uma enciclopédia. muitas vezes arbitrário. aliás. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. quer política. que deriva mormente de Anaxágoras. pois grandes malvados. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. É esta. Ademais. mas sim o cabeça de uma escola regular. quer moral. aliás. como na gnosiologia e na moral. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. desinteressado. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. uma pura convenção. a sofística sustenta o relativismo prático. o direito natural é o direito do mais poderoso. até o ateísmo. Os sofistas maiores foram quatro. mas . Diversamente dos filósofos gregos em geral. não está na ação ética e ascética. tornaram-se mestres de eloqüência. atenienses. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. Seria. mediante graves crimes. portanto.dizem . O centro foi Atenas. destruidor da moral. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. Quanto ao direito e à religião. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. não é mister justiça e retidão. a cultura. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. animal. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. na justiça para com os outros. A possibilidade de ciência havia sido negada. de repente. como acontece todas as vezes que o povo sente. no prazer e no domínio violento dos homens.C. Moral. mas sobejamente retribuído. mas prudência e habilidade. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. Os sofistas. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. oprima o fraco em seu proveito. ao impulso. não a natureza humana racional.chegam até o extremo. no domínio de si mesmo. mas como um empecilho que incomoda o homem. e era isto que exigia uma solução. tirânico. a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. o poderoso.

cuja escola conheceu . orientando-a para os valores universais. Refugiou-se então na Sicília.diversamente dos sofistas. No Górgias de Platão. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. onde carregou aos ombros a Xenofonte. na Sicília. e sim o juízo eterno da razão. quarenta dedicados à sua profissão.correlacionado com Empédocles . sobretudo entre os jovens.praticamente. Combateu a Potidéia. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. em Atenas. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. outros pueris. não obstante sua pobreza. foi Sócrates. Menos profundo. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . Em suma. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. exagerador dos artifícios da dialética eleática. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. social. bem como de certos elementos racionários. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico.. para a imortalidade. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. filho de Sofrônico. segundo a via real do pensamento grego. escultor. honestos. por certo. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena.C. e de Fenáreta. na acusação movida contra ele por Mileto. sem recompensa alguma. inimizades pessoais. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. Inteiramente absorvido pela sua vocação. Os sofistas. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. foi um filósofo ocasional. Entretanto. até estabelecer-se em Larissa na Tessália. teve de fugir de Atenas. não na sua realidade física.pátria de Demócrito . e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. onde teve grande êxito. É autor duma obra intitulada "Do não ser". a liberdade de seus discursos. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. na Magna Grécia. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana.representa a maior expressão prática da sofística. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. porém. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. temperados . Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. tomou forma jurídica. Protágoras recorre à convenção estatal. Ensinou na Sicília. criaram descontentamento geral.).C . conforme as disposições subjetivas dos órgãos. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas.pelo ano 480. na moldura da alta cultura ateniense da época. em Atenas. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. porém. Subjetivismo. parteira. Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. Aprendeu a arte paterna. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. em geral. apesar de sua probidade. Mas. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. Quanto à família. negador dos valores teoréticos e morais. onde foi processado e condenado por impiedade. hostilidade popular. sutis uns. Diante da tirania popular. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. a sua atitude crítica. gravemente ferido. para pedir auxílio contra os siracusanos. E preferiu a morte. e a um outro o de Górgias. mas na sua forma conhecida. uma mulher ideal na quérula Xantipa. mais eloqüente que Protágoras. ensinando na sua cidade natal. o homem é a medida de todas as coisas. em 480-375 a. mediante o ensinamento da retórica. e especialmente em Atenas. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. teoricamente. dos quais. pois. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação.C. podemos dizer que Sócrates não teve.A Vida . vivendo justamente e formando cidadãos sábios. Acusado de ateísmo. a feição austera de seu caráter. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles. onde morreu com setenta anos (410 a. Para remediar este extremo individualismo. em outras cidades da Grécia. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. Viajou por toda a Grécia. Sócrates . Quanto à política. onde teria morrido com 109 anos de idade. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos.

que remonta do indivíduo à noção universal. O objeto da ciência não é o sensível. Em psicologia. o indivíduo que passa. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. também inteligente deve ser a causa que o produziu. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. que é o desejo da ciência mediante a virtude. que revestia uma dúplice forma. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). Xenofonte. sensitivo e intelectual. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. justo será o que sabe a justiça". É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. b) com o argumento. Com efeito. que facilitava a parturição das idéias. recusou. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. Esta doutrina. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver. mas não define o livre arbítrio. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. A este processo pedagógico. pedreiro o que sabe edificar. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. estável. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. Deus não só existe. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. É a ironia socrática. Sócrates. Seja como for. porém. autor de Anábase. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. é a prática da virtude. que vai do fenômeno à lei. Como é sabido. "Se músico é o que sabe música. uma das mais características da moral socrática. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. No segundo caso. distingue as duas ordens de conhecimento. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . determinando o verdadeiro objeto da ciência.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . Morreu Sócrates em 399 a. Sócrates não deixou nada escrito. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia.isto é.Declarado culpado por uma pequena minoria. Praticamente. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. mas é também Providência. o particular. fim supremo do homem. Sócrates adotava sempre o diálogo. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. bem como o seu biógrafo genial. de estilo simples e harmonioso. o conceito que se exprime pela definição. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. com ela se identifica. em seus Ditos Memoráveis. Platão. Moral. foram: "Devemos um galo a Esculápio". Apesar destas doutrinas elevadas.C. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. mas é um meio de generalização. É a parte culminante da sua filosofia. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. um legislador. Xenofonte. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. Em teodicéia. sendo mais um homem de ação do que um pensador. identificando a vontade com a inteligência. que se concretizava. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. a essência da coisa. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. . concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. uma definição geral do objeto em questão. pelo contrário. virtude e ciência. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . da causa eficiente: se o homem é inteligente. multiplicava ainda as perguntas. Método de Sócrates É a parte polêmica. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. torna-te consciente de tua ignorância . em memória da profissão materna.como sendo o ápice da sabedoria. com 71 anos de idade. na exposição polêmica e didática destas idéias. Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. dirigindo-as agora ao fim de obter. é o inteligível.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. por indução dos casos particulares e concretos. mas sem profundidade. um conceito. eliminar-lhes as diferenças individuais. que a promulgou e sancionou. permanente. antes. a natureza. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta. ignorância e vício são sinônimos. de feição intelectual muito diferente. apenas esboçado. No primeiro caso. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. "Conhece-te a ti mesmo" .

a ciência. Dentre estes. Sócrates. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). da crítica. esta intimidade da ciência . Vale dizer que o agir humano . enfim. ação racional. como Alcibíades e Eurípedes. universal. além de simples amadores. consciência de si mesmo quer dizer. sem metafísica. Entretanto. dada a sua revalidação da ciência.que não é absolutamente subjetivista. pela novidade de suas idéias. introspecção. que declara auxiliar os partos do espírito. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. e a virtude mediante o conhecimento Sócrates não sabe. pois. de admirar que um homem. este é o momento da ironia. a favor da reflexão livre e da convicção racional. opiniões. A filosofia socrática. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. mediante a razão. dele depende. desenvolverão uma gnosiologia acabada. Antes de tudo. subindo até à razão. por sua vez. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. mas é a certeza objetiva da própria razão . pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. opinião comum. significa precisamente consciência racional de si mesmo. Tudo isto tem que ser criticado. costume. científico. assim é o fundador.bem como o conhecer humano .bem como ignorância e vício . depois. no dizer de Sócrates. Virtude é inteligência. maiêutica. donde é preciso extraí-la. espiritual. reivindica a independência da autoridade e da tradição. portanto. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. a indução: isto é. tradição. descobriu o método e fundou uma grande escola. embora o pensamento socrático fique. A gnosiologia de Sócrates. ceticismo sistemático. toda a especulação grega que se seguiu. ciência. exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. Por isso. malvado. a qual. no pensamento de Sócrates. antes de tudo. no entanto. da experiência ao conceito. razão. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. nem deixou algo de escrito. Esta ignorância não é. o prático depende. conceptual é. de par com os sofistas. antes de tudo. Traçou. direta ou indiretamente.como ensinavam os sofistas. com finalidades práticas. Sócrates. uma moral. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. esta felicidade. uma grande metafísica e. O fim da filosofia é a moral. como Xenofonte. É a famosa maiêutica de Sócrates. logo. da opinião à ciência. por Aristóteles. morais. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. mas apenas metódico. todavia. Como os sofistas. não sentimento. consciência da própria ignorância inicial e. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. do teorético. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. a existência de uma lei natural . dos preconceitos. para construir uma ética é necessário uma teoria. partindo dos pressupostos socráticos. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral. Este conceito é. e nos dá a essência da realidade. Entretanto. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. precisamente porque lhe falta uma metafísica. porém. de fato. Não é. Esta interioridade do saber. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. ignorância. definição.realizando-se o bem mediante a virtude.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. não particulares. no entanto. Estes dois filósofos. indução. sentimentalismo. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. rotina. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. nem pode precisar este bem. precisa . em geral. ainda que com finalidade diversa. a respeito da metafísica. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. Se o fim do homem for o bem . acima das leis mutáveis e escritas. que está contra todo voluntarismo. lei positiva. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. não o seu conteúdo. não de direito. necessidade de superá-la pela aquisição da ciência.independente do arbítrio humano. que será percorrido por Platão e acabado. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. alguns. Entre os seus numerosos discípulos. ele é cético a respeito da cosmologia e. pela ausência de uma metafísica. ativismo. um poderoso impulso para o saber. mas dirigida para os valores universais. remontar do particular ao universal. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente. o ignorante. trata-se. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. de um ceticismo de fato. portanto. para realizar o próprio fim. em prática. o itinerário.Sócrates reconhece também. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. identificando conhecimento e virtude . se o fim da filosofia é prático. Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. é mister conhecê-lo.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . a qual é um valor universal. determinado precisamente mediante a definição. pragmatismo. já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. mediante a doutrina do conceito. racionalismo. Mas. tenha. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. em particular da ciência moral. fonte primordial de todo direito positivo. limita-se à gnosiologia e à ética. totalmente.tornava impossível o livre arbítrio. para organizar racionalmente a própria vida. pois. mediante o . não descendo até à animalidade . isto é.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. superado. por conseguinte. Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência.

O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. 2. verdadeiros continuadores da tradição socrática. que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. pois um jovem poeta de 399 a. Ânito era filho de Antemione.. Acredito chamar-se Meleto. Estas . 445). que. contra Sócrates. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto. por ordem dos Trinta Tiranos. seria muito conveniente. Contudo. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. Meleto era o acusador oficial. logicamente. fundada por Aristipo. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. A escola socrática maior é a platônica. vemos que Sócrates. em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. 3. se prestaram a deter Leon de Salamina. fique apenas no campo da suposição.C. Mas não há elementos em que basear essa suposição. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas. tendo sido o único a recusar-se a obedecer.mesmo diferenciando-se bastante entre si . que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. A escola de Megara. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. respondeu: "Sei bem pouco a respeito dele. sustentando-o com a autoridade de seu nome. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. não resta dúvida. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . o mais importante dos acusadores. durante o segundo período. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria. é culpado de corromper a juventude. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. de cabelos lisos. (n. regressou de File com estes e tomou parte da . do povoado de Piteo. degenerou. existe outro obstáculo.C. é aquele que. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. que. do povoado de Alópece. nascera por volta de – 150 a. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. fundada por Euclides (449-369). Ânito. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações.. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. que conforme ele mesmo afirma na Apologia. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. do povoado de Piteo. mas não só ele. neste caso.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. filho de Sofronisco. A escola cínica.. e culmina em Aristóteles. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. a acusação apresentada contra Sócrates. em 399 a. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles . c. assumindo. À parte o problema da mudança de lado . comerciante de couro. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". em janeiro de 399 a. mas um cidadão podia. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. não disse que Meleto era um desses homens. existem muitas dúvidas. hábil ou temível. Dentre os herdeiros de Sócrates. Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores. E. já que nada corrobora realmente esta pretensão. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. onde fora afixada a acusação por Meleto. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço..o conceito .C. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. embora.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente.C. vegetaram na penumbra. ao se aproximar do Pórtico do Rei. total responsabilidade. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. porém. sendo estratego em 410 a. e. talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. já então tido como um fanático religioso.C. filho de Meleto. juntamente com Trasíbulo e outros. Julgar tratar-se do Meleto que. Apologia de Sócrates Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. o herdeiro genuíno de suas idéias. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides. e sim escrita por Platão. por último.C. fundada por Antístenes (n. No Eutífron. também Ânito e Lícon. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. A escola cirenaica ou hedonista. Desse modo. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas.C. porém. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. dava a impressão de conhecer Sócrates. O acusador era Meleto. em 404 a. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. também. que se vale do nome de Meleto. São fundadores das escolas socráticas menores. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. Estas escolas.pensamento socrático. de introduzir novos cultos. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. das quais as mais conhecidas são: 1. c. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. mas somente aquele que assinava a acusação. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável.

e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. o líder máximo. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. ou o Agnos-Deus. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. o mais feroz dos Tiranos. Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. por sua vez. O que significava aquela sabedoria. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. outro aspecto de Zeus. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocá-los de novo à luz do dia". assim. e seus aspectos: marinho. seu filho. desprezando a economia doméstica e a riqueza. e os jovens. Zagreus torna-se Zeus. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. porém. mas sim por questões evidentemente políticas. e a argumentação de Burnet. portanto. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. como o próprio Sócrates repete. Portanto. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. não era matá-lo. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. pois com freqüência era visto discutindo em público. em sua defesa. No que concerne à condenação por motivos religiosos. pelos testemunhos que possuímos. o qual. fora discípulo de Anaxágoras. Depois da restauração do regime democrático. Ademais. e eu te aconselho. condenado. Sócrates dera. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. quanto a Cérbero. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. como Anfitrite. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. Ártemis e Cérbero. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. que era sempre devorado pelo tempo. ó Sócrates. isto é. seus instrumentos de fertilização e prazer. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. e sim afastá-lo de Atenas.expedição armada contra o governo dos tiranos. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. enquanto Sócrates pôde permanecer. afirmara-se o culto patriarcal. bem pouco confiável. Dessa maneira. por conseguinte. lua cheia a lua minguante. A Tripla Deusa. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. minianos e jônios. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. vindo a ser. um dos aspectos de Zeus. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. se quiseres me ouvir. Crísias. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. Apologia de Sócrates . representa Hécate. Tanto isso é verdade que. sendo fiel guardião dos domínios de Hades. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. que tenhas cuidado". que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. lunar e noturno. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. Ânito manteve relação com Sócrates. Anfitrite é esposa de Posêidon.Preâmbulo . nessa época de instalação do regime democrático. de fato. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. segundo comprova sua atuação no Mênon. em que Zeus era o deus-pai. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. Ártemis é filha de Zeus. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. venerada como Réia. havia sido seu discípulo. insiste no fato de que. esposa de Cronos. e também Alcebíades. mediante palavras e atos. Réia vem a ser adorada como Hera. isso presumindo que existisse alguma. Querofonte foi obrigado a se exilar. isto é. e não os novos fatos. em seus três aspectos: lua crescente. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. durante o mandato dos Trinta. A bem da verdade. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. e não se pode afirmar. e permanece virgem. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. Portanto. revela-se. em seu comentário à Apologia. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. Mas é preciso frisar que o propósito. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. o Deus-Agnes. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. um movimento reacionário em termos de culto. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. Desde a época de Sócrates.

a mim próprio. procuraram colocarvos contra mim. acusaram-me obstinadamente. eu admitiria que. atenienses. nem espere outra coisa qualquer um de vós. vós ouvireis a verdade inteira. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. de verdades eles não disseram alguma. talvez melhor. o de um orador. não corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. Portanto. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. possa ser extirpada. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. ó atenienses. assim. que não consigo compreender nem um pouco. e de outro. Defender-me-ei. afirmando que caminha em cima das nuvens. Com efeito. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. de mim. sou um orador. porém os outros – os que. ao ouvi-los. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. Verdadeiramente. serão expressões espontâneas. Seja como for. aprimorados em substantivos e verbos. se ouvirdes. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. ó atenienses. Nisso reside o mérito de um juiz. Faço-vos. Estes. como crianças que deviam ser educadas. ao mostrar-me um orador nada formidável. ó atenienses. na minha defesa. que não me ocupo desses assuntos. em estilo florido. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. são os acusadores que mais receio. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. junto das bancas. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores. para a minha linguagem. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. e assim descobrirei se aquela calúnia. sobretudo. que é de justiça a meu ver. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. A Defesa de Sócrates Primeira Parte Diversidade Entre Duas Antigos e os Recentes Categorias de Acusadores: os Em princípio. nem acusar ninguém por difamação. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. e. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. exceto o de um comediógrafo. e assim. e em outros lugares. os que me acusam há pouco tempo. ó atenienses. não disseram nenhuma. que poderia ser talvez pior. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. que martiriza meu coração há tanto tempo. e acusar de mentiroso a quem não responde. e recorro à maioria de vós para que sirvam de . não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. Mas não por Zeus. pois à lei é necessário obedecer e defenderse. o que é mais grave. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. Não faltaria quem. não a estranheis nem vos revolteis por isso. e. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. ó cidadãos. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. porque. contudo. porque deposito confiança na justiça do que digo. atenienses. Mas os primeiros são muito mais perigosos. A acusação possui mais ou menos este teor. acompanhando Meleto. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. que especula a respeito das coisas do céu. em resumo. se é o que entendem. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. que esquadrinha todos os segredos obscuros. Uma. homem de muita sabedoria. Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. sinto-me. repito-o. que propalaram essas coisas acerca de mim. sem que eu contasse com alguém para me defender. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. um pedido. embora estes sejam acusadores perigosos.Desconheço atenienses. esses todos não podem ser encontrados. porém. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. será excelente para vós e para mim. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. E se eu for bem-sucedido. completamente estrangeiro à linguagem do local. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. em dizer a verdade. em contraste com eles. não ouvireis discursos como os deles. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. uma súplica premente. e outro amontoado de tolices. onde tantos dentre vós me haveis escutado. porém. quase me fizeram esquecer quem sou. Se eu fosse de fato um estrangeiro. De verdades. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". em verdade. senhores. sempre faltando com a verdade. portanto. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. nos termos que me ocorrerem.

não só ele passou a me odiar. e este homem aparentava ser sábio. que educação. . este com que. e de sua natureza. Pródico de Ceo e Hípias de Élida. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. analisando e raciocinando em conjunto. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. Ó atenienses. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. porque não sei. nem acredito sabê-lo. como não sabia. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. ao arrepio de minha vontade. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. ao contrário. Em vista disso. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles.testemunhas. e. juntamente com muitos outros. e sem ter de gastar dinheiro. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. Todos vós conheceis Querefonte. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. uma sabedoria estritamente humana. e tive a impressão de que. e também este me dedicou ódio. também não julgava saber. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. fiz a experiência que irei descrever-vos. mas aquele acreditava saber e não sabia. enquanto eu. podíamos não saber nada de bom. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles. Perguntei a ele: – Cálias. não o era. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobre-humana. Por fim. que não é meu depoimento. mais ainda. filho de Hipônico. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". mas teus filhos são homens. se muitos te acusaram. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. contudo eu não sei. parabenizei esse tal de Eveno. Escutai-me. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. No íntimo. portanto. – E quem é ele? – indaguei-lhe. Após ter ouvido a resposta do oráculo. De minha sabedoria. fosse mais sábio que ele. E a respeito de ser sábio. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. o próprio deus de Delfos. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. nem de belo. ou seja. Ouvi também referências a outro homem. ó atenienses. em virtude de este haver falecido. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. receio possuir esta única sabedoria. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. ao menos numa pequena coisa. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. se de fato se trata de sabedoria. ó atenienses. invocarei como testemunha. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense. mas talvez não o fosse de verdade. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. Aí procurei um outro. aos quais seria mais fácil. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. basta dizer que era um de nossos políticos –. de Paros. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. ou seja. Peço-vos para não fazer algazarra. estou falando sério. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. comecei a investigar acerca disso. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. apenas com o intuito de caluniar-me. pois ele não pode mentir". como também muitos dos que se encontravam presentes. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. e o soube por intermédio de Cálias. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. não. E longamente me mantive nesta dúvida. a partir daquele momento. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. Mesmo que. neste sentido. e quem diz o contrário mente. de quem vos falava há pouco. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. isto também não passa de mentira. enfim. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. ó cidadãos. eu e ele. diante de vós. que nós. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. Ao passo que esses. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. mas afirmo que não a conheço.

só para não evidenciar que estão confusos. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. fui procurar os poetas. seguemme de livre e espontânea vontade. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. conforme a palavra do deus. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. igualmente a Sócrates. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. com desagrado e assombro. e. cada um deles julgava-se extremamente sábio. continuei diligentemente com minha pesquisa. como acho que ninguém o seja. diante disto. por intermédio de seu oráculo. Este é o motivo pelo qual. e isto eu percebi com clareza. com a certeza de ser mais sábio que eles. nada respondem. ó atenienses. e ele quer dizer. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. por sua própria conta. Resumindo. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. conforme minha pesquisa. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. porém. como vos disse desde o início. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. dominados pela paixão e numerosos como são. ambas as coisas. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. as que considerava mais bem construídas. não querem dizer a verdade. nem mesmo esquivando-me dela. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. E compreendi também que os poetas. e. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. Porém. dizia a mim mesmo. e aproximadamente o mesmo. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. porém. inúmeras vezes procuram imitarme e tentam. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. Lícon por causa dos oradores. Contudo. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". Esta é. ó cidadãos." Por isso. sem escrúpulo algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. Estou com vergonha. Em seguida aos políticos. e entre as calúnias. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. E não me equivoquei. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. pelo fato de fazerem poesias. E se alguém indaga: "Afinal. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. como os adivinhos e vaticinadores. Então afastei-me deles. a verdade. porém. naturalmente. A verdade. embora notando. lançaram-se contra mim Meleto. Sócrates. Logicamente. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. e então. como eles. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". contudo. mas não conhecem nada do que dizem. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. Desta maneira. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. eles conheciam coisas que eu não conhecia. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. e nisso eram mais sábios do que eu. é muito sábio entre vós aquele que. e eu a revelo por completo. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço. ao afirmar que Sócrates é sábio. é . é outra. E outros. Por sinal. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. finalmente. A verdade. se me afiguraram melhores e mais sábios. sem fama alguma. toda vez que participava de uma discussão. que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. náo se refere propriamente a mim. devo dizer-vos de novo a verdade. em nome do oráculo. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. como se tivesse dito: "Ó homens. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer". seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. analisar alguma pessoa. ó atenienses. é o que ocorre entre os poetas. de acordo com a palavra do deus. a fama de sábio. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem.Não obstante isso. porque. pareceram-me quase todos em maior erro. mas só usa meu nome como exemplo. De forma que eu. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. que dizem de fato muitas coisas belas. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. ambiciosos. que todos passaram a me odiar e que. dirigi-me aos artesãos. Peguei suas melhores poesias. sem ocultar-vos nada. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. porque o desconhecem. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. os filhos das famílias mais ricas. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. ó atenienses.

com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. Meleto afirma que corrompo a juventude. analisemos também o ato de acusação deste. SÓCRATES: — Não se trata disto. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. também estes. MELETO: — Estes. agora ou depois. realmente. em primeiro lugar. Agora dize-me. . os juizes. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus. então. SÓCRATES: — Afirmas. Vês. então. ó excelente homem. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. sou eu quem os corrompe. meu amigo. ó Sócrates. prossegue.outra prova de que digo a verdade. Também a lei deseja que respondas. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. conforme dizes. Mas. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. Meleto. Indago-te qual é o homem que. ó Meleto. Meleto. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. É isto que queres dizer? MELETO: — Exatamente isto. que somente um os torne melhores. das leis. homem digno e patriota. ao contrário. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. procurarei em seguida defender-me de Meleto. e eu digo. na verdade. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens. Meleto. como ele mesmo se define. SÓCRATES: — Crês que todos. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. nunca se preocupou. SÓCRATES: — Quer dizer. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. e recebereis sempre a mesma resposta. Mais ainda. exceto eu. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. Analisemos esta acusação minuciosamente. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. responde. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. conforme afirmas. então. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. de não crer nos deuses nos quais a cidade crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. Com certeza o sabes. Meleto. e dos acusadores que virão depois. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. não é difícil o que te pergunto. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. mostra-te e responde. dize aos juizes o que os faz melhores. aqueles que são peritos em cavalos. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. aos juizes o que os torna melhores. o que mais convém. SÓCRATES: — Então. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. ó atenienses. como ficas calado. SÓCRATES: — Dize. ou poucos. SÓCRATES: — Dizes bem. Portanto. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. excelente homem. deve ter conhecimento. que o réu é o próprio Meleto. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. Vamos. Indagai quanto quiserdes. ó Meleto. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. todos. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal.

e que os bons façam o bem. ou. Responde. Meleto. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. E isto significa desejo de se divertir. mas também de acreditar nos deuses". Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. Apesar disso. que a . então. uma vez advertido. a fim de advertir-me ou censurar-me. como já vos exortei no começo. SÓCRATES: — Ora. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. por faltas involuntárias. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. a ti e aos outros que aqui se encontram. eu mesmo respondo. não corrompo os jovens. ó atenienses. ó juizes. ó atenienses. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. com certeza. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. e é claro que. mas em outras divindades novas? Não é. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. E vós. tanto para mim como para estes juizes. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. não é assim? Com certeza é assim. de que maneira. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. se afirmas que existem demônios. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. SÓCRATES: — Pensas. se não queres responder. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. ó Meleto. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. não mais farei o que fazia sem querer. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. principalmente àqueles mais próximos deles. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. meu bom Meleto. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. se os corrompo. Ou seja. não posso ser culpado disso. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. quando declaras que eu. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. ó Meleto. Ó atenienses. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. exceto que haja sido para pôr-me à prova. Na verdade. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. Mas se acredito em coisas demoníacas. De outra forma. não sou ateu e. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. uma vez que digo existirem demônios. mesmo que não sejam os da cidade. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. eu digo exatamente isto. aquele grande sábio. é impossível. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. tendo eu os anos que tenho. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. ó Meleto. Parece-me que aceitas. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. Meleto. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. então. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. já que não contestas. mas sim que faça com que seja afastado. Há quem não acredite na existência de cavalos. se estes demônios são filhos dos deuses. de maneira que em ambos os casos mentes. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. embora não acreditando na existência dos deuses. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. faço-o sem querer. é por causa disso que me trazes a este tribunal. tua sabedoria sendo maior que a minha. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. explica-te com maior clareza. devo obrigatoriamente crer em demônios. dize-nos. e não censurados. da mesma maneira que os outros homens. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. no caso de saber disso. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. de acordo com tua opinião. cidadãos de Atenas. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. Existe alguém. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. Portanto. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim.SÓCRATES: — Quer dizer. se este as apresentasse como suas. e sim outros. ó Meleto. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. eu corrompo a juventude? Não o faço. Se eu os corrompo sem querer. mesmo se fraco de intelecto. por conseguinte. e naquilo que afirmas. na tua idade. Por isso. afirmo a sua existência. pois se naqueles que acredito são deuses. se estes demônios são deuses. ó Meleto. conforme dizes.

e se me afigurasse que não possui virtude mas apenas afirma possuí-la. tu. porque. e enquanto tiver ânimo. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. que me sois mais estritamente próximos. que. em verdade. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. Por outro lado. a mais vergonhosa das ignorâncias. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. sem se envergonhar. outros ainda irão perder. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. ou. ninguém sabe se. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. atenienses. Em verdade. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. nem em heróis. morrerás". nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. que onde alguém se haja instalado. atenienses. arriscando minha vida. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. ao contrário. isto é impossível. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. assim diria: "E tu. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. Isto. se consigo safar-me da condenação. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. conversando da minha maneira habitual. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. se bem me lembro: 'Ó filho. logo após ter castigado a quem matou. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. eu vos amo. e enquanto for capaz. mas sim este ódio. de fato. nem em deuses. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. Obedecer ao Deus Permanecer no Lugar Adequado. ó atenienses. também morrerás'. O que eu vos disse. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. mas o interrogaria. aqui. à exceção de na desonra e na vergonha. nem em outra desgraça qualquer. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. estando ele ávido do sangue de Heitor. se. dizia. também nada penso saber a esse respeito. contudo. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. fama e honras. quando sua mãe. acredito. creio. desde o começo. seja homem. se. e a quem quer que eu encontrasse de vós. anormal e. nem te ocupes mais de filosofia. Seria algo. e se algo me causará dano. disse-lhe. as infames. o analisaria. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. atenção a Ânito e deixamos-te livre.mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. Por isso. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. em qualquer ocasião. que és o melhor dos homens. ao ouvir este raciocínio de Ânito. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. ao passo que em Potidéia. jovens e velhos. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. tendo a capacidade de fazer algum bem. de outra forma. vós não desconheceis. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. sem te preocupar em cuidar da inteligência. e. Declaro-vos. é verdade. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. Anfípolis e Délio. Portanto. já que desobedece ao oráculo. não pararei de filosofar. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. desde o início. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. que era impossível não condenar-me à morte. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. acompanhando este teu raciocínio. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. Chega. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. como dizia. não o deixaria afastar-se nem iria embora. vós sabeis. uma vez aqui trazido. Ao ouvir tais palavras. daquele momento em diante. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. mesmo que me concedesses a liberdade. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. não será nem Meleto nem Ânito. e declarou: 'Rapidamente eu morra. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. Com efeito. e vindo de muitas pessoas. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. o impugnaria. E não é ignorância. contra a vontade de Ânito que. me dissésseis: "Ó Sócrates. somente por isto o diria. nem com as riquezas. como qualquer outro. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. lá fiquei. tamanho desdém mostrou pelo perigo. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. aí. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. atenienses ou estrangeiros. uma deusa. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. a fim de que ela . se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. acreditar saber o que não se sabe? Ora. por acaso. eu vos responderia: "Ó atenienses. seja deus. com esta condição me deixásseis em liberdade. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. não pretendemos dar. mesmo sendo pequeno. da verdade e da tua alma. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. ó atenienses. ó cidadãos. repito. ao receber ordens do deus. E. e também com vós. agora. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. digo. ateniense. não havendo perigo que causem somente a minha perda. esta calúnia e esta raiva das pessoas.

está certo. aponta no ato da acusação. mas a qualquer outra multidão. ou ao desterro. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. mas do que mais necessitais: fatos. e sempre. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. ó cidadãos. Ânito.Então eu me opus. Afirmo. de maneira alguma estou falando em minha defesa. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. e votei contra. isto significará que minhas palavras são nocivas. de convencer-vos. e que. que se eu tivesse. mas. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. ao arrepio da lei. ó atenienses. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. Tendes conhecimento. então diz coisas insensatas. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. mas com sinceridade. se de fato pretende escapar da morte. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. que não necessitais pecar. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. e que. e sim com fatos. mas vistes que meus detratores. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. os Trinta mandaram-me chamar. Logo. demonstrei que a morte. pois é a verdade. que. condenar-me à morte. contra o dom do deus. ó atenienses. para convencer-vos a buscar a virtude. condenando-me à morte. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. estou pronto a morrer. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. mas pelo seu próprio tamanho. Convencei-vos: se me condenardes à morte. mas que vos limitásseis a ouvir. a mim que sou como vos disse. se. e vós a intigá-los e a gritar. para que este viesse a morrer. não o creio eu. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. Pois se me matardes. também Meleto. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. aí sim haveria uma razão. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. não digo a vós. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. me ocupado dos negócios de Estado. ao contrário. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. espoliar-me dos direitos civis. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. E nem o poderiam. Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. além de não ceder. eu dou: a minha pobreza. a respeito do qual. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. desta não tiveram o despudor de me acusar. um por um. de falar-vos. E naquela ocasião. que outro como eu não nascerá facilmente. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. por obediência a Ânito. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. no decorrer de todo o resto de vossa existência. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. talvez. ó cidadãos. mas de não cometer injustiças ou . É como uma voz que possuo dentro de mim desde criança. dormireis tranqüilamente. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. mas muito mais vezes devesse morrer. não com palavras. de qualquer forma. ó cidadãos. mas falo por vós. não riam da comparação. pois. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. Sabeis perfeitamente. com jeito de estar se divertindo. e depois. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. e se desejais me ouvir. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. em todo lugar. erguereis a voz. toda vez que eu a ouço. e a mais outros quatros. mesmo que não só uma. não fazei assim. não possui importância alguma para mim. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. um ferrão. Por tudo isso. nem por vós nem por mim. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. então me falte coragem. E não me desprezei se falo assim. somente uma. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. se a palavra não soar por demais vulgar. e de que das riquezas não se origina a virtude. levaram-nos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. permiti que vos diga. Não. me poreis a salvo. nunca paro de exortar-vos. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. e não palavras. estando a vosso lado. por algum tempo. Não promoveis algazarra.se torne excelente e muito virtuosa. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado. pondo-me frente a frente com uma testemunha. cuidando das vossas. Poderá sim. Mais tarde. mesmo que por breve tempo. como alguém poderia achar. às quais. condenar-me-eis à morte. Falarei um pouco grosseiramente. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. Ademais. creio que vos será útil escutar. absolver-me-eis ou não. depois que surgiu a oligarquia. lutando para que nada fosse feito contra a lei. ou não dareis.

e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. são bem poucos diferentes destas. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. filho de Aríston. porque corre pela cidade que. desta forma.e ainda Antífon de Cefísia. além disso. mas aqueles que não foram corrompidos. se existe alguma testemunha deste tipo. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. um já crescido e dois ainda crianças. filho de Demódoco. possa irritar-se comigo se. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. eu os vejo. Nunca fui mestre de quem. ó cidadãos. ainda mais na minha idade e com o meu nome. se não quisessem fazê-lo diretamente. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. mas de criaturas humanas'. são estas. que. ao fazer intimamente esta comparação. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. se entre os homens que me freqüentam. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. irmãos. em toda minha existência. tenham alguma razão para me defender. Eu também possuo família. um se torne de boa formação moral ou não. pai de Epígeno. Sócrates se distingue da maioria dos homens. deixei-os ir e voltei para casa. principalmente se é uma pessoa que . como é necessário. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. nem nunca ensinei coisa alguma. e não é verdade que. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. E estas coisas.crueldades. isto sim me importa acima de qualquer coisa. cedo-lhe o lugar. eu já teria morrido. pela vossa e de toda a cidade. . porque estou da mesma maneira à disposição de todos. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. nem por desprezo. e algumas mais. de quem ali se encontra o irmão Platão. fazendo-o como homem de bem. não afirmo categoricamente que há. ou por outra virtude qualquer. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo .E aquele governo. seja jovem. que se manifeste. como privadamente. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. algum dia.É possível que alguém. embora. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. cumpro as ordens do deus. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". Acredito que só por causa disso. mas pela minha reputação. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam serem sábios e não o são. Muitos destes estão presentes. quer que seja. E não é por orgulho que me comporto assim. não poderá falar com o irmão a meu favor. ó atenienses. são verdadeiras e demonstráveis. Por conseguinte. esteja arriscando a vida . E poderia nomear muitos outros. e ali Adimanto. sempre fui o mesmo. se recebo dinheiro. todos falarão a favor do corruptor. não é desagradável. que talvez esteja entre vós. suplicou clemência aos juizes. filho de Teozótides. os corrompidos. não me pareceu honroso agir dessa maneira. se ele se esqueceu disso. porém. ao envelhecerem. tanto em público. e pessoas desse tipo. irmão de Teódoto. A uma pessoa assim. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. e que me fizessem pagar por isso. e. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. em particular. atenienses. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. que são agora anciãos. Ao fazer isso. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. seria ainda necessário que estes. Talvez esses. enraivecido com minha atitude. tenho três filhos. apesar de prepotente. se procedessem dessa maneira. e. não me atemorizou. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. pais. que os apresente agora. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. Porém. ao pensar em si mesmo. Ali está Críton. atenienses. como afirmam Meleto e Ânito. vereis que todos farão o contrário.Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. e Aantodoro. Com efeito. e ali estão outros. e como Teódoto faleceu. Nicóstrato. repito-vos. e aí está Parálio. ao que parece. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. nem de pedra nasci. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. a ninguém. e também Lisânias de Esfeto. Se de fato eu corrompo os jovens. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. fico calado. eu mesmo presenciei muitas vezes. com seu filho Ésquino. ao passo que eu não me porto desta maneira. ó atenienses. nunca me refutaram. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. embora possuíssem alguma boa . deseja escutar-me. as razões que posso apresentar em minha defesa.de quem era irmão Teages. se já corrompi algum. e. meu dever mais alto? Com certeza. seja velho. verdadeiro ou falso que seja. emita seu voto com raiva. e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. O Testemunho dos Discípulos. quando eram réus em um processo. eu também trouxe alguém da minha família. enfim. nem para provar que sou corajoso diante da mote. eu falo e se não recebo. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. É possível que alguém entre vós. Diante disso. em quaisquer aspectos. seria vergonhoso. e outros. não me obrigou a cometer um ato injusto. pobres e ricos. Ora.

Portanto. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. mas sim infomá-los e convencê-los. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. desta acusação. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. sim.A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. estaríeis convencidos. embora sendo meus concidadãos. se é que devo ser recompensado como mereço. de acordo com o direito. Segunda Parte . então. mesmo nestas minhas palavras de agora. como as que há entre outros povos. injustos e vis. e mais. Este homem. têm atitudes excepcionais. mesmo assim. nem vos nem eu. Não. e eu menos ainda. e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. e sim em mais. Porém. com cavalo. Não iríeis querer então. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. ó atenienses. E é justamente o contrário que sucede. tentando convencer-vos de que. Pedirei o exílio? Sim. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. que pena apresentarei em oposição à vossa. no entanto. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. então. Porque estes vos proporcionam felicidade. envergonham a toda a cidade. Ao que me parece. não é necessário que vos habitueis a isso. exilado. Porque sei muito . com o que acaba de ocorrer. E eu. aquilo a que faço jus. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. livrar-me da condenação. a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior. devo pedir. Porque é evidente que se eu. ó atenienses. não é isso. entre outras razões. porque não possuo dinheiro para pagá-la. ao longo da minha existência. mudando sempre de país para país. mediante súplicas. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. o de terem votado pela minha condenação. riquezas. ó cidadãos. Por isso. eu vos ensinaria que. peço se alimentado no Pritaneu. talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. Nem vos conviria. aqui presente. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. e não por tão poucos. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso. que enquanto vós. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos. por não haver usufruído em paz. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. ó atenienses. que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. mas algo bastante diferente. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. o que é bastante evidente. eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio. O que. e deixo a vosso critério. perseguido em todos os lugares. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. E acredito que se houvesse leis entre nós. Portanto. pensa que mereço a pena capital. penso haver escapado das mãos de Meleto. não faremos coisas boas e piedosas. Estes. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. julgar o que será para vós e para mim o melhor. e não só haver escapado delas. tentar influir nos juízes e. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. Contudo. mas. e também a mim. mas sim mostrar a todos que julgais com maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. interesses particulares. biga ou quadriga. seria culpado de não crer nos deuses. isso deve-se. e. Se. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. e ao do deus. e mesmo assim não logrei convencer-vos. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. se nos comportássemos assim. o que aprendi. em verdade. mas para julgar o justo. ó atenienses. que excelente vida seria a minha. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que.reputação. atenienses. de impiedade. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. Não considero justo. mas que farão justiça de acordo com as leis. e não precisam ser sustentados como eu precioso. ó cidadãos. deixar-nos fazê-lo. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. nesta idade. que outros a agüentariam de bom grado? E ainda. eu que sou acusado por Meleto.

Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem. é isto que vos digo. Acerca do futuro. apesar de que eu não o seja. E esses homens. que Platão. poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar. Aos que o Absolveram Com os que votaram pela absolvição. não seria possível que eu vivesse em silêncio. se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma. tinha de ser assim e penso que não houve excessos. tais como costumais ouvir dos outros. eles. se vos dissesse isto. Com efeito. eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor. eu vo-lo asseguro. assim. ó atenienses. porém. Sim. e vossa irritação será maior. acaba de me ocorrer o que vós estais vendo. que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será. por conseguinte. a malvadez. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto. Por conseguinte. Se imaginais que. preparar-se para ser o melhor possível. eu. mas de atrevimento e descaramento. O que me ocorreu senhores juízes. não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. senhores. os que vos quiserem censurar. Multo-me então em trinta minas. eu e os meus acusadores. ó Sócrates. que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir. como o maior dos males. Bem sabeis a minha idade. atenienses. gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder. mas a advertência divina não se me opôs de manhã. matando homens. Terceira Parte . eles igualmente. Engano! Perdi-me por falta. é a mais honrosa e mais fácil. agora. por Zeus. meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais. não devo eu. adito o seguinte: talvez imagineis. de fato. e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida. muito mais duro que a pena capital que me impusestes. exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. estais enganados. no entanto. a vós é que chamo com tino de juízes. Por outro lado. Agora. Contudo. Não dirijo essas palavras a todos vós. em vez de tapar a boca dos outros. e se não os repelir. Quero explicar-vos. convencendo os mais velhos. não teria me infligido mal algum.Após a Condenação Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco. em cada perigo. enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. fomos apanhados. condenado por vós à morte. essa não é uma forma de libertação. não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. Neste momento. ao contrário. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas. os jovens acorrerão a fim de me ouvir. . vamos partir. muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz. dignos de crédito e confiança. que sou um velho vagaroso. muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores. não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. A usual inspiração. serão estes mesmos que me farão perseguir. Portanto. meus condenadores. evitareis que alguém vos repreenda a má vida. enm é inteiramente eficaz nem honrosa. nem quando ia dizer alguma coisa. porque muito mais difícil é escapar à maldade. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida. multo-me em uma mina de prata. mas o resultado será inteiramente oposto. ágeis e velozes. nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. ó atenienses. Ora. Não se tenha por difícil escapar à morte. que eles mesmos garantirão. esta outra. ela corre mais ligeira que a morte. do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. serão garantes dessa quantia. é evidente que. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates. tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. nas batalhas. Críton. senhores. Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas. e. Se esperásseis mais algum tempo. Se eu possuísse dinheiro. já distante da vida e próxima da morte. Eu aceito a pena imposta. como a amigos. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso. se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Porque. condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. eu. quero fazer-vos um vaticínio. sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas. como aqui. o que se poderia considerar. o sentido exato de que me aconteceu agora. Eu vos afianço. porque. fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm. quando estão para morrer. um sábio. homens que me mandais matar. Quer no tribunal. a própria natureza satisfaria o vosso desejo. sim. quer na guerra. ao sair de casa. não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. mas aos que votaram pela minha morte. porém é difícil convencer-vos. até agora eu os continha e vós não os percebíeis. se eu os repelir. quando eu ia cometer um erro. chamar-me-ão de sábio. nem enquanto subia aqui para o tribunal. e há quem o faça. Com este vaticínio. Para esses mesmos. pela mais ligeira. por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir. foi algo prodigioso. não de discursos. despeço-me de vós que me condenastes. Por certo. Mas vedes. se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que. lamentos e gemidos. eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens. tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi. acreditar-me-iam menos ainda. serei perseguido por seus pais e demais parentes. ficai comigo mais um pouco. pela mais lenta das duas.bem que aonde quer que eu vá. a da divindade.

é segredo para todos. Por isso é que a advertência nada me impediu. eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso. tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico.² Museu. para o homem bom. mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. exceto para a divindade. se a morte é isso. é chegada a hora de partirmos. passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá. senhores juízes? Se. A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates . livre curso ao seu talento poético. não o sendo. ou Ulisses. de pais aristocráticos e abastados. Temperamento artístico e dialético . eu terei recebido de vós justiça. Disso tenho agora uma boa prova. se a tradição está certa. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. castigai-os. por serem imortais pelo resto do tempo. Logo. Se vós assim agirdes. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios. sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá. então. assim sendo. Quanto não se daria. eu para a morte.. Platão estudou também os maiores présocráticos. por não cuidarem do que devem e por suporem méritos. se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e. ¹ Rei lendário de Creta. eu. mal algum. ou. entre outros motivos. quer na vida. segundo consta. senhores juízes. Se. sem ter nenhum. deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há. a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos. Éaco. na mocidade. ² Célebre aedo da era pré-homérica.no entanto. e meus filhos também. se eu.C. senhores juízes. como se costuma dizer. Depois da morte do mestre. ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear. A que devo atribuir isso? Vou dizer-vos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. No entanto. Minos. Bem. Quem segue melhor destino. só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem. Platão travou relação com Sócrates . que o acompanhou durante a vida toda. digo que é uma vantagem. se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha. Vós também.¹ Radamanto. em nenhuma ação ou palavra. repreendei-os. quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois. trata-se duma mudança. uma emigração da alma.manifestação característica e suma do gênio grego deu. atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi. ao chegar ao Hades. que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que. se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. bem posso imaginar que. Se não há nenhuma sensação. Platão nasceu em Atenas. toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. . que maior bem haveria que esse. já não digo um homem comum. O meu não é conseqüência do acaso. vós para a vida. filho de Europa e de Zeus. Ajax de Telamon e outros dos antigos. que tenham morrido por um sentença iníqua. quando encontrasse Palamedes. como vos fiz eu. Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides. pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite. estou pronto a morrer muitas vezes. o que é mais. quer na morte. a que se deu o nome de orfismo. Hesíodo e Homero? Por mm. para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedição contra Tróia. se vós. se estiverem supondo ter um valor que não tenham. marido de Pasífae. juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. homens e mulheres. vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. Aos vinte anos. se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude. do lugar deste mundo para outro lugar.e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. que era filho do povo. contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada. porque a usual advertência não poderia deixar de opor-se. se isso é verdade. de antiga e nobre prosápia. cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. conversando com eles. e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma. do outro lado. cuida que é. manifestando-se na expressão estética de seus escritos. entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento. a ver quem deles é sábio e quem. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar. não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e. sábio legislador. e os deuses não descuidam de seu destino. livre dessas pessoas que se intitulam juízes. com quem seria uma felicidade indizível estar junto. não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu. porque. a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que. em Mégara.mais velho do que ele quarenta anos . lá distribuem a justiça. em 428 ou 427 a. mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. origem de seitas místicas. Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida.

particular. com oitenta anos de idade. ao contrário. esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. poder construir indutivamente o conceito da sensação. não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion. além de ser um conhecimento verdadeiro. porém. o saber sensível.não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. isto é. racional em geral. e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). O conhecimento sensível. universal. transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. lógica e formal. o conhecimento conceptual. dos jardins de Academo.Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. então. não pode explicar o conhecimento intelectual. pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser. conceptual. filosófico. o método. que limitava a pesquisa filosófica. erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. religioso da filosofia. que tem por sua característica a universalidade. Platão foi preso por Dionísio. Este fim prático realiza-se. a Itália meridional. de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política. interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. cunhado daquele. no entanto. verdade e bondade. segundo certa ordem cronológica. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates . a toda a realidade. após a morte de Dionísio o Antigo. onde levantou um templo às Musas. isto é. do conhecimento da ciência. porém. até o tempo do imperador Justiniano (529 d. na segunda. ao contrário de Sócrates. Este caráter íntimo. Assim. Libertado graças a um amigo.em 366 e em 361 . da opinião. a Sicília. mutável e relativo. apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. Platão. o absoluto (do conceito). perto de Colona. precisamente porque é ciência. Platão. Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica. errôneo. para chegar ao conhecimento intelectual. não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso. como também Platão. onde conheceu Dionísio o Antigo. cair no erro sem o saber. e o conhecimento intelectual. porém. Mas diversamente de Sócrates. imutável. Foi assim que o filósofo. intelectualmente. idênticas. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo. No fundador da Academia. atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. conhecimento das coisas pelas causas. angustioso. a precisão. mas que dele não se pode derivar. Platão fundava a sua célebre escola. não admite que da . assim em Platão a filosofia tem um fim prático. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates.Daí deu início a suas viagens. particular. como efetivamente. na desgraça do tirano pela sua fraqueza. de que o saber intelectual transcende. foi vendido como escravo. voltou a Atenas. Voltando para Atenas.C. absoluto. povoado da Ática. que ilumina o primeiro conhecimento. Em Atenas. tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion. da opinião do vulgo e dos sofistas. da desordem que se manifesta em especial no homem. embora verdadeiro. mais ou menos. pelo eros platônico. que correm sob o seu nome. a paixão contrasta com a razão. Faltam-lhe ainda o rigor. a imutabilidade. voltou duas vezes . humano. no seu valor. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento. universal e imutável. não sabe que o é. Dos 35 diálogos. muitos são apócrifos. sem saber porque o estão. está nisto: o conhecimento sensível. Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Adquiriu. sensível. a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. ao campo antropológico e moral . onde surgiu. A forma dos escritos platônicos é o diálogo. tomou o nome famoso de Academia. que representa a evolução do pensamento platônico. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. nascer e perecer de todas as coisas. ao ensino filosófico e à redação de suas obras. é a grande ciência que resolve o problema da vida. e se distinguem diametralmente de seus opostos. onde o corpo é inimigo do espírito. ainda que as conclusões sejam. moral. considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. do socratismo ao aristotelismo. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim. e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser. para o qual é atraído por um amor nostálgico. uma herdade. que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio. que. parte do conhecimento empírico. o sentido se opõe ao intelecto. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . pelo ano de 387. A diferença essencial entre o conhecimento sensível. que estão efetivamente presentes no espírito humano. chegar à contemplação do inteligível.C. através da especulação. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a. da qual a filosofia . Caído. ao passo que o segundo. fealdade. mas julgava. tem o caráter científico. onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento). A gnosiologia platônica.como lemos no Fédon . transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim. mutável e relativo. Estas duas viagens políticas a Siracusa. sabe que o é. Sócrates estava convencido. estando. isto é. em Platão é tornado especialmente vivo.. porém. porquanto no conhecimento humano. pois.em três grupos principais. em face do mal. conceptual. o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. que falta a gnosiologia socrática. Visitou o Egito. Segundo Platão. e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos. até a sua morte. todavia. outros de autenticidade duvidosa.). Deve. Platão como Sócrates. donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso. a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual. os valores de beleza.à Dion. o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível.

de superioridade. existir. como de um cárcere. E.As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. Deste mundo material e contigente. no máximo. quer dizer. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. de um mal radical. ao Demiurgo e à matéria). à opinião verdadeira. científico. um outro mundo de realidades. e sim a ocasião para fazê-los reviver. desenvolvendo. imutáveis. alma de toda filosofia platônica.particular. diz que os conceitos são a priori. contigente e transitório (Heráclito). e todos os valores (éticos. a ordem e a harmonia. além do fenomenal. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. o dever ser. embora superior à matéria.opinião verdadeira . objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. Além disso. o mundo dos inteligíveis. Desta personalidade e atividade criadora . de natureza espiritual. Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. situado na esfera celeste. Assim. necessários. Tal a célebre teoria das idéias. Este mundo ideal. tudo no mundo é individual.transcende inteiramente o mundo empírico. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. deveria ser. devido à sua natureza inferior. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. uma base e um fundamento reais. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. um objeto adequado ao conhecimento conceptual. para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. à qual comunica o movimento e a vida. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. assim como o Demiurgo. Do mesmo modo. que são os conceitos. dá ao conhecimento empírico.se possa de algum modo tirar o conceito universal. negar a existência do fieri. Ora. são ordenadas em sistema hierárquico. como as concebiam Heráclito e os sofistas . assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. mutável. dotado o Demiurgo o qual. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. personalizados. Logo. Deve portanto. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. a alma humana. tanto no homem como nos outros seres. Estas realidades chamam-se Idéias. donde têm de ser oportunamente tirados. no sistema platônico. pois. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível.sensação . conceptual. a idéia do Bem. todavia. sem. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. aliás. Esse conhecimento. um conhecimento sensível verdadeiro . imutáveis e eternos (Sócrates). imutável. Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência.no dizer de Platão . e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. pelo contrário. começa e progride . ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. Aqui devemos lembrar que Platão. Todas as idéias existem num mundo separado. donde dependem todas as demais idéias. portanto. de um lado. material. As Almas A alma. libertar-se do corpo. que está no vértice. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. representações intelectuais. ontológica) esclarecer. estando no vértice a idéia do Bem. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. no sentido platônico. Ele. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. Visto serem as idéias conceitos personalizados. anima toda a realidade. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. A Metafísica . Deve. relativa . ordenadora . é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. Portanto. religiosos e místicos. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. racional . um objeto próprio: as idéias eternas e universais. inteligível. do outro.é. No entanto. A ciência é objetiva. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. transferidos da ordem lógica à ontológica. os nossos conceitos são universais. absoluto.ou. uma base real. esta libertação. mas apenas é possível. serão universais. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. é a realidade suprema. que é papel da dialética (lógica real. centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. é inferior às idéias. relembrar conforme a lei da associação. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. E. ou alguns conceitos da mente. sensível. em geral.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. As idéias não são. porquanto Platão é um pampsiquista. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. para ser verdadeiramente tal. em que vivemos. durante a vida terrena. logo. com ele. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . melhor. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. não há ciência. isto é. são realidades objetivas. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. diversamente de Sócrates. que se obtém mediante a divisão e a classificação. formas abstratas do pensamento. exagerando. inatos no espírito humano. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. dá ao conhecimento racional.

a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. e é o devir ordenado. que é separação espiritual da alma do corpo. o cosmos platônico. terminados os quais. 2. a filosofia. informe. As que cometeram pecados inexpiáveis. o mundo. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. unida a um corpo. resulta da síntese de dois princípios opostos. e é a opinião verdadeira. Agir moralmente é agir racionalmente. Entretanto. sendo que a alma racional é. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. dos mistérios órfico-dionisíacos. Moral Segundo a psicologia platônica.indeterminada. temperança.sobre a base da metafísica platônica da alma. chegado o grande ano do mundo. que residiria no peito. e se realiza com a morte. de racional no vira-ser da experiência. que residiria no abdome . irracional. tudo recomeça de novo. uma alma do mundo e. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. segundo Platão. por conseqüência. depende da religião. não no sentido do progresso.depende tudo quanto há de positivo. então. que devem ser trabalhosamente relembradas. condenadas eternamente. até violenta. o destino da alma depende da sua filosofia. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. que o mortifica inteiramente. passiva. para que se realize a sabedoria. derivando daí a virtude da temperança. Mas a alma está no corpo como num cárcere. É a clássica concepção grega do eterno retorno.prudência. A terra está no centro. e filosofar é suprimir o sensível.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. e assim por diante. ao mesmo tempo. Segundo Platão. introduzindo no caos a alma. a natureza do homem é racional. ao contrário. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. unida ao corpo e aos sentidos. mutável. dotado de atividade sensitiva e vegetativa. da razão. na morte. embora a esta naturalmente inferior. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos.assim como a alma racional residiria na cabeça. Logo. a vontade no impulso.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). O Mundo O mundo material. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. a virtude suma. a alma do corpo. e a concupiscível (apetite). as estrelas e os planetas. Temos. um ciclo de dez mil anos. Noutras palavras. de fato. mas no da decadência. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. beleza . dos homens. a justiça. na separação da alma do corpo.mediante a filosofia. a contemplação. a única virtude verdadeiramente humana e racional. Entretanto. de fato. e da qual depende totalmente a ação moral. felicidade e virtude. o seu instrumento adequado. cravados em esferas ou anéis rodantes. que domina também a grande concepção platônica. e domine também a alma irascível. segundo Platão. mas na sua final supressão. E. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. A alma não encontra no corpo o seu complemento. eis o pensamento de Platão: em geral. fortaleza. os astros. haveria. A faculdade principal. depois. As que cometeram pecados expiáveis. Em geral. antes de tudo. donde a virtude da fortaleza. ao mundo. o inteligível. O mundo. transparentes. as almas dos astros. da ordem e da desordem. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber.ser. separando-se. e. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. virtude fundamental. na realidade. Da matéria . do bem e do mal. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. destarte. . a alma concupiscível. é necessário que a alma racional domine. a idéia. em especial. conexa ao clássico dualismo grego. que é. Da idéia . Em todo caso. uma classificação. para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. e mediante a morte libertadora. em forma de esfera e. verdade. ao redor. e agir racionalmente é filosofar. visto que a alma humana racional se acha. antes de tudo. espacial . o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. pois. o universo sensível. juntamente com a sapiência. as idéias e a matéria. deve existir um princípio de uma e outra. ao corpo. Quanto ao destino das almas depois da morte. morrer aos sentidos. No seu conjunto. distingue ele três categorias de alma: 1.depende. etc. para o espírito. são esféricos. dependentes e inferiores. a saber. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. chamadas depois cardeais . que desvencilha para sempre a alma do corpo. justiça . tudo que há de negativo na experiência. mas um obstáculo . partes da alma. bondade. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. princípio de movimento e de ordem. neste mundo. o mundo físico percorre uma grande evolução. pois. que aparecem no mundo. Consoante a astronomia platônica. explicando-se deste modo o movimento circular deles.

Entretanto.3. todavia.não certamente por estes motivos. também das outras duas classes. estas classes: a dos filósofos. a dominação e a riqueza.abrangendo também a poesia. educá-los para a virtude. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. não. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. traça o seu estado ideal. tal instituição. a ação oposta. . o bem espiritual dos cidadãos. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. irascível e concupiscível no organismo humano. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. a família. o pensador. à primeira vista. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos. por conseguinte. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. por conseqüência. e. promover. político-religioso. etc. O grande.tornada depois sinônimo de imanentismo. a educação deve. o fim supremo.consoante seu pensamento . Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores . libertados da vida temporal para sempre. o reino do espírito. são a República. servis. dos quais e juntamente com os quais.e pelos gregos em geral . todas as atividades presididas pelas Musas . então. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral.especialmente aos filósofos. Qual é. a de organismo ético-transcendente. a história. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. Segundo Platão. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. o verdadeiro político não é . se preocupa com espiritualizar os homens.. respectivamente. ascética do estado platônico. mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. materialismo. das mulheres e dos filhos. a sua finalidade primordial é pedagógicoespiritual. Platão reconhece a . mas. as dos filósofos. A educação das classes superiores importa. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. domésticos. pode causar impressão.diz Platão . a distinção em classes.é. cuja formação é inteiramente material e subordinada. fundamentalmente. mas dessemelhantes e desiguais. representado pelos filósofos. portanto. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. privados. o comunismo dos bens.um altíssimo valor moral terreno. pela plebe. a ordem da sociedade humana. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. Três são. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. Com efeito. cabe a conservação econômica do estado. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão. porém.agricultores e artesãos . essencialmente.o homem prático e empírico. cultivada apenas para fins práticos e morais. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. estatais. Na concepção ideal. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. pelo vulgo. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. que Platão propugna para as classes superiores. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. O estado deve. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. os guerreiros receberam a educação. À classe dos filósofos cabe dirigir a república. em castas. como única e total expressão da eticidade transcendente. da razão. sociais. conhecem a realidade das coisas. no organismo do estado. sendo estes naturalmente superiores àqueles . dos filósofos. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial. enfim. segundo as virtudes que se referem a cada classe. econômicos e. não realiza tanto as obras exteriores. idolatrando a grandeza moral. em geral. Deveria ela equilibrar. porquanto representa precisamente . o Político e as Leis. para receber a pena ou o prêmio merecidos. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. por isso. Se a natureza do estado é. contemplam eles o mundo das idéias. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. a dos produtores. é necessária porquanto os trabalhos materiais. consistindo sua virtude apenas na obediência. com a sua natureza gentil e civilizadora. corresponderiam respectivamente às almas racional. consequentemente. sobretudo. a quem cabem as virtudes mais elevadas. pelo desprezo com que era considerado por Platão . a direção da república. antes de tudo. e. pois. pois. especialmente.o trabalho material. música e ginástica. A essência do estado seria então. da ginástica. encarnam-se de novo. Platão foi levado a esta concepção política .ao menos positivamente . e. consoante Platão. as quais. portanto. mas o sábio. espiritual. ética. a dos guerreiros. o estado em nada se interessa . e estão. Na República. À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. a riqueza. estar substancialmente nas mãos do estado. videntes de idéias. a ordem ideal do mundo e. Ao contrário. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores.pelo povo.eticamente considerados. fortificadora. A música .submetida às duas precedentes. As que viveram conforme à justiça. À classe dos produtores. Na hierarquia das classes. o indivíduo ao estado. ateísmo .

para o bem como para o mal. narrados em torno dos deuses e dos heróis. sua matemática desemboca numa metafísica. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo.C. amor à sabedoria). como também o pensamento dos filósofos anteriores. quase um século. estão as demais idéias. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. mas que está na origem da ciência moderna. Chegamos assim ao princípio da era vulgar. que toma uma orientação cética. até o VI século d.dada esta sua inferior natureza teorética. a arte nos atrai para o verdadeiro. É governada por discípulos. Seja como for.reformada e purificada . A antiga academia dura até o ano de 260 a.a religião helênica. também é um místico. É um politeísmo estranho. média e nova. Por conseqüência. No entanto.. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina.em antiga. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. teorético um. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. deuses eternos.cronologicamente e logicamente . O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico.importância da ginástica. Quanto à avaliação da religião positiva. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. este absoluto . que foi um dos indícios da decadência grega. na sua pureza lógica. isto é.C. pela virtude que deriva necessariamente da ciência.como o amor. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. cópia não de essências. de evocar Pitágoras de Samos. prevalece a desvalorização por dois motivos. Todavia. de mania. prático outro. Seu culto essencial é representado pela ciência e. pois . Finalmente. inclusive Homero. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. impura fonte gnosiológica . Atuando cegamente sobre o sentimento. conceptual. sobreviveu-lhe por quase um milênio.torna-se outro tanto danosa no campo moral. no conjunto do seu pensamento. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. ou seja. aceita francamente o politeísmo. porquanto deveria atingir intuitivamente. mais ou menos. algo como que uma filosofia. conservar . semelhante à religião e ao amor. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático. Entretanto. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. a Academia. aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. pois. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego.o Bem e as idéias . a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . cujas divindades são os astros e o cosmo. como religião do seu estado ideal.. não pode tornar-se objeto de religião. como a ciência. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos. subordinados ao Demiurgo. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista. Costuma-se dividila . A arte. animados e racionais. provavelmente também pela influência de Aristóteles . as aparências coloridas do universo. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. bem como à idéia do Bem e às outras idéias. uma espécie de revelação superior. Ao lado. como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. e valorizando o elemento religioso positivo. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos. encarnada em formas sensíveis.C.de saída. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra. O motivo prático é que a arte . inferior à ciência. que Platão já tinha valorizado no mito.C. que é já uma cópia do mundo ideal. Vai-se acentuando a importância da experiência. segundo os interesses do último Platão. Os pitagóricos acreditam na . a arte deveria ser. mas de fenômenos. Platão hostiliza o antromorfismo. Segue-se na média academia. nem sequer da religião assim chamada natural. depois. Em todo caso. denominadas por Platão. nascido em 428 a. portanto. o pensamento de seu mestre Sócrates. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si.embora transcendente.deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. prevalecendo simpatias pitagóricas . que não só reencontramos em Platão. Platão pode. Na realidade. orienta-se para o ecletismo.). e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. precisamente denominados pré-socráticos. anteriores e contemporâneos . sucessores de Platão. como para o falso. Para Entender Platão Platão. reitores. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. gnosiologicamente. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. espiritual e ético. inicialmente. mas não passa de uma importância instrumental e parcial. pelos mitos fantásticos e imorais. Tratemos. os assim chamados deuses visíveis. infinitamente diversas.

segundo o testemunho de Platão. tudo muda infinitivamente. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. Devemos agora.. Para compreender isto. A alma. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. corpo = túmulo). Sócrates fá-lo compreender que. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta.. isto é. portanto. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância. "O Ser é. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. significa a arte de interrogar. Platão. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. "Reconheço que todos os Estados atuais. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. antes de tudo. ele procura depreender o conceito de justiça. no entanto. imóvel. 3. Protágoras de Abdera. 4. seu encontro com Sócrates. é amargo para o enfermo). a vigília ao sono. E isto é significativo e simbólico. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. com a capitulação de Atenas. A destruição da frota. ar e fogo). Se conhecessem verdadeiramente a justiça. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". pertencem a um mundo que não o das aparências. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. por aquilo que nos concerne diretamente. ele se comparava à sua mãe. são mal governados. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. Tal é a maiêutica socrática. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. a peste. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. pois ninguém é "maus voluntariamente". mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. um esforço de definição. seus ancestrais paternos. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. delicioso para o amador. 2. todavia.. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. é a palavra-chave do humanismo socrático. Sócrates. de fato. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. segundo ele. que era parteira. "Planta rei". caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. a uma brilhante carreira política. Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. do último rei de Atenas. Em outras palavras: não existe verdade absoluta.com inigualável poder marítimo . Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. que "o homem é a medida de todas as coisas". é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). uma cidade que seja a encarnação da Justiça. devemos nos interessar. Seu método é. elaborar uma cosmologia. como punição de faltas passadas. dizia. cujas combinações mutáveis são infinitas. o real é o Ser único. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. portanto. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. Anaxágoras. porém. Na Atenas vencida. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. Sócrates tem sessenta e três anos quando. dos problemas que eles colocam. eles a praticariam. eterno. ignora o que acreditava saber. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. água. deve-se deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. assinalam a importância da catástrofe. tudo flui: a morte sucede à vida. Acontecimento político: é o partido popular. a noite ao dia. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. em 407. que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. só há salvação pelo saber. que foi professor de Péricles. Ajuda-nos tão somente a refletir. elementos eternos. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. Um dos mais célebres. de um modo geral. aristocrata jovem e belo. sem exceção. Estava destinado. Segundo sua perspectiva racionalista. Tal é a ironia. segundo um ritmo regular. A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. o não-ser não é". ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). ao pé da letra. que. ele se retrai. Diremos uma palavra sobre os sofistas. como Empédocles ou Heráclito. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. de preferência.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de .C. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. "Conhece-te a ti mesmo". acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça.metempsicose. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon. Para Heráclito de Éfeso. o Nous. de novo no poder. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. na verdade. Sócrates não pretende. que. Muitas vezes. Sócrates. Platão a ele se une. Mas Atenas. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Na realidade.

Entre todas as formas de governo. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. para que haja. o Parmênides. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. um mundo de pernas para o ar". A ascensão dialética. mais exatamente. finalmente. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. nos jardins de Academos. perpetuamente mutáveis. Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. elas continuam capazes de reminiscência. elas foram aprisionadas no corpo. a cidade que condena Sócrates à morte.de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. É então que ele funda. antes de tudo. objeta Platão a Protágoras . o Fedro. Todavia. Este último. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). os militares nos quais a Justiça será coragem. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. seus diálogos célebres tais como o Górgias. as simples impressões sensíveis (eikasia). Dionísio I. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. para ele. "esse belo risco a ser corrido". por punição de alguma falta. Como diz muito bem André Bonnard. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. só é belo porque participa da Beleza em si. o Banquete. Assim. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. Platão. Desse modo. e o mundo das aparências sensíveis. o Político.que. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. diz Platão. é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. Platão retornou a Atenas.a sensibilidade. A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. por exemplo. em seguida pelos belos corpos. Platão dá realidade ao conceito socrático. na ilha de Egina. no fundo. um outro mundo onde exista o Homem em si. no mais alto grau. as Idéias contam mais que a vida. de certo modo. Um belo efebo. a vontade e o espírito. a iluminação direta pela Idéia (noesis). Finalmente. as opiniões estabelecidas (pistis). Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. Platão prefere a aristocracia e. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). pode ser redespertada . mostra que. a Justiça em si.de seu antigo contato com as Idéias. cunhado do novo tirano. o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. porém. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. eternas. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . por exemplo. Platão morre em 348 a. o Fédon.. o pensamento intuitivo. o Sofista. uma escola de filosofia à portas da cidade. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará. a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto..é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. Dionísio I prendeu Platão e. Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. pela tranqüilidade quase contente de sua morte. A política de Platão distingue. todavia. nele. restam-nos. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". sobre o conceito. uma definição do homem em geral. A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade. perto de Colona. um pouco mais acima. como fazem os geômetras.não o homem. como Sócrates o estabeleceu. por exemplo. a obra escrita de Platão. Em suma. a emoção que rebata a alma diante da Beleza . Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. Depois. no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). em seguida. segundo a doutrina órfico-pitagórica. fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. as Leis. atesta a existência desse mundo invisível. uma essência universal do homem. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). o Timeu. o único mundo verdadeiro.C. e. uma vez que guardaram uma lembrança obscura . O ensino esotérico (isto é. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. o Teeteto. secreto. isto é. aos quarenta anos. no entanto. E Sócrates.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. os chefes cuja Justiça é. as Idéias. uma sombra. a República.justiça política e individual". à imagem de todas as sociedades indo-européias primitivas.

não por Aristóteles. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. após enfermidade. como a sua cultura e seu gênio universal. de pesquisas. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. agudeza de penetração. III. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. que considerava a lógica instrumento da ciência. colônia grega da Trácia. em especial da segunda. A respeito do caráter de Aristóteles. V. para se dedicar à investigação científica. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. perto do templo de Apolo Lício. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. procedimento pedagógico paradoxal. I. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. até à morte do Mestre. Aristóteles. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. em dez livros. traduz uma espécie de narração poética legendária. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. no seu estado atual. compêndio das duas precedentes. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. médico de Amintas. malvisto pelos atenienses. fruto de muita observação e de profundas meditações. O seu problema fundamental é o problema do ser. exposição e expressão breve e aguda. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. treze anos depois da morte de Platão. refazimento da ética de Aristóteles. ao qual é dedicada. poder admirável de síntese. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego. existem entre a poesia e a verdade. O . estéticos e místicos tiveram grande influência. Morto Alexandre em 323. variada e romanesca a de Platão. isto é. o mito ressalta as relações que. clara e ordenada. Preveniu ele a condenação. no litoral setentrional do mar Egeu. de estudo. mais uniforme e linear a de Aristóteles. em 384 a. em 335. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. Aos dezoito anos.a) O mito. estourando uma reação nacional. em que. corresponde muito bem à intenção do autor. de pensamento. retirando-se voluntariamente para Eubéia. nasceu em Estagira. salvo uns apócrifos e umas interpolações. vigor de raciocínio. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. entretanto. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. no verão de 322. provavelmente publicada por Nicômaco. em oito livros. segundo Platão. Aí ficou três anos. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. ao contrário. por certo. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . Escreveu sobre todas as ciências. a Política.C. referentes à metafísica geral e à teologia.C. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. d) Finalmente. onde ficou por vinte anos. Aristóteles faleceu. não o problema da vida. a Ética a Eudemo. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. então jovem de treze anos. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. Aristóteles fundava. Do diferente caráter dos dois filósofos. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas.manifestam um grande rigor científico. em Siracusa. II. seu filho. os motivos políticos. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. e pertencentes à filosofia teorética. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. em dois livros. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. inacabada. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. chefiada por Demóstenes. sem enfeites míticos ou poéticos. até à famosa expedição asiática. em três livros. rei da Macedônia. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. que Platão não conseguiu. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. de que foi ele o criador. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. social e política. em amena palestra. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. que se foi isolando da vida prática. juntamente com a metafísica. incompleta. IV. no ano seguinte. como preceptor do Príncipe Alexandre. que. devido a Eudemo. em 367. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. a Grande Ética. substancialmente autêntica. a sua escola. em catorze livros. De volta a Atenas. a Poética. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. éticos. O nome. foi acusado de ateísmo. filho de Nicômaco. que a colocou depois da física. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico.

conceito e juízos . e) refuta. a saber. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. intuição intelectual. divide-se em física. as verdades evidentes. baseada sobre a imediata experiência. os conceitos. o sensível.reminiscência. mas o ponto de partida da dedução é tirado . as formas e suas relações. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. que é o nosso primeiro conhecimento. Quanto ao juízo.objeto próprio da filosofia. e que é o elemento constitutivo da ciência. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. porém. destarte.Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. o objeto da ciência aristotélica é a forma. isto é. como ciência especial. isto é. necessidade objetiva. consoante Platão. é essencialmente dedutiva. a filosofia prática divide-se em ética e política. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. um motor já em ato. Entretanto. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. em seguida. A filosofia aristotélica é. Geralmente. conhecidos sensivelmente. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . por sua vez. com rara habilidade. o necessário. enquanto é vir-a-ser. compreende-se que Aristóteles. os juízos imediatamente evidentes. é sempre verdadeira. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. A filosofia. tirada da experiência. Assim sendo. requer finalmente um não-vir-a-ser. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. contraditório. entretanto. Todas as partes se compõem. abrangendo. O seu processo característico. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia).tem como objeto o universal e o necessário. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. uma doutrina da indução. A ciência platônica e aristotélica são. segundo Aristóteles. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. Os elementos primeiros. Limitar-nosemos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. um ato puro enfim. todo o saber humano. do mundo. prática e poética. em que está a solução do seu problema. Como é que se formam os princípios da demonstração. passagem da potência ao ato. Também aqui se segue a ordem da realidade. no estudo de uma questão. como idéia era o objeto da ciência platônica. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. também os elementos primeiros do conhecimento . No sentido estrito. Por certo. fica eternamente inexplicável. Deus. passagem da potência ao ato. ato puro. tirados da experiência. Aristóteles é o criador da lógica. o pensamento do pensamento. Sob o ponto de vista metafísico. isto é. explicação do condicionado mediante a condição. ela não está efetivamente acabada. portanto. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. é a priori. Por certo. indiscutível. na lógica. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. isto é. é anterior ao particular. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. do inteligível. é dedutiva. causa absoluta. Os caracteres desta grande síntese são: 1. mais positivo. motor imóvel. pois. A teorética. metafisicamente. demonstrativa. clássico. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração.mediante o intelecto da experiência. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. em todas as suas obras. portanto. os princípios supremos. seja constrangido a elaborar. da representação sensível. seu nexo. A formação do conceito é. em que unicamente temos ou não temos a verdade. Este vir-a-ser. pois. de outra forma teria que ser movido por sua vez. Rigor no método • Depois de estudas as leis do pensamento. sem um primeiro motor imóvel. d) indica. ambas objetivas. Segundo Aristóteles. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. apodíctica. entretanto. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. são fruto de uma visão imediata. Foi dito que.devem ser. em geral. analítico. porque aí está a sua gnosiologia. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. a "desindividualização" do universal do particular. 2. o inteligível. idealista. o universal. ao contigente. bem como a platônica. A lógica aristotélica. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. uma verdadeira síntese. isto é. que não tem princípio e fim no tempo. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. a filosofia . Com efeito. razão . a posteriori. a poética em estética e técnica. como o conceito. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. da passagem da potência ao ato. se confirmam. do movimento. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia. ao sensível: mas. gnosiologicamente. em que o universal é imanente. é o silogismo. realidade do vira-ser. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. que corresponde a uma derivação real. por último.conforme Aristóteles. mas abandonando a solução do mestre. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal. sobre a base socrático-platônica. se correspondem. nos indivíduos. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. Aristóteles. as sentenças contrárias. a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. cuja verdade imediata ele defende. da representação sensível. ontologicamente. Observação fiel da natureza • Platão. bem como segundo Platão . b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. o processo dedutivo e indutivo aplica-os. o universal e o necessário. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. o contigente. dividir-seia em teorética. racional. c) propõe depois as dúvidas. a posteriori. Unidade do conjunto . a coisa parece mais complicada. origem extra-temporal. Então só resta possível uma indução incompleta. a própria solução. psicologicamente existe primeiro o particular. portanto. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. as formas são imanentes na experiência. de que constituem a essência. mas certíssima. 3. de um modo e de outro. a ciência.

a política é a doutrina moral social. teoréticas. uma atividade segundo a razão. Se a virtude é. consegue a felicidade mediante a virtude. a sua felicidade. De Deus depende a ordem. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. certamente. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. uma disposição constante. e variável conforme as circunstâncias. de que acima se falou. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. um costume moral. permanece o dualismo. a matéria. A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. o fim do homem é a felicidade. não as aniquila e destrói. atividade teorética. e. tem. reta. mas implicam. o seu bem. ser completamente resolvido na razão. As virtudes intelectuais. pensamento de si. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". contudo. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. fundamentalmente. morais. concebido. mecaniza-se. e só assim. não é criador. da natureza e do universo. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. não são mera atividade racional. mas. atraente. como ato puro. os escravos. ele. passional. no mesmo tempo. e menos ainda opera sobre ele. a virtude não é inata. tem também um fim econômico. Naturalmente. por natureza. o possível puro. a prática. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. que é precisamente uma atividade conforme à razão. porém. pois o homem. logo. sem se mover a si mesmo. isto é. razão pura. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. e as dianoéticas. como não é inata a ciência. mas uma ação com ciência. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. incompatível com o ser perfeito. metafísico. portanto. que deve ser governado pela razão. popular. Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. ao contrário. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. contemplativas.como o vício. mas uma aplicação da razão. no dizer de Aristóteles. por conseqüência. com o pensamento e a vontade. como pensamento de si mesmo. tendo como objeto unicamente a própria perfeição. voltando-se para ele. Aristóteles. e não pode. a vontade. como causa eficiente e formal (exemplar). Deus não atua sobre o mundo. A política. do chefe a que pertence a direção da família. do intelecto. mas unicamente conhecer e pensar. não conhece o mundo imperfeito.metafísica de todo devir. práticas. na ação de um homem. domina as paixões. A razão aristotélica governa. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. e a esta é necessária a razão. porquanto a família. Pelo que diz respeito à virtude. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. porque o fim último do estado é a virtude. naturalmente. a sua lei. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. que exige o conhecimento absoluto. condição e complemento da atividade moral individual. torna-se de fácil execução . para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. e. como causa final. político. pois. conquistado através do precedente raciocínio. torna-se quase uma segunda natureza e. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. em razão da imperfeição destes. E. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. Deus. as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. mas adquiri-se mediante a ação. O estado é um organismo moral. são superiores às virtudes éticas. que é pensamento puro. sobre a ação. a política. É uma distinção e uma hierarquia. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. As virtudes éticas. mas unicamente como o fim último. um elemento sentimental. pensamento de pensamento. isto é. isto é. Logo. afetivo. da filosofia. aquela a coletividade. de que se falou quando das obras dele. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. da vontade. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. como queria o ascetismo platônico. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. estabilizase. consequentemente. isto é. Deus é. Visto ser a razão a essência característica do homem. A virtude ética não é. auto-suficiente. que constituem propriamente o objeto da moral. por conseqüência. é aquilo que move sem ser movido. Segundo Aristóteles. como as partes precedem o todo. então. a mulher. não é abstrato. o bem comum superior ao bem particular. isto é. o real puro. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. como as virtudes intelectuais. E nesta autocontemplação imutável e ativa. o racionalismo. O estado. não é unicamente ciência. nem providência do mundo. é aquilo que é movido. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. sendo naturalmente animal social. concebido como primeiro motor imóvel. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. teoréticas. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. mas concreto. está a beatitude divina. a que é necessária à virtude. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. que a transcendem. este justo meio. Deus é unicamente pensamento. igual para todos e sempre. além. Da análise do conceito de Deus. a racionalidade do mundo. Deus não pode agir e querer. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. antes de tudo. o exercício e. isto é. uma vez adquirida. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. é superior ao indivíduo. Como já foi mencionado. relativo a cada qual. e. além de um fim educativo. Noutras palavras. Se Deus é mera atividade teorética. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. ativas. A característica fundamental da moral aristotélica é. Deve fazer frutificar seus bens. que precede cronologicamente o estado. é distinta da moral. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. Se o agir. os bens. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. como . portanto. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. a vida. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. todavia. A ética é a doutrina moral individual.

mediante um treinamento profissional. inicialmente. é-lhe essencial a propriedade. e cuja degeneração é a demagogia. a democracia. que é o governo de poucos. Aristóteles. tempo e liberdade. concretizado num sensível. Vejamos. necessária e universalmente. subordinadamente. E não fica nenhum outro objeto religioso. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. No entanto. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. então. universal é encarnado. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. mas em seus aspectos universais e necessários. isto é. político. sem direitos políticos. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. não está em condições de se tornar objeto de religião. A arte é. cujo caráter e valor estão na qualidade. tradicional. cujo caráter e valor estão na unidade. pelo seu efetivo isolamento do mundo. não cria. mais do que as transcendentes idéias platônicas. Se se quiser a unidade absoluta. evidência e vivacidade de expressão. E critica. enquanto a guerra. Por isso. porém. mítica. esse inteligível. destarte. os deuses astrais. e. a forma de governo clássica da Grécia. importantíssimas a poesia e a música. de conformidade com o fundamental realismo grego. concretizado pelo artista num sensível. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. pois os homens têm necessidades materiais. que ele não conhece. ainda que encarnado fantasticamente num particular. e cuja degeneração é a oligarquia. particularmente de Atenas. a aristocracia. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. pois. O estado não é uma unidade substancial. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democráticointelectual. intelectuais e. precisamente. Aristóteles admite a religião positiva do povo. às circunstâncias de um determinado povo. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . deve ser encarnado. Deste seu conteúdo inteligível. graças ao artista. as questões gerais da . visa a conquista e a guerra. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. num particular. físicas. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. agora. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. Daí a escravidão. o universal. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. como o trabalho. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". Quanto à forma exterior do estado. defesa e segurança. não governa. que exigem indivíduos particulares. dessa forma. como seja tarefa essencial do estado a educação. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. como obra política para moralizar o povo. e cuja degeneração é a tirania. como Platão. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. conseqüentemente. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. num particular e. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. negativas e positivas. estes últimos seriam os escravos. e põe a conquista acima da virtude. isto precisamente porque o inteligível. Não obstante a sua concepção ética do estado. conservação e engrandecimento. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo. Compreende-se. do inteligível imanente no sensível. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. deve promover a virtude e. Não. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. o sensível. Mas o seu fim essencial é espiritual. duas classes reconhece: a dos homens livres. purificadora da arte. o mutável. de outro modo irrealizáveis. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. cujo caráter e valor estão na liberdade. imitação de uma imitação. a satisfação daquelas necessidades materiais. princípio dos movimentos e das formas do mundo. visto ser necessário. acomodada às situações históricas. dos trabalhadores. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. possuidores. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. tornando intuitivo. portanto. e admite. Também Aristóteles. como Platão. No entanto. até sem correção alguma. a propriedade particular e a família. para que a propriedade seja produtora. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. imitação da forma imanente na matéria. são necessários instrumentos inanimados e animados.ao estado. salva o direito privado. diversamente de Platão. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. o inteligível. condena o estado que. isto é. e sim imitação direta da própria idéia. como é o fenômeno. produção mediante a imitação. O estado surge. para tanto. No entanto. a educação militar de Esparta. Eis porque Aristóteles. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. Explica e justifica a religião positiva. a felicidade dos súditos mediante a ciência. seja embora real. Na arte. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. que é o governo de um só. e sim concreta: deve ser relativa. a forma. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. este Deus. não exclui uma espécie de politeísmo. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. depende a eficácia espiritual pedagógica. e não máquinas. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. As leis da obra de arte serão. o imutável. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. bem como aptas qualidades espirituais. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. antes de tudo. O estado provê. isto é. o estado em particular. universal. a dos cidadãos e a dos escravos. que é o governo de muitos. platônicos. Entretanto. mas o que por natureza deve. acontecer. Exporemos portanto. íntimo sentimento do conteúdo. as materiais. bem como o mundo mutável e material. com o seu profundo realismo.

e culmina no que não pode vir-a-ser. por sua vez. potência.da matéria e da forma constitui a substância. que tem por princípio a alma racional. De sorte que. é composta de indivíduos.a idéia . a coisa movida . portanto. a pura matéria. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. Da relação entre a potência e o ato. deve operar para um fim.enquanto tal . pressupõe uma realidade imutável. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. princípio de ordem e finalidade. particular e universal. ato puro.realizadora. não-ser atual.imanente no segundo . substâncias. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato.. Um ser desenvolve-se. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. entre a matéria e a forma. que são uma síntese . Daí uma quarta causa. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. é um mero possível. inteligível. e sim imanente e operante nela. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. em que a forma introduz as determinações. A matéria aristotélica. é um absolutamente interminado. não existe por si. a substância física. por sua vez. o imperfeito o perfeito. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas . porém. a mudança. as qualidades acidentais. a potência o ato. a realização do possível. a individualidade. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. portanto. surge o movimento. que é precisamente síntese . porém. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. isto é. a única realidade efetiva no mundo. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica.bem como a matéria não pode ser atuada .um sínolo . a característica da vida do homem. A mudança é. isto é. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico. para depois chegarmos àquela que foi chamada. que é de duas espécies. a alma é que move o corpo. é portanto uma síntese . ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria.igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie . isto é. Esta realização do possível. potência realizada. vivente. em que se sucedem os acidentes. que constitui precisamente a substância. chamada matéria-prima.deriva da forma.de matéria e forma. o segundo é atualidade . que representam a potência e o ato no mundo. imperfeição. a forma é. Mediante a doutrina da matéria e da forma. visto ser impossível que o menos produza o mais. matéria. é a nutrição e a reprodução. em diversas proporções. Diversamente da idéia platônica. possibilidade de assumir várias formas. em geral. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser . Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. Desta doutrina da matéria e da forma.metafísica. a forma sem a matéria. ser efetivo. isto é. e. a forma aristotélica não é separada da matéria. metafísica especial. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida.e desenvolvida .a não ser por um outro indivíduo. A característica da vida animal. Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. capacidade de ser. em que a mudança se realiza. especificadora da matéria . Deus. A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. nem o ser de Parmênides. que não seja o Ser perfeitíssimo. aperfeiçoa-se. IV. universal particularizado. a mudança. Então não existe. A causa eficiente. perfeição. porém. O primeiro é potência. forma concretizada da matéria. Os elementos constitutivos da realidade são. absolutamente imóvel. que é intuitiva. passando da potência ao ato. e as determinações que se realizam neste substrato. ingrediente necessário para a existência da realidade material. elemento imutável da mudança. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. de uma potencialidade anterior.um sínolo . mas vice-versa.de matéria e de forma.de potência e de ato. A realidade. a essência. na natureza em que vivemos. como as idéias platônicas. a natureza que ele assume.natureza e homem . eternas. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada . que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico. Ao contrário. Daí a necessidade de um terceiro princípio. A mudança. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. O indivíduo é. A síntese . a causa final. conforme o grau de perfeição. já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. III. movido e motor. O motor pode ser unicamente ato. I. portanto. doutrina que culmina no motor primeiro. forma. Aristóteles explica o indivíduo. Por exemplo. Segundo Aristóteles. A matéria sem forma. a forma e a matéria. estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados . consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência.por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. matéria e forma. Enfim.pode ser unicamente potência. é o pensamento. mais tarde. propriamente.o sinolo . que tanto atormenta Platão. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade. que tem por princípio a alma sensitiva. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. portanto. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. mas une-os em uma síntese conclusiva. mero princípio de decadência. Por conseqüência. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). produzindo esta síntese o indivíduo. depende da matéria. Deus. Com respeito à matéria. A primeira e a última abraçam todo o ser.sínolo . segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. de realidade dos vários seres. pois. por uma substância em ato. portanto. II. não é o puro não-ser de Platão. o segundo forma (substancial). Aqui nos limitamos à psicologia racional. é o substrato imutável. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma. Aristóteles faz o primeiro . que tem por objeto específico o homem. causa concomitante de todos os seres reais. Um substrato comum. perfeição. e ato significa realidade. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. forma do corpo. Todo ser. e esta. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. a causa eficiente. o vir-a-ser.a matéria. as formas aristotélicas são universais. racional. vamos logo falar. a que é submetido tudo que tem matéria. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro. que tem por princípio a alma vegetativa. que é precisamente a alma. pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. imutáveis. A essência . matéria enformada.

pelos vários sentidos. Vista Retrospectiva . e são logicamente separáveis da sua filosofia. percepções. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações. o mutável.acrescimento e diminuição. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. Como se vê. o contingente. que. a alma humana. Cada uma destas. cognoscitiva. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. Quanto às ciências químicas.isto é. o necessário. Sua moral. se se tiver presente que o homem é um animal racional. o apetite guiado pela razão. Por conseqüência. ato puro. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. as sensações específicas são percebidas. A vontade é o impulso. uma verdadeira contradição e deixa subsistir.mudança de lugar. que ele descortina em a natureza. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. pois. as qualidades gerais das coisas tamanho. representações. com o juízo. 3. quer dizer. princípio potencial. primeiro escritor da história da filosofia. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. a atividade fundamental da alma é teorética. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. O conhecimento sensível. por sua vez depende do conhecimento sensível.porquanto se dão atos diversos. etc. tendo a função de coordenar. conhecendo o imaterial. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". que tem um valor teorético. autor do primeiro tratado de psicologia científica. a inteligência. Movimento qualitativo . repouso. segundo Aristóteles. ainda que rejeite o inatismo platônico. é.como sendo relações de substâncias. pelo que ela é espírito. como enigma insolúvel e inexplicável. Objeto do intelecto é o universal. porém. unificar as várias sensações isoladas. mudança. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista.é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. sendo embora uma e única. o pensamento. através do movimento de um meio. mas um espírito que anima um corpo animal. Movimento quantitativo . ativa. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. político. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo . Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo.mudança de forma. especificamente diverso do primeiro. a existência dos seres fora de Deus. figura.por ele propugnado com base na finalidade. Objeto do sentido é o particular. nascimento e morte. sendo superior a estas. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. quanto a tal. o ser absoluto. tem várias faculdades. deve ser imperecível. que a ele confluem. por isso. em torno dos quais fez ele investigações profundas. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles.do movimento segundo a razão. e se tornam. e é própria da alma racional. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. E assim. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. o imaterial. são percebidas por mais sentidos. respectivamente. as essências. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. a alma humana. se desdobra em dois graus. diversamente de Platão. o sensível comum. que é constituída pelo segundo. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. mas instrumento da alma racional. na sensação propriamente dita. o imutável. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. que é a forma do corpo. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. cognoscitiva e operativa. o aspecto. e a matéria. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. isto é. deve ser espiritual e. Movimento substancial . O senso comum é uma faculdade interna. O sensível próprio é percebido por um só sentido. imediata ou à distância. 2. o corpo humano não é obstáculo. pressupões um fato físico. realização de uma possibilidade. sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. a saber. metafísico. funções. sem idéias inatas. físicas e especialmente astronômicas. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. patriarca das ciências naturais. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. de fenômenos . contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. e é próprio da alma animal. Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. dependente do sentimento. A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. "A natureza faz. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. conforme Aristóteles. a falsidade.mudança de propriedade. movimento. condicionando todas as demais espécies de mudança. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. Analogamente às atividades teoréticas. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo . O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. 4. a sensação. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível.finalismo . na própria teoria aristotélica. a realização da forma na matéria. enquanto possível. do "antes" e do "depois". isto é. não é um espírito puro. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. Movimento espacial . que já sabemos ser passagem da potência ao ato. moralista. sempre o que é mais belo". Assim. como filosofia da natureza. e dessa depende a prática. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos. O tempo é definido como sendo o número . ou a possibilidade da falsidade. é a análise dos vários tipos de movimento. no grau sensível bem como no grau inteligível. o material. começa com a síntese. a medida . sem obrigação nem sanção. sensitivo e intelectivo. isto é. contemplativa e ativa. Criador da lógica. A sensação embora limitada é objetiva.

. homens famosos. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. autor de De rerum natura.divide a filosofia em lógica. de outro. na figura. como com aquilo que precede o nascimento. a sua filosofia foi considerada como uma religião. Estas nos dão o ser. mediante uma estável constituição. Portanto. resumida em catecismos.habitadores felizes de intermundos . no peso. nasceu em Atenas. onde encontramos. infinito. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe. a ciência à moral. que constitui a realidade originária. recorre Epicuro à física atomista. consequentemente. a sua doutrina. mecanicista. no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. do ateniense Néocles. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . invisíveis. Precisamente.o poeta entusiasta. Faleceu em 270 a. mas encalha. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. provavelmente. é tarefa do conhecimento do mundo. gosto para a formosura. discípulos e amigos. pertencentes a classes sociais elevadas. por conseqüência. ou mediatamente através dos sentidos. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. da morte.libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. mas teve escasso desenvolvimento. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. que venerava Epicuro como uma divindade. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. sem causa. a sua imagem. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. A originalidade deveria manifestar-se na vida. fundador da escola que tomou o seu nome. pela maior parte perdidos. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. indivíduo material.desinteressam-se por completo dos homens. arrancar-seiam destas e chegariam até à alma imediatamente. rápida e vasta difusão no mundo romano. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. A associação espalhou-se depois. Aristóteles. a apatia. indispensável para que seja possível o movimento e. os átomos estão no espaço vazio. democritiana. houve todavia. espontâneos (clinamen). com setenta anos de idade. mensais e anuais. em que dominava o vínculo da amizade. para a cultura superior. da física . Entretanto. O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. Também segundo Epicuro. intuitiva. também subordina a teoria à pratica. daí derivam encontros e choques de átomos e. Platão dá um passo além. que entende com a metafísica. mas sempre materiais perece com o corpo. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. A gnosiologia (lógica. O Epicurismo Epicuro. A escola epicurista durou até o IV século d. que seriam imagens em miniatura das coisas. nas extravagâncias dum idealismo extremo. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo . daí. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. pela doutrina do conceito. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. deu vida a uma sociedade genial. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. canônica) epicurista é rigorosamente sensista. seguindo as pegadas de Demócrito. A filosofia é a arte da vida. Em seus jardins. nos jardins da sua vila. com o seu espírito positivo e observador. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte.C. evidente. desde logo.C. a serenidade. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. cartas. em 341 a.diz Epicuro . física e ética. a psicologia e a lógica. Aliás. resolvese numa física. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. dum lado. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético.como o estoicismo . missões. a alma . a origem e a variedade das coisas. gravada nas jóias. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. homogêneos.no tamanho. A mãe praticava a magia. para garantir ao homem o bem supremo.I século a. Igualmente. indivisíveis (átomos).Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. que é imediata. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos. senso refinado. Cedo dedicou-se à filosofia. feita de nobreza de sentimentos. Tito Lucrécio Caro . eternos. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. os vórtices e . conforme o desejo do mestre. Epicuro. . semelhante ao dos deuses. do além-túmulo. e foi criado em Samos. mas conservou-se fortemente organizada. Em torno desta questão fundamental. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros.formada de átomos sutis. nenhuma preocupação com a morte. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. a paz. sobretudo. num sereno lazer. a percepção sensível.C.. ajudas materiais. nas suas linhas gerais. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. em todos os tempos e lugares.C. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. Como a sensação. é uma complicação de sensações. O epicurismo teve. e . imutáveis. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema.

que não pode ser senão cópia de realidade. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. refletido. físicos e espirituais. na unidade da amizade. que é unicamente presente. e a morte é a ausência de sensibilidade. ela não é. Epicuro. consistindo na ausência do sofrimento. e. Assim. a maneira grega. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. aos prazeres positivos. do vulgo. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. renunciando a todos os desejos possíveis. racionado? Na satisfação de uma necessidade. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. sem providência divina. Almejava. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. a moral epicuristas. diversamente do imanentismo estóico. no isolamento do mundo. portanto. e precisamente em uma vida curta e refinada. O único bem é o prazer. de sofrimento. no sono. portanto. É de fato. No epicurismo não se trata. como é desejado pelo homem vulgar. avaliado pela razão. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. porém. que é uma simples combinação da contingência. Epicuro admite a divindade transcendente. não naturais e não necessários . a virtude. portanto. quando ela é nós não somos mais. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. pelos mesmos motivos. perturbam a serenidade e a paz. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. sabiamente. uma norma de vida ordinária e espiritual. da paixão. sem alma imortal.os mundos. dar uma unidade estética e racional à vida. mas negativo.desceriam até nós dos intermundos. representa. mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. O fim supremo da vida é o prazer sensível. . Aqui. filosoficamente. mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. porém. na remoção do sofrimento. não ser perturbado no espírito.como pensava Demócrito. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. Nisto estão toda a sabedoria. preenchida com as mais nobres ocupações . na apatia. deve adaptar-se para viver como melhor puder. mais do que ao mundo. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . satisfazendo suas necessidades essenciais. espalhado pelo espaço infindo. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. e na morte. na conversa arguta e delicada: numa palavra. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. No entanto. esse prazer imediato. para os quais não há lugar no seu sistema. escolhido prudentemente. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. mas ainda renuncia os terceiros. Epicuro é também hostil à atividade pública. do prazer imediato. a virtude ética de Aristóteles).por exemplo. estéticos e intelectuais. a amizade genial. na insensibilidade. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . Mas precisamente ainda. critério único de moralidade é o sentimento. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. de fato. sujeitos ao nascimento e à morte. que é precisamente liberdade e paz. na quietude. nos jardins de Epicuro. Epicuro. e não se deixar por eles dominar. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. Nesse mundo o homem. Não sofrer no corpo. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. e nenhum sofrimento deve ser aceito. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. a vida ideal do sábio. Os deuses de Epicuro são muitos. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia.por exemplo. O prazer espiritual diferenciarse-ia do prazer sensível. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. vivendo ocultamente. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. O epicurismo. trata-se do prazer imediato. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. O universo não é concebido como finito e uno. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis. Em realidade. melhor é conhecer do que agir. no entanto. É mister dominar os prazeres. paz e contemplação. Nunca nos encontraremos com a morte. do filósofo. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. afinal. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo . Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. inversamente. como o único mal é a dor. Em que consiste. praticamente ateu. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. a virtude dianoética de Aristóteles). O sábio satisfaz os primeiros. se ensina a renúncia. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. a ambição. em vigiar-se. do indeterminismo universal. esteticamente. renuncia os segundos. se ele faz uma afirmação profunda. porque quando nós somos.como na Academia e no Liceu.como os fantasmas de todas as outras coisas . considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. especialmente durante o sono. O verdadeiro prazer não é positivo. por conseguinte. Estes. a não ser em vista de um prazer. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. da emoção. refletido. mas também na ação (cfr. que nasce de exigências não satisfeitas. A filosofia toda está nesta função prática. ou de nenhum sofrimento menor. o instinto da reprodução. para estar tranqüilo. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. quando for preciso. nenhum prazer deve ser recusado. como os mais altos prazeres.

imortais diversamente dos deuses estóicos . Deste modo. ou não têm a força da crítica. na beata solidão dos intermundos. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber.. à destruição de todos os valores. do relativismo sofista. perturbados. portanto será não a filosofia. do sossego. bem como o intelectual. especialmente do que o estoicismo. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. mesmo negativa. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou. conversando em grego! Mas . O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. característico . Temos precisamente. A felicidade não é mais uma coisa positiva. e também a opinião. Vivem. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo.529 D. sutis e luzentes. que é inacessível ao homem". É uma teologia refinada de ateniense e de artista. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . destarte. Epicuro venera os deuses. tudo vale igualmente.o mal da religião.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . não filosóficos. sorvendo ambrósia. embora acriticamente. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. e por demais despersonalizadas. o objeto. A primeira escola cética serve-se. peripatético. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber.C. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos-ascéticos dos céticos. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. embora imperfeita. enfim. Epicuro. sistema. como uma suma de elementos estóicos. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. acadêmicos e também peripatéticos. uma religião desinteressada. não para receber auxílio. que surgiram em tempos diferentes. de várias escolas filosóficas. moralisticamente. O Período Ético (300 a.não atuam sobre o mundo e a humanidade. faz uso da dialética eleática.constituídos de átomos etéreos. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico.) . com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. negando todo absoluto e transcendente. que concebem a filosofia popularmente. Chega-se. em princípios da era vulgar. desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. construção. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. dotados de corpos luminosos. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. . enfim. É preciso venerá-los para imitá-los. se nada é verdadeiro. portanto.sempre acordados e sentados em jovial convívio. enfim. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes. que importa na contemplação do ideal. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes.segundo ideal grego da vida . em ordem cronológica. no período helenista e depois ainda. teria praticado . O pragmatismo eclético foi. E. da indiferença. para não serem contaminados. da tese e da antítese.C. esvaziadas do seu conteúdo original. e sim o jus. e não justaposição mecânica de peças sem vida. que vive no mundo de estátuas divinas. de tendência pirroniana. cuja grande obra. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. geralmente. tendo forma humana belíssima. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. organismo especulativo. fora do mundo e dos mundos. dada a natureza crítica do ceticismo. existem. como o ceticismo. Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. prática e teorética.como acontece nos períodos de decadência especulativa . a terceira. Substancialmente. nem a da afirmação. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. melhor ainda. Através da mais absoluta indiferença. depois acadêmico e. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades. embora imensamente inferior ao ceticismo. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. Então. nos espaços entre mundo e mundo. mas não é atacada pelo ceticismo. proclamado ateu. um ecletismo estóico. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. mais ou menos). O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. pois a filosofia é escolha. escapando destarte a fatal destruição dos mundos. a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. e a coerência materialista do epicurismo. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. O ceticismo critica o conhecimento sensível. O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a.C.beatos.de sorte que se torna fácil a síntese eclética. contemplados . sem qualquer metafísica. que implica sempre numa crítica. inteiramente voltada para a prática e para a ação. mas não se podem conhecer por falta de meios. incoerente. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. Também o ecletismo. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança.

O primeiro valor dá o conteúdo. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores. ciência e técnica. juntamente com a atividade didática. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. O Estoicismo Em seu conjunto. e. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). mais ou menos).Características Gerais O Estoicismo O Pensamento: A Gnosiologia e a Metafísica A Moral e a Política Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. como opina Aristóteles. restringem-se ao particular. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. um período médio ou eclético. física. como na escola eclética. enfim exporemos o pensamento latino. como na idade moderna. bastante divergentes do estoicismo clássico. que procura na filosofia um conforto. depende de cultura grega. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. na história da filosofia denomina-se período ético. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. geografia. com relação às ciências especiais. O interesse teorético. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. mas afirmações dogmáticas. entre os quais o cínico Crates. como no precedente. voltando-se para a sofística. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura. porém. leva para ele. em terceiro lugar. nem moral.ecletismo e estoicismo. em segundo lugar. não sistemas críticos. em contradição consigo mesma e com a moral. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. o vigor especulativo. literatura. elementar. isto é. libertar o homem das preocupações transcendentais. E. portanto. e anacrônica. funda a sua escola. mercador. o helenismo. em que a metafísica e moral são sincretistas. o qual. aí . como julga Platão. Do contingente e do temporal. e a sabedoria é desapego da ação. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem. o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. da escola estóica. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. mas filologia. medicina. anula-se toda metafísica e. antes de tudo.perdidos seus bens . matemática. Iniciou. uma orientação moral. a saber. mas vastas orientações e escolas. filosofia moral e moral prática. um período recente ou religioso. consequentemente. . menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônicoaristotélico. Em conclusão. o direito romano. astronomia. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. da escola cética. pelo que diz respeito à filosofia. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. por conseqüência. ao passo que a metafísica esmorece. a filosofia torna-se uma preparação para a morte. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. Seu pai. toda moral. e precisamente desse terceiro período . a de escritor. bem como à moral das escolas socráticas menores. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. valor universal como a filosofia grega. pelo ano 300. o segundo a forma . e. Não filosofia teorética.. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. cínica e cirenaica. Os dois últimos. Na história da civilização e da cultura.C. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. no mundo civilizado. este período toma o nome de helenismo. do temor de além-túmulo. Trataremos. significando a expansão da cultura grega. em que ainda há uma metafísica. em que não há mais metafísica alguma. que se chamou estóica. física e ética. ciências naturais. desenvolve-se naturalmente a técnica. depois (ceticismo e ecletismo). A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. da escola epicuréia. stoá. o jus e a política dos romanos. helênica.Graecia capta ferum victorem cepit. de Atenas. história. O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. anuladas. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. uns tratados socráticos. Finalmente. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos.dedica-se à filosofia.

que anda como um deus entre os homens. em outras palavras. Na lógica trata-se da gnosiologia. para firmar a virtude e. pois. da autarquia do sábio. uma física. naturalmente. mas como uma missão e uma prática religiosa. a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. pois. todavia. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. sacerdotal. toda atividade é movimento. logo. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. decadente. Por conseguinte. a independência interior. da metafísica e. o único bem do homem. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. inteiramente absorvidos na prática. as propriedades das coisas. isto não se concilia. a sabedoria. da serenidade. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida.substância metafísica da realidade -. uma ética. à riqueza e à pobreza. até a apatia. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. é destruído. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. No dizer dos estóicos. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. pois é movimento irracional. o estoicismo. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. metafísicos. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. todavia. rigoristas. mas pragmatistas. metafísica.A escola estóica média ou eclética.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. uma tendência irracional. o vício. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. salvo e pensamento. A metafísica estóica reduz-se à física. a tranqüilidade da alma. da serenidade. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. mas a virtude. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. moralistas. como o Sol faz brotar da semente a planta. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. e sim como sendo ela própria um bem imediato. A paixão. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. mas a sua destruição total. uma necessidade mecânica. segundo uma ordem teológica. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. Com o desenvolvimento do estoicismo. indiferença e renúncia a tudo. não como ciência. a emoção. que nasce da virtude negativa da apatia. ao prazer e ao sofrimento . uma emoção. Como o bem absoluto e único é a virtude. que se manifesta no mundo. De tal forma. A virtude estóica é. providência. devem-se conceber materialisticamente também Deus. como geralmente acontece. mas. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. em especial no homem. seguindo-se o aniquilamento da ciência. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. imaginam-no como espírito ordenador. razão da vida. também da moral. inclusive da política e da religião. pois. Podem-se. moralizadoras. numa palavra. fornecer alguma base à sua ética do dever. Não obstante esse absorvente moralismo. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. o fim supremo. à saúde e à doença. a paixão. no fundo. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. por conseguinte. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. da indiferença universal. morbo e vício da alma . e dar uma explicação à razão. espírito. na filosofia estóica. conforme a concepção de Heráclito. ao repouso e à fadiga. há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. que devem ser aniquilados. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. a dor. incoerentemente declaram racional o fogo . para assegurar ao homem a felicidade. e cujo curso é fatalmente determinado. não é o prazer. e os estóicos não são filósofos. . Tudo aquilo que não é virtude nem vício. quer se trate de piedade. é sempre e substancialmente má. mas apenas indiferença. não é nem bem nem mal. contraditória. a autarquia.quer se trate de ódio. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. a física iguala a metafísica. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. diversamente de Aristóteles. à maneira de Demócrito. destino. Como em Aristóteles. Esta matéria está em perpétuo vir-aser. e a lei desse princípio material só pode ser. mecanicismo. Devendo os estóicos. logo. a virtude. na ética. isto é. donde derivam o desejo. O conceito. a felicidade. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. a alma. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. Deus. Como se vê. às honras e à obscuridade. mal se for ligado ao vício. necessidade. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. acaba não sendo mais filosofia. assim o mal único e absoluto é o vício. no fundo. Entende-se. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. em correspondência com o discurso interior e exterior.

em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana. destinada a resolver-se na matéria. é uma pura palavra.porém. sem saudades e sem esperanças. esse cosmopolitismo. a apatia dos estóicos seria. em civilização humana e moral. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. supremo. Não Deus. magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. de direito natural. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. Destarte. fruto de uma fatigosa conquista. o sossego. se a ordem do universo é racional. . Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". de perdão. quando o homem se torna indiferente a tudo. político por natureza. O sábio é beato. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. como precisamente afirmam os estóicos. porém. em definitivo. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. a serenidade. a paz. nada lhe acontece que não seja por ele querido. livres e íntegros. e para não perder. virtude corrosiva. porque. de lei racional. A serenidade. morte moral. conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. de uma dura virtude. sem dúvida. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. até para os infelizes e os escravos. e a tudo renuncia. Com efeito. apenas para os concidadãos. e se conforma com o demais. clássico. salvo o seu pensamento cujo conteúdo é. Mas é uma virtude absolutamente negativa. onde campeia solitária uma justiça. pois no sistema estóico. torna-se cosmopolita por natureza. os estrangeiros e os inimigos. que existe. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. não lhe resta efetivamente mais nada. que são o verdadeiro. único bem da alma. de tal maneira. esta mesma renúncia -. promove todavia os conceitos de sociedade universal. Pelo que diz respeito à política. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. não a alma. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. inteiramente fechado na sua torre de marfim.

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