Os Pré-Socráticos

Dualismo Grego
A característica fundamental do pensamento grego está na solução dualista do problema metafísico-teológico, isto é, na solução das relações entre a realidade empírica e o Absoluto que a explique, entre o mundo e Deus, em que Deus e mundo ficam separados um do outro. Conseqüência desse dualismo é o irracionalismo, em que fatalmente finaliza a serena concepção grega do mundo e da vida. O mundo real dos indivíduos e do vir-a-ser depende do princípio eterno da matéria obscura, que tende para Deus como o imperfeito para o perfeito; assimila em parte, a racionalidade de Deus, mas nunca pode chegar até ele porque dele não deriva. E a conseqüência desse irracionalismo outra não pode ser senão o pessimismo: um pessimismo desesperado, porque o grego tinha conhecimento de um absoluto racional, de Deus, mas estava também convicto de que ele não cuida do mundo e da humanidade, que não criou, não conhece, nem governa; e pensava, pelo contrário, que a humanidade é governada pelo Fado, pelo Destino, a saber, pela necessidade irracional. O último remédio desse mal da existência será procurado no ascetismo, considerando-o como a solidão interior e a indiferença heróica para com tudo, a resignação e a renúncia absoluta.

O Gênio Grego
A característica do gênio filosófico grego pode-se compendiar em alguns traços fundamentais: racionalismo, ou seja, a consciência do valor supremo do conhecimento racional; esse racionalismo não é, porém, abstrato, absoluto, mas se integra na experiência, no conhecimento sensível; o conhecimento, pois, não é fechado em si mesmo, mas aberto para o ser, é apreensão (realismo); e esse realismo não se restringe ao âmbito da experiência, mas a transpõe, a transcende para o absoluto, do mundo a Deus, sem o qual o mundo não tem explicação; embora, para os gregos, o "conhecer" - a contemplação, o teorético, o intelecto - tenham a primazia sobre o "operar" - a ação, o prático, a vontade - o segundo elemento todavia, não é anulado pelo primeiro, mas está a ele subordinado; e o otimismo grego, conseqüência lógica do seu próprio racionalismo, cederá lugar ao pessimismo, quando se manifestar toda a irracionalidade da realidade, quando o realismo impuser tal concepção. Todos esses elementos vêm sendo, ainda, organizados numa síntese insuperável, numa unidade harmônica, realizada por meio de um desenvolvimento também harmônico, aperfeiçoado mediante uma crítica profunda. Entre as raças gregas, a cultura, a filosofia são devidas, sobretudo, aos jônios, sendo jônios também os atenienses.

Divisão da História da Filosofia Grega
Os Períodos Principais do Pensamento Grego Consoante a ordem cronológica e a marcha evolutiva das idéias pode dividir-se a história da filosofia grega em três períodos: I. Período pré-socrático (séc. VII-V a.C.) - Problemas cosmológicos. Período Naturalista: présocrático, em que o interesse filosófico é voltado para o mundo da natureza; II. Período socrático (séc. IV a.C.) - Problemas metafísicos. Período Sistemático ou Antropológico: o período mais importante da história do pensamento grego (Sócrates, Platão, Aristóteles), em que o interesse pela natureza é integrado com o interesse pelo espírito e são construídos os maiores sistemas filosóficos, culminando com Aristóteles; III. Período pós-socrático (séc. IV a.C. - VI p.C.) - Problemas morais. Período Ético: em que o interesse filosófico é voltado para os problemas morais, decaindo entretanto a metafísica; IV. Período Religioso: assim chamado pela importância dada à religião, para resolver o problema da vida, que a razão não resolve integralmente. O primeiro período é de formação, o segundo de apogeu, o terceiro de decadência.

Primeiro Período
O primeiro período do pensamento grego toma a denominação substancial de período naturalista, porque a nascente especulação dos filósofos é instintivamente voltada para o mundo exterior, julgando-se encontrar aí também o princípio unitário de todas as coisas; e toma, outrossim, a denominação cronológica de período pré-socrático, porque precede Sócrates e os sofistas, que marcam uma mudança e um desenvolvimento e, por conseguinte, o começo de um novo período na história do pensamento grego. Esse primeiro período tem início no alvor do VI século a.C., e termina dois séculos depois, mais ou menos, nos fins do século V. Surge e floresce fora da Grécia propriamente dita, nas prósperas colônias gregas da Ásia Menor, do Egeu (Jônia) e da Itália meridional, da Sicília, favorecido sem dúvida na sua obra crítica e especulativa pelas liberdades democráticas e pelo bem-estar econômico. Os filósofos deste período preocuparam-se quase exclusivamente com os problemas cosmológicos. Estudar o mundo exterior nos elementos que o constituem, na sua origem e nas contínuas mudanças a que está sujeito, é a grande questão que dá a este período seu caráter de unidade. Pelo modo de a encarar e resolver, classificam-se os filósofos que nele floresceram em quatro escolas: Escola Jônica; Escola Itálica; Escola Eleática; Escola Atomística.

Escola Jônica
A Escola Jônica, assim chamada por ter florescido nas colônias jônicas da Ásia Menor, compreende os jônios antigos e os jônios posteriores ou juniores. A escola jônica, é também a primeira do período naturalista, preocupando-se os seus expoentes com achar a substância única, a causa, o princípio do mundo natural vário, múltiplo e mutável. Essa escola floresceu precisamente

em Mileto, colônia grega do litoral da Ásia Menor, durante todo o VI século, até a destruição da cidade pelos persas no ano de 494 a.C., prolongando-se porém ainda pelo V século. Os jônicos julgaram encontrar a substância última das coisas em uma matéria única; e pensaram que nessa matéria fosse imanente uma força ativa, de cuja ação derivariam precisamente a variedade, a multiplicidade, a sucessão dos fenômenos na matéria una. Daí ser chamada esta doutrina hilozoísmo (matéria animada). Os jônios antigos consideram o Universo do ponto de vista estático, procurando determinar o elemento primordial, a matéria primitiva de que são compostos todos os seres. Os mais conhecidos são: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto. Os jônios posteriores distinguem-se dos antigos não só por virem cronologicamente depois, senão principalmente por imprimirem outra orientação aos estudos cosmológicos, encarando o Universo no seu aspecto dinâmico, e procurando resolver o problema do movimento e da transformação dos corpos. Os mais conhecidos são: Heráclito de Éfeso, Empédocles de Agrigento, Anaxágoras de Clazômenas.

Tales de Mileto (624-548 A.C.) "Água"
Tales de Mileto, fenício de origem, é considerado o fundador da escola jônica. É o mais antigo filósofo grego. Tales não deixou nada escrito mas sabemos que ele ensinava ser a água a substância única de todas as coisas. A terra era concebida como um disco boiando sobre a água, no oceano. Cultivou também as matemáticas e a astronomia, predizendo, pela primeira vez, entre os gregos, os eclipses do sol e da lua. No plano da astronomia, fez estudos sobre solstícios a fim de elaborar um calendário, e examinou o movimento dos astros para orientar a navegação. Provavelmente nada escreveu. Por isso, do seu pensamento só restam interpretações formuladas por outros filósofos que lhe atribuíram uma idéia básica: a de que tudo se origina da água. Segundo Tales, a água, ao se resfriar, torna-se densa e dá origem à terra; ao se aquecer transforma-se em vapor e ar, que retornam como chuva quando novamente esfriados. Desse ciclo de seu movimento (vapor, chuva, rio, mar, terra) nascem as diversas formas de vida, vegetal e animal. A cosmologia de Tales pode ser resumida nas seguintes proposições: A terra flutua sobre a água; A água é a causa material de todas as coisas. Todas as coisas estão cheias de deuses. O imã possui vida, pois atrai o ferro. Segundo Aristóteles sobre a teoria de Tales: elemento estático e elemento dinâmico. Elemento Estático - a flutuação sobre a água. Elemento Dinâmico - a geração e nutrição de todas as coisas pela água. Tales acreditava em uma "alma do mundo", havia um espírito divino que formava todas as coisas da água. Tales sustentava ser a água a substância de todas as coisas.

Anaximandro de Mileto (611-547 A.C.) "Ápeiron"
Anaximandro de Mileto, geógrafo, matemático, astrônomo e político, discípulo e sucessor de Tales e autor de um tratado Da Natureza, põe como princípio universal uma substância indefinida, o ápeiron (ilimitado), isto é, quantitativamente infinita e qualitativamente indeterminada. Deste ápeiron (ilimitado) primitivo, dotado de vida e imortalidade, por um processo de separação ou "segregação" derivam os diferentes corpos. Supõe também a geração espontânea dos seres vivos e a transformação dos peixes em homens. Anaximandro imagina a terra como um disco suspenso no ar. Eterno, o ápeiron está em constante movimento, e disto resulta uma série de pares opostos - água e fogo, frio e calor, etc. - que constituem o mundo. O ápeiron é assim algo abstrato, que não se fixa diretamente em nenhum elemento palpável da natureza. Com essa concepção, Anaximandro prossegue na mesma via de Tales, porém dando um passo a mais na direção da independência do "princípio" em relação às coisas particulares. Para ele, o princípio da "physis" (natureza) é o ápeiron (ilimitado). Atribui-se a Anaximandro a confecção de um mapa do mundo habitado, a introdução na Grécia do uso do gnômon (relógio de sol) e a medição das distâncias entre as estrelas e o cálculo de sua magnitude (é o iniciador da astronomia grega). Ampliando a visão de Tales, foi o primeiro a formular o conceito de uma lei universal presidindo o processo cósmico total. Diz-se também, que preveniu o povo de Esparta de um terremoto. Anaximandro julga que o elemento primordial seria o indeterminado (ápeiron), infinito e em movimento perpétuo. Fragmentos "Imortal...e imperecível (o ilimitado enquanto o divino) - Aristóteles, Física". Esta (a natureza do ilimitado, ele diz que) é sem idade e sem velhice. Hipólito, Refutação.

Anaxímenes de Mileto (588-524 A.C.) "Ar"
Segundo Anaxímenes, a arkhé (comando) que comanda o mundo é o ar, um elemento não tão abstrato como o ápeiron, nem palpável demais como a água. Tudo provém do ar, através de seus movimentos: o ar é respiração e é vida; o fogo é o ar rarefeito; a água, a terra, a pedra são formas cada vez mais condensadas do ar. As diversas coisas que existem, mesmo apresentando qualidades diferentes entre si, reduzem-se a variações quantitativas (mais raro, mais denso) desse único elemento. Atribuindo vida à matéria e identificando a divindade com o elemento primitivo gerador dos seres, os antigos jônios professavam o hilozoísmo e o panteísmo naturalista. Dedicou-se especialmente à meteorologia. Foi o primeiro a afirmar que a Lua recebe sua luz do Sol. Anaxímenes julga que o elemento primordial das coisas é o ar. Fragmentos "O contraído e condensado da matéria ele diz que é frio, e o ralo e o frouxo (é assim que ele expressa) é quente". (Plutarco). "Com nossa alma, que é ar, soberanamente nos mantém unidos, assim também todo o cosmo sopro e ar o mantém". (Aécio).

Heráclito de Éfeso Vida de Heráclito
Heráclito nasceu em Éfeso, cidade da Jônia, de família que ainda conservava prerrogativas reais (descendentes do fundador da cidade). Seu caráter altivo, misantrópico e melancólico ficou proverbial em toda a antigüidade. Desprezava a plebe. Recusou-se sempre a intervir na política. Manifestou desprezo pelos antigos poetas, contra os filósofos de seu tempo e até contra a religião. Sem ter sido mestre, Heráclito escreveu um livro Sobre a Natureza, em prosa, no dialeto jônico, mas de forma tão concisa que recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro. Floresceu em 504-500 a.C. - Heráclito é por muitos considerados o mais eminente pensador pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Estabeleceu a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedora de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, "como a do arco e da lira".

Filosofia de Heráclito
Heráclito concebe o próprio absoluto como processo, como a própria dialética. A dialética é: A. Dialética exterior, um raciocinar de cá para lá e não a alma da coisa dissolvendo-se a si mesma; B. Dialética imanente do objeto, situando-se, porém, na contemplação do sujeito; C. Objetividade de Heráclito, isto é, compreender a própria dialética como princípio. É o progresso necessário, e é aquele que Heráclito fez. O ser é o um, o primeiro; o segundo é o devir - até esta determinação avançou ele. Isto é o primeiro concreto, o absoluto enquanto nele se dá a unidade dos opostos. Nele encontra-se, portanto, pela primeira vez, a idéia filosófica em sua forma especulativa; o raciocínio de Parmênides e Zenão é entendimento abstrato; por isso Heráclito foi tido como filósofo profundo e obscuro e como tal criticado. O que nos é relatado da filosofia de Heráclito parece, à primeira vista, muito contraditório; mas nela se pode penetrar com o conceito e assim descobrir, em Heráclito, um homem de profundos pensamentos. Ele é a plenitude da consciência até ele uma consumação da idéia na totalidade que é o início da Filosofia ou expressa a essência da idéia, o infinito, aquilo que é.

O Princípio Lógico
O princípio universal. Este espírito arrojado pronunciou pela primeira vez esta palavra profunda: "O ser não é mais que o não-ser", nem é menos; ou ser e nada são o mesmo, a essência é mudança. O verdadeiro é apenas como a unidade dos opostos; nos eleatas, temos apenas o entendimento abstrato, isto é, apenas o ser é. Dizemos, em lugar da expressão de Heráclito: O absoluto é a unidade do ser e do não-ser. Se ouvimos aquela frase "O ser não é mais que o não-ser", desta maneira, não parece, então, produzir muito sentido, apenas destruição universal, ausência de pensamento. Temos, porém, ainda uma outra expressão que aponta mais exatamente o sentido do princípio. Pois Heráclito diz: "Tudo flui (panta rei), nada persiste, nem permanece o mesmo". E Platão ainda diz de Heráclito: "Ele compara as coisas com a corrente de um rio - que não se pode entrar duas vezes na mesma corrente"; o rio corre e toca-se outra água. Seus sucessores dizem até que nele nem se pode mesmo entrar, pois que imediatamente se transforma; o que é, ao mesmo tempo já novamente não é. Além disso, Aristóteles diz que Heráclito afirma que é apenas um o que permanece; disto todo o resto é formado, modificado, transformado; que todo o resto fora deste um flui, que nada é firme, que nada se demora; isto é, o verdadeiro é o devir, não o ser - a determinação mais exata para este conteúdo universal é o devir. Os eleatas dizem: só o ser é, é o verdadeiro; a verdade do ser é o devir; ser é o primeiro pensamento enquanto imediato. Heráclito diz: Tudo é devir; este devir é o princípio. Isto está na expressão: "O ser é tão pouco como o não-ser; o devir é e também não é". As determinações absolutamente opostas estão ligadas numa unidade; nela temos o ser e também o não-ser. Dela faz parte não apenas o surgir, mas também o desaparecer; ambos não são para si, mas são idênticos. É isto que Heráclito expressou com suas sentenças. O não ser é, por isso é o não-ser, e o não-ser é, por isso é o ser; isto é a verdade da identidade de ambos. É um grande pensamento passar do ser para o devir; é ainda abstrato, mas, ao mesmo tempo, também é o primeiro concreto, a primeira unidade de determinações opostas. Estas estão inquietas nesta relação, nela está o princípio da vida. Com isto está preenchido o vazio que Aristóteles apontou nas antigas filosofias - a falta de movimento; este movimento é aqui, agora mesmo, princípio. É uma grande convicção que se adquiriu, quando se reconheceu que o ser e o nada são abstrações sem verdade, que o primeiro elemento verdadeiro é o devir. O entendimento separa a ambos como verdadeiros e de valor; a razão, pelo contrário, reconhece um no outro, que num está contido seu outro - e assim o todo, o absoluto deve ser determinado como o devir. Heráclito também diz que os opostos são características do mesmo, como, por exemplo, "o mel é doce e amargo" - ser e não-ser ligam-se ao mesmo. Sexto observa: Heráclito parte, como os céticos, das representações correntes dos homens; ninguém negará que os sãos dizem do mel que é doce, e os que sofrem de icterícia que é amargo - se fosse apenas doce, não poderia modificar sua natureza através de outra coisa e assim também para os que sofrem de icterícia seria doce. Zenão começa a sobressumir os predicados opostos e aponta no movimento aquilo que se opõe - um por limites e um sobressumir os limites; Zenão só exprimiu o infinito pelo seu lado negativo - , por causa de sua contradição, como o não verdadeiro. Em Heráclito, vemos o infinito como tal expresso como conceito e essência: o infinito, que é em si e para si, é a unidade dos opostos e, na verdade, dos universalmente opostos, da pura oposição, ser e não-ser. Tomamos nós o ente em si e para si, não a representação do ente, do pleno, assim o puro ser é o pensamento simples, em que todo o determinado é negado, o absolutamente negativo - nada é o mesmo, apenas este igual a si mesmo - , passagem absoluta para o oposto, ao qual Zenão

não chegou! "Do nada, nada vem." Em Heráclito o momento da negatividade é imanente; disto trata o conceito de toda a Filosofia. Primeiro tivemos a abstração de ser e não-ser, numa forma bem imediata e universal; mais exatamente, porém, também Heráclito concebeu as oposições de maneira mais determinada. É esta unidade de real e ideal, de objetivo e subjetivo; o objetivo somente é o devir subjetivo. Este verdadeiro é o processo do devir; Heráclito expressou de modo determinado este pôr-se numa unidade das diferenças. Aristóteles diz, por exemplo, que Heráclito "ligou o todo e o não-todo" (parte) - o todo se torna parte e a parte o é para se tornar o todo - , o "que se une e se opõe", do mesmo modo, "o que concorda e o dissonante"; e de que de tudo (que se opõe) resulta um, e de um tudo. Este um não é o abstrato, a atividade de dirimir-se; a morta infinitude é uma má abstração em oposição a esta profundidade que vemos em Heráclito. Sexto Empírico cita o seguinte que Heráclito teria dito: A parte é algo diferente do todo; mas é também o mesmo que o todo é; a substância é o todo e a parte. O fato de Deus ter criado o mundo Ter-se dividido a si mesmo, gerado seu Filho, etc. - todos estes elementos concretos estão contidos nesta determinação. Platão diz, em seu Banquete, sobre o princípio de Heráclito: "O um, diferenciado de si mesmo, une-se consigo mesmo" - este é o processo da vida, "como a harmonia do arco e da lira". Deixa então que Erixímaco, que fala no Banquete, critique o fato de a harmonia ser desarmônica ou se componha de opostos, pois que a harmonia se formaria de altos e baixos, mas da unidade pela arte da música. Mas isto não contradiz Heráclito, que justamente quer isto. O simples, a repetição de um único som não é harmonia. Da harmonia faz parte a diferença; é preciso que haja essencial e absolutamente uma diferença. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir, transformar-se - não devir outro, agora este, depois aquele. O essencial é que cada diferente, cada particular seja diferente de um outro - mas não de um abstrato qualquer outro, mas de seu outro; cada um apenas é, na medida em que seu outro em si esteja consigo, em seu conceito. Mudança é unidade, relação de ambos a um, um ser, este e o outro. Na harmonia e no pensamento concordamos que seja assim; vemos, pensamos a mudança, a unidade essencial. O espírito relaciona-se na consciência com o sensível e este sensível é seu outro. Assim também no caso dos sons; devem ser diferentes, mas de tal maneira que também possam ser unidos - e isto os sons são em si. Da harmonia faz parte determinada oposição, seu oposto, como nas harmonia das cores. A subjetividade é o outro da objetividade, não de um pedaço de papel - o absurdo disto logo se mostra - , deve ser seu outro, e nisto reside sua identidade; assim cada coisa é o outro do outro enquanto seu outro. Este é o grande princípio de Heráclito; pode parecer obscuro, mas é especulativo; e isto é, para o entendimento que segura para si o ser, o não-ser, o subjetivo e objetivo, o real e o ideal, sempre obscuro.

Os Modos da Realidade
Heráclito não ficou parado, em sua exposição, nesta expressão em conceitos, no puro lógico, mas além desta forma universal, na qual expôs seu princípio, deu à sua idéia também uma expressão real. Esta figura pura é precipuamente de natureza cosmológica, ou sua forma é mais a forma natural; por isso, é incluído ainda na Escola Jônica, e com isto deu novos impulsos à filosofia da natureza. Sobre esta forma real de seu princípio os historiadores, contudo, não estão de acordo entre si. A maioria diz que ele teria posto a essência ontológica como fogo, outros dizem que como ar, outros dizem que antes o vapor que o ar; mesmo o tempo é citado, em Sexto, como o primeiro ser do ente. A questão é a seguinte: Como compreender esta diversidade? Não se deve absolutamente crer que se deva atribuir estas notícias à negligência dos escritores, pois as testemunhas são as melhores, como Aristóteles e Sexto Empírico, que não falam destas formas de passagem, mas de modo bem determinado, sem, no entanto, chamar a atenção para estas diferenças e contradições. Uma outra razão mais próxima parece-nos resultar da obscuridade do escrito de Heráclito, o qual, na confusão de seu modo de expressão, poderia dar motivos para mal-entendidos. Mas, considerando mais detidamente, esta dificuldade desaparece; esta mostra-se mais para uma análise superficial; no conceito profundo de Heráclito acha-se a verdadeira saída deste empecilho. De maneira alguma podia Heráclito afirmar, como Tales, que a água ou o ar ou coisa semelhante seria a essência absoluta; e não o podia afirmar como um primeiro donde emanaria o outro, na medida em que pensou ser como idêntico como o não-ser ou no conceito infinito. Assim, portanto, a essência absoluta que é não pode surgir nele como uma determinidade existente, por exemplo, a água, mas a água enquanto se transforma, ou apenas o processo. A. - Processo abstrato, tempo. Heráclito, portanto, disse que o tempo é o primeiro ser corpóreo, como exprime Sexto. "Corpóreo" é uma expressão inadequada. Os céticos escolhiam muitas vezes as expressões mais grosseiras ou tornavam os pensamentos grosseiros para mais facilmente liquidá-los. "Corpóreo" significa sensibilidade abstrata; o tempo é a intuição abstrata do processo; diz que ele é o primeiro ser sensível. O tempo, portanto, é a essência verdadeira. Na medida em que Heráclito não parou na expressão lógica do devir, mas deu a seu princípio a forma de um ente, deduz-se disto que primeiro tinha que oferecer-se a forma do tempo; pois precisamente, no sensível, no que se pode ver, o tempo é o primeiro que se oferece como o devir; é a primeira forma do devir. Enquanto intuído, o tempo é o puro devir. O tempo é puro transformar-se, é o puro conceito, o simples, que é harmônico a partir de absolutamente opostos. Sua essência é ser e não-ser, sem outra determinação ser puro e abstrato não-ser, postos imediatamente numa unidade e ao mesmo tempo separados. Não como se o tempo fosse e não fosse, mas o tempo é isto: no ser imediatamente não-ser e no não-ser imediatamente ser - esta mudança de ser para não-ser, este conceito abstrato, é, porém, visto de maneira objetiva, enquanto é para nós. No tempo não é o passado e o futuro, somente o agora; e este é, para não ser, está logo destruído, passado - e este não-ser passa, do mesmo modo, para o ser, pois ele é. É a abstrata contemplação desta mudança. Se tivéssemos de dizer como aquilo que Heráclito reconheceu como a essência existe para a consciência, nesta pura forma em que ele o reconheceu, não haveria outra que nomear a não ser o tempo; é, por conseguinte, absolutamente certo que a primeira forma do que devém é o tempo; assim isto se liga ao princípio do pensamento de Heráclito.

B. - A forma real como processo, fogo. Mas este puro conceito objetivo deve realizar-se mais. No tempo estão os momentos, ser e não-ser, postos apenas negativamente ou como momentos que imediatamente desaparecem. Além disso, Heráclito determinou o processo de um modo mais físico. O tempo é intuição, mas inteiramente abstrata. Se quisermos representar-nos o que ele é, de modo real, isto é, expressar ambos os momentos como uma totalidade para si, como subsistente, então levanta-se a questão: que ser físico corresponde a esta determinação? O tempo, dotado de tais momentos, é o processo; compreender a natureza significa apresentá-la como processo. Este é o elemento verdadeiro de Heráclito e o verdadeiro conceito; por isso, logo compreendemos que Heráclito não podia dizer que a essência é o ar ou a água ou coisas semelhantes, pois eles mesmos não são (isto é o próximo) o processo. O fogo, porém, é o processo: assim afirmou o fogo como a primeira essência - e este é o modo real do processo heracliteano, a alma e a substância do processo da natureza. Justamente no processo distinguem-se os momentos, como no movimento: 1. o puro momento negativo, 2. os momentos da oposição subsistente, água e ar, e 3. a totalidade em repouso, a terra. A vida da natureza é o processo destes momentos: a divisão da totalidade em repouso da terra na oposição, o pôr desta oposição, destes momentos - e a unidade negativa, o retorno para a unidade, o queimar da oposição subsistente. O fogo é o tempo físico; ele é esta absoluta inquietude, absoluta dissolução do que persiste - o desaparecer de outros, mas também de si mesmo; ele não é permanente. Por isso compreendemos (é inteiramente conseqüente) por que Heráclito pode nomear o fogo como o conceito do processo de sua determinação fundamental. C. - O fogo está agora mais precisamente determinado, mais explicitado como processo real; ele é para si o processo real, sua realidade é o processo todo no qual, então, os momentos são determinados mais exata e concretamente. O fogo, enquanto o metamorfosear-se das coisas corpóreas, é mudança, transformação do determinado, evaporação, transformação em fumaça; pois ele é, no processo, o momento abstrato do mesmo, não tanto o ar como antes a evaporação. Para este processo Heráclito utilizou uma palavra muito singular: evaporação (anathymíasis) (fumaça, vapores do sol); evaporação é aqui apenas a significação superficial - é mais: passagem. Sob este ponto de vista, Aristóteles diz de Heráclito que, segundo sua exposição, o princípio era a alma, por ser ela a evaporação, o emergir de tudo, e este evaporar-se, devir, seria o incorpóreo e sempre fluído. As determinações mais próximas deste processo real são, em parte, falhas e contraditórias. Sob este ponto de vista, afirma-se, em algumas notícias, que Heráclito teria determinado o processo assim: "As formas (mudanças) do fogo são, primeiro, o mar e, então, a metade disto, terra, e a outra metade, o raio" - o fogo em sua eclosão. Este é universal e muito obscuro. A natureza é assim esse círculo. Neste sentido ouvimo-lo dizer: "Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis (métro) se acende e se apaga.". Compreendemos o que Aristóteles cita, que o princípio é a alma, por ser a evaporação, este processo do mundo que a si mesmo se move; o fogo é a alma. No que se refere ao fato de Heráclito afirmar que o fogo é vivificante, a alma, encontra-se uma expressão que pode parecer bizarra, isto é, que a alma mais seca é a melhor. Nós certamente não tomamos a alma mais molhada como a melhor, mas, pelo contrário, a mais viva; seco quer dizer aqui cheio de fogo: assim a alma mais seca é o fogo puro, e este não é a negação do vivo, mas a própria vida. Para retornar a Heráclito: ele é aquele que primeiro expressou a natureza do infinito e que compreendeu a natureza como sendo em si infinita, isto é, sua essência como processo. É a partir dele que se deve datar o começo da existência da Filosofia; ele é a idéia permanente, que é a mesma em todos os filósofos até os dias de hoje, assim como foi a idéia de Platão e Aristóteles. "Os homens são deuses mortais e os deuses, homens imortais; viver é-lhes morte e morrer é-lhes vida". "Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos".

Pitágoras de Samos
Pitágoras, o fundador da escola pitagórica, nasceu em Samos pelos anos 571-70 a.C. Em 532-31 foi para a Itália, na Magna Grécia, e fundou em Crotona, colônia grega, uma associação científico-ético-política, que foi o centro de irradiação da escola e encontrou partidários entre os gregos da Itália meridional e da Sicília. Pitágoras aspirava - e também conseguiu - a fazer com que a educação ética da escola se ampliasse e se tornasse reforma política; isto, porém, levantou oposições contra ele e foi constrangido a deixar Crotona, mudando-se para Metaponto, aí morrendo provavelmente em 497-96 a.C. Segundo o pitagorismo, a essência, o princípio essencial de que são compostas todas as coisas, é o número, ou seja, as relações matemáticas. Os pitagóricos, não distinguindo ainda bem forma, lei e matéria, substância das coisas, consideraram o número como sendo a união de um e outro elemento. Da racional concepção de que tudo é regulado segundo relações numéricas, passa-se à visão fantástica de que o número seja a essência das coisas. Mas, achada a substância una e imutável das coisas, os pitagóricos se acham em dificuldades para explicar a multiplicidade e o vir-a-ser, precisamente mediante o uno e o imutável. E julgam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos, que são - segundo os pitagóricos - o ilimitado e o limitado, ou seja, o par e o ímpar, o imperfeito e o perfeito. O número divide-se em par, que não põe limites à divisão por dois, e, por conseguinte, é ilimitado (quer dizer, imperfeito, segundo a concepção grega, a qual via a perfeição na determinação); e ímpar, que põe limites à divisão por dois e, portanto, é limitado, determinado, perfeito. Os elementos constitutivos de cada coisa - sendo cada coisa número - são o par e o ímpar, o ilimitado e o limitado, o pior e o melhor. Radical oposição esta, que explicaria o vir-a-ser e o múltiplice, que seriam reconduzidos à concordância e à unidade pela fundamental harmonia (matemática), que governa e deve governar o mundo material e moral, astronômico e sonoro. Como a filosofia da natureza, assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica. De fato, os pitagóricos afirmaram a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, bem como a rotação da Terra, explicando assim o dia e a noite;

conforme se considere o elemento harmônico ou o elemento rítmico. pelo menos em certo sentido. do Ápeiron. contra o eleatismo. feminino. As qualidades nasciam por combinação ou por dissociação. Trata-se de encontrar fórmulas matemáticas para as forças absolutamente impenetráveis. tudo é uma unidade". davam nascimento a uma série limitada de números. têm-se também os objetos materiais. Remetem-se. Pelo que diz respeito à moral. exclusivamente com o auxílio de números. 4) que não pode nem mover-se nem estar em repouso. con efeito. do qual a música é. direita. Lembramo-nos da dialética de Parmênides. Contentou-se. denso. De novo. ablongo. bastava-lhes que fosse afirmada a existência da Unidade para deduzir dela também a pluralidade. Parmênides chamava Aphrodite. os gnómones. o Ápeiron de Anaximandro. tiveram de erigir a noção de número. Nossa ciência é. portanto: delimitado. do qual se pode dizer que é impar. A música. De um lado têm-se. os números quadrados. O ponto de partida que permite afirmar que tudo o que é qualitativo é quantitativo encontra-se na acústica. é preciso partir do eleatismo. ablongo. delimitado e movido pelo fogo de Heráclito. uno. Como é possível uma pluralidade? Pelo fato de o não-ser ter um ser. luz. cinco o casamento. e as práticas ascéticas e abstinenciais. um conceito contraditório. portanto a diversidade. portanto. quatro a justiça. identificam o não-ser ao Ápeiron de Anaximandro. e a pluralidade do ser. múltiplo. por outro lado. um é o ponto. é uma especulação totalmente insólita. assim. bom. àquilo que não tem nenhuma qualidade. aqui. como tal. não quantidades de elementos (água. foi preciso que também a Unidade tivesse vindo a ser. logo. não-ser e.e afirmaram também a revolução dos corpos celestes em torno de um foco central. afirma-se que as qualidades residem na diversidade das proporções. Portanto. passivo. impossível. a essa força. três a superfície. portanto. Decompuseram os dois elementos de que nasce o número em par e ímpar. [Simbolismo dos números pitagóricos: um é a razão. foi em todo caso formado por dois princípios. dominam no pitagorismo o conceito de harmonia. Para defender essa idéia contra a doutrina unitária dos eleatas. o Péras. inqualificado e qualificado. ao absolutamente Indeterminado. Mas identificam esse limite com o fogo de Heráclito. retomaram então a idéia heraclitiana do pólemos. dualismo. que não está em parte nenhuma. teriam entendido por ela a proporção (aquilo que fixa as . A contribuição original dos pitagóricos é. Assim. Dizem. inicialmente. quente. só existe em nossos nervos e em nosso cérebro. Notável quadro estabelecido por Aristóteles (Metaf. é dito da Unidade (supondo que não existe pluralidade): 1) que ela não tem partes e não é um todo. a isso opõe-se o absolutamente Determinado. etc. problemas secundários. portanto. curvo. a imagem. Chamar o Ápeiron de Par é sua grande inovação. uno.] A música. 2) que tampouco tem limites. isso porque os ímpares. etc. poder-se-ia exprimir o ser do universo. reto. agora.. luz. 5): delimitado. ímpar. é o melhor exemplo do que queriam dizer os pitagóricos. Os eleatas dizem: "Não há não-ser. enfim. imóvel. temos uma mistura de atomismo e de pitagorismo. Cosmogonia. etc. ilimitado. No mesmo sentido. portanto. De outro lado. esquerda. Portanto. na origem há a descoberta das analogias numéricas no universo. a Unidade veio a ser. agitado. com relação à metempsicose e à reincarnação das almas. múltiplo. portanto. Os pitagóricos: "A própria unidade é o resultado de um ser e de um não-ser. frio. toda coisa nasce de dois fatores opostos. À primeira vista. esquerda. pois. pois. par. cuja tarefa é. também uma pluralidade". quadrado. Mas ambos compõem o Uno. Nela. evidentemente. Na química. pitagórica. que. tratava-se sempre de elementos e de sua combinação. nesse caso. fogo. 3) portanto. se se trata de sua quantidade. pai de todas as coisas. encontra-se. Mas esse presentimento estava ainda longe da aplicação exata. o não-ser é noite e. o número é a essência própria das coisas. etc. I. masculino.). O ponto de partida me parece ser a apologia da ciência matemática contra o eleatismo. quatro o volume. Identificaram essas noções com termos filosóficos já usuais. ponto de vista inteiramente novo. há também uma pluralidade. a linha. trevas. da unidade procede a série dos números aritméticos (monádicos). não há nada além de quantidades. fora de nós ou em si mesma (no sentido de Locke). O ser é luz e. e quanto à tonalidade. portanto há. e da Harmonia que une as qualidades opostas. se o Uno existe. Mas estes são apenas. É um procedimento análogo: ataca-se o conceito da Unidade existente porque comporta os predicados contraditórios e é. sutil. enfim. [Teoria das cordas sonoras. Nos outros sistemas de física. A harmonia das esferas. delimitado e ilimitado. depois os números geométricos ou grandezas (formas espaciais). dois é a linha. direita. para a qual Ecphantus na Antiguidade passa por ter aberto o caminho. é essencialmente uma força calculadora. pois. portanto. logicamente conexo com a filosofia pitagórica. par. trevas. E acreditavam discernir a essência verdadeira das coisas em suas relações numéricas. imóvel. Para compreendermos seus princípios fundamentais. agora. ativo. este é análogo ao ser potencial da hyle de Aristóteles. há também uma pluralidade. dois a opinião. Portanto. Isso lembra o quadro-modelo de Parmênides. relação de intervalos. Desde que se têm o ponto. não há qualidades.] Se se pergunta a que se pode vincular a filosofia pitagórica. Se houvessem tomado emprestado de Heráclito a palavra lógos. com analogias fantasiosas. O Universo e os planetas esféricos. que fazia nascer todas as coisas de uma dualidade. e o número. ímpar. mas delimitações do ilimitado. mau. mau. quadrado. feminino. dez a perfeição. que não se deve confundir com o Sol. bom. agitado. compõe-se somente das relações numéricas quanto ao ritmo. masculino. Mas. reto. e a delimitação. provisoriamente. que reaparece aqui pela última vez. uma invenção extremamente importante: a significação do número e. dissolver o indeterminado em tantas relações numéricas determinadas. Simbolizava a gênese de todas as coisas a partir da oitava. curvo. nesse sentido. se se trata de sua qualidade. modo dórico. E tal é. Os matemáticos pitagóricos acreditavam na realidade das leis que haviam descoberto. as superfícies e os corpos. em todo caso. a Anaximandro. depois. o domínio da química e das ciências naturais. ilimitado. estritamente. a possibilidade de uma investigação exata em física. o primeiro sistema de Parmênides. o Ser e a Unidade dão a Unidade existente. e as partes múltiplas.

em torno dessa lenda. A força mística do grande filósofo e reformador religioso. quando foi feito prisioneiro pelas tropas de Cambísis. que este realizou. o que fez o sábio exilar-se na Magna Grécia (Itália). afinal. foi finalmente destruído. entre 592 a 570 antes da nossa era. nessas descrições. proliferavam os templos pitagóricos. por volta de 41 a 54 d. era filho de Menesarco e de Partêmis. que conheceu o pensamento das antigas religiões do Oriente. sinteticamente. ou seja. porém. desde os tempos da antiguidade. junto com os seus mais amados discípulos. Conta-nos. deve-se mais ao fato de ser secreta do que propriamente por suas idéias. em Babilônia. que se realizaram sobre a doutrina de Pitágoras. relata-se que esteve em contato com os órficos. E foi inegavelmente essa descoberta tão importante que impulsionou novos estudos. que Pitágoras nasceu em Samos. cuja influência atravessa os séculos até nossos dias. Sua idéia fundamental é esta: a matéria. o que levou a mãe a devotar-se com o máximo carinho à sua educação. que preferem declará-lo como não existente. ao nosso ver. poderosamente. averigou-se ser pitagórica. essa ordem. tendo sido daí conduzido para a Babilônia. durante vinte e cinco séculos. Tendo esta. tendo então conhecido a famosa sacerdotiza Teocléia de Delfos. não impede que seja o pitagorismo uma realidade empolgante na história da filosofia. porque há. sem dúvida. pereceu Pitágoras. tomando um rumo que permaneceu ignorado. no Peloponeso.C. segundo uns. já em decadência. então tirano de Samos. Posteriormente verificou-se que se tratava de uma construção realizada nos tempos de Cláudio. naquele mesmo século em que surgiram tantos grandes condutores de povos e criadores de religiões. o assírio Zaratustra ou Zoroastro. já em tempos de César. por não se ter às mãos documentação bastante. porque aí é que funda o seu famoso Instituto. em sua juventude. que realizou um retiro no Monte Carmelo e na Caldéia. onde. Não consideramos apenas lenda o que se escreveu sobre essa vida maravilhosa. influindo no pensamento Ocidentel.600 anos vem. quando de sua estada nessa grande metrópole da antiguidade. teve como primeiros mestres a Hermodamas de Samos até os 18 anos. Antes de sua localização na Magna Grécia. levado o filho à Pítia de Delfos. Numa obra. Inúmeras são as divergências sobre a verdadeira nacionalidade de Pitágoras. O fato de negar-se. Observa-se. a doutrina pitagórica foi a que mais se difundiu na antiguidade. a historicidade de Pitágoras (como alguns o fazem). Consta que Pitágoras.proporções. contando-nos a lenda que. em Crotona. e ouvinte das conferências de Anaximandro. ainda. Zoroastro (Zaratustra). sob os trilhos da estrada de ferro. que. pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia. foi descoberta uma cripta. Suas lições atraíram-lhe muitos discípulos. que antes. Carcopino (La Brasilique pythagoricienne de la Porte Majeure) dá-nos um amplo relato desse templo. tendo sido. que ainda existe e tem seus seguidores. irremediavelmente infectada de idéias estranhas que. afirma-se. Foi depois discípulo de Sonchi. nos santuários de Mênfis. inúmeras viagens e peregrinações. em todas as fontes que nos relatam a vida de Pitágoras. Dióspolis e Heliópolis. peremptoriamente. e que. e freqüentou as aulas ministradas por famosos mestres de então. Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. Confúcio e Lao Tsé. cujo nome significa o Anunciador pítico (Pythios). esta sacerdotiza vaticinou-lhe um grande papel. com base histórica. e se essa seita foi tão combatida. Mas é na Itália que desempenha um papel extraordinário. mas provocaram. vamos a seguir relatar algo. ainda. mas sem poder dizer quem faz o cálculo. jaz envolta num véu de mistério. onde se reuniam os membros de uma seita misteriosa. Relata a lenda que Pitágoras. ao dizer que a música é "exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi" (¹). que desde criança se revelava prodigioso. perto de Porta Maggiori. o qual. ou Pythaia. Notas Biográficas sobre Pitágoras A doutrina e a vida de Pitágoras. como foi Gautama Buda. por casualidade. de caráter iniciático. natural de Tiro. tendo voltado para Samos já com a idade de 56 anos. Acontece com Pitágoras o que aconteceu com Shakespeare. certa vez. pondo de lado esses escrúpulos ingênuos de certos autores. também. e que nada mais era do que um templo. que liga Roma a Nápoles.. muito de histórico do que é fruto da imaginação e da cooperação ficcional dos que se dedicaram a descrever a vida do famoso filósofo de Samos. aluno de Tales. também. como o Péras fixa o limite). em seu incêndio. combatido pelos democratas de então. como já esteve no passado. conhecido Zaratos. mebora esteja. É aceito quase sem divergência por todos que se debruçaram a estudar a sua vida. somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada. O vir-a-ser é um cálculo. Isso lembra a palavra de Leibniz. recomendado ao faraó Amom. posteriormente. Afirma-se. Em 1917. a lenda que o hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito. desvirtuam o pensamento genuíno de Pitágoras de Samos. há 2. Se não existiu Pitágoras de Samos. os quais tendem a mostrar o grande papel que exerceu na história. Mas. outros. que se julgou a princípio fosse a porta de uma capela cristã subterrânea. que é representada inteiramente destituída de qualidade. Foi em sua viagem a essa metrópole da Antiguidade. Sabe-se hoje. chamava-se Pitágoras. foi iniciado nos mistérios egípcios. Podemos assim parafrasear o que foi dito quanto a Shakespeare. cuja existência foi tantas vezes negada. hoje cara aos pitagóricos. Dentre as religiões de mistérios. fundou o seu famoso Instituto. enquanto outros afirmam que conseguiu fugir. síria ou. depois Ferécides de Siros. em Mileto. onde. a inimizade de Policrates. houve com certeza alguém que construiu essa doutrina. ademais. em nossos dias. um sacerdote egípcio. (¹) O exercício de aritmética oculto do espírito que não sabe calcular. Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo. como se houvesse maior validez na negação da sua historicidade do que na sua afirmação. tendo. .

Partindo de idéias órficas. Estes não seriam. como os referentes às suas viagens e a seus contatos com culturas orientais. cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do cosmo e traçar. semeia . (Pitágoras) Salvação pela Matemática Pitágoras de Samos. a fim de efetivar sua purificação. fugindo à tirania de Polícrates.o Número A partir do próprio Pitágoras. na segunda metade do século VI a. são entidades corpóreas constituídas por unidades contíguas e a prenunciar os átomos de Leucipo e Demócrito.esse "intervalo" resultaria da respiração do universo que. de caráter iniciático. ou seja. meros símbolos a exprimir o valor das grandezas: para os pitagóricos. (Pitágoras) O Pitagorismo Durante o século VI a. entre todos os seres. o homem necessitaria da ajuda de Dioniso. mas não a carregues". representados figurativamente. Ou seja. Os primeiros números.era uma religião essencialmente esotérica. são a própria "alma das coisas". usadas pelos gregos e depois pelos romanos. vivo. O orfismo . verificou-se. depois do pitagórico Filolau. Pitágoras deve ter falecido entre 510 e 480. recolhe". assim. e que se manifesta como beleza. A representação figurada permitia explicitar a lei de composição dos números e torna-se um fator de avanço das investigações matemáticas dos pitagóricos. descobriu que há uma dependência do som em relação à extensão. do ciclo das reincarnações. de onde caíra. os tiranos favoreciam a expansão de cultos populares ou estrangeiros. e que passou a constituir o núcleo da religião órfica. "Todas as coisas são números". que se tornou figura legendária na própria Antiguidade. em lugar do deus Dioniso colocou a matemática. Os historiadores mostram que um dos fatores concorreram para esse fenômeno foi a linha política adotada. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras na religiosidade órfica foi a tranformação do processo de libertação da alma num esforço puramente humano. bastavam para justificar o que há de essencial no universo: o um é o ponto. Segundo a cosmologia pitagórica . Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números através inclusive de uma observação no campo musical: verificou no monocórdio que o som produzido varia de acordo com a extensão da corda sonora.como virão a ser mais tarde -. será qualificada como uma "harmonia". uma distinção . que primeiro teria recebido a revelação de certos mistérios e os teria confiado a iniciados sob a forma de poemas musicais . que. das divindades "oficiais" -.vista por alguns autores como o fundamento do "mito helênico" .que se supunha descendente dos deuses protetores das polis. "Com ordem e com tempo encontra-se o segredo de fazer tudo e tudo fazer bem". Natural que dentro de tal concepção . A purificação resultaria do trabalho intelectual. em substituição às representações literais mais arcaicas.C. A alma aspiraria. inalaria o ar infinito (pneuma ápeiron) em que estaria imerso. (Pitágoras) Em Todas as Coisas. Da vida de Pitágoras quase nada pode ser afirmado com certeza. mínimo de . são essências realizadas (usando-se um vocabulário filosófico posterior). que descobre a estrutura numérica das coisas e torna.Segundo as melhores fontes. a retornar à sua pátria celeste. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas. para garantir seu papel de líderes populares e para enfraquecer a antiga aristocracia . "O que fala. sustentada pela ordem e pela proporção. os números são reais. em geral. pois realizou uma modificação fundamental na doutrina órfica. às estrelas. A religião órfica pressupunha. pelos tiranos.entre a alma ignea e imortal e os corpos pereciveis através dos quais ela realizava sua purificação. as regras da vida individual e do governo das cidades. as unidades comporiam os números.o mal seja entendido sempre como desarmonia. Para libertar-se. portanto . já que ela foi objeto de uma série de relatos tardios e fantasiosos. porque basicamente intelectual. depois da derrota da liga crotoniata. Mínimo de extensão e mínimo de corpo. em algumas regiões do mundo grego. portanto. Parece certo. Essa similitude profunda entre os vários existentes era sentida pelo homem sob a forma de um "acordo com a natureza". que ele teria deixado Samos (na Jônia). na transmigração da alma através de vários corpos. contudo.de Orfeu. de acordo com ela. por sua própria natureza. transformando o sentido da "via de salvação". originário da Trácia. da música.que descreve o cenário cósmico. porém. os pitagóricos adotaram uma representação figurada dos números. deus libertador que completava a libertação preparada pelas práticas catárticas (entre as quais se incluia a abstinência de certos alimentos). (Pitágoras) A Pátria Estelar Dentre as religiões de mistério. "Ajuda teus semelhantes a levantar sua carga.não só de natureza como também de valor . onde se processa a purificação da alma . entendido como unidade harmônica. a alma semelhante ao cosmo. sobretudo. Os órficos acreditavam na imortalidade da alma e na metempsicose. quando os pitagóricos falam que as coisas imitam os números estariam entendendo essa imitação (mimesis) num sentido realista: as coisas manifestariam externamente a estrutura numérica inerente. Assim. teria sido antes de mais nada um reformador religioso.o que escuta. garantida pela presença do divino em tudo. de natureza divina.C. o pitagorismo primitivo concebe a extensão como descontínua: constituída por unidades indivisíveis e separadas por um "intervalo". tendo desaparecido quando do famoso massacre de Metaponto. uma teve enorme difusão: o culto de Dioniso. (tão importante como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática. A sociedade pitagórica continuou após a sua morte. uma revivescência da vida religiosa. De acordo com essa concepção. o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental. transferindo-se para Crotona (na Magna Grécia) fundou uma confraria científico-religiosa.

tranqüila em si mesma. dando leis à sua pátria. Segundo muitas lendas. para arrancar-lhe a confissão dos nomes dos outros conjuradores. a quantidade e sua expressão espacial. Com efeito. é o nada para ela. sons de acorde perfeito. Nasceu em Eléia (Itália). o fez torturar de todos os modos. Diz-se que ele se postou como se quisesse dizer ainda algo aos ouvidos do tirano. pleno para aquela mudança. diante de seu povo. A característica de Zenão é a dialética. "Pensem o que quiserem de ti. pois na mudança seria posto o não-ser daquilo que é. Sua astronomia. ou ela não é nada". Ele é o mestre da Escola Eleática. acabou preso. Essa geometrização do cosmo estava aliada. tendo. Obras e Pensamento Zenão floresceu cerca de 464/461 a. o que se evidenciava pelo aparecimento na tradução aritmética da relação entre elas. naquilo que é afirmado como sendo sua destruição. Zenão. unidade de extensão. a associar intimamente os aspectos numéricos e geométrico. a alma pura da ciência . perdeu a vida. pelo contrário. não é. Quando o tirano. surgem grandezas inexprimíveis naquela concepção de número. (Pitágoras) Zenão de Eléia . como V¯². e aquilo que é surgir e desaparecer cai fora". no 'não-ser é' se contradizem sujeito e predicado".Considerado criador da dialética (entendida como argumentação combativa ou erística). Dessa maneira. Ao contrário de Heráclito. contra as críticas dos adversários. Explicação Crítica de Empédocles. é a razão que realiza o começo . seria a própria tessitura do que o homem considera "silêncio". mas não o vemos. as poderosas admoestações ou também as torturas horríveis e a morte de Zenão ergueram os cidadãos e levantaram-lhes o ânimo. Em Zenão. faze aquilo que te parece justo". também descobrimos tal afirmar e sobressumir daquilo que o contradiz. é o mais jovem e viveu particularmente em convívio com Parmênides. "Educai as crianças e não será preciso punir os homens". a hipotenusa seria igual a V¯². Seu pai verdadeiro chamava-se Teleutágoras. De modo violento e furioso de sua reação. torturado e. a fortaleza de sua alma tornou-se célebre pela sua morte. Também Zenão era um eleata. Pois até agora só vimos nos eleatas a proposição: "O nada não possui realidade. no entanto. chamando então o tirano mesmo a peste do Estado. . Já por sua própria notação figurativa evidencia-se que a primitiva matemática pitagórica constitui uma aritmo-geometria.corpo. a relação entre o lado e a diagonal do quadrado (que é a da hipotenusa do triângulo retângulo isósceles com o cateto) tornava-se "irracional". e ao perguntar pelos inimigos do Estado. Assim. principalmente os pitagóricos. nela seu puro pensamento torna-se o movimento do conceito em si mesmo. Zenão delatou primeiro todos os amigos do tirano como participantes da conjuração. mas também em geral era célebre e muito respeitado como professor. enquanto o quatro produz o volume. . no pitagorismo. Essa "harmonia das esferas". Zenão erigiu-se em defensor de seu mestre. Ela teria salvo um Estado (não se sabe se sua pátria Eléia ou se Sicília) de seu tirano. por não revelar o nome dos comparsas. pelo contrário. quanto na base mesma da matemática.ela aponta. negando-se a viver por mais tempo na grande e poderosa Atenas. Parmênides. Nisto consistia o movimento determinado. (Pitágoras) O Escândalo dos "Irracionais" A primitiva concepção pitagórica de número apresentava limitações que logo exigiriam dos próprios pitagóricos tentativas de reformulação. a orelha e . Parmênides afirmou: "O universo é imutável. mas somente é ser. estreitamente vinculada à sua religião astral foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam. acabava-se por se concluir pelo absurdo de que um deles não era afinal nem par nem ímpar. Em sua vida não apenas era algo de muito respeito em seu Estado.Escreveu várias obras em prosa: Discussões. Atribuiu-se-lhe orgulhosa auto-suficiência. Este o amava muito e o adotou como filho. presos a esferas homocêntricas. descontínuo e divisível dos pitagóricos. Apesar desses impasses . mordendo-lhe. esta sido traída.é o iniciador da dialética. de valores sem possibilidade de determinação exaustiva. às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: separadas por intervalos equivalentes aos intervalos musicais. Defendeu o ser uno. contínuo e indivisível de Parmênides contra o ser múltiplo. o três gera a superfície. influenciando praticamente todo o desenncolcimento da ciência e da filosofia gregas. Sobre a Natureza. O principal impasse enfrentado por essa aritmo-geometria baseada em inteiros (já que as unidades seriam indivisíveis) foi o levantado pelo números irracionais. para lá colher fama. Zenão falou e voltou-se contra o movimento como tal ou puro movimento. o dois determina a linha. pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias. sacrificando da seguinte maneira sua vida: Teria participado de uma conjuração para derrubar o tirano.o pensamento pitagórico evoluiu e expandiu-se. começar com esta afirmação. Platão o lembra: de Atenas e de outros lugares vinham homens a ele para entregar-se à sua formação. em seu movimento.C. quando se pressupunha que os valores correspondentes à hipotenusa e aos catetos eram números primos entre si. permanentemente soante. Tanto na relação entre certos valores musicais (expressos matematicamente). Tendo conspirado contra a tirania e o tirano (Nearco?). pelo fato de (exceto sua viagem a Atenas) ter sua residência fixa em Eléia. interveio na política. para caírem sobre o tirano.e em grande parte por causa deles . O "escândalo" dos irracionais manifestava-se no próprio teorema de Pitágoras (o quadrado construído sobre a hipotenusa é igual a soma dos quadrados construídos sobre os catetos). Ou então. desde que se atribuísse valor 1 ao cateto de um triângulo isósceles. diz: "Afirmai vossa mudança: nela enquanto mudança.Vida. Contra os Físicos. porém. aquelas esferas produziram. aquelas linhas não apresentavam "razão comum" ou "comum medida". ao mesmo tempo. liquidá-lo e assim libertar-se.

ouve. não seriam. e o gênero mais alto é então Deus. nem vai para coisa alguma. O ser. a partir daí.o especulativo tem lugar no fato de afirmarem que a mudança não é . da . ele nao é nem infinito (ilimitado) nem limitado. vê e possui também. ou tudo é eterno. como no modo como o infinito se manifesta no finito? Os eleatas distinguem-se. está afastada a determinação do negativo. Deus se comporta assim. b) Movido.ou não se distingue dele. nosso caminho é trivial e mais óbvio. a filosofia de Zenão é. determinado como algo unilateral. pelo fato de terem posto mãos à obra de maneira especulativa . não fosse assim. porém. "Tampouco pode surgir o desigual do desigual. impossíveis. com a falta de movimento estaria posto o não-ser ou o vazio. as coisas finitas e a mudança. quer do igual quer do desigual. Já que os iguais devem ter entre si as mesmas determinações. como deve ela ser concebida. nem em repouso nem em movimento. Ambas as coisas são. inteiramente igual à que vimos em Xenófanes e Parmênides. pois. pois não é aqui assim. ao igual. do igual. enquanto algo negativo. Ser e não-ser situam-se assim. não utilizamos a dialética que usa a Escola Eleática. eles seriam mais poderosos e mais fracos um em face do outro. depois disso teria sido triturado num pilão. de outro lado. "que. Em todas estas formas que nos são bem familiares está contida a mesma dificuldade da questão que se levanta no que diz respeito ao pensamento eleático: De onde vem a determinação. válido. A isto vemos ligada uma outra espécie de raciocínio metafísico: são feitas pressuposições. ou nada existe fora de Deus. Em Xenófanes e Parmênides tínhamos ser e nada. nem é imóvel. é apenas afirmativamente. Em tudo isto. nem vice-versa. mas assim já é. inversamente. em seu pensamento. Em seguida. assim não é o ente. deuses. possui ele a forma esférica. pois não se pode atribuir. espaço. negando-se predicados. seria o nãoente." Movido só é o que é diferente de outro. o que é impossível. a mudança é em si contradição. o que os eleatas desprezaram. Como. "Sendo um. Esta a maneira comum de nós raciocinarmos. ele não é limitado. mas sem qualquer determinação. portanto. dizendo que o finito. tendo suas respostas sido seguidas de enormes torturas. a supressão do ser. "É impossível". por exemplo. em toda parte. como é apenas um. nem começo. portanto. de argumentar é ainda. porém. o um da Escola Eleática é apenas esta abstração. um e esférico. então só há um Deus. sem que sua unidade seja concebida como a de diferentes. Para ir a esta abstração fazemos um outro caminho. se houvesse diversos. ser. a) ilimitado é o não-ente. Como Deus é em toda parte igual. lado a lado. do ser." Diz ainda: "Já que é eterno. o poder de Deus. a imutabilidade nesta unidade abstrata e absoluta consigo mesma. gêneros. as partes de Deus dominariam uma sobre a outra" (uma estaria onde a outra não está. que dele se produza mais do que deve ser produzido. que os momentos e as oposições são expressos mais como conceitos e pensamentos. pois um dever-se-ia mover para o outro. pressupõe-se uma multiplicidade de tempo. até o dia de hoje. os outros sentimentos. algo incompreensível: pois do um. ou se. Pois imóvel é a) o não-ente" (no não-ente não se realiza nenhum movimento. Deus é eterno. enquanto o ser supremo.e pelo fato de. em seu conteúdo. Ou também partimos das coisas finitas para as espécies. assim como se pressupõe o ser. do ser. originar-se-ia o não-ser do ente. na medida em que dele houvesse dois ou ainda mais. é demonstrada a unidade de Deus: "Se Deus é o mais poderoso de tudo. o imóvel é negativo. portanto. em outra parte de outro modo. Vemos. "O um. que repousaria sobre a proposição ex nihilo nihil fit. surja" (ele relaciona isto com a divindade). Este modo. Pois. pois se do mais fraco se originasse o mais forte ou do menor o maior ou do pior o melhor. não seria capaz de tudo o que quisesse. em tal tipo de raciocínio. 1) Segundo seu elemento tético. nada pode provir". deve ter seu fundamento no infinito. Ser é a igualdade expressa como imediata. tanto no um mesmo. é o não-ente. Se. a reflexão em si. e é assim. por conseguinte. raciocinando-se.cerrando os dentes até ter sido trucidado pelos outros. pois ele é eterno e um. somente é o múltiplo. 0 ilimitado é o indeterminado. Do nada é imediatamente nada. não está nem em repouso nem se movimenta. Nós dizemos que Deus é imutável. e deixamos. assim. para lhe mostrar que dele nada arrancaria. não passa para o ser. uma dialética que se pode denominar de raciocínio metafísico. se houvesse mais deuses". Aristóteles conclui que. nas assim chamadas demonstrações da unidade de Deus. o negativo de lado. devem ser mantidas afastadas do ser positivo e apenas real. ele cortou a língua com os próprios dentes e a cuspiu no rosto do tirano. mas em toda parte igual. portanto. ele já está mais avançado no sobressumir das oposições e determinações. só que nós deixamos valer como ser também o finito. "pois para ele nenhuma outra coisa advém." Isto foi denominado panteísmo (spinozismo). quando algo é. Ou passamos do finito para o infinito. ele mesmo." Com a aceitação da igualdade. igualdade como igualdade pressupõe o movimento do pensamento e a mediação. pois este não possui nem meio. o mais antigo. desaparece a diferença entre o que produz e aquilo que é produzido." Assim Zenão também mostra: "O um não se move. este afundarse no abismo da identidade do entendimento. a mudança apenas se atribui às coisas finitas (isto como que sendo uma proposição empírica). segurando-o assim. pois faz parte da natureza de Deus não ter acima de si nada mais poderoso. pelo contrário. uma parte teria determinações que faltariam às outras). estes diferentes não são expressos como diferentes. Se. No que se refere às determinações deve-se observar que elas. Outros narram que ele teria ferrado os dentes em seu nariz. pois o igual não é nem pior nem melhor que o igual . apenas com esta diferença fundamental. mas." Do fato de nada poder provir. que. reprimi-la-ia. pois não se parece nem com o não-ente nem com o múltiplo. pois. diz ele. nem fim. "pois teria que surgir ou do igual ou do desigual. É a mesma separação. nem uma parte tal coisa é o ilimitado. o negativo. Outros ainda dizem que. o pior viesse do melhor. terem mostrado que. enquanto limitado. mas enquanto Ihe faltasse o poder sobre os outros não seria Deus. "o que é impossível. 0 princípio da identidade Ihe serve de fundamento: "O nada é igual ao nada. idêntico a si mesmo e esférico nem ilimitado nem limitado. Já em seu elemento tético vemos progresso. é em toda parte igual. Em Zenão a desigualdade é o outro membro em oposição a igualdade. b) Dar-se-ia delimitação mútua. então Ihe é próprio que seja um. desta maneira. porém. portanto. ele não teria poder sobre eles. Deus é e se ele é de tal natureza. passo a passo. de nosso modo de refletir comum. por exemplo. houvesse mais deuses. que deixa o finito de lado. de um lado temos.

em que proposições são resultado da demonstração. no que vimos. numa determinação. mas ambas as negações que se opõem. conclui-se. ficaram parados na idéia de que através da contradição o objeto se torna nulo. O falso não deve ser apresentado corno falso porque o oposto é verdadeiro. de tal modo que apresentaria falhas apenas de um lado. que tudo é um: mas que nos procura enganar com uma expressão. este movimento distinto do compreender deste movimento. também o ser em oposição ao não-ser é uma determinação. Mas o mesmo deveria acontecer com o resto. é determinada como o negativo e. que ele é o nulo. assim. mas apenas o ser para o outro é. Eles põem-no fixamente. 0 um é igualmente o não dos muitos: tanto no nada como no um. 0 um é o mais poderoso e nisto determinado propriamente como o destruir absoluto. quando mostram quantas coisas ridículas e que contradições contra si mesmos resultam de suas afirmações. não segundo circunstâncias exteriores. já há a consciência mais alta de que uma determinação é negada de que esta negação mesma é novamente uma determinação. No Parmênides de Platão (127-128). é o nada do movimento. através de minha afirmação. A consciência mais alta é a consciência sobre a nulidade do ser enquanto algo determinado em face do nada. nos sofistas. também é determinação. b) não é um movimento apenas de nossa intuição. ou é negada enquanto finita. Antes é negado o movimento e a essência absoluta aparece como em repouso. não ser negada apenas uma determinação. suprimem com isto essa determinação.o lado negativo da dialética. ou seja. Mas. isto é. Assim a coisa é facilitada: "O outro sistema não possui verdade. a outra consciência tem razão em afirmar uma outra: coisa como imediatamente verdadeira. Zenão responde que escreveu isto. razões. Isto é a determinação mais exata da dialética objetiva. Sócrates diz que Parmênides afirma em seu poema que tudo é um: Zenão. em Zenão. mas a partir da coisa mesma. portanto.multiplicidade. mas ela deve ser considerada também de seu lado positivo. mas em si mesmo. Isto. Como sempre é o caso quando um sistema filosófico refuta o outro. parte em Heráclito e. para demonstrar que disto resultariam muito mais coisas discordantes que da proposição de Parmênides. o movimento. que o múltiplo não é. Portanto. Podem ser então razões bem exteriores. mas o outro sistema tem o mesmo direito de dizer assim. para esta proposição aquela sempre parecerá algo de estranho. procurando dar a impressão de que está dizendo algo de novo. e. isto se dá. eu declaro isto como imediatamente verdadeiro. isto é. mas. a essência do com-preender. levar a guerra para território inimigo. Diz que combateu aqueles que afirmam o ser do múltiplo. porque não concorda com o meu". mostra que possui determinações opostas. 2) Já lembramos que também encontramos a verdadeira dialética objetiva igualmente em Zenão. assim. em seu Parmênides. o outro sem importância (nulo) (parte-se de uma determinada proposição). Sendo a essência absoluta posta como o um ou o ser. baseando-se em razões exteriores. na negação absoluta. contudo. assim negou ele do um o que deveria dizer-se do nada. ele se demonstra a si mesmo. onde encontram. também ela finita. a certeza da consciência individual e a certeza como refutação . Mas junto a eles ainda não vingou a determinação. idéia. porque previu que o ser é o oposto do nada. pelo contrário. porém. Zenão possui o aspecto importante de ser o descobridor da dialética: se não é ele propriamente. leis. eles afirmam um dos predicados que se opõem. é. Do mesmo modo. Aquela dialética é uma mania de contemplar objetos. não de maneira que se suprima a si mesma. o primeiro sistema é posto como fundamento e a partir dele se entra em debate contra o outro. Nesta dialética não vemos afirmar-se o pensamento simples para si mesmo. Parmênides. é a consideração imanente do objeto: ele é tomado para si. esta somente se suprime através de um outro. A outra dialética. então. o nada não é. Nesta consideração. que contenha em si uma contradição. ou o igual (como diz Melisso) é a essência. torna-se norma quando se concede: "No correto está o incorreto e no falso também o verdadeiro".conseqüência que. ainda que deva ser por nós admirada. Isto pressentiu Zenão. A dialética subjetiva. Zenão põem como fundamento a proposição: Nada é nada. uma grande abstração Particularmente digno de nota é o fato de que. o vazio. ao menos é quem está em seu começo. Esta convicção racional vemos despertar em Zenão. esta dialética é muito bem descrita. avançando até a afirmação de que só o um é e de que o negativo não é . A dialética como tal é a) dialética exterior. Enquanto nós deixamos valer. e então é puramente infinita. A dialética verdadeira não deixa nada sobrando em seu objeto. o negativo. a multiplicidade está sobressumida. . o oposto. e ao nada se atribuem os mesmos predicados que ao ser: o puro ser não é movimento. Este lado possui a dialética na consciência de Zenão. como a essência. é a demonstração o movimento da convicção. mas em si mesmo. de neles apontar razões e aspectos. segundo o pressuposto. Como movimento: Verifiquei algo e vejo que é o nulo. a realidade do mundo finito. o descobridor da dialética em sua plenitude. Mas uma outra consciência não verifica aquilo. mas ele se dissolve segundo sua natureza inteira. ela é posta através da negação. por exemplo. dever-ser. o sistema que se opõe está errado. que se suprime (sobressume): esta dialética encontramos precipuamente junto aos antigos. em nossa representação. sua nulidade não aparece nela mesma. demonstrada para o puro conceito do conteúdo. pois ele nega predicados que se opõem. porém. De nada ajuda demonstrar meu sistema ou minha proposição e então concluir: portanto. isto é. devendo então. ser-em-si. isto é. A esta dialética verdadeira pode juntar-se o que os eleatas fizeram. que raciocina. pois o poder é também o não-ser absoluto de um outro. fortalecido. no movimento. ligação através de mediação. com isto não permanece verdade alguma. sem pressuposições. Eu não devo demonstrar sua não-ver dade através de um outro. algo exterior. demonstrei isto. Esta dialética mais alta encontramo-la em Platão. antes contra aqueles que procuram tornar ridícula (komodeiñ) a proposição de Parmênides. através da distinção que faço de que um lado é o verdadeiro. através dos quais se torna vacilante o que em geral vale como firme. o afirmativo que nela se esconde ainda não aparece. os eleatas foram mais conseqüentes. como o nada. Platão fá-lo falar assim sobre isto: faz Sócrates dizer que Zenão afirma em seu escrito o mesmo que Parmênides. 0 resultado desta dialética é zero. Xenófanes. A gente se põe inteiramente dentro da coisa. não menos. Conforme a representação corrente da ciência. Aqui isto surge apenas referido a algumas determinações não com referência às determinações do um e do ser mesmo. considera o objeto em si mesmo e o toma segundo as determinações que possui.

Destes dois momentos pode. mas o movimento é não verdadeiro. mas apenas divisíveis. Mas estes dois estão postos numa unidade. nunca se pode parar com a divisão. mas é algo limitado. Pois se fosse acrescentado a um outro não aumentaria a este. entretanto. refutou tais provas da contradição do movimento. portanto. a saber. deve. é pressuposta a continuidade do espaço.uma consciência dele. sobressumir-se. estas devem ser percorridas e. é eliminação de toda diferença. portanto. espaço e tempo. Para percorrer o todo. o Cínico. um determinado . de maneira muito simples. não há elefantes. enquanto são divisíveis (potentia. mas com isto novamente não é posto o limite da continuidade. de outro modo. um posto segundo sua essência. portanto. Mas não se deve entender isto assim como se o movimento não fosse . É conhecido como Diógenes de Sínope. também devem estar efetivamente divididos infinitamente. enquanto esta aparece. de negatividade para continuidade. a metade ainda é continuidade e assim até o infinito. Aristóteles afirma que Zenão teria negado o movimento pelo fato de possuir contradição interna. o que é infinito não é mais grande. ou Zenão afirma o avanço neste limitar. Mas esta metade é novamente um todo. assim o que foi acrescentado não é nada. ser afirmado um deles como o essencial. pelo contrário. segundo a grandeza" (tò mégethos). ter atingido antes a metade desta metade. Na nossa representação não parece contraditório que o ponto no espaço ou. isto nem está em questão. nem massa (ónkos). de maneira que não tem mais grandeza". É um inacabado ultrapassar.limite que divide ao meio. para passar para o infinito. mas põe o oposto nela . Pois o movimento e a essência. átomos. elas estão diante de nós. "Ele demonstra que. enquanto se move. o não-ente. não actu. Zenão mostra então que a representação do movimento contém uma contradição e apresenta quatro modos de refutação do movimento. nada poderia acrescentar ao tamanho do outro. Zenão toca aqui na divisibilidade infinita do espaço. primeiro em sua contradição . que não pode ser atingido. Aristóteles diz isto de maneira tão breve por ter tratado antes amplamente o objeto e tê-lo exposto detidamente. O fato de a dialética ter tido atraída sua atenção primeiro para o movimento é a razão de a dialética mesma ser este movimento ou o movimento mesmo ser a dialética de todo ente. É para esta contradição que Zenão chama a atenção. que ele é fenômeno. este espaço possui assim uma metade. deve-se ultrapassar a multiplicidade. este caminho é um todo. ano). Os aspectos mais exatos desta dialética nos conservou Aristóteles.e cada tempo e espaço sempre tem uma grandeza . (consideramos a forma dos momentos) em suas diferenças da pura igualdade consigo mesmo e da pura negatividade . Vemos desaparecer para a consciência de Zenão o simples pensamento imóvel para tornar-se ele mesmo movimento pensante. de todo ser para si. Até o infinito . na medida em que combate o movimento sensível. de continuidade para negatividade. Isto deve ser compreendido de maneira mais universal.um passar além de uma determinação oposta para outra. mas presente no conceito . É a continuidade de um espaço. o ponto é. pois. O mesmo aconteceria ao ser retirado. Com isto quer ele dizer que não se Ihe deveria atribuir verdadeiro ser. o momento no tempo contínuo seja posto ou que seja afirmado o agora do tempo como uma continuidade. Mas a estória é continuada também assim: a um aluno que se contentara com esta refutação. O mais fácil é mostrá-la no movimento. pois. o puro ser para si. o que é movido nunca atinge sua meta. que. não poderiam ser divididos ao infinito . enquanto limite indiferente. também não é. Vemos aqui desenvolvido o infinito aparecer. e o movimento é: tornar-se outro. sempre surge este mesmo estado de coisas. "pequeno. Primeiro Zenão põe o progresso contínuo de maneira tal que não se atinge nada igual a si. no processo.com isto nos representamos um além. Os argumentos repousam sobre a infinita divisão do espaço e do tempo. nada". Zenão nem teve a idéia de negar o movimento.é novamente divisível em duas metades. não há rinocerontes. Diógenes o castigou pela simples razão de que.ele as refutou pela ação. o outro não seria por isso diminuído. do mesmo modo. nem mais múltiplo. Agora a meta é o fim desta metade. Mas esta continuidade também novamente nada é de absoluto. Mas o limite que divide ao meio não é limite absoluto ou em si e para si. e nele o limite que o divide ao meio. se não tem tamanho e grandeza. infinito é o negativo do múltiplo. o oposto é também posto para a representação. de maneira objetiva e dialética. dynámei. o movimento foi tratado particularmente por Zenão. o movimento possui certeza sensível. de todo negativo. ele o dá a si. A igualdade consigo mesmo. se o professor havia discutido com argumentos. a realidade do tempo e do espaço. é o positivo que é posto. fora da representação que não pode atingi-lo.como nós dizemos. nem espessura. Neste sentido. no movimento. não se conseguiu ainda passar além dela e a questão fica esquecida no indeterminado. quando é o múltiplo. mesmo onde colocamos um espaço o menor possível. O movimento que seria o percurso destes momentos infinitos nunca termina. seu questionar vai em busca de sua verdade. Pelo fato de espaço e tempo serem absolutamente contínuos. Cada grandeza . o absoluto distinguir-se e a supressão de toda igualdade e homogeneidade com outro. . sua dialética mesma em si. é posta. a continuidade é absoluta homogeneidade. uma duração (dia. assim o múltiplo é infinito. Mas o caráter exaustivo que vemos no Parmênides de Platão não Ihe corresponde. também é posto já o fenômeno da contradição.nenhum espaço limitado. energeía). no espaço e no tempo. a contradição. é novamente continuidade. portanto. porque o movido deveria atingir primeiro a metade do espaço como sua meta. o que é movido deve antes ter percorrido a metade. pois. 1) Primeira forma: Zenão diz que o movimento não tem verdade alguma.do ponto contra a continuidade. O movimento. não é. e assim até o infinito. continuidade. ele só poderia deixar valer uma refutação também com argumentos. mas seu conceito contradiz-se a si mesmo. o puro aparecer em si mesmo é o objeto e surge como um pensado. Pelo contrário. A resposta geral e a solução de Aristóteles é que espaço e tempo não são divididos infinitamente. A coisa tem. e. mas é preciso compreender. Da mesma maneira a gente não deve satisfazer-se com a certeza sensível. Que o movimento existe. então é grande e pequeno: grande. portanto. O que se move deve atingir uma determinada meta. pois ele é contradição. Parece.A dialética da matéria de Zenão não foi até hoje ainda refutada.uma resposta geral para a representação. "Aqui mostra ele que o que não tem tamanho. levantou-se em silêncio e caminhou de cá para lá . como existem elefantes.

Durante o tempo em que o segundo atingiu o ponto onde o primeiro se achava. mas o limitar é. o tempo de que necessita. se não se concede isto. na medida em que são dois também não dois . é falso. Ou deve-se dizer da flecha que sempre está no mesmo espaço e no mesmo tempo. Se num navio caminho na direção oposta da direção em que se move o navio. então B chegou numa hora onde A estava no começo da hora. mas no mundo do espirito que se manifesta a verdadeira e objetiva diferença. quando o homem comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal. também o mais vagaroso sempre tem à sua disposição. porém. 0 movimento é. nulo. movendo-se. contudo. Para determinar qual deles se move é preciso mais de dois lugares. Não é neste estado de coisas.portanto. por isto surge a contradição." A resposta é correta e contém tudo. A oposição possui aqui uma outra forma: a) mas também novamente o universo. katà tò íson). mas repouso: o que sempre está no aqui e agora. Newton quer decidir isto por uma circunstância exterior. Nesta representação são admitidos dois pontos de tempo e dois de espaço que estão separados entre si . não saí do ponto em que estava. o olho repousa ou se move. isto é. são limitados. um momento. um espaço maior ou menor. não chamamos movimento. mas apenas continuidade absoluta. o movimento mais rápido nada ajuda ao segundo corpo para percorrer o espaço intermediário que o separa do outro. Mas uma coisa é correta: o movimento é absolutamente relativo. o outro a partir do meio. então eles são. Os antigos gostavam de vestir as dificuldades com representações sensíveis. e isto ele demonstra assim: o que segue necessita de uma determinada parte do tempo para "alcançar o lugar de onde partiu o que está em fuga". com velocidade igual.no mesmo ponto. o mesmo. Aqui o tornar-se outro foi sobressumido. "É algo não verdadeiro. a isto. será percorrido por B na metade de uma hora. O erro da conclusão consiste no fato de admitir que. e. uma milha. a diferença é apenas aparente. o homem dos pés velozes. partindo do mesmo ponto. caminha dois pés para o oeste.isto é. conforme uma proposição de Newton: se dois corpos giram. No espaço.aqui ambos devem ser somados. pois pelo movimento de ir para frente e para trás há aqui coisas opostas que se suprimem. o aqui é sempre o mesmo aqui. de maneira tal que dois pontos do tempo ou dois pontos de espaço se relacionam entre si de maneira contínua. Zenão. deixou atrás de si novo espaço que o segundo novamente deverá percorrer numa parte desta parte do tempo. ambos são positivos. são limites um para o outro. se. um a partir do fim do estádio. B percorre numa hora duas milhas. que deve ser atribuído inteiramente a cada parte. Sobre este terceiro argumento diz Aristóteles que ele se origina do fato de se aceitar que o tempo consiste de "agoras". a saber. Aqui a distância de um corpo é a soma do afastar se de ambos. um ponto é tão bem um aqui como o outro. Cada lugar é lugar diferente . na realidade unidos. disto se deveria concluir que a metade do tempo é igual ao dobro. vencido por A. no começo desta determinada parte do tempo. Nos dois primeiros argumentos a continuidade no avançar é o que predomina: não existe limite absoluto. este já avançou para mais longe. no mesmo tempo. Ou avancei e retrocedi dois pés . ainda que tenha andado quatro pés. repousa. No argumento agora em questão é retido o aspecto inverso. e "com isto ele já sempre conseguiu uma vantagem". porque separa em sua distinção aqueles momentos de um objeto. transgredir todos os limites. o absoluto ser-limitado. a coisa percorre uma mesma extensão em tempo igual. De dois corpos que se movem numa direção. a interrupção da continuidade. e isto porque "o que se move sempre está no mesmo agora" e no aqui igual a si mesmo. porém. na distância de ambos. a divisão. A. no espaço absoluto. e aqui e aqui. o momento da separação de espaço e tempo em sua total determinação. Desta maneira. isto aqui e isto aqui e mais um outro. ao contrário. não são distintos entre si. Assim que dizemos que sempre é o mesmo. não se pode tirar a conclusão a que Zenão chegou. 4) "O quarto argumento" e tomado de corpos iguais que se movem no estádio ao lado de um igual. contudo. b) é apenas posto como verdadeiro (como sendo) o que cada parte faz para si. no "nãodistinguível" (en tõ nyn. nem espaço limitado. ao menos três. não consegue ultrapassar seu espaço. assim estamos distantes um do outro quatro pés . nenhuma passagem para outro. isto.2) "O segundo argumento" (que também é pressuposição da continuidade e posição da divisão) chama-se "argumento de Aquiles". o limitado. Esta quarta forma diz respeito à contradição no movimento oposto. Mas o espaço (uma milha). 0 pensamento produziu a queda original. No aqui agora como tais. porém. alcançará o vagaroso. pois. com velocidade igual. surge a pergunta se um repousa ou se ambos se movem. não conquista um outro espaço. Aristóteles. igualmente. o ser limitado é posto como tal. dos quais um está na frente e outro o segue numa determinada distância. não há diferença. mais rapidamente que aquele. 3) "O terceiro argumento" tem a forma que Zenão descreve assim: "A flecha em vôo repousa". portanto. um em torno do outro. é inteiramente o mesmo. se admite que tempo e espaço são contínuos. . Se. é o que acontece quando caminho dois pés para o leste e outro. que trata disto. ele está aqui. porém. enquanto realiza para si apenas uma parte. É uma dificuldade superar o pensamento e é somente ele que causa esta dificuldade. O que gera a dificuldade sempre é o pensamento. diz brevemente sobre o mesmo: "Este argumento representa a mesma divisão infinita'' ou o infinito ser dividido através do movimento. a igualdade do aqui e afirmada aqui contra a opinião da diferença. mas também ressarce este prejuízo. e assim ao infinito. mas repouso com relação a outra coisa. e assim se vai até o infinito. o comum. o mover-me é movimento com relação ao navio. por exemplo. um em direção do outro. sabemos que o segundo alcançará o primeiro. pois o rápido.. Isto acontece também na mecânica: pergunta-se qual se move de dois corpos. diz: "O mais vagaroso nunca poderá ser alcançado nem mesmo pelo mais rápido". se Ihe for permitido ultrapassar o limite. os fios estendidos (tensio filorum). etc. Se estão separados entre si por duas milhas. Ou. no que se move e no que está em repouso.são idênticos. A continuidade. em círculo. Zenão apenas faz valer o limite. contudo.

se há separação no espaço. fora de nossa representação. Se somente o não ser existisse. muda quando muda a situação ou a disposição desse grupo ou quando uma parte é substituida por outra. . os elementos . é a atividade de nosso pensamento que atribui ao exterior tantas determinações: o sensível. portanto. voltando-se para ele. é nosso pensar. pois o pleno não pode acolher em si nada que Ihe seja heterogêneo. com os sofistas. Pois Zenão e os Eleatas afirmaram sua proposição com a seguinte significação: "O mundo sensível é em si mesmo apenas mundo fenomenal. que Empédocles foi utilizado a fundo. se esses seres devem agir uns sobre os outros pelo choque. isto é. O sentido da dialética de Zenão possui maior objetividade que esta dialética moderna. 2) a rarefação e a condensação só se explicam pelo espaço vazio. Anaxágoras reconhecia quatro elementos. a cinza desaparece nos interstícios vazios da água. A difere de N pela forma. mas muitas lendas. não haveria mais ser. fazemos dele um fenômeno. pois o menor poderia acolher em si o maior. Pode-se. O ser. peia posição (tropé. Demócrito de Abdera De sua vida sabemos poucas coisas seguras. O que resta são os átomos. o que acrescentamos. isto que pensa Kant. Em Kant é o elemento espiritual que arruína o mundo. o stereón. é preciso que sejam de natureza idêntica. Este conteúdo também é nulo em Zenão. o que eqüivale a dizer que o não-ser é tão real quanto o ser. O não ser é. as honras que recebeu de seus concidadãos. Só nosso conhecimento é fenômeno. Com efeito: 1) o movimento espacial só pode ter lugar no vazio. O ser não pertence mais a um ponto do que a outro. Cresce quando Ihe são acrescentados novos átomos. etc. seu grande poder de trabalho. não haveria movimento. dureza. Se deve subsistir um pleno. pois. pesado. segundo Zenão. Nào é. desaparece quando esse grupo se desfaz. mas. Isto é então a grande diferença. sua solidão. Uma coisa nasce quando se produz um certo agrupamento de átomos. determinações da reflexão. é o mundo. Todas as qualidades são nómo. O fogo é feito de átomos pequenos e redondos. como a filosofia kantiana chegou ao resultado: "Conhecemos apenas fenômenos". o que é uma contradição. poderia haver uma infinidade deles. São chamadas também idéai ou skhémata. haveria um não-ser. o peso deve pertencer igualmente a todos. O elemento universal da dialética. em Kant. não haveria mais nenhuma grandeza. skhéma). também o pleno. remeter todas as qualidades a diferenças quantitativas. A dialética de Zenão ainda se conteve nos limites da metafísica: mais tarde. os corpos são idênticos a esses predicados. quando o pensamento se dirige para o mundo exterior (para o pensamento também o mundo dado no interior é algo exterior). nastón (de nasso. AN de NA pela ordem. moleza. Demócrito adota uma posição adversa. ele as tinha em sua consciência e nelas mostra o aspecto contraditório.enquanto seres sensíveis. fazer abstração da natureza dos corpos na medida em que é apenas a ação dos nervos sobre os órgãos sensoriais. As antinomias de Kant nada mais são do que aquilo que Zenão aqui já fizera. um ser. nada verdadeiro". é preciso que a divisão não possa ir ao infinito. recorre-se à teoria das aporrhoaí. isto é. É preciso. Mas. não pode haver movimento. a ruína material. Segundo Kant. som. o mesmo peso. O ser é a unidade indivisível. portanto: "0 verdadeiro é apenas o um. odor. Esse é seu ponto de ataque: o movimento existe porque eu penso e o pensamento tem realidade. táxis). a forma. pois. No todo é o mesmo princípio: "O conteúdo da consciência é apenas um fenômeno. tanto quanto o não-ser. Se toda grandeza fosse divisível ao infinito. Viagens extraordinárias. produzidas pela ação das qualidades primárias sobre os órgãos de nossos sentidos. Uma tradição tardia afirma que ele ria de tudo. thésis). Ele afirma: Voltando-se para o mundo. Toda ação de uma coisa sobre outra se produz pelo choque dos átomos. não se pode fazer abstração delas. com suas formas infinitamente diversas . o que aparece em si que é não-verdadeiro. à mesma massa. porque é obra nossa. que indica diferença de grandeza e de peso. Se o espaço é absolutamente pleno. Se um átomo fosse o que o outro não é. nosso acréscimo o arruína para nós. como Pitágoras. Demócrito e Leucipo partem do eleatismo. dotado de uma forma. são: a extensão. Ele captou as determinações que contém nossa representação do espaço e tempo. a proposição universal da escola eleática foi. pois este havia discernido o dualismo do movimento em Anaxágoras e recorrido à ação mágica.Isto é então a dialética de Zenão. rugoso. tão bons ou tão maus como os pardais. portanto. Demócrito esforçou-se por caracterizá-los a partir de seus átomos da mesma natureza. dos quais são apenas as impressões: cor. Na Bíblia diz Cristo: "Pois não sois melhores que os pardais?" Nós o somos enquanto pensamos . Mas o ponto de partida de Demócrito é acreditar na realidade do movimento porque o pensamento é um movimento. Mas se há movimento deve haver um espaço vazio.é uma enorme humildade do espírito não ter confiança no conhecimento. mas nisto também reside uma diferença. ou aperto). só nossa aplicação. polido.este lado não possui verdade em si mesmo". Somente nossos sentidos nos mostram coisas qualitativamente diferentes. tornou se universal. portanto. é definido como pleno. os seres só diferem pela quantidade. nada vale. Temos aqui a distinção que reaparece em Locke: as qualidades primárias pertencem às coisas em si mesmas. Como todos os seres são da mesma natureza. A principal diferença está na forma. portanto. O mundo torna-se não-verdadeiro pelo fato de Ihe jogarmos em cima uma massa de determinações. Mas o movimento demonstra o ser. que o ser deve ser semelhante a si mesmo em todos os pontos. nos outros elementos estão misturados átomos diversos. Todas as outras qualidades são secundárias. pela ordem (diathigé. 3) o crescimento só se explica porque o alimento penetra nos interstícios do corpo. o mundo é em si absolutamente verdadeiro. o número. Z de N pela posição. gosto. Elas só se distinguem pela forma (rhysmós. a impermeabilidade. Demócrito afirma. porém. O peso pertence a cada corpo (como medida de todas as quantidades). O pleno é aquilo que não contém nenhum Kenón. etc. a atividade de nosso espírito o elemento mau . Percebe-se. todo o resto é não-verdadeiro". . 4) em um vaso cheio de cinza pode-se ainda derramar tanta água quanta se ele estivesse vazio. se dois corpos pudessem ocupar o mesmo lugar no espaço.

que somente o semelhante age sobre o semelhante. o de Demócrito é o mais lógico: pressupõe a mais estrita necessidade presente em toda parte. movia-se de um lado para outro. De todos os sistemas antigos. segundo o qual o mundo se compunha de ser e de não-ser. a formar turbilhões na regularidade das combinações que se faziam e se desfaziam? Se tudo caía na mesma velocidade. não há nem interrupção brusca nem intervenção estranha no curso natural das coisas.. eles se encontram. Essas partículas de fogo estão espalhadas por todo o corpo. uma queda regular e eterna no infinito do espaço. lisos e arredondados (de fogo).distinguem-se apenas pela grandeza de suas partes. Estes se movem perpetuamente.: ''Admito que a matéria de todo o universo está em um estado de dispersão geral e faço dele um perfeito caos. efeitos que parecem os desígnios de uma sabedoria suprema. a realidade do movimento. Alguns formam massas espessas. com Empédocles. todo esse universo cheio de ordem e de exata finalidade. as partes mais leves são empurradas para o alto.. Rosenkr. os elementos repelidos para fora depositam-se no exterior como uma película. de átomos sutis. A alma deve. Com Anaxágoras. Esse turbilhão aproxima. pois. Cada vez que nasce um mundo. perpetuamente agitados. entrelaçando-se e formando uma espécie de conglomerado. Quando os átomos em equilíbrio são tão numerosos que não podem mais se mover. Demócrito pensa. Estes nasceram e perecerão. É a concepção mais terra-a-terra. a terra e o ar podem nascer um do outro por dissociação. Pouco a pouco ela tomou uma posição fixa no centro do universo. o fogo. Cada um desses conglomerados que se separam da massa dos corpos primitivos é um mundo. certas partes sendo atraídas para o centro pela rotação. Do mesmo modo. entre todos os átomos corporais se intercala um átomo de alma. embora não racionais. tem-se. enfim. O sono . da espécie mais comum. História Natural do Céu. ultrapassar as forças mais simples. o materialismo. anánke sem intenções. parte das qualidades reais da matéria. Demócrito deduz todo movimento do espaço vazio e do peso. é antes de tudo de Parmênides que ele procede. Como os átomos vieram a operar movimentos laterais. não se pode indicar sua velocidade. Ihe é comum com Anaxágoras e Empédocles. com o auxílio de um mecanismo cego. a massa entra em rotação. bem entendido. as partículas do corpo terrestre são pouco a pouco arrancadas pelos ventos e pelos astros e se acumulam em água nos ocos. . os mais leves são repelidos para o vazio exterior. em certo sentido. 48. Leucipo. primeiramente. esta hipótese. o que é de mesma natureza. O ponto de partida de Demócrito. sempre foi da maior utilidade. A matéria que se move segundo as Ieis mais gerais produz. Se a respiração cessa. o fogo interior escapa. pode ocorrer que a vida seja restaurada depois da desaparição de uma parte da alma. a velocidade sendo desigual. a idéia de que todo movimento pressupõe uma contradição e de que o conflito é o pai de todas as coisas. o ar. tem em comum os ápeira ou matérias originais. Vejo as substâncias se formarem em virtude de leis conhecidas de atração e modificarem. pelo efeito de leis mecânicas bem conhecidas. disso nasce a representação das coisas. isso seria equivalente ao repouso absoluto. Epicuro. O movimento original é.. Não há acaso. há infinitos mundos. O que é preciso dizer é que há uma causalidade sem finalidade. Nascimento dos seres animados. no espaço infinito.. aqueles que se elevam formam o céu. A teoria dos poros e das aporrhoaí preparava a do kenón. é esta que move os seres animados. É um grande pensamento reconduzir às manifestações inumeráveis de uma força única. Disso resulta a morte. os outros permanecem juntos. e eu vos farei um mundo' ". O sol e a lua. quando ela era ainda pequena e leve. mas o ar que os leva é por sua vez levado em um rápido turbilhão. Os átomos pesados caem e fazem subir os átomos leves com sua pressão. dizendo que o mundo teria sido movido e teria nascido por "acaso". tem muita analogia com a minha. e esse todo é tão semelhante ao universo que temos sob os olhos que não posso impedir-me de tomá-lo por ele mesmo. Assim a terra se solidifica.morte aparente. sem muita imprudência: 'Dai-me a matéria. seu movimento. É por isso que a água. . Teoria das percepções dos sentidos. vertical. uma hipótese cientificamente utilizável. provavelmente também sua dedução a partir da realidade do pensamento. Por causa de sua sutileza e de sua mobilidade arriscam-se a serem arrancados do corpo pelo ar circundante. Esse invólucro vai-se tornando cada vez mais fino. O pensamento é um movimento. neste eles secam pouco a pouco e se inflamam pela rapidez do movimento (astros). Isso não acontece em um instante. que nos traz constantemente de fora novos átomos de fogo e de alma para substituir os átomos desaparecidos e que prende no interior do corpo aqueles que quereriam escapar. Demócrito. Ele retorna ao primeiro sistema de Parmênides. é este que domina todas as suas concepções fundamentais. Não contestarei então que a teoria de Lucrécio ou de seus predecessores. concursu quodam fortuito. alguns são repelidos. Leia-se Kant. ser feita da matéria mais móvel. Sinto o prazer de ver um todo bem ordenado nascer sem o auxílio de fábulas arbitrárias. não procura logo de início. Eis como Demócrito se representa a formação de um mundo dado: os átomos flutuam. é que uma massa produzida pelo choque de átomos heterogêneos se separou. Naturalmente. Só então o pensamento se desprende de toda a concepção antropomórfica do mito. censurou-se desde a Antigüidade esse ponto de partida. foram apanhados pelas massas que se moviam em torno do núcleo terrestre e desse modo viram-se atraídos para nosso sistema sideral. que o "acaso cego" reinaria entre os materialistas. no começo. Os átomos centrais formam a terra. opera-se por meio das aporrhoaí. É disso que nos preserva a respiração. em um estágio antigo de sua formação. A essência da alma reside em sua força animadora. Parece-me que se poderia dizer aqui. pois. sob o efeito combinado de forças opostas. Esta é uma maneira muito pouco filosófica de se exprimir. Toma emprestado de Heráclito a crença absoluta no movimento. mas um conjunto de leis rigorosas. como o espaço é infinito e a queda regular não há medida para essa velocidade. Estas penetram no corpo pelos sentidos e espalham-se por todas as partes. pelo choque. Duas condições . produz-se um movimento giratório. O contato não é imediato. p. como se fossem expulsos. como a hipótese do Nous ou as causas finais de Aristóteles.

do espaço e da causalidade. a cada mil anos uma pedrinha é juntada às outras. porque ele próprio começa a sentir seu prõton pseudos. que passou pelo mecanismo do cérebro e acomodou-se às formas do tempo. Inquietações políticas: quietismo. deduzir o único dado imediato. Aitíai. Vauvenargues diz com razão que os grandes pensamentos vêm do coração. suspendia sua montaria apertando-a entre as pernas e se suspendia a si mesmo por meio de sua peruca. introduzindo. O absurdo consiste em partir do dado objetivo. enquanto. Características do Pensamento de Demócrito Gosto pela ciência. agora. todo dado objetivo é determinado de várias maneiras pelo sujeito pensante e desaparece totalmente quando se faz abstração do sujeito. quando atravessava o rio a cavalo. O divino Platão chegou mesmo a considerar seus escritos tão perigosos que pretendia destruí-los em um auto-de-fé privado e só foi impedido disso por considerar que já era tarde demais. é uma representação cômoda nas ciências naturais. O cristianismo nascente. assim como os de Epicuro. Inquietações míticas: racionalismo. Arrojo poético (poesia do atomismo). mas sentimos sua força poética. É aqui que começam as verdadeiras dificuldades do materialismo. Não acreditamos nos contos. Todos esses ataques se desenrolam em um terreno que não podemos mais defender. ele foi. que puxava para cima. Inquietações conjugais: adoção de filhos. A ética de Demócrito é conservadora. agente. e sem dúvida um século anticósmico devia considerar os escritos de Demócrito. A tradição não prova nada. Simplicidade do método. Sentir-se liberto de todo Incognoscível. sob sua marca. "Contenta-te com o mundo tal como é". É um problema psicológico saber se foi ele que os escreveu. que o veneno já estava por demais alastrado. Inquietações morais: ascetismo. Não recendem a estoicismo nem a platonismo. podemos entretanto atribuir também a Demócrito uma grande diversidade de concepções. um tom desenvolto de homem do mundo e uma bela forma. Se este é o inventor da idéia principal. extenso. o que imputou ao pai de todas as tendências racionais uma reputação de grande mágico. é por não conhecer a natureza. É na moral que está a chave da física de Demócrito. Entretanto. Sobre a questão da criação do mundo. e todos os seus resultados permanecem verdadeiros para nós. Uma seqüência infinita de anos. Se o movimento a aquece ou a esfria excessivamente. um concreto extremamente relativo. o último elo aparece como o ponto de partida de que já dependia o primeiro elo da corrente. Fé absoluta em seu sistema. comparou-se o materialismo ao Barão de Crac (sic). O materialismo é o elemento conservador na ciência como na vida. resultado do estudo cientifico. os obscurantistas da Antigüidade se vingaram dele. de uma completa clareza. Juntase a isso a obscuridade em que nos encontramos a respeito de Leucipo. ele não perde o senso da poesia. enfim. É de um tal dado que o materialismo quer. graças às quais se apresenta como extenso no espaço e agente no tempo. Aversão ao bizarro. . A percepção é idêntica ao pensamento. Pitágoras. Assim. a representação. Todos os materialistas pensam que. Uma plena virilidade do pensamento e da investigação aparece cm Demócrito. É o que prova sua própria descrição. Uma e outro são modificações mecânicas da matéria da alma. igualmente. Com efeito. na verdade. aqui e ali. de repente. Paz de espírito. . Sentimento de um progresso poderoso. Assim o Sistema da Natureza começa nestes termos: "O homem é infeliz porque não conhece a natureza". tudo aquilo que o materialismo considera como seu fundamento mais solido. mas. por um lado. o pensamento é sadio. . seu juízo sobre os poetas. Por outro lado. que. Enfim. simplesmente para reparar os erros do passado para com ele. as representações são falsas e o pensamento é malsão. para cuja produção cooperamos sempre. potanto material. e a terra acaba por ser o que é. se não no absoluto. que considera como profetas da verdade (isso Ihe parece um fato natural). o materialismo é uma hipótese preciosa e de uma verdade relativa. foi reservado à nossa época negar também a grandeza filosófica do homem e atribuir-lhe um temperamento de sofista. é raro que um escritor considerável tenha tido de sofrer tantos ataques devidos o razões diversas. mesmo depois que se descobriu o prõton pseudos. Clareza. logrou executar o enérgico desígnio de Platão. lembram Aristóteles e sua metropathía. Os fragmentos de Moral (= Estudos Éticos) têm. Trata-se do mundo que é o nosso. Anotações sobre Demócrito Deveríamos a Demócrito muitos sacrifícios fúnebres. Tudo o que é objetivo. é o cânon moral que o materialismo produziu. percebe exatamente os objetos. Mais tarde. Demócrito é perfeitamente claro. Sobre o problema da origem do mundo. como a encarnação do paganismo. não passa de um dado extremamente mediato. se o homem é infeliz.são necessárias: uma certa força da impressão e a afinidade do órgão que a recebe.. o contrabando de seus escritos de magia e de alquimia. Somente o semelhante sente o semelhante. percebemos as coisas por meio das partes de nosso ser que Ihes são análogas. Não são indignos de Demócrito. Teólogos e metafísicos acumularam sobre seu nome suas acusações inveteradas contra o materialismo.. O Mal excluído de seu sistema. É uma prodigiosa petição de princípios. Viagens. se a alma é levada por esse movimento à temperatura conveniente.

e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. segundo a suposição dele. A meta é o otium litteratum: "ter a paz" Demócrito. não obstante. Ele se desempenha com excessiva rapidez dos encargos de construir o mundo e a moral. outros aspectos do seu sistema. que geralmente fora atribuída em Atenas. o espetáculo dos sacrifícios. quando. deu grande atenção ao problema do comportamento. Demócrito. foi possível para Trasilo. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. defrontou-se com as dificuldades referentes ao conhecimento. Ainda não havia notado. quase morrera de fome. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. fazer uma edição das obras de Demócrito. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. etc. como aquelas de Anaxágoras e outrem. é como se não tivesse escrito quase nada. seu contemporâneo. Sabemos. Ao contrário de Sócrates. Queria sentir-se no mundo como em um quarto claro. cedo demais. crê na capacidade liberadora de seu sistema e elimina dele tudo aquilo que é mau e imperfeito. entretanto. e as suas obras na realidade nunca foram bem conhecidas em Atenas. Por isso. uma abundância infinita de pontos de vista diversos. pois deixavam subsistir um elemento irracional. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. desprezado em vida. contudo. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. Sente-se impelido a correr o mundo. esse Humboldt do mundo antigo. levantadas pelo seu concidadão Protágoras e outros. Sua cidade natal o toma por um pródigo. Os epicuristas. com a idade de noventa ou cem anos.– É a meta de sua filosofia. era natural de Abdera na Trácia. Demócrito foi discípulo de Leucipo. Diz-se ter visitado o Egito. o que quer é terminá-la e atingir o conhecimento último. na biblioteca da Academia. Recusam-lhe uma sepultura honrada. e nós ainda podemos constatar. temos apenas conjeturas para nos orientar. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. a queda e o choque. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. e. porém. como se diz. que também os pitagóricos foram seus mestres. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. Demais. outrossim. por outro lado. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. e obscurece o fato de que. a viver das esmolas de seu irmão. reduzido. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. como um mendigo. sob o reinado de Tibério. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. aquilo que lhe parecia inteligível e simples. pois. porém.. sabemos menos a seu respeito do que de Sócrates. ele era jovem. É certo. deve igualmente ser incluído entre os melancólicos. Ele se atrela a este. a Anaxágoras. Os problemas mais profundos Ihe permanecem ocultos. Eis por que ele procurou remeter tudo àquilo que é mais fácil de compreender. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. e temos uma prova contemporânea. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. pois era também jônio do Norte. e é isso que Ihe dá sua segurança e sua confiança em si. não sabemos.C. Isto deve-se ao fato de ele ter escrito em Abdera. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. pai do racionalismo. Para nos. Parece. acomodava à sua maneira os deuses. sem dúvida. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. Disse também algures que. um racionalista confiante. e condenou sem indulgência a intrusão de um mundo mítico. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. que era um dos maiores escritores da Antigüidade. de fato. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão . organizada em tetralogias. como Sócrates. Se disse isto. Racionalista encarnado. É que sua vontade é a mola de sua investigação. Se Demócrito morreu. Aristóteles. isto ocorrera..aquilo que Ihe era homogêneo. Quanto à data do seu nascimento. Fez menção a Anaxágoras. Como Sócrates. da mesma forma que ele. bem como. e sem dúvida alguma na Jonia. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. Um membro posterior da escola. a de Glauco de Régio. Retorna pobre e sem recursos. pois que as poucas passagens no Timeu e alhures. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. quando Anaxágoras era velho. detestavam qualquer tipo de estudo. Em uma das principais obras. conhece bem Demócrito. Os sistemas anteriores não Ihe davam isso. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. ele era um autor volumoso. Não é certo que Platão haja conhecido alguma coisa sobre Demócrito. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". ao passar em revista os sistemas anteriores. o que parece muito provável. no qual parece que o reproduz. até o dia em que seus parentes tomam as dores do morto e em que se elevam monumentos em honra daquele que. através dos scus fragmentos. são facilmente explicadas pelas influências pitagóricas que afetaram a ambos. ao qual também os sofistas deram impulsos. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. onde teriam tido a possibilidade de serem preservadas. Como Protágoras. É. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. Apolodoro de Quizico. de seus raros predecessores. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. conservou. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. Demócrito e suas Teorias Demócrito fez uma tentativa bem independente de reconstrução..

ensinando e escrevendo em Abdera. As diferenças de cor devem-se à lisura ou aspereza das imagens ao tato. Ao ilegítimo pertencem todos estes: a visão. e era isto que exigia uma solução. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. por convenção há o amargo. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. apesar de serem causadas por algo fora de nós. eídola) que os corpos estão constantemente emitindo. isto não seria assim. então é possível que este fragmento também seja apócrifo. que deriva mormente de Anaxágoras. Seguindo o exemplo de Protágoras. Teoria do Conhecimento Demócrito procedeu como Leucipo ao fazer uma avaliação puramente mecânica da sensação. Aristóteles afirma que Demócrito reduziu todos os sentidos ao tato. é afetado de acordo com a forma e o tamanho dos átomos chocando nele. contudo. De modo idêntico. uma semelhança exata do corpo do qual provém. portanto. porém. Ademais. Demócrito. Não podemos conhecer a realidade deste modo. pois está sujeita às distorções causadas pela interferência do ar. afirmando que existe uma outra fonte de conhecimento que não a dos sentidos próprios. tais como forma. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. o paladar e o tato. A audição explica-se de uma maneira similar. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. naturalmente. Este é o motivo por que vemos as coisas a distância de um modo embaraçado e indistinto. rejeita a sensação como fonte de conhecimento. por conseguinte. afirmou Demócrito (fragmento 9). Parmênides afirmara claramente que o paladar.Protágoras. entre nós e os objetos da visão. ao ouvido junto com aquelas porções do ar que se Ihe assemelham. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. mas somente alguma coisa que muda de acordo com a disposição do corpo e das coisas que nele penetram ou Ihe opõem resistência". A imagem na pupila do olho era considerada como a coisa essencial em visão. Demócrito foi obrigado a ser explícito com referência à questão. As diferenças de paladar são devidas às diferenças nas figuras (eide. o tato. foi-nos preservada através de suas próprias palavras. está em conformidade com a tradição eleática onde repousa a teoria atômica. Por outro lado. é "não mais tal do que tal" (oudèn mãllon toion è toion). como eles. Na realidade. é tanto amargo quanto doce. o olfato. as cores. e por que. e é realmente verdade se entendermos por tato o sentido que percebe qualidades. O legítimo. "nós na verdade não conhecemos nada de certo. e é provável que ele seja o autor da doutrina minuciosa dos átomos com respeito a este assunto. Sexto Empírico e Plutarco afirmaram claramente que Demócrito argüiu contra Protágoras. Demócrito. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. A originalidade de Demócrito. considerado como o sentido pelo qual sentimos o calor e o frio. Este. Vê-se que esta doutrina tem muito em comum com a distinção moderna entre as qualidades primárias e secundárias da matéria. Não é. Esta é a razão por que a mesma coisa às vezes dá a sensação de doce e às vezes de amargo. pois "a verdade jaz num abismo" (fragmento 117). "Há". "há o doce. por exemplo. mas as "imagens" (deíkela. apesar de não haver razão de se acreditar que ele tenha elaborado uma teoria sobre o assunto. cuja verdadeira natureza não pode ser apreendida pelos sentidos próprios. diz ele (fragmento 11). Para compreender esta questão. a sensação deve consistir no impacto dos átomos externos sobre os átomos da alma. a audição. Sua doutrina. Se não houvesse ar. que asseverou serem todas as sensações igualmente verdadeiras para o objeto sensível. . Não era um sofista itinerante do tipo moderno. não podemos vê-las de modo algum. ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. mas somente o vazio. É aqui que Demócrito entra nitidamente em conflito com Protágoras. o problema do comportamento tornara-se premente. na realidade (etee). Ele diz que o mel. considera falsas todas as sensações dos sentidos próprios. Chegou. ressalva a possibilidade de ciência. Deveras. por convenção há a cor". "duas formas de conhecimento (gnóme): o legítimo (gnesíe) e o ilegítimo (skotíe). Seja como for. posto que elas não têm uma contrapartida real fora do objeto sensível. O som é uma torrente de átomos que jorram do corpo sonante e produzem movimento no ar entre ele [corpo] e o ouvido. está fora da discussão. deve ser cautelosamente distinguido do sentido próprio do tato. está separado daquele". skhémata) dos átomos que entram em contato com os órgãos desse sentido. que acima foi descrito. pois. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. "poderíamos ver uma formiga rastejando no firmamento". exatamente como fizeram os pitagóricos e Sócrates. há os átomos e o vazio. pelo contrário. portanto. as nossas sensações não representam nada de externo. por convenção há o quente e por convenção há o frio. A possibilidade de ciência havia sido negada. Disto decorre que os objetos da visão não são estritamente as coisas que nós mesmos presumimos ver. porém. Nisto. e o fato. e é bastante idêntico a Leucipo que disse algo de parecido. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. "Pelos sentidos". Uma vez que a alma se compõe de átomos como qualquer outra coisa. temos que considerar a doutrina do conhecimento "legítimo" e "ilegítimo". tamanho e peso. e o olfato explica-se semelhantemente. o som e outros semelhantes eram apenas "nomes" (onómata). e os órgãos dos sentidos devem ser simplesmente ''passagens" (póroi = poros) através das quais estes átomos se introduzem. o molhado e o seco e outros que tais. todavia. felizmente. se a distância for grande. "Por convenção (nómo)": disse ele (fragmento 125). A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. Esta é a resposta de Demócrito a Protágoras. mas sim o cabeça de uma escola regular. Porém. doce para mim e amargo para você. embora não com os mesmos detalhes.

Este é. Infelizmente. Defendeu. pitagórico. Para Demócrito. não é necessário discutir detalhadamente a cosmologia de Demócrito. Os átomos da alma não se restringem a algumas partes específicas do corpo. o corpo). que é a alegria. Se forem iguais. mas uma espécie de sentido interno. Se aplicarmos este critério aos prazeres. Nós somente podemos ter certeza de superar a dor pelo prazer se não procurarmos os nossos prazeres nas coisas "mortais" (fragmento 189). Segundo um comentário de Arquimedes. Além disso. julgar e discernir o valor dos diferentes prazeres. Ele também aderiu a Anaxágoras defendendo que a Terra era sustentada no ar "como a tampa de uma tina". o que é o maior absurdo". sem dúvida. Deve ter conhecido ainda o sistema mais cientifico de Filolau. o sossego do corpo. que foi um verdadeiro gênio neste campo. "O melhor para o homem é levar a vida com o máximo de alegria e o mínimo de aborrecimentos" (fragmento 189). "é por causa de nós que conseguiste as provas com as quais atiras contra nós. 0 grande principio que nos deve guiar é o da "simetria" ou "harmonia". e o cone terá a aparência de um cilindro. e facilmente se transformam ao contrário. as nossas informações são extremamente escassas para possibilitar mesmo uma reconstrução aproximada do seu sistema. e a palavra grega que traduzimos por "felicidade" (eudaimonía) baseia-se neste uso. que o seu real interesse está em outro sentido. da mesma natureza do "ilegítimo". então as partes cortadas serão iguais.Ao mesmo tempo. Como seria de esperar de um seguidor dos pitagóricos e de Zenão. porém. mas nele penetram em qualquer direção. Por outro lado. e. chegando assim a conhecê-los como realmente são. como o fizera do ilegítimo. pois. Foi utilizado livremente por Sêneca e Plutarco. O "conhecimento legítimo" é. Ela é totalmente retrógrada e demonstra. Teu tiro é uma capitulação. embora dê mais ênfase ao prazer e à dor. cuja concepção Sócrates rejeita enfaticamente." O conhecimento "legítimo" não é. escolhe os humanos" (fragmento 37). contentou-se em adotar a crua cosmologia dos jônios. Para compreender isto. pois ele terá muitas incisões em forma de degraus e muitas asperezas. imagina ele os sentidos dizerem (fragmento 125). a fazer uma separação absoluta entre os sentidos e o conhecimento. como Sócrates. É evidente. Isto quer dizer fundamentalmente que a felicidade não deve ser procurada nos bens exteriores. e seus objetos são como os "sensíveis comuns" de Aristóteles. parece que Demócrito prosseguiu afirmando que o volume do cone era a terça parte do volume do cilindro sobre a mesma base e do mesmo peso. quem escolhe os bens do 'tabernáculo' (isto é. É. Demócrito parece ter contribuído valiosamente à ciência natural. e o sossego da alma. se pudéssemos restabelecê-las integralmente. quanto ao resto. pois. "Pobre Mente". Em uma passagem digna de nota (fragmento 155). devemos ser capazes de ponderar. afinal de contas. [O tratado] partia (fragmento 4) do princípio de que o prazer e a dor (térpsis e aterpsíe) são o que determina a felicidade. cujo teorema foi demonstrado primeiro por Eudoxo. se fosse preciso uma demonstração. ter certeza sobre quais dos preceitos morais a ele atribuídos são genuínos. o que se deveria pensar das superfícies das duas partes cortadas? Seriam iguais ou desiguais? Se forem desiguais. farão irregular o cone. como Leucipo houvera feito. o aspecto individual de týkhe. escolhe os mais divinos. e alguns fragmentos importantes do tratado sobreviveram. hedonismo vulgar. como foi dito. mas esta é apenas uma "imagem" que inventaram para justificar a sua própria ignorância (fragmento 119). tem sido usada no sentido equivalente de "boa sorte". a alma é a moradia do daímon" (fragmento 171). Ele herdara a teoria dos átomos e do vazio de Leucipo. como Sócrates. que é a saúde. e Demócrito recusou-se. que ele estava empenhado em problemas tais como aqueles que finalmente deram origem ao método infinitesimal do próprio Arquimedes. devemos lembrar que a palavra daímon. cujo sossego se deve procurar principalmente nos bens da alma. Para atingi-lo. os prazeres dos sentidos são de duração demasiado curta para preencher uma vida. e Sócrates é descrito no Fédon tomando-a por certa. A idéia da forma esférica da Terra era amplamente difundida na época de Demócrito. Para o nosso presente objetivo. pensamento. Demócrito afirmou. "A felicidade não reside em rebanhos. porém. não se pode ignorar que Demócrito dera uma explicação puramente mecânica deste conhecimento legítimo. Não há dúvida de que o tratado Sobre a Boa Disposição ou Bem-Estar (Perí Euthymíes) era seu. De um lado. que é composto de círculos iguais e não desiguais. "O bom e o verdadeiro são a mesma coisa para todos os homens. e não há nada que os impeça de ter contato imediato com os átomos externos. com efeito. Isto não é. a doutrina da felicidade ensinada por Demócrito é intimamente afim com a de Sócrates. apesar de tudo. É muito difícil. A perda da edição completa das suas obras feita por Trasilo é talvez a mais deplorável . que os átomos fora de nós poderiam afetar diretamente os átomos da nossa alma sem a intervenção dos órgãos dos sentidos. e este é um estado da alma. O que devemos nos esforçar por conseguir é o "bem-estar" (euestó) ou a "alegria" (euthymíe). poderemos alcançar o sossego. Vemos mais uma vez como foi importante a obra de Zenão como um fermento intelectual. Teoria do Comportamento As concepções de Demócrito sobre o comportamento seriam até mais interessantes do que a sua teoria do conhecimento. que "a ignorância do melhor" (fragmento 83) é a causa do erro. mas o agradável é diferente para gente diferente" (fragmento 69). "Quem escolhe os bens da alma. que significava propriamente um espírito protetor do homem. a Terra era ainda um disco. Demócrito ocupou-se com o problema da continuidade. nem em ouro. Os homens puseram a culpa na sorte. ele o confirma desta forma: "Se um cone fosse cortado por um plano em linha paralela à base. Os prazeres dos sentidos são prazeres verdadeiros tão breves como as sensações são verdadeiro conhecimento.

Sabemos.teve duração bastante curta. Demócrito foi discípulo de Leucipo. temos apenas conjeturas para nos orientar. e temos uma prova contemporânea. Por outro lado. e a partir dai concluiu-se que nasceu em 460 a. outrossim. Parece. ele era jovem. cedo demais.apesar de o aristotelismo ter superado logicamente o platonismo. que chegou a conhecê-las através de Leucipo. Os Sofistas Período Sistemático O segundo período da história do pensamento grego é o chamado período sistemático. É possível que tenham sido abandonadas à ruína porque Demócrito chegara a compartilhar do descrédito que o prendera aos epicureus. exatamente como sua edição dos diálogos de Platão. O interesse dos filósofos gira. e através também da precedente crise cética da sofística.C. afirmou que elas foram escritas 730 anos após a queda de Tróia. quando. precursoras. porquanto a escola as conservou em Abdera e Teos ao longo dos tempos helenísticos. Do nosso ponto de vista.das muitas perdas desse tipo. sendo principais a cínica e a cirenaica. e é a esta que devemos agora retornar. uma cidade que nem mereceria a reputação proverbial de embotamento. Sabemos extremamente pouco sobre a vida de Demócrito. outros aspectos do seu sistema. Mesmo a partir de fundamentos meramente cronológicos. visto estar baseado na hipótese de que tinha quarenta anos quando se encontrou com Anaxágoras. deles procedendo a Academia e o Liceu . e parece ter dito que a sua teoria do sol e da lua não era original. organizada em tetralogias. que as obras completas de Demócrito (que incluem as obras de Leucipo e outros. Um membro posterior da escola. e provavelmente nem se preocuparam em multiplicar os exemplares de um escritor cujas obras teriam sido um testemunho permanente para a carência de originalidade que caracterizou o próprio sistema deles. como Sócrates. É certo. como se diz. porém. era natural de Abdera na Trácia. detestavam qualquer tipo de estudo. nesse período realiza-se a sua grande e lógica sistematização. Este. e em seus desenvolvimentos neoplatônicos em especial . a de Glauco de Régio. Se Demócrito morreu. Demais. quando Anaxágoras era velho. sem dúvida deu a entender que não conseguira causar uma impressão tal como o fizera o seu mais brilhante concidadão Protágoras. com a idade de noventa ou cem anos. cumpre-nos encontrar um espaço para Leucipo entre eles [Demócrito] e Zenão. Diz-se ter visitado o Egito. ainda que Demócrito naturalmente estivesse ciente de ser ela pitagórica. Em uma das principais obras. isto ocorrera. que foram dignas de constar nas antologias. Esse período esplêndido do pensamento grego . porém. pela importância e o lugar central destinado ao homem e ao espírito no sistema do mundo. da metafísica passa-se à gnosiologia e à moral. de preferência. Havia nessa época e posteriormente diversas eras em uso. Demétrio de Falerão afirmou que Demócrito jamais visitou Atenas. fazer uma edição das obras de Demócrito. mas em torno do homem e do espírito. bem como. considerando que pode dar origem a dois homens de tanta envergadura. não é o tipo de material que se requer para a interpretação de um sistema filosófico. e sem dúvida alguma na Jonia. substancialmente. culminando em Aristóteles.depois do qual começa a decadência . Como Protágoras. e a expressão "jovem" sugere menos que esta idade. foi possível para Trasilo. não em torno da natureza. que Demócrito falou nas obras das doutrinas de Parmênides e Zenão. Daí ser dado a esse segundo período do pensamento grego também o nome de antropológico. Por isso. O que temos dele foi preservado principalmente porque ele foi um grande criador de frases notáveis. do estoicismo e do epicurismo do período seguinte. Disse também algures que. Abraça. Isto pode referir se à explicação dos eclipses. não obstante. o que parece muito provável. que geralmente fora atribuída em Atenas. Mesmo isso não foi suficiente para preservá-las. não sabemos. e obscurece o fato de que. Apolodoro de Quizico. então é possível que este . que sobreviverão também no período seguinte e além ainda. Com efeito. e compreende um número relativamente pequeno de grandes pensadores: os sofistas e Sócrates. é falso classificar Demócrito entre os predecessores de Sócrates. entretanto. e é muito duvidoso se de fato conhecemos as suas idéias mais profundas. que fixam o conceito de ciência e de inteligível. a Anaxágoras. mas há uma certa razão para se acreditar que o fragmento onde isto é mencionado (fragmento 298 b) é apócrifo. que também os pitagóricos foram seus mestres. ele tentou responder ao seu distinto concidadão Protágoras. que tinham a obrigação de ter estudado o homem a quem deviam tanto. Os epicuristas. Há um outro (fragmento 116) no qual ele diz: "Eu fui a Atenas e ninguém tomou conhecimento de mim". o único fato importante com referência a Demócrito é que ele também sentiu a necessidade de uma resposta a Protágoras. Tem-se a impressão de que ele se situa à parte da corrente principal da filosofia grega. sob o reinado de Tibério. bem como as de Demócrito) continuaram a existir. através de Sócrates e Platão . respectivamente. até então limitado à natureza exterior. Platão e Aristóteles. Quanto à data do seu nascimento. Isto esclarece o seu conhecimento geométrico. especialmente a Academia por motivos éticos e religiosos. diz que tomou conhecimento por intermédio de Filolau. daí derivando as chamadas escolhas socráticas menores. Se disse isto. segundo a suposição dele. de qualquer maneira ainda vivia quando Platão fundara a Academia. Fez menção a Anaxágoras. Ao mesmo tempo..C. não podemos deixar de reconhecer que é sobretudo pelo seu mérito literário que lamentamos a perda das obras. o século IV a.

ele deve ter despendido a maior parte do seu tempo no estudo. chefe de escola e teórico da sofística. como na gnosiologia e na moral. quer moral.segundo os sofistas. materiais. A questão à qual tinha que se dedicar era a de sua própria época. que ele parece ter exposto bem conforme a tinha recebido de Leucipo. de repente. não para si mesma. não é o direito fundado sobre a natureza racional do homem. Ademais. A Sofística Após as grandes vitórias gregas. quer política. que a causa seja justa ou não. A moral. mas a natureza humana sensível. A verdadeira grandeza de Demócrito não está na teoria dos átomos e do vazio. a sofística sustenta o relativismo prático. a sua força. A originalidade de Demócrito. e era isto que exigia uma solução. instintiva. os sofistas estabelecem uma oposição especial entre natureza e lei. segundo o ideal dos sofistas. capital democrática de um grande império marítimo e cultural. não lhe interessa. pois em uma sociedade em que estão em jogo apenas forças brutas. um prejuízo a igualdade moral entre os fortes e os fracos. de retórica. por conseguinte. Seria. o problema do comportamento tornara-se premente. mas .a segunda metade do século V a. Não era um sofista itinerante do tipo moderno. Mas este direito natural . a única forma de vida social possível num mundo em que estão em jogo unicamente forças brutas. como a lei que potencia profundamente a natureza humana. A respeito da religião e da divindade. oprima o fraco em seu proveito. isto é. mortificador. Diversamente dos filósofos gregos em geral. Os sofistas. A possibilidade de ciência havia sido negada.de harmonia com o ceticismo deles . mas sim o cabeça de uma escola regular. uma pura convenção. e sim sobre a sua natureza animal. até o ateísmo. atenienses. ensinando aos homens ávidos de poder político a maneira de consegui-lo. portanto. Protágoras foi o maior de todos. devia ter a oratória e. portanto. contra o império persa. como norma universal de conduta . E tentam criticar a vaidade desta lei. exige que o forte. Ao sensualismo. em situação semelhante. o ensinamento dos sofistas não era ideal. depende da capacidade de conquistar o povo pela persuasão. Direito e Religião Em coerência com o ceticismo teórico.que a submissão à lei torne os homens felizes. passional. mediante graves crimes. naturalmente.C. a posição da sofística é extremista também. E visto que o domínio pessoal. à paixão de cada um em cada momento. O conteúdo desse ensino abraçava todo o saber. está precisamente na mesma linha que a de Sócrates. bem como todo o problema do conhecimento levantado por Protágoras. na justiça para com os outros.é concebida pelos sofistas não como lei racional do agir humano. O centro foi Atenas. que deriva mormente de Anaxágoras. Górgias declara plena indiferença para com todo moralismo: ensina ele a seus discípulos unicamente a arte de vencer os adversários. pois a verdadeira justiça conforme à natureza material. mas como um empecilho que incomoda o homem. superficial. destruidor da ciência. embora sem importância filosófica. instintiva. a Atenas de Péricles. bem como a sua utilidade comumente celebrada: não é verdade . mas como meio para fins práticos e empíricos e. contingente. a cultura. Então a realização da humanidade perfeita. contra o direito positivo. o poderoso. considerando a lei como fruto arbitrário. Desta maneira. tirânico. assim é bem o que satisfaz ao sentimento. os sofistas não só trilham a mesma senda dos filósofos racionalistas gregos do período precedente e posterior. Esse domínio violento é necessário para possuir e gozar os bens terrenos. Quanto ao direito e à religião. visto estes bens serem limitados e ambicionados por outros homens. aliás. pois grandes malvados. Pertence inteiramente a uma outra geração que a desses homens. a experiência ensina que para triunfar no mundo. É esta. interessado. portanto. não a natureza humana racional. A sofística move uma justa crítica. a força e a violência podem ser o único elemento organizador. continuando até depois de Sócrates. uma enciclopédia.dizem . destruidor da moral. pelo menos .bem como a moral natural . ao impulso. e entendendo por natureza.pode-se dizer . no domínio de si mesmo. sequiosos de conquistar fama e riqueza no mundo. mas prudência e habilidade.fragmento também seja apócrifo. os mestres de eloqüência. muitas vezes arbitrário. mas no engrandecimento ilimitado da própria personalidade. portanto. compreende-se a importância que.chegam até o extremo. A época de ouro da sofística foi . Seja como for. não é mister justiça e retidão. Os sofistas maiores foram quatro. Então. animal. e não está preocupado de modo especial em encontrar uma resposta a Parmênides. a única regra de conduta é o interesse particular. têm freqüentemente conseguido grande êxito no mundo e. o direito natural é o direito do mais poderoso. no prazer e no domínio violento dos homens. desinteressado. como acontece todas as vezes que o povo sente. aliás. em tal regime. o único sistema jurídico admissível. mas sobejamente retribuído. tornaram-se mestres de eloqüência. ensinando e escrevendo em Abdera. Menos ainda está no seu sistema cosmológico. Moral. não está na ação ética e ascética. ao empirismo gnosiológicos correspondem o hedonismo e o utilitarismo ético: o único bem é o prazer. Como é verdadeiro o que tal ao sentido. na verdade tão mutável conforme os tempos e os lugares. Os menores foram uma plêiade. em nome do direito natural. houve um triunfo político da democracia.

onde teve grande êxito. Em suma. foi ele valoroso soldado e rígido magistrado. temperados . honestos. na Magna Grécia. Menos profundo. que deveria estabelecer o que é verdadeiro e o que é bem! Quem valorizou a descoberta do homem feita pelos sofistas. se alguma coisa existisse não a poderíamos conhecer. hostilidade popular. Sócrates desdenhou defender-se diante dos juizes e da justiça humana. Quanto à família. Esta doutrina enunciou-a com a célebre fórmula. negador dos valores teoréticos e morais. Górgias de Leôncio Górgias nasceu em Abdera. na acusação movida contra ele por Mileto. e de Fenáreta. na moldura da alta cultura ateniense da época. outros pueris. inferiu Protágoras a relatividade do conhecimento..diversamente dos sofistas. E preferiu a morte. Inteiramente absorvido pela sua vocação. e a um outro o de Górgias. que agiam para o próprio proveito e formavam grandes egoístas. em contato com o que de mais ilustre houve na cidade de Péricles.representa a maior expressão prática da sofística. sutis uns. é mais ou menos o que acontece com o jornalismo moderno. para pedir auxílio contra os siracusanos. em Atenas.pelo ano 480. inimizades pessoais. Quanto à política. Dos princípios de Heráclito e das variações da sensação. Sócrates . não na sua realidade física. e foi honrado e procurado por Péricles e Eurípedes. e especialmente em Atenas. aparecia Sócrates como chefe de uma aristocracia intelectual. orientando-a para os valores universais. Platão deu o nome de Protágoras a um dos seus diálogos. Górgias declara que a sua arte produz a persuasão que nos move a crer sem saber. Protágoras recorre à convenção estatal. Diante da tirania popular. e sim o juízo eterno da razão. na Sicília. Aprendeu a arte paterna. mas também ela não teve um marido ideal no filósofo. Combateu a Potidéia. sem recompensa alguma. Esta máxima significava mais exatamente que de cada homem individualmente considerado dependem as coisas. conservou-se afastado da vida pública e da política contemporânea. Anito e Licon: de corromper a mocidade e negar os deuses da pátria introduzindo outros. para negar que o mundo seja governado por uma providência divina. Julgava que devia servir a pátria conforme suas atitudes. Tinha ele diante dos olhos da alma não uma solução empírica para a vida terrena. servem-se da injustiça e do muito mal que existe no mundo. filho de Sofrônico. A prova de cada uma destas proposições e um enredo de sofismas. Acusado de ateísmo. sobretudo entre os jovens. apesar de sua probidade. onde carregou aos ombros a Xenofonte. partiu dos princípios da escola eleata e concluiu também pela absoluta impossibilidade do saber.). o homem é a medida de todas as coisas. onde morreu com setenta anos (410 a.C . segundo a via real do pensamento grego. ocupado com outros cuidados que não os domésticos. uma mulher ideal na quérula Xantipa. não obstante sua pobreza. em Atenas. É autor duma obra intitulada "Do não ser". em outras cidades da Grécia. porém. Esse estado de ânimo hostil a Sócrates concretizou-se. onde foi processado e condenado por impiedade.C. Ensinou na Sicília. até estabelecer-se em Larissa na Tessália.praticamente.pátria de Demócrito . No Górgias de Platão. mas na sua forma conhecida. foi Sócrates. na qual desenvolve as três teses: Nada existe. pois. escultor. Subjetivismo. mediante o ensinamento da retórica. social. se a conhecêssemos não a poderíamos manifestar aos outros. cuja escola conheceu . podemos dizer que Sócrates não teve. em 480-375 a. por certo. parteira. para a imortalidade. a feição austera de seu caráter. onde salvou a vida de Alcebíades e em Delium. criaram descontentamento geral. Desempenhou alguns cargos políticos e foi sempre modelo irrepreensível de bom cidadão. teve de fugir de Atenas. quarenta dedicados à sua profissão. e a sua obra sobre os deuses foi queimada em praça pública.A Vida . bem como de certos elementos racionários. Viajou por toda a Grécia. foi um filósofo ocasional. Nasceu Sócrates em 470 ou 469 a. capazes unicamente de se acometerem uns contra os outros e escravizar o próximo. Para remediar este extremo individualismo. ensinando na sua cidade natal. Mas. e não a persuasão que nos instrui sobre as razões intrínsecas do objeto em questão. relativismo e sensualismo são as notas características do seu sistema de ceticismo parcial. teoricamente. mais eloqüente que Protágoras. Entretanto. tomou forma jurídica. a sua atitude crítica. em geral.C. gravemente ferido. humilhando-se e desculpando-se mais ou menos. Formou a sua instrução sobretudo através da reflexão pessoal. a liberdade de seus discursos. vivendo justamente e formando cidadãos sábios. irônica e a conseqüente educação por ele ministrada. onde teria morrido com 109 anos de idade. Refugiou-se então na Sicília. mas dedicou-se inteiramente à meditação e ao ensino filosófico. conforme as disposições subjetivas dos órgãos. Em 427 foi embaixador de sua pátria em Atenas. exagerador dos artifícios da dialética eleática. Protágoras de Abdera Protágoras nasceu em Abdera . dos quais. não se deixou distrair pelas preocupações domésticas nem pelos interesses políticos. Os sofistas. porém. que contrastavam com o seu temperamento crítico e com o seu reto juízo.correlacionado com Empédocles .

identificando a vontade com a inteligência. estabelece a existência de Deus: a) com o argumento teológico. o indivíduo que passa.o lema em que Sócrates cifra toda a sua vida de sábio. Deus não só existe. A este processo pedagógico. foram: "Devemos um galo a Esculápio". Método de Sócrates É a parte polêmica. um legislador. que remonta do indivíduo à noção universal. eliminar-lhes as diferenças individuais.que se teria realizado pouco antes da morte e foi descrito por Platão no Fédon com arte incomparável. No segundo caso. legou-nos de preferência o aspecto prático e moral da doutrina do mestre. "Se músico é o que sabe música. sendo mais um homem de ação do que um pensador. Sócrates.pois uma lei vedava as execuções capitais durante a viagem votiva de um navio a Delos . pelo contrário. de feição intelectual muito diferente. o conceito que se exprime pela definição. c) com o argumento moral: a lei natural supõe um ser superior ao homem. É a ironia socrática. a teodicéia de estímulo à virtude e de natural complemento da ética. porém. E passou o tempo preparando-se para o passo extremo em palestras espirituais com os amigos. Praticamente. torna-te consciente de tua ignorância . Este conceito ou idéia geral obtém-se por um processo dialético por ele chamado indução e que consiste em comparar vários indivíduos da mesma espécie. multiplicava ainda as perguntas. Conclusão: grandeza moral e penetração especulativa. pedreiro o que sabe edificar. conforme se tratava de um adversário a confutar ou de um discípulo a instruir. que o condenou à pena capital com o voto da maioria. por indução dos casos particulares e concretos. . é o inteligível. as qualidades mutáveis e reter-lhes o elemento comum. na exposição polêmica e didática destas idéias. que é o desejo da ciência mediante a virtude. com ela se identifica. justo será o que sabe a justiça". É a parte culminante da sua filosofia. concluíram os sofistas pela impossibilidade absoluta e objetiva do saber.C. mas é também Providência. Sócrates não deixou nada escrito. antes. pode-se dizer que Sócrates é o protagonista de todas as obras platônicas embora Platão conhecesse Sócrates já com mais de sessenta anos de idade. dirigindo-as agora ao fim de obter. é a prática da virtude. devemo-las especialmente aos seus dois discípulos Xenofonte e Platão . bem como o seu biógrafo genial. O meio único de alcançar a felicidade ou semelhança com Deus. Moral. Tendo que esperar mais de um mês a morte no cárcere . Seja como for. a essência da coisa. que a promulgou e sancionou. se personificava na voz interior divina do gênio ou demônio. denominava ele maiêutica ou engenhosa obstetrícia do espírito. assumia humildemente a atitude de quem aprende e ia multiplicando as perguntas até colher o adversário presunçoso em evidente contradição e constrangê-lo à confissão humilhante de sua ignorância. um conceito. Esta doutrina. estável. não obstante a sua devoção para com o mestre e a exatidão das notícias. uma das mais características da moral socrática. Com efeito. determinando o verdadeiro objeto da ciência. sensitivo e intelectual. A virtude adquiri-se com a sabedoria ou. não entendeu o pensamento filosófico de Sócrates. Sócrates restabelece-lhe a possibilidade. o centro para o qual convergem todas as partes da filosofia. Xenofonte. autor de Anábase. Doutrinas Filosóficas A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates. mas não define o livre arbítrio. nem sempre é fácil discernir o fundo socrático das especulações acrescentadas por ele. Insistindo no perpétuo fluxo das coisas e na variabilidade extrema das impressões sensitivas determinadas pelos indivíduos que de contínuo se transformam. As notícias que temos de sua vida e de seu pensamento. distingue as duas ordens de conhecimento.isto é. assentou-se com indômita fortaleza de ânimo diante do tribunal. formulando claramente o princípio: tudo o que é adaptado a um fim é efeito de uma inteligência. ignorância e vício são sinônimos. E exprime-se no famoso lema conhece-te a ti mesmo . Sócrates aceita em muitos pontos os preconceitos da mitologia corrente que ele aspira reformar. mas é um meio de generalização. a natureza. que vai do fenômeno à lei. Suas últimas palavras dirigidas aos discípulos. que revestia uma dúplice forma. apenas esboçado. b) com o argumento. declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria. governa o mundo com sabedoria e o homem pode propiciá-lo com sacrifícios e orações. O perfeito conhecimento do homem é o objetivo de todas as suas especulações e a moral. permanente. O objeto da ciência não é o sensível. cabe-lhe a glória e o privilégio de ter sido o grande historiador do pensamento de Sócrates. com 71 anos de idade. que se concretizava. uma definição geral do objeto em questão. tratando-se de um discípulo (e era muitas vezes o próprio adversário vencido). da causa eficiente: se o homem é inteligente. depois de ter sorvido tranqüilamente a cicuta.como sendo o ápice da sabedoria. mas sem profundidade. Em psicologia. Apesar destas doutrinas elevadas. A psicologia serve-lhe de preâmbulo. "Conhece-te a ti mesmo" . de estilo simples e harmonioso. Sócrates adotava sempre o diálogo. o particular. Em teodicéia. em seus Ditos Memoráveis. fim supremo do homem. recusou. Platão. foi filósofo grande demais para nos dar o preciso retrato histórico de Sócrates. Especialmente famoso é o diálogo sobre a imortalidade da alma . Por onde se vê que a indução socrática não tem o caráter demonstrativo do moderno processo lógico. No primeiro caso. virtude e ciência. é conseqüência natural do erro psicológico de não distinguir a vontade da inteligência. E alcançava em Sócrates intensidade e profundidade tais. Sócrates ensina a bem pensar para bem viver.Declarado culpado por uma pequena minoria. que facilitava a parturição das idéias. Sócrates professa a espiritualidade e imortalidade da alma. em memória da profissão materna. também inteligente deve ser a causa que o produziu. Morreu Sócrates em 399 a. É que o deus da medicina tinha-o livrado do mal da vida com o dom da morte. Como é sabido.o discípulo Criton preparou e propôs a fuga ao Mestre. Xenofonte.

por sua vez.patenteiam-se no famoso dito socrático "conhece-te a ti mesmo" que. esta felicidade. introspecção. pois. assim é o fundador. da opinião à ciência. pela razão imanente e constitutiva do espírito humano. depois. acima das leis mutáveis e escritas. maiêutica. desenvolverão uma gnosiologia acabada. nem deixou algo de escrito. embora o pensamento socrático fique. desenvolveram exageradamente algumas de suas partes com detrimento do conjunto. logo. Como os sofistas. no pensamento de Sócrates. a favor da reflexão livre e da convicção racional. Dentre estes. Entretanto. O procedimento lógico para realizar o conhecimento verdadeiro. determinado precisamente mediante a definição. por conseguinte. sem metafísica. dada a sua revalidação da ciência. morais. Este conceito é. Entretanto. A Moral Como Sócrates é o fundador da ciência em geral.bem como o conhecer humano . Sócrates achou apenas a forma conceptual da ciência. nem pode precisar este bem. o prático depende. o ignorante. descobriu o método e fundou uma grande escola. que será percorrido por Platão e acabado. tradição. como sua mãe auxiliava os partos do corpo. do teorético. toda a especulação grega que se seguiu. o itinerário. opinião comum. expressão da vontade divina promulgada pela voz interna da consciência. mediante o . a indução: isto é.se baseia em normas objetivas e transcendentes à experiência. a qual é um valor universal. científico. em geral. precisamente porque lhe falta uma metafísica. ciência. Não é. sugere quase sempre a utilidade como motivo e estímulo da virtude. portanto. superado. pela ausência de uma metafísica.realizando-se o bem mediante a virtude. Sócrates. no dizer de Sócrates. enfim. consciência da própria ignorância inicial e. e nos dá a essência da realidade. pois. Escolas Socráticas Menores A reforma socrática atingiu os alicerces da filosofia. no agnosticismo filosófico por falta de uma metafísica. alguns. remontar do particular ao universal. que se concretizava no seu ensinamento dialógico. definição. subindo até à razão. É sabido que Sócrates levava a importância da razão para a ação moral até àquele intelectualismo que. Esta ignorância não é. portanto. de fato.como ensinavam os sofistas. opiniões. mediante a doutrina de que eticidade significa racionalidade. esta intimidade da ciência . antes de tudo. Sócrates não elaborou um sistema filosófico acabado. por Aristóteles. consciência de si mesmo quer dizer. mediante a razão. trata-se. A única ciência possível e útil é a ciência da prática. a gnosiologia deve preceder logicamente a moral. não sentimento. para organizar racionalmente a própria vida. se o fim da filosofia é prático. tenha. a existência de uma lei natural . já aureolado pela austera grandeza moral de sua vida. não de direito. Sócrates.bem como ignorância e vício . Antes de tudo. malvado. Estes dois filósofos. no sentido de que o homem tanto opera quanto conhece: virtuoso é o sábio. no entanto. este é o momento da ironia. para realizar o próprio fim. a ciência.independente do arbítrio humano. O moralismo socrático é equilibrado pelo mais radical intelectualismo. como Xenofonte. mas o mestre deve tirá-la da mente do discípulo. mas apenas metódico. Entre os seus numerosos discípulos. que está contra todo voluntarismo. um poderoso impulso para o saber. em prática. mas é a certeza objetiva da própria razão . a qual. que declara auxiliar os partos do espírito. Por isso. de par com os sofistas.assim a ética socrática carece de um conteúdo racional. como Alcibíades e Eurípedes. Esta interioridade do saber. ativismo. Tudo isto tem que ser criticado. O fim da filosofia é a moral. ainda que com finalidade diversa. pela novidade de suas idéias. ele é cético a respeito da cosmologia e. não o seu conteúdo. mas dirigida para os valores universais. e a virtude mediante o conhecimento Sócrates não sabe. limita-se à gnosiologia e à ética. isto é. Vale dizer que o agir humano . necessidade de superá-la pela aquisição da ciência.afora a teoria geral de que a ciência está nos conceitos . exercido sobre os contemporâneos tamanha influência. Virtude é inteligência. havia verdadeiros filósofos que se formaram com os seus ensinamentos. como a gnosiologia socrática carece de uma especificação lógica. da crítica. Mas. porém. reivindica a independência da autoridade e da tradição. partindo dos pressupostos socráticos. para construir uma ética é necessário uma teoria. direta ou indiretamente. Sublime nos lineamentos gerais de sua ética. dele depende. racionalismo. costume. além dos vulgarizadores da sua moral (socratici viri). A doutrina do conceito determina para sempre o verdadeiro objeto da ciência: a indução dialética reforma o método filosófico. além de simples amadores. lei positiva. de um ceticismo de fato. Traçou. A seguir será possível realizar o conhecimento verdadeiro. de admirar que um homem. precisa . rotina. pragmatismo. representando o ideal e a conclusão do processo gnosiológico socrático. donde é preciso extraí-la. conceptual é. da experiência ao conceito. identificando conhecimento e virtude . Esta feição utilitarista empana-lhe a beleza moral do sistema. ação racional. ceticismo sistemático. razão. significa precisamente consciência racional de si mesmo. uma moral. a ética une pela primeira vez e com laços indissolúveis a ciência dos costumes à filosofia especulativa. A gnosiologia de Sócrates. espiritual. Gnosiologia O interesse filosófico de Sócrates volta-se para o mundo humano. com finalidades práticas. a respeito da metafísica. sentimentalismo. indução. universal. É a famosa maiêutica de Sócrates. todavia. ignorância. mediante a doutrina do conceito. Isto quer dizer que a instrução não deve consistir na imposição extrínseca de uma doutrina ao discente.Sócrates reconhece também.tornava impossível o livre arbítrio. é mister conhecê-lo. cumpre desembaraçar o espírito dos conhecimentos errados. uma grande metafísica e. antes de tudo. fonte primordial de todo direito positivo.que não é absolutamente subjetivista. não particulares. saídos das escolas anteriores não lograram assimilar toda a doutrina do mestre. totalmente. A filosofia socrática. dos preconceitos. em particular da ciência moral. Se o fim do homem for o bem . não descendo até à animalidade . pode-se esquematicamente resumir nestes pontos fundamentais: ironia. no entanto.

talvez porque seja um homem jovem e desconhecido. Fora desta escola começa a decadência e desenvolver-se-ão as escolas socráticas menores.. ao se aproximar do Pórtico do Rei. juntamente com outros quatro homens recebera a ordem de deter a Leon de Salamina. podemos considerar Meleto de Sócrates o mesmo Meleto de Andócides. chegou a tomar parte da acusação contra Andócides.juntamente com o elemento vital do pensamento precedente. o vértice e a conclusão da grande metafísica grega. 2. durante o segundo período.. Pena: a morte" A cidade de Atenas não podia mover ações. mas não só ele. fundada por Euclides (449-369). o mais importante dos acusadores.C. também. neste caso. já então tido como um fanático religioso. fique apenas no campo da suposição. A escola de Megara. porém nada exigia que o acusador oficial fosse o mais respeitável. contra Sócrates.. como se deste tivesse se originado a idéia da pena de morte para persuadir Sócrates a abandonar a cidade antes que o processo tivesse seguimento. que se vale do nome de Meleto. em 399 a. a acusação apresentada contra Sócrates. Ânito era filho de Antemione. de introduzir novos cultos. vegetaram na penumbra. fundada por Antístenes (n. porém. São fundadores das escolas socráticas menores. ao ser inquirido pelo adivinho Eutífron a respeito de quem era aquele que o acusava. com os mesmos direitos à palavra no decorrer do processo. mas somente aquele que assinava a acusação. no célebre processo por causa da mutilação da estátua de Hermes e da profanação dos Mistérios. Mas não há elementos em que basear essa suposição. (n. E. O pouco que conhecemos ou podemos presumir a respeito de Lícon é que pouca importância e autoridade teve no decorrer do processo. onde fora afixada a acusação por Meleto. do povoado de Piteo. de cabelos lisos. também Ânito e Lícon. Estas . logicamente. que. por haver sido essa também uma acusação de impiedade. a influência exercida por Ânito constituiu o elemento mais respeitável no desfecho do processo. do povoado de Alópece. existe outro obstáculo. em 404 a. existem muitas dúvidas. e já havia exercido importantes cargos e magistraturas. a fim de engrandecer o mestre desaparecido. por ordem dos Trinta Tiranos. mas um cidadão podia. A escola cínica. em janeiro de 399 a. Exceto se reputarmos que essa defesa não seja de fato de Sócrates. que conforme ele mesmo afirma na Apologia.. não disse que Meleto era um desses homens.mesmo diferenciando-se bastante entre si . dava a impressão de conhecer Sócrates. Após ter sido enviado ao exílio pelos Trinta Tiranos. Contudo. fundada por Aristipo. mais tarde recresceram transformadas ou degeneradas em outras seitas filosóficas.pensamento socrático.concordam todas pelo menos na característica doutrina socrática de que o maior bem do homem é a sabedoria.C. O acusador era Meleto. não resta dúvida. se a acusação não fosse considerada procedente pelo júri. São bem conhecidas as excentricidades de Diógenes. 425) que desenvolveu o utilitarismo do mestre em hedonismo ou moral do prazer. exagerando a doutrina socrática do desapego das coisas exteriores. que a ele alude como se Meleto fosse seu subordinado. tendo sido o único a recusar-se a obedecer. Acredito chamar-se Meleto. A respeito de saber com exatidão quem era esse Meleto. o herdeiro genuíno de suas idéias. Julgar tratar-se do Meleto que. que foi por ele zelosamente preparado nas reuniões dos diversos cidadãos. embora. de acordo com a própria informação de Andócides: esse Meleto foi um dos que. que. sendo uma delas se se tratava do personagem citado por Aristófanes. 445). que tentou uma conciliação da nova ética com a metafísica dos eleatas e abusou dos processos dialéticos de Zenão. A escola socrática maior é a platônica. A escola cirenaica ou hedonista. o seu mais ilustre continuador foi o sublime Platão. Ânito. por último. e culmina em Aristóteles. filho de Meleto. é aquele que. total responsabilidade. se prestaram a deter Leon de Salamina. À parte o problema da mudança de lado . sendo estratego em 410 a. seria muito conveniente. já que nada corrobora realmente esta pretensão. Isto aparece imediatamente nas escolas socráticas. c. regressou de File com estes e tomou parte da .C. Meleto era o acusador oficial. Estas escolas. dominado pelas altas especulações de Platão e Aristóteles .C. representa o desenvolvimento lógico do elemento central do pensamento socrático . assumindo. que derrotara e expulsara esses mesmos Trinta Tiranos –. 3. juntamente com Trasíbulo e outros.C. além de considerar que Sócrates insiste no fato de que Meleto é desconhecido. e sim escrita por Platão. foi a que segue: "A seguinte acusação escreve e jura Meleto.de partidário dos Trinta Tiranos tornar-se aliado de Ânito. filho de Sofronisco. pouco provavelmente chamaria a atenção de Aristófanes em 405 a. No Eutífron. sustentando-o com a autoridade de seu nome. Dentre os herdeiros de Sócrates. vemos que Sócrates. e.C. porém. verdadeiros continuadores da tradição socrática. assim solucionando o problema que tanta discussão tem provocado. com seu nome sendo citado sempre com evidente desapreço. hábil ou temível. Sócrates é culpado de não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado. respondeu: "Sei bem pouco a respeito dele.C. barba rala e nariz em forma de bico de pássaro". comerciante de couro. sobra a dificuldade de explicar por que motivo Sócrates. valoriza o pensamento dos pré-socráticos desenvolvendo-o em sistemas vários e originais. Desse modo.o conceito . em verdadeiro desprezo das conveniências sociais. pois um jovem poeta de 399 a. nascera por volta de – 150 a. das quais as mais conhecidas são: 1. do povoado de Piteo. Apologia de Sócrates Introdução à Apologia de Sócrates De acordo com Diógenes Laércio. c. é culpado de corromper a juventude. degenerou.

insiste no fato de que. Ártemis e Cérbero. mas à época de Sócrates tudo isso já se encontrava devidamente solidificado. havia sido seu discípulo. Sócrates dera. minianos e jônios. e era necessário arranjar o pretexto para executá-lo. é necessário recordar que Sócrates manteve relações com os Trinta Tiranos: estes não Ihe teriam ordenado a prisão de Leon de Salamina se não o considerassem um deles. e sim afastá-lo de Atenas. nessa época de instalação do regime democrático. como Anfitrite. patente mostra de sua obstinada repulsa aos governos democráticos. um dos aspectos de Zeus. Some-se a isto que Sócrates jamais desejou exercer nenhuma magistratura. ó Sócrates. que tenhas cuidado". Portanto. condenado. Crísias. afirmara-se o culto patriarcal. desprezando a economia doméstica e a riqueza. por conseguinte. da mesma maneira que se dá com condenações por motivos políticos. Réia vem a ser adorada como Hera. provocando ainda o desapreço por tudo que não buscasse a sabedoria. outro aspecto de Zeus. fora discípulo de Anaxágoras. o líder máximo. de fato. isto é. segundo comprova sua atuação no Mênon. em seus três aspectos: lua crescente. em que Zeus era o deus-pai. se quiseres me ouvir. representa Hécate. e não se pode afirmar.Preâmbulo .expedição armada contra o governo dos tiranos. A Tripla Deusa. Ânito manteve relação com Sócrates. seu filho. quanto a Cérbero. lunar e noturno. que consistia em saber que não se sabe? Qual a postura dos políticos diante disso? Que direitos seriam mais opostos aos da democracia do que aqueles originados da experiência e da competência. Anfitrite é esposa de Posêidon. Se a acusação tivesse se dado em épocas mais antigas. E mais: Sócrates menciona a seu favor sua participação no caso do exílio de Querofonte. Era todo o ensinamento socrático que se tornava perigoso. Portanto. Dessa maneira. vindo a ser. isto é. em cujas culturas o patriarcalismo era arraigado. Numerosas revoltas começaram a eclodir com a chegada de contínuas levas de dórios. No que concerne à condenação por motivos religiosos. onde manifesta uma ameaça velada a este: "Afigura-se-me. que juntamente com Trasíbulo fora seu principal defensor. executando os trabalhos mais necessários à sobrevivência e à defesa. era a suprema deusa e gerava uma vez por ano a Dionisos – Zagreus. a exigência de que o piloto do barco conheça seu ofício. seu culto tendo sido de novo extinto durante o período de estabelecimento do culto olímpico. e a superioridade da inteligência sobre os direitos da assembléia popular e soberana? É isso que causou a condenação de Sócrates. o qual. poderíamos presumir que Sócrates teria adotado a defesa do culto da deusa. embora não seja verdade que permanecesse fora do âmbito do governo. não era possível levar em conta as culpas passadas de Sócrates para condená-lo. lua cheia a lua minguante. isso presumindo que existisse alguma. e se isso não ocorreu deveu-se à demasiada teimosia do próprio Sócrates. tornou-se um dos mais eminentes cidadãos de Atenas. Depois da restauração do regime democrático. Ártemis é filha de Zeus. quando afirma "que esses novos deuses da cosmologia jônica eram uma antiga história e que poderia ser uma violação da anistia colocá-los de novo à luz do dia". pois com freqüência era visto discutindo em público. por sua vez. Apologia de Sócrates . sendo fiel guardião dos domínios de Hades. o texto da sentença preocupa-se muito mais em esconder do que apresentar as verdadeiras causas. revela-se. e os jovens. e também Alcebíades. que voltara a ser assunto pela recente inclusão de seu nome entre os envolvidos na profanação dos Mistérios. constituindo as sacerdotisas os verdadeiros líderes das povoações e os homens. Desde a época de Sócrates. expulso de Atenas em decorrência de um processo parecido com o seu. Zagreus torna-se Zeus. e permanece virgem. Mas é preciso frisar que o propósito. Coloquemos a questão com mais clareza: as lendas referem a revolta patriarcal contra o matriarcado. e seus aspectos: marinho. que fosse singularmente prudente ou diplomático em sua maneira de discutir. o mais feroz dos Tiranos. e eu te aconselho. proclamada superior até mesmo pelo oráculo. e não os novos fatos. porém. mas sim por questões evidentemente políticas. seus instrumentos de fertilização e prazer. e a argumentação de Burnet. iriam acabar desrespeitando qualquer autoridade que não se identificasse com a inteligência e a sabedoria. como o próprio Sócrates repete. considerando-se a anistia garantida até mesmo pelo próprio Ânito. em seu comentário à Apologia. não era matá-lo. Querofonte foi obrigado a se exilar. mediante palavras e atos. nem participar de alguma forma do governo de sua cidade. portanto. o homem que sempre se recordava de haver sido discípulo de Arquesilau. A opinião de Platão a esse respeito é bem clara: não foi por razões religiosas que Sócrates recebeu a condenação. durante o mandato dos Trinta. que pode significar tanto o deus desconhecido quanto o deus-carneiro. vemos o réu inverter a ordem das acusações e colocar em primeiro lugar a última imputação: corromper os jovens. enquanto Sócrates pôde permanecer. que com muita facilidade te dedicas à maledicência. ou o Agnos-Deus. o Deus-Agnes. que acabaram por fomentar a rebelião de Zagreus contra seu pai e mãe. bem pouco confiável. convinha afastar de Atenas o mestre de Crísias. As mais importantes orientações da vida eram subvertidas por seu orgulho de ter consciência da sua ignorância. esposa de Cronos. que em vez de escolher o exílio preferiu a proposta de uma multa irrisória. venerada como Réia. a superioridade do saber sobre a aclamação do povo. assim. Ademais. O que significava aquela sabedoria. Tanto isso é verdade que. Nessa fase seria de fato correto crer que alguém sofresse um processo por questões religiosas. um movimento reacionário em termos de culto. pelos testemunhos que possuímos. as múltiplas facetas da deusa prevaleciam. que era sempre devorado pelo tempo. A bem da verdade. em sua defesa.

que propalaram essas coisas acerca de mim. na qual um certo Sócrates aparece andando de lá para cá. porque deposito confiança na justiça do que digo. Defender-me-ei. pois à lei é necessário obedecer e defenderse. embora estes sejam acusadores perigosos. que não consigo compreender nem um pouco. e em outros lugares. não corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos. que não me ocupo desses assuntos. eis o que me pareceu a maior de suas insolências. na minha defesa. exceto o de um comediógrafo. atenienses. me espantou das muitas perfídias que proferiram: a recomendação de precaução para não vos deixardes seduzir pelo orador formidável que sou. senhores. não ficaria bem a um velho como eu vir diante de vós modelar seus discursos como um rapazinho. A Defesa de Sócrates Primeira Parte Diversidade Entre Duas Antigos e os Recentes Categorias de Acusadores: os Em princípio. ao mostrar-me um orador nada formidável. em contraste com eles. Uma. sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação. E se eu for bem-sucedido. esses todos não podem ser encontrados. tal o poder de persuasão de sua eloqüência. que influência tiveram meus acusadores em vosso espírito. um pedido. fizesse contra mim uma acusação tão grave! Eu só vos asseguro. ó atenienses. acompanhando Meleto. atenienses. e depois das mais recentes acusações e dos novos acusadores.Desconheço atenienses. de verdades eles não disseram alguma. ó cidadãos. e recorro à maioria de vós para que sirvam de . Pois muitos que se encontram entre vós já me acusaram no passado. e de outro. A acusação possui mais ou menos este teor. afirmando que caminha em cima das nuvens. vós deveis vos certificar de que existem duas categorias de acusadores: de um lado. por inveja ou por vício em fazer falsas acusações. o que é mais grave. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade. que transforma as razões mais fracas nas mais consistentes. E esses acusadores são muito numerosos e me acusaram há bastante tempo. uma súplica premente. procurando transformar a mentira em verdade e ensinando-a às pessoas". e assim descobrirei se aquela calúnia. de mim. Verdadeiramente. e. que esquadrinha todos os segredos obscuros. eu admitiria que. sou um orador. procuraram colocarvos contra mim. aprimorados em substantivos e verbos. De verdades. Portanto. ou os que pretenderam convencer os outros por estarem verdadeiramente convencidos e de boa fé –. Bem sei quanto isto é difícil e tenho plena consciência da enorme dificuldade que me espera. Nisso reside o mérito de um juiz. nos termos que me ocorrerem. a fim de me defender só posso lutar contra sombras. talvez melhor. e outro amontoado de tolices. e então reconhecereis que devo defender-me destes em primeiro lugar. Estes. completamente estrangeiro à linguagem do local. ó atenienses. nem acusar ninguém por difamação. na qual Meleto se baseou para redigir sua acusação neste processo. E o que é mais assombroso é que seus nomes não podem sequer ser citados. nem espere outra coisa qualquer um de vós. sinto-me. onde tantos dentre vós me haveis escutado. como crianças que deviam ser educadas. porque. Defesa Contra os Antigos Acusadores Calúnia a Respeito do Saber de Sócrates Vamos começar desde o início e examinar que tipo de acusação motivou essa calúnia. se é o que entendem. as pessoas acreditam que quem se dedica a tais investigações não admite a existência dos deuses. a mim próprio. o de um orador. ó atenienses. não a estranheis nem vos revolteis por isso. peço-vos nesta oportunidade a mesma tolerância. Com efeito. Faço-vos. portanto. acusaram-me obstinadamente. contudo. se é mesmo verdade que haja cientistas de tais ciências. não ouvireis discursos como os deles. será excelente para vós e para mim. que é de justiça a meu ver. vós ouvireis a verdade inteira. repito-o. sem que eu contasse com alguém para me defender. e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. em estilo florido. que martiriza meu coração há tanto tempo. a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça. e investigando o que existe embaixo da terra e no céu. aqueles que convivendo com a maior parte de vós. os que me acusam há pouco tempo. Mas não por Zeus. Que afirmavam meus detratores? Façamos de conta que se trate de uma acusação juramentada de acusadores reais e dos quais seja preciso ler o texto: "Sócrates é réu de haver-se ocupado de assuntos que não eram de sua alçada. ó atenienses. e assim. e esses me causam bem mais temor do que Ânito e seus amigos. em resumo. junto das bancas. Assististes a alguma coisa semelhante na comédia de Aristófanes. em verdade. serão expressões espontâneas. se conseguir acarretar-vos algum benefício com a minha defesa. sobretudo. que poderia ser talvez pior. porém. homem de muita sabedoria. ao ouvi-los. que especula a respeito das coisas do céu. Seja como for. caluniaram-me quando vós tínheis aquela idade em que é bastante fácil – alguns de vós éreis crianças ou adolescentes – dar crédito às calúnias. e. assim. porém os outros – os que. não disseram nenhuma. Mas os primeiros são muito mais perigosos. é legítimo que eu me defenda das calúnias das primeiras acusações que me foram dirigidas e dos primeiros acusadores. nem se pode exigir que ao menos alguns deles venham até aqui. os que já me acusam há bastante tempo e dos quais tenho falado a respeito. se ouvirdes. quase me fizeram esquecer quem sou. possa ser extirpada. Que tudo se passe de acordo com a vontade do Deus. embora deva fazê-lo em tão curto prazo. Não faltaria quem. são os acusadores que mais receio. para a minha linguagem. porém. E não digo isso por julgar aquelas ciências coisas vis. em dizer a verdade. Se eu fosse de fato um estrangeiro. e acusar de mentiroso a quem não responde. sempre faltando com a verdade. procuraram convencer-vos de acusações não menos caluniosas contra mim: que existe um certo Sócrates. Ainda mais porque esses acusadores fizeram-se ouvir por vós antes e mais demoradamente do que aqueles que vieram depois. salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verdade.

Pródico de Ceo e Hípias de Élida. mas talvez não o fosse de verdade. entre os que possuem reputação de serem mais sábios que aqueles. se me afigure coisa em absoluto nada condenável. tantas vozes não teriam se erguido se tivesses te comportado como todos se comportam Conte o que fizestes. E a respeito de ser sábio. Ouvi também referências a outro homem. no entender de muitas pessoas e especialmente de si mesmo. que tivesse a capacidade de Ihes ensinar as virtudes para serem acrescentadas à sua natureza. Procurei fazê-lo compreender que embora se julgasse sábio. que não é meu depoimento. Mas enquanto estava analisando este – o nome não é necessário que eu vos revele. que quer dizer o deus ao afirmar que sou o mais sábio dos homens? Com certeza não mente. neste sentido. uma sabedoria estritamente humana. e também este me dedicou ódio. mas o de uma testemunha que merece toda a vossa confiança. ao contrário. não se deveu ao fato de que nada fizeste fora do comum. mais ainda. porque não sei. se teus dois filhos fossem dois potros ou duas vitelas. enquanto eu. ó cidadãos. Procurarei esclarecer-vos a respeito da causa dessas calúnias contra mim. Mesmo que. e quem diz o contrário mente. como não sabia. comecei a investigar acerca disso. . este com que. Afastei-me dali e cheguei à conclusão de que era mais sábio que aquele homem. E longamente me mantive nesta dúvida. e tive a impressão de que. também não julgava saber. aos quais seria mais fácil. fosse mais sábio que ele. não só ele passou a me odiar. e me ocorreu exatamente a mesma coisa. das virtudes do homem e cidadão? Acredito que pensaste a respeito disso quando puseste os filhos no mundo. e eles se tomariam cavalariços ou agricultores. e então compreendereis que tudo o mais que dizem sobre mim possui o mesmo valor. que nós. enfim. basta dizer que era um de nossos políticos –. isto também não passa de mentira. Escutai-me. mas teus filhos são homens. Existe alguém capaz de fazê-lo? – Claro que sim – respondeu-me. e. ou seja. fiz a experiência que irei descrever-vos. Era meu amigo desde o tempo da juventude e pertencente ao vosso partido popular. partiu no último exílio em vossa companhia e regressou também em vossa companhia. pois não desejamos julgar-te irrefletidamente". apenas com o intuito de caluniar-me. então: tencionas proporcionar-lhes? Quem entende das virtudes que Ihes são necessárias. – E quem é ele? – indaguei-lhe. que educação. e sem ter de gastar dinheiro. E seu preço é cinco minas – respondeu-me. ao menos numa pequena coisa. nem acredito sabê-lo. analisando e raciocinando em conjunto. e este homem aparentava ser sábio. homem que gastou mais dinheiro com sofistas do que qualquer outro ateniense.testemunhas. refleti da seguinte maneira: "Que pretende o deus dizer? Qual é o significado oculto do enigma? Tendo em vista que eu não me considero sábio. Aí procurei um outro. contudo eu não sei. Esses valorosos homens percorrem as cidades com o propósito de instruir os jovens. A pitonisa respondeu que não existia ninguém. se é de fato possuidor dessa doutrina e a ensina a tão baixo preço. embora possais ter a impressão de que eu esteja proferindo palavras por demais fortes. Peço que revelem publicamente quantos de vós já me ouviram falar a respeito dessas coisas. como também muitos dos que se encontravam presentes. se muitos te acusaram. mas afirmo que não a conheço. Ó atenienses. estou falando sério. O Que é o Saber de Sócrates O Oráculo de Delfos Algum de vós poderia questionar-me: "Ó Sócrates. filho de Hipônico. Resumindo: nada existe em tudo isso que corresponda à verdade. Ao passo que esses. que possui muita sabedoria e veio morar em Atenas. não. Fui ter com um daqueles que possuem reputação de sábios. ao arrepio de minha vontade. Todos vós conheceis Querefonte. se de fato se trata de sabedoria. podíamos não saber nada de bom. invocarei como testemunha. ó atenienses. É possível que alguns entre vós creiam que eu esteja brincando. ou seja. se ouvistes alguém declarar que instruo os homens em troca de dinheiro. se alguém se propõe a instruir homens como fazem Górgias de Leontini. mas aquele acreditava saber e não sabia. e o soube por intermédio de Cálias. ó atenienses. a partir daquele momento. receio possuir esta única sabedoria. Em vista disso. de quem vos falava há pouco. portanto. Pesquisa Junto aos Políticos Saberão agora o motivo pelo qual vos relato isso: meu intento é pôr-vos a par de onde se originou a calúnia contra mim. e de sua natureza. é verdade que adquiri renome por possuir certa sabedoria. E que tipo de sabedoria é essa? Possivelmente. julgando que somente assim poderia desmentir o oráculo e responder ao vaticínio: "Este é mais sábio que eu e afirmastes que era eu". nem de belo. Após ter ouvido a resposta do oráculo. Perguntei a ele: – Cálias. o próprio deus de Delfos. e convencem esses jovens a preferir a sua companhia à dos seus. pois ele não pode mentir". – de onde é e quanto cobra para ensinar? – Eveno de Paros. parabenizei esse tal de Eveno. Sabeis que tipo de homem era Querofonte e de como era determinado em suas resoluções Dirigiu-se em certa ocasião a Delfos e atreveu-se a perguntar ao oráculo se existia alguém mais sábio que eu. o que fazes então? Que motivo originou essas calúnias? Com certeza. Peço-vos para não fazer algazarra. talvez sejam possuidores de uma sabedoria sobre-humana. diante de vós. não o era. No íntimo. recebendo em troca dinheiro e ainda por cima gratidão. fazer-se instruir por um de seus concidadãos. eu e ele. Por fim. de Paros. De minha sabedoria. Como testemunho deste fato se prestará o irmão de Querefonte. Eu mesmo me orgulharia se fosse capaz de tal coisa. juntamente com muitos outros. em virtude de este haver falecido. terias de contratar e pagar uma pessoa que tomasse conta deles.

que de sua arte tinha a consciência de não conhecer nada. porque o desconhecem. nem sabedor de minha sabedoria nem ignorante de minha ignorância. Por sinal. As Muitas Inimizades e a Acusação Vós tendes conhecimento de que os jovens que dispõem de mais tempo que os outros. como os adivinhos e vaticinadores. por sua própria conta. não querem dizer a verdade. fiz numerosas e perigosíssimas inimizades. E outros. mas não conhecem nada do que dizem. a fama de sábio. também os artesãos famosos apresentavam o mesmo defeito dos poetas: por conhecerem muito bem sua arte. e todos da mesma opinião nesta difamação a meu respeito e com argumentos que podem parecer também convincentes. porque. dizem as coisas que comumente são ditas contra todos os filósofos. em nome do oráculo. toda vez que participava de uma discussão. De forma que eu. até mesmo em outros assuntos de maior realce e dificuldade. Sócrates. seguemme de livre e espontânea vontade. mas por uma propensão e inspiração natural que eu desconheço." Por isso. se existe alguém entre os atenienses ou estrangeiros que possa ser considerado sábio e. porém. o que faz e o que ensina este Sócrates para corromper os jovens?". com desagrado e assombro. é muito sábio entre vós aquele que. de contar-vos a verdade! Mas é obrigatório que eu a diga. igualmente a Sócrates. sem ocultar-vos nada. e se regozijam em assistir a esta minha análise dos homens. porém. com a certeza de ser mais sábio que eles. sem escrúpulo algum encheram vossos ouvidos com suas calúnias. contudo. que dizem de fato muitas coisas belas. de acordo com a palavra do deus. como acho que ninguém o seja. Este é o motivo pelo qual. dirigi-me aos artesãos. dizia a mim mesmo. É por esta razao que ainda hoje procuro e investigo. naturalmente. A verdade. e. nada respondem. pelo mesmo motivo que era mais que os políticos. e então. indaguei a mim mesmo se deveria permanecer tal como era. e aproximadamente o mesmo. julgavam-se os mais sábios dos homens até mesmo em outras coisas em que realmente não o eram. porém. seria de fato um verdadeiro milagre se eu tivesse a capacidade de arrancar-vos do coração esta calúnia que possui raízes tão firmes e profundas. declarando que Sócrates é homem por demais infame e corruptor dos jovens. e este importante defeito deslustrava toda sua sabedoria. ó cidadãos. afigurava-se-me impossível deixar de atentar para as palavras do deus. todas as outras pessoas presentes discorriam melhor a respeito do que os poetas haviam escrito que os próprios autores. sem fama alguma. só para não evidenciar que estão confusos. e a partir destas inimizades surgiram muitas calúnias. e eles sabiam que eu os considerava conhecedores de numerosas e belas coisas. e que também ensina a não acreditar nos deuses e apresenta como melhores as piores razões. Mas desejo terminar de relatar-vos minhas peregrinações e as fadigas que sofri para convencer-me de que a palavra do oráculo era incontestável. lançaram-se contra mim Meleto. conforme a palavra do deus. como vos disse desde o início. E tomado como estou por esta ânsia de pesquisa. e entre as calúnias. Peguei suas melhores poesias. é levo uma existência miserável por conta deste meu serviço ao deus. ó atenienses. pelo fato de fazerem poesias. "Se almejas saber o que o oráculo quer dizer".Não obstante isso. O Verdadeiro Saber Consiste em Saber Que Não se Sabe Em virtude desta pesquisa. Então afastei-me deles. Esta é. diante disto. como eles. por intermédio de seu oráculo. E se alguém indaga: "Afinal. Ânito e Lícon: Meleto profundamente irado por causa dos poetas. juro-vos que este foi o resultado da minha pesquisa: os que eram famosos por possuírem maior sabedoria. Desta maneira. as que considerava mais bem construídas. E compreendi também que os poetas. e eu a revelo por completo. Em seguida aos políticos. ambiciosos. A verdade. Pesquisa Junto aos Artesãos No final. porque dessa maneira aprenderia alguma coisa com eles. ó atenienses: quem sabe é apenas o deus. além de afirmar que ele especula sobre as coisas que se encontram no céu e as que ficam embaixo da terra. é o que ocorre entre os poetas. os filhos das famílias mais ricas. fui procurar os poetas. ambas as coisas. aqueles que são analisados por eles voltam-se contra mim e não contra quem os analisou. Ânito por causa dos artesãos e dos políticos. as pessoas julgavam que eu fosse sábio naqueles assuntos em que somente punha a descoberto a ignorância dos demais. e ele quer dizer. inúmeras vezes procuram imitarme e tentam. pareceram-me quase todos em maior erro. descobri que não era por nenhum tipo de sabedoria que eles faziam versos. ó atenienses. cada um deles julgava-se extremamente sábio. embora saiba que sou odiado por muitos exatamente por isso. que muito pouco ou nada vale a sabedoria do homem. venho em ajuda ao deus provando que nao há sábio algum. náo se refere propriamente a mim. e. tanto os que escreviam ditirambos' e tragédias como os demais. Resumindo. eles conheciam coisas que eu não conhecia. a verdade. Logicamente. e indaguei aos próprios poetas o que eles pretendiam dizer. nem mesmo esquivando-me dela. deparam-se com numerosos homens que julgam saber alguma coisa e sabem pouco ou nada. finalmente. e isto eu percebi com clareza. continuei diligentemente com minha pesquisa. se me afiguraram melhores e mais sábios. ao afirmar que Sócrates é sábio. ó atenienses. que todos passaram a me odiar e que. e respondi a mim e ao oráculo que convinha continuar tal qual eu era. Contudo. embora notando. é outra. tenha admitido que sua sabedoria nao possui valor algum". Porém. dominados pela paixão e numerosos como são. mas só usa meu nome como exemplo. convencido de que diante daqueles confirmaria minha ignorância e sua superioridade. Estou com vergonha. é que esses homens demonstraram ser pessoas que dão a impressão de saber tudo. não me restou mais tempo para realizar alguma coisa de importante nem pela cidade nem pela minha casa. E não me equivoquei. e nisso eram mais sábios do que eu. Lícon por causa dos oradores. como se tivesse dito: "Ó homens. conforme minha pesquisa. devo dizer-vos de novo a verdade. "deves visitar todos aqueles que possuem reputação de sabedoria. é . analisar alguma pessoa.

Meleto. SÓCRATES: — Todos os atenienses que te ouvem tornam os jovens bons e belos. dize aos juizes o que os faz melhores. aos juizes o que os torna melhores. Indagai quanto quiserdes. viver entre bons cidadãos ou entre maus cidadãos? Amigo. deve ter conhecimento. realmente. SÓCRATES: — Como sou infeliz! Mas responde-me a isto: também com os cavalos crês que seja assim? Que todos os homens os tornem melhores e somente um os mutile? Ou. responde: que os faz melhores? MELETO: — As leis. Meleto. conforme dizes. Agora dize-me. de não crer nos deuses nos quais a cidade crê e também de praticar cultos religiosos extravagantes". homem digno e patriota. com os cavalos e com todos os seres vivos? Com certeza é assim. . na verdade. que somente um os torne melhores. como ele mesmo se define. todos. e prova suficiente do que afirmo: que nunca te preocupaste com estes assuntos? Vamos. SÓCRATES: — Dize. Não julgas de suprema importância que os jovens consigam se tornar os melhores possíveis? MELETO: — Julgo. Meleto afirma que corrompo a juventude. prossegue. Meleto. e eu digo. SÓCRATES: — Dizes bem. que estes possuem a capacidade de educar os jovens e torná-los melhores? MELETO: — Afirmo. Indago-te qual é o homem que. aqueles que são peritos em cavalos. SÓCRATES: — Não se trata disto. sou eu quem os corrompe. É isto que queres dizer? MELETO: — Exatamente isto. ao contrário. SÓCRATES: — Crês que todos. Declarou mais ou menos isto: "Sócrates é réu de corromper os jovens.outra prova de que digo a verdade. ó excelente homem. conforme afirmas. agora ou depois. Vês. por Hera! E grande a quantidade de bons educadores! Também estes que estão nos ouvindo tornam os jovens melhores ou não? MELETO: — Sim. ou alguns sim e outros não? MELETO: — Todos. E procurarei provar-vos que isso é a pura verdade. sem saber o que dizer? E isto não te se afigura vergonhoso. ou faço isto sem querer? MELETO: — Afirmo que é por querer. e dos acusadores que virão depois. também estes. Seria uma grande felicidade para os jovens se correspondesse à verdade que somente um Ihes causa danos e todos os outros os educam e melhoram. digam Ânito e tu mesmo que sim ou não. Mais ainda. demonstrei que nunca tiveste preocupação com as coisas pelas quais me trouxeste diante deste tribunal. MELETO: — Estes. procurarei em seguida defender-me de Meleto. e recebereis sempre a mesma resposta. exceto eu. SÓCRATES: — Quer dizer. SÓCRATES: — Pode existir alguém que esteja com eles e que prefira receber o mal em lugar do bem? Responde. que talvez aqueles das Assembléias Populares corrompam os jovens? Ou também aqueles os tornam melhores? MELETO: — Também aqueles. SÓCRATES: — Afirmas. Vamos. ó Meleto. em primeiro lugar. das leis. Portanto. Pode existir alguém que prefira receber o mal? MELETO: — Não. ó Meleto. já que demonstrei a contento que tu nunca te preocupaste com os jovens. Com certeza o sabes. então. ó atenienses. Também a lei deseja que respondas. como ficas calado. Mas. meu amigo. nunca se preocupou. o que mais convém. SÓCRATES: — E os senadores? MELETO: — Também os senadores. e que os demais se sirvam dos cavalos e os mutilem? E não acontece assim. responde. Vou começar desde o início e como se na verdade dissesse respeito a outra espécie de acusadores. Os maus não prejudicam aqueles que Ihes são próximos? E os bons não Ihes fazem o bem? MELETO: — Com toda a certeza. mostra-te e responde. ou poucos. que o réu é o próprio Meleto. SÓCRATES: — Então. ó Sócrates. com o intuito de fazer crer que se preocupa com coisas com as quais. e por este motivo citaste-me diante do tribunal e me acusaste. isso é o bastante para a defesa das culpas a mim atribuídas. pois esta é uma preocupação tua e descobriste quem os corrompe. Meleto. Analisemos esta acusação minuciosamente. excelente homem. então. então. os juizes. e que esta é a calúnia contra mim e esta a causa. Defesa Contra Meleto No que diz respeito aos meus primeiros acusadores. porque aborda com leviandade assuntos sérios e tão inescrupulosamente leva homens diante do tribunal. analisemos também o ato de acusação deste. não é difícil o que te pergunto. Meleto Não Sabe o Que é Educar Nem Corromper Meleto. trouxeste-me a este tribunal porque corrompo os jovens por querer è os torno maus.

ó atenienses. é por causa disso que me trazes a este tribunal. que a . e que os bons façam o bem. eu corrompo a juventude? Não o faço. é impossível. mas sim que existam sons de flauta? Não ha ninguém. ensinando-os a não acreditar nos deuses nos quais a cidade acredita.SÓCRATES: — Quer dizer. se não queres responder. embora as leis estabeleçam que aqui sejam trazidos somente os que devem ser castigados. que tenhas escrito contra mim uma acusação como esta. e sim outros. ou é necessário dizer que não sabias do que me acusar? Mas que consiga convencer quem quer que seja. mas sim que faça com que seja afastado. Meleto Acusa Sócrates de Ateísmo e se Contradiz Neste momento. conforme dizes. e não censurados. ainda mais sendo tão extravagantes? Por Zeus. Por isso. Ou seja. ó atenienses. pois se naqueles que acredito são deuses. ó Meleto. que pensas conhecer melhor do que eu que os maus sempre causam algum mal. e é claro que. Mas se acredito em coisas demoníacas. acusas-me de acreditar em coisas demoníacas e de ensiná-las. com certeza. não mais farei o que fazia sem querer. Se eu os corrompo sem querer. de que maneira. tanto para mim como para estes juizes. explica-te com maior clareza. SÓCRATES: — Ninguém acredita em ti. ó Meleto. Na verdade. por conseguinte. no caso de saber disso. ensinando estas coisas que os corrompo? MELETO: — Sim. que o sol e a lua sejam deuses? MELETO: — Com certeza. ou. Existe alguém. que o estou ridicularizando e me contradigo? Ou conseguirei enganá-lo e a todos aqueles que me ouvem?" Com efeito. da mesma maneira que os outros homens. quem poderá pensar que existam filhos de deuses e de deuses não? Seria disparate igual se pensasse que os mulos fossem filhos de jumentos e cavalos e que estes últimos não existissem. se os corrompo. parece-me que Meleto se contradiz na acusação. e quem escreveu esta acusação foi desaforado e a escreveu por atrevimento e desrespeito juvenil. na tua idade. embora não acreditando na existência dos deuses. são também filhos bastardos gerados por ninfas ou outras mães. tua sabedoria sendo maior que a minha. Meleto. pois afirma que o sol é uma pedra e a lua é feita de terra. E isto significa desejo de se divertir. e não criai tanta agitação por causa de uma palavra. tendo eu os anos que tenho. eu me empenhe em torná-los maus? Não me persuadirás disto. a ti e aos outros que aqui se encontram. ó Meleto. Responde. Apesar disso. SÓCRATES: — Quanta satisfação me proporcionou tua resposta. como afirma com clareza a acusação que apresentaste contra mim. pensas de fato que eu não acredite em deus algum? MELETO: — Em nenhum. devo obrigatoriamente crer em demônios. como se declarasse: "Sócrates é réu de não acreditar nos deuses. creio que não consegues persuadir nem a ti mesmo. então. SÓCRATES: — Ó excelente Meleto! Por que dizes que não acredito. dize-nos. de acordo com tua opinião. É como se alguém desejasse por-me à prova compondo uma espécie de enigma: "Dar-se-á conta Sócrates. mas não em demônios? MELETO: — É completamente impossível. a ponto de não saberem que os livros de Anaxágoras de Clazomena estão repletos destes ensinamentos? E por que motivo os jovens iriam aprender de mim estas coisas que por uma simples dracma podem comprar na ágora e zombarem de Sócrates. Nem acredito que possas persuadir a ninguém. como já vos exortei no começo. ó juizes. se este as apresentasse como suas. Parece-me que aceitas. se estes demônios são filhos dos deuses. recordai-vos de não me interromper se continuo a raciocinar à minha maneira. Meleto. por faltas involuntárias. quando declaras que eu. não sou ateu e. se afirmas que existem demônios. mas em outras divindades novas? Não é. é neste ponto que eu digo que fazes enigmas e brincadeiras. mesmo se fraco de intelecto. mas também de acreditar nos deuses". Portanto. SÓCRATES: — Ora. afirmo a sua existência. faço-o sem querer. em acusar também Anaxágoras? E tens em tão pouca estima e reputas tão ignorantes nas letras a estes juizes. não é assim? Com certeza é assim. Mas responde ao menos à pergunta seguinte: existe quem possa acreditar em coisas demoníacas. se estes demônios são deuses. E vós. por que são outros ou por que afirmas que não acredito de maneira alguma nos deuses e ensino isto aos jovens? MELETO: — Eu afirmo que não acreditas de maneira alguma nos deuses. é bastante evidente aquilo que eu afirmava: que Meleto nunca se preocupou com essas coisas. mas sim nas coisas relativas a cavalos? E que não acredite na existência de flautistas. Tens evitado encontrar-te comigo e advertir-me. não existe lei alguma que poisa me obrigar a vir até aqui. embora tenhas sido obrigado pelos juizes. não o quiseste fazer de forma alguma e me trazes aqui. uma vez que digo existirem demônios. não posso ser culpado disso. meu bom Meleto. aquele grande sábio. eu mesmo respondo. então. não corrompo os jovens. porque não consigo compreender a quais deuses eu ensino que os jovens devem acreditar. tudo isto se me afigura desaforado e atrevido. principalmente àqueles mais próximos deles. e que eu ignore essas coisas a ponto de não saber que se se torna mau a um deles corre-se o risco de receber algo mau dele e que. E não consideramos estes demônios filhos dos deuses? MELETO: — Logicamente. ó Meleto. é isto que afirmas e que juraste no teu ato de acusação. ó Meleto. cidadãos de Atenas. que acredite na existência de fatos humanos e não em homens? Fazei com que responda. a fim de advertir-me ou censurar-me. exceto que haja sido para pôr-me à prova. e naquilo que afirmas. De outra forma. já que não contestas. Há quem não acredite na existência de cavalos. eu digo exatamente isto. SÓCRATES: — Pensas. uma vez advertido. analisai comigo de que maneira creio que ele se contradiz. mesmo que não sejam os da cidade. de maneira que em ambos os casos mentes. SÓCRATES: — Em nome desses mesmos deuses a respeito dos quais agora falamos. Ó atenienses.

receando muito mais viver miseravelmente sem vingar o amigo. Por outro lado. mas o interrogaria. desde o começo. eu o envergonharia demonstrando-lhe que considera infames as coisas mais estimáveis e de valor. arriscando minha vida. atenienses. atenienses ou estrangeiros. isto bem sei que é coisa vergonhosa e indecente. e se me atrevesse a dizer que em alguma coisa sou mais sábio que os outros. Isto. Mas ser injusto e desobedecer a quem é melhor que nós. que agora coloca em risco tua vida?" Eu responderia a este: "Não falas bem se pensas que alguém. Ao ouvir tais palavras. receia a morte e julga ser sábio sem sê-lo. quando sua mãe. morrerás". que a mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar nem em demônios. não te envergonhas de haveres exercido tal atividade. que me sois mais estritamente próximos. a fim de que ela . Com efeito. não será nem Meleto nem Ânito. seja deus. sem te preocupar em cuidar da inteligência. se. estariam inapelavelmente perdidos e corrompidos. ao receber ordens do deus. assim diria: "E tu. eu vos responderia: "Ó atenienses. receiam-na como se soubessem que ela é a maior das desgraças. O que eu vos disse. e vindo de muitas pessoas. e enquanto for capaz. digo. que meu comportamento seria anormal e excêntrico se. declarava não ser necessário que eu viesse até este tribunal. mas obedecerei primeiro ao deus do que a vós. de que não deveis vos preocupar nem com o corpo. e. e declarou: 'Rapidamente eu morra. acredito. dado que significa pensar saber aquilo que não se sabe. que era impossível não condenar-me à morte. deva calcular os riscos de vida ou de morte e não deva olhar o injusto e se pratica as ações de homem honesto e corajoso ou de infame e mau. como ocorre diante dos males que sei que são nefastos. A Missão Divina Fazer o Que é Justo. também nada penso saber a esse respeito. cidadão da maior cidade e mais célebre por sabedoria e poder. agora. nem te ocupes mais de filosofia. para que se tornem tão boas quanto possível?" E se algum de vós retrucasse que cuida de fato delas. o analisaria. uma deusa. se. o impugnaria. e enquanto tiver ânimo. somente por isto o diria. Anfípolis e Délio. com este meu caminhar não faço outra coisa a não ser convencer-vos. esta calúnia e esta raiva das pessoas. é verdade. também morrerás'. e a quem quer que eu encontrasse de vós. Seria algo. em qualquer ocasião. uma vez aqui trazido. logo após ter castigado a quem matou. contra a vontade de Ânito que. ó atenienses. creio. atenção a Ânito e deixamos-te livre. seja homem. não pararei de filosofar. que como não sei nada de preciso a respeito das coisas do Hades. daquele momento em diante. ateniense. que um profundo ódio ergueu-se contra mim. pela qual deveria viver filosofando e dedicando-me a conhecer a mim mesmo e aos outros. por acaso. como dizia. que és o melhor dos homens. vós não desconheceis. desde que não empregues mais teu tempo nessas pesquisas. ou onde tenha sido instalado por quem ordena. ó cidadãos. a mais vergonhosa das ignorâncias. Acreditas que Aquiles tenha pensado na morte e no perigo?" É assim que deve ser. teriam sido néscios todos os heróis que morreram em Tróia. nem que para isso me torne objeto de desprezo'. não pretendemos dar. ao contrário. mesmo que me concedesses a liberdade. de fato. isto é o bastante para demonstrar que não sou culpado das acusações de Meleto. nem em heróis. pois não se faz necessária uma defesa muito longa. nem com qualquer outra coisa antes e mais que com a alma. que. que onde alguém se haja instalado. seus filhos prosseguindo a praticar os ensinamentos de Sócrates. Chega. Portanto. mesmo sendo pequeno. ou. disse-lhe. desde o início. anormal e. me dissésseis: "Ó Sócrates. atenienses.mesma pessoa que acredita em coisas demoníacas possa não acreditar em coisas divinas e. da verdade e da tua alma. deve ficar e enfrentar os riscos e não pensar na morte. existiriam então motivos para trazer-me aqui no tribunal como sendo um desumano que não cresse nos deuses. não pararei de estimular-vos e censurar-vos. nem com as riquezas. não te envergonhes de pensar em acumular o máximo de riquezas. lá fiquei. Por isso. as infames. ela não seja o maior de todos os bens que podem ser dados ao homem e. e se algo me causará dano. e se me afigurasse que não possui virtude mas apenas afirma possuí-la. tamanho desdém mostrou pelo perigo. E. mas sim este ódio. ao passo que em Potidéia. nem em deuses. à exceção de na desonra e na vergonha. E não é ignorância. jovens e velhos. repito. considerando ser aquele seu lugar mais honroso. E agiria assim com qualquer um que eu quisesse: jovens ou velhos. outros ainda irão perder. Aquiles negligenciou o perigo e a morte. se vingares a morte do teu companheiro Pátroclo e matares Heitor. dizia. Obedecer ao Deus Permanecer no Lugar Adequado. não havendo perigo que causem somente a minha perda. contudo. fama e honras. acompanhando este teu raciocínio. sem se envergonhar. Em verdade. ó atenienses. é ordem do deus e estou convencido de que haja para vós maior bem na cidade do que esta minha obediência ao deus. ninguém sabe se. não o deixaria afastar-se nem iria embora. e o mais néscio de todos seria o filho de Tétis que. aqui. Pessoas estas que já causaram a perda de tantos outros e valorosos homens. acreditar saber o que não se sabe? Ora. em verdade. se bem me lembro: 'Ó filho. ao menos conforme pude ouvir e interpretar essa mesma ordem. se consigo safar-me da condenação. tu. com esta condição me deixásseis em liberdade. por temor à morte ou a outra desgraça semelhante. como qualquer outro. acredito distinguir-me por este motivo e precisamente neste ponto da maior parte dos homens. nem em outra desgraça qualquer. porque. Declaro-vos. já que desobedece ao oráculo. e se fores surpreendido a praticar ainda estas coisas. tivesse desertado do posto a mim designado pelo deus. Algum de vós poderia talvez altercar-me: "Sócrates. isto é impossível. estando ele ávido do sangue de Heitor. nunca acontecerá que eu fuja diante daqueles de que não sei se por acaso não são bens. recear a morte não passa de julgar ser sábio e não sê-lo. quando os comandantes que vós elegestes me designaram uma posição. tendo a capacidade de fazer algum bem. aí. conversando da minha maneira habitual. ao ouvir este raciocínio de Ânito. de outra forma. vós sabeis. eu vos amo. e também com vós.

É como uma voz que possuo dentro de mim desde criança. e nunca me convence a realizar qualquer outra coisa. E se for eu mesmo a pessoa indicada pelo deus para presentear a cidade. absolver-me-eis ou não. desta não tiveram o despudor de me acusar. então me falte coragem. aqueles dez capitães que não haviam recolhidos os náufragos e os mortos depois da batalha naval das Arginusas. pois é a verdade. ao contrário. cuidando das vossas. Não existe homem que possa se salvar ao opor-se com sinceridade. condenar-me-eis à morte. ó cidadãos. não possui importância alguma para mim. teria sido morto também num curto espaço de tempo e não teria realizado nada de útil. lutando para que nada fosse feito contra a lei. e sempre. E isto ocorreu quando a cidade ainda era regida por uma democracia. condenando-me à morte. estando a vosso lado. e sim com fatos. pondo-me frente a frente com uma testemunha. depois que surgiu a oligarquia. exceto uma vez em que fiz parte do Conselho. de viver de forma privada e não exercer funções públicas. aponta no ato da acusação. contra o dom do deus. ó atenienses. e em seguida acolhestes todos ao meu parecer. que provasse ter eu recebido uma única vez compensação ou de havê-la solicitado. penso que seja um mal bem mais grave aquele que é cometido por esses que tentam condenar à morte um homem inocente. ao se tratar de aconselhar a cidade e de ir à tribuna para falar ao povo. que outro como eu não nascerá facilmente. na tentativa de envolver em seus atos cruéis o maior número de pessoas possível. mas que vos limitásseis a ouvir. que se eu tivesse. Ademais. não me causareis maior dano que podeis causar a vós mesmos. Mas se estais irritados comigo como o que está em vias de adormecer com quem o desperta. mas do que mais necessitais: fatos. um por um. se de fato pretende escapar da morte. mas pelo seu próprio tamanho. tenha sido colocado de fato pelo deus aos flancos da cidade como aos flancos de um cavalo grande e de boa raça. e golpeais como a matar um inseto inoportuno. E não me desprezei se falo assim. Afirmo. E o motivo disso me haveis ouvido dizer várias vezes e em vários lugares. não fazei assim. me ocupado dos negócios de Estado. a mim que sou como vos disse. para que este viesse a morrer. e de que das riquezas não se origina a virtude. então diz coisas insensatas. condenar-me à morte. mas de não cometer injustiças ou . Repugnância e Abstenção Socrática da Política Comum É possível que pareça estranho eu me encontrar sempre próximo e me dar tanto ao trabalho de fornecer conselhos a este ou àquele em particular. Por tudo isso. mas. não riam da comparação. por obediência a Ânito. e não palavras. se. Daquilo que afirmo eu mesmo posso oferecer-vos provas cabais. que existe em mim não sei que espírito divino e demoníaco. ó cidadãos. Sabeis perfeitamente. e depois. um pouco lerdo e necessitado de estímulo. se a palavra não soar por demais vulgar. para convencer-vos a buscar a virtude. Os oradores habituais já estavam prontos para suspender-me da função e aprisionar-me. não encontrarão facilmente um outro igual a mim. ó atenienses. que me acusaram tão despudoradamente de tantas outras culpas. eu dou: a minha pobreza. tanto para os cidadãos individualmente como para o Estado. de qualquer forma. ou ao desterro. Tendes conhecimento. E davam ordens semelhantes a vários outros homens. que não necessitais pecar. aí sim haveria uma razão. de que nunca exerci em nossa cidade magistratura alguma. A mim não causarão dano nem Meleto nem Ânito. mas muito mais vezes devesse morrer. como fazem alguns dos freqüentadores dos tribunais. ao arrepio da lei. isto significará que minhas palavras são nocivas. tende a certeza de que nunca agirei de outra maneira que esta. por algum tempo. a respeito do qual. E nem o poderiam. mesmo que por breve tempo. Falarei um pouco grosseiramente. se o deus não vos mandar algum outro para substituir-me. mas falo por vós.Então eu me opus. de maneira alguma estou falando em minha defesa. e votei contra. e que. julguei que era meu dver correr aquele risco mantendo-me ao lado do direito e do justo em vez de apoiar-vos e deliberar o injusto por temer a prisão e a morte. não o creio eu. Se ao falar desta maneira corrompo os jovens. um ferrão. de convencer-vos. não digo a vós. justamente no dia em que era o vosso desejo julgar em conjunto. às quais. com jeito de estar se divertindo. sempre faz com que eu desista do que estou para fazer. Escutai o que me sucedeu e vereis então que diante do que é justo não sou homem de ceder a ninguém por temor à morte. Restam-me algumas outras coisas a dizer-vos. Que se desta vida tirasse algum proveito e se pelos conselhos que dou recebesse alguma compensação. dormireis tranqüilamente. que. ó cidadãos atenienses: ou dareis ouvidos a Ânito. Ânito. está certo. Assim parece-me que o deus me colocou aos flancos da cidade. mas com sinceridade. tudo em que este homem crer e outros crerem serão grandes males. como alguém poderia achar. nunca paro de exortar-vos. estando por perto como estaria um pai ou irmão mais velho. os Trinta mandaram-me chamar. no decorrer de todo o resto de vossa existência. e tente impedir que muitas vezes se cometam injustiças as leis na cidade. e parece-me que faz muito bem em agir dessa forma. estou pronto a morrer. Não promoveis algazarra. Não. E a prova cabal de que é verdade o que vos declaro. não com palavras. creio que vos será útil escutar. toda vez que eu a ouço. talvez. E naquela ocasião. me poreis a salvo. mas da virtude se originam as riquezas e todas as outras coisas que são venturas para os homens. e se desejais me ouvir. além de não ceder. Convencei-vos: se me condenardes à morte. levaram-nos à sala do Tolo e ordenaram que retirássemos de Salamina o Leon de Salamina. espoliar-me dos direitos civis. Não penso que seja possível que um homem de bem receba o mal de um malvado. e é também preciso que aquele que luta em defesa do que é justo. erguereis a voz. permiti que vos diga. Pois se me matardes. ou não dareis. Poderá sim. e que. mas se alguém afirma que falo diferentemente e não deste modo. nem por vós nem por mim. podereis me reconhecer por isso: que não parece humano que haja descuidado todos os meus negócios e ainda agüentar por tantos anos que tenham sido descuidadas as coisas da minha casa. de falar-vos. e vós a intigá-los e a gritar. É essa voz que me impede de me ocupar das coisas do Estado.se torne excelente e muito virtuosa. em todo lugar. também Meleto. ó cidadãos. lembrai-vos de meu pedido de que não causásseis balbúrdia diante do que eu dissesse. e a mais outros quatros. mas vistes que meus detratores. Logo. mas a qualquer outra multidão. somente uma. mesmo que não só uma. pois. demonstrei que a morte. Mais tarde.

que é verdadeira e justa: a certeza de que Meleto mente e eu digo a verdade? Epílogo . e nem mesmo àqueles que os caluniadores chamam de meus discípulos. filho de Demódoco. que se manifeste. se procedessem dessa maneira. isto sim me importa acima de qualquer coisa. e ali estão outros. e aqui caberia aquele dito de Homero: 'Que não de carvalho. E não é por orgulho que me comporto assim. enraivecido com minha atitude.crueldades. em defesa daquele que causa o mal de seus familiares. que. Se de fato eu corrompo os jovens. Sócrates se distingue da maioria dos homens. seja jovem. eu falo e se não recebo. Acredito que só por causa disso. ó cidadãos. seja velho. Muitos destes estão presentes. esteja arriscando a vida . em quaisquer aspectos. são verdadeiras e demonstráveis. e também Lisânias de Esfeto. Ora. ao pensar em si mesmo. pais. e que viessem à tribuna para acusar-me e para exigir minha punição. Porém. não me pareceu honroso agir dessa maneira. verdadeiro ou falso que seja. embora possuíssem alguma boa . algum dia. em toda minha existência. tenhais a certeza de que este não diz a verdade. fazendo-o como homem de bem. meu contemporâneo e conterrâneo com sei filho Critóbulo. porém. porque estou da mesma maneira à disposição de todos.e ainda Antífon de Cefísia. nunca me refutaram. tivesse lutado em defesa da justiça e tivesse considerado esta defesa. e por outros meios de que se serve a providência divina para ordenar ao homem que faça alguma coisa. irmão de Teódoto. pobres e ricos. atenienses. ao envelhecerem. E disto que relatei possuo muitas testemunhas. se deixe influenciar pelo amor-próprio ferido e. embora. e. cedo-lhe o lugar. quando saímos do Tolo e os outros quatro se dirigiram para Salamina a fim de retirar Leon. trouxe ao tribunal os filhos e vários de seus parentes e amigos. mas de criaturas humanas'. . e Aantodoro. e algumas mais. são estas. ao ter de enfrentar um processo menos arriscado do que este. se aquele governo não tivesse sido deposto logo em seguida. seria vergonhoso. e aí está Parálio. dadas por intermédios de vaticínios e sonhos. desta forma. É possível que alguém entre vós. são bem poucos diferentes destas. se recebo dinheiro. Com efeito. filho de Teozótides. além disso. Diante disso. tenho três filhos. se aquele que entre vós possuem fama de se distinguirem pela sabedoria e coragem. ao que parece. irmãos. como é possível que a alguns agrade estar comigo tanto tempo? Vós ouvistes. tomassem consciência de que quando eram jovens eu os aconselhei a praticar o mal. E poderia nomear muitos outros. as razões que posso apresentar em minha defesa. sempre fui o mesmo. já que não prometi ensinamento algum a ninguém. eu também trouxe alguém da minha família. e que me fizessem pagar por isso. e como Teódoto faleceu. poderei responder da seguinte maneira: "Meu estimado amigo. todos falarão a favor do corruptor. nem nunca ensinei coisa alguma. principalmente se é uma pessoa que . que enviassem hoje para cá as pessoas de sua família. de seus Pais e Irmãos Credes que eu teria vivido por tantos anos se houvesse me ocupado de assuntos públicos e. cujos irmãos viveram comigo familiarmente. Por conseguinte. a ninguém. e. Nicóstrato. alguma coisa que todos os outros não tenham aprendido ou ouvido. fico calado. mas aqueles que não foram corrompidos. E se há quem diga que aprendeu ou ouviu alguma coisa de mm. ao fazer intimamente esta comparação. nem para provar que sou corajoso diante da mote. filho de Aríston. não me atemorizou. atenienses. se existe alguma testemunha deste tipo. se já corrompi algum. como é necessário. A uma pessoa assim. quem quer que me indague e deseje ouvir as minhas respostas. com seu filho Ésquino.de quem era irmão Teages. um homem que diante do justo nunca cedeu a quem quer que fosse. mas pela minha reputação. e outros. apesar de prepotente. em particular. que talvez esteja entre vós. que outra razão podem ter para me defender exceto esta. tanto em público. que os apresente agora. não afirmo categoricamente que há. um se torne de boa formação moral ou não. ou por outra virtude qualquer. e ali Adimanto. nem de pedra nasci. um já crescido e dois ainda crianças. eu mesmo presenciei muitas vezes. E estas coisas. meu dever mais alto? Com certeza. possa irritar-se comigo se. Nunca fui mestre de quem. quando eram réus em um processo. como afirmam Meleto e Ânito. os corrompidos. enfim. de quem temos aqui o irmão Apolodoro. Eu também possuo família. quando falo ou atendo àquilo que acredito ser meu ofício. Ao fazer isso. eu os vejo. cumpro as ordens do deus. nem por desprezo. repito-vos. se ele se esqueceu disso.É possível que alguém. Ali está Críton.Sócrates não quer Misericórdia Cidadãos. emita seu voto com raiva. quer que seja. se os que lhe são caro sofreram algum mal por mim causado. pai de Epígeno. que são agora anciãos. e pessoas desse tipo. mas não os trouxe aqui para despertar vossa misericórdia e absolver-me". de quem ali se encontra o irmão Platão. ó atenienses. Talvez esses. suplicou clemência aos juizes. tenham alguma razão para me defender. não me obrigou a cometer um ato injusto. eu já teria morrido. não poderá falar com o irmão a meu favor. e não é verdade que. porque corre pela cidade que. como privadamente. ao passo que eu não me porto desta maneira. não existe homem que o tivesse conseguido! Em verdade. e. E conseguiria indicar vários outros que Meleto poderia apresentar como testemunhas na sua acusação. O Testemunho dos Discípulos. deseja escutar-me. deixei-os ir e voltei para casa. não é desagradável. ó atenienses. que eu disse toda a verdade: têm prazer de ouvir-me quando submeto à prova aqueles que pensam serem sábios e não o são. pela vossa e de toda a cidade. se não quisessem fazê-lo diretamente. nas poucas vezes que me ocupei de coisas públicas. seria ainda necessário que estes. não será justo que eu receba elogios ou impropérios. vereis que todos farão o contrário.E aquele governo. se entre os homens que me freqüentam. ainda mais na minha idade e com o meu nome.

mesmo assim. pensa que mereço a pena capital. tentando convencer-vos de que. ó cidadãos. ó cidadãos. Acredito nos deuses mais do que qualquer um dos meus acusadores. em verdade. livrar-me da condenação. Contudo. não nos portamos dessa maneira é o que compete a nós. têm atitudes excepcionais. exilado. E acredito que se houvesse leis entre nós. entre outras razões. e deixo a vosso critério. atenienses. não é isso. Não considero justo. porque não possuo dinheiro para pagá-la. Não. riquezas. e ao do deus. como se achassem que iriam sofrer sabe-se lá que tortura se devessem morrer e como se tornassem imortais se não fossem condenados à morte por vós. Estes. E eu.reputação. eu teria de estar imbuído de uma bem ingênua vontade de viver se fosse assim tão irracional a ponto de não poder nem mesmo fazer este raciocínio. nem juraram que favorecerão a quem lhes paga. que eu cometesse diante de vós atos que reputo desonestos. isso deve-se. nesta idade. peço se alimentado no Pritaneu. tivemos muito pouco tempo para nos entendermos. E também pensa em prejudicar a mm mesmo ao declarar que sou merecedor da pena e pedir que esta pena seja aplicada a mim. então. Que mereço por sempre haver agido desta forma? Algum grande bem. se é que devo ser recompensado como mereço. talvez seja precisamente esta pena que desejastes para mim. Portanto. Que será apropriado para um pobre benfeitor que precisa de tempo para aconselhar-vos nos vossos assuntos? O que mais seria conveniente a esse homem. que pena apresentarei em oposição à vossa. ó atenienses? Não é evidente que seja a mesma que me foi imposta? Qual será então? Que pena merecerei ou que multa. por meio de súplicas procurasse convencer-vos e obrigar-vos a violar o juramento. e porque sempre acudi rapidamente aonde quer que eu reputasse poder proporcionar o maior bem a cada um de vós em particular. tentar influir nos juízes e. e não precisam ser sustentados como eu precioso. atenienses não seria mantê-lo no Pritaneu com muito maior razão do que aqueles que. e eu menos ainda. ó atenienses. eu vos ensinaria que. Pedirei o exílio? Sim. o que aprendi. deixar-nos fazê-lo. tanto que qualquer forasteiro poderia imaginar que aqueles atenienses que se distinguem por sua virtude e que seus concidadãos elegem à magistratura e outras honras não são em nada melhores que as mulheres. e mais. não é necessário que vos habitueis a isso. então. injustos e vis. mas algo bastante diferente. penso haver escapado das mãos de Meleto. tenham conseguido triunfos nos Jogos Olímpicos. se nos comportássemos assim. Porque é evidente que se eu. que excelente vida seria a minha. não fostes capazes de agüentar minha companhia e os meus discursos. mas que farão justiça de acordo com as leis. mesmo nestas minhas palavras de agora. Porque sei muito . Não iríeis querer então. Este homem. e. que proíbem que uma pena de morte seja aplicada em apenas um dia. e por ter desprezado aquilo que atrai a maioria. que temos fama de sermos ainda alguma coisa. que minha companhia foi tão desagradável que procuras agora livrar-vos dela. julgar o que será para vós e para mim o melhor. o que é bastante evidente. no entanto. me causa mais estranheza é o grande número de votos favoráveis a mm . devo pedir. mas sim infomá-los e convencê-los. de acordo com o direito. antes de qualquer coisa e de vós mesmos. a serviço da eterna magistratura dos Onze? Uma pena em dinheiro e permanecer enjaulado enquanto não for paga? Mas é exatamente a mesma coisa que a anterior. pois sempre me considerei por demais honesto para conseguir salvar-me se me dedicasse a tais coisas e convencido de que não teria sido útil nem para mm nem para vós.A Pena Do Esperado da Pena Se eu não estou abalado. que outros a agüentariam de bom grado? E ainda. Porém. desta acusação. Nem vos conviria. eu teria sido multado em mil dracmas por não haver conseguido um quinto dos votos. Porque estes vos proporcionam felicidade. não faremos coisas boas e piedosas. Por isso. eu que sou acusado por Meleto. e também a mim. embora sendo meus concidadãos. com o que acaba de ocorrer. Se. perseguido em todos os lugares. O que. aqui presente. não é fácil livrar-se em tão breve espaço de tempo de acusações tão graves. ó atenienses. como as que há entre outros povos. com apenas mais trinta votos a meu favor teria sido absolvido. sim. se Ânito e Lícon não tivessem vindo para me acusar. ó atenienses. de impiedade. biga ou quadriga. talvez julgais notar quase o mesmo sentimento de ofensivo orgulho que acreditáveis ter percebido quando falava a respeito de suplicar e despertar comiseração. ao longo da minha existência. e não só haver escapado delas. aquilo a que faço jus. e sim em mais. seria culpado de não crer nos deuses. E é justamente o contrário que sucede. mas para julgar o justo. Segunda Parte . e as agitações e conspirações que acontecem nas cidades. Penso nunca haver prejudicado ninguém por querer. Ao que me parece. o de terem votado pela minha condenação. Portanto. mediante súplicas. Os juízes não se encontram aqui para favorecer o justo. com cavalo. e que vos esforçásseis ao máximo para trabalhar em prol da cidade. por não haver usufruído em paz. pois acreditava que seria condenado por muito mais votos. que enquanto vós. cargos militares e políticos e todas as outras magistraturas. mudando sempre de país para país. e mesmo assim não logrei convencer-vos. e não por tão poucos. nem vos nem eu. mas sim mostrar a todos que julgais com maior rigor quem encena esses dramas lastimosos e cobre a cidade de ridículo do que quem suporta com serenidade o próprio destino. envergonham a toda a cidade. ao fato de não haver sido apanhado de surpresa. estaríeis convencidos. E por temer o que eu deveria agir dessa forma? Talvez por temer sofrer aquilo que Meleto exige para mim e que eu declaro não saber se é bom ou mau? E em troca desta pena devo escolher outra entre aquelas que eu sei serem más? Deverei solicitar a prisão? E por que motivo deverei viver preso. ó atenienses. procurásseis ser os melhores e mais sensatos possível. interesses particulares. mas.

Contudo. evitareis que alguém vos repreenda a má vida. nem enquanto subia aqui para o tribunal. convencendo os mais velhos. Algum de vós talvez pudesse contestar-me: "Em silêncio e quieto. Neste momento. por Zeus. homens que me mandais matar. o sentido exato de que me aconteceu agora. poderia ter-me aplicado uma multa que conseguisse pagar. e que uma vida desprovida de tais análises não é digna de ser vivida. em cada perigo. não poderias viver após ter saído de Atenas?" Isso seria simplesmente impossível. multo-me em uma mina de prata. Bem sabeis a minha idade. sim. porque. que Platão.Após a Condenação Aos que Votaram Contra Por não haverdes aguardado mais um pouco. não de discursos. Engano! Perdi-me por falta. porque muito mais difícil é escapar à maldade. a malvadez. enm é inteiramente eficaz nem honrosa. ó atenienses. do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Poderei pagar-vos apenas uma mina de prata. Para esses mesmos. Se imaginais que. por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir. . Sim. Por outro lado. Por conseguinte. atenienses. condenado por vós à morte. eu. quer na guerra. não seria possível que eu vivesse em silêncio. eles igualmente. como o maior dos males. Mas não possuo dinheiro e não posso fazer isso. Quer no tribunal. ó Sócrates. se vos dissesse que significaria desobedecer ao deus e que. nem quando ia dizer alguma coisa. como a amigos. matando homens. Quero explicar-vos. ó atenienses. se vos dissesse isto. como aqui. é evidente que. Não se tenha por difícil escapar à morte. Não dirijo essas palavras a todos vós. mas a advertência divina não se me opôs de manhã. Por certo. estais enganados. Critóbulo e Apolodoro querem que eu me multe em trinta minas. mas aos que votaram pela minha morte. chamar-me-ão de sábio. serei perseguido por seus pais e demais parentes. porém. lamentos e gemidos. eles. Eu vos afianço. é isto que vos digo. os jovens acorrerão a fim de me ouvir. dignos de crédito e confiança. já distante da vida e próxima da morte. não devo eu. e vossa irritação será maior. preparar-se para ser o melhor possível. o que se poderia considerar. Aos que o Absolveram Com os que votaram pela absolvição. muito mais duro que a pena capital que me impusestes. se eu os repelir. nas batalhas. agora. se antes achei que o perigo não justificava indignidade alguma. O que me ocorreu senhores juízes. quando eu ia cometer um erro. por conseguinte. ao sair de casa. pela mais lenta das duas. enquanto os magistrados estão ocupados e antes de ir para onde devo morrer. Se eu possuísse dinheiro. no entanto. é a mais honrosa e mais fácil. acaba de me ocorrer o que vós estais vendo. e. eu vo-lo asseguro. senhores. acreditar-me-iam menos ainda. exceto se desejeis multar-me de uma quantia que eu tenha a possibilidade de pagar. serão garantes dessa quantia. não deve ninguém lançar mão de todo e qualquer recurso para escapar à morte. essa não é uma forma de libertação. mas o resultado será inteiramente oposto. ágeis e velozes. Ora. adito o seguinte: talvez imagineis. eis-me chegado àquele momento em que os homens vaticinam melhor. tampouco me pesa agora da maneira por que me defendi. Agora. se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. assim. ao contrário. tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousa tudo fazer e dizer. a própria natureza satisfaria o vosso desejo. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas. Mas vedes. Com efeito. tais como costumais ouvir dos outros. que me perdi por falta de discursos com que vos poderia persuadir. a da divindade. um sábio. não acreditaríeis e pensaríeis que estivesse sendo sarcástico. até agora eu os continha e vós não os percebíeis. ela corre mais ligeira que a morte. Acerca do futuro. meus condenadores.bem que aonde quer que eu vá. Terceira Parte . vamos partir. e há quem o faça. E esses homens. de fato. serão estes mesmos que me farão perseguir. A usual inspiração. mas de atrevimento e descaramento. Críton. foi algo prodigioso. que eles mesmos garantirão. fazendo e dizendo uma porção de coisas que declaro indignas de mm. Multo-me então em trinta minas. aqueles que desejarem injuriar a cidade vos impingirão a fama e a acusação de terdes matado Sócrates. Eu aceito a pena imposta. muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores. fomos apanhados. nada obsta que nos entretenhamos enquanto dispomos de tempo. em vez de tapar a boca dos outros. Porque. sempre foi rigorosamente assídua em opor-se a ações mínimas. não estou habituado a considerar-me merecedor de mal algum. despeço-me de vós que me condenastes. pela mais ligeira. muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz. porém é difícil convencer-vos. meditar todos os dias sobre a virtude e acerca dos outros assuntos que me ouvistes discutindo e analisando a meu respeito e dos demais. ficai comigo mais um pouco. Se esperásseis mais algum tempo. que o castigo os vos alcançará logo após a minha morte e será. que sou um velho vagaroso. não teria me infligido mal algum. Se vos dissesse que esse é o maior bem para o homem. eu. condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Com este vaticínio. Vós o fizestes supondo que vos livraríeis de dar boas contas de vossa vida. quando estão para morrer. gostaria de conversar com respeito ao que se acaba de suceder. esta outra. quero fazer-vos um vaticínio. a vós é que chamo com tino de juízes. tinha de ser assim e penso que não houve excessos. senhores. eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens. eu e os meus acusadores. Portanto. e se não os repelir. os que vos quiserem censurar. apesar de que eu não o seja.

se a tradição está certa. Bem. uma emigração da alma.C. do outro lado. ou Ulisses. que o acompanhou durante a vida toda. senhores juízes? Se. atormentai-os com os mesmíssimos tormentos que eu vos infligi. segundo consta. se isso é verdade. vejo claramente que era melhor para mim morrer agora e ficar livre de fadigas. cuida que é.mais velho do que ele quarenta anos . já não digo um homem comum. cantava e tocava a lira com tal perfeição que até as feras se aquietavam e vinham deitar-se a seus pés. ou. Temperamento artístico e dialético . é chegada a hora de partirmos. de antiga e nobre prosápia. Platão estudou também os maiores présocráticos. então. mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. manifestando-se na expressão estética de seus escritos.no entanto. se devêssemos identificar uma noite em que estivéssemos dormindo tão profundamente que nem mesmo sonhássemos e. O meu não é conseqüência do acaso. Platão travou relação com Sócrates . contrapondo a essa as demais noites e dias de nossa vida. porque. . ou Sísifo? Milhares de outros se poderiam nomear. e os deuses não descuidam de seu destino. como vos fiz eu. mas o próprio rei da Pérsia acharia fácil enumerar tal noite entre as outras noites e dias. ¹ Rei lendário de Creta. Quanto não se daria. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morte é igual a nada. mal algum. eu de modo especial acharia lá um entretenimento maravilhoso. ² Célebre aedo da era pré-homérica. Atribuía-se-lhe a invenção da lira e dos rituais mágicos e divinatórios. se não fosse uma ação boa o que eu estava para praticar. o que é mais. entretanto isto prejudicou sem dúvida a precisão e a ordem do seu pensamento. Quando discípulo de Sócrates e ainda depois. de pais aristocráticos e abastados. marido de Pasífae. que era filho do povo. Verdade é que não me acusaram e condenaram com esse modo de pensar. Se. Quem segue melhor destino. a que se deu o nome de orfismo. No entanto. e não sente nenhuma sensação d coisa nenhuma. quer na morte. deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há. juiz dos Infernos com Éaco e Triptólemo. Minos. livre dessas pessoas que se intitulam juízes. Ajax de Telamon e outros dos antigos. quer na vida. não me seria desagradável comparar com os deles os meus sofrimentos e. com quem seria uma felicidade indizível estar junto. bem posso imaginar que. Façamos mais esta reflexão: há grande esperança de que isto seja um bem. livre curso ao seu talento poético. Aos vinte anos. por não cuidarem do que devem e por suporem méritos. digo que é uma vantagem. se estiverem supondo ter um valor que não tenham. e meus filhos também. filho de Europa e de Zeus. lá distribuem a justiça. não o sendo. Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida. quando encontrasse Palamedes. sem ter nenhum. se a morte é isso. se vós. se é como um sono em que o adormecido nada vê nem sonha. só tenho um pedido a lhes fazer: quando meus filhos crescerem. origem de seitas místicas. Se vós assim agirdes. assim sendo.¹ Radamanto.² Museu. para o homem bom. Se não há nenhuma sensação. ao chegar ao Hades. não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu. exceto para a divindade. Éaco. Disso tenho agora uma boa prova. a ver quem deles é sábio e quem. Por isso é que a advertência nada me impediu.manifestação característica e suma do gênio grego deu. sujeitando-os a exame! Os de lá absolutamente não matam por uma razão dessas! Os de lá são mais felizes que os de cá. a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que lá estão todos os mortos. em nenhuma ação ou palavra. que maior bem haveria que esse. Vós também. trata-se duma mudança. senhores juízes. tanto assim que várias partes de suas obras não têm verdadeira importância e valor filosófico. pensar e dizer quantos dias e noites de nossa existência vivemos melhor e mais agradavelmente do que naquela noite. que tenham morrido por um sentença iníqua. passar o tempo examinando e interrogando os de lá como aos de cá. na mocidade. por serem imortais pelo resto do tempo. conversando com eles. Platão retirou-se com outros socráticos para junto de Euclides. Platão nasceu em Atenas. do lugar deste mundo para outro lugar. porque a usual advertência não poderia deixar de opor-se. A Vida e as Obras Diversamente de Sócrates . em Mégara. estou pronto a morrer muitas vezes. vós para a vida. é segredo para todos.. eu terei recebido de vós justiça. senhores juízes. toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mm ou me acusaram. Depois da morte do mestre.e gozou por oito anos do ensinamento e da amizade do mestre. para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedição contra Tróia. repreendei-os. A que devo atribuir isso? Vou dizer-vos: é bem possível que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso acreditar que a morte seja um mal. se eu. como se costuma dizer. a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que. Hesíodo e Homero? Por mm. sábio legislador. castigai-os. em 428 ou 427 a. homens e mulheres. entre outros motivos. que maravilhosa vantagem seria a morte! Bem posso imaginar que. eu para a morte. Logo. eu. se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que da virtude. quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs vez alguma no decorrer do julgamento.

nascer e perecer de todas as coisas. sabe que o é. e fez um vasto giro pelo mundo para se instruir (390-388). após a morte de Dionísio o Antigo. Libertado graças a um amigo. Platão como Sócrates. mais ou menos. o conhecimento humano integral fica nitidamente dividido em dois graus: o conhecimento sensível.em três grupos principais. mutável e relativo. isto é. religioso da filosofia. O Pensamento: A Gnosiologia Como já em Sócrates. transição espontânea entre o ensinamento oral e fragmentário de Sócrates e o método estritamente didático de Aristóteles. que limitava a pesquisa filosófica. que se tornou propriedade coletiva da escola e foi por ela conservada durante quase um milênio. o saber sensível. não podendo de modo algum ser substituído por um conhecimento diverso.). embora verdadeiro.em 366 e em 361 .C. através da especulação. A diferença essencial entre o conhecimento sensível. o conhecimento conceptual. precisamente porque é ciência. imutável. cair no erro sem o saber. mutável e relativo. porém. é a grande ciência que resolve o problema da vida. ainda que as conclusões sejam. a Sicília. particular. isto é. a toda a realidade. transpor este mundo e libertar-se do corpo para realizar o seu fim. lógica e formal. pela viva sensibilidade do filósofo em face do universal vir-a-ser. Foi assim que o filósofo. erro e mal-posição e distinção que o sentido não pode operar por si mesmo. em face do mal. para o qual é atraído por um amor nostálgico. Mas diversamente de Sócrates. ao ensino filosófico e à redação de suas obras. A forma dos escritos platônicos é o diálogo. na desgraça do tirano pela sua fraqueza. todavia. e o conhecimento intelectual. tomou o nome famoso de Academia. pois. segundo certa ordem cronológica. Platão foi preso por Dionísio. que estão efetivamente presentes no espírito humano. do conhecimento da ciência. parte do conhecimento empírico. Morreu o grande Platão em 348 ou 347 a. Esta veio operar aquela libertação definitiva do cárcere do corpo. Assim. não tiveram melhor êxito do que a precedente: a primeira viagem terminou com desterro de Dion. muitos são apócrifos. no seu valor. em Platão é tornado especialmente vivo. Este fim prático realiza-se. outros de autenticidade duvidosa. a Itália meridional. A atividade literária de Platão abrange mais de cinqüenta anos da sua vida: desde a morte de Sócrates . da opinião do vulgo e dos sofistas. errôneo. até a sua morte. universal e imutável. Platão fundava a sua célebre escola. ao contrário de Sócrates. com oitenta anos de idade. onde conheceu Dionísio o Antigo. particular. Sócrates estava convencido. estando. Faltam-lhe ainda o rigor. Deve. Estas duas viagens políticas a Siracusa. que correm sob o seu nome. conceptual. sensível. de que admirou a veneranda antigüidade e estabilidade política. atividade que não foi interrompida a não ser pela morte. Caído. Em Atenas. ao contrário. e ainda menos pode o conhecimento sensível explicar o dever ser. ao passo que o segundo. perto de Colona. No fundador da Academia. moral. tirano de Siracusa e travou amizade profunda com Dion.não é senão uma assídua preparação e realização no tempo. O conhecimento sensível deve ser superado por um outro conhecimento. voltou a Atenas. Segundo Platão. porquanto no conhecimento humano. onde levantou um templo às Musas. o mito e a poesia confundem-se muitas vezes com os elementos puramente racionais do sistema. de que o saber intelectual transcende. o sentido se opõe ao intelecto. que representa a evolução do pensamento platônico. filosófico. cunhado daquele. do socratismo ao aristotelismo. angustioso. A gnosiologia platônica. Dos 35 diálogos. pelo ano de 387. a paixão contrasta com a razão.como lemos no Fédon . mas julgava.C. racional em geral. absoluto. o método. o absoluto (do conceito). para chegar ao conhecimento intelectual. onde teve ocasião de travar relações com os pitagóricos (tal contato será fecundo para o desenvolvimento do seu pensamento). donde pode passar indiferentemente o conhecimento diverso. a opinião verdadeira e o conhecimento intelectual. esperando poder experimentar o seu ideal político e realizar a sua política utopista. A parte mais importante da atividade literária de Platão é representada pelos diálogos . a terminologia científica que tanto caracterizam os escritos do sábio estagirita. Voltando para Atenas. até o tempo do imperador Justiniano (529 d.. além de ser um conhecimento verdadeiro. uma herdade. apresentam-se elementos que não se podem explicar mediante a sensação. está nisto: o conhecimento sensível. Arquistas no governo do poderoso estado de Tarento. Este caráter íntimo. a imutabilidade. e foi libertado por Arquitas e pelos seus amigos. considera Platão o espírito humano peregrino neste mundo e prisioneiro na caverna do corpo. ao passo que o segundo sabe que as coisas devem estar necessariamente assim como estão. Poder-se-ia também dizer que o primeiro sabe que as coisas estão assim. da qual a filosofia . assim em Platão a filosofia tem um fim prático. e se distinguem diametralmente de seus opostos. onde o corpo é inimigo do espírito. que tem por sua característica a universalidade.Daí deu início a suas viagens. não pode explicar o conhecimento intelectual. os valores de beleza. universal. que ilumina o primeiro conhecimento. foi vendido como escravo. Visitou o Egito. conceptual.Platão estende tal indagação ao campo metafísico e cosmológico. então. sem saber porque o estão. pelo eros platônico. isto é. onde surgiu. Adquiriu. a precisão. Platão. na segunda. O conhecimento sensível. povoado da Ática. fealdade. que falta a gnosiologia socrática. não sabe que o é. porém. da desordem que se manifesta em especial no homem. ao campo antropológico e moral . porém. conhecimento das coisas pelas causas. porém. interessou-se vivamente pela política e pela filosofia política. idênticas. verdade e bondade. como efetivamente. chegar à contemplação do inteligível. intelectualmente. humano. Platão é o primeiro filósofo antigo de quem possuímos as obras completas. que. da opinião. como também Platão. Platão. mas que dele não se pode derivar. dos jardins de Academo.à Dion. no entanto. não admite que da . Platão dedicou-se inteiramente à especulação metafísica. tem o caráter científico. voltou duas vezes . poder construir indutivamente o conceito da sensação.

todavia. dá ao conhecimento empírico. porquanto Platão é um pampsiquista. lógicos e estéticos) que se manifestam no mundo sensível. a idéia do Bem. de que este nosso mundo imperfeito participa e a que aspira. devido à sua natureza inferior. modelos e arquétipos eternos de que as coisas visíveis são cópias imperfeitas e fugazes. um objeto próprio: as coisas particulares e mutáveis. para poder explicar verdadeiramente o conhecimento humano na sua efetiva realidade. contigente e transitório (Heráclito). diz que os conceitos são a priori. o mundo dos inteligíveis. um objeto adequado ao conhecimento conceptual. embora superior à matéria. dá ao conhecimento racional.particular. o mundo ideal é provado pela necessidade de justificar os valores. absoluto. ordenadora . são ordenadas em sistema hierárquico. transferidos da ordem lógica à ontológica. logo. Deste mundo material e contigente. Desta personalidade e atividade criadora . personalizados. Deve. se impõe ao lado e acima do conhecimento sensível. necessários.sensação . negar a existência do fieri. Todas as idéias existem num mundo separado. pelo contrário. dotado o Demiurgo o qual. Este mundo ideal. alma de toda filosofia platônica. ao conhecimento certo deve corresponder a realidade. as idéias terão aquela mesma ordem lógica dos conceitos. é a realidade suprema. de natureza espiritual. melhor. em dependência de uma ação do Demiurgo sobre a alma. que são os conceitos. o dever ser. com ele. racional . religiosos e místicos. começa e progride . ou alguns conceitos da mente. anima toda a realidade. através de que desce das idéias à matéria aquilo de racionalidade que nesta matéria aparece. inatos no espírito humano. desenvolvendo. objetivamente dotadas dos mesmos atributos dos conceitos subjetivos que as representam. conceptual. pois. terão consequentemente as características dos próprios conceitos: transcenderão a experiência. Ora. imutáveis. As Almas A alma. sem.ou. dá à alma humana um lugar e um tratamento à parte. mas apenas é possível. são realidades objetivas. Assim é que considera ele a alma humana como um ser eterno (coeterno às idéias. Além disso. serão universais. quer dizer. um conhecimento sensível verdadeiro . Teoria das Idéias Sócrates mostrara no conceito o verdadeiro objeto da ciência. A ciência é objetiva. Pode haver conhecimento apenas do mundo imaterial e racional das idéias pela sua natureza superior. à qual comunica o movimento e a vida.no dizer de Platão . centro em torno do qual gravita todo o seu sistema. esta libertação. portanto. situado na esfera celeste. A Metafísica . uma base e um fundamento reais. para ser verdadeiramente tal. em vista dos seus impelentes interesses morais e ascéticos. E. assim como o Demiurgo. sensível. Aqui devemos lembrar que Platão. deveria ser. Platão aprofunda-lhe a teoria e procura determinar a relação entre o conceito e a realidade fazendo deste problema o ponto de partida da sua filosofia. à opinião verdadeira. exasperando a doutrina da maiêutica socrática. não há ciência. donde dependem todas as demais idéias. Portanto. como de um cárcere. E. em geral. estando no vértice a idéia do Bem. assim a multiplicidade das idéias é unificada na idéia do Bem. A existência desse mundo ideal seria provada pela necessidade de estabelecer uma base ontológica. A certeza da sua existência funda-a Platão na necessidade de salvar o valor objetivo dos nossos conhecimentos e na importância de explicar os atributos do ente de Parmênides . libertar-se do corpo. no sistema platônico. que se obtém mediante a divisão e a classificação. em que vivemos. durante a vida terrena. científico. um outro mundo de realidades. existir. isto é. que é papel da dialética (lógica real. falta-lhe a personalidade e a atividade criadora. Do mesmo modo. desempenha papel de mediador entre as idéias e a matéria. que está no vértice. de um lado. As idéias não são.As Idéias O sistema metafísico de Platão centraliza-se e culmina no mundo divino das idéias. tanto no homem como nos outros seres. aliás. de um mal radical.que é precisamente o conhecimento adequado à sua natureza inferior. Assim. os nossos conceitos são universais. e sustenta que as sensações correspondentes aos conceitos não lhes constituem a origem. formas abstratas do pensamento. imutável. como as concebiam Heráclito e os sofistas . ao Demiurgo e à matéria).transcende inteiramente o mundo empírico. no máximo. uma base real. Estas realidades chamam-se Idéias. Logo. e estas contrapõe-se a matéria obscura e incriada. no sentido platônico. a alma humana. de superioridade. e sim a ocasião para fazê-los reviver. de cujo modelo se serve para ordenar a matéria e transformar o caos em cosmos. Tal a célebre teoria das idéias. é o ser sem o qual não se explica o vir-a-ser. No entanto. além do fenomenal. Deve portanto. Entre as idéias e a matéria estão o Demiurgo e as almas. inteligível. representações intelectuais. relembrar conforme a lei da associação. O divino platônico é representado pelo mundo das idéias e especialmente pela idéia do Bem. é inferior às idéias. exagerando. a ordem e a harmonia. donde têm de ser oportunamente tirados. Ele. relativa . Como a multiplicidade dos indivíduos é unificada nas idéias respectivas. tudo no mundo é individual. Assim a idéia de homem é o homem abstrato perfeito e universal de que os indivíduos humanos são imitações transitórias e defeituosas. ontológica) esclarecer. caído no mundo material como que por uma espécie de queda original. mutável. Visto serem as idéias conceitos personalizados. deveria representar o verdadeiro Deus platônico. imutáveis e eternos (Sócrates). um objeto próprio: as idéias eternas e universais.se possa de algum modo tirar o conceito universal.é.opinião verdadeira . diversamente de Sócrates. material. Esse conhecimento. do outro. e todos os valores (éticos.

bondade. para o espírito. temperança. em forma de esfera e. beleza . as idéias e a matéria. O mundo. que domina também a grande concepção platônica.que Platão explica mediante um dualismo filosófico-religioso de alma e de corpo: o intelecto encontra um obstáculo nos sentidos. Em geral. depois. Quanto ao destino das almas depois da morte. O Demiurgo plasma o caos da matéria no modelo das idéias eternas. as estrelas e os planetas. haveria. Tal harmônica distribuição de atividade na alma conforme a razão constituiria. que é separação espiritual da alma do corpo. O Mundo O mundo material. O dualismo dos elementos constitutivos do mundo material resulta do ser e do não-ser. o inteligível. A faculdade principal. na separação da alma do corpo. ao mesmo tempo. o universo sensível. A terra está no centro. Agir moralmente é agir racionalmente. Consoante a astronomia platônica. depende da religião. distingue ele três categorias de alma: 1. mas um obstáculo . de racional no vira-ser da experiência.mediante a filosofia. virtude fundamental. não no sentido do progresso. a filosofia.ser. que desvencilha para sempre a alma do corpo. e filosofar é suprimir o sensível. à espera de que a morte solte definitivamente a alma dos laços corpóreos. o intelecto é impedido pelo sentido da visão das idéias. apenas mediante uma disciplina ascética do corpo. de fato. As que cometeram pecados inexpiáveis. explicando-se deste modo o movimento circular deles. transcendental: contemplação em que se realiza a natureza humana. mutável. morrer aos sentidos. essencial da alma é a de conhecer o mundo ideal. É a clássica concepção grega do eterno retorno. e mediante a morte libertadora. ao redor. E diga-se o mesmo da vontade a respeito das tendências. e é a opinião verdadeira. na razão realiza o homem a sua humanidade: a ação racional realiza o sumo bem. o mundo físico percorre uma grande evolução. um ciclo de dez mil anos. de fato. dos homens. 2.indeterminada. mas no da decadência. tudo recomeça de novo. a saber. e domine também a alma irascível. o destino da alma depende da sua filosofia. chegado o grande ano do mundo. cravados em esferas ou anéis rodantes. Da matéria . derivando daí a virtude da temperança. E. a justiça.assim como a alma racional residiria na cabeça. uma dedução das famosas quatro virtudes naturais. Então a realização da natureza humana não consiste em uma disciplina racional da sensibilidade. Conforme a cosmologia pampsiquista platônica. Naturalmente a alma sensitiva e a vegetativa são subordinadas à alma racional. segundo Platão. a alma concupiscível. Logo. então. sendo que a alma racional é. a virtude suma. dotado de atividade sensitiva e vegetativa. a alma do corpo. unida a um corpo. da razão. juntamente com a sapiência. a vontade no impulso. Moral Segundo a psicologia platônica. unida ao corpo e aos sentidos. na morte. a idéia. irracional. ao contrário. o seu instrumento adequado. pois. A alma não encontra no corpo o seu complemento. dependentes e inferiores. como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não-saber. e da qual depende totalmente a ação moral. neste mundo. Da idéia . separando-se. que residiria no peito. conexa ao clássico dualismo grego. No seu conjunto. em especial. para que se realize a sabedoria. que aparecem no mundo. na realidade. justiça . embora a esta naturalmente inferior. destarte. que o mortifica inteiramente.depende tudo quanto há de positivo. Em todo caso. uma alma do mundo e. e se realiza com a morte. está entre o ser (idéia) e o não-ser (matéria). chamadas depois cardeais .sobre a base da metafísica platônica da alma. deve existir um princípio de uma e outra. deve principiar a sua vida moral sujeitando o corpo ao espírito. visto que a alma humana racional se acha.depende. do bem e do mal. e é o devir ordenado. Temos. que residiria no abdome . verdade. espacial . antes de tudo. e. informe. felicidade e virtude. esta natureza racional do homem encontra no corpo não um instrumento. são esféricos. tudo que há de negativo na experiência. por conseqüência. a natureza do homem é racional. até violenta. partes da alma. etc. dos mistérios órfico-dionisíacos. Entretanto. ao corpo. os astros. terminados os quais. tais funções seriam desempenhadas por outras duas almas . donde a virtude da fortaleza. segundo Platão. ao mundo. da ordem e da desordem. antes de tudo. eis o pensamento de Platão: em geral. transparentes. resulta da síntese de dois princípios opostos. as almas dos astros. . para impedir que o primeiro seja obstáculo ao segundo. e agir racionalmente é filosofar. introduzindo no caos a alma. Segundo Platão. princípio de movimento e de ordem. Entretanto. Noutras palavras. uma classificação. a contemplação. fortaleza. o mundo. é necessário que a alma racional domine. As que cometeram pecados expiáveis. e assim por diante. o cosmos platônico.prudência. que devem ser trabalhosamente relembradas. mas na sua final supressão.ou partes da alma: a irascível (ímpeto). pois. condenadas eternamente. que é. a união da alma espiritual com o corpo é extrínseca. passiva. Mas a alma está no corpo como num cárcere. o homem realiza a sua verdadeira natureza: a contemplação intuitiva do mundo ideal. e a concupiscível (apetite). a única virtude verdadeiramente humana e racional.

À classe dos filósofos cabe dirigir a república. a história. libertados da vida temporal para sempre.um altíssimo valor moral terreno. consistindo sua virtude apenas na obediência. então. encarnam-se de novo. são a República. que Platão propugna para as classes superiores. estão efetivamente em contraste com os interesses coletivos. Deveria ela equilibrar.não certamente por estes motivos. Segundo o pensamento que lemos no Fédon. da razão. estar substancialmente nas mãos do estado.especialmente aos filósofos. o indivíduo ao estado. o estado em nada se interessa . sociais. corresponderiam respectivamente às almas racional. promover. À classe dos produtores. no organismo do estado. a educação deve. privados.. em chocante contraste com os estados e a política deste mundo. como veículo dos valores transcendentais da Idéia. servis. e ocupar-se com o seu bem estar material apenas secundária e instrumentalmente.é. tal instituição. Tal atividade política constitui um dever para o filósofo. por conseqüência. a ordem da sociedade humana. com a sua natureza gentil e civilizadora. por conseguinte. Na hierarquia das classes. as quais.agricultores e artesãos . econômicos e. o pensador. materialismo. música e ginástica. se preocupa com espiritualizar os homens. portanto. pelo vulgo. e estão. conhecem a realidade das coisas. dos filósofos. O grande. cabe a conservação econômica do estado.o trabalho material. traça o seu estado ideal. da ginástica. cultivada apenas para fins práticos e morais. todas as atividades presididas pelas Musas . o bem espiritual dos cidadãos. também das outras duas classes. E não hesita em sacrificar totalmente os interesses inferiores aos superiores. e. das mulheres e dos filhos. estatais. em geral. a justificação da sociedade e do estado? Platão acha-a na própria natureza humana. domésticos. consequentemente. seria mister acrescentar uma quarta categoria de almas. pela plebe. Desta variedade de necessidades humanas origina-se a divisão do trabalho e. a dos produtores. é necessária porquanto os trabalhos materiais. à altura de orientar racionalmente o homem e a sociedade para o fim verdadeiro. Ao contrário. Esta educação é dispensada essencialmente às classes superiores . irascível e concupiscível no organismo humano. visto a alma concupiscível estar sujeita à alma racional. não realiza tanto as obras exteriores. idolatrando a grandeza moral. para receber a pena ou o prêmio merecidos. enfim. As que viveram conforme à justiça.eticamente considerados.abrangendo também a poesia. político-religioso. Platão tende a desvalorizar a grandeza militar e comercial.consoante seu pensamento . mas pela grande importância e função moral por ele atribuída ao estado. Segundo Platão. mas dessemelhantes e desiguais. portanto. Desta maneira é concebido o estado educador de homens virtuosos. cuja formação é inteiramente material e subordinada. O estado deve. o verdadeiro político não é . etc. a sua finalidade primordial é pedagógicoespiritual. fortificadora. o reino do espírito. sendo estes naturalmente superiores àqueles . pois. a obra fundamental de Platão sobre o assunto. ateísmo . a dos guerreiros. essencialmente. em castas. a direção da república. Três são. a ação oposta. porém. por isso. os guerreiros receberam a educação. o Político e as Leis. a dominação e a riqueza.e pelos gregos em geral . Se a natureza do estado é. segundo as virtudes que se referem a cada classe. Platão reconhece a .o homem prático e empírico. porquanto cada homem precisa do auxílio material e moral dos outros. a ordem ideal do mundo e. A música . pois. videntes de idéias. ética. a distinção em classes. são incompatíveis com a condição de um homem livre em geral. o comunismo dos bens. a riqueza. . À classe dos guerreiros cabe a defesa interna e externa do estado. As almas destas últimas duas categorias nascem de novo. sobretudo.tornada depois sinônimo de imanentismo. pois este fim supremo é unicamente a contemplação das idéias. Qual é. Tal especificação e concretização da divisão do trabalho seria representada pela instituição da escravidão. inteiramente entregues à conservação moral e física do estado. a dos trabalhadores ocupa o ínfimo lugar. respectivamente. ascética do estado platônico.3. a família. fundamentalmente. estas classes: a dos filósofos. antes de tudo. mas. contemplam eles o mundo das idéias. educá-los para a virtude. pelo desprezo com que era considerado por Platão . Platão foi levado a esta concepção política . a quem cabem as virtudes mais elevadas. mas o sábio.pelo povo. consoante Platão. as dos filósofos. a de organismo ético-transcendente. pode causar impressão. Tinha ele compreendido bem que os interesses particulares. todavia. o estado ideal deveria ser dividido em classes sociais. e. Os guerreiros representam a força a serviço do direito. Na concepção ideal.submetida às duas precedentes. não. A essência do estado seria então. especialmente. dos quais e juntamente com os quais. não uma sociedade de indivíduos semelhantes e iguais.ao menos positivamente . Entretanto. e. representado pelos filósofos. que representam um desenvolvimento social e uma sistematização estável da divisão do trabalho no âmbito de um estado. porquanto representa precisamente . Na República. Com efeito. à primeira vista. A educação das classes superiores importa. o fim supremo. A Política Os escritos em que Platão trata especificamente do problema da política. de conformidade com a ordem estabelecida pelos filósofos.diz Platão . espiritual. como única e total expressão da eticidade transcendente.

amor à sabedoria). ou seja. pois. Para Entender Platão Platão. A Academia A escola filosófica fundada por Platão. A doutrina pitagórica da salvação está muito próxima dos mistérios do orfismo. inicialmente. orienta-se para o ecletismo.. pelos mitos fantásticos e imorais.reformada e purificada . O motivo prático é que a arte . aquele mesmo ideal inteligível que a filosofia atinge abstratamente. conceptual. depois. quase um século. de evocar Pitágoras de Samos.embora transcendente. cujas divindades são os astros e o cosmo. no conjunto do seu pensamento. A antiga academia dura até o ano de 260 a. este absoluto . o pensamento de seu mestre Sócrates. sendo considerada a arte como uma espécie de loucura divina. que foi um dos indícios da decadência grega. Entretanto. sucessores de Platão. que toma uma orientação cética. encarnada em formas sensíveis. denominadas por Platão. portanto. Por conseqüência. precisamente denominados pré-socráticos. A arte.como o amor. Chegamos assim ao princípio da era vulgar.torna-se outro tanto danosa no campo moral. narrados em torno dos deuses e dos heróis. gnosiologicamente. É governada por discípulos. Segue-se na média academia. que viveu no século V antes de nossa era e que sabemos ter sido um ilustre matemático.. reitores. pela virtude que deriva necessariamente da ciência. prático outro. inclusive Homero. e subordinadas a esta espécie de Deus supremo. mas não passa de uma importância instrumental e parcial. as aparências coloridas do universo. assim como a natureza do som é função do comprimento da corda que vibra.C. Platão pode.C. Costuma-se dividila .deveria ser um itinerário especial do espírito para o Absoluto e o inteligível. prevalece a desvalorização por dois motivos. que não só reencontramos em Platão. na sua pureza lógica. a nova academia volta ao antigo dogmatismo e. para o bem como para o mal.C. porquanto deveria atingir intuitivamente. impura fonte gnosiológica . Os pitagóricos acreditam na . Vai-se acentuando a importância da experiência. segundo os interesses do último Platão. a arte nos atrai para o verdadeiro. não pode tornar-se objeto de religião. animados e racionais.). Tratemos. A Religião e a Arte A idéia do Bem seria o centro da religião platônica. fundador de sociedades iniciáticas que visam à salvação de seus membros.dada esta sua inferior natureza teorética. como religião do seu estado ideal. anteriores e contemporâneos . também é um místico. desenvolvendo o dualismo no panteísmo emanatista.a religião helênica.C. Finalmente. mas de fenômenos. média e nova. é o primeiro grande filósofo da tradição ocidental a deixar uma obra escrita considerável. Platão hostiliza o antromorfismo. nem sequer da religião assim chamada natural. Pitágoras (que teria inventado a palavra filosofia. sua matemática desemboca numa metafísica. Na realidade. Seu culto essencial é representado pela ciência e. mas que está na origem da ciência moderna. Apesar de repelir os deuses da mitologia popular e poética. A ela pertencem homens insignes e de grande doutrina. aceita francamente o politeísmo. dadas a sua impersonalidades e inatividade a respeito do mundo. a academia platônica sobreviverá ainda e tomará uma última forma e feição com o neoplatonismo. algo como que uma filosofia. a obra de Platão só pode ser entendida em função de outros pensamentos.o Bem e as idéias . sobreviveu-lhe por quase um milênio. como também o pensamento dos filósofos anteriores.em antiga. de mania. É este o último esforço grandioso do pensamento grego para resolver o problema filosófico. que tem por objeto a Beleza eterna e os graus que levam até ela . bem como à idéia do Bem e às outras idéias.de saída. semelhante à religião e ao amor. pois o prevalecer da cultura física do corpo torna os homens grosseiros e materiais. os assim chamados deuses visíveis. Atuando cegamente sobre o sentimento. Em todo caso. estão as demais idéias. até o VI século d. mais ou menos. em oposição ao seu gênio e ao gênio artístico grego. como a ciência.cronologicamente e logicamente . como também uma tendência para uma sempre maior sistematização do pensamento platônico. provavelmente também pela influência de Aristóteles . uma espécie de revelação superior. a arte deveria ser. até querer banidos de seu estado ideal os poetas. cópia não de essências. É um politeísmo estranho. Quanto à avaliação da religião positiva. dissimulam relações numéricas que constituem o fundo das coisas: idéia capital. subordinados ao Demiurgo. já que Pitágoras acredita que os números são o princípio e a chave de todo o universo. inferior à ciência. encontramos em Platão uma tentativa de valorização da arte em si. espiritual e ético. conservar . Seja como for. sobretudo graças a Carnéades (213-128 a. que Platão já tinha valorizado no mito. infinitamente diversas. nascido em 428 a. isto é. Daí a sua aversão ao culto idolátrico dos exercícios físicos.importância da ginástica. No entanto. que é já uma cópia do mundo ideal. deuses eternos. As doutrinas estéticas de Platão são algo oscilantes entre uma valorização e uma desvalorização da arte. Ao lado. a Academia. Todavia. O motivo teorético é que a arte resultaria como cópia de uma cópia: cópia do mundo empírico. pois . prevalecendo simpatias pitagóricas . como para o falso. teorético um. e valorizando o elemento religioso positivo.

Diremos uma palavra sobre os sofistas. como punição de faltas passadas. de um modo geral. cujo ceticismo é engendrado pela multiplicidade de doutrinas contraditórias. E isto é significativo e simbólico. ao pé da letra. aristocrata jovem e belo. Platão tinha quatro anos quando começaram as guerras do Peloponeso e trinta e um quando eles terminaram. o jovem Platão é convocado por parentes e amigos a participar do governo autoritário dos Trinta. elementos eternos. Tal é a maiêutica socrática. torna-se prisioneira de um corpo (soma = sema. é amargo para o enfermo). ele se comparava à sua mãe. tudo muda infinitivamente. acha que os elementos constitutivos do mundo são ordenados por uma Inteligência cósmica. o real é o Ser único. só há salvação pelo saber. de preferência. Condenação injusta e escandalosa que exprime uma incompatibilidade trágica entre o poder político e a sabedoria do filósofo. devemos nos interessar. "Reconheço que todos os Estados atuais. que foi professor de Péricles. segundo um ritmo regular. tudo flui: a morte sucede à vida. o arrasamento dos famosos muros (uniam a cidade ao Pireu) pelos esparciatas vencedores. a peste.É somente pela filosofia que se pode discernir todas as formas de . Sócrates não pretende. só reencontra a filosofia a partir de preocupações de caráter político. seus ancestrais paternos. Por exemplo: partindo dos aspectos os mais diversos da justiça. Sócrates fá-lo compreender que. "Conhece-te a ti mesmo". A morte anuncia o renascimento num outro corpo até que a alma. não quer nos comunicar um saber que não possuiríamos. todavia. a mobilidade não passa de uma ilusão que engana nossos sentidos. "Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". Nada ensinava e limitava-se a partejar os espíritos. aos quais traiu para assumir a liderança do outro partido). que era parteira. água. em 407. Sócrates. delicioso para o amador. deve-se deixar aos deuses o cuidado de se ocupar com o universo. recordemos o acontecimento fundamental da juventude de Platão. o Nous. condena Sócrates a beber a cicuta como corruptor da juventude e adversário dos deuses da cidade. portanto. a vigília ao sono. de novo no poder. portanto. velho e muito feio (seus olhos salientes e seu nariz achatado são célebres). Ajuda-nos tão somente a refletir. por iniciativa de um certo Anytos (filho de um rico empreiteiro e antigo amigo dos Trinta. são mal governados. ignora o que acreditava saber.. Duas doutrinas se opõem radicalmente entre si. porém... é a palavra-chave do humanismo socrático. Esta máxima gravada no frontão do templo de Delfos. Devemos agora. que. Sócrates. "O Ser é. Platão a ele se une. a noite ao dia. a idéia geral que contém os caracteres constitutivos da justiça. E as perguntas feitas por Sócrates levam o interlocutor a descobrir as contradições de seus pensamentos e a profundidade de sua ignorância.C. se Sócrates é o primeiro a reconhecer sua própria ignorância. Mas Atenas. de fato. ele se retrai. e constata que os Trinta acumulam injustiças e violências. esboroa-se na época em que Platão atinge a idade adulta. Platão vai sonhar com a reconstrução de uma cidade. não pretende ensinar coisa alguma sobre a natureza humana. faz perguntas e sempre dá a impressão de buscar uma lição no interlocutor. Para compreender isto. pelo incremento do individualismo e decadência dos costumes após Péricles. Segundo sua perspectiva racionalista. ele procura depreender o conceito de justiça. Sócrates possui tal confiança no saber e na verdade que está firmemente persuadido que os injustos e os maus não passam de ignorantes. é belo e vigoroso: apelidam-no "Platão" em virtude de seus ombros largos). Em outras palavras: não existe verdade absoluta.metempsicose. enquanto o ódio que dissocia e o amor que unifica seriam os princípios motores do universo. isto é. antes de tudo. simultaneamente purificada pela virtude e pela prática de ritos iniciáticos. significa a arte de interrogar. como Empédocles ou Heráclito. 2. cujas combinações mutáveis são infinitas. o não-ser é a mudança (mudar é deixar de ser o que se é para ser o que não se é). o não-ser não é". Aborda com humildade fingida os sofistas inflados de falso-saber. um esforço de definição. Se conhecessem verdadeiramente a justiça. do último rei de Atenas. sem exceção. a tomar consciência dos nossos próprios pensamentos. seu encontro com Sócrates. A alma. elaborar uma cosmologia. dizia. ele funda todas as suas esperanças na verdade tão somente. uma cidade que seja a encarnação da Justiça. A verdade e a justiça (das quais Sócrates será o símbolo) não possuem bom aspecto. A destruição da frota. O fluxo que faz do universo uma torrente é constantemente produzido e destruído por um Fogo cósmico. 3. por aquilo que nos concerne diretamente. Anaxágoras. torna-se discípulo de um cidadão de origem modesta. a uma brilhante carreira política. mas uma cidade cuja potência é antes moral e espiritual do que material. corpo = túmulo). Muitas outras doutrinas dessa época tentam explicar o mundo. mereça ser finalmente libertada de toda materialização. ajudá-los a trazer à luz o que já trazem em si mesmos. É um jovem aristocrata que une aos seus dons intelectuais e físicos (duas vezes coroado nos jogos atléticos nacionais. na verdade. com a capitulação de Atenas. mas tão somente opiniões relativas ao homem (este vinho. segundo o testemunho de Platão. "Planta rei". A encarnação é tão somente um encarceramento provisório para a alma. 4. O verdadeiro ponto de partida da filosofia de Platão é a morte de Sócrates em 399 a. segundo ele. Sócrates tem sessenta e três anos quando. Estava destinado. Seu método é. eterno. o nascimento mais prestigioso: sua mãe descendia de Sólon.com inigualável poder marítimo . Na realidade. Platão. Protágoras de Abdera. Acontecimento político: é o partido popular. dos problemas que eles colocam. imóvel. assinalam a importância da catástrofe. eles a praticariam. que. Alain falou a propósito desse "choque dos contrários": Platão. Para Heráclito de Éfeso. Demócrito tenta conciliar as duas doutrinas por intermédio de sua filosofia de átomos. A esta filosofia da mobilidade universal se opõem Parmênides e seu discípulo Zenão de Eléia: para eles. Ao mesmo tempo que convida o interlocutor a tomar consciência de seu próprio pensamento. Tal é a ironia. pertencem a um mundo que não o das aparências. caracterizar os grandes traços da filosofia de Sócrates: 1. pois ninguém é "maus voluntariamente". que por ocasião do nascimento de Platão se encontra no apogeu . Na Atenas vencida. que "o homem é a medida de todas as coisas". Um dos mais célebres. Muitas vezes. Daí as resoluções que Platão nos apresenta na sétima carta. ar e fogo). pelo abuso da retórica (um orador hábil pode demonstrar o que quiser) e. Empédocles vê na matéria quatro elementos (terra. no entanto.

e o mundo das aparências sensíveis. a vontade e o espírito. nos jardins de Academos. mas Deus é que é a medida de todas as coisas. mais exatamente. uma definição do homem em geral. é preciso que exista algo além dos homens particulares e diferentes entre si que nós reconhecemos. Depois. mostra que. filosofia e a arte de governar as cidades segundo a justiça. Dionísio I prendeu Platão e. no fundo. o Banquete. no mais alto grau. o único mundo verdadeiro.é preciso renunciar do oportunismo e à imoralidade dos sofistas. Se quiséssemos resumir a filosofia de Platão em uma palavra. À doutrina das Idéias também se correlaciona a esperança da imortalidade da alma. os militares nos quais a Justiça será coragem. um outro mundo onde exista o Homem em si. Entre todas as formas de governo. Sabedoria e que são filósofos longamente instruídos. reconcilia Parmênides e Heráclito ao admitir a existência de dois mundos: o mundo das idéias imutáveis. Um belo efebo. A idéia platônica é uma promoção ontológica do conceito socrático. por exemplo. porém. Resgatado por Anikeris de Cítera por vinte minas.justiça política e individual". mas ele só existe porque participa do mundo das idéias do qual é uma cópia ou. E Sócrates. perto de Colona. elas foram aprisionadas no corpo. sobre o conceito. Platão prefere a aristocracia e. um mundo de pernas para o ar". uma vez que guardaram uma lembrança obscura . como Sócrates o estabeleceu. por exemplo. à imagem de todas as sociedades indo-européias primitivas. três classes sociais: os artesãos dos quais a Justiça exige a temperança.de seu antigo contato com as Idéias. Os temas principais do platonismo podem ligar-se à distinção entre o mundo das Idéias eternas e o mundo das aparências mutáveis. restam-nos. a emoção que rebata a alma diante da Beleza . para que haja.de todas as idéias a mais fácil de reconhecer . o idealismo platônico "traz a marca de um grave traumatismo. o Teeteto. o Parmênides. Platão dá realidade ao conceito socrático. um pouco mais acima. como fazem os geômetras. o Fedro. o Fédon. Devemos representar a Academia como uma espécie de Universidade onde se ensina matemáticas (não entra aqui quem não for geômetra). Platão. Podemos mostrar de duas maneiras que a intuição fundamental de Platão se prende ao ensinamento de Sócrates: a) Recordemos o ensinamento socrático sobre a definição. isto é. na ilha de Egina. perpetuamente mutáveis. A política de Platão distingue. por punição de alguma falta. Platão concede ao mundo sensível uma certa realidade.visto que sua união com o corpo é acidental e monstruosa . Encontrara aí um discípulo estusiasta na pessoa de Dion. o pensamento intuitivo. A ascensão dialética. É no mundo invisível que a justiça e a verdade triunfam". Desse modo. É então que ele funda.que. a cidade que condena Sócrates à morte. Esses trabalhos esotéricos de Platão constituem a mais pura jóia da filosofia de todos os tempos. "esse belo risco a ser corrido"..C. A teoria platônica da alma está ligada à doutrina das Idéias. em seguida. Platão morre em 348 a. poderíamos dizer que ela é fundamentalmente um dualismo. Talvez a solução seja a evasão do filósofo que "foge daqui debaixo" para se refugiar na meditação pura (tal é o filósofo cujo retrato nos é traçado no Teeteto. elas continuam capazes de reminiscência. o Timeu. não se revelou muito adequado para se tornar o rei filósofo que Platão quisera fazer dele. por exemplo. nele. uma sombra. segundo a doutrina órfico-pitagórica. Uma vez que a alma é feita para as Idéias . as Idéias contam mais que a vida. Em suma. A justiça política é uma harmonia semelhante à justiça do indivíduo. Ela também se encontra em cada uma das virtudes particulares: a temperança nada mais é que uma sensibilidade regulamentada segundo a justiça. as simples impressões sensíveis (eikasia). Dionísio I. As almas outrora contemplaram às Idéias à vontade. filósofo puramente contemplativo que nem sabe onde se reúne o Conselho e cujo corpo está apenas presente na Cidade). A morte de Sócrates feriu-o mortalmente. Todavia. diz Platão. em seguida pelos belos corpos.não o homem. aos quarenta anos. e. uma vez que as Idéias constituem absolutos referenciais . é preciso tomar a palavra em seu sentido etimológico: governo dos melhores. Platão pensa igualmente que a emoção amorosa. atesta a existência desse mundo invisível. Tal é o sonho que Platão tentaria realizar em Siracusa. finalmente. Como diz muito bem André Bonnard. cunhado do novo tirano. Platão retornou a Atenas. contra Trasímaco e Gláucon (na República) o valor absoluto da Idéia de justiça. depois pelas belas almas e pelas belas virtudes conduz à redescoberta do Belo em si (leia-se o Banquete). A justiça é a hierarquia harmônica das três partes da alma . a obra escrita de Platão. Platão sustenta contra Cálicles (no Górgias). as opiniões estabelecidas (pistis). os chefes cuja Justiça é. reservado aos iniciados) dado por Platão a seus discípulos só nos é conhecido atualmente pelas críticas de Aristóteles. pode ser redespertada . fê-lo expor no mercado de escravos para ser vendido. uma essência universal do homem. seus diálogos célebres tais como o Górgias. a Justiça em si. secreto. o Político. Assim. mas "escritas em caracteres mais fortes" na escala do Estado. de certo modo.. para ele. a cidade que vê triunfar a injustiça e a mentira é "um mundo ao inverso. a República.por que não seria eterna como as Idéias que ela tem por vocação contemplar? Do mesmo modo. Acrescenta-se que o mundo das Idéias é. eternas.é o meio de uma conversão dialética: o amor por um belo corpo. O ensino esotérico (isto é. Mas uma outra solução seria o próprio filósofo encarregar-se do governo da cidade (a Justiça reinará.a sensibilidade. Este último. as Idéias. no entanto. a iluminação direta pela Idéia (noesis). pela tranqüilidade quase contente de sua morte. as Leis. podemos ligar à distinção dos dois mundos algumas observações sobre o mito platônico: . uma escola de filosofia à portas da cidade. antes de tudo. objeta Platão a Protágoras . no dia em que os filósofos forem reis ou no dia em que os reis forem filósofos). a coragem é a justiça da vontade e a sabedoria é a justiça do espírito. b) Mas é sobretudo a vida e a morte de Sócrates que suscitam o idealismo platônico. só é belo porque participa da Beleza em si. é o itinerário pelo qual nos levamos do mundo sensível ao mundo das Idéias: no mais baixo grau. o Sofista. o pensamento discursivo (dianoia) que constrói o raciocínio partindo de figuras. Finalmente. o jovem escravo que Sócrates interroga no Mênon descobre propriedades geométricas quase sem ajuda. todavia.

que. de estudo. A respeito do caráter de Aristóteles. segundo Platão. em 335. Tinha pouco mais de 60 anos de idade. Aristóteles A Vida e as Obras Este grande filósofo grego.manifestam um grande rigor científico. O nome de metafísica é devido ao lugar que ela ocupa na coleção de Andrônico. passeando nos umbrosos caminhos do ginásio de Apolo. O .C.C. conseguindo um êxito na sua missão educativo-política. dependem também as vicissitudes exteriores das duas vidas. no verão de 322. Escreveu sobre todas as ciências. perto do templo de Apolo Lício. de que foi ele o criador. Aí ficou três anos. Escritos retóricos e poéticos: a Retórica. a Política. o mito ressalta as relações que. exposição e expressão breve e aguda. Do diferente caráter dos dois filósofos. também chamada peripatética devido ao costume de dar lições. organizando outras em corpo coerente de doutrinas e sobre todas espalhando as luzes de sua admirável inteligência. Aqui classificamos as obras doutrinais de Aristóteles do modo seguinte. constituindo algumas desde os primeiros fundamentos. até à famosa expedição asiática. É uma compilação feita depois da morte de Aristóteles mediante seus apontamentos manuscritos. O nome. V. Nesse período estudou também os filósofos pré-platônicos. em amena palestra. em 367. salvo uns apócrifos e umas interpolações. o belo não é senão o "esplendor do verdadeiro" e a arte está em segundo lugar em relação à filosofia. no seu estado atual. para se dedicar à investigação científica. desfez-se politicamente o seu grande império e despertaram-se em Atenas os desejos de independência. agudeza de penetração. após enfermidade. substancialmente autêntica. refazimento da ética de Aristóteles. sem enfeites míticos ou poéticos. de pesquisas. então jovem de treze anos. Aristóteles foi essencialmente um homem de cultura. a Ética a Eudemo. em que. foi para Atenas e ingressou na academia platônica. inacabada. no ano seguinte. social e política. estourando uma reação nacional. é apenas uma parte da obra de Aristóteles. clara e ordenada. A atividade literária de Aristóteles foi vasta e intensa. médico de Amintas. e pertencentes à filosofia teorética. em 384 a. Escritos metafísicos: a Metafísica famosa. II. em três livros. provavelmente publicada por Nicômaco. Não lhe faltou nenhum dos dotes e requisitos que constituem o verdadeiro filósofo: profundidade e firmeza de inteligência. variada e romanesca a de Platão. Preveniu ele a condenação. perfeição maravilhosa da terminologia filosófica. III. não por Aristóteles. a Grande Ética. ao contrário. retirando-se voluntariamente para Eubéia. filho de Nicômaco. que considerava a lógica instrumento da ciência. I. O Pensamento: A Gnosiologia Segundo Aristóteles. O grande estagirita explorou o mundo do pensamento em todas as suas direções. d) Finalmente. malvisto pelos atenienses. procedimento pedagógico paradoxal. foi acusado de ateísmo. corresponde muito bem à intenção do autor. faculdade de criação e invenção aliados a uma vasta erudição histórica e universalidade de conhecimentos científicos. no litoral setentrional do mar Egeu. numa linguagem de imagens uma verdade filosófica estranha ao mundo sensível! É o mundo das Idéias eternas transposto em imagens sensíveis. que lhe foram úteis na construção do seu grande sistema. em face do qual a atitude inicial do espírito é o assombro do mistério. Escritos morais e políticos: a Ética a Nicômaco. vigor de raciocínio. isto é. onde ficou por vinte anos. O seu problema fundamental é o problema do ser. éticos. os motivos políticos. por certo. em catorze livros. em especial da segunda. ao qual é dedicada. Em 343 foi convidado pelo Rei Filipe para a corte de Macedônia. inteiramente recolhido na elaboração crítica do seu sistema filosófico. entretanto. Daí o nome de Liceu dado à sua escola. sugerido pelo mundo das imagens! b) O mito é o único meio de exposição para os problemas de origem (acontecimentos sem testemunhos) e dos fins últimos (que ainda não existem!). "Assimilou Aristóteles escreve magistralmente Leonel Franca todos os conhecimentos anteriores e acrescentou-lhes o trabalho próprio. até à morte do Mestre. a Poética. fruto de muita observação e de profundas meditações. que se foi isolando da vida prática. A primeira edição completa das obras de Aristóteles é a de Andronico de Rodes pela metade do último século a. como preceptor do Príncipe Alexandre. que Platão não conseguiu. a sua escola. pois a inteligência abstrata só compreende o eterno e não pode bastar para evocar o que pertence à história. Esta escola seria a grande rival e a verdadeira herdeira da velha e gloriosa academia platônica. colônia grega da Trácia. que a colocou depois da física. rei da Macedônia.a) O mito. De volta a Atenas. tendo presente a edição de Andronico de Rodes. em dois livros. Aristóteles. nasceu em Estagira. de pensamento. Aos dezoito anos. seu filho. em Siracusa. IV. juntamente com a metafísica. Aristóteles fundava. devido a Eudemo. existem entre a poesia e a verdade. em dez livros. treze anos depois da morte de Platão. temos naturalmente muito menos a revelar do que em torno do caráter de Platão. não o problema da vida. Escritos lógicos: cujo conjunto foi denominado Órganon mais tarde. poder admirável de síntese. poder-se-á avaliar a sua prodigiosa atividade literária". em oito livros. referentes à metafísica geral e à teologia. Pelo elenco dos principais escritos que dele ainda nos restam. c) O mito indica que o pensamento filosófico vem se abeberar nas fontes das crenças religiosas tradicionais. Escritos sobre a física: abrangendo a hodierna cosmologia e a antropologia. sem se deixar distrair por motivos práticos ou sentimentais. como a sua cultura e seu gênio universal. estéticos e místicos tiveram grande influência. As obras de Aristóteles as doutrinas que nos restam . Morto Alexandre em 323. incompleta. traduz uma espécie de narração poética legendária. A poesia mítica é uma mensagem metafísica. a filosofia é essencialmente teorética: deve decifrar o enigma do universo. Aristóteles faleceu. chefiada por Demóstenes. compêndio das duas precedentes. mais uniforme e linear a de Aristóteles.

d) indica. mas abandonando a solução do mestre.devem ser. destarte. entretanto. bem como segundo Platão . mais positivo. necessidade objetiva. motor imóvel. Trata Aristóteles os problemas lógicos e gnosiológicos no conjunto daqueles escritos que tomaram mais tarde o nome de Órganon. as verdades evidentes. é anterior ao particular. os juízos imediatamente evidentes.objeto próprio da filosofia. onde o fenômeno particular depende da lei universal e o efeito da causa. A lógica aristotélica. seja constrangido a elaborar. razão . a filosofia aristotélica é dedução do particular pelo universal. é o silogismo. portanto. tirada da experiência. a coisa parece mais complicada. que corresponde a uma derivação real. entretanto. é sempre verdadeira. nos indivíduos. as formas são imanentes na experiência. passagem da potência ao ato. são fruto de uma visão imediata. mas o ponto de partida da dedução é tirado . apodíctica. o universal. compreende-se que Aristóteles. o objeto da ciência aristotélica é a forma. em seguida. a saber. as formas e suas relações. Geralmente. racional. origem extra-temporal. e) refuta. A filosofia aristotélica é. O seu processo característico. Filosofia de Aristóteles Partindo como Platão do mesmo problema acerca do valor objetivo dos conceitos. Rigor no método • Depois de estudas as leis do pensamento. Aristóteles. no estudo de uma questão. da representação sensível. toma sempre o fato como ponto de partida de suas teorias. mas pode-se integrar logicamente segundo o espírito profundo da sua filosofia.tem como objeto o universal e o necessário. portanto. psicologicamente existe primeiro o particular. O erro começa de uma falsa elaboração dos dados dos sentidos: a sensação. da representação sensível. explicação do condicionado mediante a condição. Todas as partes se compõem. seu nexo. como o conceito. a filosofia . Segundo Aristóteles. Aristóteles é o criador da lógica. também os elementos primeiros do conhecimento . sem um primeiro motor imóvel. é essencialmente dedutiva. o necessário. todo o saber humano. porquanto os sentidos por si nunca nos enganam. Quanto ao juízo. Este vir-a-ser. que é o nosso primeiro conhecimento.mediante o intelecto da experiência. uma resenha de todos os casos os fenômenos particulares para poder tirar com certeza absoluta leis universais abrangendo todas as essências. passagem da potência ao ato. Os elementos primeiros. intuição intelectual. pois. um ato puro enfim. Sob o ponto de vista metafísico. a própria solução. é denominada por ele analítica e representa a metodologia científica. A teorética. dividir-seia em teorética. o processo dedutivo e indutivo aplica-os. em que unicamente temos ou não temos a verdade. do inteligível. conceptual como a de Platão mas parte da experiência. Com efeito. que constituem precisamente o objeto próprio do nosso conhecimento sensível. Então só resta possível uma indução incompleta. os conceitos. Limitar-nosemos mais especialmente aos problemas gerais da lógica de Aristóteles. mesmo admitindo que o mundo seja eterno. uma doutrina da indução. metafisicamente. isto é. conhecidos sensivelmente. ao lado e em conseqüência da doutrina de dedução. isto é. Como é que se formam os princípios da demonstração. como idéia era o objeto da ciência platônica. é dedutiva. em relação com a sua doutrina do contato imediato da alma com as idéias . segundo Aristóteles. em que o universal é imanente. gnosiologicamente. se confirmam. a coisa parece simples: a indução nada mais é que a abstração do conceito. o contigente. colhido imediatamente pelo intelecto humano mediante a sua evidência. pois não pode haver ciência em torno do individual e do contingente. A necessidade deste primeiro motor imóvel não é absolutamente excluída pela eternidade do vir-a-ser. buscando na realidade um apoio sólido às suas mais elevadas especulações metafísicas.conceito e juízos . Por certo. a poética em estética e técnica. o universal e o necessário. tirados da experiência. ambas objetivas. 3. fica eternamente inexplicável. a posteriori. em geral. c) propõe depois as dúvidas. que não tem princípio e fim no tempo. Unidade do conjunto . do mundo. em que está a solução do seu problema. Entretanto. idealista. A formação do conceito é. pois. bem como a platônica. realidade do vira-ser. Os caracteres desta grande síntese são: 1. a "desindividualização" do universal do particular. ao contigente. Observação fiel da natureza • Platão. Pode considerar-se como o autor da metodologia e tecnologia científicas. enquanto é vir-a-ser. porém. o pensamento do pensamento. divide-se em física. as sentenças contrárias. em todas as suas obras. donde temos a ciência? Aristóteles reconhece que é impossível uma indução completa. a ciência. mas certíssima. realistas: tudo que se pode aprender precede a sensação e é independente dela. requer finalmente um não-vir-a-ser. de cujo sistema é banida toda forma de inatismo. a posteriori. clássico. ato puro. na lógica. isto é. Objeto essencial da lógica aristotélica é precisamente este processo de derivação ideal.reminiscência. a filosofia prática divide-se em ética e política. b) passa a enumerar-lhes as soluções históricas. a quem Aristóteles chega através de uma sólida demonstração. sobre a base socrático-platônica. uma verdadeira síntese. da passagem da potência ao ato. consoante Platão. A Teologia Objeto próprio da teologia é o primeiro motor imóvel. portanto. analítico. de um modo e de outro. ontologicamente. porquanto o primeiro elemento depende do segundo. são as essências imutáveis e a razão última das coisas. por sua vez. Foi dito que. de outra forma teria que ser movido por sua vez. os princípios supremos. por último. isto é. demonstrativa. porque aí está a sua gnosiologia. com rara habilidade. ela não está efetivamente acabada. e que é o elemento constitutivo da ciência. Também aqui se segue a ordem da realidade. do movimento. A ciência platônica e aristotélica são. como ciência especial.Sua vasta obra filosófica constitui um verdadeiro sistema. o inteligível. o sensível. cuja verdade imediata ele defende. No sentido estrito. abrangendo. se correspondem. ao sensível: mas. de que constituem a essência. em estilo lapidar e conciso e criando uma terminologia filosófica de precisão admirável. 2. A filosofia. um motor já em ato. isto é. substituindo à linguagem imaginosa e figurada de Platão. no sentido de que os elementos do juízo os conceitos são tirados da experiência. é a priori. causa absoluta. Aristóteles procede por partes: a) começa a definir-lhe o objeto. Quanto aos elementos primeiros do conhecimento racional. Aristóteles constrói um sistema inteiramente original. contraditório. indiscutível. baseada sobre a imediata experiência. rejeitara a experiência como fonte de conhecimento certo. Deus. matemática e filosofia primeira (metafísica e teologia). Assim sendo. prática e poética.conforme Aristóteles. Por certo.

Pelo que diz respeito à virtude. ele. o bem comum superior ao bem particular. e a esta é necessária a razão. é aquilo que move sem ser movido. no dizer de Aristóteles. atividade teorética. mecaniza-se. a vontade. não as aniquila e destrói. ao contrário. Deve ele guiar os filhos e as mulheres. passional. atraente. Unicamente no estado efetua-se a satisfação de todas as necessidades. A Moral Aristóteles trata da moral em três Éticas. não conhece o mundo imperfeito. isto é. pensamento de pensamento. certamente. Naturalmente. e as dianoéticas. Visto ser a razão a essência característica do homem. reta. aquela a coletividade. É uma distinção e uma hierarquia. que a transcendem. contemplativas. é aquilo que é movido. os escravos. ser completamente resolvido na razão. a sua felicidade. A política. mas uma aplicação da razão. porquanto a coletividade é superior ao indivíduo. Se a virtude é. são superiores às virtudes éticas. que exige o conhecimento absoluto. e. Deus é unicamente pensamento. a política é a doutrina moral social. porque o fim último do estado é a virtude. o real puro. mas unicamente como o fim último. Deus não atua sobre o mundo. a que é necessária à virtude. que vem anular aquele mesmo Absoluto a que logicamente chegara. da filosofia. A virtude ética não é. o racionalismo. As virtudes intelectuais. A razão aristotélica governa. o seu bem. isto é. Logo. razão pura. como não é inata a ciência. não é unicamente ciência. Consoante sua doutrina metafísica fundamental. o querer têm objeto diverso do sujeito agente e "querente". as diversas paixões predominantes dos vários indivíduos. que deve ser governado pela razão. a família compõe-se de quatro elementos: os filhos. Deve fazer frutificar seus bens. pode deduzir logicamente a natureza essencial de Deus. afetivo. o possível puro. A ética é a doutrina moral individual. está a beatitude divina. embora se apresente especulativamente assaz discutível é aquela pela qual a virtude é precisamente concebida como um justo meio entre dois extremos. este justo meio. além de um fim educativo. condição e complemento da atividade moral individual. na ação de um homem. e não pode. mas uma ação com ciência. uma atividade que pressupõe o conhecimento racional. a virtude não é inata. da vontade. mais precisamente é ela um hábito segundo a razão. que é precisamente uma atividade conforme à razão. pensamento de si. consegue a felicidade mediante a virtude. conquistado através do precedente raciocínio. popular. no mesmo tempo. que precede cronologicamente o estado. realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e senso disto consciente. a mulher. E. de que se falou quando das obras dele. a política. Noutras palavras. com o pensamento e a vontade. torna-se de fácil execução . Deus. e fundamento primeiro da suprema atividade contemplativa. uma disposição constante. isto é. estabilizase. igual para todos e sempre. não são mera atividade racional. Uma doutrina aristotélica a respeito da virtude doutrina que teve muita doutrina prática. porém. torna-se quase uma segunda natureza e. uma vez adquirida. De Deus depende a ordem. do chefe a que pertence a direção da família. não é abstrato. práticas. político. Aristóteles. é distinta da moral. como queria o ascetismo platônico. que é pensamento puro. para dar uma explicação filosófica da relatividade do mundo pondo ao seu lado esta realidade independente dele. um elemento sentimental. como . tem também um fim econômico. maior valor uma outra doutrina aristotélica: precisamente a da virtude concebida como hábito racional. isto é. ativas. do intelecto. Desta ciência trata Aristóteles precisamente na Política. A característica fundamental da moral aristotélica é. porquanto a família. mas concreto. de que acima se falou. e só assim. pois. mas adquiri-se mediante a ação. isto é. Aristóteles distingue duas categorias fundamentais de virtudes: as éticas. permanece o dualismo. não é criador. antes de tratar propriamente do estado será mister falar da família. Da análise do conceito de Deus. como as virtudes intelectuais. todavia. Se o agir. relativo a cada qual. metafísico. sendo naturalmente animal social. então. contudo. como causa eficiente e formal (exemplar). Visto que o estado se compõe de uma comunidade de famílias. portanto. à atualização plena da sua forma: e nisto está o seu fim. e menos ainda opera sobre ele. por conseqüência. Deus não pode agir e querer. um costume moral. a racionalidade do mundo. por conseqüência. entre duas paixões opostas: porquanto o sentido poderia esmagar a razão ou não lhe dar forças suficientes. sem se mover a si mesmo. portanto. como pensamento de si mesmo. concebido como primeiro motor imóvel. todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza. Se Deus é mera atividade teorética. assim como estas se compõem de muitos indivíduos. morais. O estado. a sua lei. O estado é um organismo moral. mas implicam. e variável conforme as circunstâncias. a formação moral dos cidadãos e o conjunto dos meios necessários para isso. e. que têm uma importância essencial em relação a toda a filosofia e especialmente à moral. sobre a ação. isto é. tem. concebido. porquanto esta tem como objetivo o indivíduo. As virtudes éticas. mas. antes de tudo. além. teoréticas.como o vício. pois o homem. incompatível com o ser perfeito. fundamentalmente. como as partes precedem o todo. o exercício e. E assim consegue ele a felicidade e a virtude. Em Aristóteles o pensamento grego conquista logicamente a transcendência de Deus. logo. não pode realizar a sua perfeição sem a sociedade do estado. visto ser a virtude ação consciente segundo a razão. a prática. A Política A política aristotélica é essencialmente unida à moral. em razão da imperfeição destes. Segundo Aristóteles. da natureza e do universo. como ato puro. domina as paixões. a vida. Como já foi mencionado. consequentemente. teoréticas. como causa final. naturalmente. que constituem propriamente o objeto da moral. uma atividade segundo a razão. E nesta autocontemplação imutável e ativa. a matéria. é superior ao indivíduo.metafísica de todo devir. Deus é. enquanto qualquer outra atividade teria fim extrínseco. mas unicamente conhecer e pensar. nem providência do mundo. e. auto-suficiente. Aristóteles sustenta o primado do conhecimento. por natureza. conhecer a si próprio e pensar em si mesmo. voltando-se para ele. os bens. natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. o fim do homem é a felicidade. tendo como objeto unicamente a própria perfeição.

importantíssimas a poesia e a música. princípio dos movimentos e das formas do mundo. e cuja degeneração é a demagogia. a forma de governo clássica da Grécia. são necessários instrumentos inanimados e animados. com o seu profundo realismo. não cria. pois. mas constata que na sociedade são necessários também os trabalhos materiais. o mutável. deve promover a virtude e. Entretanto. num particular. num particular e. como é o fenômeno. Não. dessa forma. pois os homens têm necessidades materiais. esses seres divinos não parecem e não podem ter função religiosa e sem física. Aristóteles. o sensível. a forma. não está em condições de se tornar objeto de religião. possuidores. precisamente. as questões gerais da . que ele não conhece. universal é encarnado. De qualquer maneira a condição indispensável para uma boa constituição. e não diz que ela teria um fundamento racional na verdade filosófica da existência da divindade. purificadora da arte. e cuja degeneração é a tirania. as materiais. No entanto. como Platão. Se bem que a arte seja imitação da realidade no seu elemento essencial. como o trabalho. imitação de uma imitação. de outro modo irrealizáveis. duas classes reconhece: a dos homens livres. Quanto à forma exterior do estado. tempo e liberdade. O objeto da arte não é o que aconteceu uma vez como é o caso da história . a que fica assim tirada fatalmente a possibilidade de providenciar a cultura da alma. o estado em particular. que é o governo de um só. Aristóteles não nega a natureza humana ao escravo. agora. cujo caráter e valor estão na qualidade. íntimo sentimento do conteúdo. esse inteligível. E não fica nenhum outro objeto religioso. As leis da obra de arte serão. ao lado do Ato Puro e a ele subordinado. Também Aristóteles. Aristóteles considera a arte a poesia de Homero que tem por conteúdo o universal. os deuses astrais. o inteligível. deve ser encarnado. é que o fim da atividade estatal deve ser o bem comum e não a vantagem de quem governa despoticamente. Reconhece Aristóteles a divisão platônica das castas. para tanto. Eis porque Aristóteles. salva o direito privado. conseqüentemente. será mister reduzir o estado à família e a família ao indivíduo. e sim imitação direta da própria idéia. ainda que encarnado fantasticamente num particular. a que o homem se teria facilmente elevado através do espetáculo da ordem celeste. como Platão. mítica. cujo caráter e valor estão na unidade. defesa e segurança. excluídas pelas próprias características qualidades materiais de tais indivíduos. que é o governo de poucos. físicas. porém. até sem correção alguma. Aristóteles admite a religião positiva do povo. e põe a conquista acima da virtude. mas em seus aspectos universais e necessários. isto precisamente porque o inteligível. portanto. ao invés de se preocupar com uma pacífica educação científica e moral. a felicidade dos súditos mediante a ciência. mais do que as transcendentes idéias platônicas. A Religião e a Arte Com Aristóteles afirma-se o teísmo do ato puro. e sim concreta: deve ser relativa. a aristocracia. conservação e engrandecimento. concretizado num sensível. visa a conquista e a guerra. admite que os corpos celestes são animados por espíritos racionais. e não máquinas. Não obstante a sua concepção ética do estado. estes últimos seriam os escravos. O estado provê. Exporemos portanto. isto é. visto ser necessário. ou dos princípios e das causas do ser e de seus atributos essenciais". particularmente de Atenas. então. tradicional. Daí a escravidão. além de imitação do universal verossimilhança e necessidade coerência interior dos elementos da representação artística. e cuja degeneração é a oligarquia. Aristóteles distingue três principais: a monarquia. concretizado pelo artista num sensível. que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente todas as faculdades: antes de tudo as espirituais. Não obstante esta concepção filosófica da divindade. condena o estado que. graças ao artista. antes de tudo. No entanto. isto é. A Metafísica A metafísica aristotélica é "a ciência do ser como ser. que exigem indivíduos particulares. intelectuais e. O estado não é uma unidade substancial. é-lhe essencial a propriedade. subordinadamente. às circunstâncias de um determinado povo. como seja tarefa essencial do estado a educação. Por isso. bem como aptas qualidades espirituais. negativas e positivas. pelo seu efetivo isolamento do mundo. tornando intuitivo. pelo fato de ser o homem um animal naturalmente social. do inteligível imanente no sensível. dos trabalhadores. o imutável. diversamente de Platão. acontecer. e a diferença entre as várias artes é estabelecida com base no objeto ou no instrumento de tal imitação. produção mediante a imitação. destarte. cujo caráter e valor estão na liberdade. depende a eficácia espiritual pedagógica. Mas o seu fim essencial é espiritual. No entanto. este Deus. O comunismo como resolução total dos indivíduos e dos valores no estado é fantástico e irrealizável. Aristóteles como Platão considera a arte como imitação. para que a propriedade seja produtora. não governa. mediante um treinamento profissional. E critica. Vejamos. a propriedade particular e a família. e como fruto da tendência humana para as representações antropomórficas. reconhece Aristóteles que a melhor forma de governo não é abstrata. este inteligível recebe como que uma nova vida através da fantasia criadora do artista. imitação da forma imanente na matéria. Compreende-se. como obra política para moralizar o povo. a dos cidadãos e a dos escravos. bem como o mundo mutável e material. são apenas meios para a paz e o lazer sapiente. Explica e justifica a religião positiva. seja embora real. inicialmente. a democracia. O fim da educação é formar homens mediante as artes liberais. universal. necessária e universalmente. que faz da guerra a tarefa precípua do estado. como superior à história e mais filosófica do que a história de Heródoto que tem como objeto o particular. platônicos. As preferências de Aristóteles vão para uma forma de república democráticointelectual. isto é. Na arte. sem direitos políticos. O estado surge.ao estado. político. e. a satisfação daquelas necessidades materiais. que é o governo de muitos. se exclui filosoficamente o antropomorfismo. e admite. Se se quiser a unidade absoluta. acomodada às situações históricas. a educação militar de Esparta. o universal. Deste seu conteúdo inteligível. mas o que por natureza deve. só este último possui aquela unidade substancial que falta aos dois precedentes. não exclui uma espécie de politeísmo. de conformidade com o fundamental realismo grego. evidência e vivacidade de expressão. e sim uma síntese de indivíduos substancialmente distintos. enquanto a guerra. A arte é. Ela abrange ainda o ser imóvel e incorpóreo.

as formas aristotélicas são universais. as qualidades acidentais. A causa eficiente. é o substrato imutável. a coisa movida . na natureza em que vivemos. é um mero possível. a natureza que ele assume.e desenvolvida . porém. Por exemplo. a substância física. forma do corpo. Os elementos constitutivos da realidade são. e. potência. a mudança. ainda que haja nele funções diversas faculdades diversas . porém. pela qual toda substância é original e se diferencia de todas as demais. imperfeição. em que se sucedem os acidentes. O primeiro elemento é chamado matéria (prima). forma concretizada da matéria. Mediante esta doutrina é explicado o problema do universal e do particular. que representam a potência e o ato no mundo.a matéria. é precisamente a sensibilidade e a locomoção. substâncias. visto ser impossível que o menos produza o mais. Mesmo que um ser se mova a si mesmo. que tanto atormenta Platão. isto é. A essência . Aristóteles explica o indivíduo. para depois chegarmos àquela que foi chamada. a que é submetido tudo que tem matéria.sínolo . O primeiro é potência. produzindo esta síntese o indivíduo. perfeição. a pura matéria. Enfim. a causa final. Um ser desenvolve-se. Então não existe. O motor pode ser unicamente ato. aperfeiçoa-se. Da relação entre a potência e o ato. segundo Aristóteles diversamente de Platão todo ser vivo tem uma só alma. que tem por princípio a alma e se distingue essencialmente do mundo inorgânico.a idéia . estes dois princípios não são suficientes para explicar o surgir dos indivíduos e das substâncias que não podem ser atuados .por Aristóteles especialmente quando da doutrina da matéria e da forma. A síntese . vamos logo falar. a forma é. causa concomitante de todos os seres reais. nem o ser de Parmênides. absolutamente imóvel. isto é. a mudança. especificadora da matéria . mas une-os em uma síntese conclusiva.pode ser unicamente potência. ato puro. Desta doutrina da matéria e da forma. chamada matéria-prima. A mudança. é o pensamento. a essência. surge o movimento. pois. que é precisamente síntese . em que a mudança se realiza. é portanto uma síntese . que é precisamente a alma. Esta realização do possível. II. que são uma síntese . Podem-se reduzir fundamentalmente a quatro as questões gerais da metafísica aristotélica: potência e ato. que não seja o Ser perfeitíssimo. metafísica especial. deve operar para um fim. não existe por si. consiste ou na sucessão de várias formas na mesma essência. a única realidade efetiva no mundo. mero princípio de decadência. matéria enformada. a característica da vida do homem. e sim imanente e operante nela. pressupõe uma realidade imutável. entre a matéria e a forma. ingrediente necessário para a existência da realidade material. que tem por objeto específico o homem. Ao contrário. deve ser composto de um motor e de uma coisa movida. Aristóteles faz o primeiro . forma. que dirige a causa eficiente para a atualização da matéria mediante a forma.natureza e homem .deriva da forma. Com respeito à matéria. por sua vez. Daí a necessidade de um terceiro princípio. e as determinações que se realizam neste substrato. Todas estas três almas são objeto da psicologia aristotélica. Eis a grande doutrina aristotélica do motor e da coisa movida. imutáveis. propriamente. não é o puro não-ser de Platão. o imperfeito o perfeito. porém.um sínolo . A mudança é. IV. para poder explicar a realidade efetiva das coisas. ainda que a forma seja princípio de atuação e determinação da própria matéria. pode ser levada a efeito unicamente por um ser que já está em ato. a segunda e a terceira todo o ser em que está presente a matéria. A matéria sem forma. Todo ser. tem esta como objeto o mundo que vem-a-ser . pois ela é também condição indispensável para concretizar a forma. que é de duas espécies. a alma é que move o corpo. capacidade de ser. matéria e forma. I. A matéria aristotélica. mas vice-versa. que é intuitiva. conforme o grau de perfeição. eternas. o segundo forma (substancial). potência realizada. perfeição. que tem por princípio a alma sensitiva. portanto.de matéria e forma. em que a forma introduz as determinações. isto é. portanto. o vir-a-ser. a causa eficiente.metafísica.de matéria e de forma.realizadora. elemento imutável da mudança. possibilidade de assumir várias formas. a realização do possível.de potência e de ato. por uma substância em ato. o segundo é atualidade . ser efetivo. matéria. portanto. Mediante a doutrina da matéria e da forma. isto é. que tem por princípio a alma racional. é a nutrição e a reprodução. que possui já o que a coisa movida deve vir-a-ser. a forma sem a matéria. a individualidade. visto que a alma racional cumpre no homem também as funções da vida sensitiva e vegetativa. inteligível. em geral.igual em todos os indivíduos de uma mesma espécie . De sorte que. A Psicologia Objeto geral da psicologia aristotélica é o mundo animado. racional. III. não-ser atual.enquanto tal . e esta. em diversas proporções. Por conseqüência. Daí uma quarta causa. é composta de indivíduos.da matéria e da forma constitui a substância. por sua vez. esta passagem da potência ao ato é atualização de uma possibilidade. passando da potência ao ato. como as idéias platônicas. A primeira e a última abraçam todo o ser. de realidade dos vários seres.bem como a matéria não pode ser atuada . já iniciada pelos últimos pré-socráticos e grandemente aperfeiçoada por Demócrito e Platão. Aqui nos limitamos à psicologia racional. portanto. particular e universal.o sinolo . Um substrato comum. vivente. que tem por princípio a alma vegetativa. Deus. Esta doutrina fundamental da potência e do ato é aplicada . Aristóteles não nega o vir-a-ser de Heráclito. a forma e a matéria. mais tarde.. A característica da vida animal. depois de ter eficazmente criticado o dualismo platônico.um sínolo .e culmina no que não pode vir-a-ser. Diversamente da idéia platônica. o princípio superior cumpre as funções do princípio inferior. princípio de ordem e finalidade. é um absolutamente interminado. que constitui precisamente a substância. universal particularizado. A realidade. que fazia os dois elementos transcendentes e exteriores um ao outro.a não ser por um outro indivíduo.imanente no segundo . de uma potencialidade anterior. O indivíduo é. depende da matéria. aquilo que move deve ser diverso daquilo que é movido. A característica essencial e diferencial da vida e da planta. Deus. que é precisamente a síntese da forma e da matéria. a potência o ato. o ser vivo diversamente do ser inorgânico possui internamente o princípio da sua atividade. e ato significa realidade. doutrina que culmina no motor primeiro. Segundo Aristóteles. movido e motor. portanto. a forma aristotélica não é separada da matéria. A doutrina da potência e do ato é fundamental na metafísica aristotélica: potência significa possibilidade.

a saber. a ação do objeto sensível sobre o órgão que sente. A sensação embora limitada é objetiva. isto é. tem várias faculdades. Criador da lógica. se se tiver presente que o homem é um animal racional. sem obrigação nem sanção. 3. pelo que ela é espírito. que tem um valor teorético. as formas das coisas e os princípios primeiros do ser. pelos vários sentidos. respectivamente. O sentido recebe as qualidades materiais sem a matéria delas. de fenômenos . A Cosmologia Uma questão geral da física aristotélica. e são logicamente separáveis da sua filosofia. "A natureza faz. em que a primeira cumpre as funções de forma em relação à matéria. é defeituosa e mais gravemente defeituosa ainda que a teodicéia. as qualidades gerais das coisas tamanho. Nem por isso podemos deixar de apontar as lacunas do seu sistema.como sendo relações de substâncias. dependente do sentimento. isto é. Como se vê. deve ser imperecível. metafísico. patriarca das ciências naturais. duas são as atividades práticas da alma: apetite e vontade. a sensação. especificamente diverso do primeiro. o pensamento. Objeto do sentido é o particular. Uma terceira questão fundamental da filosofia natural de Aristóteles é a concernente ao teleologismo . na própria teoria aristotélica. a falsidade.é evidente que fora do mundo não há espaço nem tempo: espaço e tempo vazios são impensáveis. representações. moralista. quanto a tal. Assim. contemplativa e ativa. ele é o verdadeiro fundador da ciência moderna e "ainda hoje está presente com sua linguagem científica não somente às nossas cogitações.porquanto se dão atos diversos. e se tornam. mudança. Juízo sobre Aristóteles É difícil aquilatar em sua justa medida o valor de Aristóteles. senão também à expressão dos sentimentos e das idéias na vida comum e habitual". que é constituída pelo segundo.acrescimento e diminuição. na sensação propriamente dita. que ele descortina em a natureza. Acima do conhecimento sensível está o conhecimento inteligível. as essências. O senso comum é uma faculdade interna. segundo Aristóteles. que é a forma do corpo. ou a possibilidade da falsidade. as sensações específicas são percebidas. O tempo é definido como sendo o número .do movimento segundo a razão. a alma humana. cognoscitiva. como filosofia da natureza. primeiro escritor da história da filosofia. e a matéria. A influência intelectual por ele até hoje exercida sobre o pensamento humano e à qual se não pode comparar a de nenhum outro pensador dá-nos. o apetite guiado pela razão. figura. Aristóteles aceita a essencial distinção platônica entre sensação e pensamento. Movimento espacial . conhecendo o imaterial. Fim de todo devir é o desenvolvimento da potência ao ato. repouso. Vista Retrospectiva . é. Analogamente às atividades teoréticas. mas instrumento da alma racional. no grau sensível bem como no grau inteligível. Aristóteles distingue quatro espécies de movimentos: 1. Objeto do intelecto é o universal. que prestará a estrutura física à Divina Comédia de Dante Alighieri. sempre o que é mais belo". e dessa depende a prática. o sensível comum. e é próprio da alma animal.por ele propugnado com base na finalidade. pois. unificar as várias sensações isoladas. como enigma insolúvel e inexplicável. ainda que rejeite o inatismo platônico. enquanto possível. uma verdadeira contradição e deixa subsistir. o contingente. por isso. Movimento substancial . sobretudo na parte que trata das relações de Deus com o mundo. O que caracteriza a alma humana é a racionalidade. o material.isto é. Sua moral. físicas e especialmente astronômicas. se desdobra em dois graus. princípio potencial. por sua vez depende do conhecimento sensível. 2. a realização da forma na matéria. uma idéia da envergadura de seu gênio excepcional. o limite imóvel do corpo "circundante" com respeito ao corpo circundado. funções. O dualismo primitivo e irredutível entre Deus. mas um espírito que anima um corpo animal. como a cera recebe a impressão do selo sem a sua matéria. sempre verdadeira com respeito ao próprio objeto. pressupões um fato físico. Esse apetite é concebido precisamente como sendo um movimento finalista. a inteligência.finalismo . sendo embora uma e única. ativa. político. o necessário. Mas a alma humana desempenha também as funções da alma sensitiva e vegetativa. através do movimento de um meio. a medida . etc. em virtude da específica faculdade e atividade sensitivas da alma. contrapondo-lhe a concepção do intelecto como tabula rasa. é a análise dos vários tipos de movimento. a alma humana. porquanto se manifesta efetivamente com atos diversos. não é um espírito puro. tendo a função de coordenar. condicionando todas as demais espécies de mudança. ato puro. em torno dos quais fez ele investigações profundas. porém. começa com a síntese. o corpo humano não é obstáculo. O conhecimento sensível. as doutrinas aristotélicas têm apenas um valor histórico. a atividade fundamental da alma é teorética. do "antes" e do "depois". diversamente de Platão. deve ser espiritual e. Por conseqüência. o imutável. a existência dos seres fora de Deus. sensitivo e intelectivo. com o juízo.mudança de propriedade. sendo superior a estas. Quanto às ciências químicas. isto é. são percebidas por mais sentidos. que. que a ele confluem.mudança de forma. nascimento e morte. que já sabemos ser passagem da potência ao ato. 4. Outra especial e importantíssima questão da física aristotélica é a concernente ao espaço e ao tempo. Cada uma destas. percepções. e é própria da alma racional. O apetite é a tendência guiada pelo conhecimento sensível. E assim. conforme Aristóteles. autor do primeiro tratado de psicologia científica.mudança de lugar. o imaterial. Admitidas as precedentes concepções de espaço e de tempo . o ser absoluto. quer dizer. o aspecto. A vontade é o impulso. Mas o fato físico transforma-se num fato psíquico. O espaço é definido como sendo o limite do corpo. O homem é uma unidade substancial de alma e de corpo. o mutável. O sensível próprio é percebido por um só sentido. realização de uma possibilidade. As faculdades fundamentais do espírito humano são duas: teorética e prática. cognoscitiva e operativa. movimento. imediata ou à distância. Movimento quantitativo . Especialmente célebre é a sua doutrina astronômica geocêntrica. Movimento qualitativo . sem idéias inatas.

é uma complicação de sensações. em 341 a. a sua filosofia foi considerada como uma religião. O problema do objeto e da possibilidade da ciência é posto em seus verdadeiros termos e resolvido. sobretudo.C. não é excluído o fato de que a necessidade universal oprimiria o homem ainda mais do que o arbítrio divino. infinito. sendo iniciado por Nausífanes de Teo no sistema de Demócrito. gosto para a formosura. Como a gnosiologia epicurista é rigorosamente sensista. mecanicista. senso refinado. que queria os discípulos fiéis até a letra do sistema. eternos.. que se tornaram centro das reuniões aristocráticas dos seus admiradores..C. com o seu espírito positivo e observador. pela maior parte perdidos. nas dificuldades insolúveis de um realismo exagerado. provavelmente. que venerava Epicuro como uma divindade. Em seus jardins. os quais aplicaram a sua doutrina à vida e dela fizeram a substância de sua arte. a sua doutrina. a psicologia e a lógica. Dada tal gnosiologia coerentemente sensista. da morte. imutáveis. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica Também o epicurismo .libertar o homem dos grandes temores que ele tem a respeito da sua vida. resumida em catecismos. O epicurismo teve. é tarefa do conhecimento do mundo. Todo o nosso conhecimento deriva da sensação. democritiana. nos jardins da sua vila. os átomos estão no espaço vazio. discípulos e amigos. Epicuro expôs a sua doutrina num grande número de escritos. indivíduo material. A escola epicurista durou até o IV século d. onde encontramos. A filosofia é a arte da vida. E foi um mestre eficaz de sabedoria aristocrática. recorre Epicuro à física atomista. a origem e a variedade das coisas. A originalidade deveria manifestar-se na vida. A mãe praticava a magia. do além-túmulo. mediante uma estável constituição. em sua honra celebravam-se festas comemorativas. missões. Precisamente. homens famosos. de Deus e fazer com que ele atue de conformidade. retoma o mesmo problema no pé em que o pusera Platão e dá-lhe.no tamanho. canônica) epicurista é rigorosamente sensista. intuitiva. que constitui a realidade originária. Em torno desta questão fundamental. daí. nas extravagâncias dum idealismo extremo. cartas. pela teoria da abstração e da inteligência ativa. mas teve escasso desenvolvimento. mensais e anuais. espontâneos (clinamen).desinteressam-se por completo dos homens. deu vida a uma sociedade genial. arrancar-seiam destas e chegariam até à alma imediatamente. sem causa. rápida e vasta difusão no mundo romano.divide a filosofia em lógica. que é imediata. Se não houve pensadores epicuristas notáveis depois de Epicuro no mundo clássico nem depois. se vão desenvolvendo harmoniosamente as outras partes da filosofia até constituírem em Aristóteles esta grandiosa síntese do saber universal.I século a. mas conservou-se fortemente organizada. ou mediatamente através dos sentidos.diz Epicuro . para a cultura superior. como com aquilo que precede o nascimento. Entretanto.formada de átomos sutis. procurando determinar a relação entre o conceito e a realidade. com setenta anos de idade. resolvese numa física. O processo cognoscitivo da sensação é explicado mediante os assim chamados fantasmas. nasceu em Atenas. Os átomos são animados de movimento necessário para baixo. a ciência à moral. invisíveis. física e ética.como o estoicismo . O mestre pareceu aos discípulos como que um redentor. o mais precioso legado da civilização grega que declinava à civilização ocidental que surgia. nas suas linhas gerais. num sereno lazer. concebe os elementos últimos constitutivos da realidade como corpúsculos inúmeros. evidente. na figura. Em 306 abriu a sua famosa escola em Atenas. consequentemente. nem com o além-túmulo: seria igualmente absurdo preocupar-se com aquilo que se segue à morte. semelhante ao dos deuses. e foi criado em Samos. Epicuro foi pessoa fidalga e refinada.C. desde logo. em que dominava o vínculo da amizade. dum lado. Também segundo Epicuro. e fruir dessa formosura na própria existência pessoal. nenhuma preocupação com a morte. o ideal da fidalguia antiga: fazer da formosura o princípio inspirador da vida. Cedo dedicou-se à filosofia. daí derivam encontros e choques de átomos e. que seriam imagens em miniatura das coisas. gravada nas jóias. a alma . ajudas materiais. .o poeta entusiasta. uma solução satisfatória e definitiva nos grandes lineamentos. também subordina a teoria à pratica. no movimento uniforme retilíneo para baixo introduz Epicuro desvios múltiplos. da mesma forma o sentimento (prazer e dor) será o critério supremo de valor no campo prático. Faleceu em 270 a. Igualmente. mas sempre materiais perece com o corpo. Aristóteles. a serenidade. autor de De rerum natura. iguais qualitativamente e diversos quantitativamente . a percepção sensível. a evidência sensível é o único critério de verdade no campo teorético. indispensável para que seja possível o movimento e. pertencentes a classes sociais elevadas. a paz. que entende com a metafísica. a metafísica epicurista é rigorosamente materialista: quer dizer. do ateniense Néocles. mas encalha. As amizades dos epicuristas ficaram famosas como as dos pitagóricos.habitadores felizes de intermundos . no peso. é natural que o critério fundamental e único da verdade seja a sensação. A ele devemos as melhores notícias sobre o sistema epicurista. em todos os tempos e lugares. conforme o desejo do mestre. a apatia. por conseqüência. A gnosiologia (lógica. feita de nobreza de sentimentos. fundador da escola que tomou o seu nome. indivisíveis (átomos). da física . de outro.Com Sócrates entre a filosofia em seu caminho definitivo. homogêneos. para garantir ao homem o bem supremo. pela qual também os deuses vêm a ser compostos de átomos. os vórtices e . A associação espalhou-se depois. houve todavia. pela doutrina do conceito.C. Portanto. seguindo as pegadas de Demócrito. Aliás. a sua imagem. Como a sensação. e . Estas nos dão o ser. Platão dá um passo além. O Epicurismo Epicuro. Epicuro. Tito Lucrécio Caro .

mas infinito e resultante de mundos inúmeros divididos por intermundos. visto ser o desejo inimigo do sossego: eis as condições fundamentais da felicidade. mais do que ao mundo. a virtude. especialmente durante o sono. ou de nenhum sofrimento menor. como o único mal é a dor. em vigiar-se. no precaver-se contra as surpresas irracionais do sentimento. na quietude. trata-se do prazer imediato. escolhido prudentemente. de sofrimento. O prazer espiritual diferenciarse-ia do prazer sensível. é natural que Epicuro seja hostil ao matrimônio e à família. nenhum prazer deve ser recusado. consistiria na renúncia a todos os desejos possíveis.como os fantasmas de todas as outras coisas . portanto. ter a faculdade de gozar e não a necessidade de gozar. refletido. portanto. a maneira grega. e a morte é a ausência de sensibilidade. os quais exigem muito pouco e cessam apenas satisfeito. Epicuro. que encontra precisamente a mais perfeita realização nestes bens espirituais. não teriam explicações se os átomos caíssem todos com movimentos uniforme e retilíneos para baixo . Aqui. a moral epicuristas. no isolamento do mundo. É de fato. Verdade é que Epicuro mira os prazeres estéticos e intelectuais. se ele faz uma afirmação profunda. quando ela é nós não somos mais. porém. O epicurismo. do vulgo.como na Academia e no Liceu. A prova da existência da divindade estaria no fato de que temos na mente humana a sua idéia. do filósofo. não ser perturbado no espírito. O fim supremo da vida é o prazer sensível. No entanto. O mundo e a vida são um espetáculo: melhor é ser espectadores e atores. o bem espiritual não consiste unicamente na contemplação (cfr. ela não é.por exemplo. Epicuro. na unidade da amizade. e nenhum sofrimento deve ser aceito.os mundos. Não sofrer no corpo. dar uma unidade estética e racional à vida. esse prazer imediato. a não ser por causa de conseqüências dolorosas. a vida ideal do sábio. avaliado pela razão. que nasce de exigências não satisfeitas. a não ser em vista de um prazer. filosoficamente. mas ainda renuncia os terceiros. melhor é conhecer do que agir. que aspira a liberdade e à paz como bens supremos. e na morte. porque quando nós somos. esteticamente. consistindo na ausência do sofrimento. renunciando a todos os desejos possíveis. que é precisamente liberdade e paz. não naturais e não necessários . mesmo quando Epicuro fala de prazeres espirituais. considerado vulgarmente como propulsor de devassidão e sensualidade. e. por conseguinte. não defende o suicídio que poderia justificar com maior razão do que os estóicos. na remoção do sofrimento. A filosofia toda está nesta função prática. deve adaptar-se para viver como melhor puder. sujeitos ao nascimento e à morte. pois todo mal e todo bem se acham na sensação. Mediante o clinamen Epicuro justifica ainda o livre arbítrio. pelos mesmos motivos. Dado este conceito da vida concebida como liberdade. Assim. O universo não é concebido como finito e uno. não tem a coragem de ensinar a renúncia aos prazeres positivos espirituais. a amizade genial. na insensibilidade. refletido. para os quais não há lugar no seu sistema. portanto. se ensina a renúncia. que é unicamente presente. físicos e espirituais. Em que consiste. da paixão. racionado? Na satisfação de uma necessidade.desceriam até nós dos intermundos. perturbam a serenidade e a paz. paz e contemplação. até um verdadeiro pessimismo e ascetismo. de fato. É mister dominar os prazeres. da emoção. aos prazeres positivos. Este prazer imediato deveria ficar sempre essencialmente sensível. Mas precisamente ainda. na apatia. Epicuro admite a divindade transcendente. A serenidade do sábio não é perturbada pelo medo da morte. Não obstante o seu materialismo teórico e o seu ateísmo prático. a ambição. espalhado pelo espaço infindo. No epicurismo não se trata.como pensava Demócrito. O verdadeiro prazer não é positivo. do indeterminismo universal. quando for preciso. preenchida com as mais nobres ocupações . no sono. à política considerando a família e a pátria como causas de agitações e inimigos da autarquia. mas também na ação (cfr. como é desejado pelo homem vulgar. porém. na conversa arguta e delicada: numa palavra. vivendo ocultamente. A Moral e a Religião A moral epicurista é uma moral hedonista. E sustenta isto em contradição com a sua ascética radical. critério único de moralidade é o sentimento. estéticos e intelectuais. renuncia os segundos. aliás geralmente desvalorizado no mundo grego. sem providência divina. que é uma simples combinação da contingência. nos jardins de Epicuro. uma norma de vida ordinária e espiritual. Nisto estão toda a sabedoria. que representa o ideal supremo na concepção grega da vida. a vida se inspirava nos mais requintados costumes. está certamente em contradição com a sua metafísica materialista. Estes. e precisamente em uma vida curta e refinada. Em realidade. como os mais altos prazeres. bem como contradiz a sua metafísica materialista com a sua moral. e não se deixar por eles dominar. satisfazendo suas necessidades essenciais.por exemplo. do prazer imediato. Nesse mundo o homem. O único bem é o prazer. afinal. Epicuro divide os desejos em naturais e necessários . sem alma imortal. Almejava. mas negativo. Os fantasmas dos deuses proviriam dos próprios deuses . praticamente ateu. sabiamente. Nunca nos encontraremos com a morte. o instinto da reprodução. para estar tranqüilo. a virtude ética de Aristóteles). Os deuses de Epicuro são muitos. porquanto acarretam fatalmente inquietação e agitação. inversamente. e nada mais seriam que complicações de prazeres sensíveis. no entanto. porquanto o primeiro se estenderia também ao passado e ao futuro e transcende o segundo. O sábio satisfaz os primeiros. representa. a virtude dianoética de Aristóteles). Epicuro é também hostil à atividade pública. diversamente do imanentismo estóico. que não pode ser senão cópia de realidade. .

no período helenista e depois ainda. com os fins práticos de uma filosofia da renúncia. de várias escolas filosóficas. que surgiram em tempos diferentes. teria praticado . ideal que tem uma expressão concreta precisamente nas belas divindades do panteão helênico. geralmente. que concebem a filosofia popularmente. Encarna-se na média academia com Argesilau e Carnéades. que implica sempre numa crítica. organismo especulativo. O ceticismo clássico começa com Pirro de Elis (365-275 a. contemplados . da tese e da antítese. Diz Argesilau: "Deus unicamente conhece a verdade. Deste modo. conversando em grego! Mas . Persiste nos céticos uma fé nostálgica e realista e o conceito da objetividade da ciência: o ser. E isto basta aos fins ético-empíricos dos ecléticos. construção. como uma suma de elementos estóicos. esvaziadas do seu conteúdo original. à destruição de todos os valores. enfim. imortais diversamente dos deuses estóicos .segundo ideal grego da vida .sempre acordados e sentados em jovial convívio. feita de abstratas generalidades ou de particularidades secundárias. dada a natureza crítica do ceticismo. sutis e luzentes. O estoicismo procura realizar a apatia ainda mediante uma metafísica positiva. segundo os elementos de uma ou de outra escola na síntese prática do próprio ecletismo. É uma teologia refinada de ateniense e de artista. . e a coerência materialista do epicurismo. semelhantes e diversos ao mesmo tempo dos fins éticos-ascéticos dos céticos. ou não têm a força da crítica.não atuam sobre o mundo e a humanidade. sorvendo ambrósia. O ceticismo visa sempre um fim último ético-ascético. E. especialmente do que o estoicismo. não filosóficos.como as idéias transcendentes de Platão e ato puro de Aristóteles . desesperada por não ter podido resolver o problema da vida mediante a razão. substitui ao critério da verdade o da verossimilhança.C. perturbados. se nada é verdadeiro.529 D. incoerente. cuja grande obra. uma religião desinteressada. não para receber auxílio.) . O ceticismo critica o conhecimento sensível. destarte. sistema. uma espécie de puro amor de Deus dos ascetas e dos místicos. A felicidade não é mais uma coisa positiva. O ecletismo apresenta-se como uma síntese prática ou. se os deuses não proporcionam ao homem nenhuma vantagem prática. encarnando na serenidade do mármore o ideal grego contemplativo e estético da vida. escapando destarte a fatal destruição dos mundos. O Período Ético (300 a.entre os limites impostos pelo pensamento grego e pelo seu pensamento . sem qualquer metafísica. Através da mais absoluta indiferença. da indiferença. o objeto. enfim. peripatético. embora acriticamente. mas porque eles encarnam o ideal estético grego da vida. melhor ainda. A primeira escola cética serve-se. surge de novo na forma pirroniana com Enesidemo e Sexto Empírico. mas pode ser alcançada unicamente negando o saber. O advento de uma semelhante filosofia foi favorecido pela permanência e pela coexistência. que vive no mundo de estátuas divinas. pois a filosofia é escolha. Epicuro. prática e teorética. a segunda afirma-se de modo original graças a Carnéades. do relativismo sofista. acadêmicos e também peripatéticos. mesmo negativa. de tendência pirroniana. O ecletismo apresenta-se como um sistema afim. fora do mundo e dos mundos. portanto será não a filosofia. negando todo absoluto e transcendente. proporcionam-lhe contudo o bem da elevação. na beata solidão dos intermundos. existem.constituídos de átomos etéreos.C. um ecletismo estóico. que importa na contemplação do ideal. tudo vale igualmente. mas não é atacada pelo ceticismo. Substancialmente. e sim o jus. como o ceticismo. do sossego. embora imensamente inferior ao ceticismo. Contém muito menos elementos céticos e epicuristas. É o ceticismo a última palavra da sabedoria antiga. cuja escola terminou pouco depois do seu discípulo Timon. inteiramente voltada para a prática e para a ação. enfim.beatos. É preciso venerá-los para imitá-los.de sorte que se torna fácil a síntese eclética.. favorecido pelo contato do pensamento grego com a romanidade dominante. Ceticismo e Ecletismo O ceticismo apresenta-se mais coerente do que as escolas precedentes. tendo forma humana belíssima.o mal da religião. O epicurismo tende a realizar o mesmo fim com uma metafísica negativa. embora imperfeita. Também o ecletismo. em princípios da era vulgar. Epicuro venera os deuses. para não serem contaminados. característico . a grande metafísica platônico-aristotélica é posta de lado. que é inacessível ao homem". Temos precisamente. dotados de corpos luminosos. depois acadêmico e. faz uso da dialética eleática. proclamado ateu. Chega-se. e não justaposição mecânica de peças sem vida. procura-se realizar finalmente tão almejada paz. nem a da afirmação. O nem-nem dos céticos é mudado em e-e pelos ecléticos. É o ecletismo filosofia de espíritos pragmáticos ou decadentes.como acontece nos períodos de decadência especulativa . O pragmatismo eclético foi. e por demais despersonalizadas.C. nos espaços entre mundo e mundo. mais ou menos). portanto. nem está no saber e não se pode alcançar mediante o saber. em ordem cronológica. a terceira. mas não se podem conhecer por falta de meios. Vivem. Então. bem como o intelectual. moralisticamente. e também a opinião.

anula-se toda metafísica e. em que a metafísica e moral são sincretistas. cínica e cirenaica. Os dois últimos. porquanto o interesse filosófico é voltado para os problemas morais. na história da filosofia denomina-se período ético. A grandeza verdadeira e original do pensamento latino é o jus. depois (ceticismo e ecletismo). Na história da civilização e da cultura. uns tratados socráticos. e precisamente desse terceiro período . o estoicismo pode-se dividir em três períodos: um período antigo ou ético. Nesta civilização cosmopolita encontram-se dois valores universais: o pensamento e a arte dos gregos. como no precedente. ciências naturais. este período toma o nome de helenismo. Tudo isto torna dolorosa a vida do homem. o direito romano. do lugar onde ele costumava ensinar: pórtico em grego. restringem-se ao particular. o jus e a política dos romanos. valor universal como a filosofia grega. significando a expansão da cultura grega. O primeiro valor dá o conteúdo. do temor de além-túmulo. matemática. encontrando-a na renúncia ao mundo e à própria vida. libertar o homem das preocupações transcendentais. stoá. freqüentando por algum tempo várias escolas e mestres. Em conclusão. anuladas. mercador. antes de tudo. O interesse teorético. Seu pai. pelo que diz respeito à filosofia. a cultura helenista reduz-se à erudição e ao virtuosismo. filosofia moral e moral prática. Em seus escritos já se encontram a clássica divisão estóica da filosofia em lógica. física e ética. mas vastas orientações e escolas. a primazia da ética e a união de filosofia e vida. em que a metafísica tem apenas uma função negativa. que lhe despertam o entusiasmo para com os estudos filosóficos. como opina Aristóteles. enfim exporemos o pensamento latino. física. da escola epicuréia. consequentemente.C. toda moral. da escola estóica.Características Gerais O Estoicismo O Pensamento: A Gnosiologia e a Metafísica A Moral e a Política Características Gerais O terceiro período do pensamento grego abrange os três séculos que decorrem da morte de Aristóteles ao início da era vulgar. ciência e técnica. história. que se chamou estóica. elementar. Iniciou. e. bem como à moral das escolas socráticas menores. como julga Platão. depende de cultura grega.Graecia capta ferum victorem cepit.dedica-se à filosofia. um período recente ou religioso. e. Trataremos. em que não há mais metafísica alguma. e a sabedoria é desapego da ação. em que ainda há uma metafísica. a saber. bastante divergentes do estoicismo clássico. uma orientação moral. Primeiramente (estoicismo e epicurismo). O fundador da antiga escola estóica é Zenão de Citium (334-262 a. como na escola eclética. funda a sua escola. faltando ao homem interesse e a força para a especulação pura.perdidos seus bens . não sistemas críticos. mas filologia. E. porém. que procura na filosofia um conforto. menosprezando o grande desenvolvimento filosófico platônicoaristotélico.. em contradição consigo mesma e com a moral. Não filosofia teorética. por conseqüência. portanto. nem moral. isto é. desenvolve-se naturalmente a técnica. Finalmente. com relação às ciências especiais. Os motivos desta filosofia pragmatista devem ser procurados na decadência espiritual e moral da época. O Estoicismo Em seu conjunto. bem como na profunda tristeza dos tempos e na profunda sensibilidade diante do mal. o homem volta-se para o transcendente e para o eterno. Aos vinte e dois anos vai para Atenas. da escola cética. de Atenas. . medicina. o vigor especulativo. geografia. em segundo lugar. e anacrônica. aí . a filosofia torna-se uma preparação para a morte. o qual. A arte resolve-se no virtuosismo e na imitação. mais ou menos). ao passo que a metafísica esmorece. voltando-se para a sofística. literatura. um período médio ou eclético. mas afirmações dogmáticas. à erudição e às ciências especiais que se desenvolvem.ecletismo e estoicismo. pelo ano 300. helênica. astronomia. juntamente com a atividade didática. o segundo a forma . em terceiro lugar. o helenismo. entre os quais o cínico Crates. a de escritor. Do contingente e do temporal. retorna-se à metafísica naturalista dos pré-socráticos. leva para ele. como na idade moderna. no mundo civilizado. No terceiro período do pensamento grego não se encontram mais alguns poucos e grandes pensadores.

há o vício quando à indiferença se ajunta a paixão. em especial no homem. Podem-se. logo. Como em Aristóteles. em outras palavras. Como o bem absoluto e único é a virtude. mas sim uma turma bastante uniforme de pensadores medíocres. não é nem bem nem mal. o único bem do homem. que anda como um deus entre os homens. fazendo emergir todas as qualidades da matéria. surge pela influência de outras escolas e para responder às objeções dessas escolas. é sempre e substancialmente má. uma emoção. a tranqüilidade da alma. pois. o conhecimento parte dos dados imediatos do sentido. o vício. não como ciência. mas. no fundo. e sim como sendo ela própria um bem imediato. conforme a concepção de Heráclito. numa palavra. E compreende-se o seu vasto êxito em todos os tempos. atribuem-lhe arbitrariamente os atributos divinos da sabedoria e da providência. uma necessidade mecânica. o fim supremo. segundo uma ordem teológica. a alma. pois. como geralmente acontece. donde derivam o desejo. mal se for ligado ao vício. De tal forma. a indiferença e a renúncia a todos os bens do mundo que não dependem de nós. e dar uma explicação à razão. no fundo. razão da vida. a felicidade. Não obstante esse absorvente moralismo.pois o prazer é julgado insana vaidade da alma. logo. para firmar a virtude e. O conhecimento intelectual nada mais pode ser que uma combinação. para assegurar ao homem a felicidade. imaginam-no como espírito ordenador. incoerentemente declaram racional o fogo . toda atividade é movimento. A Moral e a Política No pensamento dos estóicos. e os estóicos não são filósofos. Daí a guerra justificada do estoicismo contra o sentimento. a dor. salvo e pensamento. à saúde e à doença. diversamente de Aristóteles. Esta matéria está em perpétuo vir-aser. mas a sua destruição total. inteiramente absorvidos na prática. que devem ser aniquilados. quer se trate de piedade. na filosofia estóica. ao repouso e à fadiga. da autarquia do sábio.quer se trate de ódio. a independência interior. espírito. ainda que se acabe por repudiá-lo como perturbador da indiferença. mas a virtude. à maneira de Demócrito. E não tanto pelo dano que pode acarretar ao vicioso. a tarefa essencial da filosofia é a solução do problema da vida. quanto pela sua irracionalidade e desordem intrínseca. acaba não sendo mais filosofia. a filosofia é cultivada exclusivamente em vista da moral. às honras e à obscuridade. Por conseguinte. da serenidade. mecanicismo. O conceito. Dada a indiferença estóica do suicídio como voluntário e moral afastamento do mundo. mas como uma missão e uma prática religiosa. a única atitude do sábio estóico deve ser o aniquilamento da paixão. morbo e vício da alma . fornecer alguma base à sua ética do dever. indiferença e renúncia a tudo. A virtude estóica é. à riqueza e à pobreza. ordem são afirmados ao lado dos conceitos opostos de fado. a autarquia. mas apenas indiferença. a emoção. A felicidade do homem virtuoso é a libertação de toda perturbação. até a apatia. que constituem os únicos bens verdadeiros: indiferença e renúncia à vida e à morte. O Pensamento: Gnosiologia e Metafísica O estoicismo não apresenta o fenômeno de um grande filósofo. não é o prazer. amiúde apresentando-se como a filosofia dos não filósofos que têm pretensões filosóficas. Com o desenvolvimento do estoicismo. todavia. e a lei desse princípio material só pode ser. inclusive da política e da religião. a metafísica dos estóicos é uma metafísica elementar. da serenidade. agrupar na escola estóica nova ou religiosa os que entendiam absolutamente a filosofia. porquanto é radicalmente materialista: se tudo é material. também da moral. pois é movimento irracional. . as propriedades das coisas. em correspondência com o discurso interior e exterior. metafísicos. que se manifesta no mundo. pode tornar-se bem se for unido com a virtude. No dizer dos estóicos. isto é. é destruído. uma física. seguido por uma série de discípulos mais ou menos originais. sacerdotal. necessidade. da metafísica e. A paixão. Entende-se. o estoicismo. O ideal ético estóico não é o domínio racional da paixão. não obstante as repetidas e múltiplas declarações estóicas em louvor da razão. Deus. decadente. a paixão. moralizadoras. a virtude. A mente humana é concebida como uma tabula rasa. Tudo aquilo que não é virtude nem vício. providência. pois. devem-se conceber materialisticamente também Deus. naturalmente.A escola estóica média ou eclética. que nasce da virtude negativa da apatia. isto não se concilia. assim o mal único e absoluto é o vício. uma ética. Os estóicos dividem a lógica em dialética e retórica. uma complicação quantitativa de elementos sensíveis. como o Sol faz brotar da semente a planta. rigoristas. uma tendência irracional. os estóicos distinguem na filosofia uma lógica. contraditória. seguindo-se o aniquilamento da ciência. Na lógica trata-se da gnosiologia. Devendo os estóicos. o conhecimento é limitado ao âmbito dos sentidos. destino. metafísica. como a filosofia estóica chega a ser substancialmente pragmatista e. por conseguinte. a sabedoria. a ética é o fim último e único de toda a filosofia. mas pragmatistas. para dar lugar unicamente à razão: maravilhoso ideal de homem sem paixão. na ética. não é concebida como necessária condição para alcançar a felicidade. da indiferença universal.substância metafísica da realidade -. a física iguala a metafísica. Como se vê. e cujo curso é fatalmente determinado. ao prazer e ao sofrimento . a virtude acaba por se tornar meio para a felicidade da tranqüilidade. A metafísica estóica reduz-se à física. moralistas. todavia.

morte moral. Abre-se caminho a um sentimento de caridade. torna-se cosmopolita por natureza. A serenidade. nada lhe acontece que não seja por ele querido. salvo o seu pensamento cujo conteúdo é. porém. até para os infelizes e os escravos. sentimento este inteiramente desconhecido ao mundo antigo. . conceitos que deveriam ser deduzidos da natureza racional do homem. Mas é uma virtude absolutamente negativa. E até começam a nascer instituições caritativas para com os pobres e os doentes. de perdão. os estrangeiros e os inimigos. porque. que existe. com a virtude da fortaleza que o estoicismo reconhece e louva. se a ordem do universo é racional. único bem da alma. Diz o estóico Musônio: "O mundo é a pátria comum de todos os homens". magoado pela possível e freqüente carência dos bens terrenos. livres e íntegros. supremo. de lei racional. pois sabe que tudo é efeito de um determinismo universal. clássico. promove todavia os conceitos de sociedade universal. manifesta-se na filosofia estóica um racionalismo cosmopolita radical a propósito da sociedade estatal: o homem. a paz. destinada a resolver-se na matéria. onde campeia solitária uma justiça. como precisamente afirmam os estóicos. Com efeito. sem dúvida. e nem se pode explicar racionalmente o suicídio. que são o verdadeiro. e para não perder. é uma pura palavra. de direito natural. a apatia dos estóicos seria. virtude corrosiva. esse cosmopolitismo. em civilização humana e moral. não a alma. quando o homem se torna indiferente a tudo. fruto de uma fatigosa conquista. esta mesma renúncia -. apenas para os concidadãos.porém. de tal maneira. não lhe resta efetivamente mais nada. e a tudo renuncia. Tal cosmopolitismo foi fecundo em progresso. Não Deus. Destarte. inteiramente fechado na sua torre de marfim. a serenidade. em definitivo. O estóico pratica esta indiferença e renúncia para não ser perturbado. sem saudades e sem esperanças. Pelo que diz respeito à política. de uma dura virtude. pois no sistema estóico. o sossego. A sabedoria estóica é ação negadora da expansão das forças espirituais. O sábio é beato. e se conforma com o demais. a que os estóicos não podem fornecer uma base racional e metafísica. político por natureza. em virtude da doutrina que afirma a identidade da natureza humana.

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