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Conflitos de Amor

The Problems of Love


Barbara Cartland

As lágrimas brotaram dos olhos de Alexia e deslizaram por seu rosto. Como
quisesse escondê-las, virou-se e saiu correndo da sala ... da sala onde se encontrava o
marquês, que a beijara fazendo-a tremer como se um raio de luz e prazer a tivesse
trespassado! Um beijo com gosto de amor proibido, porque o marquês estava destinado a
se casar com Letty, a lindíssima irmã de Alexia! Adorando a irmã, ela decidiu não lutar
pelo amor do marquês. Mas, no baile do príncipe regente, o destino preparou uma
armadilha que iria transformar o coração da meiga e inocente Alexia ...
Título original: "THE PROBLEMS OF LOVE"
Copyright: © CARTLAND PROMOTIONS 1978
Tradução: T. MOREIRA
Copyright para a língua portuguesa: 1982
ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL
Composto na LINOART impresso em oficinas próprias
CAPÍTULO I

1811
— Não! — disse o marquês de Osminton. Imogen Harlow bateu o pé.
Era um pé muito bonito, mas o rosto extremamente adorável de lady Harlow estava
tomado por uma expressão de raiva, que a tornava severa particularmente atraente.
— Como você pode ser tão insensível, tão egoísta? — perguntou ela. — É a minha
reputação — respondeu o marquês. — E não tenho vergonha disso!
— Bem, deveria ter! — berrou ela. — Você nunca pensa em mais nada, a não ser em
si mesmo!
— Aprendi há muito tempo que a vida se torna trabalhosa e difícil quando se pensa
nos outros. Quando me dedico a mim mesmo, tudo corre muito bem!
— Bem, agora não é o caso — retorquiu lady Harlow. — Não vejo razão alguma
para que não peça ao príncipe regente que me convide para jantar apenas uma noite. Além
de tudo, você está lá quase todas as noites.
—Os pequenos jantares do príncipe são dedicados aos seus amigos mais íntimos —
explicou o marquês.
— Por que não poderia me tornar um deles? — perguntou lady Harlow, — Ou será
que você está com ciúmes? Se está, Chilton, estou pronta a perdoá-lo!
— Não estou com ciúmes simplesmente porque você sabe muito bem que Sua
Alteza Real prefere mulheres mais velhas. Você é muito jovem, Imogen, e esta é a resposta
que deve satisfazê-la no momento. Daqui a dez anos, o regente poderá encantar-se com
você!
—Não ficarei tão velha em dez anos!
Um fraco sorriso despontou nos lábios do marquês.
Ela abocanhara aquela isca, que serviria para desviar sua atenção do motivo da
discussão. E esta estava voltada para o desejo de ser convidada para a Carlton House,
naquelas noites em que o príncipe de Gales, recentemente nomeado regente, cercava-se
daqueles que considerava seus amigos mais próximos e das mulheres que achava
atraentes.
No momento, sua favorita era lady Hertford, que, aos cinqüenta anos de idade,
tinha suplantado a Sra. Fitzherbert em suas afeições.
O marquês, embora não dissesse isso, não tinha levado em consideração nem os
sentimentos do regente nem os de lady Harlow, em sua decisão de não promover o
encontro de ambos, a não ser em ocasiões formais.
Embora ele achasse Imogen Harlow sedutora e atraente, tinha absoluta certeza de
que, assim como muitas outras com as quais mantivera casos de amor, ela não duraria
muito em sua vida.
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Imogen insistira para que ele se tornasse seu amante, e isso não tinha sido muito
difícil, já que seu marido, sir George Harlow, não gostava da sociedade e das diversões
londrinas.
Pelo contrário, ele passava seu tempo em sua propriedade localizada em
Gloucestershire, criando gado, que vencia todas as competições locais.
Imogen Harlow tinha plena consciência de sua boa aparência, e como seu marido
era muito generoso no que se referia a dinheiro, não lhe era difícil viver facilmente em
meio à sociedade mundana de Londres.
Era convidada à Devonshire House, à Bedford House e à Richmond House, que, à
época, eram consideradas como os salões chiques, mas a intimidade de Carlton House
ainda não lhe fora colocada à disposição.
Por estar determinada a alcançar esse objetivo, resolveu mudar de tática.
— Pensei que você me amasse, Chilton — disse ela, com uma vozinha de garota
muito suplicante, quase que irresistível.
O marquês não respondeu, e, após um momento, ela continuou:
— Sei que nunca afirmou isto com palavras, mas tenho certeza de que eu o
excito e que temos tido muitos, muitos momentos felizes juntos!l
Havia um toque de emoção nestas últimas palavras, o qual não passou
despercebido ao marquês, mas que apenas fez com que este parecesse mais cínico ainda
do que antes.
Estava tão acostumado com as mulheres que lhe pediam um pagamento pelo
prazer que lhe proporcionavam, tanto em dinheiro quanto em jóias ou qualquer outra
coisa, que, disse a si mesmo, não alteraria sua decisão a respeito daquele assunto.
O marquês estava disposto a permanecer firme, pela simples razão ser
suficientemente astuto para não dar motivos a comentários sobre sua pessoa.
Embora o mundo social londrino suspeitasse de que ele e Imogen estivessem
mantendo um affaire de coeur, não pretendia dar oportunidade que essas suspeitas
crescessem.
Por mais que se vissem às escondidas, ele procurava se manter o mais discreto
possível em suas aparições públicas.
Ao ver que ele não respondia, lady Harlow deixou a janela e encaminhou-se em
direção ao marquês, que estava sentado em uma poltrona de veludo, que parecia
completar sua elegância.
O marquês de Osminton era um dos homens mais admirados em toda a alta
sociedade, não apenas por sua elegância, que acentuava sua figura esbéltica e atlética, e
seus ombros firmes. Os jovens dândis o invejavam e admiravam também como um
desportista.
Não havia ninguém no círculo chegado ao regente que dirigisse uma carruagem
mais habilmente que ele, ou que, ou que pudesse cavalgar tão bem cavalos bravios, ou
que- soubesse manejar com tanta presteza uma pistola em um duelo.
— Você não apenas consegue a admiração das mulheres — dissera-lhe certa vez o
príncipe —, como inclusive dos homens, Chilton!

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O marquês percebera que havia uma ponta de ciúme nessa observação feita pelo
príncipe. Este também desejava ser admirado, mas, em razão de suas dívidas e de seu
comportamento, o público mais censurava que aplaudia suas ações.
No entanto, ele possuía vários amigos, como o marquês, que realmente detectavam
e apreciavam as excepcionais qualidades do regente.
Fora por isso que, no passado, a Sra. Fitzherbert o encorajara, tendo lhe dito em
certa ocasião, com um suspiro:
— Você exerce uma boa influência sobre o príncipe. Gostaria d poder dizer o
mesmo a respeito dos outros amigos.
O marquês, no entanto, apesar de ser admirado por seus contemporâneos, não era
estimado por todos eles.
Consideravam-no um homem duro, de certa forma rude, e, com dissera lady
Harlow, extremamente egoísta.
Isso não seria uma surpresa, se se considerasse que ele fora investido ainda jovem,
não só de um título muito antigo e respeitado, mas que herdara também fortuna
considerável.
Suas propriedades faziam a grandeza da Inglaterra e, incontestavelmente, ele tinha
plena consciência de sua própria importância.
— Por favor, Chilton — pedia-lhe Imogen Harlow, parada à sua frente.
Ao fazê-lo, ela sabia muito bem que seria impossível para ele deixar de notar as
linhas de seu lindo corpo sob a gaze transparente de si vestido.
Ela ficava ainda mais bonita quando seus olhos se mostravam macios e seus lábios
vermelhos arqueavam levemente, de maneira provocante.
No entanto, os olhos do marquês, escuros e penetrantes, parecia olhar para o
infinito, enquanto ele respondia de um modo extremamente descomprometido.
— Esse assunto está começando a me aborrecer, Imogen. Eu já disse que não, e
isso quer dizer não mesmo!
Com um esforço considerável, Imogen Harlow forçou que as lágrimas brotassem
em seus olhos.
— Oh, Chilton! — disse ela, infeliz.
O marquês riu de um jeito que não demonstrava propriamente gentileza.
— Sou imune às lágrimas — disse ele. — Elas não me comovem pelo contrário,
irritam-me.
Estendeu seu braço à volta de lady Harlow, e, com a outra mão levantou-lhe o
queixo.
— Se você parar de me aborrecer, eu lhe darei aquele bracelete, que você tanto
admirou ontem na Bond Street.
Por um momento, lady Harlow lutou contra a vontade de lhe dizer que ficasse com
o bracelete.
Então, sua cobiça natural, combinada com alguma astúcia, fê-la notar que isso só
irritaria mais ainda o marquês, tornando mais difícil de se conseguir o que desejava.
Obrigada... — disse ela, com uma vozinha que faria qualquer outro homem se sentir
um bruto.

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Ao falar, olhou para o marquês através de seus cílios, e viu, pela forma com que
torcia os lábios, que ele conhecia muito bem toda aquela sua representação.
Não havia dúvida de que era a repetição de uma performance, da qual ele fora a
única audiência muitas e muitas vezes.
Como não queria aborrecer o homem que considerava irresistível, lady Harlow
abraçou-se ao pescoço do marquês e puxou a cabeça dele para junto da sua.
—Por que discutirmos quando temos tantas coisas deliciosas para conversarmos
um com o outro? — perguntou ela.
O marquês beijou-a sem paixão. Então, embora ela tentasse manter-se colada a ele,
Chilton soltou-se.
— Você precisa ir agora, Imogen — disse ele. — Tenho um encontro daqui a meia
hora, e preciso assinar algumas cartas antes.
— Eu o verei à noite?
— Estarei jantando com o regente, como sabe — respondeu o marques — mas se
Sua Alteza Real não me segurar até tarde, eu passarei para vê-la, quando voltar para casa.
— Você sabe que estarei esperando; você sabe muito bem como estarei ansiosa para
vê-lo!
O marquês mal ouviu o que ela disse. Encaminhou-se para a porta, e lady Harlow
não pôde fazer mais nada senão segui-lo.
Ela o acompanhou através do imponente vestíbulo de mármore, que fora decorado
com pintura de George Stubbs, retratando os cavalos favoritos de seu pai.
Lá ele inclinou-se e beijou-lhe a mão, enquanto um criado saído de uma longa fila
de empregados vestidos de libré correu a abrir a porta da carruagem que esperava junto
no pórtico. Com uma polidez formal, já que era conhecido por suas boas maneiras, o
marques esperou, com um ar de impaciência, até que as rodas da carruagem começassem
a se mover.
Então, ele voltou-se e caminhou através do vestíbulo, retornando não ao salão onde
estivera com lady Harlow, mas ao seu próprio salão especial, onde permanecia quando
estava a sós.
Na verdade, aquele era o cômodo mais interessante de toda a casa: com suas
paredes decoradas com livros e muitas pinturas de cavalos magníficas, que faziam a inveja
do príncipe regente.
O marquês dirigiu-se a uma ampla escrivaninha posta em frente janela, e sentou-se.
Havia vários papéis esperando por ele. Ao apanhar o primeiro deles tocou uma
sineta que ficava sobre a mesa.
A porta se abriu quase que instantaneamente e seu contador e secretário particular
entrou na sala.
O Sr. Dugdale, um homem de meia-idade e rosto inteligente, tinha porte de um
soldado, o que fora realmente antes de entrar para serviço do marquês.
Sem desviar o olhar da carta que lia, o marquês disse:
— Mande algumas flores à lady Harlow e diga-lhe que, infelizmente não
poderei ir vê-la esta noite.
O Sr. Dugdale anotou as instruções em um bloco de notas que trazia às mãos.

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— E mande um criado comprar um bracelete que vi ontem na joalheria Hunt
and Roskell's de Bond Street — continuou o marquês. Eles saberão qual é.
— Muito bem, milorde.
O Sr. Dugdale nada mais disse, mas o marquês, conhecendo-o muito bem, sabia que
havia algo em sua atitude que demonstrava que ele não concordava com aquilo.
Sabia que seu contador, o qual era mais um amigo do que um empregado inclinava-
se a não gostar de uma ou outra de suas amante este era o caso com lady Harlow.
— Sei o que está pensando, Dugdale — disse o marquês, com tom divertido. —
E, ainda que ache uma grande impertinência sua parte, começo a acreditar que esteja certo.
O Sr. Dugdale soltou um suspiro profundo, como que de alívio.
—Eu não disse nada, milorde — observou ele, após um momento.
— Mas eu posso adivinhar o que pensava! — respondeu o marquês.
Estava sentado em sua cadeira, e meio voltado para o lado, de forma poder
conversar com seu secretário.
— O que fazer com mulheres que parecem não ter originalidade, Dugdale?
Todas elas parecem ter os mesmos padrões!
Talvez, milorde — respondeu Dugdale, escolhendo cuidadosamente suas palavras
—, no que diz respeito a Vossa Excelência, todas elas tenham vindo do mesmo berço.
O marquês considerou isso por um momento e, então, disse:
— É certamente uma explicação razoável, mas, na verdade, eu as acho
extremamente vulgares em seus comportamentos e banais com relação a tudo o que
dizem.
— Apenas posso concordar com Vossa Excelência, milorde, com relação às
mulheres às quais está se referindo.
O marquês riu. Então, perguntou:
— Está sugerindo seriamente que eu procure em outras direções?
— Por que não? — respondeu o Sr. Dugdale. — Se o mundo é tão grande por que
nos confinarmos em uma parte tão pequena dele?
— Você está certo — concordou o marquês. — Se esta maldita guerra tivesse
acabado, eu partiria para o exterior. Enquanto isso, termos que ficar confinados nesta ilha,
e não há nada que possamos fazer.
— Nada, milorde — concordou o Sr. Dugdale. — E eu ficaria agradecido se
assinasse suas cartas. Muitas delas dizem respeito ao castelo, tenho um cavalariço
esperando para levá-las ao Sr. Saunders.
Este era o agente de Osminton em sua imensa propriedade de Kent.
O marquês puxou de volta sua cadeira para a escrivaninha e, sem examinar muito
acuradamente as cartas, pois confiava totalmente em seu contador, colocou sua assinatura
em todas elas.
— Já perdi quase que a tarde, mas creio que...
Foi interrompido pelo copeiro, que abria a porta.
— O que é Adams?
— Há uma jovem querendo vê-lo, milorde. Ela diz que não marcou uma entrevista,
mas que ficaria muito agradecida se Vossa Excelência pudesse dispensar-lhe alguns
minutos.
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— Uma jovem? — perguntou o marques.
— Seu nome, milorde, é Srta. Alexia Minton.
O marquês levantou as sobrancelhas e olhou para o contador.
— Minton? — repetiu ele. — Seria um de meus parentes?
O Sr. Dugdale pensou por um momento.
—Não consigo localizá-la, milorde
— Então vá e descubra quem é ela — ordenou o marquês.
Mas, quando o contador ia se dirigindo a poria, ele mudou de idéia.
— Não, mande-a entrar, e, se eu precisar de você para me salvar, tocarei a sineta.
Normalmente acho meus parentes insuportáveis, depois de cinco minutos.
O Sr. Dugdale fez um sinal para o copeiro e, após este ter partido, fechando a porta
atrás de si, disse ao marquês:
Enquanto estiver com a jovem, milorde, irei olhar a árvore genealógica. Ela
certamente não deve ser uma parenta muito próxima, a menos que tenha mudado seu
nome de batismo.
— Faça isso, Dugdale — concordou o marques. Francamente, acho difícil ter
qualquer tipo de interesse por meus parentes, os quais, graças a Deus, aprenderam, com o
correr dos anos, a não me perturbar desnecessariamente!
Quando o Sr. Dugdale deixou a sala, o marquês achou que tinha deixado bem claro
que os Minton, enquanto família, não o interessavam absolutamente.
Como chefe da família, não tinha interesse algum em proceder como pai, ou, como
dizia a si mesmo, como uma "arca sem fundo".
O marquês apenas teve tempo de se levantar da escrivaninha se postar frente à
magnífica lareira de mármore desenhada por Adam quando a porta se abriu e o mordomo
anunciou:
— Srta. Alexia Minton, milorde!
Uma garota adentrou ao salão, movendo-se lentamente, mas de modo a fazer com
que o marquês notasse o nervosismo e a pequena apreensão que ela sentia ao se
encaminhar em sua direção.
Ela vestia um chapéu simples mas atraente, enfeitado discretamente com laços azul-
escuros e, quando levantou sua cabeça, o marquês pode notar debaixo dele um pequeno
rosto oval dominado por dois grandes olhos cinzentos.
Quando se achava a pouca distância dele, a garota fez-lhe reverência, e olhou-o de
um modo que fez com que ele achasse que iria pedir-lhe algo.
— O senhor é o. . . Marquês de Osminton? — perguntou ela, depois de um
momento, com uma voz calma e macia.
— Sou — respondeu o marquês —, e creio que, por seu nome, você seja parenta
minha.
— Muito distante. Meu avô era primo em segundo grau do seu. Houve uma
pequena pausa e, após um momento, o marquês perguntou:
— Foi por isso que veio me ver?
—Não... Não exatamente — respondeu Alexia Minton —, mas achei que talvez
pudesse me ajudar, e espero que não pense que isso seja uma ... Imposição.
—Não posso responder antes que me diga o que deseja. E se nos sentássemos?
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Com um gesto, indicou uma cadeira, e notou que Alexia sentou-se a borda da
mesma, muito ereta, as mãos no colo, como uma criança frente a um professor.
O vestido que ela usava era simples, um pouco fora de moda, conforme notou com
seu olho experiente, mas de bom gosto, sendo que o tecido azul-escuro acentuava a
brancura da pele dela.
Seus cabelos eram loiros, não dourados, mas estampando a maciez de um campo de
trigo ainda não colhido.
Seus olhos, ao fixarem-no, mostraram-se muito expressivos, e o marquês notou que
ela parecia um pouco nervosa.
— Bem? — perguntou ele, sentando-se à frente dela e cruzando as pernas. — O que
posso fazer por você?
Ele falava num tom mais gentil do que aquele que normalmente usava para
estranhos, talvez pelo fato de a garota à sua frente parecer inexperiente e insegura.
— Meu pai era o coronel Arthur Minton — respondeu Alexia. — Morreu no ano
passado, após longa enfermidade. Como agora tenho que cuidar da minha família, pois
mamãe morreu há muitos anos atrás, resolvi trazer minha irmã para Londres.
O marquês a ouvia, sem fazer qualquer comentário.
— Ela é tão bonita, que achei que seria errado — continuou Alexia — mantê-la em
Bedfordshire, onde estávamos muito isoladas, e não lhe dar a oportunidade de conhecer...
O mundo!
Ela hesitou ao pronunciar essas palavras e o marques com um tom cínico, observou:
— O que está querendo dizer é que gostaria de oferecer a ela a oportunidade de
conseguir um marido!
Havia algo de zombeteiro em sua voz, e isso fez com que Alexia corasse.
— Pode parecer. . . Uma impertinência, milorde, mas tenho certeza de que seria o
que minha mãe faria, se estivesse viva.
— Poderia explicar como eu entro nisso tudo? — sugeriu o marquês.
— Ao fazer algumas indagações, descobri que o senhor possui alguns imóveis
mobiliados em Londres, e foi seu agente que me sugeriu que talvez tivesse uma casa para
eu alugar para a temporada. . . Embora eu receie que não possa pagar muito por ela. . .
O marquês pareceu surpreso.
Ele sabia que havia alguns imóveis mobiliados entre as muitas propriedades que
possuía em Londres, mas essas coisas sempre tinham sido deixadas nas mãos de seus
agentes.
Sabia também que era por ignorância, e não por qualquer outro motivo, que Alexia
tinha se dirigido diretamente a ele.
— Está sugerindo que possa se instalar, junto com sua irmã, em uma casa
mobiliada, sem uma dama de companhia? — perguntou, após um momento.
— Pensei que, sendo mais velha que Letty, pudéssemos dispensar a dama de
companhia, já que nossa governanta também estaria conosco. Atualmente ela ensina meu
irmão menor.
— Então, são três! — exclamou o marquês. — Posso assegurar-lhe, Srta. Minton, ou,
já que somos primos, Alexia, que o mundo social, ao qual você, obviamente aspira, não irá
considerá-la uma dama de companhia adequada a uma debutante!
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— Tem. . . Certeza disso? — perguntou Alexia, ansiosamente
— Estou constatando um fato —: respondeu o marquês. —; Quantos anos você tem,
para que possa se julgar capaz disso?
Alexia hesitou e ele percebeu, pela expressão de seus olhos, que ela pensava em
mentir. Então, depois do que o marquês teve certeza de ser uma luta com sua consciência,
ela contou a verdade.
— Tenho quase vinte e um — disse ela —, mas achei que, se afirmasse ter vinte e
quatro ou vinte e cinco, ninguém iria duvidar.
O marquês sorriu.
— Creio que seria difícil encontrar alguém que acreditasse que você já tivesse
atingido tão augusta idade — disse ele. — Além disso, você não é casada! Alexia suspirou.
— Tinha medo de que isso fosse um obstáculo — disse ela, com desapontamento.
Então, com uma súbita luz no olhar, perguntou:
— Acha que...
Ele abanou a cabeça.
— Não estou querendo ser rude, Alexia, mas um anel no dedo não lhe dará a
aparência de uma mulher casada.
O marquês sabia que ela não estava conseguindo seguir seu raciocínio.
Ao mesmo tempo, achava que ela parecia tão jovem, tão inocente, tão sem
sofisticação, que somente a presença de um marido de verdade convenceria os outros de
que ela era casada!
Houve silêncio. Então, depois de um momento, Alexia perguntou:
— Se eu encontrasse uma dama de companhia, ficaria muito caro?
— Pela observação, posso adivinhar que seus fundos são limitados, não? —
perguntou o marquês.
— Venho economizando para isso há dois anos — respondeu Alexia — desde que
percebi como Letty seria bonita. Papai e eu sabíamos que ela era muito atraente, mas agora
que ela desabrochou de tal maneira, senti que deveria ser trazida para ...
A voz de Alexia morreu e ela olhou para o marquês cheia de impotência enquanto
tentava dizer:
— Não sabia que iria haver tanta dificuldade. A princípio pensei poderíamos ficar
em um hotel, mas eles são muito caros, e ontem à noite os homens olharam para Letty de
um jeito que. . . Não gostei.
— Um hotel não é certamente um local adequado para uma debutante — disse,
firmemente o marquês.
— O senhor não teria uma casa, mesmo que fosse pequena, que pudesse nos alugar
por dois meses? Perguntou Alexia.
— E a dama de companhia? — perguntou o marquês.
Alexia fez um gesto desesperançado com as mãos, enquanto dizia:
— Talvez o senhor conheça alguém entre suas relações. . . Que possa aceitar.
Novamente ela parou, e o marquês percebeu que Alexia calculava, antes de
terminar a frase.
— Vinte e cinco ou trinta libras!

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Ele achou improvável que uma dama de importância achasse essa quantia
suficiente para seus serviços.
Sabia vagamente que algumas anfitriãs londrinas ocupavam-se de introduzir jovens
na sociedade. Normalmente eram filhas de conhecidas suas, e a verdade é que, se havia
alguma transação monetária nisso tudo, era um segredo nunca divulgado abertamente.
Disse a si mesmo que tudo aquilo não tinha solução e que Alexia não teria sucesso.
Tudo o que deveria fazer era dizer a ela que nada poderia fazer e deixá-la resolver
seus próprios problemas.
Então, achou que poderia muito bem dizer a Dugdale que a colocasse em contato
com seu agente; e estava para sugerir isso, quando Alexia perguntou:
— Gostaria de ver Letty? Eu a trouxe comigo, mas pedi ao seu mordomo que a
deixasse em outra sala, enquanto conversava com o senhor.
— Por que fez isso? — perguntou o marquês.
Os olhos de Alexia encontraram os dele por um momento. Então, respondeu:
— Tinha medo de que achasse uma impertinência minha ter vindo vê-lo, na
qualidade de parente tão distante, e, se ficasse bravo, seria melhor que Letty não se desse
conta disso!
— Mas você é forte o bastante para suportar tal tratamento, creio — disse o
marquês, secamente.
— Tenho que pensar em minha família. Como já lhe disse, não há mais ninguém!
Nós temos muitos parentes — observou o marquês.
Eles, nunca se importaram conosco. Tínhamos um ou dois primos que costumavam
aparecer na época do Natal, por mamãe ter pena deles; mas agora estão velhos ou mortos,
e Bedfordshire não é um local que atraia ricos ou esportistas
— Por que vivem lá? — perguntou o marquês.
— Papai recebeu uma casa de um homem que serviu com ele na índia, e cuja vida
ele salvou, Esse homem nunca se casou, e, antes de morrer, deixou ao meu pai a casa e o
dinheiro que possuía. Era muito pouco.
— E seu pai não tinha dinheiro? Apenas sua pensão, mas isso morreu com ele.
Mamãe possuía um pequeno dote, mas nós já gastamos quase todo ele.
Alexia olhou para o marquês, como que pedindo que ele compreendesse que não
estava sendo extravagante.
Acredita realmente que essas despesas com a temporada londrina de sua irmã
sejam justificadas, nessas circunstâncias? — perguntou ele, depois de um momento.
Viu que Alexia considerava essa pergunta antes de responder, com um súbito
sorriso, que pareceu iluminar todo o seu rosto.
— Posso ir buscar Letty, milorde? Então, talvez possa julgar por si mesmo se estou
certa no que planejo ou não.
Sem esperar pela resposta, ela levantou-se.
Como o marquês não conseguisse achar nenhuma razão para não ver a garota, nada
disse, enquanto Alexia atravessava rapidamente a sala e abria a porta.
Ela obviamente não percebera que teria sido mais convencional que um dos criados
fosse buscar a irmã.

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A sós o marquês sentou-se, com sua costumeira expressão de cinismo estampada no
rosto.
Tinha certeza de que Letty era uma jovem bonita, mas certamente não tão
sensacional para encantar os cavalheiros da alta-roda.
A idéia de vir a Londres sem dinheiro, sem uma dama de companhia e sem uma
casa era tão tola, que somente uma pessoa sem inteligência, ou sem experiência, poderia
ter tido.
Mas, por alguma razão que não conseguia analisar, estava achando difícil não
atender ao pedido de Alexia, mandando-a de volta a Bedfordshire, o que seria a coisa mais
sensata a fazer.
No entanto, teve pouco tempo para pensar, antes de ouvir passadas do lado de fora,
e Alexia entrar novamente na sala, trazendo a irmã pela mão.
Imediatamente, o marquês percebeu que a jovem estava vestida mais
sofisticadamente e melhor que Alexia.

Seu chapéu alto era enfeitado com flores e seu vestido de musselina branca era
adornado com laços cor-de-rosa pálido, que combinavam com as flores usadas no chapéu.
Alexia parecia puxá-la pela sala, em direção ao marquês. Quando ele se levantou
lentamente, e Letty curvou-se cumprimentando-o, percebeu que estava olhando para um
dos rostos mais bonitos que vira em toda a sua vida.
Disse a si mesmo que não havia dúvida que Alexia não exagerara. Letty era,
realmente, uma beleza inglesa a ser cantada em prosa e verso.
Sua compleição era perfeita. Seus cabelos tinham o brilho do sol e os olhos eram
azuis como os miosótis!
Possuía um pequeno nariz reto e um queixo levemente pontudo, e a experiência do
marquês fê-lo ver que seu corpo era perfeito, como o de uma jovem deusa
Ficou olhando para ela completamente espantado, percebendo que Alexia o
observava, totalmente deliciada.
Enquanto ele olhava para Letty, esta o observava, cheia de admiração.
Finalmente, a jovem exclamou:
— O senhor é exatamente como eu imaginava que um marquês seria!
Antes de chegarmos a Londres, Alexia me dizia que eu ficaria desa- pontada
— Então fico contente que isso não tenha acontecido — respondeu o marques. — E
se nos sentássemos?
Letty sentou se na cadeira deixada vaga por Alexia e essa em outra, junto à irmã.
Estavam de frente para a janela e o marquês viu, à luz do sol, que a beleza de Letty
realmente era perfeita.
Notando que ambas obviamente esperavam que ele dissesse algo, o marquês
começou:
— Sua irmã disse-me que deseja introduzi-la no mundo social. Acredita que gostará
disso?
—Será adorável ir aos bailes — respondeu Letty. — Adoro dançar!
—Há muito pouca oportunidade para ela fazer isso em Bedfordshire — interpôs
Alexia.
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O marquês ficou imaginando se conseguiriam algo assim em Londres, não tendo
ninguém que as apresentasse.
No fundo de seu espírito, uma voz que sempre o guiava lhe dizia que, sendo a
jovem tão bonita, ele acabaria sendo envolvido.
Ele ordenaria que Dugdale lhes fornecesse o nome de seu agente, e tudo ficaria
esquecido!
Ao mesmo tempo, não havia dúvida de que Alexia não tinha exagerado quanto aos
encantos de sua irmã, o marquês achava que seria como que um crime impedir que essa
beleza desabrochante fosse apreciada!
Com um esforço de autopreservação, que, durante anos, vinha salvando o de ser
envolvido em situações que poderiam lhe trazer problemas, ele disse:
—Vou enviá-las ao meu contador, o Sr. Dugdale. Ele, sem dúvida, irá ajudá-las a
encontrar algum tipo de acomodação. Mas uma companhia é outro assunto!
—Ele não conhece alguma? — perguntou Alexia.
—Uma dama de companhia? — perguntou Letty. — Mas Alexia sempre cuidou de
mim!
— E pensei que pudesse continuar fazendo, mas Sua Excelência diz não tenho idade
suficiente, e que precisamos de uma senhora casada.
Letty pareceu confusa.
Mas não conhecemos ninguém em Londres! Essa é que é a questão — disse o
marquês —, mas vamos ver o que o Sr. Dugdale tem a dizer sobre isso.
Levantou-se e tocou o sino. O contador entrou tão rapidamente na sala que o
marquês achou que ele andara escutando atrás da porta.
— Temos um problema aqui, Dugdale — disse ele —, mas, primeiramente, deixe-
me apresentá-los. Virou-se para Alexia e disse:
— Aqui está alguém que pode ajudá-la; meu contador, de quem já lhe falei.
Alexia fez uma reverência e estendeu-lhe a mão.
— Farei tudo o que estiver ao meu alcance — disse o sr. Dugdale, polidamente.
— Esta é sua jovem irmã — disse o marquês. — A Srta. Letty Minton.
Ao falar, observou o contador, e, um tanto divertido, viu que ele ficara atônito com
a beleza de Letty, da mesma forma que acontecera consigo.
Então, ao levantar-se para cumprimentar, Letty disse impulsivamente:
— Oh, por favor, se vai procurar uma dama de companhia para nós, não arranje
uma velha e rabugenta, que implique com tudo. As senhoras de Bedfordshire torcem o
nariz para mim, sempre com ar de reprovação!
O marquês achou que podia entender o porquê disso, mas notou que seu contador
olhava para ele quase que interrogativamente, ao perguntar incredulamente:
— Uma dama de companhia?!
É o que minhas primas estão precisando, Dugdale — disse o marquês. —
Primeiramente, uma casa mobiliada barata, e depois alguém que as apresente à sociedade.
E o mais importante: elas podem pagar muito pouco pela casa, e praticamente nada pela
dama!

16
Ao falar, achou que Alexia olhava para ele quase que com reprovarão, como se ela
considerasse que vinte e cinco libras não poderiam ser consideradas como "praticamente
nada".
Mas naquele momento, ele estava se divertindo com o espanto do sr. Dugdale, ao se
defrontar com algo que não tinha nada a ver com suas obrigações costumeiras.
— A acomodação mobiliada não será difícil disse ele lentamente, mas uma dama
de companhia... Não tenho nem idéia de onde buscar uma, milorde!
— Nunca vi você falhar em nada que lhe tenha pedido — respondeu o marquês. —
Na verdade, creio que você se orgulha disso! — Isto é um desafio! Vamos ver como se sai!
O sr. Dugdale levou a mão à cabeça, num gesto de perplexidade. Ao mesmo tempo,
seus olhos brilhavam, como se percebesse que o marquês estava deliberadamente
instigando-o para que conseguisse a solução do, problema.
Ele virou-se para Alexia.
— Para quando precisa dessas coisas, senhorita? — perguntou.
— Agora, imediatamente — respondeu Alexia. — Como estava dizendo, não gosto
do hotel onde ficamos a noite passada, e ele é mais caro do que podia imaginar!
— Certamente a senhorita e sua irmã não estão sozinhas em um hotel, não é? —
perguntou o sr. Dugdale.
Alexia sorriu para ele.
— Sua Excelência crê que sou muito tola, mas não sou tão estúpida assim. Não,
nossa governanta está conosco, e também meu irmão.
— Quantos anos tem ele? — perguntou o sr. Dugdale, com um tom de alívio na voz.
— Peter tem sete anos — respondeu Alexia.
O sr. Dugdale, desorientado, olhou novamente para o marquês. Então, ao notar o
sorriso nos lábios de seu patrão, respondeu:
—Não consigo pensar no momento, milorde. . .
O marquês o interrompeu.
— Ei sobre aquela parenta que está sempre escrevendo para mim, a respeito de um
assunto ou de outro? — perguntou ele. — Ela ficaria encantada em obrigar-me a favores
futuros para com ela.
Falava de maneira sarcástica, que fez com que Alexia olhasse para ele
apreensivamente.
A expressão preocupada do sr. Dugdale pareceu clarear.
— O senhor quer dizer a honorável Sra. Featherstone? -— perguntou ele - É
certamente uma possibilidade. Creio que seja tão insistente ao escrever, exatamente por
nada ter a fazer!
Sugiro que entre em contato com ela, Dugdale, e, creio que encontrar uma casa
mobiliada para dois meses não será nada difícil!
Espero que seu otimismo seja justificado, milorde — disse o contador.
—Em suas mãos capazes, tenho certeza de que sim! — retorquiu o marquês.
Os olhares dos dois homens se encontraram e cada um soube o que outro estava
pensando.
Então, como que aceitando a tarefa que tinha sido colocada sobre seus ombros, o sr.
Dugdale falou:
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— Proponho, milorde, levar as senhoritas Minton ao meu escritório, onde
poderemos discutir os detalhes deste assunto. Creio que Vossa Excelência tem um
compromisso agora!
— Obrigado, Dugdale — respondeu o marquês.
O marquês estendeu a mão a Letty.
— Descanse, pois o sr. Dugdale providenciará tudo o que for necessário — disse ele
—, e espero que tenha uma ótima temporada em Londres, e que se torne,
indubitavelmente, o assunto da cidade.
— Isso seria muito excitante — disse Letty —, mas Alexia diz que não devo esperar
muito!
— Isso é sensato da parte de Alexia, mas creio que ela está tomando precauções
desnecessárias.
Estendeu, então, a mão a Alexia, e viu que ela o olhava com uma expressão de
gratidão, que o fazia sentir-se como um cavaleiro armado surgido para salvar uma
donzela em perigo,
— Obrigada. . . Obrigada! — disse ela, ao estender a mão. — Como posso
demonstrar o quanto sou grata por sua bondade e compreensão?
— Apenas espero que consiga o que deseja — disse o marquês. — E tenho certeza
de que sua irmã provocará uma tempestade na cidade!
Alexia sorriu.
— Creio que o senhor pensou que eu exagerava, mas estava certa, não é?
— Sem dúvida! Vocês duas são Minton das quais toda a família teria muito
orgulho!
Alexia corou com o cumprimento e, por um momento, seus olhos cinzentos
brilharam. Então, com um pequeno sorriso, ela disse: Obrigada por ter me incluído, mas é
Letty que importa!
Alexia fez uma reverência, e seguiu atrás de Letty e do sr. Dugdale, que já tinham
alcançado a porta Aí, então, voltou-se novamente. Por momento, pareceu que os raios de
sol tinham tomado conta de seus olhos.
— Obrigada, muito obrigada!
Então, a porta se fechou atrás delas.

18
CAPITULO II

O marques encontrou o regente em um de seus momentos de agitação.


— Estou contente que esteja aqui, Chilton — disse ele. — Quero que me ajude em
uma decisão difícil.
O coração do marquês se calou, pois este tinha certeza de que a "decisão difícil"
dizia respeito à fête que o regente pretendia oferecer em Carlton House, imediatamente
após a cerimônia de sua designação.
Mas, em virtude de os médicos em Windsor continuarem a advertir que a mente de
seu pai poderia ainda "livrar-se das ações desconexas",a celebração da sua ascensão ao
poder era ainda considerada prematura.
Por duas vezes já marcara sua festa, mas, em ambas as ocasiões, fora obrigado a
adiá-la, em virtude dos relatório provindos de Windsor.
O que devo fazer, Chilton? — perguntou ele, olhando desesperadamente para um
convite que trazia às mãos.
- Já disse à Sua Alteza Real — interpôs lady Hertford — que ele terá sorte pela
terceira vez, e que, se marcar a data agora, teremos ocasião de celebrar uma coisa sem
dúvida alguma muito auspiciosa!
O marquês olhou para lady Hertford e pensou mais uma vez que, por baixo
daquela aparência notável, jazia um espírito fraco.
Muito rica, lindamente vestida, formal, grave, e, sem dúvida, de ótima aparência,
não era difícil de se ver por que, embora fosse muito mais velha que o regente, ela o
levasse quase que à loucura.
O marquês suspeitava que havia algo no regente que fazia com que ele, sendo um
homem jovem, sentisse necessidade de ser dominado pela autoridade de uma mulher
mais velha.
Qualquer que fosse a razão, não havia dúvida de que ele se sentia deslumbrado
com lady Hertford, tendo dito ao marquês, em mais de uma ocasião, que era o homem
mais feliz do mundo por tê-la consigo.
O marquês sabia que o regente a visitava todas as manhãs, quando ela estava em
Londres, e, quando não, escrevia-lhe diariamente.
— Meu Deus, ela já é avó há mais de catorze anos! — afirmara um dos cortesãos em
tom de sarcasmo, enquanto outro dissera que ela era repelente e, em sua opinião,
repugnante.
Mas uma das razões, suspeitava o marquês, pela qual lady Hertford mantinha todo
o seu poder sobre o regente era que ela se apegava firmemente à sua virtude.

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Poucas pessoas acreditavam nisso, incluindo os cartunistas, que satirizavam o caso
de amor das maneiras mais difamantes.
O marquês estava convencido, a partir do que o príncipe lhe dissera e em virtude
de suas próprias observações, que lady Hertford, embora aceitando a adoração do regente,
não pretendia tornar-se amante dele.
Mas mesmo ela, às vezes, não conseguia impedir que o príncipe se tornasse
melodramático em suas emoções, o que sempre terminava com violentos ataques de
doenças.
Ele sempre os tivera, durante toda a vida, e aqueles que se lembravam de sua
ligação com a sra. Fitzherbert conheciam isso muito bem.
Normalmente, passava a ter febre alta, pulso acelerado, agitação, espasmos uma
inflamação violenta nos pulmões.
Ele era bastante inteligente para reconhecer que sua mente era a principal causa
desses males
— Dane-se tudo, Chilton — dissera ele, certa vez —, mas não é de surpreender que
essas numerosas causas de irritação deixem-me terrivelmente doente!
Como à medida que envelhecia, essas causas de irritação iam se tornando maiores,
o marquês rapidamente colocou-se ao lado de lady Hertford, para impedir que ele
trabalhasse sozinho naquilo que privadamente chamava de aborrecimento; isto é, a data
da sua fête.
—Tenho quase que certeza, sir — disse ele, confortadoramente —, que não haverá
outro adiamento.
Se houver, eu me recusarei a dar qualquer festa — disse o regente, petulantemente.
—E isso deixaria a todos nós infelizes — interpôs lady Hertford.
O regente sorriu para ela e tornou-se instantaneamente o adorável amante que
desejava ser.
— Eu não faria nada, e isso é uma promessa provinda das profundezas de meu ser
— disse ele —, que lhe causasse um momento de tristeza.
—Então, sir, não se preocupe mais. Escolha outra data, e tenha certeza de que os
deuses lhe sorrirão.
Ao falar, ela estendeu-lhe a mão e fez uma pequena e formal reverencia, o que a
encheu de graça, a despeito da rigidez com que a caricaturavam os cartunistas.
—Você precisa partir? — perguntou o regente.
—Creio que sim, sir, mas nós nos veremos novamente à noite,
— Estarei contando os minutos, não, os segundos, até esse momento respondeu o
regente.
Ele a acompanhou até a porta e o marquês esperou, na sala de estar amarela, até
que retornasse.
Quando voltou, o regente, apesar de seus quarenta e oito anos, parecia feliz como
um garotinho.
— Mulher maravilhosa; maravilhosa! — murmurou ele, — Se eu pudesse estar
casado com alguém assim!
Pairou uma sombra sobre sua exuberância, ao pensar na esposa, que odiava, e o
marquês disse rapidamente:
20
— O senhor queria me ver, sir, a respeito de algo urgente?
Algo muito urgente para mim, Chilton. — Gostaria de ter sua opinião sobre várias
pinturas que me foram oferecidas. Confio em seu bom gosto para não cometer as mesmas
tolices do mês passado.
O gosto do regente era muito apurado, mas ele era uma vítima natural nesses tipos
de negócio.
No mês anterior, havia pago uma considerável soma de dinheiro por uma obra que
o marquês, no momento em que a viu, percebeu ser uma fraude.
Outros peritos foram chamados e ficou provado que o marquês tinha razão. Isso
contribuiu para que o regente aumentasse a sua admiração por ele, no que consistia a
pinturas.
— Ficarei muito contente se puder ajudá-lo, sir — replicou o marquês. — Mas, ao
mesmo tempo, sei que é muito raro Vossa Alteza ser enganada.
— Gostaria de acreditar nisso — disse o regente —, mas nenhum de nós é infalível...
— Realmente, sir — concordou o marquês,
Ele estava para deixar a sala, quando o regente notou que lady Hertford deixara cair
um pequeno lenço bordado com rendas, ao lado da cadeira onde estivera sentada.
O regente apanhou-o e levou-o aos lábios.
— É de Isabella — explicou quase que desnecessariamente para o marquês. — Vou
usá-lo junto ao meu coração, porque é lá que ela vive.
O marquês não respondeu e o regente, como se tivesse percebido o melodrama que
fizera, disse:
— Não posso imaginar, Chilton, por que, com todas as oportunidades que lhe
surgem, você permanece cínico, sem, ao menos que eu saiba, ter entregue jamais seu
coração a mulher alguma.
— Creio que por ser diferente de Vossa Alteza, sir. — O marquês sorriu. — Sou
egoísta demais para confiar as minhas sensações mais profundas a qualquer outra pessoa,
que não eu mesmo.
O regente riu, mas, após um momento, disse seriamente:
— Ainda acho isso extraordinário! Aqui está você, um dos mais elegantes homens
da Europa, com praticamente todas as beldades prontas a cair em seus braços,
simplesmente olhando-as, conforme elas me contam, com condescendência apenas!
— Não inteiramente, sir — respondeu o marquês, pensando em com quantas
mulheres já havia feito o amor.
Como que lendo seus pensamentos, o regente disse asperamente:
— Você sabe exatamente o que estou tentando dizer, Chilton. As mulheres em sua
vida são facilmente dispensáveis, e você, quando já está aborrecido de uma, apanha outra,
como se elas fossem flores bonitas, dispostas a ficarem viçosas apenas por um curto espaço
de tempo.
— Na verdade, eu gosto de variedade, sir.
— Exatamente por ser seu amigo — continuou o regente —, gostaria de vê-lo
apaixonado, realmente apaixonado, como eu estou!
O marquês reprimiu o desejo de dizer que esperava fervorosamente que aquele
destino não caísse sobre ele. Em voz alta, respondeu:
21
— Creio, sir, que é uma questão de destino. Ou se encontra alguém que seja
impossível esquecer, ou se permanece procurando.
Para o regente, isso parecia uma explicação muito plausível.
— Exatamente, exatamente, Chilton — disse ele. — E, embora eu tenha encontrado
o que procurava, e Deus sabe como sou feliz por isso, você continua a procurar, como um
explorador em meio ao desconhecido.
— Vossa Alteza faz-me sentir aventuroso, sir! — respondeu o marquês, com um
sorriso. — Agora, vamos verificar se as etiquetas de suas pinturas são produtos de algum
vôo de imaginação, a fim de que pareçam mais valiosas do que realmente o são!
Isso era algo que, sabia ele, continuamente acontecia, e os marchands ingleses
usavam de todos os truques possíveis para impressionar o regente com suas mercadorias.
Mais tarde, tendo verificado que as duas pinturas oferecidas a ele eram realmente
valiosas, merecendo a quantia pedida, e que o resto indubitavelmente composto de
fraudes, o marquês deixou Carlton House em ótimo humor.
Ele era companheiro do príncipe regente, como seria de qualquer outro Homem, e
sabia como os últimos meses tinham sido desgastantes.
O príncipe desejava estar em posição de poder, mas o rei passava temporadas
mergulhado na loucura e outras completamente lúcido.
Na opinião do marquês, os médicos, que obviamente se sentiam confundidos pelos
sintomas, deveriam a muito tê-lo declarado incapaz para as funções governamentais. Mas,
como se sentiam ameaçados em suas posições, continuavam indecisos quanto ao estado de
Sua Majestade.
Era natural que integrantes do partido conservador Tóri desejassem que o rei se
recuperasse prontamente, pois sabiam que o príncipe os demitiria, em favor de seus
amigos do Whig.
A indecisão, conforme a opinião do marquês, era prejudicial ao país.
Como muitos outros pares da Câmara dos Lordes, ele fora seriamente perturbado
quando o parlamento fora suspenso por duas vezes, no novembro anterior.
Com o exército de Napoleão agindo furiosamente no continente, tais manobras
políticas não poderiam continuar indefinidamente
Finalmente, a 11 de fevereiro, os membros do Conselho Privado dirigiram-se à
Carlton House, a fim de investir o príncipe na qualidade de regente.
Tinha sido um momento muito impressionante e, depois dos juramentos e
declarações, das assinaturas e referendos, todos os conselheiros haviam se ajoelhado e
beijado sua mão.
Ele certamente esperou muito por isso, pensou o marquês, na ocasião.
Ele lembrava-se de como o rei sempre frustrara seu filho mais velho, rejeitando
qualquer sugestão de serviço ativo no Exército e não permitindo que fosse outra coisa a
não ser o que acabou por se tornar, isto é, o "Príncipe do Prazer".
Guiando seus magníficos cavalos de volta a Park Lane, o marquês recordou-se de
que tinha um encontro à hora do almoço no White's Club, em St. James.
Mas, naquela manhã, recebera uma carta proveniente do campo, dizendo que sua
mãe, a marquesa, estava vindo para Londres.

22
Estava surpreso com o fato de ela fazer essa viagem, que tanto a fatigava, de sua
casa em Surrey até a capital, mas supôs que deveria existir algo de muito importante que a
tivesse forçado a essa decisão.
Quando chegou à Osminton House e apeou de seu faetonte, o marquês perguntou
ao mordomo:
— Sua Excelência já chegou?
— Sua excelência chegou há meia hora atrás, milorde, e encontra-se lá em cima, em
aposentos.
Uma das alas da imensa mansão de Park Lane estava sempre reservada à marquesa
mãe, para qualquer ocasião em que desejasse usá-la, mas , na verdade, fazia mais de um
ano que ela não vinha a Londres.
Como achasse a cidade barulhenta e superpovoada, ela preferia a calma do campo,
onde possuía muitos vizinhos hospitaleiros, que faziam com que tivesse muito pouco
tempo para se sentir solitária.
O marquês a visitara pelo Natal e a achara um pouco fraca. No entanto, fora com
alívio que notara, à primeira vista, que ela estava gozando de boa saúde.
A marquesa-mãe fora muito bela quando jovem, e a delícia de muitos pintores de
retratos depois que se casara, possuindo ainda um fino encanto, que não desaparecera com
a idade avançada.
Seus cabelos tinham embranquecido e suas feições eram clássicas, como quando o
pai do marquês se apaixonara por ela.
A despeito de uma diferença de vinte anos entre eles, ambos tinham sido muito
felizes.
Talvez a única tristeza fora terem gerado um filho apenas, o que justificou ter sido o
marquês mimado desde o instante em que nascera.
No instante em que o viu, o rosto de sua mãe se iluminou.
— Chilton, meu querido! — disse ela, segurando-lhe ambas as mãos.
O marquês beijou-as, antes de beijar-lhe as faces.
— Estou surpreso em vê-la aqui, mamãe.
— Sabia que iria dizer isso.
— O que aconteceu? Por que me deu essa honra? Na verdade, estava planejando
visitá-la assim que a temporada estivesse acabada.
— Espero que o faça — respondeu a marquesa-mãe —, mas a rainha escreveu-me
de forma tão desesperada, que não pude me recusar a vir vê-la, sabendo que seria
impossível para ela visitar-nos
— Então a rainha pôde arrancá-la de sua solidão, ao passo que todos os meus rogos
não — brincou o marquês.
— Não tinha nenhuma vontade de fazer essa viagem longa e fatigante, respondeu a
marquesa-mãe —, mas achei que era meu dever. O que mais podemos fazer por alguém
que está com problemas, querido, a não ser sermos simpáticos e compreensivos?
Ela parou por um instante e, então, disse, com voz baixa:
— Fiquei chocada, extremamente chocada, ao saber que Sua Majestade fora
colocada em uma camisa-de-força. Isso me parece um ato de lèse majesté. Será que não
poderiam controlá-lo por outro método?
23
—Pensei nisso também — concordou o marquês.
—Nem imagino como a pobre rainha deve estar desesperada! — disse a marquesa-
mãe, com sua voz macia.
—A senhora pretende ficar com ela em Windsor?
— Creio, realmente, que não conseguiria suportar o desconforto e o ambiente de
tensão e pena por muitas horas — respondeu a mãe —, e acho que seus excelentes cavalos,
querido, podem me trazer e levar até lá facilmente.
O marquês riu.
— Mamãe, a senhora é sempre uma diplomata: enquanto concede com uma mão,
guarda um pouco com a outra. Mas está certa, naturalmente que está certa! Seria
intolerável ficar vinte e quatro horas em meio à melancolia e ao desânimo.
— Sinto muito pela rainha — insistiu a marquesa-mãe.
Isso era compreensível, segundo o marquês, já que a rainha e sua mãe tinham sido
sempre amigas íntimas, desde que esta, há muitos anos, herdara o título de dama de
honor. Ele sentou-se e disse:
— Bem, a perda da rainha é o meu ganho. Preciso dizer que estou deliciado em vê-
la aqui?
— E eu em vê-lo, querido — respondeu a marquesa-mãe. — Você parece bem, c
muito elegante, exatamente como quando vi seu pai pela primeira vez.
O marquês sabia que não havia um cumprimento maior que esse, e sorriu, ao dizer:
— Preciso dizer-lhe, mamãe, que a senhora esta ainda mais bonita do que antes?
Todas as “incomparáveis” terão que cuidar de seus lauréis, agora que a senhora chegou a
Londres.
— Incluindo lady Harlow? -- perguntou a marquesa-mãe, com uma olhada matreira
para o filho.
Estou vendo que, mesmo no campo, existem passarinhos que levam os mexericos. .
. — observou o marquês.
— Ela é muito bonita?
-- Não, nem tanto quanto a senhora, mamãe, nem tão interessante.
A marquesa-mãe suspirou.
— Estou feliz. Estava um pouco nervosa.
— Nervosa? -- perguntou o marquês.
Sua mãe hesitou por um momento e, então, disse:
— Sempre tenho medo, meu querido filho, que você possa ser capturado por uma
mulher cobiçosa. Porque você não somente é muito desejável por si mesmo, como tem
muito o que oferecer A sua jovem esposa.
-- Minha esposa! Deus do céu, mamãe, a senhora não precisa ter medo! Não
pretendo me casar com ninguém, ao menus não com Imogen Harlow!
— Então, tome cuidado — pediu a marquesa-mãe.
O marquês olhou para ela agudamente.
— O que está tentando me dizer? Seja franca comigo, mamãe! A senhora sabe que
gosto de franqueza, especialmente quando provém da senhora!
— Ouvi dizer que lady Harlow esta determinada a fazer com que você se case com
ela!
24
— Então ela deve ser ainda mais estúpida do que imaginei —exclamou o marquês.
— Ela já tem um marido!
— Ha uma coisa chamada divorcio! - respondeu a marquesa-mãe.
— Na verdade, estou extremamente perturbada com o numero de divórcios que
anda aparecendo!
Subitamente, ela comprimiu seus dedos finos e sensíveis.
— Oh, Chilton, prometa-me que você nunca entrara nessa confusão, nem causara
tal escândalo na família. Eu não poderia suportá-lo!
O marquês tomou a mão de sua mãe entre as suas.
— Ouça; mamãe. --juro que não tenho a intenção de estragar o nome da família, ou
minha própria reputação, com este assunto. Se Imogen Harlow causa a senhora algum tipo
de inquietação, então eu lhe prometo, aqui e agora, nunca mais vê-la novamente!
— Ela realmente significa tão pouco para você?
— Para falar a verdade, mamãe, acabei dc descobrir que ela é um aborrecimento!
— Então, estou aliviada, profundamente aliviada — disse a marquesa-mãe. —
Naturalmente, as coisas tendem a ser exageradas, mas correm historias a respeito dela ser
uma mulher cheia de determinação!
— Uma mulher tem que ser extremamente determinada para conseguir cortar-me a
asa! — disse o marquês. — Acabei de ouvir o regente contar as virtudes dc lady Hartford,
o que, em si, é o bastante para que alguém desista do amor!
— Lady Hartford! — exclamou a marquesa-mãe, depreciativamente.
— Ela é alguém a quem nunca admirei, pois a considero uma mulher tediosa.
Simplesmente, não posso entender como um homem permite que sua esposa seja falada
dessa maneira tão vexatória.
O marquês já pensara nisso por muitas vezes.
Mas lorde Hartford, um tóri dedicado, era um homem agradável e de
temperamento fácil, tendo feito um sucesso moderado como político, bem como no cargo
de mestre dos cavalos.
O que se supunha é que lorde Hertford e seu filho, lorde Yarmouth, não
conseguiram deixar de lado a oportunidade de obter uma maior influência política, gerada
pela paixão do regente.
A marquesa-mãe, no entanto, seguia o seu próprio raciocínio.
— Mais do que qualquer outra coisa, meu querido — dizia ela, agora —, eu gostaria
que você se casasse com uma boa moça, por quem estivesse profundamente apaixonado!
— Sinto desapontá-la, mamãe, mas creio que isso é improvável de acontecer! Em
primeiro lugar porque eu raramente conheço “boas moças", e em segundo porque, por
minha própria natureza, sinto uma grande impossibilidade de me apaixonar.
Mas, querido, por que não? — perguntou sua mãe. — Seu pai se apaixonou por
mim, e eu, mais tarde, por ele.
— Eu sei, mamãe, e ninguém pode dizer que fui uma criança sem amor, ou
frustrada por qualquer motivo. Creio que a questão é que a senhora se tornou um modelo
muito idealizado por mim! Tento encontrar uma esposa que se pareça com a senhora e
proceda da mesma forma, mas, francamente, acho que ela não existe!

25
A marquesa-mãe sorriu ao cumprimento. Ao mesmo tempo, seus olhos, ao
pousarem sobre seu belo filho, mostraram-se melancólicos.
— Quero tanto que você seja feliz!
— Sou feliz, mamãe. Levo uma vida muito interessante e agitada. E se a senhora
está pensando que necessito de uma esposa que cuide de mim, tire essa idéia da cabeça!
O marquês riu, antes de continuar:
— Tenho Dugdale, que cacareja sobre mim como uma galinha com seu pintinho, e
todos os criados que a senhora treinou tão bem, que fazem com que tudo corra tão bem,
como se fosse conduzido por mãos femininas.
A marquesa-mãe balançou-lhe o dedo.
— Você simplesmente está arrumando desculpas, Chilton, e sabe muito bem que,
mais cedo ou mais tarde, terá que ter um herdeiro!
O marquês não respondeu e ela disse suavemente:
— Quero, antes de morrer, poder embalar um filho seu em meus braços!
— Isso me dá um considerável número de anos a mais, para que possa gozar a
minha liberdade — disse o marquês —, porque asseguro- lhe, mamãe, que a senhora não
está para morrer logo.
— Não quero ficar velha e proceder como o pobre rei — disse, positivamente, a
marquesa-mãe, lembrando-se da razão por que viera a Londres.
— Isso é algo que nunca acontecerá! Portanto, pare de se preocupar comigo,
mamãe, senão seu lindo rosto ficará cheio de rugas!
— Estou muito menos preocupada neste momento do que quando cheguei — disse
sua mãe, francamente.
Isto não é necessário, e só aconteceu porque a senhora deu ouvidos no diz que-diz-
que-diz — retorquiu o marquês, severamente,
Ele sempre se divertia com o fato de que a marquesa, embora vivendo no campo,
estivesse sempre por dentro do que acontecia no mundo social.
Raramente ela não estava informada sobre seus casos de amor. Como brincava ele,
quase sabia antes mesmo de eles terem acontecido.
O marquês tinha conhecimento, no entanto, de que ela mantinha uma copiosa
correspondência com velhas amigas, uma das quais a rainha.
Fosse o que fosse, a marquesa, invariavelmente, sabia o que estava acontecendo!
Embora pensasse ter sido discreto quanto às suas relações com Imogen Harlow,
essa ligação deveria ter chegado aos ouvidos de sir George Harlow, em Gloucestershire.
Vou terminar com ela imediatamente, pensou o marquês.
Ele levantou-se.
—Gostaria de poder almoçar com a senhora, mamãe, mas tenho um encontro
importante com dois políticos que desejam apresentar um decreto especial, no Parlamento,
de apoio ao regente. Terá que me perdoar, mas jantaremos juntos esta noite, quando
poderemos conversar sem sermos perturbados!
Será delicioso! — disse a marquesa-mãe, com um sorriso. — E, francamente, eu
preferiria ir para a cama e descansar. As estradas estavam melhores do que eu esperava,
mas sempre acho as viagens, mesmo quando feitas na excelente carruagem que você me
deu, muito fatigantes.
26
Então, vá para a cama, mamãe — sugeriu o marquês. — Faça seu sono de beleza,
enquanto eu ficarei esperando ansiosamente por nosso jantar!
Ele abaixou-se e beijou a mãe, sentindo, ao tocá-la, a suavidade aveludada de suas
faces, como se estivesse beijando a pétala de uma rosa. Sabia que a amava mais que a
qualquer outra mulher que tivesse conhecido.
Desceu as escadas e encontrou o sr. Dugdale esperando por ele no vestíbulo.
— Nunca pensei que minha mãe estivesse tão bem, e tão bem informada! — disse
ele. O contador riu.
— Sua Excelência está sempre por dentro de tudo. Ela nunca pára de me
surpreender!
— Nem a mim! — concordou o marquês. — Diga ao chefe que prepare os pratos
preferidos dela para nosso jantar e providencie para que tenhamos nosso melhor
champanhe.
— Já fiz isso, milorde.
— Imaginava que o tivesse feito — disse o marquês, bem-humorado.
Ele dirigiu-se à porta e o sr. Dugdale seguiu ao seu lado.
— Se o senhor estiver de volta às quatro horas, milorde, gostaria de trocar algumas
palavras a respeito das novas construções que estão sendo feitas no castelo. Parecem estar
ultrapassando as estimativas.
— Conversaremos sobre isso quando eu voltar — disse o marquês, rapidamente,
enquanto se dirigia ao seu faetonte, que o esperava.
Sabia que seu contador, com respeito a custos, era bastante parcimonioso, mas, na
verdade, naquele momento, estava mais preocupado com o almoço no clube.
Este foi mais interessante do que previa, pois os dois políticos tinham trazido um
terceiro, que era violentamente contra a proposta do decreto.
Assim, o almoço se transformou em um vivo debate político, do qual o marques,
participou apaixonadamente. Da mesma forma como gostava de se exibir no turfe,
deliciava-se com as manobras políticas que ocorriam agora que o regente fora investido no
poder.
Assim, foi quase que com um sentimento de exaltação que o marquês voltou a Park
Lane, notando que estava quase uma hora atrasado para seu encontro com o contador. No
entanto, haveria muito tempo para se discutir os problemas da fazenda.
Ao chegar à casa, o marquês entregou sua cartola a um criado, as luvas a outro, e
encaminhou-se à biblioteca.
— Diga ao sr. Dugdale que estou aqui! — disse ele ao copeiro, seguindo em frente
sem esperar pela resposta.
A sala arejada, com suas janelas dando para o jardim, formava um agradável
contraste com o calor do sol lá de fora.
O marquês permaneceu por um momento olhando para os canteiros formais e para
o gramado meticulosamente aparado e pensou nos jardins do castelo que nessa época do
ano estariam muito lindos! Eles seguiam até o lago, onde cisnes brancos e negros nadavam
elegantemente sobre e águas prateadas, circundado pelo parque, onde pequenas corças re-
pousavam à sombra das grandes árvores.

27
O que faz com que a sociedade fique em Londres no verão, quando o campo é tão
mais fresco e agradável?, Pensou.
Ouviu a porta que se abria e ia repetir a pergunta em voz alta para Dugdale,
quando a voz do copeiro anunciou:
— A Srta. Alexia Minton, milorde!
O marques voltou-se.
Alexia estava junto à porta, e bastou um rápido olhar para perceber que estava
preocupada e nervosa, exatamente como quando a vira primeira vez.
Já fazia três semanas que resolvera seu problema e o de sua linda irmã, de uma
maneira que, por ter sido engenhosa, o salvara de uma responsabilidade.
Ficara sabendo através do sr. Dugdale que elas tinham se instalado pequena casa
em Mayfair, a qual poderia ter sido alugada por uma muito maior do que a que Alexia
poderia pagar, e que a 'Featherstone aceitara ser uma dama de companhia.
Depois disso, o marquês deixara de pensar em suas existências, mas agora lhe
ocorria o quanto Alexia parecia jovem e sem sofisticação.
—Desculpe-me se. . . Estou me intrometendo — disse ela, com uma voz macia e
hesitante.
—Não é intromissão — respondeu o marquês. — Fico contente em vê-la. Espero
que as coisas estejam correndo satisfatoriamente!
Alexia não respondeu e ele, após um momento, disse:
— Creio que deve ter algo para me dizer.
— Preciso ... De sua ajuda!
—Outra vez? — perguntou o marquês, com um torcer de lábios. Viu que ela estava
muito nervosa e, como já fizera anteriormente, indicou-lhe uma cadeira para se sentar.
Alexia sentou-se e ele se lembrou da maneira como o fazia, ereta e as mãos no colo.
Como prestava muita atenção a detalhes, notou que o vestido que ela usava era muito
simples, talvez feito por suas próprias mãos.
Sendo um expert em roupas femininas, adivinhou também que ela portava o mesmo
chapéu que na primeira vez, só que com os laços trocados.
Como Alexia nada falasse, ele dirigiu-se a ela com aquele tom gentil que costumava
empregar com as outras mulheres.
— Estou esperando.
— Não sei. . . Como começar.
O marque sorriu.
— Comece pelo começo.
— O senhor tem sido muito gentil. . . Muito bondoso... E lhe sou muito agradecida.
— Você já disse isso quando saiu daqui na vez anterior.
— É verdade — disse ela —, e é por isso que me parece muito cansativo e
desagradável ter que perturbá-lo novamente.
— Mas você aqui está, e deve ser por algo importante.
— Para mim é.
— O que há? — perguntou o marquês.
Ela olhou para ele, e o marquês achou que seus olhos acinzentados eram mais
expressivos do que qualquer palavra.
28
Algo a estava amedrontando, algo a perturbava a ponto de ter vindo procurar sua
ajuda.
— Conte-me o que há, Alexia — disse ele.
— O senhor poderia pedir a sir Mortimer Walgrave. . . Que me deixasse em paz?
— Sir Mortimer Walgrave?
O marquês precisou de alguns segundos para se lembrar daquele homem de meia-
idade, desagradável, que sempre promovia barulho desnecessários em corridas de
cavalos.
Mas não conseguia recordar-se de tê-lo visto em qualquer outra situação, nem de tê-
lo conhecido formalmente.
— O que sir Mortimer tem a ver com você? — perguntou.
— Tentei mandá-lo embora. . . Mas ele não vai. Procura-me todo tempo, e sei que
pode achar uma tolice, mas estou com medo dele!
O marquês sabia quando uma mulher falava sinceramente, e podia ver nos olhos de
Alexia exatamente o que ela sentia.
— Como conheceu esse homem, e o que a sua dama de companhia a sra.
Featherstone, acha disso?
Para sua surpresa, Alexia não respondeu, desviando o olhar, o que demonstrou que
se sentia envergonhada.
— Diga-me — ordenou ele.
—Foi a sra. Featherstone quem nos apresentou — disse ela. — Ele é amigo dela!
—Mas ela sabe que ele não é uma companhia adequada para vocês?
— Creio — disse Alexia hesitantemente — que ela faz o que ele pede... Pois ele traz
para ela todo o tipo de presentes que deseja.
— Que tipo de presentes?
Novamente Alexia pareceu estar desconfortável e envergonhada.
— Ouça-me, Alexia — disse o marquês, quase que rispidamente —, se quer que eu
a ajude, tem que me dizer a verdade, toda a verdade!
— Pode parecer ingratidão. . . — começou Alexia.
— Perguntei-lhe que tipo de presentes
— Principalmente ... brandy!
— Está me dizendo que a sra. Featherstone bebe?
Viu a resposta no rosto de Alexia, sem que ela precisasse responder.
—Meu Deus! — exclamou ele. — Não pensei que isso fosse acontecer!
Podia ver que Alexia espremia os dedos, até que as juntas ficassem brancas.
Não é só pelo que me diz respeito. . . é tudo muito difícil!
O marquês esperou, sabendo o que ela iria dizer.
Mas ela traz outros homens para a casa. . . o tipo de cavalheiros não quero que Letty
conheça, os quais, tenho certeza, mamãe não aprovaria ...
O marquês nada disse e, após um momento ela continuou, ainda com uma voz
hesitante e medrosa:
Eles comem e bebem muito e nós... realmente...não podemos sustentar isso.
—Vocês não têm ido aos bailes, recepções e festas?

29
— Letty foi a um ou dois bailes — respondeu Alexia —, mas creio que não foram
dos melhores...
—Por que você não a acompanhou?
Houve uma pequena pausa, antes que Alexia respondesse:
— Não havia dinheiro para que nós duas comprássemos vestidos de baile ... e Letty
parecia tão bonita que pensei que era uma pena que as pessoas certas não a estivessem
admirando.
Ela olhou para o marquês, suplicante, como que pedindo que ele entendesse.
Mas estava com a testa franzida e, após um momento, Alexia disse:
— Eu o deixei furioso. Não queria lhe contar essas coisas . E acho que teria
conseguido superar tudo isso... se não fosse sir. Mortimer.
— Não estou furioso com você — disse o marquês.
Na verdade, ele se sentia extremamente enfurecido com o fato de uma pessoa tão
dissoluta como Mortimer Walgreve ter tido contato com alguém tão frágil e sensível como
Alexia.
— Desculpe-me... ser um incômodo — disse ela —, não há mais ninguém a quem
possa recorrer e...
Suspirou profundamente, antes de completar:
— Nosso dinheiro está quase acabando!
— Em três semanas?! — exclamou o marquês.
Mas, sem que Alexia lhe contasse, ele sabia exatamente o que tinha acontecido.
A sra. Featherstone, parenta ou não, não tinha se mostrado uma dama de
companhia ideal que ele imaginara Sendo uma mulher intrometida e inoportuna havia
desvirtuado suas funções em seu próprio benefício.
Ao invés de fazer o melhor de si para as duas jovens do campo, apenas se divertia
às expensas delas. Se alguém como Mortimer Walgrave quisesse ter uma aventura com
uma de suas protegida, desde que a pagasse com brandy, ela não se oporia.
O marquês, como muitos organizadores, detestava que seus planos falhassem.
Se se dispunha a conseguir algo, nada o aborrecia mais do que obstáculos ou
dificuldades que aparecessem, especialmente se devidos à incompetência.
Dizia a si mesmo agora que a grande culpa residia no fato de, nem ele, nem
Dugdale, terem se preocupado em se informarem melhor a respeito da sra. Featherstone,
antes de investi-la na posição de dama de companhia.
Simplesmente haviam assumido isso por ela ter sido Minton antes do casamento, e
por ela continuamente importunar o marquês com
cartas, pedindo favores. . .
Desta vez, o marquês não podia culpar ninguém pelo insucesso.
Pelo fato de Alexia ser tão vulnerável e tão desamparada, ele decidiu que algo
deveria ser feito imediatamente.
— Por favor. . . por favor, perdoe-me — dizia ela.
Ocorreu-lhe que poucas seriam as mulheres que não o culpariam pelo acontecido.
Ele sempre acabava acarretando para si os problemas das outras pessoas. Sempre
que tinha um caso de amor, acabava se envolvendo com os problemas da amante, de um
modo ou de outro.
30
A maioria desses problemas era financeiro, mas havia muitos outros também, e,
para evitá-los, desenvolvera uma grande habilidade.
Alexia olhava para ele com seus enormes olhos cinzentos, num misto de desculpa e
preocupação, de forma que o marquês sentiu-se, inesperadamente, comovido.
Ele levantou-se e caminhou até a janela, olhando para fora, sem prestar atenção no
que via, pensando somente em como resolver a situação.
Então, lembrou-se de que sua mãe estava lá em cima.
— Espere aqui! — disse abruptamente para Alexia, e saiu da sala, fechando a porta
atrás de si.
Encontrou seu contador no vestíbulo, parecendo um pouco agitado.
— Desculpe-me, milorde — disse ele —, mas eu disse ao copeiro que o senhor tinha
uma entrevista na biblioteca, querendo dizer que era comigo. Ele entendeu mal, e fez a
Srta. Minton entrar, assim que ela chegou.
O marquês continuava a andar, enquanto ouvia as explicações do sr. Dugdale.
— Eu deveria vê-la de qualquer forma, Dugdale — disse ele. — Contar-lhe-ei mais
tarde, mas, agora, preciso ver minha mãe.
Falava num tom que fez com que o contador ficasse apreensivo, depois subiu as
escadas e seguiu pelo corredor que levava aos aposentos de sua mãe.
Ela estava sentada à cama, com uma chávena de chá, quando ele entrou.
Estava ligeiramente corada, como a mostrar que tinha dormido bem, e as rugas de
cansaço tinham desaparecido de seus olhos.
— Chilton! — exclamou ela. — Que surpresa agradável!
— Preciso de um conselho seu, mamãe!
— Naturalmente! — disse a mãe, — Sente-se, Quer chá?
Indicou a bandeja que trazia o aparelho de prata, ao lado da cama,
mas o marquês balançou a cabeça.
— A senhora se lembra de um parente nosso chamado Coronel Arthur Minton? —
perguntou ele.
A marquesa-mãe pensou por um momento.
— Sim, lembro-me de tê-lo encontrado uma vez há muito tempo atrás, no
casamento de alguém. Era muito bem apessoado, aliás, excepcionalmente. Creio que
pertence a um ramo distante da família. Por quê?
O marquês sentou-se no canto da cama, como costumava fazer quando
era criança, e contou-lhe o que acontecera
A marquesa ouviu, com os olhos fixos no rosto dele.
— Você deveria ter me perguntado — disse ela. — Poderia ter lhe contado muita
coisa sobre Sybil Featherstone, uma mulher desagradável, e certamente não o tipo
adequado para tomai conta de duas jovens inocentes!
—Como eu iria saber? — perguntou o marquês.
— Você não deveria ter entrado em contato essa criatura, que vive em um círculo
muito diferente do seu Na verdade, foi tia Emily quem me contou essas coisas a respeito
dela.
— Eu deveria ter procurado saber mais a respeito dela, antes de sugerir que tomasse
conta de duas jovens que não passam de crianças.
31
— Foi muita bondade de sua parte ter tentado ajudá-las — disse a marquesa-mãe —
, mas é uma pena, ainda mais sendo a mais jovem tão bonita quanto você diz, que tenham
gasto todo o dinheiro conhecendo pessoas erradas.
— É o que sinto concordou o marquês , eu sinto-me responsável por isso. Assim,
creio que devo fazer algo para reparar o erro.
Sua mãe olhou para ele com surpresa.
Nunca vira seu filho agir dessa maneira, e, embora sentisse muito pesar por aquilo
que ele chamava de seu "próprio egoísmo", sabia que nada poderia fazer.
— O que lhe peço agora, mamãe disse o marques, antes que ela pudesse falar
qualquer coisa —, é que me dê o nome de uma senhora adequada para tomar conta dessas
duas jovens.
— Naturalmente, querido — respondeu a marquesa-mãe. — Por que não eu?

32
CAPITULO III

O marquês voltou para a biblioteca e Alexia notou que algo o preocupava.


Ele parecia mais severo e desagradável do que antes, e ela olhou-o com apreensão,
enquanto se levantava nervosamente.
— Minha mãe deseja falar com você — disse ele, e ela achou que sua voz soava
áspera.
Como não conseguisse dizer nada, Alexia simplesmente seguiu-o enquanto
caminhavam através do vestíbulo e subiam as escadas em direção ao pavimento superior.
Se não estivesse tão confusa, Alexia se deslumbraria com a magnificência da casa e
com as pinturas expostas pelos corredores que ligavam aos aposentos da marquesa-mãe.
O marquês abriu uma porta, depois outra, e Alexia seguiu-o para dentro de um
dormitório.
— Esta é Alexia Minton, mamãe — disse ele, e ela viu em uma ampla cama um
rosto muito agradável.
Alexia reverenciou, e, com uma voz gentil, a marquesa-mãe disse:
— Estou prazerosa em conhecer uma parenta do ramo Minton. Meu filho falou-me
a seu respeito e de sua linda irmã.
— Sua Excelência tem sido muito gentil conosco — Alexia tentou dizer.
Alexia tinha plena consciência de que o marquês fechara a carranca, enquanto se
dirigia à janela.
— Venha e sente-se aqui. Conte-me tudo a seu respeito — sugeriu a marquesa.
Enquanto Alexia se aproximava da cama, ela completou:
— Não devemos retê-lo, Chilton. Sei que tem muita coisa a fazer.
— Isso é ridículo, mamãe, como já disse! — respondeu o marquês. — Peço que
reconsidere, antes de despertar as esperanças de Alexia.
— Já o fiz — respondeu a marquesa-mãe. — E sei que terei muito prazer em
apresentar esta atraente Minton ao mundo social. Será ainda mais interessante, pelo fato
de serem duas!
Alexia parou e olhou para ela, boquiaberta.
— Estava dizendo ao meu filho — disse a marquesa-mãe — que, como foram tão
infelizes com a sra. Featherstone, devemos reparar a situação, e eu pessoalmente as
acompanharei pelo resto da temporada.
Alexia estava sem fala.
Sabia muito bem da importância do marquês, e que, sob a proteção de sua mãe,
todas as portas de Londres se abririam.
— Isso é maravilhoso demais. . . madame — disse ela —, mas não se preocupe
comigo. Penso somente em Letty.
33
— Isso é muito bonito de sua parte — respondeu a marquesa —, mas você é a mais
velha e os membros mais jovens da família têm que esperar sua vez.
— Isso seria normal em qualquer outra família, mas Letty é excepcionalmente
bonita, e creio que Sua Excelência deve ter lhe dito por que eu a trouxe a Londres.
— Estou ansiosa por ver sua irmã — disse a marquesa-mãe.
Houve uma pausa, e, então, Alexia murmurou:
— Tenho medo de não poder deixar meu irmão sozinho. . . mesmo com a sra.
Graham tomando conta dele.
— Seu irmão tem que ser levado em conta também, é óbvio — concordou a
marquesa-mãe.
— Tenho certeza de que. . . Sua Excelência não o quererá — disse Alexia,
hesitantemente.
Alexia deve ter notado, pensou a marquesa-mãe, por ser muito perceptiva. E logo
depois, o seu filho esbravejou:
— Não quero crianças pequenas correndo por minha casa, quebrando coisas, pondo
os dedos sujos nas mesas, e fazendo barulho, o que, tenho certeza, irá perturbá-la, mamãe!
A marquesa-mãe sorriu.
— Não deve se esquecer de que os dormitórios de crianças ficam no topo da casa,
Chilton, e que, embora você tenha sido um menino extremamente barulhento, nunca me
perturbou! Qual é o nome de seu irmão? — perguntou ela, logo depois.
— Peter, madame.
— Então precisamos tratar de manter Peter longe do caminho de meu filho, embora
eu vá gostar muito de ter um meninozinho á minha volta novamente.
A marquesa-mãe lançou um olhar à testa franzida do marquês, e, com os olhos
brilhando, continuou:
— Sugiro que, enquanto eu me levanto, você volte à casa que alugou, apanhe todas
as suas coisas e volte aqui com sua família. Então, após termos jantado, eu, você e Letty
planejaremos nossa campanha.
Fez uma pausa e, sorrindo, completou:
— Temos sorte de que esta temporada não vá terminar tão cedo quanto o costume, e
creio que o príncipe regente vá dar uma festa no final de junho.
O marquês nada disse. Alexia levantou-se.
— Não consigo nem agradecer-lhe, madame, por sua bondade — disse ela. — Estou
estonteada demais para encontrar as palavras certas, e a única coisa que posso fazer é
agradecer, do fundo de meu coração, assim como Letty o fará, quando souber das notícias.
Essa sinceridade agradou à velha senhora, que disse:
— Bem, apresse-se, vá buscar Letty e Peter. Meu filho, que é bom para esse tipo de
coisas, fará todos os acertos com a carruagem e, obviamente, com a dispensa da sra.
Featherstone.
— Creio que não tenho nada a fazer senão obedecer-lhe, mamãe — disse o marquês,
longe de estar contente com a idéia.
— Você sempre me mima, querido Chilton — observou a mãe.
Alexia reverenciou e saiu do quarto, seguida pelo marquês.

34
Eles caminharam em silêncio pelo corredor. Então, quando estavam à saída do
apartamento da marquesa-mãe, ela parou, olhou, para ele e disse:
— Por favor... milorde, por favor... ouça-me por um momento!
— A respeito do quê? — disse ele, rudemente. — Você conseguiu o que queria.
— Afirmo-lhe que não imaginava que isso... fosse acontecer — disse Alexia. — E,
embora esteja encantada com a gentileza e bondade de sua mãe... acho melhor irmos
embora para casa.
O marquês olhou para ela, quase que incredulamente.
— Não entendo — disse ele. — Está querendo dizer que vai recusar a oferta de
minha mãe para acompanhá-las?
— Vejo que isso. . . o preocupa — disse Alexia —, e seria errado deixar que isso
acontecesse, depois de ter sido tão bom para conosco. Assim, talvez o melhor fosse voltar
para Bedfordshire para viver calmamente. . . como o fazíamos antes que eu inventasse de
vir para Londres.
Havia em sua voz uma nota de pesar que era quase que um soluço, mas, de certa
forma, ela falava de maneira determinada.
Tinha certeza de que o marquês a olhava com sarcasmo e penetrantemente, como se
estivesse questionando uma sinceridade que considerava impossível.
— Está querendo dizer — afirmou ele, lentamente, após um momento — que vai
recusar o oferecimento de minha mãe por que acredita que isso irá me aborrecer?
— Sei que o senhor não nos quer aqui — disse Alexia. — Quando vim pedir sua
ajuda, não estava pretendendo nada mais, a não ser que impedisse sir Mortimer de
continuar a me amedrontar.
— Isso é algo que nem ele, nem ninguém igual a ele fará no futuro — disse o
marquês.
Ao falar, percebeu que, pela mente de Alexia ocorreu a idéia de que sir Mortimer
poderia segui-la, quando retornasse a Bedfordshire. Então,- quando ela levantou um
pouco o queixo, o marquês achou que ela mesma considerava essa hipótese absurda.
Pensando que ele tivesse aceitado a sua sugestão, Alexia disse:
— Não gostaria de perturbar sua mãe. . . portanto, diga-lhe o quanto fiquei
agradecida por sua compreensão e simpatia, e que sempre me lembrarei dela em minhas
orações!
Começou a caminhar novamente através do corredor e, após um momento, o
marquês a seguiu.
Quando alcançaram o topo das escadas, ele dirigiu-se a ela, em um tom totalmente
diferente daquele que usara anteriormente.
— Tendo visto minha mãe, Alexia, pode compreender que eu a amo, e que meu
grande desejo é vê-la feliz.
Alexia assentiu com a cabeça, mas nada disse. Então ele continuou:
— Ela encantou-se com a idéia de acompanhar você e sua irmã, e já decidiu que
você deverá ser apresentada à rainha.
Alexia, que já tinha descido alguns degraus da escada, parou e, segurando em um
dos corrimãos, perguntou:
— O que. . . está dizendo? Creio que não entendi. . .
35
— Estou dizendo — respondeu o marquês — que não posso permitir que minha
mãe se aborreça ou se sinta contrariada. Assim, nós faremos exatamente o que ela decidiu,
e eu irei buscar seus irmãos tão logo tenham preparado as bagagens.
Alexia olhou para ele e disse, em voz baixa:
— O senhor sabe que não quero. . . incomodá-lo!
— Posso lhe afirmar que estou acostumado a essas situações.
— Letty e eu não nos intrometeremos em sua vida, sob qualquer pretexto —
prometeu Alexia.
— Felizmente minha casa é muito grande — observou o marquês.
Depois, desceram o resto da escada em silêncio.
Alexia achava que estava sonhando.
O marquês chamou o sr. Dugdale e ordenou-lhe que uma carruagem fosse trazida
imediatamente.
Em poucos minutos, Alexia encontrou-se percorrendo a curta distância entre a casa
do marquês e aquela onde estava alojada, em meio a um conforto que nunca imaginara,
sentada ao lado do sr. Dugdale.
— Deixe a sra. Featherstone comigo — disse ele. — Encontre sua irmã e arranje uma
criada para empacotar suas coisas.
— Não temos muita bagagem — respondeu Alexia. — As coisas são muito caras em
Londres. Creio que minhas estimativas a respeito dos preços estavam completamente
erradas.
O sr. Dugdale sorriu.
— Isso está sempre ocorrendo comigo — disse ele —, subestimando e descobrindo
que todas as contas excedem seus limites.
Enquanto falava, pensava que gastar mais do que se esperava do dinheiro do
marquês era diferente do que dilapidar tudo# o que as garotas possuíam.
— Ao menos — disse ele, em forma de consolo — vocês não terão mais que se
preocupar. Deixe tudo com' a senhora marquesa. Ela é uma organizadora tão eficiente
quanto o filho, embora este não goste que eu afirme isso.
— Sua Excelência não nos quer. . . — disse Alexia, em voz baixa.
O sr. Dugdale sorriu para si mesmo.
— Creio que, talvez, você possa fazer muito bem a ele — disse, após um momento,
— Bem para ele? — perguntou Alexia.
— Ele é jovem demais para se ressentir com o inesperado e querer que o amanhã
seja sempre como o ontem. Não vai se importar em sair da rotina.
Alexia pensou nisso por um momento. Então, disse:
— Ele ficou furioso com a sugestão de sua mãe, e eu não o culpo. Como poderia
desejar que ficássemos em sua casa, não apenas eu e Letty, mas Peter inclusive?
— Duvido que, uma vez instalados, Sua Excelência perceba que estão lá — disse o
sr. Dugdale. — A casa é muito grande e quando o velho marquês era vivo, eles
costumavam hospedar muito mais gente do que agora.
— Por causa da marquesa?
O sr. Dugdale assentiu com a cabeça.

36
— Ela gosta muito de ter pessoas à sua volta. Pode dizer que não gosta de estar em
Londres, mas tenho a impressão de que isso lhe traz de volta a juventude. E a excitação de
ter que cuidar de vocês fará com que fique ainda mais bonita do que agora!
— Ela é muito bonita! — murmurou Alexia.
Ao falar, achou que, ao lado da marquesa-mãe e de Letty, ela certamente iria passar
despercebida.
Preciso cuidar de Peter, pensou, e impedir que ele interfira em qualquer coisa do
marquês.
Quando Letty soube o que tinha acontecido, ficou sem fala, assim como Alexia, mas
sua reação foi bem diferente.
— Isso significa que verei o marquês novamente! — exclamou ela. — Oh, Alexia,
tenho pensado nele desde que chegamos a Londres! Nunca vi um cavalheiro tão elegante e
bonito quanto ele!
Alexia já dissera à irmã que, embora o marquês não estivesse de acordo com a idéia
de sua mãe acompanhá-las, aceitara o fato para não desagradá-la.
— Você acha que, pelo fato de estarmos em casa do marquês, seremos convidadas
para a festa do regente? — perguntou Letty.
— Talvez. . . não sei — respondeu Alexia. — Ouvi muito pouco sobre isso!
— Só se fala nisso! — respondeu Letty. — Duas mil pessoas irão, e a sra.
Featherstone está aterrorizada por não ter recebido um convite.
Pensar na sra. Featherstone fez com que Alexia se sentisse incomodada com o que
poderia estar acontecendo lá embaixo.
A chegada, ela tinha se dirigido diretamente ao quarto de Letty, onde sua irmã
ainda dormia, depois de ter chegado muito tarde na noite anterior.
A sra. Featherstone a tinha levado a uma festa, que para todos os efeitos, fora
barulhenta e vulgar.
Letty divertira-se simplesmente porque tudo lhe era novo e inesperado, embora
tivesse confessado a Alexia, pela manhã, que muitos dos cavalheiros que a tinham
convidado para dançar estavam embriagados.
Era o tipo de coisa que Alexia detestava que acontecesse, mas tinha sido um alívio
saber que Letty não havia levado a sério os cumprimentos deles. Tinha também
conseguido evitar os avanços dos admiradores como se já estivesse acostumada a isso.
Era uma maravilha pensar que não precisaria mais ficar se preocupando com o tipo
de pessoas que Letty encontraria nas festas, ou que ela própria precisasse ter contato
novamente com sir Mortimer Walgrave.
Embora tivesse ficado amedrontada com as coisas que ele lhe dissera, e com a
maneira como ele tentara ficar a sós com ela, Alexia dava graças a Deus por isso ter
acontecido consigo e não com Letty.
Ele era um homem horrível e ameaçador.
Letty era tão jovem, tão bonita que, voltando para a Osminton House, Alexia até
pensou que, talvez, ao vê-la pela segunda vez, a oposição do marquês se desvanecesse.
Quando elas se reuniram à marquesa-mãe, antes do jantar, na dependência
conhecida como pequeno salão, Letty estava em sua melhor aparência.

37
Na verdade, Alexia a vestira com um vestido adquirido em Londres. Era muito
bonito, além de ser muito mais caro do que tudo o que Letty usara até então: branco,
adornado com laços azuis, no mesmo tom dos olhos da jovem.
Vestindo-o, Letty parecia-se com Perséfone anunciando a nova primavera,
enquanto caminhava através do salão, para reverenciar graciosamente frente à marquesa-
mãe.
— Alexia contou-me, madame, o quanto a senhora foi gentil para conosco — disse
Letty. — É tudo muito excitante! Fico pensando que estou sonhando, e que acordarei e me
encontrarei em casa, em Bedfordshire, olhando para uma paisagem plana, sem mesmo
uma árvore sequer para quebrar a monotonia.
O marquesa-mãe sorriu.
— Há muitas coisas aqui em Londres para quebrar a monotonia — disse ela. —
Contaram-me que você era bonita, e vejo agora que, realmente, não haviam exagerado.
— Obrigada, madame — respondeu Letty.
Ela não corou nem pareceu surpresa com o cumprimento, e Alexia percebeu que,
para ela, isso já tinha passado a ser uma rotina.
O marquês entrou na sala, e, quando Letty voltou-se para vê-lo, esqueceu-se de si.
Se ele lhe tinha parecido magnífico antes, agora, em suas roupas de noite, parecia
mais imponente ainda.
Sua gravata branca estava dobrada de uma maneira diferente, o que as garotas não
percebiam ser o desespero dos dândis que tentavam imitá-lo, e falhavam.
Suas jóias consistiam em apenas uma grande e perfeita pérola negra colocada no
centro de sua camisa.
Seu paletó de casaca não trazia qualquer ruga e, embora apenas em algumas
ocasiões informais os cavalheiros do beau monde costumassem usar calças justas, o
marquês, atendendo à preferência de sua mãe, portava culotes de cetim, e meias de seda,
que, nos tempos dela, eram obrigatórios.
Letty olhou para ele por um momento e, então, soltou uma exclamação de
admiração.
— Como o senhor está magnífico! — exclamou. — Tenho certeza de que poderia ser
o regente. Pareceria tão bonito impresso nas moedas!
Falava com a espontaneidade de uma criança e suas palavras dissiparam as últimas
rugas de contrariedade que pairavam no rosto do marquês.
— Fico feliz em ser apreciado por meus convidados — disse ele.
Um pouco mais tarde, Letty lembrou-se da reverência.
— Alexia disse que o senhor não nos quer aqui, mas não posso deixar de lhe dizer o
quanto isso é emocionante para nós, e que nos portaremos muito, muito bem, prometo-
lhe!
Olhando para seu filho, a marquesa-mãe disse, com um sorriso no rosto:
— Você não poderia desejar um encanto maior do que este, Chilton.
— Realmente, mamãe — respondeu o marquês, beijando-lhe a mão —, mas a
senhora sabe que estava realmente preocupado consigo.
— E com sua própria paz e calma — completou a marquesa. — Bem, vamos fazer o
melhor que pudermos, como dizem os criados.
38
— Isso é algo que a senhora sempre fez para mim — respondeu o marquês.
A marquesa sorriu.
— Como você está nesse humor maravilhoso, talvez possa lhe contar que amanhã
iremos às compras.
À palavra "compras", Letty ficou subitamente alerta, como um cachorrinho terrier,
levantando as orelhas.
Alexia, no entanto, dirigiu-lhe um ar de reprovação, que tanto a marquesa quanto
seu filho notaram.
— É muita bondade de sua parte, madame — disse ela —, mas eu e Letty temos
tudo o que precisamos.
Ao falar, teve a sensação de que o marquês olhara desaprovadoramente para seu
vestido de musselina, feito por ela mesma.
— Vou deixar algo muito claro — disse a marquesa-mãe. — Não pretendo me
privar daquilo que é a parte mais excitante da temporada de Londres, deixando de
adquirir os vestidos mais bonitos e originais.
Sorriu para o marquês, enquanto completava:
Você é muito jovem para se lembrar, meu querido, mas antes da guerra eu era
aclamada como a mulher mais bem vestida de Londres. Não suportaria agora ser
designada como "já foi".
— Isso nunca acontecerá, mamãe — respondeu o marquês, sabendo exatamente
onde ia parar a conversa.
— Como todos nós apareceremos juntos — disse a marquesa —, temos que criar
uma frente formidável, para que nenhuma de nossas rivais possa vencer.
Houve silêncio por um momento. Então, Alexia disse:
— Tenho medo, madame, de que...
— Mudei de idéia — interpôs a marquesa rapidamente. — Os vestidos serão a
minha contribuição, enquanto que um baile aqui em Osminton House será a do meu filho.
A marquesa ainda segurava as mãos de seu filho, e olhou para ele
interrogativamente.
Por um momento, o marquês hesitou. Uma enfática recusa chegou até seus lábios,
mas, subitamente, ele respondeu:
— Creio, mamãe, que a única coisa que me cabe é marcar a data!
— Um baile!
As palavras explodiram dos lábios de Letty, como se fosse impossível contê-las.
— Um baile para Alexia e para mim! Era assim que mamãe às vezes costumava
falar, mas nunca pensei que fosse possível!
Os olhos de Alexia pousaram sobre o rosto do marquês. Sentia que Chilton deveria
estar odiando a idéia, e que elas estavam se impondo a ele de uma maneira que a deixava
envergonhada. Mas nada podia fazer.
Como que percebendo que ela nada dissera ainda, o marquês virou-se em sua
direção.
— E o que tem a dizer, Alexia? — perguntou.
— Talvez, se realmente o senhor não gostar da idéia... a marquesa- -mãe possa
mudar de opinião. . .
39
— Não farei isso! — retorquiu a marquesa-mãe. — O baile não será apenas para
você, Alexia, e para Letty, mas para mim também. Será maravilhoso ver todos os meus
amigos e, francamente, será uma delícia poder usar os diamantes de Osminton mais uma
vez, antes de passá-los para uma nora!
Uma nora!
As palavras pareceram ecoar nos ouvidos de Alexia.
A sra. Featherstone tivera a preocupação de fazer uma lista de todas as conquistas
que o marquês fizera entre as grandes belezas da alta sociedade inglesa.
Também falara muito a respeito de lady Harlow, mas Alexia entendera que ela era
casada!
Naturalmente, era óbvio que o marquês, sendo rico e importante, mais cedo ou
mais tarde acabaria arranjando uma esposa.
Alexia apenas esperava que isso não acontecesse antes do baile em Osminton
House, quando então o mundo social poderia admirar a beleza de Letty.
Quando se sentaram para jantar na imensa sala de jantar, cujas paredes estavam
repletas de retratos dos ancestrais dos Minton, e onde havia o brasão de armas da família
bordado nas tapeçarias que forravam os assentos das cadeiras, Alexia achou que tudo
aquilo era um sonho, e Letty também.
Ela nunca imaginara que uma mesa de jantar pudesse ser tão bem decorada, com
candelabros de ouro, flores e porcelana de Civis.
Como desejasse que sua mãe se sentisse feliz, o marquês tentou se mostrar muito
afável.
Contou histórias do regente, que as fizeram rir; de seus sucessos nas corridas de
cavalos e de como ele esperava vencer a copa de Ascot.
Mais de uma vez Alexia achou que o marquês olhava para Letty como se não
pudesse acreditar que ela fosse tão bonita, com seus olhos brilhantes e seus lábios
perfeitos.
Mais tarde, quando elas se retiraram com a marquesa-mãe para o salão, Alexia
disse:
— Permitiria, madame, que eu fosse até os dormitórios, para verificar se Peter está
dormindo?
— Naturalmente, querida — respondeu a marquesa. — Mas tenho certeza de que
sim. Ele estava muito excitado quando chegou.
— É exatamente por isso que tenho medo de que não tenha conseguido conciliar o
sono.
Ela ainda estava se sentindo um pouco embaraçada com o que acontecera quando
de sua chegada, juntamente com o sr. Dugdale.
Peter saltara o tempo todo na carruagem, em febril estado de excitação, por causa
dos cavalos.
Ele adorava cavalos. Na verdade, era uma paixão que herdara do pai, e, desde que
tinham vindo para Londres, não pensava em outra coisa.
A sra. Graham o tinha levado à Torre de Londres, onde podiam ser vistos tigres, e
leões, mas, embora tivesse falado nesses animais por vinte e quatro horas, acabava
voltando aos cavalos.
40
Não houvera sinais do marquês quando a carruagem chegara, e Alexia subira as
escadas pensando que, quanto mais cedo fossem para seus aposentos, melhor.
Ela e Letty dormiriam perto da suíte da marquesa-mãe, enquanto que a sra. Graham
e Peter ficariam mais acima, no antigo berçário.
A governanta mostrara a Letty seu quarto, e Alexia, descobrindo que o seu ficava
na porta ao lado, ia subindo para o berçário, quando ouvira a sra. Graham chamando por
Peter.
— O que aconteceu? — perguntara Alexia.
A sra. Graham mostrara a cabeça por entre a balaustrada.
— Peter está com você, Alexia?
— Não — respondera ela. — Pensei que estivesse aí em cima, consigo.
— Ele desapareceu, enquanto eu cuidava da bagagem — dissera a sra. Graham. —
Veja se consegue encontrá-lo!
— Eu o farei.
Alexia percorrera o corredor, achando que talvez Peter tivesse se dirigido ao
vestíbulo, a fim de dar uma última olhada aos cavalos que tinham puxado a carruagem.
Então, ao alcançar o topo das escadas, encontrara-se com o marquês, que vinha da
biblioteca, assim como seu irmão.
Peter estava parado ali, olhando para os cavalos pintados por Stubbs.
Alexia preparara-se para chamá-lo, quando o marquês, abaixo dela, dissera:
— Você deve ser Peter!
— Olhe para esses cavalos! — dissera Peter, sem nem mesmo voltar a cabeça em
direção ao marquês. — Olhe para eles! Quero cavalos como estes, mas reais, não na
parede!
— Talvez você os tenha um dia — observara o marquês.
Parecera a Alexia que Peter despregara com dificuldade os olhos dos
quadros e os fixara no homem com quem conversava.
— Os cavalos que nos trouxeram são seus?
— São — respondera o marquês.
— Eles são muito bonitos! — dissera Peter. — Mais bonitos que todos os que vi no
parque. Posso montar um deles?
Alexia prendera a respiração.
Deveria ter prevenido Peter a não pedir esse tipo de coisa. Deveria mantê-lo longe
do marquês, que, certamente, não gostava de crianças.
— Você sabe montar? — perguntara o marquês.
— Naturalmente que sim! E sei saltar também!
— Se nós formos ao campo, talvez possa lhe conseguir um pônei.
— Eu não quero um pônei — dissera Peter, firmemente. — Eu quero um cavalo
como esses!
Apontara para a pintura de Stubbs e dissera:
— Um cavalo grande, e esperto!
O marquês rira e colocara a mão na cabeça do menino.
— Tenho certeza de que se meterá em complicação se não for se encontrar com sua
irmã — dissera ele, e saíra, deixando Peter ainda olhando para as pinturas.
41
Temerosa de que ele pudesse ter causado um impressão má em seu anfitrião, Alexia
chamara-o:
— Peter, venha imediatamente!
Por ser normalmente um bom menino, Peter obedecera, e ao chegar junto à irmã,
esta dissera:
— Você deveria ter cumprimentado o marquês e lhe agradecido por estar nos
hospedando!
— Estava pensando nos cavalos — dissera Peter simplesmente. — Quantos cavalos
ele tem?
— Não tenho idéia — respondera Alexia. — E entenda, Peter, você tem que ficar lá
em cima, no berçário, junto com a sra. Graham, e não deve nunca vir a esta parte da casa
sozinho.
Mas percebera que Peter nem a estava ouvindo. Durante toda a noite só falara em
cavalos, e, agora, certamente, deveria estar pensando ou sonhando com eles.
Alexia subiu as escadas que levavam ao berçário, e, como esperava, ele ainda não
dormira.
Ele estendeu-lhe as mãos, e quando ela sentou-se a seu lado, Peter puxou-a para
junto de si.
Estava pensando, Alexia — disse ele —, se o marquês guarda os cavalos nos
estábulos, e se amanhã poderei dar uma olhada neles!
— Perguntarei ao sr. Dugdale se isso é possível — respondeu Alexia —, mas você
tem que me prometer, Peter, que não aborrecerá o marquês com essa história de cavalos.
Temos muita sorte de estarmos aqui e não deveremos perturbá-lo por nada!
— Ele disse que me conseguiria um pônei — disse Peter —, mas eu quero um
cavalo, um grande cavalo! Você sabe que posso montá-lo, Alexia!
Era verdade que Peter montava os cavalos de seu pai, mesmo porque não tinham
pôneis.
E, na verdade, ele começara a gostar desses animais, desde que começara a andar.
Como o coronel Minton achasse que tudo o que sentia passava para seu filho, desde
cedo encorajara Peter a montar. Primeiramente na parte da frente de sua própria sela, e
depois, em um cavalo que seguia o seu, onde o menino parecia absurdamente pequeno em
relação ao tamanho do animal.
No que dizia respeito a cavalos, Peter era completamente destemido. Caía e
montava novamente, tendo uma ligação tão grande com os animais que mesmo o velho
Joe, cavalariço de seu pai e um homem normalmente mal-humorado, permitia que ele
fizesse o que quisesse nos estábulos.
Mas Alexia achava que era muito diferente fazer o mesmo nos estábulos do
marquês.
Decidiu que seria melhor conversar com a sra. Graham pela manhã, avisando-a de
que era muito importante manter Peter sob sua vigilância.
Mas sabia que, agora, não adiantava nada fazer um sermão, pois Peter não a
ouviria. Assim, ao contrário, beijou-o afetuosamente, ouviu-o enquanto fazia suas preces, e
saiu, deixando a porta aberta, caso ele sentisse medo por estar em uma casa estranha.

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Já estava em meio à escada, quando o marquês, vindo da saia de jantar em direção
ao salão, viu-a.
Ao olhá-lo, Alexia sentiu-se envergonhada, levando instintivamente as mãos aos
cabelos, pois imaginava que Peter, ao abraçá-la, deveria tê-los desarranjado.
Ao alcançar o marquês, achou que ele deveria estar esperando por uma explicação
de por que ela não se encontrava com a marquesa.
— Fui dizer boa noite a Peter — disse ela. — Sinto muito por ele não ter sido muito
polido quando o encontrou hoje, mas Peter não consegue pensar em outra coisa a não ser
em cavalos.
— Adivinhei isso! — respondeu o marquês.
Ele falava com um tom seco, e como ela não conseguisse pensar em mais nada para
dizer, seguiu à frente dele até o salão.
Não ficaram muito por lá, pois a marquesa-mãe afirmou sentir-se um pouco
cansada, e que haveria muito o que fazer no dia seguinte.
— Boa noite, querido Chilton — disse ela. — E obrigada por ter sido tão gentil
comigo. Não consigo lhe dizer como me sinto feliz em estar aqui e poder ser útil às nossas
queridas primas.
— É maravilhoso pensar que somos realmente parentes — afirmou Letty. — Na
verdade, para que todo mundo soubesse disso, gostaria de trazer uma placa no pescoço,
dizendo: "Eu sou prima do marquês de Osminton".
O marquês riu.
Talvez você acabe descobrindo que isso é mais desvantajoso do que uma sorte!
— Agora o senhor está sendo modesto — brincou Letty. — Mas muito obrigada por
ser o primo mais maravilhoso, gentil e generoso que se pode ter!
Ao falar, ela reverenciou, e o marquês agradeceu, com os olhos brilhantes.
Observando-os, Alexia desejou poder se expressar assim tão eloqüentemente, para
mostrar como estava se sentindo.
Mas, ao contrário, apenas fez a sua reverência e olhou para o marquês, não
conseguindo encontrar qualquer palavra.
— Espero que não esteja mais preocupada, Alexia — disse ele, c ela achou que havia
um certo cinismo estampado em seus lábios.
— Não há nada que possa dizer. . . exceto muito obrigada! — respondeu ela, em voz
baixa.
Fez outra reverência e saiu atrás de Letty.
Elas ajudaram a marquesa-mãe a subir as escadas e a acompanharam até seus
aposentos. Então, a marquesa beijou-as, desejando-lhes boa noite, e disse:
Amanhã realmente começaremos a nos divertir. Não há nada mais divertido do que
ser extravagante!
Sorriu para ambas, que saíram a seguir.
Quando Letty alcançou seu quarto, com Alexia, jogou-se na cama, a despeito do mal
que isso poderia fazer ao seu vestido.
— Pense que teremos roupas novas — exclamou ela. — Pense no baile nesta casa
enorme e nas pessoas realmente excitantes que conheceremos!
— O marquês, na verdade, não deseja dar um baile — disse Alexia, em voz baixa.
43
— Mas sua mãe o quer — respondeu Letty.
— Não quero que ele sinta que somos gananciosas e. . . cobiçosas! — afirmou
Alexia, como se falasse para si mesma.
— Nós não somos! — disse Letty, positivamente. — E nada pode ser mais odioso do
que as pessoas não apanharem o que lhes é oferecido.
—Como os criados que recusam uma gorjeta, simplesmente porque se acham
superiores demais para aceitá-la.
— Quando isso aconteceu com você? — perguntou Alexia, deixando de lado os
pensamentos sobre o marquês.
— Ah, num lugar onde a Sra., Featherstone me levou — respondeu Letty
casualmente. — Era um lugar de mau gosto, onde as pessoas bebiam café e drinques. As
mulheres que nos serviam não pareciam garçonetes comuns e tinham as faces pintadas. A
sra. Featherstone disse que eu deveria pagar a conta. Como você sabe, ela nunca tinha
dinheiro consigo. Quando paguei, a garçonete recusou desdenhosamente a gorjeta.
Alexia nada disse e, após um momento, Letty continuou:
— A sra. Featherstone estava furiosa. Creio que pensava encontrar lá um cavalheiro,
e isso não aconteceu.
Alexia suspirou.
Pela descrição de Letty, tinha certeza de que aquele lugar não era o tipo adequado
para uma debutante. Mas agora tudo isso tinha acabado, graças ao marquês e à sua mãe, e
ela não precisaria se preocupar mais com sua irmã.
Mais tarde, já pronta para se deitar, Alexia ajoelhou-se ao lado de sua cama e
agradeceu a Deus, com aquelas palavras que não tinha conseguido dizer ao marquês.
Enquanto rezava, achou que a ajuda viera por intermédio de seus pais,
especialmente de sua mãe.
— A senhora sempre quis, mamãe, que vivêssemos numa casa como esta — disse
Alexia, tendo certeza de que sua mãe a ouvia. — E agora, eu e Letty teremos a
oportunidade de conhecermos as pessoas certas.
Fez uma pausa, antes de completar:
— E, por favor, mamãe, ajude-nos a que não cometamos qualquer engano ou
enfureçamos o marquês. Eu sei que ele não nos quer aqui, e a senhora teria desaprovado
que forçássemos a situação. Mas é tudo tão maravilhoso para Letty!
Esperou, quase achando que iria ouvir sua mãe dizendo que tinha feito a coisa
certa. Então, em meio à escuridão, uma morna sensação de felicidade a envolveu.
Alexia deitou-se.
Passou-se muito tempo antes que conseguisse dormir.
Os outros três dias foram gastos em compras.
Alexia nunca imaginara como poderia ser emocionante provar vestidos novos,
escolher chapéus atraentes, sapatos, luvas, bolsas e sombrinhas.
Havia também elegantes roupas íntimas, tão finas e transparentes, que Alexia quase
que corava ao usá-las.
Ela tentara persuadir a marquesa-mãe a se concentrar totalmente em Letty, pois já
tinha planejado que, posteriormente, adaptaria alguns dos vestidos comprados para a
irmã para si.
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Mas a marquesa-mãe fora muito firme.
— Estou apresentando ambas ao mundo social — disse ela —, e pretendo me sentir
muito orgulhosa, Alexia, não só de sua irmã, como de você também.
— Ninguém me notará ao seu lado e ao lado de Letty, madame!
A marquesa-mãe dirigiu-lhe um de seus sorrisos doces.
— Você está cometendo um erro tolo, minha querida, em comparar pessoas,
glorificando uma em detrimento da outra. Cada uma é diferente, cada uma foi criada
segundo uma imagem que lhe é particularmente própria.
Ela viu que Alexia a ouvia atentamente, e continuou:
— Se você me perguntasse qual flor é a mais bonita: uma rosa, uma orquídea ou um
lírio, eu seria incapaz de responder. O mesmo acontece com relação às pessoas. Você,
Alexia, é tão bonita à sua maneira quanto Letty na dela.
— Nunca pensei em mim ... em termos de beleza — protestou Alexia —, mas meus
olhos são como os de mamãe.
— Lembro-me das pessoas dizendo-me que ela era muito bonita — falou,
calmamente, a marquesa-mãe.
Alexia deu uma olhada para sua aparência. Naquela noite, vestia um dos vestidos
comprados pela marquesa-mãe especialmente para ela.
Era da última moda e Alexia achou que talvez até estivesse bonita e que, assim, não
envergonharia o marquês.
Ela tinha certeza de que ele notara a simplicidade de seu vestido na noite anterior e,
agora, entendia o que ele tinha pensado. O vestido que usava nesta noite, no entanto,
revelava-lhe a perfeição do corpo e parecia uma moldura para sua pele branca.
Letty parecia absolutamente radiante, e seus cabelos, penteados segundo a moda,
pareciam conter o sol que estivera brilhando por todo o dia.
Não foi surpresa quando, após terem jantado, a marquesa-mãe disse- -lhes:
— Agora, vou levá-las a uma pequena recepção em Richmond House. A duquesa
está ansiosa para conhecê-las e seria bom para vocês fazerem alguns amigos antes de
aparecerem nos grandes bailes, que acontecerão na semana que vem.
Elas tinham jantado a sós, pois o marquês estava em Carlton House.
Alexia não podia deixar de querer que ele visse Letty assim tão linda, e soube,
então, que a marquesa sugerira que ele se juntasse a elas mais tarde.
Richmond House era quase tão grande quanto a mansão do marquês, embora as
pinturas não fossem tão excepcionais.
A festa era para cerca de cinqüenta pessoas e Alexia viu, com orgulho, que Letty
causou sensação ao entrar no salão.
Não apenas os cavalheiros cercaram-na, mas as próprias mulheres passaram a
comentar sobre ela, em tons de estupefação, enquanto a marquesa-mãe era saudada
efusivamente por muitas de suas velhas amigas.
— É maravilhoso vê-la! — diziam elas, repetidamente. — Pensei que nunca mais
viria a Londres!
— Se eu não puder ficar até tarde nos bailes, poderei confiar em uma de vocês para
que cuide destas duas garotas. E, por estar querendo passar a noite na cama, ficaria

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desapontada se não encontrasse uma amiga que pudesse me substituir — disse a
marquesa-mãe.
Houve um coro de oferecimentos para ajudá-la e Alexia percebeu que aquela tensão
e ansiedade que sentia em relação a Letty estavam desaparecendo.
Agora, tudo correria bem. Agora, tudo seria exatamente como ela queria que fosse!
Havia muitos senhores idosos, aos quais a marquesa-mãe a apresentou, e eles lhe
contaram coisas a respeito de política, que Alexia achou muito interessantes.
Na verdade, estava conversando com um membro do Parlamento, chamado
William Wilberforce. que lutava pela reforma, quando viu que o marquês havia chegado.
Seu coração bateu mais forte à sua visão, e ela ligou isso ao fato de parecer mais alto
e mais imponente que todos os outros cavalheiros.
Tendo beijado a mão de sua anfitriã, o marquês veio até o lado de sua mãe e esta
sorriu-lhe, obviamente feliz por ele ter cumprido sua promessa.
A senhora não está muito cansada, mamãe? — perguntou.
— Para lhe dizer a verdade, Chilton, sinto-me como se estivesse flutuando nas
nuvens! Talvez seja o champanhe, ou talvez seja o encanto de estar entre velhos amigos,
que me receberam tão calorosamente. . .
— Eu lhe disse que não deveria ficar tanto tempo no campo! — comentou o
marquês.
— E você está certo, querido, como sempre. Diga-me, o que acha de suas primas?
O marquês olhou para onde Letty recebia uma efusão de cumprimentos de vários
cavalheiros que ele sabia serem sofisticados demais para conversarem com qualquer
garota.
Os olhos dele brilharam quando olharam em direção a Alexia
Por achar que seria rude observá-lo, Alexia fixou seus olhos no rosto do sr.
Wilberforce, que, no momento, lhe explicava a sua campanha por um projeto que
proibisse o emprego de meninos na limpeza de chaminés.
A expressão de Alexia era séria e, por seus olhos notava-se que nutria forte simpatia
pelas idéias do sr. Wilberforce.
O marquês olhou-a por alguns segundos. Então, disse:
— Creio, mamãe, que é hora de a senhora ir para casa.
— Levarei algum tempo até dizer boa noite a todos os meus amigos — respondeu a
marquesa-mãe —, mas começarei a fazer isso imediatamente.
Cerca de vinte minutos após, eles finalmente começaram a descer as escadas, com
as coisas encantadoras que a anfitriã e os outros convidados lhes haviam dito ainda
ecoando em seus ouvidos.
— Eles ficaram realmente felizes em me ver — disse, com alegria, a marquesa-mãe.
— Isso não é surpreendente — replicou o marquês.
— E vocês, minhas queridas — disse ela a Alexia e Letty —, provocaram a sensação
que eu queria.
— Senti-me como uma borboleta acabada de sair de sua crisálida — disse Letty. —
Não sabia que tinha asas tão bonitas!
A marquesa-mãe riu.
— E você, Alexia? O que achou?
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— Achei o sr. Wilberforce extremamente interessante — respondeu Alexia. —
Espero que todos apóiem sua idéia de proibir o emprego de meninos limpadores de
chaminés!
Ao falar, olhou ansiosamente para o marquês, achando que se ele dissesse que não
o iria fazer, aconteceria uma explosão.
— Já lhe prometi meu apoio — disse ele, notando que os olhos de Alexia brilhavam
de prazer.
— Ele também é contra a escravidão — murmurou ela.
— Você leva tudo muito a sério — remarcou o marquês, quando alcançaram o
vestíbulo e enquanto sua mãe era ajudada a vestir sua grande capa enfeitada de peles.
— Muito seriamente? — perguntou Alexia.
— Você está aqui para se divertir, não para se preocupar com o sofrimento humano
ou com qualquer outra coisa.
— Mas isto é tão importante! — respondeu Alexia. — E não acha que essas
crueldades e injustiças dizem respeito a todo mundo?
O marquês não respondeu.
Estava pensando em há quanto tempo não ouvia uma mulher de suas relações
prestar a mínima atenção àquelas cruzadas empreendidas por homens que eram
verdadeiramente uns apóstolos.

CAPÍTULO IV

O marques, conduzindo seus soberbos cavalos que puxavam seu faetonte em


direção a Chelsea, decidiu que seria a última vez que teria um caso de amor com uma
dama do mundo social.
Desde que prometera a sua mãe que nada mais teria com Imogen Harlow, esta
passara a bombardeá-lo com cartas, a princípio exigindo que fosse vê-la; depois,
suplicando, e, finalmente, tornando-se abusiva.
Ele começou a pensar que talvez sua mãe estivesse certa, ao imaginar que, de
alguma forma, e por algum meio torpe, Imogen havia mesmo planejado levá-lo ao
casamento.
Mas o comportamento dela, desde que ele decretara o fim da relação, fora tão
desagradável, que provocara nele uma repulsa por qualquer outro romance daquele tipo.
No futuro, jurou para si mesmo, ficarei com as mundanas. Elas não dão trabalho.
Mantêm-se em seus lugares e não têm ambições, a não ser por dinheiro.
Não havia nada de mais que um homem conhecido como esportista e, nos termos
georgianos, "um cavalheiro completo", tivesse uma amante.
Renée Duval era uma delas, e saíra de uma atraente casa localizada na Royal
Avenue, Chelsea, perto do hospital fundado por Nell Gwynne.

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Renée tinha aparecido no Lyceum Theatre, o qual tinha sido encampado pela Royal
Drury Lane Company, após seu famoso teatro ter sido destruído, em 1809.
Fora em um incêndio que iluminara toda Londres, e que arruinara o proprietário do
teatro, Richard Brinsley Sheridan.
Mas este recomeçara sua vida novamente, com a ajuda de Samuel Whitbread, um
cervejeiro e membro do Parlamento.
Esperava-se que a Drury Lane reabrisse suas portas no ano próximo e, nesse meio
tempo, a maioria do elenco original dava grandes representações no Lyceum.
O marquês notara Renée quando vira pela primeira vez A garota do Campo, uma
peça que fora, originariamente, representada pela sra. Jordan, amante do duque de
Clarence. Com sua maneira imperiosa, o marquês conseguira deixar de lado todos os seus
concorrentes, e conquistara Renée.
Na aparência, era o oposto de Imogen Harlow. Morena, com olhos oblíquas, não era
propriamente bonita, mas possuía aquele encanto que, nas francesas é mais importante
que a beleza em si. Era cheia de joie de vivre e usava seu charme para cativar e seduzir seu
protetor.
No entanto, fazia já algumas semanas que o marquês não aparecia no número 6 da
Royal Avenue.
Antes de sua mãe chegar, já estava muito ocupado, e, desde então, com o príncipe
regente, com a mãe e com as primas debutantes, praticamente não tinha um momento
para si.
Mas naquela noite, ele sabia, Renée não apareceria no palco, pois outra peça, na
qual tinha o papel principal, seria estreada no dia seguinte.
Ela vai descansar, pensou o marquês, com um sorriso. Se eu permitir que o faça!
Mas seus pensamentos passaram dessa antecipação ao que o esperava para a
sensação que Letty provocara naquela noite.
Na verdade, tinha sido o baile mais importante da temporada, oferecido pela
duquesa de Melchester para sua própria filha debutante, e onde tinham estado todas as
pessoas importantes do beau monde, a começar pelo príncipe regente.
A marquesa-mãe, com a sabedoria de um diretor de teatro profissional, prolongara
o jantar que estava oferecendo em Osminton House, para que não chegassem cedo demais
ao baile.
Na verdade, esperou até que todas as senhoras já estivessem sentadas no tablado,
de onde ficariam observando os pares que dançavam.
Ao mesmo tempo, a maioria dos cavalheiros ainda não tinha feito esforço algum
para requisitar as contradanças. Estariam conversando uns com os outros, enquanto
observavam as mulheres, como se estas fossem cavalos colocados à venda.
A marquesa sabia que aquela seria uma noite, em que as mulheres estariam usando
seus melhores vestidos e as jóias mais resplandecentes. Os cavalheiros estariam também
extremamente elegantes, já que o príncipe regente estaria presente, e ela sabia também que
ninguém parecia mais imponente que o marquês.
A marquesa-mãe, assim, surgira vestindo uma tiara de diamantes, que quase era
uma coroa, e que estava na família Osminton há um século.

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Usava também um colar de diamantes, que quase cegava de tanto brilho, além de
braceletes, anéis e brincos com as mesmas pedras azuis e brancas que completavam a
coleção.
Sabia que seria notada mesmo em meio a uma multidão, como o fora em toda a sua
vida, e estava determinada a que as duas garotas que acompanhava recebessem a mesma
atenção.
Letty, como se esperava, usava branco.
A gaze com a qual o vestido fora confeccionado era decorada com tosas brancas,
cada pétala brilhando com uma gota de orvalho bordada dc diamantes.
Rosas circundavam a gola do vestido, e ela trazia uma grinalda em seus cabelos
loiros, com pulseiras combinando, usadas sob suas luvas curtas.
O efeito era, segundo Alexia, de deixar sem respiração. Ela sabia que Letty brilharia
com sua beleza, mesmo em um baile de cabeças coroadas.
Alexia não tinha em mente chamar a atenção, como sua irmã, mas a marquesa-mãe
também escolhera cuidadosamente o seu vestido.
Era de gaze prateada e fazia com que parecesse estar vestida com a luz do luar.
A volta do pescoço, usava uma gargantilha muito simples de turquesas, já que a
marquesa fora muito inteligente em perceber que eram as pedras que acentuavam a beleza
espiritual de Alexia, dando proeminência aos seus grandes olhos acinzentados.
Ao invés de uma grinalda, trazia dois broches de turquesas e diamantes presos em
seus cabelos macios e loiros.
Quando Alexia se olhara no espelho, desejara, acima de qualquer coisa, que sua
mãe pudesse vê-la. Então, dissera a si mesma que, sem dúvida, ela o estava fazendo e
dando sua aprovação.
É assim que a senhora gostaria que eu e Letty parecêssemos, não é?, perguntara
intimamente. Como poderemos ser gratas o suficiente à bondade do marquês e de sua
mãe?
Enquanto as mulheres idosas cumprimentavam a marquesa pela aparência das
jovens, o marquês era bombardeado pelos cavalheiros, que suplicavam que lhes
apresentassem.
Ele pensava furiosamente que era certamente uma situação nova para ele, ter que
apresentar a pretendentes, mulheres que, ostensivamente, lhe pertenciam.
No entanto, tivera dificuldade em permanecer cínico e distante quando o príncipe
regente lhe dissera:
— Não consigo entender, Chilton, por que você sempre tem o melhor! Não imaginei
que gostasse de jovens garotos, embora tenha apresentado dois exemplos que ganham de
todas as outras mulheres reunidas aqui neste baile!
— Como me diverti! — dissera a marquesa-mãe, quando voltavam para casa.
— Foi maravilhoso! Maravilhoso! — exclamara Letty. — Nunca imaginei que
pudesse me acontecer algo tão maravilhoso, ou que tivesse tantos partners, quase tendo
que me dividir em duas!
— Você foi o sucesso que eu esperava — dissera a marquesa simplesmente.
Ela sorrira para Letty e, então, colocara a mão sobre a de Alexia, que estava sentada
ao lado dela.
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— E você foi um sucesso também, minha querida — dissera suavemente. — Muitos
cavalheiros me disseram que não só a acharam muito bonita, como também muito
inteligente.
Alexia havia ficado enrubescida e dissera:
— Foi uma festa maravilhosa. . . Algo de que me lembrarei para o resto da vida!
O marques as conduzira à Osminton House.
— Você não vai entrar? — perguntara-lhe a mãe, quando ele se despedira junto à
porta.
— Não, mamãe, cumpri minha tarefa e agora creio que posso ter um tempo para
mim!
— Certamente! E somos gratas por ter cuidado tão bem de nós!
— Sem dúvida! — dissera Letty entusiasticamente. — Todo mundo ficou
terrivelmente impressionado pelo fato de sermos suas primas e por estarmos hospedadas
em Osminton House.
O marquês rira, mas Alexia, assim que ouvira a carruagem se afastar, pusera-se a
imaginar aonde ele estaria indo.
As histórias contadas pela sra. Featherstone a respeito das muitas mulheres que ele
possuía vieram-lhe à mente, e ela ficara imaginando se seriam mais bonitas que Letty,
ainda que, sem dúvida alguma, mais divertidas...
Qualquer uma que ele amasse teria que ser muito. . . muito excepcional dissera a si
mesma, tentando entender por que essa idéia lhe era mais deprimente...
O marquês estacionou seus cavalos junto ao número 6 da Royal Avenue e entregou
as rédeas ao criado.
— Siga com os cavalos, Jason — disse ele. — Creio que não ficarei aqui mais que
uma hora.
Então ele se lembrou de que não tinha se anunciado, e completou: Espere até me ver
entrar. A senhora a quem procuro pode não estar em casa.
Ocorreu-lhe pela primeira vez que estava sendo muito otimista, achando que sua
amante o estaria esperando, após passar um mês sem vir vê-la
Então, disse a si mesmo que, já que era ele quem pagava todas as despesas da casa,
dando-lhe numerosos presentes, ela não estaria em posição de reclamar.
Bateu fortemente à porta, mas demorou alguns minutos até que esta fosse aberta
por uma criada, que era também empregada sua.
— Mademoiselle está em casa? — perguntou ele.
— Sim, milorde, mas ela não me disse que esperava o senhor!
— Ela não sabe da minha vinda — respondeu o marquês.
Estendeu à criada seu chapéu e, ao fazê-lo, ela disse:
— Mademoiselle esteve lavando os cabelos, mas o senhor poderá encontrá-la na sala
de estar, milorde.
O marquês subiu as escadas sem pressa e abriu a porta da sala.
Renée jazia em um divã, com uma feição muito atraente, vestindo um négligée
transparente. Havia uma caixa de chocolates ao seu lado.
Ela desviou o olhar do script que lia, olhou para o marquês e soltou uma exclamação
de alegria.
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— Chilton! Acho que você me esqueceu!
Ela ia se levantar, mas o marquês atravessou a sala antes que ela o fizesse e sentou-
se a seu lado, no divã.
— Você parece muito atraente — disse ele, puxando-lhe o négligée dos ombros —, e
assim, certamente, ganhamos tempo.
— Estou brava com você! — afirmou Renée, em seu fascinante sotaque francês. —
Esqueceu-me por muito tempo, e não o perdoarei por isso.
— Perdoará, sim — disse o marquês —, porque trouxe-lhe um presente.
— Um presente?
Os olhos dela, que até então tinham um ar de reprovação, acenderam-se e ela
estendeu-lhe as mãos.
O marquês tirou do bolso o bracelete que comprara para Imogen Harlow e não
dera.
Era muito caro e parecia uma pena entregar-lhe.
Colocou a caixa de couro nas mãos de Renée. Ela abriu-a e soltou uma exclamação
que era uma mistura de espanto e prazer.
— Você é muito. . . muito gentil, Chilton! — disse ela. — Alors, eu o perdoarei por
ter me deixado três triste!
O marquês apanhou o bracelete da caixa e colocou-o à volta do pulso dela.
— É lindíssimo! — exclamou Renée.
— E agora você precisa pagar por isso — respondeu o marquês, puxando-a para
junto de si.
Voltando para casa, não uma hora depois, como pretendia, mas após o relógio do
hospital de Chelsea ter dado a meia-noite, o marquês achou que estivera certo.
No futuro, não teria mais nada com mulheres casadas, cujos maridos, complacentes
ou não, sempre constituíam um perigo.
Estava cansado, também, de ter que entrar nas casas com cuidado, após os criados
terem se retirado, e ter que sair delas furtivamente, para não ser notado por nenhuma
pessoa conhecida.
Já não agüentava mais se envolver com mulheres que, à época da separação, se
desmanchavam em lágrimas e reprovações.
Segundo ele, Renée era muito satisfatória no papel que desejava que representeasse.
Não havia dúvida de que sua conversa era um tanto limitada mas,ele não fazia muita
questão deste predicado.
Naquela noite, por fazer um bom tempo que não ficava com ela, a. abou aceitando
suas súplicas e ficou para jantar, tendo saboreado ótimos pratos franceses.
Acompanhando-os, bebeu alguns excelentes vinhos, retirados de sua própria adega
e servidos na temperatura correta.
Uma das coisas boas das mulheres francesas, pensara, é que sabem muito a respeito
de comida quanto de amor.
Tinham jantado tarde e Renée lhe agradecera profusamente pelo presente,
aguçando outra vez sua vista, com seus longos cabelos negros - caindo sobre os ombros
nus.
—Voltará logo, milorde? — perguntara ela, quando o marquês saía.
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—Você certamente estará muito ocupada nos próximos dias com sua nova peça
respondeu o marquês.
—Minhas tardes serão livres — respondera ela. — Não aceitarei os inúmeros
convites para cear, se você quiser.
—Eu lhe comunicarei quando estiver livre — prometera o marquês.
Então, saíra para o morno ar da noite, sentindo-se satisfeito e em paz com o mundo.
Voltando para Park Lane, no entanto, seus pensamentos não se dirigiam a Renée,
como era de se esperar.
Ao contrário, ficou pensando se deveria adquirir dois cavalos que vira pela manhã,
e que tinham sido colocados à venda porque seu proprietário precisava urgentemente de
dinheiro.
O conhecimento do marquês a respeito de cavalos era famoso, e ele estava
determinado não só a vencer a copa de Ascot na semana seguinte como muitas outras
corridas do mesmo campeonato.
Estava gastando não apenas muito dinheiro, mas muito tempo, criando ótimos
cavalos e treinando-os com homens considerados os melhores treinadores do país.
Ao mesmo tempo, era o primeiro a admitir que sempre havia possibilidades de
melhora, e esses dois cavalos poderiam ser um bom investimento. Ele queria, em breve,
tornar-se o campeão do Grande Nacional.
Enquanto estacionava defronte à sua própria casa, pensava, com um sorriso nos
lábios, que triunfo isso seria.
— Obrigado, Jason — disse ao seu criado, enquanto desapeava e entrava no
vestíbulo.
Para sua surpresa, encontrou um grande número de pessoas reunidas ali.
No centro delas, estava Alexia, e conversando com ela, o contador, usando um robe
de chambre sobre seu traje de dormir. Obviamente, ele fora acordado após ter ido para a
cama.
Havia uma mulher mais idosa vestindo uma camisola de flanela, que ele imaginou
ser a sra. Graham, e muitos criados, além dos dois guardas-noturnos.
Um dos criados correu a apanhar a cartola do marquês e todo mundo se virou,
quando ele perguntou:
— O que aconteceu? Por que estão todos aqui?
Dirigira-se a Alexia, notando, pela expressão dela, que algo de grave acontecera.
— Peter esta desaparecido — respondeu a moça.
Então, com medo de que essa informação pudesse contrariar o marquês, ela
completou:,
— Desculpe-me, não imaginei que isso pudesse ocorrer. . . mas ele não está em seu
quarto, e procuramos em todos os lugares da casa... mas não conseguimos encontrá-lo.
— Minha mãe sabe disso? — perguntou o marquês.
— Não, não! É claro que não! Nós não a perturbamos — respondeu Alexia,
rapidamente. — Voltamos do baile, e somente depois que a marquesa e Letty tinham se
recolhido, foi que a sra. Graham me contou que Peter não estava em seu quarto.

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— Não sei o que me fez ir ao quarto dele, milorde — interpôs a sra. Graham —, mas
acordei sentindo-me angustiada e levantei-me para ir ver se tudo ia bem, mas Peter não
estava em sua cama.
— Um criado foi me buscar — completou o sr. Dugdale —, e nós procuramos pela
casa toda, mas não há sinal dele. Não consigo imaginar o que possa ter acontecido.
— Desculpe-me aborrecê-lo — disse Alexia —, mas precisamos encontrá-lo. . . e não
consigo pensar por que ele poderia ter se escondido!
Havia desespero em sua voz e o marquês respondeu com uma calma quase que
exagerada:
—Tenho certeza de que ele não deve ter ido longe, e não posso crer que tenha sido
raptado desta casa.
—Ninguém passou por esta porta, milorde — exclamou um dos criados.
— E ele não poderia passar pela porta da cozinha sem que nós o — exclamou um
dos guardas-noturnos.
O marquês pensou por um momento: Isso significa que a única maneira pela qual
Peter poderia ter saído da casa é através das janelas que dão para o jardim.
Como se soubesse o que ele estava pensando, Alexia disse rapidamente:
Os criados procuraram pelo jardim. Pensei que talvez ele tivesse ido alimentar os
peixinhos dourados. Ele os alimenta todas as manhãs.
O marquês notou que todos no vestíbulo o olhavam, esperando que ele encontrasse
uma solução para o problema.
Viu que nos olhos de Alexia, e nos de outros, havia uma expressão de confiança,
como em seus cães spaniels, que ficavam sempre aos seus ele, quando ele se encontrava no
campo.
—Alguém pensou nos estábulos? — disse ele, finalmente.
—Naturalmente! — exclamou Alexia. — Ele deve ter ido para lá. Por que não
pensamos nisso?
— Eu e você iremos para lá imediatamente — disse o marquês.
Virou-se para o contador.
—Isso lhe dará tempo para se vestir, Dugdale, caso tenhamos que sair. Ordene,
também, sopa ou algo quente para o menino tomar, quando for trazido de volta.
O marquês nem esperou por uma resposta, atravessando o vestíbulo em direção à
biblioteca. Alexia seguiu-o.
As cortinas estavam fechadas e o marquês puxou uma delas, desnudando as amplas
janelas francesas que davam para o jardim.
— Peter obviamente não saiu da casa por este caminho — disse ele —, mas há
muitas outras janelas que ele poderia ter aberto.
— Esqueci-me de que o caminho mais fácil para os estábulos era através do jardim
— disse Alexia.
— Vivi aqui muito mais tempo do que você — respondeu o marquês — e creio que,
pelo conhecimento que tive de Peter, seu maior interesse são os cavalos.
— É uma obsessão! — exclamou Alexia. — Acho que ele fica todos os dias lá nos
estábulos até que a sra. Graham vá buscá-lo.

53
Enquanto seguia com o marquês através da grama macia, sentia que, se algo tivesse
acontecido com Peter, a culpa seria sua.
Estivera tão ocupada com Letty, fazendo compras com ela, e, junto com a
marquesa-mãe, freqüentando recepções, festas, acontecimentos musicais, além de passear
no parque, que achava agora que seu irmãozinho fora negligenciado.
A sra. Graham já está velha demais para ele, pensou ela. Na verdade, ele precisa de
um tutor.
Então, lembrou-se, cheia de culpa, que ela mesma poderia ter-lhe dado algumas
lições em casa.
— Está se culpando? — perguntou o marquês, com um tom seco na voz, que
sempre fazia com que ela sentisse necessidade de pedir desculpas.
— Como. . . percebeu? — perguntou ela.
— Seria sua reação natural — replicou ele. — Você tenta carregar todos os pesos do
mundo às costas, Alexia, e asseguro-lhe que isso é desnecessário.
— Mas, se não cuido pessoalmente de Peter. . . veja o que acontece! — respondeu
Alexia. — Foi errado de minha parte não ter gasto mais tempo com ele. . . e foi muito
egoísmo, também!
— Creio que, como muitas mulheres, você gosta de se sentir indispensável —
remarcou o marquês, e Alexia percebeu que isso não era um elogio.
Quis responder que era indispensável a Peter, simplesmente porque não tinham
condições de manter um tutor, coisa que era indispensável a qualquer criança daquela
idade. A sra. Graham era velha demais e muito lenta para ele.
Mas seria impossível pedir que o marquês fizesse mais esse favor, e, além disso, ela
não tinha intenção de pedir tal coisa.
Alcançaram o fim do jardim, passando através de grandes canteiros de
rododentros, até o muro aonde havia uma porta.
O marquês abriu-a e Alexia viu que estavam defronte aos estábulos, com
cavalariças que seguiam paralelas a Park Lane.
Os cavalos do faetonte que o marquês utilizara em sua ida a Chelsea estavam sendo
retirados dos arreios, e quando eles apareceram, um cavalam,o idoso veio de uma das
portas do estábulo.
—Boa noite, milorde — disse ele. — Há algo errado?
—Sam, você conhece master Peter, o jovenzinho que está hospedado i11111 cm casa?
— perguntou o marquês. — Ele aparentemente desapareceu de seu quarto, e pensei que
talvez pudesse ter vindo para cá.
—Eu não o vi, milorde, não desde esta manhã — respondeu Sam.
—Ele é louco por cavalos, e quase tive uma briga com ele, por causa de Belladonna.
—O que foi? — perguntou o marquês.
— Bem, sir, master Peter naturalmente queria ver o animal. Ele tinha chegado do
salão de vendas há apenas dois dias, mas não é um animal seguro. Aliás, eu queria
conversar com o senhor sobre isso!
—Não é seguro? — perguntou o marquês.
—Os cavalariços têm medo de chegar perto dele, milorde. Espero que ele se acalme
daqui a uns dois dias, mas, por enquanto, está com um temperamento péssimo!
54
Fez uma pausa, antes de dizer afirmativamente:
—Não tenho deixado ninguém entrar no estábulo, e muito menos master Peter, por
mais corajoso que ele possa ser!
—Você está certo — disse o marquês —, mas, e se começássemos a procurar por
algum lugar?
—Naturalmente, milorde! — disse Sam, rapidamente, começando a abrir a parte
mais alta das portas dos estábulos.
Os cavalos já tinham sido recolhidos. Muitos deles estavam quietos e viravam a
cabeça quase que com ressentimento, à medida que a lanterna que Sam trazia iluminava a
escuridão.
Seguiram de uma extremidade a outra, mas não havia nem sinal de Peter. Quando
eles se aproximaram da última estrebaria, Sam disse:
— Desculpe, sir, mas acho que não tivemos sorte!
Havia só mais uma estrebaria e, ao ver que Alexia se dirigia para ela, Sam disse
rapidamente:
— Foi aí que coloquei Belladonna, senhorita. Ela está calma agora, mas provocou
um grande rebuliço hoje; acho melhor não perturbá-la!
— Creio que. . . — começou o marquês a dizer, quando Alexia soltou um grito.
— A porta. . . não está trancada!
Sam soltou uma exclamação de espanto e dirigiu-se a ela, com a lanterna.
Era verdade: a parte mais baixa da porta, normalmente presa por uma tranca de
ferro, estava aberta.
Rapidamente, com dedos ansiosos, o velho cavalariço alcançou o topo da porta e
iluminou o interior da estrebaria.
A égua estava adormecida e, ao lado dela, a um canto da estrebaria, havia um
pequeno corpo deitado.
Alexia sentiu como se tudo dançasse à sua frente.
Podia entender o que tinha acontecido: Peter entrara no estábulo e fora
selvagemente escoiceado pelo animal!
Agora, estava ferido e, talvez, morto!
Instintivamente, estendeu a mão para segurar a do marquês, sentindo os dedos dele
junto aos seus.
Não conseguia dizer nada; nem mesmo pensar.
— Quer que eu vá buscá-lo, milorde? — perguntou Sam, em voz baixa.
Quando ele falou, Belladonna virou a cabeça, e levantou as orelhas. Além disso,
retrocedeu os lábios de seus dentes.
O marquês não respondeu. Olhava intensamente para Peter, que jazia no canto da
estrebaria. Então, disse suavemente:
— Chame-o, Alexia, não muito alto; apenas o suficiente para acordá-lo!
Por um segundo, Alexia olhou para ele, espantada. Depois, obediente mente, com
uma voz sussurrante, chamou:
— Peter! Peter!
Achou que ele estava morto e que isso não adiantaria nada. Então, Peter moveu-se,
abriu os olhos e bocejou.
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— Peter! — disse ela, novamente.
— Acho que. . . adormeci! — disse ele, sonolentamente.
Sentou-se lentamente e, sem pressa, levantou-se.
Enquanto as três pessoas observavam-no quase que sem respirar, ele caminhou em
direção ao animal e enrolou seus braços à volta do pescoço de Belladonna.
— Boa noite, Belladonna — disse ele. — Voltarei e conversarei com você amanhã.
Pousou sua cabeça ao encontro da do animal e depois, bocejando mais uma vez,
caminhou em direção à porta.
Sam abriu-a para ele, murmurando, ao fazê-lo:
—Nunca vi algo assim, em toda a minha vida!
Alexia ajoelhou-se, segurando Peter de encontro a si!
Oh!, querido, você nos deu um susto! Como pôde fazer essa travessura? perguntou
ela. — Como pôde ficar aqui, no meio da noite?
—Belladonna estava infeliz — respondeu Peter. — Eu a ouvi quando no jardim,
antes de ir para a cama, mas a sra. Graham não me deixou vir aqui.
Bocejou novamente, antes de dizer:
— Eu sabia que ela me queria, e, depois que conversei com ela, não ficou mais
infeliz!
Foi impossível para Alexia responder, porque as lágrimas corriam por suas faces.
Apenas conseguia mantê-lo junto a si, com seus lábios encostados aos cabelos dele.
— Belladonna irá dormir agora — disse Peter a Sam.
O cavalariço não conseguiu responder, e, enquanto Alexia levanta-se, ligeiramente
cambaleante, Peter disse:
—Estou cansado. Carregue-me, Alexia, estou cansado demais para caminhar!
—Eu o carregarei — disse o marquês.
Ele apanhou o menino em seus braços e Peter enlaçou-o à volta do pescoço.
—Adoro todos os seus cavalos — murmurou ele, com sono —, mas creio que
Belladonna é o melhor!
Sam havia fechado a porta da estrebaria e olhava para o marquês, esperando ser
repreendido.
— Creio que, para impedir que esse tipo de coisa aconteça novamente, o melhor é
fazer master Peter cavalgar todas as manhãs — disse o marquês. — Tenho certeza de que
você possui um cavalo adequado a ele.
— Gostaria de montar Hércules — disse Peter.
— Então será Hércules — concordou o marquês. — Boa noite, Sam!
— Boa noite, milorde! — respondeu o cavalariço.
Havia ainda uma expressão de incredulidade em seu rosto e em sua voz.
Alexia enxugou suas lágrimas e seguiu o marquês de volta para o jardim.
Enquanto caminhavam, ela percebeu que Peter adormecera, com a cabeça pousada
nos ombros do marquês e a testa encostada ao queixo dele.
— Por que não adivinhei onde Peter estaria? — perguntou ela, como que falando
para si mesma.

56
— Porque você nunca foi um menino — respondeu o marquês. — Eu fugi muitas
vezes a essa hora do castelo, quando todos pensavam que estivesse na cama, e não me
esqueci disso.
— Ele poderia ter passado toda a noite ali.
— Por incrível que isso possa parecer, isso não lhe faria mal algum
— respondeu o marquês. — Ele sempre teve esse dom para com os cavalos?
— Ele sempre amou cavalos, desde que nasceu — respondeu Alexia.
— Mas nunca teve oportunidade de fazer algo como o que aconteceu hoje.
— Mais tarde, quero vê-lo cavalgar.
— É muita gentileza de sua parte, mas creio que é um erro!
— Um erro? — perguntou o marquês.
Ela sabia, embora não tivesse visto seu rosto, que ele arqueara as sobrancelhas.
Nesse ínterim, já tinham alcançado a casa, e, quando o marquês entrou na
biblioteca, através da janela aberta, seguido por Alexia, viram que o sr. Dugdale e a sra.
Graham estavam esperando por eles.
Ambos haviam se vestido apressadamente, e lá estava também o copeiro, que tinha
sido acordado.
— Conseguiram encontrá-lo! — exclamou o sr. Dugdale, em um tom que
demonstrava alívio.
— Encontramos Peter no estábulo, junto com uma égua que comprei há dois dias
atrás — respondeu o marquês. — Um animal que estava aterrorizando os rapazes das
estrebarias e até mesmo o velho Sam!
— Ele está ileso? — perguntou o sr. Dugdale.
— Completamente! — O marquês sorriu. — Ele colocou os braços à volta do
pescoço da égua e deu-lhe boa noite! Se eu não estivesse lá, não acreditaria em tal história!
— Desculpe-me por isso ter acontecido, milorde! — disse a sra. Graham. — Posso
levá-lo para cima?
Eu mesmo o levarei — respondeu o marquês. — Ele está cansado, e quem poderá
culpá-lo? É algo exaustivo tentar acalmar um animal que está quase derrubando sua
estrebaria.
Ele falava quase que zombeteiramente, mas Alexia viu que estava satisfeito com
Peter, e isso provocou-lhe uma sensação de calor no coração.
Enquanto a sra. Graham rapidamente seguia o marquês escadas adiu.i, ela
permaneceu na biblioteca.
Sinto que tenha se preocupado, Srta. Alexia — disse o sr. Dugdale.
Ela suspirou.
—Tinha medo. . . muito medo de que algo tivesse lhe acontecido. Ouve-se tanta
estória a respeito de coisas terríveis que acontecem aqui em Londres!
Ao falar, pensava nos meninos que limpam chaminés, pois ouvira o sr. Wilberforce
contar que muitos deles tinham sido roubados enquanto eram crianças, e forçados, por
seus cruéis patrões, a subir pelas chaminés ainda quentes, queimando assim seus pés!
— Seu irmão é um menino muito inteligente, Srta. Alexia — disse o sr. Dugdale —,
mas precisa lhe dizer amanhã que é um erro querer ser assim tão aventureiro!
—Já lhe disse isso tantas vezes, mas duvido que ele me ouça!
57
O sr. Dugdale sorriu e disse:
— Como descobri, é difícil aprender com a experiência alheia. Mas tente não se
preocupar com ele!
Ele hesitou, depois completou:
— Talvez, na sua idade, seja uma boa idéia arrumar-lhe um tutor. Se não achar
impertinência de minha parte, ou interferência, acho que ele precisa de lições mais
adiantadas do que as que a sra. Graham pode ministrar-lhe.
— Sei disso — respondeu Alexia. — Sei disso há muito tempo, mas não podemos
pagar um tutor!
— E se eu falasse com Sua Excelência. . . — começou o sr. Dugdale.
— Não, não! Certamente que não! — interrompeu Alexia. — Sua Excelência já fez
muito por nós, e já estamos tão profundamente em débito com ele que. . . eu. . . eu quero
falar com ele, quando retornar.
— Entendo. Boa noite, Srta. Alexia. Apenas posso lhe afirmar que tudo terminará
bem.
— Obrigada, sr. Dugdale. Desculpe-me por terem tirado o senhor da cama.
— Não estava ainda dormindo, mas lendo! É a hora em que posso cuidar dos meus
próprios interesses!
Sorriu para Alexia e saiu da sala.
Alexia movimentou-se meio sem rumo e finalmente permaneceu olhando para um
retrato da mãe do marquês, pintado logo após o seu casamento.
Ela era tão bonita que era quase que impossível pensar que qualquer outra
marquesa de Osminton pudesse se igualar a ela.
Subitamente, ocorreu-lhe que o retrato de Letty usando os diamantes Osminton
poderia um dia estar pendurado naquelas paredes, entre os retratos de família.
Imaginou por que nunca pensara antes na possibilidade de Letty se casar com o
marquês, e por que, também, a idéia, ao invés de lhe provocar alegria, fazia com que se
sentisse como se tivesse uma pedra no coração!
Por outro lado, ela sabia que a marquesa estava desejando que o filho se casasse!
— Na minha idade — dissera ela um dia a Alexia —, eu gostaria de ter já meia
dúzia de netos, mas o meu filho parece não se preocupar com isso, só me dando esse
prazer quando estiver velha demais. . .
Alexia também achava uma pena o marquês viver sozinho naquela casa imensa,
sem crianças para brincar de "esconde-esconde" no castelo.
O sr. Dugdale mostrara-lhe pinturas dos ancestrais dos Osminton, feitas durante
cerca de oitocentos anos.
O castelo fora originariamente construído em tempos normandos. Fora demolido e,
como uma fênix, renascera novamente, circundado pelas terras dos Osminton, que tinham
crescido através dos séculos.
Agora, era uma construção magnífica, e Alexia ansiava por uma oportunidade para
conhecê-lo.
Então, disse a si mesma que não deveria alimentar esperanças. Quando a
temporada tivesse terminado, ela voltaria para Bedfordshire! Ao menos, seria esse o
destino dela e de Peter!
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Talvez Letty conseguisse arrumar um bom marido e escapar, assim à monotonia
das paisagens do campo, e aos longos invernos, quando parecia que ninguém existia por
ali!
Ela ainda estava olhando para. o retrato da marquesa-mãe, quando o marquês
voltou à sala.
—Pensei que você tivesse ido para a cama — disse ele.
—Há algo que. . . quero lhe dizer antes.
—Há algum outro problema que tenho que resolver?
—Foi muita esperteza de sua parte saber onde Peter estava — disse Alexia —, e,
mais uma vez, não tenho palavras com que agradecer-lhe. . .
—Está querendo me dizer que seu vocabulário é muito limitado? — perguntou o
marquês. — Não é essa a impressão que as pessoas têm de você, Alexia!
—Dizer o que se passa pela mente de uma pessoa é uma coisa, mas exprimir o que
se passa no coração é outra!
Estava dizendo muito simplesmente o que acreditava ser verdade e ele pareceu
surpreso, enquanto estendia-lhe uma taça de champanhe.
— Creio que precisa disto — disse ele. — Sofreu um bocado nesta ultima meia hora.
—Teria sofrido muito mais, se não fosse você.
Ela tomou um pequeno gole de champanhe, como se isso lhe fosse dar coragem.
Depois, colocou a taça de lado e disse:
—Há algo que quero lhe dizer. . .
—Vamos nos sentar? — sugeriu o marquês.
— É um minuto só — respondeu Alexia. — Somente gostaria de pedir-lhe que não
deixasse Peter montar, como pretende.
—Não deseja que Peter monte? — perguntou o marquês. — Sabendo que os cavalos
significam para ele? E depois do que aconteceu hoje a noite?
—Você não compreende — disse Alexia. — É que não quero que ele se torne
descontente com a vida que terá que levar futuramente!
O marquês não respondeu, mas seus olhos fixaram-se nela, quando Alexia
continuou:
— Em poucas semanas, este sonho maravilhoso e incrível que está acontecendo a
mim e a Letty terá terminado, e Peter e eu voltaremos a Bedfordshire.
Fez uma pausa, e, então, como que escolhendo cuidadosamente as palavras,
continuou:
— Uma vez tendo cavalgado seus animais... como poderá ele contentar-se com um
velho pônei decrépito, a única coisa que poderemos ter, ou com o empréstimo de algum
cavalo por parte dos fazendeiros locais, que fazem isso por terem sido muito amigos de
papai?
— E você, não sentirá o contraste?
— Naturalmente que sim! — respondeu Alexia. — Mas terei o bom senso de me
sentir gratificada, sabendo que essa oportunidade não acontecerá novamente. Mas como
explicar isso a Peter?
O marquês nada respondeu e, após um momento, ela continuou:

59
— Fiquei pensando hoje à noite se não está sendo um erro gastar tanto dinheiro e
tempo com Letty, existindo Peter também a considerar! Ele tem que ser educado, mas,
neste momento, terá que se contentar com a sra. Graham. . . e com o que posso lhe ensinar!
— E se eu. . . — começou o marquês.
— Não! — disse Alexia, firmemente. — Sei o que vai dizer! O sr. Dugdale sugeriu
que lhe dissesse isso, mas eu o interrompi. Já nos deu tanto, que me recuso a receber
qualquer outra coisa.
— Pensei que gostasse de seu irmão.
— Gosto! Você sabe que gosto! — disse Alexia. — Hoje à noite, senti que. . .
Ela parou e o marquês viu que as lágrimas estavam de volta aos seus olhos. Então,
com um esforço, ela continuou:
— Pedi ajuda a você e consegui muito mais do que pretendia, quando da primeira
vez em que aqui estive. Mas ainda tenho o meu orgulho, e porque o mesmo sangue corre
em nossas veias, este meu orgulho não é menor que o seu! Não permitirei que Peter se
transforme em um parente incômodo!
Ele sabia que Alexia, ao dizer isso, pensava na sra. Featherstone.
O marquês terminou seu champanhe e depositou a taça em uma bandeja.
— O que ia lhe sugerir, Alexia — disse ele —, é que deveríamos deixar esse
problema para depois. Tivemos uma experiência emocional bastante forte esta noite, e,
nessas circunstâncias, qualquer julgamento seria parcial!
Alexia fez um pequeno gesto com a mão, mas não interrompeu o marquês, que
continuou:
— Quero que você vá para a cama. Acredito que minha mãe tenha planos para
amanhã, e ela desejará que você, assim como Letty, tenha uma ótima aparência. Esqueça
Peter no momento. Se quer me agradar e mostrar a gratidão que diz sentir por mim, deixe-
o cavalgar!
Alexia começou a responder, mas o marquês levantou a mão, para mostrar que não
queria ouvir.
— Se você soubesse que seu irmão era um gênio da música — disse ele —, iria
impedir que ele tivesse um violino ou aprendesse piano?
Alexia não respondeu e ele continuou, com voz séria:
— Creio que Peter é um gênio no que diz respeito a cavalos. Talvez, no futuro, isso
lhe seja uma grande vantagem. Não acredito que eu ou você possamos conversar
calmamente, agora, sobre as maneiras de ele desenvolver essas oportunidades!
Alexia comprimiu as mãos.
— Isso parece muito convincente, milorde, e. . . francamente, não sei o que dizer!
— Então, por que não deixa comigo? — sugeriu o marquês. — Cuidarei de Peter,
assim como a minha mãe faz com você e Letty. Como também já fui um menino, creio ser
bastante qualificado para a tarefa.
Ele sorria, mas os olhos de Alexia estavam cheios de lágrimas.
Você está certo — disse ela, em voz baixa —, meu vocabulário é
desesperadoramente limitado!
As lágrimas brotaram e deslizaram pelo rosto de Alexia. Como quisesse escondê-
las, ela virou-se e saiu correndo da sala.
60
CAPITULO V

O marquês, tendo terminado um lauto desjejum, apanhou o jornal e começou a ler


as manchetes.
O sol brilhava através das janelas da sala, que dava também para o jardim, mas em
um ângulo diferente daquele da biblioteca.
A porta se abriu e o sr. Dugdale entrou com as cartas que haviam chegado pelo
correio.
O marquês deixou de lado o jornal.
— Bom dia, Dugdale — disse ele. — Espero que tenha dormido bem, depois da
noite tempestuosa!
— Estou cheio de admiração por Vossa Excelência, por ter resolvido a situação —
respondeu o sr. Dugdale. — Não consigo imaginar por que não me lembrei dos estábulos!
— Ainda não consigo acreditar no que aconteceu — disse o marquês,
reflexivamente. — Sempre fui muito amigo dos cavalos, quando garoto, mas não tanto
quanto Peter parece ser.
— Creio que, como dizem os jardineiros, ele tem um "dedo verde". — O sr. Dugdale
sorriu. — Há pessoas que têm certa magia sobre os animais.
— Como os domadores de leões, suponho! — disse o marquês, rindo.
Ele mudou de assunto, estendendo as mãos para as cartas que o sr.
Dugdale trouxera.
— Há alguma coisa importante na correspondência?
— Nada que mereça muita atenção, milorde, a não ser isto!
Estendeu-lhe um envelope, no qual o marquês reconheceu imediatamente a
caligrafia de lady Harlow.
— Rasgue isso! — ordenou secamente. — E, no futuro, não me aborreça mais,
trazendo-me esse tipo de correspondência!
— Muito bem, milorde!
O sr. Dugdale hesitou por um momento e, então, disse:
— Creio que Vossa Excelência foi à Royal Avenue ontem à noite. Espero que tudo
tenha sido satisfatório!
— Muito! — respondeu o marquês.
Ia mudar o assunto da conversa, quando notou que algo na atitude de seu contador
era muito peculiar.
Há muito tempo que o contador estava com ele, e eram tão íntimos ambos
conseguiam saber o que pensavam.
—O que há de errado, Dugdale? — perguntou ele.
—Nada, milorde. Estava apenas um pouco angustiado com a hipótese de que, por
não ter informado mademoiselle Duval antecipadamente sobre sua ida, ela não estivesse lá!
Essas últimas palavras foram pronunciadas quase que hesitantemente e o marquês
disse asperamente:
61
— Agora, conte-me a verdade. De que realmente suspeitou? — O sr. Dugdale não
respondeu e, após um momento, o marquês disse, quase furiosamente: — Você sabe tanto
quanto eu, Dugdale, que, se há algo que me aborrece, é uma insinuação velada. Creio que
me conhece muito bem, para dizer-me a verdade, seja qual for!
— É somente algo que li, milorde!
—O que leu?
Novamente o sr. Dugdale hesitou; mas, então, respondeu:
—Foi em um dos jornais mais desprezíveis, e, certamente, não é verdade,mas, li que
mademoiselle Duval está enamorada de um ator, que faz o papel principal em A Garota do
Campo.
O marquês pensou por um momento e lembrou-se de ter visto no palco um,jovem
bem-apessoado, que, recentemente, ganhara o papel que pertencera a um ator mais velho
e experiente.
Ia responder que esse mexerico teatral era mais inacreditável ainda do que aqueles
que circulavam sobre os membros da alta sociedade, quando algo veio à sua mente.
Na noite anterior, tinha tomado um banho, antes de jantar, na Royal Avenue.
Na verdade, ele instalara um banheiro na casa que possuía na Royal Avenue, o que
era a delícia de todas as amantes que tomava sob sua proteção.
Ele dava para o quarto de Renée, e o marquês achara, como em todas as vezes que
se utilizava dele, que aquele conforto valia as despesas feitas.
Quando estava se secando, notara que, sobre uma mesa, havia uma navalha dentro
de uma caixa de couro.
Com seu cabo de marfim, era exatamente igual às que usava, e considerou uma
grande atenção de Renée, típica das francesas, ter providenciado aquele objeto, caso
necessitasse dele.
Como Napoleão Bonaparte, o marquês mesmo se barbeava, enquanto a maioria dos
aristocratas incumbia essa tarefa a valetes ou barbeiros profissionais.
Ele também, sempre antes do jantar, ajeitava suas próprias gravatas, com uma
experiência que enfurecia seus valetes, que gostavam de se acreditar indispensáveis.
Agora, rememorando, lembrou-se de que, quando voltara ao banheiro novamente,
a navalha havia desaparecido.
Ele quase que nem notara isso na hora, assim como não achara estranho quando,
mais tarde, ao deixar a casa, a criada viera ter com ele. para dizer:
— Estamos com muito pouco champanhe e clarete, milorde.
— Providenciarei isso — respondera ele, distraidamente, dizendo a si mesmo que
daria as ordens ao seu contador na manhã seguinte.
Agora, ocorria-lhe que não fazia muito que enviara algumas caixas de bebida para
Chelsea.
Renée, diferentemente de muitas mulheres de sua profissão, bebia muito pouco.
Quando jantava com o marquês, tomava apenas umas duas taças de champanhe e
sempre recusava os exóticos licores que eram o prazer das coristas.
O marquês sentiu seu humor se alterar.
Não que realmente culpasse Renée por ter arrumado um outro caso de amor,
depois de tê-la abandonado por mais de um mês.
62
Mas agora achava óbvio que aquela sua adulação, bem como a repetição constante
de sua alegria em vê-lo, era devida à consciência pesada.
Era algo meio estabelecido que, quando uma mulher era instalada em uma casa por
seu protetor, que lhe pagava todas as despesas, ela prestasse seus favores unicamente a
ele. E, no caso de Renée, esta ainda possuía certas vantagens, como carruagem, por
exemplo,
O marquês acreditava, certa ou erradamente, nunca ter sido enganado no passado;
ao menos, nunca suspeitara disso!
Mas agora tinha certeza de que estava passando por tolo por causa de algum outro
homem. Era uma sensação nova, da qual não gostava.
— Creio, Dugdale — disse ele, após um longo silêncio — que mademoiselle Duval
deve receber seu cheque usual, com o aviso de que precisa desocupar a casa dentro de um
mês.
Não havia qualquer expressão na voz do marquês, e o sr. Dugdale respondeu
brevemente:
— Providenciarei isso, milorde! -
— Gostaria de ler aquela carta de Newmarket novamente — continuou o marquês,
em tom diferente. — Não tive tempo de estudá-la cuidadosamente ontem, e há muitos
pontos que gostaria de discutir com você!
— Eu a buscarei imediatamente, milorde — respondeu o sr. Dugdale.
No andar superior, Letty, que fora acordada ao que lhe parece numa hora muito
tardia, estava sentada em sua cama, tomando seu desjejum.
Uma das delícias de se morar em Osminton House era o fato de as bandejas de
desjejum serem muito atraentes, o que fazia com que Letty e Alexia tivessem um ótimo
despertar.
Elas tinham sido informadas pelo sr. Dugdale de que o marquês não gostava da
companhia feminina pela manhã, e que teriam que concordar em tomar o café em seus
aposentos.
Naquele dia, na bandeja de Letty havia uma travessa contendo grandes uvas
colhidas no pomar do castelo Osminton e um pêssego maior do que as bolas com que
Peter costumava brincar.
Ela recostara-se nos travesseiros para se servir do café, parecendo muito adorável,
com seus longos cabelos loiros emoldurando o rosto, quando Alexia entrou.
— Dormiu bem? — perguntou ela.
— Como uma pedra! — respondeu Letty. — Achei que estaria muito excitada para
consegui-lo, mas caí na cama e dormi direto!
Havia um tom em sua voz que fez com que Alexia percebesse imediatamente que
algo fora do comum tinha acontecido!
— O que aconteceu de tão especial, para deixá-la tão excitada? — perguntou ela.
Letty não respondeu imediatamente, já que sua boca estava cheia, e Alexia sentou-
se na cama.
— Tenho a impressão de que está me escondendo algo — disse.
— Deixe-me terminar este prato delicioso, enquanto está quente. Então, contarei
algo para você.
63
Alexia esperou, pensando que Letty crescia a cada dia.
Talvez seja porque está se alimentando bem, além de estar se sentindo feliz, pensou.
Imaginou o que poderia acontecer se a temporada terminasse e Letty não tivesse
encontrado um marido adequado, tendo que voltar aos desconfortos de Bedfordshire.
Ela tem que se esforçar bastante, pensou Alexia. Então, sentiu-se tensa e cheia de
angústia.
Letty deixou de lado seus talheres.
— Estava delicioso! — disse ela. — Agora, vou comer o pêssego. Quer metade dele?
— Não, obrigada. Já comi um — respondeu Alexia —, e estou impaciente demais
para ouvir o que tem para me contar.
Letty apanhou o pêssego e começou a descascá-lo.
— Promete, por sua honra, não contar nada a ninguém?
— Naturalmente! Mesmo que não pedisse, eu não o faria!
— E especialmente, muito especialmente, ao marquês?
— Mas o que é? — perguntou Alexia. — Você sabe que nunca passei adiante as
coisas que me contou, especialmente para o marquês.
Letty suspirou profundamente e, então, disse:
— Creio, Alexia, que estou apaixonada!
— Apaixonada? Por quem?
Ocorreu-lhe, talvez pelo que Letty dissera, que era pelo marquês. Então, antes que
ela pudesse formular a pergunta, Letty continuou:
— Ele disse-me ontem à noite que me amava, e que nunca conhecera alguém como
eu antes! Oh, Alexia, ele diz coisas tão maravilhosas!
— Quem? Sobre quem está falando?
— O duque de Gleneagles!
— O duque de Gleneagles?! — exclamou Alexia. — Não me lembro dele. Onde nós
o conhecemos?
— Você, não. Eu! — disse Letty. — Eu o conheci há uma semana atrás. Ele se
apresentou a mim no baile dado pela duquesa de Bedford.
— Ele se apresentou? — repetiu Alexia. — Isso não é fora do comum?
— Mais tarde ele explicou por que — disse Letty. — Ele se indispôs com o marquês,
e sua mãe não se dá com a marquesa-mãe.
— Ele quer se casar com você? — perguntou Alexia.
— Eu sei que sim! Ele ainda não disse isso, mas é obvio, pelas coisas que diz! Oh,
Alexia, ele me adora!
— Então, se ele realmente a ama — disse Alexia rapidamente —, virá pedir
permissão ao marquês para se casar com você. Afinal, como somos hóspedes dele, essa é a
maneira correta de proceder.
— Duvido que Euan proceda corretamente — respondeu Letty, com um sorriso. —
Ele é muito autoritário e quererá fazer as coisas por seu próprio modo.
— E se o marquês recusar?
— Não vejo razão para que o faça — disse lentamente Letty. — Além disso, seria
um casamento brilhante!

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— Exatamente como sempre desejei para você — concordou Alexia —, e,
naturalmente, com alguém por quem sentisse amor.
— Euan diz as coisas mais emocionantes — disse Letty, suspirando. — Ele acha que
pareço uma deusa e diz que quer me beijar do alto de minha cabeça até a ponta dos meus
pés!
— Letty!
Alexia estava chocada.
— Não pode permitir que homem algum fale com você dessa maneira, a menos que
esteja comprometida com ele!
— Nós estamos realmente comprometidos — respondeu Letty. — Euan diz que não
pode viver sem mim. Há dificuldades no que diz respeito ao marquês, mas ele diz que me
explicará tudo na próxima vez em que nos encontrarmos.
Alexia nada disse e ela continuou:
— Veja você, por causa dessa maldita rixa, sobre a qual não sei nada, quando nos
encontramos nas festas, não podemos dançar abertamente, se por acaso a marquesa ou o
marquês estão presentes! Assim, tenho que fugir para o jardim!
Ela sorriu e continuou:
— Isso não é muito difícil! Na noite anterior, encontramos uma pequena moita, que
nos escondeu perfeitamente!
— Letty, isso não é correto, como sabe muito bem! Se a marquesa ficar sabendo
disso, zangar-se-á!
— Por que vou me preocupar com o que ela pensa sobre Euan? — perguntou Letty,
petulantemente. — Você sabe como são essas velhas famílias, sempre brigando, de geração
em geração! É tudo tão ridículo! Euan também acha isso!
— Mas ele não poderá se casar com você sem pedir a permissão do marquês —
disse Alexia, firmemente. — Quer que eu fale com ele sobre isso?
Letty deu um grito e quase que derrubou a bandeja.
— Não, não, Alexia,' você me prometeu! Prometeu-me que não diria nada!
— E, naturalmente, irei manter a minha palavra — disse Alexia, tentando acalmá-la.
— Só estou tentando deixar as coisas mais fáceis para você!
Letty nunca fizera nada por si mesma. Ela era uma dessas- pessoas receptivas, que
sempre faziam o que lhe diziam, que sempre concordavam com tudo.
Algumas vezes, a despeito de amar sua irmã profundamente, Alexia achava isso
irritante!
Mas agora, Letty falava com ela de maneira surpreendente.
— Agora escute, querida, você tem que ser sensata a esse respeito. Devemos tudo ao
marquês, e creio que seria errado, muito errado, decepcioná-lo!
Letty considerou isso por um momento e, depois, disse:
— Talvez você esteja certa, Alexia. Não tinha pensado nisso.
— Pense no que ele nos deu! Pense em tudo o que estamos usufruindo, às expensas
dele! — continuou Alexia. — A mãe dele está nos acompanhando, temos as roupas mais
fabulosas com que todas as garotas sonham, estamos hospedadas aqui, graças a ele, e você
está sendo aclamada como a debutante mais bonita da temporada!

65
— Vejo que seria uma ingratidão fazer qualquer coisa que o contrariasse — disse
Letty, após um momento. — Mas, e se ele mandar que eu esqueça Euan?
— Por que ele faria algo assim? — perguntou Alexia. — Além disso, é você quem
vai desposá-lo!
— Talvez, quando chegar a hora — disse Letty, esperançosamente —, ele dê graças
a Deus por ter se livrado de uma de nós!
— Tenho certeza de que isso é verdade! — concordou Alexia, pensando na confusão
que Peter causara na noite anterior.
— Vou lhe dizer o que farei — disse Letty. — Verei Euan esta noite, pois
combinamos de nos encontrarmos no baile, e lhe contarei o que você disse!
— Por favor, faça isso — respondeu Alexia. — E eu fico feliz, Letty, por estar sendo
tão sensata!
— O marquês e sua mãe têm sido muito, muito bons — reiterou Letty. — Creio que,
se não estivesse com esses vestidos lindos, nem Euan, nem ninguém, teria me admirado!
— Seu rosto seria sempre admirado, mas você sabe tanto quanto eu que nós duas
somos como que Cinderelas, em meio àquelas mulheres bem vestidas e cheias de jóias.
— Eu sou grata; sou mesmo! — exclamou Letty. — Mas realmente acho muito
desagradável que justamente Euan, o homem mais bonito, entre aqueles que me
cortejaram, tenha brigado com o marquês.
— Ele contou se foi uma briga séria? — perguntou Alexia.
— Disse que o marquês e sua mãe iriam tentar impedir nossa aproximação, mas, na
verdade, não teve tempo para dizer mais nada!
— Mas você o tem visto toda noite?
— Quase que todas as noites, exceto na última quinta-feira, quando ele não foi
convidado ao baile em que estivemos. Você pode imaginar algo mais desagradável? Eu
fiquei muito desapontada, embora ele tivesse me avisado de que não estaria lá.
— Como você se comunica com ele? — perguntou Alexia.
Letty pareceu muito apreensiva.
— Você ficará brava quando eu lhe contar.
— Prometo-lhe que não.
— Bem, ele me deu dinheiro para subornar um dos criados.
— Oh, Letty! — disse Alexia, cheia de reprovação.
— Eu disse que você iria ficar brava — disse Letty —, mas Euan tinha medo, e eu
também, do sr. Dugdale. Ele apanha as cartas logo que elas chegam, pela manhã, e poderia
contar ao marquês que Euan estava me escrevendo.
— Não creio que o sr. Dugdale fosse abrir nossas cartas —: disse Alexia.
— Nunca se sabe. E Euan insiste que ninguém, nem mesmo você, saiba de nós dois.
— Ele realmente lhe disse para não me contar nada? —perguntou Alexia.
— Não consigo me lembrar exatamente — respondeu Letty —, mas acho que sim.
De qualquer forma, ele me convenceu de que o que existe entre nós deve ser mantido em
absoluto segredo.
Letty sorriu, cheia de felicidade, antes de completar:
— Mas você sabe que não consigo ter segredos para com você. Há dias que venho
querendo lhe contar, mas só ontem à noite tive certeza de que Euan realmente me amava!
66
— E o que vocês pretendem fazer? — perguntou Alexia.
Na verdade, ela estava preocupada, quase que apavorada, pelo que Letty lhe
contara.
Era certamente uma infelicidade que Letty tivesse se apaixonado por uma pessoa a
quem o marquês desaprovava. Mas parecia inconcebível que ele pretendesse impedir sua
irmã de realizar o que seria obviamente, um casamento brilhante.
Ao mesmo tempo, achava que o marquês deveria ter alguma razão plausível para
manter uma animosidade contra qualquer homem, inclusive o duque.
Alexia sabia que, com relação a Letty, qualquer um conseguiria o que desejasse, se
apelasse à sua boa natureza.
No entanto, precisaria antes conhecer quais as objeções feitas pelo marquês ao
duque, antes de chegar a uma conclusão categórica sobre o assunto.
Em voz alta, disse:
— Você sabe, querida, que tudo o que desejo é a sua felicidade, e parece
maravilhoso que possa estar apaixonada por alguém tão importante. Ao mesmo tempo,
estragaria tudo se você fizesse algo que desagradasse ao marquês.
Letty não respondeu no momento e Alexia continuou:
— Fiquei imaginando por que... não se apaixonou... por ele.
— Aconteceu, quando o vi pela primeira vez — disse Letty. — Ele era tão
imponente, tão elegante! Mas seria muito duro casar-me com um homem que acha que
está sendo condescendente, mesmo quando lhe apanha o chapéu!
Alexia riu.
Letty dizia as coisas de maneira engraçada e sem seriedade, mas Alexia
compreendia o que ela queria dizer. Realmente, o marquês parecia condescendente
mesmo quando obedecia sua mãe e acompanhava as mulheres aos seus compromissos.
— Você vai conversar com o duque esta noite, Letty? — perguntou Alexia. — Se for,
explique que não poderá continuar a se encontrar com ele secretamente, a menos que fique
sabendo as reais razões para esse procedimento.
— Eu farei isso — disse Letty.
Então, após ter terminado o pêssego, ela se deitou contra os travesseiros e disse:
— É tão maravilhoso quando os homens olham para mim de uma maneira
estonteante, achando difícil traduzir o quanto me acham linda!
Alexia não respondeu e ela continuou:
— Eles beijam minha mão, mas eu percebo que querem mesmo é beijar meus lábios,
embora, na maioria das vezes, sintam muita vergonha de confessar isso.
Alexia empertigou-se.
— Está me dizendo, Letty, que você foi beijada?
— Sim, naturalmente! Mas somente por homens de quem gostava muito!
— Mas, Letty, isso é extremamente impróprio! — exclamou Alexia. — Não deve
permitir que homem algum a beije, até que esteja comprometida com ele!
— Você não tinha me dito isso, antes — disse Letty, alegremente.
— Achei que você soubesse que era errado!
— Por que o saberia? — perguntou Letty. — A mim, não parece errado, mas muito
bonito. Eles ficam muito entusiasmados e dizem coisas como: "Deus, você é maravilhosa!"
67
— Você deveria querer que eles dissessem: "Quer se casar comigo?"
— Dois fizeram isso.
— Por que não me contou?
— Não gostei deles. Um era velho, parecido com aquele homem horrível que
andava correndo atrás de você, e o outro era um rapaz estúpido. O seu queixo era tão
pequeno, que desaparecia em meio ao colarinho!
— Mas. . . Letty... — começou Alexia.
Então, percebeu que tudo o que planejara, vindo a Londres, começava a ruir.
Tinha decidido que Letty deveria arrumar um marido e, de certa forma, pelo fato de
sua irmã sempre ter feito o que ela lhe dizia, nunca imaginara que pudesse ter uma
opinião diferente da sua, a respeito desse assunto.
Agora, constatava que Letty tinha crescido da noite para o dia, e que recusava por
sua conta certas propostas, chegando, inclusive, a ocultá-las.
É culpa minha!, pensou Alexia, melancolicamente.
Seguira à frente com seus planos, como se Letty não fosse um ser humano capaz de
pensar por si mesmo.
Então, ocorreu-lhe que, talvez, Letty fosse mais esperta do que imaginava. Tinha
encontrado por si mesma um duque e, se este realmente desejasse se casar com ela,
poderia haver um fim melhor para um conto de fadas?
— Prometa-me, querida — disse-lhe Alexia —, que irá falar com o duque hoje à
noite e descobrir a verdade. E, se isso for possível, apresentá-lo a mim!
— Não posso apresentá-lo hoje à noite! — respondeu Letty.
— Por que não?
— Porque nós não iremos juntas à mesma festa.
— O que quer dizer?
— A marquesa contou-me, ontem à noite, que sua amiga, lady Blessington, estará
dando uma pequena festa para jovens, e que já há mocinhas demais. Assim, enquanto eu
estiver lá, você irá com ela a uma recepção em Carlton House.
— Na Carlton House? Por que ninguém me disse? — perguntou Alexia. — Oh,
Letty, isso deve ser desapontador para você!
— Nem um pouco! Outra noite, eu já vi aquele velho regente gordo, e fui
apresentada a ele. Não posso entender por que todo mundo fala tanto a seu respeito!
Alexia nada disse. Podia entender o. que Letty sentia pelo regente, pois, afinal, ele
tinha quarenta e oito anos!
Mas, ao mesmo tempo, ela o achava charmoso e compreendia a fascinação que fazia
com que o marquês o tivesse como amigo!
— Bem, talvez eu possa conhecer o duque amanhã à noite.
— Eu lhe direi que você quer conhecê-lo — disse Letty. — Mas pode ser que ele
fique aborrecido por eu ter deixado de cumprir minha promessa, contando a alguém sobre
nós.
— Ele não pode esperar que você mantenha o segredo para sempre! — disse
firmemente Alexia.

68
Enquanto falava, deu-se conta de que o tempo passava. Na verdade, a temporada
deveria se estender até depois da festa do regente, a 19 de junho, para a qual os convites já
haviam chegado.
Mas sentia que, a cada dia, diminuíam os grãos de areia de sua ampulheta, até não
sobrar mais nenhum!
Ia avisar Letty novamente, pedindo-lhe que procedesse mais adequadamente,
quando esta saiu, debaixo das cobertas e jogou-se para fora da cama.
— Está um dia maravilhoso, e estou feliz, muito, muito feliz! — exclamou ela.
Enlaçou sua irmã, abraçou-a e beijou-a nas faces.
— Quem poderia imaginar que o mundo social tivesse tantas emoções? —
perguntou. — E tantas coisas maravilhosas para fazer?
Viu a expressão preocupada da irmã e completou:
— Não se preocupe comigo, Alexia, que não farei nenhuma travessura, prometo-
lhe! Somente me casarei com Euan e seremos felizes para sempre!
— É o que espero que faça, querida — respondeu Alexia.
Mas havia um toque de dúvida em sua voz.
Tudo o que está acontecendo faz com que eu e Letty achemos o mundo um lugar
maravilhoso e cheio de paz, pensou Alexia.
Olhou à volta da Carlton House e achou que ela era mais fantástica do que
imaginara. Mas, mesmo assim, pensava em Letty e se ela estaria sendo firme com o duque.
Desde o momento em que adentrara no esplêndido vestíbulo decorado com colunas
jônicas de mármore marrom, subindo após as escadarias, tendo ao lado a marquesa-mãe e
o marquês, deu-se conta de que se recordaria disso tudo para o resto da vida.
O marquês lhes contara, enquanto faziam o percurso de carruagem, que aquela
noite haveria um dos pequenos jantares festivos, com os quais o regente costumava
recepcionar seus amigos pessoais.
Ao falar, ele lembrou-se de como Imogen Harlow lhe pedira para ser convidada e
sentiu-se feliz por estar em companhia de sua mãe e de Alexia, naquela noite.
O marquês sabia que Alexia procederia muito bem, ouvindo com interesse o que
fosse conversado com ela.
Olhando para os convidados já reunidos na sala de estar, decorada em estilo chinês,
Alexia percebeu que era a pessoa mais jovem entre os presentes e, na verdade, a única
mulher solteira.
Os demais convidados, incluindo-se evidentemente lady Hertford, esplêndida em
suas jóias, pareceu a Alexia compor-se de senhoras já idosas ou de meia-idade.
No entanto, no momento, ela estava muito mais interessada na casa que em seus
ocupantes.
Através do sr. Dugdale, ficara sabendo que deveria prestar atenção nos excelentes
Van Dykes comprados pelo príncipe, naturalmente também colocados no rol de suas
dívidas, e em numerosas outras pinturas inglesas e holandesas, que tinham contribuído
para sua despesa astronômica.
Mas Alexia descobriu que havia muito mais do que pinturas para se ver.

69
Encantou-se com a mobília e as tapeçarias de Gobelin, com as porcelanas de Sèvres,
com as escrivaninhas e com os bustos de mármore, desejando ter muito tempo para
examiná-los, sem ser perturbada.
Mas sabia que, tendo sido honrada com aquele convite, deveria retribuir, fazendo-
se muito agradável.
Assim, durante o jantar, prestou muita atenção ao que diziam os dois cavalheiros
que a ladeavam.
Ambos acharam surpreendentemente fácil conversar com ela, e, antes que a noite se
acabasse, foram congratular o marquês por possuir uma prima tão inteligente quanto
bonita.
O regente, agora que estava ficando velho, não se recolhia mais às altas horas, ao
contrário de quando era jovem. Assim, às onze e meia, eles deixaram Carlton House.
Chegaram a Park Lane muito antes de Letty ter voltado de sua festa.
O marquês não as acompanhou até lá, pois iria para o White's Club. Ao se
separarem, na St. James's Street, sua mãe o admoestou:
— Não perca muito dinheiro nas mesas de jogo, Chilton. Sempre posso pensar em
um uso muito melhor para ele!
— Acontece que, normalmente, eu sou o vencedor — respondeu o marquês. — Isto,
obviamente, mamãe, fará com que a senhora ache que tenho má sorte no amor!
A marquesa-mãe sorriu um pouco tristemente e, quando a porta da carruagem se
fechou, disse a Alexia:
— Não posso entender por que os homens, e as mulheres também, acham o jogo tão
atraente! A duquesa de Devonshire, de quem sou muito amiga, arruinou totalmente a sua
saúde e sua aparência, de tanta preocupação com as cartas.
— Se eu tivesse algum dinheiro — disse Alexia —, não iria arriscá-lo dessa maneira
tola!
— Eu e você pensamos da mesma forma — respondeu a marquesa —, mas os
homens quase nunca resistem a um desafio, freqüentemente penso que meu filho necessita
de muitos obstáculos para se sentir vitorioso, ou, se preferir, de muitas montanhas para
escalar.
— Posso entender — disse Alexia, com um sorriso. —O problema com Sua
Excelência é que ele é muito bom em tudo: vence as corridas, ganha nas cartas, consegue a
admiração de todos. O que mais precisa conquistar?
— Posso responder com uma palavra apenas — disse a marquesa- mãe —, amor!
Alexia pareceu surpresa, e ela apressou-se a explicar:
— Estou convencida de que meu filho nunca amou realmente. Oh, houve
numerosas mulheres em sua vida. Isso eu sei. Ele é atraente demais para ser deixado em
paz por elas.
Suspirou e continuou:
— O que quero, e por isso rezo todas as noites, é que ele se apaixone e descubra a
felicidade que eu e meu marido desfrutamos juntos!
Essas palavras provocaram uma estranha sensação no peito de Alexia, que não
conseguia explicá-la.

70
Na verdade, era tão ignorante a respeito de amor, que nada poderia dizer, a não ser
murmurar, em sinal de simpatia.
De volta à Osminton House, ela deu boa noite à marquesa, agradeceu pelo que
sabia ter sido uma noite memorável, e subiu para seus aposentos.
Ao se deitar, achou que, sem dúvida, ouviria quando Letty voltasse. Então, iria até
lá e perguntaria o que tinha acontecido.
Mas estava mais cansada do que imaginava. Acabou dormindo até as nove horas da
manhã seguinte, quando a criada entrou, puxando as cortinas e trazendo-lhe o desjejum.
— A Srta. Letty já acordou? — perguntou Alexia, achando que era improvável.
— Não, senhorita. Há um bilhete colado à sua porta, avisando que ela não deseja ser
perturbada até tocar a campainha.
Isso significa que ela chegou tarde, pensou Alexia.
Deveria conter sua impaciência por mais tempo.
Tomou um banho, vestiu-se e subiu até o berçário, onde encontrou Peter já pronto
para cavalgar, e com sua excitação habitual.
— Sarff diz que eu conduzo Hércules como se fosse um homem — disse ele —, e
hoje nós vamos galopar mais rápido ainda do que ontem!
— Será ótimo! — Alexia sorriu. — Não se esqueça de, quando se encontrar com o
marquês, agradecer-lhe por deixar que monte seus magníficos cavalos!
— Eu já lhe agradeci! — disse Peter.
— Então, deve continuar a fazê-lo, a cada vez que o encontrar — advertiu Alexia. —
Não é todo homem, Peter, que permite que se monte seus cavalos, por muitos que tenha!
— Ele tem vários que ainda não vi — disse Peter —, e Sam diz que está comprando
mais ainda. Por que não temos dinheiro para comprar cavalos?
— Talvez você o tenha quando crescer, terá que ser inteligente para consegui-lo.
— Eu conseguirei dinheiro e comprarei cavalos — disse Peter.
Então, impacientemente, virou-se para sra. Graham.
— Oh, vamos, sra. Graham! Você é tão lerda! Sam está esperando por mim!
— Eu levarei Peter aos estábulos — disse Alexia.
— É muita gentileza de sua parte, Srta. Alexia — respondeu a sra. Graham. — Estou
com dor de cabeça esta manhã, e sinto-me meio tonta!
— Deve se deitar um pouco — disse Alexia —, e quando Peter voltar para casa, eu
lhe darei o almoço e tomarei conta dele esta tarde.
— É muita bondade sua, mas eu estarei bem. É somente pelo fato de ter me
levantado com o pé esquerdo esta manhã, como dizia minha mãe.
Ela é muito boa, pensou Alexia. Mas, está velha demais!
Ficou imaginando se o marquês teria se esquecido do tutor para Peter.
Então, recriminou-se por estar sendo tão pretensiosa, esperando que ele fosse fazer
isso.
Alexia e Peter correram aos estábulos, através dos jardins, e quando o menino já
estava sobre Hércules, parecendo muito confiante, a despeito de seu tamanho, ela voltou
para a casa.
Subiu as escadas e, percebendo como já era tarde, achou que Letty deveria ser
acordada.
71
Mas o bilhete ainda continuava à porta e Alexia foi ver* a marquesa-mãe.
Não havia nada que a marquesa gostasse mais do que comentar o que acontecera na
noite anterior.
Sempre tinha algo a contar sobre as pessoas que vira, e fazia Alexia rir com as
histórias deles e de seus ancestrais.
Quando já era hora de a marquesa se levantar, Alexia entrou e, após um tempo,
tentando fazer sua voz parecer bem natural, perguntou-lhe hesitantemente:
— Ontem à noite alguém me falou sobre o duque de Gleneagles, madame. Mas não
me lembro de tê-lo visto nos outros bailes, e fiquei pensando se o conhecia!
— O duque de Gleneagles? — repetiu a marquesa. — Creio que está em Londres.
Vi-o a distância, em uma ou duas ocasiões!
Ela sorriu e disse:
— Não volte seus olhos para essa direção, querida. Ele não serviria para você ou
Letty, e foi por isso que não o convidei para nossos jan- tares.
— Por que não serviria? — perguntou Alexia, tentando não parecer inquisitiva.
— Ele vai se casar no mês que vem com a filha do duque de Berwick, e isso será
muito adequado, já que as duas famílias têm muita importância no norte do país. O duque
e sua futura esposa conhecem-se desde crianças.
Alexia sentiu seu coração parar; então, a marquesa-mãe prosseguiu:
— Vou lhe contar um segredo que a divertirá. Lady Berwick contou-me que sua
filha travessa e o jovem duque estavam tão impacientes para se casarem, e tão cansados da
longas discussões de família, que resolveram se desposar pela antiga cerimônia do
casamento por consenso.
— O que é isso? — perguntou Alexia, com a boca seca.
— Na Escócia — explicou a marquesa-mãe —, duas pessoas apenas têm que
declarar que são, de fato, marido e mulher, para serem consideradas legalmente casadas!
— Oh! — exclamou Alexia, nervosa.
— Naturalmente, as famílias nobres consideram isso um procedimento repreensível
e, na verdade, são poucas as pessoas que o usam hoje em dia, exceto quando a noiva já
está grávida. Tenho certeza de que não aconteceu isso com Elspeth. Foi só uma forma de
apressar as coisas. Mas significa que, legalmente, o duque é um homem casado. Portanto,
você compreende por que não fiz questão de recebê-lo, em benefício seu ou de Letty.
— Sim. . . madame — concordou Alexia.
Mas, ao mesmo tempo, sentia-se quase que desmaiando pelo horror que ouvira.
Deixou o quarto da marquesa e caminhou determinadamente em direção ao de
Letty.
Por mais cansada que sua irmã estivesse, iria se levantar e ela lhe diria o que tinha
descoberto.
Por isso é que o duque pedira que Letty mantivesse suas relações em segredo!
Seu comportamento fora extremamente repreensível e, mais ainda, positivamente
cruel!
Ele poderia facilmente ter ferido o coração de Letty, embora Alexia não acreditasse
que isso tivesse acontecido. Achava que sua irmã não estava tão emocionalmente
envolvida, ainda que viesse a ser um ferimento em seu orgulho.
72
A última coisa que Alexia queria é que Letty entrasse em um estado de melancolia,
depois de ter afirmado, no dia anterior, que tudo era uma maravilha, e que ela estava se
sentindo muito feliz!
O bilhete continuava na porta do quarto, mas Alexia abriu-a e entrou.
O quarto estava às escuras e ela o atravessou, até as janelas, puxando as cortinas.
Quando o sol entrou, voltou-se para a cama. Letty não estava lá!
Ia se dirigindo ao seu próprio quarto, pensando que Letty já deveria ter se
levantado e ido à sua procura, quando viu um envelope sobre o toucador. Estava com o
sobrescrito: "Alexia".
Apanhou-o, achando quase que impossível abri-lo e ler o que estava escrito.
Ao fazê-lo, por um momento a caligrafia redonda e
quase que infantil de Letty pareceu dançar à frente de seus olhos. Então, leu;

"Querida Alexia,
Como Euan acha que haverá muitos problemas com nossa ligação, decidi fugir com ele.
Vamos nos casar em Dover e viajar em seu iate ao longo da costa sul, em direção a Land's End. Não
haverá perigo, pois os navios ingleses espantaram os de Napoleão e estão guardando o canal.
Não se preocupe comigo, pois estou muito feliz, e, por favor, peça ao marquês e à sua mãe que
não se angustiem.
Sua devotada, Letty."
Alexia leu a carta duas vezes; então, fechou os olhos. O que farei? perguntou-se. Oh,
Deus, o que farei?

73
CAPITULO VI

Alexia sabia que a única pessoa que poderia ajudá-la era o marquês. Assim, ainda
com a carta de Letty às mãos, desceu correndo as escadas, em direção ao vestíbulo.
— Onde está Sua Excelência? — perguntou ela a um criado.
— Sua Excelência está cavalgando, senhorita — respondeu o homem — e voltará
daqui a uma hora mais ou menos.
— E o sr. Dugdale?
— O sr. Dugdale saiu também, senhorita, e deverá voltar à hora do almoço.
Alexia sentiu pânico, sabendo que Letty, tendo partido para Dover, teria que ser
impedida de sair no iate do duque.
Pensou desesperadamente que ele, sem dúvida, acharia alguma explicação
plausível para não se casar, como Letty esperava, antes de saírem para o mar. E, então,
seria tarde demais!
Por um momento, Alexia sentiu como que se seu cérebro fosse incapaz de
funcionar. ,
Então, resolutamente, entrou na biblioteca, sentou-se na escrivaninha do marquês,
apanhou uma folha de papel e tentou pensar no que escrever!
Como o tempo corria, e Alexia tinha certeza de que o marquês entenderia sem
maiores explicações, simplesmente escreveu:
"Fui para Dover. Por favor, por favor, ajude-me! Alexia."
Colocou a nota dentro de um envelope, junto com a carta de Letty. Então, desceu as
escadas correndo, colocou o primeiro chapéu que apanhou do armário e vestiu a capa de
seda que usava em viagens.
Desceu e concluiu que era importante que ninguém, exceto o marquês, soubesse o
que tinha acontecido. Instruiu um dos criados:
— Se a marquesa me chamar, por favor, diga-lhe que fui ter com uma amiga. O
marquês explicará quando voltar. Por favor, informe à Sua Excelência que deixei um
bilhete para ele em sua escrivaninha.
— Muito bem, senhorita — respondeu o criado. — A senhorita precisa de uma
carruagem?
— Irei eu mesma aos estábulos — respondeu Alexia.
Sabia que seria intolerável esperar alguns minutos, até que uma carruagem lhe
fosse trazida.
Voltou à biblioteca e correu pelo gramado dos jardins, lembrando-se de quando o
marquês tinha trazido Peter triunfalmente em seus braços, quando este desaparecera.
Ele me ajudará a salvar Letty, eu sei que sim!, pensou Alexia, enquanto corria.
Alcançou as estrebarias e viu, com alívio, que Sam estava ali!
74
— Tenho que chegar a Dover, Sam, o mais rapidamente possível!
O criado olhou para ela, com surpresa. Então, Alexia disse:
— É urgente, desesperadamente urgente! Temos que alcançar o duque de
Gleneagles!
O criado olhou para ela, sem nada compreender, mas respondeu:
— Se não me engano, Sua Alteza o duque de Gleneagles usa um faetonte puxado
por dois cavalos. São bons animais, mas não se comparam com os do marquês!
— Por favor, Sam, vamos arreá-los! — pediu Alexia.
— Não sei o que Sua Excelência irá dizer! — respondeu Sam.
Então, como se a expressão dos olhos de Alexia o tivesse decidido, ele afirmou:
— Nós os agarraremos, não tenha medo, senhorita.
Estalou os dedos e os rapazes dos estábulos vieram correndo.
Em curto espaço de tempo, os cavalos negros do marquês foram preparados e
atrelados a um cabriolé que Alexia sabia ser da última moda!
Enquanto os cavalos eram preparados, Sam vestiu sua libre e seu chapéu de
penacho. Saiu das estrebarias guiando o veículo com tal experiência, que Alexia achou
comparável à do marquês.
Não levou muito tempo até atingirem a estrada de Dover, e então, Sam deu aos
cavalos toda a rédea. Atravessaram New Cross, Blackheath e Shooter's Hill.
Era difícil conversar à velocidade em que viajavam, mas, quando já tinha coberto o
que Alexia calculava serem umas dez milhas, ela perguntou:
— Teremos que mudar de cavalos?
— Creio que sim, senhorita, se quisermos manter nossa velocidade — respondeu
Sam. — Felizmente, Sua Excelência mantém seus próprios cavalos alojados nas estradas
principais.
Alexia soltou um suspiro de alívio.
Ela sabia que isso era um hábito entre os aristocratas mais ricos, mas tinha medo de
que o marquês não costumasse viajar para Dover.
Isso significaria que eles teriam que levar seus animais à beira da exaustão, ou
trocá-los por outros, inferiores, normalmente disponíveis nas hospedarias.
Passaram Gadds Hill, onde ainda existiam os esqueletos dos ladrões de estradas
pendurados em suas forcas, e, finalmente, chegaram a Rochester.
Sabendo que Sam seria muito rápido, Alexia subiu correndo as escadas da velha
hospedaria, lavou a poeira que já se acumulava em seu rosto e em suas mãos, e tomou um
pouco de café, antes de continuarem novamente a viagem.
Embora já fosse hora de almoço, ela não sentia fome.
Tinha apenas consciência de uma sensação de medo e agitação tão terrível, que
chegava quase a ser uma dor física.
Tentou calcular quanto tempo teria levado para o marquês chegar em casa, ler seu
bilhete e decidir o que faria.
Tinha certeza de que ele não falharia, e a seguiria até Dover, provavelmente a
cavalo, o que seria consideravelmente mais rápido do que viajar em um veículo!
Ele é tão maravilhoso! disse Alexia para si mesma. Conseguirá salvar Letty, como já
nos salvou antes!
75
Então, sentiu como (se todo o seu corpo se voltasse para o marquês, pois sabia que
não só confiava nele, mas que também o amava!
Era absurdo e ridículo, pensava, aspirar ao amor de alguém tão importante e tão
imune aos encantos dela e de Letty.
Mesmo assim, não conseguia repudiar os sentimentos que lhe assolavam o coração
e que, para ser honesta, estavam ali há muito tempo.
Era impossível para ela, quando estava em um mesmo local que o marquês, deixar
de sentir acuradamente a presença dele, e impedir que seus olhos pousassem
continuamente sobre ele.
Agora, admitia que, ao acordar, seu primeiro pensamento era sempre para ele,
assim como o último, antes de dormir.
Mas talvez isso acontecesse por ele ter sido tão bom e generoso, e por que ela
quisesse agradá-lo!
Mas quando punha um dos lindos vestidos ofertados pela marquesa- -mãe, sabia
que a única pessoa por quem ela desejava ser apreciada era ele; o único homem por quem
ela queria ser admirada!
Mas isso era algo sem esperanças, assim como desejar a lua, ainda que achasse
inevitável que ela, e também Letty, se apaixonassem por um homem tão magnífico!
Achava difícil entender como o duque de Gleneagles, ou qualquer outro, poderia
ter atraído Letty, pois, em comparação com o marquês, qualquer outro seria pálido e
insignificante.
Mas Letty o achara frio e inacessível, enquanto Alexia somente conseguia se
lembrar de sua bondade, de sua compreensão e da maneira como carregara Peter em seus
braços.
Eu o amo! disse para si mesma, e as rodas do cabriolé pareciam dizer também,
infinitamente: "Você o ama! Você o ama! Você o ama!"
Quando passavam por Medway Flats, Sam disse:
— Creio que seria sensato, senhorita, comer alguma coisa enquanto trocamos os
cavalos, assim que passarmos a cidade.
— Não tenho fome — respondeu Alexia! — Pedirei uma xícara de café, enquanto
lavo as mãos. Ê tudo de que preciso. Mas, e você?
— Eu nunca como ou bebo enquanto estou dirigindo, senhorita — respondeu Sam.
— Tomei um bom desjejum esta manhã. Minha velha mulher foi quem providenciou.
— Quantas milhas o duque estará à nossa frente? — perguntou Alexia. com um
pequeno tremor na voz.
Tinha certeza de que Sam havia feito perguntas na última hospedaria onde tinham
parado.
— Não devemos preocupar nossas cabeças com cálculos, senhorita — respondeu
Sam. — Sua Graça está a uma boa distância, mas estamos nos aproximando dele.
— Tem certeza?
— Tenho, senhorita. Estaremos bem próximos dele quando tivermos alcançando
Dover.
Alexia esperava que eles pudessem alcançar o duque e Letty em Barham, ou em
qualquer outra das pequenas cidades, antes que eles chegassem ao canal.
76
Isso porque deveria haver muitas hospedarias em Dover, e acabariam por perder
tempo, se tivessem que ir de uma a outra, procurando Letty.
Outra hipótese era a de o duque ter ido diretamente para o cais. Nesse caso, eles
poderiam já estar a bordo ou ter partido, antes que ela pudesse entrar em contato com a
irmã.
Mas Alexia concluiu que isso era improvável.
Letty iria querer se lavar e comer algo antes do embarque. Além disso, pretenderia
se casar.
O duque teria que ter alguma explicação, a menos que estivesse disposto a cometer
bigamia.
Oh, mamãe!, exclamou intimamente Alexia, preciso chegar a tempo! Preciso! Como
isso pôde acontecer a Letty?
Mas sabia que isso se dera pelo fato de Letty ser muito bem-humorada e dócil, de
tal modo que o duque fora capaz de persuadi-la à fuga.
Ele deve tê-la feito imaginar a fuga como algo romântico. Letty já afirmara que ele
estava mesmo disposto a usar os seus próprios meios.
Como ele pôde fazer algo tão diabólico, perguntou-se Letty.
Sabia que a resposta estava no fato de Letty ser tão bonita. E não era surpresa que
qualquer homem perdesse a cabeça e desejasse possuí-la, quaisquer que fossem as
conseqüências.
Eles seguiram viajando, até que, finalmente, sem terem avistado o faetonte do
duque, aproximaram-se de Dover.
Tinham estado muitas horas na estrada, mas, por estar tão ansiosa,
Alexia não se sentia cansada; apenas apreensiva, pensando que fosse tarde demais.
— Onde acha que poderemos encontrar Sua Alteza? — perguntou a Sam.
Ela não dissera a ele que Letty estava com o duque, mas tinha certeza de que o
empregado sabia.
Mesmo que não tivesse adivinhado por que ela seguia a toda pressa para Dover,
teria ficado sabendo, nas hospedarias por onde tinham passado, que o duque não estava
viajando sozinho.
— O Kings Head é o melhor lugar daqui, e é onde Sua Alteza costuma ficar!
— Então, vamos lá primeiramente!
Enquanto seguiam em direção à cidade, ela teve a primeira visão do porto.
Podia avistar os mastros de muitos navios, e rezou mais intensamente ainda para
que os do iate do duque estivessem entre aqueles, e não já em alto-mar.
Seguiram através das ruas estreitas e, pouco tempo depois, avistaram o King's Head
à sua frente.
Havia várias carruagens com seus cocheiros uniformizados paradas à porta e
Alexia, subitamente, sentiu vergonha de entrar em um hotel movimentado e procurar por
Letty.
E se o duque tivesse se registrado com um nome falso? E se ele, ao se encontrar com
ela, não lhe permitisse falar com a irmã?

77
Achou que iriam parar na rua em frente ao hotel, mas Sam guiou os cavalos, lenta e
cuidadosamente, através das portas que conduziam a um pátio interno, localizado nos
fundos.
Lá havia vários veículos elegantes e cavalariços segurando as rédeas dos animais.
Então, Sam disse, com ar de satisfação:
— Sua Alteza está aqui, senhorita. Ali está o faetonte dele!
Ao falar, apontou com seu chicote e Alexia viu um faetonte vazio e dois cavalariços
cuidando dos cavalos.
Como se soubesse o que ela estava pensando, Sam disse:
— Se a senhorita quiser esperar aqui, irei ver se Sua Alteza está.
— Você faria isso, Sam? — perguntou Alexia, com gratidão.
Sam deixou as rédeas aos cuidados de dois cavalariços e entrou no hotel.
Fazia alguns minutos que Sam se fora, quando, da mesma porta por onde ele
entrara, saiu um homem alto e bem-apessoado, que atravessou o pátio e entrou no
faetonte que ela sabia pertencer ao duque.
Alexia prendeu a respiração.
Este era o duque de Gleneagles, tinha certeza, e ele deixara Letty no hotel!
Ela observou enquanto o duque manobrava os cavalos, avançando em direção à
saída.
Ao passar por um cavalariço mais velho e com aparência de chefe, que controlava
os que entravam e saíam do pátio, Alexia ouviu-o dizer:
— Voltarei e vou querer estábulos para meus cavalos.
O homem respondeu:
— Eles estarão esperando por Vossa Alteza.
O faetonte saiu do pátio. Alexia pulou do cabriolé e correu em direção à entrada do
hotel.
Ao alcançá-la, encontrou-se com Sam, que voltava.
— A Srta. Letty está no número 6, senhorita — disse ele.
— Obrigada, Sam.
Alexia caminhou rapidamente pelo vestíbulo movimentado e, sem indagar qual o
caminho, subiu as escadas, como se fosse uma hóspede do hotel.
Ninguém a notou e ela chegou a um longo corredor, cheio de portas. Tinha certeza
de que Letty estaria no melhor quarto, um que tivesse vista para o mar.
Não estava errada. O número 6 ficava em meio ao corredor, e ela abriu a porta sem
bater.
Letty estava deitada na cama, totalmente vestida, apenas sem o chapéu e de olhos
fechados.
Alexia olhou para ela por um momento. Então, virou-se e fechou a porta, antes de
dizer qualquer coisa.
— Letty!
Sua irmã abriu os olhos e soltou uma exclamação.
— Oh, Alexia, Alexia, o que está fazendo aqui?
— Eu a segui — disse Alexia, caminhando em direção da cama. — Letty, você não
pode fazer isso!
78
Letty sentou-se e estendeu os braços, como uma criança precisando de conforto.
— Alexia, estou tão feliz que tenha vindo! Fui muito tola, e agora sei que não
deveria ter fugido sem lhe dizer!
— Não deveria ter fugido de maneira alguma — disse Alexia. — Ouça, Letty, o
duque já é casado!
Alexia viu a expressão de horror, maior do que a de surpresa, tomar conta do rosto
da irmã. Então, Letty disse:
— Oh, Alexia, leve-me para casa. Fui muito estúpida! Pensei que seria muito
divertido e excitante ter um casamento assim, mas estou muito cansada. E viemos em tal
pressa, que me sinto mal!
Alexia puxou Letty para junto de si, sabendo que ela não era mais que uma criança,
que sempre se aproximava, quando fazia algo de errado.
— Aonde o duque foi? — perguntou.
— Foi ver se o iate já está pronto para zarpar — respondeu Letty.
Chegou-se mais próxima a Alexia, ao dizer:
— Mas não quero ir com ele. Mudei de idéia! Quando ele me beijou, agora, me
feriu!
Ao falar, levou os dedos aos lábios, como se estes estivessem machucados.
— Não gosto dele, não mais! — continuou. — Quero ir para casa com você!
— Eu entendo.
Letty deu um grito.
— Detenha-o, Alexia! Não deixe que ele volte. Tranque a porta e deixe-o para fora!
Alexia levantou-se da cama.
— Faremos isso — disse ela. — Tenho certeza de que não demorará muito até que o
marquês chegue.
— O marquês? Você lhe contou onde eu tinha ido?
— Tive que o fazer — respondeu Alexia. — Fui pedir que me trouxesse, mas ele
estava cavalgando. E eu achei que deveria correr para salvá-la!
— Eu quero ser salva. Não quero mais me casar com o duque — disse Letty. — Ele
fere meus lábios, e me aperta muito fortemente. Estou com medo, Alexia!
— Está tudo bem! — disse Alexia, tentando acalmá-la. — Ele não a machucará mais!
Alexia virou a chave na fechadura e verificou que havia também uma tranca de
madeira. A porta em si, no entanto, parecia bem frágil. Após um momento, ela disse:
— Levante-se, Letty, e me ajude a puxar esta cômoda para junto da porta, para o
caso de o duque tentar arrebentá-la!
Letty soltou uma exclamação de medo, pulou da cama e ajudou a irmã a empurrar a
pesada cômoda de carvalho.
— Isso o manterá fora — disse Alexia.
Ao mesmo tempo, apanhou uma cadeira e colocou sobre a cômoda, olhando para
ver se havia algo mais que pudesse ser adicionado à barricada.
— Precisamos ganhar tempo — disse Alexia. — Se ele voltar, diga para esperar lá
embaixo, e que estará pronta assim que puder.
— E se ele não acreditar em mim? — perguntou Letty.

79
Ela estava com medo, embora parecesse tão bonita, que Alexia podia até entender
por que o duque estava procedendo daquela maneira.
No entanto, sabia que era importante manter Letty calma.
— Você não lavou seu rosto, querida — disse ela. — Está quase cinzento, de tanta
poeira, e seus cabelos estão sujos, também.
Se pretendia desviar a atenção de Letty da situação em que estavam, não poderia
ter encontrado método melhor. Ela virou-se em direção ao espelho e soltou uma
exclamação de horror, ao notar sua aparência.
— Procure minha escova de cabelos, Alexia. Ela está na valise que o carregador
trouxe para cima, quando cheguei.
Alexia olhou para o lado da porta e reconheceu a valise que tinham trazido para
Londres. Era velha, mas muito fácil de carregar por ser leve.
Abriu-a e verificou que lá havia vários vestidos, dobrados por Letty sem nenhum
cuidado, além de roupas íntimas, uma camisola e a escova de cabelos.
— Euan disse que iria me comprar tudo o que precisasse em algum porto em que
parássemos — disse Letty, com uma vozinha fraca. — Trouxe somente o que iria precisar
em uma noite ou duas! Sou uma boba não acha?
Alexia nada respondeu, mas seus lábios se comprimiram. Tirou a escova da valise,
levou-a até a penteadeira e depositou-a lá.
Então Letty, que estava sentada na banqueta, estendeu sua mão e alcançou a da
irmã.
— Você está brava comigo, Alexia, por ter sido. . . tão mentirosa? — perguntou ela.
— Creio que estou mais magoada por você não ter confiado em mim — respondeu
Alexia.
— Desculpe-me. . . realmente desculpe-me! — disse Letty, enquanto as lágrimas
enchiam seus olhos azuis.
Ela soltou um pequeno soluço e continuou:
— Euan fez tudo parecer uma grande aventura, e afirmava muito positivamente
que o marquês iria impedir nosso casamento, só porque era orgulhoso e desagradável.
Como você soube que ele já era casado?
— A marquesa me contou — disse Alexia. —- Era uma brincadeira. Ele e a garota
com quem está comprometido casaram-se por consenso, na Escócia.
Sua voz tornou-se severa, quando continuou:
— É uma cerimônia que as pessoas decentes acham repreensível, mas que é
absolutamente legal!
Letty ficou em silêncio por um momento. Depois, olhando para sua própria imagem
refletida no espelho, disse, com um tom cheio de horror:
— Se ele tivesse me levado em seu iate, como pretendia. . . eu me teria tornado sua
amante!
— Exatamente isso, Letty.
Letty soltou uma exclamação e pulou para junto de sua irmã, abraçando-se a ela.
— Perdoe-me, oh, querida Alexia, perdoe-me! Sei o quanto fui tola, e como me
comportei mal, não tendo contado a respeito de Euan desde o início!
Letty chorava copiosamente e Alexia puxou-a para junto de si.
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— Está tudo bem agora, querida — disse ela. — Eu compreendo, e devemos
esquecer tudo agora!
— E se eu não escapar? E se ele me obrigar a ir para o seu iate?
— Ele não fará isso. Eu sei que o marquês logo estará aqui.
Ao falar, teve a certeza de que ele saberia o quanto ela estava necessitando de seu
auxílio!
Se Letty era inexperiente no trato com homens, o mesmo se dava com Alexia, que se
sentiria muito mal tendo que discutir com o duque, principalmente em um lugar público.
Ela sabia também que, se uma palavra fosse pronunciada a respeito de tudo isso, as
mexeriqueiras sociais ficariam sabendo e a reputação de Letty estaria arruinada.
Era óbvio que a beleza de Letty e o fato de estar sendo apresentada pelo marquês
tinha despertado muito ciúme entre as outras debutantes, e a situação seria uma ótima
oportunidade de vingança.
— Tudo ficará bem — disse, em voz alta. — Agora, pare de chorar, querida, e lave o
seu rosto.
Letty obedeceu-a automaticamente. Enquanto Alexia colocava água quente na bacia
de porcelana, Letty lavava as mãos e o rosto.
— Sinto-me melhor agora — disse ela.
Nisso, ouviram passadas rápidas do lado de fora da porta e seus olhos se
arregalaram de medo.
— Diga o que lhe disse — afirmou Alexia, sussurrante.
Ouviu-se uma batida à porta.
— Quem. . . quem é? — perguntou Letty, trêmula.
— Sou eu. . . Euan!
— Estou me trocando disse Letty. — Se você esperar lá embaixo, ficarei pronta
rapidamente.
— Deixe-me entrar!
— Não! Não! Eu não posso!
— Por que não?
— Eu já lhe disse. . . que estou me trocando!
— Deixe-me ajudá-la.
— Não! Eu. . . não me demoro!
— Então, apresse-se! Temos que aproveitar a maré!
O duque esperou um momento. Depois, como Letty nada respondesse, ele voltou a
falar:
— Deixe-me entrar, Letty. Tenho algo para lhe contar!
— Não posso. . . não estou decente. . .
— Não precisa ter pudores para comigo.
Letty não respondeu e o duque disse em voz baixa:
— Arranjei para sermos casados pelo capitão de meu iate. Portanto, fique bem
bonita para essa ocasião tão importante!
Enquanto falava, afastou-se, e, depois de um tempo, elas puderam ouvir suas
passadas descendo as escadas sem tapetes.
Letty suspirou profundamente.
81
— Ele é um mentiroso, um impostor! Se não fosse por você, eu teria sido enganada,
Alexia!
Ao falar, correu para sua irmã, e Alexia notou que ela tremia.
— Está tudo bem, Letty — disse ela, novamente. — Ele não poderá magoá-la.
Apenas temos que esperar e rezar para que o marquês não demore.
Sentaram-se lado a lado na cama, com Letty segurando fortemente a mão de Alexia.
Lentamente, tão lentamente que pareceram séculos, os minutos passaram.
— Ele voltará! Ele voltará a qualquer momento! — disse Letty, em súbito pânico. —
Então, forçará a porta!
— Terá que ser muito forte para fazer isso — respondeu Alexia. — E isso provocaria
um escândalo no hotel. Não creio que ele deseje isso.
— Ele diz que. . . sempre consegue o que deseja — disse Letty, em um murmúrio.
— Desta vez, ficará desapontado!
O tempo continuou a transcorrer lentamente, até que ouviram novamente as
passadas.
Letty soltou uma exclamação de terror e jogou-se de encontro a Alexia.
Ouviu-se uma batida à porta.
Letty não conseguia dizer nada, e Alexia achou que não havia mais por que
continuar a fingir.
— Quem é? — perguntou ela.
— É você, Alexia? — respondeu uma voz.
Alexia, deixando Letty de lado, levantou-se.
Atravessou correndo o quarto e retirou a cadeira. De alguma forma, sem a ajuda de
Letty, conseguiu pôr de lado a cômoda. Então, destrancou e abriu a porta.
Do lado de fora, parecendo tão elegante como se tivesse chegado da Carlton House,
estava o marquês!
— Você. . . veio?! — disse ela, ofegante.
— O que mais esperava que eu fizesse? — perguntou ele entrando no quarto.
O marquês olhou para a cômoda e para a cadeira com um sorriso e dirigiu-se à
cama, onde Letty estava sentada, olhando para ele com medo.
— Você certamente colocou todo mundo em uma grande confusão, minha jovem! —
disse ele, quase asperamente.
Letty sentia-se incapaz de qualquer resposta e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Ela está muito arrependida! — disse Alexia, rapidamente. — O duque foi muito. .
. persuasivo!
O marquês nada respondeu e Alexia perguntou nervosamente:
— O que. . . o que você fez com ele?
— Mandei-o de volta a Londres, com ordens para manter a boca fechada, e não
contar uma só palavra a respeito disto a qualquer pessoa.
— Ele manterá. . . a promessa?
— Se ele não o fizer, ameacei-o não só de desafiá-lo, e ele não é particularmente um
adepto do duelo à bala, como também de informar o conde de Berwick de seu
comportamento.
Alexia soltou uma exclamação de alívio.
82
— Tenho certeza de que você arranjou as coisas de forma a que Letty não perca a
sua reputação.
— Ela certamente torna as coisas muito difíceis — respondeu o marquês —, mas
mesmo assim nós conseguimos salvá-la!
— O que devemos fazer agora? — perguntou Alexia.
— Partiremos para Londres tão logo tenhamos comido e bebido alguma coisa —
respondeu o marquês. — Se Letty achar isso fatigante, não poderá culpar a ninguém, a não
ser a si mesma!
— Sinto, muito. . . muito mesmo. . . ter dado tanto trabalho — disse ela, com voz
trêmula.
— E deve mesmo sentir! — respondeu, asperamente, o marquês. — Vou descer e
mandar vir alguma comida. Sugiro que ambas venham se reunir a mim o mais rápido
possível!
— Nós faremos isso! — disse Alexia.
Ela olhou para o marquês e sentiu que seu coração cantava de alegria por ele ter
vindo, por ter cuidado de tudo.
Agora sentia que não precisava se preocupar com nada, pois tudo estava nas mãos
dele. Ele era tão capaz, tão eficiente, que Letty estava salva!
Sem dizer mais nada, o marquês saiu do quarto. Então, Alexia disse:
— Rápido, Letty! Vamos vestir roupas limpas. Não devemos parecer sujas e feias,
quando estivermos jantando com o marquês!
— Ele está bravo comigo! — disse Letty, com infelicidade.
— Então, você deve ser encantadora e, ao mesmo tempo, contrita e arrependida, de
forma que ele logo a perdoe! — advertiu Alexia.
Ela atravessou o quarto para tirar da valise os vestidos que Letty trouxera, tentando
desamassá-los.
Felizmente, Alexia e Letty tinham quase que o mesmo tamanho e, pouco depois,
ambas estavam descendo as escadas.
Letty vestia um lindo vestido cor de miosótis, que combinava com seus olhos, e
Alexia trajava-se em verde-pálido.
Deixaram a valise arrumada novamente, pronta para ser carregada para baixo por
um carregador.
Assim que elas apareceram, o hospedeiro apressou-se a mostrar-lhes o corredor que
levava ao reservado.
Abriu a porta e elas viram o marquês parado à frente da lareira, com uma taça de
champanhe às mãos.
— Para mulheres, vocês foram surpreendentemente rápidas!
Havia um tom de sarcasmo em sua voz, mas Alexia, com o coração
alegre, percebeu que ele não estava mais zangado.
— Pode servir o jantar agora — disse ele ao hospedeiro.
— Muito bem, milorde — respondeu o homem.
Ele ia fechando a porta, quando o marquês, olhando para o vestíbulo, viu um
cavalheiro conversando com um dos carregadores.
O marquês atravessou o salão, e quando ficaram a sós, Letty perguntou a Alexia:
83
— Você acha que ele ainda está zangado comigo?
Alexia balançou a cabeça.
— Não, tenho certeza de que tudo está bem. Apenas mostre-se muito agradável,
querida, e creio que tudo será esquecido!
Elas esperaram por alguns momentos. Quando o marquês voltou ao reservado,
para surpresa de Alexia, estava acompanhado.
Quem vinha junto era um cavalheiro de aparência muito distinta, da mesma idade
que o marquês.
— Gostaria de apresentar um velho amigo meu — disse o marquês para Alexia —, o
conde Carthew!
Ele virou-se para o conde com um sorriso.
— James, estas são minhas primas, Alexia e Letty Minton!
O conde apertou a mão de Alexia e, depois, voltou-se para Letty.
Por um momento, ficou em silêncio, como que incapaz de dizer qualquer coisa.
Alexia sabia que era isso o que sempre acontecia, quando os homens viam Letty
pela primeira vez.
Então, ela se deu conta de que Letty olhava tão intensamente para o conde quanto
ele para ela.
Mais tarde, Alexia pôde rememorar e achou que presenciara um momento em que
duas pessoas se apaixonavam à primeira vista. De uma forma tão completa, tão total, que
não cabia dúvida a respeito do que acontecera.
O marquês, inconsciente do que estava ocorrendo, virara-se para onde havia uma
garrafa de champanhe mergulhada em um balde de gelo.
— Tenho certeza de que você precisa de um drinque, James — disse ele. — Deve ter
tido um dia exaustivo!
Serviu o champanhe em três taças e encheu novamente a sua. Enquanto Alexia
atravessava a sala para ver se podia ajudá-lo, ele disse:
— Meu amigo veio para Dover a mandado do primeiro lorde do almirantado, a fim
de inspecionar alguns dos navios de guerra de Sua Majestade, que estão guardando o
canal!
— Que interessante! — exclamou Alexia.
— Eu lhe contei — continuou o marquês — que estamos aqui a fim de nos
despedirmos de uns parentes que estão descendo a costa, em direção a Plymouth.
Olhou para Alexia, a fim de verificar se ela entendera o porquê disso, e continuou:
—Naturalmente, na seqüência normal dos eventos, já deveríamos ter voltado para
Londres, mas não tínhamos certeza de quando nosso primo poderia partir, devido à maré.
Mas, agora, podemos voltar para casa, o mais breve possível.
— Sim é claro! — exclamou Alexia, achando que, realmente, o marquês inventara
algo bastante plausível.
Então, ao apanhar uma das taças e levá-la para Letty, notou que sua irmã não
estava prestando atenção a mais nada, a não ser no conde, para quem olhava, como que
enfeitiçada.

84
Na verdade foi um jantar muito estranho, conforme Alexia achou mais tarde. Ela e
o marquês conversavam e o conde juntava-se a eles, ocasionalmente, pois era difícil para
ele conseguir tirar os olhos de Letty.
Letty olhava para o conde, ou baixava os olhos envergonhadamente, parecendo tão
linda, ao fazê-lo, que Alexia podia compreender por que o conde, freqüentemente
interrompia uma frase para pedir que o marquês lhe. repetisse algo.
Quando finalmente o jantar terminou, e as duas subiram para vestir seus chapéus e
capas, Alexia disse:
— Parece que você achou o conde muito agradável, Letty.
— Ele é o homem mais atraente que já vi até hoje! — disse Letty, com uma voz
sonhadora. — Oh, Alexia, você acha que ele me admira?
— Tenho certeza de que sim! — respondeu Alexia
— Mas, agora, como vê-lo novamente? Por favor, por favor, peça ao marquês para
convidá-lo para a Osminton House.
— Tenho certeza de que ele fará isso!
Alexia achava que o marquês não tinha deixado de notar a atração instantânea que
ocorrera entre os dois.
Assim, não ficou surpresa quando, ao se despedirem do conde, ele segurou a mão
de Letty por mais tempo que o convencional
— Eu a verei amanhã — Alexia ouviu-o dizerem voz baixa, enquanto os olhos de
Letty se acendiam.
Houve palmas e uma chuva de pétalas de rosas, quando Letty e o conde
embarcaram na carruagem e partiram da Osminton House.
Eles estavam tão apaixonados, que parecia que toda a festa do casamento havia sido
influenciada por isso, e mesmo os nobres orgulhosos e as senhoras mexeriqueiras
pareciam tocadas, na igreja, como que por um encanto mágico.
Enquanto Letty caminhava pela nave, de braço com o marquês, i seguida por
Alexia, o conde se voltava, para observar sua noiva que i se aproximava e, quebrando o
protocolo, segurou a mão dela, assim que ela o alcançou.
A expressão de felicidade no rosto dele e a alegria no de Letty fizeram com que
muitas pessoas sentissem seus olhos marejados de lágrimas.
A igreja de St. George estava toda envolta em uma fragrância de I lírios e Alexia
achou que, ao lado das vozes dos meninos cantores, podia ouvir os anjos cantando
também.
Intimamente, tinha certeza de que sua mãe estava presente. Nesse momento,
conversou com ela, dizendo-lhe que o que estava acontecendo ; com Letty era tudo o que
queria para a irmã, pois tinha certeza de que : o futuro dela estava assegurado.
Alexia sabia que o conde já tinha sido casado antes, quando era muito jovem, mas
que sua esposa havia morrido sem ter deixado nenhum filho e ele como o marquês, tinha
se decidido a ficar solteiro.
Mas Letty, dissera ele, era a encarnação de seus sonhos, e Alexia achava que ele era
o marido perfeito para sua irmã.
O conde não era apenas bom, mas também protetor. Iria cuidar dela, e mantê-la
segura, e era disso que Letty mais precisava.
85
Como ela não tinha amigas, Alexia foi a sua única dama de honra, e Peter,
juntamente com o sobrinho do conde, que tinha a mesma idade, carregara a cauda do
vestido.
Havia, também, vários pequenos garçons d'honneur, primos e primas, que, vestidos
em cor-de-rosa, pareciam um ramalhete de botões de rosa. ao seguirem Letty pela nave.
Não era apenas um casamento importante, mas muito feliz. E, por isso, Alexia não
tivera tempo, naquelas últimas semanas, para pensar no que faria, ou no que aconteceria,
agora que a temporada estava , terminando.
O casamento de Letty fora realizado às pressas, em virtude de o conde desejar levá-
la para sua propriedade em Oxfordshire, onde iniciariam a lua-de-mel.
Após a festa do regente, Londres estava se esvaziando e não havia razão alguma
para que esperassem até o outono, para se casarem.
A grande festa do príncipe, pela qual tantas pessoas tinham ansiado, na mente de
Alexia diminuíra em importância se comparada com o casamento de Letty. Assim, não
ficou tão impressionada quanto achou que aconteceria.
Como dissera a sra. Featherstone, dois mil convites tinham sido entregues.
— Muitos deles — observara o marquês, com um sorriso — para pessoas que não
estão nem mais vivas!
Os convidados estavam sendo esperados às nove horas, mas ficara difícil chegar à
Carlton House, pois Pall Mall, St. James's Street e o Haymarket estavam congestionados
por carruagens.
Enquanto os convidados eram recebidos no vestíbulo pela criadagem, o marquês,
por sua vez, adentrou até onde estava o próprio regente, que esperava em um salão
decorado com seda azul e flores-de-lis douradas. Isso em razão de a festa 'estar sendo
ostensivamente oferecida à família real francesa exilada.
Alexia foi apresentada aos duques de Berri, de Bourbon e d'Angou- lême, ao
príncipe de Condé, e à única filha sobrevivente de Luís XVI, a duquesa dAngoulême.
No entanto, era difícil não ser atingido pela magnificência de seu anfitrião, que
eclipsava todos os convidados.
Usando o uniforme de marechal-de-campo, uma posição a que sempre aspirava,
mas que lhe fora barrada pelo pai, trazia todas as suas medalhas, além da Estrela da
Ordem da Jarreteira.
Como o marquês e a marquesa-mãe eram muito importantes, durante o jantar
sentaram-se com os duzentos amigos mais próximos do regente, sob lanternas fixadas no
teto do Conservatório Gótico.
Havia tanto o que olhar e tantas pessoas importantes a identificar, que Alexia achou
difícil, mais tarde, lembrar-se do que tinha comido, embora lhe tivessem dito que o jantar
estava excelente, tendo recebido a aprovação, inclusive, do marquês!
Ficara fascinada por algo que estava à frente da mesa do regente: uma minúscula
fonte, cujas águas caíam e formavam um riacho.
O riacho era margeado por musgo, plantas aquáticas, e flores e minúsculos
peixinhos dourados e prateados nadavam sob pequenas miniaturas de pontes.
Tudo tinha sido muito impressionante, mas Alexia continuava a

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pensar nas inúmeras coisas que inúmeras coisas que precisavam preparar, antes
que Letty se casasse, dali a dois dias. E somente ela pensara nisso tudo, pois Letty
continuava pairando em nuvens de amor!
Agora Letty era a condessa de Carthew, e Alexia sentiu as lágrimas brotarem em
seus olhos, enquanto jogava sobre os noivos as últimas pétalas de rosas que havia na
cestinha que trazia às mãos.
— Adeus! Adeus! - gritava Letty.
Seus olhos, vividamente azuis sob um chapéu enfeitado com plumas de avestruz da
mesma cor pareciam brilhar, enquanto ela e o conde partiam.
Alexia permaneceu olhando até eles sumirem de vista.
O chinelo branco que Peter amarrara na carruagem pulava para cima e para baixo,
enquanto muitas pétalas se desprendiam das rodas.
É tudo tão maravilhoso!Como em um conto de ladas!, pensou Alexia.
Então, viu o novo tutor de Peter, um jovem inteligente e charmoso, indo buscar o
menino entre outras crianças que já estavam sendo levadas pelos pais.
Houve ainda um enorme número de pessoas se despedindo, antes que Alexia
finalmente pudesse fiar a sós na biblioteca, juntamente com o marquês e a marquesa-mãe.
Aquele cômodo o não tinha sido usado para a recepção.
O marquês fechou a porta
— Uma taça de champanhe, mamãe? — perguntou ele. — E, então, creio que pode
ir para a cama.
— Tendo intenção de fazer isso — respondeu a marquesa — Foi um casamento
perfeito. Não poder ia ter organizado melhor, querido! Mas estou um bocado fatigada!
— Tendo certeza disso — disse o marques, — E agora que Letty já está arranjada só
há um problema para a senhora!
—Um problema?
— A data de meu casamento com Alexia.
Por um momento, fêz-se um silencio absoluto e total. Tanto Alexia quanto a
marquesa olharam para ele estupefatas.
Então, a marquesa disse:
— Você quer dizer... Oh, Chilton, meu querido, eu rezei tanto para que isso
acontecesse!

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Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

Estendeu as mãos para seu filho e este beijou-lhe as faces.


— Achei que teria sua aprovação, mamãe!
— Minha aprovação! — exclamou a marquesa.
Ela virou-se para Alexia.
— Você é exatamente a esposa que queria para meu filho — disse ela —, e a filha
que queria para mim!
Havia lágrimas em seus olhos e sua voz tremulava.
— Sugiro, mamãe — disse o marquês, com sua voz calma —, que suba e vá para a
cama. Depois que tiver comido alguma coisa, e que eu e Alexia tivermos jantado aqui
embaixo, subiremos e conversaremos com a senhora, para traçarmos nossos planos!
— Nunca fui tão feliz em toda a minha vida! — exclamou a marquesa.
Beijou Alexia, enquanto o marquês lhe oferecia o braço e a conduzia para o
vestíbulo, até o pé das escadas, onde uma criada esperava por ela.
Alexia permaneceu absolutamente quieta, como se seus pés estivessem pregados ao
solo e o salão girasse loucamente à sua volta.
Não podia ser verdade! Devia estar sonhando com tudo isso, embora o marquês o
tivesse dito!
Desde a volta de Dover, ela o vira muito pouco, pois estivera o tempo todo
preocupada com o casamento de Letty, ainda que intimamente se sentisse bem, por estar
junto dele!
Ela sabia, também que ele estava incrivelmente satisfeito consigo mesmo por ter
encontrado o marido ideal para Letty, resolvendo, assim, todos os problemas dela.
Algumas vezes, quando não conseguia dormir, Alexia punha-se a lembrar-se de
que o momento em que deveria voltar para Bedfordshire estava se aproximando cada vez
mais!
Isso a oprimia, pois significava que nunca mais iria ver o marquês.
Antecipando a dor desse momento, quando deveria dizer adeus, ela procurava
guardar cada visão que tinha dele, cada palavra que ele lhe dirigia, repetindo-as para si,
assim que ficava sozinha.
— Eu o amo! — dissera ela muitas vezes, em voz baixa e desesperada, em meio
à escuridão.
Eu o amo, mamãe!, dissera mentalmente muitas vezes em suas preces. Mas o que
posso fazer?
O marquês voltou para o salão, fechou a porta e ficou olhando para ela.
Os olhos de Alexia pareciam tomar-lhe todo o rosto. Então, muito simplesmente,
sem palavras, ele estendeu os braços.

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Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

CAPÍTULO VII

Por um momento, Alexia sentiu como se não pudesse se mover!


Então, seus pés criaram asas e ela correu para o marquês! Enquanto ele a enlaçava,
virando-lhe o rosto para si, seus lábios pousaram nos dela.
Alexia sabia que era por isto que tinha rezado, ansiado e implorado, e que se
mostrava mais maravilhoso do que imaginara ser!
Não imaginara que um beijo pudesse fazê-la sentir como se um raio de luz a
estivesse trespassando, tornando-a intensamente viva!
Tudo era tão extasiante, tão perfeito, que ela achou que aqueles anjos que tinham
estado a cantar no casamento de Letty estavam agora à volta deles. Parecia-lhe que os
lábios do marquês eram parte da música, de beleza, de tudo o que pensara estar fora do
seu alcance!
Devia ter transcorrido um minuto ou um século, até que ele levantasse a cabeça e
olhasse para ela.
Ela tremeu junto ao corpo dele e, depois de um momento, perguntou
incoerentemente:
— Isso . . . é verdade?
— Se quer saber se desejo me casar com você, Alexia, saiba que não posso encarar a
vida sem você. E tenho certeza, minha querida, que o mesmo lhe acontece!
Ele a puxou um pouco mais para junto de si e disse:
— Você me apresentou vários problemas para resolver, dos quais o mais importante
era você mesma. Agora, eu tenho a solução ideal!
Havia uma nota de felicidade em sua voz, que Alexia nunca vira antes. Então, como
se tivesse medo de afirmar isso em voz alta, ela murmurou:
— Oh, amor. . . beije-me novamente. . .
A marquesa de Osminton atravessou o gramado de mãos dadas com seu marido.
Com o vestido branco que tinha usado para o casamento, Alexia parecia não só tão
linda, mas tão etérea, que o marquês achou que fazia parte da neblina que se levantava do
lago.
Mas ela olhou para ele com tal expressão em seus olhos cinzentos, que Chilton se
certificou de que era mesmo real e humana!
Para Alexia, era uma alegria perceber que finalmente estava a sós, após um dia
repleto de coisas maravilhosas, das quais iria sempre se lembrar.
Tinham se casado na pequena igreja cinzenta que ficava junto aos portões do
castelo, e havia sido uma cerimônia muito diferente da do casamento de Letty.
Os convidados tinham sido apenas os parentes do marquês e alguns amigos íntimos
que viviam nas imediações.
Como não houvesse ninguém a quem Alexia conhecesse muito bem, ela atravessou
a nave já de braços com o marquês.
O clérigo que os havia casado era o velho pastor da paróquia, que conhecia o
marquês desde que este era garoto.

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Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

Não houve coro, embora tivesse parecido a Alexia que não só os anjos tinham
estado presente, como também seus pais.
Quando o marquês pronunciou os votos em voz profunda, que demonstrou a ela
estar ele comovido pelas lindas palavras, Alexia sentiu que estava lhe entregando não
somente seu coração, que ele já possuía, mas também sua alma!
Eu o amo!, quis ela dizer.
Estas eram as palavras que repetia infinitamente, não só para ele, como também em
suas preces.
Essas consistiam em agradecimentos a Deus por ter lhe enviado um homem tão
maravilhoso, que ela quase não acreditava que não estivesse sonhando, e que não
acordaria de repente e veria, através de sua janela, a monótona paisagem de Bedfordshire.
Saíram da igreja e se dirigiram ao banquete, servido no imenso salão nobre do
castelo, onde os ancestrais dos Minton olhavam para eles de seus retratos com aprovação,
segundo esperava Alexia.
O marquês fez um discurso que fez todo mundo rir. Depois, os convidados
brindaram à saúde dos noivos e Peter, que estava provando champanhe pela primeira vez,
declarou que não gostava e que preferia limonada.
Letty viera para o casamento, de Oxfordshire, parecendo tão radiante e feliz, que
Alexia percebeu que nunca mais sua irmã teria problemas.
— Estar casada é maravilhosamente excitante, Alexia — disse ela. — Sei que você
achará isso, também!
Quando o almoço terminou, já bem no final da tarde, Alexia e o marquês disseram
adeus aos convidados e, finalmente, à marquesa-mãe.
A marquesa-mãe estava dizendo a Peter e ao tutor que deveriam ficar com ela, até
que a lua-de-mel terminasse.
O menino estava dividido entre a excitação de viajar através do país para um lugar
diferente e deixar atrás o cavalo que o marquês lhe dera.
— Você deve conversar com Pégaso todos os dias, Alexia — disse ele, solenemente
—, e dizer-lhe que estarei pensando nele!
— Eu farei isso — disse Alexia, com um sorriso.
Peter abraçou-a e, então, agarrou-se às pernas do marquês.
— Eu voltarei logo e o ajudarei com os cavalos! — prometeu ele.
— É muita gentileza sua — respondeu o marquês.
Alexia observava ansiosamente. Tinha medo de que o marquês começasse a achar
Peter um estorvo.
Mas ele o agarrou e o colocou no lombo de um dos cavalos, onde já estavam as
varas da carruagem com a qual a marquesa-mãe viajaria para casa.
— Isso impedirá que ele faça qualquer travessura, até que mamãe parta! —
observou o marquês, com um sorriso.
— Creio — disse a marquesa-mãe, antes de partir — que, com exceção do dia do
meu próprio casamento, este foi o dia mais feliz da minha vida!
Olhou para seu filho, com um sorriso, e completou:

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Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

— Eu costumava lhe dizer, quando você era um garotinho, que sua mãe sabia mais.
Agora, você tem que admitir que, quando insisti em acompanhar essas duas jovens, eu
estava certa!
— A senhora estava totalmente certa, mamãe — respondeu o marquês —, e eu
prometo, aqui e agora, nunca mais discutir com a senhora!
A marquesa-mãe riu.
— Isso é uma promessa que você, certamente, não cumprirá, meu querido. Mas
você sabe que, ainda que procurasse por todo o mundo, não encontraria esposa mais
perfeita do que Alexia!
— Eu procurei no mundo todo por ela — respondeu o marquês —, e fiquei
convencido de que ela, realmente, não existia!
A marquesa-mãe partiu, mas Peter, ao invés de se sentar ao lado dela, preferiu ficar
junto com o cocheiro, para fingir que dirigia.
Depois que eles sumiram de vista, Alexia e o marquês dirigiram-se ao grande
barracão, onde os empregados da propriedade estavam se divertindo.
Havia grandes barris de cerveja e cidra e todas as faces sorridentes estavam rosadas
e brilhantes, não só por causa do calor, mas pelo tanto que tinham comido e bebido.
Lá, o marquês fez outro discurso e foram aplaudidos, até que parecesse que as vigas
do barracão iriam desabar com o barulho.
Mais tarde, eles retornaram ao castelo, o qual agora, em contraste, parecia muito
calmo.
Mas Alexia sentia que a atmosfera estava repleta de impressões daqueles que
tinham vivido ali, no passado, e dos quais tinha herdado o nome de família.
Tinha certeza de que eles estavam saudando e, à medida que atravessava os salões
repleto de flores, sentia que já fazia parte daquilo.
Quando parou no magnífico salão, o marquês veio ter com ela.
Acho que você deve estar cansada, minha querida — disse ele —, mas há algo que
gostaria de lhe mostrar. Esperei todo o dia para isso!
Alexia olhou para ele interrogativamente e o marquês a tomou pela mão e a
conduziu, através de uma das grandes janelas, para o jardim.O sol tinha se posto
gloriosamente e agora restavam apenas os últimos toques de púrpura entre as grandes
árvores do parque.
No céu, a translucidez do dia estava sendo substituída pela noite e a primeira
estrela brilhava sobre a velha e imensa torre de pedra que permanecera do castelo
originário.
Ouvia-se o som das últimas gralhas se recolhendo e sentia-se a fragrância pesada
das flores no ar parado.
Após terem caminhado um pouco em silencio, o marquês perguntou:
— O que a está preocupando?
— Como sabe que estou preocupada? — perguntou Alexia.
— Posso senti-lo — respondeu o marquês —, e nem mesmo preciso olhar em seus
olhos, minha querida, para saber o que está pensando.
Alexia não respondeu e ele disse, com um tom divertido na voz:
— Tem outro problema para mim?

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Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

— Não. . . realmente... um problema!


— Diga-me!
Alexia chegou-se um pouco mais perto e seus dedos comprimiram-se aos dele.
— Estava pensando — disse ela, após um momento — em como tudo isto é
magnífico. . . no quanto você me deu e como eu sou felizarda!
Fez uma pausa, mas o marquês nada disse, pois sabia que ela ainda não terminara o
pensamento.
— Estava imaginando como poderia provar-lhe que, mesmo que você não tivesse
nada, eu o amaria tanto quanto agora!
O marquês percebeu a emoção dela, e, quando respondeu, sua voz era profunda. Eu
responderei à pergunta um pouco mais tarde — disse ele —, e você poderá provar seu
amor, minha querida, como deseja fazer!
Nisso, Chegaram ao fim do gramado, que se estendia até um cinturão de árvores à
volta do castelo, como que formando uma cerca protetora.
Havia alguns degraus que conduziam a uma cascata que corria por sobre as pedras
até uma piscina de mármore.
Ainda segurando a mão de Alexia, o marquês escalou os degraus e ela viu que, no
topo deles, havia uma plataforma com um banco junto a uma estátua de Diana, a
Caçadora.
Ao perceber que era isso que o marquês desejava, Alexia sentou-se. Então, olhou
para o caminho por onde tinham vindo.
Imediatamente abaixo deles estava o castelo: um triunfo arquitetônico de torreões e
torres, tetos e chaminés projetados contra o céu.
Além dele estava o lago, com seus cisnes brancos e negros, e mais para diante o
grande parque, onde veados selvagens descansavam à sombra das velhas árvores.
Era tudo tão bonito, que Alexia percebeu por que o marquês a trouxera para ali.
Ele observava a expressão do rosto dela ao dizer:
—Toda noite, quando eu vivia no castelo, vinha até aqui, para apreciar esta vista,
que, para mim, é a de que mais gosto em todo o mundo. Embora eu dissesse a mim
mesmo que era completa, sabia que, embora não admitisse isso, algo fazia falta. Era você!
Alexia levantou o rosto para ele e disse:
—Tudo que diz respeito a você é tão bonito, tão perfeito que penso se não deveria
ter se casado com Letty.
O marquês enlaçou a, puxando-a para perto de si.
—Embora pense que Letty é a garota mais bonita que já vi — disse ele, ela não
marcou o coração , como você desde o momento que entrou na biblioteca, em Londres.
—Foi o que. . . fiz?
—Você se tornou parte de meu coração, embora eu não quisesse admitir isso para
mim mesmo. Mas quis ajudá-la, quis protegê-la, e nunca havia feito isso anteriormente,
para qualquer mulher.
Alexia sentiu uma pontada de ciúmes, ao pensar em todas aquelas mulheres -
bonitas que estado na vida dele, mas o marquês continuou:

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Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

—Então, ao conhecê-la melhor, minha mente foi cativada pela sua. Creio que nunca
tinha imaginado que uma mulher pudesse pensar tão seriamente como você, em assuntos
que sempre couberam aos homens
—Não gosta que eu me interesse por essas coisas? — perguntou Alexia.
—Isso irá ajudar-me e inspirar-me mais nessa direção.
—Ela soltou uma exclamação de prazer e o marquês continuou:
— Tendo cativado meu coração e minha mente, querida esposa, há algo mais, que é
um pouco difícil de explicar.
Alexia olhou para ele interrogativamente e o marquês disse:
— Hoje, quando nos casávamos, estava pensando, na igreja, que você se parece com
aqueles lírios que estavam sobre o altar. Nunca senti isso por nenhuma outra mulher, com
exceção de minha mãe!
Alexia comprimiu as mãos, ao dizer:
— Está me deixando com medo. . . de desapontá-lo. Você é tão inteligente e tão
esperto, e eu tão ignorante. . . sobre tantas coisas...
— Sobre o quê, em particular? — perguntou o marquês.
Alexia desviou o rosto, de forma que ele pôde ver apenas o perfil dela projetado
contra o verde das árvores.
Os olhos do marquês pousaram em seu nariz reto e aristocrático e em seu queixo
firme.
Então, deteve-se na maciez daqueles lábios, os quais nunca tinham sido tocados por
outro homem que não ele.
Ela era tudo que eu queria encontrar em uma esposa, pensou.
— O que está tentando me dizer? — perguntou, em voz alta.
Houve silêncio, até que, em voz baixa, Alexia respondeu:
— Estava pensando que o castelo é tão grande. . . e que deveria haver crianças lá. . .
brincando de correr entre as galerias... e descendo pelos corrimãos das escadas. . .
O marquês nada disse e, após um momento, ela continuou:
— Sei que sua mãe deseja que você tenha um filho. . . mas, embora tenha se
mostrado tão bom com Peter, pensei que. . . talvez. . . não gostasse de crianças. . .
Sua voz era hesitante e o marquês sabia que estava sendo difícil para ela dizer tais
coisas a ele.
— Antigamente, antes de conhecer você — disse ele —, eu achava que crianças
poderiam destruir a minha vida tão bem organizada, mas agora, porque a amo, minha
querida, creio que não haverá nada de mais maravilhoso que ver você segurando meu
filho em seus braços!
— E se for. . . uma menina?
— Nesse caso — respondeu o marquês —, obviamente teremos que tentar
novamente!
Havia um tom alegre em sua voz, mas Alexia não virou a cabeça e o marquês
percebeu que alguma coisa ainda a perturbava.
— Diga-me — disse ele, gentilmente.
— Você diz que sou inteligente respondeu Alexia —, mas vai achar muito tolo de
minha parte. . porque eu não sei muito bem. . . como se tem um bebê!

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Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

O marquês nada disse c ela continuou, cheia de vergonha:


— Achei que deveria conversar sobre isso com Letty, antes que ela se casasse... mas,
como mamãe morreu, não havia ninguém a quem perguntar essas coisas. Fui muito
irresponsável em ter permanecido quieta?
— Creio que, tendo visto como ela parece feliz, sabemos que James compensou a
sua deficiência neste assunto.
Ao falar, achou que sua comparação de Alexia com um lírio tinha sido mais
perceptiva do que imaginara.
Por muito tempo estivera ligado àquelas mulheres que compunham o grupo
libertino que cercava o regente em Carlton House. Por isso, tinha se esquecido de que
existiam garotas tão inocente e puras quanto Alexia.
Mas, intimamente, sabia que isso era o que desejava em sua esposa.
Achou tão fascinante, tão deslumbrante o fato de ela estar desviando o olhar em
virtude de sua vergonha que, por um momento, suas próprias emoções pareceram mais
fortes que ele mesmo.
Tocou o queixo de Alexia e virou o rosto dela em direção ao seu.
—Eu a amo, minha querida!— disse, — Eu a amo tão intensamente, tão
completamente, que levarei toda a vida para dizer o que significa para mim!
—Eu o amo também! — murmurou Alexia — Mas não consigo encontrar palavras
para traduzir isso!
—Eu já lhe disse que seu vocabulário é limitado! — disse o marquês, com um
sorriso. Mas o meu contém uma palavra que nunca disse a ninguém, desde que era
menino, a não ser para minha mãe
—Você é parte da minha alma. Isso é o que quero lhe dizer. Meu coração, minha
mente e minha alma pertencem a você. Assim, você preenche meu mundo, toda a minha
existência, agora e até a eternidade!
— Oh... Chilton!
Alexia quase não conseguiu pronunciar o nome, pois seus olhos já estavam repletos
de lágrimas.
— Estou tão feliz... que quero chorar — murmurou ela. — Tão feliz, que tudo isso
parece poderoso demais para que consiga entender. Apenas sei que eu o amo!
— É só o que quero que me diga.
Ela colocou sua cabeça contra os ombros dele.
— O que preciso é de palavras... palavras que expliquem que, quando você me
beija... quando me toca... é como estar sendo levada aos céus, para o interior do sol!
O marquês pressionou seu lábios contra a testa de Alexia, mas não a interrompeu:
— Sinto que o coração do sol. . . está em você... e em mim, e isso parece mais
glorioso e intenso que o próprio fogo!
— E então?
— É muito difícil de explicar — disse Alexia. — Não quero que pare de me beijar. —
Quero que me beije mais e mais... e quero estar junto de você... tão junto que faça parte de
você e você de mim!
O marquês suspirou.

94
Barbara Cartland – 35 - Conflitos de amor

Havia um toque de paixão sob as palavras de Alexia que ela não compreendia, mas
ele sim!
Ele levantou-se e a puxou.
— Vamos ficar juntos, minha querida, tão juntos que eu possa fazê-la compreender
que é minha completamente, e que somos indivisíveis.
Ao falar, enlaçou-a e seus lábios procuraram os dela.
Beijou-a, a princípio como se ela fosse algo de muito precioso e sagrado, e que
tivesse medo de amedrontá-la.
Então, à medida que a sentia chegar-se para mais perto de si, sabendo que ela
despertara o coração do sol em seu íntimo, seus lábios tornaram-se mais apaixonados e
mais insistentes.
A noite os envolveu e as estrelas brilhando acima de suas cabeças pareciam fazer
parte da mágica que havia em seus corações.
Então, com uma voz muito profunda, que parecia estranha a si mesmo, o marquês
disse:
— Vamos para casa, minha querida esposa, e eu resolverei último problema, não
com palavras, mas com muito amor!

Fim...

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