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Daspu

A moda sem vergonha


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Daspu
A moda sem vergonha
Flavio Lenz

Patrocínio
Copyright © 2008 Flavio Lenz
COLEÇÃO TRAMAS URBANAS
curadoria
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
consultoria
ECIO SALLES
projeto gráfico
CUBÍCULO
DASPU – A MODA SEM VERGONHA
produção editorial
ROBSON CÂMARA
revisão
CAMILA KONDER
revisão tipográfica
ROBSON CÂMARA

L59d
Lenz, Flavio
Daspu : a moda sem vergonha / Flavio Lenz. - Rio de Janeiro :
Aeroplano, 2008.
(Tramas urbanas)

ISBN 978-85-7820-005-3
1. Daspu (Marca) - História. 2. Prostitutas - Vestuário. 3. Moda -
Estilo - Aspectos sociais. 4. Moda - Aspectos sociais. I. Título. II.
Título: A moda sem vergonha. III. Série.

08-2093. CDD: 391


CDU: 391
27.05.08 28.05.08 006823

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


AEROPLANO EDITORA E CONSULTORIA LTDA
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Nas tantas periferias brasileiras – periferia urbana, peri-
feria social – se reforçam cada vez mais movimentos
culturais de todos os tipos. Os mais visíveis talvez sejam
os de alguns segmentos específicos: grupos musicais,
grupos cênicos, grupos dedicados às artes visuais. Mas
de idêntica importância, embora com menos visibilidade,
é a produção intelectual que cuida, além de questões
artísticas, de temas históricos, sociais ou políticos.
A coleção Tramas Urbanas faz, em seus dez volumes,
um consistente e instigante apanhado dessa produção
amplificada. E, ao mesmo tempo, abre janelas, estende
pontes, para um diálogo com artistas e intelectuais que
não são originários de favelas ou regiões periféricas dos
grandes centros urbanos. Seus organizadores se propõem
a divulgar o trabalho de intelectuais dessas comunidades
e que “pela primeira vez na nossa história, interpelam, a
partir de um ponto de vista local, alguns consensos ques-
tionáveis das elites intelectuais”.
A Petrobras, maior empresa brasileira e maior patroci-
nadora das artes e da cultura em nosso país, apóia essa
coleção de livros. Entendemos que é de nossa responsa-
bilidade social contribuir para a inclusão cultural e o for-
talecimento da cidadania que esse debate pode propiciar.
Desde a nossa criação, há pouco mais de meio século,
cumprimos rigorosamente nossa missão primordial, que
é a de contribuir para o desenvolvimento do Brasil. E lutar
para diminuir as distâncias sociais é um esforço impres-
cindível a qualquer país que se pretenda desenvolvido.
Renego a santidade. Sonho com a puta inteira, grandiosa e fundamental.
Gabriela Leite

O desejo de vestir Daspu vai muito além da vontade de consumir a marca. Há


um desejo de compartilhar a linguagem dos gestos pornográficos, as fanta-
sias, o erotismo, os prazeres da noite. Moda como gesto e não como discurso.
Elaine Bortolanza

Eu sou o único presidente das putas.


Waldo Cesar, em memória
Sumário
10 Prefácio – André Villas-Boas
18 Apresentação – O preconceito pelo avesso

24 Cap.01 Até Puta!?


28 Cap.02 Grana, Política e Cultura
42 Cap.03 De Bar em Bar
56 Cap.04 O Tempo é o Tempo
68 Cap.05 Fim de Ano de Doido
84 Cap.06 Periferia Central
102 Cap.07 Vendendo e Aprendendo
108 Cap.08 Rock, Samba e Funk
126 Cap.09 Um Passo Adiante
140 Cap.10 Daspu na Pista
156 Cap.11 Show no Glória e Sedução Daslu
170 Cap.12 Os Europeus, o Comércio e o Vestido de Noiva
186 Cap.13 O Trem, a Atriz e uma Puta Arte com a Lingerie
196 Cap.14 As Mulheres Perdidas são as Mais Procuradas
210 Cap.15 Consultores, Estudantes e Cooperativados
218 Cap.16 Imagem e Público
224 Cap.17 A coleção Fantasma
232 Cap.18 De Dentro para fora e de fora para dentro
238 Cap.19 Na Medida do impossível
244 Cap.20 Sem choro nem vela, com Marias e Rosas

250 Linha da vida


258 Legendas e créditos de imagens
262 Sobre o autor
Agradecimentos

Agradeço a todas as pessoas que pacientemente deram entre-


vistas ao autor, contribuindo para a montagem de uma história
viva de tantas protagonistas. Algumas delas – especialmente
as queridas dasputinhas, que põem a cara e a coragem nas
passarelas e passeatas – foram assediadas repetidas vezes,
gravador à frente, sempre demonstrando boa vontade. O leitor
identificará por nome e sobrenome os entrevistados. Adianto
apenas um, o da arquivista Maria José Lessa, porque também
ajudou na busca e seleção de documentos e reportagens que
animaram as recordações.

Aos fotógrafos amadores e profissionais que cederam as ima-


gens, também agradeço. Elas contribuem, e muito, para ampliar
os esforços textuais do autor.

André Villas-Boas, o prefaciador e atento leitor, deu valiosas


sugestões. A ele também sou agradecido por encontrar subver-
sões na minha “prática”, surpreendentes para quem não se dava
conta delas.
Heloisa Buarque de Hollanda, que pelos destinos é a minha
primeira editora em livro, como foi de minha irmã, Ana Cristina
Cesar, acreditou e incentivou sempre (até com exagerados elo-
gios), mesmo quando os ponteiros do tempo giravam no sentido
anti-horário. Robson Câmara, também da Aeroplano Editora,
brindou-me com um cuidadoso acompanhamento e com paci-
ência zen, entremeada pelo tom aflito da urgência industrial.

Agradeço também a meu filho, Rafael Cesar, que presenciou


boa parte do esforço desta escritura, sempre estimulando
minha teimosia. Ele esteve presente em muitos dos momentos
descritos no livro e aparece em algumas páginas dele.

E pela memória extraordinária, que preencheu as lacunas da


minha, ordinária, das reportagens, documentos e até de lembran-
ças de outros protagonistas, devo um especialíssimo agradeci-
mento a minha companheira, Gabriela. Obrigada (não por acaso)
a conviver com um atormentado e obsessivo autor de primeira
viagem, teve uma incrível paciência para me ajudar a montar o
quebra-cabeça (que felizmente ela adora), mesmo quando cro-
chetava, jogava ao computador ou lia seus policiais preferidos.
A meu crédito, acredito que nunca a interrompi enquanto escrevia
o seu próprio livro.

A você, Gabi, também agradeço por ter me levado para esta vida
de verdade e paixão.
Prefácio

O trabalho com o qual você está prestes a entrar em contato


não é nem uma obra formal de análise da original experiência
de militância política representada pela Daspu nem um festivo
desenrolar dos êxitos de uma marca que, pelas bênçãos de uma
mídia fundamentalmente interessada em vender seus jornais,
revistas e programas, caiu nas graças de parte considerável da
população urbana. Ele é, no fim das contas, um livro de memó-
rias em formato jornalístico.

O que Flavio assumidamente faz é como que tomar um chope com


o leitor, desfiando passagens de uma história que de cara des-
perta curiosidade em qualquer um. E, que ao ser pormenorizada,
não decepciona. De saída, ela trafega entre cenários que partem
da rua Imperatriz Leopoldina, na Praça Tiradentes – a principal
área de prostituição na qual atuam os protagonistas –, até o gabi-
nete do Secretário-Geral da ONU (ra-rã: não há exagero algum
nisso, e está logo no início do livro). E que passa ainda por Veneza
e por Liubliana, nos cafundós da Eslovênia (é a capital de lá).
Também está logo no início: as putas da Praça Tiradentes – em
nome das quais fala Gabriela Silva Leite, a líder da ONG Davida
(que está por trás da Daspu) – acabaram sendo as responsá-
veis por decisões de Estado justificadas pela soberania nacio-
nal e que significaram a recusa formal (portanto, explícita) do
governo brasileiro em adotar a doutrina moral de Bush. De novo,
sem qualquer exagero no episódio, e Flavio o relata ao lado de
outros, como o da puta que se assumiu soropositiva e desistiu
de entregar-se ao definhamento depois de ver sua foto estam-
pada em quase página inteira de jornal lado a lado à de Gisele
Bündchen. E não há pieguice alguma no relato, há vida.

Ou o do vestido de noiva (branco!) formado por lençóis de hotéis


de programa e que acabou correndo o mundo exposto em bie-
nais e mais bienais de arte. Ou o da famosíssima estilista fran-
cesa (rodrigueanamente chamada Fifi; isto mesmo: o nome da
estilista é Fifi. Fifi!!!) que entrou e saiu de uma parceira comer-
cial com as putas porque (gringamente) não entendeu nada
do que se passava, e subiu nos tamancos (obviamente, se os
usasse) quando finalmente percebeu que as roupas da Daspu
não pretendiam desputar as putas, mas afirmar sua cidadania
como putas. Ou do músico que, sem conhecer ninguém, compôs
um funk em homenagem à Daspu trancado no banheiro numa
madrugada, suando às bicas, e, para comemorar a conclusão da
obra, masturbou-se freneticamente pensando nas putas mais
gostosas que havia comido na vida. Esta história, obviamente,
o autor não viu nem viveu, mas ouviu do próprio músico, que
com ela quis mostrar seu respeito e carinho pelas meninas. E
efetivamente mostrou.

Os ingredientes da narrativa de Flavio parecem de uma ficção


desvairada, mas não são – assim como, embora perfilados aqui
possam parecer, também não o são de uma descompromissada
crônica sobre esquisitices tropicais. Ao contrário disso, trata-se
mesmo de um chope, no que de mais sério ele efetivamente
é: aquela ocasião em que, reunidos em torno de uma mesa e
12 Daspu – a moda sem vergonha

fingindo que estamos jogando conversa fora, nos sentimos livres


para beber nossos sucessos e fracassos e, africanamente, nos
renovarmos impregnando-nos deles.

A comparação com o chope – e a compreensão de que, ao con-


trário do que parece, ele está entre os momentos mais decisi-
vos de nossas vidas – não é mera retórica. Flavio é um narrador
privilegiado dessa história por razões múltiplas. Como ativista,
esteve presente em praticamente todos os momentos impor-
tantes (e, na maior parte das vezes, foi um dos sujeitos deles).
Como assessor de imprensa do Davida, foi (e é) o principal inter-
locutor com a mídia (o deuteragonista do fenômeno Daspu).
Como marido de Gabriela, teve conversas de travesseiro que
atuaram decisivamente nos rumos dos acontecimentos. Mas
também se credencia como narrador porque é um bom bebedor,
e foi nessa condição que continuamente refez cada episódio
dessa jornada, reelaborando criticamente a experiência vivida,
em conjunto com os demais personagens.

Certamente soa estranho – e talvez folcloricamente carioca –


avalizar um autor por sua condição de bom bebedor. Ou assumir
a legitimidade dos bares como alguns dos principais espaços
das reuniões, avaliações, criações, decisões e conflitos que se
desenrolam ao longo das páginas. E é mesmo estranho, porque
estranhas são estas estratégias com que tem trabalhado parte
dos movimentos sociais nas últimas décadas – e que acadê-
micos localizados na trincheira dos estudos culturais (na qual
estou) volta e meia chamam de políticas estéticas. Ou seja:
estratégias políticas de afirmação de identidades e de direi-
tos à cidadania que não se limitam às formas tradicionais do
ativismo político (ou mesmo as substituem de todo, em certos
casos), desgastadas com os poucos êxitos e as sucessivas der-
rotas da esquerda no terço final do século passado.

Outro movimento – também ligado à sexualidade, como o


das putas – é freqüentemente apontado como modelo desta
nova configuração: o dos homossexuais. É na estética de suas
Prefácio 13

passeatas coloridas, fantasiosas, financiadas pela iniciativa


privada na área do lazer (isto é, do prazer), que se impõe a forte
afirmação identitária que elas objetivam. Mas esta afirmação
também se impõe – e, na realidade, fundamentalmente – na
própria expressão da sexualidade em praça pública. E estou
falando bonito para referir-me a questões muito (e literalmente)
palpáveis: a exposição de corpos, volumes e pegações. A pró-
pria substituição do termo passeata por parada (herança do
movimento gay norte-americano) indica esta alteração – seja
ela interpretada como uma ofensiva conservadora (uma forma
de despolitização do indespolitizável) ou, ao contrário, como
opção expressa por novas formas de avanço da politização.

Um dos aspectos do fenômeno Daspu é justamente este, no


qual ele se configura num inusitado ativismo político, viabili-
zado por meio de uma marca de roupas e de desfiles de moda
de caráter espetacular. Os desfiles da Daspu têm o mesmo sen-
tido que tinham aquilo que nos anos 1960 e 1970 eram chama-
dos de “manifestações”. Porém, a comparação termina aí, como
Flavio sinaliza numa passagem de seu texto. O público presente
nessas novas manifs as percebe e as vivencia de maneira bem
diversa: “as pessoas saíam do teatro [no qual se realizara um
desfile] direto para as compras [das roupas da Daspu], mobili-
zadas e pegas de surpresa por uma forma de ação distanciada
dos usos e costumes da militância social”.

Não há novidade alguma na realização de espetáculos ou ativi-


dades artísticas e de lazer por movimentos políticos. Esquerda
e direita utilizaram tal tática corriqueiramente: basta lembrar
os construtivistas russos dos primeiros anos da Revolução de
Outubro e a exuberância dos comícios do III Reich, que até hoje
impressionam (e atraem) por si mesmos. Ou, no Brasil, a pro-
moção da seleção canarinho pela ditadura militar ou os CPCs
organizados pela UNE e pelo PCB. A novidade não reside na
ocorrência destas táticas, mas na sua transformação em estra-
tégia. A conformação estética não é mais um “braço cultural” do
14 Daspu – a moda sem vergonha

movimento, mas tornou-se o próprio movimento. Gays não orga-


nizam paradas para atrair massa para assembléias políticas,
nem putas fazem desfiles para arregimentar abaixo-assinados.
Dançar ou desfilar, seja de tanguinha prateada ou de vestido
de noiva com logotipos desbotados de hotéis de encontro é a
própria ação política.

Há ainda um outro dado instigante no livro: um encadeamento


de instâncias tradicionalmente estanques e refratárias, que se
imbricam umas às outras de forma tal que é impossível com-
preender umas sem as outras e mesmo delimitá-las entre si.
Política, sobrevivência, prazer, sexo e família formam um todo
que perpassa a narrativa do início ao fim e também a ação dos
personagens – e isso toma maior relevância porque, afinal,
estamos falando de putas, e de putas de rua. Ainda que alguns
momentos importantes do percurso da Daspu ocorram em
gabinetes de secretário-geral e refrigeradíssimos estúdios de
televisão, é mesmo pela Rua Imperatriz Leopoldina que eles se
justificam e dela não se desvinculam, pelo próprio posiciona-
mento político de seus protagonistas.

Isto significa que estamos falando de um ativismo político que


se dá em meio a hotéis de programa e seus lençóis manchados,
lufadas mal-cheirosas que escapam de bueiros, pés-sujos e
seus copos volta e meia marcados de batom, porres que chegam
a varar madrugadas e decotes tão generosos quanto suados. É
com estes dados em vista que se deve levar em conta a imbri-
cação destas instâncias. E que é demonstrado pela observação
final da ativista – remunerada em nome da ONG – ao contar
como alguns hotéis de programa a receberam bem quando foi
pedir colaboração para a confecção do vestido de noiva: “Só não
rolou uma cortesia, eu estava sozinha”, ela lamenta. Se pintasse
alguém que valesse a pena, talvez até desse para aproveitar a
ocasião e dar uma rapidinha sem pagar o quarto. Por que não?

A primeira destas sobreposições é, obviamente, a de sexo


e sobrevivência. Num ambiente de putas, come-se a carne
Prefácio 15

justamente onde se ganha o pão – e isto faz a enorme diferença


que as torna socialmente um grupo à parte. Mas a primeira
delas que me chamou a atenção no texto de Flavio é a imbrica-
ção da política e da sobrevivência (ou seja, o trabalho): Flavio
se “localiza” como ativista político nas mesmas situações nas
quais fala como assessor de imprensa do Davida, e vice-versa.
A separação entre as duas esferas está na gênese da sociedade
burguesa – desde o Kant de O que é o Esclarecimento e seu “uso
público da razão” – e está no nosso dia-a-dia: não cabe a um
taxista afirmar-se politicamente quando na posição de taxista
(ou seja, no exercício de seu trabalho), sob pena de pôr para fora
do carro o passageiro que, segundo suas convicções, defende
posições que contrariam o bem comum. Uma vez, tive o azar de
me deparar com um motorista que não devia saber dessa regra
básica e, por conta de sua defesa das privatizações das teles,
me vi com três sacolas repletas de livros na beira do Canal do
Mangue, onde não passa táxi vazio e muito menos há pontos
de ônibus. “Ser profissional” é, então, executar plenamente as
tarefas do trabalho ao qual alguém se propõe, independente-
mente de suas convicções pessoais (sejam políticas, morais,
religiosas etc).

No caso do Autor, isso chama mais a atenção por ele ser um


jornalista e apresentar-se como tal: “seja profissional” é um
imperativo freqüente no dia-a-dia das redações, e não há qual-
quer estranhamento nisso no ambiente jornalístico. Um bom
jornalista é antes de tudo um profissional – ou seja, aquele cujo
“profissionalismo” pressupõe o descomprometimento para com
as conseqüências da própria ação, pois em nome de tal mérito a
ação é desvinculada de qualquer instância externa à tarefa, seja
ela política, ética, moral e por aí vai. Vivi os últimos momentos
de minha carreira como jornalista quando Lula disputava com
Collor a presidência da República. Nessa época, convivia na
redação do jornal com um personagem que lembro com cari-
nho, dada a condição absurda que ele vivia como subeditor da
editoria de política. Até as 16h, ele era um militante petista.
16 Daspu – a moda sem vergonha

Mas, a partir deste horário, todos os dias, ao iniciar sua jornada


de trabalho, ele fazia campanha para Collor, à qual o jornal se
dedicava quase abertamente.

Tal contradição, obviamente, não é exclusividade de jornalistas.


Sei de uma engenheira química que forja sabores, odores e
cores para alimentos industriais, mas que em casa provê a famí-
lia apenas de produtos dados como naturais. E eu mesmo, como
professor, já tive momentos em que omiti dadas convicções
justamente por estar na posição de professor. Talvez a diferença
esteja no alcance desse profissionalismo – o que, em outros
tempos, chamávamos rotineiramente de alienação do trabalho.

A prática de Flavio subverte esse pressuposto da esfera produ-


tiva ao sobrepor as duas instâncias como uma só – e refiro-me
exclusivamente a ele porque, sendo o Autor, a ele coube tornar
esta subversão permanente para o leitor. Mas sua prática tam-
bém subverte outra dilaceração básica da sociedade burguesa:
a do sexo e da família. Flavio é marido da puta aposentada que
lidera putas que gostam de ser putas. É filho do homem que
presidiu a ONG até sua morte, ocorrida recentemente. E é pai de
Rafael, que, embora não seja propriamente um ativista, é figura
fácil nas atividades do Davida e nos eventos da Daspu. Não há
qualquer contradição entre o ambiente da putaria e o marido
Flavio, o pai Flavio ou o filho Flavio – como aliás, não há também
entre os outros personagens desta história.

A primeira vez que tive um contato direto com o movimento


social das prostitutas foi por meio do próprio Davida, quando
funcionava numa casa quase ao pé do morro de São Carlos,
no bairro carioca do Estácio. Era um pagode (semanal, se não
estou enganado) que a ONG organizava, dentro de sua política
de unir militância e prazer. Além do papo regado a cerveja por
um bom preço, fui atraído pela curiosidade de beber ao lado de
putas num momento em que não estariam trabalhando, o que
me dava a oportunidade de conviver com o Outro em seu próprio
ambiente sem que eu mesmo fosse formalmente apresentado
Prefácio 17

como o seu Outro – e isto é uma das coisas mais gostosas (e pro-
dutivas) do mundo. Por mais ingênuo que possa parecer, fiquei
espantado: estavam lá as putas, alguns de seus clientes que se
tornaram também amigos, os funcionários e militantes da ONG
mas, também, os maridos daquelas mulheres, alguns filhos e
até netos, que corriam entre as mesas de boteco como irritan-
temente fazem em qualquer bar ou restaurante. O ambiente era
quase familiar – e só não o era porque, afinal, eu estava no meio
de putas. E creio não haver nada mais ofensivo à identidade de
uma puta do que qualificá-la como uma puta de família.

Esta lembrança me veio insistentemente à mente ao ler o tra-


balho de Flavio, porque, tal como naquele pagode, a putaria e a
família estão lado a lado, sem que uma se sobreponha, negue
ou atenue a outra. Assim como o prazer não está desvinculado
do trabalho (que, no caso dos ativistas da Daspu, se estende e
se renova no bar), o trabalho não está desvinculado das convic-
ções políticas (diferentemente, se justifica por elas mesmas),
a política não está desvinculada do sexo (porque se exprime
por meio dele) e o sexo não está desvinculado do prazer e vice-
versa (e ai de quem disser para Gabriela que é solidário às pros-
titutas porque elas são vítimas da sociedade que não lhes deu
opções!), na história da Daspu a família também não está des-
vinculada de nenhuma destas instâncias. Se Gabriela não está
mais exercendo a putaria ou se o pai ou o filho não foram ou são
michês, é porque suas vidas profissionais têm outros rumos, e
apenas por isso. Nenhum deles também é engenheiro. Afinal,
nem todos nascemos para a engenharia, tal como nem todos
nascemos para a putaria. Remunerada, bem-entendido.

André Villas-Boas, maio de 2008


Apresentação:
O preconceito pelo avesso

A multidão aplaude, grita e sorri, oferece palavras de incentivo e


apoio: “Lin...da!”. Os artistas correm e pulam, viram-se em vozes
e gestos. Percussionistas navegam ondas sonoras. Profissionais
de mídia e cinema se esbarram de aperto, tensão e excitação.
Parangolés de todas as cores forram a rua de pétalas de rosas
vermelhas. E as putas, majestosas, desfilam a dignidade da
batalha do tempo. Por último, a estilista da auto-estima per-
corre os paralelepípedos de flor ao encontro das colegas que
acabam de mostrar a moda da vida, a moda da puta para quem
quisesse ver, sentir e se unir. Choro e pranto, alegria e êxtase
reinauguram a noite do desfile de lançamento da grife Daspu.
Noite que gozou lentamente no tesão desse encontro.

“É um evento de liberdade. Putas se vendo como grupo social


e mostrando a moda delas para todos, em vez de usar a moda
de todos para elas”, diz o jornalista Alexandre Gabeira. “Daspu
é histórica, antropofágica – pelo nome, pelo contraste entre
alta burguesia e a realidade do país”, afirma a educadora Carla.
“Golaço. Brilhante. Pode revolucionar mentes e corações, por-
que questiona valores, toca na moda, na cultura, no astral da
cidade. Viva a Daspu”, arremata o sociólogo Orlando Júnior,
acompanhado pela estudante Isabela Cantoi: “Este país preci-
sava de um remelexo. E isso foi mais que um remelexo. Foi uma
revolução. Parabéns”.
Exultantes e apaixonadas pelo próprio espetáculo e pela recep-
tividade, as protagonistas confirmam as impressões. “Agora as
pessoas estão apoiando muito, aceitando mais a gente, sem
aquele preconceito bobo”, decreta a dasputinha Jane Eloy.
“Estou muito bem, fui muito aplaudida. Verdadeiros ou falsos,
os aplausos eu aceito”, bem-trata as palavras Valéria, primeira
página de jornal no dia seguinte.

À meia-distância, a professora Ana Maria Faria percebe o fun-


damental: “Começa agora outra fase, muito evidente, para as
prostitutas. As pessoas não têm mais como ignorar. Tá na rua”.

Essa rua, terra de todos, onde “o preconceito foi virado pelo


avesso”, nas palavras de Gabriela Leite, a estilista da auto-es-
tima, ainda cercada por admiradores. “Quando minhas amigas
putas desfilam lindas e altivas, sem vergonha de ser puta, estão
falando por si mesmas e sendo políticas, extremamente políti-
cas e revolucionárias”.

E conclui: “O caminho está aberto para a puta cidadã”.

Sacanagem, como só elas

Era 16 de dezembro de 2005, rua de batalha Imperatriz


Leopoldina, Praça Tiradentes, centro histórico e boêmio do Rio.
Com apoio de artistas e um empresário da noite, assistidas
por outros profissionais e apreciadas por gente de toda parte,
profissão e origem, seis prostitutas da ONG Davida e uma con-
vidada autônoma lançavam a grife Daspu. Concebida em julho
e descoberta em novembro, a iniciativa pretendia, pela moda,
sacanear o estereótipo da puta, dar visibilidade aos desafios
e conquistas do movimento organizado da categoria, destruir
o preconceito e a caretice e, claro, vender roupas para gerar
recursos. Um negócio social.

Desde então, dezenas de desfiles em ruas, boates, espaços


culturais, de moda e de arte, em colégios, congressos e até em
20 Daspu – a moda sem vergonha

vagões de trem, presenciados por milhares de pessoas e retra-


tados em centenas de reportagens mundo afora, consolidaram
o desejo e a esperança das fundadoras, que também venderam
milhares de produtos.

Este livro pretende contar a história – ainda curta e já robusta


– da grife Daspu, de sua concepção em noite de festa ao último
minuto do deadline da editora. O desafio é relatar quatro
aspectos essenciais da iniciativa, que evoluem separadamente,
paralelamente ou em um harmonioso e inseparável conjunto: o
político, o cultural, o erótico e o empresarial.

É evidente, no primeiro aspecto, que a grife Daspu jamais teria


frutificado se não estivesse no contexto de uma luta política,
da militância de mais de duas décadas do movimento de pros-
titutas. O brilhante e oportuno nome da marca não teria feito
sentido, ou ultrapassado o contorno de uma divertida brin-
cadeira – acusação brandida pela Daslu contra a Daspu, – se
tivesse surgido de outro ambiente, seja na própria sociedade
civil, seja na iniciativa privada. A potência do nome e do empre-
endimento está definitivamente ligada a um ativismo político
já conhecido por parte da sociedade na época em que a Daspu
se tornou pública. Quem acompanhava o movimento das pros-
titutas entendeu tudo, de imediato. Outros se “lembraram” do
ativismo das mulheres da vida e também compreenderam o
sentido da proposta, passando inclusive a estabelecer rela-
ções com nomes de pessoas e organizações. Finalmente, quem
nunca tinha ouvido falar da luta política das prostitutas pas-
sou a conhecê-la como nunca antes havia sido conseguido por
qualquer outra iniciativa das próprias ativistas.

O aspecto cultural é o segundo. A moda, considerada um sis-


tema a partir do final da Idade Média e impulsionada no século
XVII por Luís XIV, sempre agregou influências sociais, históricas
e culturais. Mas muito tempo decorreu para que ela começasse
a ser compreendida para além do estereótipo da futilidade ou
do componente estético. Hoje, já se percebe a moda também
Apresentação: O preconceito pelo avesso 21

como uma manifestação cultural e artística, que envolve profis-


sionais e artistas de outras áreas, como cenógrafos e músicos,
além dos especialistas da área, como estilistas, modelistas,
costureiras, modelos. Os desfiles, eventos de maior visibilidade
da indústria, tentam, cada vez mais, tornarem-se aconteci-
mentos culturais (mesmo mantendo os outros aspectos), e as
próprias roupas muitas vezes são produzidas a partir de temas
e conceitos da cultura e da arte, ou de temáticas sociais. Aliado
a tudo isso, trata-se de um mercado de enorme importância
em todo o mundo, que abrange todos os seres humanos que se
vestem – e até alguns animais domésticos –, emprega milhões
de pessoas e gera bilhões por ano.

Esse é justamente o terceiro aspecto de Daspu: o empreendi-


mento empresarial, o negócio que busca superávit, mesmo que
para utilização social. E é nesse ponto que se encontra o maior
desafio da grife até o momento. Nascida numa organização
não-governamental de prostitutas ativistas e aliados de outras
profissões – a ONG Davida – Prostituição, Direitos Civis, Saúde,
formalizada no Rio em 1992 e fundadora da Rede Brasileira de
Prostitutas –, a Daspu começou a crescer em um ambiente
não-empresarial, embora empreendedor. Mesmo a qualificada
e diversificada equipe, composta de prostitutas (tradicional-
mente negociantes), profissionais de administração e formula-
dores e executores de projetos, não tinha experiência em nego-
ciar produtos. (Vale lembrar que prostitutas prestam serviços
e as ONGs normalmente também oferecem serviços em troca
de doações). A complexidade e a especialização do mercado,
e também do setor de moda, aliadas à explosão prematura de
visibilidade da Daspu, pegaram todos nós despreparados para
as preliminares do prazer.

Palavras que levam ao quarto aspecto, o erótico. Neste, as


putas podem se considerar imbatíveis. Especialistas em fanta-
sias, abrem-se ao inconsciente e nele viajam, com profissiona-
lismo e/ou paixão, às vezes encontrando até semelhança – ou
22 Daspu – a moda sem vergonha

diferença – a provocar um acidente de trabalho. A liberdade de


que elas dispõem para a sexualidade, ou pelos menos a fanta-
sia dessa liberdade no outro, é suficiente para que uma puta
anunciada, ao surgir numa passarela – espaço glamuroso e
erotizado do modelo de elite –, tire qualquer um do sério. Daí
surgem risos, aplausos, espanto, adesão, admiração, apoio,
fantasias. Os distintos cenários dos desfiles, dos ambientes da
baixa prostituição aos ricos eventos de moda, e a mistura de
modelos prostitutas e não-prostitutas contribuem ainda mais
para confundir o estigma e o preconceito: quem é puta, quem
não é, o que é a puta, o que ela não é?

Esse conjunto político-cultural-erótico-empresarial muitas vezes


se une e faz gozo na passarela. Ou é preliminar do prazer e da fan-
tasia na hora do consumo. “O desejo de vestir Daspu vai muito além
da vontade de consumir a marca. Há um desejo de compartilhar a
linguagem dos gestos pornográficos, as fantasias, o erotismo, os
prazeres da noite. Moda como gesto e não como discurso”, nas
palavras da psicóloga e modelo exclusiva Elaine Bortolanza.

O resumo da ópera: uma inusitada ação política e lúdica, emba-


ralhando sentidos culturais e eróticos e confundindo modelos
sociais e empresariais. A ponto de atrair e afastar, ao mesmo
tempo, empresas que investem em responsabilidade social,
agências privadas e governamentais, destinadas exclusiva-
mente ao financiamento social, ou os Sistemas S da vida. A
ponto de, enquanto a imensa maioria saca o movimento, haver
quem insista em compreender a iniciativa como uma forma de
tirar mulheres da prostituição.

Finalmente, e essa não pode passar em branco, puta faz moda,


puta sempre fez moda. Pra seduzir e batalhar. A jornalista Iesa
Rodrigues foi a primeira especialista brasileira a escrever, com
todas as letras, há muitos anos atrás, que as patricinhas anda-
vam imitando o modo de vestir das prostitutas. A sedução, neste
caso, andou para o lado.
Apresentação: O preconceito pelo avesso 23

Tudo isso é a Daspu, confirmando o que sempre buscou o movi-


mento de prostitutas: a puta falar por si mesma. E ousando
ainda mais: seduzir o restante da sociedade para a sua causa
e o seu novo negócio.

Desafio grande retratar tanta complexidade. O leitor que me


ajude, acompanhando a história – relatada de forma diversa
desta apresentação – que vai começar.
Cap.01
Até Puta!?
26
Até Puta!? 27

O jornal liga para a ONG. A secretária avisa que vai transferir


para o assessor de imprensa. Antes de teclar o ramal, ela escuta
o colunista dizer a um coleguinha: “Porra, agora até puta tem
assessoria de imprensa!?”.

A cena é de 2002, exatamente dez anos após a fundação da ONG


Davida. Do lado de cá, quem enfrentava este e outros telefone-
mas de imprensa era o autor destas e das próximas linhas, que
espero atraentes. Fazia poucos meses que eu me dedicava de
forma integral à Davida, finalmente liberto do que uma pessoa
muito especial (cuja identidade logo será revelada) chamava de
“escravidão”. E que era, simplesmente, uma banca de redator
em um jornal carioca, o Brasil.

Foi a demissão, daquelas bem sacanas numa volta de férias,


que me estimulou a tomar a decisão que há tempos me aguar-
dava. Batalhar – ou voltar a batalhar – direto no movimento de
prostitutas, dentro da organização que eu havia batizado e que
era liderada, como hoje, por Gabriela Leite (pronto, revelado).

Com a minha presença constante na ONG e diante das even-


tuais demandas jornalísticas – ainda pensávamos pouco em
ser pró-ativos com a mídia –, decidimos instituir, já na primeira
metade de 2002, uma assessoria de imprensa. O esquema, para
começar, era bem simples. Quando algum jornalista telefonasse
pedindo para falar com Gabriela – o que acontecia em dez a
cada dez ligações –, que fosse passada para mim a ligação. Era
para saber a pauta, o deadline, esclarecer alguma coisa e dar o
briefing para a futura entrevistada, que ainda poderia negar-se
a falar, uma verdadeira raridade. Ou seja, nada que já não se
fizesse nos quatro cantos do país, mesmo com a má-vontade
histórica dos coleguinhas das redações.

Mas aquela era uma ONG de puta.

Demais para a cabeça do colunista.

O que nem ele, nem eu, nem ela e nem ninguém sabia era o que
iria suceder apenas três anos depois, com a criação da Daspu.
Cap.02
Grana, Política e Cultura
O ano de 2005 foi excepcional para a Davida. Em pauta, temas
locais, nacionais e até internacionais. Tudo isso numa boa maré
financeira, com diversos projetos aprovados junto a financia-
dores, entre eles uma agência norte-americana que decidiría-
mos mais tarde denunciar, provocando uma reação inédita do
governo brasileiro.

E foi no meio e no fim deste incrível ano que a Daspu foi conce-


bida (julho) e nasceu (novembro).

Para começar 2005, logo em janeiro, lideramos uma caravana de


prostitutas e ativistas rumo ao Fórum Social Mundial, em Porto
Alegre, viajando 24 horas de ônibus desde o Rio. Lá, unidos a
militantes de outros estados e até da Argentina, promovemos
dois seminários que tiveram grande público e repercussão –
o maior deles lotou um dos armazéns do Cais do Rio Guaíba,
mesmo com a “concorrência”, no armazém vizinho, do Nobel de
Literatura, José Saramago. Bem pertinho, o estande da Rede
Brasileira de Prostitutas bombava, atraindo centenas de visi-
tantes durante os seis dias do Fórum e servindo de base para as
sessenta representantes do movimento nacional que mostra-
vam a cara e a coragem em Porto Alegre.

Esse estande seria muito importante para a futura Daspu. Nele,


foram vendidos tapetes de crochê (by Gabriela) e mais de cem
unidades da única camiseta até então produzida por Davida:

30
Grana, Política e Cultura 31

uma gravura de Lasar Segall retratando uma prostituta e um


cliente, cedida por Mauricio Segall, peça que também divulgava
o Beijo da rua, jornal da ONG e do movimento de prostitutas,
editado por mim. O estande provocou desejos de futuros negó-
cios nas muitas mulheres que nele venderam produtos e distri-
buíram informativos das associações da Rede e preservativos
doados pelo Ministério da Saúde.

Além disso, direto da sala de imprensa do FSM, publicávamos


noticiário diário no site do Beijo da rua, que tinha lançado, em
dezembro, sua versão eletrônica. A primeira das reportagens
gaúchas registrou a participação das prostitutas na famosa
Caminhada de Abertura do FSM, pelas ruas de Porto Alegre.

A partir de abril, Davida investiu firme na seara cultural, em


busca de visibilidade, alegria e integração social. Primeiro, com
o grupo Mulheres Seresteiras, de prostitutas que “cantam e
encantam”. Em agosto, com a reestréia para a terceira tempo-
rada da peça Cabaré Davida, “um espetáculo para profissio-
nais e amadores do sexo que ensina tudo sobre Aids”. Os dois
eventos em ruas e praças do Rio e de outras cidades do estado.
Finalmente, em novembro, começaram os ensaios do Bloco
Carnavalesco Prazeres Davida, na boêmia Praça Tiradentes,
nosso ponto maior de ação e reação e local de batalha da maio-
ria das prostitutas da ONG.

Enquanto isso, na área literária (ê chiqueza), a historiadora


Anna Marina Barbará preparava um livro de história oral de oito
– depois nove – prostitutas, num “encontro entre dois univer-
sos femininos, unidos pelo respeito às diferenças e pelo desejo
mútuo de conhecimento”, como definiu a acadêmica. Intitulada
então Histórias da vida: prostituição e memória, a obra seria lan-
çada em 2006 com outro nome: As meninas da Daspu.

E não era só. Além-estado, boa parte da equipe participou do 13º


Encontro Nacional de ONG/Aids (Enong), em Curitiba; outra parte,
depois de uma década de confrontos, de um encontro feminista
latino-americano, em Serra Negra (SP); e, o mais importante,
32 Daspu – a moda sem vergonha

comemoramos a criação da primeira organização de prostitutas


de Corumbá (DASSC), na fronteira do Mato Grosso do Sul com a
Bolívia, resultado de um bem-sucedido projeto de dois anos.

Também em âmbito nacional – e internacional, principalmente –,


decidimos denunciar a principal agência norte-americana de
ajuda externa, a Usaid, que dava apoio a nós e a outras dezenas
de organizações no Brasil. Em 2004, por meio de uma organiza-
ção chamada Pact, com sede em São Paulo, a Usaid havia aberto
licitação para apoiar projetos de ONGs na área de prevenção e
assistência de Aids. Davida foi uma das aprovadas, assumindo
contrato até junho de 2006. Em maio de 2005, porém, descobri-
mos que a agência passaria a exigir, em futuros contratos, que
as organizações brasileiras apoiadas assinassem uma cláusula
de condenação formal da prostituição. Pra quê?! Fomos os pri-
meiros a denunciar a tentativa de imposição da política Bush ao
Brasil, com adesão total de outras organizações da sociedade
civil e do próprio governo, que recusou, formalmente, a bagatela
de 48 milhões de dólares. O mundo todo tremeu com a firme e
soberana decisão brasileira e a poderosa Usaid – quem diria –
saiu de rabo entre as pernas. Deu (até) no New York Times.

O episódio mal havia se concluído e uma reunião em Nova


York, já prevista, voltou a elevar a temperatura daquele ano.
Pela primeira vez na história, o então secretário-geral da ONU,
Kofi Annan, recebia em seu gabinete uma prostituta, Gabriela
Leite, participante de uma comitiva do movimento internacio-
nal de luta contra a Aids. O inédito encontro aconteceu na vés-
pera do Dia Internacional da Prostituta, o 2 de junho, quando
lançávamos, festivamente, no Rio, o site da Rede Brasileira de
Prostitutas. Bem que tentamos fazer Gabriela entrar ao vivo na
festa carioca, por um link de Internet, mas não deu certo. De todo
modo, o Beijo da rua seguinte cobriu os dois eventos e estampou
na capa a foto da puta com o secretário-geral da ONU.

Tudo isso sem falar na atuação em dezenas de áreas de prostitui-


ção do Rio e Região Metropolitana. Encontros formais e informais
Grana, Política e Cultura 33
34 Daspu – a moda sem vergonha

sobre direitos humanos, cidadania e saúde, o incentivo à orga-


nização da categoria, a distribuição de camisinhas e materiais
educativos estavam na pauta das visitas às colegas por um
plantel de 12 prostitutas, as mesmas que também cantavam
no espetáculo Mulheres Seresteiras. Dessas atividades, tam-
bém fazia parte o controle social sobre o programa Monumenta
de revitalização, do Ministério da Cultura, identificado, desde
2002, como uma possível ameaça à permanência das prostitu-
tas na Praça Tiradentes. Naquele ano, ao promover o I Encontro
Fluminense de Profissionais do Sexo, Davida convidou formal-
mente representantes do Monumenta para dialogar sobre o
processo, demonstrando estar atenta aos eventuais efeitos
negativos sobre a categoria. Essa articulação prosseguiu desde
então, inclusive em 2005, já com o compromisso formal dos res-
ponsáveis pelo programa de respeitar a história da região.

Mas, para não dizer que tudo foram flores naquele incrível 2005,
parte da equipe técnica havia deixado a ONG, depois de um
bafafá cretino e anunciado em Porto Alegre, nos estertores do
Fórum Social Mundial. O resultado dessa mexida, no entanto,
também acabou sendo positivo, com a contratação de pessoas
qualificadas e comprometidas, assumindo funções num perí-
odo de tanto vento a favor.

Foi assim, nesse clima de verão, em pleno outono-inverno, que


Daspu floresceu.

A festa

No dia 15 de julho de 2005, uma comemoração agitou a sede de


Davida. A ONG completava 13 anos vivendo um ótimo período,
com dinheiro, idéias e realizações. A partir do fim da tarde, 39
pessoas – confirmadas por memórias, fotos e texto da época –
circularam pela sala de reunião e pelas áreas externas da casa
da Glória para beber, petiscar, conversar, dançar e até cantar.
Discursos informais também animaram a noite.
Grana, Política e Cultura 35
36 Daspu – a moda sem vergonha

Além de 21 membros da equipe, vários deles recém-contratados,


havia convidados. Entre eles, uma atriz global, Sheron Menezes.
Ela acompanhava o então namorado, Erol Cichowski, professor
voluntário de inglês de algumas das prostitutas da ONG.

Um colega jornalista, Carlos Nobre, fazia o registro social para


publicação no Beijo da rua. Aquelas notas, dois anos depois, vie-
ram a calhar. Acabaram não sendo publicadas, mas, ao lado das
fotos digitais, trazem importantes lembranças e informações.

Nobre cita, por exemplo, a arquivista Maria José Lessa: “Estou


adorando trabalhar aqui. Era tudo o que eu queria, ter esse
contato com o mundo das ONGs”. Ela não falava da boca pra
fora. Contratada um mês antes, dava um enorme e sorridente
“boa-tarde” para cada um no escritório todos os dias.

Outros registros do repórter mostram o alto astral da comemo-


ração. A secretária Ana Maria Cerqueira: “Nesses quatros meses
aqui, percebi que as profissionais do sexo são mulheres muito
especiais”. A prostituta Jane Eloy, também recente na ONG:
“Estou gostando muito de trabalhar na Davida. Eu não sabia
que era legal fazer essa conscientização (ações de prevenção
e cidadania com colegas)”. E Sheron Menezes, que “riu, fez
brincadeiras e posou descontraída para fotos”, ainda curtindo o
sucesso da Rosário na novela Como uma onda: “Estou adorando
a festa”. Ou Erol, o namorado da atriz: “As aulas de inglês tam-
bém me permitem aprender bastante a língua portuguesa. Tem
sido uma troca muito gratificante, você não imagina”.

Mas é Kátia Monteiro, coordenadora de projeto e futura produ-


tora Daspu, quem melhor descreve, dois anos depois, o clima da
festa: “Foi um momento lúdico e de confirmação de laços. Havia
um clima de ousadia, de conquista, as coisas estavam aconte-
cendo e o belo estava misturado nisso: as meninas, principal-
mente, estavam mais bonitas e soltas, trouxeram namorados,
parentes, amigos. Só vieram as pessoas que acreditavam”.
Grana, Política e Cultura 37

O prenúncio do que estava por vir também surgiu nas palavras


da líder da organização, Gabriela Leite, ao repórter: “A criação
da ONG foi um ato de grande coragem das prostitutas militan-
tes daquele período. E a Davida continua fazendo história”.

Na mesa, a palavra

A noite estava só começando e já prometia. Muita gente alegre,


um simpático bufê de pão a metro e mini-sanduíches – para
todos os gostos, como se vê – e cerveja à vontade.

Gabriela se lembra da surpresa que teve ao entrar na sala de


reunião, no segundo andar da casa, e se deparar com uma sele-
ção de fotos históricas da ONG afixadas em um quadro branco.
Foi uma iniciativa daquela nova e feliz arquivista, Maria José,
empenhada em catalogar documentos e conhecer melhor a
organização.

As duas conversaram um pouco e Gabriela sentou-se na mesa


mais próxima, com melhor visão das fotos, bebendo sua cerve-
jinha e fumando seus cigarrinhos.

Daqui para frente, as versões divergem um pouco, mas não se


contradizem no essencial.

Segundo Gabriela, chegaram várias colegas prostitutas e, logo


depois, o designer Sylvio de Oliveira, que prestava serviços à
ONG fazia poucos meses. Ex-companheiro do falecido militante
da luta contra a Aids Paulo Longo, ele estava criando as páginas
web de Davida e da Rede Brasileira de Prostitutas. De cabelos
curtos (uma raridade) e vestindo camiseta (pela eternidade),
Sylvio ocupou o segundo lugar à mesa para um papo inspirado
nas fotos. Depois de algumas lembranças, Gabriela diz a ele:
“As meninas, a Lina, principalmente, andam falando muito de
a gente ter uma confecção. Acho que seria melhor uma história
de grife, de moda mesmo, que podia até levantar dinheiro para
39
40 Daspu – a moda sem vergonha

a Davida”. Daí, continua a lembrar, “o Sylvio ficou me olhando e


disse assim: ‘Ah, já sei o nome: Daspu’”.

Ainda na versão de Gabi, foi só depois desse momento que


outras pessoas se aproximaram, chamadas por ela e Sylvio
ou atraídas pelas risadas dos dois. Daí rolou “um baita papo”,
inclusive sobre a Daslu, que estava em todos os jornais, sites,
emissoras de rádio e TV. Dois dias antes, no 13 de julho, a dona
da loja mais cara do Brasil havia sido presa pela Polícia Federal,
na suntuosa sede paulistana, acusada de sonegação. Um
escândalo no mundo dos ricos, que causou revolta e escárnio
em todo o país. Para piorar, houve até condenação pública da
ação policial por parte de empresários e políticos.

Apontada por Gabriela como uma das idealizadoras do que


seria uma confecção, Imperalina Piedade da Silva, a Lina, não
lembra disso. Na verdade, pouco também se recorda da festa de
15 de julho, porque chegou “depois das oito” e foi embora “antes
das onze”. Quem sabe o namorado novo, a tiracolo, ajudou na
distração.

Mas Gabriela reafirma sua versão, lembrando que na volta do


Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, o entusiasmo com o
estande da Rede Brasileira de Prostitutas era tamanho que ela
chegou a comprar “linhas baratinhas” e um estojo de agulhas
de crochê (que tem até hoje) para ensinar às colegas a arte com
a qual havia feito sucesso na capital gaúcha. Quem acabou
assumindo a tarefa foi outra ativista de então, Doroth de Castro,
mas o curso não passou de duas aulas. E disso, a Lina e todas
as outras mulheres, lembram. “Tudo começou no Fórum Social
Mundial, onde o estande foi muito importante”, insiste a coorde-
nadora da ONG Davida.

De qualquer modo, a conversa daquela noite de festa sobre a


Daslu, citada por Gabriela, certamente aconteceu. Se antes ou
depois de surgir a Daspu, as versões variam. Como também é
distinto, para os personagens da festa, quem estava na mesa e
o que disse Gabi logo de início.
Grana, Política e Cultura 41

Para Jane Eloy, grávida e “muito apaixonada” – chegou a can-


tar “Eu sei que vou te amar” para o namorado –, foi assim:
“A Gabriela virou para mim e elogiou o meu vestido. ‘Nossa,
Jane,que vestido bonito. Vamos criar uma grife de moda, a gente
puta leva jeito pra roupa’. De acordo com Jane, foi daí que surgiu
a conversa sobre a Daslu e que, em seguida, o Sylvio “soltou o
nome Daspu”.

Também para Denise Reis, professora de canto das prostitutas,


o papo Daslu veio antes da descoberta do nome Daspu. Segundo
ela, tudo aconteceu numa mesa repleta de pessoas, inclusive
ela própria, e Gabriela disse coisa diferente do que lembra hoje.
“Surgiu o assunto da Daslu, que estava em todos os jornais. A
Gabriela falou do sonho antigo de fazer uma grife, retratando
a moda das prostitutas. E aí o Sylvio disse que já tinha o nome,
Daspu, e todo mundo começou a rir. Daí já começamos a falar
sobre a grife, quem costura, as meninas costuram, fulana de tal
costura!”.

Sylvio, o abençoado pela palavra, tem lembrança conciliadora. “A


Gabi voltou a me falar de uma idéia que ela já havia me falado.
Tinha muita vontade de fazer um pequeno negócio com roupa,
que não só ajudasse as meninas a se vestirem um pouco melhor,
como gerasse recursos para a Davida financiar projetos. ‘Vamos
fazer umas roupinhas para o ano que vem, estruturar isso’, disse
ela. Como a história da Daslu estava muito presente na cabeça de
todo mundo, eu falei: ‘ótimo, já temos até o nome.’ Qual? Daspu.
Todo mundo riu [para ele havia outras pessoas à mesa], porque
não existe, ninguém podia imaginar que fosse à frente.”

De cara, a festa foi em frente. E chegou ao discurso do presi-


dente da ONG, Waldo Cesar, que bradou irônico e orgulhoso:
“Sou o único homem presidente das putas”.

A certa altura, fomos expulsos pelo caseiro, mas prosseguimos


em algum botequim. Neste aspecto, todas as versões coinci-
dem. Ninguém sabe qual.
Cap.03
De Bar em Bar
Cap.03 Cap.03
De Bar em Bar De Ba
Se Daspu foi concebida em clima de alegria e cerveja, também
assim foi descoberta. Não naquela madrugada, mas em alguma
outra noitada entre a segunda metade de julho e a de novembro.
Quase certamente, em novembro.

Ao longo dos quatro meses de gestação da Daspu, trabalho


intenso ocupou a equipe da ONG. Poucos dias depois da festa,
por exemplo, recebemos, em plena Praça Tiradentes, o dire-
tor do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids
(Unaids), Peter Piot. Ele estava no Rio para uma conferência de
Aids e tomou a iniciativa de pedir o encontro. Queria ver de perto
o trabalho liderado por Gabriela, então conselheira da Unaids,
que conhecera na reunião com Kofi Annan.

Piot, um médico e professor belga premiado por pesquisas cientí-


ficas e dono do título de barão, concedido pelo Rei Alberto II, havia
apoiado a posição brasileira de rejeitar recursos americanos
condicionados à condenação da prostituição. Este, aliás, fora um
dos temas do encontro com o secretário-geral da ONU. Embora
impossibilitada de interferir numa política nacional, a ONU sem-
pre deixou clara a insatisfação diante de ações contra a Aids, como
a adotada pelo governo americano, que privilegiam abstinência,
fidelidade e, apenas em último caso, a camisinha (a política do
ABC – Abstinence, Be Faithful and Condom, if necessary).

O governo brasileiro, num processo iniciado pelo movimento


de prostitutas, vinha de recusar, com grande repercussão,

44
De bar em bar 45

os 48 milhões de dólares da Usaid. E fizera isso em nome de


uma política de Estado para Aids, da “parceria histórica” com
as prostitutas e da “soberania nacional” – na primeira vez, em
décadas, que essa expressão fazia sentido.

Nesse contexto, nada mais natural – e político – do que ver in


loco as mulheres que haviam desdenhado e peitado o império.
Foi assim, na Praça Tiradentes, que a comitiva da Unaids, lade-
ada pelo alto escalão do Programa Nacional de DST e Aids do
Ministério da Saúde, conviveu e conversou, por duas horas, com
as ativistas prostitutas brasileiras. E, de quebra, Piot levou para
o chefe a edição do alternativo Beijo da rua, com manchete e
foto do histórico encontro de 1º de junho.

Os contornos dessa visita não estariam aqui relatados se não


contribuíssem para mostrar o que representou 2005 para
Davida e porque a gestação de Daspu era acompanhada sem
formalidades e raramente no escritório. Mas, nos bares...

Nos bares, continuamos a nos reunir e nos divertir. Muitas vezes,


falamos da grife – “pô, e a Daspu, hein...” –, planejamos alguma
coisa, mas logo voltávamos ao cotidiano de tantas atividades.
Entre elas, muito nos entusiasmava a criação de um bloco de
carnaval.

O fato é que, numa dessas conversas de bar, um ouvido alheio


se espichou e registrou algumas palavras. O fotógrafo Marcos
Silva, do Beijo da rua, acredita que isso aconteceu na Taberna
da Glória (embora não saiba precisar quando), bar e restau-
rante que freqüentávamos bastante, como ainda hoje. Perto do
escritório, com bom chope e confortáveis cadeiras num amplo
calçadão, o local incentiva a expansão.

Outro bar é citado por dois ex-funcionários da ONG, a secre-


tária Ana Maria Cerqueira e o administrador Luciano Alves. O
Caçador, chamado pelos freqüentadores de Varanda’s, pelo
espaço externo na calçada, fica na mesma rua do escritório, a
Santo Amaro, no bairro da Glória. Tem cerveja em garrafa, ótimos
46 Daspu – a moda sem vergonha

petiscos, a carinhosa assistência de Marisa e Sol e o inconve-


niente de elas adorarem a TV ligada bem alto. Daí, a varanda ser
o melhor lugar e merecer dar apelido ao botequim. A situação
teria sido a mesma, um encontro de fim de tarde em que vários
de nós tinham voltado a falar animadamente da Daspu. Essa
hipótese ganha força por conta de a calçada ser bem mais exí-
gua que a da Taberna, facilitando o vazamento de palavras para
outras mesas.

Palavras que foram, pelo menos e não mais, “Daspu”, “grife e


confecção”, “prostitutas”, “ONG”, “Praça Tiradentes” e até um
tempo verbal do anglicismo “escanear”, como se verá adiante.

No penúltimo domingo de novembro, véspera do signo de escor-


pião, o telefone toca lá em casa. Preocupada, Kátia Monteiro
avisa que Elio Gaspari estava noticiando, em sua coluna em
O Globo, o nascimento de uma grife de prostitutas chamada
Daspu. A nota, disse ela, não mencionava o nome de Davida e
citava o apoio de uma ONG estrangeira.

O jornalão dominical, ainda fechado pela preguiça, se abriu na


página exata em segundos. No alto da coluna de página ímpar, à
direita, estava escrito assim:
Uma nova grife
As moças que batalham à noite nos arredores da Praça
Tiradentes, no Rio, tiveram a ajuda de uma ONG escan-
dinava para montar uma pequena confecção onde costu-
rassem suas roupas de trabalho.
A grife das moças vai se chamar Daspu.

Em casa, Gabriela e eu, companheiros de vida e trabalho,


entramos em pânico. Roubaram nossa idéia! Deixamos de lado
a Daspu, os idiotas, e alguém saiu na frente, sabe-se lá como.
ONG escandinava... Que raio de ONG é essa? Vários telefonemas
para os colegas, ninguém havia falado nada. Essa era, inclusive,
a estratégia institucional. Só iríamos abrir a história quando ela
pudesse ser contada, ou seja, quando tivéssemos iniciado de
De bar em bar 47

fato a grife, seja em planejamento ou produção. Além do mais, a


responsabilidade maior era minha, como assessor de imprensa.
E de Gabriela, claro, como dirigente da instituição. E não sabía-
mos de nada.

O susto não durou uma hora. Toca de novo o telefone, dessa vez o
celular de trabalho, e um jornalista do Dia pergunta: “Você sabe
de alguma coisa sobre essa grife Daspu? Quem está fazendo
isso, que ONG é essa? Queremos fazer matéria”.

Era uma ligação de quem busca uma fonte, ou seja, alguém que
possa dar uma informação que leve a um destino, e não de quem
chegou ao destino. Como Davida já era muito conhecida por seu
trabalho com prostitutas, era óbvio fazer este contato.

Aliviado, leve, lindo e solto, eu disse ao coleguinha que a


Daspu era uma criação de Davida e que tampouco sabíamos
de nenhuma ONG escandinava. O profissional quis então mais
detalhes para a matéria. Quem faz as roupas, desde quando,
que roupas são essas, onde estão, dá pra fotografar?

Pedi a ele que voltasse a ligar em uma hora. Só uma puta pode-
ria resolver isso. E aí Gabriela entra em cena. No telefonema
seguinte, já havia uma linha completa: “Folia, com roupas de
festa; Básica, para o visual do dia-a-dia, e Lingerie, direcionada
às prostitutas que trabalham em locais fechados, com direito a
peças apimentadas”, como publicou o jornal. Enquanto isso, no
celular, eu pedia ao Sylvio para criar imediatamente uma marca,
com símbolo e logotipo, como deve ser. Em tempo recorde, estava
pronta. Aprovada, ilustrou a reportagem de Marcelo Bastos, na
página 4 de segunda-feira, 21 de novembro de 2005, do O Dia.

Pronto. O parto estava feito. Nascida sem pai nem mãe, no


susto, mas identificada um dia depois, a grife já podia crescer
e ganhar o mundo.

Bem depois de tudo isso, surgiu uma jornalista a dizer que tinha
sido a autora do vazamento para a imprensa. Estaria no bar
na noite fatídica, teria contado a um colega e este passado a
48 Daspu – a moda sem vergonha

informação ao Elio Gaspari. Como jornalistas não costumam


fazer revelações do tipo (isto é, revelar ter passado informação
em off), como a pessoa em questão tinha acesso à Davida e bem
poderia ter consultado a equipe, e como jamais tomaríamos a
iniciativa de inquirir o Gaspari – profissionais de mídia também
não revelam suas fontes e têm até proteção constitucional para
isso –, a versão careceu de credibilidade e ficou, no máximo, se
verdadeira, na conta da vaidade.

Mas uma divertida hipótese sobre a aparição da “ONG escandi-


nava” no texto de Gaspari foi, ainda mais tarde, cunhada pelo ima-
ginativo Sylvio de Oliveira: alguém teria dito, na noite das grandes
orelhas, que conhecera uma pessoa que “escaneava” de tudo.

Samba na segunda
A semana começou fervendo. À noite, haveria o segundo ensaio
do bloco Prazeres Davida, lançado há três semanas pela ONG,
com apresentações justamente às segundas-feiras. Decidimos
aproveitar a ocasião para disseminar pelas ruas a criação da
grife, até porque a camiseta do bloco, com arte-final pronta,
poderia ganhar a etiqueta Daspu rapidamente, ao lado da peça
com a marca de véspera já estampada no jornal daquele dia. E
foi só mesmo o desenho da estampa do bloco reproduzido em
papel (o da marca da grife não apareceu) que os espantados
freqüentadores viram de Daspu. Bem, e o recorte do Dia, que
passava de mão em mão e já tinha sido lido por muita gente.

Ao mesmo tempo, com muitos foliões na principal rua de bata-


lha da Praça Tiradentes, a Imperatriz Leopoldina (a coluna de
Ancelmo Góis, do Globo, havia descoberto o bloco e publicado
nota sobre o ensaio), tentamos traçar, em meio a samba, suor e
cerveja, uma estratégia-foguete para a grife. Já tínhamos nome,
boa repercussão e apenas desenhos de duas (futuras) peças.
Era preciso produzir, até porque a imprensa continuava interes-
sada na Daspu, o bloco também estava se tornando conhecido e
os carnavalescos já queriam comprar suas camisetas.
De bar em bar 49

A única decisão tomada, lembra o então administrador de


Davida, Luciano Alves, foi de investir na produção de camisetas
do bloco, que teriam boa saída. Mas não havia dinheiro na ins-
tituição para este fim, e a grana foi adiantada por Gabriela: 500
reais. “O dinheiro das primeiras vendas foi reaplicado em novas
camisetas e algum tempo depois acertamos a dívida com ela”,
conta. O problema era encontrar um bom e ágil fornecedor, já
que, em finais de ano, há muita demanda por camisetas promo-
cionais e as estamparias estavam lotadas de serviço. “A gente
estava envolvido com os outros projetos da ONG, não tinha
tempo, não tinha fornecedor, não tinha equipe especializada e
já pressentia uma enorme demanda”, recorda Luciano.

Naquela mesma segunda-feira, pela manhã, tínhamos recebido


ligações da Folha e da IstoÉ. O repórter Francisco Alves Filho, da
revista semanal, veio à sede da ONG na terça-feira. O fotógrafo
Renato Velasco clicou e a revista publicou, no fim-de-semana
seguinte, a única foto possível. Gabriela segurando dois papéis
A4, um com a imagem da marca e outro com a arte-final da
camiseta do bloco, já oficializada como peça da grife.

A reportagem da Folha, apurada por telefone, não destacava


a Daspu, e sim a participação das prostitutas no processo de
revitalização do Centro histórico do Rio. Mas citava a nova grife
e se tornaria fonte importante para a Daslu atacar a suposta
concorrente. Isso porque o repórter escreveu, de punho próprio
e sem citar ninguém, que “o nome é uma brincadeira com a
milionária loja de São Paulo”.

Ainda era quarta-feira 23, e o bebê Daspu, com apenas três dias,
já recebia muitas visitas e não tinha sequer uma peça de roupa
para recebê-las, já que a decisão tomada no samba não frutifi-
cara tão rápido. Decidimos então produzir em transfer (método
rápido de impressão) uma camiseta preta com a marca. Ficou
pronta no dia seguinte e virou objeto de adoração entre nós.
52 Daspu – a moda sem vergonha

Dos jornais à TV

Nisso chega um e-mail do Fantástico, programa assistido por 40


milhões de pessoas. No contato seguinte, por telefone, a produ-
tora Bia Rónai me disse que estava pautada para fazer matéria
sobre a Daspu com um desfile exclusivo. Contei toda a história,
disse que ainda estávamos produzindo peças e consegui adiar
a reportagem para a semana seguinte.

Agora não tinha mais jeito. Depois de tanto esconder a gravidez,


o nascimento nos obrigava a tomar outras providências além da
primeira roupinha.

Convocamos – a iniciativa é atribuída a mim – todas as mulhe-


res de Davida, e os homens também, pedindo que trouxessem
idéias e modelitos inspiradores de casa. Na base do mutirão
esperávamos ter, alguns dias após esse encontro de sexta 25,
algumas peças de roupa. Imperalina Piedade da Silva, a nossa
Lina, foi fundamental nessa hora. De todas as prostitutas, era a
única que sabia costurar.

Em casa, ela produziu uma minissaia coral com top preto, um


vestido lilás colado no corpo com o símbolo da grife pintado na
frente, dois vestidos decotados e uma comportada camisolinha
vermelha com fru-fru no decote e na bainha. Esta peça foi ins-
pirada num presente de cliente em 1976, quando Lina estava
grávida, batalhando na rua Machado Coelho, antiga Zona do
Mangue. “Eu estava de barriga e trabalhei os nove meses com
ela”, lembra. A maior diferença entre uma camisola e a outra
era que, na dos anos 70, estava escrito na frente: “Toda hora é
hora”. Essas peças-piloto nunca foram produzidas em série e se
tornaram acervo museológico da ONG.

Daslu x Daspu

Terminamos aquela semana e começamos a outra só pensando


em moda. Mas Gabriela e eu tínhamos compromisso em Curitiba,
De bar em bar 53

um seminário de prostitutas promovido pela associação local,


o grupo Liberdade. Por isso, na segunda-feira 28, chegamos
ao escritório de mala e cuia, para embarcar à tarde. Antes de
sairmos para o aeroporto, um cidadão de algum cartório, bem
arrumado, mas sem paletó e gravata, adentrou o longo corredor
da casa perguntando se a ONG Davida era ali. Diante da afir-
mativa, sacou da pasta uma notificação extrajudicial, datada
de 24/11 e assinada pelos advogados da Daslu. Eles escreviam,
em resumo, que se Davida não desistisse de usar o nome Daspu
em dez dias, seria processada pelas sonegadoras paulistanas
(claro, essa última parte não estava lá). Também se referiam à
“brincadeira” publicada pela Folha e nos acusavam de – aten-
ção ao verbo – denegrir o nome da multimarcas.

Levamos outro susto, mas sacamos, imediatamente, o que


aquilo poderia significar. E, de novo, sorrimos. Em seguida, con-
tatamos nosso advogado. Conta, Gabriela:
A notificação dizia que a gente estava “denegrindo” – era esta
a palavra que eles usavam – o nome da Daslu. Porra, eles que
sonegam e a gente que denigre eles? Aí fiquei muito brava, estava
de mala, porque ia viajar para Curitiba, e pedi ao Flavio para ligar
para o nosso advogado. Mas todo advogado é muito prudente num
primeiro momento, e o Marcelo Turra – fiquei com uma raiva... –
falou que a gente devia parar de usar o nome. Fui para o aero-
porto, estava muito brava, não vamos parar de usar, não vamos,
não vamos. Aí, em Curitiba, eu e Flavio decidimos passar a noti-
ficação para a imprensa. Poucos dias depois saiu a nota “Daslu X
Daspu” na coluna Gente Boa, do Globo, e foi um pandemônio. Toda
a imprensa ficou do nosso lado na história.

A nota de jornal saiu em 1º de dezembro, quinta-feira, dia em que


voltamos ao Rio. Na própria quinta, o Fantástico voltou a ligar.
Depois da ameaça da Daslu, a pauta estava mais firme do que
nunca, com mais tempo, seriam vários minutos de matéria. E era
para domingo, dali a três dias, com gravação já na sexta-feira.

Avaliamos a situação. Imperalina havia levado uma máquina de


costura para o Davida, a fim de acertar no corpo das manequins
54 Daspu – a moda sem vergonha

as peças que havia montado em casa, sem as medidas das


colegas. Havia também uma segunda máquina, transportada
gentilmente pelo pai da secretária Ana Maria, que lembra da
dificuldade dele para cruzar o corredor de sete metros da porta
da casa às salas de Davida, por conta do congestionamento
de jornalistas. O fato é que, estimulados por todo aquele auê,
tomamos coragem. Decidimos apresentar na Globo os já famo-
sos, mas desconhecidos, modelitos Daspu.

Na sexta, nos Arcos da Lapa, debaixo de chuva fina, as imagens


foram produzidas. As prostitutas Val Pereira, Jane Eloy, Maria
Nilce e Juliana de Freitas, uma bela paranaense que decidira
conhecer o Rio e a Daspu depois do evento em Curitiba, mostra-
ram o que todo mundo queria ver. Muito feliz, Imperalina apenas
acompanhou a produção, recompensada pelo esforço.

Mais cedo, no escritório, o Fantástico gravara as dasputinhas


sendo maquiadas e penteadas amadoristicamente, entre estan-
tes, livros e mesas, e Gabriela dera entrevista com a primeira e
única camiseta.

Na mesma sexta, outro produto – e não era peça de roupa – havia


ficado pronto: o site www.daspu.com.br, com loja virtual para
venda de roupas. Entrou no ar recebendo milhares de visitas,
enquanto, ao e-mail daspu@daspu.com.br, chegavam 400 men-
sagens por dia. O site foi criado a toque de caixa, de novo, pelo
Sylvio – voltando afinal a sua função original, de web designer.

Ainda neste dia de louco, O Globo ligou para saber se íamos


ou não manter o nome. A decisão estava tomada – depois de
outras conversas com o advogado –, e o diário deu este título
num alto de página no sábado: “Grife de prostitutas Daspu não
abrirá mão do nome”.

No domingo, bom, no domingo, ninguém é de ferro, combinamos


uma festinha para assistir ao Fantástico, na casa do Sylvio, em
Copacabana. Com imagens do desfile Daspu nos Arcos da Lapa
e do prédio-monstro da Daslu, a reportagem, além de lembrar o
De bar em bar 55

imbróglio jurídico e policial da megaloja paulistana, cortava de


Gabriela para o advogado VIP das grã-finas e vice-versa, com os
respectivos argumentos contra e a favor do nome Daspu. Mas a
última tomada foi com ela, e definitiva: “Quero deixar bem claro
que a palavra DAS é uma palavra da língua portuguesa, não é de
propriedade de ninguém. O PU é nosso, é da nossa profissão”.
56
Cap.04
O Tempo é O Tempo

Cap.04
O Tempo é O Tempo
Já era segunda-feira de novo, e mais uma vez se iniciava uma
semana de fervo. Esta, agora, com milhões de pessoas sabendo
da nova grife. Orgulhosíssimos e extasiados, decidimos mostrar
as poucas peças apresentadas na TV, durante o ensaio do bloco,
ainda nas segundas-feiras.

Como as primeiras agências internacionais batiam à porta,


marquei na Tiradentes com a Reuters, de texto e TV, e a World
News Pictures, além da Folha. Seis prostitutas se cansaram de
fazer caras e bocas, ainda de dia, para as câmeras.

À noite, já acompanhadas pelos ritmistas do Prazeres Davida, as


dasputinhas evoluíram pela pequena rua Imperatriz Leopoldina,
numa espécie de ensaio público de desfile. O site do Beijo da
rua registrou as evoluções e os comentários entusiasmados
das futuras modelos, que já revelavam a contribuição da grife
para a auto-estima e o combate ao preconceito.

“Foi vir ao Rio e já chegar como estrela. Agora, a Gisele e a Naomi


Campbell que desçam do salto que nós estamos subindo”, disse
a marota paranaense Juliana, usando aquela única camiseta
Daspu disponível, a de transfer.

“Muito legal. Hoje me soltei mais do que na gravação para a TV.


Estou quase me acostumando com as câmeras, e as pessoas
me reconhecem na rua. Um conhecido me disse: ‘Você é tudo
aquilo?’”, revelou Val, que vestia o top preto com saiote coral.

58
60 Daspu – a moda sem vergonha

“As outras mulheres não estão tendo nem um pouquinho de pre-


conceito em relação à moda Daspu. A cabeleireira me disse: ‘Vi
você no Fantástico. Gostei muito e dou o maior apoio’. E as cole-
gas adoraram, estão perguntando direto como se faz para com-
prar as roupas”, contou Jane, de vestido vermelho decotado.

“Algumas pessoas já estão me abordando na rua. Uma delas foi


um cobrador de ônibus que me viu no jornal”, disse Cida Silva,
que não havia participado da gravação do “Fantástico” e usava a
camisolinha das fantasias do freguês da Lina. “Aparecer assim
é bom para a gente, porque ainda tem muita discriminação,
inclusive entre as próprias prostitutas. Se as mulheres nunca
falam, não tem como exigir os seus direitos. Falando, acaba a
discriminação”. Maria Nilce, de tubinho, confirmou as palavras
de Cida: “Acho que esse preconceito vai acabar. Quando? Daqui
a alguns anos. O tempo é o tempo”.

Lena, outra das modelos, tinha avaliação semelhante: “Foi


magnífico para mostrar que temos várias atividades, fazemos
de tudo, somos como as outras mulheres. Prostituta gosta de
carinho, gosta de andar bem vestida, gosta de moda e gosta de
dinheiro. E também é muito bom para diminuir o preconceito,
com certeza”.

Também radiante estava Imperalina, a prostituta costureira.


“Achei ótimo. Me sinto feliz e orgulhosa, porque as meninas
estão gostando da roupa, se sentindo bem. A Jane, por exemplo,
não quer devolver o vestido que usou para desfilar. Não pensei
que ia fazer tanto sucesso assim”.

Gabriela, com anos de ativismo, avalizou: “Finalmente as pes-


soas não estão com medo de mostrar a cara. Não vi prostitutas
da área correndo e se escondendo das câmeras. É um grande
começo para um número maior de mulheres”.
63
64 Daspu – a moda sem vergonha

Marca registrada e viagem de avião

No final daquela segunda-feira, apenas 15 dias haviam se pas-


sado desde o surgimento público da Daspu. Começamos a pen-
sar no valor da mídia espontânea e no potencial da marca, que
ainda não tinha registro. Com a experiência de já ter registrado
o título do jornal Beijo da rua, resolvi correr atrás. Entre con-
sultas pessoais e virtuais ao Instituto Nacional de Propriedade
Industrial, o INPI da Praça Mauá, demos entrada ao processo.

Os e-mails não paravam de chegar. A maioria absoluta era de


apoio às prostitutas e à manutenção do nome, quase exigindo
que Davida não desistisse da marca. Entre os poucos que davam
outra solução, dois chamaram a atenção. Um que, ironicamente,
achava melhor abandonarmos a palavra Daspu, para evitar o
efeito de que nos acusava a Daslu – ficar sujo por causa do nome
da outra. A outra sugestão, na mesma linha, também era muito
divertida: trocar o nome para “Putique”. Esta foi adotada no site,
para denominar a loja virtual: www.daspu.com.br/putique.

A imprensa também não sossegava. Veio o jornalismo nacio-


nal da Band, de novo com imagens de rua das dasputinhas em
seus modelitos, acompanhadas de enquete popular favorável.
Depois, a coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. A pro-
posta era uma página inteira, a de domingo, com entrevistas das
prostitutas e fotos de modelos profissionais vestindo as peças-
piloto. Repórter, fotógrafa e duas modelos desembarcaram na
sede. Kaya Korabila e Hada Luz adoraram as roupas e posaram
felizes da vida para Ana Ottoni. O jornalista Daniel Bergamasco
quis relatar os momentos de relax e nos acompanhou a um bar
– a Taberna, pra variar do Varanda’s. Lá, duas mulheres reconhe-
ceram as prostitutas e vieram à mesa fazer elogios. No jornal,
Bergamasco detalhou a abordagem e escreveu: “Virou rotina”.

Com a página inteira na Ilustrada da Folha, chamada com foto na


capa, outro convite levou cinco prostitutas, pela primeira vez, aos
céus do país. Val Pereira, prostituta e ativista do Davida, e agora
dasputinha, lembra bem da emoção da viagem e da gravação no
O tempo é o tempo 65

SBT, em São Paulo. “Nunca vou esquecer do programa da Adriane


Galisteu, porque eu sabia que todo mundo ia estar me vendo.
Eu tremia igual vara verde, o nervosismo, aquela coisa de perna
bamba. Pior ainda quando fiquei na ponta da fila, porque eu ia
ser a última a entrar e de repente me botaram como a primeira
a desfilar no estúdio. E foi também a primeira viagem de avião,
estava com calafrio.”

Curioso que Val não tivesse vivido emoção semelhante na gra-


vação para o “Fantástico”, assistido por muito mais gente. Mas,
ou porque estava no Rio e fora de estúdio, ou por conta de tudo
ser tão recente, a ficha ainda não tinha caído: “Nos Arcos da
Lapa, pra mim, eu não estava nem sendo filmada”.

Os bastidores da gravação no SBT, contados por quem lá esteve,


foram mesmo esfuziantes. Todas as prostitutas deram um jeito
de posar com a apresentadora, e a própria Val trouxe foto em
que aparece abraçada a uma Adriane que está vestindo Daspu.
Acontece que, após a matéria com a grife, ela pediu uma das
peças-piloto – a camisolinha vermelha – e continuou o pro-
grama de dasputinha, entrevistando outros convidados. Nos
créditos finais, Daspu estava entre as marcas que Galisteu
“veste”. Línguas experientes asseguram que foi um sufoco tra-
zer a camisola de volta.

Dessa vez, a festinha para assistir ao programa seria lá em casa.


Àquela altura, vários outros jornais (como Estado de S. Paulo
e Zero Hora), revistas (IstoÉ Dinheiro e Época), rádios (da CBN
nacional a uma emissora gaúcha de Capão da Canoa) e sites
(Terra, UOL, Yahoo, IG) haviam publicado matérias sobre Daspu.
68

Cap.05
Fim de ano de doido.
Cap.05
Fim de a
Enquanto nos virávamos em vinte para atender jornalistas
mobilizados pela ótima história e super simpáticos a nós, três
situações nos preocupavam. A criação de peças, a produção
delas e o atendimento aos ávidos clientes, na sede e pelo site.

“Eu não entendia nada de roupa, sou designer gráfico. Aí, deci-
dimos começar com camisetas, a da marca da Daspu e a do
bloco Prazeres Davida, além da peça com a gravura do Segall,
que, felizmente, tínhamos no estoque. Botamos logo no site,
imaginando vender duas ou três por semana. No primeiro mês,
foram mil e poucas”, lembra Sylvio.

“As pessoas queriam para dar de presente no Natal e o forne-


cedor de silk não dava conta, atrasava. Os que moravam no Rio
vinham ao escritório, ficavam bravos, queriam levar logo”, com-
plementa Gabriela.

A visibilidade cobrava o seu preço. O Natal apertava o cerco.


A secretária Ana Maria, transformada em vendedora, quase foi
à loucura. Educadíssima, paciente e eficiente, começou aten-
dendo por telefone.

A demanda foi violenta. As pessoas foram descobrindo a gente,


só havia três modelos de camisetas – Lasar Segall, marca
Daspu e bloco – e o fornecedor não dava conta. Os paulistas,
principalmente, abraçaram a causa, pegaram a bandeira e os

70
Fim de ano de doido 71

telefonemas não paravam – bateu no gancho, tocava de novo,


as duas linhas ao mesmo tempo sem parar.

Para aumentar ainda mais a temperatura das vendas, algu-


mas pessoas descobriram o endereço da ONG e, aos poucos,
o site passou a ser muito usado para compras. “Eu acabava de
atender um cliente virtual e, logo em seguida, ele já postava um
comentário, quase sempre de elogio à grife e de apoio à causa”,
lembra Ana.

Na época, o envio das peças era por correio simples e demo-


rava muito, principalmente por conta da proximidade do Natal.
Incluímos um prazo de entrega na loja virtual, de dez dias após
o depósito em conta corrente. Mesmo assim, Ana Maria tinha
de dar mil explicações sobre a dificuldade – ou impossibilidade
– de despachar logo a mercadoria, por falta total de estoque ou
do tamanho pedido.

Ainda havia casos de troca, como o de um cliente afortunado


que comprou pelo site e recebeu logo a camiseta. “Comprei
uma baby-look, mas não dá”, disse. “Esse modelo é feminino.
Eu posso trocar pela unissex pequena e você faz um ajuste, se
for necessário”, chegou a dizer a secretária-vendedora. “E eles
topavam, na maior boa vontade”, conta ela.

Mas também havia as inevitáveis reclamações, pela ansiedade


e pelo desespero das pessoas. Uma delas, por e-mail, nos
ameaçava até com “outra briga judicial” por conta do atraso na
entrega. Mas a mensagem terminava com um “grato”.

“Eu não dormia, sonhava com camisetas”, lembra Ana, que


ainda era ajudada pela arquivista Maria José, também deslo-
cada de função, e por quem mais bobeasse no quartel. Havia
mutirões de gente atendendo pedidos pelo telefone, pelo site
e pessoalmente; encomendando peças; reclamando dos atra-
sos do fornecedor e abrindo caixas de camisetas; verificando
depósitos; contando dinheiro; empacotando, endereçando e
indo aos correios. Tudo isso distribuído pelas quatro pequenas
72 Daspu – a moda sem vergonha

salas do escritório, com as caixas empilhadas no hall e no cor-


redor e todos se trombando. Pelo menos já havia pacotes apro-
priados para despacho, que seguiam com um adesivo da Daspu
indicando o remetente e diversos folhetos sobre a ONG e a grife
embalados junto da(s) camiseta(s), num conjunto recebido com
entusiasmo pelos clientes, que ligavam agradecidos.

Para mim, sobrou o pedido da redação inteira do “Fantástico”.


Bia Rónai, produtora que tinha feito a matéria, me ligou.
Gritava na redação “quem quer camiseta Daspu?”. Eu ouvia
gente dizendo “eu, eu, eu”, “quantas, qual o número?”, “Zeca
[Camargo], você quer?”, “quero!”. Foi uma loucura, eu suava frio
no telefone, porque sabia que não tinha tudo aquilo. Fiz o oposto
de um bom vendedor: negociei a redução dos pedidos. E pouco
antes do Natal, veio ao Davida um motoqueiro, com um monte
de cheques e dinheiro, e levou as camisetas. O entregador fui eu
mesmo, na calçada diante do escritório.

Proposta paulista

A turbulência já era de grau 3, numa escala de 5, quando surgiu


um empresário de São Paulo propondo negócio. Ele percebeu,
mais rapidamente do que qualquer um, o valor da marca e a
oportunidade de faturar. Por e-mail e telefone, insistiu muito
num encontro pessoal, na época em que chegavam aquelas
quatrocentas mensagens por dia. Tanto fez que conseguiu.

Foi recebido no escritório por Gabriela, na sexta-feira, 23, festa


de Natal de Davida. Objetivo e gentil, na faixa dos quarenta anos,
falou de sua carreira e da “marca forte” que tínhamos em mãos,
confirmando o que havia escrito num e-mail: “Posso ser um bom
parceiro para ajudar a transformar a grife Daspu em um grande
sucesso. Creio que não só as prostitutas, mas muitas outras pes-
soas simpatizantes teriam interesse em comprar os produtos da
Daspu. Tenho condições de investir num projeto como esse”.

E apresentou a proposta, que era pra lá de tentadora: uma


loja exclusiva Daspu em São Paulo, com sala equipada para
Fim de ano de doido 73

escritório institucional de Davida; outra loja no Rio (contrapro-


posta que ele topou); o desenvolvimento e a fabricação dos pro-
dutos, em caráter não exclusivo (mantida nossa própria produ-
ção) e com nossa aprovação prévia de layout; a comercialização
dos produtos, garantido o direito de Davida fazer negócios na
sede e pelo site; a venda a preço de custo de peças exclusivas
para a ONG revender; o pagamento mensal de royalties de 10%
sobre a venda no varejo (nas duas lojas) e no atacado. No pacote
estavam incluídas festas de inauguração das lojas, primeiro no
Rio, a nosso pedido.

Além da cessão de uso da marca, nossas obrigações se limita-


vam a não interferir nas relações comerciais entre a empresa
dele e seus fornecedores e não se manifestar sobre os negócios
dele sem autorização. Do bolso, não precisaríamos tirar nada. Ele
mencionou um investimento inicial na casa dos 300 mil reais.

A proposta não estava assim detalhada e consolidada naquele


dia 23, mas alguns dos pontos tratados, como o da loja em São
Paulo, foram suficientes para que Gabriela, após se despedir do
empresário, adentrasse a festa de Natal entusiasmadíssima.

As negociações duraram mais dois meses, por e-mail, tele-


fone e pessoalmente, já com minutas de contrato. Gabriela e
eu estivemos em São Paulo em janeiro, onde fomos recebidos
na elegante e despojada loja de tapetes artesanais da mulher
do empresário, nos Jardins. No mesmo dia, estreei na avenida
Paulista a camiseta Daspu, que foi reconhecida por uma espan-
tadíssima e boquiaberta jovem. Em fevereiro, o empresário vol-
tou ao Rio para um encontro definitivo. Havia duas pendências
para nós: queríamos royalties mais elevados, na faixa de 30%.
Ele topou 20%, mas recuou depois para os mesmos 10% iniciais,
tentando retroceder ainda mais, para 8%. O segundo ponto era
o risco de perder, ainda que parcialmente, o controle da marca.
Mas a conversa acendeu outro sinal de alerta: o empresário
reclamou de termos negociado, sem avisá-lo, peças no atacado
para uma multimarcas do Rio, a Parceria Carioca (que ainda
74 Daspu – a moda sem vergonha

vai dar o que falar neste livro), num momento em que sequer
havíamos assinado contrato com ele.

Antes do carnaval, tomamos a decisão de não fechar o negócio,


conversando com Deus e Davida, com o presidente, o advogado
e colegas. A reação do empresário foi muito elegante, com
desejo de boa sorte para nós e um pedido para ser avisado do
desfile do Bloco Prazeres Davida no carnaval. Não fiz isso e me
arrependo. Quanto ao negócio, ainda não sabemos (ou jamais
saberemos) se a decisão foi acertada.

O desfile inaugural

Esta viagem comercial ao futuro, penetrando 2006, não signifi-


cava que 2005 tivesse acabado. Muito pelo contrário! Naquela
metade final de dezembro em que tudo acontecia, ainda haveria
um desfile, o primeiro da grife Daspu. A data marcada para atin-
girmos o grau 5 dos turbilhões foi 16 de dezembro, uma sexta-
feira, dois dias depois de o Conselho Nacional dos Direitos da
Mulher da Presidência da República ter aprovado moção de
apoio à iniciativa das prostitutas (mas não por isso).

O local escolhido para o lançamento da grife foi a Praça


Tiradentes. Planície alagadiça no século XVII; sede da primeira
igreja da comunidade negra carioca e de um cemitério de escra-
vos no século XVIII; local de moradia e trabalho (venda de cava-
los) dos rejeitados ciganos no mesmo século; a região começou a
ganhar ares boêmios e artísticos com as festas de canto e dança
dos negros em busca de dinheiro para custear os cultos e com a
inauguração do terceiro teatro da cidade, em 1813, numa inicia-
tiva privada apoiada por Dom João VI. No século XIX, a crescente
ocupação e o perfil da área, já embalada pelo teatro de revista,
atraíram prostitutas e também homossexuais (pejorativamente
chamados de “os 24”). Ponto de encontro de escritores, de
músicos em busca de trabalho, dos artistas e dos espectado-
res, não faltavam clientes por ali. Pelo menos uma profissional
ficou famosa, a francesa Aimée, descrita por Machado de Assis
como “um demoninho louro”.
Fim de ano de doido 75
76 Daspu – a moda sem vergonha
Fim de ano de doido 77

A jornalista Roberta Oliveira conta, em seu livro Praça Tiradentes,


histórias deliciosas sobre o impacto da diabinha. Entre elas, a
comemoração por sua despedida do Brasil, quando “as senhoras
mais respeitáveis de Botafogo” foram “à praia soltar fogos de
artifício”. Aimée teria levado na bagagem mais de um milhão
e meio de francos, vendido por fortunas alguns dos objetos
de sua casa na antiga rua dos Ciganos (atual Constituição) e,
principalmente, mudado os costumes e introduzido a cidade
ao prazer. No relato da pesquisadora Maria Helena Martinez
Corrêa à jornalista: “Se, por um lado, ela deixou o carioca mais
pobre, porque tinha o hábito de depenar seus clientes, por
outro, incentivou a abertura de restaurantes, cabeleireiros e até
de lojas de departamentos”.

A Praça Tiradentes, propriamente, tem ainda uma peculiari-


dade. Uma imponente estátua, a primeira construída em uma
área pública, de... Dom Pedro I. A explicação é que o batismo
contemporâneo da praça, de 1890, foi dado após a inauguração
do monumento, em 1862. O herói da Independência foi enfor-
cado bem perto dali, mas não na praça.

Hoje, de volta ao futuro, a Tiradentes ainda agrega centenas de


prostitutas em diversas ruas, hotéis e termas. O movimento é
diurno e noturno, e as mulheres circulam à vontade, escolhendo
– à exceção das que trabalham nas termas – o hotel para o pro-
grama com os clientes. Além da especialização sexual, há pés-
sujos e pés-limpos modernosos; centros culturais; galerias de
arte e restaurantes; bancos; salão de sinuca com o que restou
dos malandros, mas em plena modernização; lojas especiali-
zadas em produtos para ambulantes e carnaval; dois famosos
teatros (João Caetano e Carlos Gomes); uma tradicional gafieira
(Estudantina) e escritórios em prédios comerciais. Boa parte
dos imóveis é tombada (numa das casas em reforma morou a
cantora lírica Bidu Sayão) e aquele projeto de revitalização está
em franco andamento, com muitos novos empreendimentos,
como hotéis para executivos. O resultado desse novo perfil
78 Daspu – a moda sem vergonha

ainda não está claro para as prostitutas. Potentes lâmpadas


instaladas por um banco na principal rua de prostituição, a
Imperatriz Leopoldina, já vêm tentando prejudicar, intencional-
mente, a batalha.

E é a partir, justamente, dessa rua que Davida promove e incen-


tiva projetos culturais, políticos, de cidadania e saúde, pelo
menos desde 2002. Também é nela – com cerca de duzentos
metros de paralelepípedos, calçadas altas ocupadas por mesas
de bar e iluminadas por diminutos e antigos postes – que bata-
lham diversas das prostitutas ligadas à Davida, fazendo daquele
ponto o nosso canto mais boêmio. E põe boêmio nisso!

Por isso, não havia lugar melhor para o primeiro desfile da grife
Daspu. Ademais, diversos artistas se interessaram por uma
parceria, atraídos pelo agito que fazíamos ali e pelo anunciado
lançamento da badalada grife.

A ponte foi o dono dos hotéis de programa Nicácio e Paris, Edvan


Miranda, herdeiro do negócio do pai e empresário atento ao
entorno comercial, histórico e cultural. Edvan já vinha sendo um
parceiro constante nos outros eventos culturais e providencia-
ria quartos de hotel para camarins e segurança para o desfile.

A primeira reunião com os artistas – ligados ao vizinho Centro de


Arte Hélio Oiticica e a outros grupos – foi no próprio Centro. De
fato, alguns de nós já tínhamos papeado com alguns deles, assim
como com os assíduos (dos bares da Tiradentes) estudantes do
tradicional IFCS, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
UFRJ, que fica ali pertinho, no Largo de São Francisco.

Éramos quase vinte pessoas, entre 15 artistas, o Edvan e quatro


integrantes de Davida: Gabriela, Jane, Sylvio e este autor. Entre
papos-cabeça diversos (e eu já tinha cinqüenta anos...), acer-
tamos uma parceria para o desfile inaugural da Daspu. Cesar
Oiticica Filho, sobrinho e curador da obra do tio, reativaria por
uma noite um projeto em que prostitutas vestem e agitam os
parangolés do Hélio. As mesmas mulheres (isso surgiu mais
Fim de ano de doido 79

tarde) jogariam pétalas de rosas sobre os paralelepípedos em


que as dasputinhas iriam desfilar, na rua Imperatriz Leopoldina.
O grupo Hapax, liderado por Ericson Pires, tocaria na noite
do evento com o bloco Prazeres Davida. Imagens sobre Hélio
Oiticica seriam projetadas num grande telão, na verdade, lençóis
colocados entre dois prédios, no final da rua. Haveria fotógrafos
cobrindo o evento e cinegrafistas, inclusive o cineasta Neville
de Almeida, filmando as bonitinhas ordinárias. Outros artistas,
como Helio Branco e Ronald Duarte, também iriam colaborar.
Fomos convencidos a chamar o evento de Parangolé Daspu.

Davida-Daspu, no primeiro desfile de nossas vidas, tinha que


obter autorização da prefeitura para a interdição da rua; esco-
lher as peças de roupa e montar os looks; organizar os camarins;
selecionar, maquiar e pentear as modelos; coordenar a entrada
e a passagem delas; contratar e ensaiar os ritmistas do bloco,
que tocaria antes, durante e depois do evento, em parceria com
o Hapax; determinar horário e ritmo para toda a festa; divulgar
o evento e fazer a assessoria de imprensa; e, principalmente,
dominar os nervos.

O controle da ansiedade e da situação foi uma das partes mais


difíceis. A excitação nos camarins era tão maior quanto mais
se faziam cabelos e maquiagens. A rua lotava, repórteres e
fotógrafos subiam ao hotel para entrevistas e o horário previsto
para o desfile, 20h, se aproximava. Tudo atrasou um pouco,
como natural, inclusive a primeira batida da bateria do bloco
e a entrada do grupo Hapax, que anunciaria o início do desfile.
Acontece que, às 20h30, o fotógrafo do Globo André Teixeira
abriu o segredo: a primeira página do jornal estava aberta para
uma foto do desfile e o fechamento se aproximava.

Enlouqueci. Eu já tinha alertado todo mundo sobre os atrasos,


por conta do público e dos horários de imprensa, e a reação
geral – especialmente de alguns artistas – era de desdenho e
superioridade. A imprensa que espere. Mas quando soube da
primeira página, aí não dava mais: voei para o fim da rua, onde
80 Daspu – a moda sem vergonha
Fim de ano de doido 81

estava o Hapax, e insisti na entrada do som. Em poucos minu-


tos, prostitutas vestindo parangolés espalharam pétalas de
rosa vermelha sobre a rua para a entrada triunfal das colegas.

As manequins dasputinhas começaram a surgir pela porta do


Hotel Nicácio, arrancando os primeiros aplausos, torcendo pes-
coços e provocando o tumulto das câmeras. Uma a uma, ou em
pares, e alternando três camisetas e as peças-piloto (três vesti-
dos, o top com saiote e a camisolinha vermelha prestigiada por
Adriane Galisteu), as seis mulheres percorreram a rua de pétalas
em direção oposta à Praça, ao encontro do Hapax. Ladeadas por
uma multidão que, mesmo entusiasmada, respeitou o espaço
do desfile, acompanhadas na passarela-passeata por Neville,
pelas câmeras e luzes do GNT, por fotógrafos de outros veículos
e agências, elas arrasaram! Cabeça erguida, peito empinado,
sorridentes e sensuais, malemolentes, emocionadas, vibrantes.
Em rápidas trocas de roupa, mostraram tudo e, ao final, cari-
nhosamente amparadas pelas colegas em parangolés, ainda se
apresentaram juntas.

Eram elas, as modelos dasputinhas Jane Eloy, Val Pereira, Lena


dos Santos, Maria Nilce, Cida Silva e Valeria. Mulheres dos vinte
aos cinqüenta. A sétima mulher foi Gabriela Leite, que, na sua
entrada em prantos acompanhada pelo artista Ronald Duarte,
arrancou de minha inspiração e do meu amor a definição de
“estilista da auto-estima”.

No dia seguinte, para confirmar o mais-que-sonho, lá estava:


a primeira página do Globo ocupou 14,7 X 22 centímetros com
a foto de uma jovem e atrevida Valéria, intitulada “Daspu na
passarela”, que remetia a uma página interna com a reportagem
completa contendo outra foto, de Maria Nilce exibindo o charme
dos seus 58 anos.

Na noite daquele sábado, 17 de dezembro, a festa foi em casa.


Além de todas as recentíssimas emoções, era a data de exibi-
ção do programa da Galisteu.

O domingo foi uma deliciosa ressaca geral.


82 Daspu – a moda sem vergonha

Mais uma semana iria começar. Aquela em que o empresário


paulista desembarcaria no escritório e faríamos a festa de fim
de ano de 2005. O ano estava terminando para nós. Exaustos
e muito felizes, entramos de férias para Natal e Ano-Novo.
Sabíamos todos que nunca havíamos conseguido tanto na
batalha contra o estigma e o preconceito. E era certo que ainda
havia muito a conquistar.
Fim de ano de doido 83
84
Cap.06
Periferia Central.
Uma multidão adere à periferia. Lá é grande e, mesmo assim,
todos se espremem. Não é fácil de entrar, precisa de convite –
disputadíssimo. Mas é um espaço democrático: tem gente rica
e remediada, tem artista, músico, DJ, jornalista, garçom, puta,
gente de moda e até socialite. Roda de samba, botequim e,
nesta semana especial, comes e bebes de grátis. Que perifa boa!
E ainda tem o luxo de roupas transadas, objetos de arte, imensos
painéis sobre gente que importa, textos e frases geniais. Melhor
ainda: está bem no Centro do Rio. E é janeiro, verão.

Esse espaço é, na verdade, a sala VIP do Sebrae-RJ no 8º Fashion


Rio, instalado naquele início de 2006, no Museu de Arte Moderna,
o MAM. A idéia é mostrar, interpretar e valorizar a periferia, num
ambiente projetado pelo diretor de arte Gringo Cardia. É ali que,
ao lado de outras grifes nascidas periféricas, a Daspu atrai boa
parte da multidão. Mostra apenas camisetas, cada dia de uma
a duas, durante cinco dias, vestidas num busto de manequim
complementado por saia ou calça e acessórios de outras marcas.
É um dos cinco looks apresentados na entrada do salão. E é cer-
tamente o mais admirado, fotografado e comentado.

Depois desse momento de mirar, a busca é por carne e osso e


algo mais. Lá no fundo, meio escondidos (até para quebrar regras
e fumar), num dos poucos bancos disponíveis e juntinhos do bar
e do telão a mostrar desfiles, uma dúzia de mulheres e dois ou
três homens são atração. Trata-se de um grupo de prostitutas e

86
Periferia central 87
88 Daspu – a moda sem vergonha
Periferia central 89

aliados, revezando-se ao longo da semana e sempre respirando


alegria, orgulho e deslumbramento de estar ali, ainda mais com
o simpático assédio de tantos admiradores e curiosos.

Entre as centenas de pessoas que visitam diariamente essa peri-


feria, a empresária socialite Vera Loyola (“Daspu é coisa nossa,
do Rio”), as atrizes Rosamaria Murtinho e Sheron Menezes, a rai-
nha Adriana Bombom (uma das muitas fotografadas abraçando
o manequim Daspu), o cineasta Neville de Almeida, a jornalista
e amiga Leilane Neubarth e a também coleguinha Cora Rónai,
que já desejara “sorte” para a grife em sua coluna. Também está
lá, claro, o anfitrião e superintendente do Sebrae-RJ, Sergio
Malta – mais de uma vez recebendo o chefão da Firjan, Eduardo
Eugenio Gouveia Veira –, além de francesas diversas, artistas
plásticos, estilistas, designers, estudantes de moda, modelos,
inclusive uma das que posaram para a Folha com modelitos da
grife, Kaya Korabila. É gente que não acaba mais para conhecer,
apoiar, conversar e fotografar (-se com) aquela turma de perifé-
ricos que arrombou até festa VIP. De repente. Muito de repente.

Aliás, férias, quem foi mesmo aí que falou em férias? Quem?


Antes mesmo do Ano-Novo de 2005 – foi só passar o Natal de
presentes Daspu –, os telefones já tocavam e os e-mails, api-
tavam. Dessa vez era o Sebrae-RJ, interessado em levar a grife
para esse espaço que tinha no Fashion Rio. O segundo e defini-
tivo encontro aconteceu apenas 48 horas antes da abertura do
evento, na segunda 9. Era um sábado, no calçadão da Taberna
da Glória.

O representante do Sebrae, Beto Bruno, trouxe um sofisticado


vestido da Coopa-Roca para tentar provar que Daspu só devia
mostrar camisetas no Fashion Rio. Aqueles vestidos, saias, top
e camisola que vira dias antes não estavam no ponto. Causou
revolta. Afinal, o prestígio e a visibilidade da Daspu eram tama-
nhos que rebaixar peças tão especiais era mesmo revoltante!
Mas ele insistiu muito e, por grande sorte, trouxe também a
modelista Talita Martins, que cuidaria da montagem e troca do
90 Daspu – a moda sem vergonha

nosso look dia a dia. Simpatia em pessoa, a doce e profissional


Talita foi decisiva nesse encontro e durante a nossa primeira
semana fashion, pelo entusiasmo, pelas idéias e a dedicação.

Também suavizou aquela tarde a repórter do Globo que chegou


depois ao mesmo bar para entrevistar Gabriela. Heloisa Marra,
do Caderno Ela, conversou longamente, dando extrema aten-
ção, leveza e profundidade à entrevista. No sábado seguinte, a
matéria com fotos na capa do primeiro caderno e do Ela (esta
em admirável arte sobre a camiseta “PU Davida”) causaram
sensação no Fashion Rio. Em outra página, uma reportagem
anunciava o que ocorrera na véspera, uma sexta-feira 13:
“Daspu volta a brilhar na passarela”.

Mas seria maldade voltar às ruas tão pronto, sem mais fuxicar
aqueles poucos dias no MAM, que antecederam o segundo des-
file da marca. Fora da sala VIP, por exemplo, nos corredores exter-
nos da estrutura montada para o Fashion Rio, as prostitutas de
camiseta Daspu também eram admiradas, abordadas, elogiadas,
fotografadas. “Daspu. Aí está a camiseta mais cult do momento”
foi uma das legendas para foto publicada no caderno especial do
Ela para o Fashion Rio, sacada de uma das mulheres em trânsito
pelo espaço do Sebrae. Lá dentro, a curiosidade era tamanha
que, depois de a modelista Talita mostrar dezenas de vezes a
camiseta que havia sido exposta no dia anterior ou a que seria
no seguinte, chegamos a expor diversas delas no grande banco
do fundo. Só faltava vender, e propostas não faltaram, mas isso
não era permitido na sala VIP. Até produtos alheios eram corteja-
dos como se fossem Daspu, dos acessórios e complementos do
nosso look aos jeans expostos em outro lado da sala.

Se tanta gente estava surpresa e encantada, nós estávamos


ainda mais. Um dos encantamentos se deu quando adentrou
a sala, logo no primeiro dia, um dos DJs contratados para ani-
mar o pedaço. Valério (Correa Soares) havia sido aluno numa
iniciativa pioneira de Davida, o curso Carnaval de Negócios,
para profissionalizar jovens na indústria do carnaval, quando a
Periferia central 91
92 Daspu – a moda sem vergonha

sede era no Estácio, berço do samba, e a ONG atuava também


com adolescentes, no início dos anos 90. Agora um adulto de 22
anos, trabalhando com áudio, vídeo e sonoplastia, Valério teve
um reencontro emocionante com a “madrinha” Gabi. “A partir do
curso no Davida, comecei a andar”, contou. “Corri muito, suei e
hoje estou colhendo os frutos”.

As palavras do Valério DJ foram publicadas na mesma edição


do Beijo da rua que estampou, na capa, uma imagem simbólica
de nossa participação no estande: o perfil de um fotógrafo cli-
cando Gabriela abraçada ao look da grife. Ou seja, um fotógrafo
(fora do quadro) congelando a imagem do colega que captura
outra, esta, a tão intensamente buscada.

O cartunista Aliedo, autor de tiras para o Beijo reproduzidas


em camisetas, também foi clicado com uma de suas obras, a
divertida “Daspu no inverno”. Nela, uma prostituta encasacada
desenrola um banner em que aparece de biquíni, para satisfa-
ção dos motoristas que passam em seus carros diante da cal-
çada boêmia. Esta seqüência tornou-se depois um filmete de
trinta segundos, exibido no Festival Internacional de Animação
Erótica de 2007, no Rio.

Outro grande momento daqueles dias foi o passeio pelo Fashion


Business, a feira de negócios do evento. A turma de prostitutas
circulando com cicerone particular para apreciar criações em
dezenas de estandes.

O clímax da semana se aproximava. A presença na sala VIP e a


espetacular receptividade à grife nos haviam estimulado a pro-
mover o segundo desfile, mostrando agora as peças que só quem
tinha acesso ao MAM podia ver. Novas estampas haviam sido
impressas a toque de caixa para atender ao convite do Sebrae.

Com repercussão ainda maior que o primeiro, o segundo desfile


acabou coroando a semana Daspu no Fashion Rio. Por coinci-
dência (nem calendário de moda conhecíamos ainda), ele foi
marcado para o mesmo dia e hora do desfile de Gisele Bündchen
no MAM, o que provocou ironias e brincadeiras da imprensa,
sempre incrédula por ofício (“Daspu disputa com Bündchen”,
Periferia central 93
94 Daspu – a moda sem vergonha
Periferia central 95

por exemplo, foi título na coluna Gente Boa do Globo antes dos
dois desfiles). Ao lado dessa inusitada e excitante concorrência
fashion, havia o noticiário diário do evento de moda carioca, com
a grife das putas sempre nas páginas, assim como Gi, e uma
atração especial em nossa passarela boêmia da Tiradentes: a
atriz e ex-modelo Betty Lago, que se oferecera gentilmente para
desfilar (“decidi me doar para a causa”) e a gravar tudo para o
programa de TV “Saia Justa”, do GNT .

A mistura desses ingredientes deu no que deu. A sexta-feira de


lua cheia levou outra multidão para ver as putas desfilarem na
rua de programa do Centro. Além de curiosos, admiradores e
amigos, muitos jornalistas e profissionais de moda, que larga-
ram Bündchen pra lá, até por obrigação. O JB foi o que melhor
destacou esse feito: emplacou na primeira página uma enorme
foto de Gisele, sob o titulo “Atenção dividida”, com a seguinte
legenda: “A platéia hesitou entre ver a top model no MAM ou ir
até a Praça Tiradentes conferir a coleção da Daspu no desfile
prestigiado pela atriz Betty Lago”. Na matéria interna, titulou
“Daspu, a grife que parou o Centro do Rio”, linha acompanhada
em “Passarela democrática” (O Dia) e por “A grife Daspu leva
irreverência para a Praça Tiradentes” (Extra), ambos também
citando a disputa da noite. No Globo, além de estarmos na capa
do jornal, na capa e página 2 do Caderno Ela e em matéria sobre
o desfile da véspera, fomos citados até por Gisele, na reporta-
gem “Eu jamais seria prostituta”. A frase foi dita “ao saber da
existência da grife Daspu e do desfile”, embora a modelo afir-
masse que “o trabalho delas deve ser respeitado”. O que não foi
publicado é que o jornal propôs a ela um encontro com Gabriela
para um bate-papo, mas la Gi recusou.

Do lado de cá das páginas, não houve tempo nem dinheiro


para criar um espaço demarcado para as dezenas de jorna-
listas e profissionais de imagem, entre eles os da BBC e TV5
francesa. Mesmo assim, todos se postaram ordenadamente
num dos extremos do longo carpete lilás colocado sobre os
96 Daspu – a moda sem vergonha

paralelepípedos e coberto de rosas, em novo oferecimento


dos parceiros da arte. Era lógico. Como o carpete evidenciava
uma passarela com ponto de entrada e retorno das modelos,
organizaram-se nesse último – como na maioria dos desfiles
– para não prejudicar uns aos outros e garantir as imagens.
O inesperado, porém, aconteceu. A performance dos artistas
que abriram o evento se alongou demais, provocando confusão
e ansiedade. Foi preciso muito esforço para que alguns deles
abrissem espaço para o desfile, mais querendo aparecer do que
outra arte qualquer, renegando assim o desprezo de um mês
atrás pela imprensa. Aí virou zona, no mau sentido. Quando
as meninas começaram a sair pela porta do hotel, ainda havia
muita gente na pista, impedindo o campo de visão de fotógra-
fos e cinegrafistas. O único jeito foi se movimentar em busca
das imagens, com os inevitáveis atropelos dessas horas. Uma
foto digital tornou-se a prova dos nove de que os jornalistas
haviam feito a coisa certa, usando o instinto de sobrevivência. A
demora e desorganização da primeira performance fora mesmo
decisiva para a confusão, atribuída, por alguns, aos atribulados
coleguinhas. Já na coluna da Hilde, do JB, a descrição foi esta:
A banda Hapax tocava molas de elevador e latas de lixo, calotas
e ferragens, fazendo um som super diferente e dançante para o
povo se divertir. O pessoal do Centro Hélio Oiticica – César Oiticica,
sobrinho do homem à frente – apareceu com seus parangolés. Não
adianta: ficou na moda, sempre tem gente querendo pegar carona
na idéia, o que parece ter sido o caso do bloco Imaginário Periférico,
de artistas plásticos, que invadiu a passarela e deixou o público
sem saber o que era aquilo, bagunçando o coreto. Da próxima vez,
Daspu, cordão de isolamento neles. É o preço do sucesso.

A balbúrdia quase desandou a noite. Mas as cinco dasputinhas,


acompanhadas de Betty Lago e de Rafaela Monteiro, uma esti-
lista que havíamos conhecido no Fashion Rio, apropriaram-se
da pista apoiadas pelos ansiosos espectadores e fizeram um
desfile eletrizante. Com as novas camisetas complementadas
por saiotes pretos e chapéu panamá ou chapéu roxo em cone,
Periferia central 97

imitando o dos cardeais, acompanhado pela capa cardináli-


cia – alusão à estampa “Pecado é não usar” com imagem de
uma camisinha –, elas foram aclamadas aos gritos de “Daspu,
Daspu, Daspu”. E ainda distribuíram preservativos, embaladas
pelo Hapax e pela bateria do bloco Prazeres Davida.

Era a recompensa pelo trabalho intenso e concentrado do pré-


desfile. O carpete e todos os acessórios – chapéus, capas e
saiotes – haviam sido comprados no mesmo dia, por iniciativa
do designer Sylvio de Oliveira, que ia se qualificando também na
concepção e direção de desfile. Os bastidores, para não sair da
rotina, foram agitadíssimos. Era imprensa pra todo lado, com a
própria Betty Lago entrevistando e sendo entrevistada, maquia-
gem e cabelos feitos por voluntários nos quartos e corredores
do hotel Nicácio e até na calcada da rua Imperatriz Leopoldina.

Estas e as cenas mais públicas do evento divertiram e emocio-


naram as debatedoras do programa de TV “Saia Justa” e, claro,
os espectadores-atores da festa, como descreveu o sociólogo
Orlando Junior, pela segunda vez diante de um desfile da grife:
A idéia mostra audácia, criatividade e compromisso, trabalha com a
dimensão do público e do privado, enfrenta estigma e preconceito,
aposta em valores da liberdade e democracia. A Daspu também
expressa uma forma de engajamento das putas na organização de
um novo sujeito social. O público é transformado de espectador em
ator, porque é chamado a se engajar, a sentir, a se posicionar. Vestir
uma camiseta da Daspu é isso, é tomar posição.

O jornalista Andreas Behn complementou:


Ninguém teve a impressão de que precisa ajudar ou aconselhar
essas mulheres da vida. Ao contrário, as protagonistas falam do
que é interesse delas: a luta contra a discriminação, o reconheci-
mento de sua profissão, os sonhos de cada uma. A Daspu ainda
tem muito que desfilar para avançar na luta contra os estigmas.
O caminho é este.

Nascia o sábado, com aqueles tantos jornais e testemunhas


noticiando o desfile para quem foi ver Gi ou ficou de bobeira.
98 Daspu – a moda sem vergonha
Periferia central 99

Na chegada à tarde para o último dia de Fashion Rio, o assédio


ganhou novos contornos. Para começar, um espumante com a
editora Ana Cristina Reis e a repórter Heloisa, no espaço do Ela,
seguido de convites para diversos outros lounges, até a volta
festiva à sala do Sebrae. Nos corredores, mais do que nunca, o
buxixo e as câmeras. A dasputinha Val Pereira foi cercada pelo
GNT para um flash exibido horas depois. À noite, a mesma TV
levou Gabriela para o programa “GNT Fashion”, transmitido ao
vivo do estúdio instalado no MAM. A descontraída entrevista
foi apresentada por Chris Nicklas e contou com a participação
da simpática atriz Guta Stresser, do seriado “A grande família”.
Ambas se derramaram em elogios e interesse sobre a grife e
a performance da véspera, que teve cenas exibidas durante o
programa. “Soube que bombou. Adoro, sou fã da Daspu”, disse
Guta. “Estou curiosa, como foi o impacto do desfile?”, pergun-
tou Chris. Uma questão sobre o “desenvolvimento da marca”
teve como resposta de Gabriela o que seria e nunca foi, por
uma nunca explicada desistência do proponente: “Acabando o
Fashion Rio, vamos fazer uma parceria com o Sebrae, para fazer
um plano de negócios”.

Se tudo isso não era reconhecimento, o que seria?


100 Daspu – a moda sem vergonha
Periferia central 101
Cap.07
Vendendo e
aprendendo.
As semanas seguintes, ainda de euforia, trouxeram novos e
importantes desafios. Uma rede de três lojas, a Parceira Carioca,
fez uma boa encomenda de camisetas (130 peças). Embora tão
recente, a Daspu ia finalmente vender no atacado. Esse era o
salto comercial essencial, pois, até então, os negócios, embora
volumosos, eram todos no varejo – na sede, pela loja virtual, nos
ensaios do bloco ou em desfiles da grife.

Com lojas em shoppings, a Parceira Carioca revende produtos


de ONGs e tem perfil descolado. Fixamos um preço de atacado,
que ainda nem tínhamos, e fizemos a entrega, em consignação.
Enquanto isso, as paulistanas também abriam caminho, com a
Maison Z, revenda chique de produtos eróticos. Uma das sócias
usou uma camiseta Daspu customizada na inauguração de uma
loja em São Paulo, foi entrevistada por Amaury Jr. e, feliz, enviou
as imagens para iniciar o negócio, fechado um mês depois.

Tudo parecia ir muito bem até que, no comecinho de fevereiro


(dia 4), uma nota na coluna Front, do Caderno Ela do Globo, dava
conta de que nossas camisetas eram vendidas por 65 reais na
Parceria Carioca. No dia seguinte, outra nota no mesmo jor-
nal, desta vez na coluna do Ancelmo Góis, destilava maldade.
Intitulada “Coisa Chique”, publicou o seguinte:
As roupas da Daspu, espécie de Armani das prostitutas da Praça
Tiradentes, no Rio, são vendidas nas lojas Parceira Carioca do
Shopping da Gávea, do Fórum de Ipanema e do Jardim Botânico.

104
Vendendo e aprendendo 105

Sei não. A Daspu parece que deixou de ser marginal – coisa do


andar de baixo, como diria Elio Gaspari. Foi adotada pela classe
dominante. Algo parecido houve com Che Guevara. O guerrilheiro
virou fashion, com direito a foto em camisetas e boinas usadas até
por Xuxa. Dia desses, tomara, até a Daslu passa a vender Daspu.

Tudo isso junto, aliado a nossa inexperiência comercial, provo-


cou estragos. Primeiro, a venda por 342% sobre o valor de ata-
cado, então em 19 reais, criou uma sensação de estupidez: ou
nosso preço era demasiado baixo, ou éramos mesmo ignorantes
dos meandros de mercado. Em segundo lugar, a nota, repleta
de ambigüidade, tentava, no fim das contas, desqualificar
o esforço e o sucesso das prostitutas (no máximo, o lugar de
marginal-herói), trazendo de volta os preconceitos que acháva-
mos estar demolindo.

Os resultados desse imbróglio começaram a surgir uma semana


depois, na noite do programa “Jogando Conversa Dentro”, de
Scarlet Moon, gravado na livraria Armazém Digital do Leblon,
no shopping Rio Design. Falando a um repórter depois de uma
divertida entrevista com a presença de modelos e diante da
platéia lotada, Gabriela fez o desabafo (“uma besteira que mos-
trou nossa inexperiência”) transformado em nota na coluna de
Márcia Peltier, no Jornal do Brasil:
Inflação
Presidente da ONG Davida [sic], Gabriela Leite está às turras com
Flavia Torres, da Parceria Carioca. Tudo porque a loja vende cada
t-shirt Daspu por R$ 65, quando o limite estabelecido era de até R$
39. Na sede da ONG, as camisetas são encontradas por R$ 19,90.

Já no dia seguinte à publicação, a loja avisou por e-mail que


não queria mais negócio, mesmo assegurando que mantinha
“admiração” pelo trabalho, depois de pedido de desculpas de
Gabriela. Ainda insistimos numa revisão pública da “besteira”,
estampada dessa forma na mesma coluna:
Não é bem assim
Gabriela Leite, da ONG Davida, nega conflito entre sua grife de
camisetas e a rede Parceria Carioca. “Não controlamos”, disse
106 Daspu – a moda sem vergonha
Vendendo e aprendendo 107

Gabriela, “nem há como controlar o mercado. Temos um preço de


atacado, com revenda a valores livres pelas lojas” Aliás, ninguém
melhor que Gabriela para entender a lei da oferta e da procura.

Nada disso adiantou. A rede pagou o que devia e devolveu


21 peças.

Assim, o primeiro negócio da Daspu no atacado se interrompeu.


Chegamos a enfiar o orgulho na bolsa e a retomar o contato
meses adiante, mas a loja carioca não quis mais parceria. Para
compensar a perda, vieram a MaisonZ, revendendo a 58 reais,
Mig’s & Boni’s, de Niterói, Speranza, do Recreio do Bandeirantes,
no Rio, e mais tarde muitas outras: Berliner, Hilda Boutique e
Doc Dog, de São Paulo, Nunca Fui Santa, de Brasília, Tulipa de
Holambra (SP), Bianca Betiollo, de Caxias Do Sul (RS), BPO BPO,
de João Pessoa, Baoba Café, de Salvador... Nessa trajetória,
perdermos nós e a Parceria. Mas as sócias da Carioca perderam
também o posto de mais cara revenda Daspu. A Doc Dog chegou
a 85 reais.

Quanto ao Ancelmo, voltou a publicar notas sem maus humores


conosco pouquíssimo tempo depois.

No fim das contas, este trecho reconhece o conhecido: a imprensa


anima e desanima, eleva e rebaixa, atrai e repele, trai e traduz.
Viver com ela é muito melhor, mas pode ser doloroso.
Cap.08
Rock, Samba e Funk.
Mick Jagger e carnaval de bloco

Os ecos do Fashion Rio não cessavam. Também lá, aproximou-se


de nós a enxuta equipe de uma organização franco-brasileira.
Andréa Fasanello e a jornalista francesa Nadine Gonzalez,
da ModaFusion, buscavam parcerias de moda engajada.
Encontros. Propostas. Reciprocidade. Em meio a tantas conver-
sas, chegavam ao Rio, para o show de 1,2 milhão de pessoas em
Copacabana, nada menos que os Rolling Stones.

Da turma de cima, ao contrário daquele andar de baixo aí de


riba, Andréa tinha acesso, por meio do empresário Olavo
Monteiro de Carvalho, a Mick Jagger. A história é conhecida,
como diriam os que a conhecem. Foi numa das famosas recep-
ções na mansão do empresário e também marquês, em Santa
Teresa, que Luciana Gimenez conheceu o roqueiro. O que vem
depois é público mesmo: Lucas, o filho. Amiga de Olavo e tam-
bém moradora de Santa, Andréa conseguiu entregar, nas mãos
do pai Jagger, acredite o leitor, uma camiseta Daspu. E foi, sabe
onde? Na passarela que ligava o Copacabana Palace ao palco
na praia, minutos antes do show. Episódio que eu jamais pode-
ria inventar, ficcionista que não sou.

Jagger ouviu algumas palavras, divertiu-se com a história e, a


bem da arte ou da vida, disse que gostaria de usar a camiseta no
palco, diante da multidão. O relato dá conta de que a produção

110
Rock, Samba e Funk 111

alertou para os contratos e impediu a graça. Graça, pra não dizer


bênção. Só de imaginar, dá pra se arrepiar e acreditar em ficção.

De todo jeito, Mick Jagger carregou a blusa estampada Daspu. Se


jogou fora, deu, usou pra dormir, vale tudo, só não vale desperdi-
çar esse conto. Nem aquele show, que o Spielberg... desprezou.

Trabalho e emoção, era assim, viviam o mesmo tempo e hora.


Do rock ao samba, como os ecos, nada parava. O bloco Prazeres
Davida, catapultado pela Daspu, estava cada vez mais freqüen-
tado. Ensaios às sextas, com o carnaval bem pertinho, davam
ainda mais ritmo ao inesperado. Sem aviso, até o rei Momo,
Alex de Oliveira, apareceu com rainha e princesa, numa noite de
temporal que transbordou a pequena rua Imperatriz Leopoldina
e obrigou quem pôde a se refugiar em marquises e bares, o
maior deles com a bateria e os foliões sambando e cantando
sem parar – mesmo quando a água ultrapassou todos os limites
e chegou aos nossos pés:
Berço do carnaval e do teatro
A Tiradentes é de fato
Lenda viva pra contar

Palco das mais lindas fantasias


Das mais loucas alegrias
Dos doces prazeres da vida

Ontem, as vedetes do teatro rebolado


Hoje, outras meninas vão lembrando esse passado

Rebolando na avenida
Vão fazendo a sua vida
Como em qualquer profissão
É a mulher na batalha, consciente, cidadã
Plantando o mundo que vai florescer amanhã

Rebola-bola, você diz que dá que dá,


Mas só dá de camisinha,
Que é pro bicho não pegar
112 Daspu – a moda sem vergonha

Daspu! Daspu!
Você diz que dá que dá,
Mas só dá de camiseta,
Que é pro bicho não pegar

Breque:
Pode apostar...

Assim cantávamos, entusiasmados, o samba composto e letrado


pela jornalista e professora de canto das meninas, Denise Reis, que
conseguiu reunir história, ativismo, propaganda e bom-humor.

Nesse clima, duas semanas antes do Carnaval, a Caprichosos


de Pilares convida as dasputinhas para sair num carro alegórico.
O enredo “Na folia com o Espírito Santo, o Espírito Santo capri-
chou!” incluía homenagem à prostituta espanhola Maria Ortiz,
por ter ajudado a rechaçar uma tentativa de invasão holandesa
no estado, em 1625. Alguém sabia disso? Nem nós. A história era
melhor que a encomenda: Maria Ortiz e as colegas, de seios nus,
atraíam os abusados à colina onde ficava o bordel em Vitória,
para despejar tonéis de água fervente sobre eles, que sequer
podiam reclamar de frieza comercial das mulheres.

Por essa engenhosa artimanha de sedução e guerra, a prosti-


tuta estrangeira, que adotou o Brasil para o que desse e viesse,
ganhou o segundo carro da escola, “Devorando a terra”. Era
representada por uma enorme escultura de pé e nua, com visão
privilegiada das plataformas onde as colegas de hoje seriam as
amigas de ontem, vestindo apenas saias de espanhola e balan-
gandãs e, claro, de seios nus.

A notícia causou sensação. Três minutos depois, o convite


estava aceito. No ano de inauguração da Cidade do Samba, uma
bela e devida obra, o primeiro passo foi conhecer os anfitriões
e provar as fantasias. No barracão, recebida pelo carnavalesco
Chico Spinosa e pelo presidente da escola Paulo de Almeida, a
mulherada deu entrevistas à balde e ganhou fotos nos jornais.
Antes da avenida, houve tempo de ir a um ensaio na quadra para
sentir o clima e aprender o samba. O CD oficial das escolas teve
Rock, Samba e Funk 113

também serventia, tocado exaustivamente num encontro de


putas na parte diurna da data do desfile.

A programação de carnaval ficou, então, assim: no sábado,


desfile do Prazeres Davida na Praça Tiradentes; domingo,
Caprichosos de Pilares na Marques de Sapucaí. Ah, e ainda
uma tarde no Imprensa que eu Gamo, a convite do bloco de
jornalistas.

Com o upgrade carnavalesco para a festa oficial, a brincadeira no


bloco ficou ainda mais animada e atraiu mais de trezentas pes-
soas para o sábado à tarde na Tiradentes, aquele “palco das mais
lindas fantasias, das mais loucas alegrias, dos doces prazeres da
vida”.

Depois de duas horas de esquenta, a saída da estreita rua para


a pista larga diante da praça foi de ganhar o mundo. Abrindo
espaço entre ônibus e carros – a guarda não apareceu e volun-
tários experientes deram conta do ofício –, os foliões logo
passaram pelo Teatro João Caetano, alcançaram o lado oposto
admirados pelo Carlos Gomes e fizeram outra virada quase
em frente à Gafieira Estudantina, chegando de novo à rua das
putas, para retomar o circuito. Esquerda, direita, direita-direita-
direita, no sentido dos carros, circundando as grades que retiam
o aflito imperador no centro da praça.

Uma velhíssima Kombi improvisada com caixas de som e fios


de microfones ajudava a amplificar as vozes de Denise e do
puxador oficial, Douglas, de todo e qualquer modo acompanha-
dos por uma alegria cantante estimulada pela bateria de vinte
ritmistas da Cidade Alta, subúrbio de Cordovil. As putas iam
liderando, de vestidinhos e camisetas Daspu adaptados para
o carnaval, seguidas ou ladeadas por muitas outras estampas
ambulantes, com destaque para a preta, amarela e vermelha
do bloco. A porta-bandeira e artesã do pavilhão concluído na
véspera Geísa sambava entre todos de penacho vermelho na
cabeça. Até um vira-lata entrou na festa.
114 Daspu – a moda sem vergonha

E o tempo era bom, depois de tanta chuva.

Observação e conversas revelavam quem éramos nós: pros-


titutas, comerciantes e boêmios do Centro e de outras áreas,
colegas do bloco das Carmelitas e do Cordão da Bola Preta,
que acabara de desfilar, ativistas diversos, com destaque para
a turma da ONG Koinonia, atrizes, estudantes, admiradores e
clientes da grife e das mulheres. Muitos registraram opiniões no
gravador do folião-repórter:

“O samba é ótimo, tem espaço, sambamos à vontade. E está


muito democrático, todo mundo no samba”, disse a sambista
juramentada Bárbara, destacando as vantagens da estréia de
um bloco, com mais pista para evoluir. “É um bloco família”,
decretou seriamente o Bola Preta Jorge Bastos, que só parou
“um pouquinho para ajudar com o trânsito”. “Essa área já se
tornou um ponto de encontro. Aparecem turistas para apreciar
todo esse movimento cultural”, comemorou o empresário Edvan
Miranda, dos hotéis Paris e Nicácio. “Não sou profissional, mas
estou com toda a garra. É um prazer e uma honra levar o pavi-
lhão do Bloco Prazeres Davida”, disse a porta-bandeira Geisa.
“Estamos aqui para acabar com o preconceito contra as pros-
titutas. Por que elas não podem ter o bloco delas?”, arrematou
André Miranda, da Federação dos Blocos. Pra lá de entusias-
mada, a prostituta e dasputinha Maria Nilce dizia: “O Davida é a
empolgação que anima o povão do Brasil”. Reclamação, só uma,
da atriz Cristiane Ferreira: “Adorei, amei, mas tinha que dar mais
voltas na praça”.

De fato, foram só duas voltas na Tiradentes. Mas, com o antes e


o depois, quase três horas de samba, que encheram de orgulho
as putas e a compositora: “Nunca tinha passado por uma expe-
riência dessas. Um monte de gente cantando uma coisa que eu
escrevi. Foi uma catarse, uma festa, foi tudo, tudo, tudo”, vibrou.
“Valeu a pena insistir e não esfriar por causa das chuvas nos
ensaios”, lembrou ela, para se liberar do trauma das águas de
rua invadindo o bar.
116 Daspu – a moda sem vergonha
Rock, Samba e Funk 117

Opinião querida sobre o bloco-família também veio do meu pai


e presidente da ONG, Waldo Cesar, vivendo aos 83 anos o que
merece pra sempre: “Está uma bagunça celestial”.

Agora é na avenida

Ainda estávamos bebemorando na praça, fim do dia, e já era


mais do que hora de buscar as fantasias. As mulheres mais
destemidas se encarregaram de ir para a Cidade do Samba, vol-
tando com uma dúzia de sacões amarelos. Foram todos guar-
dados no hotel do Edvan, para a noite seguinte. Antes disso, na
tarde domingueira, almoço e ensaio do samba com a presença
em casa de quase todas as destaques. Já de retorno ao hotel,
a prova definitiva e a maquiagem em mesa de bar, com a ajuda
de colegas que veriam o espetáculo pela TV. Uma delas tinha
sido convidada em cima da hora para desfilar, depois que uma
ativista australiana sumira de vista, certamente por ter negado
a um jornal que era prostituta, como saíra em matéria feita no
barracão da Caprichosos. Mas reapareceu insistente e recupe-
rou a fantasia, deixando a verdadeira colega na mão. Contornada
a tristeza, partimos para a avenida.

Na concentração, as prostitutas, assim como Maria Ortiz, atra-


íram muitos olhos-compridos. Nenhum vindo da Holanda, que
não é mais boba e até legalizou a prostituição no país. Elas retri-
buíram o assédio com calor, dessa vez, o das palavras: “Me sinto
uma deusa. Estamos mostrando a nossa cara e muito mais para
as colegas criarem vergonha” (Val); “As pessoas já estão respei-
tando a gente na rua e vão respeitar muito mais agora” (Jane);
“Estou muito emocionada com a repercussão do nosso trabalho
também no mundo do samba” (Gabriela); ou “Tudo pela escola,
tudo pela Daspu, tudo por nós e pra todo mundo que se assu-
miu”, por Doroth, que também virou frasista de jornal quando
respondeu pergunta sobre os vastíssimos seios: “Vergonha dos
meus peitos? Nunca; é nós!”.

O carro também era ocupado por mulheres de outras profissões,


igualmente de seios à mostra, e por artistas vestidas na parte
118 Daspu – a moda sem vergonha

da frente. A cantora Sandra de Sá estava inspirada: “Me sinto


honrada e orgulhosa de estar desfilando ao lado das meninas
da Daspu. Elas fazem um trabalho social da maior importância,
sem falar da enorme função social da sua profissão”.

Na passagem pela avenida, foram recebidas por flashes, aplau-


sos, gritos e acenos, como o sinal de positivo da jornalista
Glória Maria e os pedidos pra “sacudir o peito”, como relatou
Valeria, 22 anos, de Copacabana: “O público dá moral, a gente
sente quando empolga”. Sambando e cantando sem parar – “o
povo da harmonia estava feliz com a gente”, contou Gabriela –,
“as meninas da Daspu” foram citadas duas vezes durante a
transmissão da Globo, embora a telinha as mostrasse de longe.
A escola teve muitas falhas e acabou rebaixada, mas elas
ganharam textos e fotos nas páginas dos jornais. Muitos dando
força às sem-silicone de 20 a 59 anos, em plena era artificial.
Foram elogiadas até pelo carnavalesco: “Parabéns, vocês foram
lindas”. A frasista Doroth resumiu: “Se a Caprichosos não fez
sucesso, a Daspu fez. O grande PU foi a Daspu”.

Uma parada de puta

O rock e o samba do início do ano tinham deixado à espera um


outro e ainda distante ritmo para a maioria de nós: funk. É que
numa noite de ensaio do bloco, encarapitados no 19º andar de
um estúdio na Praça Tiradentes, três amigos ouviram a percus-
são e se ligaram: deve ser o bloco das prostitutas que criaram
a Daspu, vamos lá conferir. Desceram conversando sobre a
“genialidade” do nome, já sabendo dos burburinhos dos desfiles
e outros agitos, e tiveram certeza de que eram elas mesmas por
causa de outro nome, o do bloco Prazeres Davida.

No bar do Hotel Nicácio, rodeados de garrafas, mulheres e boê-


mios em geral, levaram o papo adiante. De repente, as palavras
falaram: “Daspu é uma puta parada”. E a outra boca: “Nada,
Daspu é uma parada de puta”. O terceiro emendou, literalmente:
“Daspu é uma puta parada porque Daspu é uma parada de puta”.
Rock, Samba e Funk 119

Os amigos se entusiasmaram e decidiram fazer um samba.


“Samba não, um funk”, disse o baterista, DJ e letrista Gutz para
Gimene e Kjá, dois especialistas em marketing de guerrilha.

Já com ritmo e dois versos na cabeça, Gutz voltou só ao estúdio


Música para Meia Dúzia:
Peguei todos os sons que tenho de funk, comecei a montar. Já
gravei o refrão, fiz a batidinha, a estrutura da música, introdução,
a viradinha, com espaço para letra. E, porra, puta é uma coisa
que eu me amarro, a sagacidade, a inteligência emocional que
elas têm com quem está do outro lado, a raça de curtir a vida,
de ganhar o dinheiro. Pensei: vou fazer uma música enaltecendo,
cresci, fui iniciado no meio, fiquei amigo de muitas, amigo de ir
na casa beber cerveja, já entrava no puteiro porque era amigo.
Porra, tem uns caras que fazem funk e esculacham a mulherada
mesmo, pra eles é tudo devassa, mas esse funk tem que ser uma
homenagem, são pessoas magníficas.

Com experiência e sentimento de sobra, Gutz, chamado por


inteiro Gutemberg de Souza Além Neto, passou então para as
palavras-chave, criando os versos que o leitor conhecerá por
completo logo adiante:
Shortinho, peitinho de fora, que também é o “peito aberto para
a vida”, de correr atrás e meter bronca, “aqui o meu respeito, que
não tem ninguém de bob”, uma gíria que elas também usam na rua
e nos puteiros, “a cabeça tá erguida, o peito aberto por esporte”,
porque além de ser um esporte, o sexo é uma profissão, um
ganha-pão, um prazer. E aí comecei a juntar, a separar por estro-
fes. Espetei um microfone, fiz uma demo, gravada ali mesmo,
na mesma noite, e mandei por MP3 para os dois com a letra no
próprio e-mail. “Aí, se vocês não tiverem tempo, eu vou fazer do
mesmo jeito, se ninguém me responder, está pronto”. O Kjá res-
pondeu: “Se você quiser um cat não se esqueça do dindim”, botei
lá e tirei umas coisas que eu tinha colocado, acrescentei “porque
a parada é profissa, e princesa são as mina”, tem essa linguagem
toda, junto com o respeito, a consideração.

Mesmo excitado com a obra, Gutz sentiu que precisava de algo


mais, algo mais... sexual:
120 Daspu – a moda sem vergonha
Rock, Samba e Funk 121
122 Daspu – a moda sem vergonha

Quando veio o verso do Kjá, levei o notebook pro banheiro, tudo


travado, sem barulho de nada, “vou gravar no banheiro e tocar
uma punhetinha pra ficar enturmado’”. Um calor do caralho, era
verão, “vou suar a camisa aqui pra terminar a obra”, pensei em
todas as minas que tinha conhecido, ‘Daspu é uma puta parada’,
saí, peguei um vento, voltei, seis garrafas de cerveja, trancado
no banheiro, suando pra caralho, isso já era papo de madruga
mesmo, peladão, amarradão, berrando pelado, já relaxado, depois
da punhetinha, gravando o funk da Daspu com todas essas histó-
rias dessas meninas.

Só faltava embalar pra presente, mas não naquela hora. Gutz


falou com os amigos, que têm escritório de design: “Vamos
fazer um CD mesmo, como se fosse uma gravadora, e entregar”.
Fizeram capa e deram o título geral de Pornô Promo Pop. Ele gra-
vou o segundo CD, Dar um só é sacanagem, e acrescentou outras
músicas, uma delas a deliciosa “Uau! Uau!, Oral, vaginal, anal!”,
dele mesmo e inspirada na leitura de Bruna Surfistinha.

Ficou assim:
DASPU – Uma puta parada
(Gutz, Gimene e Kjá)

Daspu é uma puta parada


Daspu é uma parada de puta
Daspu é uma puta parada
Daspu é uma parada de puta

No lazer, na folia, na pista ou na luta


Trepa zen, veste bem, goza bem na costura
E sempre agüenta uma dura, Duracell, pilha forte
Güenta o tranco, corre atrás de peitinho lindo e short

Daspu é uma puta parada

Daspu é uma parada de puta


Daspu é uma puta parada
Daspu é uma parada de puta

Som e sexo para o povo!


Rock, Samba e Funk 123

A cabeça tá erguida, o peito aberto por esporte


Aqui o meu respeito, que não tem ninguém de bob
Se vc quiser um ‘cat’, não se esqueça do din-din
Porque a parada é profissa e princesa são as mina.

Daspu é uma puta parada


Daspu é uma parada de puta
Daspu é uma puta parada
Daspu é uma parada de puta

Som e sexo para o povo!

Na sexta-feira seguinte, eles se apresentaram e entregaram


o CD à Gabriela, durante o ensaio do bloco: “Uma porrada de
gente em cima dela, eu tinha que ser mais um mesmo, me
apresentei, ‘fizemos um funk’, foi entregue já com capa”, conta
Gutz. Ninguém lembra se tocou na mesma noite; é provável.
Mas certamente teve estréia pública em março, depois de um
show das Mulheres Seresteiras, quando caiu no gosto total das
prostitutas e freqüentadores da Tiradentes. Entre os desfiles,
batizou-se curiosamente em São Paulo, no primeiro a se reali-
zar desde a noite do show. Nunca mais deixou de abrir e fechar
nossos desfiles, virando o “hino da Daspu”, como era a intenção
da rapaziada.

Música com tesão é isso aí! Né, Gutz!?


124 Daspu – a moda sem vergonha
Rock, Samba e Funk 125
Cap.09
Um passo adiante.
A estilista, o programa do Jô e o chão de São Paulo

A grife já cantava até hino próprio (alguma outra no mundo faz


isso?), mas não tinha estilista. Ninguém da equipe passara por
formação na área, mínima que fosse, e as expectativas externas
e internas aumentavam na mesma proporção que a visibilidade.
Além disso, conforme conhecíamos melhor o universo da moda,
ficava evidente o elevadíssimo nível profissional do meio. O
esforço de inventar e costurar algumas peças em tecido, logo
no início, havia demonstrado que era preciso muito mais do
que boas idéias e simpatia do público. Se a pretensão fosse ser
apenas uma grife de camisetas, tudo (quase) bem. O talento e
as frases sacadas por Sylvio, o designer, como “PU Davida” ou
“Somos más, podemos ser piores”, as tiras do Aliedo, mensa-
gens históricas ou contemporâneas da luta das prostitutas
(tipo “Pecado é não usar”), tudo isso ajudaria bastante, mas era
necessário vasculhar muito mais fornecedores e modelagens
(até essa uma palavrinha nova para nós), para dizer o mínimo.

Gabriela lembrou então da jovem estilista que havia se apre-


sentado a ela no Fashion Rio e desfilado com Betty Lago e as
dasputinhas. Tinha chamado a atenção o portfólio com dese-
nhos inspirados em motivos de bar que ela havia mostrado
no MAM, assim como a disposição de aceitar na última hora o

128
Um passo adiante 129

convite para desfilar no evento a que tinha ido apenas assistir,


na Praça Tiradentes.

Um contato via orkut surtiu rápido efeito. Em poucos dias, as


duas mais eu sentamos para um papo no botequim, onde o con-
vite foi feito e aceito. Na manhã seguinte, ela comunicou que
já havia se demitido da Gang, onde era apenas uma das esti-
listas, e que começaria a trabalhar conosco nos próximos dias.
Nada disso foi resultado de uma incrível proposta financeira. Ao
contrário, Rafaela enxergou uma oportunidade de visibilidade e
crescimento profissional (“Foi a melhor coisa que fiz na minha
vida, não me arrependo um minuto”), e nós, pressionados pela
urgência e avalanche de acontecimentos, apostamos na única
pessoa da área que demonstrara tão rapidamente interesse em
trabalhar na Daspu e aceitara o cacife da mesa.

Todos gostaram da iniciativa, inclusive Sylvio, que não se can-


sava de dizer que não entendia “nada de moda”. Rafaela, 26
anos, havia também conhecido as meninas no segundo desfile
da Tiradentes. Divertiram-se e entenderam-se bem, principal-
mente ela e Val, que passaria a brincar com Rafaela sobre a
besteira de ser 0800 no sexo.

Num gesto simbólico e de generosidade, Gabriela cedeu a sua


pequena e exclusiva sala para a estilista, que, de outro lado,
trouxe o próprio computador. Era metade de março e estávamos
muito empolgados com aquele passo na direção certa.

“Cheguei na sede achando que fosse uma coisa muito maior pelo
nome Daspu que estava na mídia. Depois percebi que era uma
ONG com pouco apoio por tratar de prostituição. De cara, gostei
muito da equipe e me senti em casa, num ambiente em que todo
mundo fica à vontade”, conta Rafaela, dois anos depois.

A primeira atribuição da estilista foi desenvolver uma coleção


para lançamento em junho, a mais completa possível. Passado
poucos dias, porém, surgiu uma outra urgência, urgentíssima:
130 Daspu – a moda sem vergonha

“Você [Flavio] chegou pra mim e disse: ‘Daqui a duas semanas


nós vamos pro Jô Soares e precisamos de roupa’”.

Embora Gabriela já tivesse sido entrevistada por ele duas vezes


(em 1991 no SBT e em 2000 na Globo), agora era diferente.
Haveria um desfile no estúdio. Já na estrada para tornar a Daspu
uma grife de verdade, avaliamos que era uma ótima oportuni-
dade para mostrar um upgrade em rede nacional de TV.

Na correria, Rafaela desenhou e um fornecedor produziu dois


vestidos coloridos de verão, um tubinho tomara-que-caia preto
com o logotipo Daspu na vertical e mais uma camiseta inspirada
na Copa, que seria disputada na Alemanha dali a três meses. As
peças já conhecidas seriam a da marca Daspu, a “Somos más” e
a Lasar Segall, esta na entrevistada. Preparamos também duas
enormes camisetas para o Jô. No 5 de abril desembarcamos uma
turma em Congonhas: Gabriela, as dasputinhas Jane, Maria, Val,
Cida e Lena, Rafaela, Sylvio e eu (nós dois por conta da ONG).

A van nos levou direto à Globo, para uma espécie de ensaio ainda
de manhã. Ofereci o funk da Daspu, mas foi sumariamente rejei-
tado. “Música suave para o desfile”, decretou o diretor Willem
van Weerelt. Depois do almoço, na emissora, vieram maquiagem
e cabelo, camarim para a prova final de roupa, numa excitação
danada, e gravação, que seria exibida na noite seguinte, ou
madrugada do dia 7.

Gabriela papeou com o apresentador por 15 minutos, tratando de


prostituição, ativismo, violência e discriminação, Aids, família,
marido (ganhei um take) e, claro, Daspu. O breve histórico incluiu
o imbróglio Daslu e logo veio o desfile de três minutos, comen-
tado pela entrevistada sobre a música suave. Com flores no
cabelo, sapatilha, tênis, botas e sandálias de salto cedidas pela
Sexy Shoe, as cinco dasputinhas, uma a uma, cruzaram a frente
do público e posaram num piso ligeiramente elevado. A própria
estilista veio por último, no tubinho sobre jeans e de sapatilha.
A pedido de Jô, Gabriela contou onde cada mulher batalhava
(Tiradentes, Mauá, Central do Brasil...) e, quando chegou na
Um passo adiante 131
132 Daspu – a moda sem vergonha

Rafaela, revelou: “E a nossa estilista é estilista, não é prosti-


tuta. Ela me pediu, gente, pra dizer que é estilista e que outras
pessoas podem trabalhar com as prostitutas na boa, não é ver-
dade?”, enquanto a profissional da moda sorria meio sem jeito.

A caminho do aeroporto, o simpático motorista da emissora


fez questão de mostrar o prédio monumental da vizinha Daslu,
que provocou espanto e a sensação do poder da miudinha
Daspu ao balançar tal estrutura física e, sobretudo, simbólica.
Na semana seguinte, já estaríamos de volta à São Paulo da
Daslu, mas também da Daspu, que conquistava cada vez mais
clientes e admiradores na cidade dos gigantes e dos davis.

Esse novo convite não podia ser melhor: tocar o chão de São
Paulo, na zona do michê. Desfile no clube Vegas, em plena
Augusta, com passagem gloriosa pela histórica rua das putas.
A produção foi sensacional, com as mãos encantadas da
equipe do top stylist Daniel Uêda e do salão Mundorama. Tudo
feito num hotel estrategicamente escolhido, justo em frente
do clube. Assim, seria preciso atravessar a rua para penetrar
no Vegas.

Este desfile ganhou as linhas seguintes em nosso jornal:


“Estou amando fazer essa produção fora do cotidiano. Absurdo!”,
exclama Uêda num salão do hotel, diante de plumas, paetês,
sobreposições e plataformas que enfeitarão três modelos do Rio
e sete de São Paulo, convidadas pela equipe. “Prefiro coroa. Con-
versa, faz carinho e massagem”, revela, enquanto isso, a paulista
Laysla, vinte anos, apoiada pelas outras. “Ai, tá doendo meu pau”,
entrega Giovana, que acha legal as pessoas verem uma travesti
desfilando, mesmo que tenham de ser avisadas sobre o detalhe
macho nesse jovem corpinho de fêmea. João Cury, que convidou
Daspu com o sócio Facundo Guerra, do Vegas, dá o grito de guerra:
“Entrem como as lindas pessoas que vocês são”.

“Lá vêm elas, lá vêm elas”, grita um dos fotógrafos que esperam
na porta do hotel, quando a calçada mais boêmia de São Paulo é
ocupada pelas modelos. Elas caminham até a esquina de cima,
gingam em torno de um poste, arrancam gritos e provocam fla-
Um passo adiante 133

shes e cotoveladas entre os jornalistas. Daí voltam e cruzam a


Augusta, interrompendo o intenso trânsito das onze da noite, para
finalmente penetrar no Vegas.

Centenas de pagantes e convidados abrem a roda, embalados


pela energia do funk estreante “Daspu é uma puta parada/Daspu
é uma parada de puta”. As meninas desfilam animadas por gritos
e sussurros. O show é de Val, Jane e Maria, modelos Daspu que
vieram do Rio, e das outras sete manequins da Augusta escolhidas
pela estilista Rafaela Monteiro. Só Valessa, dona de um bar na rua,
não é profissional do sexo. Depois de jurar que entrou de gaiata
no navio, ela diz, às gargalhadas e com o mais vigoroso sotaque
paulistês: “Tão pensando que eu sou puta. Não acredito, meu!”.

O desfile dançante rola solto e vira um festão comunitário, integrando


amadores e profissionais. Todo mundo cai no funk. Maria é agarrada
e sai rodopiando e beijando. Jane enlouquece agora com o som em
pessoa de Deize Tigrona. “Tô ensinando os paulistas a dançar”, grita.
“As pessoas estão comprando e vestindo direto as camisetas, olha
só”, arremata antes de desaparecer na multidão pululante.

Acompanhadas de fãs e jornalistas, as mariposas saem voejando


do clube e voltam para o meio da Augusta, onde pousam e posam
sobre a faixa amarela, estancando novamente os espantados
motoristas. Gabriela se agarra à cintura da xará, também paulista,
Gabi, 23 anos e 1 metro e 84 mais salto 10. Com 54 anos e um
metro e 50, Gabriela nem de longe chega ao pescoço da colega.
O contraste fica por aí: “A gente sempre batalhou. Sabe o que é
estar aqui na Augusta, sendo respeitada?”, brada a Gabi veterana,
aos prantos. “É um barato expressar o que a gente pensa, ocupar
espaço na sociedade e enfrentar o preconceito”, diz a Gabi jovem.

No bar vizinho ao Vegas, Laysla está radiante: “Foi tudo maravi-


lhoso, fotos, roupas, maquiagem, o público”. E Maria? “Me pediram
beijos e lambidinhas e deram muitos parabéns pra nós. Dancei
com vários lá dentro”, diz a veterana. “As meninas daqui aceita-
ram bem”, elogia Jane, “Não fizeram doce como no Rio e disseram
que vão desfilar de novo”. A estilista Rafaela concorda: “Foi um
ótimo intercâmbio com prostitutas de São Paulo”. Entusiasmada,
a socióloga Nina Laurindo já imagina o próximo desfile. “Agora
pode ser na Praça da República ou na Praça da Luz”, sugere.
134 Daspu – a moda sem vergonha
Um passo adiante 135

José Carlos Veloso, presidente do Grupo de Apoio e Prevenção


à Aids (Gapa-SP), dá força para a República. É outro capítulo na
história das PU, o da ponte Rio-Sampa. De corpo e alma.

Na tarde seguinte, as meninas ainda gravaram entrevista com


Otávio Mesquita, na Band, antes mesmo de chegarem às ban-
cas os jornais paulistanos, com matérias ilustradas por fotos e
títulos assim:
A moda das moças da rua (na capa) e
Moda, estilo e deboche: A Daspu chega a São Paulo
(Jornal da Tarde)

Daspu faz calçada fashion na Augusta – grife carioca criada por


prostitutas leva deboche e originalidade ao Club Vegas.
(O Estado de S. Paulo)

A noite daspu na rua Augusta


(Folha de S. Paulo, coluna Mônica Bergamo)

Ainda ganhamos um ensaio do craque Roberto Pompeu de Toledo


na Veja, intitulado “Sem vergonha de dizer quem é – A Daspu é a
marca das pessoas que não escondem nem sua condição, nem o
melhor nome da atividade que abraçaram”.
136 Daspu – a moda sem vergonha
Um passo adiante 137
138 Daspu – a moda sem vergonha
Um passo adiante 139
p
DASPU na pista.

Cap.1
DAS

Cap.10
DASPU na pista.
De volta à prancheta que o tempo ruge

Apresentar-se a São Paulo, “jogando sua petulante altivez na


cara da cidade”, como escreveu Pompeu, foi pra lá de impor-
tante e ampliou ainda mais a clientela e a admiração local pela
Daspu e pelas putas políticas fashion. Mas era hora de voltar
à prancheta eletrônica, pois o tempo rugia para junho, data já
anunciada da coleção.

Em conversa com prostitutas, Rafaela encontrou um ótimo


personagem-tema: os caminhoneiros, considerados por muitas
mulheres os melhores clientes – solitários, carentes, sempre
indo embora... e voltando. O batismo pela estilista também fun-
cionou: Daspu na Pista – BR 69.

Isso feito, criar...

“Fiquei muito apreensiva na hora de apresentar os croquis na


ONG, não queria que a coleção se desviasse do foco do precon-
ceito e da vida das prostitutas. E a receptividade foi maravi-
lhosa”, lembra Rafaela.

… E produzir...

“Dei muita sorte porque o nome Daspu é muito forte, muito forte!
Para todos os fornecedores e facções que eu ligava pedindo as

142
Daspu na pista 143

peças-piloto para ontem, quando eu dizia o nome Daspu, todo


mundo topava fazer de graça”, conta a estilista.

Enquanto as peças eram criadas, recriadas, produzidas e


avaliadas, também se desenvolviam conversas entre Davida e
Moda Fusion, aquela organização franco-brasileira em busca
de parcerias no Brasil. A proposta era uma coleção de lingerie,
criada pela Daspu e finalizada por Fifi Chachnil, estilista fran-
cesa das lingeries de Madonna e de outras estrelas. As peças
seriam produzidas no Brasil, por ser mais barato, e para isso era
necessário encontrar bons fornecedores de tecidos e confec-
ções apropriadas. Seriam lançadas em outubro, em Paris, e no
Rio, no mês seguinte, num evento que Paulo Borges, o criador
da São Paulo Fashion Week, planejava fazer para entrar de vez
na cidade e desbancar – ou deslocar – a arqui-rival e toda-
poderosa Heloisa Simão, chefona do Fashion Rio.

Fifi Chachnil, uma loura e rechonchuda senhora de sessenta


anos, lembrando uma Barbie francesa dos anos 50 com suas
roupinhas de boneca, desembarcou no Rio em junho para o
lançamento formal da parceria, que incluía apoio ao desfile de
nossa nova coleção. Além disso, Moda Fusion conseguiu tempo
e espaço no lounge do Sebrae-RJ durante o Fashion Rio de
primavera/verão.

Em mais dois enquantos entre tantos passos simultâneos,


quatro das Mulheres Seresteiras ainda tiveram fôlego para
apresentar o espetáculo Daspu in Concert, no bar Desacato do
chique bairro do Leblon, e todas elas receberam entusiasmadas
o rapper MV Bill na sede da ONG.

Festejado como a travessia do Centro para a Zona Sul endi-


nheirada, o convite para desacatarmos o Leblon veio de Nelson
Corrêa, o dono de bar que viu as prostitutas cantando na Praça
Tiradentes. Além da casa, ele ofereceu couvert artístico e
estande para venda de roupas. Hilde, do JB, relatou a noite:
144 Daspu – a moda sem vergonha
Daspu na pista 145

A classe média vai ao paraíso (...). O Daspúblico animadérrimo


lotou a casa, cantando junto com as meninas: Lena, a suingada,
Doroth, a dona do carão, e Gabriela Leite, que dirige a ONG Davida
e arrasou no blues. As camisetas da grife venderam mais do que
o chope gelado e o caldinho de piranha – com todo o respeito às
dasputinhas – uma especialidade da casa. (...) O negócio é cantar
e soltar a voz, viver e não ter a vergonha de ser feliz.

Só faltou citar a Jane, que emocionou cantando um lindo ponto


de macumba dedicado a Oxum, vestida a caráter, e declarou
amor à vida e ao trabalho na ONG. Está tudo gravado. Menos
a proposta de uma grande gravadora para um projeto futuro,
tratado com relutância porque havia outra empresa interessada
em parceria desde o desfile no Vegas. Depois eu conto.

Já o “autoconvite” de MV Bill, como ele mesmo definiu, foi pura-


mente social e político, sem tons musicais. Queria lançar o livro
Falcão – Meninos do tráfico e debater com prostitutas e convi-
dados a situação social do Brasil. Semanas antes, havia pro-
movido evento semelhante na Daslu, e certamente queria um
contraponto para aquela visita à toca do leão – disse que tinha
ido arrancar dinheiro dos empresários, no “maior assalto que a
favela já fez sem usar qualquer arma”. Na toca das tigresas, fez
diferente. Compartilhou a vivência e a identidade da periferia,
deu livros, autógrafos e tirou fotos com as fãs, que soltaram a
voz no debate sem perder a oportunidade de apreciar o febril
(era gripe mesmo) homenzarrão. A iniciativa, de grande reper-
cussão, voltou a mostrar que as prostitutas estavam ocupando
um lugar político no cenário nacional.

Esses aparentes desvios eram, na verdade, a própria estrada


principal. Reforçavam a luta das prostitutas, encetada agora
pela moda, por um mundo de maior igualdade e liberdade, sem
tanta – ou nenhuma, se possível – violência física e moral, tão
conhecida pelas mulheres da vida.

E foi criando e aproveitando as oportunidades, que o caminho


para o desfile de junho começou a surgir no mapa. A primeira
146 Daspu – a moda sem vergonha

idéia era se apresentar na Praça Tiradentes, dessa vez na praça


mesmo, ao invés de na pequena rua da Imperatriz. Pensávamos
num evento mega, com potente equipamento de som para a trilha
sonora, grandes camarins, espaço reservado para a imprensa e
o público e, principalmente, passarela e cenário pra valer. Como
a coleção tinha como tema o encontro de prostitutas com cami-
nhoneiros nas estradas, o cenário deveria ter essas referências.

Tivemos então um encontro com Gringo Cardia, que se ofere-


ceu para conceber a cenografia e chegou a rabiscar o cenário
durante uma visita ao centro da praça. Mas os complicados
trâmites de liberação do local público, somados às constantes
chuvas do período e a um outro oferecimento, nos levaram para
a Lapa, também um importante centro histórico de boemia e
prostituição. O Circo Voador, com todo o agito em torno da Daspu
e simpático ao nosso barulho, decidira ceder o seu espaço por
uma noite.

Melhor, impossível. Com infra-estrutura de som, palco, passa-


rela e camarins, acomodação para público e imprensa, cobertura
espantando o risco das chuvas, e identificado com a juventude,
a cultura e a vanguarda, o Circo ainda oferecia entrada franca
para o público. Houve queixas de prostitutas e comerciantes da
praça, mas era preciso entender aquele passo. Não apenas pelo
lado operacional e financeiro – teríamos que alugar quase tudo
e a montagem do cenário, pra citar só ele, seria muito mais com-
plicada ao ar livre –, mas também para ocupar cada vez mais
espaços físicos e simbólicos da cidade.

As roupas da nova coleção iam chegando aos poucos na sede.


Dessa vez, além de camisetas, tínhamos um macacão lilás e
macaquinhos em tons suaves, regatas com imagens de vaca ou
do número 69 dentro de losangos imitando placas de estrada,
blusas com estampa traseira reproduzindo pára-choques de
caminhão com frases do tipo “me aprecie sem moderação”,
um original vestido de malha com marcas de pneu em várias
cores. As modelagens eram justas e curtas, e havia alguns
Daspu na pista 147
148 Daspu – a moda sem vergonha
Daspu na pista 149
150 Daspu – a moda sem vergonha

modelos plissados mais soltos. Sim, voilà, apresentaríamos


também biquínis com a marca Daspu e lingeries cedidas pela Fifi
Chachil. Como acessórios, peças em acrílico oferecidas pelo
admirado artista Sobral. E ainda chaveiros com penduricalhos
tipo pé de coelho, crucifixo e chupeta, reunidos por Rafaela e
pendurados nas roupas, imitando os enfeites que os caminho-
neiros dependuram no retrovisor.

Para o cenário, a peça de resistência seriam pneus (a baga-


tela de trezentos!), conseguidos por nossa produtora com a
Comlurb. Pendurados no fundo do palco e espalhados sobre
ele e a passarela em forma de T, que avançava em direção à
platéia, os pneus criaram o efeito de uma borracharia gigante,
onde homens de macacão ou bermudas e camisas abertas no
peito, sujos de graxa, interrompiam seu “ofício” para receber as
modelos, também com manchas de graxa. Elas desfilavam até
a ponta do T, cercadas de grades para demarcar o espaço do
público, dos fotógrafos e dos cinegrafistas. Ao longo do desfile
de vinte minutos, com 21 looks femininos apresentados por
prostitutas e simpatizantes voluntários, alguns dos “borra-
cheiros” também percorreram a passarela, acionando potentes
buzinas de caminhão, ostensivamente empunhadas. Um deles,
o modelo e professor de Educação Física Edson Silva, negão de
1,90m, arrancou suspiros femininos e masculinos. Entre os que
ficaram no palco, foi citado pela imprensa o cineasta Neville
D’Almeida, que vinha registrando os eventos da grife.

“O desfile foi uma coisa mágica, os deuses todos a favor da


Daspu”, conta a estilista Rafaela. “Houve apenas uma prova
de roupa, no dia anterior, mas nem todo mundo estava lá. Eu
não sabia quantas modelos teria, porque além das prostitutas
convidei várias amigas, que iam chegando na hora e vestindo
roupas que davam perfeitamente. Teve só uma passagem no
palco, minutos antes do desfile, sem o som. Meu primo Laerte
[Castanha Júnior] fez a trilha sonora de músicas brasileiras de
estrada, xis minutos, sem combinar nada, e quando a última
música acabou estava todo mundo no palco”.
Daspu na pista 151

De pé ou sentado na arquibancada em forma de meia-lua, o


público, superior a setecentas pessoas, mais uma vez vibrou,
aplaudindo, gritando e acompanhando as canções estradei-
ras e românticas mais conhecidas, como “Caminhonheiro”, de
Erasmo e Roberto Carlos: “Todo dia quando eu pego a estrada/
quase sempre é madrugada/ e o meu amor aumenta mais/ o que
eu penso nela no caminho/ imagino o seu carinho/ e todo o bem
que ela me faz”. Muitos também aprenderam rápido o refrão
do funk Daspu, que finalmente estreava num desfile carioca. E
todo mundo vivia o encanto e a confusão de não saber quem
era quem na passarela. “O interessante é misturar, confundir as
pessoas. Assim acaba o preconceito”, explicava para os ansio-
sos repórteres a modelo – esta sim - prostituta Jane.

Colaborava para o climão a mística (embora real) de a grife sem-


pre se apresentar na mesma noite em que Gisele Bündchen des-
filava no Fashion Rio. Ao contrário da coincidência da primeira
vez, agora, nesta primavera/verão, Daspu tinha todas as inten-
ções do mundo de concorrer com o mainstream fashionista –
mesmo assim, estaríamos nele na noite seguinte, abusados
como só.

Ao final, com todos no palco, Gabriela, Rafaela e o ator caminho-


neiro Zunk, que vinha atuando em nossa peça “Cabaré Davida”,
comemoraram na ponta do T, fotografados e filmados até pela
recém-criada rede de TV Al-Jazeera de língua inglesa, ao lado
de outras TVs, agências, jornais e sites do Brasil e do exterior.
Muita coisa? Tinha mais: o evento foi transmitido ao vivo na
internet pelo amigo cibernético Rafael Prata, que, no entanto,
jamais reencontrou essas imagens entre os milhares de DVDs
de suas estantes.

O dono da grife Cavalera, Alberto “Turco Louco” Hiar, preferiu


dispensar a internet e ver o desfile pessoalmente. Veio de São
Paulo, mesmo muito gripado (mais uma vítima dos vírus daquele
inverno), graças ao incentivo do jornalista Marcelo Spinelli, que
nos apoiava voluntariamente na assessoria de comunicação.
152 Daspu – a moda sem vergonha

“Eu quero levar vocês para o meu clube”, avisou ele, também
deputado estadual, logo após o desfile.

Juntinho da arena vazada do Circo, visível mesmo de certa dis-


tância, nosso estande vendia sem parar. Até durante o desfile,
algumas pessoas corriam para ver as roupas, espichando o olho
ou voltando rápido para apreciar a próxima modelo. “Quando
acabou, foi aquela confusão, todo mundo queria comprar as
peças apresentadas”, lembra Maria José, que não tinha como
atender esse pedido.

No fim da noite, lotamos um dos andares de um grande bar da


Lapa, incluindo quase vinte parentes de Rafaela vindos de sua
terra natal, Monte Sião (MG). Nessa comemoração, estavam
também as duas executivas de Moda Fusion, Andréa e Nadine,
já sem a companhia de Fifi Chachnil, que cedera lingeries,
assistira ao desfile no Circo e até dissera algumas palavras pro-
tocolares no final, ao lado da equipe Daspu, no palco.

Na verdade, tínhamos conhecido Fifi apenas horas antes, no início


da tarde, durante o lançamento da parceria Daspu-Moda Fusion,
numa casa de eventos chique do bairro cult de Santa Teresa. Lá,
algumas peças da mesma coleção que seria apresentada no
Circo, já adornadas pelas lingeries da francesa, foram desfiladas
para convidados e jornalistas de moda por jovens manequins da
ONG Lente dos Sonhos, outra parceria das francesas.

Na noite seguinte a essa dupla jornada em Santa Teresa e no


Circo, essas mesmas modelos voltaram a vestir uma combi-
nação de modelitos Daspu com lingeries Fifi, no tal lounge do
Sebrae no Fashion Rio, que havia trocado o MAM pelo espaço
maior e mais impessoal da Marina da Glória. Numa espécie de
palco-vitrine alguns centímetros acima do piso VIP, as modelos
se exibiram dançando funk para os convidados especiais. Fifi
estava lá novamente, é claro. Eu mesmo conversei um pouco
com ela em inglês, já tentando explicar nossa missão, ou, pelo
menos, explicar o que não era nossa missão – tirar prostitutas
da vida. Afinal, se alguns brasileiros ainda se confundiam com
Daspu na pista 153

isso (até pra não entender mesmo), por que uma européia da
França católica entenderia?

Todas as mulheres do mundo

O mais importante desta segunda participação Daspu no Fashion


Rio, porém, não seria nada disso. Mas o momento em que a
prostituta Jane Eloy viu uma enorme foto dela ao lado de outra
enorme foto da modelo Gisele Bündchen, numa página dupla de
jornal sobre a semana de moda. Isso salvou a sua vida.
Pensei que o desfile no Circo fosse o último da minha vida. Eu
estava mal, muito magrinha, enganando todo mundo, dizendo que
estava fazendo regime, mas estava muito ruinzinha mesmo. Sabia
que tinha uma infecção muito forte, não estava tomando a medi-
cação, estava com a carga viral muito alta, o CD 4 muito baixo,
cheia de complicações por causa da Aids. Era minha despedida,
achei que ia morrer. Quando vi a minha foto ao lado da Gisele, lá
no Fashion Rio, cercada por vocês, decidi: “Agora não quero mais
morrer. Uma estrela não pode morrer. Eu vou pedir socorro”. Para
mim, o importante não é a Gisele Bündchen, a modelo. Mas a
matéria mostrar, de um lado, as meninas da Daspu, de outro lado,
a modelo mais bem paga. Cara, eu sou uma prostituta, e dentre
todas as meninas bonitas que estavam no desfile do Circo, a jor-
nalista me escolheu para aparecer ao lado dela, e tenho várias
imperfeições. Achei fantástico, lindo, foi maravilhoso, um incen-
tivo para eu desistir de morrer. Então, a Daspu resgatou a minha
vida e me salvou. Eu desisti de morrer por causa da Daspu.

Jane vivia com Aids e nem para as colegas prostitutas e ativistas


tinha revelado o fato. O motivo estava na pior doença oportunista
da humanidade: o preconceito. “Não é que eu não tivesse cora-
gem. O problema era o medo do preconceito, porque eu não tenho
como me sustentar só com a minha aposentadoria. Então tinha
medo de não fazer mais programa por causa do preconceito”.

Decidida e salvar a própria vida e, dessa vez, a enfrentar o pre-


conceito, Jane viria a se tornar a primeira prostituta, no Brasil,
a revelar publicamente que vive com Aids. Fez isso, primeiro,
154 Daspu – a moda sem vergonha

em uma entrevista ao jornal Beijo da rua, publicada quatro


meses depois daquela noite. Em seguida, deixou de esconder
a soropositividade de outros veículos de comunicação, quando
considerava que isso fazia sentido e ainda levantou e debateu
o tema da prostituta vivendo com HIV/Aids no VI Congresso de
Prevenção de DST/Aids, no mesmo 2006.

Pagou o preço que imaginava, com discriminação de algumas


colegas e de clientes nas áreas de prostituição. Mas percebeu
o outro lado da história: “Quando todo mundo na ONG ficou
sabendo, recebi um grande apoio e carinho, até nas broncas por
nunca ter contado e por ter abandonado o tratamento. Pensei:
‘Gente, eles gostam mesmo de mim’. E isso faz toda a diferença.
Se eu encontrei uma família, pra que eu vou morrer?”.

Um mês depois, Jane voltaria às passarelas-passeatas seis


quilos mais gorda, sentindo-se bem, pra cima, e irradiando
vida. Primeiro, por coincidência, num evento relacionado à
Aids, a Consulta Global sobre HIV e Trabalho Sexual, promovida
pela ONU no Rio, em que as dasputinhas fizeram uma apresen-
tação especial para os participantes de trinta países, a pedido
da organização. Em seguida, ela e as colegas voltariam a São
Paulo, dessa vez para encarar de frente os fashionistas da
terra da garoa.

Ah, sim: aquela página dupla de jornal que contribuiu para


salvar Jane, publicada no Ela Fashion, trazia o título: “Todas
as mulheres do mundo. A top Gisele Bündchen e as moças da
Daspu. Praianas, românticas, ousadas e multicoloridas: elas
apostam no charme da diversidade”. E a última frase da repor-
tagem, assinada por Jô Hallack, era esta: “E o desfile paralelo
da Daspu. Esse, já entrou no calendário da moda carioca”.
Apresentação: O preconceito pelo avesso 155
156

Cap.11
Show no glória e sedução DASLU.
Show no Glória e Sedução Daspu
O chamado de Turco Louco para a apresentação no Clube Glória
era pra valer. Surgiu também um novo convite do Vegas, que
abrira as portas da cidade para nós. A decisão foi difícil, inclu-
sive porque envolvia uma relação amistosa já estabelecida e a
concorrência entre as casas. Afinal, o risco maior foi assumido:
conviver com o desconhecido estilo Glória de ser, certamente
mais rico e, aparentemente, mais impessoal e ligado ao mundo
da moda. A data prevista contribuiu para a decisão: 15 de julho
de 2006, exatamente um ano da criação da marca Daspu.

O pessoal do Glória, com o sócio André Hidalgo na liderança,


conseguiu ótimos resultados na cenografia, no styling de Valério
Araújo – “não existe submundo, só na cabeça das pessoas” –,
na mídia, passando pelo registro ao vivo da apresentação em
telão, sem falar nas setecentas pessoas que lotaram a casa,
entre pagantes e convidados, e na gentileza dos espumantes
para a equipe – ou seja, barba, cabelo e bigode.

O cenário foi um capítulo à parte. Inspirado naquele criado


por Gringo no Rio, teve outras soluções e maior variedade de
equipamentos: além dos pneus colocados sobre o palco, havia
calotas, rodas e câmaras nas paredes e teto espelhados, uma
poltrona de caminhão e até um macaco de borracharia, insta-
lado bem no centro do palco, sobre um praticável em que as
modelos posavam para fotógrafos e cinegrafistas.

158
Show no Glória e Sedução Daspu 159

“Eu tinha estagiado na Cavalera e não gostava muito do estilo


marqueteiro do Turco Louco. Daí fui para São Paulo com um pé
atrás”, conta Rafaela. “Mas foi uma grande surpresa para mim,
tanto a recepção, quanto a infra-estrutura, o lindo cenário,
o carinho com que trataram a gente, tudo maravilhoso”. Além
disso, lembra ainda Rafaela, “o Glória pegou mais o pessoal de
moda mesmo, até porque o evento aconteceu durante o São
Paulo Fashion Week, enquanto o Vegas foi mais diversificado”.

Foi, por sinal, na semana de moda paulistana que a miss Brasil


1996, Anuska Prado, aceitou o convite para desfilar, feito sem
grandes esperanças por Rafaela. E foi da boca de Anuska que
saiu um dos mais certeiros pensamentos da noite:

“As pessoas ficam falando da prostituição, mas acho que o pre-


conceito de miss é maior ainda. Aceitei o convite até como uma
sátira para essa coisa de miss. Não ao preconceito de todos os
lados”, decretou.

A historiadora Margareth Rago, que havia se encontrado


por acaso com a amiga Gabriela Leite em pleno trânsito
paulistano, horas antes do desfile, falou de cátedra sobre
o evento: “Você podia imaginar a paulistana Gabriela com
todos esses holofotes, luzes, badalação total, a classe média
paulistana fashion se rendendo aos pés das putas? É vin-
gança do destino, todas as mulheres brasileiras vestidas
de camiseta ‘sou má’, virando filhas-da-puta com o maior
prazer, dizendo ‘é isso aí que eu queria para a minha vida’.”
De fato, o curiosíssimo público chique aderiu ao “manifesto
fashion”, nas palavras de um freqüentador, aplaudindo e incen-
tivando, mesmo quando percebeu o tropeção da artista plástica
Simone Rocha, que também se voluntariou na passarela, ao
lado de amigas paulistanas da grife e de prostitutas do Rio e de
São Paulo. O segundo casting feito na Augusta foi recebido com
empolgação por mulheres que já tinham desfilado no Vegas e
pelas novatas ansiosas por participar.
160 Daspu – a moda sem vergonha
Show no Glória e Sedução Daspu 161
162 Daspu – a moda sem vergonha
Show no Glória e Sedução Daspu 163

Da moda à política, no final de julho, os manifestos fashion eco-


aram na campanha eleitoral. O primeiro político a procurar as
prostitutas – depois de Fernando Gabeira, um aliado de sem-
pre – foi a candidata a vice-governadora do Estado do Rio pelo
PSDB, Maristela Kubitschek, filha de JK. O cabeça de chapa era
Eduardo Paes e a iniciativa ganhou a nota de jornal “Elas estão
em todas”.

Por coincidência, um dos eventos programados para poucos


dias depois seria na capital política do país. A convite do BSB
MIX, montamos um rendoso estande e promovemos um desfile,
com voluntárias locais e com a adesão da atriz Marisa Orth, que
havia coordenado um debate sobre moda social no evento e se
apresentou na passarela usando a blusa com o pára-choque
“Me aprecie sem moderação”. Na mesma noite, no Rio, as das-
putinhas originais se exibiam nos corredores do Shopping da
Gávea, no saguão, entre as poltronas e no palco do Teatro da
Gávea, na estréia da peça “Curtas”, protagonizada pela atriz
Samantha Schmutz, na primeira vez em que a grife participou
de eventos simultâneos.

Mas o episódio emblemático daqueles dias foi a blitz da Receita


do Distrito Federal, para verificar a documentação das mer-
cadorias. Depois de constatar que estava tudo em ordem no
estande da Daspu, um dos fiscais disse, saboreando as pala-
vras: “É, vocês não são a Daslu”.

Nem antes, nem depois, apesar de confundidas por uma dis-


traída cliente em outra feira, a Achados do Batel, em Curitiba.
Entusiasmada, a senhora dirigiu-se ao estande Daspu apon-
tando para o banner e falando bem alto para a sua acompa-
nhante de compras: “Olha, olha, olha, Daslu, Daslu, Daslu!”. E
completou: “Ai, ai, não acredito que vocês vieram de São Paulo!”.
Ana Maria e Maria José, as vendedoras de plantão, se olharam
espantadas, sem reação. Até que a primeira virou-se para a
freguesa desorientada e disse, enquanto a segunda apontava
ostensivamente para o banner: “Senhora, não, é Daspu”. O final
164 Daspu – a moda sem vergonha
Show no Glória e Sedução Daspu 165
166 Daspu – a moda sem vergonha

da história é hilário, nas palavras de Maria José: “A mulher


baixou a cabeça e saiu encurvada do estande, a 120 por hora,
tipo ‘a sociedade não pode me ver aqui’. E nós duas tivemos que
sentar para rir”.

Risadas para desopilar o fígado, também. Na véspera, diante de


observações sobre a fria receptividade do público, o organizador
da feira tinha contado a elas que um jornal da cidade publicara
que duas prostitutas estariam no estande da Daspu. Mesmo sem
ser, as duas Marias se deram conta de que estavam “sentindo
na pele o que as prostitutas sentem: dar um bom dia e um boa
tarde, e as pessoas não responderem, olharem de rabo de olho, é
uma sensação horrível”. Era o público Daslu, e a feira errada.

Curioso que esses flashes de Daslu tivessem pipocado muito


próximos entre si e não tão distantes da segunda iniciativa da
multimarcas paulistana em relação à prima pobre carioca – e
o que se vai contar aqui é do conhecimento, até a distribuição
deste livro, de não mais que meia dúzia de pessoas.

Foi numa tarde de junho, possivelmente, que a secretária me


perguntou se eu atenderia em lugar de Gabriela, que estava
viajando, a um telefonema da... Daslu. Antes de cair pra trás, e
depois de confirmar três vezes a informação, atendi. Era Donata
Meirelles, uma das diretoras da empresa e mulher do publicitá-
rio Nizan Guanaes, como informou. Muito cordial, disse desde
logo que estava ciente do “mal-entendido” e que tinha uma
proposta para a Daspu. Diante de minha surpresa e relutância
relacionada ao passado recente, detalhou o “mal-entendido”.
Garantiu ser fruto de uma iniciativa isolada do escritório de
advocacia, que sempre adotava o procedimento de questionar
qualquer marca que parecesse semelhante, sem comunicação
prévia ao cliente, no caso, a própria Daslu. Se tivéssemos sido
informadas, disse, não teríamos autorizado a medida, não fazia
sentido, não somos preconceituosas, não concorremos entre
nós etc. etc. Ouvi a historinha pontuando algo aqui e ali, ao
menos para não assinar atestado de bobo, mas queria mesmo é
Show no Glória e Sedução Daspu 167

que a diretora fosse adiante. E foi. Oferecia um “armário” para a


Daspu na sede da Daslu, explicando que a multimarcas estava
abrindo suas portas – talvez portões – para empreendimentos
sociais de moda e gostaria de incluir a Daspu.

Pensei muitas coisas ao mesmo tempo. Claro que a estratégia


visava melhorar a imagem da empresa e ter a Daspu lá dentro
representava um elegante, generoso e superior mea culpa, que
teria uma extraordinária repercussão – talvez a volta por cima.
MV Bill também havia sido recebido pelas milionárias, evi-
dentemente para demonstrar o compromisso, ou pelo menos
a atenção da extravagente, carérrima e sonegadora loja aos
problemas sociais do país. Para a Daspu, também me passou
pela cabeça, a eventual aceitação daquela oferta tinha um
enorme potencial destrutivo da imagem positiva tão rápida e
solidamente construída. E, cá pra nós, era de uma cara-de-pau
tão gigantesca quanto o palácio do luxo paulistano, embutindo
ainda uma elevada dose de subestimação de nossa inteligência
e o princípio capitalista perverso de que, afinal, o dinheiro pode
comprar tudo e todos (pouca gente sabe que prostitutas têm
critérios para escolher ou dispensar clientes).

Mantive o tom de cordialidade, disse que não tinha poder para


dar resposta positiva ou negativa, como de fato o era, e escutei
o pedido de Donata de que, independente da decisão, a empresa
fosse comunicada.

Não tenho nenhuma lembrança do restante do dia, exceto que


mantive fechada a boca aberta de espanto. Se bebi cervejas ou
algo mais forte, tampouco sei. Forçando a memória, posso lem-
brar que desejava desesperadamente a volta de Gabriela e que,
mesmo com toda a ansiedade, decidi nada contar por telefone,
muito menos por e-mail.

Alguns dias depois, o presidente do Davida, Waldo César, tam-


bém meu pai, como sabe o leitor, veio de Resende, onde morava,
para tratamento médico e ficou em minha casa. Gabriela já
168 Daspu – a moda sem vergonha

estava de volta e analisamos o caso os três. Ele, lembro bem,


soltou suas gostosas gargalhadas com a história.

A decisão foi tomada, mais ou menos na linha dos pensamentos


de alguns parágrafos atrás. Mas nunca, apesar da recomenda-
ção do presidente, comunicada em palavras. Não poderia essa
comunicação ser de alguma forma utilizada, servindo a algum
propósito? Paranóia? Pode ser. De todo modo, como encarre-
gado de finalizar a missão já cumprida, eu não sentia a menor
vontade de dar aquele passo inútil (o silêncio seria mais do que
eloqüente) e talvez desgastante, cujo valor maior seria a cor-
dialidade – em certas situações, compreensivelmente dispen-
sável. Por outro lado, divulgar o que ocorrera tampouco parecia
fazer sentido, ao menos imediatamente, porque também podia
servir a algum propósito, mesmo que na paranóia. E, assim, esse
episódio jamais foi publicamente revelado, até agora.
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva 169
cap.12
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva.
Embora a mídia européia estivesse nos acompanhando de perto
– especialmente com a divulgação e reprodução de matérias
das agências internacionais, com destaque para a Reuters –,
uma reportagem de duas páginas no prestigiado jornal francês
Libération reavivou o interesse na Daspu. Além de a própria mídia
nacional repercutir o “feito”, correspondente ao famoso “deu no
New York Times” (“Daspu em Paris”, na coluna do Ancelmo no
Globo em 25/6, e “Daspu ganha os franceses”, no Dia de 27/6),
estudantes e profissionais free-lancers começaram a prestar
mais atenção na grife.

Por aqui, já convivíamos diariamente com a fotógrafa italiana


Roberta Valerio, que preparava uma reportagem sobre a Daspu
para ser vendida na Europa, e acabara de registrar brilhan-
temente o desfile no Glória. Em seguida, apareceu a também
italiana Viola Berlanda, uma amiga de Roberta, a tempo de se
encontrarem para fazer a festa, Viola estreando sua cobertura
no Circo Voador. Logo, logo, desembarcaria um grupo de estu-
dantes francesas para realizar um documentário. Depois, a
fotógrafa canadense Nathalie Daoust, com nus artísticos em
quartos do hotel Nicácio, na Tiradentes. Os alemães Daniel
Seiffert e Mirian Mueller, produzindo portraits e dando máqui-
nas às prostitutas para que elas mesmas registrassem o seu
cotidiano, com exposição no mesmo hotel. O artista esloveno
Tadej Pogacar, as equipes da TV anglo-germânica Arte e da

172
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva 173

produtora italiana Mestiere Cinema, aos quais serão dedicadas


outras linhas. Nós, tadinhos mas contentes, é que nos viráva-
mos em quarenta para atender à fome de informações, imagens
e produções.

Junto disso, duas outras iniciativas marcaram o período.


Primeiro, nossa colega e voluntária Friederike Strack voltava
brevemente para a Alemanha, onde vendeu camisetas num
encontro de prostitutas e iniciou levantamentos sobre poten-
ciais clientes de atacado. Depois, a parceria que dava sinais de
progredir com Moda Fusion emplacou exposição de peças no
tradicional prêt-à-porter Paris, no espaço “So Ethic”, dedicado
a iniciativas de “moda ética e comércio justo”. Alguns modelos
seguiram também para a vanguardista loja Colette, de modo
a despertar interesse nas clientes e, conseqüentemente, nas
donas do negócio.

Todo esse remelexo, porém, não era acompanhado pela produ-


ção eficiente das peças da coleção Daspu na Pista, lançada no
Circo Voador. Um dos modelos que mais encantava a mulherada,
as blusas com frase de pára-choque, desembarcava em caixas
e caixas na sede, sempre com problemas de acerto no encontro
da imagem entre frente e verso da peça. Os vestidos tampouco
desencantaram, ora por problemas de escolha de fornecedor,
ora por dificuldades no acompanhamento da produção, funções
também a cargo da estilista.

As peças realmente produzidas, todas com sucesso de venda,


foram dois modelos de regata, uma camiseta com a silhueta
feminina do símbolo Daspu pedindo carona – o redesenho da
silhueta foi uma feliz idéia, modestamente, deste autor – e dois
tipos de boné. Parecia então que a gente nadava e não chegava
à praia. O fato era que não tínhamos uma estrutura profissional
de gestão do empreendimento. No desespero, Sylvio tentou
atuar como gerente comercial, cargo que ele insistia ser vital
para ampliarmos as vendas a lojistas. Mas isso tampouco
funcionou. No Rio, a situação era curiosamente pior. Depois
174 Daspu – a moda sem vergonha

da Parceria Carioca, nenhuma outra loja nos havia procurado.


Nossa atuação pró-ativa era tímida e um dos poucos contatos
que pareceu ter possibilidades de deslanchar, com a multimar-
cas de Ipanema Contemporânea, não foi à frente: de um lado,
pelas dificuldades de produção e, portanto, de entrega de peças;
de outro, pela possível influência dos tortuosos caminhos do
preconceito, jamais admitido por ninguém.

A ausência dos produtos em lojas – drama comum à grife e a


seus potenciais clientes – mereceria o desabafo de um “austero
senhor”, na definição da produtora Kátia, em conversa durante
um desfile, já em 2007, no Rio.

— Minha filha, me diga onde eu compro Daspu.

— Compra no site ou em nossa sede, na Glória.

— Não, não é isso! Estou falando loja! Loja na rua, loja no sho-
pping! Onde eu chego, olho, escolho e levo. A minha neta pagou
100 reais por uma camiseta, porque ela parou uma pessoa na rua
que estava de Daspu e ofereceu 100 reais. A pessoa foi com ela
a uma loja, comprou uma camiseta vagabunda, botou e vendeu.
Eu quero passar num lugar, encontrar e comprar.

Em nossa própria cidade, estávamos limitados a comercializar


pelo site – prática ainda pouco adotada pela maioria das pes-
soas – ou na sede que, embora perto do Centro, fica numa rua
residencial, fora do circuito comercial. A vendagem no varejo
era boa, impulsionada pela produção constante de novas cami-
setas desenhadas por Sylvio, mas insuficiente para a grife des-
lanchar economicamente e até contratar outros profissionais.
“Se parar para pensar que a Daspu é genuinamente carioca e
não tem uma loja em Copacabana com uma roupa nossa, isso é
falta de uma pessoa que ponha na loja”, repetia o designer que
tentara a gerência comercial.

Além da necessidade de produzir e pôr no mercado a variedade


de peças apresentada na coleção – o que não conseguíamos –,
também se tornava evidente que era preciso atender às naturais
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva 175

expectativas, em relação à grife de prostitutas, por peças sen-


suais. Até a famosa Galleries Lafayette, de Paris, havia manifes-
tado interesse em comercializar lingeries Daspu.

Para isso, contávamos com a parceria da estilista francesa Fifi,


intermediada pela Moda Fusion. Mas a senhorinha, saberíamos
pouco depois, não estava entendendo muito o aspecto político
de nosso trabalho.

Esses impasses eram vividos simultaneamente ao interminável


assédio da mídia nacional e internacional, dos free-lancers, de
estudantes e pesquisadores que haviam ampliado o interesse
pela luta das prostitutas. Sem falar nas diversas outras ativida-
des e ações políticas da ONG, que prosseguiam independente-
mente de Daspu.

Surgiu então um convite inesperado: participar da exposição


do artista esloveno Tadej Pogacar na Bienal de São Paulo, a ser
inaugurada em outubro. Pesquisador do trabalho informal, Tadej
(pronuncia-se Tadei) já havia atuado em parceira com organi-
zações de prostitutas européias, como o Comitê pelos Direitos
Civis das Prostitutas italiano, e erguido um monumento à pros-
tituta desconhecida em Liubliana, esta a capital da Eslovênia
(sabia disso o leitor? nem nós). A proposta, de compartilhar com
ele o grande espaço que teria na Bienal, chegou ao seguinte for-
mato: expor roupas e uma linha de vida da Daspu, exibir entre-
vista sobre nosso trabalho num telão e, o auge, fazer um desfile
dentro do Ibirapuera na inauguração da Bienal, com registro em
filme para apresentação no telão do estande durante os dois
meses seguintes da mostra.

Antes de chegar a esse formato, definido a partir de conver-


sas com Tadej no Rio, as linhas trocadas por e-mail e as boas
referências das colegas italianas nos convenceram de que a
proposta era ousada e vigorosa, abrindo por demais os espaços
sagrados do circuito de arte. E o tema da Bienal tinha tudo a ver:
“Como viver junto”.
176 Daspu – a moda sem vergonha
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva 177

Com mais esse barulho na cabeça, fomos para o botequim.


Dessa vez, na Lapa, no episódio relatado por Kátia, Gabriela,
Jane e Rafaela:
Kátia
Daniel Tucci, namorado de Rafaela, sugeriu que fizéssemos um
vestido de noiva com lençóis de motel. Foi um delírio geral, e eu
já saí do botequim com a tarefa de conseguir os lençóis, achando
que ia ser muito fácil. A primeira idéia eram cem lençóis, porque
a gente ia fazer uma cauda enorme com eles. Pensei logo nos
hotéis de prostituição, tinha muito mais a ver, e foi nesses que
a gente teve muito mais dificuldade. As meninas e eu saíamos
para a rua com ofício. Quem melhor recebeu a gente foi o VIPs,
a mulher de lá me deu dois lençóis, feliz da vida. E o Bambina,
onde fui recebida com café, chá e biscoitos amanteigados. Só
não rolou uma cortesia, eu estava sozinha. Os outros 18 hotéis
foi um parto para conseguir. Um me perguntou se eu queria sujo,
eu falei: “Melhor não, né?” Vieram lençóis castigados, castigadís-
simos, não sujos, mas depende do que você chama de lavagem.

Gabriela
E depois teve a novela, capítulos e capítulos, para a Rafaela mon-
tar o vestido.

Kátia
E foi chegando o prazo, 15 dias antes eu me internei no escritório
com a Jane, que ia ser a noiva, não fiz mais nada, porque estava
vendo que não ia sair o vestido. Não foi fácil. Eu ficava monito-
rando (“você vai aonde, não, volta aqui, tem que comprar.... eu
vou”). E foi a máquina de costura da Lina para lá, e a Rafaela
costurou, costura, acabamento, ficou pronto três dias antes. E aí
faltava o véu. Eu tinha pedido ao Ministério da Saúde três caixas
de preservativos vencidos, para aplicar na cauda, mas eles não
enviaram. E demorou tanto para o vestido ficar pronto, que eu
pensei em usar os preservativos no véu. Finalmente, encontrei
duas caixas vencidas no depósito, 288 unidades.

E ao longo da confecção do vestido a Jane foi engordando, porque


tinha voltado ao tratamento e estava se recuperando. Por isso
é que optamos por espartilho aberto, porque ela não parava de
178 Daspu – a moda sem vergonha

engordar e o vestido não ia dar nela. Na primeira prova, o mane-


quim dela era um, depois outro, quando o vestido ficou pronto
estava dois números a mais que o dela, e a Jane estava três
número além.

Entre outras coisas, esse vestido fez muito bem para a Jane, por-
que apareceu exatamente na virada dela, quando ela resolveu se
cuidar, quando se achou querida, depois de falar que tinha aban-
donado o tratamento. Mas a trajetória, entre a idéia do vestido e a
confecção, fez um bem danado para ela.

Jane
O vestido foi feito sob medida pra mim, mas como eu estava numa
fase de engordar, engordando toda semana, cada dia que passava
tinha de ajustar uma coisa ali, outra aqui (rindo), e eu fiquei me
sentindo enorme. Mas foi uma satisfação ter desfilado lá na Bie-
nal, me senti maravilhosa.

Esses primeiros capítulos da novela quase rodriguiana do vestido


de noiva Daspu chegaram ao clímax minutos antes das modelos
desfilarem na Bienal. A tsunami já vinha se formando desde as
dificuldades de produção da coleção, que, somadas ao desgaste
provocado pela demora na montagem da peça nubente, afetaram
a relação profissional com Rafaela. O fato é que o clima já não
era bom quando ela, três dias antes da Bienal, comunicou sua
demissão. Disse a mim e a Gabriela que estava ganhando pouco
e sabia que, naquele momento, a Daspu não podia dar aumento.
Gabriela aceitou na hora, rápida como um raio. “Eu ainda disse
que queria ficar até Belo Horizonte [onde haveria desfile em
novembro], até vocês acharem outra pessoa, mas ela disse não:
‘Se você quer ir embora, vai agora’”, lembra Rafaela.

Do agora fazia parte a apresentação no Ibirapuera, onde nos


reencontramos horas antes da abertura da exposição e do des-
file. Um barraco estava armado. Rafaela tinha exigido da orga-
nização da Bienal uma placa de acrílico dando a ela o crédito
pelo vestido, a ser exposta aos pés do manequim artificial em
que a roupa seria exibida. Nem a coordenação da Daspu, nem o
artista tinham sido comunicados e ambos recusamos a oferta.
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva 179

Tadej retirou a placa assim que a viu, antes mesmo de saber de


maiores detalhes. Quando soube, ainda gastou tempo dizendo
que, dessa perspectiva, cada produto deveria ser identificado
com os nomes dos autores, como as camisetas de Sylvio ou a
linha de vida escrita por mim, quando a própria instalação tinha
como título CODE RED Brasil: Daspu, além de um texto relatando
a colaboração entre os parceiros. E afinal o espaço era dele, era
ele o artista contratado pela Bienal, que nos tinha convidado
para compartilhar a instalação.

Muito nervosa com a placa deletada, Rafaela acabou assinando


a barra do vestido quando as modelos se preparavam para o
desfile num banheiro feminino reservado pela Bienal, nos bas-
tidores mais tensos da história da arte e da moda – ou alguém
que conte outro, e darei mais detalhes.
Gabriela
Quando cheguei, ela estava fazendo um barraco com a curadora,
porque o Tadej tinha tirado a plaquinha com o nome dela que a
própria Rafaela tinha obrigado a curadora a fazer. A mulher – eu
morri de vergonha – falou assim para ela: “Eu vou ser obrigada a
tirar você deste lugar”, e a Rafaela berrava, berrava, berrava. E lá
dentro ela não arrumou as modelos, a Kátia ficou sozinha fazendo
tudo, ela só queria saber do vestido de noiva. E depois a história
de dizer que o vestido era só dela, mas foi uma obra coletiva, que
se pensou junto naquele bar da Lapa, a Kátia trabalhou um mon-
tão para aquele vestido ser realidade, a Jane ficou à disposição,
a Lina levou a máquina e deu apoio, junto com a Rita, todo mundo
se estressou e acompanhou passo a passo a novela, até o Tadej,
lá de longe, na expectativa.

Um ano e meio depois, na entrevista para este livro, a estilista


finalmente deu uma visão mais clara, dela, sobre aqueles
acontecimentos:
Eu fiquei muito triste que o Tadej não quis que colocasse nome
nenhum. Fiquei triste com ele, e por vocês não entenderem que ia
parecer que ele é que tinha feito. Acho que as pessoas iam pensar
180 Daspu – a moda sem vergonha

que a peça era dele, porque era uma peça diferente, a única coisa
mais arte era o vestido, ia gerar confusão.

A realidade, porém, era outra. Quase todo mundo entrava na


espaço da instalação já falando de Daspu, queriam ver a grife,
alguns se referiam à “instalação da Daspu”. É mais provável, até
por ser um artista estreante no Brasil, que o nome de Tadej é
que tenha ficado em segundo plano.

O mais incrível é que, mesmo com esses tensos e complicados


episódios, o desfile foi um absoluto sucesso, prestigiado por
artistas, galeristas, pelo então presidente da Fundação Bienal,
Manoel Pires da Costa, pela mídia e muito mais. Última a percor-
rer o corredor-passarela junto à instalação, Jane roubou a cena,
brilhando na função de noiva-puta e convidando o artista-noivo
para dançar funk com ela ao final. Entusiasmada, ela ainda
construiu a frase lapidar da noite: “Puta agora também é arte”.

“Estou radiante, chorando, muito feliz de colaborar, de saber que


estamos na Bienal, que puta agora virou arte, e que vamos con-
seguir nosso objetivo de acabar com o preconceito”, foi a frase
completa, repetida com algumas diferenças para os jornalistas.

A co-curadora da Bienal, Cristina Freire, que passou por toda


a tensão, estava aliviada: “Muito legal o desfile, teve grande
receptividade, mexeu com as pessoas por estar no espaço da
arte contemporânea”.

Sem estar envolvida e nada saber, Orly Benzacar, da galeria


Ruth Benzacar, de Buenos Aires, fez outra avaliação positiva:
“Uma obra irônica, crítica, transgressora, que está muito bem
no âmbito da Bienal”.

Nos dois meses seguintes em que a Bienal esteve de portas


aberta, gratuitamente, a instalação foi tão freqüentada quanto a
loja que vendeu horrores de peças da grife na entrada do prédio
do Ibirapuera.

A exibição seguiu – e ainda segue – uma brilhante carreira


internacional, pelas mãos de Tadej. Exibiu-se em São Francisco,
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva 181

na Bienal de Istambul, na Áustria, sempre incluindo as imagens


daquele primeiro desfile de arte no Ibirapuera. Acompanhado
da coleção Daspu Na Pista, como em São Paulo, o vestido foi
desfilado por Jane mais uma vez, em novembro, durante o VI
Congresso Brasileiro de Prevenção das DST e Aids, em Belo
Horizonte, ao som da emocionante interpretação de “Rebento”
por Elis Regina. Ainda no Teatro Topázio do Centro de Convenções
Minas Centro, lotado de 1.700 arrepiados seres humanos, o des-
file arrancou de uma assessora do Programa Nacional de Aids,
Ângela Donini, essas palavras: “A Daspu libera a sociedade para
discutir e conviver com a prostituição. É uma declaração da
existência das prostitutas que as pessoas sentem nas veias,
como aconteceu nesse teatro”.

Os verbos não poderiam ter sido mais bem escolhidos: liberar,


discutir, conviver, declarar (aos outros e a si mesmo), sentir e
fazer sentir (nas veias) são mesmo os ideais da Daspu. Quando
atinge todos, assim, juntos, é impactante. E, em conseqüência,
vende o produto tão pleno de sentidos. Lá, no estande patroci-
nado pela divisão Professionnel da L’Oréal, também foram ofe-
recidos maquiagem, cabelo e peças de divulgação. As pessoas
saíam do teatro direto para as compras, mobilizadas e pegadas
de surpresa por uma forma de ação distanciada dos usos e cos-
tumes da militância social.

“BH foi além da estética, foi um trabalho com uma linguagem


diferente, para um público viciado em coisas padronizadas”,
avaliou Katia. E Gabriela: “No mundo da Aids, todo mundo diz
que tem de fazer palestra. A gente fez uma linguagem com-
pletamente diferente, falando do mesmo tema. E atingiu um
público muito maior”.

Na mesma BH, prostitutas e simpatizantes se apresentaram


ainda na Zona Boêmia, sem o vestido de noiva, por impos-
sibilidade operacional, mas sempre com o incansável apoio
do Gapa-MG, liderado por Roberto Chateaubriand, parceiro e
assessor de muitos anos da Rede Brasileira de Prostitutas.
184 Daspu – a moda sem vergonha

No segundo semestre de 2008, e pela primeira vez solita-


riamente, o vestido de noiva chega à exposição Trópicos, em
Berlim. Ganhou vida própria, independente, viajando entre os
países sem voltar ao Brasil. Não é visto por aqui desde fevereiro
de 2007. Temos saudades!
Os europeus, o comércio e o vestido de noiva 185
Cap.13
O trem, a atriz.
E uma Puta Arte com a lingerie.

Atr
riz
rie
Antes que o fim de ano voltasse a trazer as atribulações de uma
nova coleção, ainda haveria dois bons momentos. No primeiro,
dias após a bienal, as dasputinhas se apresentaram dentro
de vagões de um trem desativado, na antiga Estação Barão de
Mauá, durante o festival Riocenacontemporânea. A proximi-
dade física de modelos e espectadores, elas desfilando diante
dos bancos laterais lotados por eles, a ponto de uns e outros se
tocarem, criou um clima quente e de intimidade. “Com as pes-
soas mais pertinho, pude brincar mais, mexer com os homens
acompanhados para ver a reação deles e delas”, contou rindo
a veterana Val, que aproveitou os canos do trem para dar belas
rodadas. Caras coladas nos vidros embaçados dos três vagões
pelos quais se desenrolou a apresentação revelavam ainda a
presença nas plataformas do público que não conseguiu sequer
ficar na entrada das portas abertas. O compositor Francisco
Bosco elogiou o duplo movimento que viu no desfile: as meninas
“rebolando como num inferninho e, ao mesmo tempo, fazendo
um escracho, uma crítica a essa coisa glamurosa dos desfiles”.

Ele parecia adivinhar o que vinha por aí: as reboladas e os


escrachos de Bebel, que começou a nascer em Camila Pitanga
quando ela surgiu na vida das prostitutas, e elas, na alma da
atriz que faria a prostituta na novela “Paraíso Tropical”. Ela
veio para uma visita, no final de novembro, de coração aberto
sobre os próprios preconceitos e buscando a personagem que

188
O trem, a atriz. 189
E uma Puta Arte com a lingerie
190 Daspu – a moda sem vergonha
O trem, a atriz. 191
E uma Puta Arte com a lingerie

faria. Falou e ouviu bastante, teve até cervejinha. Camila-Bebel


honrou as colegas da vida real, tanto na novela quanto em
declarações de apoio à categoria – ou seria catiguria?! Camila
superou seus preconceitos e ajudou parte da sociedade a fazer
o mesmo. Impagável. Sem preço.

Viver aqueles momentos com ela – mais intensos agora, depois


de Bebel – ajudou a esquecer os compromissos do nascente
2007. Dessa vez, estavam prometidas as lingeries, a serem lan-
çadas em janeiro, na tal parceria com Fifi Chachnil. Mas, entre
os vários problemas, havia a falta de contato direto com a esti-
lista, já que a intermediação de Moda Fusion não abria opor-
tunidades para uma conversa formal. Na verdade, fora os três
rápidos encontros nos eventos de moda em junho, nunca havia
ocorrido uma reunião dela com os representantes de Davida a
respeito da parceria.

O que houve foi um encontro entre Fifi e Rafaela, promovido


pela Moda Fusion, após o desfile de junho. A estilista da Daspu,
porém, não respondia pela instituição do ponto de vista formal
ou político. Tampouco falava francês ou um inglês que permi-
tisse um diálogo razoável e que pretensamente justificasse a
escolha, sequer comunicada. Quando soube, Gabriela reclamou
vigorosamente com Nadine, deixando claro o que era óbvio, ou
seja, os papéis de cada um na organização.

A própria Rafaela revela hoje o problema que estava por vir: “Fifi
achou que o trabalho era tirar as mulheres da prostituição, e,
quando soube que era dar mais dignidade ao próprio trabalho,
ficou muito brava. Falha de comunicação, falei isso para ela
logo depois do desfile no Circo”.

Essa relação privilegiada com Rafaela, a sua “promoção” ao cargo


de interlocutora formal, à revelia de Daspu, foi um erro grave de
Moda Fusion e da estilista, que aceitou a atribuição. E chegou a
um ponto crítico quando, mesmo após a demissão de Rafaela,
Moda Fusion tentou esconder isso de Fifi Chachnil, como admite
a brasileira, em 2008, trabalhando no empreendimento francês:
192 Daspu – a moda sem vergonha

Vou te contar uma coisa: quando eu saí, a Nadine veio me procurar


desesperada, dizendo que precisava dessa parceria com a Daspu,
mas que eu não estava mais lá e não tinha quem desenhasse as
lingeries, e que se a Fifi soubesse que não tinha nenhuma esti-
lista na Daspu, ela não ia fazer a coleção. Eu disse para ela que a
Gabriela não ia aceitar que eu desenhasse, e ela então me pediu
sigilo, disse que não falaria que o desenho era meu. Eu concordei
em fazer uma coleção fantasma, pensando que isso podia ajudar a
Daspu e a Moda Fusion. Entreguei uns dez desenhos para a Nadine
e fui trabalhar na Record. Mas acabou não acontecendo mesmo.

Gabriela suspeitou, de fato, que isso podia estar acontecendo.


Mas, como nada deu em nada...

E a situação seguia deste jeito. Por um lado, nada era dito cla-
ramente para ou sobre Fifi; por outro, errávamos por manter,
nessas circunstâncias, alguma confiança e, principalmente,
esperança na parceria. Avisos não faltaram: a fotógrafa Viola
Berlanda, que de volta à Europa emplacara matéria sobre Daspu
na Marie Claire italiana e estava acompanhando atentamente
tudo o que se dizia respeito à grife, já havia comunicado a nós o
desconforto da equipe de Fifi com os telefonemas que ela dava
para indagar sobre a parceria.

Afinal, roncou a previsível tormenta, com a comunicação, por


parte de Moda Fusion, de que Fifi Chachnil não levaria adiante a
parceria que nunca existiu – uma comunicação possivelmente
retardada. Ao conteúdo literal do e-mail da estilista só tivemos
acesso, bem mais adiante, pela equipe italiana que produzia
um documentário sobre Daspu e entrevistava todos os que
tivessem alguma relação com a grife. No registro em filme, o
seguinte trecho é lido para a câmera:
Prezada Nadine, obrigado por seu e-mail. Após cuidadosa análise
da documentação, concluímos que não está de acordo com o espí-
rito da Maison Fifi Chachnil. O conceito da Maison sobre a mulher
é o de uma pessoa séria e de caráter, uma mulher que encontrou
o seu lugar na sociedade ou que está buscando esse lugar com
dignidade e elegância. Uma mulher que representa a beleza em
O trem, a atriz. 193
E uma Puta Arte com a lingerie

todas as suas formas. Conseqüentemente, somos o exato oposto


do que vocês apresentam em suas imagens e do conceito de sua
(sic) coleção de lingerie. Assim, devemos nos dissociar de fazer
negócio com vocês.

Mademoiselle Fifi Chachnil

O virulento e nauseante preconceito salivado nas palavras sele-


cionadas talvez tivesse motivo maior do que a odiosa discrimi-
nação, já evidente em si: a demora para deixar claro à made-
moiselle (ou para ela entender) os propósitos de igualdade,
liberdade e fraternidade perseguidos por Daspu.

Mesmo assim, por incrível que pareça, embarcamos em uma


nova tentativa de desenvolver a coleção de lingerie, dessa
vez sem a estilista francesa, mas com as antigas intermediá-
rias dela. Aguardamos os resultados de visitas a São Paulo e
Friburgo, em busca de estamparias e confecções de lingerie,
enquanto Sylvio produzia desenhos para as peças. Nada feito,
havia obstáculos de preços e prazo com os fornecedores. No
desespero, ainda foi feita uma tentativa com a Duloren. Andréa
Fasanello conseguiu um encontro com o dono e presidente da
empresa, Roni Argalji, que demonstrou interesse por uma par-
ceria com Daspu em lingerie. Mas ele não entendeu, e foi bem
claro quanto a isso, o papel de Moda Fusion. E a época era a pior
possível, como já se havia verificado, por conta das tradicionais
férias coletivas do setor, conforme o próprio Roni alertou.

Houve então mais um movimento de busca de fornecedor, já


na prorrogação, também sem resultado. Finalmente, no meio
de dezembro, a um mês do lançamento da coleção, tudo mar-
cado e anunciado nos jornais, veio o apito final: “Até que em
dezembro, um mês antes, elas comunicaram que não iam fazer
mais. E a gente já estava com data marcada para o desfile, na
Praça Tiradentes. Aí a Gabriela e o Flavio foram tomar um chope
comigo em Copacabana... Eu falei, é, tá bom, eu tento. E era
coleção de inverno. Peguei camiseta, botei manga comprida
em todo, estiquei para fazer vestido, pensando nessa história
194 Daspu – a moda sem vergonha

da arte, de artistas famosos que enfocaram as prostitutas, no


cinema, na música e nas artes plásticas. E usando a seguinte
frase: ‘A arte Daspu inspirou fulano’,” resume Sylvio.

Enquanto Sylvio pesquisava essas obras e desenvolvia as estam-


pas e os modelos, Gabriela e eu nos refugiamos fora da cidade,
tentando curar o estresse dos últimos tempos, com o Natal já
tocando os sinos. Por e-mail, nos correspondíamos diariamente
sobre a coleção, comentando o que ele enviava, dando sugestões,
lembrando de artistas... Tivemos um breve debate sobre a frase
a ser estampada nas peças da coleção. Seria “Fulano inspirou a
arte Daspu” ou o contrário, como ele queria. Sylvio conquistou o
apoio de Waldo, presidente da ONG, e assim foi.

O nome da coleção também se revestia de um outro sentido,


com as mesmas palavras, sem sequer precisar da inversão – o
da puta arte que havia sido feita com a lingerie, para uma Puta
Arte. E ajudava a criar expectativas para o 19 de janeiro de 2007.
O trem, a atriz. 195
E uma Puta Arte com a lingerie
radas
Cap.14
As mulheres perdidas são as mais procuradas.
Quem trabalha no setor da moda, sabe que janeiro é mês de
trabalho, e muito, porque é hora de apresentar resultados. Uma
trégua durante o Natal, meia parada no revéillon, e pronto. De
volta à batalha.

A pausa só acontece, porém, se o caminho estiver bem pavi-


mentado. No caso crítico de se começar a pensar – pensar,
repito – uma coleção um mês antes de apresentá-la, fica um
pouquinho mais difícil. Pelo menos para empreendimentos
pequenos e recentes.

Era essa a situação de Daspu nos primeiros dias de janeiro, com


desfile marcado para duas semanas depois. Sylvio – que traba-
lhou até em suas férias capixabas – terminava o desenho das
peças, o fornecedor petropolitano iniciava a fabricação delas,
acessórios eram garimpados, o casting de uma parte das mode-
los nem tinha começado, e o tempo corria, corria, corria...

Ao mesmo tempo, estávamos às voltas com um duplo “Big


Brother.” De um lado, a equipe do canal franco-germânico Arte,
produzindo um programa de cinqüenta minutos para apresen-
tação em setembro; de outro, a produtora italiana Mestiere
Cinema, desenvolvendo um documentário de longa metragem
para exibição dali a dois anos.

Viver e conciliar as duas equipes, e na reta final da coleção,


foi complicado. Havia uma potente oferta e demanda diária de

198
As mulheres perdidas são as mais procuradas 199

fatos e versões, um grande frenesi de acompanhar cada um


daqueles momentos, já bem tensos, e que podiam anteceder
a desgraça. As equipes estavam devidamente avisadas de que
teriam que se suportar e negociar conosco e entre elas. O canal
Arte optou por ter um personagem conduzindo e protagoni-
zando o documentário, o que reduziu a freqüência da equipe
na sede, mas, por outro lado, ocupou Jane Eloy completamente,
registrada durante 45 dias em todas as situações possíveis:
“Foi maravilhoso, você vive um sonho, eles relatam sua vida, sua
casa, seus filhos, trabalho, mas você não tem tempo para nada,
acorda de manhã, grava, tem que repetir tudo de novo”. Na ver-
dade, talvez tenha havido algum excesso nesse tão cuidadoso
acompanhamento, afastando e garantindo exclusividade sobre
a ótima personagem.

O pessoal da Mestiere Cinema, conduzido pelo dono em pessoa,


o veneziano Guido Cerasuolo, ainda estava criando estratégias
para o documentário, no qual investia recursos próprios a fim de
produzir um trailer consistente e conquistar co-produtores. Com
uma visão de prazo mais longo, a equipe explorou os problemas
ligados à produção da coleção – registrando conversas e tensões
em tempo real e produzindo revivals de acontecimentos recentes
– e buscou uma maior amplitude e variedade de personagens.
Conseguiram até uma breve entrevista com Jane.

Um dos momentos de maior tensão ocorreu quando a disputa se


centrou em Gabriela, que optou por dar mais atenção à equipe
da produtora de Veneza, com a qual havia maior empatia, iden-
tidade cultural e até conhecimento prévio, já que a fotógrafa
Viola Berlanda estava no grupo. Tentando manter relações dis-
tensionadas entre todos, menti para a Arte ao dizer que Gabriela
não poderia atendê-los num determinado dia porque tinha
problemas pessoais a resolver. Mas as pernas curtas se denun-
ciaram, quando a van dos italianos passou diante do escritório,
com Gabi a bordo, justo quando a equipe alemã estava na rua
fazendo tomadas.
200 Daspu – a moda sem vergonha

Vencido este percalço, porém, ainda tivemos outros e convi-


vemos todos por três semanas. Lado a lado, ou frente a frente,
as duas equipes registraram um desfile no Rio e outro em São
Paulo, além da tarde em que desembarcaram em nossa sede as
roupas que seriam desfiladas na noite seguinte.

Prova

Estavam lá as modelos, prontas para a prova de roupas. Estavam


lá as duas equipes de filmagem. Estava lá o cabeleireiro Erni
Garcia, para conhecer as modelos que iria maquiar e pentear
voluntariamente com a sua equipe da ONG Ciseg. Também
aportaria na casa a atriz Elke Maravilha, convidada especial
da TV alemã a participar do documentário e do desfile. Até uma
repórter do Caderno Ela, do Globo, apareceu para dar uma con-
ferida. E, finalmente, o empresário Marcos Baptista, da Falca,
que desceu a serra de Petrópolis trazendo as peças de malha
que acabara de produzir.

Das caixas, foram saindo vestidos e camisetas de mangas cur-


tas e longas em viscose, com reproduções em silk-screen de
pinturas, xilogravuras, desenhos, fotos, filmes e até letras de
canções que interpretam as prostitutas e a prostituição. Obras
do francês Toulouse-Lautrec e do gravurista brasileiro J. Borges,
passando por Gauguin, Picasso, Otto Dix, Lasar Segall e pelo
amigo esloveno Tadej Pogacar, nas artes plásticas; de Chico
Buarque e Raimundos, Madonna e Sting, na música; do cartu-
nista Aliedo e do funkeiro Gutz; de Marlene Dietrich em “O Anjo
Azul”, Greta Garbo em “Mata Hari”, Liza Minelli em “Cabaret”,
Nicole Kidman em “Moulin Rouge”, no cinema.

A alegria de Sylvio, de Gabriela e da turma toda era cativante.


As peças circulavam de mãos em mãos e eram exibidas para as
tantas câmeras, inclusive a pequena digital que me transporta
para o outro lado da comemoração, eu, que também sou dessa
turma, e tantas vezes estou diante desses momentos.
As mulheres perdidas são as mais procuradas 201

“A responsabilidade que caiu na minha cabeça, de fazer uma


coleção em duas semanas, foi uma barra”, desabafa Sylvio. “Ver
as peças prontas, um dia antes do desfile, já é pra comemorar”.

“Que sufoco, meu Deus. Até a última hora essas roupas não
chegavam, a produtora esticando as férias, eu tentando uns
dias de folga para descansar do ano todo, a troca de e-mails
com Sylvio, as decisões tomadas sem tempo... Foi terrível. Mas
valeu a pena”, também desabafa Gabriela, que chegou a finali-
zar algumas peças de tecido da coleção. “Eu ainda fiz acaba-
mentos, enquanto a Imperalina, nossa costureira de plantão,
terminava as minissaias”.

Mas o tempo era curto até para celebrar. Logo começou a prova
de roupas, seguida de ensaios, já com a trilha geléia geral
montada por Sylvio, com ópera, samba, funk, boleros, serestas,
tango, baladas, canções dos músicos citados na coleção.

Elke Maravilha ajuda a relaxar. Conta que na noite anterior, leva-


das pela equipe do canal Arte para circular pelo Fashion Rio, ela
e a dasputinha Jane propagandearam o desfile na Tiradentes
fazendo graça com o ambiente boêmio da praça e o nome do
entra-e-sai Nicácio. “Vai ser em frente ao hotel Picácio”, diziam.

Produção

Era a maior produção Daspu desde o nascimento da grife.


Passarela montada na rua, espaço reservado para repórteres e
outro para fotógrafos e cinegrafistas (que haviam sofrido hor-
rores um ano antes, no mesmo local), telão exibindo slides das
estampas e ainda - e pela primeira vez -, modelos desfilando
com uma coreografia. O número de desfilantes era recorde, 32,
assim como a duração do desfile: 37 minutos.

Boa parte da estrutura se deveu ao Sylvio, que, depois de ter


ficado parcialmente de fora da festa de junho passado, lide-
rada pela estilista Rafaela Monteiro, veio com tudo, no susto
202 Daspu – a moda sem vergonha

e a pedidos. Idealizou e desenhou a coleção, com os apoios já


relatados, montou a trilha sonora, elaborou as coreografias
com ajuda dos amigos Rafael Prata e Denise Reis, ensaiou todo
mundo e estava lá, ao pé da escada da passarela, orientando a
entrada de modelos de acordo com a trilha sonora e os clipes
musicais. Na porta do hotel, era a mesma Denise quem liberava
as modelos para alongar a fila diante dos poucos degraus. Pouco
antes, atuando na organização dos camarins, os já conhecidos
quartos do Nicácio, ela tinha dado outra contribuição – vital
– para garantir o desfile. “Quase tocamos fogo no hotel. Eram
muitos secadores de cabelo, ligados nas poucas tomadas em
vários benjamins, e a toda hora eu ficava tomando a temperatura
dos benjamins. Quando estava quente, eu desligava e esperava
esfriar, para desespero de todo mundo. Ou seja, um caso inédito
de enfermeira de benjamim – com minúscula, por favor”.

Sem fogo no hotel, mas com a pista incendiada pelas modelos


e pelo clima da rua tomada de gente, o desfile foi aberto por
Maria Nilce, a decana dasputinha, e encerrado por Jane Eloy,
ladeada por Elke Maravilha carregando um portentoso cara-
lho cenográfico. A cantora Watusi foi reconhecida no público
e convidada a subir à passarela para o abraço final, também
com Sylvio e Gabriela. “A coragem de colocar a cara é o mais
importante”, diz Watusi.

Entre a passagem de Maria e a de Jane com Elke, os outros 29


modelos mostraram mesmo as caras – de prostituta ou atriz,
de editor ou estudante. Dessa vez, haviam vários homens, como
Victor Barreto desfilando com a noiva “O Casal do Mangue”, de
Lasar Segall; Rafael Cesar e Sheila Regina da Silva de paletas nas
mãos exibindo as “Demoiselles d’Avignon” de Picasso no peito;
o videasta Rafael Prata encenando o diabo de J. Borges, que
tenta impedir a “A Chegada da Prostituta no Céu”; o dono de hotel
Edvan Miranda pegando no colo, de surpresa, a garçonete e tam-
bém desfilante Formiguinha. Representando Marlene Dietrich,
as simpatizantes Mônica e Ângela fumavam longas e delicadas
As mulheres perdidas são as mais procuradas 203

piteiras, mirando sorridentes o público de ambos os lados da pas-


sarela, enquanto Andréia, atriz, dançava a Garota Materialista de
Madonna. E a travesti Natalie, sucesso de irreverência e carisma,
e as putas Lena, Cida, Jéssica, Nilza, Michele...

Duas dasputinhas especiais também se apresentaram nesta


noite. Simpatizantes e admiradoras que vão aonde a grife está,
gastando do próprio bolso quando precisam: a socióloga carioca
Verônica Machado e a cientista política americana Laura Murray,
as duas já com vários desfiles pela Daspu e morando, na época,
em São Paulo. Com a psicóloga Elaine Bortolanza, elas formam
o Trio Maravilha das Aliadas Daspu, o Trazpu – que desfilaria
completo na capital paulista, uma semana depois, inclusive
com a quarta mosqueteira Fabiane Borges.

Entre um e outro desfile, Laura contou por que adorou entrar


na passarela representando Roxanne, mesmo considerando um
desafio a coreografia, já que “só havia desfilado descontraída”,
até então.
O que mais me inspirou foi o conceito do desfile. Faz séculos que
as prostitutas inspiram arte – desde os quadros mais antigos até
a arte contemporânea. A mulher prostituta é uma inspiração de
criação. Para mim, americana, me inspira viajar para conhecer a
luta delas em diversos países, como faço há seis anos, me inspira
largar tudo e viajar para desfilar. Uma sensação indescritível...
não só como mulher, mas como oportunidade para participar de
algo em que acredito e que me inspira, pois essa coleção mostra o
que as prostitutas têm feito dentro de toda a história humana.

Verônica também tratou do conceito e das palavras. “Foi uma


passarela única, que não necessita de descrição, e sim de
sensação, de desejo, de realização... A Puta Arte de Ser Puta,
descrita na Puta Arte da Daspu! Quais são as semelhanças e
as diferenças entre Puta Arte e Arte Puta? Será que depende
de quem pronuncia? Será que depende de quem lê? Será que
depende de como se lê? Será que depende do significado que
se quer dar a cada uma dessas palavras? Ou será que é uma
204 Daspu – a moda sem vergonha
As mulheres perdidas são as mais procuradas 205
206 Daspu – a moda sem vergonha
As mulheres perdidas são as mais procuradas 207

simples troca da posição das palavras? Simples assim, como


cada um exercer o seu desejo!”

Mais uma vez, era noite de Giselle Bündchen no Fashion Rio –


que coincidência – e, mais uma vez, jornalistas vieram cobrir as
prostitutas, à distância e de graça, lotando os novos reservados.
Entre os veículos de Internet, só o portal G1, da TV Globo, publi-
cou 18 fotos, mais do que o dedicado à maioria das grifes que se
apresentaram no evento oficial de moda.

No final, a bateria do Bloco Prazeres Davida ainda subiu à pas-


sarela para anunciar o enredo de 2007. O homenageado, Zózimo
Bulbul, foi convocado por Gabriela, dirigente do bloco. Muito
aplaudido, o ator e diretor levou sua empolgação até a ponta da
passarela, seguido por ela. Voltaram abraçados para se juntar
aos intérpretes e ritmistas. O samba rolou até tarde, para fechar
a noite de festa. “Gostei. Foi tudo ótimo, legal”, comentou Zózimo.
“Eu me diverti com o desfile e também na passarela. Clima bom,
sem nenhum atropelo, nenhuma sacanagem. E ainda me senti
homenageado. É isso mesmo. Se complicar, fica feio”.

Zózimo foi profético sobre a complicação. Faltava menos de


um mês para o Carnaval e, apesar de eu já ter feito uma longa
entrevista com ele, não deu tempo de lançar a sinopse do sam-
ba-enredo para os vários compositores de plantão, o que ainda
iria exigir um concurso para escolher o vencedor. Mesmo assim,
desfilamos com o samba do ano anterior, de louvor à Tiradentes,
e estendemos nossas lindas perninhas ao delicioso carnaval de
Olinda. Lá, amigos do Rio e prostitutas pernambucanas forma-
ram a ala SuperPU no bloco Enquanto Isso na Sala da Justiça,
que homenageia super-heróis.

“Era possível ver um pouco de tudo, misturando os clássicos


super heróis – Homem- aranha, Super-homem e Os Incríveis – e
os novos anti-heróis: a máfia das ambulâncias, políticos e poli-
ciais. No meio de tudo isso, nós da SuperPu. Foi demais”, contou
Orlando Júnior, um dos foliões cariocas.
208 Daspu – a moda sem vergonha

De volta ao Glória

Uma semana depois de apresentarmos nossa Puta Arte no Rio,


desembarcamos em São Paulo para lançar, pela segunda vez,
uma coleção no Glória. Com grafiteiros decorando uma parede do
clube enquanto mulheres, homens e travestis desfilavam, a casa
lotou novamente. A fórmula de levar dasputinhas do Rio e convo-
car outras da Augusta voltou a funcionar. E dois famosos – além
de vários de nós – entraram na pista. O cantor Supla, conhecido
dos donos da casa, e a escritora e tímida Raquel Pacheco, que
por dois anos foi a garota de programa Bruna Surfistinha, convo-
cada no susto. “Eu vim só para assistir. Fui pega de surpresa pela
Gabriela Leite, que me chamou na hora para desfilar. Nervosa, já
entrei tropeçando. Mas foi uma honra, admiro muito esse traba-
lho de luta contra o preconceito”, disse ela.

Outra atração paulistana foi a fotógrafa e ex-modelo de cabelos


da L’Oreal Viola Berlanda, integrante da equipe do documentário
veneziano. Viola desfilou e tirou fotos ao mesmo tempo, empu-
nhando a máquina como um acessório cenográfico. “Me senti
uma modelo muito potente com a máquina na mão”, brincou
ela, que pode ter feito uma performance inédita. “A foto que fiz
da passarela ficou linda, com todos os fotógrafos olhando para
mim. Eu fotografando os fotógrafos e servindo de espelho para
eles, ou seja, fotografando os fotógrafos que estão fotografando
a fotógrafa que está...”

O psicólogo Leandro Feitosa viu assim aquela noite:


“A apresentação foi fascinante, esse trabalho é um caminho
para mudar a sociedade”.
As mulheres perdidas são as mais procuradas 209
Cap.15
Consultores, Estudantes e
Cooperativados.
Uma oportunidade de qualificação em gestão e planejamento
havia surgido em 2006, com o Prêmio Empreendedor Social
Ashoka-McKinsey. Davida foi uma das vinte (entre mais de tre-
zentas) organizações selecionadas para desenvolver um plano
de negócio para a Daspu, com apoio de profissionais da reno-
mada consultoria internacional McKinsey.

Os participantes seriam Gabriela e eu, mas ela, por compromis-


sos de viagem, achou melhor passar o encargo ao administrador
Luciano Alves. De maio a outubro, estivemos três vezes em São
Paulo para cursos de três dias e trabalhamos centenas de horas
na montagem do plano, em três etapas, com ajuda de colegas
e apoio dos consultores do Prêmio, por correio eletrônico. Das
vinte organizações, dez seriam finalistas e as três primeiras
receberiam um total de 90 mil reais em prêmios.

Entre as ONGs participantes, éramos de longe a que tinha a


marca mais conhecida – Daspu – e uma das poucas que estava
com o negócio em pleno funcionamento, mesmo precisando de
ajustes. Nossa expectativa era elevada, não só por um eventual
prêmio em dinheiro, mas pelo desenvolvimento do plano de
negócio em si, especialmente pelo aprimoramento que ele teria
com a classificação entres os dez finalistas, porque isso resul-
taria em apoio presencial de um consultor para a apresentação
final de dezembro, na Fundação Getúlio Vargas paulistana.

212
Consultores, estudantes e cooperativados 213

Quem trabalhava com produtos, e não serviços como micro-


créditos, teve aberta a possibilidade de levá-los para exposi-
ção e até venda durante os dias de curso no hotel dos Jardins
paulistanos. Numa dessas ocasiões, recusei trocar uma cami-
seta Daspu por uma peça de artesanato de uma organização
do Tocantins, que tinha como cursandas uma teóloga e uma
prostituta, eventualmente arrependida. Na verdade, era uma
entidade que atuava com “mulheres em situação de vulnerabi-
lidade social”, algumas delas prostitutas, com apoio da Pastoral
da Mulher Marginalizada, braço da Igreja Católica voltado à
redenção das pobres vítimas do machismo, da violência e da
desigualdade de gênero.

Definitivamente, o oposto de nosso trabalho e terreno fértil


para a geração de conflitos, que ambos os lados iam evitando
em prol das suas metas no curso. Mas a minha atitude, no fundo
política, mas também grosseira e arrogante – como trocar um
artesanato bobo por um produto da famosa marca Daspu? –,
disparou o gatilho.

Uma participante de uma terceira organização, possivelmente


convocada para isso, questionou-me numa roda formal de con-
versa entre alunos e facilitadores, “denunciando” o tratamento
desigual entre semelhantes. Tentou desqualificar e retirar a
legitimidade da conhecida e ousada Davida – onde as vítimas
não tem vez – diante do povo pobre e sofrido do Tocantins.
A teóloga também se manifestou, na mesma linha, e mais uma
ou duas pessoas, até o ponto em que precisei me defender.

Tentei explicar, mais uma vez na vida e sabendo que não o fazia
para inocentes, as diferentes políticas sobre a prostituição,
particularmente a protagonizada por um movimento que vem
se organizando desde os anos 70 do século passado, a partir
da França. De um lado, ainda majoritário na sociedade, os que
atribuem a prostituição à pobreza e ao machismo, à violência
e à exploração, à falta de opção, às famílias desagregadas, às
drogas, à ausência da religião e até à pura e simples safadeza,
214 Daspu – a moda sem vergonha

e que tentam resgatar as mulheres forçadas a essa escravidão.


De outro lado, a prostituição como profissão e direito sexual,
como opção (entre muitas ou poucas, mas sempre opção), como
desejo, ligada à sexualidade livre das fantasias ou à reprimida
dos interditos morais, religiosos e pessoais, visão que, ao final,
reúne prostitutas e aliados que não assumem a vitimização do
senso comum e da hipocrisia, mas o protagonismo e a luta por
melhores condições de trabalho.

Difícil evitar, restaram ruídos, rumores e antipatias. Não de


todos, claro, mas dos que têm posições claras para dentro, mas
ambíguas para fora, que militam o tradicional usando modelitos
fashion, que nivelam por baixo, como os políticos, para garantir
manobra e poder, e deslegitimam o rompimento de lógicas esta-
belecidas por um setor já ultrapassado do movimento social.

No cafezinho, lá fora, dei uma camiseta à colega de Tocantins,


para me redimir da grosseria e não criar questões pessoais,
mantendo, então, só as políticas. Fui saudado pelo gesto. Uma
facilitadora qualificou o “debate” de “esclarecedor e fascinante”.
Era o último encontro presencial dos representantes das vinte
organizações.

Não fomos classificados entre as dez finalistas. E aquele plano


de negócio, teoricamente concluído na terceira fase, com o
apoio daqueles excelentes consultores, jamais teve utilidade
para nós. Ao contrário do projeto de graduação de cinco estu-
dantes da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São
Paulo (ESPM-SP), feito um ano depois.

Jovens da classe média e alta paulistana, desvinculados de


qualquer militância social, Cassiano Ricardo Coimbra Rezende,
Luiz Carlos Conde Gaspar, Marco Aurélio Centenaro Junior,
Renata de Luna Freire Maciel e Vivian Barbosa Grieco surgiram
de surpresa. Um telefonema com a proposta, a visita de um
fim de semana, dezenas de e-mails e telefonemas trocados
com diversas pessoas da equipe, pesquisa com os clientes da
putique e com revendedores da grife, alguns dias vendendo
Consultores, estudantes e cooperativados 215

camisetas em um estande na capital paulista, e muito, muito


mais, resultaram num livro de 270 páginas, resumidamente
apresentado em novembro, diante da banca, de pais, colegas
e amigos.

Eu assisti à objetiva e bem-humorada apresentação na ESPM,


num ambiente em que os pais estavam, orgulhosos de seus
filhos, mesmo que falem de “putas, zonas, cafetões e várias
outras expressões relacionadas à ocupação da prostituta”, como
advertem os autores na apresentação do trabalho. “Essas pala-
vras fazem parte do mundo da Daspu e, portanto, fazem parte
do nosso PGE – Projeto de Graduação ESPM”. A nota 9 os deixou
quase furiosos, mas, bem, foram consolados e aplaudidos pelo
orientador, Ricardo Poli, que decidiria meses depois resumir o
trabalho como um case de destaque da faculdade.

Com uma minuciosa análise do mercado de moda, dos con-


correntes e do posicionamento da marca, das oportunidades,
ameaças, fortalezas e fraquezas, de produto, preço, canais de
venda e comunicação, dos clientes e de tudo o que constitui um
negócio, “os meninos”, como nos acostumamos a chamá-los,
apresentaram um consistente e utilíssimo trabalho, cujas reco-
mendações já vêm sendo utilizadas pela grife.

O projeto de graduação só foi recebido com certo estranha-


mento em curiosas circunstâncias, as do cooperativismo.
Movida pelo desejo de estreitar o laço entre os integrantes da
equipe, responsabilizar cada um pelo conjunto da obra e por sua
área específica, Gabriela fez o gesto de candidatar a grife a uma
seleção na Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares,
a premiada ITCP da Coope UFRJ. Iniciado em dezembro de 2007,
o processo de três anos visa “o crescimento de uma cooperativa
como empreendimento econômico e a emancipação política e
social dos seus associados”.

Ocorre que, pelo menos na parte inicial do processo, parece


haver muito mais investimento na emancipação política e social
do que no crescimento como empreendimento econômico
216 Daspu – a moda sem vergonha

– enquanto, para as integrantes da Daspu, a mais urgente é


a segunda parte, pois a primeira já vem se consolidando há
tempos. Uma relativa ideologização tende a subestimar os
participantes, ao mesmo tempo que exige deles mais do que o
necessário, como refazer diagnósticos e buscar alternativas já
apontadas, por exemplo, pelos estudantes da ESPM-SP, numa
certa desvalorização desse valioso instrumento. Perigo ainda
maior está em imaginar a existência de um “mercado sujo”,
definido por produtos caros demais vendidos para os ricos. Nós,
nada contra. Nem contra a terceirização, outra prática aparen-
temente desgostada pelo cooperativismo popular. Divulgar
idéias, produzir, fortalecer-se, gerar recursos: este é o objetivo.
Na verdade, parece ser o mesmo que o do cooperativismo, mas,
isso só a continuidade do processo irá demonstrar. Ou não.
Consultores, estudantes e cooperativados 217
Cap.16
Imagem e público.

Cap.16
Imagem e público.
Com vendas ascendentes até novembro de 2006, a grife iniciou
uma trajetória declinante em dezembro, que se prolongou por
todo o ano de 2007, especialmente a partir de março e, depois,
junho, coincidindo aproximadamente com o ciclo tradicional de
uma coleção, de seis meses. As peças lançadas em janeiro só
começaram a ser vendidas em abril, melhorando o faturamento
até maio, quando já se criava a expectativa de um novo lança-
mento, em junho.

Duas situações contribuíram para o declínio até junho – e mais


outras para os meses seguintes. Por um lado, uma queda de
exposição na mídia, considerando a avalanche de reportagens
ao longo de 2006. Por outro, a coleção Puta Arte, embora muito
apreciada pelos clientes, era de peças de inverno, com mangas
¾ e vestidos de viscolycra de mangas compridas.

No Rio, principalmente, onde “todo mundo gosta de shortinho,


camisetinha, sainha”, conforme a vendedora Maria José, era
freqüente a desistência de clientes da loja, assim como de lojis-
tas, de levar as peças, com receio do calor brasileiro. O preço
também contribuiu, já que as camisetas tradicionais, em malha
de algodão, eram vendidas por 30 ou 35 reais, enquanto as de
viscolycra chegavam a 45. E os vestidos, a 65.

Essa combinação de preço maior com roupas de inverno causou


outro efeito. Por conta própria, os responsáveis pela seleção

220
Imagem e público 221

de peças para venda em eventos deixaram de levar a coleção


a diversos deles, algumas vezes com razão, em se tratando de
um público de estudantes, por exemplo, outras com meia razão,
como na Parada Gay carioca, onde Daspu montou estande na
Avenida Atlântica a convite da organização – neste caso, um
grupo de maior poder aquisitivo, mas já no calor de outubro.

A demora em disponibilizar as novas coleções foi outro fator


apontado por lojistas para o desinteresse do consumidor, de
acordo com levantamento realizado pela equipe da ESPM-SP
na capital paulista. De fato, entre apresentação e venda de
peças, decorria mais tempo do que o razoável, em virtude de
falta de planejamento e, por vezes, de recursos.

Os revendedores também indicaram outro elemento negativo,


este crucial para o futuro desenvolvimento da grife. Camisetas
“básicas demais” feitas em “um processo de fabricação muito
simples”, conforme um representante da Berliner, na Rua Augusta,
em São Paulo, que concluiu: “O preço acaba não se justificando”.

Este fator é crucial porque “a Daspu transmite irreverência, sen-


sualidade e bom-humor e se encaixa perfeitamente no perfil de
produtos da Doc Dog”, segundo um representante desta outra
loja conceito paulistana. A equação fica mais clara quando se
considera a presença dos produtos em lojas com público-alvo
de classe AB, como é o caso das duas citadas, que praticam
preços muito elevados. Ou seja: a imagem da grife, percebida
como ousada e irreverente, além de sensual e corajosa – e por
isso presente em tais revendedores –, choca-se com o produto
“básico demais”.

Assim, no estudo dos meninos e meninas paulistanos, uma das


recomendações é “a modernização da linha quanto à produção,
corte, estampa e acabamento para maior percepção de quali-
dade do consumidor e para ganhar consistência e relevância na
disputa pela preferência desse consumidor no grupo estraté-
gico em que estará inserida”. E que, para eles, é o grupo “ino-
vador/irreverente” (em oposição aos perfis de grifes “básico”
222 Daspu – a moda sem vergonha

e “moderno/sofisticado”), o mesmo de nomes como Cavalera,


Sommer, Doc Dog e Colcci – a prova, querida Gisele, de que
existe mesmo uma identidade entre nós!

Se não é do ramo de moda, ou dos negócios, o leitor pode estar


considerando este capítulo um tanto técnico. Mas, para além
disso, pode compartihar aqui o desafio enfrentado por um
grupo de pessoas que pretendiam “apenas” reforçar seu ati-
vismo social, sem imaginar as conseqüências de penetrar neste
desconhecido universo fashion.

No caminho, nos deparamos com esse potencial público das


classes AB, composto de homens e mulheres de 18 a 35 anos,
de estilo despojado e próprio, antenados em moda e tendên-
cias, e fiéis a um grupo de marcas.

Hoje, segundo pesquisa quantitativa realizada pelos empenha-


dos estudantes com 500 dos 4.800 consumidores cadastrados
no site Daspu, a maioria deles (62%) é composta de mulheres de
26 a 45 anos, das classes B1 e B2, com renda de R$ 3.480 e R$
2.013, respectivamente (dados do IBGE), vivendo em São Paulo,
Rio, Brasília e Belo Horizonte, das áreas de educação e saúde
(professoras, assistentes sociais, psicólogas), 67,4% com facul-
dade completa. Predominam heterossexuais (79,8%), seguidos
de homossexuais (13,2%) e bissexuais (7%). E mais: compram
motivados pela temática irreverente (60,8%), pela causa da
prostituição (58%) e pelo design das estampas (43,8%); consi-
deram a grife irreverente (58,8%), autêntica (56,9%), bem-hu-
morada (49,7%), defensora de causas sociais (48,7%) e ousada
(42,3%); querem a legalização do aborto (79%) e da maconha
(71,5%); e, por fim, mas não menos importante, 99,1% são a
favor do sexo antes do casamento.

O desafio, garantem nossos bravos estudantes, é definir o


público primário da Daspu e nele investir, sem abandonar os
clientes de hoje.
Imagem e público 223

Mas não é tudo. Além de melhorar a qualidade do produto, valo-


rizando o que já é valorizado e alinhando preço com imagem,
também é preciso superar a distribuição passiva, ampliar as
vendas a multimarcas e jamais apresentar uma coleção sem
produzi-la, como fizemos em junho de 2007.
ma
Cap.17
Coleção fantasma.
A coleção fantasma

a
Como em tantos outros setores, inclusive o terceiro, o de moda
vive de nascer, crescer, morrer e renascer. É assim com governos,
carros, gastronomia, jornalismo, vinhos, cervejas e cachaças,
carnaval e por aí vai. Enquanto as grifes tradicionais se rein-
ventam a cada seis meses, empreendimentos mais acessíveis
e cadeias de lojas renovam seus estoques muito mais rapida-
mente, às vezes em seis semanas ou até menos.

A estratégia de Daspu sempre foi a de se manter no calendá-


rio tradicional e, a qualquer ocasião, ter a liberdade de lançar
modelos da linha ativismo de camisetas. Mas com a aproxima-
ção de mais uma temporada, a de lançamento de primavera/
verão, em junho, continuávamos sem estilista e sem fôlego para
contratar um.

Pela altura de maio, porém, veio visitar-nos Franklin Melo, um


carioca e modelista que vive em Corumbá (MS), onde desenvolve
uma oficina de moda com a associação local de prostitutas,
que reaproveitam tecidos e outros materiais e promovem tam-
bém desfiles. As meninas da DASSC – Dignidade, Ação, Saúde,
Sexualidade, Cidadania fazem ainda sabonetes e chocolates
eróticos. Gabriela e eu já o havíamos conhecido em Corumbá.

Franklin passaria alguns meses no Rio e, entusiasmado com


a repercussão da Daspu, ofereceu seus serviços voluntaria-
mente. Em pouco tempo, nos decidimos pelo tema da coleção,

226
A coleção fantasma 227

que faria referência a uma operação policial denominada Copa


Bacana, de repressão a prostitutas e outros seres urbanos, e,
sobretudo, à Bebel de Camila Pitanga, que bagunçava a cabeça
do país na novela “Paraíso Tropical”. Nascia, assim, a coleção
Copa Sacana.

Com apoio na concepção de vários componentes de Davida,


especialmente Gabriela, Sylvio e Jane, Franklin reabriu seu
ateliê no subúrbio de Campo Grande, Zona Oeste do Rio, onde
costureiras e bordadeiras amigas, voluntárias como ele, puse-
ram a mão na massa. Pela primeira vez, tínhamos uma equipe
desenvolvendo em conjunto uma coleção, em que a maior parte
das peças era de tecido e umas poucas de malha, com toques
artesanais. Eram vestidos, saias, tops e calças em algodão
cru, chita e fuxico, muitos com paetês desenhando ondas, ou
com aplicação de conchas marinhas, além de sutiãs de biquíni
com aplicação de fuxicos ou paetês, num clima bem praiano,
destacado ainda pelas cores branco, azul e areia. Um dos ves-
tidos, este em malha, tinha 30 mil paetês! Para complementar
o astral marítimo, Sylvio silkou pipas em calcinhas de biquínis
e as charmosas ondas do calçadão de Copacabana, em cangas.
E criou sete camisetas inspiradas no bairro, com estampas de
fachadas de boates de prostituição, do tradicional Matte Leão
(“matte o preconceito”) e outras mais. A trilha sonora, tam-
bém do designer, era pura alegria e leveza, com todas – todas
– as canções citando “Copacabana”, nas vozes, por exem-
plo, de Carmen Miranda, do Caetano Veloso de Tropicália, do
Ney Matogrosso das Muchachas, de Chico Buarque, da Maria
Bethânia de Sábado em Copacabana de Dorival Caymmi, o tema
de abertura da novela de Bebel.

Esse lançamento coincidiu com outro, o do livro As meninas da


Daspu, um conjunto de entrevistas de nove prostitutas cole-
tadas e contextualizadas pela socióloga e pesquisadora Anna
Marina Barbará, que havia trabalhado a história oral das prota-
gonistas durante meses. Juntando fome com vontade, o evento
228 Daspu – a moda sem vergonha

aconteceu na espaçosa livraria Saraiva, do shopping Rio-Sul,


obtida pelo publisher da Editora Novas Idéias, Victor Barreto,
que publicou a obra.

O desfile entre estantes, guarda-sóis e convidados foi incomum


e tão alegre e animado quanto a trilha sonora. O grand finale veio
quando quatro das prostitutas e a autora sentaram-se para auto-
grafar os livros, cercadas de leitores, fotógrafos e cinegrafistas.

As prostitutas-modelos, agora também autoras, estavam no


céu: “Estou muito feliz e emocionada. Tinha muitas histórias
guardadas no meu coração e não imaginava que faria até um
livro”, disse Cida. “Dei muito autógrafo, o que vier, vou dando”,
brincou Maria, a sério. A historiadora Anna Marina também
comemorava: “É maravilhoso estar aqui com elas, foram longas
horas, elas resistindo, fitas apagadas, a família inteira aqui,
estou super orgulhosa”. Já Victor Barreto avaliou o investimento
da editora como “de um potencial institucional muito grande,
com uma ONG que todo mundo conhece e muita gente com-
prando”. Ativista da Associação Brasileira Interdisciplinar de
Aids (Abia), Luciana Kamel considerou o conjunto moda-litera-
tura “uma idéia de valorização e reconhecimento das meninas”.
O autor fashion, Franklin, estava aliviado: “Pari a coleção. Acho
que são peças que podem ser comercializadas em escala, fora
as mais artesanais e exclusivas, que vão ser direcionadas, como
o vestido com 30 mil paetês”.

Franklin talvez estivesse certo. Mas a maioria dos integrantes


da ONG, como Gabriela e eu mesmo, entre as poucas exceções,
não apreciou as peças criadas por ele. Esses narizes torcidos,
adicionados à demora na apresentação do orçamento para
confecção em escala dos produtos, à volta do modelista para
Corumbá e, de novo, à falta de capital de giro, fizeram com que
esta se tornasse uma coleção fantasma. Até mesmo as camise-
tas tiveram uma limitadíssima produção, toda ela comprada pela
charmosa Baobá Café Social, uma loja soteropolitana – fruto de
parceria entre a ONG Gapa-BA e a Associação Salvador Negro
A coleção fantasma 229

Amor – onde desfilamos no fim de agosto, em nossa estréia


nordestina.

Afora o festivo lançamento, mesmo sem a futura produção da


coleção, e, principalmente, a boa carreira do livro “As meninas
da Daspu”, aquele mês de junho foi marcado por uma grande
revolta coletiva e uma enorme tristeza pessoal. No fim do mês,
na Barra da Tijuca, Rio, cinco rapazes roubaram e espancaram
uma empregada doméstica, Sirlei Dias de Carvalho Pinto, por-
que acharam que era uma prostituta, conforme alegaram. “Mas,
mesmo que eu fosse, cada um faz o quer de sua vida. Ninguém
merece uma agressão dessas”, diria ela depois. A condenação
geral ao ataque demonstrou um passo à frente da sociedade em
relação à violência e também à discriminação contra as prosti-
tutas. Além das mensagens publicadas na imprensa, chegaram
a nós muitas manifestações de indignação, como essas:
Tal alegacão é crime de discriminação, pois eles deixam clara a
pregação do ódio e violência contra as prostitutas, que ser prosti-
tuta é um bom motivo para justificar espancamento.

Esse crime foi uma violência física contra a Sirlei, mas também foi
uma grande violência moral contra todas as mulheres brasileiras.
E eu acho que as prostitutas devem encabeçar essa luta, a fim de
que a sociedade as trate com mais dignidade

Por acaso prostituta é lixo? Não tem direitos, nem cidadania?


Estou indignada, a mensagem passada foi que uma cidadã não
pode ser espancada, mas uma prostituta pode.

Puta não é uma pessoa igual a mim e às mães deles? Batendo


nesta mulher, eles agrediram todas nós.

Onde iremos parar se na sociedade onde vivemos existem pessoas


como essas, com esses valores equivocados, que acham que o fato
de alguém ser profissional do sexo lhes dá o direito de agredir?

Em fevereiro de 2008, os cinco rapazes foram condenados a


penas de prisão e multa. Quatro permaneceram presos, um res-
pondendo em liberdade.
230 Daspu – a moda sem vergonha
A coleção fantasma 231

A enorme tristeza de junho veio bem no começo do mês. No dia


3 de junho, falecia no Rio meu pai, Waldo Cesar, depois de um
derradeiro e difícil mês do agravamento de um câncer. Só con-
segui chorar sua morte pra valer dois meses depois, no ombro
do amigo Andreas, que suportou um pranto interminável entre-
cortado por palavras incompreensíveis, durante a própria festa
de aniversário. Obrigado, Andreas.

Muito obrigado, meu pai, por compartilhar comigo sua vibrante


e amorosa vida. Acredito que continuo aprendendo com você.
Cap.18
De dentro pra fora e de fora pra dentro.
À menor presença na mídia nacional, acirrada no segundo
semestre de 2007, contrapôs-se um interesse crescente da
imprensa internacional, especialmente revistas de moda, com-
portamento ou design, como a inglesa Marie Claire, a espanhola
Magazine, do diário El Mundo, as alemãs Brigitte e Hekmag, a
canadense Urbania, a argentina Barzón, o tablóide diário de
moda WWD, de Nova York, a grega E, e até o site japonês aso-
bist.com – nestes dois veículos, é divertido brincar de caçar
palavras, nomes ou siglas em português (na lígua de Platão,
encontramos Davida, Daspu, Daslu e, nos ideogramas, Daspu,
puta, pu). Todos enviaram jornalistas ao Rio, à exceção da grega,
que fez matéria por e-mail e telefone, enquanto Urbania produ-
ziu um editorial de moda em Montreal, com prostitutas da ONG
Stella vestidas de modelitos enviados do Brasil.

A repercussão no exterior – ampliada em setembro com a exibi-


ção do programa de TV da Arte – também fazia crescer os pedi-
dos de fora. Com isso, a cooperante alemã da ONG, Friederike
Strack, assumiu de vez a função de “exportadora”. Falando e
escrevendo também inglês e espanhol, Freddy criou um e-mail
específico e começou a estudar os trâmites para envio de mer-
cadorias ao exterior, pesquisando nos correios, com traders e
até na Câmara de Comércio Brasil-Alemanha. A tarefa repre-
sentou um ganho para a Daspu e para ela própria, que havia
chegado ao Brasil em julho de 2005, época da criação da grife,

234
De dentro pra fora e de fora para dentro 235

mas viveu durante algum tempo “uma sensação de não poder


apoiar, sem saber costurar, desenhar e sem ter contatos”.

Embora contribuísse tirando boas fotos de eventos, não se sen-


tia à vontade, por exemplo, para fazer perguntas sobre pessoas
que se convidavam ou eram convidadas para desfiles, que não
conhecia, ou sobre a relevância de reportagens em veículos
que tampouco podia avaliar (embora jamais, ou pouquíssimas
vezes, tenhamos negado uma história à imprensa).

Antes de investir na exportação, sua principal contribuição havia


sido a de manter contato com Tadej Pogacar, a respeito da pro-
posta do artista para a Bienal de São Paulo. Mas, com a nova
tarefa, sentiu-se muito mais “útil”. Certamente alguma modéstia
de Freddy, a quem, brincando, chegamos a ameaçar dar o título
de “vendedora do mês”, por conhecer e receber muitos estran-
geiros e sempre levá-los ao Davida, garantindo bons negócios.

Na nova fase, além de atender pedidos de pessoas físicas, mais


complicados de concluir devido ao custo de envio proporcio-
nalmente muito elevado para apenas uma ou mesmo poucas
peças, Freddy emplacou uma ótima venda no atacado, para a
rede de lojas suíça Jamarico. Mas a sua experiência reaviva um
importante elemento da cultura européia em relação aos países
mais pobres.
Os comerciantes acham que o Brasil é um país que produz bara-
tíssimo, como Indonésia ou Tailândia, porque estão muito acos-
tumados com a exploração de mão-de-obra, gente trabalhando
muitas horas por dia baratinho. Mas, na verdade, o Brasil tem
uma qualidade tão boa de tecidos e também de produção, e por
isso um custo mais elevado, que não dá para comparar com esses
países, especialmente os asiáticos. Junto disso, o real muito forte
tampouco ajuda a venda no atacado.

Um lado mais moderno da visão européia demonstra “mais


um clichê sobre o Brasil” e é, na verdade, o reverso da mesma
moeda. “São as pessoas que perguntam se a matéria-prima
é ecologicamente correta, se os fornecedores não exploram o
236 Daspu – a moda sem vergonha

trabalho infantil, se as condições de trabalho são boas e éticas.


É a consciência do consumidor que está crescendo cada vez
mais”.

Mas a experiência de Freddy não é composta apenas de difi-


culdades, desconfianças e pechinchas. Quando pergunto qual
venda a deixou mais feliz – “você acha que vou dizer Jamarico”,
reage com toda a razão –, ela conta uma história significativa:
“Foi a compra de um suíço que pediu camisetas para toda a
família e queria um postal da Jane, que ele havia visto num pro-
grama de TV. Achei lindo porque esse cliente estava interessado
também na vida das meninas”.

Sempre internacional, Freddy sonha agora com a coleção


Daspu no Mundo, que “pode integrar prostitutas de outros
países, tornar-se um espelho que reflete muitas culturas”.
Danada essa alemã.
De dentro pra fora e de fora para dentro 237
Cap.19
Na medida do impossível.

239
Depois de lançar uma coleção fantasma, mesmo que não fosse
essa a intenção, daríamos um passo mais radical: pular uma
temporada de lançamento, a de janeiro de 2008. Não que isso
seja incomum no mundo da moda, por vezes é até estratégico,
renova o fôlego de uma grife e atiça as expectativas do público.
De fato, a decisão mostrou-se estratégica e apropriada para o
futuro próximo, apesar de não ter sido, a princípio, planejada.

Mas o que vinha atrás é que estávamos, de novo, assoberba-


dos com os freqüentes convites para desfiles da grife e com
outras políticas e atividades do movimento de prostitutas, que
dificultavam um bom planejamento para a coleção (por essas
e outras, na reta final deste livro, a editora Helô Buarque bron-
queia, coberta de razão: “Larga essa militância por um tempo e
acaba logo com isto”!).

No final de outubro, por exemplo, recomeçou no Congresso


a batalha em torno do projeto de lei do deputado Fernando
Gabeira (PV-RJ) que formaliza as relações de trabalho na prosti-
tuição. Ainda na Comissão de Constituição e Justiça e Cidadania
da Câmara, o PL 98-2003 teve parecer contrário de ACM Neto
(DEM-BA), ganhou pedido de vistas e um voto em separado do
deputado Sarney Filho (PV-MA), mantendo o essencial da pro-
posta. A nossa mobilização incluiu mensagens aos membros
da comissão, entrevistas à imprensa e a presença de Gabriela
Leite no dia da votação do parecer, 7 de novembro. Um acordo

240
Na medida do impossível 241

esteve a ponto de ser feito, mas discursos emocionais e mora-


listas da deputada Maria do Rosário (PT-RS) e do próprio ACM
Neto definiram os votos contra o projeto. Na sessão marcada
pela hipocrisia, até o deputado Paulo Maluf falou em moral,
para desespero de uma funcionária da Câmara, que acompa-
nhava a votação: “Maluf falando em moralidade? Tirem os meus
tubos!”. Antes de ser votado em plenário, o projeto seguiu para
outra comissão, a de Trabalho, porque ACM Neto rejeitou o
mérito, mas reconheceu que a proposta é constitucional, esta a
verdadeira função daquela comissão.

Dois assassinatos de prostitutas em menos de 15 dias, em


Salvador e Belém, também mobilizaram a categoria, que já se
dedicava às difíceis negociações políticas em torno de uma
Consulta Nacional sobre Prostituição, Direitos Humanos e DST
e Aids, em parceria com o governo federal e outros movimentos
sociais. Em novembro, iniciávamos também o processo de incu-
bação de cooperativa, com a UFRJ.

No lado mais light da vida, o grupo das Mulheres Seresteiras da


ONG voltou a cantar em praça pública, dessa vez com a canja
da ótima Andrea Dutra; Daspu montou estande na Parada Gay
carioca e desfilou mais três vezes, inclusive no Palácio do Catete,
num histórico evento pré-parada, que pôs ativistas gays na pas-
sarela, e em Salvador. O outro desfile rolou durante a 2ª Bienal
Favela Festa, em nova apresentação no já íntimo Circo Voador,
quando a modelo Nilza, que batalha no Posto 13 da Rodovia Rio-
São Paulo, vibrou por ter “uma fotógrafa exclusiva”. Era ninguém
menos que Nana Moraes, com centenas de celebrados cliques de
moda, que desenvolvia o projeto Andorinhas da Dutra, de prosti-
tutas de beira de estrada, e tornou-se nossa amiga, associada da
ONG e futura fotógrafa do primeiro catálogo Daspu.

Nos momentos em que podíamos nos dedicar à futura cole-


ção de janeiro, havia apenas uma luz no fim do túnel. Era uma
parceria com a grife de Vanessa Oliveira, uma ex-prostituta e
também escritora do Balneário de Camboriú (SC), que havíamos
242 Daspu – a moda sem vergonha

conhecido no lançamento do filme espanhol Princesas, em


maio, quando ela foi uma das modelos de mais um desfile
Daspu, a convite dos organizadores do evento, no Rio. Dona de
uma loja virtual de lingeries, Vanessa propôs uma coleção con-
junta. Quando finalmente aprofundamos as conversas, porém,
tanto ela quanto nós concluímos que seria necessário mais
tempo e, assim, adiamos a parceria.

Já era final de novembro. Numa das boas conversas de bote-


quim, ficou então decidido. Nunca mais iríamos tentar fazer – ou
mesmo fazer – uma coleção em um mês. Bastava o estresse do
ano anterior. “Resolvemos botar toda a força na parceria com a
Fumec”, lembra Gabriela, mirando em junho de 2008. Pois tam-
bém isso acontecera no período recente: os cursos de design
de moda e design gráfico da universidade de Belo Horizonte
haviam proposto apoiar o desenvolvimento da coleção de verão
2009 da grife Daspu.
Na medida do impossível 243
244

vela Cap.20
Sem choro nem vela, com marias e rosas.
Milão, 29 de dezembro de 2007. Num hotel vizinho à Stazione
Centrale, o designer Antonio Cagianelli, 30 e poucos anos, mos-
tra seu portofólio e algumas estampas que está criando para
a Daspu. Descobriu a grife pela imprensa e identificou-se com
a proposta de lutar contra o preconceito pela moda, especial-
mente porque batalhou como michê em Paris para custear os
estudos, quando jovem. Três vestidos desenhados por ele e
produzidos no Brasil serão apresentados numa instalação do
artista durante o 30º Salone Internazionale del Móbile, em abril,
na cidade que compartilha com Paris ao longo do ano.

Os interlocutores de Antonio são Gabriela Leite e Flavio Lenz.


Vínhamos de Veneza, por um gentil convite do produtor italiano
Guido Cerasuolo, que tinha enviado ao Rio em dezembro, pela
segunda vez em menos de um ano, um câmera e a nova diretora
do documentário que produzia sobre a Daspu, Valentina Monti.
Para comemorar os 15 anos de sua empresa, a Mestiere Cinema,
o extrovertido e bem-humorado Guido, quase cinqûenta anos,
cabelos brancos e o andar altivo dos genuínos venezianos,
fechou o pequeno e charmoso Teatro Fondamenta Nuove, à beira
do canal de mesmo nome. A festa foi formidável, com trezentos
convidados, banda de rock, as delícias gastronômicas e etílicas
da Itália, e a doce, vigorosa e dançante presença de meu filho,
Rafael Cesar, comemorando sua estréia na Europa na noite de
mais um aniversário do pai.

246
Sem choro nem vela, com Marias e Rosas 247

Já os passeios do casal nos dias seguintes... ah, Veneza dos


infindáveis caminhos, e sobretudo descaminhos, dos campos,
piazzas e pontes, de vaporetos, canais e monumentos, dos sim-
páticos carrinhos de feira e dos camelôs africanos vendendo
bolsas Gucci piratas diante da própria Gucci, com italianos
garantindo que todas são produzidas na mesma indústria.

De trem, ainda foi possível visitar um amigo em Genebra,


que nos apresentou aos nevados Alpes suíços, e seguir para
Liubliana, onde nos esperava Tadej, com sua calorosa amizade
a compensar 3 graus negativos.

Mas, das cidades visitadas, foi mesmo Milano a urbana por exce-
lência – até as putas são mais visíveis. E, lá, moda é arte como
arte, dá para se emocionar, tal qual Gabi diante de um vestido
Prada na monumental e eclética Galleria Vittorio Emanuele.

E o leitor com isso? Um pré-leitor opina que tem tudo a ver: “É a


Gabriela, da Daspu!” Sorte dela, e minha, que tínhamos nos deci-
dido pular uma temporada, tornando-se facim facim tomar outra
decisão, a de aceitar ou não o convite para o Natal em Veneza.
Meu amigo e irmão Armando Freitas Filho sugere que eu escreva
um conto com este título, abusando-me, quem sou eu, da obra de
Thomas Mann eternizada no cinema. Mesmo que pudesse, vários
outros filmes do período, como o da ceia de 24 na casa do Lido da
matriarca Norma, não cessam de passar e de reter as palavras.

Hora de interromper a viagem e dar um pulo ao epílogo de 14 de


março, em 2008.

Sete jovens – uma professora e seis alunos e ex-alunos da


Fumec – revelam desejos e fantasias com Daspu. Falam, se
interrompem, perguntam, escutam, diante da equipe da grife.
Compreendem o que escreveu Andreia Skackauskas Vaz de
Mello, ao estudar “O caso da organização de prostitutas Davida”,
na dissertação ao Programa de Pós-graduação em Sociologia,
da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal de Minas Gerais.
248 Daspu – a moda sem vergonha

Há um limite muito estreito entre a ONG Davida e o movimento de


prostitutas, ou seja, não se consegue estabelecer a fronteira exata
entre a autonomia e a influência da ONG sobre a Rede Brasileira
de Prostitutas ou o inverso, uma vez que esta ONG se tornou o
foco estratégico de articulação da identidade do movimento, que
não difere da identidade da ONG. Dessa forma, na medida em que
a ONG Davida se torna mais legítima, estável, visível, eficiente,
isto só pode representar benefícios para o movimento, que tam-
bém se torna legítimo, estável, visível e eficiente.

A Daspu, por exemplo, não surge para ser apenas uma novidade
cultural, mas para tentar enfrentar e denunciar o estigma pre-
sente na sociedade, e, ainda, reforçar e expandir o protagonismo
da prostituta, já defendido pelo movimento de prostitutas na luta
contra a Aids.

Há uma interpretação subjetiva do próprio papel desta multipli-


cadora [prostituta] que é transformada em artista, seja cantora,
atriz ou manequim. Assim, a atividade de prevenção vai além da
luta contra a epidemia, luta-se também contra o preconceito que
está presente na sociedade e na própria prostituta.

Tão diferente do patrocinador de um programa de TV, que “não


quis associar a marca ao assunto. Brigamos o quanto pudemos,
falamos do trabalho social, mas não teve jeito”, escreve a pro-
dutora. Ou dos cafés e restaurantes que recusam fazer “Um
Puta Natal com Leila Maria”, a cantora cult e generosa: “Tentei
várias casas para fazermos nosso projeto de Natal... e... todas...
todas... NEGARAM... adoraram a idéia, mas não querem linkar o
nome à pessoa...”, relata outro produtor. Ou, ainda, a reportagem
sobre a nova Praça Tiradentes que não é capaz de enxergar a
contribuição vital de putas – personagens históricas do lugar –
e dasputinhas para o revigoramento do entorno.

No ambiente fashion, pode rolar “inveja pura, olho gordo pelas


pessoas não ligadas em moda terem dado atenção e gostado do
conceito”, segundo avaliação de uma profissional do setor – e,
acrescente-se, mesmo a admiração do público de moda assusta
o sistema e seus próceres.
Sem choro nem vela, com Marias e Rosas 249

Já na sociedade civil, por vezes, há dificuldades de compre-


ender o alcance de uma iniciativa de geração de recursos, em
contraposição ao novo ícone social da “geração de trabalho
e renda”, ou admitir um ativismo político que se intromete na
cultura ou em estruturas de mercado apenas e supostamente
elitizadas e excludentes.

Papo brabo. Mas tem o outro lado (e mesmo o de cima já apre-


senta sintomas ambíguos, como em “...adoraram..., mas não
querem...”). Muitos e muitos captam a idéia Daspu e a mídia
compartilha e retrata esse movimento. Cada vez mais, jovens se
acercam dos produtos e das tramas urbanas, culturais e fashion
dessa coisa de puta, que já completou 29 apresentações públi-
cas, fora programas de TV, em menos de três anos de vida.

E assim, neste dia D, não tem choro nem vela. Dançando e


cantando com os mineirinhos no botequim de tantas venturas,
negociando a distribuição da coleção 2009 na Europa, vivendo e
revivendo cada desafio e conquista desses três anos, o que se vê
é um belo horizonte: marias, rosas e gabis sem vergonha vestindo
e vendendo a moda da puta inteira, grandiosa e fundamental.
Linha Davida Daspu

2005 é ameaçada de processo pela Daslu,


caso não desista da marca Daspu
15-07
em 10 dias. A megaloja paulistana
A idéia de criar uma grife de prosti-
é a mais cara do Brasil e seus pro-
tutas ganha um nome: Daspu.
prietários respondem na Justiça por
20-11 sonegação, contrabando e outros
O nome aparece pela primeira vez crimes.
na imprensa, na coluna
01-12
dominical de Elio Gaspari, publicada
Coluna Gente Boa, do Globo, noticia
nos jornais O Globo e Folha de
a ameaça da “Daslu X Daspu”.
S.Paulo.
02-12
21-11 Entra no ar o site www.daspu.com.
A marca aparece pela primeira vez, br, com loja virtual para venda de
no jornal carioca O Dia. roupas.

23-11 03-12
A peça de número 1 da grife, uma O Globo publica que Daspu decidiu
camiseta com a marca, é produzida manter o nome.
em transfer.
04-12
26-11 40 milhões de telespectadores
Chega às bancas edição da assistem a um reportagem sobre
revista semanal Isto É com matéria a Daspu no programa dominical
sobre Daspu. “Fantástico”, da Globo, com entre-
vistas e desfile de prostitutas usan-
28-11
do a camiseta pioneira e peças-
Por meio de notificação extrajudi-
piloto como saias e vestidos.
cial datada de 24-11, a ONG Davida
Linha da vida 251

05-12 2006
Durante o ensaio do Bloco Prazeres
09 a 15-01
Davida, na Praça Tiradentes, das-
Daspu exibe camisetas no Fashion
putinhas fazem performance com
Rio outono/inverno, a convite do
modelitos da grife e são fotografa-
Sebrae-RJ.
das por agências internacionais e
pela Folha de S.Paulo. 13-01
O segundo desfile de rua Daspu,
11-12
com a participação da atriz e ex-
Coluna de Mônica Bergamo, da
modelo Betty Lago, é ovacionado
Folha de S.Paulo, publica página
por mais de 500 espectadores na
inteira sobre Daspu, com fotos de
Praça Tiradentes, Centro do Rio.
modelos profissionais vestindo as
peças-piloto. 14-01
O programa GNT Fashion encerra
13-12
a cobertura do Fashion Rio com
Primeira viagem aérea das modelos
entrevista ao vivo da fundadora da
Daspu, a convite do programa de TV
grife Daspu, Gabriela Leite.
de Adriane Galisteu, gravado em São
Paulo e exibido em 17-12 no SBT. 08-02
Peças da grife começam a ser
14-12
vendidas na multimarcas Parceria
Conselho Nacional dos Direitos
Carioca, do Rio. Logo após, chegam
da Mulher, da Presidência da
a lojistas de São Paulo, Niterói,
Republica, aprova moção de apoio
Salvador e João Pessoa.
à Daspu.
13-02
16-12
Prostitutas dão entrevista e
O projeto Tampep, que atua em 25
mostram modelitos no programa
países europeus na prevenção e
piloto “Jogando Conversa Dentro”, de
promoção de saúde entre prosti-
Scarlet Moon, no Armazém Digital
tutas migrantes, aprova moção de
do Leblon.
apoio à Daspu.
18-02
16-12
Mick Jagger ganha uma camiseta
Primeiro desfile público da Daspu,
Daspu durante estada no Rio para
em rua de prostituição da Praça
o show dos Rolling Stones que
Tiradentes, Centro Histórico do Rio.
reuniu 1,2 milhão de pessoas em
17-12 Copacabana.
Desfile ganha primeira página do
25-02
jornal O Globo.
Sábado de carnaval: modelos pros-
titutas da grife desfilam no bloco
Prazeres Davida.
252 Daspu – a moda sem vergonha

26-02 17-05
Domingo de carnaval: prostitutas da O rapper MV Bill lança na sede da
grife desfilam de seios nus na esco- ONG Davida o livro Falcão – Meninos
la de samba Caprichosos de Pilares, do tráfico e debate com prostitutas
homenageando a colega Maria e convidados a situação social do
Ortiz, que ajudou a evitar a invasão Brasil. Semanas antes, havia feito o
holandesa no Espírito Santo. mesmo na Daslu.

01-03 09-06
com a cobertura jornalística do car- Manhã: lançada a parceira Daspu-
naval, Daspu e Davida contabilizam, ModaFusion, em Santa Teresa, no
apenas em jornais impressos do Rio Rio.
e de São Paulo, mais de 50 notas, Noite: lançamento da coleção
reportagens e entrevistas desde 20 primavera/verão 2006-2007, no
de novembro, ou seja, em 102 dias. Circo Voador, Rio, com cenografia
No dia 31 de março, duas colunas de Gringo Cardia e participação
do jornal O Globo chegam a publicar do cineasta Neville de Almeida na
nota sobre o mesmo evento Davida- passarela.
Daspu (Mulheres Seresteiras).
10-06
03-03 Daspu mostra coleção de primave-
apresentação especial da grife no ra/verão no Fashion Rio, a convite
Cabaret Kalesa, na Praça Mauá, do Sebrae-RJ e em parceira com
região portuária do Rio. ModaFusion.

05-04 16-06
Gabriela Leite dá entrevista e Durante show do grupo Arranco de
prostitutas desfilam Daspu no Varsóvia, todo vestido de Daspu,
“Programa do Jô”, da TV Globo, modelos da grife fazem performan-
gravado em São Paulo e exibido na ce no Teatro do Jockey, no Rio.
madrugada do dia 7.
12-07
10-04 Daspu desfila para participantes de
primeiro desfile público em São 30 países na Consulta Global sobre
Paulo, na rua Augusta e no Clube HIV e Trabalho Sexual, promovida
Vegas, com prostitutas do Rio e da pela ONU, em hotel do Rio.
capital paulista. No dia seguinte,
15-07
gravação de entrevista para o pro-
Prostitutas e simpatizantes do Rio
grama de Otávio Mesquita, na Band.
e de São Paulo desfilam coleção de
04-05 primavera/verão no Clube Glória,
prostitutas cantam na estréia do em São Paulo. A miss Brasil 1996,
Daspu in Concert, no bar Desacato, Anuska, é uma das modelos.
Leblon, Zona Sul chique do Rio.
Linha da vida 253

de noiva durante os dois meses


31-07 do evento. No térreo do prédio do
A candidata a vice-governadora do Ibirapuera, um comerciante vende
Estado do Rio Maristela Kubitschek centenas de camisetas da grife no
faz visita política a prostitutas na período.
Daspu.
11-10
03 > 06-08 Modelos dasputinhas e simpatizan-
Daspu monta estande e desfila no tes desfilam em vagões de trem na
BSBMix, com a participação da Estação Barão de Mauá, Centro do
atriz Marisa Orth na passarela. Na Rio, durante o festival riocenacon-
mesma noite do desfile em Brasília temporanea, levando “passageiros”
(5-8), dasputinhas fazem perfor- ao delírio.
mance na estréia da peça “Curtas”,
05 + 06-11
no Teatro da Gávea, Rio, protagani-
Daspu desfila para 1.700 entu-
zada pela atriz Samantha Schmutz.
siasmados participantes do VI
É a primeira vez que a grife atua em
Congresso Brasileiro de Prevenção
eventos simultâneos.
das DST e Aids, em Belo Horizonte
25 a 27-08 (Teatro Topázio, no Minascentro),
Daspu ganha estande na feira alcançando seu recorde de público.
de moda Achados no Batel, em No dia seguinte, faz performance na
Curitiba. Zona Boêmia de BH, desfilando em
plena Rua Guaicurus, para emoção
01 a 04-09
de clientes e colegas.
Em parceria com ModaFusion, a
grife da ONG Davida apresenta a 21-11
coleção de primavera/verão no Prêt A atriz Camila Pitanga faz a primeira
à Porter Paris. visita ao Davida, onde conversa com
prostitutas para compor a perso-
06-09
nagem Bebel da novela “Paraíso
Chega ao Rio equipe de estudantes
Tropical”, da TV Globo.
francesas da universidade Paris 2
para realizar documentário sobre
a Daspu.
2007
07-10
19-01
Em colaboração com o artista eslo-
A coleção de outono-inverno
veno Tadej Pogacar, que desenvolve
Puta Arte é lançada no Rio, com
o projeto CODE:RED, sobre econo-
desfile sobre passarela montada na
mia informal, Daspu faz desfile na
principal rua de batalha da Praça
27ª Bienal de São Paulo e mostra
Tiradentes. A atriz Elke Maravilha é
suas peças e um vestido-conceito
uma dos 32 modelos, entre homens
254 Daspu – a moda sem vergonha

e mulheres. Daspu apresenta para alunos, pais


27-01 e professores a coleção de inverno
Coleção Puta Arte é lançada em lançada em janeiro. A coordenadora
São Paulo, no Clube Glória. Entre os da grife e da ONG Davida, Gabriela
simpatizantes, desfilam o cantor e Leite, dá palestra.
compositor Supla e a ex-prostituta
22-05
Bruna Surfistinha, que se tornou
Na pré-estréia do filme espanhol
escritora com seu nome oficial,
“Princesas”, um desfile no Espaço
Raquel Pacheco.
de Cinema, no Rio, apresenta um
17 + 18-02 mix das coleções Daspu. Entre as
No Sábado de Carnaval, no Rio, des- desfilantes, a escritora e ex-prosti-
fila o bloco Prazeres Davida, com tuta Vanessa Oliveira.
participação de modelos e simpa-
06-06
tizantes da Daspu. No Domingo, em
Em programa duplo, Davida lança a
Olinda, prostitutas e simpatizantes
coleção de primavera/verão 2007-
formam a ala SuperPU no Bloco
2008, chamada Copa Sacana, e o li-
Enquanto Isso na Sala da Justiça.
vro “As meninas da Daspu”, de Anna
28-02 > 27-03 Marina Barbará, com entrevistas
Em São Francisco (EUA), Daspu e de nove prostitutas. O evento lota
Tadej Pogacar voltam a apresentar uma grande livraria (Saraiva) em um
seu trabalho conjunto, dessa vez no shopping carioca (Rio-Sul).
World Factory, evento que reúne 30
1ªquinzena-06
artistas em torno do tema economia
prostitutas de Davida & Daspu dão
global de livre mercado, no San
assessoria para a peça Putas na
Francisco Art Institute.
Sarjeta, de Biá Napolitani, apresen-
ABRIL tada no Rio.
Pontos de venda começam a ser
20 > 24-06
abastecidos com as peças da cole-
Estudantes da ESPM-SP que desen-
ção Puta Arte.
volvem projeto de graduação sobre
28-04 > 01-05 a Daspu trabalham em estande da
Na feira R-Design, no Circo Voador, grife e fazem pesquisa com os parti-
roupas da Daspu são vendidas em cipantes da 11a edição do Educaids
estande e desfiladas por alunas dos – Encontro Nacional de Educadores
cursos de modelo e manequim da na Prevenção às DST/AIDS e Drogas,
Ação Comunitária do Brasil. no Centro de Convenções Rebouças,
em São Paulo.
17-05
A convite do Centro Federal de
19-07
Educação Tecnológica (Cefet-RJ),
Daspu desfila na 2ª Bienal Favela
Linha da vida 255

Festa, no Circo Voador, mostrando Atlântica durante a Parada Gay.


coleções a lideranças e artistas de
19-10:
60 comunidades do Rio e Baixada
No evento Eroticomia, em Santa
Fluminense.
Teresa, no Rio, a dasputinha Val faz
30-08: performance, distribuindo beijos e
A capital baiana vê, pela primeira preservativos.
vez, um desfile Daspu. A grife atrai
NOVEMBRO
mais de 500 pessoas ao Baobá Café
O Instituto Tecnológico de
Social, loja-conceito freqüentada
Cooperativas Populares (ITCP),
pelos descolados de Salvador e
ligado à Coppe, da Universidade
idealizada pelo Gapa-BA e pela
Federal do Rio de Janeiro, passa a
Associação Salvador Negro Amor.
assessorar a Daspu na montagem
Na passarela do Rio Vermelho,
de uma cooperativa.
simpatizantes, estudantes de
moda, integrantes Associação de 06 > 08-11
Prostitutas da Bahia (Aprosba) e a Daspu desenvolve a camiseta do
transformista Divina Valéria. Entre FIAE 2007 - Festival Internacional de
o empolgado público, artistas como Animação Erótica, expõe produtos a
Jauperi e Virgínia Rodrigues. apresenta desenho animado durante
o evento no Cinema Odeon, Rio.
15-09 > 04-11:
Instalação da Daspu, em parce- 05-12
ria com o artista esloveno Tadej O prêmio anual Trend, organizado
Pogacar, volta a ser apresentada em pelo jornalista de moda Jozica
uma bienal, desta vez na 10ª Bienal Brodaric e
de Istambul, na Turquia. destinado a grandes realizações em
cultura visual e design, é conferido
13-10:
ao projeto CODE:RED Brasil, Daspu,
Nos jardins do Museu da República,
na capital da Eslovênia, Liubliana.
o antigo Palácio presidencial do
Catete, ativistas gays desfilam 06-12
modelitos Daspu, num evento Estudantes apresentam na ESPM-
histórico encerrado pelos mais SP projeto de graduação sobre a
antigos militantes dos homosse- Daspu.
xuais e das prostitutas, Luiz Mott e
Gabriela Leite, ao lado do principal
2008
dirigente da ONG Arco-Íris, Cláudio
Nascimento, promotor da Parada 06 > 30-03
Gay carioca. Treze fotos da reportagem da bra-
sileira Isabela Pacini sobre Daspu,
14-10:
publicadas na revista berlinense
Daspu monta estande na Avenida
256 Daspu – a moda sem vergonha

Hekmag, são selecionadas pelo prostituta Jane Eloy.


Lead Awards 2008 para a Exposição
07-05
Visual Leader 2008, na Casa da
O vestido de noiva Daspu embarca
Fotografia (haus der photographie),
da Áustria para a Alemanha, onde
no Deichtorhallen, em Hamburgo. O
será exposto na mostra Trópicos,
Lead Awards é considerado o Oscar
no Museu Martin-Gropius-Bau, em
de mídia.
Berlim, de 13 de setembro de 2008
13-03 > 18-04: a 12 de janeiro de 2009
A instalação CODE:RED Brasil,
JUNHO
Daspu é apresentada no Kunstraum
Rio, São Paulo, Florianópolis e Belo
Lakeside, na cidade austríaca de
Horizonte têm desfiles agendados
Klagenfurt.
da coleção Daspu de primavera/
14-03 verão 2009.
Equipes de Daspu e dos cursos de
A QUALQUER MOMENTO
design de moda e design gráfico
Davida assina contrato para distri-
da universidade Fumec, de Belo
buir na Europa, em 2009, a coleção
Horizonte, reúnem-se no Rio para
de primavera-verão.
iniciar o desenvolvimento da cole-
ção de verão 2009 da grife.

11 > 13 | 18 > 20-04


Daspu participa com estande da
Erotika Fair (Feira Erótica) 2008,
em São Paulo.

16 > 21-04:
No 30º Salone Internazionale
del Móbile, em Milão, o designer
Antonio Cagianelli expõe três mo-
delos de vestidos que desenvolveu
para a Daspu, produzidos no Brasil.
O salão abriga dois mil expositores e
recebe 270 mil visitantes, sendo mil
brasileiros das áreas de arquitetura,
design e decoração.

25-04:
A fotógrafa Isabela Pacini é a
premiada na categoria Moda do
Sony World Photography Awards,
em Cannes, com foto da modelo-
257
Imagens:
índice e créditos
P.23 O amigo Mauricio Toledo e o designer Sylvio de Oliveira,
com Val, Lena, Gabriela e Rita, em noite festiva na Praça
Tiradentes. Foto: Flavio Lenz.
P.26 Foto: Nathalie Daoust.
P.33 Prostitutas e simpatizantes na Caminhada de Abertura do
Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre.
Foto: Marcos Silva.
P.35 Gabriela Leite (de óculos) entre os integrantes da comitiva
internacional de ativistas recebida pelo secretário-geral da
ONU, Kofi Annan. Foto: ONU – Eskinder Debebe/Divulgação.
P.38e39 Prostitutas no espetáculo Mulheres Seresteiras,
na Praça Tiradentes. Foto: Marcos Silva.
P.55 Juliana, Imperalina, Maria, Val, Gabriela e Jane durante a
gravação para o Fantástico, nos Arcos da Lapa.
Foto: Friederike Strack.
P.59 Imperalina, a única profissional de costura da equipe, segura
a onda dos primeiros modelitos. Fotos: Jon Spaull.
P.61 Val e Jane posam para fotos horas antes do ensaio do bloco
Prazeres Davida, na rua de batalha Imperatriz Leopoldina.
Foto: Marcos Silva.
259

P.62 Foto: Flavio Lenz.


P.63 Nos Arcos da Lapa e no ateliê improvisado, onde Kátia ajuda
Jane na montagem do look. Foto: Jon Spaull.
P.66e67 Maria e Jane no aeroporto Santos Dumont, pouco antes da
primeira viagem de avião, a São Paulo, para gravar no
programa de Adriane Galisteu. Foto: Marcos Silva.
P.75e76 Acervo pessoal Gringo Cardia
P.80 Colega dança de parangolé durante o desfile inaugural Daspu.
Foto: Flavio Lenz.
P.83 Acervo pessoal Gringo Cardia
P.87 Gabriela Leite na sala VIP do Sebrae-RJ, durante o Fashion Rio
do início de 2006.
Fotos: Marcos Silva (alto) e Pedro Victor Brandão.
P.88 Acervo pessoal Gringo Cardia
P.93 O segundo desfile da grife voltou a lotar a pequena rua
de batalha e teve até distribuição de camisinhas, por Val.
Fotos: Renzo Gostoli (alto) e Beto Roma.
P.94 Ainda no camarim, a dasputinha Patricia concentrada e atenta
às orientações para o desfile. Foto: Beto Roma.
P.98 Betty Lago ligada na câmera, pouco antes do desfile que o
GNT exibiu durante a entrevista com Gabriela Leite e Guta
Strasser. Fotos: Flavio Lenz.
P.100-101 No agitado e lotado lounge no Fashion Rio, Gabriela Leite com
Gringo Cardia, com o autor e Leilane Neubarth. A atriz Sheron
Menezes também prestigiou a grife. Fotos: Paulo Jabur.
P.106 Foto: Nathalie Daoust.
P.115 O bloco Prazeres Davida arrastou foliões no seu primeiro
desfile, impulsionado pelo sucesso da Daspu.
Fotos: Marcos Silva (alto) e Januário Garcia.
P.116 Na concentração da Sapucaí, Val e a cantora Sandra de Sá,
que se disse “honrada e orgulhosa de estar desfilando ao lado
das meninas da Daspu”. Foto: Flavio Lenz.
P.120-121 Já na avenida, as destaques da Caprichosos de Pilares
mexeram com o público. Fotos: Renzo Gostoli.
P.124-125 MV Bill com Nilza, amiga e Val na Davida, onde lançou livro
depois de fazer o mesmo na Daslu. Foto: Flavio Lenz.
P.131 Estilista e modelos da grife se apresentam no Programa do Jô,
que entrevistou Gabriela. Foto: Flavio Lenz.
P.136-137 Na Augusta, antes e depois de se apresentar no clube Vegas.
Fotos: Flavio Lenz.
260

P.138-139 Fotos: Flavio Lenz.


P.144 Trezentos pneus ajudaram a compor ambiente de borracharia
criado por Gringo Cardia no Circo Voador, onde a grife lançou
coleção em homenagem aos caminhoneiros.
Foto de baixo: Flavio Lenz.
P.147-149 Acervo pessoal Gringo Cardia
P.155 Fotos: Marcos Silva.
P.160-161 As simpatizantes de primeira hora Fabiane Borges
(com cigarro), Laura Murray e Elaine Bortolanza no Clube
Gloria, onde Turco Louco recebe Gabriela Leite.
Fotos: Roberta Valério e Flavio Lenz.
P.162 A atriz Marisa Orth dá show em Brasília, riscando a passarela
Daspu no BSB Mix. Foto: Kátia Abreu.
P.164-165 No Glória, a comprida dasputinha Gabi, desfilando pela
segunda vez, e a veterana e provocante Val.
Fotos: Roberta Valério.
P.168 Foto: Roberta Valério.
P.176 Rafaela, Kátia e Jane na prova do vestido de noiva, que iniciou
viagem pelo mundo na Bienal de São Paulo. Fotos: Flavio Lenz.
P.182-183 Jane desfila o vestido de noiva em Belo Horizonte, como já
havia feito na Bienal de São Paulo (p. 185). Foto: M. Perez.
P.185 Foto: Juan Guerra.
P.189 Nos vagões de trem, Maria lidera o escracho e a crítica
do glamour. Fotos: Marcos Silva.
P.190 Foto: Marcos Silva.
P.195 Foto: Marcos Silva.
P.204-205 Desfile da coleção Puta Arte voltou a empolgar no Centro e a
“roubar” jornalistas da apresentação de Gisele Bündchen no
Fashion Rio. Fotos: Viola Berlanda.
P.206 Jane e Elke Maravilha na passarela, puxando o final do desfile.
Foto: Friederike Strack.
P.209 A coleção Puta Arte também foi mostrada no Clube Glória,
com participação de Bruna Surfistinha na passarela (alto).
Fotos: Viola Berlanda.
P.217 Perna a ser aplicada em cabideiros de pontos de venda,
conforme estudo de graduandos da ESPM-SP.
P.230 Maria Nilce desfilando peça da coleção Copa Sacana. Foto:
Friederike Strack.
P.231 Prostitutas com Camila Pitanga, a futura colega Bebel, que
foi buscar inspiração e transpiração para a personagem de
novela. Foto: Friederike Strack.
261

P.243 Alunos e professora da Fumec encontram-se com equipe


Daspu para dar início ao desenvolvimento da coleção verão 2009.
Fotos: Bruno Oliveira.
P.247 Fotografia premiada na categoria Moda do Sony World
Photography Awards, em Cannes, 2008. Foto: Isabela Pacini.
P.258 “Sobre o autor” Foto: Marcelo Deodoro da Fonseca
262 Daspu – a moda sem vergonha
sobre
o autor
Trabalhou paralelamente na sociedade civil e na mídia privada
nas décadas de 80 e 90 do século passado. De um lado, nos
dois principais jornais do Rio de antão: O Globo (brevemente)
e Jornal do Brasil (padecendo quase quinhentos pescoções,
as maratonas de sexta-feira nas redações). No terceiro setor,
foi secretário de redação do Iser, onde incorporou a função de
editor do primeiro – e talvez único – jornal de prostitutas, Beijo
da rua, hoje apresentado também em um site ponto com. Em
1992, tornou-se um dos fundadores da ONG Davida, para a qual
o título editorial foi transferido. É autor de uma fotonovela e de
uma peça de teatro sobre sexo mais seguro e direitos humanos
na prostituição, consultor da Rede Brasileira de Prostitutas,
assessor de comunicação da grife Daspu e secretário-executivo
adjunto da ONG Davida, criadora da marca. Atuou também como
correspondente da agência de notícias NPL, publicando artigos
(traduzidos, naturalmente) em jornais diários e semanais de lín-
gua alemã, na Áustria, Suíça, Luxemburgo e Alemanha. Carioca,
aprecia uma boa conversa no botequim, adora caminhar pela
cidade e se aquecer ao sol antes ou depois do verão.
Este livro foi composto em Akkurat.
O papel utilizado para a capa foi o cartão Suprema Alta-Alvura 250g/m2.
Para o miolo foi utilizado o Pólen Bold 90g/m2

A impressão e o acabamento foram feitos pela gráfica


Morada do Livro, em junho de 2008, no Rio de Janeiro.

Todos os recursos foram empenhados para identificar e obter


as autorizações dos fotógrafos e seus retratados. Qualquer falha
nesta obtenção terá ocorrido por total desinformação ou por erro
de identificação do próprio contato. A editora está à disposição
para corrigir e conceder os créditos aos verdadeiros titulares.