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História e Memória

de Vigário Geral
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História e Memória
de Vigário Geral
Maria Paula Araujo e Ecio Salles

Patrocínio Parceria
Copyright © 2008 Maria Paula Araujo e Ecio Salles
COLEÇÃO TRAMAS URBANAS
curadoria
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
consultoria
ECIO SALLES
projeto gráfico
CUBÍCULO
HISTÓRIA E MEMÓRIA DE VIGÁRIO GERAL
produção editorial
ROBSON CÂMARA
revisão
TETÊ OLIVEIRA
revisão tipográfica
ROBSON CÂMARA
fotos
RODRIGO GOROSITO, NICOLA DRACOULIS, ARQUIVO NACIONAL e CPDOC JB.
A editora agracede a ajuda do pessoal do AfroReggae, especialmente
Daniela Roffi, e a simpatia dos moradores de Vigário Geral.

A69h
Araujo, Maria Paula Nascimento
História e memória de Vigário Geral / Maria Paula Araujo e Ecio
Salles. - Rio de Janeiro : Aeroplano, 2008.
. -(Tramas Urbanas; 6)

ISBN 978-85-7820-003-9
1. Vigário Geral (Rio de Janeiro, RJ) - História. 2. Vigário Geral
(Rio de Janeiro, RJ) - Condições sociais. 3. Favelas - Rio de Janeiro
(RJ) - História. I. Salles, Ecio. II. Título. III. Série.

08-1405. CDD: 307.760981531


CDU: 316.334.56(815.31)
09.04.08 09.04.08 006154

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


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www.aeroplanoeditora.com.br
Nas tantas periferias brasileiras – periferia urbana, peri-
feria social – se reforçam cada vez mais movimentos
culturais de todos os tipos. Os mais visíveis talvez sejam
os de alguns segmentos específicos: grupos musicais,
grupos cênicos, grupos dedicados às artes visuais. Mas
de idêntica importância, embora com menos visibilidade,
é a produção intelectual que cuida, além de questões
artísticas, de temas históricos, sociais ou políticos.
A coleção Tramas Urbanas faz, em seus dez volumes,
um consistente e instigante apanhado dessa produção
amplificada. E, ao mesmo tempo, abre janelas, estende
pontes, para um diálogo com artistas e intelectuais que
não são originários de favelas ou regiões periféricas dos
grandes centros urbanos. Seus organizadores se propõem
a divulgar o trabalho de intelectuais dessas comunidades
e que “pela primeira vez na nossa história, interpelam, a
partir de um ponto de vista local, alguns consensos ques-
tionáveis das elites intelectuais”.
A Petrobras, maior empresa brasileira e maior patroci-
nadora das artes e da cultura em nosso país, apóia essa
coleção de livros. Entendemos que é de nossa responsa-
bilidade social contribuir para a inclusão cultural e o for-
talecimento da cidadania que esse debate pode propiciar.
Desde a nossa criação, há pouco mais de meio século,
cumprimos rigorosamente nossa missão primordial, que
é a de contribuir para o desenvolvimento do Brasil. E lutar
para diminuir as distâncias sociais é um esforço impres-
cindível a qualquer país que se pretenda desenvolvido.
A todos os integrantes do AfroReggae, aos moradores de Vigário Geral e
estudiosos do tema que compartilharam conosco suas idéias: Manoel
Ribeiro, Rosilene Alvim, Eugênia Paim, Regina Novaes e Ilana Strozenberg.
Sumário

09 Prefácio
10 Mapa de Vigário Geral
12 Apresentação

16 Cap.01 Pensando a favela no Rio de Janeiro


Um resumo da bibliografia sobre o tema

36 Cap.02 Apresentando Vigário Geral


Uma descrição etnográfica de Vigário Geral e uma
apresentação das diferentes versões sobre sua
origem na década de 1950

74 Cap.03 Histórias, histórias de vida, histórias de Vigário


Uma narrativa sobre a história e a memória de
VigárioGeral nas décadas de 1960 e 1970, a partir do
depoimento e das lembranças de seus moradores

110 Cap.04 Violência, criminalidade e mediação de conflitos


Uma discussão sobre o crescimento da violência,
e as tentativas de solucionar o problema, nas últimas
décadas (1980 e 1990)

136 Cap.05 O Afro Reggae em Vigário Geral


Um resumo da trajetória do grupo em Vigário e dos
projetos que desenvolve desde 1993

158 Cap.06 A Guerra


Um histórico da rivalidade entre Vigário Geral e
Parada de Lucas ao longo das últimas décadas

182 Cap.07 Conclusão

186 Bibliografia geral da pesquisa


191 Crédto de Imagens
195 Sobre os autores
Prefácio

Tendo como fonte de informação privilegiada a memória de seus


habitantes mais antigos, os “Pioneiros”, a história da favela se
constrói num jogo dinâmico entre as narrativas desses persona-
gens e a análise do contexto sócio-econômico e político do Bra-
sil e da cidade do Rio de Janeiro em que estão situados. Nesse
jogo, vão se tornando evidentes as várias e intrincadas relações
que ligam favela e asfalto, a cidade informal e a cidade formal.

Desde as primeiras páginas, quando é levado a um passeio


pelas ruas e praças de Vigário, o leitor se sente ingressando num
universo de vivências individuais e coletivas em que as diversas
dimensões da vida afetiva, política, social e econômica vão se
articulando num quadro complexo, muitas vezes contraditório
mas, sempre, profundamente humano.

Sem cair na armadilha de uma visão romântica nem fugir do


tema da violência, o livro, é, sem dúvida, uma contribuição da
maior importância para a construção de uma cidade em que o
diálogo e a colaboração venham substituir a discriminação e os
confrontos que são o flagelo da vida urbana contemporânea.

Ilana Strozenberg
DUQUE DE CAXIAS

LINHA VERMELHA

MARINHA DO BRASIL

BEIRA

10

14 BEIRA

04

05

03
06 05
06
08 07
02
09
13 01

11
12

PARADA DE LUCAS
Vigário Geral

01 PRAÇA DA MOCIDADE
02 QUADRA POLIESPORTIVA
03 PRAÇA DA MOCIDADE
04 CAIXA D’ÁGUA
05 AFRO REGGAE
06 ONDA AZUL
07 POSTO MÉDICO
08 BAR DO SR.SANDOVAL
09 ASSOCIAÇÃO DOS MORADORES
10 QUADRA VILA NOVA
11 CIEP - MESTRE CARTOLA
12 POSTO DA POLÍCIA MILITAR
13 PASSARELA SOBRE FERROVIA
14 ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE VIGÁRIO GERAL
† IGREJAS
Apresentação

A idéia deste livro surgiu a partir de uma entrevista com José


Junior, coordenador executivo do Grupo Cultural Afro Reggae
(GCAR).1 A entrevista, feita por mim e por um grupo de alunos
bolsistas do Departamento de História da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ), era uma etapa de uma pesquisa que
tinha por objetivo estudar lideranças comunitárias e dirigentes
de projetos artísticos de cunho social. No meio da conversa
Junior propôs: “Por que vocês não fazem uma história de Vigário
Geral?” Topamos na hora e iniciamos, a partir daí, um processo
que culminou na assinatura de um convênio entre o AfroReggae
e a UFRJ para a realização de uma pesquisa que teria como
produto final um livro sobre a história de Vigário Geral, favela
localizada no bairro homônimo na Zona Norte carioca.

Nesta parceria eu, como professora de História Contempo-


rânea da UFRJ, e Ecio Salles, como coordenador cultural do

1 O Grupo Cultural Afro Reggae (GCAR) surgiu em 1993 com o intuito de “oferecer
uma formação cultural e artística para jovens moradores de favelas de modo que
eles tivessem meios de construir suas cidadanias e com isto pudessem escapar
do caminho do narcotráfico e do subemprego, transformando-se também em mul-
tiplicadores para outros jovens”. Inicialmente atuando apenas em Vigário Geral, o
GCAR desenvolve hoje projetos em outras quatro comunidades (Parada de Lucas,
Complexo do Alemão, Cantagalo e Nova Era, em Nova Iguaçu).
AfroReggae, dividimos a coordenação da pesquisa. Cíntia
Aparecida Almeida Ramos e Luiz Felipe Félix da Silva, então
alunos do curso de História, foram contratados como esta-
giários. Os equipamentos para a realização de uma pesquisa
com base principalmente em depoimentos orais (gravadores
digitais, computadores, gravadores de CD, máquinas filmadora
e fotográfica) tinham sido comprados havia pouco tempo com
financiamento da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à
Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) para um amplo
estudo (do qual a história de Vigário Geral faria parte) chamada
“Vidas Cariocas”. Araci Alves Santos, ex-aluna da universidade,
ficou responsável pelas transcrições das entrevistas.

Contamos também com a colaboração do Núcleo de Estudos e


Pesquisa sobre a Infância e Juventude (NEPI), um grupo de pes-
quisa coordenado pelas professoras Rosilene Alvim e Eugênia
Paim que, junto com estudantes de Ciências Sociais da UFRJ,
realizara um trabalho de pesquisa e reflexão sobre o episódio
que ficou conhecido como “a chacina de Vigário Geral”, quando
21 moradores da favela foram assassinados por policiais milita-
res.2 O NEPI nos cedeu parte deste material e partilhou conosco
sua reflexão sobre o dramático evento.

Mas se a UFRJ entrava com alunos, equipamentos, técnica em


pesquisa e suporte analítico, o AfroReggae entrava com o pas-
saporte de livre trânsito dentro da favela, com a confiança dos
moradores, com o conhecimento da região e com tudo que tornava
possível nosso trabalho. Neste sentido, a parceria era completa
e total, e gerou também um outro dado mais do que positivo: a
colaboração e participação de muitos moradores no projeto da
pesquisa – concedendo entrevistas, emprestando fotos antigas,
passeando com nossa equipe pela favela, nos recebendo com
carinho e simpatia. De tal forma que creio que podemos dizer que
muitos desses moradores são co-autores deste livro.

2 O trabalho do NEPI tem o título “Vigário Geral: uma noite tão comprida” e foi
organizado por Rosilene Alvim e Eugênia Paim.
14
Apresentação 15

Nosso principal desafio foi encontrar um tom adequado para o


texto: queríamos que fosse uma narrativa histórica, resultado
de pesquisa com fontes primárias e secundárias, com análise
da bibliografia sobre o tema, com procedimentos metodológi-
cos científicos. Mas queríamos que fosse, também, um livro de
divulgação. Nossa maior ambição é que pudesse ser lido por
moradores de Vigário Geral. Não necessariamente por todos,
mas pelos jovens, pelos estudantes. Este livro é resultado desse
esforço. Um esforço em traduzir, em linguagem não acadêmica,
o resultado de um trabalho feito a partir de técnicas e métodos
de pesquisa histórica. Um esforço que só foi possível por esse
encontro/parceria entre universidade, organização não-gover-
namental e moradores da favela.

A idéia que norteou nossa equipe o tempo todo, foi a pro-


posta de buscar um tipo de conhecimento que fosse além do
acadêmico. Acreditamos que o papel do historiador não é se
encerrar numa torre de marfim, e que a universidade não deve
se isolar da sociedade. Acreditamos que articulações ricas e
produtivas podem e devem se estabelecer entre a linguagem
e o saber acadêmico e as linguagens e saberes da sociedade.
Além disso, não fazemos coro com aqueles que advogam que
a distância seja essencial para a seriedade e a cientificidade
da análise histórica. Não acreditamos neste historiador neutro,
distante, imparcial. Pelo contrário, acreditamos que assumindo
claramente seus posicionamentos o historiador pode até lidar
melhor com eles. Portanto, assumimos que este trabalho é
fruto de um profundo envolvimento nosso não só com a favela
de Vigário Geral e seus moradores, mas principalmente, com a
perspectiva de aprofundar os laços entre a favela e o asfalto
– representadas no caso, por Vigário Geral e pela UFRJ. Assim,
ele se soma a muitos outros que têm a mesma preocupação:
contribuir para a superação da dicotomia ainda existente entre
favela e “cidade formal” e para a construção de uma cidadania
ampla, republicana e inclusiva.
Cap.01
Pensando a favela no Rio de Janeiro

Cap.01
Pensando a favela no Rio de Janeiro
Cap.01
Pensando
Desde que surgiu, na virada do século XIX para o século XX, con-
gregando no Morro da Providência1 (também chamado de Morro
da Favella) soldados sobreviventes das inúmeras campanhas
da Guerra de Canudos, a favela faz parte do cenário e da crônica
do Rio de Janeiro.2 E das pesquisas dos estudiosos que procu-
ram entender a cidade – seus problemas e suas soluções.

Nas últimas décadas, e principalmente nos últimos anos, o tema


favela – e seus múltiplos aspectos - tem sido abordado, discu-
tido e analisado por diferentes pesquisadores e especialistas.
A favela tem sido estudada como questão urbana, como pro-
blema social, como imagem das gigantescas desigualdades de
nosso país e de nossa cidade. Muitas vezes a abordagem asso-
cia os temas criminalidade, tráfico de drogas, violência policial,
alta taxa de mortalidade entre jovens. Outras vezes a favela é
abordada justamente pelo ângulo contrário, pelo que oferece de
solução em termos de moradia, de relações de solidariedade,
de vida comunitária. Ela tem sido estudada, também, como
locus importante de produção artística e cultural. Inúmeros
grupos de música, teatro, dança e expressão corporal têm sido
implantados em comunidades populares e vêm desenvolvendo

1 Morro localizado entre os bairros Santo e Cristo e Gamboa no Centro do Rio de


Janeiro.
2 ZYLBERBERG, Sonia. Morro da Providência: memórias da Favella. Secretaria
Municipal de Cultura, 1992.

18
Pensando a favela no Rio de Janeiro 19

experiências estéticas interessantes e criativas. Jornais locais,


criação coletiva de teatro e dança, recuperação da memória e
da história local são alguns exemplos dessa recente produção
artística, cultural e intelectual nascida e crescida nas favelas.

Muitas vezes a favela é abordada como contraponto ao asfalto,


à “cidade formal”, produzindo uma narrativa que se constrói o
tempo todo em torno desta polaridade, desta oposição, deste
contraste. Outras vezes, pelo contrário, o que se acentua são as
pontes entre uma e outra, as ligações entre estas duas faces da
cidade. Ligações que podem ser culturais, políticas, econômi-
cas ou criminosas. Os fios que unem (ou desunem) a favela e o
asfalto podem ser vistos de forma positiva ou negativa.

As relações políticas possibilitadas pela realidade da favela


têm sido objetos de muitos estudos: nas décadas de 1960 e
1970, essas comunidades foram palco de lutas contra a remo-
ção, de formação de movimentos associativos (as associações
de moradores tiveram importante papel na história política do
Rio de Janeiro) e tornaram-se alvos de políticos dos mais varia-
dos matizes. Sobre tudo isso muito se escreveu.

Nos últimos anos, a ação de diversas organizações não governa-


mentais tem criado um cenário novo e original em muitas favelas
do Rio de Janeiro: trabalhos artísticos e culturais, de cunho social
e comunitário vêm esboçando estratégias de inclusão para inú-
meros jovens moradores. O AfroReggae, em Vigário Geral; o Nós
do Morro, no Vidigal; a Companhia Étnica de Dança, no Andaraí
e o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm), na
favela da Maré, são bons exemplos desse processo. Alguns tra-
balhos renderam produtos de divulgação como livros, revistas,
jornais e páginas na internet. O site Favela tem memória3 é uma
das realizações mais interessantes desse movimento.

A favela, portanto, tem sido objeto de estudo freqüente da


sociologia, da ciência política, da história e da antropologia.

3 http://www.favelatemmemoria.com.br
20 História e memória de Vigário Geral

Personagem da crônica jornalística e da crônica policial, palco


de iniciativas artísticas e culturais. Entre essas diferentes abor-
dagens um ponto em comum se sobressai: a certeza de que
é impossível pensar a cidade do Rio de Janeiro sem pensar a
favela. É impossível entender os problemas de nossa cidade sem
levar em conta a favela, assim como é impossível apontar solu-
ções para esses problemas que não passem também pela favela.
Melhor dizendo pelas inúmeras favelas do Rio de Janeiro.

O conjunto da bibliografia sobre as favelas cariocas espelha


essa convicção.

É impossível traçar uma síntese dessa bibliografia. Mas as


pesquisadoras Licia do Prado Valladares e Lídia Medeiros con-
seguiram levantar praticamente tudo que se escreveu sobre o
tema no último século. O livro Pensando as favelas do Rio de
Janeiro, 1906-2000: uma bibliografia analítica4 é um excelente
guia para quem deseja se aprofundar no assunto.

De uma forma geral, essa bibliografia apresenta algumas temá-


ticas recorrentes, dependendo da abordagem do autor.

Em primeira instância, o tema favela é quase sempre associado


aos temas cidade, metrópole, explosão demográfica e êxodo
rural. Vista por este ângulo a favela está longe de ser fenômeno
exclusivo do Rio de Janeiro ou, mesmo, do Brasil. Existe toda uma
literatura que analisa o surgimento e crescimento das favelas
como expressão do processo de urbanização da América Latina.
Um processo marcado por acentuada explosão demográfica,
pelo êxodo rural e por soluções elitistas e excludentes de amplas
parcelas da população que ficaram fora da cidadania urbana.
O contexto latino-americano é apresentado, por exemplo, por
Anthony e Elizabeth Leeds, em um livro escrito em 1978, que se

4 VALLADARES, Licia do Prado e MEDEIROS, Lidia. Pensando as favelas do Rio de


Janeiro, 1906-2000: uma bibliografia analítica. Rio de Janeiro, Relume Dumará,
FAPERJ: URBANDATA, 2003.
Pensando a favela no Rio de Janeiro 21

tornou um clássico sobre o assunto: A sociologia do Brasil urbano.5


A obra analisa experiências de áreas invadidas em várias cida-
des latino-americanas como Lima, Santiago e Rio de Janeiro e
relaciona o surgimento das favelas à precarização das condições
de vida no campo que teria gerado migrações crescentes para os
grandes centros urbanos.

Uma abordagem mais moderna do tema favela articulado com


a questão da urbanização na América Latina aparece no livro
do historiador argentino José Luis Romero, América Latina:
as cidades e as idéias.6 Romero também aponta o processo de
desenraizamento rural e a contundente marcha para as cidades
que ocorreu em quase todos os países latino-americanos na pri-
meira metade do século XX como responsáveis pela vertiginosa
explosão demográfica e urbana vivida pelo continente. Os dados
são surpreendentes: por volta do ano 1900 apenas umas dez
cidades na América Latina superavam a marca de cem mil habi-
tantes. Mas em 1940 quatro cidades ultrapassavam um milhão
de habitantes: Buenos Aires, México, Rio de Janeiro, São Paulo.
E mais quatro, o meio milhão: Lima, Havana, Montevidéu, San-
tiago. Nas décadas subseqüentes, México e Buenos Aires ultra-
passaram os oito milhões de habitantes; Rio de Janeiro, os seis
milhões e São Paulo, os sete milhões e meio. A explosão demo-
gráfica modificou o perfil das cidades. Além de promover um
intenso processo de massificação, produziu também, na visão
de Romero, uma divisão no interior da urbes: de um lado a cidade
normatizada, de outro a cidade anômica. A “cidade normatizada”
é aquela submetida às normas tradicionais e oficiais do espaço
urbano. A “cidade anômica” é a que cresceu à margem da – e
muitas vezes contra a – cidade oficial. As favelas são uma de
suas maiores expressões. Cresceram intensamente, sobretudo
a partir de 1940, e receberam vários nomes: callampas no Chile,

5 LEEDS, Anthony e LEEDS, Elizabeth. A sociologia do Brasil urbano. Rio de Janeiro,


Jorge Zahar Editor, 1978.
6 ROMERO, José Luis. América Latina: as cidades e as idéias. Rio de Janeiro, Edi-
tora UFRJ, 2004.
22 História e memória de Vigário Geral
Pensando a favela no Rio de Janeiro 23
24 História e memória de Vigário Geral

villas na Argentina, favelas no Brasil, cantegriles no Uruguai, bar-


riadas no Peru, cidades perdidas no México, pueblos piratas na
Colômbia. Apesar de apontar para um binômio e uma oposição
entre metrópole (sociedade normatizada) e favela (sociedade
anômica), Romero enfatiza a integração entre os dois pólos,
salientando que um não pode viver sem o outro: “São dois irmãos
inimigos que se vêem forçados a integrarem-se, como as socie-
dades que os habitam”. Para ele, no entanto, entre o confronto e
a integração há um longo caminho a ser percorrido.

Este ponto do confronto entre a favela e a sociedade normati-


zada aparece também, com muita freqüência, na literatura bra-
sileira. A oposição entre “morro” e “asfalto” é recorrente não só
na bibliografia especializada, mas também no senso comum, na
linguagem coloquial e na crônica jornalística. O título do livro de
Zuenir Ventura Cidade partida7 é uma boa expressão dessa forma
de ver a questão. A obra, que trata especificamente de Vigário
Geral, corrobora a tese de duas cidades opostas: uma regida por
leis, com seu elenco de direitos e deveres; outra à margem da lei,
desassistida pelo Estado, desprovida de serviços básicos. Mas
Zuenir não pretende defender teses sociológicas. Trata-se, na
verdade, de um relato jornalístico que teve por objetivo principal
contar a história de como a favela vivenciou e superou a trágica
experiência da chacina de 1993, quando 21 trabalhadores foram
mortos por policiais. O livro é, antes de tudo, o registro e a valori-
zação da experiência comunitária de Vigário Geral.

Indo em outra direção, Adair Rocha aborda o tema confronto


entre a cidade formal e as favelas para negá-lo. Seu livro Cidade
cerzida: a costura da cidadania no morro Santa Marta8 tem esse
objetivo. A idéia da “cidade cerzida” opõe-se à tese da “cidade
partida”. Adair combate a visão de duas cidades opostas, anta-
gônicas, que mal se conhecem, regidas por códigos completa-

7 VENTURA, Zuenir. Cidade partida. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.
8 ROCHA, Adair. Cidade cerzida: a costura da cidadania no morro Santa Marta. Rio
de Janeiro, Relume Dumará, 2000.
Pensando a favela no Rio de Janeiro 25

mente distintos. Para ele, estas duas realidades, embora dife-


rentes, são expressões da moderna vida urbana e produzem, o
tempo todo, relações de intercâmbio, de troca e de sociabilidade
que atravessam as diferenças. Essas relações são as costuras
da cidade cerzida.

Segundo Adair, a idéia de uma dicotomia intransponível é


extremamente nociva porque justifica a segregação e a discri-
minação dos moradores das favelas – que passam a ser vistas,
essencialmente, como lugares fora-da-lei, marginais, guetos
de violência, que só prejudicam a “cidade oficial”. Adair sugere
que esta visão, que aprisiona o favelado como o “outro”, pode
ser combatida pelas atividades associativas das comunidades,
principalmente aquelas ligadas à cultura, à comunicação, ao
lazer. Estas atividades, para ele, consolidam e valorizam a iden-
tidade dos moradores e, ao mesmo tempo, permitem a criação
de pontes entre o morro e o asfalto. O jornal comunitário Eco,
produzido no morro Santa Marta desde a década de 1970, é o
exemplo que Adair utiliza para expor sua tese.

A noção de oposição entre a favela e a “cidade formal” perpassa


outras obras, geralmente sendo combatida pelos autores que
identificam nessa dualidade o germe da discriminação e do
estranhamento em relação aos moradores das favelas. Marcos
Alvito e Alba Zaluar, em Um século de favela,9 afirmam que a
dualidade serviu para alimentar o estigma da favela como lugar
de desordem, de doenças, de imoralidade e de crime. No livro,
organizado por eles, mostram que esse processo vem de longe,
do final do século XIX, ganhando corpo com os projetos de
modernização do Rio de Janeiro – todos envolvendo estratégias
de “embranquecimento” e “refinamento” da cidade. A reforma
de Pereira Passos,10 no início do século XX, já delineara duas
cidades separadas: uma, “civilizada”, que se mirava em Paris;

9 ALVITO, Marcos e ZALUAR, Alba (orgs.). Um século de favela. Rio de Janeiro, Fun-
dação Getúlio Vargas, 1998.
10 Francisco Pereira Passos, então prefeito do Rio.
26 História e memória de Vigário Geral

outra, povoada de negros e mestiços, ex-escravos e brancos


pobres, afastada do centro e das áreas nobres urbanas. Para
Alba e Alvito, superar esta divisão dicotômica é fundamental
para romper o estigma das “classes perigosas” e tornar possível
a aposta na integração entre esses dois mundos.

A imagem das “classes perigosas” também é utilizada por Cecília


Coimbra em um livro que tem por objetivo a análise das políti-
cas de segurança pública. Operação Rio: o mito das classes peri-
gosas. Um estudo sobre a violência urbana, a mídia impressa e
os discursos de segurança pública11 analisa o convênio firmado
entre o Governo do Estado e as Forças Armadas para garantir a
segurança do Rio de Janeiro, em uma clara violação dos direitos
das populações moradoras das favelas cariocas. Mais uma vez
é feito um paralelo com a cidade do início do século, na qual as
elites, através de argumentos higienistas e criminais, discrimi-
navam a população pobre, confinada nos morros e periferias,
considerados por essas elites locais potencialmente perigosos
e violentos. A “Operação Rio” trazia embutida uma concepção
de segurança pública que criminalizava preliminarmente todo
e qualquer habitante de favela. Tornava-o potencialmente, até
prova em contrário, um assaltante, um malfeitor, um traficante.

Um outro aspecto da abordagem clássica sobre a favela é


aquele que enfoca o problema de ordem urbanística e habita-
cional. Deste ponto de vista, ela é abordada como problema ou
solução para a questão da moradia, especialmente das cama-
das populares. Sua geografia, as questões referentes ao sanea-
mento básico (ou à falta dele), a estética peculiar das favelas, os
“puxadinhos”, as soluções em termos de transporte, a visão da
favela como um bairro popular são os temas dessa abordagem
que privilegia a discussão da sua integração na malha urbana.
Existem dois clássicos trabalhos com esta perspectiva. Um

11 COIMBRA, Cecília. Operação Rio. O mito das classes perigosas: um estudo sobre
a violência urbana, a mídia impressa e os discursos de segurança pública. Rio de
Janeiro, Oficina do Autor, Niterói, Intertexto, 2001.
Pensando a favela no Rio de Janeiro 27

deles é o livro de Lucien Parisse, publicado em 1969, pelo Centro


Nacional de Pesquisas Habitacionais, Favelas do Rio de Janeiro
– evolução – sentido.12 O outro é o de Janice Perlman, O mito
da marginalidade: favelas e política no Rio de Janeiro,13 lançado
em 1977. A antropóloga norte-americana, então professora de
Planejamento Urbano e Regional da Universidade da Califórnia,
residiu dois anos no Brasil para realizar seus estudos sobre as
comunidades cariocas.

O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional


(IPPUR) da UFRJ tem tido um destacado papel na produção
de análises e propostas nesta direção. O livro A crise da mora-
dia nas grandes cidades,14 organizado por Luiz César Queiroz,
professor e pesquisador do instituto, é um bom exemplo desta
abordagem. A favela é vista como expressão de uma crise de
moradia requerendo, neste sentido, soluções urbanísticas e de
planejamento habitacional.

Neste eixo de abordagem (moradia/planejamento habitacional),


o problema das favelas no Rio de Janeiro deu origem a mais
uma dicotomia: remoção x urbanização. que esteve presente,
durante as últimas quatro décadas, na literatura especializada
e, é claro, nos movimentos de resistência dos moradores de
favelas. O livro de Licia Valladares do Prado Passa-se uma casa:
análise do programa de remoção de favelas do Rio de Janeiro15 é
uma boa contribuição a esse debate. A autora analisa as políti-
cas públicas de habitação voltadas para a população favelada e
conclui pelo fracasso das políticas de remoção. O próprio título da
obra demonstra que os programas habitacionais não atingiram o

12 PARISSE, Lucien. Favelas do Rio de Janeiro – evolução – sentido. Rio de Janeiro:


Centro Nacional de Pesquisas Habitacionais, 1969.
13 PERLMAN, Janice E. O mito da marginalidade: favelas e política no Rio de
Janeiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977.
14 QUEIROZ, Luiz César (ver comentário 52). A crise da moradia nas grandes cida-
des: da questão da habitação à reforma urbana. Rio de Janeiro, UFRJ, 1996.
15 VALLADARES, Licia do Prado. Passa-se uma casa: análise do programa de
remoção das favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1978.
28 História e memória de Vigário Geral

objetivo de fixar os antigos moradores de favelas nos conjuntos


habitacionais para os quais eram enviados. A população remo-
vida, depois de algum tempo, “passava sua casa”, com o intuito
de retornar às suas antigas moradias nas favelas.

Nos últimos anos, os estudos sobre a favela têm colocado em


relevo questões como educação, cultura, relações políticas,
universo simbólico e memória.

A educação popular ligada a projetos de desenvolvimento comu-


nitário foi analisada por Victor Valla em Educação e favela: políti-
cas para as favelas do Rio de Janeiro, 1940-1985.16 Publicado em
1986, o livro mostra como que, durante o longo período analisado,
as favelas foram objeto de intervenções externas, vindas princi-
palmente da Igreja Católica e do Governo do Estado. Para Valla,
os inúmeros projetos educacionais implementados nas comuni-
dades ao longo de mais de quarenta anos, tinham por principal
objetivo o controle social e político de seus moradores.

No entanto, os temas educação e cultura têm aparecido de forma


diferente nas análises que são feitas. Eles aparecem, muitas
vezes, entrelaçados com estudos sobre juventude, exclusão
social, violência. A educação, a arte e a cultura aparecem como
respostas políticas e estratégias de inclusão social. O livro Cul-
tivando vida, desarmando violências: experiências em educação,
cultura, lazer, esporte e cidadania com jovens em situações de
pobreza,17 organizado por Mary Castro e editado pela Unesco,
procura fazer uma análise de vários grupos e trabalhos comuni-
tários, ao mesmo tempo em que apresenta uma reflexão sobre
este tipo de iniciativa de forma geral. Projetos artísticos, cul-
turais e comunitários passam a ser vistos não como tentativas
de controle da população das favelas (tal como é sugerido por

16 VALLA, Victor Vincent (org.). Educação e favela: políticas para as favelas do Rio
de Janeiro, 1940-1985. Petrópolis, Vozes/ABRASCO, 1986.
17 CASTRO, Mary Garcia (org). Cultivando vida, desarmando violências: experiên-
cias em educação, cultura, lazer, esporte e cidadania com jovens em situações de
pobreza. Edições Unesco, 2001.
Pensando a favela no Rio de Janeiro 29

Valla), mas sim como legítimas expressões dos anseios, dese-


jos, carências e visões de mundo destas comunidades.

As relações políticas vivenciadas no universo das favelas cons-


tituem um tema importante da sociologia política contemporâ-
nea. Uma das abordagens mais clássicas foi proposta em Voto
e máquina política: patronagem e clientelismo no Rio de Janei-
ro.18 O estudo pioneiro de Eli Diniz procura situar as relações
de tipo clientelistas no dia-a-dia das comunidades, em redes
que ligam as suas formas associativas (como associações de
trabalhadores ou religiosas e escolas de samba) aos parlamen-
tares e representantes do poder público, numa relação de troca
de benefícios por votos. Para a autora, a base dessas relações
teria sido questionada a partir da década de 1970 quando as
associações populares passaram a ter uma atenção maior para
a questão da “autonomia” em relação ao Estado. Mas a vin-
culação entre populismo e clientelismo permaneceria, ainda,
como um forte traço das relações políticas entre o Estado e
as favelas. Apesar da visão crítica sobre o problema, o livro de
Diniz nos mostra que o clientelismo é, de certa maneira, filho da
ampliação da democracia partidária. É o aumento da democra-
cia política que cria um cenário propício para a proliferação de
relações de troca de tipo clientelista.

Seguindo e aprofundando esta idéia básica de Diniz, o cientista


político Paulo D’Ávila, no texto Tanto aqui como alhures: o cliente-
lismo como fenômeno moderno,19 sugere que o clientelismo pode
ser encarado como “um instrumento de ação popular na busca
para auferir benefícios que, de outro modo, dificilmente poderiam
ser alcançados pelos canais formais da política”. O clientelismo
seria, portanto, uma forma específica de comunidades carentes

18 DINIZ, Eli. Voto e máquina política: patronagem e clientelismo no Rio de Janeiro.


Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1992.
19 D’ÁVILA FILHO, Paulo. “Tanto aqui como lá ou alhures: o clientelismo como fenô-
meno moderno”, VII Encontro Luso Afro Brasileiro, IUPERJ (www.iuperj.br/lusofonia/
papers). Disponível no site da IUPERJ.
30 História e memória de Vigário Geral
Pensando a favela no Rio de Janeiro 31

se relacionarem com o poder público, perfeitamente conscien-


tes de quanto valem na disputa de votos característica do jogo
democrático parlamentar.

Um outro tema nobre da literatura sobre favela é memória. Para


muitos historiadores, ultimamente, recuperar a memória popu-
lar, a memória de grupos sociais excluídos dos registros oficiais
da história, tem sido uma preocupação recorrente e uma meta
constante. Voltaremos a este ponto num capítulo mais adiante,
quando explicitaremos a nossa própria abordagem historiográ-
fica. Mas gostaríamos de relacionar aqui alguns livros impor-
tantes que procuram justamente trabalhar essa perspectiva,
valorizando a memória social e comunitária das favelas, os
depoimentos de seus moradores, suas histórias, suas vivên-
cias. O próprio site Favela tem memória, que mencionamos no
início deste capítulo, é um exemplo. Alguns bons livros foram
editados com a preocupação do resgate da memória da favela
ou com o intuito de dar voz aos moradores para que contassem
suas próprias experiências. Entre eles cabe citar A favela fala:
depoimentos ao CPDOC,20 organizado por Dulce Pandolfi e Mário
Gryspan, que registra os depoimentos de vários líderes comu-
nitários. O livro tem um teor mais político. Afinal, são líderes
comunitários que falam. Em um outro viés, existe toda uma
literatura dedicada à memória social das favelas, seu arsenal
de casos – alguns folclóricos, outros tristes ou engraçados –,
seu cabedal de lembranças. Enfim, sua história e sua memória.
É deste viés o livro de Lygia Segalla e Tânia Regina Varal de Lem-
branças: histórias e causos da Rocinha,21 pioneiro sobre o tema
e publicado em 1983.

Fora do eixo acadêmico um outro tipo de literatura sobre a favela


merece destaque: obras por pessoas profundamente envol-

20 PANDOLFI, Dulce e GRYNSPAN, Mário. A favela fala: depoimentos ao CPDOC. Rio


de Janeiro, FGV, 2003.
21 SEGALLA, Lygia e Tânia Regina (orgs.). Varal de lembranças: histórias e causos
da Rocinha. Rio de Janeiro, Tempo e Presença, 1983.
32 História e memória de Vigário Geral

vidas no cotidiano das comunidades que descrevem. Relatam


episódios importantes, descrevem a geografia da favela, trazem
a público personagens e casos marcantes da vida dos morado-
res e, geralmente, estão ligados a projetos culturais e artísticos.
São deste tipo Maré, vida na favela,22 organizada por Dráuzio
Varella, e Da favela para o mundo,23 que conta a história do
Grupo Cultural AfroReggae e de sua relação com Vigário Geral, a
partir da trajetória de vida de José Junior, um dos fundadores e
hoje coordenador executivo da ONG.

Gostaria de encerrar esta pequena síntese da bibliografia sobre


favelas lembrando As cores de Acari.24 Este livro de Marcos
Alvito possui uma especificidade em relação aos temas que
foram abordados aqui. Ele nos apresenta uma abordagem
antropológica da favela de Acari (Zona Norte carioca), de seu
universo simbólico, de seu código moral, procurando dese-
nhar a visão de mundo de seus moradores. Realiza também
uma etnografia detalhada, delimitando fronteiras simbólicas,
mapeando o que chamou de “microáreas” da favela – como
Coroado, Amarelinho, Vila Esperança, Parque Acari, mostrando
que em cada uma delas há uma organicidade e como que uma
identidade de vizinhança específica à área. Enfatizando a
existência destas várias “localidades”, Alvito faz uma crítica à
noção de “comunidade” aplicada à favela. Para ele existiriam
muitas comunidades e não uma só. A idéia de uma comunidade
(homogênea e fechada) correspondente à favela seria artificial.
A palavra é, muitas vezes, usada por moradores e líderes comu-
nitários no trato com as autoridades – sem dúvida para reforçar
suas posições e reivindicações –, mas não espelha a realidade
da multiplicidade interna da favela.

22 VARELLA, Drauzio (org.). Maré, vida na favela. Rio de Janeiro, Casa da Palavra,
2002.
23 JUNIOR, José. Da favela para o mundo. Rio de Janeiro, Aeroplano, 2003.
24 ALVITO, Marcos. As cores de Acari: uma favela carioca. Rio de Janeiro, Fundação
Getúlio Vargas, 2001.
Pensando a favela no Rio de Janeiro 33
34 História e memória de Vigário Geral

Nosso trabalho se inspirou em vários destes livros e, nesse sen-


tido, é devedor de muitos dos autores citados.

Como Lygia Segalla e Dulce Pandolfi, tivemos a preocupação


de resgatar a memória dos moradores de Vigário Geral e assim
recuperar a memória social e afetiva da favela. Tivemos o intuito
de ampliar a voz destes moradores, citando seus depoimentos
e utilizando suas falas como nossa fonte principal para a recu-
peração da história de Vigário.

Entendemos, como Eli Diniz e Paulo D’Ávila, as relações políti-


cas estabelecidas no interior da favela como relações de troca
conscientes, engendradas e vividas por personagens políticos
que buscam, de variadas formas, sua autonomia.

E também procuramos, como Marcos Alvito, o caminho etnográ-


fico, acreditando que ele nos permitiria descrever a favela em
toda a sua heterogeneidade e captar seu universo simbólico.

Mas a principal chave metodológica que utilizamos na pes-


quisa foi acreditar, firmemente, que este conhecimento e esta
narrativa só poderiam ser produtos da inter-relação entre nós
(professora e alunos da UFRJ), a turma do AfroReggae e os
moradores de Vigário Geral.
35
a favela de
Cap.02
Apresentando
a favela de Vigário Geral
Percorrendo as ruas de Vigário1

O Parque Proletário de Vigário Geral2 está localizado no bairro


de mesmo nome no subúrbio do Rio de Janeiro, fazendo fron-
teira com Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense.
A favela está enquadrada na XI Região Administrativa da cidade,
no bairro da Penha, sendo composta, segundo dados da Prefei-
tura de 1998, de 1.430 domicílios e 5.533 habitantes.3

1 Este livro expressa os resultados de uma pesquisa feita em 2005, logo, retrata
uma geografia física e humana daquela época. A realidade da favela muda muito
rapidamente. Alguns dados relativos à localização geográfica podem estar
desatualizados.
2 Os parques proletários nascem de uma política de eliminação de favelas
substituindo-as pela construção de núcleos mínimos de habitações populares,
“proletárias”. Essa política começa a ser desenvolvida na administração do pre-
feito do Distrito Federal em 1940, Henrique Dodsworth em pleno Estado Novo do
período Getúlio Vargas. O primeiro parque foi construído na Gávea e manteve as
características de ser uma moradia popular agradável, com escolas, creche, clínica
médica, mercado, áreas de recreação. Muitos outros parques foram criados, mas
sua estrutura foi se modificando e retornado (não foi um retorno, já que o projeto
inicial previa a infra-estrutura, talvez “aproximando”, “igualando”) seu perfil ao
mesmo das favelas que inicialmente vieram substituir. Sobre o tema consultar
Anthony Leeds e Elizabeth Leeds. op.cit.
3 Anuário estatístico da cidade do Rio de Janeiro (1998): habitação – domicílios,
população residente e percentual de crescimento populacional de favelas (setores
censitários – aglomerados subnormais), segundo as áreas de planejamento, Região
Administrativa e favelas. Fonte: IBGE, censo de 1991 e contagem populacional de
1996.

38
Apresentando a favela de Vigário Geral 39

Até meados da década de 1980, o único acesso à favela era


através da vizinha Parada de Lucas. Como resultado de lutas
dos moradores, foi construída uma passarela que ligou o Par-
que Proletário ao bairro de Vigário Geral, o que dispensou seus
moradores da obrigatoriedade de passar por Parada de Lucas.
Hoje também é possível entrar em Vigário através de um via-
duto, construído durante o plano de intervenção do projeto
municipal Favela-Bairro.4

Ao cruzarmos a passarela edificada sobre a linha férrea da


Leopoldina, percebemos que toda essa região da favela é cir-
cundada pelo muro da ferrovia. As casas ali localizadas pos-
suem uma arquitetura diferenciada das outras, caracterizadas,
principalmente, pela existência de terreno ao seu redor, distan-
ciando assim uma habitação da outra.

A descida nos leva a uma praça – Praça da Mocidade – que se


parece bastante com um pequeno largo. Nessa região há uma
videolocadora; um bar-lanchonete e um bar maior, cujo proprie-
tário é um senhor chamado Sandoval. O bar do seu Sandoval
destaca-se como um ponto de encontro e referência entre os
moradores e também entre os visitantes da favela. Lá se localiza
também um altar com a imagem de Nossa Senhora da Aparecida,
colocada, ao que parece, propositalmente na entrada da comuni-
dade como um símbolo de proteção para os que nela habitam.

Por ser esta a área da favela mais próxima de uma via de circu-
lação de transportes públicos, podemos sempre notar grande
circulação e concentração de pessoas. Encontramos ainda uma
quadra poliesportiva, onde freqüentemente ocorrem jogos de
futebol entre os moradores; uma das creches da localidade,
administrada pela Prefeitura, e a sede da Associação de Mora-
dores de Vigário Geral, que vem sendo utilizada, provisoria-
mente, pelo AfroReggae, até que as obras em sua nova sede
sejam finalizadas.

4 Projeto de urbanização de algumas favelas realizado durante a primeira gestão


de César Maia na Prefeitura do Rio de Janeiro.
40 História e memória de Vigário Geral

Chama a atenção o calçamento das ruas da favela. São todas


de cimento, contendo diversas galerias pluviais que, de acordo
com moradores, impedem que as casas sejam alagadas quando
ocorrem chuvas fortes. No entanto, algumas, como a do senhor
José Emídio, ainda são tomadas pelas águas. Segundo o entre-
vistado, isto ocorre porque na época em que os próprios mora-
dores aterraram parte da favela para construírem suas casas
sobre o mangue, muitos não utilizaram aterro suficiente, o que
acabou deixando algumas construções abaixo do nível da rua.

A atual urbanização da região é decorrente, em parte, da exe-


cução do Favela-Bairro levado a cabo pelo governo municipal
entre 1998 e 1999. O projeto fez interferências positivas no
espaço físico e urbano de Vigário – o que é reconhecido pela
maioria de seus moradores.

No entanto, é importante lembrar que as obras pesadas de


aterramento da área de mangue, a criação das primeiras redes
de esgoto, a instalação das primeiras bicas d’água e o forneci-
mento de luz foram frutos do trabalho dos habitantes da loca-
lidade, entre os anos de 1960 e 1980, realizado coletivamente
através do sistema de mutirão.
Era mutirão, a gente trabalhava de graça o dia todo, às vezes pas-
sava até da hora de comer, não vinha almoçar nem jantar, a minha
patroa brigava comigo, mas não adiantava, a minha cachaça era
aquilo [depoente refere-se ao auxílio que prestava aos outros
moradores na construção de suas casas e nas melhorias reali-
zadas na favela], durante a semana eu trabalhava. Depois eu fui
trabalhar na Coderj, consegui um emprego que só trabalhava seis
horas, eu pegava às seis da manhã e largava meio-dia. Aí meio-dia
eu vinha pra aqui e ajudava a fazer pontes, fazer isso e aquilo, fazer
aquilo outro até escurecer. Aí depois começamos a aterrar. Aqui não
entrava caminhão, até bicicleta aqui dentro não tinha condições de
andar, aqui dentro não. Aí começamos a aterrar a favela. 5

5 Depoimento do senhor José Emídio, concedido em 24 de julho de 2004.


Apresentando a favela de Vigário Geral 41

Seguindo em frente, através de uma das principais ruas da


favela, chamada Antônio Mendes, encontramos pequenos
pontos comerciais. É interessante ressaltar que, apesar da
existência de lojas, entre as quais se destaca a de material
de construção de um de nossos entrevistados – seu Nilson –,
Vigário Geral, diferentemente de sua vizinha Parada de Lucas,
não possui expressivo número de estabelecimentos comerciais.
Esta característica faz com que seus moradores precisem sair
da localidade para fazer suas compras, dirigindo-se para isto a
Duque de Caxias ou a bairros próximos do subúrbio.

Além deste pequeno comércio que reúne desde lojas que con-
sertam eletrodomésticos até padarias, duas instituições impor-
tantes localizam-se na rua Antônio Mendes: as organizações não
governamentais Movimento Organizado de Gestão Comunitária
(MOGEC) e Fundação Onda Azul.6 A Onda Azul trabalha basica-
mente com reciclagem, no entanto, o fato da sua coordenação
ser de fora da favela acaba dificultando a comunicação com
os outros projetos desenvolvidos em Vigário Geral.7 O espaço
ocupado pela Fundação foi anteriormente sede da Casa da Paz,
instituição criada depois da chacina de 1993, justamente para
promover intervenções que pacificassem a comunidade e tiras-
sem dela o estigma da violência. Porém, devido a problemas
administrativos, esta ONG acabou sendo extinta.

A outra instituição é o MOGEC, criada em 1998, funcionando


inicialmente em uma sala improvisada na associação de mora-
dores, contando com a parceria da também ONG Médicos sem
Fronteira, que passou a atuar na comunidade depois da chacina.
O MOGEC é uma instituição, uma ONG e age na área da Saúde,
com parceria da Secretaria de Saúde, que é posto de saúde, que
agora está virando PSF [Programa de Saúde Familiar], que é a
questão da assistência em casa, na sua própria casa. (...) Então

6 No próximo capítulo estaremos discutindo esta forma associativa em detalhes.


7 Informação obtida através da entrevista realizada com a Elaine Araújo de Moraes,
uma das diretoras do MOGEC, em 28 de agosto de 2004.
42 História e memória de Vigário Geral

hoje, ele atua na parte da Saúde, na Educação, a gente trabalha


com reforço escolar com as crianças, desde a primeira série. A
gente tem quatro turnos de manhã e de tarde de primeira à quarta
série, a gente tá tendo um trabalho diferenciado com um grupo
de vinte e cinco crianças de quinta à oitava série, tudo no reforço
escolar. A gente ajuda, na verdade a gente tenta ajudar as crian-
ças nas dificuldades que elas têm na escola.8

Próximo à Onda Azul há ainda o posto de saúde da comunidade,


que atende Vigário Geral e Parada de Lucas. Apesar de ser um
órgão público municipal, o posto é administrado através da ges-
tão comunitária, representada pelo MOGEC.
É gerido por nós [pessoas que trabalham no MOGEC], quem
assina a carteira somos nós, quem vê horário, quem vê tudo,
somos nós. Os técnicos vêm da CAP, que é a Coordenação de Área
Programática, que são divisões por área, a Secretaria Municipal
vem, mas em conjunto com a gente. É como se fosse quase uma
terceirização...9

Os atendimentos ali realizados são limitados, por falta de infra-


estrutura e pessoal especializado os pacientes acabam sendo
encaminhados para hospitais fora da comunidade. Além disso, há
projetos para acabar com o posto, oferecendo atendimento médico
na área basicamente através do Programa de Saúde da Família.
(...) Muita gente está sendo mandada embora por essa questão do
PSF, de virar Programa da Família. Então, na verdade, a gente só
vai ficar mesmo com os agentes comunitários, e, provavelmente,
com os auxiliares de enfermagem, mas isso aí não tá exatamente
fechado, porque está vindo direto da Saúde, as pessoas que fize-
ram concursos públicos. Então são enfermeiras, médicos que vão
estar vindo lá do ministério, está tendo uma mudança radical, por
esse lado.10

8 Idem.
9 Depoimento Elaine Araújo de Moraes.
10 Idem.
Apresentando a favela de Vigário Geral 43
44 História e memória de Vigário Geral
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 45
46 História e memória de Vigário Geral
Apresentando a favela de Vigário Geral 47
48 História e memória de Vigário Geral
Apresentando a favela de Vigário Geral 49

Continuando o percurso, o visitante que vai a Vigário Geral pode


optar por outro itinerário, seguindo o caminho entre as casas e o
muro da Leopoldina. É uma passagem estreita, chamada pelos
moradores de “Beco do Namoro”, por ser um lugar muito fre-
qüentado por adolescentes e jovens que desejam namorar sem
serem incomodados por seus pais. Ao caminharmos por este
beco, notamos de maneira mais clara a diferença entre as casas
ali localizadas e a maioria das outras que compõem a favela.
A verticalização comum às habitações é substituída por resi-
dências, geralmente, com um único pavimento, com quintais e,
às vezes, até varanda e cobertas por telhas francesas, dando um
ar de bairro antigo de subúrbio a esta região de Vigário. A área
da favela que beira a linha férrea é originária de loteamentos
feitos pela administração da estrada de ferro, lotes que foram
distribuídos entre seus funcionários.

Ao fim da rua, encontramos a estação ferroviária de Vigário Geral.


Iniciamos então nossa caminhada por um outro beco, chamado
“Beco Final”, fazendo referência ao que seria o fim da favela.
Nesse lado da favela, encontramos uma grande creche da pre-
feitura, construída durante a execução do Favela-Bairro. Esta
segunda creche chama a atenção por seu tamanho e está locali-
zada em uma praça também construída pelo governo municipal.

A partir dali, até praticamente a outra extremidade da favela,


estende-se uma longa e larga via, conhecida como “Beira”, nome
dado porque a região está às margens do mangue, que hoje se
resume à parte de trás da favela e já ocupou grande parte da área
que hoje chamamos Parque Proletário de Vigário Geral. É impor-
tante também destacar que, ao caminhar pela “Beira”, notamos
que as casas são bem mais pobres que as de outras regiões da
favela, sendo algumas ainda de madeira. Um de nossos guias
disse-nos que os moradores da área – conhecida como Nova Bra-
sília – chamam as regiões mais centrais da favela de “Zona Sul”,
em alusão à Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, justamente
pelas melhores condições das habitações lá existentes.
50 História e memória de Vigário Geral
Apresentando a favela de Vigário Geral 51
52
Apresentando a favela de Vigário Geral 53
54 História e memória de Vigário Geral

O número de moradias próximas ao mangue é menor do que


o que havia antes da intervenção da prefeitura, pois algumas
casas foram realocadas para a construção dessa via e também
para a edificação do viaduto. Este viaduto, já referido, permite
a entrada de carros na favela sem que precisem vir da Avenida
Brasil, caminho através do qual a passagem por Parada de
Lucas é inevitável.

Ao final da “Beira” localiza-se a rua Onze Unidos, cujo nome


faz referência a um importante time de futebol da região,
presente na memória de grande parte dos moradores, prin-
cipalmente dos mais antigos. O time foi extinto na década de
1980, devido a desentendimentos entre seus administradores
e organizadores.11

Encontramos na Onze Unidos uma birosca, conhecida como


“Barraca do Miúdo”, considerada um ponto de encontro dos
moradores, principalmente dos que residem nas áreas mais
internas da favela.

Na rua Vila Nova fica um outro local de diversão comunitária, o


“Centro de Lazer Vila Nova”, segundo denominação da Prefeitura.
O que encontramos, na verdade, não é o que poderíamos chamar
de centro de lazer, mas sim uma quadra de areia, com uma área
para a realização de churrasco e um palco, onde se realizam
shows, dentre os quais se destacam os famosos bailes funk.

Na mesma via encontramos um templo da Igreja Deus é Amor.


Além desta, podemos notar outras igrejas na favela, em sua
grande maioria pentecostais e neopentecostais, com destaque
para duas Assembléias de Deus uma na rua Vila Nova, e outra
na avenida Vieira. Ali há um bar chamado “Boca do Chuveiro”,
batizado assim pois na época das instalações das bicas d’água
na comunidade foram colocados chuveiros para que os mora-
dores pudessem refrescar-se do calor.

11 Informação obtida através da entrevista realizada com o senhor Denair, em 31


de julho de 2004.
Apresentando a favela de Vigário Geral 55
56 História e memória de Vigário Geral

Na rua Santa Rita, encontramos uma imensa caixa d’água que


abastece toda a favela, obra que também é resultado da interven-
ção promovida pelo governo municipal. Uma área não muito dis-
tante, na rua Nossa Senhora Aparecida, popularmente conhecida
como Cruzeiro, é também identificada como “Centro dos Ceará”,
por causa do número expressivo de nordestinos ali residentes.

O estúdio do AfroReggae, utilizado para ensaio de bandas do


grupo, também é um local de destaque em Vigário Geral, ponto de
referência para muitos jovens que participam dos seus projetos.

Um último local importante a destacar no espaço de Vigário


é a região próxima à Parada de Lucas. A fronteira imaginária,
conhecida também como “Faixa de Gaza”,12 é delimitada por
uma escola – o CIEP Mestre Cartola13 - e pelo 16° Batalhão da
Polícia Militar. Ao primeiro contato com a área, logo percebe-
mos que é uma zona de disputa entre os comandos de tráfico
de drogas das duas favelas e a polícia, principalmente pela
grande quantidade de furos nas paredes das casas, causados
por armamentos de diversos calibres utilizados durante os
conflitos. Na região, o AfroReggae promove o ensaio de bandas
do grupo, atitude interessante diante do que o local representa,
significando um ato simbólico de integração entre as duas
comunidades e um esforço pela paz.

As indicações espaciais aqui apresentadas situam minima-


mente os visitantes que forem pela primeira vez a Vigário Geral.
São também os pontos de referência, encontro e vivência de
seus moradores.

Um mapa com a sinalização destes pontos pode dar uma boa


idéia não só da geografia, mas também do cenário social e urbano
de Vigário.

12 O nome é uma referência à área de conflito entre Israel e Palestina.


13 Escola fundada em 1986, durante a administração de Leonel Brizola como
governador do Rio de Janeiro.
Apresentando a favela de Vigário Geral 57

O nascimento de uma nação

É praticamente impossível precisar a data exata do nascimento


da favela de Vigário Geral. Existem diferentes versões sobre o
processo de criação e expansão da favela. No Instituto Pereira
Passos, em um documento intitulado “Relatório específico de
favelas”14 há uma referência ao ano de 1951 e outra ao de 1958.
Este relatório da prefeitura, produzido em 1981, visava mapear,
conhecer e cadastrar as principais favelas cariocas, chamadas
de “assentamentos de baixa renda”. Relaciona dados como loca-
lização, população, número de residências, área, nome e ende-
reço da associação de moradores (quando existia), e assinala o
registro histórico da primeira ocupação, a partir do depoimento
de moradores. Os dois registros ali mencionados, indicam que
Vigário Geral nasceu a partir da remoção de população de outras
favelas em áreas que estavam sendo aterradas pela Prefeitura.

Além deste relatório, não há fontes ou registros oficiais acerca


do surgimento de Vigário. A grande fonte para a história das ori-
gens da favela é, realmente, a memória de seus moradores. Não
é à toa que o próprio relatório recorre a depoimentos de mora-
dores para fazer seu histórico da ocupação. É a eles que temos
que buscar para definir como e quando nasceu Vigário Geral.

As narrativas dos moradores mais antigos e mais representati-


vos de Vigário – um grupo que batizamos de “Pioneiros”15 pela
importância que eles tiveram no desenvolvimento das formas
associativas da comunidade – apontam três caminhos para a
origem da favela. Não são caminhos excludentes, mas repre-
sentam diferentes acessos, diferentes origens de Vigário Geral.
Na verdade, se referem ao processo de ocupação de áreas
da favela, em diferentes momentos. Mas todas as narrativas
situam o nascimento de Vigário na década de 1950.

14 Relatório específico de favelas. SABREN 6.0 (Sistema de Assentamentos de


Baixa Renda). Instituto Pereira Passos.
15 Voltaremos a falar deste grupo de moradores históricos de Vigário Geral no
capítulo III (em “Se organizando para viver melhor”).
58 História e memória de Vigário Geral
Apresentando a favela de Vigário Geral 59

Vejamos, então, um panorama do país e da cidade do Rio de


Janeiro naquela época.

O Brasil e o Rio de Janeiro na década de 1950

Em janeiro de 1951 Getúlio Vargas tomou posse como presidente


da República. Tendo sido eleito por voto popular, iniciou seu
governo tentando desempenhar, nas condições de um regime
democrático, um papel que já vivera: de árbitro das diferentes
forças sociais.

Ao mesmo tempo em que tratava de dinamizar a economia, o


governo Vargas se via diante de um problema com fortes reper-
cussões sociais – o avanço da inflação. Getúlio foi obrigado a
manobrar em um mar de correntes contraditórias. De um lado, não
podia deixar de se preocupar com as reivindicações dos trabalha-
dores, atingidos pela alta do custo de vida; de outro, precisava
tomar medidas impopulares no sentido de controlar a inflação.

Entre as medidas polêmicas, destaca-se a alteração que rea-


lizou em seu ministério em 1953, nomeando como ministro do
Trabalho João Goulart. O historiador Boris Fausto ressalta o
papel simbólico de Goulart no governo Vargas:
[João Goulart] ligara-se aos meios sindicais do PTB [Partido Tra-
balhista Brasileiro] e surgia como uma figura capaz de conter a
crescente influência comunista nos sindicatos. Apesar do papel
que poderia desempenhar, Jango [como era popularmente conhe-
cido] foi transformado em uma figura odiosa pela UDN [União
Democrática Nacional – partido conservador da época].16

Nos círculos militares antigetulistas e em setores das classes


médias, Jango era visto como defensor de uma “República sin-
dicalista”, sofrendo forte oposição por seus posicionamentos
políticos considerados esquerdistas, entre os quais a proposta

16 FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo, Editora EDUSP – FDE, 2000, p. 410.
60 História e memória de Vigário Geral

de aumento de 100% do salário mínimo, que resultou em uma


tempestade de protestos.

Desde o início de seu governo, Getúlio não esquecera de uma


de suas principais bases de apoio – os trabalhadores urbanos.
No entanto, não conseguiu controlar inteiramente o mundo do
trabalho. A liberalização do movimento sindical e os problemas
decorrentes da alta do custo de vida levaram a uma série de
greves em 1953.17

Em termos internacionais, a eleição do general Eisenhower à Pre-


sidência dos Estados Unidos converteu o anticomunismo em uma
verdadeira cruzada. O presidente norte-americano adotou uma
postura rígida diante dos problemas financeiros dos países em
desenvolvimento. A partir de então, a possibilidade de o Brasil obter
créditos públicos para as obras de infra-estrutura e para cobrir os
déficits do balanço de pagamento encolheu sensivelmente.

No cenário interno, Carlos Lacerda, político da UDN, era o mais


ferrenho opositor de Getúlio Vargas, sendo seus alvos principais
políticas por ele consideradas comunistas ou populistas. A partir
de seu jornal Tribuna da Imprensa, conduziu uma forte campanha
pela renúncia de Vargas, desencadeando uma poderosa oposição
ao presidente, apoiada principalmente por setores militares.

Diante das crescentes pressões, Vargas se suicidou em 24 de


agosto de 1954. Seu suicídio, no entanto, não exprimiu apenas
desespero pessoal, mas teve também um profundo significado
político. Na carta-testamento que deixou ao povo brasileiro,
apontava como responsáveis ao impasse a que chegara os
grupos internacionais aliados a inimigos internos, que, segundo
ele, opunham-se às garantias sociais aos trabalhadores.

Sua morte comoveu as camadas populares e levou-as à revolta


contra aqueles que foram considerados responsáveis. Getúlio
Vargas acabou ficando na memória das classes sociais mais

17 Idem, ib, p. 412.


Apresentando a favela de Vigário Geral 61

humildes como o seu defensor, apesar de ser esta uma imagem


muito simplificadora e unilateral.

Em 1956 assumiu a presidência da República brasileira Jusce-


lino Kubitschek, tendo como seu vice o ex-ministro do Trabalho
de Vargas, João Goulart. Os anos do governo JK podem ser con-
siderados de estabilidade política e otimismo, embalados pelos
altos índices de desenvolvimento econômico. Os “cinqüenta
anos em cinco” da propaganda oficial repercutiram em amplas
camadas da população.18

A política econômica de Juscelino foi definida em um Programa


de Metas. Ele abrangia 31 objetivos, distribuídos em cinco gran-
des grupos: energia, transportes, alimentação, indústrias de
base e educação, além da construção de Brasília que marcaria
a transferência da capital federal, até então localizada no Rio
de Janeiro.

Pode-se dizer que o governo JK foi nacional-desenvolvimentista,


e não nacionalista como o último governo Vargas. Os nacionalis-
tas sustentavam a necessidade de controle pelo Estado da infra-
estrutura e da indústria básica, ficando as outras áreas da ati-
vidade econômica nas mãos da empresa privada nacional. Sem
chegar a recusar em princípio o capital estrangeiro, insistiam na
necessidade de só aceitá-lo com muitas restrições. A expressão
nacional-desenvolvimentismo, em vez de nacionalismo, sintetiza
uma política econômica que tratava de combinar o Estado, a
empresa privada nacional e o capital estrangeiro para promover
o desenvolvimento, com ênfase na industrialização.

Apesar do grande desenvolvimento do período, o governo teve


problemas com as finanças, pois os gastos excessivos leva-
ram a um déficit orçamentário acompanhado de altas taxas
de inflação. Desta forma, os setores mais populares não foram
diretamente beneficiados pelas medidas governamentais.

18 Idem, ib., p. 422.


62 História e memória de Vigário Geral
Apresentando a favela de Vigário Geral 63

Enquanto o Brasil passava por importantes momentos políticos,


a década de 1950 na cidade do Rio de Janeiro ficou na memória
de muitos como “os anos dourados” ou “a época da inocência”.
A precariedade material de muitos já era evidente na cidade, as
favelas já haviam surgido havia aproximadamente cinqüenta
anos, mas ainda não eram sinônimo de violência.

A bandidagem residente nos morros tinha um ar romantizado,


sendo vista muito mais como uma malandragem desocupada
do que como criminosa e violenta.
O Rio estava longe de ser uma cidade realmente perigosa. Tinha
suas zonas de risco, mas poucas e delimitadas. As fronteiras
eram conhecidas. A Praça Mauá (...) era um perigo nas noites
em que desembarcavam os marinheiros americanos. A Zona do
Mangue, residência do baixo meretrício, também não era um lugar
recomendável. Para a Lapa, no velho centro da cidade, acorriam
boêmios, sambistas e malandros. A Central do Brasil já era barra
pesada por ser ponto de venda de maconha para os marginais.
Copacabana, berço da Bossa Nova, continuava, porém, um bairro
tranqüilo, a exemplo de toda a Zona Sul.19

As favelas já eram um problema para a “Cidade Maravilhosa”,


mas principalmente por sua estética que não condizia com os
ares que uma capital federal, que procurava mimetizar o estilo
europeu, deveria ter. Assim, as intervenções realizadas nos anos
1950 pelo poder público nas favelas visavam basicamente à
remoção das mesmas, transferindo-as para regiões da cidade
que ficassem bem distantes dos olhares das elites. Neste perí-
odo de remoções muitas localidades faveladas do Centro da
cidade e da Zona Sul foram extintas e seus habitantes alojados
em espaços provisórios no subúrbio. Como veremos a seguir, esta
foi uma das origens do Parque Proletário de Vigário Geral.

Uma das origens de Vigário Geral mais apontada nos depoimen-


tos dos moradores fala de um processo de remoção de popu-
lação de outras favelas cariocas que estavam sendo aterradas

19 VENTURA, Zuenir, op cit., p. 30-31.


64 História e memória de Vigário Geral

pela Prefeitura. Nas décadas de 1950 e 1960 este era um pro-


cedimento bastante comum: desejando ocupar áreas da cidade
favelizadas – para embelezamento urbanístico ou construção
civil –, o governo municipal retirava os moradores e os alocava
em outra região, onde criava um “Parque Proletário”. Os parques
proletários tinham então um sentido provisório – receberiam
a população removida de outras favelas até que a prefeitura
designasse um local adequado para que morasse. O problema
era que, uma vez removidas temporariamente, essas famílias
eram muitas vezes esquecidas pelas autoridades e a solução
provisória virava uma situação definitiva, permanente. Muitas
favelas nasceram assim. E essa foi, também, uma das origens
de Vigário Geral.

Seu Nilson, morador antigo, hoje um pequeno empresário local,


dono de uma loja de material de construção, lembra da chegada
de sua família em Vigário:
A gente veio para a Cidade Alta, uma favela chamada Morro Azul,
que ficava em Cordovil, que hoje é chamada Cidade Alta. Em
1953, eles [a Prefeitura] removeram o pessoal da Cidade Alta para
Vigário Geral que recebeu o nome de Parque Proletário de Vigário
Geral. Aqui era tudo mangue, da parte interna da linha [do trem]
para cá era tudo mangue. Os primeiros moradores de Vigário Geral
foram os de Cordovil. Depois vieram os do Morro de Santo Antô-
nio, Morro da Glória e algumas invasões, onde parentes e amigos
eram trazidos e colocados aqui também. Mas os três bairros que
foram removidos para cá através da Prefeitura foram: o que é hoje
a Cidade Alta, Aterro da Glória e Morro de Santo Antônio.20

Esta versão da origem da favela está presente também no rela-


tório de favelas do Instituto Pereira Passos, que indica como
primeiros moradores de Vigário “pessoas removidas das fave-
las de Cordovil e Morro de Santo Antônio”. O documento registra
que, segundo os moradores, a Prefeitura promoveu a remoção
transportando e cedendo madeiras para a construção no local.

20 Depoimento do senhor Nilson, concedido em 17 de janeiro de 2004.


Apresentando a favela de Vigário Geral 65
66 História e memória de Vigário Geral
Apresentando a favela de Vigário Geral 67

Especifica ainda que Morro Azul é a atual Cidade Alta, Morro


de Santo Antônio é a avenida Chile e o Morro da Glória é onde
se situa hoje o aterro da Glória. Foi para realizar estas inter-
venções na paisagem urbana carioca que esses morros foram
aterrados e as populações removidas para o Parque Proletário
de Vigário Geral.

Mas a remoção para uma região dominada por mangues e lama-


çais, acabou favorecendo um tipo de comércio ilícito por parte
de funcionários municipais que “vendiam”, de forma irregular,
lotes para a construção de casas. Quase todas as narrativas
falam de um mítico “guarda da prefeitura”, que marcava as
ruas, delimitava os espaços, distribuía os lotes. Enfim, exercia
um poder local e informal, sem ser questionado pelas famílias
e pelos candidatos a moradores. Talvez porque muito distante
da sede política e administrativa real da cidade, essa autori-
dade era aceita, até mesmo de bom grado, pelas pessoas que
estavam se estabelecendo na região – colocava alguma ordem,
instituía algum limite. E, assim, o “guarda” vendia, distribuía e
dispunha do que não era dele.

Como o Parque Proletário de Vigário Geral havia sido criado


como solução de moradia temporária para os moradores de
outras favelas, era proibida a construção de casas de alvenaria.
A prefeitura fornecia madeira para a construção de barracos
provisórios. A idéia era que, mais tarde, com a remoção também
desta população para uma outra região, definitiva, eles fossem
derrubados. Daí a ordem explícita: barracos apenas de madeira
e jamais de alvenaria, porque estes poderiam transformar uma
solução provisória em definitiva. Mas o “guarda da prefeitura”
também tinha poder de interferir nesta ordem geral. Apesar da
proibição oficial, fazia vista grossa à construção de casas de
alvenaria e toda uma área de Vigário foi construída assim.

Seu Nilson lembra bem desta época:


Meu pai tinha amizade com os guardas e resolveu construir bem
afastado porque era proibido construir em alvenaria naquele
68 História e memória de Vigário Geral

tempo. Como meu pai tinha amizade com os guardas, um deles


deixou que construíssemos em alvenaria, mas tinha que ser lá
embaixo, bem longe, para que ninguém visse. Naquele tempo não
tinha muro da Leopoldina, era uma linha aberta. Nós começamos
a construir em 1950, mas tudo era muito difícil, tínhamos que car-
regar tudo com a mão, na cabeça; nós construímos três casas. Em
1953, quando nós mudamos, tinham três casas construídas de
alvenaria. As primeiras casas de alvenaria da favela foram lá, na
beira do rio, no final do que hoje é a rua Uranos, onde é a pista.21

Outros depoimentos se referem à figura do “guarda da prefei-


tura” alguns com simpatia, outros com severas críticas.

O “guarda” era conhecido como “Cabo Meia Sete” (“Cabo 67”).


Na visão de seu Denair, outro antigo morador da cidade, fale-
cido, esse funcionário prestava um serviço à comunidade: mar-
cava os lotes e garantia que cada um tivesse o seu pedacinho
para morar. Seu Denair nos contou, inclusive, que ele próprio
supervisionava o trabalho do “guarda”:
Aqui tinha um guarda, o guarda 67 que tomava conta, então ele só
marcava lugar pras pessoas na minha presença. O pessoal que-
ria um lugar aqui para morar e era ele que tava sempre aqui, ele
ficava com os papéis pra marcar o lugar.22

Para seu Denair, o Cabo 67 ajudava a comunidade. “Não tinha


nada oficial, não tinha nada, era questão de consideração
mesmo, não tinha mais nada.”23

Outros moradores têm uma visão diferente. Seu Lins, importante


líder comunitário, também morador antigo que chegou a Vigário
em 1959, se refere ao “guarda” em termos pouco elogiosos:
Era um guarda da prefeitura, um guarda pilantra, que dominava.
Quando tinha propina ele dava um terreno maior, se não tinha
propina ele dava um terreninho pequeno, ele discriminava as

21 Depoimento do senhor Nilson.


22 Depoimento do senhor Denair.
23 Idem.
Apresentando a favela de Vigário Geral 69

pessoas. Se a mulher era bonita e desse um sorriso para ele, tinha


tudo; não deu um sorriso para ele, não tinha nada.24

Um outro caminho apontado nas falas dos moradores, logo


após a remoção das famílias de Morro Azul, Cordovil e Morro
de Santo Antônio, promovida pela Prefeitura, foi a “invasão”.
Ou seja, após o assentamento das famílias removidas no recém-
criado Parque Proletário de Vigário Geral, muitas outras famílias,
de várias regiões, vieram para o local. Isto porque a existência de
um parque proletário funcionava como um chafariz para pessoas
que não tinham onde morar. Não só porque ali o governo fornecia
madeira para a construção de barracos, mas principalmente pelo
fato de a localidade apresentar alguma infra-estrutura e uma
coletividade humana que, de certa forma, agregava e protegia
os recém-chegados. Não era a mesma coisa que chegar em um
descampado sozinho e construir seu barraco sem nenhum tipo
de apoio ou solidariedade de grupo. O Parque Proletário era uma
comunidade nascente e, exatamente por isso, atraía famílias que
procuravam um local para construir moradia.

Esta “invasão” teve, também, várias origens. De um lado, mora-


dores que haviam sido removidos chamavam amigos e parentes
para a nova comunidade que surgia. De outro, pessoas sem
moradia ficavam sabendo do Parque Proletário de Vigário Geral
e se dirigiam para lá.

Ainda na lembrança de seu Nilson:


Como quase tudo era mangue, o pessoal fazia o quê? Ia invadindo
os campos de futebol. O primeiro campo a ser invadido foi o
campo do Vigarinho, depois foi o Flamenguinho, depois foi o do
Ferroviário, o de Vila Nova e o Verde da Floresta.25

Vale lembrar que a região na qual se criou o Parque Proletário


de Vigário Geral tinha inúmeros campos de futebol. Na verdade,
tinha mangues, lamaçais e campos de futebol. O futebol vai ter,
aliás, grande importância na história da favela, como veremos

24 Depoimento do senhor Lins, concedido em 13 de março de 2004.


25 Depoimento do senhor Nilson.
70 História e memória de Vigário Geral

mais adiante. Os campos eram as partes mais secas da área,


melhores para a construção. Os moradores que chegavam, inva-
diam estes terrenos para construir suas casas. Como vimos, esta
“invasão” constitui a segunda forma de origem de Vigário Geral.
Ela se distingue da origem da “remoção” porque não foi patroci-
nada pela prefeitura. Nas narrativas de nossos entrevistados a
diferença é bem marcada: as famílias que foram “removidas” e
as que chegaram com a “invasão” que se seguiu após a criação
do Parque Proletário. Dois processos diferentes, duas origens
diferentes que povoaram e ocuparam áreas da região que hoje é
a favela de Vigário Geral.

Os moradores que chegaram com a remoção, em sua maioria,


ocuparam a área que hoje é o miolo de Vigário, perto da quadra
esportiva, onde se localiza a sede da associação de moradores.
Os que migraram um pouco depois, espalharam-se pelos anti-
gos campos de futebol.

Para algumas pessoas que estavam na primeira leva, a “inva-


são” causou problemas de superlotação e descaracterizou o
projeto inicial. Seu Nilson lembra deste processo:
De 1954 até 1957 encheu tudo, em três anos veio o Morro de Santo
Antônio, veio o Morro da Glória, veio tudo. E vieram os parentes,
pois eles traziam os parentes. Aí, em 1962 nós demos um basta
nisso, muitas ruas tinham sido invadidas. Têm muitas ruas [em]
que até hoje não entram carros e no início eram avenidas largas,
todas elas com dez, 12 metros de largura.26

Mas todos os moradores – removidos e “invasores” - enfrenta-


ram o problema dos mangues e do lamaçal.

E foi o trabalho da comunidade que realizou o primeiro aterra-


mento da região. Seu Lins nos conta:
No início foi muita luta, isso aqui era brejo, era pântano, era lama-
çal mesmo, isso aqui era horrível para se morar. Eram aquelas
palafitas e embaixo das palafitas aquele brejo de lama, afundava

26 Idem.
Apresentando a favela de Vigário Geral 71

mesmo. Tinha lugares que a gente tinha receio de passar porque


era muito lamaçal mesmo. Mas com a nossa luta, a luta dos mora-
dores que vieram para cá, começamos a trabalhar aterrando,
trabalho nosso, não tivemos ajuda de ninguém na época, foi um
trabalho dos moradores mesmo.27

A terceira versão para a origem de Vigário Geral menciona o


loteamento da área próxima da ferrovia. Os lotes foram distri-
buídos entre os trabalhadores da ferrovia. Mas a distribuição
era informal porque, na verdade, o terreno pertencia à União.
A maioria das pessoas beneficiadas não tem título de pro-
priedade dos lotes. A diferença destes imóveis em relação aos
outros, é que eles foram distribuídos segundo uma padroniza-
ção, têm todos a mesma metragem.

Seu Farides trabalhou na ferrovia durante muitos anos: “Eu


nunca trabalhei em outra coisa, eu sempre trabalhei na Leopol-
dina, 35 anos e seis meses”.28

É ele quem nos conta que o loteamento próximo da ferrovia foi


feito, entre os trabalhadores da rede ferroviária, justamente
para conter a “invasão” e preservar a área da Leopoldina. Com
isso, atingiam-se dois objetivos diferentes: a preservação da
região vizinha à estrada de ferro e o atendimento da demanda
dos ferroviários por moradia.

A entrada em massa dos ferroviários foi benéfica para Vigário


Geral. Eles reestruturaram o parque proletário. Muitos tinham
experiência de vida corporativa e sindical e isso trouxe vantagens
para a comunidade. Seu Nilson lembra que depois das “invasões”,
a chegada dos ferroviários reordenou a vida em Vigário:
Aí depois começou a estruturar quando veio pessoal da Leopol-
dina. Vieram muitos ferroviários para cá. O ferroviário é um homem
mais preparado, então eles começaram a assumir a direção da
comunidade, começaram a trabalhar, a fazer reivindicações, a

27 Depoimento do senhor Lins.


28 Depoimento do senhor Farides, concedido em 19 de junho de 2004.
72 História e memória de Vigário Geral

trazer políticos. O primeiro político que entrou em Vigário Geral foi


Mourão Filho que colocou a água. Depois, já na minha época, veio
Délio dos Santos que forneceu mais de mil manilhas para a rede
de esgotos. Depois dele, veio Aloísio Gama que botou o primeiro
asfalto em Vigário Geral.29

Foi, portanto, com os ferroviários que os moradores de Vigário


aprenderam a negociar com os políticos. Com a negociação con-
seguiram, em várias regiões da favela, água, luz, esgoto, calça-
mento. Alguns estudiosos da política e da sociedade brasileira
apontam essa relação como exemplo típico de troca clientelista.
O que não deixa de ser verdade. Pode-se argumentar, no entanto
(e com o apoio de outros tantos estudiosos), que essas trocas
representam a relação política possível para os setores popu-
lares, nos marcos de uma estrutura política marcadamente eli-
tista que procura alijá-los de toda a forma. Podemos argumen-
tar também que a negociação, longe de ser fruto do atraso de
uma comunidade carente, é fruto da justa percepção que esta
população tem do peso, da importância e do valor de seus votos.
E que, neste sentido, mais do que uma relação clientelista é uma
consciente barganha política entre partes desiguais.30

Vigário Geral se expandiu rapidamente. Na década de 1960


foram desenvolvidas formas associativas importantes como a
Comissão de Luz e a associação de moradores. O clube de fute-
bol Onze Unidos teve um importante papel na sociabilidade, na
cultura e na vida cotidiana dos moradores de Vigário. Nos anos
1970, em plena ditadura militar, a associação de moradores
experimentou uma dimensão mais politizada, inclusive servindo
de abrigo e esconderijo para militantes políticos perseguidos
pela ditadura. Grupos e partidos políticos – como o Partido
Comunista Brasileiro – marcaram presença na associação e na
favela. A partir da década seguinte Vigário viu a mudança de seu
aspecto visual e estético: madeira e taipa foram substituídas
por alvenaria na construção das casas.

29 Depoimento do senhor Nilson.


30 D’ÁVILA FILHO, Paulo, op cit.
Apresentando a favela de Vigário Geral 73

1983 foi um ano importante na vida não apenas de Vigário Geral,


mas de muitas favelas cariocas. Era o primeiro governo de Leo-
nel Brizola no estado do Rio de Janeiro. O novo governo estadual
mudou a relação política com as favelas e, principalmente, a
solução preconizada para resolver seus problemas. A idéia de
urbanização das favelas substituiu a idéia de remoção.

Mas foi também no final da década de 80 que o tráfico de drogas


se instalou em Vigário Geral e começou a impor seu poder na
maior parte das favelas cariocas. A década seguinte foi vivida,
em Vigário, sob o domínio do tráfico, o fogo cruzado entre a polí-
cia e os traficantes, a criminalidade e a violência. Violência não
apenas ligada ao crime, mas perpetrada pela própria polícia
contra trabalhadores e moradores. O ano de 1993 foi um triste
marco deste processo. A “chacina de Vigário Geral” entrou para
a história da cidade do Rio de Janeiro como terrível referência
da violência policial.

Mas esta tragédia encetou também toda uma reação de cida-


dania por parte dos moradores de Vigário. Uma rede de solida-
riedade, a construção da Casa da Paz, a tomada de consciência
política e civil de sua população foram narradas com sensibili-
dade por Zuenir Ventura no livro Cidade partida.

Foi a partir daí que se instalou na favela o trabalho do Grupo


Cultural AfroReggae. Os jovens integrantes de sua banda e das
oficinas de afro samba, afro lata, circo, teatro e dança, entre
muitas, dinamizam a vida cultural da favela e da cidade do Rio
de Janeiro, mostrando que é possível, através da arte, desen-
volver estratégias de inclusão social e exercício de cidadania,
solidariedade e alegria.

Nos capítulos seguintes vamos conhecer um pouco deste


processo.
Cap.03
Histórias,
histórias de vida, histórias de Vigário
Nos últimos anos muitos historiadores passaram a pesquisar
e a escrever a história de uma forma diferente da tradicional.
Abandonando os chamados “grandes personagens” – como reis,
generais, chefes de Estado, líderes políticos – e voltando-se para
personagens comuns, anônimos. Uma “história vista de baixo”
(“history from below”, nas palavras de um de seus fundadores,
o historiador inglês Edward P. Thompson). A história passava a
se preocupar com a vida de pessoas comuns, com os pequenos
acontecimentos do cotidiano.

Para esta nova perspectiva, a utilização de fontes orais reve-


lou-se bastante útil. A prática de coletar depoimentos e entre-
vistas não era usual entre historiadores. Sociólogos, cientistas
políticos e antropólogos eram muito mais afeitos a ela do que
os historiadores, que preferiam recorrer ao registro oficial,
às fontes escritas. O uso de depoimentos orais era visto com
desconfiança, como uma fonte histórica carregada de subjeti-
vidade. Porém, o movimento da História Oral questionou pro-
fundamente este preconceito. A História Oral surgiu em países
como a Inglaterra, a França, a Itália, procurando justamente
recuperar episódios que tinham precário registro histórico –
como as greves de trabalhadores, a experiência do Holocausto,
a resistência contra o nazi-fascismo. Em muitos destes casos,
o depoimento oral era a única forma de recuperar a memória e a
experiência de determinados processos históricos.

76
Histórias, Histórias de Vida, 77
Histórias de Vigário
78 História e Memória de Vigário Geral

Uma outra vertente da História Oral se desenvolveu a partir da


preocupação em resgatar a cultura e a história de sociedades
fundadas na tradição oral. Neste terreno historiadores têm
trabalhado com antropólogos na recuperação da história de
sociedades africanas, na própria África e na diáspora.

Também aqui no Brasil os depoimentos, por vezes, constituem a


única fonte para conhecermos algumas realidades. A história e
a memória de comunidades é um bom exemplo disso. São pou-
quíssimos os registros oficiais da trajetória de uma favela. Pelo
seu próprio caráter de marginalização e informalidade, não há
registros oficiais seguros a respeito de seu nascimento (como
vimos no capítulo anterior). São poucas as informações sobre seu
crescimento, expansão, vida cotidiana. Os registros tornam-se
mais abundantes apenas quando as favelas são objeto de inter-
venção por parte do governo (como no caso do projeto Favela-
Bairro, este sim fartamente documentado) ou quando integra a
crônica policial. A comunidade esteve fortemente presente na
mídia impressa e televisiva em 1993, por ocasião da “chacina
de Vigário Geral”, quando 21 moradores foram assassinados por
integrantes da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Mesmo
este episódio não foi ainda inteiramente esclarecido nem seus
responsáveis apontados e punidos.

Mas a história geral da favela, sua trajetória, seus personagens,


só pode ser recuperada com a ajuda do recurso das fontes orais.

Em nossa pesquisa sobre a história de Vigário Geral fizemos


uso intenso das fontes orais, realizando inúmeras entrevistas e
colhendo depoimentos de moradores, antigos e novos. Utiliza-
mos também os acervos pessoais de fotos e recortes de jornais
dos moradores de Vigário. Além destas fontes, a documentação
da Prefeitura do Rio de Janeiro sobre o projeto Favela-Bairro
implementado em Vigário Geral também foi de grande utilidade.

Mas, sem dúvida nenhuma, para escrever sobre a história e


a memória de Vigário Geral, a principal fonte foi fornecida pelos
moradores de Vigário: suas memórias, seus acervos pessoais
Histórias, Histórias de Vida, 79
Histórias de Vigário

(como o valiosíssimo “baú do seu Naildo”), seus depoimentos,


suas lembranças.

Se organizando para viver melhor

Como muitas comunidades populares, Vigário Geral teve seu


nascimento e expansão marcados por uma vida associativa
forte e dinâmica. Na ausência do poder público são os vizinhos
que se juntam e se organizam para enfrentar e resolver os pro-
blemas da comunidade nascente. As formas associativas não
se voltam apenas para a resolução de problemas, mas também
para o encaminhamento de reivindicações às autoridades e para
a regulamentação e produção do lazer. Organizam mutirões,
cuidam do fornecimento de luz, regulam sobre conflitos entre
vizinhos e promovem as festas e os campeonatos de futebol.

Do início da década de 1950 até hoje, Vigário Geral passou por


diferentes experiências de vida associativa. Este processo
é uma parte importante de sua história. Para falar sobre ele
recorremos a um grupo de antigos moradores – todos chegados
na década de 1950. Batizamos este grupo de “Pioneiros”, por-
que tiveram destacado papel na vida da comunidade, criando e
participando ativamente de várias associações importantes na
trajetória da favela. Muitos deles têm papel de destaque ainda
hoje na vida de Vigário.

Os “Pioneiros”

Seu Lins, seu Nilson, seu Farides, seu José Emídio, seu Denair.
Antigos moradores de Vigário, personagens importantes de sua
história, sobretudo pelo papel decisivo que desempenharam na
vida associativa da comunidade.

Vamos conhecer um pouco destes personagens.


80 História e Memória de Vigário Geral

Seu Nilson. Chegou a Vigário com a remoção da Cidade Alta no


início dos anos 1950. Foi um dos criadores da Associação de
Moradores de Vigário Geral, entre 1961 e 1962, junto com seu
Naildo, seu Lins, seu Farides, seu José Emídio. Foi também um
dos criadores da Comissão de Luz. Hoje é um dos comerciantes
mais respeitados de Vigário. Sua família participa de trabalhos
sociais importantes da comunidade.

Seu Lins. Antigo carpinteiro que perdeu um dedo no serviço e


se transformou em comerciante. Seu Lins chegou em Vigário
em 1959. Como ele lembra, “a comunidade já existia, mas era
muito precária”. Também participou da criação da associação
de moradores, integrando sua diretoria ao longo da década de
1960. Mais tarde, em 1964, foi eleito presidente da associação.
Na época da pesquisa era o presidente, eleito para o mandato
do período 2003/2005, em um movimento que pode representar
a retomada da associação de moradores por seus membros
mais atuantes e combativos.

Seu Farides. Ferroviário que trabalhou a vida toda na antiga


estação da estrada de ferro da Leopoldina, chegou a Vigário
quando houve o loteamento da área próxima à via férrea entre
os trabalhadores ferroviários, em 1953. Também foi integrante
do grupo que criou a associação de moradores (da qual foi
presidente duas vezes) e a Comissão de Luz. Seu Farides levou
para o movimento associativo da favela sua experiência de tra-
balhador sindicalizado.

Seu José Emídio. Eletricista, mudou-se para a comunidade em


1955. Como ele mesmo diz: “Eu me casei e vim morar aqui em Vigá-
rio Geral”.1 Também participou da criação da associação de morado-
res e da Comissão de Luz, integrando a diretoria destas entidades.

Seu Denair. Outro que foi para Vigário logo após o casamento: “Eu
me casei no dia 27 de setembro de 1952 e às cinco horas da manhã
eu estava entrando aqui dentro, com a minha trouxa e a minha

1 Depoimento do senhor José Emídio, concedido em 24 de julho de 2004.


Histórias, Histórias de Vida, 81
Histórias de Vigário

noiva, minhas primas e minhas irmãs. Aqui ainda não era favela.
Era só campo de futebol”.2 A ação de seu Denair na comunidade foi
um pouco diferente da dos outros pioneiros. Ele atuou mais nas
formas de lazer de Vigário, principalmente no futebol. Foi um dos
principais criadores e responsáveis pelo Onze Unidos, que tem
grande importância na crônica cotidiana de Vigário Geral.

O Brasil e o Rio de Janeiro na década de 1960

Do final da década de 1950 até o golpe militar de 64 foram anos


de muita ebulição política. Jânio Quadros havia sido eleito presi-
dente da República em uma esmagadora vitória. E João Goulart,
representante do PTB e principal herdeiro político de Getúlio
Vargas, reeleito vice-presidente. Lembramos que naquela época
o eleitor podia votar no candidato a presidente de um partido
e no candidato a vice-presidente de outro, juntando, às vezes,
candidatos de partidos diferentes e mesmo opostos. Assim, a
dobradinha “Jan-Jan” (Jânio-Jango) havia caído no gosto popular
e vencido as eleições de 1960. Mas esta coligação durou pouco.
No ano seguinte, em agosto, Jânio Quadros renunciou. Apesar
de uma resistência inicial por parte dos militares, a Presidência
da República foi ocupada pelo vice. O governo de Jango, que se
apoiava nos trabalhistas, nos nacionalistas e nos comunistas, foi
um dos fatores de incentivo ao clima de ebulição e radicalização
política dos primeiros anos de 1960. Uma ebulição que atingiu
não apenas o campo político, mas também a cultura, as artes, o
movimento sindical, a vida universitária.

Diferentes movimentos sociais se organizavam e apresenta-


vam suas reivindicações. O sindicalismo marcava presença
através de alguns sindicatos com alto índice de representati-
vidade, como o sindicato dos ferroviários e o dos metalúrgicos.
Os comunistas e os trabalhistas lideravam a luta pelas refor-
mas de base, apoiando a iniciativa do governo João Goulart.

2 Depoimento do senhor Denair.


82 História e Memória de Vigário Geral

A reforma agrária era uma das principais bandeiras deste movi-


mento. No campo, as Ligas Camponesas levantavam a bandeira
de “reforma agrária já! Reforma agrária na lei e na marra”. Mais
moderados, os líderes rurais comunistas exigiam a extensão
da legislação trabalhista urbana para o campo. Encontros
Nacionais Sindicais foram realizados no Rio (agosto de 1960)
e em São Paulo (1962).3 Nas universidades, ganhava força e
expressão o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos
Estudantes – o CPC da UNE. O teatro procurava representar as
grandes questões e os grandes temas do país. O grupo Teatro
de Arena ficou famoso pela peça Arena canta Zumbi. O cinema,
através do movimento Cinema Novo, também procurava refletir
e expressar a realidade brasileira, criando uma estética e uma
linguagem próprias. Os filmes de Glauber Rocha Deus e o Diabo
na Terra do Sol e Terra em transe são os maiores exemplos dessa
postura política e estética.

Assim, a criação de várias associações de moradores de favelas


e bairros populares na década de 1960 refletiu também a ebuli-
ção política e social que vivia o país.

No Rio de Janeiro, estas associações enfrentaram a política de


Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara entre 1961
e 1964. Durante este período as favelas tiveram um grande cres-
cimento e expansão física no Brasil e especialmente no Rio de
Janeiro. Lacerda apontava as favelas como o principal problema
da cidade e propunha como solução a política de remoção. Na
verdade, o termo da época era “reacomodação”. Em seu livro
sobre Carlos Lacerda, o historiador americano e brasilianista
John Foster Dulles analisa o projeto do então governador para
o problema das favelas. A idéia era “construir em várias locali-
dades milhares de casas de baixo custo, com água, luz e esgoto,

3 Ver sobre este tema O sindicalismo brasileiro após 1930, de Marcelo Badaró, da
Coleção Descobrindo o Brasil, Jorge Zahar Editor, 2003.
Histórias, Histórias de Vida, 83
Histórias de Vigário

para a relocação de favelados”.4 Mas o projeto não contava com


o apoio dos moradores de favelas e era criticado também pelo
próprio coordenador dos serviços sociais do governo, o sociólogo
José Arthur Rios, que se indispôs com o governador e perdeu o
cargo justamente pela discordância em relação ao projeto de
remoção das populações residentes nas favelas. A resistência ao
projeto de remoção foi a grande bandeira de luta de muitas das
associações de moradores que surgiram naquela época.

Além de impopular, o projeto de remoção acabava por incentivar


o surgimento de outras favelas, como foi o caso do Parque Pro-
letário de Vigário Geral.

Na época, os partidos políticos também voltaram sua atenção para


os movimentos associativos e reivindicatórios das favelas, reco-
nhecendo o potencial de contestação social das comunidades.

É neste contexto que moradores como os que chamamos de


“Pioneiros” vão se conhecer, se juntar e criar as diversas formas
associativas de Vigário Geral.

A associação de moradores e a Comissão de Luz foram as pri-


meiras e principais formas associativas de Vigário Geral. Através
delas, sob a liderança de Naildo, Farides, Nilson, José Emídio e
Lins, os moradores de Vigário se organizaram para resolver seus
problemas, melhorar as condições de habitação da favela, ater-
rar a área, instalar luz e água encanada, limpar as valas, regular
seus conflitos e estabelecer relações com o Poder Público.

A Associação de Moradores

A Associação de Moradores de Vigário Geral foi fundada em


1962 e seu primeiro presidente foi Naildo Ferreira de Souza, o
seu Naildo.

4 DULLES, John Foster. Carlos Lacerda, a vida de um lutador, Vol 2. Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, 2000, p. 98-99.
84 História e Memória de Vigário Geral

Na verdade, a Associação já existia desde 1954, mas fazia parte


da Federação das Associações de Parada de Lucas. A associa-
ção de Vigário Geral existia formalmente, mas não tinha sede
própria e era subordinada a esta federação. Em 1962 Naildo,
Nilson, Farides e José Emídio construíram uma sede em Vigário
Geral e separaram a associação local da Federação. A partir daí,
a comunidade ganhava uma entidade independente, registrada
e com sede própria. Seu primeiro presidente foi escolhido jus-
tamente por ser um trabalhador ferroviário com experiência
sindical e política. Nascia assim a Associação Amiga do Parque
Proletário de Vigário Geral.

Seu Nilson se lembra bem deste momento:


A sede foi construída em 1962. Ela foi montada por mim, Naildo e
Farides. Eu era comerciante e eles eram ferroviários. A gente uniu
um grupo e construiu a sede de Vigário Geral. Depois fizemos as
eleições e Naildo foi o primeiro presidente eleito da associação.5

A associação começou a ganhar respeito entre os moradores e a


crescer. Organizava mutirões que erguiam barracos, aterravam
áreas, construíam pontes sobre a lama e o matagal. Os mora-
dores se associavam, pagavam uma mensalidade e, com este
dinheiro, a associação comprava tubos, conexões, manilhas,
madeira e coordenava o trabalho coletivo em prol da melhoria
da favela. E, na medida em que trabalhava mais para a comuni-
dade, a associação aumentava o número de seus sócios.

Seu José Emídio conta:


Então esse dinheiro que arrecadava na associação era pra compra
de tubos, conexões, manilhas, porque tinha vala pra todo lado, por
todo lugar que se andava era vala. Aí nós comprávamos tábuas de
seis metros, comprava perna de três pra fazer aquelas palafitas,
as pontes pra não andar na lama; era lama e mato. Então pra não
andar na lama, as crianças, as senhoras, nós fomos construindo
pontes. E fomos desenvolvendo. Fomos mexendo com a favela, a
favela foi aumentando...6

5 Depoimento do senhor Nilson.


6 Depoimento do senhor José Emídio.
Histórias, Histórias de Vida, 85
Histórias de Vigário

Os mutirões eram realizados aos sábados, domingos e feriados.

Até que um dia veio a idéia de aterrar. Porque, como lembra seu
Emídio, em Vigário Geral não entrava carro nem caminhão, até
bicicleta tinha dificuldade de circular dentro da favela.

Ainda segundo seu Emídio, já legalizada, a associação assu-


miu a responsabilidade integral pela melhoria da favela. E, na
medida em que ela encaminhava as obras de melhoramentos,
aumentava o número de associados e, consequentemente sua
capacidade de realizar melhorias na favela. Foi assim com o
caso da água. Não existia rede de água nas ruas. Os morado-
res não tinham água em casa. Tinham que encher seus baldes
nas bicas comunitárias. A associação começou a fazer a obra
de instalação da rede de água para que os moradores a tives-
sem em casa. O morador que quisesse o benefício entrava para
a associação, pagava uma “jóia” (taxa de adesão) e passava a
participar dos mutirões.

É importante destacar nesse processo o papel dos ferroviários.


De uma forma geral, os ferroviários tinham experiência política
e sindical, contato com parlamentares e prática de negociação
política. Alguns deles, como seu Naildo, assumiram a direção
da comunidade, organizaram as reivindicações dos moradores
e levaram para Vigário Geral parlamentares que auxiliaram a
associação a estabelecer melhorias como água encanada e
rede de luz. A experiência dos ferroviários, sua combatividade
e conhecimento dos trâmites das negociações políticas foram
fundamentais para o estabelecimento de relações proveitosas
da comunidade com o Poder Público. E o caso da água encanada
é um dos melhores exemplos. A Associação de Moradores, com a
liderança dos ferroviários, estabelecia relações com parlamen-
tares e políticos e fazia valer as reivindicações da comunidade.
Os políticos, desejosos de aumentarem o número de seus votos,
estabeleciam de forma negociada algumas melhorias na favela.
A água e a luz entraram em Vigário Geral por este caminho.
86
Histórias, Histórias de Vida, 87
Histórias de Vigário
88 História e Memória de Vigário Geral

A Associação de Moradores de Vigário Geral não deve, portanto,


ser vista idilicamente como um local de organização de muti-
rões e espaço coletivo de resolução dos problemas da comu-
nidade. Embora efetivamente ela tenha esta dimensão muito
forte, seu conteúdo político nunca foi ingênuo nem avesso às
contradições políticas que marcam o país. A associação inse-
riu suas práticas políticas nas relações clientelistas que ainda
definem o campo político nacional. A barganha com parlamen-
tares interessados em aumentar seus votos foi moeda corrente
durante as décadas de 1960 e 1970.

Além disso, a própria associação era um local de disputas


políticas, de controvérsias e confrontos de pontos de vista dife-
rentes. O grupo que participou de sua criação e que exercia a
liderança internamente não era de todo homogêneo. Embora se
respeitassem, brigavam e disputavam. Como lembra seu Fari-
des: “Com o Naildo eu brigava ‘pra cachorro’. A gente se dava,
mas na hora de pegar pra valer, a briga era feia”.7

A Associação de Moradores não era apenas a principal forma


associativa dos moradores de Vigário Geral, era também uma
instância de representação de seus interesses junto ao poder
público. E representava a realidade plural, heterogênea e algu-
mas vezes contraditória da favela, com seus diversos pontos de
vista e interesses. Abrigava disputas e conflitos no seu interior,
mediava o contato com as autoridades, barganhava com estas
em nome dos interesses da comunidade. Como diz seu Nilson:
(...) Todo político naquela época vinha através da Associação de
Moradores, era apoiado pelo presidente da Associação; o presi-
dente, com o conselho, era tudo muito organizado. A gente tinha
a diretoria completa com treze pessoas, tinha conselho fiscal,
tinha funcionário de esportes, a associação era muito grande.8

7 Depoimento do senhor Farides.


8 Depoimento do senhor Nilson.
Histórias, Histórias de Vida, 89
Histórias de Vigário

Mas, apesar da representatividade da Associação e da serie-


dade de seu trabalho, seu Nilson também sublinha o fato de
que nenhuma ação política é inteiramente consensual. Existe
sempre o dissenso, as discordâncias, as críticas. Este é, por
excelência, o terreno da política.
Você não consegue agradar o povo de um modo geral, não. Cada um
tem o seu pedacinho. Naildo foi um esteio para esta favela e o pes-
soal falava dele pra caramba. Farides foi outro baluarte e o pessoal
falava dele também. (...) Nem Jesus conseguiu agradar a todos.9

A Comissão de Luz

A Comissão de Luz foi outra das mais importantes formas asso-


ciativas, através da qual moradores de Vigário Geral conquista-
ram melhores condições de vida para a comunidade. A história
da criação da comissão e da extensão da energia elétrica para
toda a favela é contada com detalhes por seu Farides Picanço
de Freitas, um dos principais responsáveis por este processo.

Antes de 1962, a luz, na favela, era foco de corrupção. Havia nove


cabines de luz que revendiam oficiosamente para os morado-
res o uso de energia elétrica. Os donos das cabines vendiam a
energia pelo preço que queriam, pois não era um serviço regula-
mentado. Apenas a rede elétrica dos ferroviários era legalizada.
Aos poucos os ferroviários foram ampliando a rede, do Lote 1 ao
Lote 50.10 Em meados da década de 1960 a Comissão Estadual
de Energia (CEE) decidiu regularizar o fornecimento em Vigá-
rio. A CEE encampou todas as cabines irregulares existentes e
entrou em contato com a Associação de Moradores para iniciar
o processo de extensão de luz para toda a favela. Para escolher
o nome de quem dirigiria o processo foram realizadas eleições e

9 Idem.
10 Lotes eram os terrenos dos ferroviários, ao longo da estrada de ferro, como
vimos no capítulo anterior.
90 História e Memória de Vigário Geral

foi escolhido o ferroviário seu Farides, com o apoio da Associa-


ção, da população de Vigário e da CEE.

Os antigos donos das cabines irregulares foram desapropriados


e seu Farides conduziu o bem-sucedido processo de distribuição
de luz para todos os moradores de Vigário. Como ele mesmo lem-
bra, o processo não foi tranqüilo, teve “muita briga e confusão”.
Os antigos donos das cabines resistiram a perdê-las: “Naquela
época eu tinha muito jogo de cintura e contornei a coisa.”11

A partir de então, a Light entrou oficialmente em Vigário Geral.


Foi construída uma subestação com seis metros de altura, perto
da descida da passarela. Com a subestação, a luz passou a ser
cobrada por medidor (relógio). Cada morador teve que comprar o
seu medidor. Isso também provocou protestos. Alguns moradores
reclamaram da despesa. Mas seu Farides os convenceu de que
isto era melhor do que ficar à mercê de pagamentos informais.

Em seu depoimento, José Emídio também se lembra do traba-


lho da comissão, que funcionou entre 1962 e 1982. E do enorme
esforço de “juntar todas as cabines numa só e fazer uma subes-
tação no pé da escada”, quando todo mundo passou a ter o seu
relógio em casa. Seu Emídio era diretor do conselho fiscal da
comissão e ensinava os moradores a lidarem com o medidor:
(...) a gente sempre ensinava o morador a marcar no relógio. Eles
mesmos faziam a leitura se quisessem e todo dia eles sabiam o
quanto tinham gastado. E quando chegava no final do mês eles já
sabiam quanto seria a conta deles.12

Mas seu Emídio conta também que, muitas vezes, a Associação


de Moradores e a Comissão de Luz entravam em choque, por-
que seus presidentes tinham posições políticas diferentes. Seu
Farides, presidente da comissão de luz, e seu Naildo, presidente
da Associação de Moradores divergiam em muitos pontos. Seu
Farides, trabalhador ferroviário de longa data, era mais ligado
à tradição sindicalista. Naildo era influenciado pelas idéias e

11 Depoimento senhor Farides.


12 Depoimento senhor José Emídio.
Histórias, Histórias de Vida, 91
Histórias de Vigário

posições do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Muitas vezes,


entre estes dois homens, líderes comunitários incontestes, se
instalavam conflitos políticos profundos. Mas, como lembra
o próprio Farides, os conflitos eram resolvidos no interior das
assembléias da associação de moradores. As divergências eram
sempre superadas em nome de um projeto comum: o desenvol-
vimento e a melhoria das condições de vida de Vigário Geral.
É neste sentido o depoimento de Farides:
(...) nós trabalhávamos em conjunto, mesmo eu brigando com o
Naildo, quando era em prol da comunidade, não tinha briga não, nós
ficávamos unidos. Nós saíamos, íamos a reuniões, fomos muitas
vezes ao Palácio do Catete. Eu não gosto de política, mas muitas
vezes eu era obrigado a ir porque era para o bem da comunidade.13

O Onze Unidos

Mas os moradores de Vigário Geral se associaram também para o


exercício do lazer, em especial para a prática do futebol. Os times
tiveram grande importância na vida social da comunidade.

No início da existência da favela, ainda na década de 1950,


quando Vigário Geral tinha, no máximo, uns cinqüenta barracos,
no meio do mangue e do matagal, o que não faltava era campo
de futebol. Os moradores mais antigos se lembram muito bem
do movimento em torno deles nos sábados, domingos e feriados.
E cada um dos campos tinha um time de futebol próprio: da Flo-
resta, Ferroviário, Vila Nova, Flamenguinho, Vigarinho, Cruzada,
Cadete eram alguns dos times da época. E o mais famoso de
todos: o Onze Unidos. Seu Nilson fala sobre essa movimentação
na favela nos finais de semana:
Domingo em Vigário Geral tinha mais gente do que em Copaca-
bana, era muita gente, os times traziam torcida para ver o jogo,
tudo era campo de futebol, era muita gente mesmo.14

13 Depoimento senhor Farides.


14 Depoimento senhor Nilson.
92 História e Memória de Vigário Geral
Histórias, Histórias de Vida, 93
Histórias de Vigário
94 História e Memória de Vigário Geral
Histórias, Histórias de Vida, 95
Histórias de Vigário

Seu Denair foi presidente do Onze Unidos por quase vinte anos
e conta que o time se formou entre 1953 e 1954, mas na época
não tinha camisa nem organização, era um grupo de garotos que
jogava na rua. Ele diz que quando foi convidado a fazer parte do
grupo relutou, pois já era um homem casado: “Antigamente as
pessoas casadas, tinha uma diferença enorme; a gente man-
tinha um respeito”. Mas, justamente pelo fato de ser casado,
Denair resolveu entrar no grupo e promover a organização do
time. O Onze Unidos se transformou em um time organizado
“que não jogava com camisa amarrotada”:
O Onze Unidos era um adversário forte. Nós éramos convidados a
jogar contra outros times da Baixada e não perdíamos para nin-
guém. Nós ficamos sessenta e três jogos sem perder pra ninguém
aqui das redondezas.15

Segundo seu Denair, o time – forte, organizado e famoso – quase


chegou à segunda divisão de futebol do estado. Foi construída
uma sede na rua que, em sua homenagem, passou a se chamar
Onze Unidos . O time foi registrado na administração do estado
como Onze Unidos Social Clube.

Seu Nilson também conta que essa foi a primeira diretoria de


clube esportivo em Vigário Geral e que o Onze Unidos surgiu a
partir de um grupo de pessoas, que se reuniam para comprar
uniforme, bola, e faziam bailes para arrecadar fundos para o
time. Um grupo do qual ele também fazia parte.

O Onze Unidos é lembrado com carinho pelos moradores mais anti-


gos de Vigário e pelos mais jovens que cresceram ouvindo falar no
lendário clube e time de futebol. O imóvel onde funcionou a sede
do clube ainda existe, mas hoje é ocupado por uma padaria.

15 Depoimento do senhor Denair.


96 História e Memória de Vigário Geral

A presença da política

A atividade política sempre esteve presente, e de variadas for-


mas, na vida de Vigário Geral.

A primeira dimensão política que salta aos olhos é a da própria vida


comunitária. Uma forma de política não partidária, mas que põe
em relevo, justamente, o sentimento de pertencer a uma comu-
nidade, o exercício da solidariedade, a construção de lideranças
comunitárias com representatividade baseada no enfrentamento
dos problemas locais. Foi dessa forma que se construiu a lide-
rança de homens como seu Nilson, seu Farides, seu Lins. Lideran-
ças comunitárias que tinham entre si, apesar das divergências,
sólidos laços de amizade, de solidariedade e de cumplicidade.

A fala de seu Nilson é expressiva nesse sentido:


A primeira enchente que eu me lembro foi em 1957, foram quase
dois metros d´água. Mas a pior enchente mesmo foi em 1962.
Foi quando eu passei a ter amizade com o Naildo, porque Naildo
participou comigo de salvar as pessoas, salvar os animais. Muita
gente criava porco, galinha... E Naildo tinha um amigo ali na
ponte, que era o seu Miguel, ele tinha uma canoa grande e a gente
ficava dia e noite salvando gente, salvando bicho, foi aí que eu
comecei a fazer amizade com ele. Eu e Naildo ficamos quarenta
e oito horas sem dormir, salvando gente, salvando bicho. Foi onde
nós começamos nossa amizade de confiança.16

Mas um outro tipo de militância política, mais ideológica,


também se fez presente na história de Vigário Geral. Líderes
comunitários como seu Farides, seu Naildo e seu Lins tiveram
contato com o movimento sindical e com o Partido Comunista
Brasileiro (PCB). Essas influências políticas e ideológicas mar-
caram a atuação destes homens que estavam à frente de dife-
rentes formas associativas da comunidade.

Seu Lins conta que, por ocasião do golpe de 1964, ele e seu Naildo
sofreram pressões e perseguições políticas. Não chegaram a ser
presos, mas foram procurados e interrogados pela polícia. Naildo,

16 Depoimento do senhor Nilson.


Histórias, Histórias de Vida, 97
Histórias de Vigário
98 História e Memória de Vigário Geral

inclusive, teve que se esconder durante um tempo. Seu Lins teve


a casa revistada por policiais que procuravam livros, revistas e
material subversivo. Ele fala com humor do episódio:
Os policiais vieram na minha casa. Eles perguntaram: “Você tem
revista?”. Eu respondi: “Tenho sim”. Eles insistiram: “Que tipo
de revista?”. Eu falei: “Eu tenho uma duas ou três Fatos & Fotos
e Manchete”. Eu estava mentindo, eu tinha duas pilhas de livros,
dois pacotes enormes, tinha livro do Che Guevara, livro do Fidel
Castro, tudo quanto era livro perigoso a gente tinha.17

Para seu Lins, o PCB teve grande importância para os líderes


sindicais e comunitários do Rio de Janeiro durante as déca-
das de 1950 e 1960. Mas ele acredita que esta importância e a
própria influência do partido ficou prejudicada depois da lega-
lização do partido. Segundo ele, esta legalização teria posto a
perder a história e a identidade do PCB.
Entre 1960 e 1966 nós organizávamos o partido. Na minha opi-
nião, o Partido Comunista nunca deveria ter sido legalizado, deve-
ria ter ficado sempre na clandestinidade. (...) Quando o partido foi
legalizado eu disse para um advogado amigo meu: “Acabou, agora
acabou, tudo que nós tínhamos nós perdemos. Toda a nossa iden-
tidade foi perdida”.18

Depois do golpe de 1964, outro partido, bem diferente do PCB,


tentou estreitar contato com as lideranças comunitárias de
Vigário Geral. Durante os anos de 1970 a Aliança Renovadora
Nacional (Arena), partido do governo militar, procurou se apro-
ximar do movimento comunitário e de seus líderes. A esse
respeito seu Lins conta um fato interessante: ele era dono de
uma birosquinha e colocou na parede uma placa com nomes de
deputados da Arena. Isso desviou a atenção dos policiais das
atividades políticas desenvolvidas por ele.
Quando eles viram os nomes dos deputados da Arena me deixa-
ram em paz. Assim eles deixaram de me perseguir e ao Naildo.

17 Depoimento do senhor Lins.


18 Depoimento do senhor Lins.
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Histórias, Histórias de Vida, 101
Histórias de Vigário
102 História e Memória de Vigário Geral

Esta nossa atitude os desorientou. Para nós também era melhor,


ficávamos mais à vontade, a língua da gente ficava mais solta.
Na verdade, a gente estava apoiando a Arena para falar com mais
liberdade dos nossos problemas. A gente estava usando uma capa,
para falar mais solto sobre a nossa política. Então deixaram a gente
em paz, mas antes era uma perseguição muito forte. Só deixaram a
gente em paz quando eu botei aquela imagem da Arena.19

Para entender melhor este depoimento de seu Lins vamos ver


como era a situação política do Brasil depois do golpe de 64 e
ao longo da década de seguinte.

O Brasil durante o regime militar

O golpe militar de 64 veio interromper um período de grande ebu-


lição política no país. A deposição do presidente da República
João Goulart, o Jango, pôs um fim violento à agitação política e
cultural que o Brasil vivia desde meados da década de 1950.

Jango assumira a presidência em 1961, após a renúncia de Jânio


Quadros, enfrentando a oposição de setores das Forças Arma-
das que tentaram, inclusive, impedir sua posse e que impuse-
ram como condição o parlamentarismo. O parlamentarismo era
uma experiência ainda inédita na história do país e sua aplica-
ção, em 1961, significou essencialmente, uma forma de limitar
e controlar os poderes presidenciais. Em 1963, um plebiscito
nacional restabeleceu o presidencialismo e concedeu a Jango
os plenos poderes do cargo.

A radicalização política aumentou. Apoiado pelo PTB, pelos


comunistas e nacionalistas, João Goulart liderava a campanha
pelas reformas de base; entre elas, a mais importante era a
reforma agrária. O marco desta campanha foi o grande comício
realizado no dia 13 de março de 1964, na Central do Brasil, no
Rio de Janeiro, que ficou conhecido como o “Comício da Central”.

19 Depoimento do senhor Lins.


Histórias, Histórias de Vida, 103
Histórias de Vigário

O presidente da República apontava o caminho das reformas como


a única solução para os problemas econômicos e sociais do país:
O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz
social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de
uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do
tempo em que vivemos.20

O comício na Central funcionou como um estopim. Na semana


seguinte, em São Paulo, donas de casa saíram às ruas em uma
“Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Ao longo de
todo o país, marchas deste tipo aconteceram durante o mês de
março. Pouco tempo depois o general Olympio Mourão precipi-
tou os acontecimentos que resultaram no golpe militar. Jango
exilou-se no Uruguai, as esquerdas não ofereceram resistência.
Ninguém parecia ter muita clareza do significado do golpe e das
conseqüências que daí adviriam.
As direitas saudaram nas ruas a vitória imprevista. Uma grandiosa
Marcha da Família com Deus e pela Liberdade, com centenas
de milhares de pessoas, no Rio de Janeiro, comemorou o golpe
militar e festejou a derrocada de Jango, das forças favoráveis às
reformas e do projeto nacional-estatista. Sem ainda saber exa-
tamente o que iria acontecer, o país ingressara na longa noite da
Ditadura Militar.21

O novo governo inaugurou um longo ciclo de regime militar que


perdurou até 1985. Durante 21 anos a conjuntura brasileira
sofreu algumas alterações e passou por diferentes períodos,
com características distintas. Podemos definir três etapas dife-
rentes durante a ditadura militar:

De 1964 a 1968. Apesar do golpe, muito do clima de ebulição


política do início da década perdurou até 1968: manifestações
estudantis, passeatas, um clima de protesto nas artes, sobretudo

20 Discurso de João Goulart na Central do Brasil, 13 de março de 1964. Publicação


da FAPERJ, março de 2002.
21 REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro,
Jorge Zahar Editor, 2000, p. 33.
104 História e Memória de Vigário Geral
Histórias, Histórias de Vida, 105
Histórias de Vigário

no teatro. Mas o regime militar extinguiu os partidos políticos


tradicionais e criou dois novos: Arena, partido da situação, e
Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido da oposição
consentida pelo governo. No final deste período, o movimento
estudantil passou a liderar uma forte oposição ao regime. Em 1968
a “Passeata dos Cem Mil”, no Rio de Janeiro, reunindo estudantes
universitários e secundaristas, escritores, jornalistas, intelectu-
ais, artistas e religiosos, foi o grande marco da oposição.

Em dezembro de 1968 foi promulgado o Ato Institucional nº 5


(AI-5), que fechava o Parlamento por tempo indeterminado e
dava ao governo militar amplos poderes, instituindo assim, ver-
dadeiramente, uma ditadura militar. Para muitos foi “um golpe
dentro do golpe”.

De 1969 a 1974. Este período ficou conhecido como os “Anos


de Chumbo” do regime militar. A ditadura havia silenciado o
movimento sindical, os partidos e movimentos de oposição,
estudantes, intelectuais e artistas. Com o campo de ação
reduzido e vigiado, uma parte da esquerda buscou referência
nos movimentos de guerrilha dos anos 1950 e 1960 (como as
lutas anticoloniais, a guerrilha vietnamita e a revolução cubana)
e optou pela luta armada para enfrentar o regime. Entre 1969
e os primeiros anos da década de 1970, proliferaram inúmeras
tentativas de guerrilha urbana e rural no Brasil. A resposta a
este movimento, por parte do regime militar, foi uma violenta
repressão sobre os grupos e organizações de esquerda.

Durante este período o cenário da luta política, no país, foi


pesado, cor de chumbo.

Mas, por outro lado, no mesmo período o país viveu um grande


crescimento econômico, centrado no desenvolvimento de algu-
mas indústrias, que foi chamado de “milagre econômico”. Um
desenvolvimento impulsionado por um Estado forte e auto-
ritário, com base em grandes indústrias estatais. O êxito do
“milagre econômico” serviu para diluir, durante um tempo, o
descontentamento da população com o regime militar.
106 História e Memória de Vigário Geral

De 1974 a 1985. Foi o período em que se empreendeu a abertura


política do regime e o processo de redemocratização do país.
O ano de 1974 é um bom marco para definir este novo quadro
conjuntural. O então presidente da República, general Ernesto
Geisel, deu início a um processo de abertura política “lenta,
gradual e segura”. O objetivo era promover uma transição lenta
e controlada para um regime mais liberal, mas que, no entanto,
mantivesse excluídos da esfera das decisões do poder setores
mais radicais da oposição e os representantes dos movimen-
tos populares. Na visão de muitos partidos e organizações
de esquerda, clandestinos na época, o objetivo do projeto de
abertura era empreender uma “transição por cima” para uma
“ditadura reformada”. Para responder a este projeto do regime
militar, a maior parte das forças políticas de esquerda elabo-
rou uma estratégia para interferir decisivamente no projeto de
abertura da ditadura: procurar alargar, o mais possível, os seus
limites políticos. A estratégia foi viabilizada pela articulação
de uma ampla frente de luta pelas liberdades democráticas.
Esta plataforma – pelo estado de direito, contra as prisões
arbitrárias, contra a tortura, pela anistia, pelas eleições dire-
tas, por uma assembléia nacional constituinte, contra a Lei de
Segurança Nacional etc. – reuniu não somente partidos e orga-
nizações de esquerda, mas diversos setores da sociedade que,
àquela altura, se posicionavam contra a ditadura militar.

O cenário da política era, então, bastante rico e dinâmico. A


oposição se aproveitava de todo o tipo de brecha para se mani-
festar. Desta forma acabou se utilizando, inclusive, do próprio
MDB – partido criado pela ditadura – que, a partir de 1974, pas-
sou a expressar uma verdadeira oposição ao regime militar e a
obter grandes vitórias eleitorais. O movimento estudantil voltou
a ocupar as ruas das grandes cidades com passeatas e mani-
festações. A oposição também crescia no interior de sindicatos
de profissionais liberais como jornalistas, professores, médicos
e arquitetos. Jornais chamados de “imprensa alternativa”, ven-
didos mano a mano ou em bancas, como Opinião, Movimento e
Histórias, Histórias de Vida, 107
Histórias de Vigário
108 História e Memória de Vigário Geral

Em Tempo, veiculavam posições críticas ao regime. E, em São


Paulo, o operariado voltava a articular greves e a constituir um
movimento sindical independente. No final da década de 1970
os operários do ABC paulista criaram um partido – o Partido dos
Trabalhadores (PT), que nasceu e cresceu no bojo das greves de
1979 e 1980. O novo partido congregava o movimento operário
sindical paulista ascendente, setores da esquerda radical e a
ala progressista da Igreja Católica.

O cenário de luta política acabou gerando duas grandes cam-


panhas nacionais que unificaram a oposição em todo o Brasil:
a luta pela anistia e as Diretas Já. A campanha pela anistia foi
vitoriosa (embora a lei assinada pelo governo não contemplasse
todas as exigências dos grupos de esquerda que participaram
da campanha). Já a luta pelo restabelecimento das eleições
diretas acabou representando uma das grandes frustrações
políticas do povo brasileiro. A perspectiva de eleições diretas
imediatas foi derrotada em detrimento de uma solução nego-
ciada entre o governo e a oposição que passaria a faixa pre-
sidencial para Tancredo Neves (velho político mineiro ligado
à tradição varguista) e José Sarney (político maranhense que
havia feito sua carreira na extinta Arena). Mas nem mesmo esta
solução pôde ser implementada, pois Tancredo morreu antes de
sua posse. De qualquer forma, em 1985, negociação e frustra-
ção davam fim à ditadura militar. O Brasil tinha de novo um pre-
sidente civil e reingressava – com problemas e mazelas, mas de
forma segura – na experiência democrática.

A política amordaçada

É neste contexto de ditadura e repressão a qualquer forma de


oposição política que se pode compreender o depoimento de
seu Lins sobre a propaganda da Arena em sua birosca. Entre o
final dos anos 1960 e quase toda a década seguinte, a atividade
política ficou extremamente difícil e perigosa, sobretudo para
Histórias, Histórias de Vida, 109
Histórias de Vigário

aqueles que representavam os interesses das camadas popu-


lares. Líderes comunitários foram perseguidos e vigiados.

O depoimento de seu Lins é interessante porque nos mostra


como se protegeu usando, como ele mesmo diz, a falsa política
para realizar a verdadeira política dos interesses comunitários.

Assim, ao longo da década de 1970, em plena ditadura militar,


os líderes comunitários de Vigário Geral foram construindo um
movimento em prol da melhoria das condições de vida de sua
comunidade, muitas vezes se relacionando de forma ambígua
com as autoridades representantes do poder público – um poder
do qual os líderes populares se viam excluídos. Algumas vezes
trocando melhorias concretas (como água e pavimentação) por
votos. Outras vezes valendo-se da proteção que um mero cartaz
de propaganda do partido do governo poderia oferecer.

E com isso essas lideranças mostraram como é necessária uma


grande criatividade para resistir em épocas de arbítrio.

A década de 1980 marcou uma grande mudança no exercício da


política nas favelas e bairros populares da cidade e do país. A
democracia, de novo instalada, chamada agora de “Nova Repú-
blica” reconhecia as lideranças e movimentos comunitários
como interlocutores legítimos da esfera pública. Pelo menos
formalmente. Muito ainda teria que se andar para a efetivação
deste processo – que, de resto, não se completou até hoje.

Nesse período o tema dos Direitos Humanos, antes aplicado na


defesa das vítimas da ditadura, voltou-se dramaticamente para
a defesa das populações pobres e faveladas, constantemente
vítimas de violência e abusos policiais.

Uma nova realidade passou a ser vivida nas comunidades popu-


lares cariocas e brasileiras: tráfico, criminalidade e violência
policial. Mas, ao mesmo tempo surgiram corajosas tentativas de
pacificação e mediação de conflitos por parte dos moradores.

É o que veremos no próximo capítulo.


criminali
lidade ,
Cap.04
Violência,
criminalidade e mediação de conflitos.

Cap.04
Violência,
i i lid d di ã d flit
O Brasil da “Nova República”

A expressão “Nova República” foi criada por Ulysses Guimarães,


parlamentar de longa tradição oposicionista, líder do MDB –
partido que, de “oposição consentida” transformara-se em um
partido de oposição real e teve importante papel na luta contra
a ditadura militar e no processo de redemocratização vivido
pelo país no final da década de 1970 e na primeira metade dos
anos 1980.

Como vimos no capítulo anterior, 1985 marcou o fim do ciclo


da ditadura militar brasileira. Este fim foi o resultado dinâmico
de um confronto político: de um lado o projeto de liberalização
idealizado pelo próprio regime (pelos militares e pelos setores
sociais que o apoiavam), e de outro a pressão do movimento
popular que reivindicava liberdades democráticas e a restau-
ração plena do estado de direito. A saída para a crise foi nego-
ciada entre os novos partidos políticos criados pela reforma
partidária de 1979.

A reforma, mais do que abrir horizontes, tinha por objetivo


pulverizar a oposição que se concentrara, ao longo do regime
militar, no MDB. Permitindo a criação de novos partidos o
regime quebrava a unidade da oposição e enfraquecia o MDB.
No início dos anos 1980, o Brasil tinha cinco novos partidos

112
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 113

políticos: Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB,


antigo MDB), Partido Democrático Social (PDS, o partido do
governo), Partido Democrático Trabalhista (PDT), Partido Traba-
lhista Brasileiro (PTB) e, criado um pouco mais tarde, Partido
dos Trabalhadores (PT). O PDT e o PTB disputavam a herança de
Vargas. Após o retorno do exílio, dois parlamentares cassados,
ligados ao antigo PTB, disputaram o nome e a sigla do partido:
Leonel Brizola e Ivete Vargas. Ivete ganhou na Justiça o direito
de usar o nome e a sigla histórica. Com isso, Brizola criou o PDT
e esforçou-se para levar para a nova sigla o conteúdo histórico
e combativo do trabalhismo.

Nesse cenário político, o Partido dos Trabalhadores era a grande


novidade. Dirigido pelo então líder sindical Luis Inácio “Lula” da
Silva, operário metalúrgico de São Bernardo do Campo, o PT não
era ligado a políticos conhecidos nem àqueles que retornavam
do exílio. O PT representava um outro campo: o movimento de
oposição e de resistência política que havia se desenvolvido no
Brasil, nos últimos anos, formado por trabalhadores (principal-
mente o operariado do ABC paulista), estudantes e profissio-
nais liberais que haviam participado da luta contra a ditadura
militar, setores da Igreja ligados às comunidades eclesiais de
base, às pastorais e à Teologia da Libertação e membros das
organizações de extrema esquerda das décadas de 1960 e
1970. Esta configuração dava ao PT um conteúdo político par-
ticular, distinto dos outros partidos. Por isso mesmo foi o único
partido que não quis participar da solução negociada para o fim
do regime militar que se construiu em 1985.

Nos anos anteriores, entre 1983 e 1984, o país vivera uma grande
campanha cívica pelas eleições diretas. A campanha Diretas Já!
animou enormes comícios e manifestações em várias capitais.
O Comício das Diretas no Rio de Janeiro, em frente à Igreja da
Candelária, registrou um milhão de pessoas cantando, emocio-
nadas, o hino nacional. Apesar disso, a Emenda Dante de Oliveira
que propunha a realização imediata de eleições diretas para a
114 História e memória de Vigário Geral

sucessão de João Baptista Figueiredo, o último general presi-


dente da República, foi derrotada no Congresso em abril de 1984.
A solução preferida pelos partidos foi a realização de uma elei-
ção indireta, por um Colégio Eleitoral composto por parlamenta-
res: os partidos políticos deveriam apresentar seus candidatos,
o Colégio Eleitoral escolheria o novo presidente da República.

A negociação política que prevaleceu se expressou na chapa


que marcava a aliança entre o PMDB e o recém-criado Partido
da Frente Liberal (PFL). A chapa era composta por Tancredo
Neves e José Sarney.

O PFL agrupava uma dissidência do PDS que se recusara a


apoiar o nome de Paulo Maluf, político paulista de extrema
direita, que fora proposto pelo governo para integrar a chapa da
Presidência da República.

A chapa Tancredo-Sarney, lançada pela aliança entre o PMDB e


o PFL, era, portanto, a exata expressão da negociação entre as
elites políticas da época: de um lado excluía-se a saída mais
democrática que seria a realização imediata das eleições dire-
tas, de outro excluía-se também a extrema direita representada
pelo candidato do PDS, o deputado Paulo Maluf. A chapa Tancre-
do-Sarney foi eleita no Congresso Nacional por larga margem de
vantagem. O PT não quis participar, denunciou o processo como
farsa e puniu com a expulsão seus parlamentares que votaram
favoravelmente à chapa de Tancredo Neves.

Apesar do caráter moderado, centrista e elitista da solução


negociada, a eleição de Tancredo tinha uma simbologia polí-
tica importante. Tancredo era identificado com a herança
varguista. Havia sido ministro da Justiça de Getúlio em 1954 e
primeiro-ministro do presidente João Goulart. Apesar de seu
perfil moderado e conciliador, sua indicação para a Presidência
da República tinha um certo gosto de retorno à democracia do
pré-64. Um gostinho de revanche que o acaso negou à oposi-
ção e à sociedade brasileira: Tancredo adoeceu e morreu antes
de ser empossado. Seu vice, José Sarney, político de tradição
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 115
116 História e memória de Vigário Geral

conservadora, da linhagem da extinta Arena, assumiu a Presi-


dência da República do Brasil.

Sob o duplo signo da negociação e da frustração, o Brasil encer-


rava o ciclo militar e reingressava na via democrática. O pre-
sidente Sarney tomou posse no dia 15 de março de 1985. Dois
meses depois o Congresso Nacional restabeleceu as eleições
diretas, aprovou o voto para os analfabetos e legalizou os par-
tidos comunistas.

O retorno à democracia, no entanto, evidenciou novos proble-


mas: no plano econômico o país atravessava uma séria crise
marcada pelo descontrole da inflação e pelo crescimento da
dívida externa. O governo Sarney tentou enfrentar a inflação
com o Plano Cruzado (congelamento de preços) e transformou
donas de casa em “fiscais do Sarney”.1

No plano político a redemocratização se consolidou com a


Assembléia Nacional Constituinte (1987-88). A Assembléia
Constituinte tinha por objetivo elaborar uma nova Constituição
para o país, que afirmasse o pacto político que nascia entre os
cidadãos após o fim do regime autoritário. Segundo o historiador
Boris Fausto, “a Constituição de 1988 refletiu o avanço ocorrido
no país especialmente na área da extensão de direitos sociais e
políticos aos cidadãos em geral e às chamadas minorias”.2

No entanto, ao mesmo tempo em que representou avanços,


gerou problemas, como o tempo iria demonstrar:
O sistema tributário retirou muitos recursos da União, passan-
do-os aos estados e municípios, sem que estes assumissem
obrigações de gastos em nível correspondente. Por sua vez, a
manutenção da aposentadoria por idade, para qualquer pro-

1 Houve uma campanha governamental na mídia incentivando a população a atuar


na fiscalização dos preços, sobretudo nos supermercados. A TV exibia principal-
mente imagens de donas de casa exercendo esta fiscalização. Foram chamadas
pela mídia impressa e televisiva de “fiscais do Sarney”.
2 FAUSTO, Boris. História do Brasil, 8ª ed. São Paulo, EDUSP, 2000, p. 525.
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 117

fissão, sobrecarregou a Previdência Social a ponto de torná-la


sempre deficitária, apesar da melhora de seu funcionamento. A
manutenção da estabilidade de todos os funcionários públicos
concursados, após dois anos de serviço, concorreu para dificultar
a flexibilidade da máquina do Estado. Esses preceitos e outros
mais concorreram para agravar a crise do Estado brasileiro, pro-
blema gritante dos últimos anos.3

De toda a forma podemos considerar a Constituição de 1988 –


com seus avanços e seus problemas – como o marco final do
período autoritário brasileiro.

Mas a democracia que se consolidou no final dos anos 1980


enfrentaria novos problemas. Alguns ela enfrentou e venceu,
dando provas de maturidade e vigor como a realização ordeira e
institucional do impeachment do presidente Fernando Collor de
Melo, acusado de corrupção e deposto dentro da legalidade.

Outra vitória foi o Plano Real, um pacote de medidas econô-


micas, financeiras e monetárias que conteve com sucesso a
inflação e justificou os dois governos sucessivos do presidente
Fernando Henrique Cardoso, o “pai do Plano Real”.

No entanto, as décadas de 1980 e 1990 consolidaram e acentu-


aram um processo que vinha se desenvolvendo desde os anos
1950: o Brasil passara de um país essencialmente agrícola para
um país urbano, industrial e de serviços. Este processo concen-
trou uma enorme gama de novos e velhos problemas nas cida-
des brasileiras, especialmente Rio, São Paulo, Brasília, Recife,
Belo Horizonte, Salvador.

O crescimento desordenado das cidades, a expansão urbana


em áreas desprovidas de serviços, o aumento das desigualda-
des sociais, o desemprego, a violência, a criminalidade foram
alguns destes problemas, já conhecidos, que se acentuaram.

Outros novos surgiram ou cresceram em proporções ainda


desconhecidas: o tráfico de drogas, a violência e a corrupção

3 Idem, ib.
118 História e memória de Vigário Geral

policial, o crime organizado estendendo seus tentáculos até


mesmo às instituições políticas e sociais, a falta de perspecti-
vas para a juventude.

Nesse contexto as cidades se tornaram o foco mais dramático da


insegurança e da criminalidade, mas também os locais onde ten-
tativas mais profundas de mediação de conflitos, experiências
de produção artística, trabalhos comunitários e estratégias de
inclusão social têm sido vividos. É nas cidades que o drama con-
temporâneo se apresenta de forma mais aguda. É nas cidades
que se tenta, com mais afinco, garra e criatividade, superá-lo.

O Rio de Janeiro nas décadas de 1980 e 1990


O Rio de Brizola
“Rio, quarenta graus,
cidade maravilha,
purgatório da beleza e do caos.”

Os versos cantados por Fernanda Abreu dão a exata idéia da


cidade do Rio de Janeiro nos últimos vinte anos. Cidade onde
tudo de bom e de terrível pode acontecer.

Mais do que qualquer outra cidade, o Rio tornou-se um emblema


da crise urbana do país: expansão desordenada de moradias
em áreas não atendidas por serviços básicos de urbanização e
saneamento, desemprego, criminalidade, violência, corrupção
policial, e o enorme impacto negativo nas perspectivas de vida
da juventude carioca.

Politicamente, o Rio viveu momentos extremamente importantes.


Experimentou por duas vezes Leonel Brizola como governador –
entre 1982 e 1986 e, um pouco mais tarde, entre 1990 e 1994.

Ainda é muito cedo para uma avaliação profunda e isenta


de paixões dos governos Brizola no estado do Rio de Janeiro.
A questão despertou grande polêmica entre os estudiosos
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 119

do período. Brizola foi lançado a um pedestal pela população


carioca e também derrubado por esta mesma população.

O cientista político João Trajano Sento-Sé analisa em seu livro


Brizolismo: estetização da política e carisma, a ambigüidade de
sentimentos que Brizola despertou, na população carioca, nas
diferentes campanhas eleitorais de que participou. A campanha
de 1982, na qual obteve grande vitória e foi eleito governador do
Rio, foi um marco. Trajano analisa a ampla adesão à campanha:
A reiteração do caráter francamente oposicionista de sua candi-
datura, a alusão ao legado varguista, a ênfase em questões com
grande apelo em amplos setores da população, como educação e
segurança, eram questões que tocavam fundo a parcela da elite
formadora de opinião, um segmento social solidário às causas
populares e simpático a propostas redistributivas.4

Ainda segundo Trajano, a falta de recursos para a campanha


era compensada por grande dose de criatividade. Slogans como
“Brizola na cabeça” e a marca do socialismo moreno combina-
vam com o espírito carioca.

Trajano afirma em seu livro uma idéia bastante interessante


para a compreensão do fenômeno Brizola:
Em 82, a política carioca, pode-se dizer, recuperou, por um breve
momento que seja, a dimensão festiva que caracteriza durante
séculos a política. Foi uma celebração de adesões, identificações,
expectativas e mobilização política.5

Ao final do tumultuado processo (que incluiu acusações de


tentativas de fraudes), Brizola obteve apertada vitória contra os
candidatos Moreira Franco (do PDS) e Miro Teixeira (do PMDB).

No entanto, a campanha eleitoral de 1986 – em que o candidato de


Brizola era o antropólogo Darcy Ribeiro – foi bastante diferente.

4 SENTO-SÉ, João Trajano. Brizolismo: estetização da política e carisma. Rio de


Janeiro, Fundação Getúlio Vargas, 1999, p. 224.
5 Idem, ib., p. 225.
120 História e memória de Vigário Geral

O governo Brizola era acusado de promover uma verdadeira fave-


lização do Rio de Janeiro, sua política de respeito aos direitos
humanos era freqüentemente identificada como permissiva para
os bandidos. Por essas razões, uma parcela da classe média,
pouco numerosa, mas fundamental na dinâmica de formação
de opinião, dava sinais de desagravo e desconfiança quanto às
práticas do governador e sua equipe.6

Para Trajano, estava em curso o que poderia ser chamado de


“demonização do brizolismo” que abrangia, inclusive, a acusa-
ção de “ligações perigosas” com o crime organizado.

Brizola promoveu algumas transformações profundas na cir-


culação da cidade, permitindo que as duas pontas da “cidade
partida” se relacionassem com maior proximidade – para o bem
e para o mal. Uma destas grandes transformações foi a maneira
de encarar a questão das favelas cariocas. A idéia de remoção
foi substituída pela perspectiva de urbanização.

Apesar dos pontos obscuros e das questões ainda não esclare-


cidas em torno dos governos Brizola no Rio de Janeiro, não há
como negar seu conteúdo fortemente popular e sua identifica-
ção com os marginalizados e desafortunados. Esta identifica-
ção com o lado mais pobre da “cidade partida” foi vista como
populismo por muitos dos estudiosos do brizolismo. A opção
pelos pobres do governo Brizola passou a ser vista como sinô-
nimo de clientelismo e paternalismo.

Trajano nos mostra, em seu livro, como a imagem de Brizola sem-


pre foi associada a um “mal” pela mídia impressa e televisiva.
Se, em 82, eram acenados os fantasmas da subversão e do golpismo,
agora, o grande símbolo do ‘perigo brizolista’ residia na marginali-
dade, no apelo às invasões, na desordem, enfim, que as posições e
propostas brizolistas traziam embutidas, gerando uma atmosfera
de insegurança e instabilidade em todo o estado (...) Antes sub-
versivo, golpista, antidemocrático, o brizolismo era tratado, agora,
como o braço político da marginalidade e da contravenção.7

6 Idem, ib., p. 256.


7 Idem, ib., p. 258.
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 121
122 História e memória de Vigário Geral

Como os versos da canção de Fernanda Abreu, Brizola – purga-


tório do bem e do mal – colou sua trajetória à experiência polí-
tica do Rio de Janeiro nas décadas de 1980 e 1990; foi marcado
pela cidade e imprimiu nela a sua marca.

Mas o Rio de Janeiro dos anos 1990, Rio 40 graus à sombra, foi
palco da crise urbana contemporânea; cenário que expunha,
como nenhuma outra cidade, as mazelas da democracia brasi-
leira. Uma democracia que deixava de fora enormes parcelas da
sociedade, que reproduzia imensas desigualdades sociais e que
mostrava diariamente nos jornais uma face terrível marcada
pela corrupção, violência e impunidade. Corrupção e impuni-
dade que desgastavam, como uma infecção, o tecido social.
E as vítimas eram, sempre, os setores mais desprotegidos.

O terrível episódio que ficou conhecido como a chacina de


Vigário Geral é um dos mais contundentes e dramáticos exem-
plos desse processo.

A chacina

Um dos episódios que tornou o Parque Proletário de Vigário Geral


conhecido pelos cariocas foi a chacina de 1993, em que 21 mora-
dores da comunidade foram assassinados por policiais militares.

A chacina provocou grande comoção em toda a sociedade e pro-


duziu respostas e ações comunitárias, dentro e fora de Vigário,
de pessoas interessadas em denunciar o ocorrido, pressionar por
justiça, assistir parentes de vítimas e proteger sobreviventes.

O jornalista Zuenir Ventura foi um dos que se engajou neste pro-


cesso e, de seu envolvimento com Vigário Geral, resultou Cidade
partida.8 Neste livro, Zuenir não procura apenas analisar como
se constituiu esta cisão, mas, principalmente, nos mostra pes-
soas e instituições que, de um lado e de outro, tentam superá-la.

8 VENTURA, Zuenir, op. cit.


Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 123

A obra é, sobretudo, um alerta para a absoluta necessidade de


se enfrentar com democracia, justiça social e, ao mesmo tempo,
rigor punitivo a situação de desigualdade social, criminalidade,
violência e corrupção que corta o Rio de cima a baixo e de leste a
oeste. O próprio Zuenir sintetiza seu objetivo no final da introdu-
ção intitulada Uma crônica noir:
A experiência relatada neste livro mostra que nenhuma operação
de força fará sentido se a expulsão da minoria delinqüente não se
fizer acompanhar de uma ação de cidadania que incorpore social-
mente a massa de excluídos do Império – no caso, da República.
Será uma questão de distribuição: justiça social para muitos e
repressão para poucos. O perigo é continuar destinando a uns o
que é devido a outros.9

Além de Zuenir Ventura, outras pessoas – jornalistas, pesqui-


sadores, escritores – se debruçaram sobre a chacina tentando
compreender o significado de tanta violência e tanta dor.

Entre estas pessoas cabe destacar o trabalho do Núcleo de


Estudos e Pesquisa sobre a Infância e Juventude (NEPI) do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, coordenado
pela professora Rosilene Alvim. Este núcleo de pesquisas,
composto por alunos de graduação e pós-graduação, classifi-
cou uma grande quantidade de notícias de jornal e organizou
um acervo informativo sobre a chacina com base na imprensa,
considerando que esta teve importante papel divulgando em
larga escala o acontecimento e seus desdobramentos. Segundo
Rosilene Alvim, “o material acumulado revelava e afirmava a
posição de fragilidade das classes populares frente ao conflito,
já rotineiro, que envolve traficantes e policiais e que tem nas
chacinas seu momento de radicalidade”.10

Rosilene Alvim e Eugênia Paim partilharam conosco o levanta-


mento e a reflexão que fizeram sobre a chacina de Vigário Geral.

9 Idem, ib.
10 ALVIM, Rosilene e PAIM, Eugênia. Vigário Geral: uma noite tão comprida. Mate-
rial de pesquisa do NEPI/UFRJ, 2003.
124 História e memória de Vigário Geral

O texto de Rosilene, que reproduzimos aqui, é parte do trabalho


elaborado pela equipe do NEPI, Vigário Geral: uma noite tão
comprida e foi escrito em 2003 quando a chacina completava,
ainda impune, dez anos.
Vigário Geral
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 125

anos de uma
chacina
por Rosilene Alvim
126 História e memória de Vigário Geral

Em agosto de 2003 completaram-se dez anos do assassi-


nato de 21 moradores do Parque Proletário de Vigário Geral.
Relações ilegais, perigosas, entre policiais e bandidos
resultaram no massacre de Vigário Geral: policiais execu-
taram 21 pessoas como vingança ao assassinato de cole-
gas alguns dias antes. Flávio Negão, o líder do tráfico local,
teria ordenado a morte de PMs como resposta a conflitos
surgidos entre o tráfico e policiais.

Por que voltar a falar de um acontecimento de mais de dez


anos atrás?

O filme alemão Uma cidade sem passado1 mostra a difi-


culdade de lembrar o sofrimento imposto a uma pequena
cidade durante o regime nazista. Lembrar significa mostrar
a cumplicidade, a impunidade e a permanência no poder
daqueles que participaram direta ou indiretamente das
arbitrariedades cometidas no passado.

O que aconteceu faz parte de uma repetição da forma com


que são tratadas as classes populares, em particular por
aqueles que deveriam manter a ordem e proteger os cida-
dãos de uma maneira geral.

A descrição do massacre do Carandiru2 por André du Rap3


e a do massacre de Vigário Geral por seus moradores cha-
mam a atenção para a ação policial brutal e abrangente que
não leva em conta as diferenças existentes nem entre os

1 Uma cidade sem passado. Direção de Michael Verhoeven. Alemanha, 1989.


2 Para entender mais sobre a criminalidade e sua lógica ver José Ricardo
Ramalho, O mundo do crime: a ordem pelo avesso, 2ª ed. Rio de Janeiro:
Graal, 1983. Este livro é um precursor na revelação do que se passava
dentro da Casa de Detenção de São Paulo, conhecida como Carandiru.
3. DU RAP, André. Sobrevivente André du Rap - do massacre do Carandiru. São
Paulo: Labortexto, 2002.
3 DU RAP, André. Sobrevivente André du Rap - do massacre do Carandiru. São
Paulo: Labortexto, 2002.
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 127

diversos presos, com suas diferentes penas e graus de peri-


culosidade, nem entre trabalhadores e bandidos que habi-
tam o mesmo bairro/favela ou bairro/comunidade. As falas
daqueles que sofreram a repressão sanguinária apontam
para a desqualificação total das vítimas, a perversidade e a
desigualdade em termos de poder. Desarmados, cumprindo
pena sob a proteção do Estado, os detentos de Carandiru
tornam-se objeto da força e do arbítrio: são criminosos e
merecem morrer. Os moradores de Vigário Geral são crimi-
nosos em potencial; para os policiais a vingança se justifica
pela proximidade social, pelo fato de os membros do tráfico
fazerem parte dos habitantes de Vigário, ali nasceram, e ali
foram criados. A partir de uma proximidade reconstruída,
todos são considerados criminosos, sendo, portanto, legí-
tima sua punição. A justificativa para atos violentos contra
moradores de bairros populares e infratores da Lei está
baseada em um senso comum que desconsidera as dife-
renças dentro dos grupos sociais em causa. Senso comum
que é parte de uma visão externa a estes grupos, que jus-
tifica essas ações extremas, como o massacre, feitas por
representantes da Lei. Ou seja, não só dentro dos presídios,
mas dentro das casas e nas ruas dos bairros, todos são cri-
minosos ou criminosos em potencial.

Lembrar Vigário Geral hoje é denunciar não só as chacinas que


se tornaram públicas contra as classes populares brasileiras,
mas é também apontar para os vários assassinatos coletivos
e individuais executados, seja por narcotraficantes, pela polí-
cia mineira ou por policiais ou ainda pela ação conjunta dos
que representam a Lei com os que estão fora da Lei.

Em uma noite do mês de agosto de 1993, 21 moradores de


Vigário Geral foram assassinados. Mais de dez anos se passa-
ram e a lembrança daquela noite ainda permanece na memó-
ria dos habitantes do Parque Proletário de Vigário Geral.
128 História e memória de Vigário Geral

Todos os jornais da época registraram a indignação dos


moradores quanto ao massacre. Os assassinados, segundo
os moradores, eram trabalhadores e causava revolta a
morte de uma família que era composta por membros de
uma igreja evangélica. O discurso dos moradores denuncia
o fato de que os assassinos tinham ignorado e atingido os
valores do grupo. Aos “crentes” muitas vezes são atribuídas
qualidades de honestidade que são admiradas e respeita-
das. Tinham ignorado também a diferença entre “vagabun-
dos” (criminosos) e trabalhadores, recusando-se a ver as
carteiras de trabalho que suas vítimas tentaram mostrar
para não morrer. Desrespeitaram o valor atribuído à família
ao entrar dentro da casa em que a família dormia, como
também a assassinaram, poupando apenas as crianças.

Para o acerto de contas entre policiais e traficantes que


explicaria a “incursão” noturna à favela para vingar a morte
de policiais por traficantes, os moradores de Vigário Geral
foram escolhidos como objeto de vingança. Os policiais
praticaram um castigo exemplar. Ao realizarem um ato de
tamanha violência, os policiais identificam moradores e
traficantes, explicitam que os habitantes não se encon-
tram protegidos pelos traficantes locais e, muito menos,
pela polícia. Os moradores, através do massacre, vêm con-
firmando o que já sabem: que, além da precária “proteção”
dos criminosos, também não contam com a proteção dos
representantes da Lei. Encontram-se sitiados entre mun-
dos de ilegalidades e sabiamente se protegem pelo silêncio
e por isto mesmo sofrem por se encontrarem em um difícil
equilíbrio em que o bem não é o bem e o mal, às vezes,
parece ser bem. O fato de não denunciarem os criminosos
significa muito mais uma estratégia de sobrevivência do
que a concordância com a criminalidade.

A foto com os caixões das vítimas dispostos no chão de


um largo de Vigário Geral nos deixa alarmados e perplexos.
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 129

Uma outra chacina, a da Candelária, era ainda muito recente.


Como os meninos da Candelária, as pessoas foram assassi-
nadas à noite e em um pequeno intervalo de tempo. A foto
dos corpos expostos ilustra a exclusão social das classes
populares, que se encontram espremidas entre a lei dos
policiais e a dos bandidos.

Nessa condição, os anos se passaram, mas a desigualdade,


o número de jovens vítimas de morte violenta aumentou,
havendo uma consolidação dos comandos que dirigem o
tráfico de drogas no Rio de Janeiro e que, por outro lado, dis-
putam poder através das armas. Esse quadro vem gerando
dificuldades de diversas ordens para as associações de
moradores, para as associações religiosas e para outros
grupos que atuam nas chamadas comunidades pobres. A
atuação destas entidades e grupos cada vez mais vigiados
e muitas vezes controlados pelo narcotráfico os leva a uma
difícil luta na manutenção de sua autonomia, necessária às
ações que desenvolvem nestes espaços. Exemplos como
assassinatos de dirigentes de associações de moradores,
expulsão de pessoas que atuam em ONGs, religiosos e de
diversos projetos, que são proibidos de atuar nos territórios
controlados pelos traficantes, são cada vez mais comuns.

É importante que a chacina de Vigário Geral faça vislum-


brar que bairros populares, favelas, comunidades pobres
não são apenas os lugares em que se encontram os narco-
traficantes e os fora-da-lei em geral, mas lugares em que
famílias de trabalhadores, homens e mulheres vivem seu
cotidiano numa relação com a sociedade a qual deve procu-
rar “não deplorar, não rir, não detestar, mas compreender”.4

4 BOURDIEU, Pierre. A miséria do mundo. Petrópolis, RJ, Vozes, l997.


130 História e memória de Vigário Geral
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 131
132 História e memória de Vigário Geral

Espaços comunitários: oficinas culturais, escola, música e arte


para promover cidadania e inclusão social

Mas Vigário Geral não é apenas cenário para tragédias ligadas


ao tráfico de drogas e à violência policial. Em Vigário existe toda
uma rede de iniciativas governamentais e não governamentais
que atua no sentido da promoção da cidadania, da inclusão
social, da produção artística e cultural. Uma parte desta rede
surgiu em resposta à tragédia da chacina. Outra parte já estava
lá há muito tempo e procurou se aprimorar para mostrar que
uma vida social e comunitária é possível mesmo nas regiões
mais ameaçadas. O resultado é que hoje a comunidade oferece,
para seus moradores e visitantes, diversas oficinas culturais e
artísticas patrocinadas pelo Grupo Cultural AfroReggae; ONGs,
como o MOGEC e a Fundação Onda Azul; uma escola situada
bem na “zona de fronteira” entre Vigário Geral e Parada de
Lucas (o CIEP Mestre Cartola) e, mais recentemente, tem pro-
curado inclusive recuperar e dinamizar a própria Associação de
Moradores que, nas últimas décadas, tinha perdido um pouco
de sua combatividade. Neste cenário os moradores de Vigário
procuram promover e exercer sua cidadania, superar conflitos e
encontrar soluções para as duras condições de vida a que estão
submetidos, muito distantes da ação do poder público.

Vejamos um pouco como se constituiu este espaço comunitário.

Uma das entidades mais atuantes na vida de Vigário Geral é o


Movimento Organizado de Gestão Comunitária. O MOGEC foi
criado em janeiro de 1998 com a ajuda da ONG internacional
Médicos sem Fronteira e com o apoio das secretarias municipais
de Saúde e de Desenvolvimento Social. Os gestores do projeto
– todos moradores da comunidade – foram selecionados pelo
grupo Médicos sem Fronteira após a realização de um curso
para gestores comunitários. O MOGEC atua na área da saúde e
da educação: trabalha com reforço escolar de crianças desde
a primeira série, realiza campanhas informativas em relação a
doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e Aids, vacinação
Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 133

infantil, higiene e saneamento. É também o MOGEC que geren-


cia o posto de saúde de Vigário Geral.

Outra entidade importante é a Associação de Familiares das


Vítimas da Chacina. Esta ONG acompanha o julgamento dos
policiais envolvidos e atua com o objetivo de proteger os fami-
liares e lutar para que se faça justiça – mesmo que tardia.

Uma instituição extremamente importante na vida de Vigário


que atua incansavelmente na promoção da cidadania e da paz
na comunidade é o CIEP Mestre Cartola. A escola se situa bem
na divisa entre Vigário Geral e Parada de Lucas, consideradas
“comunidades rivais” porque estariam submetidas a diferentes
grupos de traficantes de drogas. Ela atende a crianças das duas
favelas e, por sua localização, já esteve no meio de tiroteios.
Suas paredes ostentam inúmeros buracos de balas. As crian-
ças, em um esforço de paz e mediação do conflito, desenharam
pétalas de flores coloridas em torno destes buracos.

O CIEP começou a funcionar em 1987. É uma escola munici-


pal que atende crianças do primeiro segmento de educação
infantil, da classe de alfabetização à quarta série; funciona em
regime de turno integral, com 535 alunos e 27 professores. A
diretora da escola, professora Marcy, reforça o papel integrador
do CIEP em relação às duas comunidades. Para ela, as crianças
não reproduzem a rivalidade dos mais velhos. Os professores e
educadores procuram cortar logo no início qualquer manifesta-
ção de rivalidade bairrista e incentivam a solidariedade entre as
crianças. As mães das crianças também ajudam a romper com
o quadro de hostilidade, na medida em que se encontram na
porta da escola e estabelecem relações de camaradagem.

Comovente, por exemplo, como nos relata a professora Marcy, é a


tentativa das crianças de superarem o conflito nos aniversários.
Como, algumas vezes, a circulação entre Vigário e Lucas é peri-
gosa, muitas crianças fazem questão de comemorar seus aniver-
sários na escola para que os amiguinhos da outra comunidade
possam cantar parabéns, comer o bolo e participar da festa.
134 História e memória de Vigário Geral

O CIEP Mestre Cartola tem sido um espaço importante na pro-


moção da cidadania e da paz na “zona de fronteira” entre Vigário
e Lucas.

Todas essas organizações – políticas, educacionais e culturais –


representam o grande esforço dos moradores de Vigário de
enfrentarem e resolverem coletivamente seus problemas. São
os elementos componentes da rede de cidadania que a comuni-
dade se esforça em construir, ampliar e reproduzir.

Mas entre todas as organizações, uma em especial teve papel


de destaque e mudou a vida da comunidade: o Grupo Cultural
AfroReggae.

É o tema do próximo capítulo.


Violência, Criminalidade e Mediação de Conflitos 135
Cap.05
O Afro Reggae em Vigário Geral.
em
Em seu livro Da favela para o mundo,1 José Junior, coordenador
executivo do AfroReggae, conta como começou a relação do
grupo com Vigário Geral.

O grupo já existia como uma entidade social que se reunia no


Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP),
editando um jornal (AfroReggae Notícias), organizando festas.

Depois da chacina de 1993, várias pessoas que formavam o


Grupo Cultural AfroReggae participaram da organização da
“Caminhada pela Paz”, uma marcha que reuniu cerca de oitenta
pessoas que foram a pé, por mais de vinte quilômetros, da
Candelária (Centro do Rio) até Vigário Geral. A marcha, segundo
Junior, selou o vínculo do AfroReggae com a comunidade:
Nós então começamos a freqüentar Vigário Geral sempre aos
domingos, nos encontros promovidos na sede da Associação dos
Amigos da Onze Unidos [nome de uma rua de Vigário]. As reuniões
eram organizadas pelos próprios moradores. Além do GCAR, o
CEAP, o Projeto Legal do IBISS [Instituto Brasileiro de Inovações
em Saúde Social],2 e o Centro de Teatro do Oprimido3 estavam
sempre presentes.4

1 JUNIOR, José, op. cit.


2 IBISS: Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social
3 Teatro do Oprimido: técnica teatral, voltada para a conscientização, desenvol-
vida por Augusto Boal.
4 Idem, ib., p.47

138
O Afro Reggae em Vigário Geral 139

Vigário Geral foi, ao mesmo tempo, uma base e um laboratório


de trabalho para o Grupo Cultural AfroReggae. À medida que se
instalava lá, organizava oficinas de trabalhos artísticos e cultu-
rais, atraía jovens moradores e criava raízes na comunidade, o
próprio AfroReggae crescia como um empreendimento artístico,
cultural e social. O grupo atua em outras comunidades, mas
Vigário Geral foi sua base, o território onde criou uma identi-
dade, uma expressão artística e estética própria e desenvolveu
uma proposta de ação social. O AfroReggae e Vigário Geral estão
profundamente articulados e são identificados um com o outro,
não apenas pela mídia em geral, mas também pelos morado-
res da favela, pelo mundo artístico e pela vasta rede de ONGs
que atua em comunidades populares. Esta relação profunda e
determinante, tanto para a história do AfroReggae como para a
história de Vigário Geral, se iniciou com a Caminhada pela Paz.

Hoje em dia é impossível falar de Vigário Geral sem falar do Afro


Reggae e sem mencionar o trabalho sociocultural desenvolvido
pelo grupo na comunidade. Da mesma forma que é impossível
falar do Grupo Cultural AfroReggae sem lembrar de Vigário.

Outro marco importante da relação entre a comunidade e o


grupo foi a realização de um grande concerto musical. No dia
30 de outubro de 1993 o AfroReggae realizou o Vigário in concert
geral. O evento, realizado na quadra da associação de morado-
res, teve a participação de grupos de reggae, samba-reggae, rap
e hip hop. Junior conta como ficou surpreso ao perceber que a
platéia era formada quase que exclusivamente por crianças.
Segundo ele, a presença maciça de homens do Batalhão de
Operações Policiais Especiais (BOPE), em cima da passarela de
acesso, revistando as pessoas, teria intimidado, sobretudo, os
mais jovens – alvo preferencial da ação da polícia. De qualquer
forma, o concerto foi um marco na relação do AfroReggae com
Vigário Geral: “Estávamos fincando a nossa bandeira, agora ofi-
cialmente, naquela comunidade”.5

5 Idem, ib., p. 54.


140 História e Memória de Vigário Geral
O Afro Reggae em Vigário Geral 141

A partir daí, o grupo se instalou em Vigário e iniciou um traba-


lho artístico e cultural, com uma série de oficinas de trabalho
e criação. Em 1994 foi criado o Núcleo Comunitário de Cultura.
O projeto tinha um objetivo bem claro: desviar jovens do cami-
nho do narcotráfico e do subemprego. O Núcleo abriu oficinas
de reciclagem de lixo, de percussão, de dança afro. Foi o início
de um imenso trabalho com crianças e adolescentes da favela.
Vários meninos e meninas passaram a procurar o grupo, atraí-
dos pelas oficinas de dança e percussão.

Ao Núcleo Comunitário seguiu-se uma série de outras atividades


artísticas: a banda, o Afro Lata, o Afro Samba, a escola de circo,
as oficinas de música e de capoeira (em parceria com o grupo
Abadá), o grupo de teatro, os programas de saúde.

A rica história desta relação entre o AfroReggae e Vigário Geral


é contada em detalhes por Junior em Da favela para o mundo. E
vale a pena ser conhecida porque revela a imensa possibilidade
de inclusão social a partir de trabalhos com foco no desenvolvi-
mento artístico e cultural.

O trabalho do AfroReggae em Vigário deu um enorme salto a


partir da criação do Centro Cultural AfroReggae Vigário Legal.
Este centro, inaugurado em julho de 1997, foi fundamental para
centralizar e consolidar as atividades e oferecer um espaço de
integração para os jovens integrantes (e aspirantes a integran-
tes) de todas as oficinas que eram desenvolvidas pelo grupo.
A obra da reforma da casa que abrigou o centro teve financia-
mento das embaixadas da Grã-Bretanha e do Canadá. O espaço
foi inaugurado com a exibição do musical Nova cara, que reunia
vários gêneros musicais modernos, como o funk e o hip hop,
conectados a ritmos tradicionais afro-brasileiros e nordestinos.
A montagem do espetáculo envolveu um processo de criação
coletiva dinâmico e alegre, no qual todos os integrantes do
grupo e das oficinas do Afro Reggae, assistiram a vídeos, filmes,
clipes, peças, shows, escutaram vários tipos de música e expe-
rimentaram vários tipos de dança.
142 História e Memória de Vigário Geral

A banda O Rappa foi grande parceira e compareceu à inaugura-


ção do Centro Cultural AfroRaggae Vigário Geral. O poeta Waly
Salomão também estava lá. Nas palavras de Junior “Waly foi
mais que padrinho, foi um mestre, um guru”.

Aliás, a existência destes parceiros é marcante na trajetória do


AfroReggae em Vigário Geral. O grupo sempre teve uma percep-
ção muito aguda da relevância e do significado da mídia. Sempre
teve em mente a importância não apenas de se fazer presente
na mídia, mas, sobretudo, de utilizar a mídia para a difusão de
seus projetos e de suas propostas.

José Junior sempre teve clareza acerca do tamanho do objetivo


do grupo: disputar com poderosa concorrência (a pobreza, a cri-
minalidade, a violência policial e o tráfico de drogas) a adesão, o
entusiasmo e o futuro de jovens e adolescentes de Vigário Geral.
Nesta tarefa – extremamente difícil – a mídia poderia ser uma
aliada. E foi usada como tal. Para tanto contribuiu bastante o
apoio declarado e ostensivo de pessoas famosas – intelectu-
ais, artistas, escritores, jornalistas, músicos, poetas –, que
apoiaram e ajudaram a abrir espaços para o AfroReggae desde
o seu início. A galeria destes padrinhos é vasta e variada: Wally
Salomão, Regina Casé, Caetano Veloso, Betinho, Rubem César
Fernandes, Manoel Ribeiro, Zuenir Ventura, Fernanda Abreu,
Gilberto Gil, bandas como Cidade Negra e O Rappa, além de ins-
tituições acadêmicas, de pesquisa e de ação social, como Viva
Rio, CEAP, Instituto de Estudos da Religião (ISER), Federação de
Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE), Instituto
Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Médicos
sem Fronteira, entre muitos outros e outras. Todas estas pes-
soas e instituições são mencionadas no livro de Junior que faz
questão de declarar e homenagear estas parcerias.

Uma das atividades mais importantes desenvolvidas pelo Afro


Reggae em Vigário se dá no campo da saúde. É o grupo de teatro
Trupe da Saúde, que utiliza técnicas de teatro de rua e de circo
para discutir junto ao público questões como Aids, doenças
O Afro Reggae em Vigário Geral 143

sexualmente transmissíveis e prevenção do câncer de mama.


Em seu folder, o grupo informa que, desde dezembro de 1997,
data em que foi lançado o projeto, já fez mais de 250 apresen-
tações, não apenas em Vigário Geral, mas em terminais rodo-
viários, escolas públicas, hospitais, postos de saúde, praças
públicas e outras favelas. A metodologia de trabalho da Trupe
da Saúde remete fortemente às propostas do Teatro do Opri-
mido, elaborado por Augusto Boal: criação coletiva, improviso,
temas do cotidiano, teatro como denúncia ou como elemento de
educação, estímulo ao debate com o público, apresentação em
lugares abertos. Aliás, o Centro de Teatro do Oprimido (criado
por Boal) é um dos parceiros mais antigos do Afro Reggae e a
concepção mais geral do teatro como elemento de conscienti-
zação sempre esteve presente nos trabalhos do grupo.

Para Lorenzo Zanetti, que foi coordenador de educação popular


da FASE, a ação do AfroReggae em Vigário Geral (e também em
outras favelas) pode ser considerada uma prática de educação
popular próxima da tradição da educação dialógica desenvol-
vida por Paulo Freire,6 onde o processo educacional se dá numa
relação de “mão dupla”, em que o “educador educa e é educado”.
Analisando a metodologia de trabalho que embasa a prática
das diversas oficinas culturais e artísticas, Zanetti aponta esta
relação de “cumplicidade” entre educador/educando como a
mola mestra de seu funcionamento.

Além das oficinas de trabalho permanente, como as de música,


teatro, dança, futebol, capoeira, a Batuque Legal (dirigida e
realizada por jovens moradores que ensinam novas turmas de
jovens e adolescentes) e a Trupe da Saúde, o AfroReggae oferece
cursos profissionalizantes como o Usina Musical. Em todas as
oficinas e cursos, afirma Zanetti, está posta a relação “dialó-
gica” de educação e de aprendizado – tanto para os dirigentes

6 ZANETTI, Lorenzo. A prática educativa do Grupo Cultural Afro Reggae. Publicação


conjunta GCAR/FASE/Fundação Ford, s/d.
144 História e Memória de Vigário Geral

como para os integrantes que nelas aprendem e praticam uma


arte ou um ofício.

Mas Zanetti admite que raramente os membros do AfroReggae


são chamados de “educadores”. Na verdade, eles não se vêem
assim. Eles se vêem mais como “empreendedores sociais”. E
disto advém uma enorme responsabilidade.

Esta responsabilidade é muito clara não apenas para José


Junior como também para os demais integrantes do grupo, da
banda e dos projetos sociais – tanto os mais velhos, fundadores
e iniciadores do movimento quanto os jovens que nele se agre-
garam e assumiram posição de liderança. Todos eles: Tekko, Zé
Renato, Negueba, Altair, Anderson, Vitor e muitos outros.

A responsabilidade social deriva do próprio objetivo definido


pelo AfroReggae: ganhar o coração e a adesão dos meninos e
meninas da favela, sobretudo aqueles em situação de risco;
oferecer-lhes uma alternativa de vida econômica, social e exis-
tencial; mostrar que é possível um outro caminho de vida – e
até de sucesso – através da arte e da produção cultural. Atrair,
servir de exemplo. Nesta disputa, o AfroReggae não poderia
vacilar, sua postura não poderia ser ambígua, nem leniente. É o
que o próprio Junior nos declara num trecho de seu livro:
Nada de drogas, bebida alcoólica ou tabaco. Além de fazer parte
de uma geração saúde, os jovens tinham que ser politizados e
conscientes do seu papel de artistas e empreendedores sociais.7

Eles deveriam ser responsáveis pela criação de uma nova cul-


tura local. E, efetivamente, foram. Hoje, em Vigário, as oficinas
e grupos de trabalho do AfroReggae não apenas criam música,
arte, coreografias, números e espetáculos, mas estimulam uma
nova forma de a favela se olhar e ser olhada não só pelo asfalto,
mas pelo mundo; uma nova forma de presença na mídia e um

7 JUNIOR, José, op.cit., p. 127.


O Afro Reggae em Vigário Geral 145

novo lugar em relação à cultura produzida na cidade. Vigário


Geral, a partir do AfroReggae, entrou no mapa da cultura do
Rio de Janeiro. Através de suas oficinas e cursos, o AfroReggae
mudou a vida de inúmeros jovens moradores da comunidade. E
para muitos deles abriu uma ampla janela para o Brasil e para
o mundo. Os jovens integrantes das bandas e das oficinas de
música, teatro e dança já se apresentaram em várias cidades
do Brasil, nos Estados Unidos e em vários países da Europa
(França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Itália). Não é à toa que
o nome do livro de Junior sobre a trajetória do Grupo Cultural
AfroReggae é justamente Da favela para o mundo. E desta aven-
tura participam muitos jovens de Vigário Geral.

Alguns integrantes do AfroReggae, muitos deles moradores


de Vigário, tornaram-se verdadeiros símbolos da comunidade.
Eles a representam na mídia, no Brasil e no mundo. Entre eles
o que talvez melhor encarne o espírito e a proposta artística do
grupo, bem como o trabalho desenvolvido na favela é Anderson
de Sá, vocalista da banda AfroReggae. Sua vida e sua trajetória
artística na banda viraram um filme feito por cineastas califor-
nianos, premiado no Brasil e no exterior: Favela rising.

Anderson, criado em Vigário Geral, segundo ele próprio conta,


passou perto do envolvimento com o tráfico de drogas. Como
ele diz, para muitos jovens moradores de favelas, andar com os
traficantes “dá prestígio dentro da comunidade”. Muitos adoles-
centes são atraídos para o tráfico exatamente por causa disso:
porque ele dá prestígio e poder. Anderson conta que, quando
moleque, andava com uma galera que era identificada com o
tráfico de drogas:
(...) eu fui criado em Vigário, com essa tradição de galera, na época
tinha esses grupinhos e eu andava com a galera do cruzeiro, que é
uma galera que tem lá dentro de Vigário (...) nós éramos conside-
rados os caras de disposição dentro da favela, os caras que mais
146 História e Memória de Vigário Geral
O Afro Reggae em Vigário Geral 147

brigavam, os malucos na verdade, né, os caras que não tinham


medo de ganhar porrada, de levar tiro. E tinha um grande apadri-
nhamento dos traficantes, os traficantes tinham o maior orgulho
pela gente porque eram os caras que brigavam, eram os caras
que eles achavam que seria a nova geração do tráfico, alguns até
foram, morreram. Da galera que eu fiz parte, éramos dezesseis,
vinte, hoje vivos só tem uns seis, o restante tudo morreu.8

Anderson foi um dos jovens atraídos pelo trabalho artístico e


musical do AfroReggae. Hoje, vocalista famoso, personagem
de filme, morador querido na comunidade, é um dos principais
atores do projeto social do AfroReggae e, mais ainda, um dos
principais protagonistas das tentativas de mediação dos con-
flitos entre Vigário Geral e a vizinha Parada de Lucas.

Assim como Anderson, muitos moradores de Vigário que se


aproximaram do AfroReggae agora têm uma profissão, um pro-
jeto de vida, são bem sucedidos e se transformaram em exem-
plos para os mais jovens.

Hoje o AfroReggae é profundamente enraizado em Vigário Geral.


E participa, junto com a comunidade, do enfrentamento de seus
problemas e das tentativas de solução e mediação de seus
conflitos.

8 Entrevista de Anderson Sá. Núcleo de História Oral e Memória, Laboratório de


Estudos do Tempo Presente, IFCS/UFRJ. Projeto Vidas Cariocas.
148 História e Memória de Vigário Geral
O Afro Reggae em Vigário Geral 149
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Cap.08
A guerra
138

A
A
Em um domingo de 1983, duas equipes entraram em campo
para uma partida de futebol: um selecionado de Vigário e
outro de Lucas se enfrentaram em um jogo que marcaria dura
e longamente a vida de ambas as comunidades. Tudo indicava
ser um domingo de festa. Afinal, o futebol sempre foi uma das
principais – se não a principal – formas de lazer tanto de uma
quanto de outra comunidade. Por isso mesmo, o campo estava
cheio. Um jogo como aquele era um clássico e tinha tudo para
tornar-se inesquecível.

Todavia, de acordo com vários relatos, foi naquele local e


momento que teve início a guerra entre Vigário Geral e Parada de
Lucas. Um conflito que dura até hoje, mais de vinte anos depois
do jogo, e que já fez incontáveis vítimas de um lado e outro.

Uma versão da história já foi contada no livro Da favela para o


mundo.1 É evidente que os acontecimentos relativos àquelas
comunidades dizem respeito ao AfroReggae. Afinal, desde 1993
o grupo está presente em Vigário e desde 2001 em Lucas. O fato
de estabelecer suas bases em uma fronteira em permanente
conflito teve – e ainda tem - não poucos desdobramentos sobre
a história, o desenvolvimento das atividades e certamente as
perspectivas de atuação do AfroReggae.

1 Segunda edição do livro de José Junior, lançado em 2006 pela editora carioca
Ediouro.

160
A Guerra 161

De acordo com o livro, Vigário Geral e a favela vizinha, Parada


de Lucas, vivem em um clima de guerra civil alimentado pela
disputa dos pontos de venda de drogas. O início do conflito
é atribuído à já mencionada partida de futebol, que era, pelo
menos até ali, um dos principais motivadores da rivalidade
entre as comunidades.
Era 1983, e os dois times foram para a final de um torneio. O jogo
foi duro e terminou empatado. Veio então a disputa de pênaltis.
Na última cobrança do time de Parada de Lucas, o goleiro de
Vigário, chamado Geléia, defendeu. Um traficante de Lucas atirou
imediatamente: Geléia caiu morto, abraçado com a bola.2

A partir daí, as duas comunidades entrariam definitivamente em


conflito. Até 1993, quando selaram uma trégua, devido à forte
repercussão que a chacina alcançou, os combates eram extre-
mamente violentos, quase sempre com o recurso de armamento
de grosso calibre. Segundo relatos de quem viveu aquela época,
os dois lados teriam empregado recursos cruéis: tortura aos
“inimigos” capturados; estupro de moças e execução de rapazes
no lado ocupado; e até execução dos animais de estimação que
ousassem atravessar a linha divisória entre as comunidades.

Passadas mais de duas décadas do início do conflito, essas his-


tórias circulam como lendas de um lado e de outro da chamada
fronteira. Verdadeiras ou não, elas alimentam a desconfiança, a
hostilidade e o ódio recíprocos entre os moradores das comu-
nidades. Em conseqüência, a maioria dos personagens dessa
história, mesmo aqueles não ligados às facções do tráfico ou
ao crime de maneira geral e também os que não chegaram a
viver os momentos mais duros da guerra, acaba guardando
sentimentos hostis em relação aos seus vizinhos. Vizinhos que
sequer se conhecem, uma vez que, desde a fatídica partida de
futebol, a fronteira – salvo em raros momentos, os quais narra-
remos aqui – tem permanecido fechada.

2 Idem.
162 História e Memória de Vigário Geral
162
A Guerra 163

Certamente, a impossibilidade do convívio entre os moradores


de Vigário e de Lucas contribui para a geração de histórias,
mitos, que reforçam o sentimento de inimizade. Esse aspecto
e a crescente rivalidade entre as diferentes facções do tráfico
têm estimulado a difusão de estereótipos entre os moradores
dos dois lados da fronteira, configurando-se como um empe-
cilho às iniciativas que tentaram estabelecer novas formas
de sociabilidade, abrindo a fronteira e procurando criar ali um
espaço de convivência entre os moradores das comunidades.

A partir de relatos e depoimentos de pessoas ligadas às duas


favelas, podemos estabelecer três diferentes versões sobre a
mítica partida de futebol.

O conflito visto de Vigário

A maioria dos relatos, inclusive aqueles que informaram o livro


Da favela para o mundo, fala de um jogo difícil, cuja decisão
teria ido para os pênaltis, depois de renhido empate no tempo
normal. A penalidade decisiva teria sido defendida pelo goleiro
de Vigário, garantindo a vitória do time visitante, mas também
selando a sua sorte. Um tiro certeiro disparado por um dos trafi-
cantes ligados ao time rival que assistia à partida teria dado fim
à vida do jovem goleiro, à partida de futebol e à possibilidade de
paz entre as duas favelas.

Vigário Geral, em função da forma como o tráfico de drogas se


organizou no Rio de Janeiro, foi submetida ao poder da facção
conhecida como Comando Vermelho. Mais que isso, foi por muito
tempo uma espécie de quartel-general da facção, uma referên-
cia na cidade, tornando-se famosa pela força que o narcotráfico
adquiriu, sobretudo a partir da década de 1980. Seu Nilson, um
dos moradores mais antigos de Vigário Geral, em depoimento
para o livro Da favela para o mundo, confirmava: “Vigário passou
a ser violenta na década de 80, com a chegada do tráfico e o
começo da guerra com Lucas”.
164 História e Memória de Vigário Geral

Um outro depoimento interessante e diferente sobre aquela


época é o de Afif Mamede. Ostentando nome derivado de sua
ascendência árabe, Mamede morou no bairro de Parada de Lucas
nos anos 1960, na rua Balduíno de Aguiar. Depois casou-se e, em
1971, mudou-se para a rua Bulhões Marcial, em Vigário Geral,
no endereço onde hoje funciona um ferro-velho. Trabalhava
como motorista de táxi. Talvez por ter morado tanto em Lucas
como em Vigário, o relato de Mamede incorpora elementos
das versões correntes nas duas comunidades e apresenta, de
certa forma, uma terceira versão para os acontecimentos. Ele
fala de um tempo em que o tráfico de drogas propriamente dito
era ainda muito fraco. O crime organizado, na época, referia-se,
essencialmente, à prática de assaltos e roubos.

Embora sua memória não lhe permita apontar as datas com


precisão, Mamede se refere provavelmente à segunda metade
da década de 1970. As conclusões de cientistas sociais e
demais pesquisadores que estudam a criminalidade na cidade
confirmam essa impressão de Mamede. Segundo Michel Misse,
apesar de não haver estatísticas confiáveis de fonte policial em
relação ao período anterior a 1977,
(...) é significativo que, na área da delinqüência juvenil, para a
qual existem estatísticas desde o início dos anos 60, se verifique
uma extraordinária mudança de padrão de infrações a partir da
primeira metade dos anos 70. O furto, infração amplamente domi-
nante até o início dos anos 70, vai sendo substituído tendencial-
mente pelo roubo, a partir do mesmo período, até que as curvas
se invertam em meados dos anos 80. A queda na curva de roubo,
a partir do auge de 1985, coincide com o período de crescente
visibilidade (e efetiva ampliação) do tráfico de drogas nas áreas
urbanas pobres.3

Mamede assistiu de perto ao crescimento do tráfico de drogas


nas comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas. Conheceu,

3 MISSE, Michel. “As ligações perigosas: mercado informal ilegal, narcotráfico e


violência no Rio de Janeiro”. In ContemporaneIdade e educação, v. 1, no 2.
A Guerra 165

quando ainda eram crianças, homens que mais tarde se transfor-


maram em grandes bandidos e personagens da crônica criminal
– “Eu peguei no colo Marcinho VP, eu peguei no colo o Robson
Caveirinha.” –, acompanhou os conflitos, as guerras e as perdas
que fazem parte desse universo.

Mamede recorda que, no início da década de 1970 já existiam


nas duas favelas os chefes do tráfico de drogas local. Mas as
favelas ainda não eram dominadas pelas facções ou comandos
como acontece hoje.

Na época, segundo ele, os moradores ainda podiam passar de


um lado para o outro, sem serem incomodados. Ele não lembra
em que momento exatamente a situação começou a mudar,
mas garante que os conflitos entre Vigário e Lucas remontam a
uma época anterior a 1983, portanto, antes mesmo da famosa
partida de futebol. “Já havia umas rixazinhas”, afirma.

Para Mamede, as guerras têm a ver com os bailes funk. Mas


não apenas a guerra de hoje. Em sua opinião, também as rixas
anteriores à partida de futebol tiveram origem no baile do
União. Embora o atual presidente do clube, Paulo Roberto Júlio
de Moraes, mais conhecido como Bolinha, conteste a informa-
ção. Bolinha faz parte da vida do clube há aproximadamente 50
anos (esta é a sua quinta gestão como presidente) e nega que
acontecesse qualquer tipo de conflito no local, ainda mais entre
moradores de Vigário e Lucas, uma vez que estes últimos não
freqüentavam o União: “Tinha, sim, entrevero no baile do Pavu-
nense.4 Aqui a galera de Lucas nunca veio”.5

Mesmo que o União não tenha sido um dos focos do conflito


entre as comunidades, o fato é que em 1983, de acordo com
o relato de Mamede, os comandos do tráfico já estavam esta-
belecidos nas comunidades – Vermelho, em Vigário; Terceiro,

4 Conhecido clube do bairro da Pavuna, na Zona Norte do Rio de Janeiro.


5 Depoimento de Paulo Roberto Júlio de Moraes (Bolinha) a Ecio Salles.
166 História e Memória de Vigário Geral
A Guerra 167

em Lucas. Quando o jogo foi marcado, histórias de trairagem,6


pequenos conflitos e escaramuças já faziam parte do cotidiano
do crime naquelas comunidades.

E quanto ao jogo?
(...) O jogo de futebol... Eu tô lá em Lucas, (eu ficava dos dois lados,
não queria nem saber). Os caras de Lucas me falaram: “O pessoal
de Vigário pode vir que a gente tá esperando. A hora que eles vier
a gente toma aquilo”. Aí eu cheguei perto do Niltinho, o escuro,
(tinha dois Niltinho, o branco e o preto) e falei: “Ó, cuidado, que
eles vão convidar vocês para um jogo aí, é crocodilagem.7

Segundo o relato de Mamede, mesmo antes do jogo já não era


possível atravessar a fronteira de Vigário para Lucas e vice-
versa. Mas, a partir daí, sem dúvida, a condição se agravou bas-
tante. Na seqüência do episódio, houve tentativas recorrentes
de invasão de um lado e de outro, duas delas de maior enverga-
dura. Retornaremos a esse tema adiante.

Em agosto de 1993, com a chacina de Vigário Geral, foi decre-


tada uma trégua na guerra que, àquela altura, completava 10
anos. Conforme lemos no livro Da favela para o mundo, “até os
bandidos da facção rival ficaram indignados com a barbárie e
propuseram um período de paz”.

De qualquer forma, pela primeira vez em mais de uma década,


as duas favelas conheceram um período de relativa paz, no que
se refere ao conflito entre ambas. Um período que duraria não
mais que sete anos.

O conflito visto de Lucas

De Lucas, como era de se esperar, vê-se outro conflito, narra-se


outra história. De início, sob esse ponto de vista, o jogo não ter-

6 Gíria popular que se refere à traição.


7 Depoimento de Afif Mamede a Ecio Salles.
168 História e Memória de Vigário Geral

minou empatado nem houve disputa de pênaltis. Nesta versão,


o jogo não terminou porque foi interrompido pelos disparos.
Na verdade, a partida mal tinha começado quando um grupo
armado saiu do mato em torno do campo atirando. Um dos dis-
paros atingiu o goleiro do time de Vigário, que morreu no local.

Quem narra essa história é seu Antônio de Souza, 51 anos,


morador de Parada de Lucas desde 1965. Ele era uma das
pessoas que assistia à partida entre a seleção de Lucas e a de
Vigário Geral. Acomodado próximo a uma das balizas, seu Antô-
nio correu para se proteger assim que percebeu os tiros, mas
foi alvejado por um tiro de 38 no tornozelo, que lhe rendeu uma
ferida que perdura até hoje.

A partida foi marcada no principal campo de Lucas, palco de


memoráveis peladas dos times “luquenses”. Entre os jogadores,
nomes famosos na comunidade vieram à lembrança de seu
Antônio, como Cueca, Betinho e, na ponta-direita, Robertinho,
o chefe do tráfico no local. Para Antônio, o jogo foi uma inicia-
tiva de Lucas, que queria aproveitar a ocasião para “fazer a paz
entre os dois lados”.

Essa informação é interessante, porque se a partida tinha o fim de


selar a paz, isso significa que a situação de conflito já estava dada
mesmo antes do jogo. É possível que a partida, ou o seu resultado
dramático, tenha acirrado os ânimos e agravado a rivalidade, tor-
nando a situação insustentável a partir dali. É importante notar
que neste ponto o depoimento de seu Antônio se aproxima da
fala de Mamede. Os dois relatos apontam para a existência de um
contexto de hostilidade anterior à data da partida.

A fala de seu Antônio reforça esta idéia em mais de um momento.


Em primeiro lugar, ele conta que não houve a disputa de pênaltis
relatada na versão difundida em Vigário. A partida ainda estava
nos dez minutos iniciais quando foi marcada uma falta a favor
de Lucas. Um dos jogadores do time cobrou e fez o gol.
A Guerra 169

O tiro começou quando o pessoal de Lucas fez o gol. Saiu um mon-


tão de gente de dentro do mato atirando. Foi na comemoração do
jogador de Lucas, se abraçando e tudo. Aí foi quando surgiu aquele
pessoal tudo de dentro do mato, atirando. Aí, ninguém sabe se foi
de Lucas ou de Vigário, mas provavelmente era de Vigário.8

Dessa forma, a partida teria sido encerrada por volta dos dez
minutos de jogo, com o placar 1 x 0 para o time de Lucas. O
goleiro não teria conseguido defender o chute e teria sido alve-
jado por um tiro ao abaixar-se para apanhar a bola. Como lem-
bra seu Antônio: “Ninguém sabia de onde vinham os tiros. Se era
daqui, se era de lá. E tornou-se um bangue-bangue”.

Segundo ele, a imensa maioria dos torcedores presentes à par-


tida naquele dia era de moradores de Parada de Lucas, “o que
tinha de Vigário era muito pouca gente”. O que o levou a intuir
que os traficantes de Vigário haviam preparado uma armadilha,
aproveitando a descontração do jogo, para invadir Lucas, ou
executar o chefe do tráfico local, conhecido como Robertinho.

Seu Antônio conta que, como o campo estava cheio, muitas


pessoas se feriram durante o tiroteio. Não sabe se mais alguém
morreu, mas lembra que havia diversas pessoas baleadas no
mesmo hospital para onde ele foi levado pela esposa, após ser
retirado do barranco no valão onde havia se escondido com um
colega. As conseqüências do conflito só não foram mais graves,
certamente, devido à intervenção dos militares do Centro de
Reparos e Suprimentos Especiais do Corpo de Fuzileiros Navais,
mais conhecido pelos moradores como “o quartel da Marinha”,
localizado em frente a Lucas. Os soldados foram armados e em
grande número ao local, repelindo os traficantes e fazendo ces-
sar o tiroteio, o que permitiu o socorro às vítimas e garantiu o
cessar-fogo, pelo menos por algum tempo.

8 Depoimento de seu Antônio de Souza a Ecio Salles.


170 História e Memória de Vigário Geral

Água e café

Em 1996, três anos após a chacina, as favelas de Vigário e Lucas


foram ocupadas pela polícia. Ocupações policiais em favela
seguem uma triste rotina no Rio de Janeiro. Arbitrariedade,
violência, abuso de poder é o mínimo que se costuma concluir
sobre as características da ação policial nessas comunidades
cariocas. Como relatado no capítulo IV, o mais comum é a “ação
policial brutal e abrangente que não leva em conta as diferen-
ças existentes (...) entre trabalhadores e bandidos que habitam
o mesmo bairro/favela ou bairro/comunidade”.9

Em 1996, no entanto, foi diferente. Era o governo Garotinho e o


secretário de Polícia Civil era Hélio Luz. Nesse ano, sob a coor-
denação do chefe do Setor de Investigações da 6a DP, inspetor
Marcos Pedra, foi implementada em Vigário Geral e Parada de
Lucas a Operação Resgate II10 (a Resgate I tinha sido implemen-
tada em Acari, após a morte do traficante local Jorge Luiz).

Segundo depoimento do inspetor Marcos Pedra, a Operação


Resgate tinha o objetivo de ir além da tarefa policial repressiva.
Buscava também auxiliar nas necessidades da população das
favelas – “Uma criança que cai; um remédio que precisa ser
ministrado; um marido que chega em casa alcoolizado e agride
a esposa”11 – e sempre respeitando os direitos desses morado-
res. Em resumo, tratava-se de preencher a lacuna deixada pelo
Estado nas favelas, atuando com respeito ao cidadão.

Nos 45 dias em que as equipes de policiais permaneceram


em Vigário Geral, foram registrados poucos casos de trocas
de tiros; efetuaram-se algumas prisões, sempre de indivíduos
realmente procurados pela Justiça e não houve registro de uso
da violência contra os moradores. Ao contrário, o grupo de poli-

9 Trabalho da professora Rosilene Alvim, reproduzido no cap. IV.


10 Na verdade, havia muitas equipes de policiais envolvidas na operação, o inspe-
tor Marcos Pedra era o coordenador de uma delas.
11 Depoimento do inspetor Marcos Pedra a Ecio Salles.
A Guerra 171
172 História e Memória de Vigário Geral

ciais que ocupou a favela distribuiu material escolar, organizou


eventos, restaurou o serviço de iluminação pública, entre outras
ações do gênero.

Um momento marcante e representativo do espírito que orien-


tou essa operação foi um evento organizado pela equipe do
inspetor Marcos Pedra no CIEP Mestre Cartola, na divisa entre
Vigário e Lucas: “Jogos de Integração”. Reunindo serviços volta-
dos para o exercício da cidadania (implantação de um posto do
Instituto Félix Pacheco, para emissão de carteira de identidade;
equipes médicas, que realizaram classificação de grupo sangü-
íneo, entre outros).

Realizado em 1º de dezembro de 1996, mobilizando parcerias


com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro
(Firjan) e a Sony Music, entre outras empresas ou instituições,
o evento não contou apenas com esses serviços, mas promoveu
apresentações artísticas, como a de Dominguinhos do Estácio;
sorteio de bicicletas, CDs e outros brindes; distribuição de revis-
tas (doadas pela Editora Globo) e... um baile funk, promovido pela
Furacão 2000, com as presenças dos então donos desta equipe
de som, Rômulo e Verônica Costa.12 Como relata Marcos Pedra:
(...) quando se fala em proibir o baile funk, a polícia promoveu um
baile funk. Porque o funk em si é um dos gêneros que você tem
que respeitar. É a cultura local, daquele cidadão que aprecia esse
tipo de música.13

O ponto alto da operação foi o fato de a polícia ter tido êxito


em penetrar no cotidiano da favela, ter conseguido contrariar o
lugar comum da “ocupação” militar através da violência e, com
isso, ter conseguido o respeito da comunidade.

O inspetor Marcos Pedra conta que, certa noite, ele, à frente de


um grupo de policiais armados, entrou em uma rua e avistou uma

12 Rômulo e Verônica se separaram em 2002. Rômulo continua à frente da Furacão


2000. Verônica fundou a sua própria equipe, a Glamurosa.
13 Depoimento do inspetor Marcos Pedra a Ecio Salles.
A Guerra 173

casa onde estava acontecendo uma festa. Quando eles passa-


ram, o som silenciou e as pessoas ficaram apreensivas. Marcos,
então, cumprimentou o grupo – “Boa noite” – e informou que as
pessoas podiam continuar a festa, que eles estavam ali apenas
para garantir a segurança dos moradores. Depois continuou a
marcha, sendo interrompido pelo dono da casa, que ofereceu
salgados e refrigerantes aos policiais. Em outra ocasião, durante
o dia, um senhor idoso, morador da favela, ao passar em frente
ao grupamento de Marcos Pedra, discretamente deixou cair
uma bolinha de papel amassado. O inspetor percebeu o movi-
mento, pisou sobre a bolinha e a apanhou algum tempo depois.
Era uma denúncia de onde os traficantes estavam malocados,14
vendendo drogas.

Recentemente, em entrevista ao Espaço Aberto, apresentado


pela jornalista Miriam Leitão, no canal Globo News, José Junior
mencionou esse episódio. Ele participou do programa ao lado
da pesquisadora Silvia Ramos, que tinha acabado de lançar o
livro Elemento suspeito,15 escrito em parceria com a antropó-
loga Leonarda Musumeci, que trata justamente do comporta-
mento preconceituoso da polícia em relação aos cidadãos. Na
ocasião, Junior declarou:
Pela primeira vez eu tinha visto, em Vigário e Parada de Lucas, os
moradores darem água e café para os policiais.

As coisas quando têm que acontecer, realmente têm muita


força. E acontecem sempre no momento certo. Em 1996 o ins-
petor Marcos Pedra esteve na sede do AfroReggae, que à época
ficava na rua Senador Dantas, no Centro, e conversou com José
Junior e Luiz “Tekko Rastafari” Lopes sobre a possibilidade de o
grupo participar das atividades propostas pela polícia. Naquele
momento, eles preferiram não participar. Afinal, ainda havia

14 Gíria popular que indica esconderijo.


15 RAMOS, SIlvia e MUSUMECI, Leonarda. Elemento suspeito: abordagem policial
e discriminação na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
2005.
174 História e Memória de Vigário Geral

muitos ressentimentos na comunidade desde o episódio da


chacina e o AfroReggae estava dando os primeiros passos, tinha
apenas três anos de existência.

Seis anos depois, o AfroReggae, entre inúmeros outros projetos,


passaria a desenvolver uma parceira com a Polícia Militar de
Minas Gerais – o Projeto Juventude e Polícia – que, além de
pioneiro, tem obtido resultados absolutamente positivos na
criação de uma relação menos preconceituosa entre polícia e
jovens das favelas, investindo na cultura como forma de apro-
ximação e reconhecimento entre esses dois universos. Uma
experiência tão importante, que já está se desdobrando em
outros projetos parecidos, por exemplo, na Polícia Militar do Rio
de Janeiro (PMERJ). Um dos aspectos dessa nova relação é a
parceria entre a Banda AfroReggae e a Banda 190, da PMERJ.
Elas têm se apresentado juntas em diferentes eventos e, em
2006, participaram do programa Caldeirão do Huck, na TV Globo,
interpretando a canção Imagine, de John Lennon. Um aconteci-
mento que permite imaginar, como diz a letra da canção, “a bro-
therhood of men/ imagine all the people/ sharing all the world”
(“uma fraternidade de homens/ imagine todas as pessoas/
compartilhando o mundo inteiro”).

Amor em tempos de guerra

Mesmo nos tempos difíceis, nos piores momentos de guerra,


é possível brotar esperança de dias melhores, momentos de
amor e liberdade. Por exemplo, na guerra entre Israel e Pales-
tina a hostilidade é tamanha que transcende o contexto dos
governos, dos exércitos, dos conflitos bélicos. A linguagem se
torna igualmente bélica, contagia as pessoas, o ódio se mostra
uma força inexorável, uma verdade insuperável. Assim, judeus
e palestinos se odeiam mutuamente, de forma que o diálogo
se torna inviável. A fronteira dos afetos também se fecha e é
vigiada constantemente por barreiras de preconceito, intole-
rância, ignorância e outros interesses mesquinhos.
A Guerra 175

Mesmo assim, um judeu e um palestino resolveram dialogar. Em


1999 o escritor e crítico literário palestino Edward Said16 (autor
de clássicos como Orientalismo e Cultura e Imperialismo) e o
regente e pianista judeu, nascido argentino e cidadão israelense,
Daniel Barenboim criaram uma orquestra, a West-Eastern Divan.
A orquestra reúne jovens músicos de Israel, da Palestina e de
outras nações árabes, além de um grupo de espanhóis da Anda-
luzia, onde judeus e muçulmanos conviveram até o século XV.

Resultado de oficinas de música desenvolvidas por Barenboim


e Said, a West-Eastern Divan, que se apresentou no Brasil pela
primeira vez em 2005, procura criar, através da música, uma
forma de diálogo entre culturas diferentes. No caso, entre cul-
turas que há muito tempo vivem em conflito.

Em um contexto diferente, mas igualmente dominado por hos-


tilidades duradouras, surgiu na fronteira entre Vigário Geral e
Parada de Lucas um projeto que visava desconstruir, mais uma
vez, a lógica do fechamento, do isolamento e da imobilidade
que dominava aquele território, tão hostil que recebeu apelidos
significativos: “Vietnã”, num primeiro momento (é assim que a
área é referida por Zuenir Ventura, em Cidade partida17); e, mais
recentemente, “Faixa de Gaza” – remetendo à área conflagrada
entre Israel e Palestina.

O próprio nome do projeto já buscava unir, nas palavras, as comu-


nidades separadas por uma linha imaginária: “Parada Geral”. A
idéia surgiu a partir da peça Antônio e Cleópatra, de Shakes-
peare, que estava sendo montada pelo dramaturgo inglês Paul
Heritage,18 no âmbito de um projeto denominado “Amor em tem-

16 Infelizmente, Edward Said faleceu em 2003.


17 VENTURA, Zuenir, op. cit.
18 Paul Heritage é professor da London School of Theatre. Desenvolve no Brasil
há vários anos, o projeto Direitos Humanos em Cena, levando oficinas de teatro
para detentos do sistema penitenciário brasileiro de diversos estados. É fundador
e diretor-presidente do People´s Palace Project, ONG que utiliza a arte para imple-
mentar projetos de desenvolvimento social, com especial atenção para os Direitos
Humanos (cf. www.peoplespalace.org.br/default.asp).
176 História e Memória de Vigário Geral

pos de guerra”. Como narra em seu livro Da favela para o mundo,


depois de assistir a um ensaio da peça em um teatro de um bairro
nobre carioca, Junior idealizou a apresentação da peça em uma
favela, bem na fronteira entre Vigário e Lucas.

Desse modo, Antônio e Cleópatra foi apresentada no dia 8 de


junho de 2004 na zona de conflito entre as comunidades de
Vigário Geral e Parada de Lucas, no CIEP Mestre Cartola. O
evento fez parte do contexto do Parada Geral, desenvolvido pelo
AfroReggae em parceria com a ONG People´s Palace, O evento
contou com a participação da banda AfroReggae, de Adriana
Calcanhoto, dos atores Maria Padilha, Chico Diaz e Ricardo Blat,
entre outros.

O Parada Geral não se restringiu à peça. Na verdade, reuniu ati-


vidades diferentes, procurando transformar a área em conflito
em um corredor cultural. José Junior, em seu livro, explica os
principais resultados do projeto:
A trégua durou dezoito dias. Nesse período aconteceram partidas
de futebol, animação infantil do Tio Carlos,19 que esteve presente
pessoalmente em todos os momentos mais tensos e complicados,
grafite com o grupo Nação e a implantação das oficinas de teatro
e história em quadrinhos em parceria com o People’s Palace, ofici-
nas de percussão e capoeira. As células se proliferaram e até hoje
não param de se multiplicar. Nesse período, dava orgulho andar
ao lado do Vitor.20 Por onde passávamos, seja na parte de Lucas,
seja na de Vigário, as pessoas diziam: “Olha o cara da paz”.21

Todo o processo de realização do projeto foi descrito de forma


mais eloqüente e detalhada na segunda edição do livro Da favela
para o mundo e no documentário Shantytown Shakespeare.22

19 Famoso animador de festas infantis do Rio de Janeiro.


20 Um dos mais conhecidos dirigentes do Afro Reggae.
21 JUNIOR, José, op.cit.
22 Documentário dirigido por Kristine Clarke, e que narra todo o processo de pro-
dução da encenação da peça Antônio e Cleópatra, de William Shakespeare, com
direção de Paul Heritage, na fronteira entre Vigário e Lucas, desde sua germinação
até a noite da apresentação.
A Guerra 177

De qualquer forma, fica aqui uma síntese de um momento


importante. Um dos raros momentos de paz e diálogo entre
Vigário Geral e Parada de Lucas.

Invasões e retaliações

Após a chacina de 1993, houve uma trégua de sete anos entre os


comandos de tráfico rivais de Vigário Geral e Parada de Lucas.
No ano 2000, no entanto, as hostilidades voltaram a acontecer
e se intensificaram. Primeiro, através de pequenas escaramu-
ças e de boatos envolvendo moradores das duas comunidades.
Foi nessa época que correram boatos de que até o Grupo Cul-
tural AfroReggae seria atingido por ataques vindos do tráfico
de Lucas. De qualquer forma, o esclarecimento dessa história
resultou na criação de um núcleo do AfroReggae em Parada de
Lucas, onde permanece até hoje.

Entre 2000 e 2005 bandidos ligados aos diferentes comandos


de tráfico de drogas com bases em Vigário Geral e em Parada de
Lucas promoveram ameaças, invasões, seqüestros e assassi-
natos nas duas comunidades.

Em 2005 a história do conflito entre os traficantes de Vigário


Geral e Parada de Lucas conheceu um de seus episódios mais
dramáticos. Em duas oportunidades, os traficantes de Lucas
invadiram Vigário. Na primeira vez, ficaram dois dias. A polícia
entrou, ocupou Vigário, obrigando a retirada dos bandidos de
Lucas. Os traficantes de Vigário se refugiaram no Dique, uma
comunidade próxima dali e depois voltaram aos poucos. Mas a
invasão foi traumática para a população de Vigário Geral. Muitos
moradores, temendo a violência, abandonaram a comunidade e
suas casas – que eram saqueadas pelos bandidos de Lucas.

Em seguida, no final de 2005, um novo ataque dos traficantes


de Lucas resultou no desaparecimento de oito jovens de Vigário,
cujos corpos (pelo menos até a publicação deste livro) jamais
178 História e Memória de Vigário Geral

foram encontrados. Segundo matéria do jornal O Globo, de 25 de


janeiro de 2006:
Dos oito jovens levados - e que ainda estão desaparecidos – a
polícia diz ter absoluta certeza de que pelo menos dois não
tinham qualquer relação com o tráfico de drogas. Mesmo assim,
disse o delegado da 38ª DP [Brás de Pina], Marcos Neves, os dois
foram submetidos a torturas.

Segundo informaram os policiais que acompanharam a investi-


gação do caso, os corpos podem ter sido esquartejados e joga-
dos aos porcos ou no rio que margeia a comunidade. A mãe de
um dos desaparecidos, que preferiu não se identificar, declarou
ao mesmo jornal que o crime não teria solução, porque as víti-
mas “foram os filhos de umas marias-ninguém de Vigário Geral.
Se fosse alguém importante, já teriam encontrado”.23

Ainda no contexto do conflito de 2005, um episódio marcou pro-


fundamente a experiência do AfroReggae nas favelas cariocas.
Em meio à apreensão gerada pela invasão, um boato absurdo
circulou entre Vigário e Lucas. Em Da favela para o mundo,
Junior nos conta:
Diziam que o Anderson estava armado de fuzil e pistola, com a
camisa do AfroReggae amarrada na cabeça, agredindo os mora-
dores de Parada de Lucas. A infâmia foi tamanha que disseram
que ele havia seqüestrado vinte moradores de Parada de Lucas e
estuprado uma menina.24

Insuflados pelo boato, moradores de Parada de Lucas ameaça-


ram diretamente a vida de seis jovens do AfroReggae – Altair,
Anderson, Dada, Vítor, Samuel e Leandro. Felizmente, no final a
verdade prevaleceu e todos saíram ilesos do episódio. Essa his-
tória foi narrada em detalhes no livro e referida nos documen-

23 Jornal O Globo. “Oito desaparecidos de favela foram mutilados”, 25 de janeiro


de 2006.
24 JUNIOR, José, op.cit.
A Guerra 179

tários Favela rising e Nenhum motivo explica a guerra.25 E terá


grande destaque em um filme que está sendo feito com direção
de Estevão Ciavatta que aborda especificamente o tema media-
ção de conflitos. De qualquer forma, as palavras de Junior são
importantes para resumir o final desse caso:
Depois de tudo isso, o AfroReggae cresceu e se fortaleceu nas
duas comunidades – Vigário e Lucas – reforçando seu compro-
misso com a favela e a legitimidade de sua atuação nesse espaço.
E aprofundou ainda mais sua presença no contexto social mais
abrangente, no qual estamos inseridos. Anderson e Vítor são hoje
símbolos vivos desse nosso engajamento.26

Um engajamento que aposta na possibilidade do diálogo.


Este é o desejo e a meta não só do AfroReggae, mas também
dos autores deste livro e de todas as pessoas – moradores,
ex-moradores, professores, alunos, artistas e intelectuais que
contribuíram para a sua realização.

25 Documentário, disponível em DVD, dirigido por Cacá Diegues e Rafael Dragaud.


Registra um show da banda AfroReggae gravado no Circo Voador, no Rio de Janeiro.
Traz ainda registros de integrantes do AfroReggae, revelando a vivências dos funda-
dores e as experiências dos integrantes e recém-chegados ao grupo.
26 Depoimento do inspetor Marcos Pedra a Ecio Salles.
180 História e Memória de Vigário Geral
181
Conclusão
“O que pode a história nos dizer sobre a sociedade contempo-
rânea?” Com esta pergunta o historiador inglês Eric Hobsbawm
começa um capítulo de seu livro Sobre história.1
É inevitável fazer comparações entre o passado e o presente:
é essa a finalidade dos álbuns de fotos de família e dos filmes
domésticos. Não podemos deixar de aprender com isso, pois é o
que a experiência significa.2

Para Hobsbawm, podemos até mesmo aprender coisas erradas


– mas não podemos deixar de recorrer ao passado para tentar
entender a nós mesmos, no tempo presente. E, segundo ele, os
“historiadores são o banco de memória da experiência”.3

Este foi o objetivo deste livro: resgatar memórias e compor uma


história a partir delas, a história de Vigário Geral – a trajetória
da comunidade e de seus moradores. Nossa proposta era rea-
lizar um cruzamento entre a história do país, a da cidade e a da
comunidade, para que os moradores se reconheçam no que é
contado aqui.

1 HOBSBAWM, Eric. Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
2 Idem.
3 Idem.
Nos últimos anos, em várias favelas e bairros populares têm
se desenvolvido uma consciência que valoriza a trajetória da
comunidade, sua cultura, sua memória, seus marcos históricos,
seus personagens e que busca a inserção desta memória na
história oficial da cidade. O trabalho da Rede Memória, desen-
volvido pelo Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, é um
bom exemplo deste tipo de iniciativa. Sites na Internet como o
“Observatório de Favelas” e o “Favela tem memória” comparti-
lham esta preocupação e esta postura.

Sabemos que muitas vezes a vivência da população em seus


bairros de periferia, e em comunidades populares, não é levada
em conta na construção da memória da cidade. Muitas vezes
estas vivências terminam por se constituir como vozes e expe-
riências periféricas, à margem da memória oficial da cidade e
da história contada nos livros. Nos últimos anos, no entanto,
os historiadores têm tido uma especial preocupação em trazer
à tona estas memórias, estas experiências, esta vivência. E
fazer com que elas se integrem à narrativa oficial da história
da cidade e do país. A equipe que trabalhou nesta pesquisa faz
parte deste movimento.

Esperamos que este livro possa ser usado nas escolas de Vigário
Geral por jovens estudantes que estejam lendo e aprendendo
sobre a História do Brasil. Porque a história de um país, na
verdade, é feita assim: pela curiosidade de seus jovens e pelas
lembranças de seus velhos.
184
185
Referências
bibliográficas

Fontes primárias e documentos oficiais:


Depoimentos – Núcleo de História Oral e Memória/UFRJ
Senhor Nilson – entrevista realizada em 17/01/2004
Senhor Lins – entrevista realizada em 13/03/2004
Senhor Farides – entrevista realizada em 19/06/2004
Senhor José Emídio – entrevista realizada em 24/07/04
Senhor Denair – entrevista realizada em 31/07/2004
Elaine Araújo de Moraes – entrevista realizada em 28/08/2004
Professora Marcy – entrevista realizada em 10/03/2005

Entrevistas realizadas por Ecio Salles para o capítulo 04 “A Guerra”:


Afif Mendes
Antônio de Souza
Inspetor Marcos Pedra
Paulo Roberto Julio de Moraes (“Bolinha”)

Relatório específico de favelas. SABREN 6.0 (Sistema de Assentamentos de


Baixa Renda). Instituto Pereira Passos

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Arquivos de


Microdados do Censo Demográfico 1991 e Contagem da População 1996.

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Documentários:
Favela rising (2005), de Matt Mochary e Jeff Zimbalist
Nenhum motivo explica a guerra (2006), de Cacá Diegues e Rafael Dragaud
Imagens:
índice e créditos
APRESENTAÇÃO:
P. 14 PASSARELA que separa a comunidade Vigário Geral do bairro
Vigário Geral. Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos do AfroReggae.

CAP. 01:
PP. 22-23 CASAS DA COMUNIDADE. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivos do AfroReggae.
P. 30 QUADRA em Vigário vista da passarela.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P. 33 PASSARELA em Vigário. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivos AfroReggae.
P. 35 DETALHE DE POSTE. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivos AfroReggae.

CAP. 02:
P. 43 Sede do MOGEC. Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008.
PP. 44-45 Trabalho na Fundação ONDA AZUL.
Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008.
PP. 46-47 POSTO DE SAÚDE. Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008.
P. 48 FRONTEIRA entre a linha do trem e o Beco do Namoro.
Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008.
PP. 50-51 A BEIRA. Foto: Rodrigo Gorosito, 2008.
PP. 52-53 Arredores da CRECHE. Fotos: Nicola Draucolis.
P. 55 QUADRA POLIESPORTIVA onde acontecem treinos das
oficinas do AfroReggae. Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008.
P. 58 ENCHENTE em Vigário Geral em janeiro de 1966.
Foto: Milton. Arquivo Nacional, acervo Correio da Manhã.
P. 62 PROPAGANDA de apoio de Luís Carlos Prestes a Juscelino e
Jango. Foto: Acervo da família de Luís Carlos Prestes.
P. 65 CASAS na comunidade. Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P. 66 CASAS na comunidade. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivo AfroReggae.
CAP. 03:
P. 77 SEU NILSON concedendo depoimento.
Foto: equipe de alunos da UFRJ.
PP. 86-87 ASSEMBLÉIA para a criação da Comissão de Luz em 1962.
Arquivo do seu Naildo.
PP. 92-93 Moradores realizando LIMPEZA DE VALAS em regime de
mutirão. Arquivo do seu Naildo.
P. 94 SEU LINS concedendo depoimento.
Foto: equipe de alunos da UFRJ.
P. 97 MORADORES carregam seus pertences na enchente de
1966. Foto: Erno. Arquivo Nacional,
acervo Correio da Manhã.
P. 99 MORADORA NA ENCHENTE de 1966. Foto: Erno. Arquivo
Nacional, acervo Correio da Manhã.
PP. 100-101 APURAÇÃO DAS ELEIÇÕES de 1962 para a diretoria da
Associação de Moradores. Arquivo do seu Naildo.
Fonte: http://sti.br.inter.net/rafaas/regmilbra/images/.
P. 104 JOÃO GOULART no COMÍCIO DA CENTRAL do Brasil,
em 13 de março de 1964.
P. 107 COMÍCIO DIRETAS JÁ. Após as manifestações de abril,
cerca de 30 mil pessoas voltaram ao Centro do Rio de
Janeiro para reivindicar eleições diretas em 27 de junho
de 1984. Foto: Evandro Teixeira/CPDoc JB.

CAP. 04:
P. 115 COMÍCIO DIRETAS JÁ na Praça da Candelária que reuniu
mais de 800 mil pessoas em 10 de abril de 1984. Foto:
Almir Veiga/CPDoc JB.
P. 121 BRIZOLA em campanha eleitoral. Foto: klepsidra.net
P. 130 CIEP Mestre Cartola. Foto: Rodrigo Gorosito, 2008.
P. 131 CRIANÇA EM FRENTE A UM MURO FURADO POR BALA.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P.134 Detalhe de foto. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivos AfroReggae.
P.135 CIEP MESTRE CARTOLA na fronteira que separa Vigário
Geral de Parada de Lucas. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivos AfroReggae.
Cap. 05:
P.140 SEDE do Núcleo Comunitário de Cultura do AfroReggae em
Vigário. Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P..146 Ensaio de um grupo no Centro de Lazer Vila Nova.
Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008.
PP.148 149 ENSAIO de grupos do AfroReggae.
Fotos: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
PP.150 -151 ENSAIO da oficina de dança do AfroReggae.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P.152 ENSAIO de um grupo no Centro de Lazer Vila Nova.
Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008.
P.153 AFRO LATA, um dos grupos artísticos do AfroReggae.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P.154 155 TRIBO NEGRA, um dos grupos artísticos do AfroReggae.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P.156 OFICINA DE PERCUSSÃO do AfroReggae.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P.157. No topo: Detalhe de MENINAS de um grupo do AfroReggae.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae. Na parte
inferior: Detalhe de aula da oficina de dança do AfroReggae.
Foto: Rodrigo Gorosito, 2008.

Cap. 06:
P.163. Detalhe da quadra de areia do CENTRO DE LAZER VILA NOVA.
Foto: Rodrigo Gorosito, 2008.
P.166. Na parte superior: CASA FURADA POR BALAS localizada na
chamada “Faixa de Gaza”, a fronteira entre Vigário e Parada
de Lucas. Foto: Rodrigo Gorosito, 2008. Na parte inferior:
CASA PICHADA COM A SIGLA DO COMANDO VERMELHO.
Foto: Nicola Dracoulis. Arquivos AfroReggae.
P.171 Na parte superior: CASA PICHADA EM VIGÁRIO GERAL.
Foto: Rodrigo Gorosito, 2008. P
arte inferior: CASA EM VIGÁRIO PICHADA COM A SIGLA
DO COMANDO VERMELHO. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivos AfroReggae.
PP.180-181 Estrela com os dedos. Foto: Nicola Dracoulis.
Arquivos AfroReggae.

Conclusão:
PP.184-185 VISTAS PANORÂMICAS de Vigário Geral. Fotos: Rodrigo Gorosito, 2008
194
Sobre os
autores
Maria Paula Araujo é mestre em História pela UFF e doutora em
Ciência Política pelo IUPERJ. É professora do Departamento de
História da UFRJ, onde atua no Programa de Pós-Graduação em
História Social e no Laboratório de Estudos do Tempo Presente.
Desenvolve pesquisas no campo da história política, história
oral e memória, enfocando os movimentos sociais e as esquer-
das no Brasil e na América Latina. É autora dos livros A Utopia
Fragmentada. Novas esquerdas no Brasil e no mundo na década
de 1970 (FGV, 2000) e Memórias Estudantis: da fundação da UNE
aos nossos dias (Relume Dumará, 2007). Ecio Salles nasceu no
bairro de Olaria, subúrbio carioca, e é mestre em Literatura Bra-
sileira pela UFF. Sua dissertação abordou a produção textual
da cultura hip-hop no Brasil. Foi Coordenador de Pesquisa e
Conteúdo do grupo artístico Afro Samba, do Grupo Cultural Afro
Reggae; hoje, integra o Conselho Editorial da revista do grupo, a
Conexões Urbanas. Atualmente, é doutorando em Comunicação
e Cultura pela ECO-UFRJ.

A partir de uma pesquisa sobre grupos culturais que atuam em


favelas desenvolvida na UFRJ, Maria Paula Araujo conheceu
Ecio Salles, então trabalhando no jornal do AfroReggae. Desse
contato inicial, surgiu não apenas uma proposta de pesquisa
conjunta, como também uma grande amizade.
Este livro foi composto em Akkurat.
O papel utilizado para a capa foi o cartão Suprema Alta-Alvura 250g/m2.
Para o miolo foi utilizado o Pólen Bold 90g/m2

A impressão e o acabamento foram feitos pela gráfica


Morada do Livro, em junho de 2008, no Rio de Janeiro.

Todos os recursos foram empenhados para identificar e obter


as autorizações dos fotógrafos e seus retratados. Qualquer falha
nesta obtenção terá ocorrido por total desinformação ou por erro
de identificação do próprio contato. A editora está à disposição
para corrigir e conceder os créditos aos verdadeiros titulares.