Você está na página 1de 23
Cultura da Modernidade: discussdes € prAticas inFormacionais Regina Maria Marteleto' Neste trabalho retinem-se alguns conceitos de maneira a realizar uma leitura historico-social do fenémeno informacional. Indaga-se em que contexte @ per quais pro- cessos a informagao passa a consfituir um problema, nas sociedades ocidentais-capitalistas-industriais, de ordem prético-social 8, de ordem cientifica, ou seja, como abjeto de estudo da ciéncia. O conceito nucleador dessa recons- trugao histérica 6 cultura, 0 qual fornece o sclo teérico a partir do qual novos concaitos se delineiam. Em primei momento, resgatam-se 08 discursos da cultura, que tem interpretado os vinculos simbdlicos e materiais que as nos- sas sociedades histéricas estabelecem com a realidade. Estes abrem o caminho para se entrever um segundo pla- no de estudo da cultura, como produto constru‘do coletiva- mente pelos sujeitos socials, através de suas agdes € re- presentacdes, as quais, num sentido modemo, sao praticas de informagao. 1 Elaboragao discursiva da cultura no terreno sécio-t do Ocidente Antes da concepgao antropolégwa da cultura, iniciada no séc. XIX, como fisionomia propria que um grupo humano adquire através. 1. Professora/Pesqu sadora do Proctama de Pos-graduagdo em Cinela da Informe ‘glo, CNFQNBICT-UFRUECO. F. fee. siulioteconemia UFMG, Belo Horizonte, « 23. 9 2, ps 118-797, vulDer ae 448, 116 da sua histéria, modo de relacionamento humano com seu real, te- mos a nogao que nos fol legada pela tradigao greco-romana. Nesta, cultura referia-se ao proceso de formagao do individuo, trazende consigo a idéia de cultive e transmissao de habites, velores ¢ corhe- cimentos capazes de preparar o future adulte e proporcionar 0 seu ajustamento a ordem social, enquanto individuo. Ainda na tradi¢éo européia. o séc, XVIII trara ac termo cultura uma vizinhanga com a nogao de civilizacdo, inscrevendo histéri- camente sua atualizagao moderna: relagao utlitéria com o meio na- tural @ social. Novos elementos irao redimensionar ¢ visao cultural naquele momento: primeiro, a racionalidade, como modo de connect mento capaz de eliminar as formas misticas de apreensio da reali- dade, prevalencentes na ordem feudal; segundo, 0 progresso como aumento indetinido do conhecimento e sua apkcagao, tanto no aper- feigoamento humane, quanto no proceso de acumulagao, garantin- do a expansao e reproducao da vida simbdlica e material das socie- dades. Esses processos, que M. WEBER denominou de ‘racionalizagao” ‘ou ampliacao dos setores da vida sociai submetidos apadrées de de- cisao racicnal, inauguram o quadro da modernizagao Ja sociedade € da cultura, quando triunfam as modelos racionalizadores na politica, com a Revolugae Francesa, e na economia, com a industrializagao britanica. ‘A unidade entre subjetividade @ verdade, sustentada pela melatisica e pela religido, que até entéo detinham monopdlia da verdade objetiva, é rompida pela separagao do mundo cultural em 118s dominios auténomos: a ciéncia, a moral ¢ a arte. Gada uma des- sas esteras passa a tratar as antigas problematicas hardadas das vi- sbes de mundo precedentes de maneira auténoma e com suas pré- prias instituigdes e especialistas: 0 conhecimento raconal € os cien- fistas; a justiga, a moralidade ¢ os magistrados; 0 gosto e os artisias ¢ crticos de arte.” A racionalidade, ou o processo de desencantamanto do mundo pela razo, se irradia para outros setores da cultura ¢ da vida social: a sociedade, 0 Estado, a economia, 0s sujeitos, os sujeltos @ seus objetos, os sujeilos e suas prdticas, e representacdes, marcando a relagao entre a racionalidade, agora instrumental, ¢ as instancias de decis4a, 0 poder. Por outro lado, uma vez que a cultu’a ~ elaboragao teorica € pratica sabre o mundo fisico ou 0 vivido - encontra-se na mao de especialistas, opera-se uma cisdo entre os produtores © os A. Ese. Biblictaconomla UFMG. Bato Horizonte, v.23, 9 2p. 115-197, JulDer /s4 consumidores culturais: 0 ndo-especialistas ou aqueles que nao produzem os bens culturais, mas que dependem desses produtos para dirigirem suas vidas, se relaclonarem uns com os outros, na sua atividade produtiva ou no seu cotidiano, Sim, porque cada vez mais, para ser Individuo ou cidadéo, os sujeitos dependerdo cessas elabo- ragdes culturais, amparadas na racionalidade. E por esse processo de racionalizagéo ou de modernidade cultu- ral e social, ligado a uma nova organizacdo das formagdes sociais européias, pela expansao da forma capitalista de producdo, a organi- zagao do Estado @ seu aparato juridico, militar e burocrético @ a for- magdo da esiera que lhe faz face a sociedade civil — € ainda & Instituicionalizagao do progresso cientifico e tecnolégico, que se for- ‘ma também uma idéia de informagao, ou de “publicidade” da elabo- ragdo cultural, Em outras palavras, é nesse quadro que a cultura as- sume um cardter publico, ou seja, de informagao, e isso em varios sentidos @ com diferentes desdobramentos. 2 Publicizagéo da cultura como matéria informacional Tomando a periodizagao do capitalismo utilizada por F. JAMESON, na sua fase de expansdo nacional as informagoes eram veiculadas, ainda que de maneira restrita e multas vezes no Ambito privado, ora para obtengao de dados referentes a mercados distanci ados da metrépole, ofa para comunicar ao publico as noticias do rei- no ou a legislagao elaborada pelo judicidrio e que continha as deci- sdes do Estado. Tiatava-se de informagdes com via Unica, dos pode- tes que se estabeleciam para um pliblico em formagao. Na sua se- gunda fase, a transnacional (ou cotonialista), outros tipos de informa- Ges so veiculadas, n&o apenas no ambito politica e econémico, come também do grande puiblico, com a consolidagéo da sociedade civil, a conquista do direito de voto, a expansao da imprensa e a ampliagao do sistema educacional. Também faz parte dese fluxo de informagdes @, principalmente, aquelas oriundas da ciéncia e técri- a, agora institucionalizadas. A sua terceira fase ~ a planetaria ~ coresponde a formagao de um mercado de bens culturais, que se ‘expandiu paraielamente ao processo de acumulagdo do capital, 0 qual T. W. ADORNO ¢ M. HORKHEIMER denominaram “indust cultural", reterindo-se & produgdo € recepgao massificada e universalizada dos bens simbélicos, néo exatamente perniciosa por se assemelhar a um processo de produgao de bens materiais, mas Ese. Bibloteconomia UFMG, Selo Horizonte, 23. 9, 2p. 115-197, vLOer/a4 17