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Bagunçaço

Bagunçaço
Joselito Crispim

Programa Petrobras Cultural Apoio


Copyright © 2010 Joselito Crispim A ideia de falar sobre cultura da periferia quase sem-
COLEÇÃO TRAMAS URBANAS (LITERATURA DA PERIFERIA BRASIL)
pre esteve associada ao trabalho de avalizar, qualificar
organização
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
ou autorizar a produção cultural dos artistas que se
consultoria encontram na periferia por critérios sociais, econômi-
ECIO SALLES cos e culturais. Faz parte da percepção de que a cul-
produção editorial
tura da periferia sempre existiu, mas não tinha oportu-
CAMILLA SAVOIA
projeto gráfico
nidade de ter sua voz.
CUBICULO
No entanto, nas últimas décadas, uma série de trabalhos
BAGUNÇAÇO
vem mostrar que não se trata apenas de artistas procu-
produtor gráfico
SIDNEI BALBINO
rando inserção cultural, mas de fenômenos orgânicos,
designer assistente profundamente conectados com experiências sociais
DANIEL FROTA específicas. Não raro, boa parte dessas histórias assume
revisão contornos biográficos de um sujeito ou de um grupo mobi-
CINDY LEOPOLDO
MARINA VARGAS lizados em torno da sua periferia, suas condições socio-
revisão tipográfica econômicas e a afirmação cultural de suas comunidades.
CAMILLA SAVOIA
LETÍCIA BARROSO Essas mesmas periferias têm gerado soluções origi-
nais, criativas, sustentáveis e autônomas, como são
C949b exemplos a Cooperifa, o Tecnobrega, o Viva Favela e
Crispim, Joselito outros tantos casos que estão entre os títulos da pri-
Bagunçaço / Joselito Crispim. - Rio de Janeiro: Aeroplano, 2010.
il. — (Tramas urbanas) meira fase desta coleção.

ISBN 978-85-7820-045-9
Viabilizado por meio do patrocínio da Petrobras, a con-
tinuidade do projeto Tramas Urbanas trata de procurar
1. Crispim, Joselito. 2. Bagunçaço (Projeto cultural). 3. Artistas - não apenas dar voz à periferia, mas investigar nessas
Brasil - Biografia. 4. Música - Aspectos sociais - Bahia (BA).
I. Programa Petrobras Cultural. II. Título. III. Série. experiências novas formas de responder a questões
10-3377. CDD: 927.0981 culturais, sociais e políticas emergentes. Afinal, como
CDU: 929:7.034(81)
diz a curadora do projeto, “mais do que a internet,
14.07.10 21.07.10 020297 a periferia é a grande novidade do século XXI”.

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS Petrobras - Petróleo Brasileiro S.A.


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6 Favela toma conta

Na virada do século XX para o XXI, a nova cultura da


periferia se impõe como um dos movimentos culturais
de ponta no país, com feição própria, uma indisfarçá-
vel dicção proativa e, claro, projeto de transformação
social. Esses são apenas alguns dos traços de inovação
nas práticas que atualmente se desdobram no pano-
rama da cultura popular brasileira, uma das vertentes
mais fortes de nossa tradição cultural.
Ainda que a produção cultural das periferias comece
hoje a ser reconhecida como uma das tendências cria-
tivas mais importantes e, mesmo, politicamente inaugu-
ral, sua história ainda está para ser contada.
É nesse sentido que a coleção Tramas Urbanas tem
como objetivo maior dar a vez e a voz aos protagonistas
desse novo capítulo da memória cultural brasileira.
Tramas Urbanas é uma resposta editorial, política e afe-
tiva ao direito da periferia de contar sua própria história.

Heloisa Buarque de Hollanda


Agradecimentos história que continuam. Aos nossos parceiros históri-
cos e/ou atuais: POMMAR, USAID, CESE (Coordenadoria
Ecumênica de Serviço), Coelba, Embaixada do Japão,
Embaixada da Espanha, CONDER, Fundação Bagunçaço
Suécia, Lapa & Góes e Góes Advogados e Consultores,
Sesc Mesa Brasil, Criança Esperança, Unesco, Faiveley
Quando Ecio Salles me falou do projeto, achei fasci- Transport S.A, Enter-Jovem, entre outros.
nante. Ainda mais quando ele disse que eu era um dos
indicados a participar. Com esse irmão, estou em dívida Aos meus amigos da vida e do Bagunçaço: João Reis,
por essa e tantas outras oportunidades de aprendizado. Urs Wirth (Marcolino), Zaca de Oliveira, Emílio Agostinho
Ao nosso amigo e educando em comum, Jonas Michel Jamine, Benjamim Agostinho Nhumaio, Mila Petrillo,
(Pikucha), falecido tão prematuramente, mas, que na Rayssa Coe, Cristina Raposo, Sylvia Johnson, Daniel
sua sabedoria inocente, nos ligou a toda a família Afro- Miracle, Sofia Lundi, Luciana Marques, Osvaldo Souza,
Reggae, de onde se originou todo esse encontro. Wilson Café, Lon Bové, Chocolate, Margareth Menezes,
Carlinhos Brown, Angelique Kidjo, Mel King, Nicodeme,
Aos meus antepassados, mestres na transmissão das Alice e David Cavallo, Sérgio Machado, Mônica Simões,
tradições orais, espero que minhas narrativas escri- Mariza Soares, Meire e Jorge, Gabriela Goulart Mora,
tas possam, mesmo que de longe, honrar esse legado Ana C. Mascarenha (Coelba), Tânia Andrade, Patricia
ancestral. Tenho que agradecer ao amigo jornalista, Teles, Lennart Kjörling, Frida Lundquist, Dimitri Ganze-
João Paulo, e meu educando e também amigo, Fernando levitch, Paula Rezende, Nena Lentini, Rita Ippolito, Isael
Teles. Ambos foram importantes no embrião do pro- Barros, Kassira Bomfim, Padre Clóvis, Laura López, Ali-
cesso, o primeiro ao analisar e corrigir o esboço da his- cia Sanabria, Luis Orlando (em memória), Veronica Baru-
tória, e o segundo ao se disponibilizar voluntariamente ffati e Monica Hernandez. Claro que sempre nos esque-
para organizar o material inicial. cemos de alguém, mas se seu nome deveria estar aqui
A todos que formam ou já formaram a equipe Bagun- ou nas histórias narradas e, por imperfeição humana,
çaço. Infelizmente não foi possível citar todos nas narra- você não o encontrar, minhas sinceras desculpas.
tivas, mas, sem dúvida, são parte de nossas conquistas Aos meus familiares de sangue e de santo, principal-
pedagógicas. A todos citados nas narrativas desse livro, mente, minha mãe D. Jove, meus irmãos, meus sobrinhos
espero que recebam essa menção como um “muito obri- e meus filhos Elvis, Josinan e Jan. Finalmente, em memó-
gado!” e a certeza de que enriqueceram — em confra- ria dos adolescentes Dendê, Bilota, Larzinho, Mole, João
ternizações ou enfrentamentos —, com suas contribui- da Metron, Junior Cabeça, Jonas (Menino Sariguê), Buiu,
ções, os fatos que desembocaram no meu crescimento Isidoro, Danilo (S’oba´s), Bibiu, Nadison, Sandro, Kisuque,
como ser humano e no surgimento do Bagunçaço. Agra- entre outros tantos que perderam suas vidas em tenra
deço também aos educandos do projeto S’oba’s Prince- idade nas águas da violência, além de nos denunciar que
dom, no bairro Ilha Amarela (Parque São Bartolomeu), em muito ainda se tem a fazer pela infância e juventude do
Salvador, e o Instituto Juvenil Bagunçaço, de Moçambi- Brasil. A todos os meninos e meninas do Bagunçaço, de
que, em Catembe, Maputo, pois são as novidades dessa todos os tempos.
Sumário

14 Cap.01 Tumba do Mar


24 Cap.02 Vida nos Alagados
48 Cap.03 Alagados sem água
66 Cap.04 Assinando a carteira
80 Cap.05 Corações e anjos
94 Cap.06 O mundo sem Zé Bofeia
100 Cap.07 Um homem da lei
108 Cap.08 Nascimento do Bagunçaço
130 Cap.09 Primeiros shows
186 Cap.10 Uma casa para o Bagunçaço

218 Imagens: índice e créditos


223 Sobre o autor
Cap.01
Tumba do Mar

Cap.01
Tumba do Mar
Tumba do Mar 15

Jove, como também era chamada Unguelê, registrada


como Jovelina Maria Cesaria dos Santos, apesar de
exausta pelo esforço do parto, estava tomada por uma
enorme felicidade. Ela agradecia aos seus inquices pela
dádiva e também pedia vida e saúde para criar seu filho,
pois, após a morte de sua mãe, Maria Jacinta de Jesus,
no parto, Unguelê padecera muito por ter sido criada por
parentes. Seu pai, Romualdo Teles dos Santos, somente
Dia 19 de outubro, logo pela manhã, a negra de dijina após uns meses de banzo se refez. E então voltou a
Unguelê, que era a Kaiai Kairi no terreiro Tumba do Mar, participar da organização do Negro Fugido, manifesta-
começou a sentir as contrações, presságio de que o dia ção popular histórica que encena toda a luta dos nos-
prometia. A velha Gamo, que é o mesmo que Kavua, par- sos antepassados escravizados, suas fugas e capturas
teira experiente e irmã de santo da grávida, logo ficou pelos capitães do mato. Embora os historiadores não
alerta, assim como todas as outras muzenzas.1 encontrem vestígios de quilombos por aquelas bandas
de Acupe de Santo Amaro da Purificação, a encenação
O que mais preocupava era o fato de que a Mameto de folclórica do Negro Fugido mostra o sangue quilombola
Inquice de dijina Senameã,2 nome de batismo Nair do daquele povo. Jovem e de sangue quilombola, Jove não
Santos, estava fora em obrigação no terreiro de sua mãe fugiu ao destino reservado a sua gente. Sessenta e cinco
de santo Deré Lubidí, o Tumba Junçara, na Vila América. anos depois do fim legal da escravatura, ela, aos 12
Logo, por volta das 11h15, Unguelê pediu força a anos, foi levada no porão de um saveiro,4 entre bananas,
Kavungo3 e se entregou ao trabalho de parto. Momen- sacas de farinha, cabras e outras mercadorias, em uma
tos depois, nasceu um menininho, trazido à vida viagem de pelo menos oito horas no mar agitadíssimo de
naquele micro-mundo africano encravado na periferia abril, que varou a noite e a madrugada na baía de Todos
de São Salvador da Bahia. Aquele nascimento — pen- os Santos até chegar ao Mercado da Conceição, em Sal-
sou Unguelê — dava ao marido José e à mãe de santo vador, onde as crianças negras ainda eram escolhidas
a vitória na aposta, pois seu Cachoeira, o avô, queria por senhoras para trabalhar em suas casas no velho
menina, logo esse desejo diferenciado virou aposta, estilo escravista. Todo mês, o dinheiro do seu trabalho
que foi dividida com os moradores, frequentadores e era levado para sua família pelo mestre saveirista.
admiradores do terreiro. A brincadeira se espalhou por Jove se considerou sortuda, pois a senhora que a esco-
todas as pontes dos barracos-palafitas onde reinava o lhera a tratava como uma filha, embora tivesse que
terreiro Tumba do Mar. ser esperta para escapar das tentativas de cantadas e
1 Recém-iniciadas no candomblé. investidas do patriarca da família.
2 Nome adotado por Nair dos Santos, avó do personagem Pim, após ter se
iniciado no candomblé.
3 Orixá das endemias e epidemias, porque tem grande poder de cura sobre 4 Barco estreito e longo, tradicional e pouco usado hoje em dia, mas muito
as doenças. utilizado como transporte de pessoas na baía de Todos os Santos.

14
16 Bagunçaço Tumba do Mar 17

Ao retornar de seus pensamentos e agradecimentos, não haveria ganhadores entre os que ficaram do lado do
Jove percebeu que Gamo estava barrufando seu charuto pai das crianças e da mãe de santo ou do lado do marido
daquela forma que ela sabia que significava que alguma dela, seu Cachoeira. Mas de uma coisa tinham cer-
coisa não saíra bem. Assim, logo indagou a irmã par- teza: um caruru6 bem gostoso estava garantido naquela
teira, que, com um aceno, indicou-lhe que continuasse comunidade daquele dia em diante.
deitada no chão de tábuas, por cujas frestas podia ver
A menina ganhou o nome de Joselina Crispina dos San-
pequenos peixes na água verde transparente.
tos de Assis, e o menino, de Joselito Crispim dos Santos
Gamo estava preocupada porque não via a placenta, de Assis.
logo algo estava errado. Mas evitou comentar o fato,

pois não queria preocupar a irmã, já sabendo do his-
tórico dela. Em pouco tempo, o entusiasmo de Jove foi O local onde se passou essa história ficava na rua Dom
diminuindo e o medo de ter o mesmo destino da mãe foi Sebastião Leme, número 78. Era a penúltima casa do lado
deixando-a angustiada. esquerdo, depois vinha a casa de dona Damiana, exímia
vendedora de acarajé. Ambos eram barracos-palafitas e
Gamo continuava a fumar daquele jeito e as outras
ficavam sobre o mar da pequena enseada dos Tanheiros,
muzenza ou iaôs, depois de receberem instruções cochi-
com suas águas verde-claras e calmas. Nessa pequena
chadas da preocupada parteira, recomeçaram os prepa-
enseada havia uma grande diversidade de coisas: cen-
rativos como se algo fosse acontecer.
tenas de barracos-palafitas, três pequenas ilhas com
Após uma hora em trabalho de parto, a alegria de Jove tor- esplêndido manguezal, uma praia muito bonita ao lado
nou-se desespero. Ela pedia chorando que alguém fosse da fábrica de óleo de mamona — que eu me lembro cha-
chamar sua mãe de santo. Porém, ao se agitar, novas mar-se Sambra —, o Estaleiro Mario Bakeman e, claro,
contrações a acometiam. Sem entender nada, pediu aos meu saudoso Tumba do Mar. Esse terreiro de candom-
prantos para as irmãs em volta que tomassem conta de blé era atípico, com certeza. Como a própria palavra já
seu filho caso algo lhe acontecesse. Foi aí que Gamo lhe diz, os terreiros de candomblé são sempre áreas verdes,
disse que ela teria que se transformar em duas, pois o que com muita vegetação e contato com a terra. Uma coisa
ia lhe acontecer era outro parto; ia ser mãe de mabaços5 e que os inquices jamais fariam com seu povo seria aban-
precisaria de coragem para cuidar das crias. doná-lo, e já que a sorte os trouxera para cima do mar,
para lá também foram seus encantados ancestrais.
Jove, entre assustada, surpresa e aliviada, esforçou-se
bastante e não demorou a raiar uma menina. Agora, ela O Tumba do Mar como templo religioso necessitava ser
era mãe de mabaços, uma dádiva que os inquices/orixás bem maior que os barracos-palafitas comuns, então
concediam a poucos. Os mabaços trazem boas notícias acredito que equivalia a uns cinco barracos-palafitas
às tribos sobre sua fertilidade e são comemorados. Os
apostadores de plantão estavam decepcionados porque 6 Comida típica da Bahia, de origem africana, geralmente oferecida para
comemorar um aniversário, um milagre ou como oferenda a orixás. É comum
5 Nomenclatura usada pelo povo do candomblé para denominar gêmeos. quem tem filhos gêmeos oferecer caruru no aniversário deles.
18 Bagunçaço Tumba do Mar 19

médios. Era uma construção curiosa, pois, como a maio- Amorzinho. Era assim que, mesmo já sendo pai de qua-
ria dos terreiros tem seu sacerdote maior morando tro filhos, ainda era chamado pelos irmãos e demais.
neles, era preciso muito espaço. Lembro-me de uns sete Pelo que sei, teve uma infância bem parecida com a
cômodos, da sala principal, do quarto de minha avó, do de minha mãe, pois ficou órfão de mãe ainda menino e
quarto do santo, do roncó, da segunda sala, da cozinha, foi criado pelo pai e pelos irmãos mais velhos. Por ser
dos banheiros e do grande barracão para as festas. de família pobre, teve que se virar e, às vezes, quando
estava sentado com minha mãe na frente de nossa tele-
José Damasceno, mais conhecido como Zé Bofeia e
visão Philips preta e branca, ao som das dobradas das
chamado de painho por mim, nunca foi bem locali-
ondas embaixo da casa, ele dizia: “Eu já fui capitão da
zado nas narrações de minha mãe, avó e tias quando,
areia.” Sei também que quando se conheceram minha
nas rodas de bate-papo, relembram aquela manhã de
mãe ainda trabalhava no bairro da Calçada, na casa da
19 de outubro. E eu nunca tinha percebido isso até me
mesma senhora que a encomendara no Mercado da Con-
sentar para escrever essas narrações. Mas tenho cer-
ceição, uma senhora muito bondosa que manteve laços
teza de sua felicidade por ter marcado um gol de placa,
afetivos com minha mãe até sua morte e que sempre
fazendo gêmeos no mesmo ano em que a seleção bra-
nos ajudava com alimentos, roupas e dinheiro, mesmo
sileira trouxe a Copa do Mundo. Meu nome, Joselito, é
doze anos após minha mãe ter deixado de trabalhar para
justamente uma homenagem dupla ao pai e ao país da
ela. Eu a chamava de avó e até hoje tento entender essa
moda naquela época: o México.
herança escravista, que torna ainda mais complexas
Posso adiantar que, de acordo com minhas lembranças as relações humanas, mas posso garantir que ambas
de infância, ele era bom marido e bom pai. O coitado não nutriam um amor muito bonito uma pela outra e eu sen-
podia ser o típico pai mandão, que batia na esposa, talvez tia no olhar dessa senhora um carinho de avó por mim.
pela sua própria índole ou porque com as filhas da mãe
Naquela época, minha mãe tinha descoberto com a
de santo Senameã as coisas fossem diferentes; o homem
empregada da família vizinha o candomblé de Sena-
tinha seu lugar. Sendo assim, soube por meio de minha
meã, que passou a frequentar nos finais de semana de
mãe que durante o meu nascimento ele também teve o
folga — na verdade, não existia folga; eram permitidas
dele, coitado, sentado a uma certa distância, nervoso,
umas saidinhas. Meu pai ela conheceu quando teve que
com um jornal dormidíssimo na mão, tentando desespe-
ir comprar coisas no açougue ou coisa assim. Diz que
radamente saber o andar da carruagem.
um rapaz que vendia balas ficava falando gracinhas
O certo é que ele sabia estar numa comunidade matriar- para ela, mas que ela nunca dava ousadia. Ainda bem
cal e, embora nunca tenha entrado para o candomblé, que em algum momento ela deu, senão eu não estaria
sempre ajudou e aceitou os preceitos de minha mãe. escrevendo estas linhas.
Meu pai era o caçula de oito irmãos, — três mulheres Provavelmente, minha mãe demorou muito para ceder
e cinco homens. Seu apelido familiar ilustra bem isso: aos apelos do baleiro da Calçada. E quando foi falar
com a família da moça, ele não se dirigiu ao casarão
20 Bagunçaço Tumba do Mar 21

da Calçada e sim ao terreiro Tumba do Mar, pois nessa


época minha mãe já estava morando mais no terreiro
que na casa dos patrões.
O mais incrível de tudo é que o Tumba Junçara, terreiro
mãe do terreiro Tumba do Mar, nasceu também em Acupe
de Santa Amaro em 1919, fundado por irmãos de santo
cujos nomes eram: Manoel Rodrigues do Nascimento
(dijina: Kambambe) e Manoel Ciriaco de Jesus (dijina:
Ludyamungongo). Depois foi transferido para Salvador e
passou por alguns lugares até se firmar na Vila America.
Com a morte dos seus fundadores, em 1965 assumiu a
liderança espiritual aquela que viria a ser minha bisavó
de santo: Deré Lubidí. Depois de seu falecimento , assu-
miu a direção do Tumba Junçara minha tia de santo Irail-
des (Mesoeji sendo sua dijina), que permanece no cargo
até o presente momento.
Minha mãe nunca tinha ouvido falar do Tumba Junçara
quando morava em Acupe. Além disso, a sua prima carnal
Elza era iniciada no Tumba Junçara. Quando minha mãe
se iniciou no Tumba do Mar, elas se tornaram parentes
também de santo e eu herdei, ao nascer, parentes sanguí-
neos e de santo ao mesmo tempo. Meus primos segundos
Dilma, Deilton, Decival, Derival, Dilcelia e Dilza passaram
a ser primos de santo também, então na minha cabecinha
de criança no final todo mundo era parente da gente de
alguma forma. Milhares de parentes espalhados por aí,
mesmo fora da Bahia, já que o Tumba Junçara deu origem
não só ao Tumba do Mar, mas a centenas de outros terrei-
ros pelo Brasil. Não é à toa a música:
É Junçara Tumba...
Cap.02
Vida nos Alagados
Vida nos Alagados 25

só, iaôs, ekedes,9 e ogans10 vizinhos se jogaram na água


e conseguiram nos salvar.
Era muito duro para os pais que saíam para trabalhar
deixar seus filhos naquele emaranhado de ponte, com
uma maré ávida para tragar os desprevenidos. Porém,
para nossa meninice, aquele universo de água verde e
vidas marinhas era curioso e fascinante. Esperar a maré
vazar e perseguir baratas do mar, vaza-marés, aratus,
toda sorte de crustáceos e peixes era realmente maravi-
lhoso, embora meus pais e também os das outras crian-
Talvez querendo usufruir um pouco de seu direito de ças recomendassem que nunca entrássemos na água,
cantar de galo de quando em vez, logo após o nasci- ou melhor, nos ameaçassem com uma surra se chegás-
mento do terceiro filho, o douw,7 que manteve a tra- semos perto dela. Era só nos certificarmos de que eles
dição do J e se chamou Joseval dos Santos de Assis não voltariam para pegar algo esquecido na pressa de
— dois anos mais novo que os mabaços —, juntou um sair para o trabalho e já começávamos o planejamento
dinheirinho e, como era o costume da comunidade, fez das aventuras do dia. Aprender a nadar era uma questão
um adjutório8 regado a feijoada e cachaça. Todos ajuda- de vida ou morte. Porém, deixar seu pai ou sua mãe des-
ram a fazer seu barraco-palafita nas proximidades do cobrir que você sabia nadar era certeza de uma surra. Na
terreiro — nem longe o bastante para perder os laços, verdade, as mães sempre davam um jeito de descobrir
nem perto o bastante para perder a autonomia. suas aventuras do dia simplesmente lambendo atrás da
orelha. Se estivesse salgada, ela já sabia que você tinha
A vida nos Alagados era muito difícil. Muitas vezes nadado naquele dia. Não adiantava lavar bem as orelhas,
fomos alertados por nossos pais e pelos mais velhos pois mãe não tem pudor e, se ela desconfiasse, lamberia
de que nunca deveríamos andar olhando a correnteza qualquer lugar que acreditasse que os filhos não lava-
da maré, pois poderíamos ficar tontos e cair. Mas como riam bem, ou seja, não lavávamos bem as orelhas para
criança é curiosa, certa vez eu e meus dois irmãos saí- evitar maiores constrangimentos.
mos da casa de minha avó em direção a nossa casa,
todos de mãos dadas para um amparar o outro caso Aprender a nadar era mais que necessário, mas para
ficássemos tontos ao fitarmos a corrente da maré que isso era preciso entrar numa organização clandestina.
vazava. De repente Val, o caçula, ficou tonto e, ao cair, Esse grupo, que envolvia em média mais de uma dezena
arrastou minha irmã e eu. Naquele dia foi um alvoroço de meninos e meninas da vizinhança, era realmente de

9 Filha de santo a quem não é dada a possibilidade de possessão. Serve de


7 Nomenclatura dada pelo povo do candomblé ao filho que nasce depois auxiliar às irmãs que entram em transe.
dos gêmeos. 10 Filho de santo a quem não é dada a possibilidade da possessão. Serve
8 Forma popular de falar quando alguém precisa de ajuda para fazer algo, como tocador dos atabaques e em outras funções auxiliares no culto do
geralmente casas, poços e lajes. Também usa-se o termo mutirão. candomblé.

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26 Bagunçaço Vida nos Alagados 27
28 Bagunçaço Vida nos Alagados 29

grandes nadadores e tinha regras claras: gente chorona saímos de nossa casa e fomos até o quintal de minha tia
não podia entrar, pois começava a chorar e se deba- Elza — claro que sem deixar que ela notasse. O itinerá-
ter só por causa de uma queimadurinha de água-viva e rio era fácil para os que eram “grandes nadadores”; bas-
chamava a atenção de todos os adultos. Filhos de pais tava nadarem em linha reta uns 50 metros e chegavam
escandalosos também não, pois alguns pais, se sou- à prainha do quintal da casa de minha tia. Mas nós, que
bessem que seus filhos estavam indo nadar debaixo não tínhamos essa habilidade, íamos nos projetando de
das casas, iam fazer escândalos nas portas dos outros estaca de barraco-palafita a estaca de barraco-palafita,
meninos maiores, o que poderia resultar na descoberta que ficavam no máximo a dois ou três metros de distância
da organização inteira e numa surra coletiva na comu- umas das outras. Isso aumentava a distância até o esta-
nidade. Quando isso acontecia, o causador era banido leiro em mais de setenta metros. Até que fomos bem, mas
do grupo. E sempre nas outras brincadeiras, quando para voltar foi muito duro, pois a maré estava enchendo
todos os meninos e meninas estavam juntos, um gaiato e estávamos contra a correnteza. Eu e meu irmão, Val,
lembrava como sicrano tinha gritado, como fulano ficou íamos conseguir, mas minha irmã estava tendo dificulda-
todo marcado e como ele mesmo, enquanto apanhava, des, por isso abortamos a operação de volta e saímos por
teve que rir ao distinguir um grito aqui e outro acolá de um local mais próximo e à vista de pessoas que não deve-
seus companheiros que apanhavam em suas casas. riam nos ver. A surra foi certa. Além disso, passamos a
integrar o grupo dos supervigiados e dificilmente éramos
A turma se dividia em pequenos subgrupos: os gran-
aceitos em aventuras perigosas.
des, que se supunham “grandes nadadores”, os médios
e os pequenos. Mas a faixa etária era menos importante No estaleiro consertava-se navios de porte médio. Cada
para pertencer a um dos subgrupos do que a habilidade vez que chegava uma embarcação nova havia uma expe-
na natação. Quanto mais ausentes e menos vigilantes dição para explorá-la. Essa expedição não precisava
os pais, mais habilidosos os filhos. Eu e meus irmãos ser feita pelo mar e também não fazia parte das ações
nunca nos tornamos bons nadadores, porque primeiro dos “grandes nadadores”; eles achavam aquilo coisa de
havia a vigilância do terreiro. Nós éramos muito popula- quem não sabia nadar, pois navio mesmo só era bom ser
res pelo fato de sermos os mabaços do Tumba do Mar e, visitado quando estava boiando no mar. Navio no seco
mesmo no mar, não podíamos nadar debaixo de certas era igual às casas dos que moravam no seco, nem balan-
casas, pois ali morava gente conhecida. Havia uma tra- çava nem nada, que graça havia de ter numa coisa assim?
dição que dizia que, se uma família separasse um dos
Tínhamos sido praticamente expulsos do grupo dos gran-
gêmeos e o levasse para sua casa, proporcionando a ele
des nadadores. Assim, eu passava a tarde jogando bola
um dia com carinho e regalias, toda boa sorte entraria
ou capoeira na frente do beco onde ficava minha casa.
naquela casa. Minha mãe conta que eu e minha irmã éra-
Era surreal a chegada de um navio. O beco da minha casa
mos disputados até os 4 anos de idade pela vizinhança.
ficava em diagonal em relação ao canal por onde eles pas-
Como a turma não queria mudar o itinerário mais peri-
savam e era impressionante ver aquela coisa de propor-
goso e aventureiro por nós, nem sempre podíamos ir
ções enormes se movendo por trás das nossas pequenas
muito longe. Lembro da maior distância que fizemos:
casas. Já sabíamos que levava uns dias até o navio estar
30 Bagunçaço Vida nos Alagados 31
32 Bagunçaço Vida nos Alagados 33

fora da água e poder ser visitado. Era sempre melhor no de uma patroa de nossa mãe que, deixada pelo marido
final de semana, pois não havia funcionários e o vigilante repentinamente, ficou sem nada, nem para pagar o alu-
não parecia se incomodar com as nossas incursões. Claro guel. Não lhe restou alternativa a não ser deixar o filho
que esse grupo era mais unido, havia a cumplicidade de para a babá. Para nós, que tínhamos parente de santo
sermos os exilados do grupo dos “grandes nadadores”. que descobríamos ser de sangue e parente de sangue
que virava de santo também, ter um parente de cegonha
Não íamos muito nos porões dos navios, pois era tanta
foi fichinha; até hoje somos cinco irmãos muitos unidos.
porta e escada que tínhamos medo de nos perder. Como
já faz muito tempo, posso confessar que na verdade era Lembro de ter medo das chuvas de abril, quando sempre
muito escuro e fazia eco... Portanto, a grande façanha desabavam casas num morro que ficava em frente aos
era ir até a parte de cima e ter uma visão privilegiada da nossos barracos-palafitas. Não sei o motivo do medo,
comunidade, localizar sua casa e tudo mais. pois o morro ficava do outro lado do mar, a uns 5 qui-
lômetros, e nunca nos atingiria, mesmo que desabasse
Infelizmente, muitas crianças morriam afogadas, prin-
inteiro. Talvez eu tivesse medo de nossa casa desabar,
cipalmente as que não nasciam lá ou que se mudavam
mas nunca tive notícia de uma casa desabar pela fúria
já com mais de 7 anos, ou os filhos de parentes que iam
do mar ou pela chuva, pois, embora parecessem frágeis,
visitar de férias. Como uma família vizinha da nossa, que
eram bastante seguros os barracos-palafitas. Só não
sofreu uma tragédia nas férias de dezembro. Seus paren-
suportavam festa de aniversário, casamento, batizado
tes vindos do sertão, onde não tem mar e os rios também
com muita bebida e dança... Sempre desabavam no meio
são escassos, perderam uma filha de 10 anos logo no pri-
da comemoração. Nunca morria ninguém, mas se per-
meiro dia. A garota ficara impressionada com o mar e sua
diam os móveis e tomava-se um bom banho, às vezes de
vastidão e, num momento de distração após o almoço,
lama, se a maré estivesse vazia. No dia seguinte, entre
ficou sozinha mirando a correnteza da maré que enchia,
gozações e anedotas, os homens da comunidade se jun-
provavelmente ficou tonta, caiu no mar e se afogou.
tavam, recuperavam as madeiras e refaziam a casa. Por
Por isso, tratamos de ensinar logo nosso irmão Rildo a incrível que pareça, no Tumba do Mar havia festas enor-
nadar. Ele já chegou com 5 anos, trazido por uma cego- mes, que duravam vários dias, e ele nunca caiu! Meu avô
nha. Isso mesmo: nossa mãe trabalhava como domés- Cachoeira era mestre construtor de barracos-palafitas,
tica nas casas de alvenaria lá de cima, e um dia disse barcos e também era pescador; acho que ele aplicou
que não ia mais trabalhar e que a gente se preparasse toda a sua maestria ao construir o Tumba do Mar.
que ia chegar um menino. Um novo irmão que a cegonha
Os anos se passaram e; para nós, crianças, nada era tão
ia trazer. Já eramos três: eu, Pina e Val. E um belo dia
maravilhoso quanto aquela vida em cima da maré. Porém,
chegou Rildo. Estranhamente, ele era branco, mas isso
as condições de salubridade iam se deteriorando à medida
nos chamou menos a atenção do que o fato dele já ter 5
que um maior número de pessoas, fugindo de aluguel,
anos. Mas, como escrevi antes, ensinamos ele a nadar
buscava a vida num barraco-palafita como solução.
logo, e só já maiores descobrimos que Rildo era filho
34 Bagunçaço Vida nos Alagados 35

A água já não estava tão verde e a violência começava a Minha avó, assim como muitos outros, não queria se
despontar. E, como sempre atrasado, o governo resolveu mudar. Até a polícia foi chamada, mas ela não arredava
intervir, criando a Amesa – Alagados Melhoramentos S/A. pé da decisão, pois se os orixás tinham escolhido aquele
espaço de maré para ser o Tumba do Mar quem era

ela ou o governo para mexer nisso? Veio polícia, enge-
O projeto da Amesa previa o aterramento hidráulico dos nheiro-chefe, e ela não fez acordo. Então, eles prefe-
Alagados, o remanejamento dos moradores para adja- riram não criar conflito com uma liderança e a fizeram
cências e a erradicação dos barracos-palafitas. assinar um documento que eximia o governo da respon-
sabilidade pelo dano causado ao imóvel e a ela, pois
Esse projeto era financiado pelo governo dos Estados
deixara claro que não sairia do terreiro nem durante a
Unidos, porque na época, pelo que se sabe, um dos Ken-
perigosa operação de aterro feita pela draga, máquina
nedy vira aquele aglomerado de centenas de casas sobre
quimérica que puxava areia das profundezas do mar e
o mar quando, numa visita a Salvador, o avião taxiou sobre
jogava nas partes a serem aterradas.
Alagados para pousar no antigo Aeroporto 2 de Julho.
Comovido com a situação, ele articulou uma ajuda. Ala- No dia do aterro, me neguei a ir para a escola e me enfiei
gados também era ponto turístico; várias vezes saltamos dentro do terreiro junto com minha avó. Minha mãe e os
no mar sob a mira das câmeras dos gringos. Gostávamos técnicos queriam que eu saísse, mas eu não quis sair e
deles, pois pareciam com a mulher e o homem biônicos ou os trabalhos começaram. Era um som ensurdecedor e a
a Mulher Maravilha, nossos seriados prediletos. casa trepidava muito. Eu e minha vó ficamos no quarto
dela durante cinco horas — um barraco que aguentava
O projeto era cheio de boas intenções, mas, como diz o
samba de caboclo não ia ceder a uma fera máquina. Ao
ditado popular, o inferno também. Aquela boa vontade
final de três dia de batalha contra o dragão que cuspia
internacional e a política pública nacional caíram como
areia, o Tumba do Mar estava um pouquinho torto, mas
uma bomba na nossa vida já sofrida. Para alguns, era um
ainda firme.
milagre, mas para outros, ter que deixar suas casas por
uma ordem dada pelo governo criava incertezas, pois Porém, o resto da comunidade não teve a mesma sorte
ninguém pagava água nem eletricidade nos Alagados — e, querendo ou não, as pessoas iam sendo mudadas à
tudo era informal —, e agora teriam que pagar isso tudo medida que a quimera cuspidora de areia avançava; e
e ainda se especulava que viria uma taxa mensal para logo chegou a nossa vez.
as casas novas e um tal de IPTU. Não se sabia bem para

onde seríamos levados ou se, depois do aterro, as casas
seriam feitas no mesmo lugar de antes. A sensação era Numa manhã, chegaram os caminhões para fazer a
de que o governo era um pai que havia sumido durante mudança de todos os moradores do beco em que morá-
toda a infância e agora, no final da adolescência, apare- vamos, exceto da minha família. Os técnicos disseram
cia impondo regras e deixando tudo fora do lugar. que meu pai tinha feito um bom trabalho de aterro na
ponte e elogiaram nossa casa, falaram que era bastante
36 Bagunçaço Alagados sem água 37
38 Bagunçaço Vida nos Alagados 39

forte e suportaria o aterro hidráulico. Nós ficamos feli-


zes, mas minha mãe, desconfio, ficara desejosa de
ganhar uma daquelas casas que mostravam no portfo-
lio da Amesa. No entanto, por toda a luta de minha avó,
ela resolveu não se manifestar. Eu até acredito que os
técnicos chegaram a essa conclusão de casa forte por
receio de minha avó... Nós, as crianças, não queríamos
nos mudar, amávamos nosso mundo aquático, principal-
mente eu e meu irmão, que tínhamos um fogão velho na
ponte do lado de fora da casa onde guardávamos toda
sorte de brinquedos, centenas talvez, a maioria trazidos
pela maré e uns poucos que tínhamos ganhado de pre-
sente — era o nosso grande tesouro.
Mainha havia saído para o trabalho, meu pai estava no
Rio de Janeiro vendendo chá-mate nas praias de Copa-
cabana e minha avó, que a essa altura estava experi-
mentada na luta contra as dragas, era nossa protetora e
se encarregava de nos fazer ir para a escola.
Depois de mudarem os demais moradores, começaram
as demolições de suas respectivas casas. Por “engano”,
os demolidores, que não buscaram fazer um cursinho
rápido com os “grandes nadadores” e não sabiam onde
terminavam as estacas de um barraco-palafita e come-
çavam as de outro, erraram e danificaram uma estaca da
nossa casa. Foi um susto danado que infelizmente com-
prometeu toda a estrutura da construção.

Com a abalo na casa, nossa vitrola, cuja caixa de som
ficava presa na parede juntamente com um quadro do
Esdras, caiu. Depois de ajudar minha avó a tirar a peça
da parede lateral, fui mandado a contra gosto para a
escola. Deixei minha casa meio torta, mas nada que
meu pai não pudesse consertar, pois ele aprendera com
40 Bagunçaço Vida nos Alagados 41

meu avô Cachoeira a fazer casas. Meu pai não estava, Uma sensação de vazio. Onde estava minha família? Meu
mas ia voltar. Tem coisas que a gente deseja que só o ninho aquático não existia mais. Para onde levaram minha
pai da gente resolva... Estava uma confusão quando mãe? Ali permaneci chorando por mais de uma hora.
saí, mas minha avó estava lá e sabia botar o povo da

Amesa no lugar deles.
Até que um vizinho que passava viu minha silhueta
Ao cair da tarde, retornei da escola. Bem antes de che-
na escuridão do cemitério em que se transformara
gar na rua em que morava, fui advertido por um menino
meu beco e foi avisar a minha tia Elza, que morava no
que morava na mesma rua, mas nas casas de alvenaria
começo da rua, na parte seca. Eu fiquei muito assus-
da parte seca, em tom de chacota:
tado e ansioso, pois o que quer que tivesse acontecido
— Você não mora mais aqui, você não mora mais aqui! também fizera minha avó se ausentar do terreiro... Só
fui encontrar minha família, seu novo endereço e meu
Achei que fosse apenas uma brincadeira do vizinho,
novo destino muito depois das 22h daquele dia.
mas, ao entrar na rua onde morava, outro menino me
disse que todos do meu beco haviam sido levados pelos Só então fiquei sabendo que assim que fui para a escola
caminhões da Amesa. Eu sabia que do meu beco só eu outra estaca da nossa casa foi derrubada erroneamente,
não mudaria, e isso era bom, ainda mais porque tinha e a casa quase veio a pique. Os responsáveis da Amesa
ouvido o elogio que o engenheiro fizera a meu pai. perceberam que teriam que mudar minha família e foram
buscar minha mãe no trabalho. As coisas da casa conde-
Eu estava ansioso para chegar em casa, estava com sau-
nada foram colocadas num caminhão e no meio da con-
dade do meu pai, que todos os anos no verão ia vender chá
fusão esqueceram o fogão velho. Val, meu irmão, nada
mate nas praias do Rio de Janeiro. Vinha pensando nisso...
podia fazer, pois, como o erro dos demolidores comoveu a
Já eram seis horas e a Ave-Maria ainda era cantada comunidade e a polícia foi chamada, minha família aguar-
nos rádios das casas quando me deparei com o beco dava o resto da mudança numa viatura e foi retirada às
onde morava. Estava escuro e sombrio; adentrei mais pressas para que o incidente não atrapalhasse a imagem
um pouco e encontrei um cemitério de estacas de da empresa já sem credibilidade na comunidade.
barracos-palafitas a perder de vista, inclusive onde

antes existia minha casa, verde e bonita, a mais bonita
do beco, que meu pai fizera e que fora elogiada pelo A mudança da rua Dom Sebastião Leme, na Massaran-
engenheiro. duba, onde nasci, além de dramática, me separou defini-
tivamente da vida romântica nos Alagados. Embora dis-
Caminhei pela alvenaria que meu pai construíra com lixo
tante não mais de 2 quilômetros em linha reta do meu local
e pedra e que avança na maré até a porta da minha casa.
de nascimento, tudo era novo. Não havia mais a solidarie-
Como a maré estava vazia, avistei lá em baixo meu baú
dade dos vizinhos, pois nas casas provisórias no bairro
de tesouros, o fogão velho destruído e sem os brinque-
do Uruguai (como eram chamadas as casas para onde
dos. Sentei ali e uma grande tristeza invadiu meu espí-
fomos mandados) havia gente de todas as localidades, e
rito ainda tão jovem.
42 Bagunçaço Vida nos Alagados 43

a pobreza se mostrava, pela primeira vez, violenta. Eu e Meu pai chegou a tempo de conhecer a casa nova, mas
meus irmãos quase não podíamos sair às ruas. dois dias depois teve que voltar para o Rio de Janeiro
para vender chá-mate. Assim, eu e minha família está-
Esse conjunto habitacional era de cimento. Embora
vamos novamente num novo bairro, o Jardim Cruzeiro,
com boa salubridade, faltavam a alegria, a boa vizi-
numa casa frágil e, o pior, a violência que já se tornara
nhança, os grandes nadadores, o sentimento de per-
conhecida da minha família nos apresentou sua com-
tencimento... Eu e minha família tivemos que nos acos-
panheira: a droga. O consumo era feito no beco da
tumar aos novos tempos.
nossa casa, pois os usuários sabiam que ali o chefe da
Ali ficaríamos por um ano, agora longe de minha avó, família não estava.
que perdera de uma vez quase todas as filhas e filhos
Com meus 14 anos, estudava num colégio público, de
de santo e simpatizantes. Como cada um foi mandado
boa reputação: era considerado uns dos melhores da
para um canto, a rede de solidariedade que dignificava
região. Lá fiz amizade com adolescentes de uma situa-
nossas vidas foi seriamente abalada; não havia mais os
ção social melhor que a minha e, assim, passei a convi-
rodízios para levar as crianças ao colégio, o escambo de
ver em dois mundos.
gêneros alimentícios, a vigilância e a educação comuni-
tária. Ainda sem meu pai e com minha mãe trabalhando, Um era o dos meus colegas do bairro, que me entristecia,
a tristeza que invadiu meu espírito naquele dia em que pois os via enveredarem no caminho do crime. O outro
perdi minha casa não me largava e fiquei em depressão mundo era o dos meus colegas do colégio, da mesma
durante muito tempo. idade, com roupas de marca, videogame, carro na porta.
Esses colegas me convidavam para ir num tal de shop-
Também longe do Tumba do Mar e de nossa família de
ping center, mas eu não tinha roupa nem sapato e, em
santo, as nossas economias tiveram um grande abalo e
muitos sábados, para não ficar na companhia de meus
então comecei a vender bolo e outros quitutes na rua.
colegas em situação de risco social do bairro, ficava sen-
Perto do Natal, mais ou menos um ano depois de termos tado na rua de meus colegas do colégio esperando que
sido expulsos do nosso lar, recebemos nossa casa defi- voltassem do shopping para conversar.
nitiva. Todas elas eram iguais entre si e bem diferentes
Havia uma falta do que fazer, e surgiam convites interes-
das casas do portfólio da Amesa, que eram de alvena-
santes para participar de pequenas delinquências, que
ria, assim como as provisórias. As casas que recebemos
afinal davam um pouco de alegria àquela pobreza vio-
eram de qualidade inferior; em vez de cimento e bloco,
lenta e sem perspectiva. Eu me lembro de que, quando
eram feitas de madeirite11 de péssima qualidade. Eram
vínhamos da praia com fome, nossa diversão era que-
embriões sem divisória; havia somente uma pequena
brar telefones públicos. Muitas vezes tocávamos os
cabine, também de madeira, que era o banheiro. Aque-
interfones das casas ricas pedindo lanche. Muitos
las casas sobre a maré não durariam um mês.
davam: ficavam um pouco intimidados com aquela turba
de pivetes. Eu inicialmente sentia raiva daqueles meni-
11 Folha de madeira de baixa qualidade usada pela Amesa para fazer as
nos branquinhos que tinham videogames, bermudas e
casas das pessoas dos Alagados.
44 Bagunçaço Vida nos Alagados 45

tudo que queriam. Algumas vezes encontramos uns de


vacilo e arranjamos brigas, mas, claro, eles nos temiam
e nunca nos enfrentavam, sempre corriam, mas não sem
antes levarem uns catiripapos para aprenderem a não
nascer com sorte, por terem a pele diferente da minha,
por tantas coisas que eu não sabia explicar. Nosso grupo
se protegia; não havia nenhum discurso ideológico, mas
sabíamos que tínhamos que nos proteger uns aos outros,
pois nossos pais o máximo que conseguiam eram trazer
um pouco de comida. E isso custava muito caro: custava
a presença deles na nossa vida.
Cap.03
Alagados sem água

03
ados sem água
Alagados sem água 49

Eu me sentia muito à vontade com Zé Carlos e sempre fui


metido a engraçadinho, mas, claro, só depois que dei-
xava cair minha capa de tímido. Parece que por isso con-
quistei a madrasta dele, que era simpática e fazia uma
comida gostosa, embora eu nunca tivesse visto tanto
alho para fazer um arroz! Retribuí levando ele à minha
casa no domingo; era o barraco de madeirite da Amesa,
que com o tempo só piorava.
Bem, Zé Carlos era a novidade na escola e ser amigo
dele me fez frequentar outras tribos. Nem sei como fui
Algo muito estranho começou a acontecer quando entrei convidado a fazer parte de um grupo de meninos e meni-
para essa escola. Havia poucos negros e nós de certa nas que eram os melhores das salas. Esse grupo ficaria
forma éramos unidos, mas de repente, de forma bem junto até o final do ano, fazendo diversos trabalhos, não
tímida, comecei a me aproximar dos brancos. Lembro lembro bem por que, mas convencionou-se usar só três
que a primeira vez foi no meio da 6ª série, quando entrou casas para esses trabalhos; coincidência ou não, eram
um menino chamado José Carlos que era carioca e cujo exatamente as casas dos três mais abastados.
pai era caminhoneiro. Ele era mestiço — o pai era negro Nesse grupo conheci o André e o Ricardo, que eram sim-
e a mãe branca —, e tinha um forte sotaque carioca, que páticos e pareciam me dar uma atenção verdadeira,
fazia muito sucesso entre as meninas. Ele era da turma independentemente da minha amizade com Zé Carlos.
dos pobres, mas por ser de fora entrava em qualquer Eles moravam em casas bonitas e para mim qualquer
turma. Fiquei curioso, queria saber se ele sabia onde casa que não fosse de madeirite e tivesse divisão interna
era Copacabana, pois meu pai vendia chá-mate gelado entre os cômodos era sinal de riqueza, e ambas ultrapas-
lá. Estava tão curioso que nem temi ser exposto como savam esse meu parâmetro em muito. Logo eu passei
filho de um vendedor de chá-mate. Bem, Zé Carlos não a frequentar a casa deles e, como moravam na mesma
deu a mínima para meu pai ser ambulante. O fato de que rua, acabei fazendo amizade com toda a rua. Imaginem
eu tinha saudades do meu pai que estava trabalhando que esses eram os riquinhos que eu odiava com a turma
no Rio e de que ele tinha saudade do Rio porque seu pai da minha rua! Eu só entrava nas casas deles e de outro
estava trabalhando na Bahia foi como se partilhássemos carioca chamado Robson, o loiro, que tinha dois anjos
um sofrimento que nos fazia cúmplices; era como se já como pais. Eu era muito bem tratado na casa de André e
fossemos amigos havia anos e ele logo me chamou para Ricardo, mas na casa de Robson, o loiro, eu era um filho.
almoçar em sua casa. Eu ia passar o dia lá para que ele As mães deles sabiam de onde eu vinha e acredito que
pudesse fuçar meu caderno e se inteirar dos assuntos no caso das mães do André e do Ricardo pode ter havido
escolares. Ele, a madrasta e os dois meios-irmãos fala- algum receio de início, mas os olhares maternos e afetuo-
vam bem diferente, e rimos uns dos outros quando usa- sos delas faziam com que eu me sentisse bem.
mos palavras diferente dos nossos vocabulários locais.

48
50 Bagunçaço Alagados sem água 51

Fiquei muito confuso, pois não tinha por que odiar aquela brigões, ladrões; também se irritavam quando eu dizia
gente. Eles eram legais. Mas eu não sabia como misturar que não era bem assim. Tinha um deles que se decla-
todo mundo, sem as diferenças de cor e classe social. rava racista e nazista. Ele dizia que meu povo fedia, que
Não sabia como explicar isso para o pessoal dos Alaga- se tivesse uma bomba jogava lá embaixo. Alguns amigos
dos nem para meus colegas da escola. retrucavam, dizendo para ele me avisar para eu correr, e
todos riam. Era doloroso, mas eu conhecia bem os dois
A verdadeira amizade nos ensina muito. Naquela época,
grupos. Eram pessoas boas, companheiras, se pudes-
eu queria muito um rádio FM, pois todo mundo na escola
sem se desarmar de tanto ódio, tanto preconceito.
sabia as músicas do momento. O Ricardo era irmão
de um cantor, Robson, da banda Mel, que tinha ficado Eu sabia que minha turma lá de baixo era de companhei-
famoso; a canção dele tinha sido a melhor do verão. Uma ros para tudo; a gente se ajudava. Se o pai de alguém
vez a mãe dele me perguntou se era verdade que eu que- era cachaceiro e o espancava era normal poder ficar na
ria muito ter um rádio FM; eu fiquei envergonhado, por- casa do outro por uns dias. Alguns de nós trabalháva-
que era uma coisa que eu tinha falado só entre a gente. mos pegando compras no supermercado e na feirinha
Então ela foi ao quarto e voltou com uma radiola portátil local com carros de mão feitos de caixotes velhos de
que era tudo: toca-disco, toca-fita e rádio AM e FM! Isso madeira. Para isso, tínhamos que fazer os carros em
era algo inimaginável para mim! Ela pediu para que eu mutirão, cada um trazendo escondido as ferramentas
tomasse conta, pois tinha sido naquela vitrola portátil de casa. Eu não era muito habilidoso com essas coisas
que o famoso Robson tinha começado a cantar. e todos me ajudavam. Lembro de que quando comecei
a vender picolé, um deles, o Gil, me acompanhou todo
Como eu disse, a mãe e o pai de Robson, o loiro, logo no
o tempo, mesmo já sendo experiente e vendendo duas
primeiro dia me mandaram entrar, me abraçaram e me
vezes mais que eu. Sempre que ele tinha que me dei-
fizeram perguntas. A cada resposta minha eles se olha-
xar para ir buscar mais uma guia de picolé, me acon-
vam; pensei que iam pedir para eu não andar com o Rob-
selhava a não ir a certos lugares e a nunca vender para
son, mas depois da conversa a mãe dele fez batatas fri-
turmas grandes, além de marcar um lugar para a gente
tas e disse que eu podia ir lá sempre que quisesse.
se encontrar e depois voltar para casa.
Aí foi um inferno! Os meninos da minha comunidade fala-
Uma vez, eu estava com o grupo dos novos amigos da
vam mal dos branquinhos lá de cima e prometiam que
rua de André, Robson e Ricardo jogando bola na praia e
quando encontrassem com eles na praia, local democrá-
aconteceu o que eu mais temia. De repente apareceu a
tico que gente de todas as etnias, gangues, religiões etc.
turma lá da minha rua, dizendo que agora o futebol era
frequentava, iam quebrá-los na porrada. Eles ficavam
deles. O time adversário do meu era formado por meni-
irritados quando eu não concordava, e alguns diziam
nos da Boa Viagem, bairro que dá nome à praia onde
que eu teria que me decidir, que era para eu tomar banho
estávamos, e também eram brancos de classe média.
de água sanitária e me mudar para a parte de cima. O
Com a turma da minha rua querendo terminar o futebol,
mesmo acontecia quando os meninos de cima se reu-
formou-se uma grande confusão. A intenção era clara:
niam e acusavam os meninos de baixo de serem maus,
52 Bagunçaço Alagados sem água 53

os meninos da minha rua não queriam jogar bola e sim para a praia desmaiaram de tanta porrada. Quando a
brigar, estragar a brincadeira dos outros. Gil, o do picolé, briga começou, Gil e Nem foram logo ajudar os outros,
e Nem, vizinho de frente da minha casa, que eram meus e eu fiquei livre para socorrer os que apanhavam. Na
mais chegados, me cercaram, como que para me pro- confusão, os da minha rua me chamavam de Pim e os
teger. A turma da minha rua estava em menor número, da escola de Joselito. Consegui levar sem um arranhão
mas havia tanto ódio no olhar deles que parecia multi- André e Robson, outros oito do nosso time e um do time
plicá-los. Era bem clara a coisa: negros contra brancos, adversário chamado Fabrício, pois ele era muito amigo
pivetes contra mauricinhos. Mas eu já sabia a maneira de Robson e felizmente correu para a direção que eu
de agir daquela turba; pertencia àquela pivetada e já indicava no meio da confusão. Ficaram um pouco arra-
tinha participado de muitas confusões iguais àquela, nhados mas inteiros. Os do time adversário que mora-
então gritei para André e Robson não falarem nada, não vam no bairro e conseguiram fugir foram chamar ajuda;
responderem aos palavrões. Nisso, Boi, que era o líder chamaram os caseiros, pedreiros, porteiros dos prédios
da turma da minha rua, mandou eu calar a boca ou ele para socorrer seus patrõezinhos. Os meninos da minha
ia me pintar com a cal do campo para eu ficar branco rua recuaram ao ver chegarem adultos para ajudar os
e apanhar também. Enquanto a discussão piorava, eu meninos do bairro, e eu comecei minha odisseia para
convenci Gil e Nem, que eram caras legais, de que um levar meus dez branquinhos para casa, porém tivemos
dos times era todo de gente minha e que dois ali eram a infeliz ideia de voltar para deixar Fabrício. Ele era fran-
amigos-irmãos que nem eles. Contei sobre a radiola zino e estava muito assustado; devia ter uns 12 ou 13
portátil, falei que tinha sido a mãe de um deles (todos anos. Claro que nós, que éramos mais maduros, com 14
aqueles brigões lá da rua curtiam minha radiola), falei anos, não o deixaríamos sozinho. Mas foi só a gente des-
de como as mães de André e Robson me tratavam como pontar na rua que fui cercado pelos meninos de classe
filho, e que eles, mesmo com dinheiro de transporte, iam média, que estavam vermelhos de raiva e de pancada.
andando comigo para a escola. Gil e Nem meio que amo- Começaram a me acusar de pertencer ao outro grupo, e
leceram e me disseram que quando o cacete começasse nesse momento quase fui espancado. Quando fui revi-
no centro a gente não devia correr para a praia, pois, dar o empurrão que levei de um deles, a coisa piorou.
embora parecesse o mais sensato, havia outra parte da Eu era magro e alto, tinha as pernas bem compridas, já
galera lá para quebrar os branquelos no pau; disseram estava pensando em disparar quando Fabrício, que ao
que eu deveria pegar os meus branquelos, subir o forte chegar perto de casa tinha disparado velozmente (pen-
do Monte Serrat e dar a volta na península para levá-los sei que talvez quisesse ir ao banheiro), voltou e disse que
para casa. A briga estourou e eu não pude fazer muito eu tinha protegido ele e a turma do André e do Robson.
pelos meninos do outro time, pois mesmo quando eu Depois me cercou, dizendo que para bater em mim tinha
gritava “venham por aqui” eles me confundiam com os que bater neles. Ia ser uma verdadeira briga de brancos,
meninos da minha rua e corriam para longe de mim. Foi e eu no meio daquilo, mas ao final os ânimos se acalma-
uma briga feia. Os meninos lá da rua tinham pedaços de ram e pudemos começar a aventura de voltar para casa.
madeira, e eu vi cenas muito tristes; os que correram
54 Bagunçaço Alagados sem água 55

Na turma da minha rua havia uns dois que não se davam


bem comigo: um se chamava Daniel, com quem eu já
brigara uma vez porque ele dera um cascudo no meu
irmão Bira, o caçula; e o outro era o Doido, que sem-
pre me provocava; a gente simplesmente não simpati-
zava. Ele era muito perverso, gostava de matar gatos.
Eles convenceram Boi de que eu tinha ficado do lado
dos meninos e de que tinha ido para o lado da Pedra
Furada, então estava claro que eu estava dando a volta
na península para proteger os filhinhos de papai que
moravam na rua de cima.
Já tínhamos dado a volta e estávamos bem perto da rua
dos meus amigos de cima quando, de repente, avistei
minha turma vindo na nossa direção. Não tinha muito a
fazer. Boi chegou com muita raiva, batendo o peito conta
o meu (eu era mais alto, então na verdade ele bateu o
peito dele bem na boca do meu estômago), era como
se eu tivesse desafiado a liderança dele. Como ele era
baixinho e troncudo, tombei para trás e também o olhei
com raiva. André, Robson e todos os outros ficaram em
posição de defesa, enquanto Gil e Nem tentavam acal-
mar. Daniel e Doido não estavam muito interessados na
minha troca de farpas com Boi, pois sabiam que isso a
gente podia resolver em casa, mas Doido em particular
não queria perder a oportunidade de cacetar alguém; ele
era doido mesmo. Depois de me provocar, Boi decidiu
liberar a galera, mas antes ficou me chamando de Jaspel
e super-herói; logo eu, um dos mais frouxos, ia defender
aquele bando de bichas brancas. Assim, minha turma,
que perdia o amigo mas não a piada, estava satisfeita
por poder “zoar” o fato de eu tentar brigar com todos
por uma meia dúzia de mauricinhos. Mesmo tempos
depois, eles ainda me chamavam de Jaspel e riam muito
daquele dia... André não entendeu nada; ele não sabia
que Boi seria incapaz de me bater. O mais importante
56 Bagunçaço Alagados sem água 57

é que, depois disso, consegui levar todos os meus novos Bem, voltando do meu devaneio, não sei se eles se conhe-
amigos para um uma partida de futebol, que chamávamos ceram, acho que sim, nunca perguntei a ambos, mas sei
de “baba”, na escola perto da minha rua, da qual a mãe de que padre Clóvis, com a ideologia da libertação, faz um
um deles era diretora, por isso podíamos usar no fim de trabalho muito importante na comunidade.
semana. Às vezes, Boi e a galera participavam. As duas
A paróquia de São Jorge, além de ter uma escola primá-
turmas nunca se uniram, mas nunca mais houve confusão
ria, desenvolvia várias oficinas de arte e educação para
e muitas vezes ouvi meus amigos da rua de André fala-
a comunidade. Assim, um dia, ao passar pela fronteira
rem que tinham estado em apuros com meninos da minha
ao encontro dos meus amigos lá de cima, os “branqui-
área e depois foram liberados com a seguinte frase: — Ih,
nhos”, como meus amigos de baixo os chamavam, vi uma
é um daqueles filhinhos de papai do Pim.
faixa que falava das diversas oficinas oferecidas pela
— paróquia. Já havia feito a oficina de capoeira no semes-
tre anterior, mas sempre fui cismado com os cristãos,
A paróquia de São Jorge era responsável pelo bairro do
principalmente os católicos; ainda não havia estudado
Jardim Cruzeiro e, por incrível que pareça, ela ficava exa-
História por conta própria como iria a fazer anos mais
tamente na divisa dos dois lados daqueles bairro. Bem
tarde, quando aprendi sobre a Santa Inquisição e outras
ali, logo atrás da rua Rosalvo Barbosa Romeu, a última
coisas, mas ficava desconfiado. Não sei de quê; aquelas
rua de classe média baixa do bairro, fica a rua Anísio
imagens tristes, aquela negação do corpo... Eu morria de
Gonçalves, onde realmente começa o que outrora eram
medo das imagens com cara de sofrimento; elas eram
barracos-palafitas, mas que hoje é o aterro da nossa
diferentes dos orixás, que viviam, erravam, eram como
Amesa. O pároco Clóvis é um homem franzino, de pele
a gente e ainda eram felizes. Preconceitos meus, mas a
branca, nascido no interior da Bahia, mas educado no
vida iria me ensinar a ser mais tolerante, até porque o
seio da Igreja Católica do Rio de Janeiro. Homem culto,
preconceito já tinha me machucado bastante.
amoroso e uma espécie de herói, pois também lutou na
guerra do aterro, assim como minha avó. Ele criou mui- Cheguei na roda de conversa de meus amigos falando do
tos problemas quando apoiou os moradores do Jardim curso e alguns se interessaram, entre eles Branca, pois
Cruzeiro que não queriam sair de suas casas; foi preso e nesse tempo começamos a admitir meninas na nossa
deu muito o que falar nos jornais. Antônio Carlos Maga- turma. Mas só na turma dos meninos de cima, pois lá
lhães e o arcebispo primaz do Brasil, Dom Avelar, tive- embaixo mulher não entrava — elas só atrapalhavam as
ram muito trabalho para resolver o furdunço que rolou coisas. Para mim, era algo novo ter meninas que ousa-
depois da prisão do padre que defendia a permanência vam andar em turmas de meninos. Elas eram legais, e
dos moradores em suas casas com o fim do aterro. Seria aos poucos comecei até a pensar em sugerir lá embaixo
fantástico se ele tivesse encontrado minha avó naquela que admitíssemos meninas, mas fiquei só no pensa-
época, pois padre Clóvis, com toda a sabedoria da Teoria mento, pois cada paradigma tem seu tempo para ser
da Libertação, e minha avó, com a prática ancestral qui- descoberto e eu, após convencer alguns de cima a fazer
lombola, seriam imbatíveis atacando a Amesa. o curso de teatro, agora tinha que explicar para os de
58 Bagunçaço Alagados sem água 59

baixo por que um negão que jogava capoeira e era safo em outro lugar com nossos reis e rainhas. Ela falava que
na comunidade iria fazer teatro. Eu mesmo não sabia; isso era lá pelas bandas da África e que fomos pegos e
era só para preencher o tempo. Mas que eu ia passar de escravizados, mas que alguns de nós eram até prínci-
Jaspel, o herói, para Capitão Gay eu ia. Era inadmissível pes. Eu era o príncipe do Tumba do Mar, pois nascera lá
um menino da turma de baixo fazer teatro, mas também dentro, como os meninos africanos que não vão ao hos-
percebi que meus amigos de cima só tinham aceitado a pital e nascem entre os seus. Pode parecer besteira,
proposta de descer até a paróquia porque eu estava no mas minha avó me disse isso por toda a minha infância e
grupo. Ainda era perigoso para meninos frequentarem a foi exatamente essa responsabilidade de ser o príncipe
rua da fronteira; suas mães iam à missa, mas eram mães, do Tumba do Mar que me livrou das grandes confusões.
que é como ser da Cruz Vermelha; os meninos nunca iam Essa coisa sempre vinha à minha cabeça quando eu me
para baixo sozinhos. metia em alguma confusão e também quando alguém
me tratava com preconceito, como no dia em que a mãe
Bem, ao final, tive que contar para Boi e a galera que
do Robson, o loiro, me chamou para sair com ela. Fomos
estava fazendo teatro na paróquia e explicar que as mães
eu, ela, André e Robson, todos bem brancos, e, quando
dos amigos lá de cima só deixariam eles fazerem o curso
chegamos numa casa da classe média alta, a empre-
se fossem comigo e eu os levasse pelo menos até o pé da
gada, ao abrir a porta e dar acesso à casa, toda sorri-
ladeira. Gil e Nem não disseram nada, mas Boi disse:
dente, perguntou à mãe de Robson:
— Por mim, aqueles viadinhos podem vir aqui a hora que
— Quem são esses dois meninos?
quiserem. Acho até que você devia entrar no curso de
balé com eles. A mãe de Robson respondeu:
E todos riram, riram muito. Boi tinha uma inteligên- — São meus filhinhos também.
cia acima do normal e sabia que eu queria fazer teatro,
Nesse momento, a empregada, que era negra como eu,
mas não ia perder a chance de gozar da minha cara. Ufa!
seguiu pelo corredor rindo e disse:
Aceita a minha nova aventura.
— Vixe! Não sabia que a senhora tinha barriga suja, não.
Assim, entrei para o teatro e, para minha surpresa, o
professor era um rastafári, negro como eu, e dava aula Um dia, quando eu tinha uns 10 anos, minha avó foi convi-
de teatro para jovens de boa situação. Além disso, o pro- dada para a inauguração do Museu Afro, na antiga Facul-
fessor Lula, como era conhecido, era bem-humorado e dade de Medicina da Bahia, no Pelourinho, um evento
falava de uma tal de Babilônia, que era a culpada, era o com autoridades africanas. Fiquei muito triste porque
“sistema” que privava todos dos Alagados da possibili- nenhum príncipe presente me reconheceu, então resolvi
dade de uma vida melhor. que não seria mais príncipe. Em casa, quando voltamos,
ela me explicou que não era para eu ligar, pois fazia muito
Pela primeira vez, eu ouvia uma explicação para a
tempo que a gente tinha saído da África e nossos irmãos
pobreza que não era castigo de Deus ou culpa do pró-
de lá não se lembravam, mas que um dia iriam se lembrar,
prio pobre. Minha avó me contava que antes a gente vivia
pois muitas coisas importantes de lá nem mais existiam,
só aqui, e eles teriam que vir buscar.
60 Bagunçaço Alagados sem água 61

As dinâmicas de teatro me desinibiram, além de terem para eles, e sim o gari que eu representava. E eles tor-
me permitido, mesmo que por meio das metáforas do ciam pelo gari, riam com o gari e estranhamente vieram
professor Lula, ter uma formação política, na qual ras- todos dizer que tinham gostado e queriam saber quando
tafarianismo e socialismo se fundiam. teria outra. Nunca houve uma gozação com a peça. Eles
ficavam até sérios para falar do assunto, e o mais incrí-
O primeiro espetáculo seria no dia 1º de maio e contaria
vel foi que meus amigos de cima representaram meu
com a presença de Dom Lucas Moreira Neves, o cardeal
povo de baixo e passaram a ficar cada vez mais cons-
e arcebispo primaz do Brasil. Seria numa área onde a
cientes de que a questão social é una.
paróquia iria posteriormente construir um auditório.
O professor chegou antes do fim com a cara um pouco
O espetáculo seria uma homenagem aos trabalhado-
quebrada, mas muito feliz com nossa força de vontade.
res, e coube a mim homenagear os garis. Eu pedi a roupa
O curso terminou, e, junto com a turma, montamos uma
emprestada; era o uniforme de um vizinho, que, ao saber
companhia de teatro chamada “Etc e tal”.
do que se tratava, resolveu espalhar para todo mundo.
Eu estava apreensivo, pois temia a chacota dos colegas
da rua. Eu sabia que Boi e a galera inteira estariam lá, e
seria um vexame certo. Assim, no momento do espetá-
culo com a presença do santo padre Clóvis, do cardeal
Dom Lucas, da mãe de santo Senameã (vóvó como sem-
pre a chamei) e Jove, minha mãe, alguém foi avisar que
o professor tinha sido preso, pois a polícia o confundira
com um marginal — os rastas eram muito discrimina-
dos... Todos ficaram nervosos, e eu percebi que a Babi-
lônia não brincava — o sistema tinha conseguido estra-
gar a festa das pessoas dos Alagados. Assim, quando o
padre se dirigiu para a delegacia, eu fiquei com muita
raiva e, como o espetáculo tinha hora marcada para
acontecer, por causa da presença do arcebispo, nós
do teatro resolvemos começar a coisa sem o profes-
sor. Sabíamos que ele ia gostar e que ficaria orgulhoso
da gente. Eu estava muito nervoso, pois, além da minha
família, estava lá minha turma de baixo, pronta para
fazer a maior gozação. Mas a peça falava da pobreza,
da dureza do trabalhador, dos maus-tratos da polícia, e,
não sei como, quando olhei para meus amigos da comu-
nidade, eles estavam vibrando. Não era eu que falava
62 Bagunçaço Alagados sem água 63
Cap.04
Assinando a carteira
Assinando a carteira 67

Fui prestar serviço na empresa de abastecimento de


água, a Embasa, onde descobri que os espertos, pron-
tos para tirar proveito da gente, estavam à espreita em
todos os lugares. No primeiro dia de trabalho, ainda
com 15 anos, o cabo de turma (pessoa que era a líder),
um homem bem simpático e de fala mansa, me levou ao
local onde ficavam todos os funcionários da limpeza.
Era um sótão, um lugar legal, parecia um esconderijo...
Lá havia uma sala com sofá, frigobar, máquina de café
e fogão; havia também um banheiro para a gente. Tudo
na sala tinha a logomarca da empresa, mas eram equi-
Vivíamos um momento paradoxal lá em casa. Por um lado, pamentos velhos, que os serventes tinham recuperado
eu tinha ficado muito feliz, pois meu pai, após a morte de para fazer daquele um local decente. Havia uma mesa
sua irmã que morava no Rio, resolvera que não voltaria de baralho e dominó e a maioria estava ali jogando. Fui
mais a trabalhar lá nos verões seguintes; por outro lado, apresentado a eles, e logo um gaiato já foi gozando:
ele não tinha emprego, tinha 44 anos e já ficava difícil
— Aqui virou uma creche agora, foi?
conseguir algum.
E todos riram. Em seguida, outro me pegou pelo braço e
Após muito tempo, Zé Bofeia passaria as festas de fim
me levou para mostrar meu serviço. Esse rapaz me mos-
de ano com a família. Depois de muito procurar emprego,
trou alguns banheiros, uns dois jardins, entre outras coi-
ele começou a dizer a minha mãe que, como mais velho,
sas. Era uma segunda-feira e, embora eu trabalhasse oito
eu também teria que ajudar. Não que eu não ajudasse em
horas por dia, na sexta não tinha chegado nem na metade
nada: eu tinha só 15 anos e já tinha sido doméstico na
dos lugares que eram da minha responsabilidade. Por
casa de um árabe, ajudante de marceneiro, ajudante de
isso, eles me ameaçavam, dizendo que eu era muito mole
amolador de alicate, carregador de compras no super-
e que não ficaria ali. Na semana seguinte, esqueci algo no
mercado, vendedor de osso para sopa na feira do bairro
esconderijo e voltei para lá antes do horário do almoço.
e vendedor de picolé; mas ele queria que eu arranjasse
Cheguei sem eles perceberem e descobri que tinham me
um emprego de carteira assinada e estudasse à noite.
dado todo o serviço e ficavam lá em cima jogando cartas,
Um dia, meu pai, num golpe de sorte, encontrou um amigo dominó, pauzinhos, dormindo ou assistindo a uma televi-
do Rio de Janeiro que estava administrando uma empresa são velha que também havia no local. Eu era só um menino
de prestação de serviços de limpeza. Embora eu dese- e achava que os adultos não fariam uma coisa dessa, mas
jasse um emprego de office-boy num banco ou algo do vi que estava sozinho; fiquei tão triste que eles pedi-
gênero, fui com meu pai me inscrever nessa empresa. ram para eu não contar na empresa e me fizeram vários
Esse conhecido devia ter muita estima por ele, pois saí- mimos. Ao final, me mostraram a área que era realmente
mos os dois empregados como faxineiros naquele dia. da minha responsabilidade. Era uma área pequena; eu

66
68 Bagunçaço Assinando a carteira 69

dava conta dela em apenas um turno e, no outro, como índia, que tem um gosto e um cheiro bem peculiares. Era
um bobo, ainda ajudava alguns nas áreas deles. Não sabia um lugar com um astral muito bom. Mesmo já morando
dizer não e chamava todo mundo de senhor e senhora. no Jardim Cruzeiro, quando ia visitar minha avó, eu cos-
Em pouco tempo, me deram o setor da chefia para lim- tumava deitar aos pés do caboclo numa esteira de palha
par. Era muito divertido, pois era com um aspirador de pó e dormir à tarde. Um dia encontrei a Bíblia por ali, li o
que parecia um robô enorme. Logo fiz dele um amigo, até Gênesis e o Êxodo. Do Gênesis eu gostei até da trama,
conversava com ele! Nessa época, eu não via muito meus mesmo com a tragédia da expulsão do paraíso e do fra-
amigos da rua, e muita coisa triste começou a acontecer. tricídio de Caim. Mas quando li o Exôdo fiquei decepcio-
Um deles, Daniel, que era um dos mais violentos, morreu; nado com Jeová, pois achei que ele tomou partido de um
seu parceiro, o Doido, matou um cara; e outros estavam se certo povo e matou os outros. Como me senti confuso
envolvendo com o tráfico de drogas... Nos víamos poucas ao discordar de Deus, preferi não continuar. Afinal, não
vezes, mas havia sempre cordialidade na relação. Parece sabendo o que ele tinha feito, não precisava discordar,
que por motivo da perda de um contrato a empresa me pois, como diz o ditado popular: “O que os olhos não veem
mandou para o hospital naval da Marinha. Lá eu trabalha- o coração não padece.”
ria limpando as enfermarias.
Então, nada como uma testemunha para me esclare-
Nessa época, os ventos da adolescência eram verda- cer aquela impressão que tive na minha breve pesquisa
deiros furacões em mim. E eu estava causando muita religiosa! As Testemunhas de Jeová tinham toda uma
confusão lá em casa. Para começar, recebia aos domin- capacidade de discutir de forma até antropológica a
gos alguns fiéis da igreja Testemunhas de Jeová, por- Bíblia, e isso me fascinava. Não havia mais festas no
que achava que eles explicavam melhor o Deus cristão. Tumba do Mar, e minhas pesquisas cristãs estavam
Lembro que eu tinha 13 anos quando li pela primeira vez causando certo desconforto à minha mãe. Não que
a Bíblia; foi lá no Tumba do Mar. Eu a encontrei no meio ela me proibisse, mas eu não queria mais ficar dentro
das frutas na cabana do meu avô Caboclolinho, que era de casa quando ela ia incensá-la. Também havia briga
uma das entidades que minha vó recebia e que eu con- quando eu recebia o salário, pois nunca chegávamos a
siderava a figura masculina de avô, já que seu Cachoeira um entendimento de quanto deveria dar a meu pai para
foi embora no meu primeiro ano de vida. A Bíblia tinha ajudar nas despesas. Ele achava que deveria ser tudo,
sido um presente de minha prima, Dilma, filha de minha pois eu comia todo dia, e eu achava que deveria ser no
tia Elza, que havia se convertido ao protestantismo. Não máximo 15%. Acho que estava buscando construir meu
sei como a bibliazinha foi parar no meio do santuário, que eu, e provocar meus pais nas suas convicções era um
era tipo um presépio montado com palhas de dendê na caminho. Isso é normal nos adolescentes, mas minha
sala principal, onde, além de uma imagem de um cabo- mãe e minha avó sempre demonstraram uma sabedoria
clo de joelhos atirando uma flecha, havia também todas assustadora, mesmo quando eu estava implicando com
as coisas que tinham relação com essa entidade brasi- todos os preceitos do candomblé.
leira: uma cabaça onde eram servidos jurema, charutos,
caxixis e muitas frutas, com destaque para o melão da
70 Bagunçaço Assinando a carteira 71

No dia em que fui fazer um teste de oratória no salão do de meus antepassados. Também estava apaixonado por
reino das Testemunhas de Jeová, lá estavam elas no ter- uma menina na escola. Ela era da turma dos Filhos da
reno inimigo, com seus melhores vestidos, torcendo por Marinha. Estudavam muitos deles lá, geralmente vin-
mim. Visivelmente emocionadas ao me ver com roupa dos do Rio de Janeiro. Eles iam para a escola no ôni-
social. Aceitei Jeová mesmo com sua ira e sua predile- bus da própria Marinha, pois moravam longe, na Base
ção pelo povo de Judá e tentava cumprir todos os pre- Naval. Eram legais e não se dividiam por classe social
ceitos da minha nova fé. Não comia galinha ao molho nem étnica. Eu era muito próximo dessa turma, e já era
pardo, não andava mais nem com meus amigos de cima a segunda menina dos Filhos da Marinha por quem eu
nem com os debaixo, mas uma coisa me incomodava: o me apaixonava. Eu estava em apuros, pois, trabalhando
fato de que, segundo meus instrutores, tanto os orixás como faxineiro no hospital da Marinha, temia dar de cara
como os caboclos do povo do candomblé eram demô- com ela na hora da visita. Ainda mais porque tinha inven-
nios. Isso era como dizer que minha própria mãe era um tado toda uma história para explicar porque eu estava
demônio. Eu era muito apegado ao caboclo de minha avó; deixando de estudar no turno da tarde para ir estudar
ele se manifestava sempre no dia 7 de setembro, data do à noite. Todos os meus amigos tinham planos, alguns
seu aniversário, e eu esperava esse dia como nunca só só ficariam naquela escola até a oitava série ginasial,
para ver meu avô Caboclolinho. Mesmo quando pequeno depois mudariam para uma escola particular. Eu tam-
ficava acordado até tarde durante a grande festa de bém tinha o meu. Eu e André queríamos ser psicólogos,
seu aniversário... Como contei antes, na época de meu já tínhamos feito um acordo, mas veio o emprego... Só
nascimento a aposta de minha avó, meu avô e meu pai poucos sabiam o verdadeiro motivo da minha mudança
mobilizou a comunidade, mas eu não conheci meu avô de turno. Aquilo era uma tortura para mim. Só pensava na
Cachoeira — ele se separou de minha avó no meu pri- menina, chegava a ter visões dela vindo toda arrumada e
meiro ano de vida. Conta minha mãe que a última vez que me flagrando naquele uniforme azul de faxineiro...
o viram foi no dia do meu aniversário de um ano. Assim, o
Bom, com o tempo fui relaxando. Já fazia três meses ou
único avô que tive foi Caboclolinho, que quando chegava
mais que não via a turma da escola, exceto André e o pes-
me chamava ao pé de sua tenda e lá me perguntava se eu
soal que morava ali por cima, pois era perto do salão das
estava comportado, dava baforada de charuto na minha
Testemunhas de Jeová. André, Branca e Paulo, como eram
cara, me dava o abraço e os passes dos caboclos... Era
os amigos-irmãos, eram pacientes e aceitavam esse meu
sempre para mim que ele dava seu arco e flecha para
novo estilo. Às vezes ainda tínhamos uns papos legais,
segurar, e durante a festa me fazia sambar. Eu adorava
pois em outras épocas eu e André éramos ateus e Branca
meu avô Caboclolinho! Agora imaginem vocês se Freud
e Paulo, católicos. Eu ficava feliz por revê-los, mas depois
explica um menino que tinha na avó, uma vez por ano, a
batia um sentimento de culpa por ter parado para falar
figura masculina do avô.
com meus melhores amigos. Uma coisa que ganhei nessa
No auge de minha adolescência eu estava dividido entre aproximação com a fé ocidental foi a culpa, muita culpa,
uma religião que me estimulava a pesquisar sobre a his- mas é a vida. Por todo lugar em que passamos, levamos e
tória judaico-cristã e a minha religião de berço, com a deixamos alguma coisa, e isso é simplesmente viver.
qual tinha toda uma relação emocional, além da história
72 Bagunçaço Assinando a carteira 73

Um dia, estava indo limpar um banheiro quando de Como disse, fui posto para cuidar do terceiro andar, onde
repente saiu do elevador, junto com mais dois adoles- havia alguns apartamentos individuais e quatro enfer-
centes e alguns adultos, minha paixão. Eu tive que ser marias, cada uma com uns seis leitos, se não me falha
muito rápido: corri e me tranquei no banheiro que devia a memória, a sala de enfermagem e os banheiros dos
limpar. Acho que fiquei bem mais de uma hora lá. Depois visitantes. Fui colocado para trabalhar com Josefá, uma
desci do andar em que estava e troquei com Zaza, uma senhora de uns 30 e poucos anos, e foi simpatia à pri-
senhora cinquentona que limpava o segundo andar. Só meira vista. Ficamos muito amigos; lembro que che-
disse a ela que era um favor e que ficaria devendo a ela. gamos juntos e fomos apresentados ao serviço juntos.
Porém, uma semana depois, não tive a mesma sorte. Josefá ficaria principalmente com os apartamentos em
Estava eu com o rodo e o pano de chão limpado ardua- que houvesse mulheres e com a enfermaria feminina;
mente o piso do corredor quando ouvi sua voz: eu ficaria com a enfermaria masculina e com os aparta-
mentos em que houvesse homens. Lembro que, embora
— Joselito, é voce? Menino, você sumiu!
estivesse com saudade do meu robozinho aspirador de
Eu fui levantando o corpo e os olhos com muita vergonha. pó, estava muito motivado, pois o pessoal dizia que a
Tinha dois rapazes ao lado dela — primos, eu acho —, comida da Marinha era melhor do que a de muitos res-
eram da minha idade. Por um instante pensei que seria taurantes por aí. Infelizmente, minha primeira limpeza
ótimo Boi e a galera lá da rua aparecerem ali e quebra- foi na enfermaria, onde um curativo era feito em uma
rem a cara deles... Os dois bem arrumadinhos ali ao lado senhora meio maluca que deixara uma ferida na perna
da menina mais linda do mundo só para me humilhar... apodrecer. Embora isso tenha acontecido na enferma-
Mas ela parecia não ver o uniforme, estava com um sor- ria feminina, tive que ir substituir Josefá, porque a pobre
riso lindo e tratou de me apresentar a seus pais e aos dois coitada saiu de lá botando os bofes para fora. Ao entrar
rapazes. Eu tirei a luva e o pai dela apertou minha mão, na enfermaria, curioso e assustado, me deparei com o
em seguida os primos também, depois a mãe me beijou enfermeiro despejando creolina na perna da senhora, de
carinhosamente. Conversamos um pouco, e ela me expli- onde, como nos filmes de terror, muitos morotós pula-
cou que um tio, também da Marinha, estava ali internado. vam. Percebi, ao ver essa cena, como somos frágeis.
Fiquei aterrorizado, mas não podia correr como Josefá,
Nunca a namorei nem contei sobre minha paixão por ela,
pois o enfermeiro, aos gritos, me mandava limpar aquilo.
mas em momento nenhum nas três ou quatro visitas que
Lembro-me de que, ao chegar no refeitório, horas depois,
ela fez ao hospital houve indícios de que, se eu realmente
para almoçar a famosa comida da Marinha, encontrei
quisesse, minha posição de faxineiro fosse atrapalhar.
Josefá saindo correndo de novo com os bofes saindo
Nunca mais a vi, mas seu sorriso era realmente lindo.
pela boca, entrei e, para minha infelicidade, mesmo
A vida no hospital militar era diferente da Central de vendo o arroz graúdo que tinha para comer, fiquei ali sem
Abastecimento, pois havia mais disciplina, e o pessoal querer comer nada. A pobre Josefá ia ter que se contro-
da faxina era mais cobrado. Tudo era bem organizado, lar; não ia poder ficar vomitando em cima de tudo. Mas
por isso ninguém podia explorar ninguém. Eu também logo depois descobrimos que ela estava grávida.
estava mais esperto.
74 Bagunçaço Assinando a carteira 75

Eu e Josefá saímos limpando tudo. Eu, aos 16 anos, uma vez que quando eu encontrasse a mulher da minha
muito curioso, queria entender as doenças, conhe- vida que eu a levasse de seis em seis meses para fazer
cer pacientes, e fui fazendo amizades. Fazia pequenos exames ginecológicos. Não era para ser assim, mas
favores aos pacientes, ganhava elogios, presentes e aos poucos fui ficando próximo de muitos pacientes
dinheiro de seus parentes, mas a coisa mais valiosa que e de seus familiares. Fazia as ligações telefônicas dos
me davam eram os conselhos. Tínhamos todo o tempo pacientes para as famílias quando pediam, fazia opera-
do mundo; eu terminava rápido e ficava de bate-papo. ções ilegais como levar absorventes para as mulheres,
Um senhor que eu chamava de tio e que tinha senso de pois elas não gostavam do que o hospital fornecia. Havia
humor chamava Josefá de comadre e dizia que iam parir muita cumplicidade com os outros faxineiros, dona
no mesmo dia, pois ele tinha barriga d´água e ela estava Zaza, Seu Zé, Djalma, um rapaz de seus 20 anos, Deci,
grávida. Josefá dizia que sabia quem era o pai do filho meu primo, filho de minha tia Elza, também de 20 anos,
dela e que ele era sem-vergonha porque não sabia quem que trabalhava em outro setor, o pessoal da cozinha, da
era o pai do dele. Era incrível, ele ali deitado doente e lavanderia, os fuzileiros e os marinheiros que tinham
me fazendo rir, rir muito. Era um tio maravilhoso! Ele mais ou menos a minha idade — era como se fossemos
se internava, recebia alta, mas voltava. Também havia colegas. Certo dia, logo pela manhã todos os faxineiros
outro que tinha um problema que os médicos tiveram foram para o terceiro andar, para combinarmos um pro-
que fazer um buraco na garganta dele, e ele falava e testo na empresa, pois já estávamos com o salário atra-
comia por ali. Ninguém entendia o que ele falava, então sado havia quinze dias. Mas, mesmo com as agruras
comecei a ler para ele um livro de histórias bíblicas da pobreza, éramos bem-humorados. Eu era o caçula,
infantis que as Testemunhas de Jeová me emprestaram. mas tinha uma rebeldia e, juntando isso à maturidade
Com o tempo, os enfermeiros me chamavam para tradu- de Josefá, conseguimos fazer a reunião-relâmpago na
zir o que ele dizia, e ele, mesmo sem voz, me contou que enfermaria, onde estavam apenas o tio, o senhor com
era racista, prepotente, que tratara a empregada muito o buraco na garganta e um velhinho que não se mexia
mal. Ele me deixava dar aulas do livro, pois sabia que nem falava. Foram o tio barrigudo e o da garganta que
eu queria ser instrutor das crianças no salão das Teste- me incitaram a reclamar do dinheiro atrasado. Assim,
munhas de Jeová, e assim eu treinava com ele, que se fizemos a reunião e combinamos de ir juntos à empresa
dizia ateu, mas foi mudando, foi ficando com dúvidas. de tarde para saber o motivo do atraso. Foi tudo rápido,
Sua família ia visitá-lo só aos domingos, mas ele dizia dez minutos, pois logo os enfermeiros chegariam e iriam
que as filhas que tinham a minha idade não tinham querer saber o motivo de estarem todos os faxineiros do
paciência para entendê-lo. Também havia uma senhora hospital naquela enfermaria. Bem, o tio fez piada com
que ficava num apartamento e que tinha câncer gineco- todo mundo, e dona Zaza, bem velha mas bem desbo-
lógico como precisavam de meus favores para comprar cada, ficou insistindo para o tio apontar quem era o pai
coisas no mercado, me aproximei dela e do marido, por do filho dele. Gastamos mais uns cinco minutos naquela
meio de Josafá. O marido estava sempre ali; todo dia ia galhofa, até que um enfermeiro chegou e dispersou
ver a esposa, e ficamos próximos também. Ele me disse aquela reunião imprópria.
76 Bagunçaço Assinando a carteira 77

Um dia, lá pelas 11 horas, eu já tinha estado com o tio e Lá vivi minha tristeza e chorarei meu amigo sem deixar os
já tinha rido como sempre, então fui limpar a enferma- enfermeiros verem. Outras mortes vieram, e Josefá cho-
ria. Era sempre assim; embora eu e Josefá tivéssemos rou escondida como eu fiz na primeira vez.
demarcado alguns lugares para cada um, eu limpava
Dessa amizade com os pacientes — às vezes simples
mais que ela, pois estava grávida e tinha algumas com-
marinheiros, outras, de alta patente —, surgiram mui-
plicações. Às vezes ela ia trabalhar e a gente deixava
tas oportunidades de trabalho fora do hospital, e tam-
ela numa enfermaria. Quando isso acontecia, alguns
bém muitos presentes. Ao final, com a influência de
dos outros faxineiros iam me ajudar, mas naquele dia eu
um deles, fui transferido para o rancho dos sargentos e
estava limpando a sala de enfermagem e ela, a enfer-
suboficiais, que era o paraíso em termos de alimenta-
maria feminina, que ficava ao lado da enfermaria onde
ção, e logo fiquei amigo do Fiel, um 3° sargento respon-
ficava o tio barrigudo. De repente, o alarme tocou infor-
sável pela liberação da comida. Havia três ranchos: o
mando alguma anomalia na enfermaria masculina. Eu
rancho dos recrutas até cabos, depois o dos sargentos e
não liguei muito, pois aquele alarme disparava toda
suboficias e o das patentes de oficial para cima.
hora, mas minutos depois avistei Josefá se desman-
chando em lágrimas em frente à enfermaria do tio. Vi
que algo muito ruim tinha acontecido... Foi muito duro;
era a primeira vez que alguém muito próximo morria. Eu
tinha falado com ele havia pouco tempo, ele estava ale-
gre, animado... Como agora estava imóvel, coberto com
um pano branco? Fui até Josefá; ela estava muito mal.
Os enfermeiros cuidaram dela e pediram que parasse de
chorar, porque a gente não podia se comportar assim, e
avisaram que se isso se repetisse eles iriam pedir nossa
transferência. Eu não estava chorando, mas estava triste
e assustado. Estava muito assustado com como tudo
pode mudar de repente. Então, na hora do almoço, não
fui para o refeitório e sim para o alojamento. Eu, Djalma e
Deci tínhamos recuperado e limpado o antigo necrotério
e ali fizemos um alojamento onde trocávamos de roupa e
tirávamos um cochilo durante a hora do almoço. Éramos
chamados pelos soldados novos de os três vampiros. Pas-
mem, mas nossa cama era mesmo na pedra de mármore
onde outrora ficavam os defuntos. Mas nem parecia, por-
que arrumamos um colchão, pintamos as paredes e colo-
camos um sofá velho, um rádio... Era um cafofo e tanto!
Cap.05
Corações e anjos

Cap.05
Corações e anjos 81

no hospital ao lado, logo outro menino perguntou como eu


trabalhava num hospital e não sabia o que era um mar-
capasso... Eu até sabia, mas não tinha ouvido falar de
menino com isso. Ele tinha no máximo 11 anos. Eles, como
se fossem uma junta médica, começaram a me explicar
sobre o marcapasso, a doença específica de cada um e
as diferenças entre elas, a situação política do Brasil e
a razão de Fabinho estar fora do jogo e da conversa —
ele tinha tentado trapacear, só queria brincar se fosse a
polícia, e eles já estavam cansados disso. Esse Fabinho
tinha chegado outro dia e sempre queria tudo para ele.
Um dia Zaza me chamou durante o horário do almoço para Um deles notou o livro, que era discreto como um pavão
visitar um amigo que estava internado no hospital ao lado, com sua capa dura amarelo-ouro com letras vermelhas
o grande Santa Isabel. Com nossa farda podíamos entrar cintilantes, e logo uma grande roda se formou e eu estava
no outro hospital tranquilamente; ficavam um ao lado do realmente ensinando as tradições judaico-cristãs aos
outro. Chegamos à enfermaria e descobri que se tratava pacientes do setor pediátrico do departamento de car-
de um coroa e que havia alguma coisa entre Zaza e ele. diologia do Santa Isabel.
Então resolvi deixar os pombinhos sozinhos e desci para
um jardim interno. Estava com o livro de histórias bíblicas A Zaza chegou, e estávamos todos empolgados. Tive que
infantis — que agora era meu, pois o outro era empres- ir, porque minha hora de almoço já estava acabando,
tado, então um dia o tio que não falava me deu um com mas prometi voltar no dia seguinte, e voltei! Sempre
dedicatória. Ele dizia que ainda não sabia se Deus exis- depois das 17 horas. Eles estavam espalhados em umas
tia, mas que era só uma questão de tempo, pois já estava quatro enfermarias; eu visitei cada uma delas e fiz novas
perto de descobrir. Para mim, que tinha certeza da exis- amizades. Lembro que minha mãe ficou preocupada e
tência Dele, aquele livro serviria para eu alegrar outras até chegamos a brigar, pois ela temia o motivo pelo qual
pessoas com aquelas histórias. Ele já havia morrido e eu eu estava matando aula.
sempre levava o livro comigo, pois estava muito novinho e Muitos daqueles meninos eram do interior. Fabinho foi
por muito tempo quisera ter um daquele. o único com quem eu não consegui estabelecer uma
Estranhamente, havia muitas crianças ali brincando, e empatia, talvez por ter ficado sugestionado pela antipa-
eu observei que um menino tinha uma coisa muito estra- tia que o grupo sentia por ele no nosso primeiro encon-
nha perto do peito, algo pontiagudo que estava dentro do tro. Mas era verdade que ele se comportava de um modo
seu corpo e que parecia tentar sair. Fiquei muito curioso diferente; eu nunca soube direito de onde ele era, mas
e perguntei o que era aquilo, e fiquei sabendo que era um sempre estava me pedindo coisas, merendas, dinheiro.
marcapasso. Ainda fiquei sem entender... Ele me pergun- Era um assédio inconveniente, primeiro porque eu não
tou se eu trabalhava ali. Quando eu disse que trabalhava tinha dinheiro e segundo porque era só bate-papo que

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82 Bagunçaço Corações e anjos 83

eu tinha para oferecer. De início, falamos muito do livro aprendi muitas coisas, como a busca da ética acima de
bíblico, mas nesse período minha fé abraâmica estava tudo, uma maneira melhor de me vestir e uma boa ora-
em crise. Eu estava enfeitiçado pelos tambores do Olo- tória. Infelizmente, quando alguém se desliga ou é des-
dum, que emplacou um sucesso nas rádios de Salvador ligado, não tem mais permissão para falar com ninguém
chamado “Protesto Olodum”. O incrível, além disso, foi de lá de dentro. Mas ainda hoje encontro pela vida essas
que um dia, saindo para pregar de casa em casa, numa pessoas que fizeram parte de um momento tão intenso
determinada rua, ouvi que em uma das casas tocava bem de descobertas e amizades. Alguns transgridem e falam
alto uma canção dedicada a Bombonjira, Exu para o povo comigo; outros não falam, mas olham com um carinho e
de Ketu. A canção era mais ou menos assim: “Bombon- uma cumplicidade que são como um abraço; outros sim-
jira de amogongue aia, Oyere, Bombonjira abõmicom...” plesmente me ignoram.
Não sei como, mas, enquanto falava a boa-nova a uma
Eu já tinha aprendido a dar adeus, e não demorou muito
moradora acompanhado de um membro da congrega-
para eu perceber que a vida é uma eterna despedida,
ção, marcava o tempo da música com o pé. O irmão dis-
mas isso não é negativo, pois só nos despedimos daquilo
cretamente me repreendeu e depois disse que o diabo
que alguma vez encontramos.
estava marcando a música com meu pé.
Eu prosseguia com minhas visitas ao hospital. Tinha
Naquele dia, voltei para casa incomodado. Como vocês já
ficado amigo de um rapaz da minha idade, também por-
sabem, nasci no terreiro e aquela música foi parte do meu
tador de doença cardíaca, com o qual eu tinha uma pro-
cancioneiro infantil, me trazia paz, me trazia boas lem-
ximidade mais adolescente, pois trocávamos revistas
branças. Não poderia colocar tudo que meus antepas-
pornôs, falávamos de mulheres, ele torcia para o Fla-
sados tinham me dado na conta do diabo! Aquilo não era
mengo e eu simplesmente, Bahia. Não queria ser Flumi-
diabo, era família, era herança! A música do Olodum era
nense. Os outros meninos diziam que quando eu estava
herança, o professor Lula era herança, meu avô Caboclo-
com o Flávio ficava de segredinhos, mas eles tinham
linho era herança, uma herança maravilhosa da mistura
entre 9 a 14 anos na maioria e não gostavam ainda de
dos meus ancestrais africanos e indígenas nos escambos
falar de mulher. Bem, ele tinha uns segredos. Um deles,
de sangue e cultura que a escravidão e a luta pela liber-
que eu não devia contar para ninguém, era que ele se
dade lhes proporcionaram. Como eu poderia dizer que
masturbava de vez em quando, mesmo desobedecendo
isso tudo simplesmente era coisa do diabo? E Deus seria
recomendações médicas. A gente ria muito. Eu dizia:
os colonizadores destruindo, pilhando e escravizando
África e América? Eu lia muito na época e estava convicto — Rapaz, se eu chegar aqui e te encontrar estatelado
de que o Deus abraâmico, ou qualquer deus, só poderia segurando a rola, não vou te ajeitar, não, viu? Vão chegar
ser amor, não ódio, preconceito e vingança. as enfermeiras e vão ver você assim... Acha que só
porque você morreu eu vou pegar na sua binga, é? Aí
Dias depois desse episódio de Satanás tentar se apro-
quando eu morrer também e chegar lá no céu, vou ter
priar do meu pé para marcar uma música, me reuni com
que meter a mão nos anjos que estiverem cochichando
os anciões e comuniquei que estava deixando a congre-
porque você já vai ter espalhado para todo mundo!
gação. Dessa convivência com as Testemunhas de Jeová
84 Bagunçaço Corações e anjos 85

A gente ria e depois batia na madeira da janela, dizendo Era uma sexta-feira. Fui para casa e não me lembro se foi
“Deus me livre”. Éramos adolescentes e a palavra morte, feriado segunda-feira ou se não fui trabalhar por outro
mesmo ali, não parecia crível. Bem, o outro segredo do motivo, mas na terça, no fim da tarde, quando cheguei,
Flávio não tinha nada a ver com nossas brincadeiras o leito de Flávio ainda estava vazio. Leozinho, quando
sacanas de adolescentes. E sim com a surpresa que ele me viu, virou para a parede. Fernão baixou os olhos. Só
queria fazer para o cirurgião que o operaria nos próximos Júnior me olhou fixo. Fui até ele, sentei ao seu lado, ele
dias. Eu tinha a missão de comprar uma camisa do Fla- me ofereceu o suco dele, como sempre fazia, e ficou
mengo para ele presentear o médico. calado. Todos estavam calados. Eu olhei para a cama
de Flávio, Júnior também olhou e continuou calado. Não
Era sempre uma angústia quando eu chegava e não
comunicavam aos meninos quando algum deles morria;
encontrava alguém. Às vezes, iam fazer exames e fica-
as enfermeiras diziam que tinham tido alta, que estavam
vam em observação. Ficávamos todos preocupados.
se recuperando... A certeza só vinha quando as mães se
Lembro-me de que depois de um tempo entre altas e
conheciam e, depois de um tempo, comunicavam aos
retornos, estavam na mesma enfermaria meus melho-
filhos caso eles insistissem em saber, ou quando se
res amigos. Os outros meninos me conheciam, mas era
internavam novamente e nunca mais reencontravam o
impossível ficar amigo de todos. Basicamente, fiquei
amigo. Então, naquele silêncio cheio de perguntas, eu
mais próximo de um grupo de uns doze pacientes que se
me levantei e fui buscar respostas. Fui à sala de enfer-
revezavam entre alta e internação. Agora alguns estavam
magem e procurei uma enfermeira mais simpática, por-
ali. Fernão, meio índio, de cabelos lisos “cortados cuia”,
que a minha intrusa presença tinha que ser discreta. Ela
como dizem, tinha 14 anos e morava na Perovaz, em Sal-
mandou que eu esperasse, depois pediu que eu fosse
vador. Junior também tinha 14 e morava em Coaraci, inte-
falar com o serviço social, mas, quando eu já estava me
rior da Bahia. Leonardo tinha 13 e morava em Camaçari;
dirigindo para lá, me chamou. Voltei, e ela me disse que
ele tinha febre reumática, às vezes ficava todo molhado,
eu precisava ser forte, pois meu amiguinho não tinha
era franzino e tinha a fala por um fio, se esforçava muito
resistido à cirurgia. Fiquei atônito, com a camisa na mão.
para manter o timbre firme, parecia bem doente. E Flávio.
Não podia voltar para a enfermaria — o que iria dizer aos
Faltava o Maurício, de 13 anos, que tinha o marcapasso
outros? Então fui para casa e só voltei na sexta-feira.
querendo sair do corpo, o Fabinho, entre outros. Bem,
Eles não perguntaram, mas pareciam já saber, e dessa
comprei a camisa. Mas quando cheguei para entregá-la
vez o motivo de não perguntarem era mais para me pou-
ao Flavio ele tinha ido fazer exames. Procurei saber com
par. Nos seis meses seguintes, entre altas e interna-
a enfermeira o que tinha acontecido e ela me explicou
ções, perdi mais dois amiguinhos no hospital e sobre os
que ele ia ficar por lá para se preparar para a operação.
outros fui recebendo as notícias aos poucos. Quando,
Sempre que eu chegava à sala os outros me olhavam com
por último, Junior morreu, não tive mais coragem de
certa curiosidade e medo de uma notícia ruim, então eu
seguir Leozinho, e Fernão se mudou para o interior. A
disse que ele estava bem e que logo voltaria.
última vez em que estive lá foi quando morreu Maurício,
pequeno que conhecera na tarde no jardim e que tinha
86 Bagunçaço Corações e anjos 87

o marcapasso externo. Fui todos os dias ao hospital correios. Sempre gostei de ler. Um dia, no ano de 1983,
durante os três dias em que ficou em estado grave na quando já morava no Jardim Cruzeiro, vinha de um baba,
UTI, mas infelizmente ele não resistiu. Fui até o seu leito sem camisa e descalço, e quando estava passando pela
e peguei o dominó que às vezes jogávamos todos. Fui até rua principal uma moça branca sentada próximo a uma
a enfermaria do Fabinho; não sei se era o momento, mas Kombi com um toldo branco me chamou. Olhei em volta
o senti sereno, os olhos dele brilharam quando viram o para me certificar se era comigo mesmo, atravessei a rua
dominó na minha mão. Saímos e sentamos no jardim; eu pronto para correr se ela tentasse me amarrar e me colo-
chorava, mas tentava não mostrar a ele. Ele estava tão car dentro da Kombi, pois durante toda a minha infân-
curioso com o dominó que não percebeu muito; jogamos cia ouvira notícias sobre pessoas que eram sequestra-
uma mão, depois me despedi e dei a ele o dominó. Ele me das nos bairros pobres e tinham os órgãos roubados. Um
agradeceu e eu fui embora. amigo meu, filho de minha madrinha, aceitou bombom de
um estranho e sumiu por mais de um ano! Ele era muito
Meus amigos anjos me ensinaram que a vaidade é uma
próximo a mim, embora fosse dois anos mais velho, e por
armadilha perigosa, e eu tenho tentado não esquecer
isso sempre tive muito medo dessas coisas.
essa lição.
Bem, me aproximei da moça desconfiado e ela me per-
Voltei a estudar à noite, mas sempre lembrava de meus
guntou se eu não queria um livro emprestado. Foi uma
amigos. Também voltei a encontrar os amigos da rua
decepção e um alívio ao mesmo tempo. Ela com certeza
de cima, reorganizamos o grupo de teatro e aos poucos
não ia me sequestrar, mas oferecer livro a um pivete que
voltei a frequentar candomblés de parentes. Para eles,
vinha de um baba; parecia um conto meio sem graça. Eu
ainda era estranho; acho que não entenderam como eu
agradeci e disse que estava indo para casa; ela disse
tinha arranjado tanta briga por outra religião e agora
para eu ficar despreocupado, pois não ia ter que ler tudo
estava ali. Mas eu estava tão feliz, e buscava cada vez
ali, que eu poderia levar para casa e entregar na semana
mais, além dos ensinamentos práticos, ler livros de
seguinte. E a situação se transformou em um alívio e em
antropólogos sobre as religiões de matriz africana. Eram
uma oportunidade! Primeiro, porque não ia ter que ficar
tão emocionantes quanto as histórias judaico-cristãs e
ali parecendo um besta e servir de bobo para os outros
ainda eram mais vibrantes por se tratarem das lendas e
meninos. Segundo porque havia livros bonitos. Quem
histórias dos meus antepassados.
sabe eu não podia pegar um bem caro e vender?
Sim, pessoal, não falei, mas a leitura sempre teve um
Ela era sedutora; deveria haver uma bibliotecária assim
papel importante em minha vida. Minha avó lia um
em todo canto. Falava manso, era bonita e dizia que ler um
pouco, sempre tinha algum folhetim popular por perto,
livro era como assistir a televisão, mas as imagens eram
inclusive cordéis. Meu pai lia jornais, claro que sempre
bem melhores porque eram coloridas — naquela época
dormidos. Só minha mãe não lia e escrevia muito mal o
isso era uma vantagem e tanto dos livros! Atraído pela
próprio nome. Desde os meus 9 anos eu escrevia cartas
simpatia da moça, fiquei olhando os livros; ela me indi-
para meu pai no Rio de Janeiro quando ia com minha mãe
cou um tal de Tonico, eu acho, de uma coleção chamada
retirar o dinheiro que ele mandava mensalmente pelos
Vaga-lume, e disse que era de aventura. Mas eu estava
88 Bagunçaço Corações e anjos 89

buscando um que tivesse um valor comercial maior, até minha lábia e depois a teimosia para sair como minha
que vi a Bíblia mórmon bem encadernada, com nomes identidade de casa. Coloquei um camisa limpa no corpo
dourados em alto relevo, gordinha e dourada nas bordas sujo e nem procurei meu chinelo, saí em busca do meu
das folhas, uma belezura. Eu disse: livro dourado. Quando retornei, já havia meninos reti-
rando livros de capa dura, mas para minha sorte o meu
— Gostei desse!
estava lá me esperando. Dei minha identidade e inverti
Ela tentou disfarçar a estranheza e tentou me oferecer os números da quadra e do lote da minha casa. Saí com
outro, mas li o disfarce em seu rosto e insisti que queria a sensação de que tinha me dado bem...
aquele. Ela perguntou a minha idade, eu disse que tinha
Em casa, ensaiei uma leitura do livro dourado, mas fiquei
13 anos. Ela ainda tentou me persuadir com duas ou três
assustado, pois havia uma história que dizia que durante
revistas em quadrinhos, mas eu estava certo de que ela
um incêndio alguém havia fugido com aquelas escrituras
estava tentando salvar aquele livro porque estava na
e era um livro paralelo a outras escrituras. Não sei por
cara que era um dos mais caros. Ameacei ir embora, e ela
que um amiguinho meu cismou que era um livro de bru-
acabou aceitando que eu o levasse. Fiquei eufórico! Mas
xaria. Tentei mostrar que não. Nós concordávamos que
sempre que a gente vai se dar bem algo acontece...
ele era bonito e que deveria valer alguma coisa, mas,
Em seguida, ela explicou que para levá-lo eu teria que fora meu pai, que lia jornais atrasados, e minha avó, que
trazer minha identidade e dar meu endereço. Isso não lia cordéis e uma revista popular com romances pican-
me amedrontou, fiquei até feliz, pois desde a 5° série já tes, quem do nosso universo saberia o valor daquilo?
tinha meu documento de identidade, mas nunca alguém Bem, Zé Roberto falou demais e logo outros meninos
havia me pedido. Fui para casa esbaforido, pois, antes sabiam que eu estava com um livro de bruxaria na mão.
da minha aproximação, ela e sua Kombi estavam às mos- Então, antes de a Kombi ir embora, fui lá e troquei pelo
cas. Depois ela começou a ser discretamente observada Tonico. Costumava ser muito difícil ler aqueles livros fei-
por outros meninos e meninas, que viram eu me aproxi- tos para meninos da minha idade. Eu ainda era um anal-
mar e não ser devorado. Daí começaram a se aproximar, fabeto funcional na escola, mas, não sei como, li em três
alguns perceberam imediatamente minha esperteza e dias, pulando o que não entendia, fazendo suposições,
todo mundo agora queria um livro de capa dura com as pois tinha preguiça de ir ao dicionário e, além disso, não
bordas douradas, geralmente livros complexos, sobre tinha um. Na semana seguinte, a moça me fez perguntas
temas que não entendíamos. Corri para casa para pegar sobre o que eu tinha lido e elogiou meu entendimento;
minha identidade, e minha mãe quis saber para que era, acho que ela fez isso só para me incentivar. Enquanto
afinal, nunca nenhum menino ali tinha precisado da conversávamos, choviam devoluções de livros de capa
identidade. Contei tudo atropeladamente, e ela logo veio dura, e a maioria nem queria pegar outro livro, ainda que
com uma desconfiança, dizendo para eu ter cuidado, ela tentasse. Na verdade, houve uma decepção geral,
que aquilo era coisa errada... Até hoje é assim nos meios pois não conseguimos nada com os livros. Imaginem
mais pobres, desconfia-se de qualquer um que peça a se desse um tango no mango e nós conseguíssemos
identidade que não seja policial. Bem, tive que usar vendê-los! Talvez hoje a comunidade tivesse tráfico de
90 Bagunçaço Corações e anjos 91

livros e não de drogas, mas o fato é que passei a ler mui-


tos livros e depois comecei a entender cada vez mais,
usava a intuição e muitas vezes o contexto. O fato nar-
rado dava pistas do significado das palavras, e aos pou-
cos comecei a pesquisar em um dicionário que consegui.
Faltava uma parte dele, mas resolvia. Só posso agrade-
cer àquela moça da biblioteca. Hoje em dia, vejo a luta
das ONGs para se plugarem na internet, mas acho que
uma boa biblioteca ainda faz a diferença.
Cap.06 Cap.06
O mundo sem Zé Bofeia O mundo sem Zé Bofeia
O mundo sem Zé Bofeia 95

herdei de meu pai: ando muito ligeiro. Certo dia, despertei


com minha mãe me chamando desesperada. Pensei que
tivesse perdido o horário para ir andando, mas ela gritava
e eu, ainda despertando, não entendia. Até que entendi
que ela dizia algo sobre meu pai:
— Pim, meu filho, corre pelo amor de Deus que seu pai
tá mal!

Corri para o quarto e ainda tentei ressuscitá-lo com


Entre os 15 e os 17 anos tudo mudou muito rápido para massagem cardíaca. Eu estava em cima dele, minha mãe
mim, pois de estudante passei a trabalhador de carteira e minha irmã gritando, e mandei meu irmão correr para a
assinada. Lembro que um dia o prédio do IBGE alagou e casa de meu tio que morava nas proximidades, mas per-
a nossa empresa colocou todo seu efetivo para ajudar. cebi que ele dera um suspiro forte e não se mexia mais.
Nesse dia, pela primeira e única vez, trabalhei com meu Minha mãe e minha irmã gritavam desesperadamente e
pai; depois ele saiu da empresa. Era uma firma muito eu vi meu pai ir embora ali nas minhas mãos; não conse-
esperta, dessas que nunca recolhem a contribuição do gui ajudar. Fiquei olhando aquilo, parecia um pesadelo.
INSS e depois vão à falência deixando os funcionários na Vizinhos chegaram, a casa ficou cheia, uma confusão,
mão. Como meu pai começou a ter problemas de saúde e minha mãe passando mal. Eu tive que cuidar de tudo.
isso poderia denunciar a falta de contribuição deles caso Meu tio não estava em casa, então saí com o vizinho para
ele precisasse ficar afastado sob os cuidados do INSS — cuidar do enterro. Voltei mais tarde, eu mesmo o vesti,
acho que a essa altura o amigo dele não trabalhava mais coloquei um conjunto quase cáqui do qual ele gostava
na empresa —, e ele foi demitido. Meu pai era muito cora- — ia sempre aos sábados ao Baile dos Coroas com ele
joso. Mesmo com problemas de saúde, ele comprou uma —, penteei seu cabelo e, com a ajuda de meu irmão de
caixa de picolé e passou a vender todos os dias. Então 14 anos, de alguns vizinhos e do agente funerário, colo-
nessa época todos lá em casa trabalhavam um pouco: quei ele no caixão e fomos na Kombi com o corpo para o
eu com carteira assinada, meu irmão de 14 anos em um velório. Não saí de perto dele até o momento do enterro.
ferro-velho, minha irmã gêmea como manicure e minha Eu achava que era um felizardo, pois, mesmo com toda
mãe lavando roupa e fazendo faxina. Não havia mais a pobreza, tinha minha mãe e meu pai por perto. Ele era
espaço para eu brigar pela porcentagem da minha contri- tão engraçado, sempre estava de bom humor. Lembro
buição; eu entregava todo o meu salário à minha mãe. Meu que, quando eu era menor, ele teve uns problemas gas-
pai também sempre agiu assim. Até meu vale-transporte trointestinais e, quando ia ao banheiro de nossa minús-
eu dava. Saía de casa às 4h50 e andava do Jardim Cruzeiro cula casa nos barracos-palafitas, corríamos os três para
até Nazaré. Eram uns 8 quilômetros, mas a economia ser- ficar bem perto e rir das sonoras flatulências que ele
via para o café da manhã. Para mim era até legal, só era soltava. Ele ria e dizia que íamos ficar velhos cedo, pois
ruim quando chovia. Eu tinha que chegar no hospital às era o que acontecia com quem ria do peido alheio. Era
6h40, e precisava andar ligeiro — aliás, isso é algo que

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96 Bagunçaço O mundo sem Zé Bofeia 97

tão divertido. Ele sempre trazia presentes do Rio para Quatro anos após a morte do meu pai, eu havia experi-
a gente e, claro, cadernos e canetas de lá. Eu adorava mentado a vida dura de ter que sustentar a família e já
quando ele penteava meu cabelo para eu ir para a escola; tinha tido diversas profissões. Seis meses depois da
eu sempre fazia um escândalo, mas gostava. Ele segu- morte dele, deixei o trabalho no hospital e fui trabalhar
rava meu queixo com força e desembaraçava o danado. como balconista numa loja de eletrônica. Fui vendedor
Uma vez, teve de viajar às pressas para o Rio, saiu de de revistas como Isto É, garçom numa pizzaria, padeiro
madrugada, e quando acordei fui falar com minha mãe: e confeiteiro numa empresa de massa folhada. Inicial-
mente, parei de estudar. Estava no segundo ano de admi-
— Mainha, sonhei que meu pai entrava no quarto, me
nistração de nível técnico, o que equivale ao 2º ano do
dava um beijo e saía.
ensino médio hoje, mas tinha que ganhar dinheiro, então
Então ela me contou chorando que ele teve que viajar lavava os carros dos tenentes da Marinha, mesmo depois
às pressas para o Rio por motivo de doença de uma de de ter deixado o trabalho. Com o tempo, as coisas foram
suas irmãs. se normalizando, reencontrei os amigos do teatro, reabi-
litamos o grupo, e agora havia pessoas da parte de baixo
Eu estava com medo, estava inseguro, me sentia com o
também. Pelo menos três dos meus amigos de baixo
mundo nas costas, pois todos os homens adultos da rua
haviam morrido como consequência do envolvimento
sempre me diziam que eu não era mais um menino, era o
com o tráfico, outros estavam virando pais precoce-
homem da casa. E me tratavam assim. Era estranho ver
mente, alguns eram só desocupados largados à própria
aqueles homens me olhando com tanto respeito, mesmo
sorte e apenas um número bem reduzido estava, como
quando eu ia conversar com seus filhos coisa de adoles-
eu, sobrevivendo. Simplesmente sobrevivendo.
cente em suas casas.
Meu pai deixou como herança a caixa de picolé, o dinheiro
exato para o ônibus do dia seguinte e o sentimento muito
forte de que eu tive um pai, algo de que nunca tinha me
dado conta, mas que a maioria dos meninos lá da rua
não tinha. Alguns tinham pais cachaceiros que talvez
fosse melhor não ter, ou tinham pais birrentos, violentos,
espancadores. Meu pai foi simplesmente um pai, coisa
para medalha no velho Alagados.

A vida já era dura com Zé Bofeia, porém sem ele tudo ficou
desequilibrado. Ficamos muito unidos, minha avó ajudou
muito e foi morar com a gente. Ela, sozinha e doente, aca-
bou vendendo a Tumba do Mar para minha prima adven-
tista, que a dividiu em várias casas para alugar.
Cap.07
Um homem da lei
Um homem da lei 101

Eu estava trabalhando, estudando e com umas paqueras.


Assim, não sobrava muito tempo em casa e, infelizmente,
por isso não acompanhei a educação de meu irmão Bira,
o caçula, que meu pai deixara com 7 anos e que já estava
com quase 11, mas fiquei sabendo que minha mãe o
matriculara num curso profissionalizante oferecido por
um homem que passou pelo bairro. Ela temia muito pela
sorte do caçula, pois não havia o pai para discipliná-lo e
também não existia mais o terreiro Tumba do Mar, onde as
crianças eram criadas na coletividade, só havia pobreza,
violência e muita droga.
Num domingo, meu irmão caçula reclamou que no curso
Uma boa notícia dessa época foi que voltei a estu- algumas crianças estavam fumando um cigarro dife-
dar. Fazia um supletivo. Esse curso ficava no centro da rente e cheirando cola. Isso me preocupou e resolvi visi-
cidade e, um dia, quando me dirigia para lá, ao passar tar o tal curso profissionalizante em que minha mãe o
na Praça da Piedade, encontrei um senhor com algu- matriculara. Para minha grande surpresa, o curso era o
mas crianças de rua pedindo dinheiro para iniciar um mesmo para o qual eu doara os 60 reais, e um dos fuman-
curso profissionalizante. Ao receber o cartaz da mão tes do cigarro diferente era exatamente o menino que
de uma criança, perguntei do que se tratava, e ela me me convencera a fazer a doação, apelidado de Dendê.
explicou que morava na rua e estava junto com aquele
O que eu encontrei funcionando não era bem uma escola
senhor e outras crianças. Eles haviam invadido um gal-
e sim um antigo mercado municipal abandonado que um
pão velho na cidade baixa e tentavam reformar o local
senhor chamado Luis Antonio havia invadido e enchido de
para as crianças de rua terem um futuro. Naquele dia,
meninos de rua. Numa ideia inusitada, ele os tinha mistu-
eu tinha o equivalente a 120 reais para efetuar o paga-
rado com meninos das comunidades adjacentes. Quando
mento da mensalidade da escola, mas fiquei comovido
me identifiquei como o rapaz da doação da praça e como
com a situação e a desenvoltura do menino, doei 60 reais
irmão mais velho de um dos alunos, deixei claro que pri-
àquelas crianças e prometi passar lá, pois poderia dar
meiro teria que tirar meu irmão dali imediatamente, mas
aulas de teatro e ensinar a fazer pão. Contei ao dono do
que estava me voluntariando para aos sábados e domin-
curso o que acontecera e ele foi compreensivo, porém
gos ajudar no que fosse necessário para o projeto.
me advertiu de que havia muitos picaretas se aprovei-
tando das crianças para ganhar dinheiro. Como as ins- Nunca consegui fazer um pão naquela estrutura ina-
talações eram perto de onde morava, eu poderia dar um dequada; não havia cozinha no local apenas um fogão
pulinho lá para verificar a veracidade da história. E me improvisado. As aulas de teatro tampouco aconteceram,
deu quinze dias para eu levar os 50% que faltavam da pois os meninos eram tão inquietos e dispersos que o
parcela daquele mês. máximo que eu consegui foi ser um monitor da escola

100
104 Bagunçaço Um homem da lei 105

de quando em vez para que o senhor responsável tivesse sentou a mão num menino. O menino se queixou no jui-
um descanso. Porém, nesses momentos, os meninos me zado e eu, que era voluntário na instituição, fui chamado
contavam histórias, histórias fantásticas de assalto, para depor. Fiquei assustado, mas, antes mesmo da
estupro, morte, vida familiar, fugas, transas, meu Deus, data do meu depoimento, recebi um convite do depar-
que intensidade, que liberdade havia entre eles! tamento social do juizado para ir falar um pouco da peça
teatral. Ao final das duas coisas, depoimento e entre-
Ao final, resolvi escrever uma peça para nosso grupo de
vista, surgiu uma relação de cordialidade com alguns
teatro, que àquela altura estava meio moribundo. Daí
funcionários. Um dia, recebemos uma doação de 1.000
surgiu o espetáculo Balada dos pivetes que contava a
peças de roupa da ACBEU (Associação Cultural Brasil-
trajetória de duas crianças desde a saída do lar até se
Estados Unidos) e, após a apresentação da peça, acionei
tornarem realmente meninos de rua. O objetivo do espe-
o juizado para buscar uma parte das roupas para o CEA-
táculo era apontar as múltiplas situações que levavam
MAC (Centro de Apoio ao Menor e Adolescente Carente),
as crianças à, de rua.
pois, a essa altura, eles já haviam notado que, embora
Em uma das apresentações feitas no bairro do Uruguai, fosse durão, seu Luis era boa gente e só precisava de
havia uma equipe da filial da Rede Globo, a TV Bahia, capacitação para poder ajudar melhor nas questões das
que foi fazer uma matéria sobre a violência no bairro. crianças e dos adolescentes.
Ao ser entrevistado, um dos moradores se referiu ao
Uma das coisas marcantes foi que só havia uma Kombi
espetáculo, que tinha visto um dia antes e que estava
disponível, então a chefe do setor, doutora Sara, o moto-
sendo reapresentado naquele momento. Então a equipe
rista da Kombi, seu Paulo, e eu tivemos que subir três
de reportagem resolveu cobrir o espetáculo, e ele aca-
lances de escada carregando todas as roupas. Fiquei
bou sendo exibido no jornal local, visto em toda a Bahia.
muito feliz por me deparar com aqueles funcionários
Assim, de uma hora para outra, fomos chamados para
públicos que ainda estavam comprometidos de verdade
apresentar o espetáculo em instituições, associações
com seu trabalho. Eu, que na maioria das vezes tivera
de moradores e até no interior da Bahia.
experiências que reforçavam a ideia de indiferença, aos
Na vida, às vezes acontecem coisas e não sabemos expli- 21 anos passei a ser comissário de menores da comarca
car como, só podem ser resultado do acaso. Eu conti- de Salvador. Foi como se me nomeassem delegado no
nuava a ajudar o seu Luis, que não era nada ortodoxo na bairro! Tudo que envolvia crianças ia parar no meu frá-
forma de atuação com os meninos. Ele mesmo tinha sido gil barraco de madeirite, que estava cada vez mais longe
um menino de rua e, como acabou aprendendo vários daquele lindo portfólio da Amesa.
ofícios e se tornou razoavelmente bem-sucedido, acre-
Então eu agora trabalhava como padeiro, à tarde era
ditava que trabalho e disciplina transformariam aqueles
comissário de menores e fazia teatro na comunidade.
meninos. Havia muito amor nas ações dele, mas algumas
coisas que podem ser empregadas numa época são com-
plemente condenáveis em outra, e ele insistia em aplicar
os métodos que aplicaram nele mais de 40 anos antes, e,
Cap.08
Nascimento do Bagunçaço
Nascimento do Bagunçaço 109

A coisa foi piorando e, por meio de dona Teresa, fui acom-


panhando. Segundo ela, não se falava de outra coisa.
Alguns, embora se sentissem incomodados, achavam
melhor que eles estivessem ocupados, mas a maioria
queria mesmo seu sossego de volta. Assim, à medida
que o sucesso deles foi aumentando, as atitudes de
intolerância também foram crescendo.
Um dia, dona Teresa me contou que uma senhora, deses-
perada, havia jogado água de roupa suja neles. Depois
No final de 1991, eu seguia minha vida, trabalhando pela uns meninos maiores, provavelmente a serviço do senhor
manhã na empresa de massa folhada, à tarde no juizado da quitanda (agindo como jagunços), haviam passado
de menores e mantinha o grupo de teatro ativo. Estava em duas ou três bicicletas atirando ovos podres neles.
preparando um espetáculo chamado O julgamento de O que mais me impressionava era a persistência daque-
Papai Noel que tratava da questão das muitas crianças les meninos, pois nada diminuía a assiduidade nem a
que não recebem presente no Natal. pontualidade dos ensaios. Uma vez, novamente minha
Um dia, ao retornar do trabalho no juizado, uma vizinha informante me contou uma história inusitada: a banda já
muito próxima chamada dona Teresa me contou a novi- entrava pela novela das oito, tocando sem parar, quando
dade, como acontece sempre entre vizinhos quando há a vizinha ao lado, morrendo de dor cabeça e desespe-
algo novo, quer seja uma coisa pública, quer seja melhor rada, pediu ao filho que fosse lá e comprasse o silêncio
ainda, quer seja da vida particular de alguém da proxi- da banda com uns trocados. Foi uma medida eficaz: eles
midade. Fiquei interessado e curioso, então ela passou interromperam o ensaio, respeitando a dor de cabeça da
a falar sobre uma meninada que se juntava havia alguns vizinha, e receberam seu primeiro cachê. Não vamos nos
dias e tocava latas nas tardes e noites. Como eu era fixar no detalhe de que foi para parar de tocar, pois deta-
quase da família e vivi toda a adolescência na casa de lhes são apenas detalhes...
dona Teresa com seus filhos, era certo passar na sua Mas um dia comecei a me preocupar, pois soube de
casa primeiro, antes de chegar na minha, e assim a cada minha competente informante, enquanto tomava um
dia eu ficava atualizado do desenvolvimento da coisa. café e comia um pão com manteiga (o que era mais que
Lembro que um dia o som da banda parecia ter tripli- chique, pois na maioria das casas havia apenas marga-
cado; eu estava sentado no barraco de dona Teresa e rina, quando não era pão seco mesmo — minhas passa-
assistia a sua agonia tentando assistir à novela das 19h. gens na casa de dona Teresa eram regadas a um lanche-
Soube no outro dia que durante o Jornal Nacional e a zinho antes de chegar em casa), com certa tristeza, que
novela das 20h a coisa ficou feia, pois o som aumentou houve distribuição de cascudos, tapas e pedradas quando
mais, e eles estavam tocando até depois das 22h. Por se um grupo mais exaltado de moradores tentou interromper
tratar de um bairro horizontal, com casas de madeirite, o ensaio antes da hora. Parece que os meninos revidaram
o som se propagava para bem longe.

108
110 Bagunçaço Nascimento do Bagunçaço 111

com violência à tentativa truculenta de interromperem naquela situação tinham uma atitude cúmplice, ansiosos
sua sagrada atividade e continuaram a batucada metros pelo momento em que eu daria o “bote”.
adiante para mostrar que não aceitavam desaforo.
Após alguns dias de observação, logo identifiquei os
— componentes da batucada. Percebi que um deles, Leil-
son, parecia liderar e que meu irmão caçula, o Bira,
Verdade seja dita, não acho que dona Teresa tinha legis-
então com 12 anos, às escondidas também participava
lado em causa própria quando, com todo cuidado, suge-
daquela confraria músico-marginal.
riu que eu interviesse, pois eu era um agente do poder
judiciário, e ela temia que o tempo fechasse por aqueles Dava para notar que as latas, como os tambores de can-
dias. As mães dos meninos já vociferavam: “Ai de quem domblé, levavam os tocadores a uma espécie de transe
tocasse num fio de cabelo do filho delas”, e as pessoas e os transportavam daquele terreno baldio e fétido para
incomodadas já se organizavam para fazer alguma per- um palco bem iluminado. Acendiam neles a luz da beleza
versidade contra a turma da lataria. ofuscada pela pobreza. Faziam com que encontrassem
seus ancestrais nas tribos africanas e/ou indígenas —
Claro que eles já haviam sido ameaçados por alguns vizi-
nos seus dias mais belos de agradecimento. Rapida-
nhos que disseram que chamariam o juizado de menores.
mente os projetavam para o futuro, para uma sociedade
E a conversa que tive com dona Teresa, e que foi assun-
igualitária, humanista e com uma percepção jamais ima-
tada por Neves, vizinha que morava ao lado, logo se espa-
ginada, na qual os seres humanos teriam a consciência
lhou, naturalmente, com versões variadas, a maioria com
bem desperta em relação ao nosso ecossistema.
pitadas de ação da SWAT, pois na cena eu chegaria com
a “Galinha Preta” (apelido que meninos de rua davam à —
Kombi de cor preta que pertencia ao juizado) e recolheria
Numa dessas observações, eu, que já estava encantado
eles para um reformatório qualquer.
com os sonhos deles, com sua capacidade lúdica de ter
Naquele período eu senti que, ao voltar do trabalho, as tantos sonhos em meio a tanta pobreza material, fui
pessoas nas mesas de dominó e as vizinhas que varriam tocado pela força da percussão. O som também me fez
suas varandas me olhavam com cumplicidade, pois, como transcender e fui abduzido para dentro daquele sonho
me tinham me visto assuntando, espreitando a molecada de menino, vestido de branco, com aqueles “êres-tata” e
de longe, estavam certos de que a solução viria através de seus ancestrais (que vieram da África, de Cuba, do Haiti,
mim — eu seria o remédio para o calvário deles. de todos os lugares para onde os negros foram levados
como escravos) que ali foram festejar e me passar o
Realmente, na fase mais tensa da contenda, passei a
Decá. Da mesma forma que era costume nos terreiros
observar os meninos. Eu passava rapidamente na casa
um(a) filho(a) de santo ser escolhido(a) e emancipado(a)
de dona Teresa e logo me dirigia para um poste apa-
por pai ou mãe de santo e assim sair para criar seu pró-
gado do outro lado da rua, perto do portão da Escola
prio terreiro, ou como numa colmeia, que, ao crescer,
Santa Bárbara. Dali podia observá-los com tranquilidade,
precisa deixar nascer outra rainha para dividir o enxame
pois, como disse antes, os poucos vizinhos que me viam
e dar continuidade ao ciclo da vida.
112 Bagunçaço Nascimento do Bagunçaço 113
116 Bagunçaço Nascimento do Bagunçaço 117

Pois ali estavam os “tatas-mirins” que tiravam as canti- Foi aí que eu lembrei da paróquia de São Jorge, do padre
gas para os inquices e caboclos. Assim, ao atravessar a Clóvis, e o procurei. Posso dizer que a recepção não foi
rua, soube que meu pai Ogum me pegara pela mão e me muito empolgada, pois padre Clóvis estava ocupado
levara até aquelas pequenas criaturas encantadas, escrevendo um documento importante e teve de fazer
maltrapilhas e bagunceiras. E naquele momento eu soube uma pequena concessão para me receber, embora con-
que, como irmãos, deveríamos cuidar uns dos outros. tinuasse a escrever seu documento e só depois de me
ouvir explicar tudo tenha levantado a cabeça, olhado
Porém, os olhos comuns naquele entardecer de verão
fixo nos meus olhos e dito:
iriam narrar que, após observá-los por alguns minutos,
eu simplesmente atravessei a rua, e que, ao me ver, os — Tudo bem, desde que não seja na hora da missa, pode
meninos pararam de tocar, engoliram a saliva e pensa- trazê-los.
ram: “Reformatório, aí vamos nós.”
No 20 de dezembro de 1991, os meninos e eu nos reuni-
Cada um escolhe a versão que melhor lhe convier. mos na sala três do centro comunitário da paróquia de
Enquanto isso eu, que não tinha tempo a perder, tratei de São Jorge às 19h. Notei que havia mais meninos do que
me apresentar, quebrar a tensão, explicar que, embora o número que eu contara na rua durante minhas obser-
fosse do juizado, não havia problemas, pois o nosso tra- vações, mas tudo bem. Compareceram Leilson, Tata,
balho, longe de ser caçar menino, era proteger. Na ver- Folha, Mar, Jorginho, Sergio, Caboco, Zé, Babau, Fau,
dade, eu estava ali como vizinho, queria me reunir com Nildo, Nego e Jean.
eles para explicar melhor e deixei escapulir que sabia que
A reunião transcorreu normalmente. Bem, é melhor falar a
Bira, meu irmão, também andava com eles. Nós precisá-
verdade: os meninos, embora respeitassem a minha posi-
vamos de um local para uma reunião, mas quando as pes-
ção como comissário de menores, acho que já sentiam que
soas ficavam sabendo que seriam os meninos da batu-
na verdade estavam diante de um irmão mais velho, de um
cada, educadamente arranjavam uma atividade para a
vizinho comum ou de um colega dos irmãos mais velhos
mesma data que eu estava solicitando.
deles. Eles estavam muito à vontade — à vontade demais,
Qual não foi a decepção do povo do dominó e das varre- para ser claro —, faziam brincadeiras e muita gozação.
doras de varandas, que davam sorrisinhos agradáveis e
Acostumado a essas atividades com crianças chamadas
acenos gentis e que por um tempo guardaram em abso-
“difíceis”, não me incomodei com a desordem e consegui
luto segredo as minhas observações discretas atrás do
administrar bem a reunião, durante a qual fizemos uma
poste de iluminação apagado da Escola Santa Bárbara.
votação para escolher o nome da batucada, que, depois
De certa forma, foram traídos ao ver a lei, ou melhor, o
de calorosas discussões, passou a se chamar Bagun-
homem da lei, passando acompanhado daquela pive-
çaço. Bem, sou obrigado a falar mais sobre a escolha do
tada barulhenta, com uma lata e uma descarga plástica
nome, pois era normal que as crianças absorvessem os
de banheiro, procurando um lugar para se reunir. Acre-
nomes pejorativos que a comunidade dera a eles. Assim,
dito que o alívio imediato de não acontecerem mais os
depois de me apresentar, comecei tentando entender
ensaios das 18h até altas horas me livrou de uma incre-
como tinha começado a batucada.
dibilidade irrecuperável.
118 Bagunçaço Nascimento do Bagunçaço 119

Segundo os meninos presentes, Leilson havia assu-


mido a liderança depois que Sinval fora preso por furto
e recolhido num reformatório. Ele e Sinval tiveram a
ideia de pegar uma descarga velha, uma lata e começar
uma batucada. No início, eram, Sinval e mais três, pois,
como ele era considerado um garoto-problema sem
recuperação, as mães não deixavam os outros se jun-
tarem a ele. Quando Sinval foi preso, Leilson ficou sozi-
nho, pois o outro menino que era parceiro de Sinval na
atividade “alternativa” que culminara na prisão estava
foragido. Leilson herdara de uma hora para outra uma
lata de querosene velha e uma descarga sanitária,
e logo chamou Osmar, mais conhecido com Mar, que
morava na casa ao lado da sua, e continuaram a banda,
ou melhor, o duo, pois antes era um trio. Com a saída
dos mais desprestigiados pelas mães, outras crianças
foram se chegando, e já eram uns oito no momento em
que comecei a observá-los.
Com a explicação dele, fui entendendo por que no
começo a coisa foi tratada como pitoresca pelos vizi-
nhos, afinal, três meninos não faziam tanto barulho
assim. Mas, com a saída de Sinval e a liderança de Leil-
son, a coisa cresceu e passou a ser um incômodo.
Naquela reunião, entre uma brincadeira e outra, fiquei
conhecendo mais ou menos a vida deles, pois costumam
debochar da família uns dos outros: tinha pai alcoóla-
tra, mãe solteira amasiada com vizinho já casado, pai
preso... Tudo vinha à tona nas brincadeiras. Então, como
dizia antes, eles queriam se chamar “Bagulhaço”, “Bada-
maço”, “Morre de fome , mas não trabalha” e toda sorte
de palavrões com que eram xingados pela comunidade.
Eu fui colocando os nomes sugeridos no quadro-negro e,
por fim, vendo aquela algazarra, sugeri Bagunçaço.
120 Bagunçaço Nascimento do Bagunçaço 121

— que já havia três semanas que eles não tocavam mais nas
latas. A comunidade sentiu a ausência dos meninos. Dona
Na votação, Bagunçaço começou a tomar distância
Teresa, como sempre, era meu termômetro, e até ela, que
dos outros nomes, houve um começo de confusão, pois
havia me induzido àquela situação, veio me perguntar o
uns três achavam que a maioria tinha escolhido o nome
que afinal eu tinha feito com os meninos.
que eu sugerira para puxar o meu saco, mas eles mes-
mos contornaram a situação e Bagunçaço foi eleito com Foi então que percebi que tinha quase matado a banda
maioria esmagadora. de lata, pois a transformara numa companhia infantil
de teatro. Mas foi um desvio proveitoso. De qualquer
Outras reuniões foram marcadas, e a cada reunião o
forma, solicitei que eles trouxessem a lata e a des-
número de meninos aumentava. Estava claro para mim
carga, e, dentro do espaço da paróquia, muito baixinho,
que eles precisavam de muita atenção para terem disci-
retomamos os ensaios da banda. E, claro, a peça se
plina e aprenderem a produzir em grupo. Algo muito bom
transformou num musical.
aconteceu quando resolvi ler um pequeno livro infantil
e os convidei para criarmos uma peça teatral baseada —
na história. Embora seduzidos pela história, ficaram se
Organizamos depois uma ida ao lixão da cidade, pois pre-
entreolhando como se soubessem de algo que eu não
cisávamos de mais latas e descargas, já que na formação
sabia. Depois, em casa, meu irmão me contou que eles
deles ainda se mantinham a lata e a descarga herdadas
estavam receosos de fazer a tal peça, pois teatro não era
da gestão Sinval. Não fomos todos, foi feito um sorteio,
coisa de menino e sim de bichinhas e meninas.
assim, além de vivenciar uma realidade cheia de moscas
Na verdade, havia um encantamento mútuo entre mim no meio do lixão, conseguimos catar latas e descargas
e eles. E, depois de muitos argumentos, consegui con- sanitárias plásticas para cada componente da banda.
vencê-los. Eles, com cara de quem estava indo para a

câmara de gás, resolveram fazer a peça com a condição
de ninguém do grupo comentar com outros meninos e de Já havia uma aceitação da vizinhança, pois era mais que
nunca se apresentarem em público. notável a mudança. Eles só tocavam na rua com hora
marcada, geralmente entre as 17h e as 18h, mas a banda
Nas três semanas seguintes, as crianças foram expos-
sofria uma dura implicância das meninas da mesma
tas aos exercícios de teatro que os ajudaram a ter uma
faixa etária. Elas chamavam eles de bagulhaço e eram
forma mais afetiva no contato uns com os outros, e seus
muito boas em desviar dos objetos arremessados por
personagens, lua, sol, lenhador, carneiro, entre outros,
eles, acho que por conta de jogarem baliô. Mas não joga-
foram sendo adotados por eles, que já não estavam tão
vam pedras tão profissionalmente como eles, acho que
resistentes, a ponto de comentarem que era uma brinca-
por causa do baragandão. Explico: nessa idade as meni-
deira legal aquela coisa de teatro e já estarem entusias-
nas brincam muito de baliô, que consiste em ter dois
mados para mostrar aos pais e a outros moradores. Esta-
times que tentam acertar uma bolada no adversário, e
vam mais concentrados e tranquilos, mas notei também
os meninos, de baragandão, que consiste em uma pedra
122 Bagunçaço Nascimento do Bagunçaço 123

presa a uma linha. O jogo pode ter dois ou mais partici- hematomas por todo o corpo. Perguntei se tinha caído
pantes, que atiram suas pedras no ar simultaneamente da bicicleta, e todos riram e logo me explicaram que a
e tentam cortar a linha do adversário quando esticam bicicleta era o braço da mãe dele. Nesse dia, acabei dis-
suas linhas novamente, usando para isso a força do esti- cutindo violência e o novíssimo Estatuto da Criança e do
cão e o peso da pedra. Dessa vez, dona Tereza não teve Adolescente. Expliquei que violência daquele jeito não
nada a ver com a informação, os próprios meninos me era possível, que ele poderia ter batido a cabeça, e um
informaram da guerra de xingamentos e pedras que cau- colega em tom de gozação, disse que foi o que ele mais
sou baixas em ambos os lados. Reuni a banda e soube da fez. Outro logo soltou uma gracinha, dizendo que a mãe
insatisfação deles em relação à forma jocosa com que do pobre coitado tinha até ritmo.
as meninas tratavam a banda. Depois falei com algu-
Minhas palavras sobre o estatuto ecoaram nos quatro
mas meninas. Thyá, irmã de Mar (seu nome verdadeiro
cantos. Os meninos chegaram em suas casas dizendo
era Eunice), e Leide, que chamávamos de Dengo, eram as
que agora tinham direitos e que se apanhassem pode-
lideranças femininas. Embora não tivessem uma expli-
riam dar queixa, que eu era polícia e por aí vai. A coisa
cação para tratar daquele jeito a banda, disseram que
virou boato e começou a tomar proporções inimaginá-
o som até era bom, mas que eles eram muito chatos.
veis. O irmão de um menino veio me avisar que era para
Então marquei uma reunião entre todos. Inicialmente, os
eu parar de falar besteira para o irmão dele, pois o pai
meninos resistiram muito, e quando, ao final da reunião,
já havia advertido que não só continuaria castigando o
as meninas foram admitidas como dançarinas da banda,
filho, como também quebraria a minha cara. Nas reu-
alguns ameaçaram sair do grupo.
niões seguintes, alguns meninos deixaram de ir e foi
A chegada das meninas, embora a contragosto de alguns, a maior confusão. Fui a algumas casas e tive que falar
foi muito importante, pois trouxe mais candura às nossas pouco e ouvir muito; os pais estavam indignados, a mãe
reuniões. Os meninos deixaram de brigar entre si, pois do menino do braço quebrado nem falava mais comigo,
tinham que se unir contra as meninas, tentavam ter o nem deixava ele ir ao projeto.
mesmo nível de concentração que elas, passaram a ten-
Eu tive que ir reconquistando os meninos aos poucos e
tar cuidar mais dos instrumentos... Virou uma espécie de
suas famílias também. No meio dessa confusão, estava
gincana para ver quem era mais organizado.
eu, um dia, esperando eles para uma reunião quando uma
De início, elas ensaiavam secretamente na casa de uma moça linda apareceu, uma deusa de ébano, de sandálias
delas e não iam muito às reuniões que não fossem ali lilases, cinto lilás e prendedor de cabelo lilás. Era a irmã
mesmo na rua, às vistas da família. Os meninos tinham a mais velha de Osmar, o Mar, que tinha ido me conhecer,
vantagem de estarem soltos e poderem ir aonde queriam. pois Mar não estava mais comparecendo às reuniões
depois que chegara em casa falando da nova lei. Ela era
Nas reuniões, eu discutia vários temas antes do ensaio.
uma graça, eu tinha 21 e ela 19, estava se formando pro-
Os temas eram escolhidos pelas demandas do coti-
fessora e, depois de conversarmos um pouco, expliquei o
diano. Lembro que uma vez um dos meninos chegou
que dissera e que talvez tivesse exagerado por ter ficado
todo quebrado, o rosto arranhado, um braço fraturado,
indignado com o estado em que se encontrava o menino.
124 Bagunçaço Nascimento do Bagunçaço 125

Falei da dificuldade com as meninas, e ela ficou tentada


a ajudar, pois gostava de dançar e poderia orientá-las. Ao
final, prometeu me ajudar com a preparação das reuniões
para saber como abordar alguns temas sem exagerar.
Em pouco tempo, eu e Claudia — Bia era seu apelido
— estávamos juntos trabalhando com as meninas e os
meninos. Bia estava saindo de um noivado, e eu já com os
quatros pneus arriados por ela. Como ela estava saindo
de uma relação, tentava ser o mais formal possível, mas
as meninas e alguns meninos notaram e resolveram dar
uma de cupido. Eles sempre olhavam para a gente com
um risinho no canto da boca e às vezes faziam desenhos
de corações com nossos nomes; ficávamos sérios, mas
todos riam no final. Bem, as crianças, na sua infinita luz,
têm a generosidade de anjos, e sempre me traziam notí-
cias sobre o noivado de Bia e, claro, como Osmar e duas
irmãs, Thyá e Tita, também estavam no grupo, acredito
que tornaram a vida do ex-noivo um caos. Por fim, namo-
ramos e cuidamos do Bagunçaço. Ela, sem dúvida, trouxe
a organização pedagógica de que precisávamos! Agora,
com uma mocinha formada professora, as famílias deixa-
vam as meninas participarem mais das atividades. Acho
também que a fofoca de que ela havia terminado um noi-
vado e estava me namorando substituiu a de que eu ficava
colocando ideias absurdas na cabeça dos meninos.
Como não havia sede e a casa de Bia era umas das pou-
cas de alvenaria e de dois pavimentos, no andar de cima
fazíamos o reforço escolar e guardávamos os instru-
mentos. Então, aquela tornou-se a nossa sede informal.
Cap.09
Primeiros shows

Cap.09
Primeiros shows
Primeiros shows 131

e a apresentação seria no sábado seguinte, às 10h. Mar-


camos então uma atividade na manhã seguinte já com
as bermudas e camisas velhas, pois íamos fazer uma
fogueira com madeira velha e tinturar tudo.
Naquela mesma noite, ciente da minha pouca desen-
voltura em artes plásticas, fui procurar um antigo par-
ceiro da época do CEAMAC, José Carlos Pimentel, mais
conhecido como Pimentel, que morava nas adjacências
e era uma espécie de Professor Pardal, um mestre em
criatividade. Ele, quando menino, fora aprendiz de seu
Aconteceria em Salvador um Congresso Internacional da Nelson Maleiro, grande carnavalesco da Bahia. Expli-
Igreja Anglicana, Alagados foram colocados como pauta quei tudo ao Pimentel e pedi para ele ver se era possível
para um turismo social. Parte dos congressistas faria fazer alguma coisa pelas latas e descargas.
uma visita aos Alagados e algumas entidades locais se Na manhã seguinte, todos nos reunimos na frente da
organizaram para recebê-los. Assim, ao final, a comis- casa de Jorginho, mais conhecido como Tripa, por causa
são organizadora sugeriu que nossa bandinha fizesse da magreza gritante, e ótimo tocador de repelique (lata
uma recepção para eles. Apesar do entusiasmo, perce- de manteiga). Cada um levou suas ex-calças já abermu-
bemos que não tínhamos figurino e que as nossas latas dadas e com toques de criatividade que deixariam mor-
estavam muito velhas. Assim, tratamos de buscar latas tos de inveja os rapazes da Avenue des Champs-Ély-
e descargas sanitárias plásticas mais novas, mas, como sées, em Paris. Camisetas de toda sorte de candidatos
tudo vinha do lixo, o aspecto ainda não era dos melhores. e partidos políticos, madeiras velhas para fazer o fogo
Além disso, tocávamos sentados no chão, e não sabía- já recolhidas e tinturas baratas compradas no armari-
mos que lugar na área externa da igreja seria mais ade- nho, notou-se a falta de Jorginho, que já havia colocado a
quado para nossa primeira apresentação de gala. cabeça na janela umas duas vezes e, lá de dentro, repetia
O grupo de dança das meninas ainda não se apresen- a batida da sua lata. Alguns dos meninos já resmunga-
tava conosco; elas até ensaiavam com os meninos, mas vam que Tripa era fominha por tocar em vez de ir logo se
as famílias não deixariam que apresentassem em outra juntar à turma, estava na fome, tocando dentro de casa.
localidade, longe de seus olhos. Quando a insatisfação pela demora de Jorginho se acen-
Fizemos uma reunião e chegamos à conclusão de que tuou e suas frases na lata já eram um desaforo, ele apon-
tínhamos que pintar os instrumentos e inventar um figu- tou na porta com um sorriso de uma ponta da orelha à
rino. Logo veio a ideia de todos usarem bermuda jeans, outra. O mais estranho era que enquanto sua silhueta se
pois todo mundo tinha uma calca jeans velha em casa, e definia na mudança de luz da escuridão da casa para a
conseguir uma camisa branca velha (geralmente de pro- luz estourada do sol de verão das 10h, o som de seu repi-
paganda política). A reunião foi na noite de quarta-feira que-lata não parava. Assim, quando ele se fez brilhar ao

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132 Bagunçaço Primeiros shows 133
134 Bagunçaço Primeiros shows 135

sol, foi um zum-zum-zum, pois o danado do Tripa tra- verde e saiu enxugando as lágrimas em direção ao ôni-
zia consigo uma novidade que mudaria a performance bus da excursão. As outras mulheres continuavam nos
da banda daquele dia em diante: sua lata estava amar- olhando e distribuindo congratulations e thank you very
rada na cintura e ele vinha tocando sorridente e anda- much a torto e a direito. Pelo sim, pelo não, abri logo o
rilho. O sabido usara as sobras da calça para fazer um papel e me deparei com uma pequena carta na qual as
cinto e amarrar o instrumento na cintura. Logo, todos palavras congratulations e thank you very much se repe-
debandaram correndo para casa atrás das sobras de tiam e com uma nota de 100 dólares.
suas respectivas calças para fazer o mesmo. Também

nessa época a afinidade com as meninas melhorava,
pois nessa coisa de preparar o figurino elas ajudaram Ai, ai, ai! Ao ver os 100 dólares, os meninos se precipita-
muito. Pronto; estava inventada a roda. ram na minha direção. Todos admiravam aquele dinheiro
tão raro nos Alagados. (Por essa via, claro. Muitas vezes

já tinham chegado a ver, mas de forma, digamos, alter-
Pimentel fez sua parte, pintou e fez retoques que dei- nativa... Espero que vocês me entendam.) Foi a maior
xaram nossas latas elegantes. Assim, no sábado pela confusão! A banda quase terminou no seu primeiro show
manhã, partirmos para nossa primeira apresentação, na com plateia amistosa, pois a ideia de receber para parar
Igreja Nossa Senhora dos Alagados, a mesma que o papa de tocar já nos era familiar, mas dinheiro para tocar nos
João Paulo II inaugurara anos antes. A apresentação foi pegou de surpresa. Os meninos, que não conheciam o
maravilhosa e as anglicanas até se balançaram desen- valor real da moeda americana, começaram a fazer seu
gonçadamente, e eu, com minha imaginação fértil, digo câmbio por conta própria e valorizaram o dólar, que já era
que elas estavam dançando. Provavelmente era isso. forte, uns mil por cento; acreditavam ser muito dinheiro.
Era uma manhã de verão, um dia lindo, e elas não pare- Na verdade, era mais do que seus pais poderiam ganhar
ciam nada com um grupo de mulheres em pleno ataque em um árduo mês de trabalho, mas eles imaginavam
de nervos. Aquilo era alegria, sim! Mas a única mulher muito mais do que isso. Alguns queriam construir suas
negra do grupo ficou parada olhando. Havia um misto de casas, outros, comprar uma bicicleta, alguns pensavam
admiração e certa tristeza nela. No final da atividade, em viajar para o exterior.
ela procurou um dos meninos e disse:
A cena é fácil de reconstituir: os organizadores e as angli-
— Congratulation! canas entrando no seu ônibus chique e partindo enquanto
eu ficava rodeado de piranhas enlouquecidas.
Mas ele não entendeu nada do que ela disse e ainda gri-
tou para os outros: Foi difícil conter a “rebelião”. Por mais que eu expli-
casse, eles não entendiam que o dinheiro era pouco, e
— Xi, ela é gringa também!
eu já sabia que os pais não entenderiam também. Toda
Eu, por intuição, achei que congratulation era um elo- a carência e expectativa de nosso povo simples aflora-
gio... Enquanto falava, ela também escrevia num pedaço ram nesse momento e os companheiros mais fortes se
de papel. Depois meteu a mão no bolso e, muito emocio- enfureceram pela ignorância. O nosso país não conse-
nada, me entregou o bilhete com uma nota de dinheiro guiu até hoje dividir bem o bolo, e coitado de mim que,
136 Bagunçaço Primeiros shows 137

aos 21 anos, tinha que traduzir e convencer de que aquilo Deixando os sonhos de lado, com o restante do dinheiro,
ali ainda não era o bolo. Alguns, mais exaltados, mesmo fizemos um belo figurino e preparamos nosso próprio
depois das minhas explicações, queriam simplesmente grito de carnaval, para o que a criatividade de Pimen-
que eu dividisse o dinheiro e desse a parte deles. O irmão tel foi fundamental, pois, além de criar uma iluminação
de um deles, que já tinha participado de ações que leva- usando balde de galão de tinta, fizemos uma gambiarra
ram 30 dólares para a comunidade de forma alternativa, na rua e todas as crianças participaram. Mais uma vez as
como falei anteriormente, saberia muito bem o valor meninas dançaram e Thyá, a Eunice, foi admitida como
do dinheiro. Pensei em desistir, pois pareciam por um vocalista; porém, inicialmente, só para ensaios e shows
momento não confiar em mim, afinal, era muito dinheiro na própria comunidade.
para uma pessoa só dos Alagados. Argumentei que com
Um tio de Leilson, que era amigo meu, cedeu o bar-
100 dólares até se compraria um barraco-palafita, uma
raco-palafita onde instalamos nossa primeira sede. O
bicicleta, mas que para uma passagem para o estran-
boca a boca é o melhor marketing e logo estava espa-
geiro faltava muito e que, dividido por treze, que era o
lhado pela comunidade que tínhamos dólares que pare-
número deles, daria pouco mais de 7 dólares para cada
ciam inextinguíveis.
um, o que não daria para nada. Mesmo assim, ainda
muito excitados, eles não estavam muito crentes nessa Em abril, na Avenida Tiradentes, faz-se uma grande
verdade e queriam levar seus 7 dólares para casa. festa (Festa do Herói Nacional Tiradentes). A banda de
lata Bagunçaço já tinha um release razoável para se
Então, no meio daquele tumulto em cima da Igreja Nossa
candidatar a tocar naquele evento, afinal, tinha tocado
Senhora dos Alagados, eu fiz um sermão de pelo menos
para gringos e recebido em dólares, alugado instrumen-
uma hora. Até hoje não sei se foi pelo conteúdo apresen-
tos da Bandaço e tocado na laje da Leide numa festa pri-
tado ou pelo cansaço dos meninos, mas ao final acabaram
vada de alto nível. Tinham seu próprio grito de carnaval,
chegando a um consenso: o dinheiro seria socializado de
figurino... Agora iríamos ao topo tentando nos apresen-
forma que todos, incluindo as meninas, fossem benefi-
tar na Lavagem do Tiradentes.
ciados. Uma parte do dinheiro seria usada para fazer um
grande e delicioso bolo acompanhado de refrigerante, Chegara o período eleitoral e, como político precisa de
outra parte para alugar os instrumentos da banda de miséria para vender seu peixe, procurei os cabos eleito-
sucesso no momento na Cidade Baixa, a Bandaço (para rais da comunidade e ofereci a banda de lata. Claro que
realizar o sonho deles de tocar com instrumentos conven- eles rejeitaram a ideia imediatamente, pois ganhariam a
cionais). Todos eles sonhavam em crescer e tocar na Ban- eleição os candidatos a vereador e prefeito que apresen-
daço, que por sua vez sonhava entrar pro Olodum. tassem as melhores atrações musicais em seus show-
mícios. Então, usei um argumento muito sedutor:
As meninas organizaram toda a festa, fizeram o bolo e
na laje de Leide fizemos a primeira e última apresenta- — Eu acho que seu candidato vai poder falar que crian-
ção com instrumentos convencionais. Também pela pri- ças tão pobres e talentosas vão ter instrumentos quando
meira vez o corpo de dança se apresentou com a banda. ele for eleito.
Olhem as meninas aos poucos ocupando espaço!
138 Bagunçaço Primeiros shows 139

Claro que os políticos acrescentavam que dariam alimen- Eu, que ainda pelejava com o organizador da festa, fiz
tação e aulas de música para aqueles meninos tão magri- uma pequena pausa para me apresentar ao senhor, que
nhos. Mas o fato foi que o Bagunçaço tocou para todas as ao falar confirmou a afirmação do menino, era um gringo
inclinações políticas, realizando uma grande turnê interna chamado Dimitri. O segundo nome, Ganzelevitch, nem
nos Alagados. Não havia bairro, praça, beco, ponte ou bar mesmo o organizador metido a intelectual sabia pronun-
por onde eles não houvessem passado. Todos sabiam da ciar. Seus elogios imediatos ao trabalho dos meninos
banda de lata, e logo outras crianças resolveram imitar a fizeram o organizador mudar de forma rápida, inédita e
receita tão fácil: lixo + crianças pobres. inexplicável de atitude, afinal, aquele mesmo que nos
descartara havia pouco instantes, agora era só elogios.
Não foi difícil conseguir espaço na prestigiosa Lavagem
Porém, não dirigia a palavra a mim e, sim, ao gringo. Eu
de Tiradentes, na qual os grupos mais bem apadrinha-
era um observador passivo da nova opinião dele sobre
dos podiam tocar. Era a maior festa das adjacências, e o
a banda de lata e, observando com atenção, tive notí-
Bagunçaço tocaria num sábado às 17h. No dia da aber-
cia de que a banda era maravilhosa e umas das coisas
tura do evento, chegamos às 15h já de figurino para sabo-
mais criativas das adjacências, e que ele, o organizador,
rear a popularidade, que não faz mal a ninguém. Nosso
estava exatamente naquele momento se desculpando
figurino amarelo e aquela meninada inquieta com suas
pelo atraso na programação. Assim, serviria um lanche
latas foram o centro das atenções. Buiú, de 5 anos de
para os meninos, e o gringo poderia voltar no domingo às
idade e irmão de Sergio, era o nosso mascote e atração,
15h, porque nós estaríamos abrilhantando a abertura do
pois ainda usava chupeta e já tinha pegada na sua latinha.
evento já que naquele dia já estava tarde e não era correto
Deu 17h, 18h, 19h, 20h e o evento não começava; os gru-
deixar aquelas criaturas pequenas esperando tanto.
pos mais importantes começavam a chegar, ficando claro
que a tão sonhada grande estreia talvez não acontecesse. Nada como um observador internacional; não me esque-
Havia impaciência e decepção nos rostos dos meninos. ceria daquela velha expressão “para inglês ver”. O senhor
gringo voltou no domingo e de fato assistiu a uma apre-
Eu estava um pouco mais distante, tentando resolver a
sentação descontraída, que enfatizou a música e a empa-
questão com um dos organizadores do evento. Eu ten-
tia da banda de lata da comunidade. Ele pegou meu ende-
tava sem muito sucesso convencê-lo de sermos encai-
reço e sumiu na multidão.
xados na programação do domingo, mas não tirava o
olho dos meninos, pois sabia bem as peças que tinha. Dona Teresa, a vizinha, que, ao se queixar para mim do
E, mesmo de longe, avistei um senhor branco e alto se barulho da banda, fez com que essa história esteja sendo
acercando dos meninos; parecia que ele tomava infor- contada, se mudara para Candeias, no Recôncavo Baiano,
mações e verificava cada instrumento. mais precisamente para o pequeno distrito de Passagem
dos Teixeiras. Eu era muito ligado a essa família, que eu
Num dado momento, um dos meninos apontou para a
conheci no início da minha adolescência, na minha con-
minha direção, veio acompanhando o senhor e logo me
turbada mudança dos barracos-palafitas, na Massa-
disse:
randuba, para as casas provisórias no Uruguai. Foi com
— Esse gringo tá perguntando de onde somos.
140 Bagunçaço Primeiros shows 141

seus filhos George, Jeová, Patrícia e o pequeno Jonas que venceu o festival. Jaquinho foi apresentado juntamente
redescobri a alegria de viver, mesmo longe do meu mun- com um amigo que também participara do festival, cha-
dinho aquático e do Tumba do Mar. Eles também estavam mado Diosmar, mas apelidado de Poquito. Eu não perdi
meio perdidos, pois estavam também longe de sua comu- tempo: convidei Jaquinho para visitar Salvador e tocar
nidade de barracos-palafitas de origem, já que a Amesa, junto com a banda de lata. Acho que ele nem prestou
na sua santa sabedoria, misturou todo mundo de locali- atenção se a banda era de lata ou não, pois ir a Salvador
dades de barracos-palafitas, desarranjando toda uma para um menino do interior era como ir a Hollywood.
rede de solidariedade sedimentada em anos de convi-
Num sábado Jaquinho foi com George conhecer a banda.
vência nas pontes e fazendo florescer a violência de uma
A afinidade foi imediata, mas não por causa da música,
forma assustadora.
e sim pelo futebol, pois rapidamente iniciaram uma
George era meu amigo inseparável, embora fosse três partida. Achei estranha essa forma de se aprovar um
anos mais novo do que eu. Éramos parceiros para toda músico, mas os meninos depois do baba já contavam
obra! Ele era mais valente e mais ousado, assim, se vocês com Jaquinho na banda e Jaquinho já elogiava a banda
tivessem a possibilidade de nos ver agindo achariam que também. Vai saber, mas deu certo. Agora tínhamos vio-
ele era mais velho, inclusive porque era fisicamente mais lão, que logo passou para uma guitarra velha empres-
desenvolvido. O descarado com o passar dos anos se tor- tada, e a banda de lata se tornou elétrica.
nou muito boêmio, tocava violão e tinha sempre muitas
Como Jaquinho estudava, ele ia aos finais de semana
moças em volta, e eu, mais tímido, ficava ali por perto,
para o Bagunçaço e os tambores, agora acompanhados
pois se sobrasse alguma coisa na rede dele eu catava.
de uma guitarra, balançavam o barraco-palafita onde
Agora estava ali, descobrindo aquele lugarejo e matando era nossa sede, e isso me lembrava muito meu Tumba
as saudades de meus amigos de infância. Claro que, do Mar. Então veio o maior convite que a banda sonhara
em se tratando de George, tinha que ser num clube de em receber. O Olodum, a mais famosa e mais admirada
seresta, onde acontecia um concurso de jovens seres- banda afro-percussiva do Brasil, nos convidou para seu
teiros — ou vocês acham que o Arrocha nasceu em Can- festival, o Femadum, no qual estariam presentes canto-
deias por coincidência? res e compositores como Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Eu estava acomodado em uma das mesas, sob o olhar de Nem os pais acreditavam nisso, e os meninos, embora
curiosos, pois George, muito garboso, havia espalhado felizes, estavam meio nervosos e até desanimados, pois
que seu amigo era comissário de menores da comarca achavam que as descargas sanitárias plásticas e as latas
de Salvador e, assim, talvez eu fosse a maior autoridade não dariam conta. Particularmente, quase dei um ser-
presente no festival daquele lugarejo encantado. mão. Como vocês já sabem, e todos os cubanos também,
depois de uma hora ninguém sabe mesmo qual é o motivo
No meu papel de autoridade, observei com muito respeito
do discurso e é melhor aceitar o que o orador quer ou a
os candidatos, e um especialmente me chamou a aten-
penitência continuará. Achava que eles, na primeira opor-
ção: um jovem de 14 anos, Jackson, apelidado de Jaqui-
tunidade, já estavam querendo se livrar da originalidade.
nho, que tocou e cantou de uma forma admirável e, claro,
142 Bagunçaço Primeiros shows 143

Falei essa palavra mesmo, e eles se entreolharam, acho


que alguns acreditavam que eu esta baixando o nível de
tão retado, pois dificilmente eu usava um palavrão desse
com eles. Mas Jaquinho, com aquele jeitinho de menino
do interior, veio todo respeitoso e sussurrou perto de mim:
— Eu acho que a gente não deve perder essa palavra
que o senhor disse, mas os timbres das latas e das
descargas não estão bem com a guitarra. Tá tudo muito
agudo, precisamos de graves.

Mantive o tom da oratória, mas fiquei preocupado. Era


um sábado e, no domingo pela manhã, fui com Jaquinho
e Nido na feira do rolo, lugar onde se encontra de tudo,
tudo mesmo. Não quero aqui entrar no mérito da proce-
dência das mercadorias, mas continuo afirmando que
encontramos de tudo, e acho que isso é o mais impor-
tante para essa narração.
Eu já havia passado várias vezes na loja de música com
Jaquinho, pois os pais dele só o liberavam se eu fosse
buscá-lo. Então quase todo final de semana eu tinha que
acordar bem cedo e viajar de ônibus uma hora e meia
para ir e o mesmo tempo para voltar com ele. Durante
a viagem, eu conversava muito com ele e tomava minha
aula particular de música. Jaquinho era músico de
ouvido, mas tinha seu jeito de me explicar a musicali-
dade. E, assim como cachorro na frente de açougue,
sempre passávamos na loja de instrumentos aos sába-
dos pela manhã, e enquanto ele ficava nas guitarras, eu
ia para a seção de percussão.
Aprendi muito com um vendedor que me explicava os
nomes e, mais ou menos, a função dos instrumentos, por
isso, na minha caminhada pela Feira do Rolo, eu sabia
muito bem o que procurava. Bem, saber mesmo eu não
sabia, mas pressentia que quando achasse saberia
que era aquilo que procurava, mesmo que essa coisa
144 Bagunçaço Primeiros shows 145

estivesse entre bicicletas, televisores, passarinhos, latas cúbicas já tínhamos bastante. Com Pimentel, leva-
bermudas, absorventes, vasos sanitários, filhotes de mos tanto a lata de manteiga quanto um dos tonéis para
cachorro, ratos brancos, um camaleão... Um pequeno a loja de instrumentos para descobrir qual pele se encai-
tonel de papelão! Não sabia bem para o que servia, xaria melhor ali. A ideia era fazer um tambor com aspecto
mas tinha o tamanho de um tambor grande de diâme- mais convencional, inclusive no som, mas mantendo a tal
tro pequeno... Meu bipezinho acendeu a luz vermelha e originalidade, que àquela altura não era mais um palavrão
achei que era aquilo. Quase por telepatia, Nido pegou o e sim um lema dos meninos. Seus pais e demais vizinhos
tonel e experimentou o som, Jaquinho franziu o rosto e, não sabiam muito do que se tratava, mas já que nós lutá-
deitou a cabeça lateralmente em direção ao som, pois, vamos por tal palavra, deram um voto de confiança. Até
acreditem, um tambor na Feira do Rolo faz o mesmo porque não parecia uma palavra feia e com sentido peri-
som que um alfinete quando cai num tapete. Se o Jaqui- goso, só era difícil de falar. Provavelmente, achavam que
nho não fosse bom de ouvido, não chegaria à conclusão era uma palavra que tinha vindo junto com os dólares...
que chegou ao sacudir negativamente a cabeça, pois
Ao final, tínhamos três tambores de tonéis, uma caixa
para ele o som ainda não era o grave de que precisáva-
emprestada de uma fanfarra, um repique de lata cilín-
mos. Eu contestei, dizendo que era grave, que eu sentia
drica de manteiga, uma guitarra velha, nossas velhas
grave, mas Jaquinho contra-argumentou que precisava
descargas sanitárias e latas cúbicas, figurino e muito
ser um pouco mais grave, e Nido, bom percussionista,
nervosismo. O Olodum mandou um ônibus nos buscar,
concordou com ele.
os caras da Bandaço estavam até nos admirando, e lá
Chegamos à conclusão de que seria ótimo se o tam- fomos em direção ao Pelourinho.
borzinho pudesse ser afinado, mas logo vimos que nem
Foi um momento muito especial. O palco, tudo de pri-
Pimentel poderia pôr afinador num tonel de papelão. Eu,
meira linha, todos os instrumentos foram amplificados
ainda relutante, abandonei o tonelzinho e continuamos
e equalizados enquanto o locutor falava um pouco da
olhando as coisas. Já quase desistindo, pegamos o cami-
história do projeto, e na hora dos meninos entrarem, fui
nho de volta pelo outro lado da feira, a essa altura já perto
chamado para explicar um pouco mais sobre o projeto.
de terminar e meio vazia. Ao passar por um amontoado
Eu estava muito nervoso, pois, mesmo com a experiên-
de volumes, Nido esbarrou neles, foi um barulhão, pois
cia do teatro, falar para 60 mil pessoas era algo que eu
eram tonéis de latão de vários tamanhos, que rolaram
nunca tinha imaginado. Os aplausos, a banda tocando
para todo lado. Para não dar confusão, saímos imedia-
com guitarra elétrica... Só o Araketu havia feito essa
tamente, como que por reflexo, catando os tonéis e nos
proeza, tanto Olodum como Timbalada eram só per-
desculpando com o vendedor. Quando o susto passou,
cussão. Além disso, o Bagunçaço era autodidata, pois
um estalo coletivo nos fez fitar os tonéis e em seguida
minha musicalidade era duvidosa. Mas, o entrosamento
uns aos outros. Esse gesto desembocou numa risada de
no baba havia se estendido para a música e eles deram
cumplicidade: estava ali o que procurávamos havia tem-
show. Aplausos e surpresa do público. Foi extasiante ver
pos. Ainda com um pouco dos dólares, compramos três
a negrada bailando ao nosso som, no mesmo lugar que
tonéis e mais tarde uma lata de manteiga cilíndrica, pois
antes era destinado a nos castigar.
146 Bagunçaço Primeiros shows 147

Ao final do show, a produção do Olodum queria nos colo- dois tornozelos. Um deles torceu na hora, eu pude escu-
car numa espécie de camarote, onde também estariam tar o som do osso como se tivesse partido, e nesse ins-
mais tarde Caetano e Gil. Eu queria muito, mas as crian- tante a população se precipitou, gritando para o policial
ças preferiam ficar em frente ao palco, pois queriam parar, e os meninos que estavam de costas para a cena
assistir a banda das bandas: o Olodum. Então, ficamos se viraram e correram em meu auxílio. O mais curioso é
num espaço bem em frente do palco, isolados por segu- que eles não se intimidaram com o policial e tentavam me
ranças do Olodum. Estávamos todos ali felizes por assis- tomar da mão dele. Logo chegou o restante da patrulha
tir o Olodum e também por estarmos sendo observados com mais uns cinco policiais, e a essa altura a popula-
pelo público, que sempre que entrava em contato para- ção, que me identificava como o rapaz da banda de lata,
benizava a gente. Num determinado momento, me afas- xingava e jogava latinhas de cerveja no policial. Quando a
tei para fazer uma foto das crianças tendo o palco com a patrulha chegou, as crianças do Bagunçaço recuaram um
banda Olodum como fundo, e para isso fui até bem pró- pouco, esperando o desfecho, numa espécie de trégua
ximo do cordão de isolamento, chegando bem perto do momentânea, porém o policial disse para um que pare-
público. Victor, apelidado de Buiú e o mais novinho da cia ser o sargento ou superior que eu havia desacatado
banda, deveriam ficar com Claudia (Bia, minha namo- ele e que excitara a população contra ele. Como eu disse,
radinha e irmã de um dos meninos), mas ele era muito era um policial enorme, eu tentava argumentar com ele
apegado a mim e veio meio que segurando nas minhas enquanto ele apertava o colarinho da minha camisa,
calças. Eu andava de costas para pegar o melhor ângulo como se quisesse me enforcar. Eu parecia um passarinho
e Buiú vinha de frente segurando minha calça na altura na boca de um gato se debatendo desesperado.
do joelho, mas de repente ele soltou minha calça e se
O sargento olhou para mim como quem pergunta: “Você
afastou assustado com algo atrás de mim. Eu não tive
tem algo em sua defesa?”. Eu até tinha, mas enforcado
tempo de saber o que o assustara, pois alguém puxou
pela gola da camisa e tomando socos nos rins não con-
com muita forca minha pequena mochila, me fazendo
segui mais falar; sentia um dos tornozelos sem firmeza e
desequilibrar. Para não cair, girei de frente como qual-
os socos curtos já me faziam sangrar pela boca. Estava
quer um que já tenha feito capoeira. Para meu espanto,
tonto, mas vi que, quando o sargento mandou me alge-
era um policial enorme que, para tirar a bolsa de mim,
mar, a banda Olodum parou de tocar. O vocalista foi enfá-
me deu um empurrão ao mesmo tempo que calçava com
tico com os policias e as crianças começaram a arrancar
um dos pés meu calcanhar. Mais uma vez, no reflexo da
o calçamento do Pelourinho e partir para cima da guar-
capoeira que aprendera na rua e na paróquia, saltei para
nição; o espírito de grupo e as leis duras de um bairro
trás e caí na negativa, um golpe que era só para não des-
violentado já tinham temperado a natureza daqueles
pencar no chão. Logo voltei a ficar em pé e ele olhou para
meninos. Eles estavam prontos para a paz e era isso que
mim com raiva, perguntando de quem eram a mochila e a
reafirmávamos no Bagunçaço, mas guerrear era exata-
máquina que estava na minha mão. Eu respondi que eram
mente no que eram melhores. Foi um deus-nos-acuda,
minhas essas coisas, e ele com truculência novamente
as pedras eram lançadas sem pudor na direção dos polí-
me segurou pela camisa e chutou com muita força meus
cias, que já estavam de armas em punho. Eu sacolejava
Primeiros shows 149

na frente do que me segurava tentando evitar que uma


das pedras pegasse na guarnição. Temia que eles ati-
rassem nos meninos, mas os meninos, que são muito
bons em pedradas, já atiravam com efeito, tentando
não acertar em mim. A população continuou jogando
latas, guardanapos, a direção do Olodum já estava por
ali, mas os policias não deixavam ninguém se aproxi-
mar. Assim, algemado com as mãos para trás e preso
pelas calças, fui arrastado ladeira abaixo. Os meninos
a essa altura já berravam e choravam, minha namo-
rada tentava segurá-los e ao mesmo tempo me seguir,
pois temia minha sorte nas mãos dos PMs. No meio da
ladeira, minha carteira, não suportando a pressão do
policial que me levava dependurado pelas calças, caiu
aberta e lá estava minha identidade funcional do Poder
Judiciário — meu distintivo do Juizado de Menores da
comarca de Salvador. Os policias debocharam, dizendo
que eu ia apanhar mais ainda por estar portando docu-
mentos falsos do Poder Judiciário. Uma guarnição da
Polícia Civil, vendo a confusão, veio dar apoio aos PMs,
mas ao averiguarem meus documentos, atestaram sua
autenticidade e começou uma nova confusão, pois eles
reclamavam a minha guarda, e o sargento negava. Não
sei de onde, mas o Olodum arranjou um advogado.
A procissão da minha via crucis, que deveria seguir para
uma delegacia, por determinação do sargento desviou-se
para o quartel da Polícia Militar, onde ele tentou dizer
que eu estava errado ao incitar a população contra eles.
Ainda no pátio, ele fez uma roda, e outros policiais man-
tiveram as crianças e a diretoria do Olodum a distância.
Só eu e o advogado podíamos ver e ouvir o que se pas-
sava. Nesse momento, a coisa mais amena que ele ouviu
de mim foi que eram criminosos fardados e que eu iria
sair dali e ir direto a uma delegacia prestar queixa. O sar-
gento, tentando manter sua autoridade, disse que se eu
150 Bagunçaço Primeiros shows 151

não me calasse iria me levar para dentro do quartel para para fora era complicado. Fomos escolhidos eu, Adson na
me encher de porrada, e eu retruquei dizendo que ele até caixa e no vocal, Jaquinho na guitarra e no vocal, Bira no
que se achava homem, mas não era tanto para isso. Os repique, Nido na marcação de frente e Bobo na marcação
policiais civis pediram para eu me acalmar, enquanto um de fundo. Eles eram bons no que faziam, e a meninada
tenente se desculpava e pedia para o sargento se conter, queria estar bem representada, então não foi difícil esco-
pois éramos colegas e aquilo não ia levar a nada. Logo, foi lher, havia um consenso entre eles.
dada a ordem para me desalgemar, e eu saí para acalmar
Era a primeira vez que eu e os meninos saíamos do estado.
os meninos. O ônibus já nos esperava e durante todo o
Os adolescentes das outras entidades foram acompa-
trajeto até o Alagados eles não disseram uma só palavra.
nhados por Leninha, companheira de luta e cofundadora
Ainda naquela noite, voltei para dar queixa e seguir o pro-
da Escola Luiza Mahim, e por uma professora da Asso-
cesso até ser informado que os responsáveis seriam cha-
ciação de Moradores da Mangueira. Foram cinco dias de
mados na junta disciplinar da corporação deles.
encontro, e nós só nos apresentaríamos no terceiro dia,
Naqueles três dias de Femadum, eu não fui o único a apa- porém, logo no primeiro, um grupo de Recife não che-
nhar. Outros policiais civis e militares apanharam, e a gou e fomos chamados para substituí-los. A maioria dos
população, mais ainda. Toda essa pancadaria no Pelouri- grupos era formado por muitas crianças, que tocavam,
nho deu na música “Haiti”, de Caetano e Gil. Ao ouvir essa dançavam, faziam coisas de circo e tinham figurinos
música, não se esqueçam de mim. exuberantes. Nós já não tínhamos mais aquele figurino
e usamos a camiseta recebida no evento. Fomos levados

por uma van e quando vimos estávamos na Esplanada
Passados o susto e a depressão em que a gente entra dos Ministérios, e um trio elétrico nos esperava. Ironia
depois de uma coisa assim, seguimos nossa trajetó- da vida, era a primeira vez que aqueles baianos subiam
ria. A notícia era de que haveria um encontro de meni- num trio elétrico. Fomos apresentados como meninos
nos e meninas de rua e de que o MNMMR (Movimento da delegação da Bahia, e o locutor ainda explicou que
Nacional de Meninos e Meninas de Rua) tinha covidado estávamos ali para ajudar, pois a banda que estava pre-
a comunidade para participar. Iriam crianças da Escola vista para o trio não chegara de Recife; ele mal sabia que
Luiza Mahim, da Associação de Moradores da Man- aquele quinteto estava mais que preparado. Após afina-
gueira e do Bagunçaço. ção e equalização, Adson explicou que éramos dos Ala-
— gados e que o Grupo Cultural Bagunçaço, a Escola Luiza
Mahim e a Associação dos Moradores da Mangueira for-
Essa notícia chegou a nós com uns oito meses de ante- mavam a comissão que representava a Bahia. Assim,
cedência, pois a comissão de crianças e adolescentes do Jaquinho soltou os acordes e cantaram Abolição, uma
Alagados que faria parte do encontro nacional deveria ser música gravada por Margareth Menezes e Elba Rama-
escolhida pela comunidade e, ao final, seriam só cinco lho que falava do povo pobre e negro da cidade. Depois
meninos do Bagunçaço. Nessa época, as meninas já par- improvisaram a canção tema do encontro, e a Esplanada
ticipavam de atividades fora da comunidade, mas viajar inteira cantou com eles. Estava tudo bem organizadinho,
152 Bagunçaço Primeiros shows 153

deveríamos cantar três músicas, os adultos fariam os


discursos e talvez no final mais uma música. Mas onde já
se viu dar um trio elétrico a um baiano e tentar ter algum
controle sobre o que acontece? Os meninos e o público
se empolgaram e fizemos uma minimicareta. As letras
eram sempre engajadas, e daquele dia em diante eles
ficaram conhecidos como “meninos da Bahia”. Eram
chamados para tudo que tinha música no meio.
No encontro, havia muitas oficinas, crianças de comu-
nidades periféricas de todo o Brasil, e nós, educadores,
fomos distribuídos como monitores de diversas ativi-
dades. Então ficávamos juntos com nossos educandos
nos alojamentos e nas refeições. Nas atividades, éra-
mos bem pulverizados, e isso foi importante, pois nos
deu a oportunidade de conhecer um pouco da realidade
das crianças no Brasil inteiro. Lembro que, monitorando
uma certa oficina, conheci uma menina de 14 anos de
Manaus. Seu biotipo era indígena e ela morava numa
comunidade ribeirinha. Aprendi muito sobre as dificul-
dades do povo dela. Não havia tiroteio, drogas nem poli-
ciais corruptos, mas havia briga por terra, dificuldade de
atendimento médico e muita mortandade infantil. Tam-
bém conheci um gauchinho loiro de olhos azuis, muito
bom menino, que se chamava Leandro (faz tanto tempo,
mas veio esse nome na minha cabeça). Ele teve sangra-
mento nasal por conta da baixa umidade de Brasília. Isso
aconteceu logo no primeiro dia da oficina e, como havia
um oficineiro e dois monitores, fui incumbido de levá-lo
até a enfermaria. Sem achar seus educadores, fiquei lá
umas três horas com ele e daí nasceu uma amizade. O
que mais me marcou foi que no último dia, nas trocas
de endereço, Leandrinho me deu o contato da prefeitura.
No momento eu brinquei:
— Sua cidade é tão pequena que é o prefeito quem
recebe as cartas?
154 Bagunçaço Primeiros shows 155

Ele me chamou no canto e disse: tinha que ter alguma formação. Não tenho como agra-
decer a Fafá, pois foi nessa formação que realmente
— Tio, eu moro na rua, mas os educadores são desse
me descobri educador, que encontrei um sentido social
projeto da prefeitura.
e político para que até então eu fazia, mas não sabia
Eu confesso que perdi o chão, negro baiano vivendo explicar o porquê e nem como.
numa cidade com 80% de população negra nunca ima-
O curso aconteceu entre Sergipe e Alagoas, o que ampliou
ginaria um loiro de olhos azuis menino de rua. Eu estava
meu conhecimento sobre meu país. Foram quatro módu-
aprendendo sobre o Brasil, sobre meus próprios pre-
los no decorrer de um ano; cada encontro durava duas
conceitos, sobre minha própria autoestima. Os meninos
semanas. O primeiro módulo se chamava “Quem somos”.
do Bagunçaço, negrinhos anis, que, por mais pobre que
Psicólogos e terapeutas nos deram a oportunidade de nos
fossem, tinham casa e família, e um menino que parecia
confrontarmos com nossa infância e de questionarmos
mais com os atores mirins da Globo era morador de rua.
o que nos motivava a desenvolver nossa ação social. Dos
Vivendo e aprendendo...
vinte participantes, seis se desligaram, e quatro deles
Ao final, abracei todos os meus amigos, abracei mais escreveram carta aos remanescentes agradecendo o
minha educanda índia, e pedi a meus ancestrais, que convívio e reconhecendo que realmente não era aquilo
aqui chegaram e foram tão bem acolhidos pelos ances- que queriam. No segundo módulo, fomos apresentados
trais dela, que a iluminassem. Dei um abraço bem forte a pedagogos famosos, a tudo que se tinha estudado ali
no gauchinho, pedi que Kaiala (Iemanjá), mãe dos rejei- sobre o assunto. Além de Rousseau e Piaget, eu desco-
tados, o guiasse, pois, mesmo tendo sangue dos que bri Freire, por quem me apaixonei. Ele falava coisas em
escravizaram, vivia como os netos dos escravos. que eu acreditava, coisas que eu via que podia aplicar e
que, de certa forma, já aplicava sem saber. Acho que se o
Meses depois, o MNMMR disponibilizou duas vagas
tivesse conhecido antes, não teria exagerado no famoso
para um curso popular de pedagogia. Entidades locais
discurso sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
se reuniram e decidiram enviar Leninha e Fafá (Maria de
Fátima). Fafá era funcionária pública do centro cultural O terceiro módulo foi sobre política e história do Brasil.
que o estado mantinha na nossa comunidade e, como Tive vontade de processar o Estado, pois a escola não
era assistente social e militante dos movimentos popu- tinha me ensinado a verdade, e os fatos estavam ali.
lares, era a grande incentivadora do florescimento e da Pude entender a dívida externa brasileira, os partidos e
regularização das organizações comunitárias. Vinda de suas origens. No quarto e último módulo, fomos conhe-
Belém, menina ainda participou da ajuda aos estudan- cer organizações similares e colocar em prática aquilo
tes no Araguaia, e, já assistente social, participou do que tínhamos aprendido. Posso dizer que fiz uma univer-
Projeto Rondon. Na sua sabedoria de ativista madura, sidade popular, comprimida, mas de qualidade excelente.
abdicou de sua vaga para me dar essa oportunidade, Claro que fiquei louco para saber mais e passei a devo-
pois sabia que eu ainda era um menino. E disse que, se rar livros sobre o assunto. Hoje sou grato ao MNMMR e
eu tinha escolhido cuidar de outros meninos e meninas
156 Bagunçaço Primeiros shows 157

sinto falta de cursos tão abrangentes em conteúdo e que a grandeza do evento, um papa a tão poucos metros de
possam juntar no mesmo espaço gente de vários “brasis”. mim, logo ali do outro lado! Mas na época o helicóptero
chamou mais a minha atenção.
Voltando de Brasília e não podendo ficar mais no bar-
raco-palafita (meio cedido e meio alugado na época dos Além do papa, da santa (que tinha um pé no seco e outro
“dólares inextinguíveis”), o grupo precisava encontrar na lama e uma lata de água na cabeça) e do helicóptero,
um novo local para ficar. Além disso, estávamos cres- a novidade foi a inauguração do Cine Teatro Alagados.
cendo; crianças de outras localidades no vasto Alagados Na minha primeira ida ao cinema, assisti a um filme dos
estavam formando suas bandas de lata e me procurando. Os Trapalhões. Em pleno verão, quase 40 graus, e meni-
Agora já havia a Big Surf, a Futuro do Mundo, a Futuro da nos, senhoras, pescadores, todos vestidos de agasa-
Criança, a Futuro dos Alagados e, claro, a Bagunçaço. lhos para um frio glacial numa fila enorme. Era o efeito
do ar-condicionado central, um novidade que colocou
Os meninos, entrando na adolescência propriamente dita,
o Alagados em rebuliço, acho até que a maioria ia para
já não tinham tantas brigas com as meninas, e, sim,
ver o ar-condicionado e descobria o cinema.
paquera. Eu, que já tinha deixado o trabalho de padeiro
logo no começo do Bagunçaço, decidi que, já que estava O governo mantinha o cinema funcionado gratuitamente.
no inferno, abraçaria logo o diabo, e me desliguei do jui- Havia muitos filmes bons, e também toda sorte de ativi-
zado, pois não suportava o assédio na comunidade — era dade artística; muitas crianças eram atendidas. Como
acordado de madrugada para ir ao modúlo policial resol- era de se esperar, mais tarde o teatro foi abandonado e
ver problemas com meninos! Agradeci muito o aprendi- sucateado, e nunca mais abriu, tornando-se uma ruína.
zado lá e mantive a parceria, sempre intercambiando
Metrô, Isael, Jamira e Luis, na época crianças atendidas
ações das crianças dos Alagados e do Poder Judiciário.
no grupinho Sapinho Colorido, são hoje expoentes da
A Futuro dos Alagados era formada por meninos que luta por uma vida digna nessa comunidade. Lourdinha,
ainda moravam em barracos-palafitas. Eles moravam Leninha, Hélio, Raimundo e Jaciara, entre outros, envol-
bem no fundo da comunidade, bem perto das ruínas do vidos no grupo jovem da igreja criada na época, também
Cine Teatro Alagados. Espero que ainda lembrem que fui são militantes da mesma luta por dignidade.
parar no Uruguai na trágica mudança de casa, quando

o aterro dos Alagados acontecia, nas casas provisórias,
que, ao final, eram bem mais salubres que as definitivas O governo tem uma dificuldade de aprender que dar oportu-
que recebemos. Pois bem, a casa provisória onde tinha nidade a uma comunidade faz diferença. O cinema estava
morado por mais ou menos um ano, onde tinha conhe- em ruínas, mas os adultos que, quando crianças, foram
cido dona Teresa e seus filhos, ficava bem no pé da Igreja beneficiados por ele por meio de ações arte-educativas,
Nossa Senhora dos Alagados. A igreja havia sido inau- são hoje, de longe, uma nata de pessoas comprometidas
gurada um ano antes, quando eu, ainda na ponte lá de com a luta social.
casa, que ficava na margem oposta ao Uruguai, assisti
Bem, como eu vinha dizendo, a Futuro dos Alagados,
João Paulo II chegar de helicóptero. Hoje posso entender
que era formada por meninos de ali de perto do cinema
158 Bagunçaço Primeiros shows 159

abandonado, estava ensaiando lá dentro. O lugar era Bagunçaço. Eu não achei que eles viriam, pois Cae-
insalubre. Não tinha telhado, era cheio de lixo, e o mato tano Veloso, Magareth Menezes, Gilberto Gil, Carlinhos
era uma espécie de banheiro público. Não sei como Brown, entre outros, eram seus entrevistados, então
aqueles meninos conseguiam tocar ali. não via muito onde nos localizar, mas eles vieram. Eram
da BBC de Londres. Segundo Dimitri, uma TV bem con-
Como não tínhamos mais o barraco-palafita, tivemos
ceituada. Filmaram a banda e depois disseram que que-
uma reunião no Espaço Cultural de Alagados, que era um
riam me filmar falando da comunidade. Fui mostrando
anexo mantido pelo governo — isso depois de anos de
tudo pra eles e falando, mostrei os barracos-palafitas,
lutas dos personagens que descrevi anteriormente. Um
falei da vida na comunidade.
deles, Isael Barros, foi eleito pela comunidade gestor cul-
tural do espaço, numa eleição inédita até então, pois esse O certo é que eles não pagavam, pois era um documen-
tipo de cargo sempre fora ocupado por indicação política. tário, mas fizeram uma vaquinha e doaram 1.000 dólares
para o grupo. Olha os dólares voltando aí, gente! Dessa
Na reunião com todas as bandas, foi exposta a situação
vez, não houve briga e logo marcamos uma reunião para
e, a banda Futuro dos Alagados sugeriu limpar o Cine
decidir o que fazer. Se reunir para decidir já era trivial...
Teatro e usá-lo como sede. O local era bem grande, mas
Decidimos usar o dinheiro para estruturar melhor o
naquela época já éramos umas 70 pessoas. Quero dizer,
grupo. Compramos uma máquina de escrever, fizemos
eu, Bia e 68 meninos e meninas. Então num sábado, com
mais instrumentos reciclados, alugamos um espaço
carrinho de mão, pá, enxada e muito suor, começamos
mais perto do Jardim Cruzeiro, pois não podíamos guar-
a limpeza. Gastou-se também o domingo e ainda traba-
dar coisas de valor no Cine, mesmo depois que, com esse
lhamos durante a semana, nos revezando com os horá-
mesmo dinheiro, colocamos portões.
rios disponíveis, pois queríamos que no final de semana
seguinte estivesse tudo limpo. Mas após uma semana só —
20% do local estava limpo. Ainda assim, só o lixo mais
As ruínas do Cine Teatro eram um lugar maravilhoso, pois
leve, ainda havia sofás velhos (o lugar era um cemité-
já havia um palco, o espaço para a plateia sem as cadei-
rio de sofás) e muita terra. Decepcionados, paramos o
ras... Era uma perfeita casa de show! Mesmo sem o teto,
trabalho e recorremos à Limpurb (empresa de limpeza
a acústica era maravilhosa, e havia a sala onde ficava o
pública da cidade). Quando os técnicos foram anali-
projetor, no primeiro andar, que era bem grande. Usamos
sar e viram o tamanho do trabalho que havia sido feito
esse lugar para ensaios menores e reuniões, e o palco
pelas crianças, abraçaram a nossa luta. Eles limparam
e a plateia, embaixo, para apresentações que aconte-
e lavaram toda a ruína com espuma perfumada e 15 dias
ciam todo final de semana. Durante um ano ficamos ali,
depois do início da apropriação das ruínas do Cine Teatro
o grupo foi crescendo e precisávamos muito de conti-
fizemos a inauguração com os ensaios das bandas.
nuar o reforço escolar e outras atividades, como dança,
No Cine, ficamos um ano mais ou menos, e foi nesse teatro, reciclagem... Essas coisas não caberiam na casa
período que Dimitri reapareceu e disse que uma TV de de Bia, mesmo porque agora tínhamos uma superapare-
fora do país estava fazendo um documentário na Bahia lhagem de som emprestada por meu amigo Ró, máquina
com personagens famosos e que ele tinha falado do
160 Bagunçaço Primeiros shows 161
162 Bagunçaço Primeiros shows 163

de escrever, ventilador, microfones, fichários das crian- da creche Anísio Gonçalves, que agora, porém, eram mais
ças, e essas coisas não podiam ficar na ruína, pois não usadas por drogados, e o local acabou sendo apelidado
era seguro. Então tínhamos que levar tudo no carrinho de de Cracolândia. Ao ver aquele terreno todo ali e aquele
mão do depósito que alugamos perto da casa de Bia até prédio enorme abandonado, eu percebi como a vida era
as ruínas. Era muito trabalhoso, levar toda a estrutura irônica, pois tempo estávamos nos alojando num espaço
pela manhã e trazer tudo de volta à noite. Éramos uma pequeno que só nos cabia por conta do coração de padre
ONG itinerante sobre carrinhos de mão... Clóvis, que era enorme. Padre Clóvis não fez objeção e em
um mês, com uma perigosa escada improvisada, estáva-
O trajeto era do Jardim Cruzeiro até o fim de linha do Uru-
mos, mais uma vez, num cantinho também improvisado.
guai, 1,5 quilômetro, mais ou menos. Certo dia, encon-
tramos padre Clóvis na rua, e ele, ao ver uma carreata de Eu tinha um amigo chamado Roi que emprestava um
quatro carrinhos de mão, perguntou se estávamos nos poderoso equipamento de som para os ensaios de
mudando. Na conversa que se seguiu ele foi informado domingo, mas agora na paróquia só precisávamos car-
de que fazíamos essa viagem quase todo dia. Com sua regar o equipamento.
santa calma, disse que achava aquilo uma via crucis e que
Uma vez no espaço, a Paróquia foi reformando o local,
talvez, se quiséssemos, ele pudesse arrumar um lugar
chamado de Casa do Bagunçaço. O espaço em forma de
na Paróquia. Não uma sala do centro social, como era
L se dividia em cinco pequenos cômodos: um escritório,
antes, disponibilizada só para reuniões, mas um canti-
uma sala de convivência, um banheiro, uma cozinha e
nho no novo auditório. Ficamos empolgados, mas quando
um estúdio. Exceto o banheiro, que era bem menor, cada
fomos lá olhar vimos que não dava, pois era apenas um
cômodo não excedia 18 metros quadrados. Era uma ONG
dos camarins do auditório. Não cabiam nem os instru-
quitinete ou ongnete, como chamávamos.
mentos e o resto de toda nossa tralha. Curiosos, como
sempre, os(as) meninos(as) foram explorando o espaço Com o tempo, fomos ocupando outras partes ociosas
e descobriram uma porta no primeiro andar, na parte de da Paróquia, quase favelando aquele espaço tão bem
trás da construção, que estranhamente não tinha escada arquitetado, além de usarmos o novíssimo auditório para
de acesso. Perguntamos ao padre Clóvis como se chegava batucadas memoráveis.
lá, se a entrada era por dentro, e ele explicou que aquele
Para continuar contando esse “causo”, preciso voltar
anexo no primeiro andar na parte traseira do prédio não
ao dia em que Jorginho reinventou a roda, amarrando
estava na planta, mas ao construírem viram que era pos-
sua lata de manteiga na cintura com um pedaço da
sível e o fizeram. Durante a obra, uma das salas lá em
calça jeans que ele transformara em bermuda. Aquela
cima servia de depósito de material, pois o difícil acesso
saída apoteótica da escuridão da casa dele para o sol
era uma proteção a mais, mas agora precisavam rebo-
de rachar da rua foi realmente arrebatadora para todos,
car e construir uma escada para lá. Os meninos conse-
porém naquele dia, enquanto os meninos rodeavam ele
guiram uma escada e fomos dar uma olhada. Lá de cima,
na quentura da descoberta, eu logo perdi o interesse
tínhamos uma vista da parte de trás da comunidade e,
pela novidade. Além de ser um pouquinho mais velho, eu
logo abaixo havia um grande terreno baldio — as ruínas
164 Bagunçaço Primeiros shows 165

já tinha 21 anos, um menina muito bonita saiu rindo da dele, sabia como era a comunidade e sabia que sem pai
confusão. Achei que ela o tinha ajudado na descoberta. aquele menino teria dificuldades e provavelmente seria
Era sua irmã mais velha, tinha entre 17 e 18 anos, nos um pai precoce e irresponsável. Um mês depois, conheci
olhamos, fiquei um pouco distraído, mas a urgência da Bia, como consequência do meu famoso sermão sobre
apresentação me trouxe de volta à realidade. Eu soube o ECA. Até aí, tudo bem, eu era jovem e a vida estava só
depois que ela tinha um namorado, mas ainda assim começando no que dizia respeito aos relacionamentos;
não nego que fiquei caidinho. Ela não sabia, aliás nin- eu estava me apaixonando por Bia quando uma notí-
guém sabia, mas ela estava grávida de três meses do cia bomba ecoou nos Alagados. Bem antes de a bomba
namorado, e como resultado uma grande confusão se ecoar, eu, passando pela rua, notei que senhoras que
armou na família de Jorginho. Eu fiquei triste, pois ela antes me cumprimentavam agora me olhavam com certo
era tão bonita, tinha tanta coisa para viver, e grávida desprezo. Claro, como as mulheres são muito solidárias,
assim na adolescência... O desenrolar da coisa acompa- elas imaginavam que eu tinha me aproveitado da menina
nhei de longe, mas quando o menino nasceu ela já havia mãe solteira e estava desfilando com a menina de famí-
sido colocada para fora de casa e tinha ido morar num lia, não sabiam como a coisa tinha se dado.
pequeno barraco ao lado do meu. Eu já tinha 22 anos
A própria Ana foi me chamar na casa da Bia e me deu
e ela, 18 ou 19. Sua vida era muito difícil, mãe solteira
a notícia, falou e saiu sem deixar eu processar a infor-
tão novinha! Um dia, o vizinho que alugara o quarto para
mação. Confesso que não fiquei feliz nem triste. No pri-
ela me disse que a criança estava chorando sozinha em
meiro instante, não sabia se era verdade, não sabia se
casa. Fui lá. Era um menino, um menino lindo, e estava
contava para Bia, mas assim que voltei, contei tudo para
molhado. Eu não sabia muito bem o que fazer, mas tirei
ela, que nem sabia que pouco antes de conhecê-la na
aquela fralda molhada e o enxuguei com um pano que
paróquia eu tinha tido um relacionamento com outra
encontrei. Ele devia ter uns seis meses, lembro como se
menina da vizinhança.
fosse hoje. Ele me olhou de uma forma que eu não con-
segui deixá-lo sozinho, então fiquei brincando com ele Ao chegar em casa, contei para minha irmã; dividimos
até ela chegar. Já nos conhecíamos de bater papos rápi- um útero, não havia porque esconder. Minha família
dos, ela me agradeceu, se desculpou e eu fui embora. A adorava a Bia e não gostava da Ana, e logo questionaram
partir daquele dia fomos ficando mais próximos e tive- a paternidade da criança, mas eu, sabendo como a Ana
mos um envolvimento, desses muito fortes, durou um era desaforada, sabia que ela não diria que era meu filho
mês, mas foi intenso. Só que tinha a pressão da minha sem ser e já me imaginava jogando bola com ele. Estava
família, que não achava certo por ela não morar com em êxtase, me sentia homem, me sentia reprodutor, me
a família, essas coisas que se vê em todas as famílias sentia um sacana, um irresponsável, mesmo não tendo
independentemente da classe social. Por fim, ela não me relacionado com as duas ao mesmo tempo, me sen-
quis mais seguir, embora estivéssemos bem envolvi- tia um traidor, me sentia pai de Elvis de novo, pois ambos
dos e se mudou para outro lugar. Eu fiquei triste, já me teriam que crescer juntos, sendo meninos do bem.
sentia pai do pequeno Elvis desde aquele primeiro olhar Questionava-me como podia ter feito aquilo com aquela
166 Bagunçaço Primeiros shows 167

menina, como podia transformá-la novamente em mãe


solteira? Sentia-me confuso, e isso era premonição da
confusão que vinha pela frente.
Éramos todos vizinhos, e eu falava tanto de responsabi-
lidade com os meninos e as meninas que tive que fazer
uma reunião para explicar tudo.
Foi um período turbulento e tentei manter meu relacio-
namento com Bia. Ana, com a gravidez e talvez o medo
de mais uma vez ser abandonada, pintou o sete, o qua-
torze e o vinte e um na minha vida. Por três vezes foi pre-
ciso intervenção policial. Sua família curiosamente me
ajudou muito, pois eu cumpri com todas as obrigações
de pai, mas claro que à distância. Quando a criança nas-
ceu, coloquei o nome de Josinan, a mistura de Joselito e
Ana; um filho é um presente sagrado, não importam as
circunstâncias. Ao vê-lo pela primeira vez no berçário,
Josinan teve o dom de me transformar para sempre, pois
algo nasce junto com a paternidade que nos transforma
para melhor. Dois meses depois que meu filho nasceu,
Lúcia, mãe de Jorginho e Ana, entregou o menino na
minha casa e eu me tornei pai solteiro.
Acho que fui o único caso de pai solteiro com um filho de
dois meses em todo o Alagados. Aos poucos, Ana foi se
reaproximando, pois tínhamos um filho para criar, mas
toda a confusão nos deixou bem distantes para um rela-
cionamento. O Bagunçaço não acabou, e as crianças me
ajudavam. Jorginho tirou tudo de letra e foi meu cúm-
plice durante todo o processo. Josinan era levado para
todas as atividades, as crianças adoravam cuidar dele,
era o novo mascote do Bagunçaço.
Quando Josinan estava maiorzinho, eu sempre dormia na
paróquia quando o grande equipamento de meu amigo
era emprestado para a gente. Josinan, como primeiro
neto, agora tinha toda a atenção da avó, da tia e dos tios,
168 Bagunçaço Primeiros shows 169

e eu sempre trazia Elvis para ficar com ele, e, como ele via —
Josinan me chamar de pai, já me chamava de pai também.
Muitos jovens passaram pela Casa do Bagunçaço, e,
Um dia fui chamado na escola para ajudar a resolver um além de mim, houve vários outros adultos que, em épo-
problema do sumiço de dinheiro na bolsa de Ivonete, cas diferentes, moravam ali e acolhiam as crianças e os
pedagoga e coordenadora da Escola Comunitária Popular adolescentes. Alguns dos jovens que ali chegaram com
de Alagados, que funciona no prédio onde fizemos a pri- 15 anos se tornaram maiores de idade e, assim, fica-
meira reunião, na fundação do grupo. Minha experiência vam responsáveis pelos demais. Uma lembrança gos-
no juizado de menores ajudava muito nessas situações, tosa foi a chegada de Jane na Casa do Bagunçaço, pois
porém, ao localizar o furto e identificar o adolescente, o que o toque feminino não fizer nada mais faz. Jane era
fomos à casa dele. Eu, Ivonete e uma professora conver- merendeira da escola e, depois de muito sofrer violência
samos com a mãe do garoto, e ela, embora decepcionada, doméstica, fugiu de casa levando apenas um dos cinco
pareceu compreensiva. Fomos embora e, ao entardecer, filhos. Durante muito tempo, ela teve que se esconder
tivemos notícia de que a mãe havia espancado o ado- do marido violento, mas acalentava a ideia de reunir os
lescente e colocado ele para fora de casa. Um colega outros quatro que ainda sofriam nas mãos do perverso.
dele mostrou onde ele estava; nós o encontramos com Um dia, com problemas de aluguel, ela decidiu aceitar
o braço muito machucado, e quando me avistou com a meu convite e ir morar na Casa do Bagunçaço. Logo seus
diretora nos olhou com muita raiva. Tínhamos feito o que filhos vieram e se juntaram aos quatorze que já moravam
era correto, falamos para a mãe porque era importante ali. Essa época foi muito boa, pois Jane tinha um coração
ela estar a par do comportamento do filho, e depois de enorme e conseguia acolher todos debaixo de sua asa.
muito conversar levamos ele a um posto médico. Seu
Josinan já completara 3 anos quando recebi uma ligação
braço foi imobilizado e agora não sabíamos o que fazer
de Dimitri. Nesse tempo eu trabalhava algumas noites
com o menino. Por fim, como eu ia dormir na paróquia,
na sua casa como garçom dos saraus promovidos por
resolvemos que ele ficaria ali mesmo e na segunda-feira
ele, assim minhas responsabilidades de pai podiam ser
resolveríamos. Assim, ele inaugurou o que chamaría-
cumpridas. Na ligação ele marcou comigo um almoço,
mos mais tarde de Casa do Bagunçaço, um espaço que
pois iria receber uma delegação de estrangeiros e queria
acolhia, com o apoio da paróquia, que não tinham onde
uma pequena apresentação dos meninos no Teatro da
morar, porém só jovens dos Alagados. A nossa ideia era
Estrela, no seu Solar Santo Antonio.
que, embora a criança estivesse com o laço cortado
com a família, ela não devia ter os laços cortados com a Quando cheguei lá, havia uma moça estrangeira, e eu
comunidade. A coisa, mesmo experimental, funcionava, achei que ela fosse a responsável pela delegação do
pois, com o apoio da escola comunitária e podendo man- evento, mas não era. Era uma conhecida de Dimitri que
ter o cotidiano na mesma comunidade, os pais depois da chegara da França e ia almoçar com a gente. Fomos
raiva apareciam e não acreditavam que aquele mesmo apresentados; ela se chamava Birgit — bem, eu não
menino rebelde estava disciplinado, com o tempo faziam acertei chamar logo de cara, Brigite era mais fácil. Acer-
as pazes e a criança voltava para casa. tadas as coisas para o evento, Dimitri me perguntou se
era possível eu levar a Birgit para conhecer o Bagunçaço.
170 Bagunçaço Primeiros shows 171

Eu estava um pouco atarefado, mas não podia negar Metade do Alagados estava no aeroporto, era tudo uma
esse favor. Então já voltei do almoço com ela, e desco- novidade. Eu nunca tinha pegado avião e meu portunhol
bri enquanto falávamos em portunhol que ela era alemã. vinha do LP dos Los Panchos que meu pai ouvia todo fim
Perguntei de que Alemanha ela era — eu sempre gostei de semana. Voei até Recife e de lá até Bruxelas, depois
de ler, vocês sabem disso, assim sabia um pouco da his- de Bruxelas para Paris em plena primavera.
tória recente europeia —, e acho que isso a impressionou,
Deixei a casa do Bagunçaço sob o regime de Fidel, pois
pois ela respondeu que da Oriental, mas que já estava
minha amiga Alicia Sanabria, cubana e psicóloga, que
havia dois meses no Brasil e ninguém havia perguntado
estava por um tempo em Salvador e ficou tomando conta
isso. Eu queria saber muito sobre sua cultura; era uma
dos meninos. Nós a tínhamos conhecido na segunda via-
pessoa criada no comunismo e isso me fascinava. Da
gem a Brasília, além de ter contado com outra amiga
visita ao Bagunçaço, fomos à praia da Boa Viagem. Eu
Paula Rezende, na época, para organizar toda a viagem.
estava celibatário desde a confusão das irmãs dos meni-
nos do Bagunçaço; acho que ter perdido as duas namo- A Birgit diz que fiquei uns cinco dias em choque, mas
radas e ficado com as crianças me deixou traumatizado. de Alagados a Paris assim direto era demais. Eu achava
Mas aquela alemã tão linda e inteligente e com modos e que as ruas ou o mundo estavam com a inclinação acen-
sotaque francês me impressionou! tuada, e as ruas também eram muito silenciosas; eu
conseguia ouvir o som do estômago de todo mundo. Não
Sem a pressão de Dimitri, eu e Birgit nos encontramos
podia tomar três banhos por dia e não entendia nada
outras vezes. Ainda bem que Salvador é uma cidade
que ninguém falava.
turística e lugar não falta para você levar os visitantes!
Ao cabo da rota turística, estávamos namorando e claro Birgit trabalhava na Casa das Culturas do Mundo como
que a novidade nos Alagados era eu e uma loira de olhos produtora cultural e quando eu avisei que estava levando
azuis para cima e para baixo. Ela ficava por lá e todos já uma fita cassete da banda Bagunçaço ela me advertiu de
a conheciam. Uma vez, na lavagem do Bonfim ela se per- que lá na Europa tudo tinha que ser planejado antes e que
deu nas imediações dos Alagados, e foram levar ela lá na não sabia bem a quem mostrar aquele monte de meni-
porta, entregaram para minha mãe dizendo: nos batendo lata. A fita tinha sido gravada pelos próprios
meninos. Era daquelas de se gravar o chão, o céu, se ouvir
— Os caras não roubaram ela porque viram que era a
o áudio, mas não se conseguir ver o que estava aconte-
gringa de Pim.
cendo. Para eu não ficar enchendo o saco, ela transcodi-
Quando a Birgit foi embora, voltei à minha vida normal. ficou a fita cassete e eu a levava para tudo que era lugar.
Nos correspondíamos por cartas, fax e ela me ligava toda
Numa dessas reuniões de trabalho, havia um homem que
semana. Numa dessas ligações ela me chamou para ir a
produzia em Paris um encontro de crianças francesas, e
Paris conhecer seu mundo. Fiquei assustado; gostava
Birgit falou para ele que eu trabalhava com crianças. Ele
dela, mas tudo que ficava depois de Feira de Santana era
perguntou se tinha fotos e eu tinha; ele perguntou se eu
longe. Imagine pegar avião! Precisou que o padre Clóvis
tinha áudio, e eu tinha, tinha uma fita de videocassete. Ele
e o Dimitri, que nunca haviam se encontrado, mas eram
meus conselheiros, me convencessem a ir.
172 Bagunçaço Primeiros shows 173

nos levou para uma sala e gostou muito, perguntou se era em uma visita a Salvador, nos conheceu e acreditou que
possível levar as crianças ao seu evento no próximo mês, aquele movimento espontâneo poderia aportar um pro-
mas infelizmente não, por causa de passaporte. As crian- jeto financiado pela USAID. Sobre a denúncia, só sabe-
ças e seus pais muitas vezes não tinham documentos. Ele mos que foram ao nosso alojamento e levaram todas as
disse que tinha um amigo que faria algo uns três meses máquinas fotográficas e a filmadora para perícia.
depois e que seria bom conhecê-los.
Eu fui despertado na madrugada parisiense com o pro-
Uma semana mais tarde, conhecemos um casal de pro- blema e quando me contaram a história fiquei muito
dutores que, ao final da reunião, acertou de ir ao Brasil indignado. Mesmo por telefone, afirmei que, conhecendo
imediatamente para conhecer o grupo e, se gostassem, bem os meninos, sabia que eles jamais se comportariam
os levariam para a Europa. desse jeito, mas que talvez tivessem se enamorado das
meninas o que era natural entre adolescentes.
Enquanto eu vivia meu clipe romântico em Paris, a banda
seguia para Brasília para participar do Fórum Internacio- Dois meses depois, o material fotográfico e a filmadora
nal da Luta Contra o Abuso Sexual de Crianças e Adoles- do Bagunçaço foram devolvidos com um pedido de des-
centes. Outros educadores acompanhavam os meninos. culpas, pois não havia nada de pornográfico nas fotos
Lá encontraram o AfroReggae e um carinho recíproco nem no vídeo, e sim bate-papo de adolescente, desfile
nasceu entre os grupos. Mas um incidente quase maculou de moda e demonstração de afeto e amizade.
a reputação do Bagunçaço. Todas as delegações brasilei-
Quando voltei de Paris, tinha muita novidade, não parava
ras estavam hospedadas no Estádio Manuel Garrincha.
de contar para todo mundo que os garis lá eram loiros de
A delegação do Bagunçaço era de maioria masculina e lá
olhos azuis. Trouxe até fotos para não me chamarem de
ficaram muito amigos da delegação do Ceará, formada
mentiroso, mas trouxe uma notícia que era ainda mais
só por meninas bailarinas. Assim, com uma filmadora e
inacreditável: em um mês chegaria uma produtora de lá
máquinas fotográficas, os meninos dos Alagados passa-
para nos conhecer e, se ela gostasse, em julho daquele
vam muito tempo no dormitório das meninas cearenses, e
mesmo ano iríamos todos para a Europa.
uma das monitoras do corpo de baile denunciou que eles
haviam fotografado e filmado as meninas nuas. Quando a produtora chegou, já estávamos preparados,
tínhamos gravado uma demo com mais qualidade e orga-
Não se tratava de abuso sexual, porque todos tinham a
nizamos um ensaio na quadra da paróquia. Havíamos
mesma idade, entre 13 e 15 anos, mas os mais conser-
convidado amigos e a comunidade sempre vinha. A pro-
vadores formaram uma comissão investigadora e só não
dutora só passaria três dias em Salvador, dois para gra-
foi dada uma queixa na polícia para não comprometer a
varmos quatro faixas num estúdio e para eles assistirem
imagem do fórum internacional. Pessoas como Nena Len-
um ensaio da banda na comunidade. Quanto ao estúdio
tini, responsável da USAID, e Rita Ippolito, coordenadora
foi tudo bem, mas no domingo do ensaio uma chuva atra-
do POMMAR, saíram em defesa dos meninos do Bagun-
palhou. Nossos parentes tinham ido e, como não dava
çaço. Essas mulheres maravilhosas foram responsáveis
para saber quem era parente e quem era conhecido,
pelo primeiro financiamento de um projeto do Bagun-
ainda me lembro do comentário da produtora:
çaço. A Nena, antes mesmo da implantação do projeto,
174 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 175
176 Bagunçaço Primeiros shows 177

— Poxa, eles gostam mesmo de vocês, estão dançando modernas nos esperavam, pois todo o sobe e desce pela
na chuva! Europa seria feito nelas. Seguimos da Bélgica direto para
Não sabendo que ali havia uma quantidade quase absurda Luxemburgo, onde ficaríamos um terço da viagem, quinze
para os padrões europeus de irmãos, irmãs, primos, dias, pois daríamos oficinas para várias escolas, asilos e
cunhados e toda sorte de achegados da família... Só os orfanatos para depois fazermos um carnaval. Estávamos
meninos da casa do Bagunçaço eram quase vinte! alojados num internato, mas não havia alunos, pois eles
estavam de férias. Era uma escola muito grande; num
Produtora satisfeita, era hora de organizar a viagem. só dormitório havia dezenas de camas. Ficávamos todos
Seriam 45 dias entre julho e agosto na França, em juntos, mesmo quando ofereciam espaço separado para
Luxemburgo e na Bélgica. Eu já era o mais experiente e as duas meninas e a pedagoga. Não tinha jeito, todos que-
já dizia o que podia e não podia fazer. Por exemplo, não ríamos ficar juntos, estávamos num mundo diferente e
podia coçar o saco na hora que bem entendesse. Lembro nos sentíamos mais seguros juntos.
do meu saudável Sem Freio me olhando como se pergun-
tasse: “E faz o que então?” O Bagunçaço fora fundado havia cinco anos, e aqueles
meninos e meninas estavam em plena adolescência,
A turnê consistia em participar de dois festivais e fazer mas havia um senso de pertencimento e uma sinergia
intercâmbios com várias escolas públicas, asilos, orfa- que contagiavam por onde passávamos. Quando não
natos, fazer um carnaval infantil em Luxemburgo. conhecemos o outro, quando não sabemos o que espe-
Os preparativos aconteceram sem muitas delongas, ram de nós, somos espontâneos e isso é uma raridade na
pois os produtores franceses bancaram a melhoria dos Europa. Lembro que, na primeira escola em que fomos,
instrumentos, a confecção de figurino e, o mais impor- o professor fez as apresentações formais e ficamos
tante, a regularização dos documentos. Muitas vezes abismados, pois todo o material que tínhamos pedido
tínhamos que regularizar toda a documentação dos pais — alicate, tesouras, martelo — havia sido separado em
para só depois regularizar a da criança. kits. Eram 20 alunos, havia um kit para cada um e um kit
para cada um de nós também! Era incrível; a gente até
Se na minha primeira viagem foi metade dos Alagados, esquecia e ia pegar uma coisa do outro, mas o profes-
agora que estavam indo 17 jovens e 3 educadores e que sor não entendia e dizia em espanhol que cada um tinha
até as televisões haviam noticiado, realmente uma mul- o seu. Tudo muito individualista. Ainda assim os jovens,
tidão compareceu ao aeroporto. sem falar luxemburguês nem outra língua qualquer, se
Estávamos decolando com nossas latas para ganhar o entrosavam e até riam não sei bem de quê. Só sei que ao
mundo: eu, Bira, Sergio, Leo, Paulo, Adson, Thyá, Sergi- final do dia os do Bagunçaço sabiam dizer as coisas mais
nho (Capacete), Sem Freio, Gessy, Nido, Moises, Robson, feias em luxemburguês e francês e os de lá sabiam cada
Astrogildo, Irlan, Nominho, Sayonara (pedagoga) e Luis palavrão em português que faria corar qualquer mulher
Amado (educador). da montanha. Adolescentes…

Chegamos à Bélgica. Eu já conhecia aquele aeroporto e No dia seguinte, ao chegarmos à escola, os alunos já
já sabia que portunhol funcionava, mas também arris- estavam perfilados ao lado de seu kits nos esperando.
cava em francês. Ao sairmos do aeroporto, três vans bem Lembro que Sergio Comida, Buguelo, Sem Freio e Sergio
178 Bagunçaço Primeiros shows 179

Capacete, que eram os mais novos — tinham em média muito, e eu tinha um motivo a mais, já que estava voltando
14 anos — ao se depararem com os amigos com quem para o Brasil e deixava Birgit grávida de quatro meses. A
tinham trocado tantos palavrões, ao final da saudação de primavera de Paris e seus efeitos...
toques de mão próprios da juventude, tacaram um abraço
Daí as viagens não pararam. Nos anos seguintes o
nos seus respectivos novos amigos. Estes, além de fica-
Bagunçaço não parou mais de conhecer o mundo: Sué-
rem com os braços esticados e imóveis, ficaram verme-
cia, Alemanha, Espanha, Itália, Suíça, Ilha de Malta,
lhos como camarões, mas não tinha jeito: no quinto dia
México, Moçambique, Estados Unidos etc.
eles já sabiam que seriam abraçados, que levariam tapa
na bunda, que lutariam, e já pareciam gostar da forma dos
brasileiros. Na despedida, quinze dias depois, um portu-
guês que trabalhava no espaço cultural disse que fize-
mos milagres, pois nunca tinha visto tanto luxemburguês
chorando. Foi muito comovente ver aquelas crianças que
pareciam robôs correndo atrás da van e mandando beijos.
Estávamos descendo para o sul e, à medida que pará-
vamos num determinado lugar, éramos visitados por
famílias dos lugares por onde passamos e era sempre
o mesmo chororô na hora de partir. Ao final, chegamos
em Arles, uma cidade milenar, para o Festival de Arles
no Teatre Antigue, uma ruína de 2 mil anos, onde tocaria,
um dia depois de nós, o Santana.
Lá encerramos nossa missão. Estávamos intercambiando
com uma comunidade árabe. Eles eram considerados vio-
lentos, e os organizadores nos preveniram, porém foram
os que de cara nos receberam melhor. Eles também gos-
tavam de pegar, abraçar, brigar, foi uma simbiose. Na des-
pedida, vans ligadas, abraços, beijos e eu gritando para
que, por favor, não chorassem, porque já tinham chorado
demais naquela turnê. Mas, naquele momento, tocava o
Tambores do Burudi, era um som forte, contagiante e era
o som do final da festa. Dessa vez, nem eu pude conter
as lágrimas, aquela gente do Trebom, marroquinos, ára-
bes, tunisianos, africanos de toda parte sabiam o que era
discriminação. O Trebom era o Alagados de lá. Choramos
180 Bagunçaço
Cap.10
Uma casa para o Bagunçaço
Uma casa para o Bagunçaço 187

Em meio a essa insatisfação com a nossa presença, de


repente havia uma crescente pressão da Arquidiocese
para mudar o padre Clóvis, e nós sabíamos que nossa pre-
sença aumentava ainda mais as forças de quem estava
por trás disso. Talvez fosse uma questão interna da Santa
Igreja, mas uma pessoa como padre Clóvis, que tanto aju-
dou a todos sem distinção, merecia nosso apoio irrestrito.
Como o grupo sempre funcionou com as crianças e ado-
lescente assumindo as atividades, eles sempre foram
As coisas estavam acontecendo, agora já éramos interna- protagonistas. Um dia, após uma aula de cidadania com
cionais, começávamos a buscar financiamento e editais histórias africanas, eles decidiram decorar a sala de arte
para apoiar nossas atividades, e contávamos, de início, que ficava numa sala do auditório da paróquia com um
com o apoio da USAID por meio do projeto POMMAR. Tínha- grande Oxalá. Não posso dizer que foi isso que inflamou
mos muita frequência na mídia local e, de repente, muitas ainda mais as coisas, mas a insatisfação com a nossa
pessoas nos ligavam querendo saber mais do projeto, eram presença cresceu tanto que foi marcada uma reunião
pessoas do país todo e diziam que souberam da gente via com moradores, membros da paróquia e o Bagunçaço. Eu
Legião Urbana. Era algo muito estranho, mas depois soube e uma comissão de jovens fomos a essa reunião. Foi muito
que o disco “A Tempestade”, do Legião, fazia uma menção tensa e um pouco dura, pois, na verdade, não se alegou
ao nosso trabalho. Nem acreditamos, corremos para com- nenhuma insatisfação religiosa, e sim o comportamento
prar o CD, e lá estava mesmo, pena que o Renato morreu das crianças e dos jovens. Disseram que nós atraía-
logo em seguida e não deu tempo de lhe agradecer. mos jovens da parte mais perigosa da comunidade, mas
O grupo tinha crescido muito e já ultrapassara a marca de isso era claro; disse que essa era nossa clientela e que,
mais de 350 componentes. O espaço cedido pela paróquia apesar disso, nunca houvera nenhum prejuízo ou práti-
já não era suficiente. Além disso, a movimentação, os cas ilegal das crianças contra os moradores, mas que já
ensaios de percussão e as batucadas para receber visi- haviam ocorrido tentativas de filhos dos moradores de
tantes já incomodavam os setores mais conservadores bater em jovens que moravam na Casa do Bagunçaço e
da Igreja. Por conta disso, vários conflitos foram aconte- que um vizinho tentara me agredir porque eu estacionara
cendo. Toda vez que algum som de percussão se excedia o ônibus do Bagunçaço num espaço da paróquia e isso o
um pouco, vizinhos e integrantes da paróquia reclama- atrapalhava na hora de estacionar os dois carros que ele
vam. Às vezes, até a Sucom (órgão da prefeitura que, entre tinha. As pessoas, algumas inclusive da paróquia, mesmo
outras coisas, monitora a poluição sonora) era chamada. estando numa reunião com jovens da idade dos filhos
O grupo poderia ser multado e ter todos os equipamentos delas, falavam da meninada do Bagunçaço com um certo
apreendidos. E só não o faziam porque os fiscais e o pró- desdém, com uma distância que fazia parecer que éra-
prio departamento eram simpáticos ao Bagunçaço, mas mos de outro planeta. No ápice da reunião, quando seus
advertiam que nem sempre poderiam mediar a situação. argumentos não convenciam padre Clóvis, disseram que

186
188 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 189

as crianças se comportavam como pessoas promíscuas, coisa toda certinha? Namoro, noivado e filhos só depois
pois usavam o espaço à noite para namorar. Eles não se do casamento? E, como sempre, não sei se por causa dos
referiam ao espaço físico usado pelo Bagunçaço, mas à mais de 45 minutos durante os quais tagarelei sem parar,
área do entorno da paróquia, onde muitos adolescentes olhando cada um nos olhos, ou se por causa do cansaço,
marcavam encontros, pois a outra opção que tinham era consegui colocá-los em seus devidos lugares. Padre Cló-
ir namorar na ferinha, um lugar muito perigoso e deserto, vis, que também não fala pouco e ainda fala bem pausa-
onde com certeza seriam de alguma forma violentados. damente, tomou a palavra e explicou que, como muitos
ali tinham dito, realmente o Bagunçaço não estava nos
Eram namoricos, e claro que não era uma coisa consen-
planos da paróquia quando 20 anos antes decidira que
tida por mim ou por outros educadores, mas, embora a
naquele vasto terreno seriam construídos, além da igreja,
paróquia fosse fechada, qualquer morador poderia aden-
um centro comunitário, uma creche, um abrigo para
trar seu espaço até as 22h sem ter que explicar o que ia
velhos, um posto de saúde e uma escola comunitária. Foi
fazer, pois lá funcionavam diversos cursos, um auditório,
então que surgimos como filhos adotivos, mas nem por
um posto de saúde e o Bagunçaço, onde moravam pes-
isso menos amados, ou talvez até mais amados, pelo fato
soas 24h. Os jovens se aproveitavam disso e marcavam
de termos sido rejeitados pelos outros filhos.
seus namoricos num espaço seguro. Para mim era como
se eles demonstrassem confiança naqueles adultos que Ao final, bombardeados pela dupla infernal — que me
estavam ali, pois sabiam que estavam protegidos. Na desculpe padre Clóvis, mas “dupla angelical” não teria
comissão havia três meninas, que tinham entre 15 e 17 o mesmo apelo dramático —, os presentes naquela reu-
anos, e a forma como a pessoa falou, como se os namori- nião decidiram que, juntos, procuraríamos uma solu-
cos fossem prostituição, as machucou muito, mas, como ção para o incômodo sonoro e que poderíamos realizar
eram adolescentes, não sabiam se defender. A pessoa o Bagunfestlata, mas depois só teríamos percussão
falou meio olhando para elas; foi muito constrangedor. quando uma solução a respeito da acústica aparecesse.
Então eu pedi a palavra. Vinha calado até o momento, Para aquele momento, foi interessante; não queríamos
pensando comigo mesmo que só usaria minha arma de deixar padre Clóvis mais contra a parede do que ele já
destruição em massa contra eles se realmente fosse estava e, pelo menos o Bagunfestlata, nosso festival
necessário, mas eles tinham ido longe demais, e mais de música em lata, estava garantido, mas eu particu-
uma vez usei e abusei do discurso. Falei da sexualidade, larmente pressentia que insistir em permanecer ali não
coisa inerente à pessoa humana, falei de suas filhas e de seria saudável para nosso bom padre Clóvis.
seus filhos, que eu conhecia bem. Será que por namo-

rarem também seriam prostitutas? Falei que o próprio
Cristo, em nome de quem eles estavam ali, fora tolerante Para piorar a situação, o grupo também passava por
com Madalena e falei que o amor, o amor que ele difundia, um aperto financeiro, pois estava sem apoio naquele
o amor defendido e efetivado por padre Clóvis, nos aco- momento e já devia muito no supermercado, no açougue,
lhia, mesmo sabendo que eu não era cristão e tinha uma na papelaria, e o telefone já estava cortado. A equipe
matriz religiosa diferente. E perguntei: Se cada um fosse não recebia havia dois meses.
contar seus namoricos de juventude, será que seria uma
190 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 191

Nesse período, Dimitri, o anjo da guarda vindo lá das


bandas do deserto do Saara (os gringos são de onde são
suas famílias e não de onde nascem, ou mais ou menos
isso. Então, como sua família russo-inglesa-francesa
morava no Marrocos quando ele nasceu, ele é um fran-
cês pied-noir, termo que pode parecer pejorativo, mas
que eu aprendi dele nas aulas de cultura e vida que ele
sempre me regalou) ligou para o Bagunçaço dizendo que
um casal de franceses estivera em sua casa e, entre a
compra de um quadro e outro, havia demonstrado o
desejo de ajudar uma obra social. Falou que foram muito
simpáticos, que tinham comprado uma casa no Brasil,
que tinham uma sensibilidade social e gostariam muito
de conhecer uma entidade e saber como ajudar.
Geralmente, aceitamos todos os visitantes; essa é uma
atitude espontânea do Bagunçaço, não importa o credo,
a nacionalidade ou o poder aquisitivo. E sempre estamos
com uma novidade. Assim, Dimitri marcou uma visita, e
o casal chegou umas duas semanas antes do Bagunfes-
tlata, que, àquela altura do campeonato, estava amea-
çado de não acontecer. Não porque fosse caro, pois o
festival não custava muito, e sim porque, havendo tan-
tas dívidas, não seria sensato fazer festa; isso deixaria
os credores muito ouriçados.
De fato, o casal Attal era muito simpático. A mulher
tinha uma voz muito suave, uma leveza espiritual e fazia
perguntas bastante inteligentes. Já o marido era muito
observador, porém não falava muito e não ria. Isso me
deixou um pouco tímido. As perguntas dele pareciam
que eram de uma auditoria. Mantinha a expressão de
um jogador de pôquer, que não permite que leiam seu
estado emocional, mas tinha uma energia muito boa,
parecia esconder uma montanha de generosidade
naquele semblante misterioso.
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Ao se despedir, o casal deixou um cheque comigo, que familiar dessas, foi até o cachorro de um dos meninos,
educadamente dobrei e agradeci. Não prestei atenção um vira-lata que, coitado, talvez tivesse tomado o pri-
no valor. Acabei esquecendo-o na gaveta da minha mesa, meiro banho da vida dele, dava para notar pela tristeza
me ocupei com outras coisas e, só mais tarde, quando do bicho; mas foi uma graça vê-lo vestido com o figurino
conversava sobre as dificuldades de manter o projeto da banda do seu dono.
e, sobretudo, se teríamos ou não o Bagunfestlata, me
Após o Bagunfestlata, o grupo deu uma parada de quinze
lembrei do cheque e fui conferir o valor. Liguei imediata-
dias para as festas de fim de ano e, quando retornou, em
mente, muito assustado, para Dimitri, porque eu acredi-
meado de janeiro, eu não sabia o que fazer, pois tinha
tava ter havido um erro de preenchimento. Só podia estar
que cumprir o acordo com a comunidade. Era triste ver
errado, pois o cheque deixado era de 10 mil dólares! Mais
aqueles meninos e meninas perambulando pela sede,
uma vez voltava a lenda dos dólares inextinguíveis...
proibidos de tocar seus instrumentos.
Então o IV Bagunfestlata aconteceu tão animado que os
Passados dez dias dessa situação, marquei uma reu-
meninos nem perceberam que era uma despedida da vida
nião com os líderes das bandas de lata e com as pessoas
na paróquia. A fórmula foi a mesma dos anos anteriores:
da equipe. Essa reunião aconteceu fora da comunidade
as bandas de lata eram separadas em faixas etárias e
e lá eu exibi o filme Vida de inseto. Embora as crianças
também eram convidadas bandas de lata do interior do
gostassem de desenho, não entenderam por que tinham
estado, que se hospedavam nas instalações da paróquia.
ido tão longe para assistir a um desenho animado. Os
Cada banda que chegava de um interior distante trazia maiores achavam que eu estava ficando louco, porque
uma novidade em seus instrumentos feitos de lata e tinha passado aquele mesmo desenho para eles uns oito
havia um intercâmbio de tecnologia. meses antes, e deviam estar curiosos, pois na época,
depois de assistir ao desenho, eu convidei um grupo res-
Durante quatro dias, a comunidade sabia que o Bagun-
trito e tivemos uma reunião ultrassecreta por mais de
çaço era um festejo só. Havia oficinas de instrumento
uma hora. Então era normal que os que não ficaram para
de sopro, teatro, corte de cabelo gratuito, circo (e até
a reunião e agora estavam vendo o filme pela segunda
espetáculos), fabricação de papel reciclado e de brin-
vez estivessem com a pulga atrás da orelha.
quedos com sucata. A paróquia era embandeirada,
aconteciam palestras sobre temas variados, havia uma Em 2000 convoquei os jovens mais velhos e mais mili-
missa ecumênica na igreja na qual a música era feita tantes do projeto, como os membros da equipe, que
com as latas do Bagunçaço... geralmente eram jovens oriundos dos projetos, salvo
os serviços técnicos, para uma reunião no Projeto
As bandas concorriam numa grande harmonia, valia
Sobas Princedom, lá no Parque São Bartolomeu. Já
tudo, pois a intenção era que todos saíssem ganhando
sentia as mudanças de ares, pois em diversas conver-
alguma coisa: melhor cantor, melhor banda, melhor figu-
sas com padre Clóvis e com algumas beatas simpáticas
rino, melhor isso e aquilo. O prêmio mais disputado era
ao Bagunçaço sentia que, cada vez mais, estava sendo
o de melhor participação familiar, então iam mães, tios,
difícil controlar a insatisfação de muitos com a nossa
avós, vizinhos, todos levavam faixas e, em uma torcida
200 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 201

presença. Então, tratei de criar um plano B. Era algo depois de pesquisar, tinha identificado quatro espaços
difícil, precisava de muita organização e total sigilo, que estavam abandonados: dois do governo e dois pri-
mas tínhamos que tentar. vados, mas em fase de desapropriação. Fiz uma con-
sulta à legislação e, segundo a lei, não era crime usar um
Uma vez exposta a situação àqueles escolhidos após a
espaço público para fins coletivos.
primeira exibição do filme Vida de inseto, os jovens, bem
mais criativos que eu, decidiram forjar a ruptura de um Estávamos com o mesmo problema das formiguinhas:
dos grupos do Bagunçaço. O grupo de dança, formado tínhamos medo. Fora eu e um punhado de adultos, o grupo
por meninos e meninas entre 16 e 18 anos, alegando era formado por crianças e adolescentes; não podíamos
ter se desvinculado do Bagunçaço, foi procurar a asso- reagir a intimidação física, pois éramos fracos nesse sen-
ciação local (proprietária da creche em ruínas) e pedir tido, então tinha que ser um plano e tanto. Assim, reve-
que pudessem usar o espaço nas ruínas da creche para lei que o grupo de dança rebelde era na verdade nosso
ensaiar, e, com o tempo, eles conseguiram a confiança espião em território do inimigo; o líder do grupo estava
dos diretores da associação e a chave da parte utilizável do meu lado, que, até então, era olhado atravessado pela
do prédio abandonado. assembleia, que não entendia minha simpatia por ele e
os nossos cochichos de vez em quando. Expliquei que na
Voltando a fevereiro de 2001, a equipe e os que não par-
reunião em abril um grupo seleto tinha se reunido depois
ticiparam da reunião secreta depois do filme deviam ter
do filme e ali traçamos uma estratégia. Expliquei que,
pensado que, após tantos anos expostos ao som da per-
embora eu tivesse pesquisado outros espaços, já havia
cussão permanente do Bagunçaço, eu tinha desenvol-
escolhido o mais seguro. Era a creche abandonada ao
vido alguma dependência química e, como agora estava
lado da paróquia, aquela mesma que ficava de frente para
privado de meu vício, tinha surtado, e por isso aquele
a gente e que fora apelidada de Cracolândia pela comuni-
desenho animado de novo.
dade. Da nossa sede, era a primeira vista que tínhamos, e
Depois do fim do filme, fizemos um círculo e começamos várias vezes já havíamos solicitado da associação vizinha
a analisá-lo. Falamos bastante da situação-problema o consentimento para ocupar aquele prédio vazio.
das formiguinhas, do medo de reagir, do medo do desco-
Aqueles que estavam ali eram de extrema confiança e
nhecido, dos desafios, dos aprendizados e das diversas
não podiam comentar nem com suas sombras sobre o
formas de liderança dos indivíduos daquela comunidade
assunto. Foi difícil, pois instruímos as crianças a sem-
para finalmente conseguirem vencer os gafanhotos.
pre partilharem tudo com seus pais, mas alguns deles
Expliquei que naquele momento o Bagunçaço precisava
tinham pais envolvidos de alguma forma com a outra
dos esforços de todos para superar o desafio. Lembrei
associação, então era melhor não comentarem nada.
a reunião que tivemos no ano anterior na paróquia, as
Alguns ponderaram que eu mesmo sempre dizia para
coisas que ouvimos e a situação de padre Clóvis, que
não terem segredos para os pais, então cheguei ao
lutava para não ser afastado do trabalho que criara, e
meio-termo: quem achasse que falar para o pai ou para
que nossa presença o deixava mais vulnerável. Falei que
a mãe não poria o plano em risco que falasse, mas que ao
tínhamos de tentar encontrar uma sede nova, um espaço
menos me avisassem quem falou.
na comunidade, e que o jeito era invadir. Expliquei que,
202 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 203

Então, olhei para Alex, o rapaz que forjara ter rompido Os jovens líderes conseguiram fazer sua parte e, assim,
com o Movimento de Bandas de Lata, e lhe perguntei: no dia 13 de fevereiro de 2001, na Igreja de São Jorge (no
auditório era perigoso vazar, pois nas imediações mora-
— Você trouxe mesmo?
vam muitas pessoas; na igreja fechada era mais seguro),
Ele disse que sim. Meteu a mão dentro das calças, como fizemos uma assembleia com todas as bandas. Cada
geralmente fazem os adolescentes quando querem menino que fosse líder de sua banda tinha ficado incum-
esconder alguma coisa, e me entregou. Eu passei a expli- bido de levar todos da banda e, assim, seria conferido se
car que aquela era a chave da parte utilizável das ruínas, eles tinham mesmo essa liderança toda. Os danados mos-
pois, de um total de doze cômodos, só três estavam com traram toda a força! Um até levou dois primos! Ninguém
telhados originais e eram usados por grupos de boxe, entendeu nada, mas ele tentou justificar dizendo que a
capoeira e dança. O restante estava em completa ruína, banda dele era pequena e os primos eram de confiança,
salvo a recepção, que era ocupada por uma família que não moravam na comunidade, estavam de férias.
havia perdido sua casa e estava provisoriamente usando
Na assembleia, já conduzida pelas lideranças, e na qual
aquele local. Eram um local inabitável, mas na necessi-
eu, estrategicamente, só falaria no final, o assunto foi
dade era o que valia... O restante era usado por droga-
tratado diretamente. O problema foi exposto e foi criado
dos. Havia uma área atrás do espaço, do tamanho de um
um quadro de sugestões. Primeiro se deveríamos sair ou
campo de futebol, que era usada como depósito de lixo
ficar na paróquia, então foi decidido que deveríamos sair,
por toda a vizinhança. Ao entenderem todo o plano, os
mas manter a relação com padre Clóvis. Depois a suges-
jovens espiões foram aplaudidos, e eu comecei a explicar
tão sobre locais abandonados: em primeiro lugar veio a
o passo seguinte, que era mobilizar todos os integrantes
creche, depois a ruína do Cine Teatro, o estaleiro Mario
do Bagunçaço na ocupação. Mas não podíamos contar
Backer e a antiga fábrica Toster, perto da Igreja do Bon-
onde seria e, além disso, eu precisava de mais dinheiro,
fim (assim quase íamos para a área nobre da Penísula Ita-
pois devíamos muito. Com a grana deixada por Bernard
pagipana). Claro que o lugar mais votado foi a creche ao
e Anne Attal (o casal francês) pagamos todas a dívidas
lado, mais perto da paróquia e da casa da maioria deles.
e fizemos o festival, trazendo bandas de lata do interior
E, por último, sugestões das necessidades para a ocupa-
e tudo. Então, lembrei de um amigo americano, Douglas
ção: um caminhão de mudança, material para arrumar o
Simon, muito gente boa, dizendo: “Vocês sabem como
local, um carpinteiro, um pedreiro, um eletricista. Alguns
são os americanos, gostam de invadir, né?” Pois é, quando
meninos queriam seguranças, mas eu intervim, expliquei
contei a ele a ideia ele doou 3 mil reais para a causa. Eu
que assim o outro incomodado poderia revidar, e se fos-
esqueci de contar que em agosto do ano anterior havía-
sem só crianças e educadores seria mais difícil, pois na
mos ficado uma semana num assentamento do MST no
comunidade não se registrava violência contra educado-
sul da Bahia com 27 crianças e adolescentes. Fomos
res populares e crianças no projeto — porém, é estranho
participar com nossas bandas do encontro da juventude
que não respeitem da mesma forma professores de esco-
deles. Pois bem, agora que tínhamos apoio de um ameri-
las públicas, mas não trataremos disso aqui.
cano e know-how do MST — a coisa só podia dar certo.
204 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 205
206 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 207

Lembro como se fosse hoje de que nesse momento em admiradora, que na época estava ajudando no projeto do
que alguns se sentiam inseguros e não conseguiam Parque São Bartolomeu, porém me lembrei do acontecido
entender minha lógica, ficou um falatório na reunião no início do Bagunçaço e chamei Dimitri (francês), Alicia
— todos falavam ao mesmo tempo e um pequenininho, (cubana), Douglas (americano), Lennart (sueco), além de
que tinha problema com a fala, educadamente levan- amigos brasileiros formadores de opinião. Também liguei
tou a mão, mas naquele momento ninguém observava para o jornal Correio da Bahia, falei com um jornalista e
mais esse requisito de pedir para falar. Ele continuava prometi que iríamos fazer algo no bairro que seria um furo
a levantar a mão e tentar dizer algo. Vendo suas tenta- para ele. O jornal pertencia à família de Antônio Carlos
tivas sem sucesso, eu comecei a tentar ler seus lábios. Magalhães, que estava no governo.
Meu esforço chamou a atenção de outros, que gradati-
Na minha fala final, expliquei aos meninos que tudo aquilo
vamente foram parando a confusão e tentando entender
dependia de dinheiro. Fiz um pouco de suspense sobre
o que ele dizia. Os mais próximos dele, que achavam que
como conseguiríamos e, depois do suspense, disse que
tinham entendido, repetiam alto, o, que ele desaprovava,
um amigo chamado Douglas Simon havia doado o dinheiro.
sacudindo a cabeça. Outros se esforçavam para enten-
Foi uma festa! Já não importava a algazarra dentro da
der e repetir alto, mas não acertavam. O silêncio foi
igreja, afinal, no dia seguinte iríamos embora e nossos
tomando conta da igreja e a voz dele, mesmo fanha, foi
desafetos não poderiam fazer mais nada mesmo. Quanto
ficando mais audível, mas não compreensível, e, como
a padre Clóvis, ele amava a garotada daquele jeito, e São
sempre acontece, dois ou três na atudiência mataram a
Jorge, que enfrentava dragões, devia tirar de letra meni-
charada ao mesmo tempo e gritaram:
nos peraltas. Expliquei que, embora o espaço escolhido
— Um advogado! fosse a creche ao lado, não poderia dizer com certeza
que ocuparíamos ela, pois ainda faltava uma confirmação
E todos riram, riram muito. Então pedi que colocassem na
de sua situação legal, mas que no dia seguinte, a partir
lista um advogado, até porque, como ele explicara, e se a
das 14h seria a ocupação e ninguém poderia comentar o
polícia aparecesse? Nas comunidades violentadas desse
fato, só ir tocar e se juntar ao movimento. Pedi um voto
Brasil as crianças têm mais medo da polícia do que de
de confiança, pois no momento da marcha musical eu
qualquer outra coisa. Lembro do meu amigo irmão Júnior,
anunciaria o local da ocupação. Todos, já mais que excita-
do AfroReggae, que escreveu em um livro que, havendo
dos — “menino adora uma folia”, como diz minha mãe —,
um tiroteio na comunidade, deve-se correr sempre para o
concordaram, e alguns foram pedir a seus pais para dor-
lado do bandido. Eu estava apreensivo, pois, mesmo com
mirem no projeto, pois queriam ajudar nos preparativos.
todos rindo, aquele menino chamara a atenção para algo
importante: por mais confusão que os líderes da outra A ocupação não podia dar errado, pois o Bagunçaço não
associação fizessem, não havia perigo de violência física, tinha para onde ir. Então trabalhamos a noite toda arru-
mas a polícia, sim, essa poderia ser imprevisível. Então mando as malas para a grande mudança. Pela manhã,
a sugestão do advogado já estava bem acolhida. Tínha- fomos atrás de pedreiro, encanador, eletricista, cami-
mos Doutora Kassira Bomfim, minha amiga-irmã e nossa nhão para mudança; geralmente, os parentes das
208 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 209

próprias crianças, que cobravam um preço barato. Havia —


muito nervosismo no ar, era um passo ousado, mas não
Ogum, que vinha acompanhando o Bagunçaço lá da terra
tínhamos escolha.
de Aiucá, percebeu que seus filhinhos estavam em apuros
Tudo estava planejado para começar às 14h, mas o cami- e partiam para uma guerra desproporcional. Imagine que
nhão tinha quebrado, a carroça com alguns materiais crianças e adolescentes tomavam uma atitude extrema
de construção se atrasara e quando as bandas, os inte- simplesmente para terem acesso ao direito básico de
grantes, os amigos nacionais e os observadores interna- lazer e de cultura! Como guerreiro que não tolera injus-
cionais estavam a postos, o jornal não chegava. Já eram tiça, Ogum imediatamente tomara a causa para si e não
14h50! Então subi para ligar para a redação do jornal, e deixaria aqueles erês sozinhos. Com certeza, ali estavam
eles avisaram que o jornalista já tinha se deslocado para meus antepassados, liderados por Senameã, minha avó,
o local e que era para aguardar. Sabe como são os jovens, que era de Oxumaré, e Zé Bofeia, meu pai, que nunca foi
querem ação. Já estavam impacientes! As pessoas da rua da coisa, mas foi apoiar a ocupação.
da paróquia não entendiam o que estava acontecendo,
A tropinha musical não marchou nem 50 metros, pois a
acho que no máximo acreditavam que estávamos vol-
rua onde ficava nosso provável futuro novo endereço era
tando para a ruína do Cine Teatro Alagados. Para acalmar
paralela à paróquia, então só pegamos uma transversal
os(as) meninos(as), autorizei Táta (um dos maestros da
e, paramos bem em frente à Associação União Comuni-
percussão) a fazer uma pequena batucada. Poquito cir-
tária, que detinha o controle do espaço. Também nesse
culava pela rua da frente para ver se o jornalista estava
prédio funcionava uma escola pública, e a diretora era
perdido por ali quando finalmente o carro chegou. Poquito
filha do presidente da associação. A banda parou na
me olhou, o jornalista desceu correndo com o fotógrafo, e
frente da rua; para entrar nela precisaria fazer uma con-
já foram fotografando tudo. Fotografavam banda, faixas,
versão para a direita, mas, antes disso, Táta fez a per-
carroça, gringos etc. Devolvi o olhar para Poquito, que
cussão parar. Eu segui para a frente da multidão, ao lado
subiu para chamar o resto do nosso povo que ainda estava
de Leide e Poquito, agradeci a confiança que me fora
espalhado dentro da paróquia e na sede. Quando Poquito
depositada, apontei para a rua e disse:
retornou, Táta, que era o maestro da banda Sucata’mania
e também já havia morado na casa, comandava o exér- — Vamos, nossa nova sede será ali.
cito mirim. Munidos de latas, descargas, tonéis e muita
Embora a diretora estivesse na janela, como em toda
euforia, ele, à frente de seu batalhão, olhou para mim,
escola, o zum-zum-zum, a falação e acredito que Exú,
que estava um pouco mais ao fundo sendo abordado pelo
que adora uma confusão, não permitiram que ela enten-
repórter. Olhei fixamente para ele e, ao levantar e abaixar
desse o que eu dizia. E ela continuou lá na janela vendo
a mão, ele entendeu que era o sinal de atacar: puxar um
a banda virar para a direita e entrar na rua. Literalmente,
toque e fazer a banda andar. Já havia a essa altura mui-
ela ficou vendo a banda passar...
tas outras crianças e pessoas em volta, simpatizantes do
grupo, curiosos, entre outros.
210 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 211

Num grande rufar de tambores, andamos uns 40 metros


e paramos numa porta improvisada na lateral do prédio.
O silêncio tomou conta de todos; já havia muitos curio-
sos. Fui até a porta, retirei a chave que havíamos copiado
e abri o cadeado. Novamente o rufar dos tambores, os
gritos de aclamação e as crianças se precipitando para
dentro do espaço. Poquito, Leide, Fabiana e outros cui-
daram de descarregar nossa mudança. Ainda estávamos
deslumbrados, pois caminhávamos pela parte utilizá-
vel do espaço, e sabíamos que o grupo de capoeira, o de
boxe e alguns grupos de dança usavam aquele espaço,
mas isso seria assunto para resolvermos depois. Estáva-
mos no deslumbramento quando uma voz alterada che-
gou da sala principal por onde entramos. Então corri até
lá e, ao chegar, uma senhora meia descabelada apontou
na minha direção e disse:
— É aquele ali!

Três mulheres bem-arrumadas olharam para mim e uma


delas veio com o dedo em riste perguntando:
— Quem o autorizou a entrar aqui?

Eu respondi que ninguém, que estava ali à revelia, pois


era um espaço público e abandonado. A mulher se indig-
nou e, bem irônica, gritou no meio da sala que o marido
dela era comandante da polícia e que eu ia ver uma coisa
já, já. E saiu falando ao celular.
Os meninos e as meninas ficaram assustados com aquele
bate-boca de adultos; sabiam que ela era a diretora da
escola e que sua família era influente. Vendo que eles
estavam apreensivos e, solicitei que a banda, agora com
um microfone, fizesse um show na porta e que todos que
tocavam se revezassem para não deixar o som parar.
Estávamos arrumando as coisas quando, uns vinte minu-
tos depois, um som de sirene foi ouvido na rua, os poli-
ciais chegaram e saíram todos ao mesmo tempo do carro
212 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 213

depois de uma parada brusca. Eu estava perto da banda, Os policiais que chegaram acharam que a iniciativa era
que ensaiou parar de tocar, então olhei para o menino boa, porque aquele local era usado para consumo de dro-
que fazia as vezes de maestro naquele momento e disse gas e prostituição e eles conheciam o trabalho do Bagun-
que não parassem de tocar e se mantivessem tranquilos. çaço. A outra viatura estava lá a mando do comandante,
Logo apareceu a diretora, que me apontou para os poli- que atendia ao pedido da esposa. Discussão, empurra-
ciais, e eles vieram na minha direção. Imaginem que já empurra, então decidiu-se que era melhor ir para uma
existia uma multidão em volta do acontecimento. Um delegacia. As duas viaturas disputaram o direito de me
policial me pegou pelo braço e saiu me puxando para um levar, mas Kassira disse que, como era minha advo-
canto longe da banda, mas a criançada toda foi atrás. Os gada e até aquele momento eu não tinha sido acusado
policiais tentaram encontrar outro lugar longe da meni- de crime nenhum, eu iria no carro dela. Ao me dirigir
nada, que não arredou o pé, algumas crianças segura- ao carro de Kassira, pedi à banda que não parasse de
ram meu outro braço como se tentassem me soltar da tocar e passei o comando para Poquito.
mão do policial. Minha amiga Kassira, que estava lá

dentro com os amigos estrangeiros e brasileiros, che-
gou. O policial ordenou que eu dissesse às pessoas do Bem, posso dizer que escrevi este relato, livro ou causo
grupo para desocuparem o espaço. Ao mesmo tempo, da nossa nova e permanente sede.
um grupo de pessoas que jogava dominó e que fazia
Iluminação para todos!
parte da associação entrou no prédio e tentou evitar que
Lennart, nosso amigo sueco, filmasse. Léo, como é cari-
nhosamente chamado pelos meninos, não entendeu o
que eles falavam, então eles tentaram tomar a câmera.
Léo, do alto de seu 1,98 metro, embora seja uma pessoa
muito tranquila, não permitiu a aproximação e isso fez
com que os homens se exaltassem. Três crianças saí-
ram correndo e foram até a outra extremidade do Ala-
gados, lá no Uruguai, no módulo policial perto da Igreja
Nossa Senhora dos Alagados, e pediram ajuda. Fizeram
uma narração atrapalhada, os policiais foram com as
crianças e chegaram da mesma forma espalhafatosa.
Abordaram Poquito e perguntaram se estava aconte-
cendo algo. Poquito, nervoso, disse que não; temia que
mais viaturas viessem contra a gente, mas as crianças
apontaram para o Léo, que a essa altura já estava perto
de mim do lado de fora do espaço. Os policiais chega-
ram e começou uma discussão entre as duas viaturas.
214 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 215
216 Bagunçaço Uma casa para o Bagunçaço 217
Imagens: P.91 Assembleia Bagunçaço, em 2000
foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Lennart Kjörling

índice e créditos P.102-103 Limpeza da nova sede, em 2001


foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Lennart Kjörling

P.112-115 Batucada na área verde, nova sede


foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Lennart Kjörling

P.119 Jonathan e sua descarga


foto: Arquivo Bagunçaço

P.125 Bagunçaço de Moçambique, em 2003


P.21 Eu, minha irmã Joselina e minha vó Nair foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafa: Rayssa Coe
(Senameã), em 1974
foto: Arquivo pessoal P.126-127 Banda Atitude, Paróquia, em 1998
foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Lennart Kjörling
P.21 Eu, minha irmã Joselina, meu irmão Joseval, minha vó Nair
e minha tia Nildes (Ekede) P.132-133 Instrumentos da Sucata’mania
foto: Arquivo pessoal foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Lennart Kjörling

P.26 Casa palafitas P.142 1° Bagun’fest’lata, Igreja Nossa Srª dos Alagados, em 1995
foto: Arquivo Bagunçaço foto: Arquivo Bagunçaço

P.27 Minha mãe, Jovelina, e minha avó, Nair, na entrega do Decar P.148 Marca Olodum
foto: Arquivo pessoal foto: Arquivo Bagunçaço

P.30-31 Casa palafitas P.153 Bloco Bagunçaço, Circuito Campo Grande, em 1997
foto: Arquivo Bagunçaço foto: Arquivo Bagunçaço

P.36-37 Casa palafitas, Oficina Bagun’imagem Sylvia Johnson, P.160-161 Limpeza da nova sede, em 2001
em 2006 foto: Arquivo Bagunçaço
foto: Arquivo Bagunçaço
P.166 Limpeza da nova sede, em 2001
P.39 Casa palafitas, em 1997 foto: Arquivo Bagunçaço
foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Joselito Crispim
P.174-175 Cartaz de intercâmbio na Suécia, em 2004
P.45 Acampamento na Ilha do Rato, em 1994 foto: Arquivo Bagunçaço
foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Joselito Crispim
P.179-183 Viagens diversas: Malta, Suécia, Suíça e Dinamarca
P.54 Visita a Ilha do Rato, em 1999 foto: Arquivo Bagunçaço
foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafa: Alicia Sanabria
P.191 Workshop de sopro com Tom Black e Tobbe, em 1999
P.62-63 Bagun’fest’lata, em 2002 foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Lennart Kjörling
foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafa: Mila Petrillo
P.192-193 Gravação do Clip Vaza Maré, em 1999
foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Sergio Machado

P.194-195 Bagun’fest´lata, em 2002


foto: Arquivo Bagunçaço

P.196-197 Ensaio Cia. Bagunçaço, Paróquia, em 1998


foto: Arquivo Bagunçaço

P.204-205 Ruínas da sede nova recém-ocupada, em 2001


foto: Arquivo Bagunçaço/fotógrafo: Diosmar Filho

P.210 Bagunçaço X Balé Tradicional do Japão, Carnaval,


em 2000
foto: Arquivo Bagunçaço

P.214-215 Sede nova recém-ocupada, em 2001


foto: Arquivo Bagunçaço

P.216-217 Banda mirim do Bate-Estaca, em 1998


foto: Arquivo Bagunçaço

P.222 Joselito Crispim


foto: Arquivo pessoal
222

Sobre o autor

O soteropolitano Joselito Crispim é cineasta e estu-


dante de Direito. Viajado pelo mundo, de onde se sente
parte ativa, codirigiu os curtas de ficção “Ilha do Rato”
(película), em 2003, e “29 Polegadas” (película), em
2004. Também fez a codireção do documentário “Sim
Não Mau Conduto” (HDV), em 2007. Como ator fez, em
2007, uma participação com Carlinhos Brown, no Festi-
val de Verão de Salvador, ao interpretar o personagem
símbolo do festival, apelidado por Brown de “Fever”.
É produtor-executivo e sócio da Santa Luzia Filmes
Empresa, do Grupo Trapiche Barnabé.
Pai solteiro e coruja, observa o fim da adolescência de
Elvis, 18, e Josinan, 17, ambos militantes do Bagun-
çaço, e acompanha ansioso pela internet a entrada na
adolescência de Jan, 13, que vive na França, com a mãe
Birgit. Segue nadando contra as correntezas da vida
para continuar apoiando as “travessuras” pedagógicas
do Grupo Cultural Bagunçaço.Para quem desejar mais
informações sobre o Bagunçaço, ver no Blog du Pim
(http://blogdupim.blogspot.com/) e no site do TV LATA
(http://tvlata.org/).
Este livro foi composto em Akkurat.
O Papel utilizado para a capa foi o Cartão Supremo 250g/m².
Para o miolo foi utilizado o Pólen Bold 90g/m².

Impresso pela Prol Gráfica em setembro de 2010.

Todos os recursos foram empenhados para identificar e obter


as autorizações dos fotógrafos e seus retratados. Qualquer falha
nesta obtenção terá ocorrido por total desinformação ou por erro
de identificação do próprio contato. A editora está à disposição
para corrigir e conceder os créditos aos verdadeiros titulares.

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