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Hip-hop:dentro

do movimento
Hip-hop: dentro do movimento
Alessandro Buzo

Programa Petrobras Cultural Apoio


Copyright © 2010 Alessandro Buzo
COLEÇÃO TRAMAS URBANAS (LITERATURA DA PERIFERIA BRASIL)
organização
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
consultoria
ECIO SALLES
produção editorial
CAMILLA SAVOIA
projeto gráfico
CUBICULO

HIP-HOP: DENTRO DO MOVIMENTO


produtor gráfico
SIDNEI BALBINO
designer assistente
DANIEL FROTA
revisão
ELISA ROSA
ITALA MADUELL
JOANA FARO
revisão tipográfica
CAMILLA SAVOIA

B996h
Buzo, Alessandro, 1972-
Hip-hop : dentro do movimento / Alessandro Buzo. - Rio de Janeiro :
Aeroplano, 2010. il., retrs. - (Tramas urbanas)
Anexos
ISBN 978-85-7820-055-8
1. Hip-Hop (Cultura popular). 2. Rap (Música). 3. Músicos de rap -
Entrevistas. I. Programa Petrobras Cultural. II. Título. III. Série.

10-6288. CDD: 305.2350981


CDU: 316.346.32-053.6(81)

06.12.10 09.12.10 023115

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


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A ideia de falar sobre cultura da periferia quase sem-
pre esteve associada ao trabalho de avalizar, qualificar
ou autorizar a produção cultural dos artistas que se
encontram na periferia por critérios sociais, econômi-
cos e culturais. Faz parte da percepção de que a cul-
tura da periferia sempre existiu, mas não tinha oportu-
nidade de ter sua voz.
No entanto, nas últimas décadas, uma série de traba-
lhos vem mostrar que não se trata apenas de artistas
procurando inserção cultural, mas de fenômenos orgâ-
nicos, profundamente conectados com experiências
sociais específicas. Não raro, boa parte dessas histórias
assume contornos biográficos de um sujeito ou de um
grupo mobilizados em torno da sua periferia, das suas
condições socioeconômicas e da afirmação cultural de
suas comunidades.
Essas mesmas periferias têm gerado soluções originais,
criativas, sustentáveis e autônomas, como são exem-
plos a Cooperifa, o Tecnobrega, o Viva Favela e outros
tantos casos que estão entre os títulos da primeira fase
desta coleção.
Viabilizado por meio do patrocínio da Petrobras, a con-
tinuidade do projeto Tramas Urbanas trata de procurar
não apenas dar voz à periferia, mas investigar nessas
experiências novas formas de responder a questões
culturais, sociais e políticas emergentes. Afinal, como
diz a curadora do projeto, “mais do que a internet,
a periferia é a grande novidade do século XXI”.

Petrobras - Petróleo Brasileiro S.A.


Na virada do século XX para o XXI, a nova cultura da
periferia se impõe como um dos movimentos culturais
de ponta no país, com feição própria, uma indisfarçá-
vel dicção proativa e um claro projeto de transformação
social. Esses são apenas alguns dos traços de inovação
nas práticas que atualmente se desdobram no pano-
rama da cultura popular brasileira, uma das vertentes
mais fortes de nossa tradição cultural.
Ainda que a produção cultural das periferias comece
hoje a ser reconhecida como uma das tendências cria-
tivas mais importantes e, mesmo, politicamente inaugu-
ral, sua história ainda está para ser contada.
É nesse sentido que a coleção Tramas Urbanas tem
como objetivo maior dar a vez e a voz aos protagonistas
desse novo capítulo da memória cultural brasileira.
Tramas Urbanas é uma resposta editorial, política e afe-
tiva ao direito da periferia de contar sua própria história.

Heloisa Buarque de Hollanda


Dedico esse livro a todos os amantes do hip-hop, do Acre a São Paulo,
por cada estado deste Brasil. Dedico ainda ao meu filho, Evandro Borges,
que o hip-hop possa guiar os seus passos. E se é bom para o meu filho,
só posso indicar a todos.
Agradecimentos

Queria agradecer à Heloisa Buarque de Hollanda e ao


Ecio Salles por acreditarem que seria possível esse pro-
jeto. É o 11º livro da minha carreira, sétimo como autor e
outros quatro como organizador.
Queria agradecer a Deus pela disposição e pelas pessoas
maravilhosas que coloca no meu caminho. A todos os
entrevistados e a quem deu depoimento para essa obra,
obrigado por confiarem no meu trabalho. Não podia dei-
xar de agradecer ainda a minha esposa, Marilda, e a meu
filho, Evandro Borges, por estarem comigo em tudo que
eu realizo. Esse é o bonde do bem, espalhando literatura
e hip-hop pelo Brasil.

Alessandro Buzo
Sumário

12 Apresentação Tudo que você sempre quis saber


sobre o hip-hop, mas não tinha pra
quem perguntar…
17 Préfacio Conversa de mano

18 Cap.01 O início do movimento


70 Cap.02 Profissionalismo no hip-hop
94 Cap.03 Mídia do hip-hop
122 Cap.04 Polêmicas
132 Cap.05 Pelo Brasil
186 Cap.06 Fazendo rap mesmo com tudo contra
218 Cap.07 Posses do hip-hop
224 Cap.08 Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa
242 Cap.09 Grafite
258 Cap.10 Freestyle

270 Epílogo

279 Considerações finais

281 Anexos: Depoimentos de pessoas dentro e


fora do hip-hop
Os manos e as minas

315 Sobre o autor


Apresentação

Tudo que você sempre quis saber sobre o hip-hop,


mas não tinha pra quem perguntar...
Entrevistas com Dário (Porte Ilegal-SP), Nelson Triunfo
(SP), Alexandre de Maio (SP), DJ Cia (RZO-SP), Rappin
Hood (SP), Markão II (DMN-SP), Thaíde (SP), Cleber (Ao
Cubo-SP), Tio Fresh (SP Funk-SP), Toni C (SP), Crônica
Mendes (SP), Douglas (Realidade Cruel-SP), Pregador Luo
(SP), Dudu de Morro Agudo (RJ), Freitas (Radar Urbano-
SP), B.Dog (Rapevolusom-RJ), DJ Cortecertu (Central
Hip-Hop – SP), Juliana Penha (de SP, atualmente mora
em Portugal), Maria Amélia (SP), Emicida (SP), Cabal
(SP), Jéssica Balbino (MG), Celso Athayde (Cufa-RJ), DJ
Dex (Arquivo Negro-PR), Gaspar (Z’África Brasil-SP),
GOG (DF), Augusto do Hip-Hop (Acre), Gil BV (PI), DJ Raffa
(DF), Ariel Feitosa (DF), Japão (Viela 17-DF), Nelson Maca
(Blackitude-BA), Léo da XIII (RJ), Mandrake (Portal Rap
Nacional-SP, atualmente SC), Dexter (MG), DJ Dico (SP,
atualmente em Portugal), Zinho Trindade (SP), Fex Ban-
dollero (SP), Grand-E (SP), Mikimba (SP), Aninha (Atitude
Feminina-DF), Pathy de Jesus (SP), Re.Fem. (RJ), Nina
Fideles (DF, atualmente SP), Bonga (SP), Dingos (SP), MC
Marechal (RJ), Kamau (SP) e ParteUm (SP)... Ufa!!!
Não podemos esquecer os depoimentos de Adunias da
Luz (SP), Paula Lima (cantora), Fernando Bonassi (escri-
tor e roteirista-SP), Negra Li (cantora-SP), Gerson King

12
13

Combo (RJ), Tubarão (Du Lixo-SP), Tom (Função RHK-SP),


Renato Vital (SP), Jefferson Leandro (Tonhão-MG), Zulu
Tiquinho (SP), Corvo (Família Pic Favela-SP), Gordinho
(Primeiro Ato-SP), Tio Pac (cineasta da Cidade Tiradentes-
SP), Lucía Tennina (Argentina) e Walter Limonada (SP).
Eternamente grato às 62 pessoas que humildemente
acreditaram no trabalho e participaram, doaram um
pouco de seu conhecimento, seja por meio de entrevista
ou mesmo em um depoimento.
Eu, Alessandro Buzo, faço parte do quinto elemento do
hip-hop, o conhecimento, livros e filmes. Os outros qua-
tro, se não sabe, são MC, DJ, break e grafite. Há aproxi-
madamente onze anos, quando comecei minha carreira
de escritor, a literatura marginal, periférica, divergente
caminhava lado a lado com o rap, como uma irmã. Logo
depois do lançamento de meu primeiro livro O trem –
baseado em fatos reais, em 2000, acabei conhecendo
muitos rappers, e, com o passar dos anos, conheci
quase todos os grupos, além de b.boys, grafiteiros e DJs.
Antes disso, eu era apenas fã das músicas, mesmo
tendo passado a adolescência mais próximo do samba,
partido alto principalmente. Também curti rock nacio-
nal (Titãs, Legião e outros), até que conheci o rap, por
meio dos meus amigos Cido — hoje da Banda Nação
Nesta, de Limeira-SP, amigo de infância, irmão preto,
que morou seis meses na minha casa — e meu irmão
de sangue Álvaro Buzo: os dois ouviam Racionais MC’s e
Planet Hemp. Identifiquei-me com as letras, os protes-
tos, que antes só conhecia na voz do Bezerra da Silva,
mas aquela música era sobre as coisas do meu dia a
dia, sobre a quebrada, e eu era morador dela, nascido e
criado no extremo leste de São Paulo, no Itaim Paulista.
Prestei mais atenção e comecei a ler tudo o que achava
sobre hip-hop, como as revistas Rap Brasil e Planeta
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Hip-Hop, e o jornal Estação Hip-Hop; em pouco tempo


sabia por esses veículos tudo sobre o movimento. O res-
tante conheci nas ruas, nos shows.
Lembro a primeira vez que assisti a um show dos Racio-
nais MC’s no Amigão (casa de shows que se encontra
fechada) na divisa de São Miguel com Itaim Paulista.
Parecia mentira, os manos ali fazendo um megashow
e eu junto curtindo. Alguns outros shows (no mesmo
local) depois, o Brown fechou a apresentação dando um
salve para vários presentes que estavam ali no palco, eu
estava lá e ele disse: “Salve, Buzo.” Meu celular tocou
no meio do barulho, e só ouvi um amigo dizer: “Caraio,
moleque, o Brown mandou um salve pra você.” “Eu vi.” Vi
ali do lado, curtindo o show na lateral do palco.
Quando entrei para a literatura produzida nas perife-
rias, acabei conhecendo pelo tema “trem” o RZO e virei
amigo dos manos. Posso afirmar que o primeiro grupo que
eu conheci de fato, virei amigo. Foi o RZO, no tempo da
famosa “Laje da casa do Helião”. Ali conheci Helião, San-
drão, DJ Cia, Negra Li, DBS e toda a família, que era nume-
rosa. Vários talentos como o Tom, hoje do Função RHK,
que já era bom e colava na Família RZO pra se aprimorar.
Uma escola de rap, era mais ou menos isso que eu via ali
em Pirituba. Depois, no decorrer da caminhada, conheci
muitos outros, principalmente a partir de 2004, quando
comecei a promover na rua o evento de hip-hop Favela
Toma Conta, de graça. Já levei ao Itaim Paulista gran-
des nomes do rap nacional. Sinto-me capacitado para a
missão importante e séria de escrever um livro sobre o
movimento, encaro como um desafio. Mas estou certo
de que vai ser importante para o movimento, e para tal
missão decidi chamar a rapa do rap. Este livro contém
entrevistas e depoimentos de ícones da cena. Mas, no
capítulo 1, vou fazer um balanço do rap no século XXI,
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como está o rap no início de 2010, na minha visão. Vamos


lá, a partir de uma matéria do Mano Brown na capa de
uma grande revista em circulação nas bancas.
A revista em questão é a Rolling Stone, e a matéria provo-
cou grande repercussão. As poucas exposições do líder
dos Racionais MC’s na mídia são sempre assim. Ele é um
ícone do rap e do movimento hip-hop. E é avesso a pro-
gramas de TV e à grande mídia em geral. Mas até onde o
Mano Brown mantém o discurso de antes? Será que não
temos um novo Mano Brown, mais aberto, nos dias de
hoje? Afinal, os anos 1980 foram uma coisa, e estamos em
2010. Quem imaginaria Brown num projeto da Nike, com
um CD que ele recentemente produziu e vários rappers
mandaram a rima, disponível no site da empresa?
Ser o Brown não deve ser fácil, ele é o centro das aten-
ções por onde passa. Ele não esconde que não quer
para si a liderança de nada, dispensa isso, mas que-
rendo ou não ele é uma referência para jovens em todo
o país, não dá pra fugir. Particularmente, acho suas
letras pura poesia, são rimas refinadas. O show dos
Racionais também é top. No palco, o grupo é perfeito,
envolve. Se o rapper mudou de visual ou não, acho que
é um assunto particular dele. O caso da Nike é comer-
cial, dim dim. Ele foi muito bem pago para fazer e fez.
Só isso, o trabalho paga as contas no fim do mês. Cabe
a ele saber se o vínculo interessa, as críticas serão ine-
vitáveis, como na ida do MV Bill à Daslu.
Hoje é muita informação circulando, e-mails, blogs,
sites, Myspace, Twitter. Ficou mais fácil fazer parcerias,
cada um sabe até onde isso fere ou não seu discurso,
sua militância. Eu também faço as minhas parcerias.
Sempre vai ter alguém criticando, falando isso ou aquilo.
Mas hoje o rap está fortalecido. O Ministério da Cultura
criou, por exemplo, o Prêmio Cultura Hip-Hop para dar
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suporte financeiro a muitos projetos que merecem. O


rap não é moda. Não existe moda que dure mais de vinte
anos. O público que o rap perdeu nos últimos anos para
o funk carioca, por exemplo, nas periferias de São Paulo,
vai voltar em dobro com o que está por vir. O rap vai
abraçar a juventude que está aberta para o que é bom.
O rap está bem, obrigado. Eventos como a festa 100%
Favela, o Favela Toma Conta e a Rinha dos MCs provam
que existe público para todos os estilos. Pra quem curte
Realidade Cruel, Consciência Humana, Ndee Naldinho
e Facção Central, um rap mais sério e de raiz. Também
tem público para a novíssima e talentosa “nova escola”,
como Kamal, Emicida e Criolo Doido.
A internet é facilitadora, coloca o mundo ali do lado.
Rappers antenados como o Dudu de Morro Agudo já
estão indo para fora. Em 2009, Dudu passou um mês na
França. Sem falar no quinto elemento da cultura hip-hop:
o conhecimento. Livros e filmes sendo lançados (este
livro é um exemplo), escritores indo para outros países.
O hip-hop é igual ao vinho, quanto mais velho, melhor.
Podem me chamar de otimista, mas quem trabalhar
sério vai crescer. Quem viver verá... A frase a seguir
reflete o que acredito:
Destaco todos os que plantaram a semente, cercaram a
muda e regaram a árvore. Só não destaco os que ficam ape-
nas à sombra do plantio alheio; mas aplaudo os que podam
os galhos degradados e arrancam os parasitas do entorno.

NELSON MACA / BLACKITUDE (SALVADOR-BA)


Prefácio

Conversa de mano
Este livro foi inventado no susto. Numa certa tarde, no
meio de uma conversa, Alessandro Buzo me disse: “Não
existe ainda uma história do rap visto de dentro do movi-
mento. E isso seria muito importante para todos. Eu me
disponho a fazer isso em três meses para você.” Os pra-
zos eram curtos para fechar a segunda leva da Coleção
Tramas Urbanas e Buzo sabia disso. Uma história do rap
em três meses... Será? Hesitei um pouco, mas resolvi
arriscar. Na semana passada recebi a primeira versão
dos originais prometidos e me surpreendi. Para uma
professora de longa data como eu, uma história do rap
obedeceria a metodologias de mapeamentos, pesquisas
em diversas fontes, análise e interpretação de dados,
enfim, rituais do pesquisador ou do historiador acadê-
mico. Mas o livro que Buzo me ofereceu não ia por aí. Era
um papo de mano, praticamente ao vivo, uma conversa
de mesa de bar, gostosa, cheia de pistas e novidades.
Um mapeamento arbitrário e pessoal, um descortinar
de uma cena particular, de iniciados. Como editora, pedi
poucas mudanças. Alguns esclarecimentos factuais para
leigos como eu. Resolvi me permitir embarcar no clima
que Buzo propôs e entrar pela fresta nesse mundo des-
conhecido dos bastidores do rap. Valeu, Buzo!

Heloisa Buarque de Hollanda

17
Cap.01
O início do movimento
Para falar como o hip-hop surgiu, mas principalmente o
rap nacional, fomos falar com uma pessoa que vive o rap
24 horas por dia. Seu nome é Dário Nunes Silva, 37 anos,
nascido em Santo André-SP, mais conhecido como
Dário da Porte Ilegal.

BUZO: Como e onde surgiu a Porte Ilegal?

DÁRIO: A Porte Ilegal surgiu em uma loja na Rua 24 de


Maio, começamos a trabalhar com o Grupo GOG, no
Dia a Dia da Periferia, onde deu prosseguimento com
a venda e distribuição de CDs, aí vieram vários grupos
como RZO, Visão de Rua, Consciência Humana, Sistema
Negro, Realidade Cruel entre eles, são vários.
BUZO: Quem fez a logo e deu o nome?

DÁRIO:O nome foi criado pelo letrista GOG, e a logo-


marca foi ideia minha e projeto gráfico do Man do
Filosofia de Rua.

BUZO: Tem ideia de quantos CDs de rap nacional você


lançou com o Selo da Porte?
DÁRIO: Não. Mas em torno de uns cinquenta.

BUZO: Quais os maiores sucessos de vendas entre eles?

DÁRIO: Na mira da sociedade, que foi uma coletânea com


GOG, RZO, Consciência Humana entre outros, foi a que
mais vendeu, cerca de 30 mil cópias. Outros sucessos

20
O início do movimento 21

foram Consciência Humana, Dexter, Realidade Cruel...


Lembrando que o sistema de venda de CDs hoje não se
compara ao da época dos CDs citados anteriormente,
hoje quem vende 5 mil se compara a quem vendeu
50 mil há dez anos.
BUZO: Um clássico que você destaca que marcou época?

DÁRIO: Racionais MC’s com Raio-X do Brasil, o próprio Na


mira da sociedade. Num tempo mais recente, cito Rea-
lidade cruel.
BUZO: Qual foi a época de ouro do hip-hop no Brasil?

DÁRIO:Na minha opinião, a época de ouro não existiu,


mas a melhor fase foi entre os anos de 1998 a 2002.
BUZO: Por quê?

DÁRIO: O giro financeiro era grande pros grupos, pra


shows, e foi quando o rap foi mais ouvido nas periferias
do Brasil, era popular.
BUZO: Rap no Brasil, anos 1980?

DÁRIO: Anos 1980, na minha opinião, foi o começo, não


tem muito que explicar, foi o surgimento de várias ban-
das que vieram a estourar nos anos 1990, saíram ainda
as primeiras coletâneas Hip-hop – Cultura de rua, com
surgimento do Thaíde e DJ Hum, o álbum O som das
ruas, com destaque para Sampa Crew, Ndee Naldinho,
que era Ndee Rap, e outros, além do Kaskatas – Ousadia
do Rap, se destacando Geração Rap.
BUZO: Anos 1990?

DÁRIO: Foi quando o Brasil soube o que era rap, quando


ele ficou conhecido no país e ganhou mais adeptos, sur-
gindo o grupo Racionais MC’s, com lançamento de vários
álbuns do Thaíde e DJ Hum e veio tudo depois.
22 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Século XXI, como está o rap hoje?

DÁRIO: O século XXI começou com milhares de grupos em


todo o país, só com disco gravado tem mais de mil grupos
diferentes. Se contarmos quem está fora do meu conhe-
cimento ou não lançou, dá muito mais que o dobro.
BUZO: O que espera dele pro futuro?

DÁRIO: Há uma grande expectativa, pois os grupos apren-


deram a ser independentes e estão fortalecendo o mer-
cado novamente, hoje não existe mais gravadora.
BUZO: Uma história inesquecível nestes anos todos de rap?

DÁRIO: No auge do sucesso da Porte Ilegal, o músico


Snoop Dogg, quando veio ao Brasil, pediu para usar uma
camiseta da Porte Ilegal.
BUZO: Você trabalha sempre com o Dexter, o que pode nos
dizer sobre ele?
DÁRIO: Uma pessoa de caráter 100% e hoje uma pessoa
100% regenerada, tem um talento nato e muito carisma
com o público, estamos aguardando a saída dele ainda
este ano para fortalecer o mercado do hip-hop.
BUZO: Quem é o Dário da Porte Ilegal, por ele mesmo?

DÁRIO: Eu me julgo uma pessoa administrativa do hip-hop,


e não um artista.

Quando fazemos essa pergunta, sobre o início do movi-


mento, para pessoas que viveram os tempos de São Bento
(Estação São Bento do Metrô de São Paulo), todos citam
Nelson Triunfo, de São Paulo. Então falamos com o Nelsão,
com apoio do Gilberto Yoshinaga, que está escrevendo a
biografia dele. Vamos ver o que o pai do hip-hop nacional
tem a nos dizer, uma honra suas palavras aqui no livro.
O início do movimento 23

BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: Nos fale dos tempos da Rua 24


de Maio e da São Bento.
NELSON TRIUNFO: Tenho ótimas lembranças dessa época.
Entre 1983 e 1984, muitos guardas implicavam com
a gente, por isso não tínhamos um lugar definido para
dançar, mas geralmente ficávamos na região central.
Fomos levados para a delegacia várias vezes. A polícia
dizia que a gente não podia dançar na rua porque a mul-
tidão parava para ver e aquilo e atrapalhava a passa-
gem dos pedestres. Aí, pediam para ver nossa carteira
de trabalho e nos acusavam de vadiagem. Mas sempre
éramos liberados depois da canseira. Uma vez, um poli-
cial me disse que, no meio da aglomeração, tinha uma
molecada roubando carteiras de pedestres. E, como eu
era uma voz ativa da roda de break, ele iria me acusar
se alguém fosse roubado. Eu respondi: “E eu posso acu-
sar você por todos os roubos que acontecem nos outros
pontos da cidade?”. O policial disse que eu era abusado,
mas eu não abaixava a cabeça pra esse tipo de intimi-
dação, porque estávamos na rua com o único intuito de
dançar, praticar a nossa arte das ruas.
Na maioria das vezes, ficávamos ali nos arredores das
ruas 24 de Maio, Barão de Itapetininga e Dom José de
Barros, ali na Praça da República. Às vezes, dançávamos
na Sé. Eu me lembro que, naquela época, Caju e Casta-
nha também cantavam naquela região, nas ruas. Havia
umas coisas curiosas, também. Por exemplo, office
boys que paravam para ver a roda de break e chegavam
atrasados no trabalho. Alguns perderam o emprego por
isso, e depois apareceram na roda e começaram a dan-
çar com a gente, viraram b.boys.
A roda de break nas ruas cresceu e logo apareceu na
mídia, em jornais e revistas. Ainda em 1984, essa reper-
cussão levou a gente para a televisão, quando eu e outros
te Ilegal) e Buzo Dário (Porte Ilegal) e Buzo
26 Hip-hop:dentro do movimento

b.boys participamos da abertura da novela Partido alto,


misturando movimentos de break com passos de samba.
Em 1985, tive um problema de saúde, machuquei o
joelho e precisei me afastar um pouco da dança. Foi
quando o João Break e o Luizinho, irmão dele, levaram
o break para a estação São Bento do metrô. E ali se for-
mou o embrião do hip-hop brasileiro, porque o espaço
começou a se popularizar e atrair muita gente que hoje
é referência nacional, como os Racionais, o Thaíde, o DJ
Hum, os grafiteiros Osgemeos, o Marcelinho Back Spin e
muitas outras pessoas.
BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: O que mais te dá saudade
daquele tempo?
NELSON TRIUNFO: Naquela época, o hip-hop era mais unido
porque ninguém via o outro como concorrente, até o
surgimento das crews. Era um clima de família, mesmo.
Dançávamos por diversão, por amor à arte, e nos aju-
dávamos bastante. Lembro que muitas vezes passa-
mos o chapéu junto ao público para levantar uns troca-
dos. Assim, conseguíamos pagar as nossas passagens
de trem ou ônibus e comer alguma coisa. Quando saiu
o filme Beat Street, usamos o chapéu para pagar os
ingressos no cinema. Acho que vi o filme umas dez vezes
naquela época. Foi importante porque a partir dali é que
começamos a entender o que é a cultura hip-hop.
BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: Como é estar ou ser há tantos
anos do movimento hip-hop e ainda ter toda a disposição
pra seguir adiante?
NELSON TRIUNFO: Fisicamente não é tão fácil pra mim, por-
que estou com 55 anos de idade, quarenta anos de dança
nas costas. De vez em quando eu me machuco ou sinto
algumas dores. Mas minha disposição vem do amor que
eu tenho pelo hip-hop, principalmente pela dança. Em
O início do movimento 27

todos os momentos, desde o soul e o black power até o


hip-hop de rua e os movimentos sociais, sempre fui fiel
a esse meu amor pela coisa. Isso é minha vida, e me dá
força para prosseguir, independentemente da idade, que
nem o Romário e o Roger Milla [jogador de futebol cama-
ronês], por exemplo, que sempre jogaram por prazer e só
abandonaram os gramados depois dos 40 anos. Agora,
tenho me dedicado mais ao meu lado músico, que pouca
gente conhece porque sempre me destaquei mais como
dançarino e arte-educador. Mas também sou músico e
poeta, tenho centenas de composições próprias e, no
momento, quero me dedicar a esse lado. Sem contar que
estou mais presente para a minha família, é claro.
BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: No seu show participam seus
filhos. Como é trabalhar em família?
NELSON TRIUNFO: Somos uma verdadeira “família hip-hop”,
e não sei se existe outra igual a nós. Minha esposa
Heloísa ama o hip-hop e participa da maneira que
pode, preparando nossas roupas, opinando, filmando
os eventos e tirando fotos. O Jean, meu filho mais
velho, joga basquete, que é um esporte relacionado
ao hip-hop, e também canta, dança e faz beatbox. O
Andrinho, caçula, é b.boy desde os 3 anos de idade e
dança em vários estilos. Apesar da pouca idade, ele
também já faz freestyle no rap.
É muito gostoso e gratificante ter a família toda par-
ticipando dos eventos comigo. E o mais legal é que
nunca forcei eles a participarem de nada, é tudo muito
espontâneo. No papel de pai, eu abro o leque de conhe-
cimentos para eles fazerem o que quiserem. E fico feliz
porque o envolvimento deles com o hip-hop sempre foi
algo natural. Acho que a cultura de rua hip-hop está
no nosso DNA (risos).
28 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO / GILBERTO YOSHINAGA:Se você acha o hip-hop bom


para os seus filhos, indica para o filho de qualquer outra
pessoa, é isso? Hip-hop faz bem pra crianças e jovens?
NELSON TRIUNFO: Sim, o hip-hop é muito bom para crian-
ças e jovens, desde que se tenha a responsabilidade de
saber que é muito importante buscar outros conheci-
mentos, estudar, se aperfeiçoar. A maior prova de que o
hip-hop faz bem para os jovens são as várias pessoas que
passaram pelas minhas palestras e oficinas de dança e
venceram na vida. Cheguei a trabalhar com jovens que
estavam desacreditados e, hoje, estão espalhados pelo
mundo. Tem b.boys morando na Holanda, na Alemanha,
na Finlândia, nos EUA. Também trabalhei com garotas
que tinham abandonado a escola e, graças ao hip-hop,
se motivaram a voltar a estudar e, hoje, são professoras,
pedagogas, psicólogas, entre outras profissões.
Uma coisa gratificante é saber que muitos ex-alunos se
tornaram educadores do hip-hop e já formaram novos
educadores. Já estamos na terceira geração de multipli-
cadores da educação através do hip-hop. E, se não fosse
a cultura de rua, não sei o que seria da maioria dessas
pessoas. Uma vez, o Joul, MC do grupo Matéria Rima,
estava num avião comigo e começou a chorar. Eu pergun-
tei o porquê e ele me disse que estava emocionado de ver
o Rio de Janeiro lá do alto, e que adoraria poder dividir
aquele momento com os amigos de infância, mas a maio-
ria tinha sido presa ou já estava debaixo da terra.
BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: Acha que o hip-hop, no geral,
está num bom momento?
NELSON TRIUNFO:Sim, acredito que o hip-hop está num
momento de transformação. Acho que aquela linha
mais pesada do rap sofreu um certo desgaste, e poucos
sobreviveram, só os mais verdadeiros. Vejo os chama-
dos “undergrounds” subindo pra caramba.
O início do movimento 29

Muita gente que batalhou por vários anos está vivendo


um momento glorioso, inclusive no break e no grafite.
Por exemplo, os grafiteiros Osgemeos hoje são respei-
tadíssimos no mundo todo. Além disso, o Brasil está no
circuito das batalhas internacionais de break, e vários
b.boys brasileiros têm se destacado em competições
pelo mundo afora.
Dentro do Brasil, existem bons grupos de rap em todos
os estados, concursos de dança, trabalhos sociais.
Cada vez mais temos livros voltados para o hip-hop,
teses de universidades, documentários... Isso tudo é
um reconhecimento à cultura de rua.
BUZO / GILBERTO YOSHINAGA: O que espera do futuro do
movimento?
NELSON TRIUNFO: Espero que chegue a um status de res-
peito, de nome, de alto nível na cultura brasileira, como
tem hoje a Ivete Sangalo, por exemplo. E que a gente
consiga sobreviver de forma sólida, que tenha inde-
pendência financeira e possa gerar empregos, mas de
forma unida, sem se isolar.
Espero que o hip-hop se mantenha como um movimento
social, musical, educacional, politizado e transformador
também. E que as pessoas envolvidas não tenham medo
de interagir com outras manifestações culturais e artís-
ticas, ou com os esportes, por exemplo. Não podemos ter
medo de diversificar, mudar, evoluir, parar no tempo.
O hip-hop tem mudado com o tempo. Os quatro ele-
mentos permanecem vivos, mas há outros elemen-
tos se relacionando com ele, criando coisas paralelas,
enriquecendo ainda mais a cultura. O “tempo bom que
não volta nunca mais”, como canta o Thaíde, foi mara-
vilhoso, mas hoje há outras coisas boas. Eu tinha a
barba preta e hoje ela é branca, mas eu continuo sendo
hip-hop desde aquela época.
Nelson Triunfo e Buzo Nelson Triunfo e
32 Hip-hop:dentro do movimento

Acho interessante preservarmos os valores, mas temos


que assimilar concepções diferentes de se ver e produ-
zir cultura, respeitando a diversidade. Uns trabalham
mais a questão racial, outros seguem uma linha român-
tica, politizada, gospel ou underground, entre outras.
Tudo isso junto é que dá ao hip-hop a beleza que ele tem.
É até legal ter esse ar de “desorganização”, porque isso
é que dá total liberdade de expressão e criação. Acho
que, se organizarmos demais a cultura, ela se estraga.
Chico Science já dizia, né? “(...) Que eu me organizando
posso desorganizar.”

Alguns fatores fazem do ano de 2010 (o mesmo em que


eu escrevo esta obra) importante na história, e acho
que um desses fatores foi a criação do Prêmio Cultura
Hip-Hop, edição Preto Ghóez. Uma significativa quan-
tia em dinheiro foi distribuída entre os ganhadores
das categorias. O prêmio teve a ONG Ação Educativa
na organização e o MinC como suporte. Um dos res-
ponsáveis por toda a arte, logos e divulgação do prê-
mio foi o jornalista Alexandre de Maio, que por muitos
anos esteve nas bancas com publicações voltadas ao
público hip-hop, como as revistas Rap Brasil, Rap News,
Planeta Hip-Hop e Graffiti. A editora Escala e depois
a Minuano, com a revista Cultura Hip-Hop, tiraram os
veículos de circulação por baixa nas vendas, reflexo de
um movimento que tem os jovens das periferias e, logo,
de menor poder aquisitivo, como público-alvo. O fim das
revistas deixou uma legião de seguidores órfãos de uma
publicação que atendesse o interesse deles.

Mas sobre isso falaremos mais para a frente com Alexan-


dre de Maio. Nossa primeira entrevista com ele, no início
de fevereiro de 2010, foi para sabermos mais e documen-
tar aqui em livro o que se podia esperar do Prêmio Cultura
Hip-Hop do MinC, vamos à entrevista.
O início do movimento 33

BUZO: Fale do Prêmio Cultura Hip-Hop, qual a importân-


cia dele e por quê?
ALEXANDRE DE MAIO: O Prêmio Cultura Hip-Hop - Edição
Preto Ghóez é um iniciativa do Ministério da Cultura,
mais precisamente da Secretaria da Identidade e da
Diversidade Cultural. Ele vai ser em forma de edital e
vai premiar mais de 128 projetos, totalizando mais de
1 milhão e 700 mil reais em prêmios. Um prêmio como
esse é de grande importância porque vamos conseguir
mapear as ações do hip-hop em todo o Brasil. Teremos a
real dimensão da nossa cultura e de suas atividades em
todo o país. Vai ser uma oportunidade para nos conhe-
cermos melhor. E um incentivo pra quem já trabalha
com as situações das mais adversas e merece reconhe-
cimento do poder público. Pois o movimento hip-hop
ajudou a eleger o atual governo e a sua força é notoria-
mente conhecida e respeitada.
BUZO: Esse dinheiro no meio do hip-hop vai consolidar o
movimento, financeiramente falando?
ALEXANDRE DE MAIO: Parece uma grande quantia, mas
quando ela é dividida fica em torno de 20 mil reais em
média para cada projeto. Então acho que será um incen-
tivo para quem já realiza um trabalho. Não vai mudar a
vida de ninguém, mas com certeza vai ajudar, e muito, os
projetos e incentivar outros a começarem novos projetos.
BUZO: Quanto desse prêmio surgiu daquele encontro de
líderes do movimento com o Lula?
ALEXANDRE DE MAIO: Pelo que pude apurar, aquele encontro
foi o estopim para o reconhecimento do hip-hop dentro
do governo. Dali em diante, muitas organizações e pro-
jetos cresceram. Depois, debates, encontros e muita
militância principalmente de nomes como Preto Ghóez
(que é homenageado no prêmio) foram decisivos para
34 Hip-hop:dentro do movimento

que o prêmio saísse do papel. Vejo como um conquista


coletiva da cultura hip-hop. Cada cara que canta rap,
cada b.boy que dá oficina, cada grafite na rua, cada DJ
que ensina ou se apresenta nas quebradas, cada mano
que faz um blog, um site para divulgar a cena. Cada um
teve papel nesse gigante que é a cultura hip-hop no Bra-
sil. Somando todas essas ações, conquistamos esse
prêmio e mudamos a cara das periferias no Brasil. O
hip-hop unido ainda pode conquistar muito mais. Con-
quistamos algumas coisas, mas estamos longe de uma
sociedade mais justa.
BUZO: Como vê as perspectivas do hip-hop pro futuro?

ALEXANDRE DE MAIO: Eu trabalho com organizações em todo


o país, e em cada cidade do Brasil vejo esses projetos
crescendo. Vejo cada vez mais o rap brasileiro ganhando
respeito na música, nosso b.boys são considerados os
melhores do mundo, o grafite nem se fala, a safra de
artistas ganhou o mundo. Os DJs cada vez mais são os
donos das festas. No terceiro setor o hip-hop também
se mostra uma das alternativas mais eficazes. Vejo um
futuro promissor para a nossa cultura. Mas para poder
enxergar isso as pessoas precisam colocar os óculos do
trabalho, da força e da vontade de mudar. Quem se aco-
modar e pensar que a “fita tá dominada” só vai ver fra-
casso. Eu vejo milhares de artistas, militantes, comu-
nicadores acordando todo dia cedo em todo o Brasil e
trabalhando pela cultura. Como isso pode dar errado?
BUZO: Existe o tal “quinto elemento”?

ALEXANDRE DE MAIO: O quinto elemento é um forma de


agregar as artes do hip-hop a um conteúdo mais pro-
fundo, um algo a mais que a simples forma de se expres-
sar. É no quinto elemento que o hip-hop se diferen-
cia na música, nas artes plásticas, nos toca-discos, e
O início do movimento 35

na dança. Conhecimento é a chave, a história mostrou


que a verdadeira revolução se faz pela educação. Não
tem outro caminho. E o hip-hop traz isso – vamos nos
expressar, vamos fazer arte.

A entrevista com Alexandre de Maio mostra uma expec-


tativa e um otimismo parecidos com os meus. Eu também
vejo assim, com muito trabalho iremos crescer e dominar
a fita. Se não encararmos como trabalho e tentarmos
nos profissionalizar, nada vai mudar, e todo estilo musi-
cal que surgir no país vai ter mais espaço que o hip-hop,
mesmo que seja uma moda como a lambada e vá embora
seis meses depois, tão rápido quanto surgiu, mas antes
vai passar no Faustão, no Gugu e vender um absurdo de
CDs, enquanto no hip-hop está muito difícil vender 10
mil unidades de um disco. Claro que parte da culpa é da
internet, os manos baixam música e cada vez mais os
artistas a disponibilizam sem ter lançado oficialmente
em disco nenhum. Mais vale hoje “bombar” na internet
e depois ganhar dinheiro vendendo shows. Alguns gru-
pos de rap, não mais que dez, viajam por todo o país, se
apresentando em uma série de eventos. Os grupos que
mais se apresentam fora do seu estado de origem são os
Racionais MC’s, de São Paulo, e o GOG, de Brasília. Em
minhas andanças pelo Brasil, pude ter uma certeza do
tamanho que a coisa ficou. Há muitos anos não é mais
uma cena apenas paulistana, tem rap do Sul do país até
o Norte, o Nordeste, tem rap em qualquer lugar do Brasil.

O MinC só criou o Prêmio Cultura Hip-Hop porque viu a


mesma situação. Em uma tribo indígena no Amazonas
tem rap, vai na mais distante quebrada deste país, tem
hip-hop. Algumas viagens que fiz como repórter da
revista Rap Brasil, cobrindo eventos para escrever a
coluna “Pelo Brasil”, me trouxeram outra visão que vai
muito além das centenas, ou milhares, de grupos que
36 Hip-hop:dentro do movimento

existem no estado de São Paulo onde o rap surgiu. E os


jovens do Acre, de outras localidades que visitei, amam
a parada, vivem por ela. Confesso que não sabia o que ia
encontrar quando embarquei em 2007 para o Acre, para
cobrir o Primeiro Encontro Norte de Hip-Hop, organizado
pelo Augusto do Hip-Hop e sua esposa, com alguns alia-
dos. O evento teria duração de dois dias, com debates
e palestras no primeiro e show no segundo. Mais a pre-
sença de militantes de outros estados do Nordeste, além
dos locais de Rio Branco.

Já no primeiro dia vi que os participantes dos debates


tinham discurso de protesto, com temas diferentes dos
nossos, falavam da preservação da Amazônia e coisas
assim. Mas tinham o mesmo estilo do rap militante dos
anos 1980 e 1990 em São Paulo, só lutavam por outras
causas. No segundo dia, a minha nova surpresa: o nível
dos b.boys e depois dos grupos de rap locais era de fato
muito bom, e eles tinham rimas envolventes. Saí de lá com
a certeza de que o rap era forte em qualquer lugar do Bra-
sil. Como uma vez em que fomos para Goiânia, eu (Buzo),
Juliana Penha e Marilda Borges cobrir o lançamento do
primeiro DVD de rap do estado, evento e DVD, ambos orga-
nizados pelo DJ Fox, militante de mil anos na cena.

O número de grupos seguidores era impressionante,


a molecada nova tudo firme e forte no rap, curtindo
os sons, vestindo camisetas de grupos locais e de São
Paulo. No segundo dia, fomos jantar com um pessoal
do rap gospel em Aparecida de Goiânia, grande Goiânia.
Chegando a uma igreja evangélica, esperamos acabar o
culto que acontecia. Saiu um mano de social, dizendo
ser o MC tal, falava que assim que os irmãos esvazias-
sem a igreja eles tinham autorização do pastor para nos
receber no local. Perguntei: “Não era um jantar? Uma
fome da gota.” E ele respondeu: “É que avisamos a um
pessoal que vocês viriam, da Rap Brasil de São Paulo, e
eles querem conhecer vocês.” Olhei para o outro lado de
O início do movimento 37

uma rua de duas pistas, tinha cerca de quarenta jovens


vestidos ao melhor estilo hip-hop. Vieram na direção da
igreja, e a Juliana falou: “O que a gente faz, Buzo?” Res-
pondi: “Vamos improvisar uma palestra, um bate-papo.”
E assim aconteceu. Os caras e as minas tomaram conta
da igreja, faixas de crews foram penduradas e falei (ou
falamos) por cerca de uma hora.

O MC que nos recebeu trocou não sei onde a roupa social


por vestimentas do hip-hop. Nem parecia a mesma pes-
soa. Algumas fotos e missão cumprida! Depois nos leva-
ram para uma quebradinha de periferia, muitas ruas sem
pavimentação, a cidade toda é meio periférica, então
sim, um maravilhoso jantar nos aguardava, preparado
pelas esposas dos manos. Então, como àquela altura a
fome era maior que qualquer outra coisa, comemos, e
muito bem, obrigado.

São tantas histórias, como na minha ida à Bahia, levado


pelo Nelson Maca, do Coletivo Blackitude – Vozes Negras
da Bahia, além de palestras em faculdades. O Maca fez
questão de me levar para conhecer os manos do hip-hop
na cidade de Alagoinhas-BA. No local, conheci um mano
deficiente físico chamado “Mama”, que é MC, e outros
rappers ou militantes. A casa era um local humilde, mas
fizeram questão de nos receber com um belo almoço.
Isso mostra que o rap é mesmo uma grande família, e na
maioria das vezes acolhedora, basta saber chegar.

Sempre disse isto: se toda periferia curtisse rap, o sis-


tema ia tremer, porque a revolta ia vir junto com a infor-
mação, com a denúncia e com a cobrança. Mas a maioria
da população periférica prefere o forró com duplo sen-
tido, o cantor ou a cantora que vai ao Faustão. Só é um
grande escritor se for ao Jô Soares, só é famoso se sair
na Veja, então eles dominam a informação e passam para
o povo programas sem conteúdo como o Big Brother, da
Globo, e A Fazenda, da Record. Um povo alienado é sem-
pre mais fácil de manipular. O rico continua rico, o pobre,
38 Hip-hop:dentro do movimento

cada vez mais pobre, e sonhando apenas com o celular


de última geração, muitas vezes sem crédito para fazer
ligação, um carro melhor que o do vizinho, igualzinho
ao que ele viu na TV. Compre, compre, consuma e seja
vencedor, não ajude ninguém, na selva de pedra é assim:
“Eles matam os humildes demais”, como diria um som
dos Racionais.

Mas o rap no Brasil prega outra coisa, talvez até mesmo


a dita união nunca tenha sido plenamente vivida, embora
ela ainda seja difundida. O rap exige uma postura, uma
conduta, e são os militantes que fazem o movimento
seguir adiante, mesmo nas piores crises. Se você per-
guntar a opinião das pessoas de dentro do movimento,
de como elas veem o rap no momento, a resposta vai ser
muito diferente de um para o outro, porque alguns são
mais otimistas, e outros nem tanto. Na verdade, poucos
têm coragem de dizer o que pensam de forma tão direta
como o DJ Cia numa entrevista exclusiva para mim, em
fevereiro de 2010, publicada no meu blog1 sobre o rap nos
dias de hoje. Ele disse: “O rap, a meu ver, está perdido,
me desculpem a franqueza, ninguém tá fazendo algo
que dê uma explosão mesmo, e precisamos disso, digo
até mesmo do nosso lado. Existe uma fórmula e é o que
corremos atrás, do jeito que está é muito cômodo, não
vai mudar nada se continuar assim, precisamos colocar o
rap na rua, nos carros, nas casas, nas rádios, tem que ser
febre como o samba, as pessoas têm que cantar como se
canta samba, o samba é da favela, não é dos boys, você
não vê boy fazendo samba, a diferença é a união. Pô, é
loko, sim, underground, freestyle etc., mas todos são um
só nego, enfraquece ao invés de fortalecer, está cada um
no seu canto, ninguém fala de ninguém, não ajuda, não
comenta, não fala bem, só fala mal, se não for do seu
bolo então... tá errado. Pensem nisso.”

1 www.buzoentrevista.blogspot.com
O início do movimento 39

Pensamos sim, tanto que fizemos a mesma pergunta


para outros do nosso meio, não para provar que o DJ Cia
estava errado, porque na verdade o que ele nos disse é,
de certa forma, verdade. Falta o que mais pregamos no
rap: a união. Mas o que sobra são adeptos em todos os
lugares do Brasil, fazendo do hip-hop uma das expres-
sões que mais dialoga com a juventude do país. E com
mais de vinte anos, deixou de ser encarado como moda,
é um estilo consolidado e que cresce mais e mais. As
dificuldades e limitações impostas são muitas, desde o
preconceito em cidades do interior do país, até persegui-
ção policial nas grandes cidades. Alguns casos viraram
notícia, como o da Virada Cultural de 2008, quando o
palco do hip-hop era o mais afastado, o de mais difícil
acesso e o único com forte esquema policial, dando geral
em quem chegava para assistir aos shows. Surgiram
vários protestos, principalmente na internet, e a solução
foi no ano seguinte não ter mais o palco do hip-hop. Uma
ou outra atração ligada ao movimento foi espalhada pela
cidade, mas nenhuma delas era exclusiva para os adep-
tos do hip-hop. Ver isso acontecer há tão pouco tempo,
e na cidade de São Paulo, berço da cultura no país, é de
fato um caso para se preocupar.

Existem outros exemplos, como o texto preconceituoso


da jornalista Bárbara Gancia publicado no jornal Folha
de S.Paulo. Na época, vários militantes escreveram tex-
tos contra a jornalista e mandaram para o jornal, mas
nada aconteceu. Nesses protestos, mais militantes do
que artistas, grandes nomes da cena geralmente não
tomam partido. Se isso ajuda ou atrapalha, cabe a cada
um tirar suas conclusões. Eu acho que se nomes de peso
se manifestam publicamente, trazem consigo o seu
público; é a minha opinião sobre esse caso. Na semana
em que escrevo estas palavras, aconteceu um fato muito
triste para o rap nacional. Morreu a rapper Dina Di, do
grupo Visão de Rua, uma das pioneiras no rap feminino,
40 Hip-hop:dentro do movimento

referência para mulheres de todo o país. Não poderia ser


diferente: todos os sites e blogs de hip-hop, cada um a
sua maneira, publicaram homenagens, mas na grande
mídia quase nenhuma matéria, nem em jornais, nem nos
principais sites, nem telejornais, porque o agravante
é que em pleno século XXI ela morreu de uma infecção
hospitalar 17 dias depois de dar à luz sua filha Aline
(02/03/2010), em 19 de março de 2010. Não vi nenhum
comentário na grande mídia, assim é o rap no Brasil, dis-
criminado porque incomoda.

O movimento precisa se juntar para discutir ações e


diminuir esses descasos, mas é pouco provável que isso
venha a acontecer. Muitos se preocupam apenas por
questões diretamente ligadas a sua música, sua car-
reira. Por falta de tempo, de dinheiro, de interesse até
de alguns. O Mano Brown, há algum tempo, convocou
centenas de líderes do movimento e de grupos de ponta.
A questão a ser abordada era o conteúdo das letras,
porque muitas vezes os moleques seguem o que ouvem
ao pé da letra e sem prestar atenção na parte em que o
bandido morre, vai preso. Músicas como a dos Racionais
que diz “Hoje eu sou ladrão, artigo 157, as cachorras me
amam, os playboys se derretem...” pode ser mal inter-
pretada. Era isso que o Brown queria passar nessa tal
reunião que não trouxe nenhuma mudança concreta,
mas é esse tipo de encontro que precisaria ser realizado
com maior frequência, para juntos arrumarmos saída
para todas as questões que envolvem o hip-hop. As prin-
cipais são como fazer dinheiro, como viver da nossa arte,
como diminuir o preconceito e estourar na mídia para,
como disse o DJ Cia, chegar a todos os lugares como o
samba. Sabotage já disse e sua mensagem é clara: “Rap
é compromisso, não é viagem”.

Como estamos falando do início de tudo, fomos buscar


uma pessoa que viveu aquele momento na São Bento, o
berço do hip-hop nacional, para nos contar mais detalhes.
O início do movimento 41

No mês de maio de 2010, estivemos na quadra da Impe-


rador do Ipiranga. A missão era entrevistar com exclu-
sividade para este livro um dos principais nomes do rap
nacional. Falo de Rappin Hood, que agora é vice-presidente
da escola da samba Imperador do Ipiranga. Hood me
recebeu muito bem, somos amigos desde que trabalha-
mos juntos no programa Manos e minas da TV Cultura.
A entrevista dele é importante, afinal, Rappin Hood é
um dos manos que estão na cena desde o início na São
Bento. Falamos de muitos assuntos e agora você, leitor,
confere na íntegra.

BUZO: Rappin Hood, o assunto é hip-hop. Se eu te falar só


essa palavra, o que vem na sua mente?
HOOD: Na minha mente vêm breakers dando giro de cos-
tas no chão, grafiteiros grafitando, MCs rimando, DJs
tocando aqueles raps pesados. Pô, hip-hop é tudo isso,
vejo também a questão social, a reivindicação, a mili-
tância. Vejo a molecada se divertindo num baile, manos
e minas tirando uma onda, curtindo um som, isso pra
mim é o hip-hop.
BUZO: Existe pra você, sei que para outros pode existir,
mas pra você existe rap sem protesto?
HOOD: Não. Como diria o Sabotage, rap é compromisso,
eu aprendi assim, né, mano, eu sou um nome da velha
escola do rap brasileiro, mas acho que o rap também
serve para divertir. Eu acho que a nova molecada saca
que o rap nacional não tem que carregar isso nas cos-
tas, mas também não pode perder isso de vista, né, não
pode esquecer, acho que dá pra fazer as duas coisas,
divertir e mandar a mensagem, eu acredito nisso.
BUZO: Você vem daquele tempo da São Bento, como era
fazer o som no cesto de lixo do metrô, fazer daquilo um
instrumento, como era isso?
42 Hip-hop:dentro do movimento

HOOD: Isso aí foi o começo de tudo, foi uma fase boa


porque eu pude conhecer o hip-hop, entender o que é
hip-hop. Comparado aos mestres do hip-hop, era muito
ingênuo, a gente se reunia ali simplesmente para dançar
o break, buscar informações. Naquele tempo não tinha
internet, a informação era difícil, então eu tinha uma
informação, o outro tinha outra e assim a gente apren-
deu o hip-hop. Era muito da hora poder estar numa lata
de lixo, batucando e cantando ao lado de MC Jack, JRW,
Estilo Selvagem, ver Jabaquara Breakers, Back Spin,
duelando ali no break, foi um tempo maravilhoso, foi
uma efervescência cultural. O começo, né, foi muito
bom e é algo que eu sempre procuro manter vivo em
minha mente, não perder de vista, saber de onde eu vim,
de onde o hip-hop veio e me manter firme naquele pro-
pósito. Hoje são novos tempos, mas acredito que aquele
começo maravilhoso é a base de tudo.
BUZO: Você veio com aquela primeira safra, pessoas
estavam descobrindo o hip-hop. Quando deixou de ser
diversão e passou a ser profissão?
HOOD: Na verdade, eu nunca vi o rap como fonte de renda.
Quando eu comecei, era mais um hobby, um lazer que eu
tinha, eu trabalhava de office boy e no fim de semana eu
ia lá me reunir com o povo. Quando tinha algum trampo
no centro, passava na galeria e tal, mas nunca calculei
isso. Na verdade, começo da década de 1990, quando eu
comecei a gravar meu primeiro CD, eu abri o selo Raízes
junto com o KL Jay, aquele momento foi um momento em
que eu pensei nisso. Parei de trabalhar pra viver só de
hip-hop, pra lançar o Raízes Discos, pra lançar o disco
do Posse Mente Zulu e dali pra frente foi só hip-hop,
né, Buzo. Não é fácil, 99% transpiração, 1% de inspira-
ção, viver do hip-hop, do rap, não é fácil, mas tem como
se viver do rap, se você for dedicado, se você batalhar,
acreditar em Deus, em você mesmo, aí pode conseguir,
O início do movimento 43

sim. Tem vários parceiros que vêm do hip-hop como eu.


Hoje, no Brasil, o hip-hop é forte, tem muita coisa acon-
tecendo, não vai ser assim aquela vida de gala, mas dá,
tem como se viver do hip-hop, do rap.
BUZO: E o hip-hop, salva?

HOOD: Salva pô, salva.

BUZO: Em qual sentido?

HOOD: Salvou vários parceiros meus. O exemplo maior


que eu tenho pra falar disso é o Sabotage, né, cara.
Quando eu conheci ele, éramos moleques no Clube do
Rap, e depois disso a gente ficou um tempo sem se ver,
depois a gente se encontrou, ele foi num show meu e
falou: “Pô, tô com umas rimas, queria te mostrar e tal.”
E aí teve aquele célebre capítulo em que eu e o Sandrão
fomos buscar ele na Espraiada, pra começar a cantar
com a gente nos shows, pra começar a fazer o projeto do
que seria o primeiro disco dele.
BUZO: Existiu mesmo aquele caso de o pessoal do meio que
ele trabalhava perguntar pra vocês do que ele ia viver?
HOOD: Teve isso, sim, uma conversa séria com os meni-
nos com quem ele trabalhava, ele era funcionário, né, de
um certo patrão, e aí quando surgiu essa ideia ele falou:
“Firmeza”, eu libero ele, mas o que vocês vão fazer por
ele?, porque se ele voltar aqui pedindo emprego eu não
vou dar, se ele quiser até deixo um dinheiro até ele se
estabelecer. A conversa foi essa: “O que vocês vão fazer
com meu menino, ele vai ficar legal?, ele vai trabalhar?,
ele vai poder sustentar a família dele?”.
BUZO: Aí surgiu o RZO na fita?

HOOD: Nós já estávamos juntos, estávamos eu, o San-


drão e o Paulinho Pedroso, que é aqui da comunidade
(Vila Carioca) e deu uma carona pra gente. A partir dali
e filho DJ Cia e filho
46 Hip-hop:dentro do movimento

ele começou a ir aos shows do Posse Mente e do RZO,


ia comigo, ganhava um qualquer, ia com o RZO, ganhava
um qualquer. Aí o Brown deu uma força pra ele gravar o
disco dele no YD, com o Gonzales, o Ganja, essa é a his-
tória do neguinho, a trajetória do neguinho, depois disso
todo mundo sabe o que aconteceu.
BUZO: A previsão quando ele (Sabotage) nos deixou era
que fosse estourar não só no rap, mas no cinema. Como
você acha que estaria o rap com ele aqui, um alicerce
para estar em outro patamar?
HOOD: Com certeza, o Sabotage era uma pessoa forte
que estava se destacando, levando o hip-hop pra outras
frentes, por exemplo, eu... hoje em dia já fiz dois filmes
atuando, com fala, que foram Carandiru e Nina, mas
tudo começou com o Sabotage em Carandiru, eu lembro
como se fosse hoje, eu falei pra ele: “Eu não sou ator.”
Ele disse: “Neguinho de periferia não sabe imitar um
ladrão, você é ator, porra.” (risos). Ele tinha uma visão
legal de expansão, de progresso, né, ele ia estar gigante,
monstro, fazendo uns trabalhos legais, levando o hip-hop
pra outras fontes, pra outras margens.
BUZO: Ia te perguntar de três ícones do hip-hop, um deles
era o Sabotage, que você já falou, queria saber de outras
duas pessoas, primeiro... Nelson Triunfo?
HOOD: Pô, o Nelsão, sem palavras, pô, irmão, eu assisti
ao Nelsão no Bozo, cara, eu era garoto, programa do
Bozo, Nelsão e Funk e Cia. dançando, e tive a oportu-
nidade de conhecê-lo nos bailes da Chic Show, Zimba-
bwe, admiro a humildade dele, ele passou por todas as
gerações e continua aí firme e forte até hoje, fazendo
suas palestras, suas oficinas, seus shows, eu tenho
uma admiração muito grande pelo Nelsão, pelo que ele
representa pro nosso movimento, se fosse lá fora ele
seria um James Brown.
O início do movimento 47

BUZO: Falta valorização no Brasil?

HOOD: Acho que ele merece muito mais, ele é com cer-
teza o grande ícone do hip-hop nacional, o Nelsão vem
da fase do James Brown, ele conhece a história do movi-
mento do país, é o Papa Down do hip-hop brasileiro,
gosto muito da pessoa dele, a família dele é sensacio-
nal, sou fã dele.
BUZO:Última pessoa de três personalidades, Sabotage,
Nelsão e por fim... Dexter. Como pode um cara exilado vir
de vez em sempre inovando?
HOOD: O Dexter é muito inteligente, né, a gente é da
mesma safra de rap, abrimos muito show dos Racionais,
Thaíde, Sampa Crew... Lembra, Dexter? Bons tempos...
E é um cara verdadeiro, o que ele pensa, ele fala. Amante
do hip-hop, espero que em breve ele possa estar em
liberdade total, pra trabalhar aí pelo país inteiro, ajudar
a gente aí nessa missão do hip-hop, fazer shows, pales-
tras, acho que o relato dele é muito bonito, importante
pra molecada saber, conhecer. Eu vejo ele hoje como
um homem recuperado, regenerado e mais uma pilastra
forte do hip-hop brasileiro, eu sou fã dele como músico,
tenho a satisfação de ser amigo dele, né, a gente está se
falando, quando pode, quando dá.
Realmente, uma das maiores emoções da minha vida
foi poder, quando eu estava na TV Cultura, ter ido entre-
vistá-lo dentro do complexo carcerário, viver aquele
momento de emoção e de carinho entre um amigo e
outro, foi realmente emocionante, fazia um tempo que
a gente não se via, espero que ele possa ainda crescer
muito mais, fazer mais e melhores raps pra gente curtir.
BUZO: Desta nova safra, manos que estão surgindo agora,
com talento, inovação, quem você acompanha e curte?
48 Hip-hop:dentro do movimento

HOOD: Sou suspeito, tem alguns, dois que são meus


parceiros, eu gosto muito deles, outro não é próximo
de mim, mas tô vendo o trabalho dele, gosto muito do
Lui MR, que é um menino que eu tô gravando o disco
dele, sou um fã do trabalho dele, ainda tem muito pra
render, pra mostrar pro rap nacional. Bom também é
meu parceiro de Posse Mente, o Johnny MC, que não é
mais um garoto, mas é o primeiro disco dele, o debute
dele, então acho que ele também vai surpreender, é um
disco legal, a gente gravou, está pra sair.
Tem os meninos lá do Sul, que ganharam o Melhor Demo
no Hutúz, que é o Rafuagi, gosto muito do trabalho
deles, acho que têm muito pra mostrar.
Tem o Mandamentos, grupo que só lançou uma música
na coletânea Rima forte, mas que eu tenho expectativa
ainda de fazer um trabalho com eles, lançar um disco
deles, uma banda que admiro muito também.
Tem o Mizuri Sana, que é a banda do meu irmão (ParteUm),
não porque é meu irmão, não, mas eu gosto, é diferente,
gosto das produções deles, tem outro menino que tenho
visto se destacando bastante, que é o Emicida, né, cara,
e que gosto também do trabalho dele, ele vem crescendo,
participando de programas de ponta no país, essa nova
geração do Freestyle, então eu acho que vem uma nova
geração do rap brasileiro, que tem muita coisa pra acon-
tecer, no Brasil inteiro tem uma molecada escrevendo e
fazendo, no Rio de Janeiro, por exemplo, conheci o Papo
Reto, um moleque que eu gostei de ver o trabalho dele,
gosto muito da rima dele, tem uma molecada chegando
pra fortalecer, por exemplo o Rapadura, acho fenome-
nal também, e tem alguns antigos, que não são tão novos
assim e têm trabalhos maravilhosos, como por exemplo o
Criolo Doido, sou fã do trabalho dele, acho que ele ainda
vai render muito pro rap nacional, acho que nós estamos
bem servidos, está chegando uma safra boa.
O início do movimento 49

BUZO: Hood, existem grandes nomes do rap nacional,


da sua época, que parecem que não acompanharam a
evolução dos tempos, hoje é tudo muito rápido, Nextel,
internet... alguns grupos de ponta, não precisamos citar
nomes, mas concorda que isso acontece e eles estão
fora da cena hoje em dia?
HOOD: Com certeza isso acontece às vezes, até às vezes
por saudosismo, mas o novo sempre vem, hoje nós esta-
mos em tempos novos, uma fase nova, diferente, a gente
tem que se adaptar, a nossa geração precisa procurar
acompanhar, tem pessoas que são saudosistas, mas o
tempo não vai voltar, gente, temos que seguir firmes,
procurar acompanhar e estar junto, dando um alicerce,
mostrando o que é o hip-hop, aonde a gente quer chegar,
almeja chegar, sou a favor da renovação. Os novos não
podem esquecer das raízes, de onde viemos, mas é legal
e saudável vir o novo também.
BUZO: As festas de rap estão voltando de certa forma, o
Clube do Rap voltou, esses dias você estava na Hole com
vários outros rimadores. Acha que essas festas demora-
ram a voltar, que são importantes?
HOOD: Muito importantes, se eu pudesse eu pediria
encarecidamente pra que todas as equipes de baile,
Chic Show, Black Mad, Zimbabwe, Kaskatas, Circuit
Power, Rot Gang, Black News voltassem, rapa!!!! Voltem
que precisamos de vocês, era muito bom aquele tempo,
era muito show, muito baile, eu sinto falta, sim.
BUZO: Você foi um dos pioneiros do rap a misturar outros
estilos musicais, Zélia Duncan, Leci Brandão, Caetano
Veloso. Isso aconteceu naturalmente, por acaso, como foi?
HOOD:Na verdade, era algo que eu tinha em mente, eu
sempre quis fazer um rap com RG brasileiro, um rap com
características brasileiras, da cultura brasileira. No
meu primeiro solo eu caí pra cima dessa mistura.
50 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Você conhecia todos ou conheceu fazendo o convite?

HOOD: Foi bem ao natural mesmo, encontrei com um que


me disse: “A gente podia fazer uma música junto.” E eu:
“Você está falando sério?”.
BUZO: De repente ele tinha interesse, mas nunca tinha
sido convidado.
HOOD: Foi uma troca muito honesta e tudo começou com
a Leci Brandão. Parece que depois que eles viram a
Leci, fortaleceu mais ainda esse elo, com o samba, com
outros ritmos, com a música popular brasileira, e é algo
que eu sempre quis fazer, juntou a fome com a vontade
de comer, encontrei o Caetano, ele me convidou pra par-
ticipar do show dele nos 450 anos de São Paulo, aí ele
chegou pra mim no ensaio: “Meu, gosto pra caramba de
‘Tudo no meu nome’, ‘Sou negão’, ‘Suburbano’... queria
que você cantasse essas músicas no show, mas que-
ria um numero especial, eu e você, uma coisa diferente
e tal.” Aí eu falei: “Tem uma música sua que eu gosto
demais que é ‘Odara’. Não dá pra gente fazer um negócio
com ela? Você canta e eu venho rimando, improvisando e
tal.” Foi tudo muito natural, depois que a gente fez esse
show ele falou: “Mano, vamos gravar isso?.” “No meu
disco ou no seu? “Ele falou: “Tanto faz.” E aí já veio essa
parceria com o Caetano, nesse mesmo dia estava o Gil-
berto Gil e me disse: “A gente precisa fazer alguma coisa
junto qualquer hora.” “Pode crê, estou gravando meu
CD.” Ele falou: “Eu participo.” Foi tudo muito natural, o
Fundo de Quintal, por exemplo, eu fui fazer uma matéria
pra MTV, primeira vez que eles iam fazer a MTV. A emis-
sora queria alguém jovem pra conduzir essa entrevista,
apresentando o Fundo de Quintal pro público da emis-
sora, e aí acabou virando um samba a matéria, e depois
virou mais uma música, nunca planejei, se tivesse pla-
nejado, talvez não tivesse conseguido executar.
O início do movimento 51

BUZO: Existe uma frase que é assim: “Não sabendo que


era impossível, foi lá e fez.”
HOOD: É mais ou menos isso, eu só posso agradecer a esses
ícones da música brasileira pela oportunidade de estar
ao lado deles e de provar também que o rap é música, que
ainda hoje tem gente que acha que rap não é música, é
legal estar com eles e ajudar a consolidar o rap nacional.
BUZO: Imperador do Ipiranga: como é essa nova emprei-
tada, você que pega ela no grupo de acesso, pro carnaval
2011 levar ela pro especial e se firmar?
HOOD: É fazer um trabalho de que a comunidade possa se
orgulhar, sou um filho da comunidade, tanto eu quanto
o Buiú (presidente), amigo de infância, estamos nessa
dupla agora, cuidando da casa, pra mim é uma res-
ponsabilidade, mas também é muito prazeroso, desde
garoto desfilo aqui, sou Corinthians, mas sou Impera-
dor. Pra mim é satisfação e desafio, peguei a escola num
momento delicado, desceu do grupo especial pro de
acesso, está com contas pra acertar, então nossa busca
é endireitar a casa e voltar para o nosso lugar, voltar
pro especial, quero atuar forte também no lado social
da escola, eu acho que posso colaborar muito nisso e
pôr o carnaval na rua, convocar as comunidades do Ipi-
ranga, de Heliópolis, São João Clímaco, Vila Arapuá, Vila
Carioca, região toda aqui, colocar a maior autoestima
possível na avenida, essa é a nossa luta, quero convocar
todos os parceiros e parceiras, manos e minas, guerrei-
ros e guerreiras do hip-hop.
BUZO: Pra finalizar, este livro sai antes do carnaval 2011:
podemos esperar uma ala com personalidades da
periferia?
HOOD: Claro, Buzo, pode contar, e quero você junto nesse
projeto, tudo nosso!!!
52 Hip-hop:dentro do movimento

Depois de falarmos com o Rappin Hood, seguimos com


personalidades que estão há muitos anos envolvidas
nesse movimento contagiante chamado hip-hop, e um dos
grupos que são referência vem da Zona Leste de São Paulo
e atende pelo nome de DMN. Falamos com Markão II, que é
um dos rappers, ou MCs, mais politizados do país.

Abrimos a entrevista falando do um dos maiores clássi-


cos do rap nacional, a música H.Aço do DMN. Vamos lá.

BUZO: H.Aço. Como é ter um dos maiores clássicos do rap


nacional?
MARKÃO II:Desde a primeira vez que o LF me mostrou e
rimou a letra, entendi a proposta e percebi o potencial.
E com a base do Edi Rock, o casamento foi perfeito.
Realizamos um sonho e alcançamos um objetivo. Sonho
porque todos nós, que fazemos um som, esperamos lan-
çar algo que atinja o maior número de pessoas possível.
Na época, eu tinha como exemplo Thaíde e DJ Hum, com
Corpo fechado. A música já tinha “mil anos” e todos conti-
nuavam cantando. E, quando percebemos que consegui-
mos eternizar H.Aço no gosto, no coração, na história de
vida das pessoas, foi sensacional. Ficamos (DMN) sem-
pre comentando: “Caramba, mais de dez anos depois e
em todo lugar que tocamos a rapa canta H.Aço com orgu-
lho, sentimento”. É incrível, recompensador.
Participamos de vários episódios que firmam o nome
DMN na história do hip-hop no Brasil, mas essa música
para nós (ainda mais depois de ter sido premiada como
“Música do Século” pelo prêmio Hutúz) é a coroa, o des-
fecho com chave de ouro, a sinalização de que o cami-
nho que seguimos é o correto.
Essa música também nos proporcionou alcançar o obje-
tivo de divulgar aos quatro cantos do Brasil os proble-
mas ainda sofridos pela juventude preta e pobre das
O início do movimento 53

periferias. O sucesso desse som a todo instante con-


tinuará fazendo jovens (homens e mulheres) refleti-
rem sobre o que nos prejudica por conta do racismo,
machismo, violência policial etc.
BUZO: O que você destaca no hip-hop nacional nos
anos 1980?
MARKÃO II: Black Junior, Pepeu, Ndee Rap (Naldinho), Thaíde
e DJ Hum, MC Jack e DJ Ninja, Código 13, Os Metralhas,
Dee Mau, Sampa Crew, DJ Raffa e os Magrelos e os produ-
tores Cuca e Dinamic Duo.
BUZO: Anos 1990?

MARKÃO II:Vixe!!! Tem vários, mas vou citar alguns: GOG,


Ndee Naldinho, Baseado nas Ruas, Câmbio Negro,
Sampa Crew, Geração Rap, Rap Sensation, Consciên-
cia Humana, Posse Mente Zulu, Sistema Negro, Visão
de Rua, Doctors MCs, Facção Central, SNJ, Potencial 3,
Filosofia de Rua, RPW, De Menos Crime, Face Negra, MT
Bronks, Sharylaine, F.N.R. (meu antigo grupo), GangMas-
ter 90, Pavilhão 9, M.R.N., Detentos do Rap, Frank Frank,
Ice Rock, Comando DMC, Duck Jam e a Nação Hip-Hop.
BUZO: Como vê o rap na última década, depois da virada
do milênio?
MARKÃO II: Perdido. Muitos esforços foram despendidos,
mas sem planejamento veio o fracasso, o zero como
resultado. Continuamos sendo campeões de mobiliza-
ção, de admiração, mas sem poder de organização. Isso
fez muita gente perder as forças e abandonar projetos
que poderiam ser promissores, revolucionários.
Acabou a época de fazer na raça, sem calcular as ações
e objetivos. Estamos no momento do estudo, da estra-
tégia, do aprender a negociar. Somente por amor não
iremos alcançar mais do que já alcançamos.
Buzo: O que espera do futuro do movimento hip-hop?
54 Hip-hop:dentro do movimento

MARKÃO II:Acredito que o movimento vai continuar forte


como sempre. Muita gente fazendo trabalhos sociais,
discutindo sobre racismo, machismo, sexismo, distribui-
ção de renda, violência policial e melhorias para a perife-
ria. Espero que outras organizações nasçam e cresçam
fortes, espalhadas pelo Brasil e, principalmente, com
o olhar voltado para as crianças e os jovens. Não tenho
problema com o lado ideológico do movimento e daque-
les que fazem política através da ótica do hip-hop.
Agora, artisticamente, temos muito a aprender. Espero
que nós, que fazemos rap, possamos ter uma postura
diferente da caricatura de pessoas politicamente corre-
tas, sérias e que fazem tudo pelo movimento. Devemos,
acima de tudo, ser verdadeiros com nós mesmos. Há
tempos deixei de acreditar num hip-hop em que todos
pensam e agem da mesma maneira, em que todos têm
o mesmo objetivo e em que ter compromisso e repre-
sentar a periferia é primordial. Reconheço as diferen-
ças e sei que nem todos que estão no hip-hop têm per-
fil para ser porta-voz, estar na política, ou têm vocação
para estudar as contradições que dela brotam a todo
momento. Assim como eu, por mais que tente, nunca
serei um bom improvisador como o Emicida. Enfim,
cada um tem que encontrar e desenvolver seu próprio
caminho, e não reproduzir modelos já consagrados.
Mas, independente desta mudança que levará tempo,
alguns nomes como em qualquer outro gênero musical
irão se destacar neste processo. O bom seria se isso
acontecesse em bloco, mas, como não irá acontecer tão
cedo, ficaremos vigilantes e apoiando todos aqueles
que superarão as adversidades e continuarão a repre-
sentar nossa Cultura de Rua.
O início do movimento 55

A entrevista com Markão II do DMN é uma aula de rap


nacional, os nomes citados por ele são pessoas que fize-
ram parte do alicerce do movimento.

Para seguir falando do surgimento do hip-hop no Brasil,


uma pessoa não poderia ficar de fora, citado por muitos
que foram entrevistados nesta obra, ele é um dos pionei-
ros. Seu nome? Thaíde.

No início de junho de 2010, Thaíde nos recebeu num hotel


no Centro de São Paulo e o assunto era: hip-hop.

Vamos conferir o que ele nos disse agora mesmo. Com


vocês, Thaíde, afinal, “Vamos que vamos, que o som
não pode parar.”

BUZO:Se eu te falasse uma única palavra e ela fosse:


hip-hop?
THAÍDE: Vida. Acima de tudo, vida. Vi muita gente melho-
rar na vida, então o hip-hop nos inspira a própria vida.
BUZO: Você participou daquele início na São Bento, onde
vocês se reuniam para ouvir um som, fazer um som, tro-
car informação. Como você chegou até ali?
THAÍDE: É o seguinte, quem achou a São Bento foi o Luizi-
nho. Tem o Luizinho e o João Break, então eles chamaram
dizendo que tinha um espaço legal para dançar um break
e tal, foi quando surgiu a história da São Bento, a notí-
cia da São Bento começou a circular nas ruas, aí a gente
foi conhecer a São Bento e eu fiquei, não fui o primeiro a
chegar na São Bento, pessoas chegaram antes da minha
pessoa lá, mas eu cheguei bem no início, é como se você
tivesse chegado lá na semana passada e eu cheguei uma
semana depois. Era um bagulho muito louco.
BUZO: Você era b.boy ou isso é lenda?

Eu fui um dos maiores b.boys aqui de São Paulo,


THAÍDE:
com certeza o “Moinho de Vento” mais alto da São Bento.
56 Hip-hop:dentro do movimento

E quando foi que o Thaíde b.boy virou o Thaíde MC,


BUZO:
como foi a passagem?
THAÍDE: Foi uma coisa natural, porque a música e a
dança, uma não pode viver sem a outra, então eu dan-
çava muitas vezes instrumentais, já admirava o pessoal
que rimava em cima do instrumental, tive muita influên-
cia da música brasileira, principalmente do samba, aí
comecei a escrever as letras falando sobre brinca-
deira, diversão, aí passei a escrever sobre coisas mais
importantes. Eu tive uma pessoa que me ensinou mui-
tas coisas que é o Marcos Teleforo, que infelizmente já
faleceu, ele escreveu as principais músicas do início
do Thaíde e DJ Hum, composições dele, ele escrevia,
eu lapidava e colocava minha parte... Corpo fechado, A
noite, Algo vai mudar, Homens da lei... Ele foi um grande
letrista do hip-hop brasileiro.
BUZO: Aí você começou a rimar, mas como, onde e por que
surgiu a dupla Thaíde e DJ Hum?
THAÍDE: Ele tocava na Archote, uma casa noturna lá de
Moema que agora é o McDonald’s, se não me engano.
Ele tocava lá e eu não gostava muito de dançar em salão,
mas o pessoal me convenceu e eu fui, ele tocava as
músicas que eu gostava de ouvir, a gente fez uma ami-
zade naquela época, passaram dois anos, o lugar onde
ele tocava fechou e a gente se reencontrou numa festa
que aconteceu no Espaço Mambembe, organizado pelo
Nasi do Grupo Ira e também Escova... e me convidaram
pra fazer um som, inclusive a rapaziada do Fabrica Far-
gos, que era uma banda que fazia um som interessante
na época, eles que foram até a São Bento e tal e fizeram
contato. Nisso o Nasi começou a colar algumas vezes
na São Bento, uma ou duas vezes, mas ele foi. E desse
jeito a gente começou, então. Fui fazer um som com
meu antigo parceiro de rima que era o Anderson, que
O início do movimento 57

morava lá no Guarapiranga, nesse dia o DJ Hum apare-


ceu e fazia uns dois anos que a gente não se via, ele era
o DJ Humberto na época e nessa noite foi a primeira vez
que fiz um som meu no palco e tal, e a rapaziada gostou
bastante, fiquei surpreso, existe essa gravação inclu-
sive, o Nasi tem essa gravação. E aí teve outra coisa, a
empolgação do momento me levou a conversar com o
DJ Humberto, perguntei se ele não queria formar uma
dupla para trabalhar profissionalmente o rap, onde vem
a famosa frase que ele me disse: “Mas eu não sei fazer
scratch.” E eu respondi: “Mas eu também não sei rimar,
a gente vai aprender junto.”
BUZO: Que ano era isso?

THAÍDE: 1987.

BUZO: Em que ano veio o primeiro álbum do Thaíde e DJ Hum?

THAÍDE: Um ano depois, 1988.

BUZO: E quantos álbuns foram juntos?

THAÍDE: Foram nove álbuns, não vou saber dizer com pre-
cisão, foram oito ou nove álbuns.
BUZO: Eu viajo pelo Brasil inteiro e sempre que vou falar
com um cara que curte rap há muito tempo ele cita
Racionais MC’s e Thaíde e DJ Hum. Como você se sente,
como vê esse reconhecimento? Pode ser no Acre, Goiás,
enfim... como você recebe isso? Esse carinho, as pes-
soas te reconhecerem como um pioneiro.
THAÍDE:Eu fico agradecido, eu tenho muita gratidão a
essas pessoas, porque tudo o que eu tenho hoje eu devo
às pessoas que ouviram meu trabalho e confiaram no que
eu estava dizendo, tá entendendo? Não tem como eu ser
uma pessoa sem a palavra “obrigado”, não existe Thaíde
ou Altair Gonçalves. Porque essas pessoas que me
Thaíde e DJ Hum – Marcelinho Back Spin
Thaíde e DJ Hum – Marcelinho Back Spin
60 Hip-hop:dentro do movimento

fizeram chegar até aqui, conquistar tudo o que eu con-


quistei, foi porque essas pessoas me deram condições
pra eu criar minha família. Então o público para o artista
é tudo, porque ele acaba não sendo apenas um fã, depois
que você conhece ele vira amigo, apoio espiritual.
BUZO: Thaíde, o tempo passou, vários álbuns depois,
vários shows depois, a dupla Thaíde e DJ Hum chegou ao
final. Qual a sua relação hoje com o DJ Hum?
THAÍDE: Olha, hoje a gente se fala muito por telefone, a
gente se vê pouco e a gente fala mais sobre negócios,
não existe uma conversa tipo vamos fazer um churrasco
ou vamos passear, relembrar os tempos, não existe
isso, pode ser por vários outros motivos, mas principal-
mente pela falta de tempo, quando a gente se fala é só
sobre trabalho... Infelizmente, é claro.
BUZO: E aí, com o fim da dupla, você veio com o traba-
lho solo e o disco Thaíde apenas, como foi esse trabalho
solo? Outros solos virão?
THAÍDE: Eu pretendo ainda fazer muita coisa com a
música, eu não posso parar só porque hoje eu estou tra-
balhando na televisão, agradeço a oportunidade de tra-
balhar na TV, quero trabalhar muito ainda na TV.
BUZO: Mas antes de tudo você é músico?

THAÍDE: Eu não posso esquecer isso, não posso simples-


mente deixar de lado a música, o hip-hop, então este
ano eu quero fazer muita coisa relacionada à música.
BUZO: Talvez um DVD?

THAÍDE: Sim, um DVD, ou dois, ou três, porque a gente tem


bastante história e projeto pra isso, mas independente
de qualquer outra coisa, a minha maior preocupação
é procurar um jeito de buscar forças, pra que pessoas
O início do movimento 61

possam se juntar à gente, pra fortalecermos de novo o


cenário do rap aqui de São Paulo. Isso é a minha meta,
eu quero fazer músicas, shows, ganhar dinheiro, mas
eu quero melhorar esse mercado para todos, porque se
existir só eu e mais um ou dois, a gente realmente não vai
sair do lugar, precisamos de muita gente trabalhando.
BUZO: Você não acha que a gente está superando essa
época em que ganhar dinheiro no rap é se vender? Você
acha que essa fase já ficou pra trás ou ainda tem pes-
soas que pensam coisas pequenas desse tipo?
THAÍDE: Acho que cada pessoa é a dona da sua verdade.
Eu respeito muito a opinião das outras pessoas, só que
essa época já foi, está mais que comprovado que você
pode fazer um trabalho digno, um trabalho sério e ven-
der o seu trabalho. Alessandro Buzo, você, um cara que
vem lá da leste, do fundão da leste, eu fui várias vezes
no seu evento, certo? Imagina se você não vivesse do
seu trabalho, você tem esposa, você tem família, você
é uma pessoa importante, então você não pode apenas
fazer as coisas e querer que as pessoas recebam seu
trabalho de graça, você tem uma vida e pra você con-
tinuar seu trabalho precisa de condições, estrutura, o
seu trabalho vai te dar isso, porque as pessoas estão
pagando pelas suas ideias, por aquilo que elas acredi-
tam, então não é crime, e nunca vai ser, ganhar dinheiro
com isso. O errado, na minha opinião, é você passar tan-
tas coisas boas pras pessoas e no fim das contas você
mesmo não conseguir os seus objetivos, isso eu acho
chato, acho um erro.
BUZO: Aí seria uma derrota?

THAÍDE: Eu acho que seria uma derrota, porque você falou


para todo mundo se dar bem na vida e, no final das con-
tas, você mesmo não se deu valor, não andou pra frente,
62 Hip-hop:dentro do movimento

temos que ganhar dinheiro sim, porque quanto mais


dinheiro a gente tiver, mais estrutura a gente vai ter e
o mercado vai ser nosso, porque sem grana a gente não
faz nada e ninguém faz nada.
BUZO: Quando você lançou o disco Thaíde apenas, devem
ter chegado aos seus ouvidos algumas críticas dos mais
radicais, não só artistas, mas parte do público. Eles
acharam seu som muito dançante, muito isso, muito
aquilo. Era muito balada. Eu particularmente acho que
na última faixa, a 17, que não lembro o nome agora....
THAÍDE: Deus tá contigo.

BUZO: Isso... Ali você diz tudo. Ali você mostra tudo o que
passou até chegar esse álbum. Como você encara essas
críticas? Você supera sem traumas ou fica chateado?
THAÍDE: Eu já fiquei muito chateado, já fui moleque já, já
fui criança, então eu me chateava muito com isso, hoje
não, sou um cara maduro, sei o que eu quero da vida, e
as pessoas têm que ter a noção de que eu sou uma pes-
soa que veio pra começar alguma coisa. Então fui o pri-
meiro em muitas outras coisas, estilos musicais, estilo
de letras, shows bem produzidos, equipe bem estrutu-
rada, então graças a Deus eu fui o primeiro em muitas
coisas, minha missão é essa, mostrar quais caminhos
a gente pode tomar. Então se hoje eu tenho a possibili-
dade de fazer um disco dançante, é porque minha missão
é essa, mostrar pros rappers, MCs que podemos fazer
isso sem perder nossas raízes, quantas vezes me critica-
ram por eu fazer música com refrão cantado e hoje todo
mundo faz música com refrão cantado... Eu fui o primeiro
a colocar uma mulher pra fazer refrão da música na noite
e depois todos colocaram também, eu já fazia shows com
b.boys no palco há muito tempo e hoje todo mundo faz
isso. Então, se essa é minha missão, não tem problema
O início do movimento 63

nenhum, só não posso ficar parado, hoje eu estou na TV,


se amanhã aparecer a oportunidade de fazer um outro
trabalho diferente eu vou, porque eu não tenho limites.
BUZO: Eu conheço o Thaíde que já foi no Favela Toma Conta
só pelo transporte, que já foi na Fundação Casa de graça,
é isso mesmo, Thaíde, pegar onde tem que pegar e quando
dá, fazer o lado social, no Guacuri, no Itaim Paulista?
THAÍDE: Eu sempre dei muita importância à minha pró-
pria história, e a minha história é igual à de milhares
de pessoas no país inteiro, entendeu? Se eu tenho pos-
sibilidade de trabalhar, de viajar pra Santa Catarina,
Porto Alegre, Bahia, Rio de Janeiro, não importa onde,
ganhando um cachê digno do meu trabalho, onde a gente
tem um contrato, com infraestrutura pra garantir o meu
dia a dia, por que eu vou recusar fazer um show de graça
numa comunidade, ou pelo transporte apenas, ou coisa
parecida? É uma retribuição, de uma certa forma. Você
está entendendo, tem pessoas que não podem pagar
meu cachê, que não é barato, graças a Deus, só que eu
vou naquela comunidade que sei que não tem realmente
condições e o trabalho é sério.
BUZO: Thaíde, falando em ser pioneiro, dentro do hip-hop
ninguém teve tantas participações na TV quanto você,
em programas diferentes, vamos falar deles por ordem
de tempo... O que você lembra, qual sua recordação do
YO! MTV Raps?
THAÍDE: Aquele programa da MTV eu gostei de fazer por-
que foi meu primeiro contato direto com a câmera e
aquilo me ensinou a me posicionar diante dela, aquilo
me ensinou alguns truques de câmera. Tem toda uma
equipe, então na MTV aprendi a lidar com isso.
BUZO: Foi seu primeiro trabalho na TV?
64 Hip-hop:dentro do movimento

THAÍDE: Com certeza, e depois veio TV e cinema.

BUZO: A dobradinha do Antônia, cinema e TV.

THAÍDE: Isso, aí depois disso tive a possibilidade de tra-


balhar no programa Manos e minas.
BUZO:Mas vamos por partes, vamos falar do Antônia.
Como é estar num canal de maior audiência do país, com
uma série que durou dois anos, como é isso nas ruas,
como as pessoas te viam, você já era um cara público,
mas ficou mais em evidência pra quem não era do rap?
THAÍDE: As pessoas começaram a me chamar de Dia-
mante (nome do personagem), entendeu... Algumas
coisas muito engraçadas... eu estava no mercado e a
menina disse pra mãe: “Olha mãe, aquele homem lá da
Antônia”, e ela disse: “Aquele sem vergonha, safado,
que só quer enrolar as meninas.” Isso mostrou o quanto
eu estava mais popular, então eu não posso ter medo
disso. E também, como posso dizer, não posso recusar
esse tipo de trabalho, porque eu penso o seguinte: exis-
tem várias pessoas, homens e mulheres do país inteiro
que vão me ver na TV e vão acreditar mais, se virem a
gente na TV, no teatro, então nós somos exemplo, preci-
samos dar um bom exemplo.
BUZO: Uma temporada apresentando o Manos e minas, no
qual você era o apresentador, âncora, uma hora no ar...
Como foi pra você fazer esse programa?
THAÍDE: Vou te falar uma coisa, achava ele muito a minha
cara. Quando apareceu a oportunidade de apresentar
ele, pra mim foi uma maravilha, porque era divertido,
equipe maravilhosa, sinto muita falta de trabalhar no
programa Manos e minas, muita falta de verdade, sem
falar que eu estava ali apresentando um programa que
visava divulgar pessoas que fazem o mesmo trabalho
O início do movimento 65

que eu faço, entende, então eu estava de uma certa


maneira contribuindo. Quando eu saio nas ruas, as
pessoas falam pra mim do Manos e minas. As pessoas
assistem, isso me dá uma noção de público, de emis-
sora, então graças a Deus eu tenho esse privilégio de
poder trabalhar em tantas emissoras grandes do país,
poder passar isso pras pessoas, não perdendo as raí-
zes, poder sair nas ruas, continuar sendo a mesma pes-
soa, acho que quando eu perder a minha liberdade de
sair nas ruas, não vai valer mais a pena.
BUZO: Acho que muito de não perder as raízes e poder
andar nas ruas é porque você é espontâneo, o cara te
aborda, você é receptivo e aí já era...
THAÍDE: Hoje posso te confessar que está mais difícil
andar nas ruas, mas eu não posso perder essa liberdade.
BUZO: A liga, você estreou agora em 2010 esse programa
da Band, no qual você é um dos apresentadores, com
enorme sucesso, a gente tem acompanhado, e é um pro-
grama totalmente diferente, porque não é de hip-hop,
agora você está nesse programa que entra como jorna-
lístico. Como é isso? Eu penso que você, sendo do nosso
meio, fazendo um trabalho fora, abre novas portas. É de
novo o Thaíde sendo pioneiro?
THAÍDE: Tomara que sim, quando me chamaram pra fazer
A liga, o que mais me chamou a atenção foi isso, não ter
nenhum vínculo com o hip-hop, eu sempre quis fazer um
trabalho diferente, que não fosse no hip-hop, porque eu
ficava pensando: será que eu só sei fazer coisas ligadas
ao hip-hop? Será que a minha capacidade se limita a
isso? Quando veio A liga foi como se tivessem escutado
minha reclamação e me dado essa oportunidade, eu não
sou repórter, estou sendo repórter, tá entendendo...
Estou conhecendo mais as coisas, a vida, as pessoas.
66 Hip-hop:dentro do movimento

Estou me tornando a cada dia mais profissional, isso


eu vou levar pros palcos, pras minhas letras, e estou
conhecendo o país mais do que eu já conhecia.
BUZO: A liga é um programa nacional. Como estão sendo
os temas abordados? Eu vi, na cadeia, que você se sentiu
um pouco incomodado de estar se sentindo preso, por-
que você ama a sua liberdade, mas como está encarando
esses temas, depois abordou o lixo, o programa de hoje
(era terça, dia de exibição do programa na Band) aborda
“da favela à fama”, como está isso?
THAÍDE: Então, eles sempre arrumam matérias que têm a
ver comigo, sabe como que é, eu acabo me dando bem,
os diretores chegam pra mim e dizem: “Tal dia vai ter
gravação e o tema é tal.” Você está entendendo? Vai vir
um que o tema é casamento e optei por fazer o indígena.
Eu comecei a poder escolher, mas até agora eles esco-
lhiam e me dei muito bem, graças a Deus. É como se
fosse a sequência do meu trabalho, sempre fiz música
desde a época de ouro do rap, como as pessoas falam,
hoje faço um trabalho na TV, que a gente atacou tanto,
que mostra a realidade de pessoas que são invisíveis na
sociedade, então graças a Deus continuo nessa batalha.
BUZO: Pra encerrar, eu falo o tema e você diz o que tem
pro futuro... música?
THAÍDE: Novidades, obviamente. Tem o projeto com Os
Donos da Cidade, e como você disse, talvez um DVD.
BUZO: TV, o que espera de A liga, mais sucesso?

THAÍDE: A gente espera que continue bem de audiência e


tenha uma segunda temporada. Eu quero futuramente
voltar a apresentar um programa musical na TV.
BUZO: Cinema, além do Antônia você fez algumas pon-
tas, quais foram e as perspectivas pro futuro? Tem tra-
balhos em vista?
O início do movimento 67

THAÍDE:Tem um filme que estreia no final do ano, ou em


2011, que se chama Dois coelhos, eu faço um bandido,
um carinha ali que está precisando de dinheiro. Fiz uma
ponta no filme Caixa dois, além do Antônia.
BUZO: Quem é você no dia a dia, não o artista, mas em
família, entre amigos?
THAÍDE: Eu sou um guerreiro 24 horas por dia. Então,
com a minha família, minha mulher, meus amigos, eu
sou um guerreiro sem armadura, mas na rua não tem
jeito, tem que ser guerreiro com armadura, 24 por 48,
tá me entendendo?
BUZO: Vou perguntar de duas pessoas, você me diz o que
pensa delas. Primeiro... Nelson Triunfo?
THAÍDE: O Nelson Triunfo é o meu grande ídolo, foi a pri-
meira pessoa que dentro da cultura hip-hop, famosa, me
mostrou respeito pelo ser humano, encontrei com ele,
me lembro muito bem como se fosse hoje, estava indo
pro Clube da Cidade e eu não sabia ir, encontrei ele no
metrô Santa Cecília e eu era fã dele, ele me disse: “Pô,
gostei do seu estilo”, queria me colocar nos esquemas.
Ele também estava indo pro Clube da Cidade e fomos
juntos, chegando lá ele liberou minha entrada, aí fomos
e ele passou direto, e o segurança me barrou, deu geral
em mim e nele não, eu falei: “Quero um dia ser que nem
ele”. Ele nem me conhecia e me tratou com muito res-
peito, então a partir daquele dia eu tive a certeza de que o
caminho era respeitar as pessoas, em todos os sentidos.
BUZO: King Nino Brown?

THAÍDE: Aí você tá fácil, Nino Brown é um irmão, par-


ceiro... Conheci ele em São Bernardo quando eu morava
lá no Riacho Grande, é uma pessoa que sempre me infor-
mou sobre as coisas, me deu ideias, uma pessoa muito
68 Hip-hop:dentro do movimento

importante, uma pessoa que eu respeito muito, acho que


o Bambaataa não tinha pessoa melhor no Brasil pra ser
presidente da Zulu Nation Brasil do que King Nino Brown.
BUZO: Thaíde, ainda em 2010 as pessoas vão ler esta sua
entrevista neste livro. O que você tem a dizer nesta obra,
pra molecada que te curte, pros mais velhinhos também?
THAÍDE: A gente sempre tem que bater na tecla da educa-
ção, da informação, leiam tudo o que vocês puderem ler,
respeitem seus pais, os amigos, as boas amizades, por-
que dessa forma vocês vão chegar aonde quiserem, com
uma caminhada de respeito, de vitória. Tem que estu-
dar, respeitar o pai e a mãe, porque eles pensam que
fazer rap é fácil, mas rap de qualidade tem que estudar,
aprender, é isso.

Todo meu respeito à pessoa do Thaíde, pra mim um dos


grandes e imortais pioneiros do hip-hop nacional, destaco
da entrevista seu comentário quanto a ganhar dinheiro
com o nosso trabalho, porque a gente precisa definitiva-
mente parar de pensar que as pessoas que se dão bem no
hip-hop se venderam, se ninguém tivesse dado certo, já
teria acabado, como diz sabiamente o Thaíde: “Acho que
cada pessoa é a dona da sua verdade, eu respeito muito a
opinião das outras pessoas, só que essa época já foi, está
mais que comprovado que você pode fazer um trabalho
digno, um trabalho sério e vender o seu trabalho.”

Eu assino embaixo e acrescento que precisamos ter cada


vez mais... profissionalismo.

E é justamente sobre esse tema que vamos falar no pró-


ximo capítulo.
s Donos da Cidade Buzo, Thaíde e Os Donos da Cidade
Cap.02
Profissionalismo no hip-hop
Muitas vezes percebo em alguns grupos uma falta de
planejamento, falta profissionalismo, mas existem
exceções. Uma dessas exceções é o grupo Ao Cubo, que
desde quando surgiu, em 2004, mostrou um diferencial,
isso ficou bem claro pra mim.

Não podia deixar de falar com eles e saber o que pensam


disso. Nosso porta-voz no grupo foi o Cleber, confir-
mando as informações que eu já sabia.

Uma curiosidade: o primeiro show do grupo foi na minha


quebrada, Itaim Paulista. No evento Balada Gospel,
organizado e apresentado pelo pastor Anderson.

Abrimos a entrevista falando dessa primeira vez...

BUZO: O primeiro show do Ao Cubo foi no Itaim Paulista.


Vocês imaginavam naquele dia o sucesso que o grupo ia
alcançar?
CLEBER / AO CUBO:Lembro como se fosse hoje. Dia 29 de
maio de 2004, no final da tarde, chegamos ansiosos
pra subir ao palco daquela escola em frente à favela do
Tijuco Preto. Nossa música há pouco tempo, coisa de
três meses, havia começado a tocar nas rádios e nem
imaginávamos como seria o retorno do público ao can-
tarmos a música “Naquela sala”. Ali, naquele dia, senti-
mos algo sobrenatural, e tínhamos a certeza de que algo
diferenciado aconteceria dali em diante. Tudo foi muito

72
Profissionalismo no hip-hop 73

rápido. Nós tínhamos feito alguns planejamentos, mas


não imaginávamos que aconteceria tudo tão rápido da
forma que ocorreu.
BUZO: Às vezes temos medo de mudanças. Vocês eram de
um grupo, saíram e formaram o Ao Cubo. Como foi isso?
CLEBER / AO CUBO:A princípio, todas as mudanças provo-
cam medo e um pouco de insegurança, mas vimos que
na posição em que nos encontrávamos não iríamos che-
gar muito longe. Resolvemos reformular nossas ideias
como: foco, postura, músicas e profissionalismo. Está-
vamos cheios de ideias e vontade. Quando conseguimos
expor isso, foi muito louco ver a arte final do produto e o
povo aderindo a nossas ideias.
BUZO: Gospel e secular, como é isso pra vocês?

CLEBER / AO CUBO: Rótulos que alguém colocou. Não gosta-


mos de rótulos, eles separam as pessoas.
Temos um estilo musical que é o rap. Cada integrante
do grupo tem uma vida particular e juntos servimos
ao mesmo Deus. O rap nacional é uma música em que
os compositores colocam suas experiências de vida, e,
como somos nós mesmos que escrevemos nossas can-
ções, não teria como ser diferente. Fica pro público e
pro Criador rotularem quem somos.
BUZO: O Ao Cubo, desde que surgiu, vem com uma postura
empresa. Isso ajuda a chegar ao sucesso?
CLEBER / AO CUBO: Tenho certeza disso. Temos diversos
exemplos lá fora e aqui no país de músicos bem-sucedi-
dos. Todos eles muito bem assessorados. Seria impos-
sível chegarmos ao sucesso sem profissionalismo. Li
um livro uma vez que dizia assim: “O sucesso só chega
quando duas coisas se encontram: a preparação e a
oportunidade.” No hip-hop nacional ninguém ainda
74 Hip-hop:dentro do movimento

chegou ao sucesso, pois em alguns casos se acha pre-


paração, mas ainda não houve oportunidade e assim
vice-versa.
BUZO: Hip-hop salva?

CLEBER / AO CUBO: Não acredito que o hip-hop salva, mas


acredito que ele seja uma grande estratégia que Deus
usou pra me salvar um dia.
BUZO: O que falta para o rap nacional dominar a cena,
rádios, carros, casas?
CLEBER / AO CUBO: No rap nacional temos muitos escritores
e rimadores bons, mas falta se aprofundar na música,
estudar, investir, fazer planejamentos, ter uma boa
postura, se vestir bem, guardar dinheiro, ter juízo, res-
peitar o próximo, e se espelhar sempre nos melhores.
Em uma empresa, quando o novo empresário começa
a ganhar dinheiro no ramo em que está, ele precisa se
aprofundar, se não ele trava. Precisa se aliar a bons pro-
fissionais pra fazer sua empresa deslanchar.
BUZO: Pra finalizar, a pergunta que não quer calar... O que
espera do futuro do movimento?
CLEBER / AO CUBO:É um movimento que mostrou que tem
futuro. Lá nos Estados Unidos, é a música número um nas
paradas, o grafite é a arte plástica que mais aparece, e
a dança de rua conquistou um ótimo espaço nos palcos
e casas de espetáculos. Precisamos nos conscientizar e
unir forças, eleger nossos representantes, fazer parce-
rias e ser mais profissionais. Assim chegaremos a luga-
res que nem mesmo nós imaginamos um dia chegar.

Que o Ao Cubo e outros grupos que tentam se profissio-


nalizar, como, por exemplo, A Família, possam servir de
exemplo a todos.
Profissionalismo no hip-hop 75

Uma outra cena comum hoje em dia é ver artistas de


grupos tradicionais lançarem carreira solo paralela aos
grupos, no DMN por exemplo, o Elly lançou um CD solo
e o Markão deve seguir o mesmo caminho. Não sei até
onde isso pode ser normal e não atrapalhar o andamento
do próprio grupo. O Gaspar tem um trampo solo, Ilícito,
paralelo ao Z’África Brasil, o Funk Buia, do mesmo grupo,
também faz participações extra grupo.

Acho que isso, sendo conversado abertamente entre os


integrantes do grupo e sem vaidades, pode funcionar
perfeitamente.

Um dos que andam preparando um CD solo é o Tio Fresh


do grupo SP Funk. Fomos falar com ele para saber mais...

BUZO: Você vem de muito tempo com o SP Funk, alguns da


sua geração não acompanharam a evolução dos tempos,
da internet, e estão ficando para trás. Como você vê isso?
TIO FRESH:É uma pena, porque temos que acompanhar
a evolução de tudo, na real o coração é que manda, né,
meu... Se alguns manos desistiram é porque não era do
coração a vontade de ser hip-hop.
BUZO: SP Funk e Tio Fresh solo, como andam seus corres?

TIO FRESH: SP Funk ano que vem (2011) tem coisa nova,
eu terminei meu CD solo com participação de: Rappin
Hood, Kamau, Kljay, DJ Hum, SP Funk, Sombra, Emicida,
Max B.O., SamPrazer, Xis, Dani Voguel.
BUZO: Uma história curiosa vivida nesses anos de carreira?

TIO FRESH: Uma vez dei autógrafo pro mano no buzão, o


mano ficou decepcionado por eu ser o Tio Fresh e estar
andando de ônibus, ele falava alto, tá ligado: “Como
pode? Você tinha que estar de carrão importado, mano,
te vi na Globo!” Falei: “Mano, tamo no Brasil!!”.
BUZO: Hip-hop salva?
76 Hip-hop:dentro do movimento

TIO FRESH: Hip-hop direciona!

BUZO: O que espera do futuro do movimento?

TIO FRESH:O melhor. Os manos têm que se profissiona-


lizar, saber conversar com empresas, o hip-hop não é
só dança e música, é geração de empregos também,
é entretenimento!

A história do Tio Fresh no buzão me fez lembrar quando


estive em Goiânia. Quem me levou foi o DJ Fox, ele é a
maior referência de hip-hop no estado de Goiás, apesar
de ter articulação, de estar na época lançando o primeiro
DVD coletânea de rap goiano, e de ter, por exemplo, con-
seguido passagem aérea para três pessoas da equipe
da revista Rap Brasil, que foi cobrir o lançamento (Buzo,
Marilda Borges e Juliana Penha), ele se encontrava numa
situação financeira delicada. Separado da esposa, ele
sofria por ter que trabalhar num trailer de yakisoba na
madrugada, atendendo várias pessoas embriagadas.

Nada contra o trampo dele, trabalhando dignamente,


mas quando fui visitá-lo no trailer, achei que o mano que
tinha tanta história dentro da cena hip-hop local e nacio-
nal merecia uma ocupação mais cultural, talvez, ou pelo
menos um trampo melhor, com um salário maior.

Fox me contou uma história assim: seu filho estava na


escola pública onde estudava (nada contra ser pública,
meu filho estuda em uma), mas um outro garoto na tal
escola ouvia um som do DJ Fox, seu filho disse: “Meu
pai que canta essa música.” O outro olhou pra ele e
disse: “Tá maluco? Quem canta esse som é o DJ Fox.”
Na cabeça daquele garoto, o filho do DJ Fox não poderia
estar ali, estudando naquela escola. Como disse o Tio
Fresh: “Tamo no Brasil.”
Profissionalismo no hip-hop 77

Outras histórias como essa poderiam ser contadas. Afi-


nal, quantos manos e minas que são referência no rap
nacional não estão financeiramente debilitados, tendo
que trabalhar na ocupação que surgir, simplesmente
pela sobrevivência?

Não tem como viver de rap para a grande maioria, poucos


grupos podem se dar ao luxo de viver só de rap no país.

Muitos grupos praticamente acabaram, não têm som


novo, não fazem show nenhum, só não anunciam o fim.
Preferem acreditar que vai mudar, melhorar, aparecer
um show com cachê pra dar um alivio na dura realidade,
por isso continuam “na ativa”, se é que pode se dizer que
eles ainda estão na ativa.

Não digo isso dos milhares de grupos que existem no


país, que nunca lançaram CD, não são conhecidos. Estou
afirmando que grupos que já foram destaque na cena se
encontram, infelizmente, nessa situação.

No Brasil é complicado viver de cultura.

Mas não podemos deixar de trabalhar para mudar essa


realidade. Exemplos temos alguns, de pessoas do nosso
meio que transformam isso e realizam coisas. Um deles é
o Toni C, que fez documentário, livros...

Falando nele, vamos viajar até Carapicuíba e bater um


papo com nosso amigo Toni C. Confira então...

BUZO: Você dirigiu o documentário Tudo nosso!. Como foi pro-


duzir três horas de hip-hop em diversos estados do país?
TONI C: Três horas é o resultado final, só de material bruto
são quase trezentas horas. Percebia que estávamos
fazendo história, mas somos péssimos para registrar,
documentar o que fazemos, eu me angustiava com essa
carência. Por isso arrumei uma câmera e passei a regis-
trar minha caminhada. Fui testemunha ocular da histó-
ria, e agora todos poderão ser também.
78 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO:O que mais te surpreendeu durante a produção


(uma história)?
TONI C: Muitas coisas, Buzo. Sabia que muitos fatos eram
inéditos, não tem replay nem dublê, se não registrasse,
já era. A inauguração da biblioteca Suburbano Convicto
dentro de uma escola de samba no Itaim Paulista é um
exemplo disso. Mas sem dúvida uma das coisas que mais
me emociona é ver o Loto, grafiteiro de Pernambuco que
também é DJ e MC. Esta pessoa incrível dá uma lição de
vida e tanto, por fazer tudo isso mesmo depois de ter
perdido a visão. Quando conheci Loto, falei: o hip-hop
precisa conhecê-lo.
BUZO: Como é ter um portal de hip-hop dentro do site do
PC do B?
TONI C: Pior seria se fosse no site do PSDB (risos). Mas o
Hip-Hop a Lápis é um site mantido pelo Ponto de Cultura,
hospedado no Portal Vermelho, maior site de política do
Brasil. Temos total autonomia na seção de hip-hop.
BUZO: Você produziu dois livros com o conteúdo do “Ver-
melho”. Fale sobre eles?
TONI C: Em 2002, criamos a seção semanal Hip-Hop a Lápis
no Portal Vermelho. São artigos de pessoas do hip-hop
em todos os cantos do país. Com um ano, pensamos fazer
algo especial, e nos demos conta de que se juntássemos
todos aqueles textos, teríamos produzido um livro. Como
não encontramos editoras interessadas nessa publica-
ção, foi só após a fundação da Nação Hip-Hop Brasil que
editamos nosso livro. Hoje produzimos um segundo livro
através de nosso próprio Ponto de Cultura.

BUZO: Quantos autores nas duas edições do livro?


TONI C: Só neste segundo livro (Literatura do Opri-
mido), somos sessenta autores. Sabe o que significa?
São mais escritores que os da Academia Brasileira de
Profissionalismo no hip-hop 79

Letras. Queremos deselitizar a literatura. Nesta etapa,


quantidade é fundamental.
BUZO: Então a periferia e o hip-hop estão escrevendo?

TONI C: Para o azar deles.

BUZO: Você faz parte da Nação Hip-Hop Brasil. Fale sobre ela.

TONI C: A Nação Hip-Hop Brasil é a necessidade que o


movimento tem de se organizar. Ao perceber que perife-
ria é periferia em qualquer lugar, que os problemas tam-
bém são os mesmo em todo canto, artistas do hip-hop
se deram conta de que poderia haver solução parecida,
foi aí que foi fundada há cinco anos a entidade, uma
rede de articulação do movimento.
BUZO: A Nação conta com o Aliado G, que já se aventurou
na política. Como você vê essa ligação entre hip-hop e
política?
TONI C:Aliado G é presidente da Nação Hip-Hop Brasil,
e deixou muitas vezes de lado o próprio grupo, Face da
Morte, para se dedicar à construção da Nação. A atua-
ção política do mano não é uma aventura, faz parte de
uma construção estratégica que na eleição passada
por exemplo lançou mais de trinta candidaturas do
movimento. Aliado G é pioneiro ao se lançar candidato
a deputado estadual, e na eleição seguinte pleitear a
prefeito de sua cidade, Hortolândia. Hoje o hip-hop
tem alguns vereadores e suplentes de deputados em
alguns cantos do país, além de leis como a da Semana
da Cultura Hip-Hop, fruto desta construção. Como eu
vejo essa ligação do hip-hop invadindo a política? Ah,
mano! É o espaço de decisão que interfere na realidade
de nosso povo? Então precisamos ocupar mesmo. Pra
fazer ser de fato... tudo nosso!
BUZO: Hip-hop salva?
80 Hip-hop:dentro do movimento

Hip-Hop é um instrumento, utilizado ao gosto do


TONI C:
portador. Da mesma forma que um martelo sozinho não
constrói uma casa, hip-hop, dependendo como é utili-
zado, pode salvar vidas, mas não faz milagres.
BUZO: Como você vê o momento atual do hip-hop?

TONI C:Enquanto escrevo temos um hip-hop cravejado


de balas. É um movimento arrasado pelo boicote, pela
ganância, pela perseguição, pela desleixo muitas vezes
de nós mesmos. Tem quem pense que é dono do hip-hop,
como se ele tivesse plantado uma semente de hip-hop no
seu quintal, que virou uma grande árvore. Hip-hop não dá
em pé de árvore, mas é parecido com uma árvore por pre-
cisar de condições e cuidados, erva daninha é mato.
BUZO: O que espera do futuro do movimento?

TONI C:Não espero. No lugar, dou minha contribuição


para que o hip-hop se reerga. Da maneira que está no
atual momento, está bom pra quem?

De todos entrevistados que responderam essa mesma


pergunta, acho que o Toni C deu a melhor resposta do que
espera do futuro do movimento: “Não espero. No lugar,
dou minha contribuição.”

Esse é o espírito transformador, esse é o caminho, é isso


e assim que devemos pensar.

Alguns grupos se preocupam em fazer um trabalho


social, um desses grupos é A Família. Fomos falar com
um de seus integrantes, o Crônica Mendes, e saber como
é conciliar as duas coisas: o lado artístico e o social. Você
confere agora essa entrevista exclusiva pro livro.

BUZO: Qual a importância da música Castelo de madeira


para consolidar o trabalho do grupo A Família?
Profissionalismo no hip-hop 81

CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA: Castelo de madeira repre-


sentou e representa uma importância na vida de muita
gente, pois valorizou não só a periferia em si, mas tam-
bém as pessoas que fazem dela um lugar melhor para
viver. Mesmo estando isolada e, de certa forma, abando-
nada, essa gente nossa faz do seu barraco um castelo. A
música devolveu a autoestima dos jovens das periferias,
as mulheres vinham de uma fase em que eram chamadas
de cachorras, os parceiros eram chamados de vagabun-
dos, marginais, tudo pior possível. Com a música Cas-
telo de madeira, os mesmos foram chamados de prince-
sas e príncipes do gueto. A música nos possibilitou nos
comunicar com pessoas de vários estados brasileiros e
nos levou a conhecer de perto a realidade e o trabalho do
MST. Muitos se enganam ao pensar que a realidade das
periferias nacionais é isolada, pois a realidade no campo
é da mesma forma. O governo os esqueceu também. Os
jovens do MST se identificaram muito com a música,
assim como as famílias também, por isso resolvemos
homenageá-los no clipe. Castelo de madeira devolveu
o rap nacional à sua boa fase, foi a música mais tocada
durante os dois anos pós-lançamento, é considerada
um hino, um clássico da música rap nacional. Foi ela que
anunciou o nascimento do A Família pra vida.
BUZO: Vocês são bem próximos de causas e movimentos
sociais. Comente isso e quais são esses movimentos.
CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA:Desde o início do A Família,
nós trabalhávamos juntamente com o GOG e com a Nina
Fideles para que pudéssemos fortalecer nosso conhe-
cimento e desenvolver uma consciência politizada. Tra-
balhar o social, mas sem esquecer a música, valorizar
a periferia, não por luxo de estar ali, mas sim porque a
periferia tem seu lado bom e enquanto existir periferia
façamos dela um lugar melhor de se viver dia após dia, e
82 Hip-hop:dentro do movimento

não um campo de guerra como o sistema quer. Acredito


que o rap nacional é uma causa social em si, pois vem
da rebeldia, do grito de “não estamos mortos”. Toda
música tem sua raiz, sua identidade. O rap nacional,
como música que é, vem da periferia, sua causa maior
deve ser a periferia, mas isso não faz do rap música
ímpar. O rap é pra todos e não tem dono, mas precisa
ter sempre conteúdo. Trabalho musicalmente envol-
vendo o social, pois acredito na transformação que a
música e as ações coletivas podem fazer nas pessoas
e, a partir daí, as pessoas podem transformar a reali-
dade à sua volta, buscando sempre um diálogo e o tra-
balho coletivo. Tudo parte de uma organicidade, para a
qual a música rap pode contribuir muito, pois os jovens
das periferias escutam nossas músicas, buscam se
espelhar em nós, direta ou indiretamente, e nós, músi-
cos, que fazemos a música que eles escutam, podemos
e devemos inserir conteúdo para que desperte nesta
juventude o espírito de luta por uma causa que não seja
ímpar. O rap transformou toda uma juventude, deu valo-
res a ela, e isso precisa continuar, o próximo passo, o
próximo degrau tem que vir, e que venha com firmeza,
conhecimento, informação e causa. Com nosso traba-
lho musical e social, tivemos uma grande aproximação
com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), onde pudemos, de certa forma, desenvolver um
trabalho contra a marginalização de ambos os movi-
mentos. Como isso? Nós levamos militantes do MST até
as escolas nas periferias, para que os jovens pudessem
conhecer verdadeiramente o que é o MST, sua luta, sua
causa, sua história, dizimando assim a visão errônea
que eles tinham por influência da televisão. Da mesma
forma, nós íamos aos acampamentos e assentamen-
tos do MST, mostrar pra eles o que é o hip-hop e quais
suas ações. Aprendemos muito, e com o aprendizado
Profissionalismo no hip-hop 83

fomos desenvolver nossos próprios projetos sociais


voltados para a juventude dentro e fora das escolas, e
suas famílias. Um projeto de conhecimento sobre o hip-
hop e o estudo. Desenvolvemos projetos de atuação na
área pública de saúde, na questão da prevenção das
DSTs e do HIV/Aids, organizamos mutirões de limpeza
e consciência ambiental nas favelas do interior de São
Paulo... A Família, nosso trabalho, sempre esteve ligado
ao social e assim prossegue.
BUZO: Você, Crônica Mendes, está bastante envolvido
com a poesia e a literatura. Como se deu isso e qual é a
importância da literatura dentro do hip-hop?
CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA: Meu envolvimento com a poe-
sia e a literatura se deu no mesmo momento em que
passei a compor músicas. Antes de compor meu pri-
meiro rap, eu já fazia poesia, sempre gostei de ler,
embora leia pouco e escreva bem mais. O envolvimento
foi praticamente simultâneo. Rap, poesia e literatura.
Na minha formação musical esses três se completam
de tal forma, que são essenciais para se fazer uma boa
música. A poesia está nos versos do dia a dia do rap e a
literatura enriquece o vocabulário, traz conhecimento,
boa nova, amplia o horizonte, acaba que se tornam um
só em cada música. Pra mim é impossível separá-los. E
digo mais: como uma boa literatura, a música se torna
mais coletiva, mais viva, e pode atingir pessoas que
antes asseguravam odiar o rap, fazendo assim uma
nova visão da nossa música. A partir deste ponto, surge
a música livre, para pais e filhos, derrubando o mito de
que a música rap nacional é coisa de bandido, ignorante,
e outros adjetivos injustos. O rap, a literatura e a poesia
são um só corpo. Se faltar um, faltará muito mais.
BUZO: Conhecimento é o quinto elemento da cultura hip-hop?
84 Hip-hop:dentro do movimento

Não diria que o quinto, mais


CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA:
sim um elemento fundamental para se desenvolver
uma boa música, um belo grafite, uns scratches impe-
cáveis e um movimento deslumbrante. Conhecimento
é a base para seguirmos em frente com conteúdo e
equilíbrio. Sem conhecimento somos vazios, e vazio
não para em pé. Sendo assim, seríamos fáceis de ser-
mos abatidos, enganados, manipulados, mortos e, por
fim, esquecidos. Conhecimento é uma questão pes-
soal, conhecer a si mesmo é um grande exercício para
se libertar da escravidão mental.
BUZO: Um história curiosa ou engraçada vivida dentro
do hip-hop?
CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA:Ainda no tempo em que atuá-
vamos no palco junto com o GOG, isso bem antes do A
Família nascer oficialmente. A formação atual era eu,
Demis, DJ Silvinho, Gato Preto e Luciano. Nós estávamos
fazendo um show incrível em São Paulo, não me recordo
o nome da comunidade, mas era na Zona Leste. No show
nós ousávamos bastante com performances ensaiadas,
fogos de artifício, bombas ninja (bomba de fumaça), era
um show de rap psicodélico. E nessa apresentação na
Leste, lembro que o Luciano era o cara responsável pelas
bombas ninja junto comigo, nesse dia não sei o que deu
nele, estávamos cantando a música Fogo no pavio, era
o último refrão e na sequência o GOG faria um discurso
daqueles inflamáveis, mas não foi o que aconteceu. O
Luciano resolveu que ao invés de jogar uma bomba e
eu a outra, ele ia jogar duas e eu uma, tornando-se três
(risos). Nós jogávamos a bomba bem na hora que o GOG
reaparecia no palco chamando o povo junto no refrão.
Quando ele reapareceu, o Luciano jogou as duas bom-
bas, eu joguei a terceira. Acabou que o GOG sumiu no
meio daquela fumaceira, engasgou com tanta fumaça,
não conseguiu fazer o discurso, ninguém conseguia
Profissionalismo no hip-hop 85

ver mais nada no palco, e o show acabou naquele ins-


tante, faltando mais três músicas. E o engraçado é que
o público foi ao delírio acreditando, até agora, que era
parte do show mesmo o sumiço do GOG entre a fumaça.
BUZO: O que espera do futuro do movimento hip-hop?

CRÔNICA MENDES / A FAMÍLIA:Não espero nada, mas estou


tentando mudar a realidade de hoje do hip-hop, que é
erradicar de uma vez por todas essa ideia de que o rap
não é música, que o grafite não é arte, que o DJ não é
músico e que o break é uma coisa qualquer. Se não
transformarmos o presente do hip-hop, se não buscar-
mos a tão desejada organização e não nos tratarmos
como profissionais, dificilmente teremos um futuro
bom. Minha preocupação é com o presente, com os
rumos que “novas caras” estão tomando. A mudança,
quando mal interpretada, pode acontecer de maneira
desrespeitosa e nem merece o nome de mudança, e sim
regresso. Se não tiver um presente consistente, desen-
volvido musicalmente, e postura, não dá pra imaginar
futuro. Claro que, se for para elucubrar, quero sim ver o
hip-hop no topo, forte e cada vez mais verdadeiro.
Eu particularmente gosto demais de grupos que mistu-
ram cultura e social, eu mesmo faço muito isso. Então,
destaco além de A Família, grupos como o Z’África Brasil,
que faz um trampo da hora no Jardim Leme, em Taboão
da Serra, aliados com a posse A Firma e o time de várzea
Ponte Preta do Jardim Leme. Da hora, verdadeiro.
Cito também o Função RHK, que faz o evento Cultura na
Quadra em Itapevi, e outros. Não podemos perder de
vista isso, porque é o que faz do hip-hop um movimento,
e não uma coisa que com o tempo vai acabar. O rap não é
moda, é compromisso, logo...
86 Hip-hop:dentro do movimento

Um dos maiores representantes do chamado “gangsta


rap”, o grupo Realidade Cruel, da cidade de Sumaré-SP,
mostra muita organização e, por isso mesmo, lança mui-
tos trabalhos e faz bastantes shows, além de manter um
público fiel. Fomos até Sumaré para gravar meu quadro
“Buzão – Circular Periférico” pro programa Manos e
minas da TV Cultura e entrevistamos o Douglas, vocal
e líder do Realidade Cruel. A seguir, parte dessa entre-
vista, e você pode acessar o quadro no Youtube.2

BUZO: Estamos em Sumaré, interior de São Paulo. Como


essa cidade entrou no cenário do rap nacional?
Sumaré hoje tem nomes que a
DOUGLAS / REALIDADE CRUEL:
representam no cenário nacional, não só regional, como
nós do Realidade Cruel, tem A Família, Face da Morte,
Condenação Brutal, Inquérito.
Essa questão de Sumaré ser, de uma certa maneira,
um lugar que proporcionou grandes nomes, acho que é
isso, uma escola, a raiz, a influência também que vem
de Campinas, os bailes, os grupos de lá como Sistema
Negro, Visão de Rua e assim por diante.
BUZO: O nosso amigo, o poeta do rap GOG, morou aqui por
um tempo. Como foi isso?
DOUGLAS / REALIDADE CRUEL: Pra nós do cenário rap foi
importante, porque o GOG, como todos sabem, ele é o
professor, acrescentou muito no aprendizado, trouxe
uma influência muito positiva pra todos os grupos,
inclusive pra nós do Realidade, enquanto informação
sobre grupos de rap, informação musical, como pessoa
também, né, porque...
BUZO: No dia a dia?

É imensurável a qualidade
DOUGLAS / REALIDADE CRUEL:
como pessoa também, é um grande parceiro.

2 http://www.youtube.com/watch?v=anBfOOQMN5o
Profissionalismo no hip-hop 87

BUZO:As letras do “gangsta rap” nacional não podem ser


confundidas como apologia ao crime?
DOUGLAS / REALIDADE CRUEL: O que nós fazemos é narrar o
cotidiano da sociedade.
BUZO: Se o cotidiano é violento, vai refletir nas letras?

DOUGLAS / REALIDADE CRUEL: Vai refletir nas músicas, a


gente começou a falar de problemas, começou a falar
de contexto, começou a retratar nas músicas todo esse
tipo de denúncia social, isso com os Racionais MC’s no
início dos anos 1990 e depois vieram os demais, Rea-
lidade Cruel, Facção Central, Consciência Humana,
GOG... Criou-se na sociedade um sinal de alerta: “Esses
caras aí, o que eles estão falando aí é perigoso, eles
estão alertando gente demais.”
Por ter essa postura séria, a gente procura através da
música, de uma certa forma, fazer um papel de resgate
social mesmo.

O que podemos destacar dessa entrevista, pra mim, com


certeza, sem medo de errar, é esse medo da sociedade,
da mídia, da elite, que impede o rap de ter uma total
abertura na mídia. Para quem está no poder é interes-
sante continuar tudo igual, um povo instruído é difícil de
ser manipulado.

O rap instrui, e isso sempre incomodou. Quando o Dou-


glas diz “Esses caras aí, o que eles estão falando aí é
perigoso, eles estão alertando gente demais”, é a mais
pura verdade, por estar alertando gente demais, nunca
deram espaço pra gente na TV, nos jornais, nas revistas.
O rap incomoda porque pra quem está no poder é mais
interessante ver o Latino, por exemplo, cantando “Hoje
é festa lá no meu apê, pode aparecer, vai rolar bunda-
lelê, tem birita até o amanhecer.” Ou seja, alienação em
massa. Ponto pro sistema.
88 Hip-hop:dentro do movimento

Encerrando este capítulo, no qual pretendíamos tratar


de profissionalismo dentro do nosso movimento, uma
entrevista com o Pregador Luo, exemplo de mano que
corre pelo certo, mas olhando de cima pra baixo e não o
contrário. Vamos ver por quê.

BUZO: Como você, Luo, vê os shows do gospel e do secular?


Frequenta os dois ou não faz secular? Quais as diferenças?
PREGADOR LUO: Salve, Buzo, respeito e amor a você e sua
família em primeiro lugar! Sim, frequento os dois meios,
afinal, tô no mundo e o mundo é isso mesmo, uma mis-
tura de culturas que temos que conhecer e valorizar, ou
não. Porém, meu mundo é muito mais que apenas esses
dois universos. Procuro viver ao menos uma pequena
porcentagem do cosmos, que é infinitamente maior
que o mundo secular e o da Igreja. A diferença entre
esses dois universos é enorme. Musicalmente falando,
a música secular e a evangélica têm suas diferenças
em discurso ideológico, e isso cada um percebe de uma
maneira. Tanto num estilo quanto no outro, a música só
vai falar ao meu coração de maneira mais profunda se
eu sentir nela a alma de quem a compôs. Mesmo se ela
tocar como um mantra nas rádios e eu não sentir algo
em meu coração, tal música para mim não significará
nada além de notas musicais e palavras vazias.
BUZO: Hip-hop salva?

PREGADOR LUO: Não, quem salva é Jesus! O hip-hop educa,


pelo menos tem essa obrigação. O hip-hop serve pra
muita coisa hoje. É a música que vai dominar o mercado
por muito tempo, assim como já vem fazendo. Pode ser
usado pra vender produtos em campanhas publicitárias,
fazer apologia, eleger presidentes e derrubá-los e mais
uma porrada de coisas. Ele pode servir pra muita coisa
sem ter a obrigação de ser o que as pessoas esperam
Profissionalismo no hip-hop 89

dele. Isso vai de cada pessoa, da forma como cada um


usa sua vida e seu talento pra fazer grafite, dançar
break, ser DJ ou MC. Pra mim, o hip-hop já agrega outros
elementos como skate, MMA, literatura, moda e busi-
ness. E a cada dia vai somar algo mais pra nossa cultura.
Ele não salva, mas pode voltar a apontar o caminho da
salvação, pois força pra isso ele tem. Quem quiser ser
verdadeiramente salvo para sempre e não só por algu-
mas décadas, tem que ler 1 João, capítulo 3 inteiro, e
crer de todo seu ser nisso!
BUZO: Apocalipse 16: o que representa na sua vida?

PREGADOR LUO: Apocalipse 16 representa a minha vida! É a


minha marca neste mundo.
BUZO: Vocês lançaram um CD numa grande casa de shows
de São Paulo, divulgaram nos cadernos culturais dos
maiores jornais de São Paulo. Quando vi fiquei orgu-
lhoso, porque nesses espaços nunca sai nada de rap (no
máximo, Marcelo D2). Esse é o caminho? Atacar por cima?
PREGADOR LUO: Sim, analisar tudo de cima, planejar tudo
macro, assim como uma majestosa águia faz lá nas
alturas. Sacar qual é o momento certo, mas é difícil
para alguns. Quando lancei meu DVD no Via Funchal em
2006, fiz um investimento altíssimo que está me dando
retorno. O rap no Brasil não acredita em si mesmo, as
pessoas estão desacreditadas, não confiam mais nem
em si mesmas. Ficam com medo de investir. Oras, se tu
mesmo não crê que pode, quem vai crer em você então?
Mas tem que ser sensato, pois o sucesso tão almejado
não vem pra todos, não é só perseverar, temos que pen-
sar: “Será que consigo entrar no ringue e derrotar aquele
cara, ou será que ele vai me quebrar de pau porque trei-
nou mais do que eu e se preparou melhor?”. Se você não
quiser quebrar a cara, tem que se autoavaliar sempre e
90 Hip-hop:dentro do movimento

pedir que outros te avaliem sem medo de escutar a ver-


dade. Marcelo D2 tem seu mérito e aprendi admirá-lo
por isso. Enquanto muitos encolhiam a mão e não cum-
primentavam certas pessoas, ele fez ao contrário, e por
suas atitudes está colhendo o que tem. Uns dez anos
atrás, ele me deu uma das primeiras grandes oportuni-
dades da minha vida, que foi abrir seu show no Palace.
Até hoje ele me trata com respeito e igualdade. Tire toda
a maconha e todo o palavrão da música de D2 e a escute
com calma e você terá um bom exemplo de sucesso no
hip-hop BR. Ninguém é o que é por acaso!
BUZO: O que espera do futuro do movimento hip-hop?

PREGADOR LUO: Vou trabalhar pra que o presente seja o


melhor possível e pra que o futuro seja promissor. Já
fiz muita coisa e pretendo fazer mais. O mundo muda o
tempo todo, pois tá em movimento. Se colocarmos mais
as nossas ideias em movimento, tirá-las do campo men-
tal e trouxermos à tona nossos melhores pensamentos
em forma de realidade, vamos fazer o hip-hop BR encos-
tar no do EUA, em números, em prestígio e aceitação. Só
precisamos de homens e mulheres que tenham valores
a repassar e corações cheios de boa vontade. Isso o Bra-
sil tem, só precisa acreditar. Precisamos entender que
o hip-hop não tem vontade própria, está aí pra nos ser-
vir. O que faz o hip-hop acontecer são pessoas em movi-
mento. Por isso, não parem, acreditem! Movam-se!

(Real
lidade Cruel) Buzo e Douglas (Realidade Cruel)
nderson Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson Buzo, Ao Cubo e Pastor Anderson
Cap.03
Mídia do hip-hop

Cap.03
Mídia do
Como falamos da mídia do hip-hop, não podíamos dei-
xar de dar voz aos maiores veículos, sites que fazem um
trabalho de não deixar que assuntos passem batidos,
que mostram o que muitas vezes a grande mídia não se
interessa em mostrar.

Os sites contatados foram:

www.enraizados.com.br
www.radarurbano.com.br
www.rapevolusom.cotm
www.centralhiphop.com.br

Um quinto grande site do meio foi contatado, mas até o


fechamento da obra não havia retornado as respostas
sobre o tema “A mídia do hip-hop”.

Dudu de Morro Agudo, de Nova Iguaçu, falou pelo Enraiza-


dos, site do Movimento Enraizados, do qual é presidente.

Já pelo Radar Urbano falou o Freitas, de São Paulo, que


era do Real Hip-hop. Depois de se batizar e passar a ser
cristão, lançou esse novo veículo.

O B.Dog, do Rio de Janeiro, respondeu pelo seu site


Rapevolusom.

Por último, o Central Hip-hop, conhecido pelo tradicional


nome de Bocada Forte, foi representado pelo DJ Corte-
certu, militante do hip-hop e repórter.

96
Mídia do hip-hop 97

Vamos ver a diferença de pensamento entre eles. Porque


para todos foram feitas as mesmas perguntas. Confira o
que pensam as pessoas que fazem a nossa mídia.

Claro que existem outros veículos, sites e blogs, mas os


citados com certeza representam os demais.

BUZO: Como você vê nos dias atuais a mídia especializada


do hip-hop?
DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): Existe uma
grande variedade de sites que representam a mídia
especializada do hip-hop brasileiro, alguns com milha-
res de acessos, respeito e reconhecimento em todo o
Brasil. As rádios comunitárias também têm sua impor-
tância, mas as notícias comunitárias e regionais não
ganham força para circular outras regiões, então eles
acabam repetindo as notícias que são publicadas nos
grandes veículos, que nem sempre são específicos do
hip-hop. Mas creio que alguns veículos de comunicação
de massa que transitem em todo o território nacional
são totalmente necessários e precisam estar de volta,
como a revista Rap Brasil. Necessitamos de progra-
mas de hip-hop em grandes rádios FM não somente no
estado de São Paulo, Brasília ou Porto Alegre, precisa-
mos estar organizados e unidos para termos articula-
ção suficiente para conseguirmos programas em gran-
des rádios na maioria dos estados brasileiros. Estamos
chegando aos poucos na TV, com espaços em canais
como TV Brasil, TV Cultura e Canal Futura, conquistas
que chegam aos poucos e com muito trabalho. O mais
importante é que todos esses veículos de comunicação
precisam ser construídos por pessoas que têm compro-
metimento com o hip-hop nacional, e mais ainda, preci-
sam estar em sintonia uns com os outros.
FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR): Hoje em dia vejo um
grande avanço devido à internet. Praticamente, a mídia
do hip-hop é a web. Revistas, não tenho notícia de
98 Hip-hop:dentro do movimento

nenhuma publicação no Brasil. E temos alguns progra-


mas de TV, mas nenhum com 100% de foco no hip-hop,
temos programas que são voltados para a cultura peri-
férica, cultura black. Mas acho tudo válido. Sonho ter
um programa de TV originalmente hip-hop. Depois de
11 anos à frente de veículos de hip-hop na web, esta-
mos criando uma rede de grandes sites de cultura
urbana e hip-hop, para com isso juntarmos diversos
públicos e para que esses internautas tenham todos
os tipos e estilos de informações da rua.
B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM): Falar dos meus pares é
como estar falando sobre o próprio Rapevolusom.com.
Estamos nos organizando e esta organização nos per-
mite buscar algo bem maior do que já conseguimos em
um passado recente. Claro que existem as diferenças
de estilos, coberturas, formas de trabalhar e mostrar
os fatos, mas em geral vejo todos trabalhando com um
grande profissionalismo. Nem sempre agradamos a
todos, mas é assim mesmo. Para alcançarmos espaços
ainda maiores, precisamos ser unidos. Não digo que
temos que andar juntos para cima e para baixo, mas
saber respeitar o espaço, os créditos, as fotos, as fon-
tes um do outro.
DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: Os sites e
blogs especializados em hip-hop cumprem um papel
importante na cena. É através desses veículos que a
maioria das pessoas baixa novas músicas, conhece a
história do movimento, os lançamentos e atividades dos
artistas, shows, palestras, eventos de dança, mostras
literárias, saraus, debates etc. Os meios de comunica-
ção do hip-hop ainda carecem de autonomia financeira
e profissionalismo. Isso se deve ao fato de a mídia do
hip-hop atuar como vitrine para divulgação e meio jor-
nalístico, algo um tanto confuso, pois não há separação
Mídia do hip-hop 99

entre as duas áreas citadas. Falta uma melhor elabora-


ção de conteúdo nos meios de comunicação, esse é um
dos nossos principais defeitos. Releases e textos ela-
borados pelos artistas e suas assessorias são copiados
e espalhados pela web sem uma intervenção dos edi-
tores de sites e blogs. O que era para ser um ponto de
partida para uma reportagem acaba se transformando
em conteúdo dos blogs e sites. Sem dúvida alguma,
os créditos sempre são respeitados, mas não há soma
de conhecimento. Um vídeo ou um trabalho em áudio
que chega na caixa de entrada dos responsáveis pelos
meios de comunicação alternativos são matéria-prima
para desenvolvimento de conteúdo, mas acabam sendo
o produto final. Temos que melhorar esse ponto, além
de escrever melhor. Um texto bem escrito é sinal de pro-
fissionalismo e de preocupação com o público leitor.
BUZO: Como é o trabalho do seu veículo? Qual é a impor-
tância da existência dele?
DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): O Portal
Enraizados foi criado para ser um ponto de encontro vir-
tual entre os praticantes do hip-hop brasileiro. Com o
tempo e as necessidades, fomos alterando o formato até
chegar ao de hoje. Mantemos as atividades fundamentais
e os objetivos, que são os de dar visibilidade aos artistas
e pensadores da cultura hip-hop que não têm tanta pro-
jeção nos veículos de comunicação convencionais, esta é
uma característica do Portal Enraizados, onde famosos e
anônimos têm as mesmas oportunidades.
FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR):O Radar Urbano está
há dois anos no ar, após eu sair da sociedade do Real
Hip-hop, decidi criar um site mais abrangente. Vi que
o hip-hop estava indo além, sentia do público a neces-
sidade de mais informações sobre outras culturas,
sobre a moda, sobre tecnologia. Daí veio o nome num
100 Hip-hop:dentro do movimento

brainstorm imediato. Registrei, e estamos aí... Hoje o


R.U., além de reunir conteúdo após fazer pesquisas diá-
rias em centenas de sites pelo mundo, cria conteúdo,
o que vejo ser um diferencial em relação a vários sites,
sem desmerecer ninguém, cada um tem um perfil. Mas
achamos que além de traduzir textos gringos, além de
buscarmos fontes nacionais, também temos de ter con-
teúdos próprios: entrevistas, coberturas, seções espe-
ciais. Um exemplo de inovação é nossa seção de Blogs
Convidados, onde temos blogueiros que falam de vários
assuntos, sneakers, rap internacional, moda, maquia-
gem e cabelos, cinema, games, tecnologia...
B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM): O Rapevolusom.com foi
criado no intuito de estar informando/entretendo o
público e auxiliando os grupos a se comunicarem com a
galera que curte rap e outros elementos dentro do Efó.
Considero o Rapevolusom.com um dos portais de notí-
cias mais relevantes na década de 2000. Conseguimos
utilizar uma ferramenta gratuita na internet, o blog, de
uma forma dinâmica e passar informações quase que
24 horas por dia. Hoje somos um portal, mas mantive-
mos o jeito de postagens em tempo real e na medida em
que ficamos sabendo de novidades pelos Twitters de
artistas, gravadoras e sites internacionais, procuramos
estar atualizando o nosso portal.
DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: O Central
Hip-Hop/Bocada Forte é um veículo que tem 11 anos de
experiência. Trabalhamos com uma rede de colabora-
dores que produzem textos, imagens, pautas e articu-
lações com as diversas áreas da cultura hip-hop. A exis-
tência do site representa a pluralidade de opiniões e a
diversidade artística e ideológica do hip-hop.
BUZO: Seu site vende anúncios, se paga ou ainda sobre-
vive no vermelho?
Mídia do hip-hop 101

DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): Nos dez


anos em que o Portal Enraizados está no ar, sempre
colocamos o banner dos parceiros, mas nunca cobra-
mos nada por isso, porque mesmo se cobrássemos, a
galera não tinha como pagar. Como eu trabalhava em
um supermercado, tirava uma parte do meu salário para
pagar a hospedagem. A única proposta que a gente teve
foi um intermediário da Eletropaulo que queria se apro-
ximar da periferia e queria colocar um banner nos sites
de hip-hop. Ofereceram 3 mil reais, mas depois sumi-
ram. Hoje o portal mantém o fundamento e serve tam-
bém como vitrine para os projetos que o Movimento
Enraizados executa. Mas dinheiro nunca rolou.
FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR): Hoje em dia temos
nosso mídia kit e plano de negócios pronto, essa expe-
riência de 11 anos nos fez aprender um pouco. Atual-
mente, não temos anunciantes pagos de verdade, até
por isso veio a ideia de criação desta rede. Pois, infe-
lizmente, tem sites que nivelam o nosso mercado por
baixo, ou seja, pra ter o status de ter um banner de tal
marca, aceita quatro camisetas e 100 reais por mês.
Enquanto mantivermos essa mentalidade no meio,
seremos sempre motivo de piada. Temos que ter nosso
mídia kit, enviar para as agências de publicidade, fazer
contatos com grandes marcas de forma digna, parar
com o vocabulário “tá ligado, manooo”...
B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM): De 2002 a 2009, o Rape-
volusom.com sempre foi mantido com custos próprios.
Agora, em 2010, adotamos a política de aluguel de espa-
ços publicitários. Estamos buscando empresas inte-
ressadas em anunciar e não nos importamos de qual
segmento elas sejam. O mundo hip-hop não é diferente
dos outros estilos, então é um mercado que compra
desde vestuário até produto alimentício.
102 Hip-hop:dentro do movimento

DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: O site traba-


lha com parcerias e contratos publicitários. Ainda não
gera lucro, fato ligado ao confuso cenário econômico do
hip-hop/rap. Lutamos para que essa situação mude. Por
enquanto, o site se paga, não ficamos no vermelho.
BUZO: Por que a grande mídia, salvo raras exceções, não
mostra o hip-hop?
DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): Eles mos-
tram aquilo que convém a eles. Mas se você reparar bem,
já mostraram alguns nomes do rap. Agora precisamos
refletir o que queremos que apareça na grande mídia,
quais são as nossas prioridades? Porque o hip-hop, na
minha opinião, não se resume apenas a música ou a
qualquer outro tipo de arte. Se queremos que apareça
a música, então os rappers precisam focar e trabalhar
muito nisso que, na minha opinião, não vale a pena, não
vale a pena tratar o hip-hop como produto, o hip-hop é
essência. Se deseja que o rap seja hit de verão, então
faça um hit de verão sem conteúdo, que aparecerá na
grande mídia como um fenômeno avassalador, mas
desaparecerá assim que chegar o outono; ou, se prefe-
rir, faça algo verdadeiro, que talvez a grande mídia dê
atenção, mas também se não der hoje, foda-se.
FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR): Será que o hip-hop
está preparado para ir pras grandes mídias, salvo raras
exceções? Pelo que tenho visto e vimos de perto em
2009, o hip-hop não está preparado para ir pras gran-
des mídias, não está preparado pois quase nenhum
grupo tem sua assessoria de imprensa, tem suas fotos
de divulgação, ninguém quase tem um release pronto.
Vídeo de apresentação se for b.boy, apresentação mix
se for DJ, portfólio fotográfico se for grafiteiro... Ou
seja, temos que estar preparados, é isso que falo, temos
Mídia do hip-hop 103

que nos profissionalizar, para daí sim cobrar presença


nas mídias. Temos que sair desse espaço de comodismo
e parar de culpar os grandes pela nossa incompetência.
B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM): Na verdade, a mídia não
mostra o nosso gênero musical (rap). Outros elemen-
tos da nossa cultura sempre estão presentes na grande
mídia. As obras de artes do Osgemeos, os torneios de DJ
e as Batalhas de b.boys sempre recebem um destaque
na grande mídia.
DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE: Existem
fatores que proporcionam essa situação, questões
ideológicas: parte do rap/hip-hop luta contra o capita-
lismo e suas formas de opressão. A grande mídia é parte
do sistema capitalista, aí está a razão para a omissão
(em relação ao lado político do hip-hop) das instituições
que representam a grande mídia. Falta de profissiona-
lismo: muitos artistas ainda fazem trabalhos medianos
e, apesar de desejarem aparecer nos grande meios, não
conseguem desenvolver uma articulação com a TV e
com a imprensa escrita. Quando artistas mostram com-
petência para trabalhar sua imagem na grande mídia,
são atacados por parte do movimento. Isso gerou a
atual situação da nossa cultura/arte/movimento.
É necessário o equilíbrio de forças para conquistar
espaço. Precisamos de uma economia interna e solidá-
ria, algo difícil de concretizar. Por enquanto, veremos
alguns artistas lucrando por trabalharem de maneira
organizada nos moldes do capitalismo. Isso é ruim? Se
for, qual a alternativa? Poucos querem discutir isso de
maneira séria. Produtores envolvidos no hip-hop e na
grande mídia não querem largar o osso, uma atitude que
sufoca a cena, não mostra a diversidade e não gera uma
economia que proporcione uma indústria forte baseada
nos princípios do hip-hop.
104 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Acha válido os grandes nomes do rap irem à TV, por


exemplo? Por quê?
DUDU DE MORRO AGUDO (WWW.ENRAIZADOS.COM.BR): Acho válido,
não só os grandes nomes do rap irem à TV, mas defendo a
ideia de que qualquer pessoa que tenha vontade e esteja
preparada para ir à TV, vá e enalteça o nome do hip-hop.
FREITAS (WWW.RADARURBANO.COM.BR): Como disse antes,
temos que estar preparados: ir por ir, para falar besteira,
para envergonhar, é melhor não ir. Temos, sim, que ir
mostrar trabalhos dignos, feitos com qualidade, levar a
essência do hip-hop, o trabalho social, politizado e tam-
bém, é claro, o hip-hop festa. Tudo é hip-hop. Gangsta,
Festa, Politizado, o chamado rap Underground, Gospel,
tudo é rap!!! GOG, por exemplo, abriu um debate no Twit-
ter sobre sua ida à Globo. Disse a ele exatamente isso. Se
a Globo quer a presença dele, é por dois motivos: ele tem
algo a falar e ele dá ibope. De que forma isso pode se con-
verter a seu e a nosso favor? Usar esse ibope para falar
verdades das periferias, para divulgar seu trabalho, CD,
DVD, mostrar a realidade do hip-hop nacional. E uma via
de mão dupla e temos que ir se quisermos crescer.
B.DOG (WWW.RAPEVOLUSOM.COM): Esta é uma pergunta que
eu sempre gosto de responder. Acho não só válido, mas
totalmente necessário para a sobrevivência e o cresci-
mento do nosso estilo de som. Sou um cara que costuma
seguir um bom exemplo não me importando de qual cul-
tura ou país ele venha. Se você quer sobreviver dentro
do mundo da música, é necessário vender. Veja o exem-
plo do sertanejo, do forró e de outros gêneros musicais.
Os caras se reinventaram com o estilo “universitário”. E
o rap, quando vai crescer e sair da escola?
O mantra que foi repetido durante anos, “não canto rap
na televisão”, infelizmente tomou uma proporção tão
grande que agora grupos ou rappers que chegam à TV
são considerados vendidos.
Mídia do hip-hop 105

Bom, se você é rapper/grupo e não quer vender o seu


som, pode procurar outra coisa para fazer.
DJ CORTECERTU / CENTRAL HIP-HOP / BOCADA FORTE:Sim, acho
válido. Os grandes nomes do rap precisam fazer essa
conexão, pois têm algo pra mostrar e dizer, possuem
experiência e visão. Mas é necessário que busquem mos-
trar a diversidade no rap e levar os outros elementos.
Não é uma questão romântica, é simples de entender: se
apenas um estilo de rap aparecer na TV, se os outros ele-
mentos não forem valorizados pelos MCs e DJs que forem
pra grande mídia, esses fatos impedirão o crescimento
da cena, o dinheiro não vai circular, não teremos selos
e agências autossustentáveis. A 105 FM é um grande
exemplo de como se tratar o rap de maneira errada e
gerar lucro para alguns sem criar uma indústria maior.
Hoje vivemos num cenário onde todos querem/precisam
de espaço, isso é resultado dos erros do passado, mas
os mais novos apenas dizem que não cometerão esses
erros... sem saber que estão no mesmo caminho. Preci-
samos de profissionais que lidem de maneira séria com
o rap, aí não nos preocuparemos se alguém for ou não
pra TV, pois teremos a diversidade imposta pelo hip-hop
mesmo que tentem manipular, pois sempre tentarão.

Depois que, nos anos de 2008 e 2009, todas as revistas


impressas de hip-hop (Rap Brasil, Rap BR, Cultura Hip-hop,
Planeta Hip-Hop, Rap News, Graffiti) saíram de circula-
ção, a importância dos sites especializados cresceu.

Mas por que editoras como a Escala e a Minuano tiraram


esses veículos de circulação? Fomos falar de novo com
Alexandre de Maio, que anteriormente já havia nos falado
sobre o Prêmio Cultura Hip-Hop, e agora vem esclarecer
essa questão, já que ele foi editor da maioria das revistas
que por anos deram voz à cena do rap nacional.
o e Buzo
Dudu do Mo

Dudu do Morro Agudo e Buzo


108 Hip-hop:dentro do movimento

Em março de 2010, quando perguntado sobre o porquê


das revistas terem saído de circulação, ele nos disse:

BUZO: Por que “todas” as revistas de hip-hop deixaram


de circular?
ALEXANDRE DE MAIO: Como eu fazia cada uma com uma
equipe diferente, mas todas através do mesmo estúdio,
uma dependia da outra. E quando as editoras muda-
ram suas políticas de vendas, exigindo mais vendas, e
uma parte em comercial, os projetos ficaram inviáveis.
A única que tinha um comercial um pouco mais forte
era Rap Brasil, que ainda durou um tempo a mais, mas
mesmo assim se mostrou inviável no modelo comercial
em que trabalhávamos e também não resistiu às pres-
sões do mercado.
BUZO: Quais as chances de voltarmos a ter nas bancas
uma revista de rap e qual seria a outra opção?
ALEXANDRE DE MAIO: Acho que a opção hoje em dia são os
sites, colocar uma revista na banca é bem difícil. Colo-
quei ao longo de dez anos mais de 180 números, distri-
buídos em diversos títulos, foram mais de 2 milhões de
exemplares nas ruas. Mas o que as pessoas talvez não
saibam é que para se colocar um único numero de uma
revista na rua são precisos mais de 40 mil reais de inves-
timentos. Uma quantia difícil de conseguir movimentar
em uma revista alternativa hoje em dia, principalmente
com o fim da indústria do CD. Talvez uma alternativa seja
através de projetos, mas também é muito difícil, pois
imprensa livre, como eram as minhas revistas, não com-
bina muito com os propósitos da maioria dos editais.
BUZO: Existe um exército do rap nas quebradas. Por que
então a revista tinha problemas com vendas? Seis ou
sete reais é caro pro nosso público?
Mídia do hip-hop 109

ALEXANDRE DE MAIO:Eu acho que o problema não foi só


venda, porque as “grandes” revistas não se viabili-
zam apenas através das vendas, mas sim de um mer-
cado forte e organizado com marcas estruturadas que
apoiam. O hip-hop no Brasil tem um caráter social muito
forte e profissional. Já na área comercial está engati-
nhando, ainda está aprendendo a comercializar os pro-
dutos gerados pelo hip-hop.
BUZO: Como você vê a importância dos sites de hip-hop, e
quem mais divulga rap no Brasil?
ALEXANDRE DE MAIO: Com certeza hoje a internet é o meio
em que mais o hip-hop tem espaço. Na mídia impressa
as portas são mínimas, como a revista Raça ou o jornal
Agora. Na televisão são poucos programas especializa-
dos no Brasil, e só na TV pública. No rádio, as comunitá-
rias perderam a força, programas são poucos e a única
radio que toca rap brasileiro é a 105 FM.
Então a internet, um meio de divulgação que não exige
um investimento alto, se tornou a forma mais viável de
se divulgar nossa cultura.
Hoje na net todos têm importância. Junte os sites, os
blogs, o Twitter, o Orkut, o Facebook, temos uma grande
rede de comunicação hoje.
BUZO: Por que você acha que o rap tem pouco espaço na
grande mídia?
ALEXANDRE DE MAIO: Vejo por exemplo que o caso do rap
é diferente do caso do grafite. O rap brasileiro ainda
é muito carregado de protesto, de denúncia, não se
encaixa na música “feliz” que está na mídia. É um
produto ainda “indigesto” pra indústria da música.
Mas também entendo que o objetivo do rap não é ir
para a grande mídia, talvez seja até o contrário, ele é
110 Hip-hop:dentro do movimento

direcionado pra “pequena” mídia, mas que é aquela


mídia que atinge aquele cara que quer fazer a mudança.
Acho que quando o rap estiver diariamente na grande
mídia vamos ter saudades de quando ele era marginal. E
a grande mídia não é sinônimo imediato de progresso,
rappers como o Xis ou grupos como o Racionais estão aí
para mostrar isso de ângulos diferentes.
Não sou contra quem chega na grande mídia, mas acho
que isso tem que ser um acidente de percurso de quem
faz música boa, e não um objetivo, porque quando você
domestica o rap e faz dele uma música para agradar a
massa, você mata sua principal característica e seu
diferencial, que são a irreverência e o protesto.
BUZO: Isso um dia vai mudar?

ALEXANDRE DE MAIO: Se analisarmos outros movimentos


musicais que começaram com um forte teor de pro-
testo, como o rock e o punk, a tendência do rap é ser
absorvido pela sociedade e se encaixar nos padrões da
grande mídia junto com o processo natural de aperfei-
çoamento da técnica, da comercialização e da música.
Também os avanços sociais do nosso país, pouco a
pouco, podem esvaziar o discurso de protesto. Por outro
lado, os problemas da violência, da educação, não só no
Brasil como no mundo, só aumentam, o que faz com que
eu pense que o hip-hop tem um papel fundamental na
política mundial nos próximos anos.
A força do hip-hop é muito grande, e eu vejo como um
dos poucos movimentos globais que podem pressio-
nar a política mundial por melhorias do planeta. Assim
como no Brasil, em todo o mundo o exército do hip-hop
só cresce, e seus artistas têm forte influência na socie-
dade, todos juntos, pode ser utópico, mas tem a força
para mudar o curso da história.
Mídia do hip-hop 111

O DJ americano Afrika Bambaataa, a cantora Beyoncé,


Mano Brown, os grafiteiros Osgemeos, os b.boys do
TSunami, Nelson Triunfo, Thaíde, MV Bill, entre outros
artistas, hoje influenciam o mundo.

Depois de falar com o Alexandre de Maio, fomos até


Portugal. Lá, mora há três anos uma mina que somou
por anos com a Rap Brasil. Seu nome é Juliana Penha, e
mesmo longe, sempre está presente quando convocada.
Ano passado (2009), foi colunista do jornal Boletim do
Kaos, de São Paulo.

Juliana Penha viu e viveu muita coisa dentro do hip-hop


nacional e hoje soma junto com outros brasileiros em
Portugal, para abrir espaços pro nosso rap lá na Europa.
Vamos saber como ela está e o que tem feito.

BUZO: Por muito tempo você fez parte da revista Rap Bra-
sil. Quais as maiores dificuldades que você via para ter
uma revista nas bancas?
JULIANA PENHA: Acho que a maior dificuldade era o mono-
pólio das distribuidoras. Para chegar a um grande
número de leitores, a revista dependia de uma grande
distribuidora, e isso, de certa forma, limitava um pouco
o nosso trabalho. Recebíamos cartas de todos os can-
tos do Brasil, e é muito importante, a revista chegava
em quase todo o Brasil. Hoje penso que o hip-hop bra-
sileiro tem uma rede que se comunica muito bem e, tal-
vez, quando outra revista surgir, possa seguir um cami-
nho diferente da Rap Brasil, com mais liberdade.
BUZO: Hoje você vive em Portugal. Fale como é o hip-hop
daí, e se tem protesto como aqui.
JULIANA PENHA: Vivo em Lisboa há três anos. É um pouco
complicado falar da cultura hip-hop aqui porque não
tenho uma participação ativa como tinha no Brasil.
112 Hip-hop:dentro do movimento

Existem pessoas que acreditam que o hip-hop é uma


cultura de protesto e outros que o veem apenas como
entretenimento. Aqui existe uma diversidade cultu-
ral que o hip-hop deveria repensar e trabalhar junto.
São tantas comunidades de outros países num espaço
tão pequeno, e se houvesse a integração de todas as
comunidades africanas, brasileiras, asiáticas e euro-
peias que vivem aqui, o hip-hop em Portugal teria uma
riqueza inestimável. Com relação a existir protesto
aqui, existem iniciativas, mas não faz sentido comparar
com o Brasil, porque temos outra dimensão, tanto ter-
ritorial, como histórica e cultural. Em Portugal existem
coisas acontecendo, mas muito lentamente.
BUZO: O que tem feito no hip-hop daí? Algum projeto em
andamento?
JULIANA PENHA: Tenho uma vida de imigrante, ou seja,
tenho que lutar diariamente para pagar minhas des-
pesas aqui, incluindo os meus estudos. Viver em outro
país sozinha é uma experiência e tanto. No tempo que
me sobra procuro escrever projetos para quando voltar
ao Brasil. O DJ Dico e o DJ Loko, que também são de São
Paulo e vivem aqui, estrearam um programa numa rádio
FM, o Gueto em festa, um programa dedicado ao hip-hop
dos países que falam língua portuguesa, e estou me
organizando pra somar nesse time. Espero que seja
mais uma ponte para o hip-hop.
BUZO: O que mais te dá saudade do hip-hop nacional?

JULIANA PENHA: Tenho muita saudade das amizades, das


ideias que trocava, dos eventos de que participava. O
hip-hop brasileiro tem uma energia única, conheci pes-
soas maravilhosas de várias partes do país, que fazem
parte da minha história de vida. Estou há muito tempo fora
e não sei como será quando eu voltar, mas também não
Mídia do hip-hop 113

tenho medo das mudanças, elas são necessárias. Quando


voltar continuarei a dar minha contribuição para conti-
nuar a fazer parte de uma cultura que transforma vidas.
BUZO: Acha que nossos rappers devem estar na grande
mídia?
JULIANA PENHA: Eu penso que é uma decisão pessoal.
Os rappers é que devem decidir o que fazer com suas
carreiras. Acredito no livre arbítrio. A grande mídia já
está sendo utilizada por alguns rappers e por outros
integrantes da cultura hip-hop há algum tempo e
houve resultados positivos. Só acho que qualquer
representante da cultura hip-hop deve pensar se a
sua presença em determinados programas ou conte-
údos da grande mídia contribui de alguma forma para
a evolução da cultura. E se não vai contribuir, para que
perder tempo? Né não?

Agradecemos a atenção da irmã que chegou pra somar


nesta obra, provando que distância não é barreira
quando queremos fazer acontecer.

Mas o assunto mídia do hip-hop vai seguir falando com as


mulheres, afinal de contas, é uma mulher que comanda
o programa que mais tem hip-hop na TV do país, seja ela
aberta ou canal pago. Seu nome é Maria Amélia, e ela é
editora-chefe do programa Manos e minas da TV Cultura,
que estreou em 7 de maio de 2008 com o Rappin Hood de
apresentador. Depois, em 2009, com a saída do Rappin
Hood, o programa passou a ser apresentado pelo Thaíde,
que ficou o ano todo, mas deixou o mesmo no início de
2010 para encarar um novo desafio: ser um dos apresen-
tadores do programa A liga, da Band. A responsabilidade
de estar à frente do Manos e minas ficou pro Max B.O.,
que veio da Rede TV!, onde fazia o quadro “MC Repórter”
do programa Brothers.
114 Hip-hop:dentro do movimento

Desde o começo no time, e desde 2009 no comando,


Maria Amélia mostrou experiência para a missão, afinal,
não é marinheira de primeira viagem. Antes da entrevista
exclusiva com ela, vamos ver seu currículo:

Editora-chefe do Manos e minas


Assessora da presidência da Fundação Bienal de São Paulo
Editora-chefe do Caderno de TV do Jornal da Tarde
Diretora da revista Raça Brasil
Diretora do programa Vitrine, da TV Cultura
Editora-chefe do programa Metrópolis, da TV Cultura
Integrante da equipe de criação do programa Metrópolis
Editora-assistente de cultura da revista Veja
Estagiária, repórter e crítica de música no Jornal da
Tarde/Estadão

Em 2000 foi agraciada com a Comenda da Ordem de


Zumbi dos Palmares, do Ministério da Justiça/Governo
Federal. Esta é Maria Amélia do Manos e minas, vamos
então falar com ela.

BUZO: Como é ser diretora do Manos e minas da TV Cultura?

MARIA AMÉLIA: Sou editora-chefe do Manos e minas, o que,


traduzindo, quer dizer que sou a pessoa responsável
pelo conteúdo do programa. Dou a palavra final sobre
as reportagens que serão exibidas, aprovo os musicais,
dirijo o apresentador, escrevo o roteiro final. Da minha
experiência profissional talvez seja o projeto mais desa-
fiador. Dar voz à cultura de periferia tem sido um aprendi-
zado diário. Os parâmetros são outros porque a relação do
nosso público com o programa também é diferente. Não
há outro Manos na TV aberta brasileira. Então, nossos
espectadores têm um carinho especial por ele, é uma voz
que eles não querem que se cale. “Vigiam” nossos pas-
sos, cobram, sugerem, são também “donos do pedaço”.
E a gente tem de descobrir uma maneira de fazer um bom
programa de televisão ao mesmo tempo em que funcio-
namos como uma ilha para o povo da periferia.
Mídia do hip-hop 115

BUZO:O Manos e minas é o programa que mais passa


hip-hop na TV do país, seja ela aberta ou canal pago.
Como você encara isso, e como tem sido trabalhar com
hip-hop no Brasil?
MARIA AMÉLIA: A sensação é muito boa, especialmente
quando vemos – ainda que esporadicamente – outras
emissoras chamando artistas de rap que já passaram
pelo nosso palco. Estamos abrindo um caminho, não
resta a menor dúvida. Trabalhar com hip-hop nesse
universo que descrevi na resposta anterior é estimu-
lante e difícil ao mesmo tempo. Manos e minas é um
programa de televisão numa TV educativa, voltado para
um público juvenil. Há parâmetros dentro da programa-
ção, e isso também norteia o nosso quadro de atrações
musicais, por exemplo. Não podemos no fim de tarde do
sábado, quando o programa é exibido, levar um tipo de
música incompatível com o horário e o público a que se
destina. Muita gente contesta isso, mas entre não exibir
algumas atrações e manter o programa no ar, escolho a
segunda opção. É importante que Manos e minas conti-
nue na grade de programação da emissora.
BUZO: O que sente, você pessoa e não diretora, sobre o
hip-hop no Brasil?
MARIA AMÉLIA: Talvez seja a cultura que, neste momento,
mais representa a juventude brasileira – pelo menos a
de menor poder aquisitivo. Ninguém mais precisa de uma
gravadora, de um teatro ou de uma galeria para mostrar
sua música, sua dança ou o seu desenho. Se tudo isso é
negado à população mais pobre, ela simplesmente trans-
forma a cidade no seu espaço. Os grafites estão pelas
paredes, as músicas, no Youtube, com pouco investi-
mento dá para fazer uma mixtape e se dança em todo e
qualquer lugar. Ou seja, ninguém segura o hip-hop.
116 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO:Você chegou a trabalhar com os três apresenta-


dores que já passaram pelo programa: Rappin Hood,
Thaíde e Max B.O. (atual). Quais as diferenças de estilos
e como foi (e é) trabalhar com eles?
MARIA AMÉLIA: São três atitudes completamente diferen-
tes e isso ajudou o programa a marcar época. Rappin
Hood fazia o estilo mais grave e intransigente. Thaíde é
uma figura histórica do movimento e trazia consigo essa
bagagem. Alegre, bem-humorado, emotivo e de ótimo
convívio profissional, fez do seu período um dos melho-
res para todos os que estavam encarregados de produ-
zir, editar e colocar Manos e minas no ar. Vivemos agora a
fase de Max B.O. É o mais novo dos apresentadores e tem
uma empatia muito grande com a garotada. Mestre nas
rimas, transforma os textos na hora e acrescenta uma
boa dose de improviso ao programa. Surpreende tanto a
plateia quanto a própria equipe. Considero os três funda-
mentais para o crescimento do Manos e minas.
BUZO: O Manos e minas completou dois anos no ar em
maio de 2010. Força total para a terceira temporada?
MARIA AMÉLIA: Total! Entramos no terceiro ano com a
garra do começo. Como coincidiu de termos um novo
apresentador a cada temporada, é como se estreás-
semos um novo programa a cada ano. Só que com uma
equipe mais experiente, mais dona do assunto, cada
vez mais apaixonada.

Falando em Manos e minas, o Emicida, MC da nova gera-


ção, a partir de 2010 surgiu com o quadro “A rua é nóiz”
no programa. Perguntamos a ele sobre essa nova cami-
nhada. “Sempre quis saber como funcionava a TV por
dentro. Estou lá agora. Até quando eles acharem que sou
um acréscimo bacana pro programa, tenho um quadro
chamado “A rua é nóiz”, e tenho feito entrevistas com
Mídia do hip-hop 117

diversos artistas aí, Sandra de Sá, Ed Motta, Oswaldinho


da Cuíca, só monstrão, e eu tô curtindo o espaço e o que
tenho feito, é um desafio, mesmo sendo duas vezes por
mês, exige uma responsa monstro, mostrar o melhor da
nossa cultura pra essa molecada”, diz ele.

Mas antes do Emicida fazer parte do time do Manos


e minas da TV Cultura, ele já havia furado o bloqueio
da mídia, foi finalista do Prêmio MTV, saiu na primeira
página do caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo, foi ao
programa Altas Horas do Serginho Groisman na TV Globo,
entre outras proezas. Vamos saber como foi:

BUZO: Como você furou o bloqueio da mídia e chegou à


capa da Ilustrada da Folha, no Altas Horas e outros?
EMICIDA: Não sei te dizer ao certo. Sempre acreditei nesse
bloqueio também, nesta barreira que nos deixa de fora
sempre, mas comigo a coisa aconteceu de uma forma
muito natural num esforço conjunto de minha parte com
minha assessoria de imprensa na época e a boa intenção
e vontade da Adriana, da Folha, que foi até lá em casa
conversar. Com o Altas Horas foi a mesma coisa, me man-
daram um e-mail, mas eu não tinha a data, fomos conver-
sando, e foi um puta acerto, porque acabamos indo no dia
da Sandra de Sá, que é sempre bom ver e ouvir!
Acredito que há um bloqueio por parte de grandes veí-
culos, mas alguns jornalistas me parecem bem inten-
cionados com relação ao rap, e temos que sincronizar
nossas energias para o crescimento da coisa e a exposi-
ção dela com suas reais intenções, essência etc. Quem
perde por acompanhar veículos que discriminam um
certo gênero são seus leitores e espectadores, porque
as cenas vivem e seguem intensamente, independente
da imprensa e do espaço que lhes é dado, espaço deve
ser conquistado, sempre dissemos isso! Vamos conti-
nuar com essa filosofia, o rap é o maior exemplo de vida
118 Hip-hop:dentro do movimento

fora dos tabloides, vivemos e somamos com quem acre-


ditamos ser correto em suas intenções, pois é muito
fácil ser mal interpretado.

Mas não podíamos deixar de falar com o Rappin Hood


sobre mídia e hip-hop, afinal foi ele que levou o rap pra
TV Cultura, com o Manos e minas. Quisemos saber como
foi o processo desde antes, quando ele entrou com um
quadro no programa Metrópolis, na mesma TV Cultura.

BUZO: Você foi um dos pioneiros a adentrar um canal de


TV, com mensagem voltada pra periferia, pro hip-hop.
Como você chegou no Metrópolis da TV Cultura, qual foi
a ponte pra você apresentar o quadro “Mano a mano”?
HOOD: Foi um documentário que se chamou No olho da
rua, participavam João Carlos Martins, a Maria Amélia,
Gilberto Dimenstein. Eu fui um dos repórteres desse
documentário que foi produzido pela TV Cultura, depois
disso houve a proposta de transformá-lo num programa,
inclusive eu fui contratado para isso na TV Cultura, só
que depois houve um problema, com quem ia dirigir o
programa, o projeto naufragou. Como eu já estava con-
tratado, me mandaram pro programa Metrópolis e aí eu
comecei a fazer esse quadro que se chamava “Mano a
mano”, e que depois de dois anos resultou no projeto do
Manos e minas, que está no ar até hoje.
BUZO: Você fez o Manos e minas da estreia, o primeiro ano
inteiro e depois se desligou. Qual o sentimento quando
você vê no ar, bate uma saudade?
HOOD: Eu não assisto, cara, não tenho saudade nenhuma,
pra falar a verdade pra você. Eu sei que realizei um bom
trabalho, mas não tenho saudade porque não tinha equipe,
sentimos saudade de pessoas que gostam da gente. Eu
achei legal o que a gente fez, o trabalho que foi feito, só
que pra mim eu me sinto traído, porque a gente ficou um
Mídia do hip-hop 119

ano fazendo reuniões, meu segundo ano no Metrópolis


fiquei todo fazendo reuniões pra chegar nesse projeto,
quer dizer que eu sou um dos fundadores desse projeto,
mas chegou um determinado momento que minha opi-
nião não importava mais, eu preferi me retirar. Eu sinto
vontade de fazer outro programa, outro projeto em outro
lugar, mas saudade do Manos e minas eu não tenho.
BUZO: Eu comecei com você desde o primeiro Manos e
minas e estou lá até hoje, e nas ruas me perguntam de
você. Como vê o carinho desse público e quais as pers-
pectivas pra TV?
HOOD: Pode acontecer, mas no momento tô concentrado
no meu trabalho, CD, DVD, faz cinco anos que estou sem
lançar. Tenho essa nova missão onde a gente está aqui,
que é a Imperador do Ipiranga, estou na vice-presidência,
tem assim contatos, conversas rolando, especulações,
sondagens, de um novo projeto pro Rappin Hood na TV.
BUZO: Você está na disposição?

HOOD: Eu faria, se for algo que eu sinta que vou ter auto-
nomia pra fazer, eu faço, eu gostaria. Rappin Hood ainda
pode ancorar outro programa na TV, com certeza.
BUZO: Você está em outros veículos, como a 105 FM e a
revista Raça. Como foi isso?
HOOD: São dez anos de 105 FM e quase dois anos na
Raça. É algo que eu gosto, eu amo o veículo, foram sete
anos de rádio Heliópolis, agora são dez anos de 105 FM,
e é muito legal fazer rádio, me amarro, gosto de escu-
tar e fazer também.
E a Raça é legal por poder passar informação, o disco
que saiu, o show que vai rolar. Um pouco de eu estar
nesses veículos é que sempre procuramos todas as for-
mas de divulgar o hip-hop, levar ele longe, pra frente.
Rappin Hood Rappin Hoo
Cap.04
Polêmicas
O rap vira e mexe arruma uma polêmica, e uma que já
vem de uns anos pra cá é a do rapper Cabal, que faz um
rap mais pop e recebe sempre muitas críticas. Fomos
falar com ele porque aqui não pode ficar ninguém de
fora, esta obra tem o propósito de dar voz ao movimento
e não cabe excluir, todos devem dar suas versões dos
fatos, e nessa bombástica entrevista Cabal falou, e
como falou. Confira agora.

BUZO: Você é branco, nasceu na classe média, viveu nos


Estados Unidos. Quando entrou pro cenário rap nacional
sofreu algum tipo de discriminação?
CABAL: Sempre rolou discriminação, mas eu nunca sofri!
A discriminação existe em todos os lugares, mas penso
que sofrer é opcional, sofre quem quer... Eu escolhi fazer
o meu trabalho sem me fazer de vítima, saca? Agradeço
a quem gosta, a quem não gosta, mas respeita, e foda-se
quem discrimina.
BUZO: Por que esse tipo do perseguição, se o hip-hop
prega união?
CABAL: Boa pergunta, eu também queria saber (risos). Na
verdade, nossa cultura é muito hipócrita. Prega a união,
mas critica os “boys”, os “gays”, os “emos”... Enquanto
os rappers e as pessoas que vivem o hip-hop não

124
Polêmicas 125

entenderem que, independente do “rótulo”, tudo é rap,


nós vamos ficar nessa merda, nesse “balde de caran-
guejo”, onde um puxa o outro pra baixo. Tem espaço pra
todo mundo, ninguém precisa gostar de tudo, só precisa
respeitar. Precisamos aprender a conviver uns com os
outros. Convivemos com pessoas com gostos e ideias
diferentes diariamente, em nossas famílias, em nos-
sos trabalhos, por que não podemos conviver assim em
nossa cultura? Precisamos nos unir pro rap crescer, um
rapper que se destaca faz o rap se destacar, de novo,
independente do estilo. Veja os outros gêneros musi-
cais, todos têm subgêneros, é saudável ter a “raiz”,
o “alternativo” e, por que não o “pop”, o segmento de
entretenimento. Até porque o rap nasceu como uma
alternativa de diversão, pras pessoas esquecerem os
problemas, deixarem a violência, mesmo que seja por
alguns momentos. “Peace, love, unity and having fun”,
os mandamentos da Zulu Nation, lembram disso? Outra
coisa, quem tem dinheiro? Os “boys”. Como vamos tomar
esse dinheiro, xingando eles? Não, vendendo músicas
pra eles, invadindo a mídia e aumentando nosso público,
nosso mercado consumidor. O problema é que quando se
fala em vender músicas, as pessoas confundem com “se
vender”. Muitos falam “não me vendo”, mas quem quer
comprar? No Brasil, foi criado um estereótipo de que
rapper tem que ser humilde, mas confundem humildade
com pobreza. Precisamos fazer dinheiro de verdade com
o rap, assim como os rappers norte-americanos fizeram
e fazem. Não vamos ficar milionários como eles, mas eu
quero ver os rapper brasileiros com casa própria, com
carro do ano, tirando 5, 10 mil reais por mês, por que
não? Protestar é importante, mas não adianta ficar só
reclamando e esperar o governo fazer alguma coisa, o
rap tá protestando faz tempo e o que mudou? As favelas
continuam aí, a molecada continua fumando crack, os
126 Hip-hop:dentro do movimento

problemas continuam... Se os rappers fizerem dinheiro


com o rap, eles podem mudar suas realidades e a reali-
dade das pessoas próximas, em suas comunidades.
BUZO: Você, com toda certeza, é a pessoa que mais con-
tribui para levantar um rap mais pop, mais comercial.
Quais as principais diferenças do rap hoje, 2010, com o
de quando você começou?
CABAL: Agradeço seu reconhecimento! Hoje, todo mundo
é “rapper”, “cantor”, “produtor”, e a maioria sem
carisma, sem personalidade, sem qualidade, tá ligado...
Hoje, o rap brasileiro tem mais “artistas” do que fãs
(risos), todo mundo é “artista”, só que não tem espaço
pra todo mundo. Isso gera uma competição onde pou-
cos, os melhores, se destacam e vivem do rap. Quase
todos que não conseguem ficam frustrados e, ao invés
de se espelharem nos exemplos de sucesso, viram
“faladores”. Falam que não se vendem, mas quem quer
comprar? Falam mal de quem se dá bem, adoram tretas
no rap e querem que os rappers se fodam, claro, eles já
tão fodidos! É tipo balde de caranguejo, nenhum sobe,
um puxa o outro pra baixo...
Hoje, o rap brasileiro é mais dividido ainda do que
quando eu comecei! Tem a “cena underground”, que se
organizou e faz eventos, mas é a “cena alternativa”, e a
essência do “alternativo” é o oposto do “mainstream”,
Globo, Multishow, Jovem Pan etc. Então, precisamos
organizar “nossa cena” pra ocupar esses espaços que
tocam “nosso estilo” de rap, porém, gringo!
E isso não quer dizer que o “pop” é melhor que o “under”,
tem espaço pros dois, cada um no seu espaço. Um na
rua, no club Hole e o outro no Faustão, no club Pink Ele-
phant. O foda é que a molecada não aceita diferenças,
não respeita o gosto, nem o trabalho dos outros, não
entende que pra um ser bom, o outro não tem que ser
Polêmicas 127

ruim, que só porque você não gosta, não quer dizer que
é ruim, tá ligado? Rapper “under” é verdadeiro e rapper
“pop” é falso (risos). Se eu falo o que eu vivo, a minha
verdade, eu não sou “verdadeiro”? Alguém é “dono da
verdade”? Fora essa molecada de Orkut que ouve Lil
Wayne, 50 Cent, Jay-Z etc. e não fortalece “nossa cena”!
Pior, enfraquece, fala mal, que é “copia dos gringos”
(risos), e o rap “under” daqui não é “cópia” do de lá? Ou o
rap “under” foi criado aqui?
Falta respeito, tá ligado, não precisamos ser “amigos”,
mas não podemos ser “inimigos”! Eu tô fazendo a minha
parte, vi que errei com minhas tretas, procurei os envol-
vidos, desenrolei e, pelo menos da minha parte, não
tenho mais treta com ninguém, respeito todos, inclu-
sive o Marechal, respeito ele e ele sabe disso, mas eu
acredito que são vários caminhos e um só respeito,
caminhos diferentes, cada um no seu, tá ligado...
Você não curte meu som, firmeza, mas respeita minha
correria! Senhorita, Cquarta, Grammy etc. Isso é tra-
balho, amigo, sou pai de família, não tô de brincadeira,
independente de você gostar ou não, respeita quem tá
tentando fazer uma parada que vai ajudar muita gente!
Isso não é só pra mim, se o rap “crescer”, vai abrir por-
tas e gerar empregos pra várias pessoas que acredi-
tam “nesse” rap, que, infelizmente, perdeu o “timing”
e ficou pra trás no Brasil. A cena do rap “pop”, “comer-
cial” nacional, hoje, é mais forte, mas a gente tá, literal-
mente, correndo atrás...
Salve Souldarua, WX, SevenLox, Thaíde, Bomba, Jack-
som, Thig e os manos que se destacam na cena, os verda-
deiros artistas, vamos profissionalizar esse rap nacional!
E você que tá lendo isso, para pra pensar se você real-
mente tem o dom, se você realmente é dedicado e disci-
plinado pra fazer a diferença no rap, irmão, não se ilude,
128 Hip-hop:dentro do movimento

se você não é artista, você pode trabalhar com (e ajudar)


o rap de outras maneiras (técnico de som, jornalista,
organizador de eventos etc.) e você deve ser fã! Reco-
nheça quem são os artistas que se destacam na “nossa
cena” e fortaleça eles, seja fã mesmo, veja os fãs das
bandas de rock, não seja preconceituoso, cubra shows
na sua cidade, ligue nas rádios e peça as músicas, com-
pre produtos originais etc. Porque só assim, o rap “pop”
vai ficar forte no Brasil!
BUZO: Você fez parcerias com sertanejos e grupos da
mídia. Por que essas escolhas?
CABAL: O Pregador Luo fez som com o KLB, o Helião fez
parceria com o Felipe Dylon, o MV Bill fez parceria com
o Di do NX Zero, entre outros, mas enfim, respondendo
sua pergunta... Fiz essas parcerias, primeiro, porque eu
quis! Segundo, porque eu não separo música por gêne-
ros musicais, separo música por qualidade, música boa
e música ruim. Ninguém pode falar que Chitãozinho &
Xororó, por exemplo, são ruins. Podem não gostar, mas
negar que é bom, dentro do que eles fazem, é uma visão
extremamente limitada, ignorante. Eu não ouço Bee-
thoven, por exemplo, mas não posso negar que é bom,
entende? Então, fiz essas parcerias porque eu quis, por-
que são pessoas que, como eu, fazem música com qua-
lidade e porque eu quero popularizar o rap, aumentar
nosso público. Pra isso, são fundamentais as parcerias,
pra colocar nosso rap na mídia.
BUZO: Isso não ajuda a aumentar as críticas ao seu trabalho?

CABAL: Eu não me preocupo com as críticas ao meu tra-


balho. Tenho minha missão que é popularizar o rap. Res-
peito quem é contra, mas espero que respeitem que,
assim como eu, existem milhares de pessoas que que-
rem ver o rap nacional na mídia. Quem não quer pode
Polêmicas 129

continuar ouvindo o rap fora da mídia, não assiste os


programas de auditório, não ouve as rádios “pop” e finge
que eu não existo, simples assim.
BUZO: O que vem a ser a PROHIPHOP, um tipo de uma
posse? Ou uma empresa de marketing? Nos explique
como ela trabalha.
CABAL: PROHIPHOP é o nome da minha editora, gravadora
e produtora de eventos. É mais que uma “posse”, é uma
Família de irmãos e sobrinhos que trabalham, muito, pro
crescimento e profissionalização do hip-hop no Brasil.
Hoje, a PROHIPHOP é representada no Brasil todo com
o Time PRO. Nosso “time”, com “jogadores” e “torce-
dores” que se identificam com nosso “estilo de jogo”,
nossa “estratégia” e nossa “tática”. De novo, quem não
se identifica respeita, e quem não respeita, como diria o
Zagallo, “vai ter que engolir”.
BUZO: Afinal, o que você faz é apenas rap nacional ou é um
estilo próximo do pop?
CABAL: Vou responder por partes. Rap é “ritmo & poe-
sia”. Minhas músicas têm ritmo e eu faço poesia. Antes
que falem que minhas letras não têm conteúdo, poe-
sia é livre, pode falar sobre qualquer assunto, então,
eu faço rap. Sou brasileiro e faço rap no Brasil, então,
eu faço rap “nacional”. Tenho a missão de popularizar
o rap no Brasil, então, eu faço rap “nacional” “pop”. Em
algum momento da história do rap no Brasil, criaram
uma regra que o rap não pode ser “pop”, pior, falam do
“pop” como se fosse um gênero musical e não perce-
bem que “pop” é um adjetivo pra rotular música popu-
lar, independente do gênero, existe rock “pop”, reg-
gae “pop”, por que o rap não pode ser “pop” também?
Então, eu não faço “apenas” rap “nacional”, eu faço
rap, nacional e pop, mas não deixa de ser rap.
130 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO:Qual a mensagem que gostaria de deixar a todos


que amam o rap nacional e o hip-hop em geral?
CABAL: Abram suas mentes. Aprendam a respeitar as
diferenças. Se você não gosta, não quer dizer que é
ruim. Acreditem ou não, eu também amo o rap nacional
e o hip-hop é minha vida.
a São Bento Época da São Bento
Cap.05
Pelo Brasil
O hip-hop está espalhado por todo o território nacional,
isso eu garanto.

Quando estive no Acre, pude conferir o que já sabia.


Nas minhas várias viagens por dez estados brasileiros,
fazendo palestras e matérias para a revista Rap Brasil, vi
que cada estado tem seu estilo e características regio-
nais, mas em todos o hip-hop tem forte apelo entre os
jovens, com diversos seguidores.

Em todos esses locais, vimos que existe um preconceito


contra o movimento, a sociedade no geral ainda acha que
rap é coisa de bandido, sendo que, na verdade, o rap e o
hip-hop resgatam jovens que estão no crime, no tráfico.

Vamos falar com militantes de todo o país e descobrir


como é a cena nas suas localidades, e vamos começar
falando com a Jéssica Balbino,3 ela é jornalista do jornal
Mantiqueira em Poços de Caldas-MG, foi coautora do livro
Pelas periferias do Brasil – vol I e é militante do hip-hop.
Perguntamos a ela:

BUZO: Como você vê a importância do hip-hop na periferia?

JÉSSICA BALBINO: O hip-hop é fundamental para a perife-


ria. Ele é a força que vem do lado negro, pobre e inferio-
rizado. É o grito que emana dos morros, guetos e fave-
las. É a voz dos excluídos da periferia. É a ferramenta
para quem já nasce condenado à exclusão social.

3 www.jessicabalbino.blogspot.com

134
Pelo Brasil 135

O hip-hop é a cultura capaz de pregar paz, amor, diver-


são e união dentro da periferia que já tem toda dor e
sofrimento incutidos na história. Por meio dos elemen-
tos, DJ, MC, break, grafite e conhecimento, o movimento
traz arte, expressão, luta e igualdade de direitos dentro
dos barracos. Consegue, de alguma forma que eu não
sei explicar, trazer luz para dentro das pessoas e incen-
tivar a produção cultural.
Onde toda força da maré é contrária, surge o hip-hop,
que vem para proteger os personagens reais, cercados
pela miséria, violência e desinformação.
Entre as várias guerras e armas, o hip-hop se revela,
para a periferia, a mais sublime de todas as aniquila-
ções do inimigo: o conhecimento e a sabedoria.
Assim, essa cultura que nasceu nas ruas, feita do povo
para o povo, é uma das coisas mais importantes na peri-
feria e para os moradores dos locais menos favorecidos.
Na minha vida, o hip-hop representa resgate, estilo de
vida, cultura e objetivos. Não me imagino fazendo outra
coisa. Não sei existir longe deste universo.
Para mim, hip-hop e periferia se fundem e se transfor-
mam em amor e dor. Paralelamente, enchendo de arte e
cor a vida de quem mora na quebrada.
Na minha visão, a periferia tem um compromisso com
o hip-hop, que sempre a acolheu, ensinou e humani-
zou. As pessoas se tornam bem melhores quando per-
cebem que têm muito para acrescentar a esta cultura,
que indiscutivelmente, tem muito para acrescentar às
pessoas e, por conseguinte, aos guetos.
Minha vivência mostra que por meio das expressões
intensas que o hip-hop oferece ao povo, está a vontade
de viver e a motivação. O mínimo proposto pela cultura é
um olhar livre os preconceitos em direção à (r)evolução.
136 Hip-hop:dentro do movimento

Não consigo ver o hip-hop separado da periferia. É tudo


tão mágico que qualquer definição aquém de funda-
mental parece fora da realidade. E o hip-hop é isso: real.
Vejo-o oferecer oportunidades de empregos, chance
de desabafo por meio das rimas, conforto através das
letras de rap que ecoam nos aparelhos de som super-
modernos e contrastam com a falta de alimentos, vejo
esta cultura alimentar os sonhos da molecada através
da atitude, da postura, dos eventos, da literatura.
Vejo novos escritores surgirem a cada dia de dentro do
movimento, brotando na terra seca da periferia como
planta cultivada com carinho. Vejo palavras duras e
ásperas que não são nada mais do que a realidade crua
de quem não tem o que comer, de quem enfrenta as filas
do presídio para visitar quem está do lado de dentro, de
quem cruza a ponte para o lado de cá e deixa do outro lado
muitos sonhos massacrados e o preconceito deslavado.
Enxergo no hip-hop a importância de trazer de volta
os sonhos daqueles que já não têm mais nada além da
esperança nesta cultura, que colore os muros cinzentos
das cidades com a alegria do grafite, que ofende a elite
com traços gigantes que revelam as mazelas sociais.
Vejo as ações beneficentes desencadeadas por meio
de eventos com arrecadação, de eventos para distra-
ção, de debates para fomento da cultura. Vejo um povo
que luta por dias melhores e que, mesmo sendo vítima
do sistema que tenta combater, não desiste da guerra
diária pela vida. Vejo o hip-hop, de uma forma ou de
outra, estar interligando tudo isso, como o mixer de um
toca-discos, como o som de um scratch, como um passo
de break, como um traço colorido na parede cinzenta,
como a voz de um MC que grita as desigualdades, como
a palavra de um escritor que registra tudo isso e pede:
paz, amor, diversão e união!
Pelo Brasil 137

Jéssica Balbino deu esse depoimento em abril de 2010.


Ela, como dissemos, é jornalista, escritora e se declara
apaixonada pela cultura hip-hop.

A Jéssica Balbino nos traz um depoimento otimista e que


não deixa de ser verdadeiro, mas é o contrário, por exem-
plo, do que nos diz um dos mais influentes produtores de
hip-hop do país, o “poderoso” Celso Athayde, idealizador
da Cufa (Central Única das Favelas) e que tem grande
poder no país. Sua instituição está presente em todos os
estados e promoveu por dez anos o maior prêmio de hip-hop
da América Latina, o Hutúz.

Celso Athayde não dá muitas entrevistas e nos concedeu


esta, exclusivamente para o livro, no mesmo abril de 2010
em que a Jéssica Balbino nos deu o depoimento anterior.
Isso mostra que o hip-hop é encarado de formas dife-
rentes, dependendo de quem vê, da sua posição, do seu
ponto de vista, mas se fizermos a mesma pergunta a dez
pessoas envolvidas no movimento, com certeza teremos
visões totalmente diferentes. Mas vamos à bombástica
entrevista de Alessandro Buzo com o criador da Cufa.
Com vocês, Celso Athayde.

BUZO: Você imaginou que um dia a Cufa ia chegar aonde


chegou?
CELSO ATHAYDE: Seria politicamente correto eu dizer que
não. Mas eu imaginei, sim, ou sonhei. Reconhecer isso é
ter compromisso com a verdade. A Cufa é maior do que
as pessoas têm notícia, temos hoje mais de quatrocen-
tos projetos e estamos presentes em todos os esta-
dos. Organizar uma nave como a Cufa com uma base
de loucos e loucas não é difícil, é impossível... Sempre
tive a certeza de que as pessoas precisavam acreditar
em nós para que, se isso fosse possível, então o milagre
acontecesse. E aí o impossível aconteceu.
BUZO:Qual fator foi determinante para o crescimento
da Cufa?
138 Hip-hop:dentro do movimento

CELSO ATHAYDE: Independência e autonomia. Criar uma


organização para ser o chefe era tudo que não me
seduzia, criar uma chefia era reproduzir a opressão
que o nosso discurso negava. Por outro lado, era pre-
ciso ter articulação e comando. Esse equilíbrio não
é fácil e vai ser sempre a nossa encruzilhada. A Cufa
chegou até aqui desprezando o medo e assumindo ris-
cos. Até onde ela vai eu não sei, mas pelo que parece
ela não vai parar em função das suas características e
membros. Mas sempre soubemos que se os membros
da Cufa não fossem os reais donos das suas conquis-
tas individuais para enriquecer o coletivo, não daria
certo. Pode até não dar certo no futuro, mas não vamos
abrir mão desse protagonismo e da busca pela inde-
pendência em todos os momentos.
BUZO: MV Bill. Quando você viu que ele se tornaria um dos
maiores nomes do rap nacional...
CELSO ATHAYDE: Desde o primeiro momento que conheci
o Bill, ele era disciplinado e obstinado pelo sucesso.
A diferença foi que, na época, o sucesso pra mim era
ele se tornar um grande vendedor de discos, depois eu
encontrei com ele no trem entregando prospectos, não
era de show, eram papéis que diziam que o rap poderia
salvar as pessoas. Ele fazia isso como faziam os evan-
gélicos, só que ele pregava o rap, o hip-hop...
Ele veio trabalhar numa gravadora que eu tinha e numa
loja de discos. Com o tempo percebi que o sucesso pra
ele não era algo relacionado a vendas, mas a uma con-
vicção, seu desejo era levar essa convicção ao maior
número de pessoas. Eu já sabia que ele tinha potencial
artístico desde que ele abria os shows do Racionais,
mas agora ele tinha o que o diferencia dos outros até
hoje: ele não pregava no palco, ele praticava na rua.
Pelo Brasil 139

BUZO: Você escreveu livros em parceria. Como vê a impor-


tância da literatura na sociedade e na periferia?
CELSO ATHAYDE: A palavra periferia me remete a tudo o
que é afastado do centro, então os ricos das periferias
como Barra da Tijuca e outras se camuflam de mais ou
menos pobres para usar nosso discurso e se apropriar
com legitimidade dessa literatura que incentivamos.
Em relação à literatura produzida por nós, favelados,
eu não vejo outra saída que não seja ela, não só como
produtores de conhecimento como de consumidores.
Precisamos levar a arte de MV Bill, Buzo, Ferréz, Afro-
Reggae e outros tantos, pois é importante ler os “asfal-
tistas”, mas é igualmente importante que eles nos
leiam, sobretudo os jovens das chamadas “periferias”,
pois eles precisam reconhecer esses novos atores como
suas referências, nas mais diversas formas de artes.
BUZO: Por que surgiu o Hutúz e por que parar agora, depois
da 10ª edição?
CELSO ATHAYDE: Eu entrei no rap por ver nele uma chance
de ganhar dinheiro, nada mais. O tempo me mostrou a
sua importância e as contradições. Eu já fazia eventos,
era um produtor falido e passei a contratar alguns gru-
pos de rap por causa da demanda. Com o tempo, eu vi
que os grupos eram agressivos e ingênuos, reproduziam
discursos de outros grupos e nenhum dos dois sabia o
que estava falando. Eu ficava impressionado quando
a mídia valorizava a nossa ignorância, como se fosse
uma manifestação cultural legítima, como se todos da
favela ou da periferia fossem necessariamente aquilo.
Eu achava que podíamos falar gírias, palavrões e andar
com roupas largas, mas aquilo tinha que ser uma opção,
exatamente como os góticos que trabalham na Bolsa de
Valores. Mas não, a nossa comunicação era restrita ao
nosso mundo “guetificado” e, lógico, os manos nunca
140 Hip-hop:dentro do movimento

saberiam disso se não se esforçassem para ver o que


tem do outro lado da cortina. Sempre que apareciam os
manos, a mídia dizia: “Olha, lá vêm os meninos e meni-
nas travadores da periferia”, e assim éramos reconheci-
dos como os jovens que protestavam, reclamavam e que
falavam a realidade... A minha história sempre foi a rua,
aquele papinho era um prato cheio para a imprensa, mas
pra mim, não. Tinha grupo que odiava a televisão, outros
diziam que a televisão não ia ser televisionada, e todos
falavam isso em videoclipe na MTV, além de ser televi-
são era e é a porta-voz da classe média. Nada contra,
mas aquilo não me seduzia. Eu não queria ser reconhe-
cido como quem protestava, mas como quem mudava
a lógica. Não queria ser visto como quem denunciava,
mas como quem oferecia alternativas. Essa era a postura
que eu achava certa. E ainda acho, por isso surgiu a Cufa,
que apesar de ter como fio condutor o hip-hop e respeitar
todas as tendências, não somos o “hip-hopismo”, como se
o mundo girasse sobre quatro elementos. Veja, não estou
negando a importância do rap, estou dizendo que até um
momento é bacana, mas se você não altera e avança
pode virar um câncer social para varias gerações, como
virou. O Hutúz parou exatamente porque eu não acre-
dito nesse rap que aí está. Acho de verdade que o Hutúz
tem valorizado esse modelo que tá destruindo a vida de
milhões de jovens no Brasil. Eu fui aos bailes de rap e
fico com vergonha, e jamais deixaria meus filhos irem.
Antes dos grupos entrarem no palco, metade do público
está deitada no chão, em transe... Isso seria anormal se
fosse com qualquer seguimento musical, mas se tra-
tando de hip-hop, de um seguimento que deseja fazer
revolução, isso é o caos. O Hutúz surgiu para apresentar
uma alternativa e revelar outros talentos, que viessem
para protagonizar novas virtudes e ajudar a repensar
nossos equívocos, mas o Hutúz não foi capaz de fazer
Pelo Brasil 141

isso, falhamos. O que fizemos foi simplesmente legi-


timar esse modelo que temos, no qual podemos contar
nos dedos os que desejaríamos que nossos filhos seguis-
sem. E um movimento deve ser o espelho de uma juven-
tude, e não vejo sinceramente o hip-hop como uma saída
decente para a nossa. Vejo, sim, o hip-hop como um grito
de alerta e dor. Até quando queremos sentir isso? A Cufa
entra exatamente aí, sinalizando para uma qualificação,
superação e construção de poder a partir de uma outra
linguagem, postura e compromisso. E por isso eu afirmo:
quanto mais a Cufa cresce e transforma, mais eu tenho
convicção de que eu estou certo...
BUZO: Como você encara uma crítica? Imagino que receba
algumas, é inevitável.
CELSO ATHAYDE: Não tenho acesso a elas, em geral. Por
duas razões: uma porque falo pouco, prefiro realizar,
tanto que você deve ter lido duas entrevistas minhas
no máximo em 15 anos de hip-hop. E segundo porque
as pessoas que fazem criticas não fazem por acredi-
tar nelas, fazem por desabafo, e acho normal. O Hutúz,
por exemplo, não chegaria à décima edição, e no Rio,
se fosse menor do que as críticas; o Oscar é criticado e
todos querem ir vê-lo. Problema é quando ninguém cri-
tica, aí sim eu teria que repensar. As pessoas chegavam
ao Rio acreditando que seus trabalhos seriam capazes
de vencer o Racionais por exemplo, e quando o envelope
era aberto elas se achavam injustiçadas e reclamavam.
O Hutúz foi capaz de revelar grandes nomes e represar o
sonho de muitos. Isso era parte do jogo, um jogo de adul-
tos que nem todos sabem jogar. Mas agora o jogo acabou
por opção minha e eu não acredito que um dia exista um
prêmio como o Hutúz, a menos que seja feito pelos boys.
Criticar é algo que não dá muito trabalho, mas produzir
um livro, um filme, um prêmio, uma organização pre-
sente em vários países, um conceito de basquete de rua
142 Hip-hop:dentro do movimento

capaz de agregar mais de 80 mil pessoas e outras ações,


isso sim faz a gente perder tempo. Acho que a sociedade
é assim, uns ficam na depressão apontando todos os
defeitos do que os outros fazem, e uns fazem milhões de
coisas e viram o alvo. Eu vou sempre preferir surfar no
olho do furacão, e antes de levar em consideração uma
crítica, devemos perguntar ao crítico quais ações eles
fez para saber se está credenciado, pois até para críti-
car tem que ter moral, se não tudo vira a mesma coisa,
e não é.
BUZO: O hip-hop no Brasil está num bom momento?

CELSO ATHAYDE:Seria simpático dizer que sim, mas eu não


vou conseguir mentir pra mim mesmo. Por que estaria
melhor? Faz 15 anos que eu escuto dizer que agora o rap
está em alta. De lá pra cá os grupos vendem menos dis-
cos, fazem menos shows, os grupos femininos desapare-
ceram, e se fizermos uma pesquisa vamos descobrir que
nenhum cantor de rap tem plano de saúde. Só para fazer
uma reflexão. Será que estamos num bom momento?
Se a revista Veja me perguntar, eu vou dizer que o rap tá
arrebentando, que estamos vendendo horrores, que os
bailes estão cheios, que as lojas de roupas e de discos
são nossas e que nossas gravadoras estão muito bem,
e vou dizer mais, que os grupos vivem de rap. Mas como
eu posso dizer isso para o Buzo, que sabe que é mentira?
Vivemos de poucas exceções, a maioria dos grupos está
passando até fome ou vivendo tragicamente, o meu
maior problema é que não conheço as pessoas pelos jor-
nais, conheço os bastidores, então não vou vender ilusão.
BUZO: O que podemos esperar do futuro?

CELSO ATHAYDE: A minha contradição é essa, é apesar des-


sas conclusões acreditar no futuro, e por isso a Cufa
criou o RPB, um festival de rap popular brasileiro. Com
Pelo Brasil 143

isso eu renuncio ao Hutúz e deixo de premiar um modelo


em que eu não acredito que sirva de referência e pas-
samos a investir de fato em novos modelos. Em jovens
hoje com 15 anos, sem esses “vícios”, posso agregar
um novo valor ao hip-hop e que o Hutúz possa voltar em
2030 com um hip-hop que realmente seja uma referên-
cia para a vida dos jovens, que construa identidade, que
forme cientistas, comandantes, e não somente coman-
dados. Que saiam do discurso comum e simplista de que
o rap tira o jovem do crime. Não que não seja possível,
apesar do contrário, mas que o rap, assim como a Cufa,
possa ser um veículo real de transformação, e não de
discurso, que esteja preparado para lidar com o mundo
real, pois enquanto estamos limitados a falar: “Morô,
mano, tá ligado?”, os boys estão aí, tirando onda e tendo
acesso a tudo o que pertence a eles, e como sobremesa
comendo tudo o que é nosso.

Como vimos, Celso Athayde, apesar de ser um dos maio-


res empresários do meio e, por que não, uma das pessoas
que mais soube captar recursos e parceiros, não está
satisfeito com o rumo que o movimento toma. Concordo
com ele no que diz respeito a meia dúzia de grupos, no
máximo dez, talvez, viverem do hip-hop e todo o res-
tante, que somasse aí milhares de pessoas, estar longe
de poder viver só de hip-hop. Alguns têm trabalhos para-
lelos, e muitos passam sérias dificuldades financeiras.
Quando ele diz que nenhum rapper tem plano de saúde,
por exemplo, acho que está exagerando, mas nem tanto,
com certeza bem poucos devem ter.

Mas isso em contraste ao depoimento anterior, da jorna-


lista Jéssica Balbino de Poços de Caldas-MG, mostra o
quanto é complexo o assunto e que ninguém no hip-hop
é dono da verdade, cada um tem sua opinião, cada um vê
por um ângulo diferente.
144 Hip-hop:dentro do movimento

Como disse, Celso Athayde é, sem dúvida, um dos mais


bem-sucedidos empresários do hip-hop, mas como ele
mesmo falou “eu entrei no rap por ver nele uma chance
de ganhar dinheiro, nada mais. O tempo me mostrou a
sua importância e as contradições.”

Não acho errado alguém querer ganhar dinheiro, é para


isso que todos trabalhamos, só que pouquíssimas pes-
soas no hip-hop teriam coragem de assumir isso assim
abertamente, talvez por isso o Celso Athayde seja polê-
mico e receba críticas, mas ninguém pode negar que ele
é um grande articulador.

Cada estado do Brasil tem suas particularidades em se


tratando de hip-hop, existem estados onde o hip-hop é
tratado como cultura e outros em que é, ainda nos dias
de hoje, marginalizado.

Lembro quando fui a Curitiba pela primeira vez, quem me


levou e mostrou um pouco da cidade-modelo foi o pessoal
do Centro de Estudos Políticos e Culturais Ernesto Che
Guevara. Eles fizeram questão de me pôr a par da realidade.
Fora do centro-modelo pulsa uma periferia, com favelas e
problemas mil, fomos falar com o DJ Dex (dex@iddeha.org.
br), do grupo de rap Arquivo Negro, para saber como anda a
cena no Paraná. Acompanhe agora o bate-papo.

BUZO: Qual a importância do hip-hop na sua vida?

DEX: Por mais que seja discurso já batido por muitos da


cultura hip-hop, eu sempre vou falar que a importân-
cia pra mim foi que mudou minha vida.
Eu era mais um na favela que pra sociedade não chegaria
a lugar nenhum. Hoje, com 34 anos, poderia estar morto
ou na cadeia, mais hoje tô aqui, sou educador de um
projeto social onde posso resgatar jovens que como eu
não tiveram muitas chances nessa sociedade, sou DJ do
grupo de rap Arquivo Negro e uma referência dentro da
Pelo Brasil 145

cultura que me resgatou. Pra mim hip-hop vai além do


que muitos veem por aí, é uma filosofia de vida, o seu
proceder no dia a dia.
BUZO: Como é o hip-hop em Curitiba e no estado do
Paraná? Quem você destaca?
DEX: O hip-hop de Curitiba é forte, mas é oprimido pela
cultura da cidade que diz ser de estilo europeu (risos),
é citada por aí como cidade-modelo de primeiro mundo
(risos).
Aí o investimento pra cultura hip-hop é pouco, os espa-
ços são bem restritos para eventos, assim mesmo nós,
da cultura hip-hop, estamos correndo atrás de projetos,
fazendo eventos nas quebradas, cada um do seu jeito,
associados a ONGs, associações ou mesmo atrás de
editais que possam beneficiar algum centro da cultura.
No Paraná há alguns trabalhos em destaque que a
gente tem notícias por aí, como exemplo nós mes-
mos do grupo Arquivo Negro, em parceria com a ONG
IDDEHA, associação de cultura de rua, o MH2O tam-
bém, tem o pessoal fazendo um trabalho por aqui com
o grupo Aliados Linha de Frente, o Nação com o Will,
os meninos de Ponta Grossa do grupo Ponta Rap e do
movimento HPG, a galera do Thiagão e os Kamikazes do
Gueto, sei que em Londrina tem uma rapa que também
faz um trabalho foda, tem também uma irmã da Igreja
Católica que faz um trabalho com hip-hop em Parana-
guá. Como vê, há muitos trabalhos, mas como falei,
também é uma luta pra mostrar, conseguir espaços no
meio da burguesia que mantém a tradição de Curitiba a
“cidade-modelo”.
146 Hip-hop:dentro do movimento

Um dos grupos de rap que considero mais politizados e


que fala de temas brasileiros como Zumbi dos Palmares
é o Z’África Brasil. Falamos com o Gaspar, integrante do
Z’África,4 para saber dele como é esse lance de falar das
nossas raízes e de outros assuntos. O grupo é um dos pou-
cos no país com carreira internacional. Vamos ver o que
nos falou o Gaspar, com exclusividade, em abril de 2010.

BUZO: Z’África Brasil, politizado até no nome. Como foi a


escolha do mesmo?
GASPAR: Sim, o nome foi criado em 1995 pelo nosso
grande mestre Zulu Z’África, DJ e um grande coleciona-
dor de carros e discos antigos. Tivemos a ideia de fazer
um rap bem brasileiro em que pudéssemos contar a ver-
dadeira história dos povos com a visão da periferia.
Z – Zulu, Z’África, Zumbi – Brasil um pedaço D’África
onde nossa história parte do Quilombo dos Palmares
até os dias de hoje.
Zulu, além da referência da nação africana somos mem-
bros da Universal Zulu Nation Brasil, organização que é
uma batalha do King Nino Brown, Nelson Triunfo, Casa
do Hip-Hop e Áfrika Bambaataa.
BUZO: Vocês falam de Zumbi nas músicas. Qual a impor-
tância dele na história do Brasil?
GASPAR: O Quilombo dos Palmares resistiu durante
cem anos, e teve grandes líderes importantes em
sua história, mas nenhum foi tão poderoso e conhe-
cido como Zumbi dos Palmares. Suas estratégias de
defesa e suas lutas vitoriosas se espalharam por todo
o país, ele era brasileiro nascido livre em terras pal-
marinas. Após trezentos anos de sua morte, o dia 20
de novembro se tornou o Dia da Consciência Negra no

4 www.myspace.com/zafricabrasil
Pelo Brasil 147

Brasil, e a importância de sua luta é que ele representa


a verdadeira face do povo brasileiro.
BUZO: Vocês são um dos poucos grupos com carreira
internacional. Em quais países se apresentaram e qual
foi a melhor experiência no estrangeiro?
Gaspar: É isso mesmo, a primeira vez que viajamos para
o exterior foi em 1999, pra Itália, onde gravamos o nosso
primeiro trabalho, Conceitos da rua. Depois fomos algu-
mas vezes pra França, onde em 2005/07 gravamos o
nosso último trabalho, Verdade e traumatismo. Também
fomos pra Bretanha, Inglaterra (Reino Unido), Espanha.
O Funk Buia foi pra Índia e Alemanha, o Gaspar foi pro
Canadá. No estrangeiro o melhor de tudo foi a experiên-
cia e os aprendizados que adquirimos e todas as andan-
ças tiveram seus lados positivos e negativos.
BUZO: Existe rap sem protesto?

GASPAR:Pro Z’África, não! Isso depende da realidade


de cada um.
Ritmo e Poesia pra nós tem bastante protesto, mas
existem mil formas de se expressar e cada um tem o
livre arbítrio pra cantar o que quiser, vivemos a cultura
hip-hop e o que fazemos é música com conhecimento e
muito respeito a qualquer ser humano que a ouve.
BUZO: Pra você, como está o cenário do hip-hop na atuali-
dade, vê um bom momento?
GASPAR: Pra mim essa fase é muito boa, muitos talentos,
muita atividade, todos os elementos em alta rotativi-
dade, programa de TV, filmes, saraus de poesia, mui-
tos projetos sociais. É claro que acredito que ainda tá
faltando mais circuitos e eventos de hip-hop e cultura
da periferia e que nas quebradas tenha mais oficinas e
lojas especializadas em nossa cultura.
148 Hip-hop:dentro do movimento

Pra quem vive a periferia e tem o hip-hop como estilo de


vida, todas as fases são boas. Que fase!
BUZO: O que espera pro futuro do movimento?

GASPAR: Que tenha mais profissionalismo, intercâmbios


pelo Brasil e pelo mundo e que possamos criar nossa
base de subsistência para aqueles que realmente vivem
e respiram hip-hop e arte da periferia.
E é isso, estar sempre em movimento viver o presente
plantando pro futuro.

Podemos observar que Gaspar e o seu grupo vão pra


cima, sem ficar se lamentando, quando ele diz: “Pra mim
essa fase é muito boa.”

Não vejo como um otimismo exagerado, e sim, como a


visão de um cara que não vê obstáculos que não pos-
sam ser vencidos.

Visitei a quebrada dos manos, o Jardim Leme, em Taboão


da Serra, para filmar o meu quadro na TV Cultura, o
“Buzão – Circular Periférico”, e o trabalho deles lá é de
integração total com a comunidade, junto ao coletivo A
Firma e ao time de futebol de várzea Ponte Preta do Jar-
dim Leme. Os manos estão fazendo a revolução.

Por exemplo, um político faz propaganda num muro da


quebrada, eles vão na sequência e conversam com o
morador, propõem um grafite bem louco em cima da pro-
paganda. Isso é combater o sistema, porque aquele can-
didato só lembra do Jardim Leme em época de eleição,
depois não volta mais.

No dia em que filmamos, um domingo, o que se via no


local era incrível; de todos os lados surgiam pessoas
(de crianças a pessoas da melhor idade), vestindo com
orgulho a camisa da Ponte Preta do Jardim Leme, muitas
pessoas. Os grafites que o pessoal faz (CONG) trazem a
Pelo Brasil 149

imagem de um gorila. Perguntei por quê, e a explicação


foi a seguinte: “Aqui não vem bater de frente que ninguém
é macaquinho, é tudo King Kong.”

Aí, na moral, nem tenta que o barato é mil grau. Sintonia


total entre rap, grafite e comunidade.

De Taboão da Serra para o Distrito Federal, falamos com o


rapper GOG (abreviação do seu nome). Genival, ou GOG, é
um dos nomes mais importantes do cenário, um dos mais
politizados e também um dos que mais viajam por todo o
país, levando o rap e o hip-hop social por onde passa.

Tive o prazer de me tornar seu amigo, visitar sua casa


em Brasília e recebê-lo na minha em São Paulo. GOG
fala pelos cotovelos e envolve a todos com um turbilhão
de ideias e rimas.

No bate-papo exclusivo pra este livro, GOG nos falou de


como é estar há mais de vinte anos na cena hip-hop, de
sua visão do momento atual e de sua ligação próxima com
o governo federal. Leia agora o que nos falou o “poeta do
rap nacional”, como também é conhecido.

BUZO: Como é viver o hip-hop há mais de vinte anos?

GOG: É acima de tudo superação. Fico pensando: quanta


gente talentosa e que teria uma contribuição imensa
ao movimento acabou desistindo por falta de oportu-
nidades, de um apoio financeiro mínimo. Isso me deixa
triste, mas não pode jamais nos fazer desistir da cami-
nhada. Por isso, sempre que posso estou apresentando
talentos e propostas.
BUZO: Hoje você dialoga com o governo federal. Qual a
sua ligação?
GOG: Creio que um dos caminhos para que a falta de
oportunidades e de acesso diminua seja o diálogo
com os outros atores sociais e culturais. Os governos,
sejam nacionais, estaduais ou municipais, são atores
150 Hip-hop:dentro do movimento

no processo de formação cultural brasileira, mas se


não forem provocados, continuarão com a mesma polí-
tica de inclusão que há séculos não nos atende. Daí a
necessidade de capilarizar essas veias, ocupar espa-
ços estratégicos. O meu diálogo com o governo federal
é muito bom, até porque votei para que ele se estabe-
lecesse, e hoje, a convite do ministro da Cultura, Juca
Ferreira, sou membro do Conselho Nacional de Política
Cultural, um órgão colegiado que assessora o ministro
na aplicação e criação de políticas públicas na área cul-
tural. Não recebo salário e nem sou do governo. Parti-
cipo, contribuo, enfim, assumo meu papel social, uma
missão que o hip-hop me ensinou a praticar.
BUZO: Você acha que o Prêmio Cultura Hip-Hop vai dar um
fôlego novo ao movimento?
GOG: Pois é. Uma das maiores conquistas que o hip-hop
alcançou nessa relação com o governo federal foi a
abertura do edital do Prêmio Hip-Hop, que na sua pri-
meira edição homenageia postumamente o nosso par-
ceiro e eterno líder, Preto Ghóez, e que vai fazer girar,
financeiramente, nossa engrenagem. Serão contem-
plados 128 projetos em todo o Brasil, divididos em cinco
categorias. As premiações somam R$ 1,7 milhão. São
válidas iniciativas individuais e em grupos, cujas ações
comprovem que o hip-hop tem um caráter social. O prê-
mio para cada vencedor é de R$ 13 mil e vai fazer girar,
financeiramente, nossa engrenagem. Maiores informa-
ções do prêmio no site.5
BUZO: Como você descreve a cena hip-hop hoje em dia no
Distrito Federal?
GOG: O hip-hop brasiliense é um movimento imenso e
cada vez mais organizado. Os bailes continuam lota-
dos. Temos os quatro elementos fortíssimos, rádios

5 www.cultura.gov.br
Pelo Brasil 151

comunitárias, a literatura avança, assim como a dis-


cussão. Uma grande conquista recente do movimento
foi a criação do Sindicato dos DJs. DJs Brother, Elyvio,
Celsão, Nino Mix, Ocimar, entre vários outros e outras,
estão se organizando e discutindo a música e as trans-
formações mundiais. Isso é essencial para o entendi-
mento do momento atual, pensando no futuro.
BUZO: Você acha que o hip-hop está num bom momento?

GOG: Sim. O hip-hop nos aponta infinitas possibilidades,


temos que ter a percepção disso. Temos b.boys viajando
o mundo inteiro com grupos de dança contemporânea.
Outros participando de campeonatos importantíssi-
mos pelo planeta. Veja o momento maravilhoso por que
passa o Emicida. O Dexter, mesmo exilado, fez uma das
maiores celebrações que o hip-hop já viu! Tudo isso é
fruto de muito trabalho!
BUZO: O que você espera do futuro do hip-hop no Brasil?

GOG: Que os seus integrantes voltem a ler sua cartilha. É


de uma profundidade e sabedoria imensa!

Pra mim, o mais importante do que acabou de nos dizer


o GOG, é: “O hip-hop nos aponta infinitas possibilidades,
temos que ter a percepção disso.”

Concordo com ele 100%. As possibilidades existem,


estão aí, mas precisamos enxergá-las pra alcançá-las.

O discurso do “Tá ligado, mano” é coisa do passado.

Devemos sim manter nossa gíria (gíria não, dialeto), mas


saber falar a linguagem de onde estivermos, dialogar de
igual pra igual na favela, mas também junto ao governo,
isso é necessário, é fora do movimento que devemos
buscar apoio financeiro pro hip-hop crescer, isso não é
se vender, se vender talvez seria não devolver nada para
a periferia, abandonar suas raízes.
152 Hip-hop:dentro do movimento

Recebi algumas críticas (não diretamente, mas quem


tem língua fala, e uns têm a língua grande demais)
quando mudei do Itaim Paulista para o bairro quase
central da Casa Verde, um bairro de classe média baixa,
caindo pra alta. Mas essa mudança tinha propósitos,
e hoje, pouco mais de um ano depois, eu não me arre-
pendo nem um minuto. Explico:

Ia mudar de casa de qualquer jeito, no final de 2008, por-


que completava dez anos que eu, minha esposa e meu
filho morávamos numa casa de dois cômodos no Itaim
Paulista, onde vivi ainda minha infância e adolescência.
Pra quem não é de São Paulo, ou mesmo para quem é e
não conhece, o Itaim Paulista tem aproximadamente 400
mil habitantes e é o último bairro da Zona Leste, a 38 qui-
lômetros do Centro.

Quando procurei casa no Itaim, descobri que pratica-


mente pelo mesmo valor de aluguel lá eu poderia morar
na Casa Verde por exemplo, estaria então a 15 minutos
do Centro. Como os locais onde que eu trabalhava eram
quase todos na região central e próximos dela, acabaria
tendo mais tempo para trabalhar, e melhor, mais tempo
pra ficar com minha família.

Pesou bastante o modo como essa mudança seria vista


pelo movimento, afinal sou o “Suburbano Convicto”, mas
preferi não me preocupar com o que diriam as más lín-
guas, primeiro porque ninguém, nos dez anos que morei
em dois cômodos na favela, com córrego fedido nos fun-
dos (um inferno no verão), ninguém foi lá perguntar se eu
estava bem, se precisava de alguma coisa.

Segundo porque minha casa, em cima da minha sogra,


continuaria sendo minha e quando quisesse estar no
Itaim Paulista, ficaria na “minha casa”, terceiro porque
tinha a certeza de que morar mais próximo do Centro ia
me possibilitar produzir mais, ganhar mais e concretizar,
como ainda pretendo, ter minha casa própria, seja na
Casa Verde ou no Itaim. Esse é meu projeto maior de vida,
ter um teto para chamar de meu. Então, se para isso eu
Pelo Brasil 153

tive que vir pagar aluguel na Casa Verde ou onde quer que
seja, para fazer uma ponte, não iria deixar de fazer pelo
que os outros iriam dizer.

Tinha certeza de que a minha contribuição cultural e


social ao Itaim Paulista poderia seguir independente de
não estar mais morando no bairro, e foi o que aconteceu.
No ano de 2009, que foi o primeiro que passei inteiro na
Casa Verde (desde dezembro de 2008), promovi no Itaim
Paulista três edições do meu evento Favela Toma Conta,
uma dessas edições, o tradicional Dia das Crianças, pelo
sexto ano seguido no CDHU Itaim. Então, não estar dia-
riamente no bairro não impediu que eu fosse a pessoa
que mais promove eventos no mesmo. Isso é o que chamo
de não abandonar suas raízes.

O discurso de “Daqui eu não saio” é antigo.

Mas você não mudar do lugar, e não fazer nada por ele,
não adianta nada.

Em 2009 eu produzi, sem captar nenhum real em lugar


o filme Profissão MC, gravado na Comunidade D’Avó, no
Itaim, levei o bairro para as telas dos cinemas, quase
90% dos atores e figurantes eram compostos por mora-
dores do Itaim. Isso vale mais do que eu morar ou não
no lugar.

O Itaim Paulista será eternamente minha quebrada, por-


que ela não é só o meu CEP, ela é a minha vida, minhas
raízes e minha bússola. Costumo dizer que “sou de um
lugar distante, que talvez você não queira conhecer, mas
é lá que me sinto bem.”

Cito o bairro também numa poesia que costumo decla-


mar nos vários saraus espalhados pela cidade:

Me chamo Alessandro Buzo


Orgulho de ser brasileiro
Não só em ano de Copa,
São Paulo, metrópole,
Minha terra, meu lugar.
154 Hip-hop:dentro do movimento

Só lá do fundão da Leste.
Lugar de cabra da peste.
O Itaim é o Paulista,
Não é o Bibi6 dos boy
Gueto, periferia, favela
É tudo isso que vejo,
Olhando da minha janela.
Lugar melhor que lá não existe.
É lá que escrevo meus livros.
É lá que cresce meu filho.
Gosto tanto do lugar
Que costumam me chamar...

De Suburbano Convicto

Essa poesia foi a primeira minha que meu filho declamou


na vida, em público.

Eu não me considero um poeta, porque sou escritor de


romances e crônicas, mas tento a sorte de vez em quando
na poesia, que admiro bastante.

Ver meu filho declamar essa poesia “sozinho” numa pales-


tra minha, uma vez numa escola particular classe AAA, me
encheu de orgulho. Depois disso andamos declamando-a
juntos por aí, quando o Evandro está a fim.

Ela reafirma de onde eu sou e de onde eu me orgulho de ser.

Falem o que quiserem, como diz o ditado: “Falem bem,


falem mal, mas falem de mim.”

Só que eu sou favela toma conta, suburbano convicto e


Itaim Paulista até depois do final.

No segundo semestre de 2010, caindo pra 2011, tô arti-


culando de ter o Espaço Suburbano Convicto, um local

6 Trata-se de uma comparação do Itaim Paulista (periferia) com o Itaim Bibi,


reduto da elite paulistana.
Pelo Brasil 155

no Itaim Paulista com apoio captado de fora pra dentro,


onde pretendo ter uma biblioteca, sala de exibição de
filmes e ainda diversas palestras e oficinas. Um sonho
grandioso, mas se é para sonhar, vamos sonhar alto e,
principalmente, viabilizar para não ficar apenas no sonho
e trazer isso para a realidade.

Mas seguindo em nossa viagem pelo Brasil do hip-hop,


fomos falar com um cara que tem o movimento até no
nome, mas ele não é de São Paulo ou do Rio de Janeiro,
ele é do Acre. Existe (e muito) hip-hop no Acre. Falou com
a gente sobre isso o Augusto do Hip-Hop, direto de Rio
Branco, capital do Acre (fronteira com a Bolívia). Ele é
organizador do Encontro Norte de Hip-Hop.

Como disse anteriormente, o hip-hop está em todo o


país. Confira aí.

BUZO: Nos fale do projeto atual de vocês aí no Acre, o


Repensando a Juventude.
AUGUSTO DO HIP-HOP (DIRETO DE RIO BRANCO-ACRE): Bom, o pro-
jeto Repensando foi uma iniciativa nossa, a gente faz
projetos dentro das comunidades pra rapaziada, for-
mamos grupos de rap, ajudamos a fortificar os mesmos,
mas na hora de produzir, quem produz? Aqui no Acre tem
que ralar pra gravar, e como a gente corre atrás, conse-
guimos. Conseguimos um convênio com a prefeitura de
Rio Branco através do próprio prefeito da capital, uma
verba para ser aplicada em produção, elaboramos o
projeto para aquisição dos equipamentos, através dele
produziremos cinco grupos de rap da capital e do inte-
rior, com selo da Seringueiro Records.
BUZO: O hip-hop aí aborda temáticas locais. Vocês falam
do que nas letras?
AUGUSTO DO HIP-HOP: Falamos de tudo um pouco: polícia,
selva, tráfico de drogas, pedofilia, revolução acreana,
desigualdade social, meio ambiente, tráfico de animais,
156 Hip-hop:dentro do movimento

das estradas de acesso aos outros municípios daqui, do


governo, de nós mesmos, de Deus, enfim, tem uma gama
que se eu for relatar vai entrar por outro dia...
BUZO: Como é o Encontro Norte de Hip-Hop que você
promove?
AUGUSTO DO HIP-HOP: Cara, o Encontro Norte é onde a gente
troca ideia, o MHF, MHHOB, organizações de hip-hop
daqui e de fora do Acre. Geralmente quem participa é
rapaziada do Peru, da Bolívia, do Acre, de Rondônia.
BUZO:Rio Branco, no Acre, tem ideia de quantos grupos
tem aí de rap?
AUGUSTO DO HIP-HOP: O Acre já sabe quem somos, pois
estamos em todos os movimentos, isso é, o Núcleo de
Hip-Hop Mocambo, organização da qual eu sou o coor-
denador geral. Hoje no Mocambo temos em torno de
sete grupos de rap na ativa, fora outros grupos do inte-
rior que fazem parte da rede Mocambo de hip-hop.
BUZO: Quando eu estive aí, vi que tem muito break e gra-
fite. Como está a cena dos quatro elementos hoje?
AUGUSTO DO HIP-HOP: (Risos) Se Deus quiser vai colar de
novo (risos), mas aqui nós estamos nos formando e nos
informando cada vez mais. Eu sou o primeiro do hip-hop
do Acre a se formar, e junto comigo no Mocambo temos
mais oito integrantes que estão em fase final da facul-
dade. Pra você ver, nós estamos criando o conceito de
sustentabilidade dentro do hip-hop acreano, mas nos
formando tecnicamente em algumas áreas acadêmicas
afins, pois então a cena tá forte em alguns segmen-
tos, em outros não. Não temos, por exemplo, DJ aqui.
Temos apenas break, rap, grafite, e o conhecimento
que se prolifera graças a Deus, feito praga (risos). Fora
o DJ, o resto tá “fogo,fogo”!
BUZO: Como vocês veem o rap de São Paulo aí?
Pelo Brasil 157

AUGUSTO DO HIP-HOP: Pô, São Paulo é inspiração, caboco.


Tamo no corre de trazer a Realidade Cruel em novem-
bro, Racionais prevalece em todo, beco, em toda selva.
Pra você ter ideia, meu trampo é longe pra caralho, fica
a quase meio dia de barco pelo rio Acre, subindo contra
a correnteza, e lá na escola em que eu leciono, os mole-
ques de cinco séries tudo escutando Facção, Racio-
nais, A Família, A286 e Realidade Cruel, sem falar do
nosso som também, Corre Negão, Terra Conquistada,
Não Pague pra Ver, entre outras. Por fim, temos inspira-
ção em muitos grupos de São Paulo porque [o rap pau-
listano] é um marco, é o início, é respeito, faz parte da
história, é difícil falar de rap e não falar de Racionais ou
de GOG. Hoje respeitamos, mas assumimos identidade
própria, nosso som é diferente, procuramos um elo per-
dido por entre nossas letras.
BUZO: O que o hip-hop significa pra sua vida?

AUGUSTO DO HIP-HOP: Caralho! Essa pergunta novamente...


Falar o que representa na minha vida, putz, mano até
me emociono, é foda, mas, aê, vivo e respiro essa cul-
tura, é minha família, é meu moleque, são os chegados,
é a nossa vitória, é uma doença sem cura no meu orga-
nismo, mano, vou morrer por essa porra! Porque acre-
dito que este movimento modifica, faz a diferença, e
podemos ganhar a vida fazendo isso. Digo porque ganho
a minha vida, sustento meus filhos e carrego a minha
casa através do hip-hop. Hip-hop é minha escola, com a
ajuda de Deus foi com ele que eu aprendi respeitar e ser
respeitado, dentro e fora do Acre.
BUZO: Seu nome é Augusto do Hip-Hop. Como é ter hip-hop
até no nome?
AUGUSTO DO HIP-HOP: Alegria, satisfação, humildade, res-
peito e responsabilidade.
158 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Neste livro você está sendo lido por pessoas de


todo o país. Que mensagem o hip-hop do Acre quer man-
dar neste momento, pra quem vai ler? Fique à vontade, a
palavra é toda sua.
AUGUSTO DO HIP-HOP: Sou rapper, grafiteiro, popping e
sociólogo. Deus me mostrou um norte na vida através
do hip-hop, e sigo a mesma com esse propósito. Um dia
me disseram que hip-hop não era futuro pra ninguém,
e que eu ia morrer de fome se continuasse. Bom, hoje
graças a Deus sou uma referência em todo o territó-
rio nacional dentro desta cultura, e com muita humil-
dade e respeito agradeço a Nino Brown, Nelsão e Bboy
Danzinho, que têm meu respeito eterno. Buzo, um cara
que, carai, sei lá, você e demais. Lamartine (Clanordes-
tino), Mano Brown, Edi Rock e Kl Jay (Racionais), uns
caras que trocaram umas ideias e sempre respeitaram
a gente olhando no olho. A rapaziada da Máfia Nortista,
meu chegado Preto Michel do Pará, Fama de Rondônia
e, por fim, minha esposa Nadir, que me fortalece quando
pareço estar perdendo a fé, meus quatro moleques de
mães diferentes (risos) Arquiney, Jessica, Felipe e
Neto, pérolas raras de um conto de fadas, sem palavras.
A todos que contribuem para este elenco, um abraço.
Para os que não acreditam que o hip-hop pode ter sus-
tentabilidade, eu apenas lamento, porque não penso
assim, e sou prova disso. E para os que estão come-
çando no movimento, cuidado, tenham paciência, por-
que senão o jacaré abraça. E para os que estão de longa
data, calma, o que é nosso tá guardado, ninguém toma.
E para os inimigos, um abraço de serpente com choque
de puraquê acompanhado de muita paz e obrigado, sem
vocês para torcer contra não teria graça a nossa vitória!
É isso aí, rapaziada. Deus é mais e “hip-hop não para”!
Pelo Brasil 159

Mas o Brasil é gigante e fomos até o Piauí, falar com o Gil


BV, que é uma das referências do rap no estado, saber
dele como anda a cena por lá.

BUZO: Como é a cena hip-hop no Piauí?

GIL BV:A cena no Piauí vem crescendo a cada dia. Hoje


o trabalho do hip-hop do Piauí é mais voltado para pro-
jetos socioculturais. Já estamos com cinco anos que
temos o Centro de Referência da Cultura Hip-Hop, que
realiza capacitações nos elementos da cultura hip-hop,
informática, mecânica.
BUZO: A internet ajudou quem faz hip-hop fora do eixo
Rio-SP?
GIL BV: A internet tem sido o maior veículo para que pos-
samos divulgar nossas atividades, principalmente pros
grupos de rap, e nossas atividades em comunidades de
Teresina e do interior. Mas hoje podemos observar uma
cena diferenciada do hip-hop do Norte e Nordeste pro
hip-hop do eixo Rio-SP, pelo conteúdo político e social,
e isso pode ser observado nas centenas de blogs, sites,
myspaces, onde os grupos não se preocupam somente
com a qualidade cultural do elemento que representam,
temos uma preocupação de resgate e valorização da
autoestima do nosso povo.
BUZO: Hip-hop salva?

GIL BV:Salva, com certeza, mas ele não funciona como


uma espécie de igreja onde terá um padre, um pastor
pra fazer intervenções e direcionar os parceiros pra um
determinado caminho. A salvação vem da força de von-
tade de cada um em conquistar seu lugar e direcionar
sua força para o objetivo que pretende conquistar atra-
vés da cultura hip-hop.
BUZO: Por que você entrou no hip-hop? O que buscava?
160 Hip-hop:dentro do movimento

GIL BV:Quando entrei, em 1994, só queria aprender a


cantar, buscava instrumentais, queria local pra ensaiar,
parceiros e aliados para montar um grupo. Só que no
decorrer da caminhada eu vi que isso era muito pouco
pro tamanho da capacidade que tínhamos e pro tanto de
capacidade que temos hoje, em pular obstáculos, reali-
zar várias conquistas que vão da gravação dos CDs de
vinte grupos de Teresina à conquista de políticas públi-
cas específicas pro hip-hop, principalmente em Tere-
sina-Piauí, estado com o segundo menor IDH do Brasil.
Mas temos pessoas que estão mudando essa realidade,
e uma grande parcela delas está praticando um ele-
mento da cultura hip-hop em Teresina, principalmente
no Centro de Referência da Cultura Hip-Hop.
BUZO: O que espera do hip-hop no futuro?

GIL BV: Espero que vários parceiros possam viver e usufruir


da nossa cultura como fonte de renda, o que já vem acon-
tecendo, só que ainda é pouco; espero que possamos ser
capazes de gerar mecanismos de autogestão e susten-
tação, nos quais os vários praticantes dos elementos da
cultura hip-hop no Brasil sejam protagonistas dos gran-
des eventos, festivais e projetos do hip-hop brasileiro.

Outra referência do hip-hop nacional e que não poderia


deixar de falar é o produtor DJ Raffa de Brasília-DF. Ele
produziu clássicos do rap nacional e ainda hoje lança
trabalhos importantes, escreveu essa história no livro
Trajetória de um guerreiro, biografia que saiu pela Aero-
plano Editora.

Sua vida é um livro aberto, e nesta entrevista exclusiva


ele nos mostra toda a sua experiência. Vamos lá.

BUZO: Você é um dos maiores produtores de rap do país.


Narre um pouco do que já produziu nestes anos todos.
Pelo Brasil 161

DJ RAFFA:Não sei se me considero um dos maiores pro-


dutores de rap do Brasil. O que eu tenho certeza é de
ter contribuído muito com o fortalecimento do hip-hop
brasileiro com as produções que eu fiz durante os meus
mais de 25 anos de caminhada, e de ter ajudado muitos
grupos e de ter feito trabalhos que se tornaram clássi-
cos do rap nacional. Acho que o que me tornou o que sou
hoje, tendo esse reconhecimento, foram as minhas ati-
tudes dentro e fora do movimento. Mas, graças a Deus,
eu ainda estou em plena atividade e não pretendo me
aposentar tão cedo.
BUZO: Sua obra mais importante no hip-hop?

DJ RAFFA:Isso fica muito difícil de responder. Você pode


avaliar ela de várias maneiras. Por exemplo, se for por
vendagem de discos é o De Menos crime – Fogo na
bomba, 120 mil cópias vendidas. Se for pela introdu-
ção de um estilo que uma geração inteira copiou depois,
Baseado nas Ruas – Bagulho na sequência. Se for pela
música que se tornou hino de toda uma geração de
amantes do rap nacional, Câmbio Negro, Sub-raça. Se
for por um disco que praticamente tocaram todas as
músicas em bailes e programas não só em São Paulo
mais no Distrito Federal também, Comando DMC – São
Paulo está se armando. Se for por colocar um dos maio-
res poetas do rap nacional entre os maiores artistas do
Brasil, GOG - CPI da favela, apesar de eu gostar muito do
Dia a dia da periferia. Se for por um grupo que marcou
toda uma geração e conseguiu tocar as suas músicas em
rádios não especializadas do rap, Consciência Humana,
os dois primeiros discos. E, pra finalizar, se for por colo-
car as mulheres de igual pra igual sem dever nada para
os homens, Atitude Feminina, com o disco Rosas, pra
mim o divisor de águas da nova geração do rap feminino.
GOG
GOG
164 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Você escreveu um livro sobre sua trajetória. Afinal,


o conhecimento é o quinto elemento?
DJ RAFFA: A responsabilidade e a consciência social alia-
das ao conhecimento e ao voluntariado de passar o
conhecimento certo para as futuras gerações, isso pra
mim e o resumo do quinto elemento.
BUZO: Por que grandes nomes do passado estão per-
dendo campo pra uma galera da nova geração?
DJ RAFFA: Porque simplesmente não se reciclaram ou não
aceitam que existe uma nova geração fazendo muitas
músicas boas e tendo atitude positivas. Aí eles se tran-
cam no seu mundo e ficam perdidos por lá. Eu mesmo
me considero um artista reciclado e procuro estar atua-
lizado ao máximo respeitando o trabalho da nova gera-
ção, mas ensinado que deve se respeitar aqueles que
abriram as portas para eles.
BUZO: Hip-hop salva?

DJ RAFFA: Salva! E salva muito! Experiência própria com


alunos que trabalhei e grupos que produzi que viam
o caminho do hip-hop para um mundo melhor e mais
qualidade de vida.
BUZO: Você produz o grupo feminino Atitude Feminina.
Por que existem poucos grupos femininos, e por que cola
pouca mina no movimento em geral, em shows etc.?
DJ RAFFA: Porque o rap nacional ainda é muito machista.
E porque o cara machista que curte rap, se é casado
não leva a esposa pro show de rap ou baile. Porque
ainda tem muito grupo fazendo música só pra eles mes-
mos ou pra mostrar pra outros grupos de rap que eles
podem ser melhores, em vez de fazer música para o
povo, para o público. E porque as minas, quando sobem
no palco e rimam melhor do que os homens, ainda há
preconceito porque eles não aceitam. E porque quando
Pelo Brasil 165

um grupo de rap feminino se destaca, os homens “que


têm grupo” não aceitam. E tudo isso e muito mais.
Posso te dizer que, lamentavelmente, em um grupo de
discussão que eu estive na Teia, em Fortaleza, sobre
os pontos de cultura que trabalham com a cultura hip-
hop, quando eu e um colega apontamos que queríamos
uma mulher representando o nosso grupo de trabalho,
o machismo reinou na reunião. É lamentável que den-
tro do hip-hop ainda tenhamos que discutir questões
de gênero que, para mim, ao meu ver, já deveriam estar
superadas há muito tempo.
BUZO: Você vê o hip-hop num bom momento?

Tenho medo que o hip-hop se torne uma moda


DJ RAFFA:
tão grande que acabe. Eu luto exatamente contra isso.
Acho que o hip-hop já é algo enraizado a ponto de estar
sempre presente sem precisar se tornar uma moda de
roupinha ou musiquinha que não diz nada com nada!
Respeito toda forma de arte dentro e fora do hip-hop, só
não posso aceitar quando querem deturpar tudo aquilo
que levamos quase três décadas para construir. Porque
no mundo sempre é mais fácil destruir do que construir.
BUZO: O que você espera do futuro do hip-hop?

DJ RAFFA: Pelo menos aqui no Brasil espero que ele se


espalhe com consciência e positividade. Acho que já
passamos da fase de ficar só reclamando. Muitas coi-
sas mudaram e melhoraram. Então chegou a hora de
arregaçar as mangas e colocar o time em campo. Porque
e muito fácil militar, ficar só na discussão e não realizar
nada. Na maioria das vezes, só conseguem criticar e não
dar ideia nenhuma. Ir pro campo de batalha, então, e
fazer alguma coisa, aí nem se fala! Precisamos de mais
ação e menos discussão!
166 Hip-hop:dentro do movimento

Outro produtor de destaque na cena rap nacional e que


vem de Brasília-DF é o Ariel Feitosa, que fez recentemente
a produção do CD e DVD do GOG, Cartão-postal bomba!

Vamos bater um papo com ele e ver como Ariel Feitosa


pensa o hip-hop.

BUZO: Como é ser um dos maiores produtores do país?

ARIEL FEITOSA: Pra mim é uma honra enorme, o nosso país


é muito grande e tem várias pessoas muito talentosas e
batalhadoras dentro da nossa cultura, e você ser reco-
nhecido e respeitado pelo seu trabalho e pela sua con-
tribuição dentro da cultura hip-hop é muito gratificante.
BUZO: Como anda a cena hip-hop no Distrito Federal?

ARIEL FEITOSA:A cena do Distrito federal está em um


processo de evolução que me agrada muito, Brasília
sempre foi um celeiro de ótimos produtores e artis-
tas. A tecnologia, hoje em dia, está muito próxima das
pessoas, isso facilita muito o processo de criação que
automaticamente gerou uma demanda de vários produ-
tores e novos trabalhos. Eu estou no comando há mais
de um ano de um programa de rádio na Rádio Nacional
AM em parceria com a Cufa, que é um programa total-
mente direcionado pro rap brasileiro, e automatica-
mente acabo escutando e analisando todas as músicas
que chegam pra mim, que estão sendo criadas no Brasil
e principalmente em Brasília, e o que eu vejo e escuto é
uma postura mais profissional, relacionada às letras e
ao áudio dos novos artistas. Vejo os grupos se preocu-
pando com todos os detalhes, desde visual gráfico, mis-
turas dos ritmos com a batida do hip-hop, e uma preocu-
pação mais cuidadosa com as letras, de falar temas não
muito usados na caminhada do rap brasileiro, e isso me
deixa muito orgulhoso. Cada vez mais estão aparecendo
vários artistas da cidade desapontando para o Brasil.
Pelo Brasil 167

Gosto muito da Flora Matos, Abuh, Lívia Cruz, Ataque


Beliz, Rapadura, do Duck Jay e da turma do Tribo da
Periferia, fora os que já estão na cena há algum tempo,
como o Viela 17, Atitude Feminina, o mestre GOG, entre
outros, que estão ganhando espaço e destaque no país.
BUZO: Principais obras suas no hip-hop?

ARIEL FEITOSA: Os meus principais trabalhos na atua-


lidade são: DVD/CD ao vivo do GOG, Cartão-postal
bomba, com a participação do Lenine, Maria Rita, Ger-
son King Combo; MV Bill, com o seu novo álbum, Causa
e efeito; o novo álbum do grupo Consciência Humana,
que será lançado no segundo semestre de 2010, Rene-
gado, de Belo Horizonte; Rapadura, com Fita embo-
lada do engenho; Natiruts, com um remix “Dentro da
música”; Ellen Oléria, a maior revelação da música bra-
siliense; e estou lançando pelo meu selo Haller Music,
em 2010, a artista Lívia Cruz e o rapper Abuh de Brasí-
lia, que são um grande achado na minha vida.
BUZO: Hip-hop salva?

ARIEL FEITOSA: Sempre! Mas você precisa trabalhar. Nada


vai ser por acaso, é como você querer ser médico, tem
que estudar muito, eu acho que o hip-hop como cultura
dá um monte de oportunidades para os jovens, mas não
adianta querer viver só de glamour, você tem que traba-
lhar duro pra conseguir as suas coisas, como em qual-
quer profissão. Como dizia o poeta Renato Russo, quem
acredita sempre alcança!
BUZO: Você acha que o hip-hop, com o prêmio do MinC
entre outras coisas, está num bom momento?
ARIEL FEITOSA: Sim, todo mundo está ficando mais profis-
sional, todo mundo querendo entender como funciona
esse processo todo, eu vejo um interesse muito grande
168 Hip-hop:dentro do movimento

dos artistas que fazem a cena hip-hop buscando se


informar e saber como eles podem ser beneficiados. Já
que existe uma iniciativa governamental, por que não
usar essas ferramentas? Sobre o prêmio do MinC, eu
acho uma iniciativa muito válida, é sinal de que estão
de olho na cultura hip-hop no país e, se estão de olho, é
porque ela é muito importante.
BUZO: O que esperar do futuro do hip-hop?

ARIEL FEITOSA: Eu sempre acreditei nas coisas que eu amo. O


hip-hop no Brasil vem crescendo muito, você percebe as
novas gerações muito antenadas com tudo, é uma gera-
ção que está usando a internet como ferramenta de tra-
balho, e como o nosso país é muito grande e a diversidade
cultural e musical é imensa, você vê garotos e meninas
na cultura hip-hop em todos os cantos, e isso me deixa
muito feliz. Mesmo com todas dificuldades de divulgação
e de estrutura artística a cultura hip-hop cresce muito e
ainda vai ter um espaço merecido. O futuro do hip-hop no
Brasil é muito próspero!

Pela quantidade de pessoas de Brasília que se encon-


tram neste livro, percebe-se claramente a importância
do Distrito Federal dentro do contexto do rap nacional, e
quando se fala de Brasília, um dos nomes fortes e refe-
rência de um cara batalhador dentro do rap é o Japão, do
grupo Viela 17. Ele acaba de lançar uma série em come-
moração dos seus vinte anos de carreira e não podíamos
deixar de falar com ele sobre isso.

BUZO: Você está completando vinte anos de carreira.


Como é estar há tantos anos no movimento e o que ele
representa na sua vida?
JAPÃO / VIELA 17: Na verdade, viver este momento é para
poucos, com tanta dificuldade que passei no rap, altos
e baixos, já era para ter desistido, mas viver por muitos
Pelo Brasil 169

anos o rap só vem a provar que o rap não é somente um


estilo musical, e sim um estilo de vida.
BUZO: Conte como iniciou no rap.

Comecei no final dos anos 1980, com um


JAPÃO / VIELA 17:
grupo chamado Esquadrão MCs. Era tudo muito compli-
cado, as gravações eram feitas em fitas K-7, para produ-
zir era caro demais, não tinha gravadoras interessadas,
só tínhamos a força de vontade como aliada, mas ven-
cemos mais uma barreira.
BUZO: Você fez parte do time do GOG. Como foi esse
tempo e o que ficou?
JAPÃO / VIELA 17: Participar deste time foi uma escola, vive-
mos muitas alegrias juntos, o GOG é um cara com suas
ideias e convicções! Mas é um amigo e irmão que conse-
gue absorver coisas ruins e fazer transformações posi-
tivas, participar com GOG, Mano Mix, Dino Black, Negro
Dario e Edízio foi essencial para a afirmação profissio-
nal, aprendi e injetei algum conhecimento nesta família.
BUZO: Ceilândia, o que tem a dizer desse lugar?

JAPÃO / VIELA 17: Ceilândia é minha vida territorial, tenho a


mesma idade desta cidade, aqui fiz filme que foi super-
premiado, aqui fiz minhas letras, e desenvolvi meu lado
familiar e profissional. É importante ressaltar que hoje,
de todos os grupos que aqui surgiram no começo do
rap, eu sou o único que ainda está na ativa, Ceilândia é
terra de Câmbio Negro e Viela 17 e de inúmeros grupos
expressivos, Ceilândia é minha vida e inspiração.
BUZO: Viela 17, fale da trajetória do seu grupo.

Montei o Viela 17 logo após sair do grupo


JAPÃO / VIELA 17:
GOG. Era inicialmente para ser um CD solo, “que farei
este ano”, mas resolvi juntar com Mano Mix e Dino Black
e montar o grupo. Gravei com o DJ Raffa o primeiro CD,
170 Hip-hop:dentro do movimento

mas passei uma dificuldade financeira e tive que me


afastar do rap por uns quatro anos. Mudei novamente
para São Paulo, me animei novamente com a visita do
DJ Raffa e sua esposa, e voltei a Brasília. Fiz um disco
bacana e voltei à cena com força total.
BUZO: Hip-hop salva?

JAPÃO / VIELA 17: Salva e revigora. Tive algumas experiên-


cia com amigos que tinham a vida perdida no crime, e
tiveram no hip-hop seu único conselheiro e parceiro na
hora do desabafo e atitude.
BUZO: Como vê o momento atual do hip-hop?

Vejo com euforia, sempre acreditei no


JAPÃO / VIELA 17:
movimento. Hoje temos acesso a tecnologias que faci-
litam tudo, temos ótimos artistas surgindo e mandando
ver, só temos que pensar que a revolução só estará com-
pleta com a estrutura financeira definida. Infelizmente, o
movimento só nos proporcionou até agora investimentos
com pouco retorno e carteira profissional em branco.
BUZO: O que espera pro futuro do movimento?

JAPÃO / VIELA 17: Espero investimento individual e coletivo,


que toda a história seja lembrada como um ato heróico,
feito única e exclusivamente para tirar o povo pobre do
descrédito e do ócio urbano.
BUZO: Salve aos que vão te ler neste livro.

Que Deus ilumine todos os que estão


JAPÃO / VIELA 17:
lendo este livro, e que todos tenham fé e acreditem
neste movimento de literatura marginal, roupas sujas
pela dança, muros coloridos com nosso suor, letras com
compromisso e entretenimento, músicas e risco vindo
como grito de liberdade e soldados na luta pela vitória.
Pelo Brasil 171

Do Distrito Federal, vamos direto pra Salvador, falar com


o Nelson Maca da Blackitude: Vozes Negras da Bahia.
Conheci o trabalho pessoalmente, quando o Maca me
levou à Bahia pra uma série de palestras.

Gostei demais da cidade. Na verdade, considero Sal-


vador e o Rio de Janeiro dois dos lugares mais bonitos
e encantadores que conheci nas minhas viagens pelo
país. A companhia do Maca e da sua família, nos dias
que passei lá, trouxe uma amizade além do cultural.
Depois, já tive o prazer de receber o Nelson Maca em
minha casa numa passagem por São Paulo. Aprendo
muito com o Maca, que é uma pessoa muito politizada
e que não aceita as coisas em que não acredita, mesmo
que não esteja com a razão, se você não convencer ele
disso, esquece, Nelson Maca não se curva.

Um militante do movimento negro e do hip-hop, mas


também “professor de literatura na Universidade Cató-
lica de Salvador”, pensa o quê? No hip-hop também
tem os escolados.

Vamos saber um pouco mais sobre ele, sobre o hip-hop


na Bahia e ainda sobre a Blackitude.

Este livro orgulhosamente apresenta Nelson Maca.

BUZO: Nos explique como funciona, desde quando e qual


a missão da Blackitude: Vozes Negras da Bahia.
A Blackitude atua há dez
NELSON MACA / BLACKITUDE (BA):
anos na cidade de Salvador e interior da Bahia prin-
cipalmente, além de algumas alianças estratégicas
em outros estados, principalmente São Paulo e Brasí-
lia. Somos um coletivo que mantém, desde seu início,
em torno de 10 a 15 componentes fixos, porém nossas
relações de parcerias são bastante amplas, incluindo
artistas dos quatro elementos do hip-hop, além de
parcerias em ações de formação e políticas de forma
172 Hip-hop:dentro do movimento

geral. Nossa composição em torno de poucas pessoas


é uma opção pontual de trabalho. A Blackitude: Vozes
Negras da Bahia identifica-se como um coletivo do
movimento negro que pensa e atua através das expres-
sões da cultura hip-hop principalmente. Sem aparelhar
o hip-hop, logicamente. No entanto, estabelecemos
relações profundas com outras linguagens, a exemplo
do audiovisual (vídeo, fotografia, cinema) e da “litera-
tura divergente”. Somos um coletivo independente que
se materializa a partir de ações concretas. Artistica-
mente, promovemos festivais de hip-hop (rap, break,
grafite e DJ simultaneamente), atividades de formação
e informação (palestras, workshops, oficinas, minicur-
sos, exposições etc.) e participação em outras inicia-
tivas de outros movimentos sociais da cidade. Não sei
se temos uma missão exatamente. Acho que não. Gos-
tamos de atuar na vida cultural da cidade sempre no
presente. Então não temos um objetivo lá longe, num
futuro qualquer, mas sim uma inserção nas demandas
do agora. Quanto mais independente e menos governa-
mental, melhor, embora saibamos que tem que haver
diálogos estratégicos com todas as esferas de poder.
Na verdade, sou mais simpático a uma saída comercial
crítica para nosso coletivo; tipo autossustentação.
BUZO: Hip-hop salva?

NELSON MACA / BLACKITUDE (BA): Não acredito, sinceramente!


Nem gosto do discurso salvacionista de muitos adep-
tos do movimento. Nós, que vivemos o hip-hop por den-
tro, sabemos que ele é composto de pessoas comuns e
normais, sujeitas às mesmas razões, acertos e erros
que qualquer irmão ou irmã de nossa comunidade ou
não. Não sou muito simpático aos que tratam o hip-hop
de maneira messiânica. Na verdade, pedagogicamente
falando, sou do time daqueles que acreditam que, ocu-
pando a cabeça e o dia a dia da juventude com o hip-hop
Pelo Brasil 173

ou outra cultura positiva qualquer, colaboramos no sen-


tido de trazer mais opções para as escolhas de cada um.
Atrelado a uma boa formação familiar, à educação for-
mal da escola e à construção de uma profissão – mesmo
que apreendida apenas na prática – o hip-hop pode ser
fundamental na formação crítica de cada participante
ou simpatizante. Tanto na consciência das razões da
cultura hip-hop, em si, quanto na visão de mundo de
cada um, essa cultura só pode ser positiva. Mas, na real
mesmo, o hip-hop em que acredito deve desestruturar as
verdades de nosso mundo; e não afirmá-las. O hip-hop
nasceu para revolucionar, ou seja, para a destruição do
sistema e a reconstrução das referências. Ele não nas-
ceu com o intuito de integração a uma realidade perversa.
Daí, penso que o melhor que o hip-hop proporcionou para
mim, por exemplo, não foi a salvação, mas sim a minha
saudável “perdição”!
BUZO:Como anda a cena na Bahia e, principalmente, em
Salvador?
NELSON MACA / BLACKITUDE (BA): Em Salvador, a cultura hip-hop
só cresce. Ainda não se profissionalizou, como eu ainda
espero. Muita dificuldade, muita falta de estrutura, de
compreensão, inclusive dos pares. Com isso, tem se tor-
nado, como em todo Brasil, acho, refém do Estado. Cara,
não gosto muito dessa combinação (hip-hop – Estado)
embora a Blackitude já tenha se beneficiado dela – mais
de uma vez. Ainda assim desconfio. Sou avesso aos edi-
tais, por exemplo. Não estou dizendo que não participo
ou não participarei, estou dizendo que pode represen-
tar uma armadilha para qualquer cultura revolucionária.
Mas, independente de tudo isso, na Bahia o hip-hop vive
uma fase extraordinária no tocante a sua disseminação,
no aumento de seus adeptos. Como disse, precisamos
profissionalizar mais, ampliar o público simpatizante,
não podemos sobreviver só de artistas e militantes. Há
174 Hip-hop:dentro do movimento

muitos grupos de rap hoje em Salvador e no interior. As


demos surgem a todo instante. Os CDs com produção
mais apurada começam a se tornar comuns. O rap fre-
estyle é uma febre poderosa e construtiva. O break con-
segue realizar batalhas de casa cheia, além dos eventos
espontâneos de rua. Alguns b.boys e b.girls já somam
experiência nacional e, inclusive, internacional. Supe-
ramos a fase de ter apenas dois ou três DJs na cena.
Hoje há vários, alguns com carreira solo vitoriosa. Coisa
inimaginável dez anos atrás. E o grafite da Bahia ganha
o mundo. Vários grafiteiros baianos têm experiência
internacional. Alguns residem fora ou então passam
temporadas em países estrangeiros. As crews de Salva-
dor realizam, há muito, seus festivais internos e inter-
grupos. A visita de grandes nomes do grafite nacional
tornou-se comum. Para se ter uma ideia legal da cena, a
Bahia já sedia festivais internacionais de grafite. Existe
aqui um grafite com referências estéticas e espiritual-
mente positivas do candomblé por exemplo. Já tivemos
o luxo de presenciar um festival nacional de grafiteiras
em Salvador.
BUZO: Quem você destaca em todos os cinco elementos
no hip-hop da Bahia?
NELSON MACA / BLACKITUDE (BA): Poxa, é difícil destacar nomes.
Sempre corremos o risco de injustiçar alguns e privile-
giar os pares, não é? Destaco todos os que plantaram a
semente, cercaram a muda e regaram a árvore. Só não
destaco os que ficam apenas à sombra do plantio alheio;
mas aplaudo os que podam os galhos degradados e arran-
cam os parasitas do entorno.
BUZO: Quando estive aí, fiquei surpreso com a quantidade
de grafite nas ruas. Como está hoje?
NELSON MACA/ BLACKITUDE (BA): Aumentou e melhorou. O
grafite talvez seja o elemento mais equilibrado por aqui.
Há muitos grafiteiros. E há muitos bons grafiteiros. É
Pelo Brasil 175

isso que quero dizer com equilíbrio: uma relação posi-


tiva entre quantidade e qualidade estética. Há diversas
crews e muitos artistas têm estilo próprio.
BUZO: O você que diria aos jovens do hip-hop em qualquer
lugar do país que vão te ler nesta entrevista exclusiva?
NELSON MACA / BLACKITUDE (BA): Que, para mim, hip-hop sem
compromisso não é hip-hop. Que compromisso sem
break, grafite, DJ e MCs não é hip-hop também. Igual-
mente, os quatro elementos sem qualidade estética
não conseguem nada. Que, para mim, primeiramente,
o hip-hop tem que se expressar e se comunicar através
dos quatro elementos: break, grafite, DJ e rap. Então,
sem isso bem definido, não há hip-hop de fato. No pas-
sado, já defendi uma certa (quase) independência do
chamado quinto elemento. A maturidade que adquiro
com outros irmãos que pensam e discutem essa ques-
tão levou-me à convicção de que o conhecimento tem
que estar espalhado, de maneira profunda e vigorosa,
nos quatro elementos primordiais. Só livro ou só pales-
tra pode ser uma coisa emergencial e positiva, porém,
não basta para se dizer cultura hip-hop.

Pra manter o livro num padrão elevado de autoestima


e luta, vamos de Salvador, depois de saber mais da
Blackitude em entrevista com o grande Nelson Maca,
amigo, referência, pra Baixada Fluminense, berço do
Movimento Enraizados.

Nascido e criado na periferia de Nova Iguaçu na Baixada


Fluminense, bairro de Cerâmica, Léo da XIII escolheu
pra sua vida ser MC. Hoje, além de cantar com o Dudu de
Morro Agudo, fez produção no Enraizados.

Léo da XIII quis um futuro diferente da maioria dos jovens


que cresce na periferia de Nova Iguaçu, local marcado
por dificuldades e chacinas (na pior delas, 29 mortos),
mas ele sabe aonde quer chegar.
176 Hip-hop:dentro do movimento

Ele nos deu esta entrevista em São Paulo, quando veio


cantar com o DMA na 22ª edição do Favela Toma Conta,
que eu (Buzo) organizo no Itaim Paulista, mas Léo da XIII
já foi bem mais longe, passou um mês na França em turnê
com o DMA. Quem diria, o jovem da Cerâmica ganhou o
mundo, vamos saber o que ele pensa disso.

BUZO: Quando e por que começou a rimar?

LÉO DA XIII: Bem, todos nós, que somos moradores de peri-


feria, temos problemas e dificuldades quase impossí-
veis de resolver. Baseado nisso, comecei a entender que
só tem alguma coisa aquele que procura alguma coisa
pra fazer. Daí tem as ruas, escola pública e os botecos,
você escolhe um desses caminhos pra viver, pois é e era
só isso, irmão! Não tínhamos condições de criar uma
nova opção, então na época eu tinha 10 anos, tinha aca-
bado de perder meu irmão num acidente de carro, ele
foi atropelado, tinha 11 anos, era um dos irmãos que eu
mais gostava, minha referência. A partir desse dia minha
vida entrou em diversas mudanças de comportamento,
não fui o mais violento nas ruas, mais fui o que todos
não gostavam, todo dia era uma queixa dos vizinhos e
minha coroa, sempre trabalhando, não tinha tempo de
acompanhar minhas loucuras. O tempo foi passando e
fiz novas amizades, já tinha conhecido quase tudo nas
ruas, e sabia que minha conduta era duvidosa. Aí come-
cei a refletir sobre minha vida em forma de poesia, eu
escrevia o que estava sentido, e comecei a ouvir Racio-
nais, 509-E, Dudu de Morro Agudo, Kapella etc.
Percebi que minhas poesias eram parecidas com as
histórias contadas dentro do rap, aí fui buscando uma
informação aqui, uma ali... até conhecer o rapper Dudu
de Morro Agudo, a primeira porta que se abriu com
uma proposta diferente. Comecei a andar com ele nos
shows, conhecendo gente que eu sempre ouvia nas
rádios e que eu admirava, assim fui introduzido dentro
Pelo Brasil 177

do rap, comecei a fazer isso porque se não fosse o rap,


não sei, mano, o que eu poderia ser hoje. Isso foi quando
eu tinha 12 anos, hoje estou com 23 e continuo fechando
com meu brother que considero até mais que meu pai.
BUZO: Esperava viver só de rap?

LÉO DA XIII: Se eu disser que não, estarei mentindo. Esse


não é o propósito do assunto, mas, tipo, mano, nunca
gostei de trabalhar pra McDonald’s ou sei lá, ser aten-
dente de alguma lanchonete, minha mãe sempre foi
empregada doméstica, meu pai saiu fora e nunca me
deu nem um real, então alguém tem que mudar isso. Se
vai ser somente o rap, creio que não, irmão, mas graças
ao rap hoje eu posso trampar com oficinas de produ-
ção musical e oficinas de rap, ensinando a molecada
que tem uma cultura por trás disso tudo. Se vivo assim,
já estou vivendo de rap, o resto Deus é quem sabe se
mereço ou não, e sempre confio nele, então acredito
num futuro garantido!
BUZO: Como é trabalhar com o Dudu de Morro Agudo (DMA)?

LÉO DA XIII: Mano, é como você ver seu pai te mostrando os


caminhos que deve seguir pra não se prejudicar, o cara é
foda, tem muito potencial, nasceu pra conquistar e rea-
lizar sonhos. Trabalhar do lado dele é entender que esta-
mos no meio dos grandes, então estamos bem na fita.
BUZO: Movimento Enraizados?

LÉO DA XIII: Eu nunca consegui falar sobre o Enraizados


com poucas palavras, Enraizados é minha casa, mano,
ali dentro tenho minha história de vida, meus melhores
amigos e minha chance de mostrar do que sou capaz.
Andar pelos estados e países diferentes, falando sobre
o Enraizados é como ser um pregador, você vai aonde
ninguém é santo, todo mundo não presta, e depois que
a gente mostra que viemos da mesma situação que se
178 Hip-hop:dentro do movimento

encontram, tudo muda. É necessário estar preparado


pra levar a verdade e não ser confundido, a gente sabe
que só muda aquele que quiser, mas se tiver alguém te
mostrando que isso é possível, o processo ocorre mais
rápido. O Enraizados é uma troca, você chega, se pre-
para, sai dali transformado, falando diferente (risos), e
isso influencia em tudo o que você fizer.
BUZO: Como foi ficar um mês na Europa?

LÉO DA XIII: Foi a primeira vez que fui tão longe. Entrar
naquele pássaro gigante com medo de cair lá embaixo
e tudo que você plantou afundar é sinistro, mas depois
que pisa no chão, você diz: cara consegui atravessar o
Atlântico. Assim que chegamos lá em Nancy, ficamos
sabendo que o avião que íamos pegar tinha caído, olha
aí, mano, o que eu disse antes não é viagem, não. Mas
lá estávamos nós. Nos primeiros dias foi meio estranho
geral conversar e você ficar de fora, não entender nada,
mais depois de algumas semanas fui me adaptando com
o povo, curtimos muito, era show quase todo dia, fes-
tas e até piquenique. Depois fomos pra Paris, ali todo
preto se sente alguma coisa (risos). Foi bom pra afastar
a saudade da família, que era muito forte, tinha dia que
eu nem queria acordar, mano, mais eu tava amarradão,
tirando fotos que nem louco, e geral no Brasil já tava
ligado no que a gente estava fazendo. Graças a Deus
deu tudo certo, conseguimos criar novas pontes, fiz um
curso de protools no estúdio do manos que agitavam
por lá, gravamos vários raps e isso tem dado bons fru-
tos pra nós hoje. Enfim, foi trampo e diversão ao mesmo
tempo, pretendo voltar, porque me senti bem.
BUZO: O que espera pro seu futuro dentro do hip-hop?

LÉO DA XIII: Pretendo ampliar meus projetos com novas


ferramentas, acho que esse mecanismo não pode per-
der a direção. Dentro do hip-hop só quero o respeito,
Pelo Brasil 179

quero que todos entendam minha vida dentro desse


bagulho, não tô aqui à toa, tem muito bagulho na mente,
mano. Foi muito prazeroso contar um pouco de mim no
seu livro. Deus usa as pessoas certas nos momentos
certos. A todos muita fé e postura. Fica na paz, Buzo.

Vendo a importância do mano Dudu de Morro Agudo na


vida do Léo da XIII, falamos com ele também, para saber
como é ter essa responsabilidade de ser referência.

Fundador do Movimento Enraizados, MC, militante,


enfim... Vamos ver o que o DMA tem a nos dizer. Entre-
vista feita em São Paulo, onde pela quarta vez ele
es tava para se apresentar no Favela Toma Conta.

BUZO: Explica essa história de o Movimento Enraizados


ter nascido com três cartas que você enviou pelo correio?
DMA: Em 1999 eu já escrevia umas letras de rap e tinha
ouvido alguns grupos como Thaíde e DJ Hum e GOG,
mas não sabia nada de hip-hop, então decidi criar uma
maneira de conhecer umas pessoas que me ensinassem
o que era essa cultura. Eu tinha receio de dizer que não
conhecia ninguém e as pessoas não me aceitarem, então
comprei uma revista e escrevi três cartas para uns ende-
reços que havia na última página da revista, dizendo que
fazia parte de uma organização de hip-hop chamada
Movimento Enraizados, mas na verdade essa organiza-
ção só existia na minha cabeça. As cartas foram para o
Rodrigo Dimenor, de São Paulo, para o Cassiano Pedra,
da Paraíba, e para o Gil BV, do Piauí.
BUZO: Enraizados, o que significa na sua vida?

DMA: Todos os dias eu agradeço umas três vezes ao dia


por poder fazer aquilo que eu gosto. O Enraizados é um
sonho que se realiza todos os dias. Eu não consigo me
imaginar fazendo outra coisa, vivendo outra coisa.
180 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: MC, militante, referência (como vimos anterior-


mente na entrevista do Léo da XIII). Como é isso, como
você se vê?
DMA: Eu faço tudo aquilo que eu gosto de fazer. Acordo
com vontade de fazer rap e faço rap, se tenho vontade
de fazer um evento, idealizo e depois executo. Talvez por
gostar de fazer as atividades de forma coletiva, as pes-
soas me tenham como referência. Eu vejo tudo isso de
forma muito natural, pois tenho as minhas referências
também, admiro muito o trabalho que o DJ Raffa faz,
admiro a humildade e a paciência dele, me identifico
com isso e quero ser igual, acredito que outros tenham
a mesma sensação com a minha pessoa.
BUZO: Hip-hop?

DMA:Hip-hop é um paradoxo, é a cultura mais complexa


e mais simples que existe. Se integra a tudo e a todos o
tempo inteiro. Parei para tentar analisar o hip-hop por
algumas vezes, mas, quando as respostas faltavam, eu
começava a sentir o hip-hop.
BUZO: Você imaginava com o hip-hop ter carreira interna-
cional? Como foi passar um mês na França?
DMA: Eu não imaginava nem que pudesse cantar rap um
dia. Sempre fui muito tímido. Aprendi a ter sonhos sim-
ples e pequenos para que eu pudesse sentir mais vezes
a sensação de realizar um sonho. Mas com o passar do
tempo, suas ambições vão aumentando, e comigo não
foi diferente. Mas o processo foi o mesmo, um dia acor-
dei com vontade de lançar o disco na França, então eu
e o Dumontt fizemos os contatos necessários e fomos.
Ainda levamos o Léo da XIII e o DJ Soneca para eles
aprenderem a sonhar também.
BUZO: Chile?
Pelo Brasil 181

DMA: Conheci os camaradas do Chile no Brasil, durante


um projeto da Fase chamado Derechos Direitos, quando
eles vieram no Espaço Enraizados, em Morro Agudo.
Fiquei amigo do Zerta Rapper, que apesar de ser bas-
tante jovem, já é um grande produtor de eventos em
Santiago. Em novembro de 2009, ele fez um evento
chamado Muro Por La Paz – o maior grafite do mundo,
com mais de 2 Km de extensão – e convidou o Enraiza-
dos para participar cobrindo o evento e ainda lançando
o meu disco por lá. Foi nessa época que eles entraram
formalmente para a Rede Enraizados Internacional.
BUZO: Quais as outras pontes internacionais que você e o
Enraizados têm hoje?
DMA: Com instituições estamos na França e no Chile, em
outros países como Japão, Portugal, Angola, Moçam-
bique, Bélgica, Espanha, Colômbia, Finlândia e EUA
temos artistas e militantes. Alguns militantes do Enrai-
zados começaram a estudar inglês para facilitar o con-
tato internacional, mas estão chegando pessoas que já
dominam alguns idiomas e nos facilitam a comunicação,
como a Simone Oliveira, que fala inglês fluentemente,
o Bruno Thomassin, que domina o idioma francês, até
mesmo porque ele é francês (risos). No espanhol a gente
dá nossos pulos.
BUZO:Como era de uma salinha pequena estar ligado a
600 mil acessos por mês?7
DMA: Estar ligado a 600 mil pessoas por mês é uma ques-
tão de identidade, as pessoas se identificam muito com
o Movimento Enraizados. Assim como o Luiz Eduardo
Soares ficou surpreso, eu fico apavorado com a tamanha
responsabilidade que temos em nossas mãos, não pode-
mos falar besteira porque existem milhares de pessoas
se comunicando conosco diariamente de alguma forma.

7 www.enraizados.com.br
182 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Prêmio Cultura Viva?

DMA: Pra nós, o Prêmio Cultura Viva foi um divisor de


águas. No começo, o título não interessava tanto quanto
a grana. A gente estava em uma situação onde só era pos-
sível ir pra cima, e foi quando inscrevemos a Rede Enrai-
zados no prêmio, ganhamos em primeiro lugar e então
conseguimos dar um up na organização. Foi com o prêmio
que conseguimos inaugurar verdadeiramente o Espaço
Enraizados. Por isso digo com todas as palavras, e em alto
e bom som, que este foi o prêmio mais importante que o
Movimento Enraizados ganhou até o dia de hoje.
BUZO: Espaço Enraizados?

DMA: Nunca tive a pretensão de ter nada parecido com o


Espaço Enraizados, isso é coisa do Dumontt.
Meu maior sonho se resumia a um home estúdio onde
eu pudesse gravar meus sons e os sons dos meus cama-
radas. Mas hoje, num espaço onde, além do estúdio, a
gente tem biblioteca, telecentro, loja, lanchonete e um
monte de cursos e formações gratuitas, a felicidade
é maior em ver mais pessoas entrando e utilizando o
Espaço. Acredito que no Rio de Janeiro não tenha outro
Quilombo do Hip-Hop igual ao Espaço Enraizados.
BUZO: Baixada Fluminense?

DMA: Um dos motivos de o Movimento Enraizados estar


fincado em Morro Agudo é porque a gente tem por mis-
são desmitificar esse lance de que só existe violência na
Baixada Fluminense. Apesar de a Baixada estar eterna-
mente manchada de sangue por causa daquela chacina
covarde onde 29 pessoas inocentes morreram assassi-
nadas por policiais, aqui tem muita gente feliz, trabalha-
dora e muito lugar bonito até mesmo pra gringo ver.
Pelo Brasil 183

BUZO: Como você vê o futuro do movimento hip-hop no


Brasil?
DMA: O futuro do hip-hop no Brasil depende de quem pra-
tica o hip-hop no presente.
BUZO: Considerações finais pra quem leu sua entrevista
neste livro:
DMA:Poderia falar de sonhos ou outras palavras moti-
vadoras, mas acho que a palavra certa é trabalho. Tra-
balhe naquilo que te faz bem e que você acredita que
mudará o mundo em que vive.

Admiro muito o trabalho do Dudu de Morro Agudo e do


Movimento Enraizados, porque eles não fazem questão
de pagar simpatia, eles correm pelo certo e o papo é reto.

Um mano que também não mede esforços para promover


o rap nacional em todas as suas frentes é o Mandrake, do
Portal Rap Nacional.8 Ele era de São Paulo, mas há alguns
anos vive com a família em Itajaí-SC. A entrevista a seguir
com ele é a única do livro reproduzida, não foi feita dire-
tamente por mim (Buzo), é parte de uma entrevista do
Mandrake no site do produtor Celso Athayde da Cufa. Só
incluí atendendo a um pedido do Mandrake e porque foi
devidamente autorizado pelo Celso Athayde e reflete o
que queríamos saber do entrevistado.

CELSO ATHAYDE: Como você conheceu o rap?

MANDRAKE: Muitas das minhas recordações de infância


têm o rap como fundo musical. Isso era tão natural, que
não consigo me lembrar quando foi a primeira vez que
eu ouvi. Cresci ao lado de um tio, cinco anos mais velho.
Com ele aprendi a andar de skate, ouvir boa música e

8 www.rapnacional.com.br
184 Hip-hop:dentro do movimento

até algumas coisas nem tão corretas assim. Até aí o rap


para mim era só mais um tipo de música. Com 14 anos de
idade, fui num show do Racionais MC’s, em Osasco. Uma
apresentação histórica, com o Mano Brown na cadeira
de rodas. Desse dia em diante passei a olhar o rap com
outros olhos. Nem sei explicar direito o que aconteceu,
mas a partir daquele show o rap passou a fazer parte
da minha vida. Tanto que hoje carrego uma tatuagem no
braço direito, “Rap Nacional”. Infelizmente, em 2001 meu
tio se foi. Mas me deixou de herança o amor pelo rap.
CELSO ATHAYDE: Quando você resolveu trabalhar com o rap
comercialmente?
MANDRAKE: A minha intenção nunca foi ganhar dinheiro
com o rap. Eu criei o Portal Rap Nacional para divul-
gar o movimento, dar oportunidade para que os gru-
pos pudessem mostrar o trabalho que desenvolvem
e informar a galera sobre os shows que rolavam. Com
o passar dos anos, o blog se tornou um portal e cada
vez mais está crescendo e se profissionalizando. Para
nos mantermos no mercado e fazermos um trabalho de
qualidade, como o público do rap merece, temos vários
custos. Precisamos de bons computadores, conexão
rápida com a internet, máquinas fotográficas e pro-
fissionais qualificados. Por este motivo, não pode-
mos fazer tudo de graça. Há vários espaços no site que
são gratuitos. Mas também temos espaços publicitá-
rios, assim como todo veículo de comunicação. Esse
dinheiro é usado principalmente para manter o site.
Para sustentar minha família eu trabalho como editor
de arte em duas empresas, um jornal diário e uma edi-
tora que produz três revistas por mês. Eu não vivo com
o dinheiro que entra no portal.
CELSO ATHAYDE: Em geral, quem ganha dinheiro com o
rap é chamado de mercenário. Você está no rap por
dinheiro ou ideologia?
Pelo Brasil 185

MANDRAKE: Em primeiro lugar, eu não acho que quem


ganha dinheiro com rap seja mercenário. Quem tem
talento, se preparou e está conseguindo se destacar
tem mais é que faturar com isso. Afinal, a maioria tem
família e responsabilidades a cumprir. O rap tem que
ser visto de forma profissional, e todo bom profissional
merece ganhar dinheiro com o que faz. No meu caso, se
eu fosse analisar o tempo que eu dedico ao Portal Rap
Nacional e o que isso me rende financeiramente, já teria
desistido há muito tempo. Como já falei, eu trabalho em
dois outros empregos. Nas horas livres, deixo de estar
com a minha família, de curtir meus filhos pequenos,
para ficar na frente do computador atualizando o site.
Eu não estou por dinheiro. Mas, se as coisas fossem
diferentes e eu conseguisse faturar no site o suficiente
para o meu sustento, não seria hipócrita em dizer que
rap e dinheiro não combinam.
CELSO ATHAYDE: Qual você acha que é o futuro do rap?

MANDRAKE: Nem Mandrake, o mágico, conseguiria pre-


ver. Mas eu espero que o rap nacional tome de assalto a
grande mídia, participe de mais programas na TV, quere-
mos mais programas de rádios FM tocando rap e empre-
sas multinacionais apoiando. Que o rap nacional ganhe
muito dinheiro, mas não esqueça suas origens e objeti-
vos. Que onde for pregue a palavra certa e continue nar-
rando vidas tristes e denunciando as atrocidades do sis-
tema. “Mandrake no debate, pra falar verdade, o rap faz
sua parte e joga na mira os covardes, as fita podre o lado
oculto tem que ser narrado, sem vista grossa e sem pas-
sar pano pro errado, eu não me calo, perante a opressão
do estado, sou radical no que vivo, o que faço e o que falo”
– Gangsta Rap Nacional - Realidade Cruel e Mandrake.
Cap.06
Fazendo rap mesmo com tudo contra
Um dos maiores MCs do país atende pelo nome de Dexter
e usa a sigla “Oitavo Anjo”. Dexter surgiu (mesmo sendo
do rap antes de ir preso) pro público quando na famosa e
extinta Casa de Detenção do Carandiru formou o grupo
509-E junto ao Afro-X. Eles lançaram dois CDs. Após o fim
do 509-E, Dexter se lançou em carreira solo. No ano de
2005, conseguiu autorização para gravar um CD dentro
do sistema carcerário. Apesar das limitações, fez um
dos álbuns mais loucos daquele ano, ganhando inclusive
o Prêmio Hutúz por Exilado sim, preso não!. Dexter está
há mais de dez anos privado de liberdade, mas sua força
de renascer como a fênix surpreende quem desacreditar
do seu talento e articulação. Foi assim que, em abril de
2009, numa saída temporária da cadeia, promoveu o
show Dexter & convidados, com apoio da Porte Ilegal.
Eu (Alessandro Buzo) tive a honra de ser (ao lado do DJ
Fábio Rogério) o apresentador desse evento que reuniu
4 mil pessoas na quadra do Peruche, na Zona Norte de
São Paulo, para ver Dexter e nomes de peso como Mano
Brown, Edi Rock, Thaíde, Paula Lima, Fernandinho Beat
Box, GOG, Lino Cris e Douglas do Realidade Cruel.

Desse show surgiu o ótimo álbum ao vivo Dexter & convi-


dados, último do rapper até aqui.

Achamos importante ter aqui algumas palavras de pes-


soas que viveram esse momento inesquecível na Peru-
che, as falas foram retiradas do quadro “Buzão – Circular
Periférico” que cobriu o evento para o Programa Manos e
minas da TV Cultura.

188
Fazendo rap mesmo com tudo contra 189

Para assistir a esse quadro no Youtube.9

“Acharam que eu estava derrotado, quem achou estava


errado.” (Dexter)

O que algumas pessoas disseram sobre o Dexter nesse dia:

Costumo dizer que o Dexter é o Mandela brasileiro, então o


Dexter é um parceiro que merece todo o respeito da gente,
ele é merecedor e mais digno ainda de alegrias e vitórias
(GOG)

O povo do rap está esperando há oito anos por esse


momento de trazer o Dexter, de mostrar a realidade do
Dexter, de mostrar a ideia dele...

E graças a Deus ele está aí para ajudar a resgatar


o rap nacional.
(Adunias da Luz, Estação Hip-Hop)

Ele é singular, único, um grande artista, que representa,


que sabe o que está fazendo, uma coisa de um papo
reto e objetivo.
(Paula Lima – cantora)

Mais que um show, hoje é uma celebração... porque


no show, ele simplesmente paga o ingresso, compra
uma camiseta, leva um CD pra casa, toma uma cerveja,
conhece uma mulher bonita no baile. Mas hoje não, hoje
aqui é uma celebração, celebração deixa saudade, ela é
marco, é o início de caminhada, então, Buzo, eu fico muito
satisfeito de estar fazendo parte desse momento.
(GOG)

O rap nacional precisa disso aí, Dexter, tamo junto.


(Mandrake – Portal Rap Nacional)

E ele também falou, num bate-papo comigo, pouco antes


de subir no palco.

9 http://www.youtube.com/watch?v=xxlNx3U01S0
190 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO:Dexter, como você reuniu essa nata (Mano Brown,


Edi Rock, Thaíde, Paula Lima, Fernandinho Beat Box,
GOG, Lino Cris e Douglas do Realidade Cruel) entre os
seus convidados?
DEXTER: É o rap, né, irmão, não tem o que dizer, o rap é
isso, evolução através das palavras. Pode ser uma reu-
nião de amigos, reunião de pessoas que se conhecem,
que desenvolvem o mesmo trabalho, pessoas que amam
o que fazem, nada mais. Só o rap tem esse poder, reunir
milhares de pessoas para falar de consciência política,
racial, social, enfim, o rap tem o poder de dizer muitas
coisas. Então, presta atenção no rap, tá ligado.
BUZO: E esse show de hoje?

DEXTER: Muito louco poder fazer isso para as pessoas


assistirem, verem, né? Eu quero que a festa seja ape-
nas motivo de alegrias, nada mais, alegria. Obviamente,
o rap fala de consciência, ele trata disso, então que seja
de consciência também, mas... de mais alegria.

Dexter finaliza para cantar para seu povo, uma multidão


de manos e minas que acreditam, que amam, que vivem o
rap e o hip-hop nacionais.

Como disse Mano Brown no palco do Peruche nesse dia,


“Algo novo vai acontecer, algo vai mudar, tem que mudar e
já está mudando, e o Dexter é o novo, é a nova proposta.”

O tempo passou e agora, mais de um ano depois...

Um rolê com o Dexter em Campinas.

Atendendo a um chamado do Dexter, que está neste


momento (final de junho de 2010) no semiaberto, fomos
até Campinas encontrá-lo na Dedi Modas, onde o guerreiro
se encontra trabalhando. Ainda precisa voltar para dormir
na colônia, mas em breve conquistará sua liberdade total.
Fazendo rap mesmo com tudo contra 191

Quando recebemos a convocação do Dexter, estávamos


com tudo pronto para enviar esta obra para a editora,
mas como rolou de entrevistar pessoalmente o “Oitavo
Anjo”, e ainda mais “nas ruas”, seguramos e incluímos, a
última que fizemos para o livro.

Quanto ao Dexter, antes da entrevista eu gostaria de


destacar que admiro muito seu trabalho, fui assessor
de imprensa dele por um curto período de tempo, antes
ainda do Exilado sim, preso não!, mas continuei acom-
panhando cada passo da carreira dele, assim como
torcendo e acompanhando a sua luta para conquistar a
liberdade plena e total, que a cada dia está mais próxima.

Acho incrível como ele, “exilado”, faz mais coisas que muito
grupo de rap que está em liberdade e não sai do lugar.

Primeiro ele conseguiu autorização para gravar um


disco dentro da penitenciária, num prazo de trinta dias,
e nesse espaço curto de tempo e com as limitações de
estar fazendo o trabalho num estúdio improvisado, ele
presenteou as ruas com o excelente álbum Exilado sim,
preso não!, que ganhou prêmios e foi considerado por
muitos (inclusive no prêmio Hutúz) o disco do ano.

Pois bem, Dexter não pôde fazer shows do CD, e alguns


anos depois, já podendo sair de “saidinha” da cadeia, ele
articulou, com apoio do Dário da Porte Ilegal, um show
histórico na quadra da Unidos do Peruche, na Zona Norte
de São Paulo, em abril de 2009.

Esse show veio sacudir a cena, que estava (na época)


muito parada, com 4 mil pessoas presentes, mostrou
que o rap ainda tinha (e tem) público sim, basta trabalhar
direito.

Desse show surgiu o CD Dexter & convidados, com diver-


sas participações que fizeram parte do show, e ainda
vem aí um DVD.
192 Hip-hop:dentro do movimento

Se “exilado” ele conquistou tantas coisas, é certo que


nas ruas ele vai “revolucionar” a cena do hip-hop e, prin-
cipalmente, do rap nacional.

Nesta entrevista exclusiva, Dexter nos fala sobre tudo


isso e o que vem por aí.

BUZO – 29/06/2010, CAMPINAS-SP: E aí, Dexter, como está


essa força?
DEXTER:Satisfação enorme, da hora, feliz ao extremo de
poder estar aqui, você estar aqui comigo, muito bom!
BUZO: Estamos aqui fazendo esta entrevista pro livro
Hip-hop: dentro do movimento. A satisfação é estar
podendo te entrevistar na rua, nesta nova fase sua.
Como é essa parada de você estar saindo, trabalhando
aqui na Dedi Modas de Campinas, durante o dia? Ainda
tem essa fase que você precisa voltar, mas é a última
antes da liberdade plena e completa?
DEXTER: Gratificante, faz parte do processo, é assim que
funciona mesmo. De antemão queria agradecer pelo
convite de poder falar no seu livro. Estar trabalhando no
Dedi Modas é uma extensão de todo aquele trabalho que
eu fiz “exilado”, eu estou num regime onde eu só volto
pra dormir, isso é bom. Recuperado eu já estou há muito
tempo, e agora é só trabalhar, quero agradecer à Sandra
(proprietária da Dedi Modas), por ter estendido essa mão
aí, de ter me empregado aqui, fico agradecido mesmo, de
coração. O trabalho continua, uma coisa é ligada à outra,
trabalho nessa loja aqui que também tem a ver com hip-hop,
vendo roupas e artigos do hip-hop, então é muito louca
essa ligação. Eu creio que a Dedi Modas agora, a prin-
cípio pelo que eu estou vendo, faz uma semana que eu
estou aqui, começamos a pensar muitas coisas, então
Deus tem um plano na vida da gente muito grande, o fato
de eu ter vindo trabalhar aqui eu dou como uma parada
Fazendo rap mesmo com tudo contra 193

espiritual também, é Deus guiando, sabe assim... Eu creio


que a partir de agora, Deus tem mostrado pra gente que a
Dedi Modas vai ser o novo point do hip-hop aqui em Cam-
pinas, daqui estão saindo planos pra várias festas, tra-
balhos sociais também a gente está desenvolvendo, o Dú
(Eduardo, assessor de imprensa) veio aí hoje pra isso tam-
bém, pra gente conversar a respeito disso. Tem muitos
projetos que vão começar a ser feitos aqui na Dedi Modas
e vão se espalhar por Campinas e pelo Brasil todo, a gente
tem essa noção e essa intenção. Já a festa que vai aconte-
cer em outubro agora, Dexter & convidados, mesmo pro-
jeto do ano passado em São Paulo, a gente vai trazer pra
Campinas, vai ser no dia 10 de outubro aqui.10 Alessan-
dro Buzo desde já está convidadíssimo para apresentar
a festa, Fábio Rogério também, Mano Brown, Inquérito,
Douglas Realidade Cruel, então as coisas vão começar a
acontecer da Dedi Modas para Campinas, e de Campinas
para o mundo.
É muito louca essa transição, tô muito feliz, só tenho
a agradecer a Deus, à Sandra e a todos que estão me
ajudando aí.
BUZO: Até a gente voltar a falar dessa fase atual, vamos
falar um pouco antes de outras coisas. Hip-hop, o que
representa na sua vida?
DEXTER: Hip-hop é vida, saúde mental pras pessoas, é
revolução mental pras pessoas também. Hip-hop é tra-
balho social, diversão, música, seriedade, responsabili-
dade, amor por aquilo que a gente faz, composições que
falam direto ao coração. Hip-hop é luta, incentivo, hip-hop
é sensibilidade pra escrever, pra ver, enxergar, porque
ver é uma coisa e enxergar é outra coisa, mas você tem

10 O evento já aconteceu, reuniu cerca de 2 mil pessoas, e foi um sucesso


com grandes nomes do rap nacional.
194 Hip-hop:dentro do movimento

que ter sensibilidade pra fazer as duas coisas. Produzir


com amor, planejar um futuro melhor para dentro da sua
casa primeiro, depois você começar a planejar o futuro
das pessoas, mas também é pensar no futuro pro filho,
pro neto, bisneto, é muito louco. O hip-hop é a válvula de
escape, o hip-hop é nada mais nada menos que salvar
vidas, hip-hop é tudo isso junto, é algo que nasceu, que
tem uma base, uma raiz na periferia e que nunca vai sair
da periferia. Barato é nosso, nós que criamos, sempre
vai ser da periferia, dos excluídos, dos pretos, pobres,
existente nas periferias, nos guetos, nas favelas, e é
isso, o hip-hop é um amigo que nós temos.
BUZO: Em meio a sua última resposta você já respondeu
minha próxima pergunta, mas vou fazer assim mesmo.
Hip-hop salva?
DEXTER: Com certeza, eu mesmo sou a prova viva disso,
o Buzo é a prova disso, creio eu. Eu costumo dizer que
os caras da minha geração, tanto os manos quanto as
minas, que curtiam rap na época, hoje são pais e mães de
família, com uma certa propriedade porque conheceram
o hip-hop, escutaram rap em 1992, 1993. Se trabalhava
muito a revolução mental dessas pessoas, aí consequen-
temente a sua autoestima, a vontade de sobreviver num
mundo muito louco aí que a gente vive dentro da perife-
ria, e como sobreviver sem se envolver com droga, com
álcool e com tretas mil, como fazer isso? É voltar a estu-
dar, voltar a respeitar seu pai e sua mãe, voltar a traba-
lhar honestamente, ganhar pouco, mas honestamente,
ficar firmão. E muitas pessoas na época fizeram isso,
hoje são pais e mães de família, têm seus filhos, suas
casas, cuidam muito bem disso, têm diplomas na parede,
hoje conseguem discutir na faculdade, em escolas, tem
até pessoas da minha geração que faziam rap em cargos
públicos, programas de TV, e isso me dá o maior orgulho,
Fazendo rap mesmo com tudo contra 195

porque foi pra isso que o rap veio, pra transformar essas
pessoas. Então, o rap, além de transformar, ele salva sim,
irmão. Eu fico muito feliz assim de ver os manos fazendo
rap com consistência, com base naquilo que a gente
aprendeu em 1990, 1991 com Racionais, Thaíde, GOG.
Muitas coisas melhoraram, mas outras continuam sendo
as mesmas, então precisamos seguir falando. Obvia-
mente, tudo evolui, a batida evolui, o sample evolui, você
já não sampleia mais, você cria. Então tudo evolui, mas as
ideias dentro da evolução continuam sendo as mesmas
coisas, você usa outras palavras, outros dialetos, outras
maneiras de cantar, porque até os problemas evoluem.
Antigamente era difícil você encontrar uma organiza-
ção ou instituição que organizasse os moradores de rua,
hoje passando ali a gente viu isso.
(No rolê que fizemos antes desta entrevista, gravando
uma outra para o programa Manos e minas, da TV Cultura,
vimos os bombeiros e assistentes sociais cadastrando
moradores de rua, e o mais loko: eles reconheceram o
Dexter. Consegue imaginar o quanto isso mostra a força
do rap nas ruas? O Dexter privado de liberdade há mais
de dez anos ser reconhecido por pessoas que vivem na
rua, imaginamos que sem internet, sem TV, sem contato
com muitas coisas, mas o rap chega. Tanto que um dos
moradores cantou um som do Dexter pra ele.)

Na minha época, quando eu era criança, não existia


isso. Então até as mazelas do sistema evoluem. A gente
também precisa evoluir, sempre com a mesma excelên-
cia, falando das coisas que ainda precisam melhorar, e
são várias no país, e a gente precisa lutar. O rap é isso,
evolução, se não for, pra mim, sinto muito dizer, não é
rap, tá ligado.
BUZO: Depois de mais de dez anos privado da sua liberdade,
pode nos dizer que o crime não dá camisa pra ninguém?
Dexter no favela 23º edição Dexter no favela 23º e
198 Hip-hop:dentro do movimento

DEXTER: O crime nunca foi bom, hoje em dia muito menos,


é... O crime não é bom, como eu vou dizer que o crime
é bom, sendo que o crime ele te garante o quê? Vamos
começar pelo pior, a morte, cadeira de rodas, você pode
ficar paraplégico numa troca de tiros ou coisa parecida,
ou, a melhor de todas elas, você pode ir preso, isso nega-
tivamente falando. É claro que te proporciona riqueza
também, a primeira vez pode dar certo, a segunda tam-
bém, mas uma hora a casa vai cair, então não tem como
dizer que o crime, ele não mata, não posso dizer que o
crime é bom. Eu sei, eu vivi na pele, eu nunca fui um cri-
minoso de ter roubado milhões, de ter vindo preso junto
com uma quadrilha que roubou milhões.
BUZO: Se for olhar, juntando boa parte do sistema carce-
rário, não roubaram metade do Lalau?
DEXTER: Exatamente, com certeza. Eu acho que nossos
governantes, boa parte deles são bem mais [corrupta]...
até a própria sociedade é bem mais, é tudo política, eles
roubam bem mais que todos nós juntos, mas é... só quem
não tem dinheiro vai preso, o Maluf está aí, o Maluf está
entre os dez mais procurados pela Interpol e tá aí, firmão.
Fernando Collor roubou uma nação inteira, e foi eleito de
novo, enfim, a política no nosso país é muito complicada.
É obvio que o crime só funciona para colarinho branco,
né, mano, quem tem o dom de roubar com a caneta.
BUZO: Como faz pra resistir há mais de dez anos privado
de liberdade?
DEXTER: Já era, ficou pra trás, o importante é que eu
aprendi muito com aquilo, foi bom pra mim, na “Fênix”
eu falo que o sofrimento também é uma escola, então
eu aprendi com aquilo também. Eu falo numa letra nova
que costumo fazer do pior o melhor, e é assim que tenho
sobrevivido esses 12 anos e meio em que estou preso, é
Fazendo rap mesmo com tudo contra 199

assim que venho sobrevivendo. Aliás, acho que na vida


da gente, dos caras que moram na periferia, dos caras
que nem eu, que é preto, pobre e não teve muita chance
dada pelo sistema, sempre fez do pior o melhor, eu
quando fiz do pior o pior ainda eu fui preso, quando eu
consegui fazer do pior o melhor me dei bem, é o que eu
estou fazendo.
BUZO: Como foi... (interrompe a pergunta)

(Começa uma rima na rua, pelos funcionários da loja que


fica na frente, convidando as pessoas pra subir.)

BUZO: Os caras tão fazendo um rap ali fora?

DEXTER: Com certeza, o rap está em todo lugar.

BUZO: Como foi pra você chegar no Carandiru, que era a


maior prisão da América Latina, com 7 mil presos? O que
você recorda de quando pisou lá pela primeira vez?
DEXTER: Eu ouvia histórias, antes de chegar no Caran-
diru eu estava passando por comarcas, né, mano.
Então assim, eu conheci alguns amigos que passaram
por lá também, então você ouvia história, acontecia
isso, aquilo... Na Casa de Detenção matava-se muita
gente, na verdade nós mesmos nos matávamos, então
isso obviamente marcou muito, eu escrevi muito sobre
isso, e assim quando eu pisei, quando eu desci do
bonde e pisei, pra mim eu tomei até um susto, porque
eu não sabia que... o Carandiru era uma cidade, eu não
sabia que existia uma prisão daquele tamanho, quer
dizer, eu sabia, mas até o primeiro contato, o desco-
nhecido te dá um pouco de receio, então você, quando
pisa num Carandiru, você fica com receio do que vai
encontrar lá dentro, após os portões. Então eu fiquei
meio naquela, uma cidade enorme e aí todas aquelas
histórias que eu ouvia dentro das comarcas me vieram
200 Hip-hop:dentro do movimento

à mente, mas eu sempre fui um cara crente num Deus


vivo, então eu falei pra ele: “Senhor, tô entrando e o
Senhor que me guia agora, já era.”
BUZO: Dentro do Carandiru você iniciou oficialmente sua
carreira junto ao grupo que você formou, o 509-E, que
era o número da cela em que vocês (formou o grupo com
Afro-X) estavam. Fale sobre isso.
DEXTER: Um troféu erguido com muito suor, trabalho, foi
feito com muito amor, carinho, marcou uma época, uma
geração, é muito louca a história. Um ano antes de eu
pisar na Casa de Detenção eu estava lendo uma revista
Veja e anunciava lá o CD do Escadinha, com partici-
pação do GOG, Racionais, Xis. Quando li essa revista,
estava lá em Serra Negra, aí falei, pô, se eu estivesse
em São Paulo, talvez pudesse participar disso aí tam-
bém, desse CD também e tal. Aí um ano depois, quando
eu cheguei na Casa de Detenção, se formou o 509-E, a
gente retomou as festas que não aconteciam há três
anos lá dentro, a gente resolveu fazer uma festa e levei
logo os Racionais lá. E no dia que nós levamos os Racio-
nais, o Celso, que hoje é empresário do Bill (MV Bill e
Celso Athayde), da Cufa lá, todo mundo conhece, ele
era o procurador do Escadinha na época, pra fazer o
disco, ele era o olheiro do Escadinha, procurando gru-
pos pra se fazer o disco e faltava só mais um grupo lá
para fazer participação. E ele quando viu, na época era
até o Linha de Frente, não era 509-E ainda, o nome era
Linha de Frente, até que se descobriu que se tinha mais
dois Linha de Frente registrados e tal, aí nós mudamos
para 509-E. Creio... Creio não, tenho certeza que ficou
até muito mais original, e aí o Celso estava lá naquele
dia gravando os Racionais e aí pediu pra falar comigo,
aí falou: “Pô, mano, a gente está ali com uma proposta.”
Eu falei: “Como pode isso, foi muito louco, há um ano
Fazendo rap mesmo com tudo contra 201

atrás eu li isso numa revista, pensei...” Então realmente


o pensamento ele é uma força criadora, é que nem o Edi
Rock fala, né, mano.
E fazer com amor, eu sempre falo que fazer o barato com
amor é muito louco, te dá bons frutos, e aí do nada a gente
recebeu o convite para fazer parte do CD do Escadinha.
BUZO: O CD te esperou?

DEXTER: Me esperou, olha só que louco, aí lançamos lá o


nome da música que era pra ser “Brasil de pólvora” e a
menina lá entendeu “Barril de pólvora”, quase que ficou
na mesma, mas o nome da música era “Brasil de pól-
vora”. Então assim, foi a primeira música que o 509-E
lançou, como Linha de Frente, infelizmente, mas... A
partir disso a gente começou a trabalhar com mais
intensidade, aí veio o 509-E, “Saudade mil”, “Oitavo
anjo” e tantas outras músicas, videoclipe, prêmios, saí-
das pra shows, foram sete meses de saídas para show,
palestras em escola, marcou uma época, marcou uma
geração, foi um prêmio, um troféu erguido com muito
carinho, muito trabalho, muito suor também, até por
conta das condições que a gente se encontrava, né.
Estava também os Detentos (grupo Detentos do Rap)
tocando pra caramba, fazendo sucesso e saindo, aí eu
pensei, se os caras tão saindo, a gente pode conseguir
isso aí também. Não deu outra, conseguimos também,
com ajuda de algumas pessoas. Foi gratificante, mara-
vilhoso, conheci muitas pessoas através do 509-E, o
Public trabalhou com a gente, um amigo que não está
mais no nosso meio, mas foi um cara assim que a gente
conseguiu tirar do mundo do crime e conseguimos dar
emprego pro cara e tantas outras pessoas, o Danilo, o
Marcão, que também não está mais com a gente, morreu
aí esse ano, vítima do câncer e tal, que Deus o tenha, um
202 Hip-hop:dentro do movimento

cara que deixa muita saudade, enfim, muitas pessoas


trabalharam com a gente, foi gratificante ao extremo
poder dar emprego para essas pessoas, poder...
BUZO: Revertendo, né, vocês presos, empregando.

DEXTER: Exatamente, é muito louco. Eu acho que quando


Deus traça um plano na sua vida ele vai. Dizem que
Deus escreve certo por linhas tortas, eu acho que Deus
escreve certo por linhas certas.
Então o 509-E é isso, mas assim, hoje, por exemplo, eu
vejo pessoas que eram do tempo do 509-E, que sentem
saudades do 509-E e que vivem ainda o 509-E, acha que
se fosse o 509-E, se fosse... se fosse. Não é mais, irmão,
foi um ciclo, acabou, foi bom enquanto durou, que fique
bem claro, eu criei o 509-E, não foi o 509-E que me criou,
certo? Então eu continuo sendo o Dexter, o exilado saiu,
show na Peruche, então coisas que vieram pra somar
na minha carreira, mostrar que realmente, por fazer o
rap com amor e por amor, o 509-E acaba sendo só um
nome, marcou uma época, uma geração, sinto a maior
saudade, mas...o 509-E pra mim hoje é só uma placa, a
essência está aqui comigo, não morreu com o nome, o
nome não morreu também, né, tá por aí, firmão, mas eu
continuo, tô aí, tô bem, graças a Deus.
BUZO: Depois do 509-E e dessas conquistas todas aí, veio
a necessidade de lançar uma carreira solo, e ela veio
em grande estilo com o CD Exilado sim, preso não!. Fale
desse álbum, que foi importante e ganhou prêmios.
DEXTER: “Em grande estilo” eu agradeço, da hora, o
segundo disco do 509-E já mostrou um desgaste assim,
entre ambas as partes, objetivos diferentes, coisas dife-
rentes, acho que quando você começa a viver outras
coisas, a tendência é que você mude mesmo, então é
natural, normal. Obviamente, quando eu sair da prisão
Fazendo rap mesmo com tudo contra 203

totalmente, eu também vou falar de outras coisas, mas


eu, minha raiz, minha vertente eu nunca vou deixar, entre
o MMII d.C, que foi o último disco do 509-E, onde a gente
já no disco deixa bem claro algumas divergências, algu-
mas situações distintas, até o lançamento do Exilado...
eu me fortaleci, mediante a várias outras dificuldades
que apareceram e aí a salvação, não diria salvação, mas...
BUZO: A continuação...

DEXTER: Isso mesmo, essa é a palavra, a continuação foi


trabalhar sozinho, lançar um disco sozinho, fazer uma
carreira solo, e continuar firmão e fortão e acreditar no
próprio potencial, acreditar que dá pra fazer, até porque
eu sou um cara que eu nunca estou sozinho, eu sempre
tenho meus parceiros do meu lado, Brown, DJ Hum pra
produzir, sempre tem o GOG, sempre tem Bill, sempre
tem, graças a Deus, qualquer mano do rap que eu for
fazer um trabalho eu consigo, os caras me respeitam,
eu respeito eles também, é um barato mútuo, nunca
me fiz de arrogante, prepotente com ninguém porque
é uma coisa que eu não sou, certo? Sou um cara que
levo uma mesmo, fazendo música, fazendo show, por-
que é a minha cara, eu levo uma mesmo, certo? Racio-
nais leva uma mesmo, GOG leva uma, você leva uma no
seu trabalho, você é bom no que você faz, certo, irmão...
Então as pessoas me colocaram numa posição da hora,
então eu tenho que fazer jus a isso, certo? Se o Dexter
tem o status dentro do rap é porque eu trabalhei pra
isso, então eu tenho que fazer jus a isso, é a minha cara,
demorô, levo uma mesmo, cantando rap, agora se fazer
de arrogante, prepotente, é outra fita. Eu não gosto
disso, isso não é comigo. Consegui trazer Paula Lima pro
meu show, mano, isso é muita treta, Paula Lima está lá
na Record, elas fazem show pra outro público, outras
pessoas, ainda bem que ela se reconhece enquanto
204 Hip-hop:dentro do movimento

periferia, enquanto preta, a raiz dela ela não esquece,


cantava com o Thaíde e foi da hora trazer a Paula Lima,
pra fazer comigo, foi da hora ter tido todos vocês lá.
Então é isso, a continuação, eu acreditei, outras pessoas
também acreditaram, falando pode ir que é isso mesmo.
BUZO: A juíza te deu trinta dias para produzir o álbum.
Como ficou tão bom em tão pouco tempo e na situação
limitada de estarem numa penitenciária?
DEXTER: Vou ser redundante, é só fazer com amor e res-
ponsabilidade, só isso, trazer as pessoas certas que
trabalham na mesma intensidade que você. Eu trouxe o
Dico, que era um cara que estava esquecido na perife-
ria da Zona Leste de São Paulo, um cara talentoso, com
o material lá, mas estava esquecido, o rap não estava
valorizando o cara. Eu fui lá, resgatei o cara, ele veio,
trabalhou comigo com muito amor, carinho, pegava
lá, acordava às 6 horas da manhã, o Willian da Zim-
babwe ajudou, emprestou um apartamento lá para os
caras ficarem, fizemos uma compra pros caras ficarem
um mês lá comigo, trabalharem. E assim, da mesma
forma que eu convidei o Dico, convidei o Função tam-
bém, veio, somou, lindo e elegante também dentro do
que ele sabe fazer. Nós três ali, dentro de uma sali-
nha, no presídio, conseguimos fazer o disco, foi posto
muito amor, muito carinho, muita responsabilidade e
a gente não perdeu o principal, a essência do barato, a
gente fez, pra rua, pras pessoas que vivem na rua, pros
trabalhadores, pros pretos, pros pobres, pros favela-
dos, a gente fez o disco para essas pessoas, tá ligado?
Nosso tema está aí, é a rua. Então o que eu vejo na rua,
eu passo fome, eu não passo fome, eu tenho um cor-
dão, eu uso um Ekon, ele usa um Nike, eu sou preto, ela
é branca, entendeu, o que é o tema, tá aí.
Fazendo rap mesmo com tudo contra 205

O rap é nu e cru, é a favela e já era, agradeço a direto-


ria da época. Dar asas pra quem sabe voar dá nisso aí
mesmo, graças a Deus. Exilado sim, preso não! foi um
disco que marcou a chegada, reuniu pessoas que nunca
haviam se reunido em outro disco, graças a Deus eu
consegui fazer isso.
BUZO: Depois dessa fase do sucesso do disco, não pude-
ram ser feitos shows, não estava liberado. E quando
você conquistou a saída temporária em dias festivos e
tal, você aproveitou uma dessas saídas (abril de 2009)
pra fazer aquele show na Peruche, numa hora que a cena
estava bastante parada, esse show deu um boom, 4 mil
pessoas, comentário geral. Disso surgiu um CD que vai
virar um DVD. Fale sobre isso.
DEXTER: Dexter & convidados foi...

BUZO: Antecipando sua resposta, queria dizer que foi um


orgulho apresentar a festa junto ao Fabio Rogério.
DEXTER: Estava lá, né, mano, não podia faltar, Buzo,
Fabio Rogério, assim... Eu queria levar, já que se falava
muito em baixa do rap, pouco público, a gente con-
tou com o fator da minha ausência dos palcos durante
oito anos. Então isso era um fator favorável, então eu
acreditei nessa festa, a gente começou a trabalhar
dois meses antes, chamei o Dário, da Porte Ilegal, que
me ajudou a fazer a produção e tal, eu juntamente com
minha esposa articulamos tudo, passávamos adiante
as diretrizes para as pessoas que executaram, porque
eu sozinho não tinha condições pra isso. Reuni as pes-
soas que eu consegui reunir nesse show, alguns que já
estavam dentro do disco e outros que não estavam, que
vão estar no próximo disco agora, mas a gente já fez
o catado. Foi muito louco, assim, o formato do show,
era uma coisa que eu tinha que pensar, tipo assim, eu
206 Hip-hop:dentro do movimento

tinha que fazer algo diferente. Aquele formato de dez


caras subindo antes, pra depois vir a atração principal,
já estava cansativo em São Paulo, não só em São Paulo
como no Brasil todo, meio saturado, ninguém aguenta
mais ficar ouvindo cinco horas um monte de grupo, pra
depois ouvir o grupo principal ainda, estava meio satu-
rado e o rap precisava dessa renovada, e era isso que eu
queria fazer nesse show.
BUZO: Uma coisa dinâmica, cada hora subia um no palco.

DEXTER: Exatamente. Eu queria algo diferente, tinha que


ser diferente, lá vem o Dexter, mas ele vem como, aí as
pessoas vão lá ver, aí eu chego e faço igual, mesma coisa
que outros estavam fazendo... Ah, venho do mesmo jeito.
Talvez não, até por essa ausência dos palcos, ou por-
que não queria cansar o público, justamente como você
falou, queria fazer algo dinâmico e que fosse muito
louco, então nós fizemos duas horas de show, e eu não
vi cansaço, vi pessoas curtindo da primeira à última
música. Foi muito louco, eu chamei os caras pra partici-
parem comigo, eu fazia duas sozinho, chamava uma ter-
ceira música com participação e eu saía do palco e esse
participante fazia uma dele, depois ele saía e eu voltava
até o final do show.
Mano, o formato foi muito elogiado, eu fiquei muito feliz
por isso, a gente conseguiu dar mais uma tacada, fazer
algo novo, a galera curtiu, o horário da festa foi impor-
tante também, era isso, eu queria fazer algo diferente.
Convidei grupos que não iam cantar, mas chamei eles
pra assistir ao show.
BUZO: Também é diferente...

DEXTER: É, sim, diferente. Todo mundo na lista vip, entrou,


ficou em camarote, quer dizer, quis dar o melhor pro
público, acho que falta isso, valorização das pessoas,
Fazendo rap mesmo com tudo contra 207

afinal de contas quem é que paga o seu cachê, quem


que paga o pão que você vai colocar... são eles, tem que
valorizar, tem que respeitar, tem que fazer show de qua-
lidade, tem que ser um barato muito louco, tanto é que
daqui pra frente, se eu pudesse fazer que nem o Roberto
Carlos, um show por ano, mais fosse o show, eu ia fazer.
Pro rap não dá, mas hoje eu penso em muita qualidade
pro meu público, não quero fazer dez shows no final de
semana, eu faço três, mas com qualidade. Um micro-
fone bom, um som bom, um retorno da hora, é assim.
Foi uma grande confraternização, oito anos depois, eu
quero ver todo mundo feliz.
Sem treta no baile, sem ninguém sair de ambulância e
foi isso o que a gente conseguiu.
De 0 a 100 pro show, nota 100, todo mundo foi bem rece-
bido, cantou. Estou falando o que eu ouvi das pessoas,
você estava lá também, pode falar, reunir todos vocês
juntos foi gratificante ao extremo. Outros virão...
BUZO: O privilégio desta entrevista é estarmos “nas ruas”.
Como você encara de agora em diante o futuro, né?
DEXTER: Coisas boas, muito trabalho, disco novo, se não
sair este ano é porque a gente está pra lançar um DVD
agora desse show, entre agosto e setembro vai chegar
nas lojas, talvez não tenha tempo de finalizar. Mas já
temos nove músicas prontas, letra, né, composições
estão prontas, faltam umas três, quatro. Participações
estou estudando bastante, uma parcial biografia tam-
bém, eu não tô encontrando muito tempo pra escrever,
mas pra 2011 vai estar aí também.
Muita força de vontade, empenho, Dexter 2010, 11, 12, 13...
BUZO: Lembrando que o livro ainda sai em 2010, um salve
pra quem vai ler esta entrevista.
208 Hip-hop:dentro do movimento

DEXTER: Muita paz, muito amor, não deixe de sonhar, de


lutar, a vitória só depende de você, parceiro. Se precisar é
só chegar, beijão no coração de todos, muita paz. Valeu...

Dexter, obrigado pela entrevista e por ter vivido esse


momento com você, ter dado esse rolê nas ruas. A hora
que os moradores de rua te reconheceram foi emocio-
nante, quando precisar sabe que pode contar.

Fomos atrás de entrevistar o DJ Dico, que produziu o


álbum Exilado sim, preso não!, em 2005, para saber como
foi o processo de criação. Afinal, esse disco foi o pontapé
inicial de uma carreira solo vitoriosa do Oitavo Anjo.

Mas hoje o DJ Dico vive em Portugal, então corre aqui e


ali até chegar no mano, porque não ia ser a distância que
iria impedir esse contato. Afinal, a internet está aí para
facilitar as coisas.

Dico falou, além do Dexter, dos corres que anda fazendo


em Portugal, de como o rap brasileiro é visto por lá.
Vamos a mais uma entrevista exclusiva.

BUZO: Nos fale do projeto que está fazendo aí em Portu-


gal, um movimento hip-hop só com grupos de países de
língua portuguesa, “lusofonia”...
Você também tem um programa na rádio em Lisboa.
Como é? Fale sobre isso.
DJ DICO: O Projeto Gueto em Festa tem como objetivo
difundir, unificar e criar um mercado entre o movi-
mento hip-hop dos países que têm o português como
língua oficial (circuito lusófono), trazendo notícias
e novidades através de um site e de um programa de
rádio em Lisboa, que será sede internacional desse
movimento e de posteriores festivais culturais envol-
vendo esse projeto, o primeiro em 2011.
Fazendo rap mesmo com tudo contra 209

O programa Gueto em festa, que é uma produção inde-


pendente, vai ao ar todos os domingos das 14h às 16h na
rádio 89.1 FM, que abrange a região da grande Lisboa,
Castanheira do Ribatejo e Margem Sul do Tejo, abrindo
espaço para novos grupos independentes dedicando a
última meia-hora do programa aos grupos que enviam
seu trabalho por e-mail. Apresentado por DJ Dico.
BUZO: Voltemos ao Brasil. Você foi produtor do premiado
álbum Exilado sim, preso não!, do Dexter. Como foi a rea-
lização desse trabalho?
DJ DICO:Quando o Dexter me procurou pra produzir seu
disco, foi bem claro nas ideias e disse: “Mano, eu não
tenho dinheiro. O juiz nos deu apenas trinta dias pra
fazer o disco. Vou ser sincero, já procurei outros produ-
tores e por essas dificuldades ninguém quis fazer. Como
você já trabalhou comigo no disco do 509-E, gostaria de
saber se você quer enfrentar essa batalha comigo.”
Quando recebi esse convite, me lembro como se fosse
hoje, eu estava desempregado, meu casamento por um
fio e uma filha pra criar, e não pensei duas vezes e disse
“tô fodido hoje por acreditar no movimento hip-hop e
não me arrependo de nada do que eu fiz, nunca fui opor-
tunista, só gostaria de ter uma oportunidade de mostrar
meu trabalho, tamo junto, vagabundo!”
Peguei todos os equipamentos do meu home estúdio,
meti dentro do meu fusca vinho ano 1974 mais fodido
que o dono (risos) e fui em direção à Praia Grande, por-
que ele estava na P2 da Praia Grande na altura.
O Dexter fez um mutirão entre alguns detentos que tra-
balhavam na “cultura”, um local na P2 em que foram
montadas uma biblioteca com livros doados e salas de
aulas pra quem quisesse estudar. Eram poucos, tipo uns
oito ou nove caras que ajudaram ele a isolar uma sala
210 Hip-hop:dentro do movimento

com isopor. Essa sala tinha tipo uns 3x2 metros e foi aí
que foi montado o estúdio onde eu produzi o disco dele.
Todo dia eu entrava na P2 às 8h da manhã, tomava café
e almoçava lá como os detentos e saía às 6 da tarde. O
disco foi feito do zero, não tínhamos nada, só mesmo a
vontade de fazer. Me lembro também que foi a “Fênix” a
primeira música a ser feita. O difícil foi apenas começar,
mas como estávamos totalmente focados no trampo,
as coisas fluíam naturalmente. Quando eu saía do pre-
sídio, eu ficava hospedado numa casa de temporada de
um amigo dele junto com o Função do Di Função. Mesmo
fora do presídio, não parava de pensar nas produções,
tinha que dar o meu melhor, por isso o disco foi feito do
zero e até a pré-mixagem foi feita lá dentro da P2.
Esse trabalho foi a melhor coisa que me aconteceu, por
ser o único já feito dessa forma na história do hip-hop
mundial, e eu ajudei a escrever!
Não foi à toa que ganhou o prêmio de melhor disco no
Hutúz de 2005 e cinco prêmios no Hip-Hop Top. Tudo o
que aconteceu foi verdadeiro, desde os versos do Dex-
ter aos bumbos e caixas das minhas bases, e graças a
esse disco, que abriu portas pra estar aqui em Portugal
hoje fazendo o que eu mais gosto. Rap até a morte!
BUZO: Qual a diferença entre o hip-hop no Brasil e em
Portugal?
DJ DICO: Ideologicamente falamos das mesmas coisas:
problemas sociais, cotidiano etc.
Musicalmente acho que o Brasil está atrasado, ainda
nos anos 1980, parou no tempo.
Fui perceber isso depois que vim pra Europa e conheci
outros grupos. Na França, o movimento é mais forte
que no Brasil, os caras estão lado a lado com os
Fazendo rap mesmo com tudo contra 211

americanos em termos de produção, mas de ideologia


os caras estão na frente.
Todo empolgado, fui mostrar uns trampos de grupos
brasileiros para uns americanos. Falaram que isso eles
faziam nos anos 1980, e foi a mesma opinião dos fran-
ceses que, na minha opinião, estão em primeiro lugar no
mundo em termos de rap.
Por isso, tô tentando fazer um mercado lusófono e que-
brar fronteiras entre esses países pro movimento brasi-
leiro ganhar mercado fora do país também.

Com certeza, ter pessoas como o DJ Dico para facilitar


esse intercâmbio vai ajudar muito no futuro. Recen-
temente, o Big Johnson (mais Mano Brown, Ice Blue,
Helião, Lino Cris, DJ Cia entre outros), esteve em turnê
pela Europa. Passaram por Portugal, Inglaterra, Itália.

Precisamos disso, fazer com que nosso rap chegue a


outros países. Só assim, talvez, mostre definitivamente
sua força e faça com que possamos ter condições de
melhorar nossas produções, fazer cada vez mais uma
base de qualidade, com as melhores tecnologias e par-
cerias, esse é um dos caminhos do crescimento. DJ Dico
deixou bem claro que não tem nenhuma fita dominada,
então temos que trabalhar e muito ainda.

Mas o que pode ser mais do contra do que você acabar


sua vida nas drogas? Quem já viveu isso sabe.

E o que dizer de pessoas que através do hip-hop muda-


ram suas vidas e foram resgatadas entre esses milha-
res de jovens? Tem um que é bisneto do grande “Poeta
do Povo”, Solano Trindade. Estou falando de Zinho Trin-
dade, falamos com ele, que é um MC nato e também faz
freestyle, mas acima de tudo, largou o caminho triste
através do hip-hop.

Vamos ver o que ele tem a nos dizer.


212 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Como você vê o hip-hop, sua importância?

ZINHO TRINDADE: Vejo o hip-hop como um futuro de vida,


o vejo como formador de pessoas, um grande instru-
mento para a educação e a formação! O resgate a uma
vida perdida da sociedade! O hip-hop pra mim é muito
importante, pois eu vivo dele, essa cultura é o meu
ganha-pão e a minha vida. Algo que surgiu em meados
dos anos 1970 e até hoje embala as periferias e os cen-
tros de todo o mundo, onde milhares de jovens encon-
traram um valor, um lugar, onde todos são iguais, uma
cultura sem preconceitos, onde você pode escolher
entre o break ou ser DJ, grafiteiro ou MC. O que seria
da periferia sem o hip-hop, quantos irmãos estavam
perdidos neste mundão, e depois do hip-hop e seus
elementos tiveram uma mudança radical em sua vida!
Quem não sabia ler, e hoje escreve até livro, quem puxou
cadeia e pá e hoje vai dar oficinas em cadeias! O hip-hop
pra mim é tão importante que deveria ser ensinado nas
escolas, como matéria; o break entra na aula de Educa-
ção Física, o grafite na aula de Artes, o MC se encaixa na
aula de Português, História, Geografia. Ainda podemos
trabalhar até a matemática na produção musical e for-
mação, espero que isso aconteça um dia.
BUZO: Qual sua ligação com o hip-hop?

ZINHO TRINDADE:Quando criança minha tia tinha os discos


dos Racionais, Thaíde e DJ Hum, a coletânea Rap na veia,
e outros gringos. Ela não me deixava tocar nos discos,
mas quando ela escutava, eu ficava escondido escutando
e aprendendo a cantar, quando ela saía eu ia e gravava
uma música na fita, mas era um processo muito demo-
rado, levei umas porradas algumas vezes por mexer em
seus discos caros da época, 1992 o bagulho era doido! Em
1996, comecei a me arriscar nas rimas, fazia apenas na
escola ou com amigos, imitando o Thaíde, o Mano Brown,
Fazendo rap mesmo com tudo contra 213

entre outros! Depois desencanei de fazer rimas, tive pro-


blemas com drogas na adolescência, quase fui preso
e resolvi me internar em uma clínica para dependentes
químicos, e só fui voltar para o mundão um ano e dois
meses depois! Quando saí, com uma nova visão da vida,
comecei a fazer rap de verdade aos 20 anos, convidado
por um grupo de rap que se chamava Hiptomhop, como
MC, em Embu das Artes, não tinha em mente que iria can-
tar até hoje, e nem sabia o que eu iria fazer da minha vida
também. Trabalhei como ferreiro, garçom e barman, mas
sempre que marcava um show o trampo atrapalhava. Eu
tive que escolher entre ficar com a minha carteira assi-
nada e meu trabalho seguro ou ser MC. Decidi ser MC,
comecei a estudar mais sobre a cultura e a conhecer o
hip-hop de verdade! Hoje tenho um trabalho com a minha
banda, Zinho Trindade e o Legado de Solano, onde misturo
rap com cultura popular, uma herança da minha família.
Tem a festa em que eu faço Batida do Coração sempre
com o propósito de ajudar algo ou alguém, onde sempre
estou divulgando e trabalhando com o hip-hop. Trabalho
com a Cia de Arte Negra Capulanas, onde no espetáculo
faço um MC e poeta, além de ter feito trabalhos como MC
em alguns filmes. O único filme em que eu não sou MC
se chama Profissão MC, de Toni Nogueira e Alessandro
Buzo! Tamo junto... Tenho um trampo com o Thiago Beats,
onde ele faz beatbox e eu, freestyle, apresentando em
tudo quanto é lugar. Dou aula sobre a cultura hip-hop há
quarto anos no Teatro Popular Solano Trindade no Pro-
jeto Trindade Guerreiro. Crio e apresento meu programa
de entrevistas Hip-hop cozinha, e estou terminando um
documentário sobre o hip-hop em Embu das Artes. Tem
o meu livro de poesias, que são raps sem batida, que já
está pronto, falta apenas uma editora para colocá-lo nas
ruas, e meu disco para o ano que vem. Além de dar pales-
tras, oficinas e apresentar shows. Fui ligado ao hip-hop
214 Hip-hop:dentro do movimento

por um cabo que nunca mais vai arrebentar, um cordão


umbilical que ninguém pode cortar, um grande ensina-
mento para a minha vida, em que é o meu viver. Tá ligado?
BUZO: Você é bisneto de Solano Trindade. Mesmo fugindo
do tema, nos fale dele.
ZINHO TRINDADE: Solano Trindade, na minha opinião, sem-
pre vai ser tema para o rap, pois Solano Trindade foi um
grande poeta negro que lutou pela melhoria e a igual-
dade de seu povo. O rap luta por isso, pela igualdade,
por um mundo melhor para o povo negro e pobre. Sem
contar que nas poesias de Solano, que são das déca-
das de 1930 a 1970, você encontra as palavras “Salve”
e “Mano”. Solano não conheceu o rap na batida, mas em
suas poesias ele sempre esteve presente. Solano era do
povo e lutou contra todo o preconceito que existe em
nossas quebradas até hoje, Solano morou em um bar-
raco, Solano foi enquadrado pela polícia, Solano teve
seu filho mais novo, Chiquinho, morto pela ditadura,
Solano teve sua vida de poeta da periferia, vivendo as
dificuldades em que o nosso povo passa todos os dias
nas periferias do Brasil. O poema “Trem sujo da Leo-
poldina”, conhecido como “Tem gente com fome”, é um
protesto ao sistema em que vivemos, e por causa desta
poesia Solano foi preso. Solano falava e vivia o povo, era
conhecido pelos outros poetas como “O poeta do povo”,
e o rap é a linguagem do povo. Apesar de Solano Trindade
ter nascido em 1908 e falecido em 1974, durante toda
a sua vida ele teve uma preocupação com a periferia e
os menos favorecidos. Em 1940, ele já trabalhava para
o jovem negro entrar na faculdade, para o jovem negro
conhecer sua história e pela luta na educação do povo
pobre. O rap, como Solano, luta por isso. Solano Trin-
dade formou um grupo de dança popular junto com sua
esposa Maria Margarida e o sociólogo Edison Carneiro, o
Fazendo rap mesmo com tudo contra 215

Teatro Popular Brasileiro, onde as pessoas do grupo


eram operários, empregadas domésticas e trabalhado-
res braçais (o povo), e os ensinou a cultura popular da
nossa terra, como Maracatu, Coco, Lundu entre outras
danças. Divulgando a cultura popular, o nosso folclore,
que é o ver, agir e pensar de um povo. O grupo fez várias
apresentações pelo Brasil e Europa. Após sua morte,
minha avó, Raquel Trindade, mudou o nome para Tea-
tro Popular Solano Trindade, onde damos a continui-
dade de seu trabalho na cidade de Embu das Artes, que
antes de Solano chegar, se chamava apenas Embu. Ele,
junto com outros artistas, mudou culturalmente a vida
da cidade. Hoje em São Paulo temos muitos saraus de
poesias por toda a cidade, e Solano é uma forma de ins-
piração para todos nós. Quantas pessoas do hip-hop
não leem Solano e quantos rappers não fazem poesias e
vão em saraus de poesias. Você vê Solano na Cooperifa,
no sarau do Binho, na Fundão, no Elo, na Brasa, Ademar,
basta ir em um sarau na quebrada e lá o Poeta do Povo
está. Salve, salve a todos que amam a vida sem ter medo
da morte. Salve a todos que amam liberdade sem ter
medo de prisões e fuzilamentos. Porque a história con-
tinua “devagar e sempre”, como diz um negro velho meu
vizinho... Solano Trindade.
BUZO: Voltando ao hip-hop, ele salva?

ZINHO TRINDADE: O hip-hop me salvou e salva! Quantos


guerreiros e guerreiras que estavam perdidos em suas
vidas e conheceram o hip-hop, e daí para a frente tudo
mudou? Quando comecei a me aprofundar no hip-hop,
não sabia o que iria fazer da vida, nada foi fácil, mas
essa linguagem da rua me deu um novo sentido para
viver. Antes do rap vivi em um mundo pro qual não quero
nunca mais voltar, onde machuquei pessoas e familia-
res, onde nada tinha valor! Mas o sentido de viver veio
216 Hip-hop:dentro do movimento

quando descobri que tinha algo para eu lutar, que tinha


algo que me fazia feliz apesar das dificuldades, e que
eu podia mudar não só a minha vida como a de outras
pessoas também. Já vi e vejo muitos jovens tendo uma
mudança radical de sua vida após frequentar uma ofi-
cina de hip-hop, pode ser no break, no grafite, como DJ
ou MC, mas tudo muda. Para você fazer um rap tem que
escrever, para criar a letra tem que ler, quantos semia-
nalfabetos graças ao hip-hop hoje fazem faculdade?
O nosso ensino nas escolas hoje em dia é precário, os
jovens não se interessam pelos estudos, mas se inte-
ressam pelo rap, e o rap os faz crescer como pessoas
e estudar, o cara acaba estudando sem saber que está,
aprende sobre Zumbi, Che Guevara, sobre o povo negro,
sobre a sua história. Muitos podem não fazer sucesso
no mundo do rap, podem não tocar na rádio, acabam
não seguindo no mundo artístico, mas sua autoestima é
levantada, sua vontade de crescer e sair da vida do crime
renasce como uma fênix. Um exemplo claro de que o rap
salva é o Afrika Bambaataa, que antes do hip-hop era
líder de gangue, ou o nosso Maestro do Canão, há muitos
exemplos e acho que a grande maioria, diria até 90%, se
não for 99, foram salvos pelo hip-hop. Pois quem vem da
periferia, dos morros, sabe que nada é fácil e há muitas
propostas para se ganhar dinheiro fácil e se envolver no
mundo do crime. Mas o hip-hop está aí para isso, para
salvar, para resgatar os jovens, onde este jovem resga-
tado irá resgatar outro jovem, então o hip-hop sempre
vai salvar, e ninguém vai parar essa máquina que res-
gata vidas da periferia chamada hip-hop.
Buzo e Dexter Buzo e Dext
Cap.07
Posses do hip-hop
Falando em A Firma, vale lembrar que existem várias
posses que estão no hip-hop há anos, muitas delas são
tradicionais, pois o termo “posse” sempre esteve ligado
ao movimento, cada uma tem seu estilo próprio de traba-
lho, mas todas têm a sua importância.

Entrevistamos, em abril de 2010, o Fex Bandollero, um dos


fundadores da tradicional Reviravolta Máfia, para saber
melhor como era o trabalho deles e quais as atividades.
Fex nos falou com exclusividade e você confere agora.

BUZO: Nos fale como funciona e quais as atividades liga-


das à Reviravolta Máfia.
FEX BANDOLLERO:Reviravolta Máfia é um selo indepen-
dente de rap, estúdio musical, produtora de clipes e
artes gráficas, com diversos grupos com álbuns solo
lançados, e vários projetos sendo estudados. Somos
uma família que corre um pelo outro.
BUZO: Quem fundou, onde e quando?

FEX BANDOLLERO: Foi criado em 2001, a princípio com um


selo para lançar o single do F.A.S., Os últimos rebeldes.
Porém, como o objetivo era expandir o projeto, foi ideali-
zada uma coletânea com grupos que estavam produzindo
no estúdio com o Erick12 e que tinham uma proposta
diferente dentro do rap. Então, em 2003 foi lançado o CD

220
Posses do hip-hop 221

Reviravolta Máfia Vol. 1, com 14 grupos de diversas par-


tes de São Paulo. Eu, Eazy Kaos, Erick12 e Danny-C (que
hoje não pertence mais) fomos os fundadores.
BUZO: Quem hoje faz parte da Reviravolta Máfia?

FEX BANDOLLERO: Os membros são: Eazy Kaos, Erick12, Fex


Bandollero, Pacheco, Man, Vigilantes MC’s, Sooblime,
Don King, Preto Gênio, Xandão, Voz Negra, 51/50, Thug
Black, Reflexxão, Gueto Organizado, Toroká, DJ Vila e
Douglas. Estamos acertando a entrada de mais alguns
membros. Mas ainda é novidade. Sem confirmação.
BUZO: Sealguém, algum grupo de rap, quiser fazer parte,
como é isso?
FEX BANDOLLERO: Funciona assim: nós fazemos o con-
vite. Eu, o Eazy Kaos e o Erick12 nos comunicamos e
acertamos isso. Antes não era assim, mas hoje somos
mais seletos no que diz respeito à fusão de qualidade/
correria/profissionalismo/caráter.
BUZO: Qual a importância das posses no hip-hop brasileiro?

FEX BANDOLLERO: Bom, pode parecer utópico, mas acre-


ditamos em união, ainda. Somos a prova contundente
de que isso funciona. As posses estão intrínsecas no
hip-hop e sempre serviram pra fortalecer o próprio
movimento. Nosso trabalho funciona nesse sentido.
Nos associamos para crescermos juntos.11

Além da REVIRAVOLTA MÁFIA, falamos com a Posse DRR


(Defensores do Ritmo Rua), criada por militantes do hip-hop
na Zona Leste de São Paulo, no bairro de São Matheus. A
entrevista não foi exclusiva pro livro, e sim quando eu (Buzo)
fui até lá gravar o quadro “Buzão – Circular Periférico” pro

11 Saiba mais: www.reviravoltamafia.com.br


222 Hip-hop:dentro do movimento

Programa Manos e minas da TV Cultura, no final de 2009,


falamos com o Grand-E (Alvos da Lei) e Mikimba (De Menos
Crime) sobre DRR.12

BUZO: DRR?

GRAND-E:A posse DRR surgiu em 1994, era uma posse


de break, aí a gente se conscientizou de passar algu-
mas caminhadas para nossa população aqui em São
Matheus, Zona Leste.
BUZO: Então foi através da dança?

MIKIMBA:Primeiro a dança era o maior contato, todos


éramos dançarinos e praticantes da cultura hip-hop.
GRAND-E: Eu acho que hoje o rap tem que... Os rappers
têm que ajudar o rap, e se a gente não fizer mais alguma
coisa pelo rap, eu acho que o rap vai ser uma música
mais extinta do que ela já é...

12 Para assistir a essa entrevista: http://www.youtube.com/


watch?v=3cKqC1Nr-pQ
Favela Toma Conta lotado Favela Toma C
Cap.08
Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa

, aqui elas têm voz ativa


Se o hip-hop sofre discriminação, imagina uma mulher no
hip-hop? Sofre em dobro.

Mas aqui, não. Nesta obra elas têm lugar de destaque.


Vamos começar falando com a Aninha, do grupo Atitude
Feminina, de Brasília-DF. Ela tem muito pra nos contar e
você lê agora.

BUZO: Atitude Feminina é hoje uma referência de mulher


no hip-hop. Como você vê a importância do seu grupo
nesse sentido?
ANINHA: Quando começamos, há dez anos, não tínhamos
essa pretensão. Mas essa referência como grupo femi-
nino no hip-hop aconteceu naturalmente pelo trabalho
que a gente vem fazendo nesses últimos anos. Esse
trabalho não foi só em cima do palco, mas fora dele
também. Nos presídios, nas colmeias, nos abrigos, nos
fóruns, nas palestras, nos encontros, nos videoclipes,
nas premiações, no dia a dia etc. Foi muita coisa aliada
às nossas músicas.
BUZO: Por que existem poucos grupos femininos no país?

ANINHA:Porque se já existe pouco espaço pros grupos


masculinos, imagine pros femininos? Mais isso está
acabando. Crescemos muito e estamos aprendendo a
nos organizar.

226
Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa 227

BUZO:Nos shows, eventos, também é pequena a parti-


cipação feminina. Por que acontece e o que é preciso
pra mudar isso?
ANINHA: Muitas mulheres se submetem às vontades
machistas dos homens, sendo eles do movimento
hip-hop ou não. Por exemplo: “Fica em casa cuidando
das crianças enquanto vou pro show de rap”. Precisamos
acabar com isso. Imagina se ela chegasse pro marido
e falasse: “Tô indo pro show de rap. Fica em casa cui-
dando das crianças!”. Pronto, a sociedade cai matando,
começando pela família dele: “Que mãe é essa que não
quer cuidar dos filhos!” ou pior: “Essa tua mulher é uma
vagabunda! Não quer saber de nada! Só quer se diver-
tir enquanto você fica em casa com as crianças!” Mas
esquecem que na maioria das vezes é a mulher que
cuida a semana inteira das crianças e dos deveres do
lar. Aí não pode se divertir no final de semana? Por que o
homem pode e quando a mulher sai sempre é tachada de
“puta”? Isso tem que acabar. Os deveres, as obrigações
num casamento ou relacionamento têm que ser iguais.
Quando a mulher trabalha fora de casa, então, nem se
fala. Resumindo: o rap nacional ainda é machista! Olha
que eu não me considero tão feminista assim!
BUZO: Nos fale sobre a Dina Di, como vê a falta dela no rap
feminino e nacional no geral?
ANINHA: Antes de mais nada, perdi uma grande amiga e
uma guerreira que era uma grande inspiração para mim e
para o meu grupo. Aprendi muito com ela e o hip-hop bra-
sileiro perdeu muito com isso. Espero poder, dentro das
minhas condições, ajudar o Chuck no que ele precisar e no
que estiver dentro do meu alcance para criar a filha deles.
228 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Eventos específicos como o Fórum das Mulheres


no Hip-Hop, em que vocês estiveram em Carapicuíba-SP,
são o caminho?13
ANINHA: Sim! Unidas e organizadas ficaremos mais for-
tes e daremos mais visibilidade às nossas ações.
BUZO: O hip-hop é machista?

ANINHA: Infelizmente, ainda, sim.

BUZO: Uma rima cheia de Atitude Feminina?

ANINHA: “Quem ama não mata, não humilha e não mal-


trata”. Diga não à violência contra a mulher!

Sentiu que as ideias são fortes, e temos também mulhe-


res, além de rimadoras, DJs, b.girls, grafiteiras. Vamos
começar falando com uma DJ. Ela, além do trabalho
nas pickups, é atriz de sucesso, participou de novelas
como Os mutantes, da Rede Record, e no momento
que nos concedeu esta entrevista (abril/2010) está no
ar com a novela Uma rosa com amor, do SBT. Estamos
falando de Pathy de Jesus. Vamos ver como ela vê a
cena da mulher no hip-hop.

BUZO: Por que há poucas mulheres no rap nacional?

PATHY DE JESUS: Não só na cena nacional, não é verdade?


Só que aqui ainda menos, aliás bem menos. Obvia-
mente, o hip-hop é um movimento onde os homens
são a maioria esmagadora. O rap ainda é considerado
“coisa de homem”, assim como várias outras atividades
como jogar bola, dirigir, administrar empresa... Vivemos
numa sociedade machista, onde o papel feminino seria
ficar em casa, cuidar dos filhos e do marido. Nada contra,

13 O evento citado ocorreu em março de 2010 e foi organizado pelo site


www.mulheresnohiphop.com.br
Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa 229

mas sou totalmente contra qualquer tipo de segrega-


ção. Cada um tem que fazer o que tem vontade. Graças à
revolução feminista e a todas as manifestações em prol
de igualdade de oportunidade, a mulher vem a cada dia
conquistando o espaço que é dela por direito! Em relação
ao rap nacional, as coisas estão mudando! Quando come-
cei a ouvir rap, em meados dos anos 1990, dentro do meu
universo conheci a Rúbia e a Rose MC, e achava aquelas
duas demais! Sempre me perguntava: “Nossa, como será
que elas conseguem?” DJ, não conheci nenhuma... B.girl
então... Logicamente já existiam várias, mas não “che-
gava” na gente. Agora existem milhares de representan-
tes femininas dentro do hip-hop. A tendência é crescer
mais e mais, vários talentos espalhados pelo país. E con-
tra o talento não dá pra argumentar.
BUZO: Quem você destaca na cena hip-hop feminino?

PATHY DE JESUS: Essa pergunta é complicada de respon-


der por ser extremamente pessoal. Como disse ante-
riormente, existem milhares de talentos espalhados
pelo país, e muitos desses não chegam até a minha pes-
soa. Fora isso, gosto é gosto e cada um tem o seu. Vou
citar alguns nomes, mas isso não significa que desme-
reça qualquer outra. Gosto não se discute, não é?! Dito
isso, vamos aos nomes. No hip-hop nacional, fora a
matriarca e irmã querida Rúbia, destacaria Flora Matos
(acho que essa menina tem um talento único), MC Stefa-
nie, Lurdes da Luz, Nathy MC, Lívia Cruz... gostava muito
da Negra Li no RZO também. Ah, a Camila, que canta
com MV Bill... meu pai, que flow. Além disso, destaco as
DJs da crew Applebum, em especial DJ Lisa Bueno, pela
técnica e coragem! Essa é guerreira, é pra mim a melhor
turntablista do país. Tem a DJ Cinara, que também acho
demais, a Typá... Sei que tem muita b.girl, muita grafi-
teira, mas infelizmente não posso opinar sobre isso.
Família RZO
Família RZO
232 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Como é ser DJ num universo masculino?

PATHY DE JESUS: Bom, vejo como mais um desafio a ser


conquistado. Nada além disso. Na vida, em várias
outras atividades, tive e continuo tendo que lidar com
isso 24 horas por dia, então não é novidade nenhuma.
Meu pai me ensinou que sendo mulher e negra terei
muito mais trabalho pra mostrar meu talento, bus-
car meu espaço... Desde pequena, sempre tive muito
mais amigos homens que mulheres, talvez isso ajude
na maneira que lido com isso hoje. Tem que ter jogo de
cintura, saber chegar, se portar e ser no mínimo regu-
lar pra ser respeitada. Porque pode ter certeza que a
mulher vai ser dez vezes mais cobrada que o homem, é
fato! Mas já disse antes, em várias outras entrevistas:
de onde venho as coisas nunca vieram fáceis, de mão
beijada. Estou acostumada a enfrentar grandes desa-
fios, não tenho medo de dar a cara pra bater.

Mas não tem como falar de mulher no hip-hop e não pen-


sar nela, Re.Fem. (Revolta Feminina), uma garota que
mora na Baixada Fluminense, politizada, feminista assu-
mida e talentosa, lembro quando a vi cantando pela pri-
meira vez: “Baixada Fluminense, aqui o bicho pega, minha
gente, Baixada Fluminense, essa é a realidade da Baixada
Fluminense.” Virei fã, depois amigo.

Hoje ela trabalha com o Movimento Enraizados, e como


sou muito próximo deles, passei a ter mais contato com
ela, que além de rapper e militante, é também cineasta,
fez filmes e videoclipes, o último deles foi O enterro do
neguinho, do grupo Atitude Feminina de Brasília-DF.
Quando eu assisti, achei o vídeo bem louco, fala do ban-
dido da quebrada que é amigo de todos e querido, achei o
clipe muito benfeito, mas sabia de uma coisa: era um prato
cheio pros críticos do rap, porque mostra o bandido como
um cara popular na favela. Liguei na hora pra Re.Fem. e
Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa 233

perguntei o que ela achava disso, expliquei que tinha gos-


tado, mas tinha tido esse pensamento. Re.Fem. me disse:
“Buzo, deixe criticar, esse clipe fizemos pra favela e a
favela curtiu, em Brasília os manos curtiram demais, isso
é suficiente, deixa os críticos falarem.” Essa é a Re.Fem.,
vamos saber mais sobre ela nesta entrevista exclusiva.

BUZO: Como é ser uma rapper mulher na Baixada Fluminense?

RE.FEM.:Para mim não foi nada fácil. Eu ainda moro em


Parada Angélica, Duque de Caxias. Esse bairro fica numa
parte da Baixada que é isolada das demais cidades da
Baixada Fluminense, é distante até do centro da cidade
onde eu moro, da minha casa para o centro de Caxias eu
levo uns cinquenta minutos, para ir para outras cidades
da Baixada eu gasto em média duas horas, fora a pas-
sagem, que é muito cara, para sair de casa eu tenho que
ter 20 contos no bolso só para gastar com a passagem.
Mas mesmo com todos esses contras, eu, no início
da caminhada, nunca deixei que estar nas atividades
sociais, nos shows, palestras, debates, oficinas e todas
as atividades que envolvessem o hip-hop, mesmo que eu
não estivesse envolvida nele, e poderia ser onde fosse.
Também sempre ando só, não sou de andar em grupo,
como moro longe encontro a galera já nos lugares.
Diante disso, ser mulher rapper na Baixada Fluminense
é ser guerreira, é não ter medo de encarar as adversi-
dades que a vida apresenta, é ter foco na missão, e a
minha missão é o empoderamento das pessoas e seguir
criando e encantando.
BUZO: Você dirigiu Rap de saia e Mães do hip-hop. Fale
sobre esses dois filmes.
RE.FEM.: O filme Rap de saia é a resposta de uma grande
interrogação que eu tinha dentro da cultura hip-hop:
Quem são, onde estão, o que fazem e pensam as mulhe-
res da cultura hip-hop? E o filme me respondeu isso.
234 Hip-hop:dentro do movimento

Depois do filme, eu dirigi pela Na Mira Produções o


videoclipe Rosas do grupo Atitude Feminina e um episó-
dio da série Re-Visão, Racismo institucional.
O Mães do hip-hop foi um presente que o Dudu de Morro
Agudo me deu, ele chegou um dia para mim e falou: “Eu
quero fazer um filme onde as mães digam o que pen-
sam do hip-hop.” Na hora eu topei, e junto com Dudu,
Dumontt, Lisa, Cacau e uma equipe de peso do Enraiza-
dos aceitamos este desafio, e veio mais uma pergunta a
se responder e o resultado foi surpreendente. Mães do
hip-hop é um filme que dá essa visão das mães de como
elas veem a cultura hip-hop e seus/suas filhos (as), além
de fazer um panorama histórico da trajetória de seus/
suas filhos (as) dentro do hip-hop.
BUZO: Hip-hop no Brasil é machista?

RE.FEM.: O hip-hop em si, dentro de seus fundamen-


tos, de forma alguma é machista, homofóbico, racista.
Essencialmente é um movimento inclusivo, mas é um
movimento de pessoas, e como tais, somos parte inte-
grante da sociedade, e se esta é desigual, machista e
cheia de preconceitos, logo isso se refletirá dentro da
nossa cultura. Mas conheço e tenho a sorte de traba-
lhar com homens que buscam reduzir o machismo e a
desigualdade de gênero, social, racial... E homens que
entendem que não precisa ser mulher para lutar pelos
direitos das mulheres. Que ser feminista é lutar pelas
garantias da equidade de gêneros. E principalmente: se
reconhecer, se declarar feminista não vai influenciar em
nada na sua orientação sexual (risos).
BUZO: Por que são poucos os grupos femininos, e quais
você destaca?
Eu não tenho pesquisa formal sobre isso, mas
RE.FEM.:
pela minha caminhada pelas ruas deste Brasil eu
penso que o baixo número de mulheres se dá por esta
Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa 235

cultura ser uma cultura originalmente de rua, e cultu-


ralmente nós mulheres não somos educadas para as
ruas, nossas brincadeiras são bonecas, casinha, comi-
dinha, ajudar a mãe dentro de casa... As dos meninos
são: futebol, pipa, carrinho... Rua, tudo brincadeira de
rua, que incentivam a competição, trabalho em equipe
e a convivência coletiva nas ruas.
Para nós, mulheres, principalmente nos anos 1980 e
1990, onde o hip-hop ainda era uma cultura marginal,
realmente, rua, poucas eram as que estavam lá. Tenho
quase certeza de que esse é um dos principais motivos.
Para mim, particularmente, não vi problemas, pois eu
sou uma mulher de rua, pois fui criada nas ruas jogando
futebol, soltando pipas, brigando com os garotos... Então
estar e interagir com os homens e a rua é algo comum
para mim, o que não é para a maioria das mulheres.
Eu destaco Dina Di, o primeiro som de mulher que eu já
ouvi e que nunca vou esquecer.
Edd Wheeler, a primeira a botar a cara, e está aí até hoje
aqui no Rio; Tiely Queen (SP), Rubia (SP), JC MC (RJ), Joy-C
(RJ), Lisa Castro (RJ), Queen Odara (RJ), Negras Ativas
(MG), Lunna (SP), entre outras que não vou lembrar agora.
BUZO: Você acha que o hip-hop está num bom momento?
Por quê?
RE.FEM.: Todo momento é bom para o hip-hop. O que
determina se é bom ou ruim são as pessoas que nele
atuam. Politicamente este, sim, é um bom momento,
nunca na história deste movimento aqui no Brasil se
recebeu tanto apoio institucional e até mesmo finan-
ciamento para projetos ligados ao hip-hop. Hoje faze-
mos encontros nacionais, publicamos livros, fazemos
filmes, oficinas, shows com verbas públicas, de insti-
tuições privadas nacionais e internacionais.
236 Hip-hop:dentro do movimento

Formamos lideranças que hoje são pessoas públicas


que influenciam com seus textos, teses, músicas, ima-
gens, filmes muitas pessoas dentro e fora do Brasil.
Produzimos a nossa própria mídia e ainda temos espaço
na mídia de massa, produzimos e comercializamos os
nossos próprios CDs, roupas, livros, festas.
Se estamos em um bom momento? Eu diria que sim,
para quem se preparou, em mais de trinta anos de movi-
mento hip-hop, para viver este momento.
BUZO: Especificamente no Rio de Janeiro, como é a cena?

RE.FEM.: Eu posso falar da cena na Baixada Fluminense.


E aqui a cena é louca. Em relação ao estado temos os
(as) melhores b.boys e b.girls, os melhores DJs, os (as)
melhores grafiteiros (as), os(as) melhores rappers. Sem
contar que aqui na Baixada temos uma galera que é
referência no Brasil quando se fala em articulação cul-
tural em rede e ativismo sociocultural (risos).

Elas são poucas no hip-hop, tem muito mais manos do


que minas, mas isso precisa mudar, precisamos pensar
por que isso acontece.

Será machismo? Preconceito?

Ou é porque o rap é mais postura do que tudo e as minas


mais jovens tão a fim de outras coisas, como o funk
carioca, mesmo ele as tratando como objeto sexual? Até
aí daria um debate, precisaríamos de campanhas para
mudar esse quadro.

Mas o hip-hop tem mulheres valorosas, tanto em cima


do palco como nos bastidores. Uma dessas, que não
aparece mas está fazendo a diferença atrás dos palcos
é a jornalista e fotógrafa Nina Fideles. Ela é assessora
do grupo A Família. Vamos ver o que ela tem a nos dizer.
Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa 237

BUZO: Você é assessora do grupo A Família. Como é traba-


lhar nos bastidores do hip-hop?
NINA FIDELES: Eu sempre gostei de trabalhar com o hip-hop.
Antes mesmo de trabalhar com A Família, tive o privi-
légio de aprender com o GOG por uns dois anos. E antes
mesmo de trampar com o GOG, escrevia para o site
DaBomb, na seção Nageral. Gostava muito. Realizamos
o Hip-Hop pela Paz 4, tive contato com grupos, contra-
tantes, conheci pessoas... E continuo aprendendo até
hoje, mas com mais experiência. Lidar com as pessoas
é tarefa delicada em qualquer lugar. E o meio artístico
é cheio de egos também. Importante considerar isso.
Profissionalizar o trabalho que é feito também é muito
difícil, pois acredito que no rap, na música em geral,
seja tudo um ciclo. Se o grupo não exige boas condi-
ções de som, por exemplo, e o contratante não faz muita
questão de investir nisso, a falha compromete o show e
o público pode ficar insatisfeito, queimando o contra-
tante e também o grupo algumas vezes. Se o público
também não fizer questão disso, pior. Mas quem dos
três vai começar a exigir um melhor tratamento? Quem
vai romper o ciclo do amadorismo? O público vai dei-
xar de ir nas festas mal organizadas, o contratante vai
cobrar um pouco mais caro para poder investir melhor
no som, o grupo vai deixar de ir? Alguém vai pagar este
preço. É claro que cada cidade vai ter seus parâmetros.
E, ao mesmo tempo, é importante entender todos os
limites, a realidade de cada lugar, e sempre tentar estar
presente fazendo um bom trabalho. Trabalhar neste
meio traz dores e amores, normal em toda área mas,
pelo fato de ser mulher, acarreta outras coisas também.
Acredito que a mulher tem que ficar se impondo várias
vezes e isso desgasta um pouco. Não só os homens são
machistas. Na política também é assim. As mulheres
238 Hip-hop:dentro do movimento

têm que se impor, muitas vezes no jeito de vestir, de


falar, acabam se tornando mais masculinizadas para
mostrar que também são capazes, mas sabemos que
não será isso o essencial.
BUZO: O que espera do futuro do movimento hip-hop?

NINA FIDELES: Posso falar mais do rap, que é a arte que


tenho mais contato. Acho que tudo está muito incerto,
por mais que muitos tenham dito que estão salvando o
rap. Quanto mais se fala em união, mais se fragmenta. É
gangsta, underground, gospel, politizado, sei lá mais o
quê... Nova escola, velha escola. Acho complicado. E já
ouvi muita gente defendendo o rótulo pra si. Acho melhor
deixar o trabalho falar, e cada trampo vai ser diferente.
A batida, a letra, a levada, o tom... A gente trabalha pelo
que espera, pelo que deseja do futuro. Não sou daque-
las que acredita no papo de pregar uma pseudo-revolu-
ção por meio das letras, mas ao mesmo tempo não acho
que o rap se destacou no mundo por falar groselha, de
mulher e de dinheiro. Dinheiro todo mundo quer, ainda
mais se fazendo o que gosta, com a arte... Imagina?!
Mas achar que a fórmula para ter dinheiro seja adotar a
linha do rap gringo pop, acho forçado. Defendo que pre-
cisamos sempre nos lembrar de todos e de tudo que fez
o rap nacional chegar aonde chegou. Com seus erros e
acertos. Esta é a memória histórica e não deve ser des-
considerada, como se tudo tivesse começado agora.
Muita coisa já aconteceu. Muita gente mudou seu com-
portamento, refletiu, divulgou o rap, cantou coisas boas
e denunciou por meio das letras. Perfeitamente possí-
vel falar de coisas boas, positivas, sem abrir mão do
conteúdo. Falar de música, de amor, da vida... Eu gos-
taria que o rap entrasse no mundo da música em grande
estilo e não tivesse que ficar mendigando espaços na
mídia para mostrar ao mundo sua cara. Que cartéis não
Mulheres no hip-hop, aqui elas têm voz ativa 239

fossem criados, deixando muita coisa boa de fora e


um grupo sendo privilegiado sempre, independente de
sua qualidade. Que tivesse boas condições sempre. De
apresentação, de produção, divulgação. E para isso é
preciso zelar pela qualidade cada vez mais. Não é qual-
quer música, qualquer produção. Sempre lembro uma
frase de um companheiro do Movimento dos Sem Terra
que dizia que não é porque é sem terra que qualquer arte
nos serve. Não! Nós queremos arte de qualidade!

Que outras minas de valor apareçam e enriqueçam nosso


movimento. Elas são, sim, muito bem-vindas, pelo menos
eu (Buzo) vejo dessa forma.

Nosso movimento é para os manos e as minas.

Para novos e velhos, para as crianças principalmente.


Vamos levar o hip-hop até elas, sempre procure mos-
trar o hip-hop da forma mais positiva possível. Tamo
junto nessa missão.
Negra Li Negra L
Cap.09
Grafite
Um dos elementos do hip-hop é o grafite – a arte de
embelezar as ruas. Ao contrário da pichação, que apesar
do caráter de protesto, deixa as ruas mais feias, o gra-
fite não, ele pode transformar um local não tão belo num
lugar mais bonito de se ver. Falei com alguns grafiteiros
de destaque e o primeiro deles é o Bonga, de Caieiras,
que sempre está nos eventos e sua arte está em vários
lugares da cidade de Caieiras, São Paulo, e outras.

Vamos ver como pensam esses artistas.

BUZO: Defina o que é grafite.

BONGA: O grafite para mim e como se fosse um universo


paralelo, algo indescritível cheio de cores e ideias, con-
ceitos e muita expressão individual ou, às vezes, cole-
tiva, mas também ele é uma cultura que está no processo
natural da produção humana, na criação, na construção,
no pintar, no riscar, no escrever e suas ações e atitudes...
Tendo como seu suporte a rua, como sua galeria, e seu
cotidiano como suas referências e suas vivências...
BUZO: Às vezes, vejo o grafite caminhar paralelo ao hip-
hop, mesmo sendo um dos quatro elementos. Existe isso?
BONGA: O grafite sempre trilhou seu caminho sozinho,
buscou seus próprios espaços, criou seus próprios con-
ceitos, porque de todos os elementos ele nunca pode

244
Grafite 245

esquecer a rua, pois se isso acontecer ele não existe,


não tem por que existir... Coisa que tem acontecido com
o resto da cultura que, em muitos casos, esqueceu sua
maior referência: a rua.
BUZO: Como e por que você começou a grafitar?

BONGA: Acho que muitas histórias se parecem quando


você descobre algo como a cultura do grafite e hip-hop
em si, é uma mistura de admiração e sedução. Me lem-
bro de observar algumas intervenções na Av. Paulista e
alguns lugares no Centro e até na Lapa e Santo André,
grafite de vários loucos como: Guerra de Cores, Mas-
ter, Aerosol (Osgemeos e Speto), PAC (Pincel Atômico
Crew) e também Binho e Tinho. Me lembro de juntar
grana com o Serginho (VL – Cartel Central) para com-
prar a The Source e a Rap Pages, que eram as únicas
revistas que chegavam pra gente, e nelas havia algumas
matérias específicas sobre grafite art e também uma
seção para o grafite, e assim tive algumas possibilida-
des de observar grandes nomes que publicavam seus
trabalhos, pois naquele tempo não tinha internet, loja
ou revistas específicas de fácil acesso, pois só algumas
pessoas detinham a informação. Outro fato importante
foi quando comecei a frequentar a estação São Bento
do metrô e fui levado pelos meus amigos Black Dee
(ex-Império Z/O) e o tiozão do DU, que é primo do finado
Zelão. Lá conheci vários caras como me passaram muita
coisa (Ronney Yoyo, Kase Kreator, Bad e muitos outros).
Depois muitas foram as influências e trocas de experiên-
cias, desde quando antes de tudo isso a pichação foi
primeiro contato com spray. Os Turcos foi o nome que
levei por vários anos e com a aproximação com a cultura
hip-hop meu desenvolvimento foi constante... Ver os
b.boys como meu parceiro Chuim e a Street Son dança-
rem, ver os caras de Perus cantarem, como Master Boys
246 Hip-hop:dentro do movimento

e DJs André, Hadje (tocando no Inferninho), Malik (que


tocava no Atitude Consciente, atual Cartel Central) até
a formação na época do Quilombo H, nossa posse, e da
minha primeira crew, Área 1 e o Sindicato das Tintas,
foram grandes influências para mim e até hoje são!
BUZO: Grafite salva, no sentido de resgate?

BONGA: Uma vez ouvi o Thaíde falar em uma entrevista: “O


hip-hop é um caminho, mas quem busca a saída é você.”
Acredito que o grafite, assim como qualquer expressão
artística séria, pode vir a ser um instrumento de trans-
formação humana e não só social, mas partindo da
transformação do indivíduo, pois quem busca a saída
é você mesmo. A expressão, a intervenção, tem que ser
uma ação livre para criar ou contestar, ou não, também
pode ser sem compromisso, vai de cada um... expres-
sar sua verdade. Mas o que é fato é que o grafite, assim
como a cultura hip-hop em geral, vem sendo um instru-
mento poderoso de transformação cultural e social na
vida de vários jovens, em varias experiências com pro-
jetos pelo país ou em iniciativas individuais ou coleti-
vas de forma independente ou não. Na verdade, o gra-
fite é uma grande referência juvenil e muita gente sabe
disso, sendo uma possibilidade de mudança ou não ele
vai continuar intervindo.
BUZO: Três grandes nomes do grafite?

BONGA: Difícil, viu, muita gente... Vou por crew, é mais


fácil pra mim... Tats Cru, Love Letters, Mac Crew.
BUZO: Como você vê nos dias de hoje o movimento hip-hop?

BONGA: Hoje vejo a cultura hip-hop como uma grande


força juvenil da atualidade, pode parecer soberba, mas
acredito que é umas das maiores manifestações artís-
ticas e revolucionárias que conheço por conta de suas
Grafite 247

ações, atitudes e rebeldia. Podemos falar do grande


modismo que exerce e também da questão mercadoló-
gica que o mercado fonográfico e os demais observado-
res de tendências urbanas viram como possibilidade...
grana, falsa demonstração de poder como uma reafir-
mação do gueto, ou seja, venda de ilusão e mentiras
em meio a sexismo e capital. Infelizmente, nossa cul-
tura, a mundialmente conhecida, se tornou assim nos
seus maiores espaços de referências e visibilidade e
muitas vezes de forma negativa se torna uma influência
degradante para jovens no mundo todo. Por outro lado,
o hip-hop no terceiro mundo possui todo o conceito de
raiz e originalidade com que foi criado, é uma cultura
que muitas vezes exerce força de mobilização popular
de massa monstruosa, força esta que move uma multi-
dão por vários lugares da América Latina, África, Ásia.
Hoje essa cultura é uma das maiores referências de
luta juvenil e contestação e também aqui no Brasil não
poderia ser diferente. Se observarmos as várias ações
que existem por aqui, de organizações sejam elas inde-
pendentes, institucionalizadas, individuais ou coleti-
vas, em parceria ou não, temos demonstrado grande
força em meio às demandas que o estado ignora e mui-
tas vezes é ausente.
BUZO: O que espera do hip-hop pro futuro?

BONGA: É uma pergunta intrigante... Espero que ele


sobreviva e tenha continuidade, pois é nisso que temos
de nos pautar e construir... E para que venha depois
essa molecada que tá vindo, esses jovens que possuem
as influências da velha escola como sua referência...
Transformação, resistência, sapiência, autoestima,
identidade, originalidade, qualidade, luta... Continui-
dade sempre...
248 Hip-hop:dentro do movimento

Conheci o Bonga de vários eventos e até já levei ele para


grafitar no Favela Toma Conta, que eu promovo no Itaim
Paulista, mas Dingos é um outro grafiteiro com quem
tenho bastante contato, que conheci no Teatro Franco
Zampari nas gravações do Programa Manos e minas,
quando ele me disse: “Buzão, precisa ir em Osasco, faço
um projeto com crianças lá e tem tudo a ver.” “O que você
faz?”, perguntei. “Sou grafiteiro”, me disse Dingos.

Paguei pra ver e ele me mostrou o Eremin, muito bom,


respeito aos moleques da quebrada e chance de um
futuro mais colorido. Falei com Dingos pro livro e ele
me falou com exclusividade em abril de 2010. Vamos ao
bate-papo, porque o assunto é grafite.

BUZO: Defina o que é grafite.

DINGOS: Segundo o dicionário da língua portuguesa Auré-


lio, a definição da palavra grafite é Min. Grafita. Palavra,
frase ou desenho feito em muro ou parede de local público.
A palavra grafite é de origem italiana e significa “escri-
tas feitas com carvão”. Os antigos romanos tinham cos-
tume de escrever manifestações de protesto utilizando
o carvão para escrever nas paredes de suas constru-
ções. Tratava-se de palavras proféticas, ordens comuns
e outras formas de divulgação de leis e acontecimentos
públicos. Alguns desses grafites ainda podem ser vistos
nas catacumbas de Roma e em outros sítios arqueológi-
cos espalhados pela Itália.
Quando iniciei as minhas escritas nos muros no ano de
1989 na cidade de Osasco, não sabia ao certo o que eu
estava fazendo, ou qual a arte que eu estava represen-
tando, se representava a pichação ou grafite. Muitos
conhecem e escrevem assim e acabam denominando
o grafite como algo belo, ou seja, um belo desenho na
parede é grafite! Outra parte da população e policiais
afirmam que desenhos feitos em comércios utilizando
Grafite 249

compressor, pistola e aerografia, isto é grafite! Bom,


essas dúvidas, grilos, definições fui pesquisando, apren-
dendo nas ruas, buscando significados, traduções em
jornais da época e não consegui descobrir a definição do
que é grafite, que ao longo dos vinte anos aprendendo, e
de muita pesquisa urbana, hoje posso descrever a defi-
nição, que não é precisa ou exata, pois não sou o dono
da verdade e muito menos tenho essa pretensão, mas
posso contribuir com minha sincera opinião na qual
cheguei nesse momento.
Grafite são escritas e caligrafias munidas de muitas
expressões, ações, representações periféricas em espa-
ços públicos, que revelam e despertam o desejo de mar-
car e representar os territórios, contendo signos, ima-
gens, técnicas, cores, sentimentos nos muros, sem a
preocupação de rotular e dizer: isso é grafite.
Em minha opinião, o mais importante é fazer o grafite;
a forma ou material utilizado para prática do mesmo,
pouco me importa.
Sempre que encontrava outro artista ou escritor de
grafite e que tomava conhecimento do meu grafite,
dizia pra mim: “Isso que você faz é estêncil, ou throw-up
(hoje conhecido como bomb), ah, isso não é grafite.”
Essas situações deixavam-me cheio de dúvidas. Então
o que faço nas ruas não é grafite? Puxa, é brochante
para quem está iniciando ou pesquisando a respeito,
para as pessoas que estão iniciando na cena, é neces-
sário informar e mostrar os caminhos e até mesmo
falar o que é grafite, assim estimular a busca da origem
e o desenvolvimento da arte urbana.
BUZO: Às vezes vejo o grafite caminhar paralelo ao hip-hop,
mesmo sendo um dos quatro elementos. Existe isso?
te Grafite
e Grafite
252 Hip-hop:dentro do movimento

DINGOS: Muitas vezes o grafite segue caminhos diferencia-


dos, às vezes ocupam espaços em que os demais elemen-
tos ficam de fora, tendo como exemplo produção de gra-
fite, bombardeios, exposições, mutirões. Enxergo o meu
trabalho como um dos elementos da cultura hip-hop, por-
que descrevo assim; ministro oficinas, atuo na periferia,
não gosto de pintar nos grandes centros, faço meu traba-
lho nas comunidades e geralmente faço a integração com
os demais elementos: DJs, b.boys e MCs. Represento o
grafite, um dos elementos da cultura hip-hop. Hoje esta-
mos batalhando e conquistando espaços dos quatro ele-
mentos nas ações educacionais.
Já outros escritores de grafite seguem e fomentam só
o grafite isolando dos demais elementos, é um pro-
cesso natural e de escolhas. Também vejo, por exem-
plo, o DJ caminhando paralelo ao hip-hop, tanto como
MCs ou rappers desenvolvendo suas técnicas em para-
lelo, basta observar os shows de rap, os campeonatos,
as batalhas, isso é relativo e acontece quando não tem
entendimento ou a arte leva para caminhos alternativos.
No ano passado, fizemos uma avaliação junto ao meu
coletivo de grafite e comprovamos que somos os repre-
sentantes do grafite na cultura ou movimento hip-hop.
Também penso que o quinto elemento, o conhecimento,
está inserido no grafite, no MC, no DJ e no b.boy.
BUZO: Como e por que você começou a grafitar?

DINGOS: O desenho sempre foi muito presente na minha


infância, quando estava na escola sempre gostei das
aulas de educação artística, as minhas brincadeiras pre-
feridas eram relacionadas aos desenhos. Aos 9 anos de
idade desenhava na lousa carros, quando fiquei internado
por um mês, meus país levavam desenhos ou folhas para
que eu e a minha irmã desenvolvêssemos habilidades
Grafite 253

artísticas, a paciência e tranquilidade. Sempre fui uma


criança muito quieta, não tinha expressão. Por esse
motivo, meus pais levavam-me para consultas psicológi-
cas, no pinel de Pirituba, passei boas horas nesse local e
minha doutora dizia: “Do que você mais gosta? Desenhe
na folha”, aí ela fazia suas avaliações.
Em 1991, tive o primeiro contato com o universo do gra-
fite, por ter feito uma pichação no banheiro masculino
na escola, que foi vista pela direção como uma ato de
vandalismo. Como forma de punição fui obrigado a par-
ticipar de um concurso de grafite, em que me foi for-
necido o tema “Seca do Nordeste”. Para atender aos
requisitos impostos pelo concurso eu deveria elaborar
uma redação e uma apresentação em forma de seminá-
rio para o corpo docente, e como produto final realizar a
pintura no muro da escola.
Obtive a primeira colocação do concurso, tendo como
prêmio uma medalha e uma entrevista para um jor-
nal diário da região. Desde então escolhi o grafite para
transformação, expressão, religião, emoção, ação. Vivo
em prol do desenvolvimento e da propagação do grafite
na cidade de Osasco e por onde eu passo por este país.
Assim consigo expressar meus sentimentos, desejos,
descontentamentos, em relação à desigualdade social,
ao racismo, à ditadura urbana e à censura que habita
em diversos espaços públicos e privados, tendo como
exemplo a lei Cidade Limpa, que devasta obras sem a
preocupação de que forma o escritor, o artista conse-
guiu desenvolver a pintura, como conseguiu os sprays,
simplesmente o poder está em mãos erradas!
Por isso que faço grafite.
BUZO: O grafite salva, no sentido de resgate?
254 Hip-hop:dentro do movimento

DINGOS: Salvou a minha vida, mostrou-me possibilidades


reais de que é possível alcançar objetivos, dominar as
técnicas de desenho. Quando afirmo que grafite é uma
ferramenta de transformação da realidade do indiví-
duo, é porque aconteceu na minha vida. Eu não falava
em público, não gostava de estudar, conheci pessoas
envolvidas com o tráfico, furtos, fitas, vários amigos da
minha infância e adolescência que optaram por seguir
esses caminhos se deram muito mal, estão presos ou
foram mortos, processo natural na periferia. Esse tipo
de situação não foi diferente no bairro onde cresci, no
Jardim Piratininga, na cidade de Osasco. Convites para
praticar o crime ou usar drogas sempre aconteciam, a
partir da tomada do conhecimento e identificação com
o grafite, mudou toda a minha visão de mundo. Sou um
arte-educador; um pesquisador; idealizador; agente
cultural; escritor de grafite; colunista da revista Ollie;
curador da Expoartsk8 - O novo já nasce velho, expo-
sição de shapes customizados por 62 artistas da nova
e velha escola do grafite nacional; criei projetos tendo
como exemplos: cultura urbana, Domingueira Din-
gueira, Cidade 100 Violência; conheci lugares maravi-
lhosos, estados fantásticos e hoje tenho muitos amigos
em nível nacional e internacional.
BUZO: Três grandes nomes do grafite?

DINGOS:Grandes nomes do grafite nacional. Vou desta-


car em primeiro lugar o amigo e padrinho Speto. Minha
relação com o Speto inicia-se no ano de 1997 no lança-
mento da revista Fiz, onde conheci e pude estabelecer
uma amizade de longos anos, aprendi e aprendo muito
com o Speto, ele contribuiu com meu crescimento, mui-
tas vezes de longe. Em segundo lugar agradeço ao Kase
Kreator, atualmente conhecido como Kase One, o pio-
neiro da velha escola. Bom, conheci esse criador de
Grafite 255

casos no lançamento da revista Epidemia, uma revista


de grafite idealizada pelo Roney-Yo-Yo.
Convidei o Kase para ingressar no Projeto Viva Cidade,
no qual aprendi a ministrar oficinas de grafite e desen-
volver as minhas letras. Esse mano foi fundamental na
minha vida. Por fim, outro grande nome na minha opi-
nião é o Gejo, pela sua garra e contribuição na cena do
hip-hop. Bom, o Gejo, conhecido como Maldito, ideali-
zador da marca 9370, escritor de grafite, colecionador
de grandes obras, atualmente se destaca por levantar
a bandeira da arte grátis. Ele organiza o Free Art Festi-
val, um evento de obras totalmente grátis para o público
presente. As edições aconteceram nas ruas do Beco
Escola Aprendiz e na galeria Mônica Figueiras.
BUZO: Como você vê nos dias de hoje o movimento hip-hop?

DINGOS: Hoje em dia vejo uma reconstrução do hip-hop, um


processo necessário para reciclar os conceitos, progra-
mas, projetos, shows, produções musicais, um debate
produtivo, e como vamos constituir e propor políticas
públicas voltadas para o movimento e cultura hip-hop,
também percebo uma evolução do hip-hop no mundo.
Muitos dos integrantes da cultura e do movimento estão
buscando o conhecimento e o desenvolvimento do inte-
lecto, assim ocupando universidades e provando para a
sociedade que o hip-hop é uma ferramenta de transfor-
mação social, é a voz da periferia, a voz do oprimido, que
é possível a organização em grupo, promoção da autoes-
tima, estamos cada vez atuando através de associações,
posses, crews, organizações individuais, ou até mesmo
no coletivo. Temos projetos de oficinas, workshops,
blogs, shows, marca que trabalha economia solidária, a
Mucambo no Piauí, temos estúdios de gravação no Fun-
dão, e produção de muitos CDs independentes, produto-
ras de discurso afiado, letras reveladoras, temos até a
256 Hip-hop:dentro do movimento

Casa de Hip-Hop em Diadema, momentos de reflexões,


segue o Nelsão Triunfo nas batalhas dos b.boys, Guetto
Freak e Dynamik Leg’s, rimas e tintas no Rio, a batalha
do real trocando ideia em POA, movimento hip-hop da
Floresta em Porto Velho, temos a Choque Cultural em
Sampa, a QAZ com seus ilustres artistas, temos escrito-
res tendo como exemplo Alessandro Buzo, Ferréz, Saco-
linha, Sérgio Vaz entre outros... Temos GOG e Racionais
MC’s, agora chegou a sensação do Ceará, o RAPadura...
Temos sites produzidos na unha do mano sinistro Man-
drake, temos o Movimento Enraizados no Rio e a posse
471 na Vila Operária, com o MOF. Tem também o samba
da vela, que representa nossa cultura popular viva, o
hip-hop nacional, em memória Sabotage... que presta
homenagem a Dinadi, descanse em paz, Melok, quere-
mos representar nossa arte nas paredes, deixar com
os escritores de grafite da FC desde 2001, por que não a
pichação, como escrevia o #DI#, pichar é humano! Entre
outras ações e grupos, temos muita evolução ao longo
dos anos e um enorme salve para a velha escola do hip-hop!
E ao pai do hip-hop, Afrika Bambaataa, viva Zulu Nation,
que ensinou a verdadeira cultura da paz! Viva o hip-hop.
BUZO: O que espera do hip-hop para o futuro?

DINGOS: Desejo para o futuro do nosso hip-hop que de fato


ocupe seu verdadeiro lugar, que cada grupo ou crew se
promova, que se propague cada vez mais, que fomente
a cultura hip-hop, assim movimentado projetos, não
só nas periferias, mas levar o hip-hop para dentro das
universidades através de debates, fóruns e seminários
organizados pelos elementos da cultura hip-hop.
Que possamos organizar shows com a qualidade máxima,
produzir uma boa música urbana, pintar e tatuar as ruas,
que os b.boys defendam a original dança de rua, que os
DJs representem os scratches nas quadradas sem perder
o compasso e o MC rime e imprima toda a luta de classe
Grafite 257

e reivindique os direitos pela igualdade de oportunidade.


Vamos revolucionar através do movimento hip-hop, nos-
sas armas são os microfones, lápis, sprays, vinis, MK2,
livros, conhecimento, moinho de vento, giro de cabeça,
bibibi bi.boy avante e pra sempre!
Espero e desejo um sistema de comunicação nosso,
um canal de TV hip-hop, feito por nós e para nós, do
povo para o povo. Que possamos representar e apre-
sentar nosso movimento hip-hop, que possamos inva-
dir as universidades munidos com nossos conheci-
mentos adquiridos nas ruas das grandes periferias
nacionais e internacionais.

Poderíamos falar com mais dez grafiteiros, existem mui-


tos nomes importantes, mas ficamos com o Bonga e o
Dingos, porque são mais próximos de mim e representam
com certeza a classe.

Eu particularmente sou fã da arte, lembro de ter ficado


impressionado quando estive em Salvador-BA, uma
cidade cheia de grafites pelas ruas, achei da hora.
Cap.10
Freestyle
O freestyle é muito presente na nova escola do rap
nacional. Nomes de destaque são muitos como MC
Marechal, Emicida, Kamau... Até eventos próprios como
a Rinha dos MCs, organizada pelo Criolo Doido, já exis-
tem e só crescem.

Não podíamos deixar de fora desta obra nomes tão


atuais de pessoas que fazem a diferença na cena. Pra
começar, um dos maiores destaques, realizador do
evento Batalha do Conhecimento, no Rio de Janeiro e
com vários seguidores. Ele prega o Um Só Caminho...,
que é uma febre, parece religião entre seus seguidores.
MC Marechal é um cara empreendedor e realizador, mas
afinal o que vem a ser Um Só Caminho? Foi justamente
esta a primeira pergunta que fiz, confira.

BUZO: Explique o que vem a ser Um Só Caminho..., uma


posse?
MC MARECHAL: Uma filosofia.

BUZO: Freestyle... um ritmo, um estilo?

MC MARECHAL: Expressão do sentimento do momento.

BUZO: Nos fale de onde veio e pra onde vai?

MC MARECHAL: Venho do que me foi passado... Meu foco é


continuar indo para onde eu possa passar algo. É o ciclo.

260
Freestyle 261

BUZO: Batalha do Conhecimento. Nos fale desse corre.

MC MARECHAL: É o projeto que acredito ser necessário


para estarmos à frente das ações, e não apenas dos tex-
tos sobre as soluções.
BUZO: Existem produtos Um Só Caminho... como cami-
setas. Como você vê o movimento usando suas próprias
grifes?
MC MARECHAL: Acredito que é natural, pois temos uma lin-
guagem, e as roupas também passam mensagens.
BUZO: Hip-hop salva?

MC MARECHAL: O hip-hop contribui, as pessoas se salvam.

BUZO: Nos indique, a todos que irão ler este livro, qual é o
caminho pro crescimento do hip-hop no Brasil?
Respeito, responsabilidade, inteligência,
MC MARECHAL:
conhecimento, sabedoria e amor.
Parece simples...
Um só caminho...

MC Marechal é referência no assunto, mas não podemos


deixar de destacar outros aqui, que também estão escre-
vendo o nome na história, com conquistas e inovação, no
ritmo frenético de uma rima, seja ela de improviso ou
não. Um desses nomes atende por Emicida, com quem já
havíamos falado em capítulo anterior sobre mídia, agora
vem nos falar um pouco da sua luta por um lugar ao sol.
Emicida é o novo, um cara que não vê limites. Na primeira
edição do evento Suburbano em Debate, que realizo na
livraria Suburbano Convicto do Bixiga,14 ele disse como
fez sua primeira viagem de avião. Ia disputar umas bata-

14 www.livrariasuburbanoconvicto.blogspot.com
262 Hip-hop:dentro do movimento

lhas de freestyle na Cidade Maravilhosa, sem grana.


Um amigo pegou o cartão de crédito da mãe e comprou
passagens aéreas. Foram ele e o Emicida, que até então
era um novato que estava se destacando nas batalhas
em São Paulo, mas no Rio de Janeiro, a informação que
chegou é que o cara ia vir com produtor (o tal amigo) e
chegar de avião, suficiente para tachá-lo de marrento. Aí
ele ficou mais de um mês no Rio, venceu várias batalhas
e assumiu: “Agora posso ser marrento.”

Confira um pouco mais do Emicida nesta entrevista


exclusiva para o livro.

BUZO: Emicida virou febre. Como se prepara para isso,


passar a ser o centro das atenções?
EMICIDA:Irmão, eu estava ontem trabalhando de pintor
no estúdio que estamos construindo, gosto do dinheiro
que vem com o monte de trabalho que tenho agora, e
assim posso investir em coisas que sempre acredi-
tei. É muito bom ser ouvido, mas é como eu já disse,
gosto mais de fazer músicas do que de ser famoso. Dar
entrevista é bacana, mas é um lance pra fazer se der
tempo, o lance é fazer música. Estou me organizando
e me agilizando pra fazer isso. Hendrix construiu um
estúdio pra ele gravar, se não me engano, registrou
suas coisas. Tenho um ritmo de composição grande,
frenético, vou fazer a mesma coisa pra poder registrar
tudo, lançar outros projetos, organizar o selo, ter um
escritório, aproveitar a boa fase das coisas, já que os
negócios são uma montanha russa, e investir pra poder
ter paz em tempos de vacas magras...
BUZO: Aonde pretende chegar?

EMICIDA:Com 15 anos prometi pra mim que se chegasse


aos 25 seria alguém, estou no caminho certo...
Freestyle 263

Não sei até onde vou e nem quero saber. Quero chegar,
eu vou indo aonde eu conseguir chegar, independente
de onde for. Minha meta será o dobro, não existe limite
pra gente como eu...
BUZO:A nova escola se destaca porque nasceu e cres-
ceu na internet?
EMICIDA: Nada nasce na internet além de boatos. A inter-
net é apenas uma vitrine pra o que está sendo feito nos
locais. Alguns grupos com uma musicalidade seme-
lhante passaram a utilizar este veículo antes de outros,
mas para expor o que já faziam nas ruas. Pergunta pro
Espião se ele começou na internet, a coisa vem de antes,
bem de antes, eu também gravava do meu jeito em casa
bem antes de ter computador, não gosto dessa nomen-
clatura, nova e velha escola. Acredito na escola verda-
deira, como Bambaataa falou. Rincon Sapiência, Public
Enemy, Flora Mattos e Racionais pertencem à mesma
escola, a escola verdadeira, Emicida, DMN, Nego Prego
e Doctor MCs, todos são uma única coisa...
BUZO: Você vem do freestyle. Qual a grande batalha
que superou?
EMICIDA:De onde venho manter-se vivo é a meta, você
tá ligado, mano. Inúmeras batalhas são travadas aqui,
alguns inimigos são visíveis, outros não, mas o impor-
tante é não desanimar. Estou vivo e essa é minha
maior conquista, quero mais um dia apenas, um novo
sol. É uma metáfora legal falar de batalhas subjetivas
quando você vive delas e as pessoas esperam que eu
diga “ah, foi contra fulano”, mas a grande verdade é que
ter saído de onde saí, da situação em que estava, con-
cluído meu curso de design gráfico, arrumado um bom
emprego e hoje ter a bênção de poder ganhar dinheiro
com o que gosto, se isso for considerado uma batalha,
então essa foi a que eu venci.
264 Hip-hop:dentro do movimento

BUZO: Como você imagina o hip-hop na próxima década?

EMICIDA: Forte e nosso! Grande e visionário, com várias


vitórias de hoje pra comemorar amanhã!
BUZO: Pra encerrar, Emicida é...

EMICIDA: Paciente, um mano que quer fazer suas rimas e


curtir sua filha, só.

Particularmente, eu admiro pessoas que rompem bar-


reiras e levam o hip-hop e a literatura marginal para
lugares em que antes não tínhamos chegado. Acho que
o Emicida faz um pouco disso.

Mas falar de freestyle e não conversar com Kamau, de


São Paulo, tá mentindo. Talento nato, improvisador dos
melhores, sempre sorrindo e zoando (no bom sentido)
os amigos, um cara querido por seu jeito simples e ver-
dadeiro. Falamos com ele em junho de 2010. Vamos à
entrevista com Kamau.

BUZO: Freestyle, o que representa pra você?

KAMAU: É inspiração de momento e demonstração de


habilidade. Sintonia do MC com o ambiente. E também
um fator importante na minha ascensão como MC.
BUZO: Importância do hip-hop em sua vida?

KAMAU: Toda. Quando eu menos percebi, já dedicava todo


o meu tempo a isso. Me lapidou como pessoa e é meu
trabalho. Só agradeço e retribuo como posso.
BUZO: Como chegou ao rap, sua trajetória?

KAMAU:Ouvindo desde os 12. Tive a sorte de conhecer o


Robson, também conhecido como DJ Ajamu, e andáva-
mos juntos de skate. Na casa dele a música era muito
presente graças a seu irmão mais velho, Kleber, também
Freestyle 265

conhecido como KL Jay. Minhas principais fontes de


conhecimento musical eram eles e os vídeos de skate.
Mas fui apenas ouvinte por muito tempo, pois era exi-
gente com tudo que ouvia. KL Jay foi quem viu em mim
e me fez ver que eu tinha um potencial não explorado. E
desde então me dedico a fazer da melhor forma a música
que admiro e me tornou o que sou.
BUZO: Nova escola, velha escola?

KAMAU: Tive o privilégio de conhecer pessoalmente e


acompanhar artistas que estavam no começo da histó-
ria do hip-hop por aqui. E essa troca de conhecimento
que sempre tive me ensinou bastante. Acredito que haja
uma escola, pois aprendi bastante. Mas não necessa-
riamente dividida entre velha e nova. Brown é um rima-
dor atual e atuante e vem da mesma escola que muitos
que já pararam. E eu, por exemplo, muito aprendi com os
mais velhos. E agradeço sempre.
BUZO: Hip-hop salva?

KAMAU: Principalmente os que têm a sorte de abrir a


mente por qualquer que seja o elemento mais próximo de
sua vivência. Nem todos podem viver de algum dos ele-
mentos, pois o talento de cada indivíduo é diferente. Mas
com certeza o hip-hop mostra caminhos que nem todos
enxergam. E pra muitos esses caminhos são a salvação.
BUZO: Como vê o movimento hip-hop hoje e o que espera
para o futuro?
KAMAU: Vejo que muitos se dedicam mais para fazer o
melhor possível e isso possibilita que alguns vivam da
cultura que fazem. Espero que no futuro existam mais
que aspirantes a grafiteiros, MCs, DJs e b.boys. Espero
que existam profissionais gabaritados em todas as áreas
necessárias para que o hip-hop cresça e se fortaleça.
266 Hip-hop:dentro do movimento

Outro grupo que trabalha de forma diferenciada é o Mzuri


Sana. Entre seus integrantes está o ParteUm, irmão do
também MC Rappin Hood. Falamos com ele para saber o
que o grupo tem de diferente.

Defina o som do Mzuri Sana. Seria uma versão


BUZO:
moderna do bom e velho hip-hop/rap?
PARTEUM: Não diria (versão) moderna, ou saudosista. O
resultado do nosso som é o acúmulo das influências dos
integrantes, sendo Suissac um DJ/b.boy, Secreto um
ex-DJ/MC/guitarrista, e eu um MC/produtor/pesquisa-
dor das tecnologias de produção, entre outras coisas.
Fora isso, até por termos visões convergentes na esco-
lha de timbres e assuntos abordados no texto poético,
ainda olhamos a música que fazemos com certa sur-
presa, entende? Não está tudo escrito e definido, isso
ajuda bastante. É batida e rima. Talvez ande por lugares
incomuns, mas é soma de batida e rima como nos tem-
pos de Kool Herc, Grandmaster Casanova Fly etc.
BUZO: Ser irmão (no seu caso) de um rapper consagrado
como o Rappin Hood ajuda ou atrapalha?
PARTEUM: Não atrapalha, não. Criei meu próprio caminho, fiz
questão disso, mas não atrapalha de jeito nenhum. Tenho
um Jedi por perto pra dizer quando A Força faz curvas.
Pra encerrar, quis saber dele o que perguntei pra maio-
ria dos entrevistados desta obra e as respostas variam
muito de um pra outro artista. Então vamos saber do Par-
teUm o que ele espera do futuro do movimento hip-hop.

PARTEUM: Espero que saiamos da caixa que nos foi ofere-


cida no início de tudo. Já éramos multimídia antes mesmo
de o termo ganhar força, Buzo. Lançar mixtapes, criar
campanhas de lançamento de disco com pouca verba,
gravar videoclipes (e dirigi-los), criar logotipos, prin-
tar camisetas, formatar programas de rádio e TV com a
Freestyle 267

temática do gênero… Qualquer seguidor do hip-hop sabe


disso, mas acho que é chegada a hora de olharmos para
outros estilos musicais, outras artes e assegurar nosso
lugar ao sol, pois hoje em dia emprestamos bem mais do
que pegamos emprestado. A “caixa” ficou muito pequena.
Eu, enquanto artista, espero explicar cada vez menos a arte
que eu faço, para quem não entende de hip-hop, é claro.
a Conta – Dia das Crianças
Favela Toma Conta – Dia das Crianças
Epílogo

Como escritor e aprendiz de poeta, eu sempre ouvi rap


(90% do que eu e minha esposa ouvimos em casa), mas
eu sempre prestei atenção nas letras, nas poesias que
têm, na realidade, nos trechos loucos de vários raps e
grupos que eu admiro, que eu acompanho, que eu já fui
em show, que eu já entrevistei. Ouço um rap pra alegrar
minha alma, um Sabotage, Racionais e tantos outros.

Neste capítulo, trago a todos, pra quem é do rap lembrar


e quem não é ouvir (lendo) pela primeira vez, pedaços de
músicas. Em cima desses trechos podemos escrever crô-
nicas e contos, só buscando inspiração nesse ou naquele,
fiz muito texto assim, fecho esse mesmo capítulo com um
desses, que fez sucesso no site da revista Caros Amigos e
depois foi reproduzido em vários outros sites e blogs.

Que ao ler esse livro, o rap nacional te traga inspiração


pra vida.

Se antes dele você tinha preconceito, achava que não


era música, pare pra pensar, a hora é esta, este livro. Se
o que você leu até agora não te convenceu, se liga no que
diz a rapa do rap.

270
Epílogo 271

“Filho legítimo da periferia e pá.


Se duvidar é só fazer o DNA...”
“FAVELA ATÉ O FIM” – INQUÉRITO

“Se alguém ganhou nessa história foi só seu advogado,


nós continua morando num quartinho alugado...”
“Vive com a frase do PM no ouvido: É, minha senhora,
melhor uma viúva do que mais um bandido...”
“Seus parceiros de ação nunca te abandonaram, até no
cemitério te acompanharam, tá lembrado do Neguinho,
pelotão de fuga, tá aí do seu lado em outra sepultura,
e aquele mano que era catador, linha de frente, tá
enterrado numa cova logo ali na frente...”
“DIA DOS PAIS” – INQUÉRITO

“Eles falam de paz, mas o seu íntimo arma uma


emboscada, eles falam de paz... quando não há...”
“ELES FALAM DE PAZ” – DINA DI IN MEMORIAM

“Os irmãos sabe que o crime não compensa, mas é


obrigado a viver no mundo do crime porque não tem outra
saída, né...então...que Deus proteja os irmão que agora
estão na correria, que Deus proteja o povo da periferia...”
“POVO DA PERIFERIA” – NDEE NALDINHO

“Sinto uma grande vontade de chorar,


vendo minha mãe aqui, vindo me visitar...”
“DIA DE VISITA” – REALIDADE CRUEL
272 Hip-hop:dentro do movimento

“Eu não... Sou Rafael15 e nem a Vera Fisher,16 a minha


história parceiro é mais triste, eu nunca engoli, escola de
cabelo, mas...já matei pelo crack, por dinheiro...”
“DEPOIMENTO DE UM VICIADO” – REALIDADE CRUEL

“O morro e o asfalto no Rio estão em guerra,


integrantes do MST querem terra... a causa é séria, uns
matam e outros morrem por um qualquer, assim que
é... salve-se quem puder.”
“No Sudão matam negos com HK 47, prisão de
Saddam chegou via satélite... Bush... a besta de um
sonho americano, patrocina a dor do povo iraquiano...”
“O mundo se comove, porém... ninguém se move...”
DEXTER: “Aí, GOG, se o Bin Laden pega,
fica ruim pro Alexandre Pires...”
GOG: “Falhou, sujou, a bandeira brasileira,
envergonhando a América Latina inteira, inocência,
oportunismo, ignorância da história... chorou nos
braços de quem tem fama, sem glória... Bush...”
“SALVE-SE QUEM PUDER” – DEXTER. PARTICIPAÇÃO: GOG17

“Novela ensina dona de casa a trair...”


“SALVE-SE QUEM PUDER” – DEXTER

“Mente criativa pronta para o mal,


aqui tem gente que morre até por um real...”

15 Rafael Ilha, ex-Polegar.

16 Vera Fisher, atriz.

17 Sobre o pagodeiro Alexandre Pires ter cantado e chorado para o


ex-presidente americano George W. Bush.
Epílogo 273

“Garota de 12 anos esperando a Dona Cegonha,


moleque de 9 anos experimentando maconha...”
“Se você tiver coragem vem aqui pra ver, a sociedade
dando as costas para CDD...”
“TRAFICANDO INFORMAÇÃO” – MV BILL

“Igual Zumbi, Malcolm X, exemplo pra citar...”


“SUPERSTAR” – RZO

“Pegar o trem é arriscado, trabalhador não tem escolha


então enfrenta aquele trem lotado...”
“Então centenas vão sentados e milhares vão em pé...”
“E várias vezes assisti trabalhador na porta, tomando
borrachadas, marmitas amassadas, fardas... isso é lei?”
“O TREM” – RZO

“A mente é um perigo e vazia é pior...”


“O inimigo tá lá fora, abraçando os irmão, não é na
balada que existe a solução...”
“TEMPO CERTO” – ALERTA VERMELHO

“Fechando junto os progresso de mil grau...”


“Todo mundo junto puxando esse bonde,
nóis tá ciente, chapa quente não se esconde.”
“Pode sobrar lobo mal,
aqui no pé do morro é nós que tá...”
“...pro seu filho branco, pro seu filho preto, vivendo
lá no gueto, é pra você que eu falo, somos iguais,
274 Hip-hop:dentro do movimento

sem diferença... é claro. Custou muito caro o que eu


aprendi, temos que vencer e ser pretos onde ir...”
“SOPRA LOBO MAU” – GRUPO A FAMÍLIA. PARTICIPAÇÃO EDI ROCK

“Milhões de brasileiros não têm teto, não têm chão,


eu sou apenas mais um na multidão...”
“CASTELO DE MADEIRA” – A FAMÍLIA

“Sabe quanto eu lutei, pra fazer você feliz, eu te


eduquei, não tinha dinheiro, mas te ensinei, a minha
parte eu sei que eu fiz...”
“Chegou esse garoto em sua casa esse dia, com
mistura, sacolas de Danone a reviria.”
“Surpresa sua mãe quando abriu a geladeira, deu
sermão em seu filho, com seu marido a noite inteira:
Da onde você arrumou, que mercado você roubou,
nunca te ensinamos isso...”
“Quer coragem então... cheira... com isso aqui você vai
ter coragem pra matar a noite inteira...”
“NAQUELA SALA” – AO CUBO

“Na minha quebrada tem mano dando mancada,


viciando a molecada pra andar de carripa importada,
cada um cada um, não sou melhor que você,
mas assim tá errado, ladrão...”
“RASGAR O VERBO” – SPAINY & TRUTTY

“Acostumado a passar por despercebido,


exceto quando estão procurando bandido...”
“ELEGÂNCIA” – RINCON SAPIÊNCIA
Epílogo 275

“O estúdio e a balada é 30 conto...


me responde aí, qual você prefere.”
“Os macaco eram menos burro
e vocês ainda chamam de evolução...”
“HORA DE ACORDAR” – RASHID

“E se a casa do hip-hop fosse no seu coração


e não só em Diadema...”
“E se o Bambaataa em vez de comprar o primeiro disco,
tivesse comprado uma breja...”
“E se o Carandiru nunca tivesse sido uma prisão
e sim uma creche...”
“E SE” – RASHID

“Estar vivo é uma coisa, se sentir vivo é outra coisa...”


“Não preciso de um boné de 500 conto,
preciso de um boné que eu gosto e pronto...”
“EU TÔ BEM” – EMICIDA

“Sei que não é o trampo que você sempre quis...


mas ter o seu faz-me rir já te faz feliz...”
“A QUEM POSSA INTERESSAR” – KAMAU

“Palmares, o local da nossa redenção,


viver sem corrente, sem escravidão...”
“US GUERREIROS” – Rappin HOOD

“A vida não da boi... se moscar já foi...”


“MOIO” – PENTÁGONO
276 Hip-hop:dentro do movimento

“A favela é sinistra, na madrugada, filho da p...


assassino de farda, se ele te vê, tenta correr, de
qualquer forma, se proteger...”
“FAVELA SINISTRA “– TRILHA SONORA DO GUETO

“Não diga pra Deus que você tem um problema...


diga pro seu problema que você tem um Deus maior...”
EXPRESSÃO ATIVA

Vários outros raps poderiam ser citados aqui, mas finalizo


este capítulo com um texto que escrevi durante a visita do
papa Bento XVI, pouco depois de uma vinda do então (na
época) presidente americano Bush ao Brasil. Texto livre-
mente inspirado num som do Facção Central. Escrevi:

Facção Central, papa, Bush...


por Alessandro Buzo
Estava em minha loja, um frio terrível, ouvindo um Facção
Central. Na hora que ecoou a música: “Hoje Deus anda de
blindado, cercado, protegido, por dez anjos armados.”
Não deu para não lembrar da matéria que assisti pela
manhã do papa Bento XVI, ele circulou pela cidade de
papamóvel blindado, saiu na sacada (blindada) do mos-
teiro São Bento, está cercado por bem mais de dez
“anjos” fortemente armados da Polícia Federal.
Claro que o papa não é Deus, mas para milhões de cató-
licos espalhados pelo mundo é quem mais se aproxima
dele, ou quem mais o representa na Terra.
Se o papa anda de blindado, saúda o povo em sacada
blindada, então o Facção está certo em cantar que
Deus hoje anda de blindado, cercado, protegido por
dez anjos armados.
Epílogo 277

Uma pena, porque até o papa tem que se proteger


para ver o povo, só o povo mesmo que anda de alvo
para bala perdida.
Que o papa faça uma oração para que os fiéis que pas-
saram horas na garoa gelada para vê-lo não peguem um
forte resfriado, porque se depender de hospital público
em SP, nem por Deus você é atendido.
Mas deixa o papa pra lá, pregando para o povo não usar
camisinha, acreditando que não é preciso se o povo for
fiel, fidelidade hoje em dia é raridade.
São Paulo é uma metrópole a ponto de explodir, o trans-
porte público está um caos (o metrô anda lotado a qual-
quer hora do dia, os ônibus e lotações só por Deus), com
tantos problemas os patrões querem o funcionário sor-
rindo às 8 da manhã batendo cartão, salário só dá para
sobreviver, por isso que o povo não vai ao cinema, no tea-
tro então... Diversão de pobre é igreja, boteco e futebol
de várzea, entretenimento é novela e futebol mercenário
na TV. A polícia faz o que quer e o governo diz amém.
De novo lembro o Facção: “A pomba branca tem dois
tiros no peito.”
Cabe um MV Bill também: “Pedir paz, sem justiça, é
utopia.”
Enquanto isso os ricos compram na Daslu uma calça que
vale o mesmo que a minha casa.
Lutam pela redução da maioridade penal achando que
vai resolver alguma coisa, de novo Facção: “Não vejo
puto lutando por escola na favela, só pra me trancar e
jogar a chave fora.”
A elite me causa nojo, porque quer exigir, exigir, exigir
e nunca dividir.
278 Hip-hop:dentro do movimento

Fácil ser certinho de barriga cheia, com sucos, frutas,


cereais, queijos, pães integrais de manhã, churrascaria
ou cantina no almoço e jantar com vinho do porto.
Não quero ser chato, nem bater na mesma tecla, mas só
um pouco mais de Facção Central: “Sonhar que o Con-
gresso vai aprovar leis mais severas é o mesmo que o
deputado atirar na própria testa. Com a Justiça refor-
mulada não sou eu que estou fodido, é a madame que
vai levar jumbo pro marido. O que me faz roubar é pena
branda, é ver a lata de arroz, sem uma grana.”
Enquanto isso vereadores, deputados ganham um
absurdo mesmo sem roubar... E ainda roubam.
Enquanto o hip-hop marginalizado tenta conscientizar o
moleque da favela, o rico, como diz o Facção: “Prefere gas-
tar no abrigo antinuclear, no bunker, goma blindada, seu
novo lar. Enriquece a indústria de segurança privada, com-
prar colete à prova de bala em vez de doar cesta básica.”
São Paulo está mesmo numa guerra civil não declarada e
quem mais sofre é o pobre, o preto, ou quem está desem-
pregado, ou está num subemprego, ou caiu no golpe do
sistema e está no crime.
Aqui é uma cidade onde Deus anda de blindado, cercado,
protegido, por dez anjos armados. Né, Bento XVI?
Mas pelo menos nossos governantes são democráticos,
isso não posso negar, tratam Deus e o diabo de igual para
igual, ou você acha que o Bush também não circulou por
aqui de blindado, com bem mais de dez “anjos” armados?
Salve ao Facção Central, que já foi censurado pelo
Ministério Público.
E que Deus tenha piedade do povo que não tem blindado,
não anda armado e no caminho do trabalho é constante-
mente enquadrado.
Considerações
finais

Espero que este livro, Hip-hop: dentro do movimento,


possa de alguma forma servir de base para que no futuro
as entrevistas e depoimentos que estão nele sirvam
para corrigirmos erros, e ainda planejar melhor nossas
ações daqui pra frente.
A ideia deste livro nasceu do encontro do autor, Alessan-
dro Buzo, e da editora Heloisa Buarque de Hollanda no
Fórum Social Mundial, no começo de 2010 na cidade de
Canoas-RS.
Apesar de ter a pretensão de executar este trabalho,
sabia que não teria como eu ou ninguém escrever a his-
tória do hip-hop. Então, desde o início sabia que seria um
livro de entrevistas. A Aeroplano, na pessoa da Heloisa
e depois na do editor Ecio Salles, deu apoio. Fui à luta.
Foram dias e noites de trabalho, muitos e-mails e encon-
tros, parte das entrevistas foi feita por e-mail e parte
pessoalmente. O resultado que você acaba de ler marca
uma época, falamos de fatos do passado, do presente
e ainda perspectivas de futuro promissor (ou não?). Eu
acredito no hip-hop nacional, e você?
Quero destacar que algumas pessoas importantíssimas
para o movimento não estão aqui. Seria impossível falar

279
280 Hip-hop:dentro do movimento

com todos, alguns não encontrei no período de produ-


ção da obra, outros ficaram de responder e nunca retor-
naram com as respostas, muitos deles por pura falta de
tempo, outras por não dominar bem a internet, cada um
com seu motivo, mas acho que quem participou repre-
sentou dignamente o movimento em nome de todos os
outros.
Só duas pessoas disseram que não queriam participar.
Respeito cada um, no seu cada um.
Não posso deixar de agradecer a cada pessoa que cola-
borou com entrevistas e depoimentos, vocês são coau-
tores desta obra.
Por uma vida com mais cultura, literatura e hip-hop.
Alessandro Buzo
www.buzo.com.br
Anexos
Depoimentos de
pessoas dentro e
fora do hip-hop

Procuramos pessoas para saber qual era a importância


do hip-hop para a periferia e para a sociedade no geral.
Foram vários depoimentos, alguns de pessoas do meio,
rappers, DJs, b.boys, grafiteiros, outros que veem a cena
de fora, como o escritor e roteirista Fernando Bonassi, a
cineasta Tata Amaral e outros.

Esses depoimentos nos dão a dimensão de como o


hip-hop é forte, longe de ser moda, não existe moda que
dure mais de 20 anos. Veja o que nos disse o Bonassi.

“A entrada da periferia no cenário social e cultural das


metrópoles brasileiras é o grande fato político da virada
do milênio. O hip-hop, mais do que qualquer outra mani-
festação artística, é onde se escrevem e se cantam os
importantes manifestos dessa inclusão irreversível.”
FERNANDO BONASSI - ESCRITOR E ROTEIRISTA

Sentiu o peso das palavras, a importância que o hip-hop


tem na nossa sociedade? Seguimos com uma série de
depoimentos. Leia e tire suas próprias conclusões.

Quanto à minha, acho que não devemos jamais menospre-


zar a força do hip-hop, afinal a cada dia são novos segui-
dores e apesar de não ser fácil abrir espaços na mídia, não
tocar em quase nenhuma rádio, quase não ir à TV, o rap

282
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 283

nunca para, nunca vai morrer, porque ele é a maior expres-


são dos jovens das periferias desse Brasil, ou não?

Eu tenho certeza de que sim, e os manos e as minas que


deram os depoimentos, também. Começando por uma
pessoa que ganhou espaço na grande mídia, no cinema
e na música popular brasileira, mas que começou no rap.
Falo da Negra Li, que surgiu no grupo RZO e hoje está nas
paradas de sucesso, mostrando que é possível, pra quem
tem talento e disposição pra correr atrás de seus objeti-
vos. Ela sabe disso, que o rap foi o início de tudo, como
podemos conferir no depoimento a seguir.

“O hip-hop foi a minha oportunidade dentro da carreira


musical. E como sou feliz por isso! Antes de fazer parte
do RZO, não conhecia nada de música, muito menos
sobre esse ritmo tão fascinante. Foi lá que aprendi tudo
sobre o rap, e acima de tudo sobre a música... O hip-hop
foi realmente uma escola pra mim, foi através dele que
descobri que tinha potencial não só pra rimar como tam-
bém pra cantar. Aprendi como me posicionar diante dos
conflitos. Aprendi a me comunicar! E por causa disso
serei eternamente grata a esse movimento, que carrego
aonde quer que eu vá. E nunca vou deixar pra trás, não
importa onde eu esteja.”
NEGRA LI - CANTORA

“Existem nas periferias pessoas do bem e do mau,


branco, negro, qualquer etnia.
Mas alguns jovens que podem estudar um pouco mais
têm essa possibilidade, eles se sobressaem aos seus
irmãos de comunidade, são infelizmente a minoria, já
que a maioria não quer mudar e se acomoda.
Alguns deles usam o hip-hop como forma de mudança,
interagindo com a família quando adentra ao movimento.
Ele usa o hip-hop pro bem e tudo que vem para a melhoria
das pessoas é benvindo e deve receber nossos aplausos.”
284 Hip-hop:dentro do movimento

GERSON KING COMBO


REI DA BLACK MUSIC BRASILEIRA

“O hip-hop é uma das poucas maneiras que a periferia


tem para se expressar... firmar sua identidade... falar de
suas mazelas... suas angústias... suas alegrias... suas
raízes... e isso de várias formas diferentes... como um
verdadeiro caldeirão cultural... quem não dança (break)
pega o microfone e canta sua poesia (MC) ao balanço
dos toca-discos (DJ) ou empunha o jet (grafite) e se
manifesta pondo cor na vida.”
TUBARÃO (SP)
WWW.DULIXO13.BLOGSPOT.COM

“Certo, meu chapa, é o seguinte, eu, Tom, líder do grupo


Função RHK, vejo a importância do hip-hop na periferia
como uma necessidade, a oportunidade que a periferia
tem, é o remédio para tirar a molecada da rua e do crime
e trazer eles de volta ao mundo sadio.
Também dar a eles uma oportunidade de aprender uma
profissão e incluí-los no mercado de trabalho, exemplo
vivo disso é o próprio Função RHK, que começou como
uma brincadeira de criança e hoje em dia é nossa vál-
vula de escape, é o nosso trabalho, é a nossa vida, se
não fosse a oportunidade que o hip-hop deu pra gente,
seriamos mais uns aí, vítimas do sistema, então por isso
que falo e repito, a importância do hip-hop na vida das
pessoas, primeiramente as da periferia, é o remédio pra
todo esse mal, é o que pode mudar a disciplina que o
sistema criou pra nós seguir e caminharmos com nos-
sas próprias pernas e ditando nossas próprias regras.”
TOM – FUNÇÃO RHK (ITAPEVI-SP)
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 285

“O hip-hop é o oxigênio cultural nas periferias, embora


poucos queiram assumir. Apesar dos funks pornográ-
ficos que invadem os sons e as mentes dos jovens, o
hip-hop ainda é de um importante papel educativo e de
autoestima pros jovens. Não só jovens, mas também
homens, mulheres, crianças etc.”
RENATO VITAL (SP)
WWW.RENATOVITAL.BLOGSPOT.COM

“Vejo o hip-hop como grande influência dentro das peri-


ferias do Brasil e do mundo, uma cultura mais que rica,
que sempre costumo dizer já salvou várias vidas e vai
continuar salvando, que leva a molecada pro caminho
do bem e com um brilho no olhar que mantém essa cul-
tura viva em vários corações!”
JEFFERSON LEANDRO – TONHÃO (MG)
WWW.TONHAODORAP.BLOGSPOT.COM

“Uma cultura, um estilo de vida, que se iniciou como


festa, protesto e passou a dar um rumo na vida de
milhares de pessoas pelo mundo afora. Nem mesmo
quem iniciou imaginaria que o rap tomaria essa dimen-
são, fazendo parte da vida do ser humano com um poder
enorme de transformação, essa cultura tem como base
quatro elementos, e cada elemento tem naturalmente
o lado social; rap com suas letras falando de cotidiano,
arte e festa vêm sempre com o objetivo de elevar o pen-
sar do ouvinte dando autoestima, instigando a reflexão
com o tema abordado na letrada música. Muitos jovens
deixaram de ser rebeldes, porque na letra do rap pas-
sou uma influência, fazendo que deixasse que eu, Zulu
Tiquinho, voltasse a estudar quando minha irmã me
questionou dizendo: “Por que escuta isso aí, mas não faz
o que eles dizem?” Ela dizia da música do Thaíde (“Algo
vai mudar”) quando ele falava: “Ei! Irmão e irmã, vamos
estudar e mostrar que a realidade dá pra se sonhar...”
286 Hip-hop:dentro do movimento

ZULU TIQUINHO. SANTA ROSA BREAKERS (GUARUJÁ-SP)


SANTAROSABREAKERS@HOTMAIL.COM

“Moro numa cidade pequena, interior de Sampa, cha-


mada Porto Feliz. Muitos podem pensar que, por ser
uma cidade com cinquenta e poucos mil habitantes, é
uma cidade pacata, sem muitos problemas sociais. Mas
não é bem assim, tiu...
Biqueiras pipocam por toda cidade, resultado da falta
de emprego digno e de uma educação decente na base,
nas escolas de ensino fundamental e médio.
Um moleque já de 15, 16 anos, sem preparo, sem estudo,
(larguei a escola de vez já que achava que não ia precisar
mais trabalhar), sem a presença de um pai (não conheci
meu pai e fui criado pela minha mãe e meus avós); meu...
me perdi rapidinho, mano, iludido com a vida fácil e o
status que o crime proporcionou.
Comecei a usar drogas mais pesadas, o famoso conjunto
da química, que são cocaína, crack etc. E daí pra queda
mesmo foi rapidinho. Fui afastado do corre porque
fumava demais, e às vezes fumava mais que ganhava.
Uma vez afastado não tinha como bancar o vício. Come-
cei a roubar, fui pego algumas vezes, mas por ser menor,
quem pagava mais pelos meus erros era minha coroinha,
que tinha que me buscar, e muitas vezes era humilhada
pelos porcos que infelizmente fazem parte da polícia do
estado de São Paulo.
Com o tempo fui perdendo tudo de importante que
tinha na vida: amigos, família, dignidade e material-
mente falando não tinha bem nenhum, pois até as rou-
pas eu tinha vendido.
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 287

Aos 17 anos, após minha mãe me ver usando crack e


sofrer um ataque de nervos, pedi para ser internado e
fui atendido por um tio que mora na capital, que sem-
pre me amparou nos momentos difíceis e que eu tenho
como um anjo enviado por Deus pra me proteger e
me manter no caminho.
Com o início do tratamento, comecei a perceber o
quanto inverti os meus valores, comecei a perceber o
meu lugar no mundo. Me foquei em recuperar as per-
das e voltei a fazer coisas que havia parado, como usar
a música, no caso o rap, como terapia. Já tinha parti-
cipado de alguns ensaios com grupos de rap e cheguei
a me apresentar em público, mas sem levar a sério, só
por diversão. Mas conhecia o bastante para saber o
poder transformador do hip-hop.
Passados alguns meses, deixei de só ouvir o rap nas
minhas horas de terapia pessoal e passei a escrever
minhas letras. Convoquei o Jotapê, meu parceiro desde
sempre, mas que havia se afastado pela minha situa-
ção como usuário de crack, para que juntos montásse-
mos um grupo de rap. Chamamos mais dois parceiros,
o Gedeão e o DJ Sansão, e logo que saí começamos os
ensaios do grupo Perigosos na Trilha, que deu origem à
Banca Anti-Sistema, formada por nós e mais um grupo
formado por incentivo nosso, o Mensageiros do Rap, e
de um grafiteiro, o Elton aka “Gênio”. Os corres foram
evoluindo e muito aconteceu desde lá; poucos perma-
neceram no hip-hop, mas quem permaneceu se afastou
do crime, da química e hoje trabalha, estuda, constituiu
suas famílias. Eu e o Jotapê continuamos e um ano atrás
fundamos outra posse, a Família Pic Favela, para aca-
bar com as desavenças e desunião entre os grupos de
rap da cidade, mas que nos surpreendeu e continua nos
surpreendendo pelo número de resultados positivos
288 Hip-hop:dentro do movimento

que temos obtido, tais como a participação no Fórum


de Hip-hop do Interior, onde fazemos parte do Grupo
de Trabalho e Organização, o resgate de pessoas que se
encontravam na mesma situação pela qual eu passei, e
hoje estão militando com a gente, em pé, gravando suas
músicas, participando das oficinas e tudo mais e a indi-
cação de um de nós, este humilde rapper que vos fala,
como o primeiro assessor municipal para Igualdade
Racial da cidade de Porto Feliz.
E essa é só mais uma de várias histórias de transfor-
mação social e comportamental que o hip-hop tem
escrito por este mundão. Eu fui resgatado e sou salvo
a cada dia por esse movimento, essa cultura que Deus
colocou no meu caminho, para que eu me levantasse e
passasse esse aprendizado adiante, para assim conti-
nuarmos, todos juntos, fazendo a revolução, que sem-
pre começa dentro de cada um...”
CORVO
FAMÍLIA PIC FAVELA
U1000DRAP@HOTMAIL.COM

“Há 15 anos, conheci o hip-hop, porra... arrepia até de


lembrar, mudei pra Itaquera (Zona Leste de São Paulo) e
conheci um pessoal que tinha uma equipe de som, onde
a febre era ser DJ. Com os caras conheci as músicas
ainda, mas quem diria que isso tudo ia entrar na minha
vida e se tornar algo que por muitas vezes pensei em
viver sem, mas não consegui?
Quantas vezes pensei em parar, que não ia dar certo
essas coisas, mas não deu, parece que falta algo dentro
da gente, um vício que não consigo me libertar.
Um amor que a cada letra escrita, cada som escu-
tado, cada matéria feita e cada reconhecimento... me
deixa feliz, feliz a ponto de levar minha filha de 15 dias
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 289

e minha mulher de resguardo pra Mogi Guaçu pra não


deixar minha mulher em casa sozinha e não deixar de
cantar 25 minutos, feliz a ponto de deixar de pagar o
aluguel de casa pra consegui pagar o estúdio, mesmo
sabendo que poderia ficar sem casa, mas pra que uma
casa se o rap é minha estrutura?”
GORDINHO – GRUPO PRIMEIRO ATO
PRIMEIROATO@HOTMAIL.COM

“Pra mim, mano, a importância do hip-hop é praticamente


tudo, como se fosse uma filosofia de vida, o hip-hop eleva
minha autoestima nos dias de fúria, um vício, tá ligado?
Quando estou na neurose, ouço um bom rap, aí fico suave.
Como te falei, o hip-hop é tudo para mim.”
TIOPAC
CINEASTA DA CIDADE TIRADENTES
TIOPAC_LEE@HOTMAIL.COM

Trouxemos um depoimento da Argentina, só para mostrar


que em outros países o hip-hop também enfrenta resis-
tência. Convocamos a amiga Lucía Tennina, que mora em
Buenos Aires. Vejamos como é o hip-hop dos hermanos.

Um panorama da cultura hip-hop em Buenos Aires,


Argentina:

“Rapear me hizo aprender ganar respeto entre la gente.”


LA FAMILIA ILUMINATE

“As músicas populares na Argentina têm sido pensadas,


mais de uma vez, como espaços simbólicos de resis-
tência político-cultural. É o caso, por exemplo, do rock
durante a última ditadura militar (1976-1983), onde, por
meio da possibilidade metafórica das letras, se translu-
zia uma análise da situação de repressão, perseguição
290 Hip-hop:dentro do movimento

e assassinato político. Nos anos 1990, começaram a se


escutar discursos mais urgentes e mais explícitos, arti-
culados dessa vez não a partir de vozes de artistas da
classe média, mas dos setores juvenis populares urba-
nos que expressam nas letras, no tom e nos movimentos
os efeitos emocionais de raiva e dor, produto das trans-
formações atrozes que a política neoliberal levou a cabo.
Muitas são as estéticas que foram se articulando desde
então, cada uma das quais codificou, com variada ênfase
e características formais específicas, o universo dos bair-
ros populares. Dentro da diversidade de gêneros musicais
e jeitos de “ser”, o hip-hop, estética escolhida por muitos
setores subalternos de várias regiões do mundo, adquiriu
um papel na cena. Porém, a diferença com outras mani-
festações artísticas populares que foram se formando na
década anterior, o hip-hop começa a se diferenciar nos
últimos anos. “Tenho 23, comecei a dançar faz dez anos.
O agito já tinha começado, mas a gente saía de casa em
calças largas e o pessoal do bairro olhava como se fosse
um palhaço. Hoje a gente já é identificada”, diz numa
conversa comigo Laura Zapata, uma ótima dançarina de
hip-hop do bairro de Boulogne, na Zona Norte de Buenos
Aires, que faz sete anos trabalha em parceria com dança-
rinas da área contemporânea, formados em instituições
reconhecidas da Argentina e do estrangeiro.
O hip-hop, pouco a pouco, foi conseguindo espaços de
expansão e expressão, mas com grandes dificuldades,
maiores do que para outros tipos de manifestações artís-
ticas. Uma linguagem que precisa de espaços para a sua
dança, os seus jogos, as suas competições, verbais ou
físicas, demanda um lugar de unificação. E a grande marca
dos anos 1990 na Argentina poderia se dizer que foi a ani-
quilação do espaço público por meio da privatização e do
gradeado. Mas a cultura da rua desenhou as suas próprias
estratégias que lhe imprimiram suas marcas ou locais ou
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 291

conjunturais. O hip-hop, por sua parte, foi se conformando


como uma manifestação que não se centrou unicamente
nos bairros dos subúrbios de Buenos Aires, tal como acon-
teceu no início nos Estados Unidos, ou nas posteriores
modulações brasileiras. A improvisação de fugazes luga-
res de prática que escapam, ao menos um instante, ao
controle oficial do “estar” nas ruas fez com que as áreas
centrais da cidade também se incluíssem no reduzido
leque de opções. Neste sentido, mesmo que os primeiros
impulsos deste movimento tenham explodido nos bairros
(o espaço Crear Vale la Pena, no bairro La Cava, por exem-
plo), os jovens da classe média deixaram sua impressão na
forma atual do hip-hop em Buenos Aires. Devido à mobi-
lidade obrigada dos interessados nessa estética, pode se
pensar que o nascimento do hip-hop na classe média e
nos setores humildes são processos paralelos.
A partir dos setores mais abastados, durante os anos
1990 fez-se sentir com sucesso um estímulo na escuta
do sons do hip-hop. Dois conjuntos musicais ideologi-
camente opostos marcaram um novo caminho na his-
tória oficial do rock nacional. Por um lado, o grupo Illya
Kuryaki and The Valderramas, liderado pelo filho de
um famoso músico dos anos 1970, veio a oferecer uma
paródia do hip-hop norte-americano, mobilizando não
os ideais políticos, mas somente os corpos e as moder-
nas roupas dos jovens nas festas privadas ou discotecas
dos bairros centrais. Na vereda oposta, entre os seto-
res médios vítimas da última ditadura militar, a lingua-
gem do hip-hop abre por esses anos um espaço fértil de
denúncia e resistência na voz de um conjunto musical,
Actitud María Marta, formado por três mulheres que,
paralelamente ao nascimento do grupo e à atuação em
cenários under de Buenos Aires, militavam na agrupa-
ção H.I.J.O.S. (agrupação de direitos humanos formada
no ano de 1996, que nucleia filhos de pessoas “desapa-
recidas” ou exiladas durante os anos da ditadura).
292 Hip-hop:dentro do movimento

A respeito das formas mais populares do hip-hop, ainda


que desde fins dos anos 1990 circulassem de mão em
mão fitas com gravações estadunidenses, o aspecto
de luta e identidade que define o gênero desde o início
começa a adquirir uma voz própria, principalmente nos
últimos anos desta década. Cada vez mais existem tex-
tualidades, que se manifestam explicitamente na lin-
guagem musical, cuja afirmação se centra na questão
da identidade, da luta e da diferenciação em relação aos
setores dominantes. Conjuntos musicais como Ilumi-
nate, FA, Clan Oculto, Los Ñeris del Docke apontam prin-
cipalmente à construção identitária, já desde os nomes
de cada um deles que remetem quase todos ao bairro ou
“villa” (favela) da origem dos integrantes: Fuerte Apache,
Ciudad Oculta, Dock Sud. As letras das músicas também
funcionam como um elemento de união a partir do relato
de vivências comuns dos “monoblokeros”18 ou do pessoal
da “villa”, do relato das injustiças, das dores, do maltrato
policial e da delinquência, entendida como efeito inevi-
tável das condições sociais desamparadas. Os vídeos
musicais contribuem para a territorialização da palavra
do rapper: as caminhadas pelos becos e vielas, os pano-
ramas da paisagem do bairro, os planos dos vizinhos, o
reflexo do dia a dia. Todos vídeos filmados de maneira
caseira e difundidos principalmente pela internet.
O hip-hop dos bairros se posiciona inicialmente frente
e contra os mecanismos despolitizadores e massifica-
dores da indústria cultural, e pretende disparar relatos
mobilizadores dos preferidos valores da classe média.
Relatos que fazem pular da cadeira as mulheres que
estão assistindo ao noticiário da tarde, onde se mos-
tra um informe feito por um jornalista que passou “o

18 Alguns bairros humildes dos subúrbios da cidade de Buenos Aires têm


grandes prédios chamados “monobloks”, além dos barracos (“casillas”) que
estão ao redor, geralmente.
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 293

dia todo” com “os jovens que falam de drogas, de delito,


contra a polícia; jovens que muitos deles também têm
armas”. O cúmulo do escândalo desta manifestação
artística, segundo o sentido comum midiático, se alcança
porque o hip-hop não teria nada a ver com a “essência”
argentina, nem latino-americana, seria uma “má cópia”
das produções norte-americanas, sempre tão aduladas
pelo sentimento de inferioridade dos monopólios midiá-
ticos argentinos frente ao “primeiro mundo”.
De qualquer maneira, apesar da construção negativa por
parte dos meios de comunicação, a partir de um grupo
de artistas institucionalizados, estão se dando os pri-
meiros passos democratizadores, legitimando aquilo
que não pode ser legítimo para o ponto de vista da domi-
nação. O hip-hop dos bairros está começando a entrar
nos circuitos culturais das classes médias. O grupo FA,
por exemplo, lançou no ano 2009 um vídeo musical do El
mundo al revés, realizado pelo mundialmente reconhe-
cido diretor de cinema Pablo Trapero. No marco do fes-
tival Cultura Emergente, efetuado durante cinco dias no
Centro Cultural Recoleta, num dos bairros mais caros da
cidade, um dos cenários dedica tempo completo à exibi-
ção de expressões da estética hip-hop, sobre a coorde-
nação e organização da reconhecida coreógrafa e dança-
rina Andrea Servera. O grafite também ganhou espaço no
Centro Cultural de Espanha, onde no mês de maio de 2010
se montou uma exposição centrada nessa linguagem.
O hip-hop está começando a adquirir um lugar indis-
cutivelmente atrativo entre os artistas e o público
dos setores médios. A partir desses novos vínculos, a
relação de dominação, por um momento, muda radi-
calmente, e esses moleques que estavam jogados nas
praças e ruas por praticar suas danças e jogos são
admirados sobre o cenário por um monte de olhares
294 Hip-hop:dentro do movimento

e orelhas habituadas principalmente aos movimentos


da dança contemporânea e aos sons da música expe-
rimental. O apoio governamental neste tipo de evento,
de qualquer maneira, é nulo, o que faz que não se con-
siga ainda uma continuidade de trabalho.
O contato do hip-hop do bairro com os artistas forma-
dos em instituições legitimadas modifica também as
expressões originais. Laura Zapata, por exemplo, uma
dançarina e musicista que diz “estar na luta dos bairros
baixos” e que se move pela necessidade de “cuspir um
pouco o que a gente sente diante da situação de pobreza
e violência”, vai apresentar no próximo festival Cultura
Emergente uma performance que mistura o hip-hop
com técnicas de dança contemporânea. No que diz res-
peito à música, nos últimos tempos está se começando
a escutar uma fusão de texturas sonoras singulares
com uma base “rapera”. Assim, no início da música 500
anos, de Iluminate, pode se distinguir um fundo dos rit-
mos dos povos originais do norte de Argentina (que har-
moniza com a temática indígena da letra). Ou, na música
Evolución constante, de Frescolate, se ouve uma tonali-
dade do tango.
Isto que acontece em Buenos Aires está ocorrendo,
segundo grande parte do pessoal do hip-hop, no país
todo. O hip-hop na Argentina está movimentando-se,
abrindo espaços, mostrando corpos, contando histó-
rias e ativando o diálogo entre diferentes linguagens.
Sem deixar de falar das diferenças, o hip-hop está sig-
nificando e ressignificando a realidade argentina numa
linguagem universal que tem a marca da resistência.”
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 295

Alguns links:
FA com Pablo Trapero
http://www.youtube.com/watch?v=uahyfkWArnl
Así soy yo Clan Oculto
http://www.youtube.com/watch?v=3sb9V3YN3Nk
LasvillasdelDocke Los Ñeris del Docke
http://www.youtube.com/watch?v=XWMfcNoUXNs
La Familia Iluminate
http://www.youtube.com/watch?v=zqsExMXIq5I
Nikko Ramírez dança hip-hop + tango
http://www.youtube.com/watch?v=WKh63hgvFyk
O rap segundo a mídia
http://www.youtube.com/watch?v=7yxkf7hmj8w

Agradecimentos especiais: Gonzalo Aguilar (pela ajuda


sempre e pela indicação do espaço público nos anos
1990), Andrea Servera (pela informação e os contatos),
Laura Zapata (pela conversa, a ajuda e a sua arte), Nikko
Ramírez (pela conversa, também, a informação e os
e-mails), Alessandro Buzo (pela confiança).
LUCÍA TENNINA, BUENOS AIRES, ARGENTINA. MAYO 2010

Deixei um depoimento do rapper de São Bernardo de


Campo, Walter Limonada, para encerrar. Afinal, em
tempos em que pessoas ainda não conseguem sim-
plesmente responder uma entrevista por e-mail, vale a
pena o depoimento dele, afinal nossa amizade começou
antes de termos acesso à internet e trocávamos cartas
e fanzines pelo correio.

Se liga na participação de nosso último convidado, o


lemon amigo Walter Limonada.
296 Hip-hop:dentro do movimento

Amizade e correrias, dentro do movimento hip-hop!


Firmeza total!
Minha Amizade com o Buzão vem de numa época em
que nos comunicávamos via cartas (Correios). Pois
não tínhamos essas paradas de e-mails, blogs e sites.
Mas essa dificuldade ajudou bastante, pois só cor-
ria junto quem tinha força de vontade mesmo. E, no
decorrer do caminho, nos aliamos a vários aliados(as)
verdadeiros(as), por todo este Brasilzão afora. Produ-
zimos e participamos das mais variadas formas artís-
ticas dentro do movimento hip-hop, pelas periferias
brasileiras. Então, quando tivemos acesso à internet,
já tínhamos uma vivência mais enraizada.
Contei um pouco da minha amizade com o Buzão pra
mostrar que o hip-hop fez a gente correr atrás de mais
conhecimentos, ler e escrever livros, poesias, fanzi-
nes e até multimídia, pois, agora estamos produzindo
nossos próprios filmes, documentários e músicas. E,
se a gente tá conseguindo, todos podem, com certeza.
Tudo é uma questão de conscientização!!! Hoje o movi-
mento hip-hop provou que é extremamente cultural.
Há várias oficinas de DJ, MC, break e grafite nas esco-
las periféricas, além das oficinas de roda de leitura,
fanzine e criação de textos e contos.
Peraí... Bateu um saudosismo... Ah, Como eu gostaria
que já existissem essas oficinas culturais na época em
que eu era estudante ginasial, pois tenho certeza de
que muitos de meus amigos estariam vivos.
Mas continuo sendo um cara otimista, acredito que ape-
sar das dificuldades que todo jovem periférico enfrenta
no dia a dia, a fé, a disposição e a determinação superam
qualquer tipo de dificuldade. E o movimento hip-hop taí
Depoimentos de pessoas dentro e fora do hip-hop 297

pra isso, diversão, protesto e autoestima na vida de


um jovem periférico.
PAZ!!!
WALTER LIMONADA
SÃO BERNARDO DO CAMPO-SP
Os manos e as minas

Dário
Porte Ilegal-SP
Dário é muito conhecido no universo do hip-hop, dono da
Porte Ilegal, ele distribuiu a maioria dos discos de rap
por anos. A Porte Ilegal também lançou alguns deles.
Em viagens pelo Brasil, já vi o logo da Porte Ilegal até
tatuado na pele de um mano em Goiás.

Nelson Triunfo
SP
Nelsão é um dos pioneiros do hip-hop no Brasil. Fazia
parte dos que dançavam break na rua 24 de Maio. Como
viviam sendo impedidos pela polícia de dançar no local,
migraram pro Largo São Bento, conhecido como “Berço
do hip-hop”. Nelson Triunfo faz parte do grupo Funk &
Cia, e hoje faz palestras e shows acompanhado de alu-
nos e de seus filhos.

Alexandre de Maio
SP
Por anos foi editor de revistas de hip-hop Rap Brasil,
Graffitti, Rap News, Cultura Hip-Hop e Planeta Hip-Hop.
Fez a arte de muitos encartes de CDs de rap. Hoje traba-
lha no site Catraca Livre e fez a assessoria de imprensa
do Prêmio Cultura Hip-Hop do MinC.
REVISTARAPBRASIL@HOTMAIL.COM

298
Os manos e as minas 299

DJ Cia
RZO-SP
DJ Cia é do lendário grupo RZO (Rapaziada da Zona
Oeste). Em carreira solo, faz apresentações em festas
por todo o país e até em carreira internacional. Também
é DJ do Big Ben Bang Johnson, reunião de rappers, entre
eles Mano Brown.

Rappin Hood
SP
Rappin Hood formou com Johnny MC o Posse Mente
Zulu. Já na carreira solo lançou dois álbuns, Sujeito
Homem I e II. Gravou com músicos de outros gêne-
ros, como Leci Brandão, Caetano Veloso, Gilberto Gil,
Jair Rodrigues, entre outros.
Apresenta há anos o programa Rap Du Bom na Rádio
105FM, e hoje é vice-presidente da Escola de Samba
Imperador do Ipiranga.

Markão II
DMN-SP
Markão II é integrante de um dos principais grupos
de rap do país, o DMN.
Hoje, além do hip-hop, é assessor político e trabalha
com o vereador Netinho de Paula.
300 Hip-hop:dentro do movimento

Thaíde
SP
Thaíde formou a inesquecível dupla Thaíde e DJ Hum. Já
em carreira solo, lançou o albúm Thaíde apenas. É um
dos pioneiros do hip-hop no Brasil.
No cinema e na TV estrelou Antônia, apresentou o YO!
MTV Raps, o Manos e minas na TV Cultura, e atualmente
é um dos apresentadores do programa A liga da Band.

Cleber
Ao Cubo-SP
Integrante do grupo Ao Cubo. O grupo lançou dois álbuns:
Respire fundo e Entre o desespero e a esperança. Tem
produzido videoclipes de algumas músicas.
CLEBER@AOCUBO3.COM

Tio Fresh
SP Funk-SP
O grupo do qual Tio Fresh é integrante está há muitos
anos na correria do hip-hop. Hoje, Tio Fresh tem também
organizado alguns eventos, entre outras atividades.

Toni C
SP
Militante, Toni C faz parte da Nação Hip-Hop. Lançou
os livros Hip-hop a lápis e Literatura do oprimido, ambos
que organizou com vários autores.
Os manos e as minas 301

Produziu e dirigiu o documentário É tudo nosso! com três


horas de duração e com muitas pessoas do hip-hop no
Brasil e até em outros países da América do Sul.

Crônica Mendes
SP
O rapper e compositor Crônica Mendes, integrante do
grupo A Família, o primeiro grupo a lançar um videoclipe
de rap nacional com a linguagem de sinais (LIBRAS), é um
atuante assíduo do universo da música de modo geral e
também transeunte das vias da literatura marginal. Se
articula com movimentos sociais de expressão nacional
e com o movimento musical pela música livre.
WWW.CRONICAMENDES.BLOGSPOT.COM
CRONICAMENDES@AFAMILIARAP.COM.BR

Douglas
Realidade Cruel-SP
Douglas é integrante de um dos grupos gangsta mais
conhecidos do Brasil, com seguidores por todo o país,
o Realidade Cruel.

Pregador Luo
SP
Pregador Luo é integrante do Grupo Apocalipse 16,
e mantém carreira solo.
Recentemente esteve fazendo atividades na África do
Sul, durante a Copa do Mundo de 2010.
302 Hip-hop:dentro do movimento

Dudu de Morro Agudo


RJ
Dudu de Morro Agudo, vulgo DMA. Um sonhador que rea-
liza os projetos, presidente do Movimento Enraizados do
Rio de Janeiro, ganhou o Prêmio Cultura Viva, adminis-
tra junto com Luiz Carlos Dumontt o Espaço Enraizados,
lançou seu CD Rolo compressor e é o responsável pelo
conteúdo do site WWW.ENRAIZADOS.COM.BR, entre outras
atividades, como palestras por todo o país.
ENRAIZADOS@GMAIL.COM

Freitas
Radar Urbano-SP
Freitas fez parte do site Real Hip-Hop. Depois que se
tornou evangélico, deixou o Real e pouco tempo depois
passou a fazer o Radar Urbano, atualmente no ar.
Trabalha também com TV e multimídia.
WWW.RADARURBANO.COM.BR
FREITAS@GMAIL.COM

B.Dog
Rapevolusom-RJ
Do Rio de Janeiro, B.Dog é o responsável pelo site:
WWW.RAPEVOLUSOM.COM
BDOG@RAPEVOLUSOM.COM
Os manos e as minas 303

DJ Cortecertu
Central Hip-Hop – SP
Um dos responsáveis pelo site WWW.CENTRALHIPHOP.COM.BR,
que antes era o Bocada Forte. É militante do hip-hop
e repórter.
CORTECERTU@CENTRALHIPHOP.COM.BR

Juliana Penha
de SP, atuamente mora em Portugal
Por anos fez parte da equipe da revista Rap Brasil. Hoje a
jornalista Juliana Penha mora em Lisboa e colabora com
o programa de rádio Gueto em festa, que toca rap de paí-
ses que falam português.
PRETA_SP@HOTMAIL.COM

Maria Amélia
SP
Há anos na TV, hoje é uma das diretoras do programa
Manos e minas da TV Cultura.

Emicida
SP
Um dos maiores nomes do freestyle nacional.
Lançou e vendeu milhares de EPs, ao preço de dois reais,
chamou a atenção, saiu na mídia com destaque, primeira
página da Ilustrada da Folha, por exemplo, e programas
como o Altas horas, da Globo.
Hoje apresenta o quadro “A rua é nóiz” no programa
Manos e minas, da TV Cultura.
304 Hip-hop:dentro do movimento

Entre outras coisas que ele feito com muita atitude,


como o videoclipe da música “Triunfo”, disputou inclu-
sive o Prêmio da MTV.

Cabal
SP
Cabal costuma causar polêmicas, mas a verdade é
que o rapper tem lançado seus trabalhos e aberto
portas em espaços que algumas vezes o hip-hop
nacional não chega.
Apareceu pro grande público com o hit Senhorita, que
tocou nas rádios.
INFO@PROHIPHOP.COM.BR

Jéssica Balbino
MG
Jéssica Balbino é jornalista e escritora, lança seu primeiro
livro em 2010 pela Aeroplano Editora e trabalha num jor-
nal que circula em Poços de Caldas-MG, onde mora. Rea-
liza um projeto literário intitulado “Passa Livros”.
JESSICA@MANTIQUEIRA.INF.BR

Celso Athayde
Cufa-RJ
Empresário do rapper MV Bill, Celso Athayde é o princi-
pal nome da Cufa (Central Única das Favelas), que pro-
move atividades socioculturais ligadas ao hip-hop no Rio
de Janeiro e em todo o país.
WWW.CELSOATHAYDE.COM.BR
Os manos e as minas 305

DJ Dex
Arquivo Negro-PR
Dj Dex é integrante do grupo Arquivo Negro e promove even-
tos junto ao IDEHHA, que trabalha com direitos humanos.

Gaspar
Z’África Brasil-SP
Integrante do Z’África Brasil, com o grupo lançou três
álbuns. Faz um corre solo intitulado Ilícito e é um MC
próximo da cena da literatura periférica, visto em saraus
espalhados pela cidade.
RAPZAG5@YAHOO.COM.BR

GOG
DF
Com mais de vinte anos de carreira, GOG é de Brasília-DF
e é conhecido como “Poeta do Rap”. Tem vários discos
lançados e o DVD Cartão-postal bomba. Conhecido por
ser um dos MCs mais politizados do país.
HTTP://GOGRAPNACIONAL.COM.BR/

Augusto do Hip-Hop
AC
Promove eventos de hip-hop em Rio Branco, no Acre,
é também MC.
ACREHIPHOP@BOL.COM.BR
306 Hip-hop:dentro do movimento

Gil BV
PI
MC e militante do hip-hop no Piauí.

DJ Raffa
DF
Um dos maiores nomes quando o assunto é produção, tra-
balha com o grupo Atitude Feminina, de Brasília-DF, faz
palestras em todo o país, lançou o livro Trajetória de um
guerreiro, pela Aeroplano Editora, entre outras atividades.
DJRAFFASANTORO@GMAIL.COM

Ariel Feitosa
DF
Outro produtor de mão cheia do DF. É músico e militante.
ARIELPROS@GMAIL.COM

Japão
Viela 17-DF
Japão é uma lenda no hip-hop nacional, grande figura
da Ceilândia, integrante do grupo Viela 17. Faz mil e uma
atividades culturais ligadas ao hip-hop.
HTTP://JAPAOVIELA17.COM.BR/
Os manos e as minas 307

Nelson Maca
Blackitude-BA
Militante do movimento negro e do hip-hop, Nelson
Maca é integrante do Blackitude – Vozes Negras da
Bahia. Promove saraus, eventos e ainda é professor de
literatura na Universidade Católica de Salvador.
WWW.GRAMATICADAIRA.BLOGSPOT.COM
BLACKITUDE@GMAIL.COM

Léo da XIII
RJ
Tem se destacado ultimamente na produção, integrante
do Movimento Enraizados, de Nova Iguaçu-RJ, na Bai-
xada Fluminense. MC que se apresenta com o rapper
Dudu de Morro Agudo, com quem fez turnê de um mês
na França em 2009.

Mandrake
Portal Rap Nacional – SP, atualmente SC
Mandrake é MC do grupo Hórus, responsável pelo Por-
tal Rap Nacional, um dos principais veículos do hip-hop
nacional. Trabalha num jornal de circulação na cidade de
Itajaí-SC, onde mora com a família.
WWW.RAPNACIONAL.COM.BR
MANDRAKE@RAPNACIONAL.COM.BR
308 Hip-hop:dentro do movimento

Dexter
Lançou-se no hip hop quando fez parte do grupo 509-
E, que começou no Carandiru e que lançou dois álbuns.
Desde 2005 em carreira solo, lançou o premiado álbum
Exilado sim, preso não! e, mais recentemente, o ao vivo
Dexter e convidados, gravado no histórico show de abril
de 2009 na quadra da Peruche. Voltando aos palcos
depois de oito anos, 4 mil pessoas atenderam ao cha-
mado. Ainda será lançado um DVD gravado nesse dia,
que contou com diversas atrações.
Dexter está atualmente no regime semiaberto e, pró-
ximo de receber a liberdade plena, promete um novo
disco em 2011.
WWW.OITAVOANJODEXTER.BLOGSPOT.COM
assessoria de imprensa: PERIFERIASOBERANA@GMAIL.COM

DJ Dico
de SP, atuamente mora em Portugal
Produtor do álbum Exilado sim, preso não!, do Dexter,
atualmente mora em Portugal, onde faz o programa de
rádio Gueto em festa, junto ao DJ Loco.
DJDICO@IG.COM.BR

Zinho Trindade
SP
Zinho Trindade vem com o talento de família. Neto de
Solano Trindade, é MC, produtor de eventos e apresenta
o programa Hip-hop cozinha na internet.
Os manos e as minas 309

Participou de alguns filmes, entre eles Profissão MC,


e é presença frequente em diversos saraus da cidade
de São Paulo.
ZINHODATRINDADE@HOTMAIL.COM

Fex Bandollero
SP
Fex Bandollero é da posse Reviravolta Máfia, além de
ser MC do grupo Filosofia de Rua e atualmente ainda
atuar em carreira solo.
BANDOLLERO@GMAIL.COM

Grand-E
SP
Atualmente em carreira solo, Grand-E é integrante do
Alvos da Lei e da posse DRR em São Matheus, Zona
Leste de São Paulo.

Mikimba
SP
Integrante da posse DRR e do grupo De Menos Crime.

Aninha
Atitude Feminina-DF
MC do grupo Atitude Feminina, de Brasília, lançou o
disco Rosas e mais recentemente o clipe O enterro do
neguinho. Aninha publicou textos na coletânea literária
Pelas periferias do Brasil.
ANAATITUDE@HOTMAIL.COM
310 Hip-hop:dentro do movimento

Pathy de Jesus
SP
Pathy de Jesus é atriz e DJ.
Na TV trabalhou na novela Os Mutantes, da Record, e
atualmente está no SBT com a novela Uma rosa com
amor. É DJ, lançou em 2010 um CD que pode ser baixado
na internet. Se apresenta em eventos em São Paulo e
outros estados.
PATHYJESUS@HOTMAIL.COM

Re.Fem.
SP
Militante da luta pelo direito das mulheres, trabalha hoje
junto ao Movimento Enraizados do Rio de Janeiro. É MC e
diretora de cinema. Dirigiu filmes como Mães do hip-hop
e Hip-hop de saia, além de videoclipes como O enterro do
neguinho, do grupo Atitude Feminina.
JANAINASO@HOTMAIL.COM

Nina Fideles
DF, atualmente SP
A jornalista e fotógrafa Nina Fideles nasceu em Recife,
mas foi em Brasília que cresceu. Lá, conheceu a música
de Câmbio Negro e GOG, e a partir de então, de outros
tantos rappers do Brasil e do mundo. Com certeza foi o
rap que a motivou a se envolver no MST. Hoje divide o seu
tempo entre as reportagens de temas sociais e culturais
para revistas e o seu trabalho com o grupo A Família e
outras atividades que envolvem o hip-hop e o jornalismo.
NINAFIDELES@GMAIL.COM
WWW.NINAFIDELES.BLOGSPOT.COM
Os manos e as minas 311

Bonga
SP
Um dos principais nomes do grafite no país, integrante do
hip-hop, mantém atividades em Caieiras, onde mora e faz
suas artes e de onde é chamado por São Paulo e pelo Brasil.
ORIGINALBONGA@HOTMAIL.COM

Dingos
SP
Dingos é grafiteiro de mão cheia e arte-educador do pro-
jeto Eremin na cidade de Osasco-SP, onde mora.
DINGOSFC@HOTMAIL.COM

MC Marechal
RJ
MC Marechal é do Rio de Janeiro, onde se destacou
nas batalhas de freestyle. Organiza o evento Bata-
lha do Conhecimento, que rola no Rio e aconteceu em
2010 pela primeira vez em São Paulo, no Teatro Paulo
Autran do Sesc Pinheiros, com lotação máxima da casa
(mil pessoas).
Marechal prepara seu primeiro albúm e é idealizador do
Um Só Caminho.
WWW.UMSOCAMINHO.COM.BR
312 Hip-hop:dentro do movimento

Kamau
SP
Kamau é outro destaque do freestyle, desses que ven-
deram muitos discos e é idolatrado nas batalhas de
MCs. Talento raro.
PLANOAUDIO@GMAIL.COM

ParteUm
SP
Integrante do grupo Mzuri Sana, produtor e MC.
PARTEUM@MZURISANA.COM
Sobre o autor

Alessandro Buzo é paulistano, tem 38 anos, casado com


Marilda Borges e pai de Evandro Borges, de 10 anos.
Esse livro comemorativo é o sétimo da carreira. Orga-
niza a coletânea literária Pelas Periferias do Brasil,
já foram quatro volumes.
Apresenta o quadro “Buzão – Circular Periférico” no
Programa Manos e minas da TV Cultura. É proprietário
da Livraria Suburbano Convicto, no Bixiga, em SP, única
do país especializada em literatura marginal. Diretor,
junto com Toni Nogueira, do filme Profissão MC (ficção,
52 min). Ganhou duas vezes o Prêmio Hutúz (2007 e 2008)
na categoria “Ciência e Conhecimento”. Em agosto de
2010, inaugurou o Espaço Suburbano Convicto no Itaim
Paulista (Extremo Leste de SP), com biblioteca, sarau,
cinema e seis oficinas culturais.
No mesmo bairro, idealiza e realiza desde 2004 o tra-
dicional evento de hip-hop “Favela Toma Conta”, que
sempre foi gratuito em suas 22 edições já realizadas.
Apresenta ainda os eventos “Suburbano no Centro”,
“Encontro com o Autor” e “Suburbano em Debate”.
Atualiza diversos blogs e todos podem ser acessados
pelo site www.buzo.com.br. Além disso é palmeirense e
sempre será um “suburbano convicto”.
Este livro foi composto em Akkurat.
O Papel utilizado para a capa foi o Cartão Supremo 250g/m².
Para o miolo foi utilizado o Pólen Bold 90g/m².
Impresso pela Imprinta Express em dezembro de 2010.

Todos os recursos foram empenhados para identificar e


obter as autorizações dos fotógrafos e seus retratados.
Qualquer falha nessa obtenção terá ocorrido por total
desinformação ou por erro de identificação do próprio
contato. A editora está à disposição para corrigir e conceder
os créditos aos verdadeiros titulares.