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Devotos 20 anos

Devotos 20 anos
Hugo Montarroyos

Programa Petrobras Cultural

Apoio
Copyright © 2010 Hugo Montarroyos
COLEÇÃO TRAMAS URBANAS (LITERATURA DA PERIFERIA BRASIL) A ideia de falar sobre cultura da periferia quase sempre
organização esteve associada ao trabalho de avalizar, qualificar ou
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
autorizar a produção cultural dos artistas que se encon-
consultoria
ECIO SALLES tram na periferia por critérios sociais, econômicos e cul-
produção editorial turais. Faz parte dessa percepção de que a cultura da
CAMILLA SAVOIA
periferia sempre existiu, mas não tinha oportunidade de
projeto gráfico
CUBICULO ter sua voz.
ilustrações da capa e da quarta capa a partir de fotos de
MICHELE SOUZA
No entanto, nas últimas décadas, uma série de trabalhos
vem mostrar que não se trata apenas de artistas procu-
DEVOTOS 20 ANOS
rando inserção cultural, mas de fenômenos orgânicos,
produtor gráfico
SIDNEI BALBINO profundamente conectados com experiências sociais
designer assistente específicas. Não raro, boa parte dessas histórias assume
DANIEL FROTA
contornos biográficos de um sujeito ou de um grupo mobi-
revisão
BEATRIZ BRANQUINHO lizados em torno da sua periferia, suas condições socioe-
CAMILLA SAVOIA conômicas e a afirmação cultural de suas comunidades.
ELISA ROSA
revisão tipográfica Essas mesmas periferias têm gerado soluções originais,
CAMILLA SAVOIA
criativas, sustentáveis e autônomas, como são exemplos
M765d a Cooperifa, o Tecnobrega, o Viva Favela e outros tantos
Montarroyos, Hugo
Devotos, 20 anos / Hugo Montarroyos. – Rio de Janeiro: Aeroplano, 2010.
casos que estão entre os títulos da primeira fase desta
il. – (Tramas urbanas) coleção.

Apêndice Viabilizado por meio do patrocínio da Petrobras, a con-


ISBN 978-85-7820-035-0 tinuidade do projeto Tramas Urbanas trata de procu-
rar não apenas dar voz à periferia, mas investigar nes-
1. Alto José do Pinho (Recife, PE). 2. Movimento da juventude - Recife
(PE). 3. Música - Aspectos sociais - Recife (PE). 4. Rock. sas experiências novas formas de responder a questões
I. Programa Petrobras Cultural II. Título. III. Série.
culturais, sociais e políticas emergentes. Afinal, como
10-0165 CDD: 306.4842
CDU: 316.74:78.067.26 diz a curadora do projeto, “mais do que a Internet,
a periferia é a grande novidade do século XXI”.
13.01.10 14.01.10 017123

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Na virada do século XX para o XXI, a nova cultura da
periferia se impõe como um dos movimentos culturais
de ponta no país, com feição própria, uma indisfarçá-
vel dicção proativa e, claro, projeto de transformação
social. Esses são apenas alguns dos traços de inovação
nas práticas que atualmente se desdobram no pano-
rama da cultura popular brasileira, uma das vertentes
mais fortes de nossa tradição cultural.
Ainda que a produção cultural das periferias comece
hoje a ser reconhecida como uma das tendências cria-
tivas mais importantes e, mesmo, politicamente inaugu-
ral, sua história ainda está para ser contada.
É neste sentido que a coleção Tramas Urbanas tem como
seu objetivo maior dar a vez e a voz aos protagonistas
deste novo capítulo da memória cultural brasileira.
Tramas Urbanas é uma resposta editorial, política e afe-
tiva ao direito da periferia de contar sua própria história.

Heloisa Buarque de Hollanda


Agradecimentos  Alguns deles já me brindavam com sua amizade ao longo
dos anos, fato de que muito me orgulho.
Ao Paulo André Pires e ao Gutie, pela atenção e paciência.
À Ana Maria Ezcurra, pela generosidade em ceder para
consulta do autor sua excelente dissertação de mes-
trado As fugas musicais, que, assim como este livro, tem
o movimento musical do Alto José do Pinho como objeto
de estudo.
À Neide Mendonça, eterna professora e querida amiga,
pela revisão e preciosas dicas que enriqueceram muito
Era um sonho antigo do autor escrever um livro sobre este trabalho. Não tenho palavras para expressar o
o Alto José do Pinho. E tal sonho só pôde ser concreti- quanto sou grato e como foi importante sua ajuda.
zado graças ao Neilton e à Heloisa Buarque de Hollanda. À Camilla Savoia, da Aeroplano Editora, pela atenção e pa-
O primeiro, por ter me indicado à segunda. À Heloisa, por ciência. Seu trabalho foi crucial para a feitura deste livro.
ter acreditado em um autor de primeira viagem. Seu con-
selho, de “escrever curtindo, se divertindo”, foi dos mais À jornalista Juliana Moreira, que, da Suécia, me honrou
sábios: foi uma delícia escrever o livro. Muito obrigado com uma prévia leitura e valiosos conselhos, meu muito
aos dois, de coração. obrigado. Aos jornalistas Mirella Martins e Marcelo
Pereira, agradeço pela atenção e pelo interesse.
Meu agradecimento especial ao Alto José do Pinho, que
sempre me recebeu de braços abertos, desde os tempos Finalmente, à minha mãe, Selma, uma verdadeira guer-
em que subia o morro para curtir os shows de rock até reira que quase levo à loucura durante a concepção
os mais recentes, de gravador em punho, para as várias deste trabalho. Ao meu pai, Fred, também jornalista,
entrevistas que coletei para este livro. pelo apoio incondicional e experientes conselhos de
quem já passou três vezes pelas agonias e delícias de
Ao jornalista José Teles, pelo apoio e pela disponibili- publicar um livro. Ao meu irmão, João Augusto, pelo cari-
dade para compartilhar informações com o autor. nho e incentivo.
Ao Guilherme Moura, pelas imagens cedidas e apoio
incondicional nesses tantos anos de convivência no
mundo roqueiro de Pernambuco pelo site Recife Rock!
Não posso deixar de agradecer ao Adilson Ronrona, ao
Ailton Peste, ao Cannibal, ao Celo, à dona Detinha, ao
Neilton, ao Tiger e ao Zé Brown. Eles foram de uma paci-
ência infinita durante todo o processo de feitura do livro.
Sumário

Prefácio A revolta pode ser de paz 184 Cap.06 Goticar


188 Cap.07 Me ajude a ser humano
Parte I
Eu tenho a fome de viver
16 Cap.01 Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver Nasce um artista
O começo Carisma
Tem de tudo
O Alto hoje
204 Cap.08 Críticas e críticas
36 Cap.02 Do metal ao mangue
208 Cap.09 Coletânea
48 Cap.03 Viva a vida que você me deu Preconceito
O encontro
214 Cap.10 Faz parte do cotidiano
Brincando do jeito que dá
Professor Pardal 222 Cap.11 Faces na França
226 Cap.12 Quem é o pai?
76 Cap.04 O Leonardo da Vinci da guitarra 232 Cap.13 Luta pacifista
O estúdio de Lee
Parte III
88 Cap.05 Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll 238 Cap.01 A arte de Neilton
96 Cap.06 Deus, abençoe a todos Amp
Deus, abençoe meu povo
252 Cap.02 A fundação da ONG
106 Cap.07 É no banheiro... “Alto Falante – gravando o show”
Aborto masculino:
pare de jogar menino fora ou 5 x 1 270 Cap.03 Tudo que eu queria
Parte II O núcleo hoje
120 Cap.01 Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho Discografia
Espelho dos deuses Coletâneas
Demos Videoclipes
Tem afoxé, tem punk rock, Trilhas Sonoras
tem rock’n’roll, tem samba e tem pagode Livros
Anos 1980 Festivais

148 Cap.02 Não somos marginais


158 Cap.03 Quero até sua mulher 280 Anexo – Entrevista Devotos 20 Anos
164 Cap.04 Nós faremos que você nunca esqueça 310 Imagens: índice e créditos
178 Cap.05 Homens fardados, eu não sei, não 315 Sobre o autor
13

Prefácio  Esta poderia ser apenas mais uma história de superação


entre tantas vividas por muitos brasileiros nas inúmeras
favelas espalhadas pelo país afora, não fosse um pequeno
detalhe: a transformação ocorreu de dentro para fora. Não
houve quem os ajudasse no começo de tudo. Ao contrário,
até o Alto José do Pinho discriminava aqueles adolescen-
tes de calças rasgadas, cabeleiras exóticas e cabeças ras-
padas. Gente que começava a transitar em uma contracul-
tura roqueira inimaginável até então para um morro, local
A revolta pode ser de paz1 que costuma sempre ser associado com outros gêneros
A revolta pode ser de paz. A incongruência da frase cai como musicais, jamais com rock, punk, hardcore e metal. Ou seja,
uma luva para ilustrar a atitude de toda uma geração de na caminhada desses jovens havia o duplo preconceito: o
moradores do Alto José do Pinho. Jovens que, entre o final interno, vindo de seus vizinhos que não entendiam o que
da década de 1980 e início dos anos 1990 do século pas- aquela cambada de malucos queria dizer, e o externo, das
sado, sem maiores perspectivas de ascensão social e tendo pessoas dos bairros mais abastados da capital pernambu-
a criminalidade como um vizinho onipresente, resolveram cana, que ignoravam a existência do Alto José do Pinho. Ou,
trilhar o caminho mais difícil: o de canalizar toda a revolta pior, só relacionavam o local à criminalidade.
que sentiam em expressão artística. Gente que teve a cora- Se hoje a reputação do Alto José do Pinho é outra, motivo de
gem de pegar em instrumentos musicais em vez empunhar orgulho para os cidadãos recifenses, é graças a esses garo-
armas, mesmo sem ter a menor noção de como tocar, sem tos que, literalmente, aprenderam a fazer música, na marra,
dinheiro para comprar instrumentos e tampouco para pagar na vontade, com uma teimosia que beirava o quixotesco. Se
aulas de música. Cansados de atuarem como coadjuvantes atualmente o Alto José do Pinho é tema de trabalhos acadê-
na história da violência que marcava o lugar em que viviam, micos, reconhecido no país inteiro e procurado por pesqui-
utilizaram a música como fonte de escape. Em vez de segui- sadores e sociólogos até de fora do país, é porque lá atrás,
rem a triste estatística que impregnava as páginas policiais no final dos anos 1980, garotos como Cannibal, Neilton,
dos jornais locais, em que moradores do Alto José do Pinho Celo, Tiger, Zé Brown, Adilson Ronrona, Ailton Peste, Marcelo
só eram noticiados como assassinos ou vítimas de assas- Massacre e tantos outros cismaram de fazer arte. E, mais
sinato, traficantes ou usuários de drogas, esses jovens importante, meteram na cabeça, a partir de certo momento,
mudaram a realidade local. No início do processo, de forma que sua arte poderia servir para mudar a imagem que as
inconsciente; em um segundo momento, de forma comple- pessoas tinham do Alto José do Pinho. Ainda mais relevante,
tamente engajada, transformaram o cotidiano não apenas para que os moradores do Alto José do Pinho mudassem a
de sua vida, mas também de sua comunidade. concepção que tinham do bairro onde moravam. Sentimento
que foi da vergonha por morar em um local tão violento ao
1  Trecho de letra extraído da música “Canção para mudar”, do quarto álbum dos orgulho de residir em um bairro que produzisse tamanho
Devotos, Flores com espinhos para o rei, de 2006.

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número de artistas. Esta é a história de um grupo de mole-


ques que superou todas as limitações pessoais, físicas,
sociais, financeiras e psicológicas. Garotos que passaram
de malvistos por sua própria comunidade a músicos cujo
talento é reconhecido nacionalmente e até no exterior. E
que, na condição de artistas, transformaram-se em agen-
tes sociais ao fundar a ONG (Organização Não Governamen-
tal) Alto Falante. É a trajetória, também, de um garoto que
acabou se transformando em um artista plástico e designer
gráfico de renome internacional, além de guitarrista, ele-
tricista, engenheiro de som e produtor de disco. Tudo na
base do esquema punk do it yourself, sem professor, sem
qualquer pessoa que facilitasse o caminho das pedras. A
narrativa de Neilton, guitarrista da banda Devotos, é, de
certa forma, uma síntese de toda a história recente do Alto
José do Pinho.
seus
vão viver
e você vai viver

Cap.01
Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver1.

1 Trecho de letra de “C.O.S.”, faixa de Agora tá valendo (1997), primeiro disco dos Devotos do Ódio
Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 19

Mas os Devotos, que, um dia, foram do Ódio, escolheram o


Alto José do Pinho como local de gravação de seus CDs e
DVDs, em comemoração aos seus vinte anos de carreira.
O bairro, outrora conhecido e divulgado aos quatro ventos
como um dos mais perigosos e violentos da região metro-
politana do Recife, era, naquele domingo, palco de um
programa em família.
Ao saírem da casa de Cannibal para o backstage, um
longa-metragem começou a rodar nas cabeças de Can-
nibal (baixo e voz), Neilton (guitarra) e Celo (bateria).
No dia 21 de setembro de 2008, milhares de pessoas ocu- Certamente, ao começarem a brincadeira que sempre
param a rua principal do Alto José do Pinho. Um enorme levaram muito a sério, há exatas duas décadas, não
palco fora erguido no local. Jornalistas de rádio, televisão sonhavam que o roteiro incluísse um capítulo como
e publicações impressas dividiam o espaço sem escon- aquele que estavam vivenciando. Vestindo a camisa do
der um certo nervosismo e uma boa dose de emoção. Alto Falante, feita por Neilton, e um lenço azul na cabeça
Pessoas de classe média transitavam tranquilamente, para disciplinar seus dreads, Cannibal sentia novamente
misturando-se aos moradores do morro. Havia também o gostinho da primeira vez no palco. “Galera, eu nunca
gente de outros Estados, de Maceió, de João Pessoa, de estive tão nervoso em toda a minha vida. Até parece que
Natal. Entre os convidados, Lirinha, vocalista do Cordel é a primeira vez que a gente toca.”
do Fogo Encantado, e Clemente, vocalista dos Inocentes
Se alguém ousasse dizer, há alguns anos, que seria pos-
e da Plebe Rude, esperavam na casa de Cannibal, locali-
sível realizar tal evento no Alto José do Pinho, seria tido
zada a poucos metros do palco, pela hora do show.
como louco. Por essa ninguém esperava. Nem seu Biu,
A economia informal se encarregava de faturar uns troca- o guarda. Tampouco seu Antônio, o ferreiro. Talvez a
dos com a ocasião. Dois bares, várias barracas de chur- única que imaginasse algo parecido fosse dona Maria,
rasquinho, vendedores de amendoim e de pipoca transi- mãe adotiva de Cannibal. Porém, assim como o ferreiro
tavam naquele domingo, que parecia bom para o comércio e o guarda, já não estava mais viva para testemunhar o
local. O número de câmeras chegava a ser assustador. Das momento máximo da carreira da banda que o filho fun-
televisões, dos documentaristas, do público consagrado dou. Pois, entre os vivos, nem dona Detinha, responsável
definitivamente como cinegrafista amador em tempo pela desapropriação das terras do Alto José do Pinho e
integral e em era digital. E uma enorme grua à direita do pela implantação do sistema de água encanada no local,
palco registrava todos os lances, todos os olhares, todas era capaz de imaginar tamanha façanha. Que o diga
as reações de todos os presentes. A cena, por sua estru- então o próprio José do Pinho.
tura imponente de palco e quantidade de público, poderia
perfeitamente ter como cenário qualquer lugar do mundo.

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Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 21

O começo 2 Pinho teria pedido emprestada uma quantia de dinheiro


à família Vieira da Cunha para poder colocar seu bloco
na rua. O carnaval daquele ano estava garantido, mas a
dívida acabou não sendo paga, e José do Pinho, proprie-
tário de terras que fabricava violões de pinho e dono de
troça carnavalesca, foi obrigado a vender a parte que lhe
cabia no latifúndio do Alto para a família Vieira da Cunha.
Restaram-lhe o violão e a lenda.
Aos poucos, o Alto José do Pinho foi se modernizando. A
iluminação pública só chegou ao local nos anos de 1950.
Boa parte da área dos 41,5 hectares do Alto José do Até então, a população vivia na base do bom e velho can-
Pinho pertencia a duas famílias: Vieira da Cunha e Cesá- deeiro, e o rádio de pilha ligava os moradores do Alto
rio de Melo. Elas alugavam os terrenos para as pessoas José do Pinho ao mundo. Como em todos os locais, o Alto
construírem suas casas de taipa, cobertas com capim. também contava com certa divisão de classes sociais.
Aqueles que possuíam uma renda um pouco maior do
Existem duas versões sobre o senhor que dá nome ao que a dos outros se estabeleciam no centro. As ruas,
Alto. Uma diz que José do Pinho seria um velhinho que, no naquela época, eram numeradas por ordem de impor-
início do século passado, animava as festas do pequeno tância e conveniência. Assim sendo, a rua que oferecia
povoado, tocando violão embaixo de um pinheiro. A ver- melhor infraestrutura era a rua 1, depois a rua 2 e assim
são que consta no documento “História do Alto José do por diante. Os mais pobres habitavam os arredores do
Pinho contada por seus moradores”, registro de 1987 Alto, ou seja, a periferia da periferia, em regiões que,
com o relato dos habitantes mais antigos do bairro, é ainda hoje, são conhecidas por lá como Mangubas. Mas
mais saborosa. Segundo essa fonte, José do Pinho, além o principal problema que a comunidade enfrentava era a
de fabricar violões de pinho, era proprietário de algu- falta de água encanada.
mas terras no Alto. E, ao contrário das famílias Vieira da
Cunha e Cesário de Melo, que possuíam administradores A líder comunitária dona Detinha, 75 anos, chegou ao
de terras responsáveis pela cobrança dos aluguéis de Alto José do Pinho em 1972. Naquela época, luz elétrica
suas terras, o próprio José do Pinho ia cobrar o aluguel era um privilégio de poucos. Água encanada, de nin-
das suas. Boêmio, José do Pinho era presidente-fun- guém. Era preciso buscar água nos chafarizes do bairro
dador de uma troça carnavalesca chamada Inté Meio- vizinho da Bomba do Hemetério, e carregá-la em bal-
Dia. Em um ano de dificuldades financeiras, José do des na cabeça até o morro. Pelo menos, o eterno sobe
e desce na busca da água já era feito com as ruas cal-
2  As informações deste subcapítulo têm como base o documento “História çadas, benfeitoria implantada no bairro entre o fim
do Alto José do Pinho contada por seus moradores”, idealizado e realizado por dos anos 1950 e o início da década de 1960. A situação
dona Detinha no ano de 1987. Ela reuniu os moradores mais antigos do Alto José
continuou assim até 1985, quando dona Detinha criou o
do Pinho, gravou o depoimento deles e mandou transcrever o material gravado.

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22 Devotos 20 anos Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 23

conselho de moradores do Alto José do Pinho e começou


a desenvolver um trabalho comunitário no morro. Dona
Detinha era a encarregada de apresentar o Alto (e suas
carências) aos governantes locais. Em 1986, ela fez um
abaixo-assinado que pedia água para a comunidade e o
levou até a Companhia Pernambucana de Saneamento
– Compesa. A ideia de dona Detinha era construir um
poço, mas não havia lugar viável para a obra no morro.
A solução não poderia ter sido melhor: no primeiro
governo de Miguel Arraes (1987-1990), todo o Alto José
do Pinho foi cavado, e cada casa passou a ter torneira
no quintal, “luxo” impensável antes de dona Detinha
comprar a briga.
Mas a maior vitória de dona Detinha ainda estava por vir.
Ao saber que o então presidente João Figueiredo vinha
visitar o bairro de Brasília Teimosa para desapropriar
umas terras por lá, ela não se fez de rogada: escreveu
uma carta em que relatava o histórico de abusos das
famílias “proprietárias” do Alto — àquela altura, repre-
sentadas por imobiliárias —, foi até Brasília Teimosa
e conseguiu entregar a carta ao próprio presidente da
República. Oito dias depois, em um domingo, chegava
um telegrama na casa de dona Detinha. O remetente:
João Baptista Figueiredo. O assunto: pedir que dona
Detinha procure o então governador de Pernambuco,
Marco Maciel, para resolver a questão. O resumo da his-
tória: as terras do Alto José do Pinho foram desapropria-
das, e dona Detinha, junto com o conselho de moradores
do bairro, distribuiu seiscentos títulos de posse com o
povo. Além de água encanada, todos, a partir de 1985,
passaram a ter casa própria no Alto José do Pinho. Como
dona Detinha gosta de dizer, do alto da sabedoria de seus
75 anos de idade e três décadas deles dedicados ao tra-
balho comunitário, “Isso aqui (o Alto) virou uma cidade”.
24 Devotos 20 anos Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 25
26 Devotos 20 anos Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 27
Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 29

Tem de tudo

O Alto José do Pinho sempre teve tradição musical. Boa


parte dos primeiros habitantes do bairro vinha da zona
rural de Pernambuco, e trouxe com eles suas principais
tradições folclóricas: caboclinho, maracatu e afoxé.
Nos anos 1940 e 1950, ficaram conhecidos os cabocli-
nhos Tupinambás e Tabajaras, que animavam os carna-
vais do bairro. Os maracatus Estrela da Tarde e Estrela
Brilhante não ficavam atrás e, por muitos anos, foram
dois dos mais conhecidos e concorridos blocos car-
navalescos do Recife. Também é grande, ainda hoje, o
número de terreiros de umbanda.
Com população predominantemente negra, o Alto, ainda
hoje, conserva tradições de seus antepassados, tanto
na religião quanto nos folguedos. O afoxé Ylê de Egbá,
fundado em 1986, é um dos mais respeitados do Brasil, e
participou da gravação do CD e do DVD em comemoração
aos vinte anos de carreira dos Devotos. Curioso notar
como isso foi decisivo para a formação cultural dos
músicos que criariam o novo movimento musical do Alto
nos anos de 1990: é grande o número de bons bateristas
surgidos no Alto José do Pinho. Boa parte deles cresceu
ouvindo os tambores de maracatu e do afoxé, transfor-
mando a força das batidas desses ritmos em influência
para a música que viriam a fazer anos mais tarde, como
punk e hardcore.

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Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 31

O Alto hoje
carnavais do bairro. O animado Brega do Bolinho, clube
que serviu de palco para vários shows de rock das ban-
das do Alto, também fica a poucos metros da praça. Há
duas escolas públicas no bairro: a Maria Tereza, inau-
gurada em 1955, e a Santa Maria, aberta em 1968 e tam-
bém conhecida como colégio das freiras. E, por ironia
do destino, uma de suas salas de aula serviu de cenário
para a gravação do clipe da música “Os peitinhos”, da
O conselho de moradores do Alto José do Pinho calcula não exatamente religiosa banda Matalanamão.
que a população atual do bairro esteja na casa dos 20 mil
Na esquina da rua principal está a sede do Bonsucesso
habitantes. O Alto é dividido em 72 ruas, levando-se em
Futebol Clube, time de futebol desativado, fundado em
conta escadarias, becos e vielas. O centro conta com uma
1 de abril de 1949, e que chegou a disputar a terceira
pequena praça, onde se destaca uma imagem de Cristo
divisão do campeonato pernambucano. O clube, que
crucificado, feita de cerâmica branca. Nesta praça,
hoje abriga as oficinas de break de Zé Brown, do Faces
funciona o terminal de ônibus que atende à população,
do Subúrbio, e reuniões do grupo de terceira idade do
ligando o bairro ao centro do Recife. Ela abriga, ainda,
bairro, foi palco do primeiro evento roqueiro organizado
um posto policial e uma lanchonete, e está cercada de
pelas bandas do Alto, o Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll.
pequenos bares por todos os lados. É comum, mesmo nos
Eclética por necessidade e por obrigação, a casa tam-
dias de semana, ver gente sentada nos bancos jogando
bém abriga bailes funk, shows de brega e as oficinas
dominó e conversa fora.
periódicas da ONG Alto Falante. O clube serviu, também,
Em frente à praça, fica o mercado municipal. Nos fun- como local de várias reuniões organizadas por dona
dos dele, está o minúsculo estúdio da rádio comunitária Detinha, e todos os prefeitos do Recife e governadores
Alto Falante, inaugurada em 2002 pela ONG de mesmo de Pernambuco que passaram pelo poder desde 1979
nome, formada pelos músicos das bandas do Alto José se reuniam com a líder comunitária no Bonsucesso para
do Pinho. Ela é veiculada a partir de caixas de som colo- discutir os problemas do bairro.
cadas nos postes do bairro. A programação vai das oito
O convívio religioso é democrático. Existem, pelo
da manhã às sete da noite, com intervalo de meio-dia às
menos, quatro templos evangélicos e duas igrejas
duas da tarde. A rádio leva ao ar prestação de serviços,
católicas em funcionamento hoje. Fora os terreiros de
programação musical variada, do samba de Cartola ao
xangô e umbanda localizados na Manguba, a periferia
punk do Sex Pistols e até um programa dedicado à lite-
do Alto, “cidade” que dona Detinha ajudou a construir.
ratura, produzido por estudantes de jornalismo da Uni-
versidade Católica de Pernambuco. Do lado do mercado
público, funciona uma banca de jogo do bicho, bem em
frente ao posto policial! Logo atrás da banca de jogo do
bicho, fica a sede do boneco Zé do Pinho, que desfila nos

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32 Devotos 20 anos Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 33
34 Devotos 20 anos Seus sonhos vão viver. E você vai viver pra ver 35
Cap.02
Do metal ao mangue

02
metal ao mangue
Do metal ao mangue 39

mercado consumidor, e foram surgindo fanzines, como


o Recifezes, lojas especializadas de discos, como a Vinil,
Discossauros e Blackout, estúdios de tatuagens e, mais
importante, os shows do gênero finalmente começa-
ram a ser produzidos na capital pernambucana. Mas
o primordial mesmo foi o seguinte: os frequentadores
do Beco da Fome passaram a formar bandas. Nascia
assim o Arame Farpado, a bateria trazia Éder, o Rocha,
futuro percussionista do Mestre Ambrósio, e a guitarra
era tocada por Oni, que, depois, tocaria na banda de rap
Faces do Subúrbio, do Alto José do Pinho. Outros gru-
O Recife era uma cidade cruel com os jovens que gosta-
pos, como Cruor, Euthanasia, Câmbio Negro HC, Decom-
vam de rock no final dos 1980. Minoria absoluta na terra
posed God e Herdeiros de Lúcifer, seriam formados na
do frevo e do maracatu, restava a esses jovens confor-
mesma época.
marem-se com o confinamento dos guetos, a depen-
dência do que se tocava no rádio na época, os escas- Essas bandas passaram a fazer shows na periferia do
sos shows do gênero realizados no Recife e a troca de Recife. A maioria deles era realizada nos Centros Sociais
informações com os amigos que moravam no sudeste do Urbanos, espalhados pelos subúrbios da capital per-
país. Vivendo ainda sob o impacto da invasão metaleira, nambucana. Boa parte terminava em briga, e confli-
que teve na primeira edição do Rock in Rio seu ápice, tos entre polícia e público eram uma “atração” à parte.
surgiu, no centro do Recife, mais precisamente no Beco Outro palco importante para esses eventos era o Clube
da Fome — conglomerado de bares e lanchonetes que dos Rodoviários, no bairro da Imbiribeira. Era comum
não prezavam muito pela higiene — uma contracultura uma tribo de skinheads, surgida sabe-se lá de onde,
formada por verdadeiras hordas de jovens vestidos de terminar a festa na base da porrada. Entre os especta-
preto, a maioria de fãs de thrash metal e de punk rock. dores desses shows, estavam três figuras que seriam
Essa garotada, que cultivava enormes cabeleiras e fundamentais para a consolidação da nova cena musi-
andava de coturno, reunia-se no centro da cidade para cal recifense, e, posteriormente, do Alto José do Pinho:
tomar cerveja e trocar ideias. Carentes de shows dos o jornalista José Teles, que, a partir de 1986, começou a
estilos que tanto apreciavam, contentavam-se com as escrever sobre todo esse pessoal no caderno de cultura
poucas vezes em que os Titãs, ainda em fase pesada, do Jornal do Commercio, Cannibal e Paulo André Pires,
davam as caras no Recife. Até mesmo em shows do futuro produtor do Abril Pro Rock.
Legião Urbana, de sonoridade mais suave e tendo a poe-
Paulo André acabava de voltar de uma temporada nos
sia de Renato Russo como base de todo seu trabalho,
Estados Unidos. Fã de metal, abriu uma loja de discos no
era possível detectar a presença desses roqueiros mais
bairro das Graças, a Rock Xpress1. Um dos balconistas
radicais. O tempo mostrou que ali se formava um belo
1  Essas informações foram registradas primeiramente no livro Do frevo ao
manguebeat, do jornalista José Teles (Editora 34, 2000).

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40 Devotos 20 anos Do metal ao mangue 41

era Cristiano, guitarrista da Paulo Francis Vai pro Céu, para assistir ao show. A banda havia tocado em Salvador
uma das 12 atrações pernambucanas que tocaram na e ficou por lá mesmo. A solução encontrada pela produ-
primeira edição do Abril Pro Rock, em 1993. Paulo André ção do show foi a seguinte: devolver o ingresso inteiro,
começou a investir na carreira de produtor. Produziu, em ou metade do valor para quem quisesse entrar e assistir
1992, nos Aflitos, o show da cultuada banda de thrash aos shows das bandas locais que abririam para o Sepul-
metal alemã Kreator, e uma apresentação da também tura. Optei por entrar e, depois de quase levar duas gar-
alemã Morbid Angel, no Sport Club do Recife. Os espa- rafadas de metaleiros enfurecidos com o show cance-
ços para as bandas locais começaram a ser ampliados. lado, rumei, triste, de volta para casa. Fato curioso é que
O Sepultura, orgulho nacional e, na época, um dos maio- os Devotos do Ódio haviam sido convidados para fazer
res nomes do metal no mundo, teve show agendado no um dos shows de abertura, mas foram dispensados sem
Recife, no Sport Club Recife, pouco depois de a banda nenhuma justificativa.
ter se apresentado na segunda edição do Rock in Rio, no
Não era fácil gostar de rock no Recife.
Maracanã. E com o disco Arise recém-lançado em todo
o mundo. Esse episódio merece um registro especial do Alheio a toda essa movimentação da cena pesada per-
autor: comprei meu ingresso, feliz da vida, com um dia nambucana, o jovem Francisco de Assis França frequen-
de antecedência. No dia do show, passei a tarde ouvindo tava bailes black para ouvir James Brown, ao mesmo
os discos do Sepultura com amigos meus em Olinda. tempo em que se apaixonava pelas batidas do maracatu.
Com duas horas de antecedência, pegamos dois ônibus Outro jovem, Fred Montenegro, legítimo punk da perife-
que nos levariam até o local do show. Eu não acreditava ria, começava a expandir seus horizontes musicais des-
no que estava vivenciando. O Recife, finalmente, entrara cobrindo a obra de Jorge Ben entre um disco e outro do
para o primeiro mundo no roteiro dos grandes shows The Clash. Enquanto seu Mundo Livre S/A existia desde
internacionais. Os shows do Sepultura lotavam em 1984, a Nação Zumbi de Francisco de Assis França, aos
todos os lugares. A banda dos irmãos Cavalera estava poucos, ia sendo moldada. De Olinda, surgia o Eddie,
em plena fase de ascensão, e o Recife era uma das pou- grupo comandado por Fabio Trummer. Alguns dos anti-
cas cidades brasileiras a ter o gostinho e o privilégio de gos metaleiros começaram a se interessar por cultura
conferir isso ao vivo. Descemos do ônibus. As hordas de popular e folclore local e criaram, em 1994, o Mestre
cabeludos e de skatistas já estavam por lá. Assim como Ambrósio. Percebendo toda essa movimentação, Paulo
os evangélicos, a pregarem e proclamarem que aquilo André criou, em 1993, o Abril Pro Rock, evento que, em
tudo era coisa do demônio. Quando comecei a subir a sua primeira edição, contava com 12 atrações. Todas de
rampa que dava acesso ao local do show, um grupo de Recife. E todas absolutamente desconhecidas do grande
cabeludos veio em minha direção e disse: “Nem suba. público. Apesar disso, cerca de mil pessoas comparece-
Não vai ter show!” Retruquei, atônito: “Como é que é? ram ao evento. Os Devotos do Ódio não foram chamados
Vim de Olinda, peguei dois ônibus para chegar até aqui e para tocar nessa primeira edição do Abril pro Rock, por-
não vai ter show?” E um dos cabeludos me disse que eu que a produção do festival considerava o som da banda
ainda era sortudo, pois o grupo dele tinha vindo de Natal muito pesado para o perfil do público esperado.
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Enfim, do casamento entre Lamento Negro, Loustal e palco como fora dele, adotavam um visual bem camelô:
Nação Zumbi, nascia Chico Science & Nação Zumbi. Em chapéu de palha, óculos escuros, camisas floridas, cal-
uma das primeiras aparições em rede nacional na TV, a ças largas. Desenvolveram um vocabulário peculiar cheio
banda foi tema de matéria no programa Vídeo Show, da de novas gírias. “Sair com minha turma”, a partir daquele
Rede Globo, que mostrou imagens do grupo em estúdio, momento, na boca dos mangueboys e manguegirls,
gravando sob a tutela de Liminha, que já havia traba- ganhava nova nomenclatura: “sair com minha corda”, em
lhado, nos anos 1980, com os Titãs e o Ultraje a Rigor. referência aos caranguejos que eram vendidos em cor-
Empolgado com uma matéria que tinha feito para a das, cada uma contendo dez unidades deles. Ao perce-
retransmissora do SBT no Recife sobre mangue, o jor- ber a intenção estética e literária de Chico Science, o
nalista Fred Montenegro redigiu um release sobre o jornalista José Teles, do Jornal do Commercio, apresen-
movimento que batizariam de manguebit. O release, tou a Chico a obra do escritor Josué de Castro. Era só o
intitulado Caranguejos com cérebro, foi confundido com que faltava para o ícone do mangue, a partir dali, cons-
manifesto2 pela imprensa nacional. Daí em diante, nin- truir um novo repertório linguístico, tendo como base os
guém mais conseguiu controlar o alcance da parabólica livros do escritor de A geografia da fome.
fincada na lama.
A sonoridade de Chico Science & Nação zumbi “brincava”
Em 1994, Chico Science & Nação Zumbi lançavam, pela de transformar o regional em universal, de criar o diálogo
Sony Music, o álbum Da lama ao caos. No mesmo ano, entre elementos à primeira vista tão díspares como tam-
o Mundo Livre S/A, liderado pelo jornalista Fred Zero bores de maracatu, guitarras pesadas e vocais falados
Quatro, testemunhava o nascimento de seu primeiro na mesma linha do rap e do hip-hop. O Mundo Livre S/A
disco, Samba Esquema Noise, bancado pelo selo Ban- não era menos ousado: misturava cavaquinho com gui-
guela (criado pelos Titãs), uma perna da gravadora War- tarra distorcida, dando camadas de peso ao samba e o
ner. Estavam fincadas, a partir de então, as duas pedras balanço da música brasileira ao punk. À época, a jorna-
fundamentais do movimento Mangue, batizados por lista Bia Abramo escrevia sobre o grupo de Zero Quatro:
seus criadores como Manguebit, e erroneamente nome- Essa geração (a dos anos 90) já produziu pelo menos um
ado pela imprensa nacional de Manguebeat. Recife pas- grande disco. Samba Esquema Noise é candidato certo a
sou a ser a bola da vez. Jornais como a Folha de S.Paulo melhor disco de música brasileira do ano. Em relação ao
diziam que a capital pernambucana era a Seattle bra- Mundo Livre S/A, é injusto falar de mistura ou de qualquer
sileira, em alusão ao movimento grunge que gerou, por coisa do gênero para explicar o tipo de música que eles
aqueles lados, nomes como Nirvana, Mudhoney, Pearl fazem. Não se trata de uma mera justaposição de samba e
Jam, Alice in Chains e tantos outros. Um séquito de fãs, de guitarras, de rock e de influências regionais3.
denominados mangueboys e manguegirls pelo próprio
Chico Science, passaram a frequentar os shows dos gru-
pos locais e a se vestir como seus ídolos, que, tanto no

2  Como relata o jornalista José Teles no livro Do frevo ao manguebeat.


3  “Geração 90 já tem seu grande disco”, de Bia Abramo; Folha de S.Paulo,
25/10/1994.
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E Abramo concluía, logo a seguir: “É samba, sim, mas Alceu Valença, Zé Ramalho e Lula Côrtes nos anos 1970.
feito com uma atitude roqueira. E rock também, mas Ou seja, o movimento mangue acabou despertando a
feito a partir da ‘Cidade Estuário’.”4 curiosidade da mídia nacional em conhecer todo e qual-
quer som novo que viesse do Recife. As bandas se multi-
Chico também era bastante festejado pela imprensa
plicavam, a cena começava a se profissionalizar, grupos
paulista, que, literalmente, carregou o movimento man-
assinavam com grandes gravadoras. O Recife era o cen-
gue no colo e o elegeu como a cena musical brasileira
tro das atenções, tema de matérias sem fim dos cader-
mais importante a surgir na década de 1990:
nos culturais de jornais de todo o país. Grupos surgiam
Mais do que letras – algumas muito diretas e cruas, outras, aos montes: do rock escrachado de Paulo Francis Vai pro
como as de Chico, por exemplo, mais elaboradas –, o que Céu ao funk rock do Dona Margarida Pereira e Os Fula-
chama atenção nessa nova safra é o desenho de uma
nos. Do metal dos Conservados em Formol ao regiona-
iluminada globalização rítmica e sonora, unindo orgânica e
lismo rabequeiro do Mestre Ambrósio. Do coco eletri-
antropofagicamente forró e rock, maracatu e rap, xaxado e
toast, embolada e funk5.
ficado do Cascabulho ao rock de pegada anos 1970 do
Querosene Jacaré. E, no meio desses grupos todos, dois
Um ano antes do lançamento dos discos de estreia de se destacavam por um peculiar fator geográfico, além do
Chico Science & Nação Zumbi, era realizada, no Circo som que faziam: os Devotos do Ódio, com o seu punk rock
Maluco Beleza6, a primeira edição do festival Abril Pro hardcore, e o Faces do Subúrbio, com seu rap embolada.
Rock. Em seu primeiro ano de vida, o evento apostou Ambos saídos de um morro chamado Alto José do Pinho,
em uma programação só com bandas recifenses. Come- local cuja história roqueira já vinha sendo escrita desde
çava a surgir, naquele momento, um real interesse pela 1985, mas que acabou ganhando visibilidade somente
formação de um mercado consumidor de música jovem a partir do estouro do mangue, no início dos anos 1990.
pernambucana. E, acima de tudo, uma rica vitrine que Porém, seja estética ou temporalmente, o Alto José do
atraía as atenções e curiosidades da mídia especiali- Pinho sempre abrigou um cenário à parte de tudo o que
zada de todo o país. Além de Chico Science e do Mundo foi descoberto a partir — e por causa — do manguebit.
Livre, outros nomes começaram a despontar nacional-
mente: de Olinda, o grupo Eddie. De Boa Viagem, bairro Chico Science acabou perdendo a vida em fevereiro de
de classe média alta do Recife, surgiam Jorge Cabeleira 1997, vítima de um acidente automobilístico. Um ano
e O Dia em Que Seremos Todos Inúteis. As diferenças antes, porém, deixava seu testamento artístico: Afroci-
entre as sonoridades individuais das bandas deixavam berdelia, disco que, ainda hoje, figura em várias listas dos
todo mundo intrigado. Eddie fazia um rock mais cru, mais importantes da história da música brasileira. A vida
enquanto Jorge Cabeleira trilhava um caminho psicodé- de Chico era abreviada justamente no momento em que o
lico ao injetar experimentalismos à fórmula criada por Alto José do Pinho vivia seu apogeu.

4  Idem.
5  “O país dos oráculos musicais”, de Marcos Augusto Gonçalves; Folha de
S.Paulo, 17/12/1995.
6  Principal casa de shows do Recife na década de 1990.
Cap.03
Viva a vida que você me deu
Viva a vida que você me deu 51

próximo com amiguinhos que já desenhavam sua história


no crime, divertia-se soltando pipa, jogando pião e, prin-
cipalmente, bola. No colégio, Marconi ganhou o apelido
que o definiria como artista. Negro, desde moleque ele
gostava de enrolar o cabelo, e não demorou para que os
amiguinhos do colégio passassem a chamá-lo de Cani-
bal. Curiosamente, o apelido não pegou naquela época.
Marconi tinha consciência de que boa parte de seus
Marconi de Souza Santos nasceu em Vitória de Santo amigos de pelada roubava. Porém, criança, não tinha a
Antão, interior de Pernambuco, no dia 2 de novembro de menor noção do perigo que corria ao brincar com eles.
1970. Filho de um funcionário de uma fábrica de açúcar Todo mundo no bairro se conhecia, e todos sabiam ali
que não tinha condições de criar o menino, Marconi foi quem fazia parte ou não do mundo do crime. A famí-
deixado, aos 4 meses de idade, na casa de uma lava- lia de dona Maria morria de medo de que alguma coisa
deira no Alto José do Pinho, dona Maria. A família de pudesse acontecer com Marconi. Contudo, fora o fato
dona Maria vivia em pequenos quartinhos na rua 10. O de detestar estudar e de todo dia cabular aula, o garoto
marido dela morrera de cirrose. Ela tinha dois filhos, Lin- parecia já ter nascido com o caráter moldado. Tanto que
dalva e Nelson. Foram eles e dona Maria que garantiram era incapaz de mentir para Lindalva ao ser perguntado se
a sobrevivência do garoto Marconi, que, até hoje, não faz havia ido à aula. Preferia a surra à mentira. Marconi era
a menor ideia do paradeiro de sua mãe biológica. tão bem tratado pela família que o adotou que a forma
que encontrou de recompensar tamanho amor e zelo
A infância de Marconi foi difícil, embora não deixassem
foi jamais decepcioná-los. Marconi sentia que era tão
faltar nada em casa para o menino. Tampouco havia
querido, ou até mais, que a filha de Nelson, Luciana, que
espaço para qualquer tipo de regalia. Nunca teve os
foi criada como irmã dele, mas que, na verdade, era sua
brinquedos que qualquer criança deseja. Em compen-
sobrinha de criação. Tamanhos zelo e amor pelo garoto
sação, descobriu, na rua, sua brincadeira preferida: as
deram resultado: a última coisa que o menino Marconi
partidas de futebol. Estava sempre jogando com os ami-
desejava na vida era causar algum mal à família. Assim
gos. Rebelde, detestava estudar. Todo dia, Lindalva per-
sendo, continuou jogando bola com seus amiguinhos
guntava se o garoto havia ido ao colégio e, em uma sin-
nas ruas do Alto José do Pinho, mas jamais se envol-
ceridade assustadora que o acompanharia pelo resto da
veu nas mesmas atividades que eles. Conseguiu, assim,
vida, respondia que não. Sendo assim, Marconi apanhava
desde muito novo, driblar a criminalidade. Alguns des-
diariamente. A família se preocupava muito com a edu-
ses coleguinhas de pelada já estavam envolvidos com o
cação dele, pois sabia que o menino convivia com todo
tráfico de drogas. Vários morreram ainda adolescentes.
tipo de gente. O garoto, alheio ao perigo e ao contato tão
Uns passaram do tráfico para os assaltos. Outros, como

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Marconi, conseguiam trilhar um caminho diferente, ter- boa reputação pelo Alto José do Pinho. A comunidade
minavam os estudos, e até viravam professores. achava que aqueles garotos não passavam de um bando
de vagabundos, maconheiros sem a menor perspectiva
O grande problema para a família de Marconi veio com a
de futuro. O pior é que o preconceito não era apenas dos
chegada da adolescência. Absolutamente revoltado
moradores do Alto.
com a realidade que o cercava, com a falta de pers-
pectiva e de horizontes para a esmagadora maioria dos Cannibal começou a frequentar os shows punks que
moradores do Alto José do Pinho, pelo preconceito que aconteciam no subúrbio do Recife. Um episódio reflete
sentia na pele por ser negro e da periferia, por sempre bem a perseguição que sofria. Voltando de um show punk
ser abordado pela polícia, que não raro o confundia com no suburbano bairro de Prazeres com Neilton, Cannibal
bandido, restou ao adolescente Marconi, aos 15 anos de desceu de um ônibus na cidade para esperar o bacurau1,
idade, tornar-se punk. Raspou a cabeça. Começou a usar ônibus que costuma sair de hora em hora a partir das
camisetas e calças rasgadas. As camisas traziam a ban- duas da manhã no centro da cidade. No ponto de ônibus,
deira do Brasil de ponta cabeça e os dizeres “desordem notaram que uma viatura da polícia passava devagar por
e regresso”. Correntes e cadeados ornavam seu pes- eles. Não deram muita importância para o fato. Três dias
coço. Em suma, Marconi não era bandido, mas se tornou depois, Cannibal foi abordado pela tia:
vítima constante de perseguição policial. — Marconi, você sabia que ia ser preso no sábado de
Nessa época, metade dos anos 1980, com o país ainda madrugada?
na ressaca dos tempos ditatoriais, Marconi se iniciou — Como é que é?
— Você não estava com Neilton na avenida Guararapes
no movimento punk do Recife. Tornou-se engajado. Em
esperando um ônibus no sábado de madrugada?
tempos de resquícios do regime militar, era comum
— Estava.
que a polícia e seus informantes conhecessem todos — Pois teve um tiroteio lá pouco antes de vocês chegarem.
os elementos considerados subversivos pelo governo. Não conseguiram prender ninguém. Só não levaram vocês
Os punks, que costumavam se reunir numa praça em dois presos, porque Reginaldo estava na viatura.
frente à estação central do metrô, evitavam chamar uns
Reginaldo era policial e morador do Alto José do Pinho.
aos outros pelo nome. Sabiam que não eram bem vistos
Quando um de seus colegas policiais sugeriu que prendes-
pela polícia. Marconi, então, resgatou seu apelido de
sem os dois para não saírem de mãos vazias, Reginaldo
infância, e passou a ser conhecido no movimento pela
disse que conhecia os dois do Alto José do Pinho, e que
alcunha de Canibal. Mais tarde, acrescentaria mais um
eles não eram bandidos. Por essas e outras, era preciso
“n” ao nome artístico.
ter muito cuidado naquele tempo. Cannibal era o que o
Cannibal logo descobriu que não era o único no bairro cantor paulista Itamar Assumpção genialmente designou
a curtir punk. Marcelo Massacre, jovem músico que de “isca de polícia”: preto e pobre. E, para piorar, punk.
futuramente seria baixista do Terceiro Mundo e, pos- Era o alvo perfeito para preconceitos e generalizações.
teriormente, do Faces do Subúrbio, começou a andar
com Cannibal e a turma dele. Esses jovens não tinham
1  Um tipo de coruja.
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Para complicar ainda mais as coisas, no próprio movi- não perdia um ensaio das bandas SS-20, Moral Violenta
mento punk existia gente que só estava naquela por pura e Câmbio Negro HC, ficando amigo dos seus integrantes.
arruaça mesmo, pelo prazer de brigar. Isso acabava estig- O problema é que faltava identificação. Cannibal gostava
matizando os mais politizados, como Carlinhos, editor de se reunir com a galera para escutar os “Iron Maidens”
do fanzine Recifezes, e o próprio Cannibal. Curioso é que, da vida, mas não cogitava montar uma banda no mesmo
nessa época, Cannibal sequer pensava em montar uma estilo. Nessa época, passou a trabalhar como ajudante
banda. Sentia-se satisfeito em assistir aos shows e par- de pedreiro no Alto José do Pinho para ajudar em casa.
ticipar das reuniões. No Alto José do Pinho, os roqueiros Depois, passou a trabalhar em um lava-jato. Nos interva-
passaram a descobrir que não estavam fechados em si los, jogava bola no time juvenil do Santa Cruz, mas nunca
mesmos. Ao contrário, cada um deles passou a perceber se imaginou como jogador profissional. Até que começou
que não era o único exótico do bairro a gostar de ouvir a desenvolver o gosto pela leitura. O menino que detes-
rock e tomar vinho. Aliás, já havia bandas de rock no Alto tava estudar, que apanhava todo dia porque não ia para
José do Pinho desde 1984. A Egoesmo foi uma das que a escola, sem perceber e aos poucos, estava lendo todo
surgiram nessa época, fazendo covers de sucessos de e qualquer fanzine que lhe caísse nas mãos. Assim como
MPB e do rock nacional da época. Essa banda contava, as revistas de música. Em uma delas, na Bizz, leu uma
em sua formação, com Celo (bateria), Lee (guitarra), matéria sobre um grupo punk de São Paulo chamado Ino-
Wally (baixo) e André (vocal), e foi responsável pela cria- centes, liderado por um negro e que falava da realidade
ção de quase todos os grupos do Alto José do Pinho. do cotidiano da periferia da capital paulista. Ficou tão
impressionado com o que leu que decidiu procurar o disco
A casa de Wally servia como ponto de encontro de todos
Pânico em SP em um sebo no centro do Recife. Achou,
os roqueiros do bairro. Wally tinha um primo que morava
ouviu e a identificação foi imediata. Tudo o que Clemente,
em São Paulo, e ele costumava voltar da capital paulista
vocalista do Inocentes, cantava em suas letras condizia
com a mala lotada de vinis. Em tempos pré-internet, foi
exatamente com a realidade enfrentada por Cannibal
assim que toda a turma passou a conhecer Iron Maiden,
no Alto José do Pinho. Ali, naquele instante, Marconi de
Ratos de Porão, Van Halen e, de forma mais surpreen-
Souza Santos, para desespero da família, encontrou sua
dente, The Cure e The Smiths. Passavam tardes inteiras
vocação: montar uma banda punk e viver dela.
escutando esses vinis na casa de Wally. E aquilo tinha
um efeito avassalador sobre a turma. Todos queriam, ao
ouvir aquela música tão diferente de tudo que escuta-
vam até então, montar uma banda. Menos Marconi.
Cannibal se contentava com o lado político da coisa toda.
Por exemplo, com os Encontros Antinucleares no cen-
tro da cidade, que aconteciam, anualmente, no dia 6 de
agosto, dia do lançamento das bombas sobre Hiroshima e
Nagasaki pelos norte-americanos. Além de ir aos shows,
Viva a vida que você me deu 59

O encontro
Um belo dia, quando tinha 12 anos de idade, Celo foi a uma
festa com uns amigos no bairro vizinho da Mangabeira.
Nela, havia uma grande banda de baile que animava os
convidados. Celo ficou a noite inteira com os olhos gru-
dados na bateria, e ali, naquele momento, descobriu o
que queria fazer da vida. Passou, a partir de então, a jun-
tar os móveis da sala e batucá-los o dia inteiro, acompa-
nhando as músicas que tocavam no rádio. Percebendo o
Marcelo Coleta Junior nasceu no Recife no dia 27 de maio fascínio do menino por bateria, seu primo, Lee, tratou de
de 1970. Filho de um sargento da polícia militar e de uma improvisar uma. Arrumou várias latas de doce, tirou as
professora primária, Celo, como viria a ser mais tarde tampas, envolveu as aberturas com plástico e colou com
chamado pelos amigos, teve uma infância pobre no Alto borracha. Chamou Celo até sua casa para mostrar a novi-
José do Pinho, mas extremamente divertida. Apesar de dade. Apesar de improvisada, a bateria possuía um som
um pouco tímido e muito quieto, o garoto não deixava de interessante, e foi com ela que Celo tocou com sua pri-
brincar de pião, empinar pipa, correr pelas escadarias meira banda, a Egoesmo, que contava com o próprio Lee
do Alto e, naturalmente, jogar futebol. E a música, desde em sua formação, e com Wally, o amigo dos vinis. A banda
cedo, esteve presente em sua vida. fazia covers de sucessos da época, e se apresentava em
Seu pai possuía um grande rádio, daqueles antigos, aniversários de amigos e até em festivais estudantis. Ao
que vinham dentro de um móvel. O aparelho ficava o dia mesmo tempo, Celo ia ampliando seus horizontes musi-
inteiro ligado, e o menino ia absorvendo tudo que era cais nas sessões de audição na casa do amigo Wally. Pas-
tocado nele, de Luiz Gonzaga a Djavan. A mãe cantava sou a se interessar por Joy Division e, em especial, pelas
no coral da igreja. De tanto ouvir, quis aprender a tocar. batidas de Budgie, na época baterista do Siouxsie and
Tentou o violão, para poder reproduzir as músicas que The Banshees. Descobriu que queria tocar como ele. E
escutava no rádio. Mas seu casamento com a bateria já começou a sentir necessidade de estudar música. Para
estava traçado. Até ali, o conhecimento musical dele se isso, lançou mão de um expediente para lá de sofisticado.
limitava ao que tocava na rádio, já que não tinha acesso O pai era fã de Luiz Gonzaga. Sabendo disso, Celo disse a
a vinil, um luxo para o padrão de vida da família. Em seu velho que gostaria de aprender a tocar acordeom no
suma, Celo ouvia muita MPB e pop rock dos anos 1980, Conservatório Pernambucano de Música. Motivo: poder
carros-chefe das AMs e FMs na época. tocar para o pai as músicas de Luiz Gonzaga de que ele
tanto gostava. Empolgado, o velho mandou o filho pesqui-
Aluno um tanto disperso, a mãe, professora, encontrou a sar preço para fazer o curso. O filho obedeceu, mas, na
solução para o então relapso menino Celo: alfabetizou-o verdade, matriculou-se para as aulas de bateria. A farsa
em casa. A experiência foi crucial para o garoto, que cedo durou uns dois meses. A mãe de Celo não apenas aco-
percebeu que poderia, com persistência e dedicação, bertava, como ainda comprava algumas baquetas de
aprender qualquer coisa em casa. Mesmo que a matéria presente para o filho. O real interesse de Celo era sentar
fosse música.

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em uma bateria de verdade, e ele achou que o Conserva- Porém, aos poucos, foi aprendendo a extrair o essen-
tório fosse o caminho mais curto para realizar seu obje- cial daquilo. E, somado ao rádio do pai e aos vinis de
tivo. Estava enganado. Passou a estudar muita teoria Wally, Celo, agora, contava com o reforço dos bateristas
e pouca prática. Nas audições na casa do amigo Wally, de jazz. Nada mau para alguém oriundo do Alto José do
começou a filtrar só sons de bateria, fossem dos Ratos Pinho.
de Porão ou do The Cure. Tentava imaginar como exe-
As trupes de preto aumentavam no Alto José do Pinho. Às
cutaria aquilo tudo na prática. Como todo bom músico,
turmas de Wally e Celo somavam-se as de Peste e Mar-
não pensava em segmentação. Queria ouvir de tudo —
celo Massacre, do Terceiro Mundo, e a de Gilson Gerrard,
ainda que esse tudo fosse limitado pelas programações
do A Ostenta, banda de Beberibe2 que foi adotada pelos
das rádios, e um pouco expandido nas tardes na casa
grupos do morro. E toda essa turma se reunia na praça
de Wally — e extrair o que lhe parecesse mais interes-
para beber vinho e tocar violão, sempre estigmatizados
sante. Celo começava a sentir também que a bateria
como a turma de vagabundos pelos moradores do bairro.
feita por seu primo já não era suficiente. No conserva-
tório, passou mais de um ano estudando apenas teoria. Em uma das sessões de audição de vinil na casa de
Só depois veio alguma prática, e, ainda assim, interca- Wally, Celo foi apresentado a Cannibal, que o convidou
lada com mais teoria. Aos poucos, Celo ia se cansando para ser baterista da banda que ele estava montando.
daquilo tudo. No mesmo período, seu primo Lee montou Celo achou Cannibal, com suas calças rasgadas, cami-
um pequeno estúdio em sua casa, onde as primeiras sas de protesto, correntes e careca reluzente a própria
bandas do Alto começaram a ensaiar: Egoesmo, Flores visão do inferno. Mas como Marconi o convidou com jeito
Negras, Nanica Papaya, O Lírio, Realidade Encoberta. e disse que sabia que a praia de Celo era mais pop, ele
Fora a Realidade Encoberta, que não era do bairro, todas resolveu encarar só para ver no que dava.
contavam com Celo na bateria. Quando não era ele que
assumia as baquetas, Peste, o outro baterista da trupe
de preto, encarregava-se de comandar a bateria nos
momentos em que Celo não estava presente. E os dias
de Celo se dividiam entre a casa de Wally, o estúdio de
Lee e o Conservatório. Neste último, recebeu o conselho
definitivo. Seu professor, Gilberto, perguntou que estilo
o garoto gostaria de seguir. Ao saber que a resposta era
rock, perguntou a Celo se o pai dele conhecia jazz. “Pro-
fessor, meu pai é militar e gosta de Luiz Gonzaga. Nem
eu nem ele sabemos o que é isso.” O mestre, então, pas-
sou a seguinte lição: ir aos sebos, comprar discos de jazz
e ficar em casa ouvindo as batidas e aprendendo com
elas. O impacto inicial foi grande. Celo achava-se inca-
paz de reproduzir a sonoridade daqueles bateristas. 2  Bairro da região metropolitana de Recife.
Viva a vida que você me deu 65

Brincando
que o público era devoto de todo aquele ódio amplificado
pela mídia. Poucos entenderam a sutileza (ou falta dela) na
escolha do nome da banda, e durante anos os Devotos do

do jeito que dá Ódio foram acusados de fazer apologia à violência.


Quando a banda foi formada, ninguém sabia tocar direito.
O mais experiente era Celo, por conta das várias horas no
estúdio de Lee e do pouco tempo de prática no Conserva-
Ainda sob o impacto da descoberta da obra dos Inocentes, tório. Cannibal reuniu seis músicas autorais, entre elas,
o jovem Cannibal arrumou um violão emprestado e cismou “Futuro inseguro”, sua primeira composição, “Porcos
de aprender a tocar sozinho. Não satisfeito com o violão, governantes” e “Já é Natal”. A banda passou de janeiro
pediu a sua mãe de criação, dona Maria, um baixo de pre- a agosto ensaiando – e aprendendo a tocar – seis músi-
sente. Ela e o tio biológico de Marconi, Carlos Santos, jun- cas, que juntas mal ultrapassavam sete minutos de dura-
taram dinheiro e presentearam Cannibal com um baixo ção. Celo, apesar de experiente, não conseguia manter a
Giannini, em que ele começou a compor suas primeiras velocidade exigida pelo hardcore. Cansava logo, dizia que
canções. De tanto ouvir de todo mundo que deveria mon- aquilo tudo exigia um esforço hercúleo e que seria inca-
tar uma banda, levou o projeto em frente, e logo recrutou paz de suportar um show inteiro tocando em ritmo tão
os amigos Ancelmo (guitarras) e Altamir (vocal). Celo foi o intenso. Além disso, Altamir começou a demonstrar insa-
último a entrar no grupo. Um dos principais incentivado- tisfação por não gostar do estilo da banda. Sua praia era
res para a formação do grupo foi Lael, baixista da SS-20, mais o metal da linha Iron Maiden. Não demorou muito
uma das bandas mais importantes do Recife e de grande para ele pedir desculpas e pular fora. Como Cannibal
influência na formatação do som dos Devotos. Ele traba- conhecia de cor as músicas, pois todas eram dele, assu-
lhava na Academia Cine-Brasileira, na Avenida Conde da miu os vocais. E tratou de aprender a tocar e a cantar ao
Boa Vista, palco das duas primeiras edições do Encontro mesmo tempo, ora olhando para as cifras do baixo, ora
Antinuclear, realizados em 1986 e 1987. Lael sugeriu que para as letras.
Cannibal montasse uma banda para tocar na terceira edi-
Enfim, após sete meses ensaiando seis músicas que,
ção do evento. Isso coincidiu com a época em que ele des-
juntas, mal passavam dos sete minutos de duração, che-
cobriu o som dos Inocentes. Ganhou o baixo da família,
gou 6 de agosto de 1988, o grande dia. Cannibal, Ancelmo
compôs as primeiras canções e formou a banda. O amigo
e Celo colocaram os instrumentos nas costas e partiram
Lael sugeriu o nome: Devotos do Ódio, inspirado em livro
rumo à Academia Cine-Brasileira. Nervosos, pensaram
de mesmo nome, do escritor José Louzeiro. Mas o sentido
várias vezes em voltar no meio do caminho. Um frio na
que eles queriam dar ao nome era outro: como percebiam,
barriga, desconfortável, atacava o trio. Celo, mais de uma
em seu cotidiano, que os jornais mais vendidos e os pro-
vez, chegou a sugerir: “Vamos voltar pra casa?” Ancelmo
gramas de TV de maior audiência eram justamente os que
tinha certeza de que não conseguiria tocar uma nota.
tinham, na violência, seu principal atrativo, constataram
Cannibal, calado, guardava o nervosismo para si. Mas o

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66 Devotos 20 anos

show transcorreu numa boa. A banda tocou as seis músi-


cas, foi bastante aplaudida e repetiu mais três. Sete meses
de ensaio para pouco mais de dez minutos de show. Mas o
trio estava satisfeito, com sorriso de orelha a orelha. Após
o show, Celo pediu desculpas, mas já tinha compromissos
de gravações e de shows com suas outras bandas. Em seu
lugar, entrou Nori. Ancelmo também saiu, e foi substituído
por Akio. Essa formação chegou a fazer um show em Natal
e outro em João Pessoa, e, depois, entrou em férias força-
das por uns seis meses. Foi quando Cannibal foi até a casa
de Celo pedir que ele desse uma nova força para os Devotos
do Ódio. Neilton, um brother dele, havia entrado na banda.
Viva a vida que você me deu 69

Professor Pardal
Sua inclinação para a música foi despertada por volta
dos 6 anos, influenciado por um vizinho que tocava
saxofone na Orquestra Municipal do Recife e passava
o dia ensaiando em casa. Nessa época, formou, com
suas irmãs, sua primeira “banda”. Utilizando o mesmo
processo de Lee, primo de Celo, juntou latas de doces,
tirou as tampas, envolveu as aberturas com plástico e
Neilton José de Carvalho nasceu em 1971 e foi criado
colou tudo com borracha. Passava tardes inteiras com
na Bomba do Hemetério, bairro vizinho ao Alto José do
as irmãs batucando para cima e para baixo dentro de
Pinho. Caçula de quatro irmãos e filho de um comerciário
casa. Ao mesmo tempo, começou a tentar desenhar
com uma dona de casa, o garoto teve despertado, logo
seu super-herói preferido, o robô japonês Spectreman,
cedo, seu interesse pelas artes. O pai, Aércio Ribeiro de
que aparecia em seriado exibido pela televisão no início
Carvalho, vendia peças para máquinas industriais. Tra-
dos anos 1980. E passou, simultaneamente à descoberta
balhava numa lojinha e num depósito, que ficavam na
da música e do desenho, a se interessar por eletrônica.
rua Vigário Tenório, no Centro Velho do Recife. Zona por-
Desmontou, junto com o irmão Nilson, o rádio da casa,
tuária e local considerado barra-pesada até a década de
pois estava certo que bonecos trabalhavam dentro dele
1980, o bairro era famoso pela má reputação que pos-
e não queria perder a oportunidade de vê-los em ação.
suía: prostitutas à caça de marinheiros de fora, trafican-
Passaram, então, a abrir todos os eletrodomésticos de
tes, viciados e loucos de toda espécie eram os principais
casa para saber como funcionavam por dentro. Fizeram
frequentadores da região. E o pai de Neilton, conhecido
isso com um velho gravador do pai, e utilizaram o motor
no local pela alcunha de “pai”, era extremamente que-
do gravador para a construção de um carrinho elétrico.
rido e respeitado por todos. Boêmio incorrigível, jamais
Começou a fabricar seus próprios brinquedos, nem que
chegava em casa antes da meia-noite.
fosse para ter o prazer de destruí-los depois. Certa vez,
Desde muito novo, Neilton já demonstrava intensa curio- dedicou-se o dia inteiro à construção de uma casinha de
sidade pelas carreiras que abraçaria ao longo da vida: massapé. Depois de pronta, colocou fogo nela só para
música, pintura e engenharia eletrônica. Em seu caso, assistir ao incêndio. O pai costumava presentear o filho
o espantoso é que ele é autodidata em todas essas com um carrinho simples de brinquedo, que trazia da
áreas. Jamais teve uma aula de música, de desenho ou feira. Neilton o reconstruía por inteiro e o deixava igual-
de mecânica. Punk legítimo, mesmo sem ter feito parte zinho ao carro do Batman, além de “envenená-lo” com o
do movimento, elevou à enésima potência as conse- motor do gravador.
quências do mandamento punk do it yourself. Tudo que
Tímido, Neilton sempre teve um comportamento bas-
aprendeu e realizou desde então foi sozinho, sem ajuda
tante peculiar. Costumava matar aulas para, em vez de
de ninguém, o que o coloca bem perto do rol – para não
ganhar as ruas, voltar para casa para assistir televisão ou
dizer que ele próprio é um – daquela seleta categoria de
se dedicar aos desenhos e à fabricação de brinquedos.
humanos que costumamos designar de gênios.

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70 Devotos 20 anos Viva a vida que você me deu 71
72 Devotos 20 anos Viva a vida que você me deu 73

Quando ficou um pouco mais velho, passou a acompa- uma loja, uma Sonic. Pediu a outra metade do valor para
nhar o pai no trabalho aos sábados. Em um desses dias, o pai, que perguntou se o filho sabia tocar. Neilton, na
viu uma turma de motoqueiros gringos, todos trajando caradura, respondeu que sabia, e o velho deu a grana na
jaquetas com estampas de caveiras nas costas. Pare- esperança de ouvir o filho tocar “Brasileirinho” para ele.
ciam com os Hells Angels. Eles, de vez em quando, apa- Feliz da vida, Neilton foi até a loja e comprou a guitarra.
reciam para comer em uma lanchonete barra-pesada Chegou em casa, foi até o quarto e, antes mesmo de ten-
perto da loja em que o pai de Neilton trabalhava. Ficou tar tirar qualquer som, desmontou a guitarra inteira. O
fascinado com o visual da turma. E, via televisão, veio pai ficou doido quando viu aquilo. Neilton queria saber
o acontecimento que o despertaria para todo o sem- onde estavam as pilhas da guitarra. Não as encontrando,
pre para o mundo do rock: descobriu um tal de Elvis passou a fazer uma série de experiências, colocando
Presley. Decidiu, por influência do Rei, que aprende- captadores, incrementando-a de todas as formas. Como
ria a tocar guitarra. Ficou fascinado com a sonoridade gostava de dizer, sua guitarra parecia saída do filme O
e com o formato da guitarra. Além dos filmes de Elvis, jovem Einstein. Começou a aprender os primeiros acor-
que passavam na TV, Neilton descobriu que o pai pos- des sozinho. Era difícil encontrar um curso de guitarra
suía uma coletânea com os grandes sucessos do can- naquele tempo no Recife. E, quando achava algum, era
tor. Escutou o disco obstinadamente a partir de então. caro demais. Na mesma época, passou a frequentar
Sempre curioso, Neilton pesquisou, por conta própria, os shows de punk e de metal nos subúrbios do Recife.
quem havia influenciado aquele cara de costeletas de Virou colecionador de vinil também e fã de bandas como
quem tanto gostava. Foi assim que chegou até a obra Metallica e Slayer. Só que, ao contrário do radicalismo
de Bill Haley & His Comets. Para completar o fascínio, dos fãs dos dois gêneros, que sequer cogitam a possi-
um dia, em um culto da igreja que a família frequentava, bilidade de ouvir qualquer coisa que não estivesse atre-
ouviu o pastor dizer, em alto e bom som, que o rock’ n’ lada a esses ritmos, Neilton sempre teve a cabeça e os
roll era coisa do demônio e que Bill Haley era o próprio. ouvidos abertos para tudo que caía em suas mãos. Como
Na mesma hora, o garoto pensou: “Bill Haley é o cara!” já estava mergulhado de cabeça no mundo do rockabilly,
Virou fã de rockabilly. O problema — ou solução — no passou a pesquisar também tudo sobre metal e punk,
caso de Neilton foi que ele descobriu a obra de Elvis bem mas jamais se limitava a apenas esses estilos. Também
próximo dos últimos dias de vida do cantor. Com a morte considerava burra a lógica punk, que ditava que o bom
dele, a TV tratou de exibir uma série de especiais, shows era ser ruim. Punk que era punk, segundo os próprios,
e filmes estrelados por Presley, que, evidentemente, não podia saber mais do que os três acordes básicos.
foram vistos um a um por Neilton. Ainda garoto, Neil- E Neilton se considerava extremamente frustrado jus-
ton começou a fazer pulseirinhas e camisetas pintadas tamente por não poder estudar música, e ficava furioso
à mão. Vendia aos amigos no colégio e guardava toda a com quem fazia essa apologia à ignorância musical. Pas-
grana arrecadada embaixo do colchão. Um dia, resolveu sou a ouvir Hendrix e Eric Clapton, e sempre se pergun-
contar o dinheiro e viu que tinha o suficiente para com- tava quem os havia ensinado a tocar. Em sua imaginação,
prar metade da guitarra mais barata que havia visto em eles tinham aprendido tudo sozinhos. E, ainda que não
74 Devotos 20 anos Viva a vida que você me deu 75

tivessem aprendido a tocar sozinhos, alguém, algum dia, tentava fazer — as vezes de palco. Sem contar que a
inventou a guitarra e a forma correta de tocá-la. E, para estrutura de som era qualquer nota: vitrolas improvisa-
Neilton, isso bastava. Se alguém começou do nada, ele das, gambiarras aqui e ali. O importante era tocar. Em
também poderia. Na marra, sem professor e com muita uma dessas apresentações, um incidente constrange-
vontade, foi inventando solos que depois não sabia repe- dor e engraçado marcaria a vida da banda. Em determi-
tir, criando acordes que não tinha como decorar. E assim nada hora, o vocalista, que caprichava no vocal gutural
foi até entrar em sua primeira banda, a Túmulo. estilo thrash metal, empolgou-se tanto com a perfor-
mance que sua dentadura acabou caindo no chão. Para
Aílton Peste, amigo de infância e do colégio, um morador
mostrar que era roqueiro mesmo, tratou de pegar a peça
negro do Alto José do Pinho que aprendeu a tocar bateria
no chão e colocar novamente na boca, como se nada
sozinho, convidou o colega para fazer um teste, pois o gui-
houvesse acontecido. Aílton Peste ria tanto atrás de
tarrista original, Ronaldo, havia saído do grupo. Com cara
sua bateria que sua dentadura acabou tendo o mesmo
e pose de quem sabia tocar muito, Neilton improvisou
destino que a do vocalista. Na periferia, era comum que
uns solos que, até hoje, não sabe de onde surgiram. Os
mães de adolescentes preferissem arrancar os dentes
integrantes ficaram impressionados com sua “técnica”, e
da frente de seus filhos quando estavam com cáries
Neilton foi aceito na banda na mesma hora. Detalhe: ele
e colocar uma “peça” no lugar do que submetê-los a
ainda não sabia tocar patavinas. Ironicamente, foi o pró-
tratamento odontológico, considerado extremamente
prio Ronaldo que veio ensinar a Neilton como montar um
caro para o padrão de vida dessas famílias. Em shows
power cord, um acorde de tônica e quinta que é muito uti-
de rock nos subúrbios da capital pernambucana, todos
lizado no rock. Isso foi essencial para os primeiros passos
eram sujeitos da história: bandas e público eram forma-
de Neilton como guitarrista.
dos por um proletariado pobre e, não raro, desdentado.
A Túmulo serviu como laboratório para Neilton. Pas-
sou a fazer shows nos subúrbios. Essas apresentações
eram uma aventura só. Precisavam se deslocar de ôni-
bus pelas periferias da cidade, fazer os shows, e, só
depois, pensar em como seria para voltar para casa.
Alguns ambientes eram bem barra-pesada e, em algu-
mas ocasiões, eles saíam correndo dos tiros, pegavam o
primeiro ônibus que encontravam e se jogavam no chão
para não serem atingidos por alguma bala. O interes-
sante é que tanto as bandas quanto o público depen-
diam do transporte público. Ou seja, o “glamour” só
existia na hora de subir no palco. Mesmo que esse palco
fosse improvisado em um circo fuleiro, com a banda
tocando em cima de um monte de terra que fazia — ou
Cap.04
O Leonardo da Vinci da guitarra

Cap.04
O Leonardo da Vinci da guitarra 79

utilizando também sucata. Com fórmica de armário, fez


a placa. Pegou parafuso de televisão e colou no braço da
guitarra. A ponte de guitarra foi feita por Lael, da SS-20,
que era torneiro mecânico. Algumas partes da ponte
foram trocadas por Neilton, que percebeu que o braço
de uma radiola funcionava melhor do que a alavanca ori-
ginal da guitarra. Um dia, a mãe de Neilton estava con-
sertando o fogão da casa, e caiu um monte de molas
de dentro dele. Eram justamente as pecinhas que fal-
tavam para o acabamento final. O processo de fabrica-
ção durou um ano, e ninguém dizia que aquela guitarra,
Neilton e Cannibal não andavam com a mesma turma,
batizada “A Gorda”, tinha sido feita por Neilton. E muito
mas se conheciam de vista desde os tempos de colégio. E
menos que toda a matéria-prima era constituída por
Neilton já havia visto boa parte dos shows dos Devotos do
sucata. E, o principal, o som dela era enfezado. Curiosa-
Ódio nos subúrbios. Assim sendo, foi natural que Cannibal
mente, a história da guitarra ganhou tamanha dimensão
o convidasse para assumir as guitarras na banda. Neilton
que, até hoje, incomoda seu criador.
também já estava ficando conhecido no meio roqueiro
pelas camisetas que pintava à mão. Algumas eram feitas Com formação definitiva e repertório que já vinha sendo
sob encomenda, como uma cuja estampa era o disco Bos- tocado há alguns anos, os Devotos do Ódio ganharam os
sanova, do Pixies. Juntos, foram até a casa de Celo para, subúrbios. A entrada de Neilton na banda foi fundamen-
mais uma vez, convidá-lo para integrar a banda. Desta tal para expandir os limites do grupo. Com formação que
vez, de forma definitiva. vinha do rockabilly e do metal, Neilton não se conformava
em limitar o punk rock a apenas seus três acordes de cos-
Foi nesse período que nasceu uma lenda. A primeira gui-
tume. A essa altura, já calejado pelos tempos de Túmulo e
tarra de Neilton, utilizada nos tempos do Túmulo, já tinha
dedicando todo seu tempo livre a aprender a tocar, Neil-
dado para o gasto. Aos 16 anos e sem grana para com-
ton podia ser considerado o músico mais tarimbado entre
prar uma guitarra nova, Neilton resolveu fazer a sua. No
todos os integrantes de bandas do Alto José do Pinho.
final dos anos 1980, uma rede de supermercados colo-
cou à venda o corpo e o braço de uma guitarra. Foi um O circuito punk de shows do Recife era constituído por
fracasso, e o produto encalhou nas lojas, o que barateou bairros das classes menos favorecidas da cidade, como
bastante seu preço. Neilton, que nessa época traba- as Unidades Residenciais (popularmente conhecidas
lhava como vendedor em uma loja de eletrônica, juntou como UR), Curado e Prazeres. As apresentações acon-
uma grana e comprou o corpo. Depois comprou o braço, teciam nos Centros Sociais Urbanos desses bairros e,
lixou as duas partes e deixou tudo bonitinho. Aí, foi até a não raro, o pau comia solto. Os shows eram uma tos-
sucata da loja em que trabalhava e arrumou parafuso e queira só. Neles, o do it yourself era levado às raias do
potenciômetro de rádio. O captador foi enrolado à mão, absurdo. Vassouras eram improvisadas como pedestais

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80 Devotos 20 anos O Leonardo da Vinci da guitarra 81

de microfone. Na falta de vassoura, alguém se encarre-


gava dessa função, e passava o show inteiro segurando o
microfone para Cannibal cantar. Em um deles, os Devotos
do Ódio tocaram em Ouro Preto, bairro de Olinda, em um
show em um clube subterrâneo. Quando o show acabou, o
trio ouviu barulhos de tiros, que foram se intensificando e
ficando cada vez mais perto. Só deu tempo de entrar no pri-
meiro ônibus que viram e se abaixarem. Em outra ocasião,
tocaram no Curado, bairro cortado por estradas federais.
E não havia privilégio para ninguém. Banda e público esta-
vam no mesmo barco e disputavam, na volta dos shows, a
mesma traseira de ônibus. A banda acabara de tocar e, às
três horas da manhã, Cannibal, Neilton e Celo estavam em
plena BR sem saber como fazer para voltar para casa. Eles
e mais uns trinta punks. Eis que surge do nada um ônibus de
viagem, para e abre a porta. O motorista pergunta então se
alguém ali queria uma carona até o centro da cidade. E, em
cena digna dos filmes de Fellini, a turma inteira de punks,
cada um mais mal-encarado do que o outro, entra no ôni-
bus e se aconchega nas cadeiras do expresso. O motorista,
que além de fã de rock era extremamente gente boa, ainda
perguntou se alguém ia para Olinda, onde ficava a gara-
gem da empresa de ônibus onde trabalhava. Às vezes, a
classe operária punk recifense também tinha direito ao seu
pedaço de paraíso.
Esses shows no subúrbio foram importantíssimos para
construir a reputação dos Devotos do Ódio na cena roqueira
local da época. Tanto que a banda era escalada para os
shows e só ficava sabendo quando via o cartaz com o nome
do grupo colado nos postes. Cannibal arrancava, levava
para casa, mostrava para Celo e Neilton e dizia “vamos
tocar nesse evento”. O “sucesso” da banda acabou estimu-
lando os outros grupos do Alto José do Pinho, mas apenas
Terceiro Mundo, de Marcelo Massacre, rodava os subúr-
bios como os Devotos. Os outros preferiam os ensaios no
82 Devotos 20 anos O Leonardo da Vinci da guitarra 83

estúdio de Lee, que a essa altura do campeonato, era fre- sido dispensados do serviço militar, e trataram de come-
quentado até por bandas de fora do Alto José do Pinho. morar na hora, tomando cachaça às sete da manhã em
Nascia, naquela época, Nanica Papaya, banda de reggae um boteco em frente ao quartel do bairro de Afogados.
liderada por André Nanica, que, lá atrás, havia fundado
Paulo André ficou amigo do pessoal dos Devotos do Ódio,
a Egoesmo com Celo. Aliás, o baterista dos Devotos era
e logo passou a empresariar informalmente a banda, faci-
um caso à parte no meio punk do Recife. Apesar de não
litando o trânsito e contato com demais bandas e produ-
apenas ter aprendido a tocar punk, mas a desenvolver
tores. Por meio de um contato seu, um repórter da revista
um estilo próprio de tocar, a praia de Celo era outra. Ele
Trip subiu o morro para fazer uma matéria com a banda.
gostava mesmo era do rock inglês dos anos 1980, como
Até então, nenhum veículo local dava a menor pelota para
The Smiths e The Cure. Para dar vazão a essa necessi-
o movimento punk do Recife e, muito menos, para uma
dade artística, emprestava seu talento a outras ban-
banda do Alto José do Pinho. O repórter da Trip topou a
das, como O Lírio e O Verbo. Assim como Neilton, Celo
pauta e se encantou com a guitarra de Neilton. Por pro-
se beneficiou do fato de não se limitar apenas ao punk
vocação, Neilton colocava um band-aid para “esconder”
rock. Curioso e sedento de informação, procurava estu-
a marca dela, que obviamente não existia, já que fora
dar todos os ritmos que, aos poucos, chegavam aos seus
feita pelo próprio. O repórter perguntou qual era a marca
ouvidos, via rádio ou na casa de Wally, que continuava
da guitarra, pois não conhecia aquele modelo. Em off,
servindo de point para toda a trupe escutar as novidades
Neilton contou que havia feito a guitarra com sucata.
nos vinis que o primo dele trazia de São Paulo.
O jornalista pirou com a história. Tempos depois, a Trip
E a pressão e o preconceito no Alto José do Pinho con- publicava uma longa matéria que tinha como fio con-
tinuavam firmes e fortes. Fora dona Maria, mãe adotiva dutor os Devotos do Ódio, uma banda de hardcore do
de Cannibal, que sempre apoiou o filho em seu sonho morro, cujo guitarrista fez sua guitarra com pedaços de
louco de viver de uma banda de punk no Recife, a histó- fogão, geladeira e até de micro-ondas. Uma “mentira
ria era bem diferente nas outras famílias. Com os meni- da porra”, segundo Neilton, pois ele não chegou a usar
nos perto de atingir a maioridade, era grande a cobrança peças de geladeira e de micro-ondas. A história da gui-
para que arrumassem empregos normais e passassem a tarra começou a incomodar Neilton. Em vez de sentir
ajudar no sustento da casa. Ou seja, a fama de vagabun- orgulho do invento, passou a ter uma espécie de bronca
dos desocupados estava longe de ser dissipada. Para pela maneira como a mídia abordava o assunto. Para
piorar as coisas, boa parte das famílias tinha origens ele, era a coisa mais natural do mundo. Não havia criado
religiosas ou militares. Ou ambas. O pai de Celo, sar- uma guitarra de sucata para aparecer, mas porque não
gento da Polícia Militar, nutria esperanças de que o filho tinha dinheiro para comprar uma nova. O “problema” é
seguisse carreira no Exército. O baterista não estava que todo mundo passou a se encantar pela história, e
tão interessado assim em seguir os passos do pai, nem ainda mais quando conhecia a guitarra pessoalmente.
Cannibal em servir a uma instituição que já criticava em Não foram poucas as propostas de venda que recebeu.
suas letras. Assim sendo, foi com muita satisfação que Recusou todas. A Gorda, para seu dono e inventor, não
os dois ficaram sabendo, na mesma manhã, que haviam tinha preço.
O Leonardo da Vinci da guitarra 85

O estúdio de Lee

Além de ser o principal incentivador da carreira de Celo,


seu primo Lee foi fundamental para a trajetória de todas
as bandas do Alto José do Pinho. Ele montou um estú-
dio no bairro da Mangabeira, e todas as bandas da Zona
Norte do Recife ensaiavam lá. O local era minúsculo,
porém confortável. E, mais importante, Lee não cobrava
um tostão das bandas pelo uso do estúdio. Predominava
um aspecto amador. A estrutura era tosca. As gravações
eram feitas em um gravador velho. Mas ninguém ligava
para isso. O importante era poder ensaiar e gravar.
O estúdio de Lee foi importante também por outro
aspecto. Como os meninos passavam o dia literalmente
trancados nele, ficavam longe da rua e dos perigos de se
envolverem com a criminalidade.
Não é exagero dizer que, se não fosse por Lee e seu estú-
dio, provavelmente a cena roqueira do Alto José do Pinho
não teria vingado.

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86 Devotos 20 anos O Leonardo da Vinci da guitarra 87
Cap.05
Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll
Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll 91

impressos, e foi assim que a Rede Globo apareceu por


lá. Era a primeira vez que a imprensa subia o morro para
cobrir outra coisa que não fosse ligada à violência. O Alto
José do Pinho, finalmente, saía do noticiário policial.
Pelo menos, naquela noite.
Todas as bandas do Alto José do Pinho tocaram e, fora
Devotos do Ódio e Terceiro Mundo, que já faziam shows
no circuito punk underground dos bairros periféricos do
Recife, era o primeiro show de todos os outros: A Ostenta,
Uma hora, o inevitável acabou acontecendo. As reuniões Sentimentos Ocultos, O Verbo, O Lírio, Nanica Papaya,
na casa de Wally e os ensaios no estúdio de Lee ganha- Flores Negras. O som era cedido pelo Bonsucesso Fute-
ram as ruas. Primeiro, os meninos passaram a gravar bol Clube, e o baterista de quase todas as bandas era um
em fitas cassete os discos que ouviam na casa de Wally. só: Celo. Quando não era ele, era Peste. Curiosamente,
Com isso, arranjaram um sonzinho e passaram a se reu- a tônica dominante era o pop inglês dos anos 1980. Era
nir quase todas as noites na frente da casa de Celo, essa a praia de A Ostenta, O Verbo, O Lírio e Sentimen-
munidos de violão e de garrafas de vinho barato. Depois tos Ocultos, esta última formada por Peste e com uma
as reuniões passaram a acontecer na frente da casa de menina no vocal. Nanica Papaya se dedicava ao reggae,
Cannibal. Um ator e poeta do Alto, Jailson Leonardo, jun- enquanto Devotos e Terceiro Mundo eram as únicas de
tou-se ao grupo. Foi o suficiente para Peste, o mais arti- punk rock hardcore do evento.
culado de todos, ter a ideia de fazer um evento no Alto
José do Pinho que juntasse todas as bandas do morro O público compareceu, e veio muita gente de outros bair-
e o grupo de teatro do qual Jailson fazia parte. Nascia ros conferir a apresentação. Como Neilton, Cannibal e
assim, em 1991, a primeira edição do Gestos, Atitudes e Celo estavam acostumados à péssima estrutura dos
Rock’ n’ roll no Bonsucesso Futebol Clube. shows punks que faziam no subúrbio, preocuparam-se em
oferecer, pelo menos, o mínimo de qualidade para as ban-
A carência de informações dos meninos era tamanha que das do Alto José do Pinho. Foi a partir desses shows tos-
eles não faziam ideia de que existia um caderno de cul- cos pela periferia da cidade que eles passaram a perce-
tura nos jornais da cidade, e que eles poderiam divulgar ber que era possível fazer o mesmo no Alto José do Pinho,
os shows nesses suplementos. Peste, ao contrário dos só que com uma estrutura um pouco mais decente.
demais, tinha essa consciência, e conseguiu com que
o Jornal do Commercio publicasse uma notinha sobre o O evento correu às mil maravilhas, muito melhor do que
evento. O que eles não imaginavam, nunca, nem em seus qualquer um ali imaginava. Deu público, as bandas se
delírios mais extravagantes, é que uma equipe da Rede saíram bem e até a Rede Globo veio cobrir. A partir daí, a
Globo aparecesse por lá para fazer uma matéria sobre brincadeira não parou mais de crescer.
o show. As TVs costumam se pautar a partir dos jornais

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92 Devotos 20 anos Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll 93

Com o sucesso da primeira edição do Gestos, Atitudes e que, naquela época, já era também palco de shows das
Rock’ n’ roll a turma se animou e resolveu colocar o bloco bandas do Alto José do Pinho. Ou na rua.
definitivamente na rua. Os meninos passaram a fazer
Outro evento pontual era o Natal nas Alturas. As bandas
shows semanais, na rua mesmo, onde imperava a von-
organizavam shows em que a entrada era um brinquedo
tade acima de tudo. Juntavam grades de cerveja, colo-
usado. Quando chegava o Natal, reunia a gurizada e dis-
cavam um tablado em cima delas, pegavam emprestada
tribuía os brinquedos para elas. O Natal, assim como o
a radiola de alguém, montavam uma bateria e mandavam
Dia das Crianças, também terminava em rock.
ver. Com o tempo, essas apresentações foram ganhando
repercussão e, coisa inimaginável até então, jovens de Os Devotos do Ódio se destacavam das demais bandas
classe média começaram a subir o morro para ver esses pelo engajamento e pela organização. Sempre focados
shows. Peste tinha o sonho maluco de encontrar um lugar nos interesses da banda, faziam tudo visando o sucesso
no Alto José do Pinho que fosse uma versão no morro do dela. Neilton ficou responsável por toda a parte gráfica
lendário CBGB’S, casa de Nova York que abrigou apre- da banda. Pintava as camisetas, fazia os desenhos das
sentações memoráveis de Ramones, Sex Pistols, Televi- fitas demo. Criou uma logomarca da banda em que uma
sion, Blondie e Talking Heads. Enquanto não achava tal cruz e a letra “s” formavam um cifrão. E, com o apoio de
local, os shows eram realizados na rua mesmo. Paulo André, a banda começou a participar de festivais
e de concursos de banda. O repertório de seis músicas
A fama dos Devotos do Ódio ia crescendo na cena local.
havia sido amplamente ensaiado e tocado com o passar
Além da música, o trio começou a desenvolver, junto com
do tempo. Ainda era bem tosco, tudo na base dos três
as outras bandas do Alto, um trabalho social forte. Rea-
acordes, mas muito bem amarrado. Assim eram “Nova
lizavam shows filantrópicos para arrecadar alimentos e
vida”, “Luz da salvação”, “São fatos da guerra”, “Asa
distribuir para a população carente. Ou destinavam toda
preta”, “Pela justiça” e “Futuro inseguro”. O diferencial
a bilheteria de uma apresentação a hospitais e entida-
era um quê de baião em algumas músicas, como em “Luz
des. Com o sucesso do Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll,
da salvação” e “Asa preta”. As letras eram simples, até
decidiram fazer eventos pontuais na comunidade. Assim
ingênuas demais. Mas algumas acertavam direto o alvo
nasceram o Rockriança e o Natal nas Alturas. O primeiro
− caso de “Nova vida”:
era realizado no Dia das Crianças. Um mês antes, o trio
visitava os dois colégios do bairro e lançava um tema. Continuamos nossa vida
Esse tema virava matéria na escola, e os alunos faziam Mesmo sem aceitar
Vamos parar pra pensar
redações e desenhos sobre o assunto escolhido. A
Reivindicaremos mudança
banda pegava todo esse material e expunha na comuni-
Sempre vivemos da esperança
dade no Dia das Crianças. Além disto, fechavam parce- Isso vai ter que acabar
ria com a Escola Pernambucana de Circo, e as crianças
Temos força, não somos fracos
passavam o dia inteiro aprendendo novas brincadei-
Ideologia, passado
ras. Como o nome indica, tudo terminava em rock, com O Brasil vai ter que mudar
apresentações no Bonsucesso ou no Clube do Bolinho, Unidos em um só grito
94 Devotos 20 anos Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll 95

Com união, sem partido


Mudar pra melhorar
E vinha o refrão, direto, cru:
Não vamos nos preocupar
Em ter o que comer
Mesa farta não faltará
E uma casa pra você viver
Era, acima de tudo, verdadeiro. Não demorou para que
o grupo conquistasse público entre outras camadas
sociais do Recife. Carismático, Cannibal impunha res-
peito nos shows. Fora o apelo natural e a excentricidade
de uma banda punk de um morro do Recife comandada
por um negro rastafári.
Assim como o Natal nas Alturas e o Rockriança, o Ges-
tos, Atitudes e Rock’ n’ Roll virou um evento pontual. Em
um deles, a novidade era um grupo de hip-hop chamado
The Boys of the Rap, que, mais tarde, se transformaria
no Faces do Subúrbio.
Deus, abençoe a todos

Cap.06
Deus, abençoe a todos
Deus, abençoe a todos 99

Suas primeiras lembranças musicais são as dos progra-


mas de rádio que escutava em Nazaré da Mata. Neles,
ouvia Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, João do Vale e os
emboladores de viola, grande paixão de seu avô. Adoles-
cente, teve aulas de capoeira e aprendeu a cantar várias
ladainhas durante os jogos. Muito cedo, precisou come-
çar a trabalhar para ajudar no sustento da casa. Car-
regava uma enxada nas costas e se oferecia para lim-
par o quintal dos vizinhos em troca de algum troco. Foi
jardineiro, ajudante de pedreiro, camelô e cabeleireiro.
Com 14 anos de idade, em 1988, viu uma roda de break
José Edson da Silva nasceu no Recife, no dia 18 de outu-
na Praça do Trabalho e ficou encantado com os movi-
bro de 1974. Ainda recém-nascido, foi adotado por três
mentos dos dançarinos. Era o pessoal da Geração 80
irmãs que viviam em Nazaré da Mata, na Zona da Mata
e, coincidentemente, um dos dançarinos, Jackson, era
de Pernambuco. Duas das irmãs eram costureiras e
dono de uma das casas em que José trabalhava como
faziam as roupas dos maracatus e dos blocos carnava-
ajudante de pedreiro. Zé perguntou onde eles treinavam,
lescos da cidade. A terceira irmã era cozinheira. A famí-
e Jacó, apelido de Jackson nas rodas de break, respon-
lia levou alguns anos para conseguir se estabelecer no
deu que os treinos aconteciam todos os dias, às 15 h, no
Recife, e José passou a infância dividido entre o contato
Córrego São Domingos Sávio. E o menino passou a fre-
com os mundos rural e urbano.
quentar esses treinos religiosamente. Faziam parte uns
Péssimo aluno, José chegou a ser expulso de dois colé- dez dançarinos, e não havia instrutor. Cada um apren-
gios por má conduta. Porém, guardava um hábito extre- dia vendo o outro dançar. Como Zé já havia desenvolvido
mamente peculiar: matava aulas para ler na biblioteca. certo traquejo por conta da capoeira, tratou de adap-
Suas notas eram baixas em todas as matérias, mas, em tar a ginga já adquirida aos passos do break. Ao mesmo
redação, nunca tirava nota menor que oito. De famí- tempo em que aprendia os primeiros passos, passou a
lia pobre, daquelas que precisavam se preocupar com desenvolver o ouvido para as batidas que essa turma
o alimento do dia seguinte, o menino José talvez tenha escutava. Principalmente nos bailes black que rolavam
se divertido mais do que muitos moleques com melho- no Clube Atlântico, em Olinda, no Treze, no Conselho
res condições financeiras. Subia em pé de jambo com os de Nova Descoberta, no Clube Ferroviário. As turmas
amigos, enchia uma sacola inteira com a fruta e levava eram divididas por bairros, e faziam “rachas”, disputas
para casa para comer à noite assistindo televisão. Sol- de dança. Zé convidou o amigo Tiger para se juntar ao
tava pipa, jogava futebol e ia de ônibus até o Marco Zero1, grupo de dança do qual fazia parte, a Breakdance de
onde gostava de tomar banho de rio. Casa Amarela, e ficaram famosos os rachas entre eles e
os Draks, do Morro da Conceição. E todos esses rachas
eram disputados ao som de black norte-americano dos
1  Ponto inicial do Recife, onde a cidade começou a ser erguida.

98
100 Devotos 20 anos Deus, abençoe a todos 101

anos 1970, com muito James Brown, Jackson Five e coi-


sas mais recentes também, como Run DMC, Afrika Bam-
bata e Public Enemy. Porém, como no caso de Cannibal, o
que levou o garoto Zé a querer fazer música foi um vinil: a
coletânea de hip-hop nacional Cultura de rua, que trazia
vários grupos de rap como O Credo, Código 13 e MC Jack,
a seminal dupla paulistana Thaíde e DJ Hum. A partir daí,
começou a compor as primeiras letras. Não demoraria
muito para o amigo Tiger fazer as suas também.
Deus, abençoe a todos 103

Deus,
Por conta dessa experiência, a família de Eraldo sempre
se preocupou muito com o futuro do filho. Uma vez, ainda
moleque, chegou com uma bermuda nova em casa, que

abençoe meu povo havia ganho de presente de um amigo. Quando o pai per-
guntou qual amigo tinha sido tão generoso, descobriu que
o sujeito era um ladrão conhecido no bairro, e obrigou o
filho a devolver o presente. “Se um dia você tiver de ter
uma bermuda dessa marca, será fruto de seu trabalho, e
não produto de roubo.” Anos mais tarde, a empresa que
fabricava a tal bermuda foi uma das primeiras patroci-
nadoras do Faces do Subúrbio, e o filho chegou em casa
Eraldo Tavares nasceu no Alto José do Pinho, em casa orgulhoso com a bermuda de marca, conseguida a partir
e em parto feito por parteira, no dia 26 de novembro de de seu trabalho. Relembrou a história para o pai, que não
1973. Filho de um motorista com uma dona de casa, a conseguiu esconder o sorriso de orgulho.
infância de Eraldo talvez tenha sido um pouco mais dura
Inteligente, o sonho de Eraldo era ser médico. Jamais
do que a de seus demais companheiros das bandas do
havia pensado em ser músico e, caso tivesse cogitado
Alto José do Pinho. O pai ganhava um salário mínimo e
seguir a carreira artística desde novo, hoje, prova-
sustentava duas famílias, a dele e a outra que mantinha
velmente, seria um cantor de brega, influenciado por
fora do casamento. Por conta disso, ainda muito cedo,
gente como Reginaldo Rossi, Evaldo Braga e Maurício
Eraldo precisou vender picolé para ajudar em casa. Ven-
Reis. Os pais gostavam de lambada e, aos sábados, a
dia na praia de Boa Viagem ou nos parques da Jaqueira e
mãe de Eraldo costumava colocar para tocar os dis-
do Treze de Maio. E um incidente envolvendo o pai o mar-
cos de Capiba e de Nelson Ferreira, de que tanto gos-
caria para o resto da vida.
tava. Até que um dia, o amigo Zé Brown o convidou para
O pai de Eraldo era funcionário contratado de uma dançar break. Eraldo não tinha a menor noção do que
empresa de fornecimento de energia elétrica. Traba- era a cultura hip-hop e, assim como Brown, ficou fas-
lhava por escala. Em uma dessas escalas, sem saber, cinado com a dança e com o som. Quando um amigo
caiu com um pessoal procurado pela polícia por roubar em comum mostrou o vinil Cultura de rua, os dois pira-
fios elétricos. Como era motorista, apenas levava os fun- ram e resolveram ser músicos. E, como toda a rapa-
cionários para fazer o serviço onde eles diziam. Ele não ziada do movimento roqueiro do Alto José do Pinho,
fazia a menor ideia, mas, enquanto estava no carro espe- viraram alvo de preconceitos. Principalmente porque
rando que a turma terminasse o trabalho, o que aconte- se vestiam como os rappers americanos: rasparam
cia, na verdade, era um senhor roubo de fios. A polícia a cabeça, furaram a orelha e passaram a usar bonés
chegou na hora e prendeu todo mundo, inclusive o pai com a aba virada para trás. Se o autor dessas linhas
de Eraldo, que ficou detido por cinco meses no presídio enfrentou muito preconceito ao usar brinco em terra
Aníbal Bruno até conseguir provar sua inocência.

102
104 Devotos 20 anos Deus, abençoe a todos 105

de cabra macho como o Recife no início dos anos 1990, terceira edição do Gestos, Atitudes e Rock’ n’ roll, ainda
imagina então o que não sofreram Eraldo e Zé ao fura- sob o nome de The Boys of the Rap. Com poucas músicas
rem a orelha, na mesma época, no Alto José do Pinho. escritas, dançaram mais do que cantaram, mas chama-
O jornalista José Teles lembra que eles eram malvistos ram a atenção. Agora o Alto José do Pinho também tinha
pela comunidade, considerados “maconheiros vagabun- um grupo de hip- hop.
dos”. Ou seja, que baita encrenca foram arranjar. Não
bastasse o preconceito externo por virem de uma das
regiões mais violentas do Recife, precisavam, também,
enfrentar a má aceitação da comunidade em que viviam
apenas pelo fato de se vestirem de forma diferente.
Eraldo andava para cima e para baixo com um tênis bas-
queteira da marca Puma, que estampava o felino em sua
língua. Os amigos acharam que o animal parecia um tigre,
e passaram a chamar Eraldo pela alcunha de Tiger.
O fato é que Zé Brown e Tiger resolveram compor. Um dia,
combinaram de cada um ir para casa e escrever metade
de uma letra. Depois, juntariam as duas partes e cria-
riam uma música. Nascia assim “O Brasil do racismo”,
primeira composição da dupla. Os dois ficaram impres-
sionados com a semelhança entre a realidade descrita
nas letras dos rappers de São Paulo e a que eles viviam
no outro lado do país, no Alto José do Pinho. Passaram a
ter, no ato de escrever, um verdadeiro exercício de desa-
bafo, e foram colocando para fora tudo que, durante
tanto tempo, estava engasgado em sua vida. Não à toa,
temas como preconceito e criminalidade sempre esta-
vam presentes em suas letras. Estimulados por amigos
que fizeram na Unidrad — a União dos Djs, rappers e dan-
çarinos do Recife —, começaram a ler Malcolm X e a se
interessar pela história da luta negra norte-americana.
Dali passaram a pesquisar sobre Zumbi dos Palmares,
Che Guevara e Zapata. Escreviam as letras e pediam
que os Devotos do Ódio fizessem uma levada para can-
tar em cima dela. Foi assim que se apresentaram na
Cap.07
É no banheiro...
É no banheiro… 109

ficava enfurecida. Praguejava, dizia que o marido seria


assaltado se não trouxesse dinheiro para casa. Praga de
esposa é fogo e, muitas vezes, ele foi roubado mesmo.
Durante algum tempo, a família de Adilson morou no
Espinheiro, bairro de classe média alta do Recife. O pai
deixou de trabalhar no parque do irmão para ganhar a
vida como vigia em uma firma de construção no bairro,
e a família morava em uma casa nos fundos da empresa.
Até que o pai foi demitido da firma e, com o dinheiro da
indenização, a família resolveu comprar uma casa no
José Adilson Ritinto nasceu no Recife, no dia 20 de outu- Alto José do Pinho.
bro de 1969. Por conta de um problema de incompatibili-
Apesar das dificuldades, Adilson teve uma boa educa-
dade sanguínea dos pais, Adilson nasceu sem boa parte
ção. Era bom aluno e gostava de estudar. Amava o Sítio do
do braço direito e com o dedão da mão esquerda defor-
Picapau Amarelo, e não perdia um capítulo da adaptação
mado, parecendo uma pata de caranguejo. Antes dele, a
que a Rede Globo fez da obra de Monteiro Lobato. Che-
família já havia perdido um filho com problemas no cére-
gou ao Alto José do Pinho com 15 anos, e logo ficou amigo
bro. Para complicar ainda mais, Adilson nasceu laçado
de Cannibal, Neilton, Celo, Adilson Moreira e Peste.
pelo cordão umbilical. O médico que fez seu parto ficou
Ainda nos tempos do Espinheiro, Adilson já gostava de
tão nervoso que obrigou os pais a colocarem o nome do
inventar algumas músicas, que saía cantarolando pelas
menino de José1. A mãe era dona de casa e lavava roupa
ruas. Quando chegou ao Alto José do Pinho, em 1985,
para fora, e o pai trabalhava com jogos de azar no parque
não poderia encontrar terreno mais fértil para explorar
de diversões itinerante de propriedade do irmão. Adilson
sua musicalidade. O principal passatempo dos garo-
passou boa parte da infância em hospitais. Só o braço
tos do bairro era montar uma banda, e logo Adilson foi
quebrou mais de cinco vezes, pois, como só tinha um
convidado para ser vocalista de seu primeiro conjunto,
braço perfeito, não conseguia manter o equilíbrio e vivia
Flores Negras, que contava com Celo na bateria, André
caindo. Quando não estava nos hospitais, dividia os dias
Dark no baixo e Neilton na guitarra. A banda tocava em
entre a escola e a televisão.
festinhas de aniversário ou em bares fora do Alto José do
Boêmio e sempre rodeado de mulheres, o pai de Adilson Pinho, porque, no bairro, o preconceito ainda era muito
costumava gastar tudo que ganhava em farra. E chegou a grande. Adilson, além de cantar, tocava teclado, mesmo
ser preso por se envolver em uma briga num boteco. A mãe com uma mão só, e as letras da banda prezavam pela
cartilha do absurdo, do tipo “a mãe da virgem que subiu
1  Crendice popular que prega que toda criança do sexo masculino que nasce em um carro amarelo”. O som era uma sátira às bandas
laçada deve se chamar José, para garantir a sobrevivência na infância.
que faziam uma sonridade mais “séria”, calcada no rock

108
110 Devotos 20 anos É no banheiro… 111

inglês da década de 1980, como o Tempo Nublado e Aca-


demia do Medo, bandas darks recifenses que chegaram
a fazer algum sucesso no final dos anos 1980. Porém,
em meio à algazarra das letras, havia espaço para certo
“protesto”, como na peculiar letra de “Mata soldado”:
Mata o soldado
Morra, soldado
O sol tá picado!
O céu tá picado!
Mato sorrindo
Morra, seu cabra!
Morra!
Morra!
Morra, seu porra!
Tamanha raiva tinha explicação fácil. Naquela época,
todos eram vítimas constantes de perseguição poli-
cial. Era um baculejo2 atrás do outro. As revistas eram
minuciosas, e os meninos eram obrigados a colocar a
mão na cabeça, abrir as pernas, deitar no chão, aquela
palhaçada toda. Adilson foi ficando cada vez mais amigo
do pessoal. Dinho Corninho, baixista do Flores Negras,
também tocava n´O Lírio, e ganhou fama por tocar de
costas para o público. Antes fosse estilo. Na verdade,
era medo mesmo. Outra banda que fez certo burburinho
na época foi a punk O Inexistente, cuja capa da primeira
fita demo, feita por Neilton, mostrava um banheiro com
o título “Onde todos nós somos iguais”.
Nessa época, Adilson conseguiu um emprego, que man-
teve por volta de um ano, como cobrador de ônibus. Adil-
son, Micro (vocalista do Flores Negras e futuro guitarrista
da Matalanamão) e Celo resolveram montar uma banda,
cujo tema central seria masturbação. Pensaram em vários
nomes, entre eles Psicodoidos, The Mentes ou As Mentes.

2  Gíria local para as revistas policiais.


112 Devotos 20 anos É no banheiro… 113

O quarteto costumava passar as tardes no sítio da Trin-


dade, tocando violão e bongô, comendo cocada e vendo
as meninas saírem do colégio. Em uma dessas tardes,
Micro se encantou com uma menina que acabara de sair
da escola e comentou com os meninos: “Olha só que
menina linda! Hoje vou matá-la na mão.” Ficou Matalana-
mão, nome mais que perfeito para a proposta da banda.
O grupo já colecionava várias canções, que falavam sobre
desejo e masturbação, mas a aceitação no meio punk foi
bem difícil. Sofreram perseguições dos punks radicais,
que achavam aquilo tudo uma presepada e uma falta de
respeito com o gênero, e das feministas, que se sentiam
ofendidas com o teor das letras.
Uma das primeiras músicas do Matalanamão, ainda hoje
inédita, foi feita em “homenagem” a um tarado do Alto
José do Pinho, que, vez ou outra, passava umas tempo-
radas no presídio Aníbal Bruno. Seu nome era Mó. Parte
da letra:
Mó, qual a cor do seu dinheiro?
Qual a face do teu terror?
Teu currículo é bagunceiro
Maconheiro e estuprador
Ailton Peste, um dos maiores fãs do Matalanamão, na
época, estava fazendo eventos para arrecadar fundos
para os soropositivos do Recife. Os bons e velhos shows
de rua, com grades de cerveja servindo como sustenta-
ção para o palco improvisado. Algumas pessoas come-
çaram a coletar imagens, que resultou no documen-
tário “Punk, Rock, Hardcore, Alto José do Pinho é do
caralho”, que mostrava a ascensão das bandas do Alto
José do Pinho, com depoimentos de todos os envolvidos
na cena de lá, inclusive de Neilton, contando passo a
passo como havia construído sua guitarra. Reza a lenda
que uma cópia do documentário foi parar em Dublin, na
Irlanda, e que Bono teria visto e gostado muito. Ninguém
114 Devotos 20 anos É no banheiro… 115

confirma. Tampouco desmente. Celo, por conta das


atividades cada vez mais intensas com os Devotos do
Ódio, precisou sair da banda, deixando o lugar vago para
Peste, maior fã que o Matalanamão tinha.
Adilson logo ganhou o apelido de Ronrona, por conta de
um problema de dicção que o faz trocar o “r” pelo “l”. E
Peste foi tratando de escrever algumas das canções que
se tornariam definitivas no repertório da banda. A que
mais dá dor de cabeça para a banda, ainda hoje, é “Os
peitinhos”.
Eis a delicada letra:
Por baixo da blusinha
Tão lindo de se ver
Depois da bundinha
Eles fazem acontecer
Tire o sutiã
Que eu quero te chupar
Passar a linguinha
Até você gozar
Bicudos ou sem bicos
Rosinhas ou pretinhos
Das vacas ou das mocinhas
São lindos seus peitinhos
Se o destino das bandas do Alto José do Pinho era o pre-
conceito em sua comunidade, qual não seria a reação dos
moradores do bairro a um grupo como o Matalanamão?
É no banheiro… 117

Aborto masculino:
vadio. Com 15 anos, começou, de forma autodidata, a
tocar bateria, pegando escondido os instrumentos que
o pai guardava em seu quarto. As influências vinham do

pare de jogar menino maracatu do pai, mas o que despertou mesmo a paixão
no menino pela música foi o rock. Logo passou a andar

fora ou 5 x 1 com os roqueiros da rua, que, assim como ele, eram


muito malvistos pela comunidade. As mães das meninas
proibiam as filhas de namorar aqueles rapazes vestidos
de preto, com calças rasgadas e cabelos extravagantes.
Diziam que eles não tinham futuro. Se duvidar, preferiam
até que a filha se envolvesse com um criminoso a andar
Ailton Guerra nasceu no Recife no dia 18 de agosto de com algum roqueiro do bairro.
1971. Os pais vieram do interior de Pernambuco tentar Assim como Cannibal, Peste era ativista do movimento
a vida no Recife: a mãe de Itambé, e o pai de Nazaré punk do Recife. Frequentava os shows nos subúrbios,
da Mata, onde sempre brincou muito maracatu rural. gostava de trocar informações com a rapaziada dos fan-
Durante anos, a casa de Ailton no Alto José do Pinho foi zines e de conversar com os punks do bairro de Tejipió.
sede do maracatu Estrela da Tarde. Os instrumentos
Em 1987, Peste montou, junto com Neilton, sua primeira
eram guardados no quarto de Ailton, e o menino, desde
banda, a Turbo, que fazia covers das bandas nacio-
cedo, mostrou vocação para a bateria. A infância foi
nais de sucesso da época, como Titãs, Ultraje a Rigor
pobre de posses, mas rica em brincadeiras: pião, pipa,
e Camisa de Vênus. Peste costumava levar um radinho
corridas pelas escadarias e jogos de bola. O pai vivia de
de pilha de seu irmão para o colégio, e os meninos pas-
bicos como mecânico, e era apaixonado por música. Toda
savam o recreio inteiro escutando a programação vei-
semana ia até a feira de Casa Amarela e voltava com um
culada nas FMs. Na Turbo, diferentemente de todas as
vinil debaixo do braço. Eram discos de Cartola, Núbia
outras bandas em que tocou, Neilton apenas cantava.
Lafayette, Antônio Marcos. A família possuía uma velha
Depois Peste foi convidado para tocar na Túmulo, e cha-
radiola de móvel, e o garoto Ailton adorava viajar no som
mou Neilton para fazer parte dela. A Túmulo nasceu da
e no visual daqueles álbuns. Gostava tanto que, um dia,
vontade de fazer um som mais pesado, influenciado por
ganhou de presente da irmã uma vitrolinha cor de laranja
bandas como Slayer, Metallica e Sodon. Aos poucos,
na qual passou a escutar seus próprios discos.
Peste foi ampliando seu leque de influências, e deci-
No colégio, Ailton aprontava tanto que ganhou o apelido diu montar A Redoma. A banda já tinha uma tendência a
de Peste. Um dia, chegou até a colocar um gato dentro da fazer rock calcado em Joy Division, que Peste conheceu
merenda. E, durante as aulas, vivia batucando na banca. pela televisão em programas como o Super Special, vei-
A mãe não suportava essa inclinação do filho para a culado no meio da década de 1980 pela TV Bandeirantes.
música. Achava que tudo aquilo era coisa de maconheiro A Redoma durou uns dois anos, e chegou a se apresentar

116
118 Devotos 20 anos 119

até mesmo no Teatro do Parque, em um festival estudan-


til. Gravaram uma fita demo em que Peste batucava uma
prancheta e dois caras tocavam violões e, para surpresa
geral, foram selecionados. Peste nunca havia subido
em um palco na vida, e o primeiro que encarou foi logo o
do imponente Teatro do Parque — com a casa cheia de
estudantes. Na hora do show, a banda estava a postos e
Peste bateu uma baqueta na outra para marcar o tempo
e começarem a tocar. Um, dois, três... e a baqueta caiu
no chão. Recolheu a baqueta e repetiu a operação: um,
dois, três... e a baqueta novamente caiu no chão. Outra
vez: um, dois, três, até que ouviu o grito do vocalista:
“Peste, porra! Deixa de onda.” Não era onda, mas puro
nervosismo. Até hoje, Peste não sabe como conseguiu
prosseguir o show após deixar a baqueta cair três vezes
antes sequer de emitir qualquer som de sua bateria.
Peste passou a ouvir muita música pesada. Foi por meio
dela que chegou até o movimento punk, e ajudou a formar
a Terceiro Mundo. Ajudou também na criação de O Verbo,
e montou a Sentimentos Ocultos, com vocal feminino.
Mas o Matalanamão já era seu favorito. Não perdia um
show deles. Quando soube que Celo ia sair da banda por
causa dos compromissos com os Devotos do Ódio, tomou
um porre e, bêbado, disse aos caras que queria entrar
no Matalanamão. Peste não apenas assumiu as baque-
tas, como virou principal compositor do grupo junto com
Ronrona. E, de tanto procurar, Peste finalmente achou o
CBGB, que abrigaria os shows semanais das bandas do
Alto José do Pinho.
Cap.01

Bar do Orlando:
o CBGB do Alto José do Pinho
Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 123

mães iam resgatar os filhos na base do tapa. E, não raro,


muitos punks mal-encarados corriam desesperados do
local ao avistar a mãe chegando nas proximidades do
bar. Mas a vingança não tardou, e veio em grande estilo: a
Rede Globo e a MTV fizeram matérias sobre os shows no
bar do Orlando. Foi o ponto de partida para a mudança de
O bar do Orlando ficava na rua Acaiaca, localizada acima da
reputação do Alto José do Pinho. Isso e a aproximação do
rua principal. Era um boteco minúsculo, onde mal cabiam
pessoal do morro com a turma do manguebit. Aos poucos,
vinte pessoas. Os roqueiros se encontravam lá para jogar
a comunidade deixou de ver, naqueles jovens, a figura
sinuca e tomar cerveja. Um dia, a MTV subiu o morro para
estampada e encarnada do diabo. Passaram, até mesmo,
fazer uma matéria com as bandas do Alto José do Pinho,
a sentir uma espécie de orgulho pelo fato de o trabalho
e elas pediram ao proprietário, Orlando, que cedesse o
deles ser reconhecido por gente da televisão.
local para a locação da reportagem. Percebendo que ali
seria um bom espaço para organizar eventos, Peste pro- O grande charme do bar do Orlando era o caráter inusitado.
pôs a Orlando fazer shows semanais no bar. E ele, fã de Era comum que algumas pessoas subissem nas mesas e,
Djavan, apreciador de rock e boa praça, topou. do nada, começassem a recitar poesias. A necessidade
de se expressar parecia infinita. Senão, como explicar
Não existia palco. As gambiarras eram muitas. A bate-
o sucesso obtido pelo bar do Orlando? Como eles con-
ria, de propriedade de Peste, vivia no local. O som era
seguiam realizar shows em espaço tão pequeno, contra
emprestado de alguém, normalmente uma radiola. E,
tudo e todos? A resposta é uma só: vontade. E o bar do
mesmo com todas as limitações, o primeiro show foi um
Orlando arrastou verdadeiras multidões: o público que os
sucesso. O banheiro ficava atrás do palco. Quem preci-
Devotos do Ódio haviam conquistado em suas turnês nos
sasse dar um pulinho no sanitário tinha de passar pela
subúrbios do Recife, misturados com a classe média —
banda primeiro. Só cabiam umas vinte pessoas no local,
que começava a subir o morro — e com jornalistas, que
e o lado de fora ficava abarrotado de tanta gente. Para
precisavam conferir aquilo com os próprios olhos para
que uma pessoa entrasse, era necessário esperar que
acreditarem em uma história tão pouco plausível. Foi o
outra saísse. E lá tocaram Devotos do Ódio, Matalana-
caso de Fábio Massari, da MTV, que, ao conhecer os Devo-
mão, Faces do Subúrbio e Lara Hanouska – banda lide-
tos do Ódio em uma edição do Abril Pro Rock e saber que
rada pela jornalista paulistana Stella Campos. Os shows
a banda era proveniente de um morro recifense, quis ime-
aconteciam toda quinta-feira e começaram a ser fre-
diatamente conhecer o Alto José do Pinho. Pela primeira
quentados por gente como Chico Science, o pessoal do
vez, desde que começou toda a história, lá pelos idos de
Mundo Livre S/A, o jornalista e produtor Gutie e o jorna-
1985, com a formação da Egoesmo e dos encontros na
lista José Teles. Até Nando Reis, que, uma vez, estava no
casa de Wally, os roqueiros do Alto José do Pinho passa-
Recife excursionando com os Titãs, apareceu por lá. Mas
ram, finalmente, a virar o jogo a seu favor e a conquistar o
o preconceito ainda imperava no Alto José do Pinho: o bar
respeito e a admiração dos moradores da comunidade. E
de Orlando era considerado reduto de drogados. Algumas
o grande culpado era o bar do Orlando.

122
124 Devotos 20 anos Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 125

O produtor Gutie realizou, em São Paulo, no Aeroanta,


uma edição paulista do Rec-Beat1, e levou 12 bandas per-
nambucanas de ônibus para a capital paulista, entre elas,
Devotos do Ódio, Faces do Subúrbio e Matalanamão. Era
a primeira viagem do Matalanamão. Os Devotos já haviam
tocado em Natal e em João Pessoa, e o Faces do Subúr-
bio em Garanhuns, interior de Pernambuco. Para arre-
cadar grana para comer na viagem, Peste organizou um
show no bar do Orlando e cobrou cinquenta centavos pela
entrada. E fechou o bar com toldos, o que tornou o calor
lá dentro insuportável. As pessoas, literalmente, paga-
ram para ficar do lado de fora, fato que ainda hoje rende
gargalhadas aos que estiveram presentes naquele dia.
O trabalho dos meninos reverteu o jogo na comunidade
a tal ponto que até a bandidagem local dava sua parcela
de contribuição. Um dia, dois suecos chegaram na casa
de Tiger munidos de máquinas fotográficas e câmeras de
vídeo. Foram escoltados, sem saber, por um dos ladrões
mais conhecidos do bairro, que fez questão de levá-los até
a casa do rapper (e de não assaltá-los, evidentemente).
Ponto determinante na história do Alto José do Pinho e
sobretudo na mudança da perspectiva com que as pes-
soas passaram a enxergar o morro, o bar do Orlando teve
um final trágico. O proprietário, Orlando, vivia no lugar,
e utilizava grades de cerveja como cama. Com medo de
assalto, costumava dormir com um revólver na cintura.
Um dia, quando Orlando foi acordado de manhã pelo
motorista de um caminhão de carregamento de cerveja,
sua arma disparou e acertou seu coração.

1  Festival alternativo de música que acontece no caranaval do Recife desde


1995.
Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 127

Espelho
Outro local de ensaio era a casa de Lindenberg, baixista
do Arame Farpado. Linde (como é conhecido), junto com
Lael, da SS-20, tinha uma equipe de locação de som e

dos deuses prestação de serviços para shows urdergrounds cha-


mada “Caatinga Produções”, que foi muito importante
para a manutenção da cena roqueira dos subúrbios.
Outra pessoa que ajudou bastante e tornou-se um dos
maiores incentivadores da carreira dos Devotos do Ódio
foi Marcus Asbar. Ele possuía, ao lado do primo, Osman,
uma produtora responsável pela fabricação de Fanzines
e realização de shows chamada “Maos Contatos”, que era
muito ativa no underground recifense. Com o passar do
tempo, o que era apenas uma sonoridade de três acor-
des amarradinhos foi ganhando um contorno profissio-
nal. Os Devotos, assim como o Câmbio Negro, destaca-
Foi uma banda de fora do Alto José do Pinho que aca- vam-se das demais bandas de punk hardcore da região.
bou sendo fundamental para a consolidação da carreira Seus integrantes encaravam a banda com tal seriedade
dos Devotos do Ódio. O Câmbio Negro HC conseguiu o que, quando começaram a receber cachê, por mais
que parecia impossível para os padrões da cena reci- miúdo que fosse, o trio dividia por quatro: a quarta parte
fense na década de 1980: gravou um disco. Tanto que foi ia para o banco, e era com essa grana que eles faziam as
o único grupo da época a realizar tal feito. Em 1990, a camisetas, as demos e viabilizavam as poucas viagens
banda lançou, pelo selo independente Rock Xpress, de da época. O mesmo método é utilizado até hoje.
propriedade de Paulo André, o disco Espelho dos deuses,
verdadeiro marco do hardcore nordestino. O álbum era Nesse momento, compuseram seu maior clássico, “Punk,
uma paulada só em todas as instituições que, no Nor- Rock, Hardcore, Alto José do Pinho”. A música come-
deste, são ainda mais fortes que nas demais regiões çava com ruídos e distorções de guitarra, para, logo em
do país: igreja, exército, governo, polícia. Cannibal, que seguida, surgir uma levada de baixo e uma batida seca
sempre frequentou os shows do grupo, estreitou rela- de bateria, com Cannibal cantando:
ções com a banda. Não perdia um ensaio deles, assim Punk, rock, hardcore
como os da SS-20, que ensaiava em um casarão na Rua Sabe onde é que faz?
da Guia, no centro velho do Recife. Depois, quando a Lá no Alto José do Pinho
bandas passaram a ensaiar em um estúdio, sempre É do caralho!
cediam um pouco do seu tempo para que os Devotos do Tem Devotos, Terceiro Mundo
Que botam pra fuder
Ódio ensaiassem. Pagavam quatro horas de ensaio, usa-
Todo sentimento obtido
vam duas e deixavam as duas restantes para o trio usar.
Em seu viver

126
128 Devotos 20 anos Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 129

Depois toda a banda atacava com fúria um hardcore, que


parecia traduzir em som todas as dificuldades e mazelas
vividas pelo trio até então. Aí vinha a segunda parte, can-
tada na velocidade máxima do hardcore por Cannibal:
Expressando em suas letras
O seu ponto de vista
Sem violência lutam
Por igualdade de vida

E a parte final:
Punk, rock, hardcore
Sabe onde é que faz?
Lá no Alto José do Pinho...
É do caralho!

Ao vivo, a canção ganhava uma dimensão ainda maior.


Depois de cantar “punk, rock hardcore, sabe onde é que
faz? Lá no Alto José do Pinho...”, toda a banda parava de
tocar e o público respondia, em uníssono: “É do caralho!”
E o grupo repetia mais três vezes o ritual. A plateia podia
ser composta por cem, mil ou 2 mil pessoas. Os shows
eram encerrados sempre desta forma. Até hoje são.
Gravaram o videoclipe de “Punk, Rock, Hardcore, Alto
José do Pinho”, primeiro clipe no Brasil a ser rodado em
35 mm, dirigido por Cláudio Assis, que mais tarde fil-
maria “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”. O clipe
mostra a banda tocando na praça do bairro, tendo, aos
fundos, a imagem de Cristo na cruz, que ornamenta o
local, e crianças brincando e cantando. O clipe chocava
pela pobreza mostrada, e nada mais. Não precisava de
violência, mulher sarada, efeitos especiais. A realidade
era o mote, a tônica, a matéria-prima da banda. E era
mais do que suficiente. Curiosidades: o clipe foi gravado
em sobras de rolo de um curta-metragem que Assis
estava filmando na época. O diretor pensou em gravar
“Nova Vida”, mas a banda resolveu tocar “Punk, Rock,
130 Devotos 20 anos Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 131
132 Devotos 20 anos Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 133

Hardcore, Alto José do Pinho”, que acabou tendo empa- Como essa história vai acabar
tia imediata com as crianças que participavam do vídeo, E se puxar tem que atirar
embora tenha sido tocada em público pela primeira vez. E se atirar tem que matar
Para a sua honra poder lavar
O fato é que a fama da banda foi crescendo a passos lar- Um caso tão bonito
gos, mas a grana não. Não raro, o trio ia a pé, carregando Um amor quase impossível
seus instrumentos, até o local do show. Passava pela Mas o amor não vence o ódio
multidão, ia até o backstage, subia no palco, fazia o show Gil Gomes narra o episódio:
e depois retornava a pé para casa. Na ida e na volta, claro,
levava um baculejo da polícia. Uma vez, em 1994, abriram E a banda entrava em fúria e velocidade máximas do
um show dos Raimundos no Circo Maluco Beleza. Os bra- hardcore para explodir no refrão:
silienses acabavam de lançar seu primeiro disco, pelo selo Matou a mãe, matou o pai, matou a filha
Banguela, um braço da gravadora Warner, de propriedade Matou a mãe, matou o pai, matou a amiga
dos Titãs. O álbum foi um sucesso no mercado indepen-
Era desgraça pura jogada no ventilador para um público
dente, e músicas como “Puteiro em João Pessoa”, “Nega
que se acostumara a consumir aquele tipo de noticiário.
Jurema” e “Selim” caíram na boca da garotada. Os Devo-
A banda tocou também “Vida de ferreiro”, porradaria de
tos do Ódio tinham, nesse dia, uma outra apresentação
menos de dois minutos que contava a história de seu
em outro local. Foram a pé até lá, fizeram o show e foram
Antônio, que “todo dia, o dia inteiro, acorda cedo para
andando até o Circo Maluco Beleza. Passaram com os ins-
no trampo começar...”, pois “esse é meu trabalho, meu
trumentos no meio da multidão, subiram no palco e fize-
amigo, eu tenho mais de trinta filhos, pra comer tenho
ram um baita show. Algumas pessoas viram ali, pela pri-
que trampar”. E a conclusão, simples, direta, objetiva,
meira vez, um show dos Devotos do Ódio, que pegou boa
punk: “Vida de ferreiro é hardcore, seu Antônio, pode
parcela do público roqueiro de classe média dos Raimun-
crer!” E veio o final com “Punk, Rock, Hardcore, Alto José
dos. A imensa roda de pogo2, tradicionalíssima nos shows
do Pinho”, com mais de 2 mil pessoas respondendo que
do trio, deixou parte da plateia embasbacada. A banda
o punk rock hardcore feito no Alto José do Pinho era “do
tocou “Caso de amor e ódio”, música inspirada no telejor-
caralho”. Para os que estavam presentes àquele show,
nalismo sanguinolento na linha do Aqui e agora, extrema-
como eu, é difícil acreditar, mas a verdade é que a banda
mente popular na época. Um baixo sinistro começava a
voltou a pé para o Alto José do Pinho, levando o bom e
dialogar com uma batida incômoda, criando, no ouvinte,
velho baculejo antes de subirem o morro.
uma sensação de claustrofobia. Depois entrava a guitarra
cortante de Neilton, e Cannibal começava a cantar:
Caso de amor e ódio
Gil Gomes vai contar

2  Tradicional dança punk em que o público forma um círculo e fica girando


em torno dele. Não raro é confundida com briga por policiais.
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Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 137

Já é natal, dia de alienação

Demos Enquanto milhares festejam


Outros passam fome
Tem mesa farta

Tem brinquedo para dar


É a burguesia se acabando de alegria

Na rua a tristeza
Do pobre a mendigar
Na casa a miséria
Do natal que não vai chegar
Pobre do menino DEUS
Que não precisa mendigar
Para ele tudo tem
Os Devotos do Ódio finalmente iam realizar o sonho de Para ele nada vai faltar
gravar um vinil. Na verdade, era uma coletânea com
Tem a oração
outras duas bandas, Delinqüentes, do Maranhão, e Karne Tem a devoção
Crua, de Sergipe. O projeto foi intitulado “Cooperativa do Tem a alienação
Kaos.” A ideia era colocar no mercado um álbum apenas De um povo cristão
com bandas punks do Nordeste, mas faltou grana para
A plateia, em sua maioria composta de pessoas de classe
finalizar a empreitada, e o disco não vingou. Carlos, edi-
média alta, ficou atônita, sem saber como reagir, se
tor do fanzine “Recifezes”, junto com Marcus Arbar, da
aplaudia ou vaiava. A banda tocou mais algumas músicas,
produtora Maos Contatos, tentaram lançar as faixas dos
desceu do palco e fez o caminho de volta para casa a pé.
Devotos do Ódio que seriam utilizadas na coletânea em
um compacto da banda. Neilton chegou a fazer a capa e o Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas, os Devo-
fotolito, mas o projeto não foi adiante por falta de verba. tos não desanimaram e trataram de seguir em frente do
jeito que dava, na base da raça mesmo.
Nessa época, Paulo André convidou os Devotos para
tocarem num evento chamado “Mangue Feliz”, que seria Como ainda não tinham condições de alcançar o sonho
realizado no Circo Maluco Beleza e contaria com a pre- de gravar um vinil, coisa extremamente cara na época, os
sença de várias bandas do movimento. O trio fez todo o meninos dos Devotos do Ódio nutriam um carinho e zelo
percurso do Alto José do Pinho até o local do show (cerca especiais por suas fitas demo, que enchiam os olhos de
de 4 km) a pé, levando os instrumentos nas mãos. Che- quem as comprava. Bom de desenho, Neilton caprichava
garam exaustos, com os pés cobertos de poeira (alguns na arte das fitinhas. Criava capas com encartes, tudo
tinham ido de chinelo, outros, de coturno, calçado comum desenhado à mão. Da matriz, tirava cópia dos desenhos, e
entre os punks). Subiram ao palco e tocaram “Já é Natal”, todas as fitinhas vinham personalizadas, com o nome do
composição de protesto ainda hoje inédita em gravação: grupo desenhado nelas.

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Nessa época, participaram do concurso de bandas Recife na gravação do vídeo da música que integra o documen-
Rock Show, festival produzido pela Arte Viva e realizado tário “Punk, Rock, Hardcore, Alto José do Pinho é do
no bairro de Boa Viagem, em que os Devotos ficaram em caralho”, aquele que supostamente foi visto e aprovado
primeiro lugar, superando Jorge Cabeleira e o Dia em que por Bono, em Dublin. “Vida de ferreiro” teve ótima cir-
Seremos Todos Inúteis, que ficou em segundo, e Os Mor- culação no Brasil. A troca de fitas entre as bandas era
domos (que nada mais era do que o Jorge Cabeleira ins- uma constante no país. Quando alguma banda de fora
crito com outro nome) em terceiro. No júri estavam, entre aparecia para tocar no Recife, voltava com a bagagem
outros, Chico Science e Paulo André. Curioso é que Neilton repleta de demos de grupos da cidade. Assim foi com
não gostou do resultado. Ele queria o segundo prêmio, um os Raimundos. E, no caso dos Devotos do Ódio, havia
amplificador, e ficou bastante chateado quando o amigo o apelo natural por ser uma banda de punk rock de um
André Nanyca deu a notícia. morro recifense. E, ainda por cima, tinha a história da
guitarra de Neilton.
Pouco depois, os Devotos tocaram no Recife Summer
Fest, festival que contou com a paulistana Viper na pro- Chico Science mostrou a invenção para os Raimundos,
gramação. Apresentaram seis músicas: “Nova Vida”, que, obviamente, piraram com a história. Chico até che-
“São Fatos da Guerra”, “Asa Preta”, “Luz da Salvação”, gou a aconselhar Neilton a explorar a história da guitarra.
“Pela Justiça” e “Futuro Inseguro”. A banda gravou o Mas Neilton tinha claro na cabeça que o instrumento
show e lançou em fita cassete. Neilton caprichou e fez não havia sido fabricado com essa finalidade. O líder do
um capa gigante, estilo mapa, que, aberta, trazia o S e a movimento mangue sempre demonstrou interesse em
cruz formando um cifrão e as letras de todas as músicas trabalhar com os Devotos. Como, até então, nunca havia
tocadas. Eram nítidos o carinho e o zelo com que a banda tocado na periferia, propôs fazer um show junto com o
fazia suas demos. trio no Alto José do Pinho. O evento teria o nome “Esta-
mos por cima”. Chico também pensava em abrir um selo,
A banda então entrou em estúdio e gravou, com cuidado
e os Devotos era a primeira banda que ele queria produzir.
profissional, “Vida de ferreiro”, até hoje, uma das demos
Infelizmente, Chico morreu sem realizar o desejo de tra-
mais disputadas pelos colecionadores. Nela apareciam
balhar com o grupo.
composições um pouco mais rebuscadas, que iam um
pouco além do punk rock, como “Fogo cruzado”, que ter- Paralelo ao trabalho musical com os Devotos do Ódio,
minava com um verso mortal de Cannibal: “Inocentes e Neilton ia se aperfeiçoando na arte de desenhar. Suas
culpados são estilhaçados. Aqui todos são vítimas: fogo camisetas pintadas rendiam um bom dinheirinho, e eram
cruzado.” Era o retrato fiel do Alto José do Pinho. E de tão benfeitas que pareciam saídas de fábrica. Passou a
todos os subúrbios do Recife. “Vida de ferreiro” trazia receber encomendas personalizadas. Um amigo che-
também “Uma bala na agulha”, “Formando opiniões”, gava para ele e dizia que queria uma camiseta de deter-
“Enganado”, “O homem monstro” e “Faz parte do coti- minada banda que contivesse um desenho específico. E
diano”. “Punk, Rock, Hardcore, Alto José do Pinho” tinha o desenho era feito à perfeição por Neilton. O guitarrista
sua primeira versão gravada, a mesma que foi utilizada via os anúncios das lojas de camisas em revistas gringas
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de música, como a Guitar Player, e copiava todos os dese- E os shows nas ruas no Alto José do Pinho, aqueles com
nhos. Foi ficando tão craque naquilo que alguns amigos grades de cerveja servindo de sustentação para um
sugeriram que ele partisse para a pintura de verdade, na tablado improvisado como palco, permaneciam firmes e
tela. Neilton, sempre muito modesto, dizia que aquilo não fortes. E, agora, com o aval da Rede Globo e da MTV. Mui-
era para ele, e continuava firme na produção de camise- tos jovens de classe média passaram a subir o morro para
tas e de capas de demos. Fez as capas de todas as demos se divertir nesses shows, para se juntar aos moradores do
das bandas do Alto José do Pinho. Generoso, Neilton gra- Alto José do Pinho nas rodas de pogo, espaço punk demo-
vou as demos de boa parte das bandas do Alto José do crático onde todas as classes sociais se misturavam. E,
Pinho em sua casa, sem cobrar um centavo sequer, pois para espanto de todos, esses jovens de classe média
não queria que elas enfrentassem as mesmas dificul- eram muito bem recebidos pelos moradores do Alto José
dades que ele enfrentou para conseguir gravar. Neilton do Pinho. Não demorou muito, o bairro criou fama por
ainda não sabia, mas começava a construir uma sólida ser um local calmo, onde se podia tomar uma cerveji-
carreira de artista gráfico e plástico, além de designer. nha por um preço justo e ver shows de bandas punks do
bairro e até de fora dele. Os moradores passaram a ter
Já Celo arrumou um emprego como agente de saúde,
orgulho de morar no morro. E o orgulho era fruto do tra-
trabalho que gostava bastante de fazer, pois envolvia,
balho justamente daqueles meninos que eram margina-
de certa forma, um exercício de conscientização nas
lizados em sua comunidade. Ainda hoje, muitos deles,
comunidades carentes. Gostava de dizer que fazia uma
já adultos, casados e com filhos, guardam certa mágoa
espécie de trabalho de psicólogo, conversando com as
por terem sido tão discriminados naquele período. Mais
pessoas. Só que as atividades com os Devotos do Ódio
do que orgulho para os moradores, o Alto José do Pinho
foram ficando cada vez mais intensas, as viagens eram
se transformou em referência para as demais periferias,
muitas, e o chefe acabou encostando Celo na parede:
e não havia cidadão no Recife que não se orgulhasse da
“E aí? Vai continuar trabalhando com a gente ou vai ser
reviravolta acontecida no bairro. A imprensa, que antes
artista?” “É, vou ter que sair.” A partir daquele momento,
só subia o morro para cobrir assassinatos ou deslizamen-
Celo seria músico profissional para o resto da vida, sem
tos de barreiras, agora procurava o Alto José do Pinho
tempo ou espaço para exercer qualquer outra atividade.
para pesquisar sua cultura. E, mais uma vez, os meninos
Caminho que tinha escolhido desde cedo, aos 12 anos,
deram um belo exemplo de generosidade.
ao ver aquele baterista de banda de baile tocando numa
festinha na Mangabeira.
Cannibal, nas horas vagas, exercitava suas origens negras,
tocando baixo na Nanica Papaya, banda de reggae de seu
amigo André. Pouco tempo depois, sua figura ficou extre-
mamente conhecida nas ruas do Recife, pois ele ia pes-
soalmente aos colégios do centro da cidade divulgar os
shows dos Devotos do Ódio.
Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 145

Tem afoxé,
a mesma matéria e foto que trazia Devotos do Ódio, Mata-
lanamão, Faces do Subúrbio, A Ostenta e Terceiro Mundo
reproduzia, também, o pessoal do maracatu Estrela

tem punk rock, Brilhante e do afoxé Ylê de Egbá. Os meninos sabiam a


frustração que era desenvolver um trabalho social e cul-

tem rock’ n’ roll, tural e não ter o reconhecimento da sociedade. E, ainda


por cima, ser marginalizado por morar no morro. A histó-
ria era a mesma, só mudavam a época e os ritmos. Nada
tem samba e mais natural então, para Cannibal, Neilton, Celo, Peste,
Ronrona e todos os outros, que chamar a turma do mara-

tem pagode 3 catu e do afoxé para tentar sanar uma injustiça histórica.
Por essas e outras, os meninos viraram o jogo de forma
impressionante na comunidade. Passaram a ser res-
peitados de tal forma no bairro que ainda hoje tamanha
aceitação causa certo estranhamento. Esteticamente,
pouca coisa mudou. Quase ninguém no morro, fora os
integrantes das bandas, gosta de rock. Em compensa-
ção, hoje não há quem não admire o trabalho que eles
desenvolveram e ainda desenvolvem na comunidade. E
Fato raro na imprensa em todo o mundo, os três jornais justo “aqueles vagabundos de preto, maconheiros que
da cidade se juntaram para fazer uma matéria sobre as não queriam nada com a vida”. Às vezes, a vida tem um
bandas de rock do Alto José do Pinho. O normal é que um senso de humor bem punk...
jornal queira ferrar o outro, obter matérias exclusivas,
furos. Porém, à época, o Jornal do Commercio, o Diário de
Pernambuco e a Folha de Pernambuco subiram o morro
juntos para uma reportagem conjunta sobre o movi-
mento roqueiro do Alto José do Pinho. Efeito dominó
provocado pela Rede Globo e, principalmente, pela MTV,
que tratou de apresentar o Alto para todo o país. Além
de juntar todas as bandas do Alto José do Pinho, Canni-
bal e seus amigos fizeram questão de chamar o pessoal
do maracatu e do afoxé, que já tinham grande tradição
local, mas nunca tiveram espaço na mídia. Assim sendo,
3  Trecho da letra da música “Tem de tudo”, dos Devotos do Ódio, gravada no
álbum Agora tá Valendo (1997).

144
Bar do Orlando: o CBGB do Alto José do Pinho 147

por homéricas rodas de pogo em seus shows fosse fã do


rock inglês produzido nos anos 1980.

Anos 1980
Mas os integrantes da banda passaram a encarar a B.U.
de formas distintas. Enquanto para Neilton a banda era
apenas uma fuga ao hardcore dos Devotos do Ódio, mais
uma forma de ampliar seus horizontes como músico,
para Cannibal e Celo, a coisa era mais séria. Eles acre-
ditavam que a banda tinha potencial para fazer carreira
no grande circuito. Como as pretensões de Neilton eram
bem mais modestas, o guitarrista tratou de pular fora e
acompanhar tudo de longe. Luciano foi recrutado para
ocupar seu lugar. O B.U. existe até hoje e, volta e meia, é
Bá, um dos amigos de infância dos meninos, tocava gui- escalado para algum show independente no Recife.
tarra na Egoesmo com Celo. Com o fim da banda, Bá ficou
cerca de um ano parado. Celo então juntou o útil ao agra-
dável, e, como já sentia necessidade artística de dar vazão
às suas influências do rock inglês dos anos 1980, resolveu
criar uma nova banda que trouxesse Bá de volta ao meio
musical. Nasce a B.U. (Bond of union, nome dado por Neil-
ton, referente ao quadro de Escher), banda que traz Celo
na bateria e nos vocais, Neilton e Bá nas guitarras e Micro
no baixo. Todas as composições eram em inglês. Poste-
riormente, Cannibal assumiu a bateria, deixando Celo com
liberdade para se dedicar apenas aos vocais. Luciano, que
sempre acompanhava os ensaios e shows da banda, ficou
com o lugar de Micro no baixo quando ele deixou o grupo.
O B.U. abraçaria a sonoridade dark de bandas como
Bauhaus, com letras melancólicas escritas por Celo nas
folgas entre um show e outro dos Devotos do Ódio. Esteti-
camente, nada produzido pela B.U. teria espaço nos Devo-
tos do Ódio. A temática da maioria das composições era
sobre amores frustrados e relacionamentos problemáti-
cos. Nenhum dos temas sociais de sua banda de origem.
O grupo chamava atenção justamente pelo inusitado.
Pouca gente imaginava que aquela banda responsável

146
Cap.02
Não somos marginais
Não somos marginais 151

O The Boys of the Rap foi tocar no Arte Viva, uma academia
de propriedade de uma senhora chamada Lourdes Rossi,
que abria o local para shows de rock. Ela é considerada
até hoje uma espécie de madrinha do hip-hop, pois foi a
primeira a abrir espaço para os grupos locais. Sem contar
que o Arte Viva virou um programa de televisão veiculado
pela TV Jornal, retransmissora do SBT no Recife. Nesse
dia em que o The Boys of the Rap tocou no Arte Viva,
havia mais de cem pessoas na plateia, todas ligadas
ao movimento hip-hop de Recife. E os meninos se apre-
sentaram no formato tradicional, cantando em cima de
bases pré-gravadas. Cannibal havia levado Paulo André
para assistir, e ele gostou do que viu. Mais tarde, reuni-
Zé Brown e Tiger criaram o hábito da escrita. Colocaram
dos com o pessoal do movimento hip-hop, Paulo André
no papel tudo o que enfrentaram na pele desde que se
perguntou a alguns membros qual seria a reação deles
entendiam por gente. O preconceito que sofreram por
frente a um convite da Sony Music para gravar um disco.
serem negros e moradores de uma das comunidades
A maioria reagiu de forma radical, dizendo que gravar
mais violentas do Recife. Haviam nascido para escre-
por uma major era coisa de playboy ou de vendido. Paulo
ver, só não tinham descoberto a vocação até então. Foi
André então repetiu a mesma pergunta para Tiger e Zé
quando decidiram que já estava na hora de mostrar seu
Brown. Mais antenados e esclarecidos do que a maio-
trabalho. Ou, pelo menos, um pouco dele. Na terceira
ria ali, responderam que, se o contrato fosse legal para
e última edição do Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll, em
eles, assinariam sem o menor problema. Paulo André
1993, Zé Brown pediu que Cannibal fizesse umas levadas
perguntou se eles conheciam o álbum Judgment Night,
de baixo no estilo funk para ele se apresentar com Tiger
trilha sonora do filme homônimo — lançado no Brasil
no evento. Cannibal disse que não conseguia. Zé Brown
como Judgement Night: uma jogada do destino — que
apelou então para Neilton e Celo, que toparam o desa-
trazia bandas de rap tocando com grupos pesados como
fio e improvisaram na hora, lá no Bonsucesso Futebol
Slayer. Como os meninos não conheciam, Paulo André
Clube, umas levadas balançadas para a dupla se apre-
emprestou o disco a eles. Os caras ouviram e gostaram.
sentar escudada por alguns dançarinos. Foi a primeira
Ligaram para Paulo André para agradecer a atenção. E o
apresentação deles, que ainda atendiam pelo horroroso
último conselho de Paulo André foi fundamental. “Tro-
nome de The Boys of the Rap. O show foi quase todo de
quem de nome. Esse de vocês é muito americanizado.
dança, e Tiger e Zé Brown recitaram algumas coisas de
Procurem achar um que tenha mais a ver com vocês.”
improviso. Depois disso, Nilson, irmão de Neilton, foi
Tiveram a ideia de Faces do Subúrbio. Mas o empurrão
recrutado como DJ por eles. Assim como o irmão, que
definitivo para a carreira do Faces foi do Devotos do
fabricou sua guitarra, Nilson também fez sua primeira
Ódio. No Abril pro Rock de 1994, os Devotos teriam vinte
pickup a partir de sucatas.

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154 Devotos 20 anos Não somos marginais 155
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e cinco minutos de show. Cannibal perguntou a Paulo pediu para tocar no grupo. Era Garnizé, que, mais tarde,
André se daria para acrescentar mais cinco minutos no ficaria nacionalmente conhecido por ter sua história
tempo de apresentação da banda, pois ele queria levar o contada no filme “O rap do pequeno príncipe contra as
Faces do Subúrbio para fazer uma participação no show almas sebosas”, de Paulo Caldas e Marcelo Luna. Gar-
deles. Paulo André disse que era impossível. Mas afir- nizé indicou Oni como guitarrista, e, para completar a
mou que, durante o tempo deles de show, a banda pode- banda, chamaram Marcelo Massacre, baixista do Ter-
ria fazer o que bem entendesse. Então Cannibal, Neilton ceiro Mundo. Essa formação, mais o DJ KSB, que entrara
e Celo cederam cinco minutos de sua apresentação para no lugar de Nilson, gravou a demo “Não somos mar-
chamar ao palco o Faces do Subúrbio, que foram apre- ginais”, que trazia as músicas “Críticas e críticas”, “O
sentados ao público como “uma banda nova de rap do Brasil do racismo”, “Homens fardados” e a faixa-título.
Alto José do Pinho”. A plateia, formada em sua maioria Esse trabalho ganhou o prêmio de melhor demo de 1996
por fãs de hardcore, gostou da novidade, e o Faces foi pela revista Trip. Foram convidados por Gutie para a edi-
muito aplaudido. ção paulista do Rec-Beat, e o pai de Tiger não acreditou
quando o filho disse que viajaria para São Paulo. “Tá pen-
Empolgados, gravaram, na casa dos pais de Neilton e
sando que São Paulo é ali em Camaragibe?” Só acreditou
Nilson, uma demo intitulada “Ser Negro”, onde Nilson
quando viu uma matéria na Rede Globo, que mostrava o
fazia as bases e Zé Brown e Tiger cantavam. A capa,
filho embarcando em um ônibus para São Paulo com as
como de costume, foi feita por Neilton, e trazia a figura
outras bandas do Recife.
de Nelson Mandela estampada nela. Nilson, além de DJ
do Faces, foi o técnico de som da demo. O esforço deu E as coisas começaram a acontecer rápido para o Faces.
resultado. Uma cópia dela acabou parando nas mãos Mas eles ainda precisariam superar muitos preconceitos.
de Chico Accioly, diretor de cinema e publicitário que
na época cuidava da carreira de Chico Buarque. Ele
viu o potencial que existia ali e bancou a segunda fita
demo, “Não Somos Marginais”. Como a dupla gostou da
fusão que ouviu em Judgment Night, decidiu montar uma
banda. Seria o segundo “sacrilégio” cometido por eles
no meio hip-hop. O primeiro foi misturar rap com embo-
lada, o que dava ao som que faziam um delicioso sota-
que nordestino e os diferenciava dos demais grupos do
estilo. A ideia da embolada surgiu após um conselho de
Chico Science, que, ao assistir a um show da dupla junto
com Paulo André, sugeriu que os meninos mergulhas-
sem na embolada assim como ele, Chico, havia feito com
o maracatu. Um baterista de Camaragibe1, fã da banda,

1  Município vizinho localizado na região metropolitana do Recife.


Cap.03
Quero até sua mulher

Cap.03
Quero até sua mulher
Quero até sua mulher 161

É preciso fazer justiça a uma qualidade, muitas vezes,


deixada de lado no Matalanamão: o som. A banda criou
uma linguagem sonora muito bem definida, própria. “Os
peitinhos”, por exemplo, é um cruzamento do rock surgido
nos anos 1950 com riffs pegajosos emprestados do metal.
“Mim dai” (sic) é outra canção muito bem trabalhada,
com uma linha de baixo extremamente criativa. “Primi-
nha” segue a linha de “Os peitinhos”. Porém, no caso do
Matalanamão, é compreensível que o som acabe ficando
Com a ascensão de Devotos do Ódio e Faces do Subúrbio em segundo plano. Não bastassem todas as idiossincra-
na cena local, começaram a circular, no Recife, histórias sias da banda, Ronrona ainda cismou que deveria fazer
sobre uma banda punk que cantava sobre masturbação os shows fantasiado. Assim sendo, já cantou vestido de
e cujo vocalista era incrivelmente bom de palco. E, de colegial, com minissaia e tudo. De bebê, com direito à
fato, Adilson Ronrona, vocalista do Matalanamão, pode fralda. De camisinha, bombeiro, xeque, com pijaminha
ser considerado um show à parte. Primeiro, por superar de cetim. Foram tantas fantasias que um produtor, certa
todos os limites pessoais: o braço direito é defeituoso, vez, confundiu as coisas e sugeriu que eles seguissem a
tem problema de dicção e ainda assim é capaz de segu- linha dos Mamonas Assassinas. Ao contrário do humor do
rar um show inteiro na base da garra. E da anarquia e da grupo de Guarulhos, que tinha um quê de ingênuo e caiu
palhaçada também, evidente. nas graças das crianças, o do Matalanamão era cínico e
deliberado até as últimas consequências. E eles chega-
Um dia, ainda adolescente, Ronrona descobriu Morris-
ram a pagar um preço por isso. Tanto que demorou anos
sey por meio do programa Super special, da rede Ban-
até conseguirem gravar o primeiro disco. E sofriam sérias
deirantes. Apesar de achar a performance do líder do
perseguições por parte da ala mais radical dos punks. A
The Smiths muito “bichal”, viu que tinha algumas coi-
essas perseguições, o baixista Jaiminho costumava dizer:
sas interessantes a extrair dali, principalmente a dança,
“Vocês não gostam de mulher?” E, ao serem questionados
que acabava chamando tanta atenção quanto a música.
se seriam sexistas ou machistas, a resposta costumava
O garoto ficou fascinado também com o Kiss, com suas
ficar na fronteira entre a genialidade e a ingenuidade:
roupas e maquiagem extravagantes. Em suma, Adilson
“Podemos até ser sexistas por causas das letras. Mas
nunca conseguiu distinguir música de imagem, tanto
machistas, não.” Vamos a alguns exemplos do lirismo da
que seu passatempo preferido era ver programas de
banda, como “Priminha”:
videoclipe que passavam na Bandeirantes e na extinta
TV Manchete. MTV ainda era um sonho distante naquela Chegou uma prima minha
época. Enfim, para Ronrona, não bastava ser vocalista Que veio de São Paulo
Cheia de sotaque
de uma banda que tinha a masturbação como mote prin-
Boa pra caralho
cipal. Ele queria ir além. E foi.
Seu nome é Cristina

160
162 Devotos 20 anos Quero até sua mulher 163

Tem um corpo que me atrai


Não só a mim como a meu pai
Fico sem controle
Cheio de tesão
Quando estou com ela

Assistindo televisão (sic)


Cristina, minha filha
Prepare-se para ver
Eu vou ter um orgasmo
Em homenagem a você

Definitivamente, não dava para imaginar isso sendo can-


tado pelos Mamonas Assassinas. Uma vez, a banda foi
tocar em João Pessoa. Umas punks mal-encaradas não
gostaram do que viram, e menos ainda do que ouviram. No
intervalo entre as músicas, começaram a xingar Ronrona,
que devolveu as provocações. Peste, sabendo do perigo
da situação, tratou de emendar uma música na outra para
que não desse tempo de Ronrona discutir com as punks.
Certa hora, cutucou o vocalista com a baqueta e disse:
“Meu irmão, você está louco? A gente não está em casa.”
Ronrona continuou o show como se nada houvesse acon-
tecido. No final, quando desceram do palco, foram cerca-
dos pelas punks. Mal-humorado, de saco cheio, Ronrona
foi logo perguntando: “O que vocês querem?” Elas então
disseram que não gostaram de “Os peitinhos”, e pergun-
taram se ele tinha alguma coisa contra mulher. Ronrona
apontou para Peste e disse que ele era o autor da letra,
deixando a confusão para o baterista resolver. Peste não
chegou a apanhar, mas esteve bem perto disso.
Uma das lendas que cerca o Matalanamão é que eles
teriam sido expulsos do Mauristad, casa de shows que
funcionou na década de 1990 no Recife Velho, porque
um dos integrantes da banda estava se masturbando ao
espiar uma menina trocar de roupa no camarim vizinho.
Nada mais com a cara do Matalanamão do que isso.
esqueça
Cap.04
Nós faremos que você nunca esqueça
Nós faremos que você nunca esqueça 167

tiava os meninos. A matéria saiu com o título de “Devotos


têm pressa de gravar”.
Cannibal aproveitou a deixa para compor “Eu Tenho
Pressa”, que se tornaria um dos hits da banda e que ser-
viu, durante muito tempo, como música de abertura dos
shows do grupo:
Eu tenho pressa de vencer
Eu tenho pressa de vingar
Vencer para me suceder
Pintou a possibilidade dos Devotos do Ódio gravarem seu
Vingar para me realizar
primeiro disco de forma independente, em 1995. A banda
ficou amiga de Clemente, dos Inocentes. O contato com Vivendo assim eu vou morrer
o líder dos Inocentes foi feito através de um fã dele de Vivendo assim eu vou matar
Eu tenho pressa de vencer
São Paulo, que viu um show dos Devotos e propôs gra-
Eu tenho pressa de vingar
var o disco por um selo que estava criando. A gravação
seria na capital paulista. Eles encararam uma viagem Era a tradução perfeita do sentimento da banda na
de carro do Recife até São Paulo. Chegando lá, deu tudo época. Não parecia, mas o grupo já tinha nove anos de
errado. Eles descobriram que o sujeito era apenas um carreira, estava em um nível absolutamente profissio-
fã, sem a menor experiência em trabalho com bandas e nal, mas nada de o disco sair.
gravadoras. Clemente lamentou profundamente a situa-
Nessa época, Paulo André era empresário e produtor
ção, pois era tão vítima quanto os Devotos. Para piorar
de Chico Science & Nação Zumbi. Em julho de 1996, a
a situação, Cannibal sonhou com sua mãe adotiva, dona
Sony Music lançava no mercado Afrociberdelia, segundo
Maria, pedindo que ele voltasse para casa, que ali não
disco do grupo. A banda faria dois shows de lançamento
era o lugar dele. Impressionado com o sonho, Cannibal
do álbum em São Paulo, no Tom Brasil, e Paulo André
contou para Celo e Neilton, que decidiram voltar imedia-
aproveitou para levar os Devotos do Ódio como banda de
tamente para o Recife.
abertura, e instalou o trio em um quarto triplo no mesmo
O fruto positivo do episódio foi a amizade que surgiu entre hotel em que ficou hospedada a Nação Zumbi. Fazia
a banda e o vocalista dos Inocentes. A partir deste epi- muito frio em São Paulo, e Cannibal, Celo e Neilton não
sódio, o jornalista Marcelo Pereira, do Jornal do Commer- haviam levado roupas que os agasalhassem o suficiente.
cio, um dos primeiros a descobrir, junto com José Teles, o Durante o show dos Devotos, Paulo ficou sabendo que o
movimento mangue, publicou uma matéria sobre a agonia vereador paulista e atuante da cena rock de São Paulo,
do trio em gravar o primeiro disco, a demora em assinar Turco Louco, estava na plateia, e disse que era a chance
contrato com uma gravadora, e como essa espera angus- de Cannibal arrumar uns agasalhos. Cannibal não per-
deu a deixa, e, no intervalo de uma das músicas, falou

166
168 Devotos 20 anos Nós faremos que você nunca esqueça 169

ao microfone: “Turco Louco, meu irmão, eu sei que você


está aqui vendo o show. Descola uns casacos pra gente
que nós estamos morrendo de frio aqui em São Paulo.”
O vereador foi conhecer o trio no camarim e, no dia
seguinte, descolou os casacos para a banda. O fato his-
tórico: os Devotos do Ódio foi o primeiro grupo de rock
com guitarra pesada a se apresentar no Tom Brasil.
Paulo André, na época, ainda trabalhava de forma infor-
mal para os Devotos, mais na base da brodagem. Mau-
rício Valladares, um executivo da BMG, que havia visto
os Devotos do Ódio em edições anteriores do Abril Pro
Rock, disse a Paulo André que tinha interesse em assinar
contrato com a banda, mas que só o faria se Paulo traba-
lhasse como produtor deles. Foi assim que Paulo André
virou empresário oficial dos Devotos do Ódio, e a banda,
finalmente, assinou com uma gravadora para lançar seu
disco de estreia.
Os Devotos do Ódio já haviam conquistado um belo pata-
mar na cena punk nacional. Seus shows faziam sucesso,
o grupo ficou conhecido pelas enormes rodas de pogo que
provocava em suas apresentações quando assinou com a
BMG Ariola, mesma gravadora do Só Pra Contrariar, que,
em épocas de bonança da indústria fonográfica, vendia
milhões de discos.
O contrato com a BMG foi um alívio em um primeiro
momento. Recrutaram Lúcio Maia, guitarrista de Chico
Science & Nação Zumbi, para produzir o disco, que foi
batizado de “Agora tá valendo”. O álbum era um desabafo
de 18 faixas. Já na abertura, com “Formando opiniões”,
ficava a deixa de como a banda estava engasgada com
tudo: “já se foi o tempo de esperar uma solução”, gritava
Cannibal. “Dia morto” aparecia como música de traba-
lho, e chegou a ganhar um clipe filmado em película, em
que a banda passeava pelas ruas do centro de Recife, no
170 Devotos 20 anos Nós faremos que você nunca esqueça 171

Alto José do Pinho e em Peixinhos, com Cannibal vestindo Chico Science havia morrido em um acidente de carro,
uma camiseta preta escrita INRI. “Punk, Rock, Hardcore, e a comoção ainda era grande. Naquele ano, o festi-
Alto José do Pinho” ganhava sua versão definitiva, assim val contou, em sua programação, com Paralamas do
como “Vida de ferreiro”, “Luz da salvação”, “Caso de amor Sucesso, Ratos de Porão e Arnaldo Antunes. Max Cava-
e ódio”, “Fogo cruzado” e “Nova vida”. O disco impres- lera, recém-saído do Sepultura, veio dos Estados Unidos
sionava pela crueza, e, principalmente, pelo trabalho de para conferir o evento. Os Devotos do Ódio fizeram uma
guitarra de Neilton. “Enganado”, por exemplo, trazia um apresentação correta, mas pouca gente ali conhecia o
pouco das influências de fora do mundo punk do guitar- repertório do disco. Emocionado, Cannibal dedicou o
rista. E a penúltima faixa do disco era uma canção que show a sua filha recém-nascida, Lais, e disse que o CD
parecia traduzir todo o passado, o presente e o futuro da estava à venda em um stand ali mesmo, no Centro de
banda: “Mas eu insisto”. O álbum terminava com “Futuro Convenções. Foi como adquiri o meu.
inseguro”, primeira composição da vida dos Devotos.
O disco possibilitou algumas viagens, e garantiu a popu-
Neilton fez as ilustrações, e o projeto gráfico ficou por laridade da banda, pelo menos, na região Nordeste. Mas
conta da Ouriço Designer, empresa de Pernambuco. Todo os perrengues continuavam.
o trabalho gráfico foi feito no Rio de Janeiro. A capa estam-
O fato é que os Devotos do Ódio eram contratados de uma
pava o desenho, sobre um fundo azul, do rosto de um anjo
grande gravadora, mas recebiam um tratamento pior ao
morador de rua com uma tarja preta cobrindo os olhos.
que costuma ser dado a uma banda independente, como
O guitarrista não ganhou um centavo pelas ilustrações.
lembra Neilton: “A gente ficou num hotel perto da grava-
O encarte ainda trazia um longo e emocionado texto de
dora (BMG). Hotel três estrelas, com uma delas já apa-
Fábio Massari, que contava como ele havia descoberto a
gando e caindo (risos). E a gente tinha a grana contada pra
banda e o Alto José do Pinho.
tocar e passar um mês lá. E o café da manhã da gente era
A banda não gostou da produção do álbum. Achou que o pão com queijo, uma banana e café com leite. Aí ficava
som ficou chocho, que não reproduzia fielmente a violên- assim até a hora do almoço, geralmente às quatro e meia
cia sonora dos shows da banda. Para piorar, alguns punks da tarde, pra gente poder compensar o jantar, que não ia
mais radicais chegaram a acusar o grupo de traidor do ter. Todo dia era isso. E o resto da noite era a barriga ron-
movimento por ter gravado um disco por uma grande gra- cando. A gente entrava naquele puta prédio da gravadora,
vadora e por ter feito um clipe veiculado pela MTV. Como cheio de seguranças, de bermuda e chinelo para encher
gosta de dizer João Gordo, vocalista do Ratos de Porão e nossas garrafas de água. O passatempo da gente era ficar
apresentador da MTV, punk só dá valor “se você for feio, olhando as meninas na praia1.”
sujo e comer merda”.
Entretanto, aos trancos e barrancos, “Agora tá valendo”
O lançamento de “Agora tá valendo” foi no Abril Pro Rock acabou circulando no circuito punk. A BMG não sabia
de 1997. O festival crescera a tal ponto que precisou trabalhar a banda, e esperava que ela atingisse o mesmo
mudar de endereço. Saiu do Circo Maluco Beleza para patamar de vendas do Só Pra Contrariar. Quando foram
o Centro de Convenções. Fazia apenas dois meses que
1  Ibidem.
172 Devotos 20 anos Nós faremos que você nunca esqueça 173

se apresentar no Abril Pro Rock de 1998, os Devotos já pos-


suíam um séquito de fãs, as músicas do disco já eram bas-
tante conhecidas entre os punks e, até mesmo, por quem
apenas simpatizava com o rock, mas não era necessaria-
mente fã da banda.
Naquela noite, a grande atração do festival era a banda
americana Suicidal Tendencies, que levou uma verdadeira
multidão ao pavilhão do Centro de Convenções. O problema
é que a banda desmarcou o show na última hora, alegando
que a mãe de um dos integrantes havia morrido. A produção
ficou desesperada. Temia por tumulto e revolta por parte
do público. E Cannibal, Celo e Neilton estavam tranquilos
no camarim, e até se divertiam um pouco com a situação.
Chegou a hora do show, o trio subiu no palco. Cannibal ves-
tia a camisa da seleção brasileira. Educado, cumprimentou
o público: “Boa-noite, Abril Pro Rock! Nós somos os Devo-
tos. Do Alto José do Pinho. O importante mesmo é ter um
festival de nossa terra sendo encerrado por uma banda de
nossa terra!” E emendou com o berro “EU TENHO PRESSA
DE VENCER”. E foi aberta então uma das maiores rodas de
pogo de que se teve notícia no Brasil. Poucas pessoas ali
pareciam sentir a ausência do Suicidal Tendencies. Canni-
bal comprovava que tinha um carisma acima do comum. E
a banda soube se aproveitar da estrutura de som que ser-
viria aos gringos. Tecnicamente, foi o mesmo show de sem-
pre, mas liberaram toda a mesa de som para eles, o que
deu a impressão do som tomar uma dimensão maior e mais
alta do que, de fato, era. O público, ainda ressentido com a
perda de Chico Science, viu, em Cannibal, a possibilidade
de substituir o ídolo tragicamente morto um ano antes,
embora essa nunca tenha sido a intenção dele. Os Devotos
tocaram ainda duas músicas novas: “Nós faremos que você
nunca esqueça” e “O herói”, uma “homenagem” ao policial
“Rambo”, famoso na época por ser acusado de atirar e tirar
a vida de um inocente em Diadema, São Paulo. O refrão:
174 Devotos 20 anos Nós faremos que você nunca esqueça 175
176 Devotos 20 anos Nós faremos que você nunca esqueça 177

O herói está à solta E um triunfante Cannibal saiu-se com essa: “Morder eu


O herói está fudido não mordo, mas comer eu até posso.” Cannibal diz que,
E todo mundo viu até hoje, recebe os parabéns de muita gente na rua pelo
Que o herói é um bandido
fora dado na global.
No final do show, Cannibal se despediu utilizando uma frase
que seria, dali por diante, sua senha para abrir e fechar as
apresentações do grupo. “Voltem para casa na paz e com
cuidado, porque alguém que ama muito vocês está espe-
rando em casa.” Talvez isso explique, em parte, por que
raramente os shows dos Devotos terminam em violência.
Ainda em 1998, os Devotos do Ódio comemoraram dez
anos de carreira em show no Circo Maluco Beleza, com
direito à abertura da banda americana Man Or Astro-
man?. O curioso desse show é que um amigo meu perdeu
seus óculos na roda de pogo e só os encontrou depois
de eles serem esmagados e pisoteados. Apesar de ser
quase cego sem óculos, voltou para casa feliz da vida por
ter uma história tão boa para contar no show de come-
moração dos dez anos da banda de que tanto gostava.
Até 1998, a TV Jornal, retransmissora do SBT no Recife,
detinha os direitos de transmissão do Abril Pro Rock.
Em 1999, a Rede Globo percebeu o apelo nacional que
o evento possuía, e resolveu fazer uma cobertura em
rede. Como sempre deu mancada nessa área (música, e
principalmente música jovem), a Globo escalou a repór-
ter-atriz Cissa Guimarães para cobrir o festival. Em
um sábado à tarde, durante a passagem de som, Cissa
entrou no ar ao vivo pelo Vídeo Show. Cannibal estava ao
seu lado. Assim que entrou no ar, a repórter começou
com a verborragia típica do programa da Rede Globo:
“Gente, eu estou aqui com Cannibal, dos Devotos do
Ódio! Será que ele morde? E aí, Cannibal, você morde?”
Cap.05
Homens fardados, eu não sei, não
Homens fardados, eu não sei, não 181

do Subúrbio começou a tocar “Homens fardados”. O


público abriu uma roda de pogo. Assustada e desacos-
tumada com aquilo, a polícia pensou que se tratava
de briga, e uns oitenta policiais partiram para cima do
público armados de cassetetes. O grupo parou de tocar
e, ao microfone, Zé Brown e Tiger perguntaram por que
a polícia estava batendo no público. Chegaram até a
explicar que aquilo ali não era briga, mas uma dança
comum nos shows de punk. Não houve acordo, e o show
foi encerrado na mesma hora. A verdade é que a polícia
não gostou nem um pouco do teor da letra. Após o show,
Em 1994, o Faces do Subúrbio embarcou em um ônibus
policiais invadiram o camarim e levaram Tiger, Zé Brown
rumo a São Paulo com mais 11 bandas pernambucanas
e Garnizé para a delegacia. Cada um levou um tapa no
para uma edição paulista do festival Rec-Beat. Do Faces
pescoço. Chris Couto, então repórter da MTV, estava
do Subúrbio, apenas Zé Brown, Tiger, Nilson e dois dança-
no show, assim como Marcelo Yuka, à época baterista
rinos foram para a capital paulista. No show, os Devotos
do Rappa, e tratou de espalhar a notícia via telefone. A
do Ódio faziam papel de banda de apoio. Depois do show
notícia logo circulou. Os rapazes foram liberados e, no
deles, um paulista do movimento hip-hop de São Paulo
dia seguinte, um comandante da Polícia Militar dava
fez questão de conhecer a banda recifense que fazia rap.
uma entrevista à Rede Globo, na primeira edição do NE
Era Rappin Hood, com quem o Faces do Subúrbio estrei-
TV, dizendo que a banda era formada por arruaceiros,
taria relações mais tarde.
que estavam incitando a violência e que tinham ultra-
Com o sucesso da demo “Não somos marginais”, a banda passado todos os limites da liberdade de expressão.
assinou contrato com a MZA para gravar o primeiro disco, Como bem lembrou Zé Brown em entrevista ao autor:
“Faces do subúrbio”, com distribuição da Polygram. O “Desde quando liberdade de expressão tem limite?” O
álbum abria de cara com dois petardos, “Não somos mar- caso repercutiu de forma muito negativa para o governo
ginais” e “Homens fardados”. Essa última trazia letra ins- do Estado. O governador na época, Miguel Arraes, tinha
pirada de Tiger, cujo refrão era: um histórico de perseguição política, tendo ele próprio
Homens fardados, eu não sei, não
sido destituído do poder na época do regime militar. Ele
Se julgam os tais, os donos da razão tratou, então, de solicitar uma reunião com Tiger, Zé
Homens fardados, eu não sei não Brown e Garnizé no Palácio das Princesas e convocou
Insistem em fazer justiça a imprensa e, em público, pediu desculpas ao grupo. O
Com as suas próprias mãos secretário de Cultura da época, o genial – porém xenó-
fobo – escritor Ariano Suassuna, assistia a tudo calado,
A banda foi convidada para fazer um show no Parque
ao lado do governador. Na edição noturna do NE TV, o
de Exposições do Cordeiro, em um evento do governo
mesmo comandante da Polícia Militar aparecia em nova
de Pernambuco chamado “Todos Com A Nota”. O Faces

180
182 Devotos 20 anos Homens fardados, eu não sei, não 183

entrevista, mas com discurso diferente, dizendo que


houve “um pouco de abuso de autoridade por parte dos
policiais”. O caso foi tema de matéria no Fantástico. Uma
semana antes, os integrantes do Planet Hemp haviam
sido presos, acusados de apologia ao uso de maconha.
Tanta celeuma em torno da apresentação do Faces do
Subúrbio teve o desfecho que a banda esperava: os CDs
venderam como água, e desapareceram das lojas em
questão de dias. Foi aberto inquérito para apurar o caso.
Alguns policiais perderam o cargo.
Era assustador, mas, em 1997, ainda existiam resquí-
cios da ditadura militar. O incidente serviu ao menos
para jogar luz na carreira do Faces do Subúrbio. O rap
embolada do grupo crescia no universo hip-hop do país.
E, algum tempo mais tarde, a banda ficaria internacio-
nalmente conhecida pelo que realmente havia de impor-
tante em sua obra: a música.
Cap.06
Goticar1

1  Gíria criado pelo grupo: o ato de se masturbar no escuro.


Goticar 187

Candeeiro. A produção ficou a cargo de Pupilo, baterista


da Nação Zumbi. O álbum continha 14 faixas que falavam
de sexualidade em linguagem crua, por vezes, até chula,
mas sempre muito engraçada. Peste escrevia as letras
O Matalanamão, aos poucos, ia seguindo os passos dos mais pesadas, enquanto cabia a Ronrona a parte mais
vizinhos Devotos do Ódio e Faces do Subúrbio. Geraldi- “romântica” do latifúndio do Matalanamão. E a banda fez
nho, um dos sócios da antiga casa de shows Mauristad, história ao ter o clipe de “Os peitinhos” censurado na pro-
criou um festival chamado PE no Rock, que, em suas gramação da MTV. Gravado pelo pessoal da Rec, produ-
primeiras edições, era totalmente dedicado às bandas tora do Recife, o clipe foi vetado muito mais em função
pernambucanas. O Matalanamão fez uma bela apresen- da letra do que das imagens, que mostravam Ronrona em
tação na primeira edição do evento, em 1998, no Circo uma sala como professor dando aula para um grupo de
Maluco Beleza. Descarados, colocaram uma menina de colegiais. O detalhe saboroso da história é que o vídeo
calcinha e sutiã no palco para gemer enquanto a banda foi gravado no Colégio Santa Maria, também conhecido
tocava “Priminha”, aquela do “prepare-se para ver/eu como “colégio das freiras”.
vou ter um orgasmo em homenagem a você”. Em um show
Com o disco embaixo do braço, a banda bancou uma
particularmente hilário numa das edições do PE no Rock,
turnê por conta própria até São Paulo. Alugou uma van
Adilson Ronrona entrou no palco fantasiado de bom-
e, com R$ 4.500,00 no bolso foi se apresentar no festi-
beiro, para, segundo ele, “apagar o fogo das meninas”.
val SP Punk, que trazia 42 bandas do estilo em dois dias
Ailton Peste já trabalhava na Secretaria de Saúde do de shows. Metade da banda ficou hospedada na casa de
Recife e, volta e meia, estava engajado em algum evento Lirinha, vocalista do Cordel do Fogo Encantado. O jor-
beneficente. Passou a descobrir que o Matalanamão nalista Xico Sá tratou de arrumar abrigo para o restante
era um excelente veículo para fazer campanha de alerta do grupo. Foram para fazer cinco shows e acabaram
para a prevenção de doenças sexualmente transmissí- fazendo sete. Tiveram até convite para tocar em Santos,
veis. Ronrona também se empenhava em fazer trabalhos mas a grana havia acabado e foram obrigados a voltar
sociais no Alto José do Pinho. Não parecia, mas os meni- para Recife. Ironia das ironias, o Matalanamão, perse-
nos responsáveis por todo o escracho do Matalanamão guido por punks radicais no Nordeste, havia sido aceito
eram jovens cientes da responsabilidade que possuíam, de braços abertos em São Paulo, berço dos skinheads e
e engajados em mudar o quadro social – ou pelo menos dos punks mais violentos do país.
tentar – das periferias do Recife. Pena que os punks
Antes de voltar ao Recife, gravaram uma participação no
mais radicais e as feministas não conhecessem essa
programa RG, veiculado pela TV Cultura e apresentado
outra faceta da banda.
por Soninha. Só que o programa não chegou a ir ao ar,
O grupo, enfim, conseguiu assinar contrato com uma gra- pois a apresentadora foi demitida após dar uma entre-
vadora, e lançou seu primeiro disco, homônimo, pelo selo vista à revista Época em que admitia fumar maconha.

186
Cap.07
Me ajude a ser humano

Me

Cap.07
Me ajude a ser humano
Me ajude a ser humano 191

havia percorrido ao longo da carreira, mas era a primeira


vez que se apresentava nesses locais com palco e som
de primeiro mundo, sem a estrutura precária do início
de sua jornada. Os fãs mais antigos chegavam a se emo-
cionar nesses shows, pois foram testemunhas da barra
que os Devotos enfrentaram na primeira vez que fizeram
esse circuito. Muitos levavam seus filhos. Nascia, ali,
a segunda geração de fãs da banda. Sem contar com a
satisfação dos moradores dessas regiões, que, pela pri-
meira vez na vida, testemunhavam um evento com exce-
lente estrutura em seus bairros.
Devotos e Nação Zumbi uniram forças e criaram, em
1999, o projeto “Acorda Povo”. O evento tinha como O sucesso foi tão grande que o “Acorda Povo” cresceu
metas levar música de qualidade para a periferia da e ganhou uma segunda edição no ano seguinte, agora
cidade e oferecer oficinas de fotografia, quadrinhos e apoiado pelo governo do Estado. Participaram, além dos
demais modalidades. A empreitada teve apoio da prefei- Devotos e da Nação Zumbi, nomes como Mestre Ambró-
tura do Recife, e, em sua primeira edição, passou pelos sio, Mundo Livre S/A, Otto e Eddie. Nesta edição, Devo-
bairros da Bomba do Hemetério, IPSEP, Alto da Bondade tos e Nação Zumbi tocavam em dias separados.
e Areias, entre outros. Durante a semana, eram realiza-
O “Acorda Povo” foi de vital importância para os Devotos,
das as oficinas. Aos sábados, shows gratuitos de Devo-
porque ali conseguiram provar (inclusive para eles) que era
tos e Nação Zumbi, além de uma banda local do bairro.
possível realizar shows de qualidade e com equipamento
Para a Nação, o “Acorda Povo” foi importante por vários
técnico de ponta no subúrbio. O trio ainda tentou organizar
aspectos. Primeiro, porque a banda estava retomando a
uma terceira edição do evento, que circularia pelas cida-
carreira depois do impacto da perda de Chico Science.
des do interior de Pernambuco, mas não conseguiu viabi-
Segundo, porque era a primeira vez que o grupo se apre-
lizar o projeto.
sentava nos subúrbios da capital pernambucana, coisa
que deixou os integrantes impressionados pela quan-
tidade de gente e receptividade do público, que não
parava de pular e cantar durante todo o show. Certa vez,
em entrevista para a MTV, o baixista da Nação, Dengue,
afirmou que o melhor show da carreira da banda tinha
sido na Bomba do Hemetério. Que, em todo o mundo, ele
jamais havia visto nada parecido.
Para os Devotos, o “Acorda Povo” tinha um gosto espe-
cial. A banda voltava a tocar em todo o circuito que já

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192 Devotos 20 anos Me ajude a ser humano 193
Me ajude a ser humano 195

Eu tenho a fome
A música contou com a participação do próprio Dado nos
vocais. A banda gravou também “O Herói” e “Nós fare-
mos que você nunca esqueça”, ambas já conhecidas nos

de viver shows. E o disco trazia uma surpresa: uma versão para


“Selvagem?”, do Paralamas do Sucesso, que contou com
a participação de Herbert Vianna nos vocais. Rás Ber-
nardo, primeiro vocalista do Cidade negra, e Toni Platão
também cantam no álbum. Toda a arte gráfica do disco,
mais uma vez, foi feita por Neilton. A capa retrata uma
O segundo disco do Devotos foi gravado em um clima bem Nossa Senhora da Aparecida segurando um anjo branco
melhor do que o primeiro. Dado Villa-Lobos, ex-Legião com um rabo de demônio. E Nossa Senhora da Conceição,
Urbana, abrigou o grupo em seu selo, o Rock It! Ele havia também com um anjo negro com um rabo de demônio. As
visto o show do Devotos no Abril pro Rock de 1999, e ficou duas santas, no desenho do Neilton, aparecem velhas e
impressionado com o som da banda. As gravações foram cansadas. A contracapa mostra uma santa grávida nua,
no estúdio Rock IT!, de propriedade do guitarrista. Dado com a barriga com um certo movimento angustiante. Mas
acabou se tornando um dos grandes amigos dos Devotos. o detalhe que mais impressiona é outro. O pai de Neilton
Nesse período, Cannibal compôs aquela que ele considera é analfabeto, e a mãe só tem a formação primária. Um
a sua obra-prima, Alien: dia, o guitarrista pediu que o pai escrevesse o alfabeto
Eu vim aqui mesmo sem planos em um papel. Como sofre de mal de Parkinson, ele, com
Estou aqui não sei por que muita dificuldade, desenhou um A. A mãe o ajudou com
Me ajude a ser humano o restante das letras. O resultado ficou bem diferente
Não quero me perder do convencional, com um certo toque artístico. Neilton
Não quero falar dos meus sonhos
aproveitou aquele material para criar uma nova fonte,
Não quero pedir para viver que batizou de “Fonte Devotos/Pai”, e a utilizou nos cré-
Me ajude a ser humano ditos das músicas do disco, na contracapa do álbum.
Não quero me perder
Àquela altura, Neilton não era conhecido apenas como
Eu tenho o sono dos anjos guitarrista do Devotos, mas também como artista plás-
Eu tenho a fome de viver tico de talento.
Me ajude a ser humano
Não quero me perder Os Devotos foram convidados para tocar em Portugal, e
Paulo André colocou o trio em um avião rumo a Lisboa. A
Não quero falar dos meus sonhos
banda se apresentaria num evento chamado Palco Sound
Não quero pedir para viver
6, no Parque das Nações. Era a primeira vez que uma
Me ajude a ser humano
banda do Alto José do Pinho tocava fora do país. Eles divi-
Não quero me perder... diram a noite com os portugueses do Trinta e Um, grupo

194
196 Devotos 20 anos Me ajude a ser humano 197
198 Devotos 20 anos Me ajude a ser humano 199

que tem um público bem numeroso no circuito punk e


hardcore do país. O show foi ótimo, os discos dos Devotos
que estavam à venda no local se esgotaram, mas a expe-
riência por lá não foi das melhores. Eles passaram uma
semana em Portugal sem ter o que fazer, sozinhos, sem
produtor. Chateados, perceberam a oportunidade que
estavam perdendo, pois em uma semana daria para agen-
dar vários shows na Europa. Tiveram de voltar para casa
com apenas um show na bagagem. A relação dos Devotos
do Ódio com seu empresário Paulo André, também produ-
tor do Abril Pro Rock, começou a ficar tensa. A banda deci-
diu não se apresentar mais no festival, alegando não ter
nada de novo para mostrar. Paulo André não entendeu a
recusa da banda em participar do Abril Pro Rock, pois era
o sonho de 99% das bandas brasileiras tocar no festival.
Para piorar as coisas, a banda decidiu suprimir o “do ódio”
do nome do grupo, ficando só Devotos. Alguns punks não
perdoaram, e viraram as costas definitivamente para a
banda, acusando-a de ser vendida e de ter se entregado
ao sistema. Mas já era a intenção deles mudar de nome
desde o lançamento do primeiro disco. Além de o grupo
ser barrado em um monte de programas por causa da
força do nome, o trio estava extremamente insatisfeito
pela confusão semântica causada pela interpretação do
significado de Devotos do Ódio. Muita gente achava que
a banda fazia a apologia à violência, o que deixava o trio
fulo da vida.
Me ajude a ser humano 201

Nasce um artista

As camisetas pintadas à mão foram ficando pequenas


para a arte de Neilton. Após fazer todas as ilustrações
dos dois primeiros discos dos Devotos e assinar o cená-
rio dos shows, o guitarrista começou a mexer com outras
mídias. Neilton chegou a fazer um curso de artes gráficas
quando adolescente, mas achava-o insuficiente, e sen-
tia que estava desatualizado. Ainda assim, juntou uma
grana e comprou um computador usado. Nele, fez todo
o projeto gráfico do segundo disco dos Devotos. Nunca
havia trabalhado com Corel ou qualquer outro pro-
grama de computador, e aprendeu tudo na marra, sozi-
nho, “cutucando de madrugada”. Dessa forma, fez o site
dos Devotos. Neilton se beneficiava de duas coisas: da
curiosidade extrema que sempre possuiu e da preguiça
alheia. Como não tinha outra pessoa que fizesse, Neilton
fez a capa de todas as demos das bandas do Alto José do
Pinho, o que não era pouco, uma vez que o bairro chegou
a contabilizar 14 bandas trabalhando simultaneamente.
Passou a se interessar por animação, e mergulhou de
cabeça no assunto. Aos poucos, ia maturando sua car-
reira de artista plástico, que, mal sabia ele, havia come-
çado aos 6 anos de idade, quando rabiscou os primeiros
desenhos do Spectreman que via na televisão.

200
Me ajude a ser humano 203

Carisma o dia seguinte: os Devotos fechariam a noite. Os punks


abarrotaram a rua da Moeda para conferir a apresen-
tação dos Devotos. O Matalanamão tocaria antes, e a
banda se divertia já no camarim, com Adilson Ronrona
se fantasiando de colegial, com saia azul curtinha, blu-
sinha branca e peruca loira. A banda subiu no palco,
começou a tocar e dois sujeitos invadiram o palco para
depois, pularem de lá. Aos poucos, uma multidão foi
subindo no palco, e a banda não conseguiu dar sequência
ao show. O pessoal do Matalanamão considerou aquela
“Alien” tocou, de forma tímida, em algumas rádios, e a invasão uma prova irrefutável de sucesso, e desceram
banda gravou um clipe para a música, tendo novamente do palco felizes da vida, mesmo tento tocado apenas
como cenário o Alto José do Pinho. Neilton sempre gos- duas músicas. Gutie, produtor do festival, temia pelo
tou de trocar ideias com pessoas ligadas ao trabalho com pior. Tinha medo que aquilo terminasse em tragédia, que
vídeo e, nos bastidores da gravação do clipe de “Alien”, alguém se machucasse seriamente ou até morresse. Foi
perguntou para a equipe técnica qual era o melhor pro- até o camarim dos Devotos e expôs seu medo à banda.
grama para trabalhar com animação. Já estava pensando, “Galera, vocês vão ter que subir lá e conter esse pes-
na época, em montar o site dos Devotos. soal, senão a coisa vai ficar braba.” Gutie apostou todas
as fichas no carisma de Cannibal. A banda subiu no
No início de 2001, com o segundo disco recém-lançado, a palco. Como de costume, abriram o show com “Eu tenho
banda foi convidada para tocar no Rec-Beat, que, naquele pressa” e, mal Cannibal terminou de berrar as três pala-
ano, contava com programação especial, tendo a banda vras, três sujeitos subiram ao palco para se jogarem na
Mudhoney, um dos pilares do movimento grunge, como multidão. A banda parou de tocar. Cannibal começa o
atração principal. A rua da Moeda, no Centro Velho do discurso, curto e grosso: “Rapaziada, é o seguinte: palco
Recife, começava a ficar pequena para as proporções do é o espaço da banda. Quem quiser subir nele que trate de
festival. Não bastasse tudo isso e, às vésperas do carna- montar a sua. O próximo que subir a gente para o show e
val, a Polícia Militar ameaçou entrar em greve. não volta mais.” Eu estava no palco naquela noite. Logo
No primeiro dia do Rec-Beat, fechado pelo Ira!, a coisa já depois de Cannibal ter falado isso, o roadie da banda
havia sido problemática. A banda quase não conseguiu abriu um sorriso maroto e me disse: “Não sobe mais nin-
tocar, pois vários skatistas invadiram o palco para fazer guém.” Dito e feito. A banda tocou por quase uma hora e
manobras e dar moshs1. Na base da boa vontade (muita), meia, e ninguém ousou subir no palco novamente. Era,
o Ira! levou o show até o fim. O policiamento, escasso, de fato, incrível o carisma que Cannibal possuía. Após
mal dava conta do recado. A preocupação maior era com aquele ano, Gutie resolveu não contar mais com a sorte
ou com o carisma alheio e, desde então, contrata uma
1  Quando alguém mergulha do palco para a plateia. Muito comum em shows
empresa de segurança particular para garantir a integri-
de punk e de hardcore.
dade do público e dos artistas no festival.

202
p.08 Cap.08 Cap.08
íticas e críticas Críticas e críticas Críticas e críticas
Críticas e críticas 207

Meu Deus, me perdoe,


Mas contra sua vontade eu vou roubar
Já que ninguém quer me alimentar.
Minha cola acabou
E o respeito por mim também,
Nesse momento estou pedindo auxílio a alguém.

Com o retrato de duas crianças no lixão da Muribeca1 na


capa, Como é triste de olhar é um disco-denúncia, tendo
como principais temas a exploração infantil e a violência
Com o incidente do show no Parque de Exposições, o pri-
praticada contra menores.
meiro disco do Faces do Subúrbio esgotou sua primeira
tiragem e a banda não tinha mais dinheiro para prensar Suas apresentações ao vivo continuavam destoando das
outra. Assim sendo, a mistura de pandeiro e rap do grupo dos demais grupos de rap, pois eles mantinham firme
ganhou novo impulso, e o álbum teve boa circulação a proposta de tocar com banda, o que deixava exalta-
também fora do universo hip-hop. E, de forma pioneira, o dos os setores mais conservadores do hip-hop. Garnizé,
Faces do Subúrbio trouxe a dupla de emboladores Caju e baterista do grupo e morador do município de Camara-
Castanha para o rap. O Faces do Subúrbio foi ganhando gibe, na região metropolitana do Recife, tinha sua vida
cancha, mergulhando fundo em pesquisas musicais, e contada no filme “O rap do pequeno príncipe contra as
aprofundou ainda mais o diálogo entre o pandeiro serta- almas sebosas”, de Paulo Caldas e Marcelo Luna. O filme
nejo e as batidas americanas. Viria à luz, em 2000, Como traça um paralelo entre as vidas de Ganizé e de Helinho,
é triste de olhar, álbum que trazia o grupo no auge de sua jovem justiceiro da cidade, que ganhou reputação por
força criativa. Não à toa, o disco foi indicado ao Grammy exterminar bandidos. Recheado de imagens do Alto José
Latino de melhor disco de rap. A poesia do grupo tam- do Pinho, o filme mostra uma visita de Mano Brown, dos
bém havia amadurecido. Vide versos como: Racionais Mc’s, ao bairro, além de trechos de shows do
Como é triste de olhar
Faces do Subúrbio.
O sorriso de uma criança Um dia, Zeca Baleiro, também contratado da MZA,
Em um mundo sem esperança mesmo selo que abrigava o Faces do Subúrbio, quis
Sem poder se alimentar.
escutar a mistura de embolada com rap do grupo. Ele
Como é triste de olhar
estava compondo o material para seu disco Embolar, e
A criança na cidade com a marginalidade
Comendo um pão por dia
acabou gostando do que ouviu. Convidou então o grupo
Filho de José e Maria para musicar uma letra sua, “Piercing”. O Faces não só
Sem ter como estudar. musicou como ainda acrescentou uma parte sua à letra
Aí começa a cheirar cola de Baleiro e participou da gravação da faixa.
E na sequência a roubar.
1  Bairro extremamente pobre da periferia do Recife, que abriga um dos depó-
Inocentes, sobreviventes que não param de lutar.
sitos de lixo da cidade.

206
Cap.09 Cap.09
Coletânea Coletânea
Coletânea 211

A tônica do álbum é o rock nacional dos anos 1980. Bebem


dessa fonte B.U., com “Existirá” e “Nada importa” e A
Ostenta, com “A relva seca” e “Outro herói”, e Atitaia,
com “Verdades e mentiras” e “Ao acaso”. O tiro no alvo
acabou sendo mesmo com o escracho punk masturba-
tório do Matalanamão, presente com “Os peitinhos” e
“Amorzinho”. A coletânea ganhou uma versão ao vivo,
em evento que será comentado aqui mais adiante.
Em 1999, o pessoal do Alto José do Pinho teve a ideia
de gravar uma coletânea com as bandas do bairro.
Com apoio da prefeitura do Recife e lançado por meio
de lei de incentivo à cultura, chegava às lojas, no iní-
cio de 2000, o disco “Alto Falante”, com as bandas B.U.,
Nanica Papaya, A Ostenta, Matalanamão, Ataque Sui-
cida e Atitaia. Cada banda entrou com duas músicas.
As ilustrações do disco, mais uma vez, foram feitas
por Neilton. A capa trazia um alto-falante desenhado
sobre fundo branco. Dentro do álbum, uma foto com
vista aérea do Alto José do Pinho. No encarte, fotos 3x4
dos integrantes de todas as bandas. Generosa, a cole-
tânea não trazia apenas grupos do Alto José do Pinho.
A Ostenta, como já foi falado antes, era de Beberibe e
tinha sido adotada pelo pessoal do morro desde o início
do movimento. Já a Ataque Suicida é uma importante
banda punk do bairro de Peixinhos que, assim como as
demais colegas de coletânea, ainda não havia chegado
ao primeiro disco. A Atitaia, que faz um pop com enfoque
no rock nacional dos anos 1980, também é de Peixinhos.
Era a estreia também do Matalanamão, que, na época,
ainda não havia gravado o primeiro disco, embora uma
faixa deles, “Mim dai”, tivesse ido parar em uma cole-
tânea picareta de FM intitulada Rock da cidade. “Alto
falante” ainda trazia bônus com faixas dos Devotos (“Mas
eu insisto” e “Pertencer”) e do Faces do Subúrbio (“Acos-
tumados com a violência” e “Os tais”).

210
Coletânea 213

Preconceito

Em 2002, os Devotos foram convidados para tocar em


São Paulo, dentro da programação do Da Tribo Festival,
evento que reuniria, em três noites, bandas de metal e de
punk de todo o país. A primeira noite seria fechada pelos
Ratos de Porão. A segunda, pelo Krisiun, e a terceira pelos
Devotos. O trio, acompanhado de Wally e Rildo (roadie e
técnico de som da banda), ficou hospedado na casa do
produtor do festival, na Voluntários da Pátria, área nobre
da capital paulista. O terreno ficava em frente à um dos
colégios mais caros de São Paulo, e uma de suas partes
era formada por um casarão abandonado com uma placa
escrita “vende-se” na frente. Os meninos passavam horas
tomando banho de sol nesse lugar. Um dia, dois policiais
e uma delegada invadiram o local, de armas em punho,
e mandaram os meninos encostarem na parede e colo-
car as mãos na cabeça. Lá fora, todo um aparato policial
aguardava o desdobrar dos acontecimentos. O lugar havia
sido confundido com cativeiro, e a banda, com sequestra-
dores. Alguém do colégio, desconfiado com a presença
de roqueiros cabeludos e de cabeça raspada circulando
na área, denunciou os rapazes. Demorou um pouco até
o equívoco ser esclarecido. E a delegada ainda pergun-
tou para Celo se ele queria dar um pulinho na delegacia
para ver quantos, com a mesma cara dele, estavam pre-
sos. Era um recado pouco sutil que queria dizer: corte o
cabelo e tire a barba. Infelizmente, roqueiro brasileiro,
para a polícia, tem cara de bandido.

212
Cap.10
Faz parte do cotidiano

Cap.10
Faz parte do cotidiano 217

diabinho aparece de joelhos, com expressão de súplica,


rezando. Machado de Assis surge em um impressionante
retrato feito por Neilton, e divide a página do encarte com
um desenho do terminal do Alto José do Pinho. Cartunis-
tas da revista Ragu, João Lin, Samuca, Mascaro e Fravão
também contribuíram com ilustrações, assim como os
novos artistas Izaby e João Luiz.
Musicalmente, o disco traz uma crueza que os dois pri-
meiros não foram capazes de reproduzir. Abre com “Roda
Depois de serem mal trabalhados na BMG e de lança- Punk”, uma ode às rodas de pogo, tão comuns nos shows
rem um disco pelo selo de Dado Villa-Lobos, os Devo- da banda. Em seguida, “Brincando de Deus”, um petardo
tos decidiram abraçar de vez a carreira independente. ensurdecedor sobre as motivações do ataque de 11 de
A partir dali, produziriam seus discos e terceirizariam a setembro. Vem, então, o desabafo de “Nosso ninho”:
distribuição. Assim fizeram com A hora da batalha, disco Moramos, não esqueça
lançado em 2003 e gravado no estúdio caseiro de Can- Esse é o nosso ninho
nibal. Os Devotos haviam firmado, com Nilton Pereira e Quem nunca ouviu falar
sua equipe, uma parceria com o pessoal da TV Viva, de No Alto José do Pinho?
Olinda, que foi responsável por alguns clipes dos Devo- Subúrbio de Recife
Zona Norte, urubu
tos, como “O Herói” e “Roda Punk”, entre outros. A pro-
Se for discriminar
dução gráfica, mais uma vez, foi assinada por Neilton,
Vá tomar no cu!
e era a mais caprichada de todas até o momento. Neil-
ton já flertava seriamente com as artes plásticas, e o A surpresa consistia justamente em uma música cha-
projeto gráfico foi uma espécie de ensaio para sua pri- mada “Assis”, em homenagem ao escritor negro Machado
meira exposição, realizada no ano seguinte. A capa de de Assis. A faixa-título vem com participação especial de
“A hora da batalha” é um mosaico de imagens, com des- Lula Côrtes no vocal, em que ele declara, junto com Can-
taque para um olho enfurecido no canto esquerdo supe- nibal: “Não queremos uma guerra armada/Mas, como já
rior, uma negra carregando o filho pequeno nas costas no dissemos, estamos preparados.” Outra participação é de
lado esquerdo e o D dos Devotos ao centro. O encarte é uma velha amiga de Cannibal, a cantora baiana Pitty, que,
caprichado, com cada música sendo representada por na época em que o álbum foi lançado, ainda batalhava por
um desenho. Alguns são bastante pesados, como o de seu quinhão de espaço na indústria da música e estava
“Se eu falar posso morrer”, cuja ilustração são vários longe de ser a estrela que é hoje. Ela divide os vocais com
homens que parecem arrancar seus rostos como se Cannibal em “Faz parte do cotidiano”, música resgatada
fossem máscaras. Em “Dá um sentido para a vida”, um da fita demo “Vida de ferreiro”. João Gordo, via telefone,
berra em “Votou errado”. E tinha mais desabafo, dessa

216
218 Devotos 20 anos Faz parte do cotidiano 219

vez, ainda menos sutil, com “Só os que não pensam têm a sabia que um dia precisaria dessa grana extra para os
consciência limpa”: instrumentos, pra gravar. É com essa grana que a gente
Vão tomar no cu
guarda só pra banda que a gente consegue fazer as coi-
Vão se fuder sas3”. “A Hora da Batalha” foi resultado de um investi-
Vão tomar no cu mento da banda em si mesma, pois as coisas ficaram
Filhos da puta que estão no poder complicadas depois que optaram por não lançar mais
discos por gravadora.
E, coisa inédita, o álbum termina com um reggaezi-
nho, “Pra aliviar”. À época, escrevi na revista Zero que 3  Entrevista feita e publicada pelo autor para o site Recife Rock! (http://www.
reciferock.com.br/2008/01/27/entrevista-devotos-20-anos).
“com 15 anos de estrada, sem gravadora, sem produtor,
fazendo o que dá na telha, Celo Brown (bateria), Canni-
bal (baixo e vocal) e Neilton (guitarra) encontraram o
mapa da mina. Definitivamente, eles não precisam de
produtores1”. Na mesma edição, Cannibal me explicava
como a banda procederia dali em diante. “Tivemos que
aprender muito. Procurar um selo, mixar. A gente nunca
tinha feito isso. Queremos fazer os discos e oferecer às
gravadoras. Jamais ceder os direitos para as gravado-
ras2.” “Hora da Batalha” ganhou, ao lado do Sepultura,
que lançava “Roorback”, capa do Caderno 2 do jornal
carioca O Globo, cuja manchete dizia que “O Brasil é o
país do barulho.”
A partir desse disco, os Devotos seriam responsáveis por
todas as etapas da linha de produção: da composição das
músicas, passando pela mixagem e gravação, projeto
gráfico, até a distribuição. A banda prensou 1.500 cópias
do disco e distribuiu pessoalmente em algumas lojas,
até fechar contrato com uma empresa que bancasse a
distribuição. O álbum foi todo produzido com grana pró-
pria, a quarta parte que eles separavam do dinheiro que
ganhavam com os cachês dos shows e guardavam no
banco. Como me explicou Cannibal, “a grana que a gente
pegou a gente sempre dividiu por quatro, porque a gente

1  Texto publicado na revista Zero, número 10.


2  Idem.
220 Faz parte do cotidiano 221
Cap.11
Faces na França
Faces na França 225

foi chamado Perna, baterista do Armas da Verdade, grupo


de hardcore da nova geração do Alto José do Pinho. O
grupo entrou em estúdio para gravar “Perito em rima”,
disco que foi lançado via Lei de Incentivo à Cultura e que
teve uma circulação bem modesta. Para piorar, a banda
começou a ser vítima de calotes de empresários. Fazia
shows e não recebia o cachê. O pior de tudo aconteceu em
São Paulo, quando um produtor carioca os abandonou em
plena turnê, deixando a banda de bolso vazio. Precisaram
voltar de São Paulo até o Recife de ônibus, literalmente
passando fome. “Voltamos de São Paulo para cá de ôni-
Se o pai de Tiger só acreditou que o filho ia tocar em São
bus sem comer nada, três dias de fome.” No Recife, o
Paulo depois que viu o rapper na televisão, a coisa não
circuito de shows foi ficando cada vez menor. Os proble-
foi muito diferente quando ele anunciou que o Faces do
mas acarretaram muita discussão entre os integrantes,
Subúrbio tocaria na França. Tiger mais uma vez precisou
e Tiger achou melhor dar um tempo do Faces do Subúrbio
da ajuda da televisão para provar ao pai que não estava
para não perder os amigos de infância.
de brincadeira. O pai só acreditou quando, novamente,
a Rede Globo exibiu uma matéria sobre o filho, desta Hoje a banda está parada. Zé Brown se aprofundou nos
vez mostrando Tiger deitado debaixo da Torre Eiffel. A estudos da embolada, chegando até a fazer pesquisa de
banda foi uma das atrações do Ano do Brasil na França, campo na Zona da Mata do Estado. As pesquisas cul-
em 2005, e tocou em Paris, em um teatro com capaci- minaram com o lançamento de seu primeiro disco solo,
dade para 300 pessoas, com lotação esgotada nos dois “Repente rap rapente”, produzido por Skowa, figura-
dias em que se apresentou. “É outro mundo, você fica chave da música black nacional e ex-líder do grupo Skowa
de cabeça inchada, até mesmo por conta do fuso horá- & a Máfia.
rio1”, conta Tiger. “As pessoas são educadas. Você sente
Tiger também partiu para a carreira solo, e está em
a diferença. Você não vê ninguém jogando papel na rua.
estúdio gravando Poder simbólico, seu primeiro disco
É outro mundo2.” Além das apresentações no pequeno
solo. Tanto ele quanto Zé Brown afirmam que o Faces do
teatro, a banda fez uma participação no palco principal
Subúrbio não acabou, que a banda apenas está dando
no show de DJ Dolores.
um tempo para voltar em breve com nova formação.
Na volta da França, as coisas começaram a degringolar.
Garnizé já havia deixado a banda para fixar residência no
Rio de Janeiro, onde assumiu as baquetas do F.U.R.T.O.,
novo grupo de Marcelo Yuka, ex-O Rappa. Em seu lugar,

1  Entrevista ao autor.
2  Idem.

224
Cap.12
Quem é o pai?

Cap.12
Quem é o pai?
Quem é o pai? 229

aborda a indústria da guerra. O projeto gráfico, coisa


rara, não foi assinado por Neilton, mas por Adriano Leão,
que já havia sido guitarrista do Matalanamão. Adriano
também é autor de várias músicas da banda, entre elas
“Mim Dai”, composta por ele, Celo e Marcelo Massacre, e
que aparece creditada erroneamente no primeiro álbum
como sendo de Peste e Jaiminho. A capa, toda rosa, traz
a ilustração de uma mulher cochichando no ouvido da
outra, com o título “Quem é o pai?” acima do desenho e
Após um intervalo em que alguns integrantes mergu- o nome da banda embaixo dele. A faixa-título é um punk
lharam de cabeça em projetos sociais, o Matalanamão direto com letra de Peste:
voltou à ativa com o segundo disco, o igualmente escra-
Ela deu sem querer
chado “Quem é o pai?”, lançado em 2005. A produção do
Para o cara que sumiu
disco gerou um certo desconforto. Percebendo que a A gravidez que chegou
banda estava sem perspectiva, Neilton resolveu bancar, A família que sentiu
de forma independente, a produção do álbum. Celo tra- Quinze anos perdidos
balhou como co-produtor. Peste, em silêncio, inscreveu Dois corações partidos
um projeto para o disco ser financiado através de Lei de O filho vem de mão e vai
Incentivo à Cultura, o que acabou acontecendo. Neilton Minha filha...
ficou extremamente chateado com a situação, por não Quem é o pai?

ter sido informado sobre o projeto, e decidiu se afastar. Apesar da boa faixa-título, o álbum é nitidamente infe-
Passou, desde então, a acompanhar de longe a carreira rior ao primeiro, e teve repercussão bem modesta no cir-
do Matalanamão. “Quem é o pai?” traz várias composi- cuito roqueiro do Recife. A banda ainda chegou a fazer
ções antigas, da época em que Celo ainda fazia parte da um bom show de lançamento no festival Pré-Amp, na rua
banda. É o caso de “Os 3 tabacos”, “Aeromoças”, “Love”, da Moeda, onde, literalmente, lançou o disco, jogando
e “Goticar”. Esta última deixa claro que o lirismo do cópias de “Quem é o pai?” para a plateia. Ironia máxima
Matalanamão sempre foi o mesmo, desde os tempos de no caso do Matalanamão, seus integrantes não acha-
Celo. Eis o refrão: vam mais espaço em suas agendas para divulgar o disco.
Cabaço vai Todos trabalhavam em ONGs, e chegava a ser engraçado
Cabaço vem pensar na dicotomia da situação: uma banda que faz a
É tanto cabaço apologia da masturbação e tem em “Os peitinhos” um
E eu sem ninguém de seus hinos, não consegue levar sua carreira adiante
A novidade em “Quem é o pai?” é a tentativa do grupo em por conta de trabalhos sociais desenvolvidos por seus
expandir seus temas para além da masturbação, como membros. Aqueles mesmos que, no início de tudo, eram
em “Bomba”, composição de Jaiminho e de Peste, que apontados como vagabundos e maconheiros sem futuro.

228
230 Devotos 20 anos Quem é o pai? 231
Cap.13
Luta pacifista
Luta pacifista 235

shows. Saudosismo à parte, fazia tempo que eles não conse-


guiam reunir um grupo de músicas tão poderosas em um mesmo
álbum. A temática (quase mono) permanece a mesma: letras de
cunho social, abordando política, desigualdade social, cons-
cientização etc. Musicalmente é que a história muda um pouco
de figura. Pois não é que o trio conseguiu ir além dos três acordes
viscerais do punk rock? Para ouvidos mais atentos, Cannibal,
Celo e, principalmente, Neilton, derramam camadas discretas
de jazz, rockabilly e até MPB. A levada de guitarra de “Canção
para mudar” é uma pista da diversidade de influências da banda.
Parece remeter à surf music. “Sociedade alternativa” poderia
entrar em qualquer disco de rap. Em “Luta pacifista”, entram em
Sem gravadora e sem grana para bancar outro álbum cena os Devotos dos tempos de “Vida de ferreiro”, só que dialo-
independente, os Devotos inscreveram um projeto para gando discretamente com o metal. Enfim, é música para pogar e
lançar seu quarto disco pela Lei de Incentivo à Cultura. bater cabeça. “Rádio comunitária pra informar” mostra a cria-
Assim sendo, com o patrocínio da Chesf1, foi lançado, em tividade de Neilton, que mesmo nas limitações dos três acor-
2006, “Flores com espinhos para o rei”, trabalho mais des consegue injetar influências de outros gêneros. “Espírito
maduro do trio. O título logo foi associado a um recado guerreiro” é de um balanço inédito na carreira da banda, sem,
contudo, abrir mão do peso. Mas a melhor notícia de todas é a
para o presidente Lula, então envolto nos escândalos
seguinte: Cannibal permanece indignado. Enquanto ele estiver
do mensalão, mas Cannibal tratou logo de desmentir
gritando inconformado, tudo estará em paz para os Devotos. Até
o rumor. Depois de escrever as 15 canções do álbum, o
música para as rádios o disco tem (caso elas tocassem rock). E
baixista percebeu que muitas delas falavam em flores. À “Por isso não tente calar meu grito” flerta com, veja só, o samba!
época do lançamento do disco, escrevi o seguinte texto: O álbum só não leva cotação máxima porque Cannibal, definiti-
vamente, não nasceu para cantar reggae, como tenta fazer em
Devotos expande seu som para novas direções 2
“Danças das almas“, música que conta com a participação alu-
Breve passeio pela discografia dos Devotos: Agora tá valendo, cinada de Lirinha. Mas, quando ele berra, na abertura do disco,
álbum de estreia da banda, contém o melhor repertório do grupo, “brincando do jeito que dá/bala perdida não me acha/vida longa
embalado naquela que é a pior gravação dele em estúdio. Devo- à Polícia Militar/que quando sobe é só desgraça”, a gente até
tos, o segundo, empata a coisa: repertório apenas regular para esquece tal tropeço.
gravação idem. Já A hora da batalha possui um registro perfeito
A produção gráfica, mais uma vez, é assinada por Neilton, que,
para um grupo de canções apenas regular. Flores com espinhos
definitivamente, assumiu suas influências como artista plás-
para o rei deixa algumas questões flutuando no ar: por que a
tico. A capa, branca, traz o desenho de um monstro, com uma
banda não regrava seu clássico álbum de estreia? Se, ao vivo,
abertura redonda no espaço do olho. O CD vem com 12 desenhos
os Devotos sempre foram inquestionáveis, seus discos sem-
circulares no mesmo formato da abertura da capa, e cabe ao
pre pecaram por não reproduzir em estúdio a mesma fúria dos
ouvinte decidir que forma dar ao disco. O olho do monstro tanto
1  Companhia Hidro Elétrica do São Francisco. pode ser estampado com a bandeira do Brasil como pela figura
2  Texto publicado pelo autor no site Recife Rock! (http://www.reciferock.com. de Cristo na cruz ou de uma das torres gêmeas em chamas. Os
br/2007/01/11/resenha-devotos-flores-com-espinhos-para-o-rei)

234
236 Devotos 20 anos 237

desenhos do encarte ficaram ainda mais pesados que os de A


hora da batalha. Fissurado, na época, com sua exposição onde
expunha telas gigantes, o encarte trazia apenas três grandes
desenhos. O primeiro mostra um grupo de crianças rabiscando
o chão. O segundo traz a imagem de três mulheres negras,
enquanto o terceiro, o mais chocante deles, mostra uma multi-
dão enfurecida de trabalhadores erguendo suas foices como se
fossem armas.

O álbum permitiu algumas viagens ao trio. Em Natal, com o disco


recém-lançado, a banda tocou na segunda edição do Festival
DoSol. Assim como no Recife, o carisma do grupo impressiona
bastante, e a roda de pogo, que costuma ser gigante no Recife,
não se mostrou diferente na capital potiguar. Sobre a popu-
laridade da banda, Gutie chegou a comentar que “Devotos são
muito queridos. São impressionantemente queridos. Uma vez eu
estava em Brasília em um festival circulando com Cannibal e eu
fiquei surpreso com isso, com o assédio da molecada com Can-
nibal. O punk rock tem isso”.

O disco rendeu o videoclipe de “Tudo faz sentido”, que intercala


imagens do Alto José do Pinho com cenas gravadas no cemitério
de Santo Amaro. “Tudo faz sentido” foi parar também na trilha
sonora do filme Baixio das bestas, de Cláudio Assis. Nos shows,
a banda passou a incluir no repertório “Brincando do jeito que
dá”, “Canção para mudar”, “Sociedade alternativa”, Luta paci-
fista” e “Tudo faz sentido”.
Cap.01
A arte de Neilton
238

Cap.01
A arte de Neilton
A arte de Neilton 241

do Alto José do Pinho se interessou em aprender os ofí-


cios que ele praticava com tanto carinho. E ele credita
isso à boa dose de comodismo e até de preguiça de seus
companheiros de movimento. Modesto, não aceita que
seja um privilegiado com o dom para o desenho, a música
e as artes plásticas. Como aprendeu tudo sozinho, acha
que qualquer um consegue. Cheguei a sugerir, em uma
entrevista, que eu jamais seria capaz de aprender o que
ele aprendeu, pois não sou dotado do mesmo talento que
ele. A teoria foi desmentida na hora por Neilton, que, de
fato, acredita que qualquer um é capaz de produzir como
Caso Neilton não tivesse descoberto Elvis Pres-
ele. Mistura de ingenuidade com modéstia, a verdade é
ley nos filmes da TV, certamente ele teria abraçado
que poucos, pouquíssimos mesmo, são capazes de fazer
as artes plásticas como profissão. Porque o menino
tudo que Neilton faz, e sempre com competência, talento
que começou copiando o Spectremam que via na tele-
e zelo de encher os olhos.
visão não parou mais de mexer com desenho desde
então. Fã de quadrinhos, Neilton credita aos gibis Quando começou a perceber que desenhava com faci-
boa parte de sua influência como artista. Autodidata, lidade as camisetas que via nos anúncios das revistas,
Neilton tem, em Santos Dumont, seu ídolo máximo. Neilton decidiu fazer uma série temática para expor no
“O suprassumo da invenção pra mim é Santos Dumont. mercado pop do Abril Pro Rock em 1996. Montou uma
Ele não era porra nenhuma e entrou pra História.” série de camisas com o tema “heróis e vilões dos qua-
drinhos”, e era impressionante como as cores e os deta-
Neilton é o típico caso de autodidata. Aprendeu tudo
lhes saltavam aos olhos. Ainda mais impressionante era o
na marra, sozinho, sem a ajuda de ninguém. Dos dese-
modo de produção seguido pelo guitarrista, que fez uma
nhos da infância, passou a pintar camisetas à mão, e era
camisa por dia durante todo o mês de março daquele ano.
com o dinheiro delas que sustentava seu sonho de ser
“Fazia uma camisa por dia, na maior correria, pois tam-
músico. Logo passou a fazer camisetas encomendadas,
bém tinha as coisas dos Devotos para cuidar.” O resultado
copiando os modelos dos anúncios de lojas de discos
não poderia ser mais gratificante para o artista: vendeu
que via nas revistas de música. Sem perceber, a linha de
todas as camisetas que expôs. No ano seguinte, repetiu a
produção aumentava cada vez mais, e servia como capa-
exposição, desta vez com o tema “insetos e aracnídeos”.
citação para o passo maior que daria adiante. “As demos
Mais uma vez, vendeu tudo. No mesmo ano, fez uma série
da Armas da Verdade, Terceiro Mundo, foram feitas todas
de aquarelas para as ilustrações do encarte de “Agora Tá
lá em casa, com capa e tudo. Comecei a fazer porque não
Valendo”. Para surpresa de Neilton, todo mundo que via
tinha quem fizesse, e quem fazia cobrava caro. Só que
o material ficava embasbacado, e pedia que o artista
ninguém quis aprender a produzir.” Essa é uma queixa
colocasse preço na obra. Acabou vendendo todos os
comum de Neilton. Ninguém do movimento das bandas

240
242 Devotos 20 anos A arte de Neilton 243
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desenhos. Em 1998, fez mais uma série de camisas para Aos poucos, o nome de Neilton foi circulando no mundo
expor no Mercado Pop do Abril Pro Rock, agora tendo das artes plásticas, o que gerou ciumeira entre os artis-
como tema “répteis e anfíbios”. Todo mundo passou a tas. “Os artistas plásticos se incomodam por eu ser
dizer que Neilton era um artista plástico talentoso, que músico e invadir a área deles. E eu acho massa não ser
precisava expor seu trabalho, pois seria um sucesso. aceito, porque estou fazendo meu trabalho sem ajuda
Mas Neilton, em atitude tipicamente punk, queria ape- de ninguém.”
nas continuar pintando suas camisetas. “Eu tinha uma
No ano seguinte ao da exposição Imagens puras, Neilton
demanda da porra por camiseta nos anos 1990. Paguei
foi convidado pela MTV para fazer o projeto gráfico do
minhas contas todas fazendo camiseta. Até que me dis-
DVD “MTV Apresenta Cordel do Fogo Encantado”. Gutie,
seram para eu passar pra quadro.” E conta uma história
que além de produzir o Rec-Beat, também é empresário
em que acaba mostrando certo descaso com a própria
do Cordel, aproveitou para chamar Neilton para produ-
obra, típico dos gênios. “Chico Accioly, um produtor que
zir o site do Cordel do Fogo Encantado. Os convites não
trabalhava com Chico Buarque e com Gal Costa me levou
pararam mais. Foi um dos ilustradores do livro “Detri-
para uma galeria em Boa Viagem e me apresentou a uma
tos cósmicos”, de Fábio Massari. E passou a ser con-
curadora. Fiz, mandei, gostaram, mas eu não tava nem
vidado para uma série de debates, mesas-redondas e
aí. Queria pintar camiseta.”
palestras sobre artes plásticas. E, para irritação maior
De tanto insistirem, Neilton resolveu ver qual era. E dos artistas, foi chamado para ser curador de exposi-
se descobriu artista. Passou a fazer telas enormes de ções. “E agora, que fui convidado para ser curador, tem
Eucatex, pintadas em acrílico e pastel óleo. Suas telas artista virando bicho.”
mediam incríveis 120x80cm, e muitos de seus desenhos
pareciam vivos. É o caso do quadro em que retrata uma
senhora negra que viu no bairro da Linha do Tiro, e que
foi comprado por Gutie. Intitulado “Na Linha do Tiro”, o
quadro fez parte da primeira exposição de Neilton como
artista plástico, a Imagens puras. Polivalente, fez de
tudo na exposição. “Eu fiz a iluminação, fiz o projeto grá-
fico da exposição, pintei os quadros, troquei as luzes dos
postes e a parte elétrica do casarão, que estava aban-
donado. O produtor que estava me ajudando tinha um
amigo que ia emprestar duas lâmpadas de poste para
iluminar o banner. Aí o cara chegou: ‘cadê o artista?’. E eu
do lado dele, todo sujo. Ele pensava que eu era o peão que
estava fazendo as obras lá”, conta, divertido, o Leonardo
da Vinci do movimento punk do Alto José do Pinho.
A arte de Neilton 249

Amp
Hemetério, que chama carinhosamente de castelo de
Grayskull, em alusão ao castelo do desenho animado
He-Man. No andar de cima, dedica-se aos trabalhos de
produção gráfica e desenvolvimento de sites. Embaixo
fica a oficina onde produz os Amps, que, como gosta de
dizer, “falam alto”. Quando o assunto é tecnologia, o dis-
curso de Neilton é extremamente coerente:
“Nós ainda somos bem atrasados em termos de men-
talidade de mídia. A gente fica muito bitolado com as
novas tecnologias. A gente paga o desenvolvimento de
uma nova tecnologia. E nem usufrui o suficiente daquela
Uma vez, Gil Vicente, artista de quem Neilton é muito tecnologia que está em desenvolvimento pra partir pra
fã e que escreveu o texto crítico do catálogo da expo- ser ainda mais moderno. A gente, na verdade, precisa
sição “Imagens Puras”, disse para Neilton se concen- reaprender a reutilizar as coisas que ainda têm uma vida
trar em uma atividade só. Que ele jamais conseguiria se útil muito grande. Mesmo que a gente não enxergue1.”
dedicar totalmente à música, à pintura e à eletrônica ao
mesmo tempo. Aquela declaração deixou Neilton bas- Se pensar direitinho, foi este raciocínio que o levou a
tante deprimido. “Eu fiquei mal, cheguei em casa, fiquei fabricar sua guitarra. E o mesmo utilizado por seu irmão
deprê. Aí pensei: Nilson na fabricação de sua primeira pickup no Faces do
Subúrbio. Tem uma piada que virou rotineira no Alto José
‘Gil, vou continuar fazendo tudo ao mesmo tempo, como do Pinho. Uma vez perguntei ao Cannibal o que Neilton
sempre fiz.’ E ele: ‘você vai acabar como pato: não nada estava fazendo no momento, em que tipo de projeto ele
direito, não anda direito, não voa direito...’” Fato é que o estava envolvido. O baixista me olhou com um sorriso
“pato” Neilton fundou o Altovolts, um grupo de pesqui- matreiro e respondeu: “Neilton? Está fazendo o céu, a
sas de tecnologias mortas, onde ele restaura, desenha terra, os homens, as árvores...”
e constrói amplificadores de áudio à válvula. Ninguém
1  Entrevista concedida ao autor e publicada no site Recife Rock! (http://www.
melhor do que ele, que fabricou a própria guitarra, para
reciferock.com.br/2008/01/27/entrevista-devotos-20-anos).
trabalhar com tecnologias obsoletas. Atualmente, Neil-
ton fabrica, ao lado dos amigos Gilson Gerrard e Adriano
Leão, amplificadores sob encomenda. Entre seus clien-
tes estão nomes como Dado Villa-Lobos, Siba Veloso,
Fred Andrade, e Gabriel Melo, da Academia da Berlinda.
Fora, claro, os Devotos, que também utilizam os ampli-
ficadores da Altovolts. Neilton passa os dias enfurnado
em sua casa de dois andares no bairro da Bomba do

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250 Devotos 20 anos A arte de Neilton 251
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Cap.02
A fundação da ONG
A fundação da ONG 255

Assim sendo, em 2002, Cannibal, Neilton, Celo, Tiger, Zé


Brown, Adilson Ronrona, Ailton Peste, Marcelo Massa-
cre, com a ajuda da ONG Fase, arregaçaram as mangas e
decidiram criar sua própria ONG. Nascia a Alto Falante.
A intenção principal, no primeiro momento, era mon-
tar uma rádio comunitária, que tocasse as músicas das
bandas do Alto José do Pinho, já que as rádios tradicio-
nais, envolvidas nos esquemas do jabá, não tocavam.
As bandas do Alto José do Pinho sempre desenvolveram
Por meio da Fase, fizeram uma ponte com a ONG alemã
um trabalho social, ainda que, em um primeiro momento,
DED, que forneceu os equipamentos para a construção
de forma inconsciente. Seja nos shows filantrópicos
da rádio. Lee, primo de Celo e dono do estúdio onde as
para arrecadar alimentos para entidades carentes ou
bandas do Alto José do Pinho tocavam no início da car-
nos eventos pontuais, como o Rockriança e o Natal nas
reira, construiu as caixinhas que ficariam penduradas
Alturas, a preocupação dos integrantes desses grupos
nos postes. Com sua sede estabelecida nos fundos do
sempre foi a de mudar a realidade que os cercava. Ou,
corredor do mercado público do bairro, ao lado de bares
pelo menos, tentar mudar. De forma que a criação da
e de um açougue, a Rádio Alto Falante funciona em um
ONG Alto Falante foi apenas uma maneira de oficializar
espaço mínimo, em um cubículo onde mal cabem três
uma série de trabalhos que já vinham desenvolvendo.
pessoas. Mas o “estrago” que ela provocou na comuni-
Zé Brown, por exemplo, desde 1996, mantém um projeto dade é inversamente proporcional ao seu tamanho. Com
chamado Zé Brown Apresenta Talentos. Pegou o Clube caixinhas colocadas nos postes das ruas do Alto José do
Bolinho, que serviu de palco para os primeiros shows do Pinho, a rádio funciona de segunda a sábado, das oito
movimento rock do Alto José do Pinho, e começou a dar da manhã às sete da noite, com uma programação que
aulas de break para os meninos do bairro. No primeiro privilegia a prestação de serviços e a qualidade musi-
dia, apareceram 15 garotos. No segundo, vinte. No ter- cal. “Nossa principal preocupação é levar informação e
ceiro, a divulgação na base do boca a boca dos meninos música de qualidade para a comunidade”, explica Ron-
foi intensa e nada menos que sessenta guris aparece- rona, diretor-geral da rádio. Cada programa dura uma
ram na oficina. Hoje o projeto cresceu e tem o apoio do hora, e é apresentado por voluntários. “Ninguém que
Funcultura. Eu presenciei um dia de aula no Bonsucesso trabalha na rádio é radialista. São pessoas que querem
Futebol Clube, onde vários garotos, todos na faixa entre aprender a trabalhar com rádio e gostam de música”, diz
8 e 10 anos, aprendiam passos de break com um dança- Ronrona. Vários profissionais que, hoje, estão no mer-
rino profissional. cado de rádio, começaram na rádio Alto Falante, o que é
motivo de orgulho para seus idealizadores.
O fato é que lá atrás, no início dos anos 1990, essa turma,
que era apontada por seus vizinhos como um “bando de Uma das principais bandeiras da Rádio Alto Falante é
maconheiros desocupados”, já se preocupava com o levar informação e prestação de serviços aos morado-
futuro de sua comunidade. res. Nela são anunciadas, por exemplo, campanhas de

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258 Devotos 20 anos A fundação da ONG 259

vacinação, dicas de lazer e comerciais de estabeleci- respondia muito bem às oficinas que rolavam nesses
mentos locais. “É engraçado, pois existem duas lojas de eventos. Oficinas de capoeira, de break.
material de construção civil aqui. No dia que uma anun-
O empurrão para os meninos se organizarem para fundar
cia na rádio uma promoção de cimento e telha, a outra
a ONG veio da Fase, que já testemunhava e ajudava, há
imediatamente faz questão de cobrir a oferta em anún-
algum tempo, as bandas do Alto José do Pinho na rea-
cio na rádio no dia seguinte. E a gente faz questão de
lização de eventos. “Evanildo Barbosa, diretor-geral da
estimular isso”, ri Cannibal. Logo que a rádio abriu, em
Fase, disse que o melhor caminho seria a gente se cons-
2002, Cannibal comandava um programa voltado para
tituir juridicamente como uma instituição. Até então era
o samba chamado Amnésia. “Tocava muito samba de
tudo muito solto, não tínhamos uma identidade jurídica.
raiz no programa, coisas como Ataulfo Alves, Demônios
A gente mandava ofício pra prefeitura no meu nome,
da Garoa. E abria espaço também para Jorge Ben, Bel-
depois no nome de Cannibal. Era assim para todos os
chior. Você precisava ver o que tinha de senhor ouvindo
órgãos públicos e empresas”, conta Celo.
os sambões antigos”. Celo se orgulha da forma como a
rádio entrou no cotidiano dos moradores: No primeiro momento, quando foi inaugurada, a ONG
Alto Falante propôs, em projetos apresentados para
“Eu não imaginava que seria uma coisa de tanta utilidade.
algumas entidades, uma estrutura que contivesse 22
Eu me abestalhei muito de como eles se apropriam disso
oficinas, que comportassem cerca de vinte alunos em
e tornam uma coisa muito útil. Uma coisa tão mínima
cada, em categorias como break, capoeira, maracatu
assim. De informação ligada à saúde pública, informação
e software livre. “A gente sempre teve muita vontade e
social, cultural, ligadas a eventos. Muito massa ver negui-
disposição para correr atrás das coisas. Sempre tivemos
nho dizendo na rádio: ‘Fulano, vai fazer o que domingo?
muita garra, mas empacávamos nas questões burocrá-
Vai ter evento tal no Sítio da Trindade, é de graça! Leva
ticas para viabilizar alguns projetos”, conta Cannibal. O
teus filhos!’ E a galera que cuida da programação é mara-
sentimento de autoestima da população cresceu a tal
vilhosa. Sempre tem informações. É legal porque eles se
ponto que ela se orgulhava em ver carros de gente da
sentem orgulhosos disso.”
classe média subir o morro para participar das oficinas.
A participação da comunidade nos eventos pontuais que
Porém, mesmo com a assessoria jurídica da Fase e com
o núcleo das bandas do Alto José do Pinho realizava foi
todo o empenho que sempre marcou essa geração de
decisiva para a constituição da Alto Falante.
meninos das bandas de rock do Alto José do Pinho, eles
A gente achava que seria legal, por exemplo, ter uma ofi- acabaram esbarrando em um problema difícil de superar.
cina de percussão por um tempo longo aqui na comuni- Cannibal explica:
dade. Assim como oficina de teatro, de canto, de dança,
“Tudo que a gente tenta fazer aqui no Alto tem um período,
de artes plásticas. Ter uma coisa mais constante por um
porque a gente não tem uma sede. Então tudo que a gente
período maior. Porque a gente sempre fez aqueles even-
faz é na escola ou no porão da igreja, ou na rua. Então é
tos pontuais, Rockriança no Dia das Crianças, Natal nas
muito difícil pra gente. O que a gente está batendo hoje
Alturas, 7 de setembro, 1º de maio, e viu que a gurizada
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em dia na tecla é de ter uma sede pra gente poder dar Em 2005, entrevistei Cannibal sobre os resultados prá-
oficinas periódicas todos os dias durante o ano todo. E ticos da ONG na comunidade. Na época, ele me con-
a gente tem projeto pra isso, só não tem o local para tava orgulhoso:
viabilizar. Se os projetos forem aprovados, nós vamos
“Conseguimos resgatar a autoestima da comunidade.
fazer onde? Já tivemos visitas de várias entidades que
Hoje, ninguém tem mais vergonha de dizer que mora no
querem ajudar e apoiar as oficinas, como a Petrobras e
Alto José do Pinho. Os índices de criminalidade baixaram
o Ministério da Cultura, mas a gente não tem uma sede.
muito. Não existe mais boca de fumo aqui. Quem quiser
Esses órgãos que a gente tem de apoio não financiam
comprar fumo hoje, compra fora daqui. E as gangues,
imóveis. Queremos ver com alguma entidade de fora para
que aterrorizavam o local, foram extintas.”
viabilizar a compra de um terreno para poder montar uma
casa do jeito que a gente quer.” No final de 2008, ao coletar material e fazer entrevistas
para este livro, o discurso infelizmente havia mudado. O
Ele dá um exemplo concreto de como a falta de um local
Cannibal orgulhoso de 2005 dava lugar a um mais rea-
próprio atrasa os trabalhos da ONG. “Temos o oficineiro
lista e preocupado agora:
do afoxé, da percussão. A gente já tem um projeto todo
fechado pra ele. Desde a compra dos equipamentos até “O crack está invadindo o Alto. Em todo canto é assim. A
o salário dele. E é um cara da comunidade. A gente tenta primeira coisa é diminuir a violência que o tráfico causa.
sempre trabalhar com pessoas da comunidade.” E lista É coisa que se você fizer oficina periódica não vai resol-
outro projeto que está também em fase de captação de ver. É pegar esses guris pra fazer trabalho o dia todo. Pra
recursos. “Queremos trabalhar com corte e costura. A se cansar de dia e, de noite, ir pra casa e dormir. De não
gente sabe que tem o maracatu e o afoxé que desfilam conseguir ficar em pé. Essas coisas você não resolve com
todo ano. A rapaziada daqui mesmo podia fazer a roupa oficina periódica. A gente sempre pensa que pode fazer
do maracatu e do afoxé e ganhar uma grana em cima mais, mas e o apoio?”
disso.” De certa forma, hoje eles vivem uma situação Quando conversei com Ailton Peste, ele mostrou a mesma
muito semelhante à de quando começaram a fazer os preocupação de Cannibal. Chegou a frisar que quem
shows no Alto José do Pinho, aqueles em que colocavam conhecia o Alto José do Pinho superficialmente e só visi-
um tablado em cima de grades de cervejas e improvisa- tava o centro do bairro achava o lugar uma maravilha, e
vam um som pela pura vontade de tocar. dizia até que gostaria de morar no morro. Mas, segundo
Essas oficinas existem periodicamente. Funcionam um ele, a realidade que os moradores encaram no cotidiano
mês e param. Aí só Deus sabe quando vai ter de novo. já não é mais a mesma de quando eles mudaram o perfil
Porque o colégio precisa do espaço, o porão da igreja do bairro com os shows punks. “Por conta do tráfico de
funciona para outras coisas. A oficina de capoeira é a crack, que está muito forte aqui e se aliou com a prosti-
mesma coisa. E ela está parada. É muito chato traba- tuição. E as meninas, para conseguir o crack, pagam um
lhar assim. E a gente sabendo que poderia ser uma coisa boquete, transam com o cara. Vira Babilônia.”
mais constante.
264 Devotos 20 anos A fundação da ONG 265

Ailton Peste, o mesmo que escreveu “Os peitinhos”, tra- duas bandas se apresentam no local. O repórter acompanhou um
balha, há 12 anos, como arte-educador. Seu discurso desses eventos, protagonizado pelas bandas Conspiração Alie-
nígena e Ataque Suicida. No térreo, uma televisão passando cli-
impressiona pela crueza e sinceridade. Ele tem cons-
pes dos Ramones anima o público. No segundo andar, os shows
ciência de que ele poderia ter sido vítima da criminali-
rolam no melhor clima “festa punk”. Ou seja, o espaço para uma
dade. Sua fala é contundente porque expressa o esforço
roda de pogo e para a banda tocar é o suficiente para garantir
de alguém que, desde os tempos dos shows no bar do a alegria dos roqueiros. Um fato inusitado chama a atenção. Os
Orlando, tinha plena consciência de que estava desen- organizadores do evento tiveram que fazer um acordo com a
volvendo um trabalho social. igreja evangélica localizada na frente do bar, a exatos seis passos
de distância. Terminado o primeiro show, é respeitada uma hora e
Tanto eu como os meninos tivemos essa coisa da violên-
meia de silêncio para que o culto evangélico seja realizado. “Das
cia suburbana em nossa vida. E escolhemos a música
19h30 às 21h, nós interrompemos os shows para a realização do
como forma de sobrevivência. De tanto que eu participei culto. Pra gente é bom, pois essa é a hora em que o público para
de movimento, de tanto que lutei por um meio de comu- para relaxar e consumir cerveja”, conta André Papillon. E é o que,
nicação fixo, cheguei até a rádio. A gente sabe que há de fato, acontece. A igreja realiza suas atividades sem maiores
uma carência de informação da porra. É como se a gente problemas, enquanto um público sedento de rock aguarda tran-
estivesse fazendo trilha sonora para a miséria. A gente quilamente o segundo show, tomando uma cervejinha gelada e
sabe que a mídia é uma cobra de duas cabeças. Quando colocando a conversa em dia. Terminado o culto, o rock volta a
comer solto, em uma demonstração de respeito mútuo entre bar
a gente surgiu, foi independente da mídia. Era o faça-
e igreja, difícil de testemunhar por aí. Particularidades que só
você-mesmo. Era a atitude punk mesmo.
mesmo o Alto José do Pinho poderia oferecer.
O próprio Peste chegou a me dizer que o pessoal das
Infelizmente, o Papillon Bar durou pouco tempo e logo fechou
bandas está se organizando novamente para voltar a as portas, e o Rock Zoeira ficou sem local para realizar suas
fazer shows nas ruas, como no início de todo o processo. atividades.
Durante algum tempo, uma nova geração de bandas do
Alto José do Pinho retomou o espírito punk. Cheguei a
escrever sobre o assunto:
Nova Geração do Alto José do Pinho1
O processo natural de continuidade é nítido no Alto José do
Pinho. Bandas novas surgem a cada dia, e já têm, pelo menos,
um lugar garantido para apresentar sua música: o Papillon Bar.
De propriedade de André Papillon, a casa, que possui dois anda-
res, é palco, todos os domingos, do festival Rock Zoeira, evento
organizado por Adilson Ronrona, Sérgio (integrante da banda
punk Terceiro Mundo) e pelo skatista Henrique. A cada domingo,

1  Matéria publicada pelo autor na revista Galpão do Rock em novembro de


2005
A fundação da ONG 267

“Alto Falante –
oferecem nos palcos do Primeiro Mundo estava, naquele
momento, à disposição das bandas do Alto José do
Pinho. Cada banda fez seu show completo, mas apenas

gravando o show” duas músicas de cada entraram na coletânea. A noite


transcorreu em clima de harmonia, sem qualquer inci-
dente. Os Devotos faziam as pazes com seu bairro, pois
Cannibal havia prometido jamais tocar novamente no
Alto José do Pinho devido a uma briga no local em uma
das apresentações da banda no carnaval. Entusias-
mados com o surgimento de novas bandas, os meni-
No dia 12 de novembro de 2005, o núcleo de bandas do nos do Matalanamão convidaram Michelle, vocalista da
Alto José do Pinho via, em plena rua principal do morro, a D’Miopis, para uma participação no show deles. Canni-
concretização de um sonho. Um palco de proporções tão bal dedicou “Nosso ninho” a Marcelo Santana, cantor de
grandes quanto a vontade desses meninos era armado reggae do bairro vizinho Vasco da Gama e figura ainda
na rua de Cannibal para abrigar os shows das bandas hoje atuante no cenário artístico de Pernambuco. San-
que participariam das gravações do disco “Alto Falante tana mantém, junto com Marcelo Massacre, a banda MM
– gravando o show”. A própria casa de Cannibal servia Dub. Coube ao Faces do Subúrbio fechar a noite. A banda
de base para boa parte da parafernália de equipamen- estava lançando “Perito em rima” e foi o primeiro show
tos que viabilizariam o evento. E uma multidão subiu para de Tiger após o falecimento da mãe, poucos dias antes,
conferir, ao vivo, os shows de Os Maletas, D’Miopis, B.U., e o rapper estava visivelmente emocionado, volta e meia
A Ostenta, Nanica Papaya, Terceiro Mundo, Matalanamão olhando para o céu, como quem pedisse a benção a ela.
e Faces do Subúrbio. Duas delas, Os Maletas e D’Miopis, O CD era o primeiro produto da ONG Alto Falante e, claro,
representavam a novíssima geração de bandas do Alto a produção gráfica foi assinada por Neilton, que também
José do Pinho. A D’Miopis, fato inédito no bairro, é for- assinou a mixagem de várias faixas. Jaiminho, baixista
mada só por meninas, e a idade das integrantes variava, do Matalanamão, ficou encarregado da direção de palco.
na época do show, entre 17 e 21 anos. Se, na primeira edi- Mas, para eles, o melhor de tudo era ler na contracapa
ção do Alto Falante, os meninos conseguiram reunir oito do disco: “Projeto idealizado e realizado pela ONG Alto
bandas em estúdio, sendo duas de Peixinhos (Ataque Sui- Falante.”
cida e Atitaia), chegara a hora da versão ao vivo e, desta
vez, só com bandas do Alto José do Pinho.
A estrutura de palco era inimaginável para quem passou
os primeiros anos de carreira tocando em um tablado
de madeira por cima de grades de cerveja. Mesa de
PA, iluminação, roadies, tudo que os grandes festivais

266
268 Devotos 20 anos A fundação da ONG 269
270 Tudo que eu queria 271

que eu

Cap.03
Tudo que eu queria
Tudo que eu queria 273

O trio sobe ao palco ainda mais nervoso do que na terceira


edição do Encontro Antinuclear, em 1988. Parece não
acreditar na multidão que conseguiu juntar no Alto José
do Pinho para ver um show deles. Rapidamente, em ques-
tão de segundos, passa um curta-metragem na cabeça
de Cannibal, Celo e Neilton. Nele, cenas deles, correndo
de tiroteios e se jogando no chão do ônibus para não
serem atingidos por uma bala, das vassouras improvisa-
das, substituindo o pedestal de microfone, das vezes que
foram e voltaram a pé até os locais em que fariam shows,
Domingo, 21 de setembro de 2008. Alto José do Pinho do primeiro Gestos, Atitudes e Rock’ n’ Roll no Bonsucesso
lotado. Um palco enorme a poucos metros da casa de Futebol Clube. No camarim, Adilson Ronrona, vestido de
Cannibal denuncia que o acontecimento é especial. E, pijama, espera a hora de entrar no palco para sua parti-
que, de tão especial, merece ser gravado. Uma grua à cipação especial. O mesmo acontece com Tiger. Ailton
direita do palco registra todas as reações do público. Peste acompanha o show da plateia. E Zé Brown não pôde
Volta a fita. Mesma rua, meados de 1988. Um garoto de comparecer. Estava na Espanha, divulgando seu novo tra-
18 anos, punk, negro e discriminado em sua comunidade balho. E 2009 tem se mostrado um bom ano para os Devo-
lê na Bizz uma matéria sobre o Inocentes, banda punk de tos. A banda foi indicada ao VMB na categoria “Melhor
São Paulo que canta, em suas letras, a dura realidade do Vídeo de Hardcore”, concorrendo com clipe de “Tudo Faz
cotidiano das periferias de São Paulo. Eis que o menino Sentido”. E foi convidada para se apresentar no Festival
vai ao sebo no centro da cidade à procura de Pânico em DoSol, em Natal, um dos mais importantes da cena inde-
SP. Acha. Escuta. E fica sem acreditar em como tudo que pendente do país. Em 2010, os Devotos voltam a Europa
Clemente, negro como ele, diz em suas letras é igual ao para uma turnê que circulará por vários países do velho
que o garoto enfrenta todos os dias no Alto José do Pinho, continente. E pensar que tudo começou com um tablado
separado de São Paulo por quase um Brasil inteiro. O de madeira em cima de grades de cerveja.
moleque não sabe tocar. Não tem dinheiro para comprar
um baixo. Não tem condições para pagar aula de música.
Talvez fosse mais fácil estudar para um concurso público.
Ou se conformar com o futuro de pedreiro ou de flaneli-
nha. Encontra outro maluco, filho de militar, que decidiu
ser baterista ao ver um conjunto de baile na Mangabeira,
quando tinha 12 anos. Para completar o trio, um cama-
rada da Bomba do Hemetério, que fabrica sua própria
guitarra e desenha camisetas à mão. Volta ao presente.

272
Tudo que eu queria 275

O núcleo hoje

Cannibal Ailton Peste


Mora no Alto José do Pinho. Toca baixo, é vocalista e autor Mora no Alto José do Pinho. É funcionário da Secretaria
de todas as letras dos Devotos. É baterista da B.U. e tem Municipal de Saúde e ministra uma oficina de comunica-
um projeto de reggae com o DJ Bruno Pedrosa chamado ção em um colégio público no bairro de Boa Viagem.
Canni100. Apresenta o Estereoclipe, programa de TV local
Zé Brown
voltado para o público jovem. Toda quarta-feira, religiosa-
Acaba de lançar seu primeiro disco solo, “Repente rap
mente, bate pelada com os amigos.
rapente”, e continua com o projeto Zé Brown Apresenta
Neilton Talentos.
Mora na Bomba do Hemetério. É guitarrista do Devotos e
Tiger
desenvolve trabalhos como artista plástico, artista grá-
Está gravando seu primeiro disco solo, intitulado “Poder
fico, designer e fabrica amplificadores.
simbólico”. Ministra oficinas de hip-hop para os deten-
Celo tos do presídio Aníbal Bruno.
Mora em Ouro Preto, em Olinda. Toca bateria nos Devo-
Todos
tos e é vocalista da B.U. Trabalha nas ONGs Alto Falante
Idealizaram e criaram a ONG Alto Falante, que deu ori-
e Bagulhadores do Mio.
gem à rádio de mesmo nome. A ONG, mesmo sem sede,
Adilson Ronrona realiza oficinas periódicas de capoeira, teatro, break,
Mora na Mangabeira. É vocalista do Matalanamão. Está maracatu e software livre. A maior luta da Alto Falante
compondo material para o terceiro disco do Matalana- hoje é conseguir um local para construir a sede.
mão, ainda sem previsão de lançamento.

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276 Devotos 20 anos Tudo que eu queria 277

Discografia: Videoclipes:
Ao vivo — fita demo, 1994. Mais Armas? Não! — vídeo demo, 1990.
Vida de Ferreiro — fita demo, 1995. Devotos do Ódio — direção: Nilton Pereira (TVViva), 1991.
Agora tá Valendo — Plug / BMG, 1997. Futuro Inseguro — direção: Jobalo, 1991.
Alien e Selvagem – SINGLE — Rock It! 2000. Punk, Rock, Hardcore, Alto José do Pinho — direção: Claudio
Devotos — Rock It!, 2000. Assis, 1994.
Hora da Batalha — independente, 2003. Vida de Ferreiro — direção: Claudio Assis, 1994.
Sobras da Batalha – EP — independente, 2004. Fogo Cruzado — direção: Claudio Assis, 1996.
Flores com Espinhos para o Rei — independente, 2006. Dia Morto — direção: Raul Machado, 1997.
Devotos 20 anos — independente/ Monstro discos, 2009. Eu Tenho Pressa — direção: Nilton Pereira (TVViva), 1998.
Alien — direção: Diego Mezza, 2000.
Meu País — direção: Mário Rios (Videotape), 2001.

Coletâneas: O Herói — direção: Nilton Pereira (TVViva), 2002.


Roda Punk — direção: Nilton Pereira (TVViva), 2003.
Tudo Faz Sentido — direção: Teta Barbosa (REC), 2008.
Video Music Brasil 96 — MTV/Epic, 1996.
Sucessos Nacional — BMG, 1997. Luta Pacifista — direção: Teta Barbosa (REC), 2009.
Black Music — Folha de São Paulo, 1997.
Abril Pro Rock — Columbia / Sony, 1997.
Rock o Ano Todo — BMG especial APR, 1998.
CALABOCA JÁ MORREU — Abril Music, 1999. Trilhas sonoras:
11 Músicas direto da lama — revista TRIP nº71, 1999. Maracatus-Maracatus
Alto Falante, 1999. Curta-metragem. Direção: Marcelo Gomes, 1994.
REIginaldo Rossi (Um tributo ) — Abril Music, 1999.
Punk, Rock, Hardcore, Alto José do Pinho é do caralho
Musikaos — revista TRIP nº81, 2000
Video doc. Direção: Claudio assis, 1995
Melopéia ( Sonetos Musicados ) — Rotten Recdords, 2001.
Rec-Beat ao vivo — revista TRIP nº89, 2001. Baixio das Bestas
Tributo-Garotos Podres — Rotten Record, 2002. Longa-metragem. Direção: Claudio Assis. 2007
Alto Falante 2 — Gravando o show, 2005.
Projeto Música de Pernambuco — Música Urbana, 2006.
278 Devotos 20 anos

Livros:
CAVALCANTI, Carlos. “Caminhos da Vida”. Recife,
Ed. Bagaço, 1997.
TELES, José. “Do Frevo ao Mangue Beat”. São Paulo,
ed.34, 1998.
ESSINGER, Silvio. “Punk: anarquia planetária e a
cena brasileira”. São Paulo, Ed.34, 1999.
EZCURRA, Ana Maria. “Fugas musicais: a movimentação
das bandas do Alto José do Pinho”. Universidade Federal
de Pernambuco, 2002.
MURPHY, John. “Music in Brazil: experiencing music, expressing
culture (Global Music Series)”. Estados Unidos, Oxford
University Press, 2006.

Festivais:
Anexo
3º Encontro Anti- Nuclear — Recife-PE, 1988.
Abril Pro Rock — Recife-PE, 1994 a 1999.
Festival da UNB — Brasilia-DF, 1998.
Soulfly Tour Brasil — São Paulo-SP, 1998.
Man or Astroman? — Recife-PE, 1998
Kildare Festival — Salvador-BA, 1998
FIG — Garanhuns-PE -1998, 1999, 2000, 2004 e 2008
PE No Rock — Recife- PE, 1999, 2000, 2003
Marky Ramone & The Intruders — Rio de Janeiro-RJ – 1999
Mangue em Movimento — São Paulo-SP – 1999
Alto Falante — Recife-PE – 1999 e 2006
Abril Pro Rock — São Paulo-SP – 2000
Palco 6 – head-Line — Lisboa - Portugal – 2000
Acorda Povo — Recife-PE - 2000 e 2001
Recbeat — Recfe-PE - 2001, 2002, 2004, 2008
Da Tribo Festival — São Paulo-SP – 2002
Carnaval Multicultural — Recife-PE – 2005, 2006, 2007, 2008, e 2009
Do sol — Natal-RN – 2006
Bananada — Goiana-GO – 2008
Varadouro — Rio Branco – AC – 2009
Jambolada — Uberlândia – MG – 2009
53 HC — Belo Horizonte – MG – 2009
Calango — Cuiabá – MT – 2009
Aumenta que é Rock — João Pessoa – PB – 2009
Dosol — Natal – RN – 2009
Goiana Noise — Goiana-GO – 2009
Entrevista Devotos 20 anos 281

Entrevista
uma conversa sobre os mais variados temas, Guilherme
Moura, editor do Recife Rock!, liga e pergunta se já rolou
a entrevista. Respondo que Cannibal está atrasado e

Devotos 20 anos que se ele correr é capaz de pegar a entrevista ainda


no início. Guilherme chega antes de Cannibal, que apa-
rece duas horas depois da hora marcada, porque estava
pegando as camisas comemorativas dos vinte anos de
banda. Educado, parece suplicar:
— Meu irmão, me perdoe, por favor!
— Tudo bem, contanto que dê a entrevista.
— Então já estou perdoado.

E assim foi. O que era para ser uma entrevista séria, com
27 de janeiro de 2008 
guia estabelecido, acabou se convertendo num delicioso
— Alô, Cannibal? bate-papo entre cinco amigos espalhados no estúdio
— Fala, Hugo! Já chegou em casa? caseiro de Cannibal. E foram surgindo as histórias mais
— Na verdade, liguei pra dizer que vou atrasar um pouco. engraçadas e tristes sobre os vinte anos de carreira
O ônibus está demorando. da banda, tudo sempre contado com inteligência e um
— Tudo bem, eu estou na rua também. Se chegar em casa senso de humor que beira as raízes do absurdo. Talvez
antes de mim, pode esperar numa boa. Minha esposa e tenhamos perdido um pouco do enfoque jornalístico,
minha filha estão lá. mas ganhamos muito em espontaneidade. E, por que
— Falou.
não dizer, assim é mais punk. Punk-rock-hardcore, como
Chego alguns minutos depois no Alto José do Pinho, a história de uma das mais importantes bandas já sur-
e começo a perceber alguns indícios de que estarei gidas em Pernambuco desde sempre. Confira, abaixo, a
diante de uma banda com vinte anos de carreira. A filha íntegra de um bate-papo de quase duas horas com três
pré-adolescente de Cannibal atende à porta e pede que caras que têm histórias de sobra para contar.
eu espere pelo pai. Sua esposa pede que eu fique à von- Hugo: Vinte anos… Esperavam chegar até aqui? Passou
tade e diz que o marido volta logo. Pouco depois, che- rápido?
gam Neilton e seu amigo Gilson. O cara que ficou famoso
por fabricar sua guitarra a partir de sucata e por pin- Celo: (gargalhadas) Demorou pra caralho!!!!
tar quadros agora investe na fabricação de Amps. Que, Hugo – Se a banda não tivesse dado certo, vocês esta-
de sucateados, não têm nada. Orgulhoso do “filho”, me riam fazendo o quê hoje?
convida para ir ao estúdio de Cannibal para ver sua cria:
um bicho que “fala alto”, segundo ele. Bonito, benfeito, Neilton – Porra, Hugo! Tá pegando pesado…
dá até vontade de comprar um. Enquanto engatamos

280
282 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 283

Cannibal – É velho… Tem que botar a mão na cabeça e Neilton – Porque é um documentário, não é um show.
pensar… Aquele show de São Paulo seria mais um material pro
documentário.
Hugo – Vinte anos! É hora de parar pra pensar mesmo…
Guilherme – Teve até a participação do Clemente, né?
Neilton – O problema é esse: parar pra pensar.
Como vai ser agora no Rec-Beat?
Cannibal – Aí acaba… Vou entrar naquela: “O que estou
Cannibal – Tem umas pessoas que a gente já sabe que
fazendo da minha vida?”
vão participar do DVD, daqui pra lá vai dar pra acertar
Neilton – Se for pensar nas broncas todinhas, “Ordem com todo mundo: Clemente, Pitty, Lirinha, Zé Brown,
dos músicos”, um monte de merda acontecendo… Adilson Ronrona. Fora outros… Daqui pra lá vai rolar
Cannibal – É melhor nem pensar… muita ideia ainda. Essa vai ser a comemoração mesmo,
patrocinada pela Petrobras.
Hugo – Vocês vão lançar algum material relacionado aos
vinte anos da banda? Guilherme – Rola esse ano ainda?

Cannibal – Não agora no Rec-Beat, mas a gente tem um Cannibal – Tem que rolar esse ano porque o projeto
projeto de fazer um CD ao vivo patrocinado pela Petro- é para os vinte anos dos Devotos. O nome do projeto é
bras. A ideia é fazer uma coletânea com músicas de “Devotos – 20 anos”.
todos os discos da gente e trazer alguns convidados. E Neilton – Na verdade, o Rec-Beat é só o início das
gravar aqui mesmo no Alto José do Pinho. comemorações.
Celo – CD ao vivo e DVD. Cannibal – Na verdade, vai ser igual ao fim de Sandy e
Guilherme – E a história de São Paulo, o DVD que seria Junior (risos).
gravado lá? Neilton – Vai ter um acústico pra fazer…
Cannibal – Aquela história de São Paulo já está virando Hugo – Hoje, com 20 anos de carreira, dá pra perceber
lenda. Quando você faz um lance na brodagem, você não qual foi o pior e o melhor momento de vocês? Tem como
tem condições de cobrar, de exigir. E a gente sabe que avaliar isso ou não?
o trabalho com audiovisual é um trampo muito foda pra
Celo – O pior eu apaguei (risos).
ser feito, pra ser finalizado. E a gente tinha dado mais
de trinta fitas com material da gente de viagem e aquela Cannibal – É muita tosqueira na vida, né, meu irmão?
coisa toda. E elas (a produtora) tinham toda a boa von-
Neilton – Teve fases de você botar a mão assim na
tade de fazer. Mas a gente viu que não ia dar. Sem grana,
cabeça e dizer: “Pô, onde é que eu estou? O quê que a
não tem condições. Hoje em dia, mesmo com toda a tec-
gente vai fazer?”
nologia na mão, o trabalho ficou maior para quem faz o
trampo. Então, sem dinheiro, não dá pra fazer. Cannibal – “Vou morrer agora…”
284 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 285

Neilton – Coisas assim que a gente nem imaginava como Enquanto tem banda que vem de Brasília e que toca no
ia resolver. E o pior: a gente não estava nem aqui, estava carnaval todo. Ontem uma menina do Jornal do Commer-
longe, fora de casa, na maior roubada. Coisa muito pesada cio perguntou como a gente conseguiu chegar até aqui
mesmo. (20 anos), e eu expliquei pra ela que toda a grana que a
gente pegou a gente sempre dividiu por quatro, porque
Hugo – Com vocês já estabelecidos no mercado?
a gente sabia que um dia precisaria dessa grana extra
Neilton – Não, na época que a gente estava começando. para os instrumentos, pra gravar… É com essa grana que
Cannibal – Não tem um pior momento específico, mas a gente guarda só pra banda que a gente consegue fazer
teve coisas que a gente poderia ter aproveitado muito as coisas. Mas ainda não é uma coisa que dá para apos-
melhor. Como a gente não tinha maturidade pra isso, tar, para arriscar e fazer um show. Você pode apostar na
deixava nas mãos de terceiros. Tanto que a gente vol- feitura de um disco, mas em um show é muito arriscado.
tou a se produzir. Tanto que as pessoas cobram que a Tem que ter um suporte muito bom.
gente toca muito pouco no Recife. E aí tem gente que Celo – Até as viagens que nós fizemos foi com o dinheiro
fica achando que a gente fica esperando os eventos da que a gente juntou.
prefeitura pra tocar. Mas não é. Quando a gente vai fazer
Cannibal – Com o terceiro disco (“A hora da batalha”,
um orçamento pra fazer um show aqui, acaba consta-
2003), depois que a gente rompeu com Dado (Dado Villa-
tando que não temos o suporte de grana pra bancar a
Lobos, do selo Rock It!, que produziu o segundo disco
coisa se ela der errado. A gente não quer ficar devendo
dos Devotos), ali rolou uma doideira…
a todo mundo, faz tudo com um pé no chão do caralho.
Então, se a gente fizer por conta própria e der errado, a Celo – Ali a gente percebeu que ou investia na banda ou
gente vai tomar no cu. Como é que a gente vai pagar a morria.
galera? E a gente sempre fica pensando: como é que a
Cannibal – E a coisa boa é isso (pensativo). Não tem como
gente vai fazer um show só dos Devotos?
negar, uma das melhores coisas que aconteceu com os
Hugo – Na verdade, era uma pergunta que eu já tinha Devotos foi o respeito, não só do público que curte o
engatilhada aqui: por que vocês tocam tão pouco no som da banda, mas de pessoas que nem curtem o som
Recife? mas respeitam a história da banda, dos componentes.
Hoje em dia, tem muita gente que vê a banda muito mais
Cannibal – A história é justamente essa. Tem muito
como uma realização social do que musical. É uma coisa
pouca gente que investe em banda, principalmente em
positiva, legal. Mas não é tudo, porque não dá pra viver
banda do nosso estilo. Até mesmo eventos do governo
só de prestígio.
e da prefeitura, tipo carnaval. A gente só vai fazer um
show no carnaval pela prefeitura. A gente vai fazer o Hugo – E show? Tem algum especial que vocês
Rec-Beat, mas porque Gutie coloca quem ele quiser no lembram?
festival dele. Mas sempre foi assim. Desde que começou
esse carnaval multicultural que a gente só tem um show.
286 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 287

Cannibal – Pra mim, foi aquele que aquela banda gringa Hugo – Vocês são praticamente os responsáveis pela
não veio… nova reputação do Alto José do Pinho. Hoje o lugar é pra-
ticamente uma atração turística de Recife. Até que ponto
Hugo – Suicidal Tendencies, Abril Pro Rock de 98.
isso causa orgulho e até que ponto gera desconforto?
Cannibal – Isso! Aquele ali foi foda, velho! Até porque
Cannibal – Desconforto é só quando a gente está na rua e
liberaram o PA todinho pra gente (risos). Nunca tinham
colocam um palco desses (estava sendo erguido o palco
feito isso! Pra quem não sabe, a maioria das bandas
do polo Alto José do Pinho perto da casa de Cannibal)
que tocam antes das bandas headlinners nos festivais,
aqui e a galera acha que a culpa é nossa (risos). Porque
o PA é sempre mais ou menos. Então fica sempre um
nem tudo que rola culturalmente aqui no Alto é a gente
som chochinho. Aí a galera da técnica libera o PA todo
que faz. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem consciência
pra banda principal e fica todo mundo pensando: “Porra,
de que fomos nós que proporcionamos isso. Apesar de
essa banda é foda mesmo! (risos)” Aí foi isso. O show da
ser uma coisa independente. A viagem da gente era mos-
gente foi a mesma merda de sempre, mas liberaram o PA
trar a cultura que tinha no Alto. A gente não sabia que as
todo pra gente, ficou aquele sonzão (risos).
pessoas iam valorizar tanto, o que é uma coisa positiva.
Neilton – O mais legal era a galera da produção. Che- De tirar aquela imagem da mídia sensacionalista que o
garam pra gente e disseram: “Ó, aconteceu isso, isso e local era ponto de droga, de violência. Então esse foi o
isso.” Tava todo mundo num clima tenso do caralho. Saía lance legal, das pessoas perderem o preconceito com a
um e chegava outro: “Vocês estão bem? Tá tudo certo? comunidade. E o lado ruim é justamente esse: a gente
(risos. Celo estoura numa gargalhada)” Aí depois chegou leva a culpa de muita coisa que a gente não tem nada a
todo mundo e disse: “Olha, vocês sabem da responsabi- ver. E outra que as pessoas daqui começaram a desen-
lidade que têm.” volver uma autoestima tão forte que passaram a fazer
Cannibal – Quase que eu dizia: “Eu pensei que a gente as coisas aqui de forma independente, sem consultar
não ia tocar mais.” a gente, que já tem certa experiência com esse tipo de
coisa. Já falando da ONG Alto Falante: se nem a gente
Neilton – E a gente tranquilo, dizendo: “Tá beleza…” mais pede consultoria às pessoas mais experientes nas
Cannibal – E o pior é que a gente não tinha noção do que coisas que resolvemos fazer, acontece a mesma coisa
estava acontecendo no show, porque a gente não escuta com as bandas novas. Elas vêm conversar já para querer
o PA. Quando terminou, que a gente viu as críticas, caiu tocar no evento que vamos produzir. E a ideia da gente
a ficha: “Caralho, foi tudo isso? (risos)” Essa valorização, não é essa. É ter um diálogo, um papo do porquê o cara
Hugo, é que não tem jeito. Você pode ser a banda que for, estar querendo fazer aquilo, se tem uma irmandade, uma
você precisa morar fora para as pessoas valorizarem aqui. amizade… Porque a gente vê que, se um cara for mon-
E a gente sempre fez o caminho contrário. A gente sempre tar uma banda pra ganhar grana, não vai dar em lugar
achou que aqui mesmo poderia fazer a diferença. E até nenhum. Mas se ele tiver pensando no coletivo, aí sim, a
hoje a gente não faz (risos). Mas a gente continua. gente consegue colocar todo mundo junto. Hoje tá foda,
288 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 289

porque isso é resultado da mídia tecnológica na mão de e dizia que era daqui. Mas hoje acabou. Hoje em dia, o
todo mundo. As divulgações estão muito rápidas. Orkut, nome só é usado politicamente mesmo. Tem muita gente
MSN, as pessoas se comunicam muito rápido e se divul- usando o Alto José do Pinho pra isso. Muita gente colo-
gam muito rápido. Mas o que colocam na cabeça deles cando rádio, até neguinho querendo dar uma força ao
não são referências que passam alguma coisa positiva. maracatu e ao afoxé e ao caboclinho e, em boa parte
Podia até citar nome de banda que passa algo positivo. das vezes, é algo apenas de política partidária. A gente,
Você vê uma banda tocando em algum site ou numa TV muitas vezes, paga por isso. A gente não se apresenta
qualquer e você vê que são bandas que seguem a car- nos eventos da prefeitura e as pessoas sabem muito
tilha da mesmice. E são bandas que você nunca ouviu bem o porquê. Basta pensar. A gente não consegue ficar
falar, e que de uma hora pra outra estão no Faustão calado. Quando a gente percebe alguma coisa errada,
recebendo prêmio. E aí o cara acha que, se o cara chegou a gente vai e fala mesmo. E, às vezes, é uma faca de
ali fazendo mais do mesmo, o negócio então é fazer mais dois gumes, porque eu me lembro que, em dezembro, a
do mesmo. Na época da gente, a gente escutava o cara gente foi no Sopa diário1 e aí eu falei que eu achava um
no rádio, aí ia no show do cara, porque pra ver o cara em absurdo a prefeitura pagar 3 milhões pra Mangueira
algum programa de TV era quase impossível. Pra com- fazer uma homenagem ao frevo de Pernambuco, tendo
prar um disco, tinha que ser no sebo. Então era muito tanta escola de samba daqui que não consegue nem sair
diferente a história comparada com o que é hoje em dia. no carnaval, tanta agremiação que não consegue desfi-
As pessoas não se preocupam em pesquisar, já que têm lar. É uma coisa inaceitável na cabeça de todo mundo.
toda a tecnologia na sua casa. E isso é um lado negativo A prefeitura pode dar 3 milhões para quem ela quiser,
pra caramba aqui em cima. Porque a galera aqui tam- mas tem que dar também pras pessoas que estão pre-
bém está correndo atrás de mais do mesmo. Todo mundo cisando aqui. É a mesma coisa que você cuidar do filho
quer fazer igual, corre atrás de Rec-Beat, de Pré-Amp, e dos outros e não cuidar do seu. E eu sempre falei isso e
não se preocupa em fazer o próprio show, como a gente sempre que vejo alguma coisa que acho errado eu ligo
fazia antigamente. pra falar também. Esse show agora que a gente fez no
Burburinho eu liguei pra Beto Rezende (jornalista) pra
Hugo – Você sempre fala que tem muita gente que divulga
dizer que foi uma merda, que a prefeitura faz show e não
show dos Devotos sem fechar com vocês, usando o nome
divulga, principalmente aquele. Porque eu não consigo
de vocês. Acontece o mesmo com o Alto José do Pinho?
ficar calado. E a gente paga por isso. Fica muito claro
Tem gente que se beneficia da marca Alto José do Pinho
depois porque fazem um evento e não colocam a gente. A
sem ter nada a ver com ela?
gente tira leite de pedra o ano todo. As pessoas pergun-
Cannibal – Politicamente, com certeza. Culturalmente, tam por que a gente continua… Deve ser a adrenalina.
até que não. No início dos anos 1990, no começo do
movimento mangue, com certeza, aconteceu muito.
Tinha gente que vinha fazer matéria aqui e vinha gente
1  Programa de TV veiculado pela TV Universitária, retransmissora local da TV
que nunca tinha aparecido aqui, que era de Boa Viagem
Cultura.
290 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 291

Hugo – Vocês já pensaram alguma vez em parar? tume de tocar em festival. Ninguém toca mais em buraco
como a gente tocava, né, Celo?
Cannibal – Parar os Devotos? Nunca. De jeito nenhum.
Ao contrário. Muito antes de a gente gravar, a gente sen- Celo – E a questão do investimento mesmo que a gente
tou pra saber se era isso realmente que queríamos fazer. sempre fez. Nós viajamos muito pelo Nordeste e banca-
Traçamos uma meta e fomos tocando, tocando, tocando, mos tudo do nosso bolso. Andando de ônibus, de cami-
exatamente como o Matalanamão faz. E aí a gente parou nhão, de jegue, da porra toda. A gente sempre se arris-
uma vez e perguntou: o que estamos querendo com a cou e sempre foi buscar. As bandas daqui costumam
banda? Queremos levar isso em frente? Porque, se não achar que aqui é o começo de tudo. Que aqui é a base
for, a gente vai estudar, arrumar uma profissão e pronto. para a carreira.
E decidimos levar em frente. E tudo que a gente faz é pen-
Neilton – E o lance é botar a cara, é fazer show. Mas
sando na banda. Pro show agora do Rec-Beat, a gente
principalmente cair na estrada. E juntar grana pra fazer
já fez a camisa em comemoração aos 20 anos. Sempre
isso, porque ninguém faz.
pensamos em colocar a banda em evidência. Tem que ter
alguma coisa pra mostrar que a banda está viva, que a Cannibal – O governo criou uma história em cima da cul-
banda está acontecendo. Eu sempre digo isso pra quem tura de Pernambuco, que a turma não entendeu. Acho
está começando. Senta e pensa se é realmente o que você que aquela coisa de fazer os eventos patrocinados pelo
quer fazer, porque ganhar dinheiro com banda não rola. governo e pela prefeitura, a rapaziada entendeu que
aquilo ali seria o trampolim. E, na verdade, não é assim.
Guilherme – A gente estava conversando sobre essa his-
Se você for ver, quando você pega esses produtores que
tória da dependência do governo. Vocês não acham que
vinham ver os eventos, o cara terminava no Galettu’s
existe uma dependência muito grande das bandas com o
(antigo nome do bar Garagem). Terminava indo a lugares
governo, que ninguém faz nada, essa coisa das bandas
em que não tinha banda nenhuma que tocava no Abril
não correrem atrás.
Pro Rock. E o cara queria pesquisar aquilo, porque ele via
Neilton –  Acho que existe dependência de tudo. que ali tinha coisa melhor do que o que estava tocando
naquele evento. Na cabeça deles, lógico. Aconteceu
Guilherme – Fica essa história de existir banda que só
isso com a gente aqui no Alto José do Pinho. Quando o
toca no carnaval, Fig, ao invés de se produzir e correr
Fábio Massari foi fazer o Abril Pro Rock, ele quis vir no
atrás. Eu vejo o pessoal de Natal, da Paraíba… lá não tem
Alto. Ele queria saber como era possível que num morro
mamatinha do governo.
tivesse tanta banda de rock. Porque, na cabeça dele, no
Neilton – É um mau costume. Todo mundo queria apare- morro, deveria ter banda de samba, de pagode, de qual-
cer na televisão, todo mundo queria aparecer na MTV e quer coisa. Mas de rock? E aí veio aqui e viu um monte
o caminho mais fácil pra isso era tocar no Abril Pro Rock de banda de rock tocando junto. E a rapaziada que está
ou em algum evento que fosse transmitido pra fora. As começando se esquece disso. Se você não está tocando
bandas que estão começando se prenderam a esse cos- no Abril Pro Rock, você pode estar lá dentro com o seu CD,
com o seu release. E dar na mão do cara. Aquela coisa do
292 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 293

“nem toquei, mas consegui alguma coisa”. E a rapaziada Cannibal – A gente teve um problema desses quando a
esquece disso, dessas coisas bem simples, porque fica gente gravou. Quando a gente fez clipe pra MTV. Pare-
bitolado em tocar e tocar no evento. cia que a gente tinha feito a pior coisa do mundo. Depois
que a gente gravou o primeiro disco (“Agora tá valendo”,
Hugo – Vocês chegaram num formato agora que só são
1997), andava na rua e punkzinho ficava enchendo o
vocês três. Acabaram com todos os atravessadores:
saco, dizendo: “traidor do movimento”. Faziam panfle-
não têm produtor, assessoria de imprensa, o Neilton
tos escritos “Devotos traíra” e distribuíam. Mas nunca
está fazendo os Amps agora. A ideia é vocês mesmo
chegou a incomodar fisicamente. (risos).
fazerem tudo…
Neiton – Teve um lance muito doido. Lembro de uma crí-
Neilton – É dominar o mundo (risos).
tica que eu li sobre o primeiro disco da gente dizendo que
Cannibal – É dominar o Alto… a banda perdeu a vontade de ir pra eventos como o Abril
Celo – O Alto a gente já dominou (risos). Pro Rock. Era aquele discurso: “aquela banda sofrida do
Alto José do Pinho, mostrando o valor que tinha o subúr-
Cannibal – Aconteceu isso no Showlivre, não sei se vocês bio”. E aí concluía: “agora acabou, eles gravaram” (risos).
viram. O Clemente (Inocentes) perguntou pra gente o que É sério. Aquela coisa “eles não vão passar mais fome,
Neilton tava fazendo. A gente respondeu: “Neilton está começaram a ganhar dinheiro”.
fazendo tudo. Neilton fez a Terra, as árvores, as pessoas
(risos).” Cannibal – A miséria é linda (risos).

Hugo – Mas a gente que acompanha as bandas novas vê Neilton – Engraçado que a maior luta da gente é jus-
muito essa acomodação, da galera não fazer nada. Banda tamente pra acabar com isso, com a miséria. E o que
que não tem nem um ano e já precisa de um produtor… a galera mais quer é isso. Na verdade, é um lance que
está na cabeça da galera: que você tem que ser fodido
Hugo – Mudando de assunto: qual foi o primeiro cachê e ruim pra ter valor. E, ao mesmo tempo, você é tratado
que vocês ganharam? como gueto, por mais valor que você consiga passar pra
Cannibal – Foi num show que a gente fez com Stella alguém, você é tratado como gueto por não fazer uma
Campos de versões punks para as músicas do The Doors. música que venda. Porém, você tem que ser pobre,
Foi uma merda do caralho (risos). fodido, magro.

Hugo – Falar em punk, vocês ainda levam muito dedo na Cannibal – A gente sempre procurou fugir disso. A gente
cara e acusações de “traidores do movimento” porque sempre tocou para ter um sustento, uma dignidade.
tiraram o “do Ódio” do nome da banda? Por isso que eu volto para aquela história de darem 3
milhões para a Mangueira, sabendo como é a situação
Neilton – Esse lance de traidor do movimento nunca do samba aqui em Pernambuco. Como ele é maltratado,
pegou com a gente. não é tocado nas rádios. Celo tava me contando que viu
na TV Lia de Itamaracá pedindo para a Celpe (Companhia
294 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 295

Energética de Pernambuco) ligar a luz dela, porque eles Hugo – Vocês saíram e não tocaram?
tinham cortado. E a mulher vai desfilar na Mangueira!
Neílton – A gente tocou. Fomos até a “atração interna-
Que porra é isso? Onde é que a gente está? Não tem
cional”. Foi um festival de inverno.
como a gente ficar calado com isso. E a turma paga a luz
dela, colocando um showzinho dela aqui e ali. Aí ela vai e Hugo – Eu não sabia disso. Foi onde?
agradece ao prefeito João Paulo. Essas coisas revoltam. Neilton – Em Lisboa. Em 2000.
E eles (prefeitura e governo) sabem que se der chance
pra neguinho do morro o neguinho vai falar, velho! E é Cannibal – E ficamos uma semana lá sem fazer mais
por isso que os Devotos não tocam nesses eventos. Os nada.
Devotos nunca tocaram no Marco Zero. Uma menina Celo – Comendo bacalhau pra caralho (risos)!
da Bahia me perguntou por que a gente nunca tocou no
Marco Zero. Ninguém quer colocar uma banda que quer Neilton – É muito fácil pegar um produto já pronto. Um
falar dos seus deveres e direitos em evidência. Porque, produto que o cara sabe que vai vender. É muito difícil
se der moral pra galera saber o que de fato acontece, vai hoje os produtores locais encararem uma temporada de
foder tudo. E a gente não se cala. Não é porque a Prefei- estrada num circuito mais alternativo. Eu nem digo cir-
tura colocou a gente pra tocar num palco que eu vou me cuito muito underground. A gente recebeu proposta de
calar. fazer uns shows com uma banda que tinha um público
do caramba em Portugal. E tudo que fizeram foi dizer
Hugo – Vocês acham que são discriminados aqui em Per- que a passagem estava comprada para o dia tal. Porra,
nambuco também por fazer hardcore? na Europa, cara! Com um monte de coisa pra fazer,
Cannibal – Total, cara! Não só por causa do hardcore, um monte de lugar para tocar e explorar. E você voltar
mas, principalmente, pelos temas. Por ser do subúrbio. pra casa sem ter feito nada. Você lembra, Celo, desse
estresse?
Neilton – Porque a gente tem ciência das coisas que se
passam ao nosso redor. E a gente tenta passar isso pra Celo – Eu não lembro dessas partes ruins porque eu vou
galera nas músicas. E, no nosso caso, fica ainda mais difí- deletando.
cil porque é muito mais fácil exportar o exótico, o modelo Neilton – Eu guardo algumas coisas para relembrar. Pra
preestabelecido. E não estou falando só da gente. Tem não cair no mesmo erro.
trocentas bandas, aqui em Pernambuco, que fazem um
tipo de música totalmente diferente. Na verdade, não Hugo – Vocês têm ideia de quanto tempo por ano pas-
tem espaço, a não ser que você adote o modelo exótico. sam fora do Recife?

Hugo – É por isso que vocês acham que não saíram do Cannibal – A gente desce, pelo menos, umas três, qua-
país ainda? tro vezes. A base é São Paulo. Ano passado, a gente
conseguiu fazer Goiânia e alguns shows no Rio. A gente
Neilton – A gente já saiu. Só que faltou alguém que recebe muita proposta para tocar em Minas Gerais, mas
fizesse o resto do caminho.
296 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 297

é aquela coisa amadora. E a gente não está mais naquele era o vinil pra pegar uma caixinha desse tamanho que é
lance de pagar pra tocar. o CD. Eu sou muito frustrado porque não consegui fazer
uma capa de vinil. Quando a gente começou a gravar já
Hugo – Já estão com material novo?
era CD. Eu lembro que eu fiz uma capa gigante para colo-
Neilton – Não. car uma fitinha demo. Só pra ter uma capa grande. E o
Cannibal – A gente vai fazer agora igual a Sandy e Junior lance todo é esse. Eu sou fã da tecnologia, mas eu sou
(risos)... fã da gente explorar a tecnologia até o seu limite. Não dá
pra gente pagar sempre pra alguém ficar produzindo e
Guilherme – Mas vocês pensam em fazer outro CD de inventando novas tecnologias enquanto ainda não usu-
nove, dez faixas? fruímos o bastante do que temos à nossa disposição. A
Cannibal – Vai ter a coletânea ao vivo.  sonoridade do vinil era melhor. O CD fodeu tudo. O MP3
está fodendo mais ainda.
Neilton – A gente vai fazer o ao vivo e depois vai pensar.
A gente nunca coloca o carro na frente dos bois. Porque Guilherme – A história toda é o formato. Ainda existe
a gente está produzindo muita coisa. aquela coisa de ter que fechar um CD com 12 músicas?
Na Internet, raramente você escuta dez músicas de uma
Cannibal – E fazer por etapas também. banda. E a gurizada vai baixando a esmo. Hoje em dia, é
Guilherme – E esse formato de CD? Vale a pena ainda muito melhor você ter três, quatro músicas boas, que ter
lançar CD? 12 meia boca, precisar fazer “coxinha” pra preencher um
CD, de ter que colocar remix. E a Fresno, por exemplo,
Cannibal – Isso vai, com certeza.
lança uma música por mês na Internet. E você vai nos
Neilton – É o seguinte: eu estava discutindo dia desses shows e vê a gurizada cantando tudo. De repente, eles
sobre o possível fim do CD. Como se pensava que teria encontraram o formato deles.
o final do vinil. Na Europa, ainda se vende muito vinil.
Neilton – O mais doido dessa história é que a gente está
Nós ainda somos bem atrasados em termos de menta-
indo para o lado de deteriorar as coisas. Esse lance da
lidade de mídia. A gente fica muito bitolado com as novas
Fresno realmente funciona pra eles porque a gurizada tá
tecnologias. A gente paga o desenvolvimento de uma nova
a fim de consumir rápido. Mas também é uma coisa des-
tecnologia. E nem usufrui o suficiente daquela tecnolo-
cartável. E a gente pensa numa coisa mais duradoura.
gia que está em desenvolvimento pra partir pra ser ainda
Quem me dera se a gente tivesse a possibilidade de vol-
mais moderno. Tudo tem que ser feito com equipamento
tar a usar vinil single. A qualidade de áudio seria outra.
de ponta. A gente, na verdade, precisa reaprender a reuti-
É isso que se perdeu. A galera está mais interessada
lizar as coisas. Que ainda têm uma vida útil muito grande.
em consumir do que propriamente em curtir. A curtição
Mesmo que a gente não enxergue. O CD como um suve-
virou outra situação. É um chiclete. Você mastiga e joga
nir não vai acabar. Não vai ser tão fácil trocar uma mídia.
fora. Tanto que a gente fica pensando nas possibilidades
Já se tinha o saco de você perder um álbum bonito como
de não desvincular o CD do encarte. Como a gente estava
298 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 299

falando antes. Fizemos questão que o nosso último tra- é chamado de doido. Porque essa questão de você pegar
balho (“Flores com espinhos para o rei”, 2006) respirasse. o CD e querer o encarte é um negócio que está morrendo.
Não é só uma discussão nossa, é uma discussão mundial Essa gurizada nova não quer. Ela está sendo mal-ensi-
de quem trabalha com áudio. Da música ser valorizada nada. Menosprezando o papel, o toque, o tato.
pela gravação, e não pelo mercado.
Hugo – Vocês conseguiram renovar o público dos Devo-
Hugo – Qual o disco dos Devotos que vocês ficaram mais tos ou é só velho que continua curtindo?
satisfeitos com o resultado final?
Neilton – Não, tem muita gurizada. Tem o vovô, o pai e
Todos – “Flores com espinhos para o rei”. o neto.
Cannibal – O pior é o primeiro. Celo – Impressionante, cara.
Hugo – Eu costumo dizer que o primeiro tem o melhor Neilton – É massa, cara. Ficam os pirralhos na frente
repertório com a pior produção. fazendo a roda, os pais tentando proteger e os avós lá
atrás só olhando (risos).
Cannibal – Justamente.
Celo – Aí é que eu fico pensando: tem muito tempo
Guilherme – Quem foi que produziu o primeiro?
mesmo que a gente tem a porra dessa banda (risos)...
Cannibal – Lúcio Maia.
Guilherme – Das bandas que vocês viram nos anos 1990,
Guilherme – Pô, Hugo. Você tá pulando pra caramba. Tem o que vocês acham que poderia ter vingado e ficou no
que conversar com essa gurizada que acessa o site. meio do caminho?
Hugo – A gurizada que se vire e pesquise (risos). Cannibal – Moral Violenta era uma banda que… ixe! Era
Cannibal – Esse negócio que Neilton falou. Teve uma uma banda que tinha aqui, e ensaiávamos juntos: Moral
menina que entrou hoje no Orkut e me perguntou onde Violenta e SS-20. Só que SS-20 era tipo Exploited. Era
achava o primeiro disco dos Devotos. E dizendo que que- a coisa mais radical que tinha no punk daqui. E o Moral
ria muito o disco, embora tivesse as músicas já. Ela que- Violenta fazia um estilo meio Cólera. As músicas eram
ria o encarte e tal. E era uma menina que devia ter uns 15 bem pegajosas. Os caras eram do IPSEP. E tudo de temá-
ou 18 anos. Eu disse pra ela ir até a Galeria do Rock (com- tica social. Cada letra do caralho. É uma banda que se
plexo de lojas de discos em São Paulo) que ela acharia ainda tivesse trampando ia dar muito o que falar. Mas
entre os usados, embora devesse ser caro. Tem gente é porque, naquela época, nos anos 1980, só quem tinha
que ainda quer o disco. grana era que conseguia gravar. Tanto que a única banda
que gravou na época foi o Câmbio Negro. Foi pra São
Neilton – Isso é muito doido. O gringo quando é fã é fã Paulo, voltou pra Pernambuco e acabou a banda. Mas
mesmo. Aquela galera que curte Jornada nas estrelas (a era a única banda que conseguia gravar disco.
série de filmes) faz questão de ter tudo sobre o filme, de
se vestir igual. Aqui quase ninguém faz isso. E quem faz Neilton – E a gente escutava pra caralho.
300 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 301

Cannibal – Eu ia muito pros shows deles. Ia pros ensaios, Neilton – Ali no Maluco Beleza, todos os shows, todas as
ficava vendo os caras tocarem. cinco edições do Abril Pro Rock, a gente foi andando.
Neilton – Teve uma época que a gente não tinha grana Cannibal – A gente passava no meio da galera carre-
pra ensaiar, e eles liberavam o estúdio pra gente. Nós gando os instrumentos.
éramos bem amigos deles.
Hugo – Do Alto até lá?
Cannibal – O legal daquela época era a irmandade que
Neilton – Daqui pra lá, cara! Não tinha ônibus e não
rolava entre as bandas. O Alto seguia a cartilha do movi-
tinha van. A gente saia a pé e colocava os instrumen-
mento punk, as bandas eram muito unidas. Todo mundo
tos nas costas. Era do caralho porque tinha uma galera
ensaiava com o mesmo instrumento.
bombadinha que ia de carro. Cada carrão do caralho, e
Guilherme – O metal era muito maior nessa época, né? a galera passava gritando pra gente: “Porra, Devotos é
do caralho! E vruuuuuuuuummmmmmm (risos).” Teve
Cannibal – Sempre foi e ainda é. O metal ainda é muito
uma que eu nunca vou esquecer. A gente foi participar
grande. E a gente estava no esquema deles. A gente
daquela premiação da MTV, em 95 ou 96. Aí Cannibal
era fodido demais, muito tosco. Tocávamos sem equi-
caprichou, pegou um casaco de general, que ganhou do
pamento. Tem uma foto de uns shows antigos em que
Chico Accioly. A gente foi de ônibus e chegou no aero-
não tinha nem pedestal pro microfone. Ficava um cara
porto, foi a primeira vez que a gente viajou de avião. Aí
segurando o microfone pra eu poder cantar. E gente pra
chegamos na MTV, Cannibal vestiu a roupa e a gente ani-
caralho. E o som tosco. Só escutava o pém, pém , pém…
mado pra caralho. Entramos na fila pra entrar no local e
E a gente ia na traseira dos ônibus. Os shows eram no
vimos Frejat no final dela, lá atrás, e a gente todo feliz
Curado e a gente ia daqui pra lá na traseira do ônibus.
porque estava na frente do Frejat, Paula Toller (risos).
Quem tinha grana passava com os instrumentos e o
Aí depois da festa teve uns comes e bebes. E na festa
resto pulava aquela gaiola que existia nos ônibus. E vol-
colocaram a gente na primeira fila, e a gente achando
tava do mesmo jeito. Aí, quando chegava no Alto, levava
lindo tudo aquilo. Os caras do Pato Fu sentados e a gente
um baculejo da polícia. Toda vez era isso, não tinha jeito.
acenando pra eles (risos). Maior goga a gente (risos). Aí,
Deitava no chão, abria as pernas, aquela palhaçada
quando a gente percebeu, começou a encher de gente,
toda. E era sempre o mesmo policial que fazia a mesma
que é onde a galera coloca gente pra dançar (risos). Cada
coisa com a gente.
um de nós foi pra um lado e eu fiquei sentado na escada.
Hugo – Teve um show dos Raimundos em 94, no Circo No vídeo em que Marcelo D2 está cantando com Falcão,
Maluco Beleza, que vocês fizeram a abertura e estavam do Rappa, dá pra me ver sentado na escada. Aí no final
tocando em outro lugar e foram até o Circo a pé. nós fomos pra um comes e bebes. Arnaldo Antunes gra-
Cannibal – A gente tava tocando no Forró Chique. E vando clipe, casa cheia de artista. E uma mesa gigante
fomos a pé até o Circo. Naquele tempo, a gente bebia pra com comida. Ficamos eu e Siba roubando comida por-
caralho. que a gente não sabia se ia ter o que comer no hotel. Aí
voltamos, dormimos no hotel, pegamos o voo de volta e
302 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 303

chegamos no aeroporto do Recife sem um puto no bolso chinelo para encher nossas garrafas de água. O passa-
e perguntado: “Meu irmão, como é que a gente vai voltar tempo da gente era ficar olhando as meninas na praia.
pra casa (risos) ?” Foi todo mundo na traseira do ônibus.
Hugo – Da nova geração de bandas do Recife, o que tem
Celo – Esse foi um dos bons momentos (gargalhadas). chamado a atenção de vocês?
Cannibal – E foi bom também porque eu lembro que Celo Cannibal – Rapaz, é difícil. Eu tenho escutado muita
era vegetariano. Quase que virava emo (risos). Aí ia ter velharia, muito dub e outras vertentes do reggae. Mas
que tirar ele da banda, não ia ter jeito (risos). E ele não aqui de Recife (pausa). Eu tenho visto os shows da Plu-
comia carne. E a gente foi pra um lugar pra gravar o pri- gins, do D’Miopis, duas bandas promissoras.
meiro disco e não deu certo. A gente ficou numa casa
Neilton – Eu só escuto coisa antiga.
em que tomava o café da manhã e guardava o resto pra
comer de noite. Uma miséria do caralho. Aí teve um dia Cannibal – Eu apresentei a última edição do Pátio do
que colocaram uma carne lá. Eu e Neílton começamos a Rock. Essa Júlia Says, que vai tocar no Rec-Beat, pra
nos servir de carne. Aí perguntamos: “Celo não vai que- mim vai ser a banda! Assim que essa galera conseguir
rer, né?” E ele: “Não vou querer uma porra (risos)!” Uma gravar e alguém que produza os caras, eu acho que vai
fome do caralho, ele acabou com a carne toda (risos). ser A banda. Eu vejo uma vida ali. Mas estamos em épo-
cas diferentes. É tudo muito diferente do que era nos
Neilton – Eu tava falando pro Hugo daquela nossa pas-
anos 1990. Naquele tempo, existia um corpo a corpo
sagem pelo Rio, lembram?
maior. Você sentia originalidade entre as bandas. A
Cannibal – Puta que pariu, só bons momentos (risos)... galera hoje não pesquisa muito, e acaba fazendo uma
banda só por fazer mesmo. E acaba ficando tudo muito
Neilton – A gente ficou num hotel perto da gravadora
igual. Tem que achar uma identidade, senão você fica
(BMG). Hotel três estrelas, com uma delas já apagando e
igual a todo mundo. A gente toca muito em São Paulo
caindo (risos). E a gente tinha a grana contada pra tocar
por causa disso. Porque o hardcore da gente é diferente,
e passar um mês lá. E o café da manhã da gente era pão
muito neguinho já disse isso. E se fosse igual às outras
com queijo, uma banana e café com leite. Aí ficava assim
bandas não rolava da gente ir sempre pra lá. Hoje eu
até a hora do almoço, geralmente às quatro e meia da
vejo, criativamente falando, a coisa muito menor do que
tarde, pra gente poder compensar o jantar, que não ia
era nos anos 1980 e 1990. Criou-se uma peneira de lá pra
ter. Todo dia era isso. E o resto da noite era a barriga
cá e só ficou quem era original. Teve até gente que saiu,
roncando.
mas por outros motivos, porque arrumou família e preci-
Hugo – E vocês passavam por tudo isso sendo contrata- sou arrumar um meio de sustento fora da música.
dos da BMG?
Guilherme – Como é que está o CD de dub que você está
Cannibal – Contratados! produzindo?
Neilton – Bicho, era foda. A gente entrava naquele puta
prédio da gravadora, cheio de seguranças, de bermuda e
304 Devotos 20 anos Entrevista Devotos 20 anos 305

Cannibal – Eu pedi pra fazerem umas oito bases de músi- ao ar aos domingos. A emissora não tem nenhum com-
cas porque eu tinha umas letras sobrando. Aí quando promisso social. Seria melhor se fosse veiculado na TV
ficou pronto fiquei com vontade de reescrever as letras. Universitária.
Aí escrevi tudo e entramos em estúdio e gravamos. Mas
Guilherme – E como vai ser o show do Rec-Beat?
aí tem umas coisas que ainda não estão legais. Princi-
palmente de voz, coisa que ainda não está muito segura. Cannibal – A gente está ensaiando umas músicas antigas
Tem muito buraco, muita coisa espaçada. Mas basica- do Inocentes. A gente não sabe ainda como vai ser a par-
mente é um CD de dub com participação de Zé Brown, de ticipação dele no show, se ele vai entrar no meio e ficar
um poeta de Peixinhos e de Fred Zero Quatro que faz os até o final. E a ideia é ele fazer umas da gente também.
cavaquinhos. E ele foi a principal influência do estilo da banda. Eu,
particularmente, quando pensei em fazer uma banda,
Guilherme – Tem previsão de lançamento? Nome?
foi quando escutei Inocentes, o “Pânico em SP”, que era
Cannibal – Não sei. A ideia era só gravar as músicas e um single com quatro músicas. Parecia que ele estava
colocar na Internet pra galera baixar. Mas não sei se vai falando do Alto José do Pinho. E na época eu andava com
ter nome. Eu só sei que não quero fazer show. Vai ser a a rapaziada do punk mas eu curtia muito metal: Iron Mai-
Enya da Jamaica (risos). É só uma coisa que eu gosto de den, AC/DC. Mas só fui me identificar com algo mesmo
fazer e que a galera não vai ouvir muito nos Devotos. quando ouvi Inocentes. Vi uma matéria sobre eles na
Bizz e comprei o disco deles num sebo. Me identifiquei
Guilherme – E o Estereoclipe?
muito com as letras. Daí resolvi fazer a banda. Eu não
Cannibal – Me chamaram pra apresentar o programa. Já saco nada de inglês, tudo que escuto é nacional. E a
tinham me chamado antes, quando China ainda partici- gente é filho do rádio. Não tínhamos dinheiro para com-
pava. Mas eu disse que não era a minha praia. E disse prar discos, então o jeito era ouvir rádio, que naquela
que não ia fazer o negócio porque eu não sei nem ler! Aí época, nos anos 1980, ainda tocava rock. Tá certo que
combinaram da gente fazer um piloto. Só que o piloto foi era um rock babaca do caralho, mas era rock.
uma armadilha, porque já estava rolando. Depois disse-
ram que ia rolar uma graninha e eu topei fazer. E a his-
tória é desconstruir a imagem do apresentador. Na ver-
dade, eu dou um tema e deixo a galera falar. Se você for
ver o programa, eu falo muito pouco. E está sendo legal
porque o programa está indo muito pra área social, que é
um lance que a gente trampa já há algum tempo. Mas eu
nem vejo o programa. Eu vi uma vez e achei uma merda.
Não o programa, mas o meu desempenho. Aí resolvi não
ver mais. E acho que deveria sair daquela emissora, que
é religiosa e tal. O programa é gravado nas quartas e vai
308 Devotos 20 anos Tudo que eu queria 309
Imagens: índice
P.85 Devotos no estúdio de ensaio
foto: Michele Souza

P.86-87
Alguns integrantes de bandas e amigos do Alto José do Pinho

e créditos reunidos em frente a reforma do Bar do Orlando, em 1993

P.95 Faces do Subúrbio no festival PE no Rock, em 1998

P.101 Capa da coletânea de hip-hop “Cultura de Rua”

P.105 Capa do disco “Como é Triste de Olhar”

P.23 Praça central do Alto José do Pinho P.111 Adilson Ronrona


foto: Guilherme Moura foto: Guilherme Moura

P.24-25 Fiteiro do pai de Adilson Ronrona e Mercado Municipal P.112 Capa da primeira fita demo do Matalanamão feita por Neilton
do Alto José do Pinho
foto: Guilherme Moura P.115
Integrantes do Matalanamão em 2000
foto: Jaqueline Maia (Jornal Diário de Pernambuco)
P.26-27 Fachada da associação dos amigos do dominó
foto: Guilherme Moura P.119
Neilton, Celo e Cannibal
foto: Michele Souza
P.29
Sede do afoxé Ylê de Egbá
foto: Guilherme Moura P.125 Cartaz da versão paulistana do festival Rec-Beat, em 1994
P.32-33
Muro do Bonsucesso
P.128
Set list de show dos Devotos
foto: Guilherme Moura
foto: Fred Jordão - Imago
P.34-35 Alto José do Pinho
P.130-131 Devotos e Seu Antônio, inspiração para “Vida de Ferreiro”
foto: Guilherme Moura
em 1995
P.42-43 Devotos no início da carreira foto: Gil Vicente
foto: Junior “Petardo”
P.134-135 Capa da fita demo “Vida de ferreiro”, feita por Neilton em 1995
P.54-55 Cartaz do primeiro show dos Devotos do Ódio
P.140-141 Cartaz do festival “Recife Summer Fest”, desenho feito por
P.60-61
Show dos Devotos do Ódio, em 1989, no bairro UR6, região Neilton em 1994 e Cartaz do evento “natalino punk” “Não Papai
metropolitana do Recife Noel”, em 1989
foto: Marcus Asbar
P.152-153 Neilton, Cannibal e Celo no Alto José do Pinho em 1993
P.67 Cartaz de festival punk na periferia do Recife em 1990 foto: Fred Jordão

P.70-71 Guitarra feita por Neilton e Neilton com seu irmão Nilson e sua P.154-155 Show dos Devotos na segunda edição do festival Abril Pro
primeira guitarra, uma Giannini Sonic (1988) Rock – Recife em 1994
Arquivo de família foto: Fred Jordão

P.80 Cartaz de show underground no subúrbio de Prazeres, Jaboatão P.163


Segunda formação do Matalanamão em 1994
dos Gararapes, primeiro show com Neilton como guitarrista dos foto: Gil Vicente
Devotos do Ódio, em 1989
P.168 Devotos assinando com a BMG em 1996 P.230-231 Capa de “Quem é o pai?”, do Matalanamão, lançado em 2005
foto: Jornal do Commercio
P.242-243 Quadro de Neilton intitulado “ALT3”
P.173
Cannibal eleva a bandeira de PE no encerramento da noite do
sábado do festival Abril Pro Rock em1998 P.244-245 “Imagens Puras 2” e “Na Linha do Tiro”

P.174-175 Tatuagem de Cannibal com uma estrofe da música “Alien” P.250-251 Amplificador Altovolts, feito por Neilton, em 2009
do CD “Devotos” lançado em 2000 foto: Neilton
foto: Neilton
P.256-257 Fachada do estúdio da Rádio Alto Falante
P.177 Capa feita por Neilton de “Agora tá Valendo”, lançado em 1997 foto: Guilherme Moura

P.182 Faces do Subúrbio em 2007 P.260-261 Corredor do Mercado Municipal


foto: Guilherme Moura
P.192-193 Cannibal e Dado Villa-Lobos na gravação do segundo CD
em 1999 pelo selo Rock It! P.268-269 Cartaz feito por Neilton do evento “Alto Falante 2 -
foto: Maurício Valadares gravando o show”

P.196-197 Devotos na cidade de Lisboa (Portugal), outubro de 2000 P.306-307 Show dos 20 anos dos Devotos, no Alto José do Pinho em 2008
foto: Paulo André foto: Michele Souza

P.198
Capa feita por Neilton do disco “Devotos”, e o single “Alien”, P.308-309 Capa feita por Neilton do CD “Devotos 20 anos” em 2009 e
lançado em 2000 Primeiro show dos Devotos do Ódio no festival punk 3º Encontro
Anti Nuclear, no centro do Recife, em 1988
P.201
Cenário dos shows dos Devotos feito por Neilton para o show foto da capa: Michele Souza
do CD “Devotos” em 2000
foto: Cannibal

P.211 Capa da coletânea Alto Falante, lançada em 1999

P.213 Cartaz do “Da Tribo Festival”, realizado em São Paulo, em 2000

P.219 Capa feita por Neilton de “A Hora da Batalha”, lançado em 2003

P.220-221 Cartaz do show de lançamento de “A Hora da Batalha” no Angar


110, em São Paulo, em 2003.
Sobre o autor

Jornalista com pós-graduação em Jornalismo Cultural,


escreve sobre música desde 2002. Paulistano radicado no
Recife, trabalhou na Rádio Cidade, Folha de Pernambuco e
colaborou com as revistas Zero, Rock Press e OutraCoisa.
Desde 2003 trabalha como repórter e crítico de música do
site Recife Rock! Conheceu o Alto José do Pinho na metade
da década de 1990, e, desde então, acompanha de perto
toda a movimentação cultural de lá. É fã de rock, de samba
de breque, de cinema e de literatura.
Este livro foi composto em Akkurat.
O Papel utilizado para a capa foi o Cartão Supremo 250g/m².
Para o miolo foi utilizado o Pólen Bold 90g/m².

Impresso pela Prol Gráfica em março de 2010.

Todos os recursos foram empenhados para identificar e obter


as autorizações dos fotógrafos e seus retratados. Qualquer falha
nesta obtenção terá ocorrido por total desinformação ou por erro
de identificação do próprio contato. A editora está à disposição
para corrigir e conceder os créditos aos verdadeiros titulares.

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