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Enraizados:

os híbridos glocais
Enraizados: os híbridos glocais
Dudu de Morro Agudo

Programa Petrobras Cultural Apoio


Copyright © 2010 Dudu de Morro Agudo
COLEÇÃO TRAMAS URBANAS (LITERATURA DA PERIFERIA BRASIL)
organização
HELOISA BUARQUE DE HOLLANDA
consultoria
ECIO SALLES
produção editorial
CAMILLA SAVOIA
projeto gráfico
CUBICULO

ENRAIZADOS: OS HÍBRIDOS GLOCAIS


produtor gráfico
SIDNEI BALBINO
designer assistente
DANIEL FROTA
revisão
CAMILLA SAVOIA
CAROLINA CASARIN
ITALA MADUELL
revisão tipográfica
CAMILLA SAVOIA

D897e
Dudu, de Morro Agudo, 1979-
Enraizados, os híbridos locais / Dudu de Morro Agudo. - Rio de Janeiro :
Aeroplano, 2010. il. -(Tramas urbanas)
Apêndice
ISBN 978-85-7820-053-4
1. Dudu, de Morro Agudo, 1979-. 2. Movimento Enraizados (Projeto
cultural). 3. Músicos de rap - Brasil - Biografia. 3. Hip-hop (Cultura
popular) - Rio de Janeiro (RJ). 4. Rap (Música) - Rio de Janeiro (RJ).
I. Programa Petrobras Cultural. II. Título. II. Série.

10-5555. CDD: 927.845


CDU: 929:78.067.26

27.10.10 29.10.10 022285

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A ideia de falar sobre cultura da periferia quase sem-
pre esteve associada ao trabalho de avalizar, qualificar
ou autorizar a produção cultural dos artistas que se
encontram na periferia por critérios sociais, econômi-
cos e culturais. Faz parte da percepção de que a cul-
tura da periferia sempre existiu, mas não tinha oportu-
nidade de ter sua voz.
No entanto, nas últimas décadas, uma série de traba-
lhos vem mostrar que não se trata apenas de artistas
procurando inserção cultural, mas de fenômenos orgâ-
nicos, profundamente conectados com experiências
sociais específicas. Não raro, boa parte dessas histórias
assume contornos biográficos de um sujeito ou de um
grupo mobilizados em torno da sua periferia, das suas
condições socioeconômicas e da afirmação cultural de
suas comunidades.
Essas mesmas periferias têm gerado soluções originais,
criativas, sustentáveis e autônomas, como são exem-
plos a Cooperifa, o Tecnobrega, o Viva Favela e outros
tantos casos que estão entre os títulos da primeira fase
desta coleção.
Viabilizado por meio do patrocínio da Petrobras, a con-
tinuidade do projeto Tramas Urbanas trata de procurar
não apenas dar voz à periferia, mas investigar nessas
experiências novas formas de responder a questões
culturais, sociais e políticas emergentes. Afinal, como
diz a curadora do projeto, “mais do que a internet,
a periferia é a grande novidade do século XXI”.

Petrobras - Petróleo Brasileiro S.A.


Na virada do século XX para o XXI, a nova cultura da
periferia se impõe como um dos movimentos culturais
de ponta no país, com feição própria, uma indisfarçá-
vel dicção proativa e um claro projeto de transformação
social. Esses são apenas alguns dos traços de inovação
nas práticas que atualmente se desdobram no pano-
rama da cultura popular brasileira, uma das vertentes
mais fortes de nossa tradição cultural.
Ainda que a produção cultural das periferias comece
hoje a ser reconhecida como uma das tendências cria-
tivas mais importantes e, mesmo, politicamente inaugu-
ral, sua história ainda está para ser contada.
É nesse sentido que a coleção Tramas Urbanas tem
como objetivo maior dar a vez e a voz aos protagonistas
desse novo capítulo da memória cultural brasileira.
Tramas Urbanas é uma resposta editorial, política e afe-
tiva ao direito da periferia de contar sua própria história.

Heloisa Buarque de Hollanda


Agradecimentos

Agradecemos a Heloisa Buarque de Hollanda pela opor-


tunidade. Aos Enraizados do Mundo, quiçá do Universo,
e ao nosso patrocinador maior: Deus, pelo milagre de
transformar cada barrigudinho melequento das peri-
ferias em grandes homens e mulheres, grandes líderes
das quebradas e grandes articuladores da cultura de
raiz. Aos amigos e familiares, não precisamos agrade-
cer, já que eles existem para nos apoiar mesmo, amigos
e parentes são pra essas coisas. É nóis, vagabundo!
Sumário

12 Introdução
14 Apresentação
16 Prefácio – por Luiz Carlos Dumontt

20 Cap.01 Antes de tudo


Um líder mirim
Primeiro contato com a arte
Trabalho: como conseguir grana?
O rap: como conheci e por que pratiquei
Cabeça vazia: oficina do diabo

56 Cap.02 Enraizados: como começou?


A criação do Movimento Enraizados
Portal Enraizados
Iniciando projetos
Enlaçado pelo Enraizados
A imprensa nos descobriu e descobrimos
a imprensa
2003: um ano divisor de águas
A experiência de mobilizar e entreter
O fim do começo…
Ousadia: deixe-me ir, preciso andar…
O Neoenraizados
Level two

144 Cap.03 Seguindo em frente


A arte de criar o inimaginável
Ousando em novos territórios
Cada um com o seu cada um
Nossas superproduções
Dinheiro: solução ou mais problemas?
Comunicação: passeando entre classes
Se não sonhássemos, não sairíamos
do lugar
Algumas luzes no fim do túnel
Entre trancos e barrancos
226 Cap.04 Estamos só no início
Acionando a Rede Enraizados
Um elefante branco nas mãos
Núcleo de mulheres do Enraizados:
uma questão de gênero
Mil fitas acontecendo
Articulação internacional
O pulo do gato
Nossa odisseia pela Europa
Voltando para casa

291 Anexo - Movimento Enraizados por


Movimento Enraizados (Frases no twitter)
301 Posfácio – por DJ Raffa
302 Imagens: índice e créditos
307 Sobre o autor
Introdução

A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer


coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram.
Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta
da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar,
verificar, e não aceitar tudo que a elas se propõe.
— Jean Piaget

Meu nome é Flávio Eduardo, no hip-hop me conhecem


como Dudu de Morro Agudo ou simplesmente DMA.
Nasci em 1979, em Morro Agudo, um bairro pobre e –
para alguns – violento da cidade de Nova Iguaçu, na Bai-
xada Fluminense do Rio de Janeiro.
Sou filho de Guilherme, um vidraceiro, que hoje é conhe-
cido como Dico por causa de uma de minhas músicas –
“Dico Sequela” –, e de Lúcia, uma ex-vendedora de rou-
pas que trabalha atualmente como merendeira numa
escola do município do Rio de Janeiro.
Quando eu nasci, minha mãe queria me colocar o nome
de Carlos Eduardo, porque na época passava uma novela
e o galã tinha esse nome. Meu pai queria Flávio porque
ele queria algum nome que lembrasse o Flamengo, a
grande paixão dele. Então ele pensou: Fla, fla, Flávio,
corta o Carlos e deixa o Eduardo, pronto: Flávio Eduardo.
Meu pai é o tipo de sujeito que podemos chamar de boê-
mio, vive cada dia como se fosse o último de sua vida; por
outro lado minha mãe é uma mulher centrada, que tem
como maior qualidade a honestidade e dedicou sua vida
ao trabalho para me dar uma educação de qualidade. A
prova disso é que estudei toda a minha vida em escolas

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particulares até o momento em que entrei para a facul-


dade e não pudemos mais pagar pelos estudos.
Eu acho que sou um misto dos dois. Um cara que ama a
noite, a vida, mas que tem uma preocupação excessiva
com suas responsabilidades. Em toda a minha família,
creio que sou a única pessoa que trabalha com arte. A
maioria dos meus familiares começou a trabalhar bem
cedo, boa parte em trabalhos braçais, e pouquíssimos
conseguiram cursar uma universidade. A arte nunca foi
bem-vista na minha casa. É comum nas famílias que vivem
na periferia as crianças começarem a trabalhar bem cedo,
para ajudar em casa ou para ter sua independência finan-
ceira, e para isso quase sempre param de estudar, repetindo
a mesma história de vida de seus pais e avós.
As escolas públicas de nível fundamental e de nível
médio na Baixada Fluminense não têm um ensino muito
bom. Na prática eu já sabia, mas resolvi fazer uma pes-
quisa e fiquei ainda mais surpreso com o resultado. Des-
cobri que das 50 melhores escolas do país 42 são parti-
culares e apenas oito são públicas. Analisando a mesma
tabela percebi que no estado do Rio de Janeiro estão 18
das 50 melhores escolas de nível médio do país, e des-
sas 18, 14 são particulares e apenas quatro são públicas,
e das quatro, três são federais e somente uma estadual.
Descobri ainda nessa pesquisa que das 18 melhores
escolas do nosso estado apenas uma está na Baixada
Fluminense, em Nova Iguaçu, e é particular. Quer dizer,
as pessoas de baixa renda jamais vão conseguir estudar
em uma escola dessas.
Baseado nisso é fácil entender por que minha mãe fez de
tudo para que eu estudasse em escola particular, mas
nem por isso tive o melhor ensino. Poucos são os que
conseguem quebrar esse ciclo social, mas graças a Deus
eu sou um desses.
Apresentação

Não existe uma fórmula para o sucesso.


Mas, para o fracasso, há uma infalível:
tentar agradar a todo mundo.
— Herbert Bayard Swope

Resolvi escrever este livro para contar de forma cronoló-


gica a história do Movimento Enraizados. A ideia é focar
nas principais atividades, baseado naquilo que vivi e vivo
dentro da organização.
Apesar de eu tê-lo criado em 1999, o Movimento Enrai-
zados é na verdade o reflexo das centenas de pessoas
que por ali passam e vivem os mais variados e intensos
momentos, dando forma, vida e movimento à organiza-
ção. Por isso, pela grande quantidade de histórias boas
e interessantes, nem todos puderam entrar nesse livro.
O Movimento Enraizados é uma organização complexa
que me permitiria abordar diversos eixos, mas decidi
enfatizar a Rede Enraizados e seus processos de comu-
nicação capazes de agregar pessoas e organizações de
todo o mundo para discutir e pensar soluções coletivas
para problemas locais, que também podem se tornar
soluções globais.
Segundo o professor Leonel Azevedo de Aguiar1, em um
trecho do artigo “Apropriação das tecnologias de infor-
mação e estratégias da ecologia do virtual”, publicado
na revista “Rastros”: “Enraizados na rede rizomática:

1 Professor do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-


Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio. Doutor e Mestre em Comuni-
cação pela UFRJ. Jornalista formado pela UFF.

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simultaneamente, local e global – ação política local e


produção cultural global. Movimento hip-hop, aporte
glocal para o ciberativismo político.”
Por muito tempo a história da organização se confundiu
com a minha, por isso os primeiros textos falam um pouco
da minha vida até o momento da criação do movimento.
Creio que desta forma será mais fácil o entendimento de
como tudo começou.
A ideia do livro é sintetizar algumas situações e também
relatar os acontecimentos de forma objetiva para que o
leitor tire suas próprias conclusões e talvez consiga per-
ceber neste material, após uma leve reflexão, o ponto
chave em que uma intervenção cultural pode mudar o
destino da juventude brasileira.
Então vamos lá!
Prefácio

Se houvesse uma única palavra para designar o que sig-


nifica o Movimento Enraizados em sua máxima ampli-
tude, seria difícil escolher termo mais exato que a pala-
vra milagre.
Uma ação despretensiosa que se desenvolve em um
formato de rede-mãe com várias outras redes interliga-
das, provenientes de ideias tidas anteriormente como
improváveis, descabidas e até mesmo impossíveis de
acontecerem em um primeiro momento, isoladamente
ou em cadeia, dada a sua origem e o histórico de seus
criadores, sem conhecimento prévio de outras formas
de mobilizações parecidas, nem conhecimentos acadê-
micos, nem tutores, nem padrinhos ricos, nem herança
alguma de quaisquer outros agentes de fora ou de den-
tro do Movimento.
É complicado falar de si próprio, sem deixar transpare-
cer aquilo que nos impulsiona de forma definitiva para
um horizonte desconhecido, desafiador, porém insti-
gador e mola mestra de tudo o que fazemos, a nossa
autoestima, nossa força maior; nosso caráter guerreiro,
pronto para nos lançar do penhasco e construir as asas
no meio do caminho antes que “esborrachemos” de cara
no chão; essa força que provém do quase nada e domina
toda a nossa alma, mente e corpo e nos possibilita tentar
algo novo e inusitado e quase suicida é o que chamamos
carinhosamente de militância cultural – interferir local-
mente com ações culturais em rede para discutirmos

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políticas públicas e mudar uma realidade histórica de


exclusão sociocultural e econômica em nossas “quebra-
das” (bairros).
Nas próximas páginas o leitor se deparará com a quebra
vigorosa de um paradigma presente em todas as comuni-
dades brasileiras e talvez do mundo, o ciclo de repetição
a que estamos fadados a viver viciosamente em nossas
vidas: se sou de família abastada, também serei abas-
tado, mas se sou de família pobre, continuarei pobre e
deixarei a minha pobreza de herança para a minha prole.
Essa noção está bem consolidada nas famílias de dou-
tores, médicos, militares, empresários e, acima de tudo,
nas milhares de famílias de operários; sendo que no
caso dos operários ou proletários, como queiram cha-
mar, há quase que uma inflexibilidade, é quase impossível
para um filho de um proletário ser um médico, um doutor
ou um oficial militar, porque o processo de exclusão social
seguido de uma forte pressão psicológica nos impulsiona
a pensar que as coisas são assim mesmo, que não há
nada de mais em repetir a profissão do meu pai e não
tentar uma medicina ou qualquer outra profissão que
me faça ascender socialmente é uma praga que comba-
temos com treinamento psicológico na nossa escola de
militância, o Cefam – Centro de Estudo e Formação de
Ativismo e Militância, onde nós, por nós mesmos, inter-
pretamos as várias mensagens diretas, indiretas e até
mesmo subliminares dos vários meios de comunicações
que nos rotulam, nos cegam e nos condicionam a pensar
que todo esse “esquema social” é a vontade de Deus.
Nessas páginas não há a verdade acima de tudo, muito
menos todos os fatos que aconteceram na história do
Movimento Enraizados, mas apenas um ponto de vista de
um dos seus idealizadores e um dos maiores líderes que
eu tenho o prazer de conhecer e chamar de meu amigo:
DMA, Dudu de Morro Agudo, Flávio Eduardo. Não importa
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como o conheça, é mais um sobrevivente e um guerreiro


dedicado, sempre voluntário para as tarefas mais difí-
ceis, líder da F.E. – Forças Especiais desse grande exér-
cito que se espalha desde os becos mais escuros e som-
brios das favelas até o asfalto, chegando até mesmo às
praias da Zona Sul. A clareza de ideias, a multicultura-
lidade e principalmente a vivacidade de uma juventude
pronta para a guerra social que se desenrola a todo o ins-
tante em nossas vidas arrebanha cada vez mais volun-
tários, fazendo-nos crescer em número e qualidade em
uma taxa de não menos que 500% ao ano, começando
com 3 cartas escritas inicialmente para militantes da
cultura hip-hop, para a quebra da barreira dos 600.000
acessos únicos mensais em nosso site na Internet.
Ganhamos prêmios, status e moral, mas o nosso maior
orgulho é ganhar mais um irmão para essa grande famí-
lia que chamamos de Enraizados. Alguns nos chamam
de loucos fantásticos, bairristas lunáticos ou provin-
cianos; nós preferimos nos autodesignar simplesmente
de Enraizados; mas a definição de fora do movimento
que mais nos deixa felizes é a do professor Leonel Aze-
vedo, um homem fantástico que nos chama carinhosa-
mente de híbridos glocais.
Obrigado a todos que nos ajudam das formas possíveis
e imagináveis a divulgar, difundir e até mesmo explicar
para os outros e para nós mesmos aquilo que fazemos
com tanto amor e afinco, simplesmente por ser a nossa
razão de viver.
Amamos nossa arte, nossa cultura
e todos os que nos cercam.
Boa leitura.
Luiz Carlos Dumontt
Às 17h22 do dia 23 de abril de 2010.
Cap.01
Antes de tudo
Um líder mirim

A diferença entre um chefe e um líder:


um chefe diz, Vá!
um líder diz, Vamos!
— E. M. Kelly

Meus pais sempre trabalharam fora, então eu ficava sozi-


nho desde muito novo, tendo que cuidar dos afazeres de
casa, tomar banho, ir para a escola, fazer as lições e ficar
no sapatinho até meus pais chegarem, sendo frequente-
mente vigiado pelos vizinhos a pedido de minha mãe.
Lembro de poucas coisas da minha infância, apenas algu-
mas ficaram marcadas na memória, como, por exemplo, o
dia em que aprendi a andar de bicicleta. Meu pai tirou as
rodinhas auxiliares e me levou pra rua, comecei a peda-
lar e quando eu estava me sentindo seguro ele largou o
selim. A partir daí começava a me equilibrar sozinho pelas
ruas de Morro Agudo. Lembro também do dia em que meu
pai me levou para um campo de futebol. Isso me marcou
muito porque meu pai era do tipo provedor, apesar de não
me levar muito para passear como os pais costumam
fazer com os filhos, porque a principal preocupação dele
era não deixar as coisas faltarem em casa, uma atitude
muito comum entre os pais da periferia.
Quando criança, eu era sempre o primeiro lugar na escola,
até que cheguei na sexta série e comecei a desandar. Em
1990, com apenas 11 anos de idade, gazeteei aula por

22
Antes de tudo 23

quase um ano, foi inevitável a reprovação. Minha mãe,


que sempre acompanhava minhas presenças na escola
através dos carimbos na caderneta escolar, não descon-
fiava das minhas travessuras porque eu mandei fazer
um carimbo de presença idêntico ao da escola.
Os diretores do Colégio Luiz Silva, o melhor colégio do
bairro na época, enviavam bilhetes para minha casa,
querendo saber por que eu não estava comparecendo às
aulas, mas eu sempre interceptava os bilhetes e falsifi-
cava a assinatura da minha mãe, até que um dia envia-
ram um telegrama. Foi quando minha mãe descobriu toda
a verdade e eu levei a última grande surra da minha vida.
A televisão me ensinava a falsificar documentos. Lem-
bro de uma entrevista que vi com um velho estelionatá-
rio que dizia: “No Brasil a burocracia dá brecha para a
falsificação, todo papel que tem um carimbo vira origi-
nal.” Eu viajei na ideia do coroa e fiquei pensando onde
eu poderia aplicar esse “ensinamento”, até o dia em que
fiz na escola. Como deu certo na primeira vez, continuei
fazendo até dar errado, e me lasquei.
Eu apanhava com frequência, minha mãe não admitia
que eu vacilasse, e nesse dia ela me bateu tanto que os
vizinhos vieram me socorrer, mas não adiantou, minha
mãe colocou todo mundo pra correr e me desceu a por-
rada. Lembro de um diálogo entre minha mãe e uma vizi-
nha que tentava interceder por mim:
— Lúcia, solta ele, você vai machucar o menino!
— O filho é meu e eu vou educar do meu jeito. Eu paguei
um ano de escola pra quê? Pra ele gazetear aula? Ele tá
pensando que eu ganho dinheiro onde?

Nesse momento eu pensei: “Tô fodido, agora ela vai me


matar.”
24 Enraizados: os híbridos glocais

Com 11 anos, liderei muitos garotos rumo à reprovação.


Depois disso tomei gosto pelos estudos novamente. Em
1992 comecei a estudar informática – minha grande
paixão – num curso de Morro Agudo. Ainda não existia
o famoso Windows, então eu fazia curso de Digitação,
MS-DOS, Word Star e Lótus 123. Meus pais não queriam
pagar o curso alegando que eu não terminava nada do
que começava, mas eles acabaram cedendo porque se
tratava de conhecimento para o meu futuro.
Nas aulas de digitação eu treinava digitando um funk
famoso da época, cantado por MC Mascote e MC Neném,
cujo nome era “Rap da Daniela Perez”.
Daniela Perez era atriz, filha da autora de telenovelas
Glória Perez, e foi assassinada pelo colega de trabalho
Guilherme de Pádua no dia 22 de dezembro de 1992. Foi
um crime que abalou o Brasil inteiro. Os dois MCs, então,
fizeram essa música em homenagem à atriz e ficaram
famosos por causa desse rap, a única música que falava
da morte de Daniela autorizada por Glória Perez, que
ficou emocionada com a homenagem.
Foi nesse ano que conheci um dos meus melhores ami-
gos, o Luciano Gomes – que hoje é policial militar. Ele é
como um irmão, mas nossa amizade começou na base
da porrada. Ele liderava uma galera no colégio e eu lide-
rava outra, até que um dia, por causa de uma garota, a
gente se enfrentou.
Ele diz que me bateu, mas eu tenho certeza que ganhei
a briga. E a fama de vencedor ficou mesmo pra mim por-
que ele faltou as aulas por dois dias após a briga e me deu
tempo de contar minha vantagem para todo o colégio. Tem-
pos depois a gente começou a se falar e juntamos nossas
duas galeras. Ficamos então com mais moral na escola do
que os caras da oitava série, que eram nossos inimigos.
Antes de tudo 25

Eu fazia curso de informática, mas não tinha computa-


dor para treinar. Usava o de um amigo — Marcelo Granja
— que tinha um TK85, um computador que ligava na
televisão, funcionava com Basic e gravava os progra-
mas num gravador cassete. É engraçado lembrar dessas
parafernálias porque parece que sou muito velho, mas
tenho apenas 30 anos. Depois ele ganhou um CP500, um
computador muito esquisito, pois o teclado e o moni-
tor eram colados, uma peça única. Os pais do Marcelo
tinham uma condição financeira legal, provavelmente os
de mais grana na rua onde eu morava, então os brinque-
dos eletrônicos caros chegavam primeiro na casa dele.
Nesta época eu já arrumava revistas e livros de Basic
e fazia pequenos programas de computador, mas não
conseguia gravar na fita cassete. Todos os dias eu perdia
tudo o que digitava e refazia novamente no dia seguinte,
o que serviu pra eu aprender lógica de programação
antes mesmo de estudar a matéria na escola e tomar
gosto por ela.
Tempos depois um outro amigo ganhou um 386 dos pais.
É um grande amigo e se chama Marcio, mas é conhe-
cido no bairro como Marcio Periquito, porque ele tem
um nariz igual ao do Luciano Huck. A gente troca muita
ideia até hoje, ele também é apaixonado por informática
e nunca foi apegado a bens materiais, o que permitia que
eu estudasse e treinasse no computador dele.
A desigualdade social é presente até em Morro Agudo,
onde algumas pessoas têm carros importados, casa
bonita, condições de colocar o filho em boas escolas e
cursos, enquanto o outro extremo não tem nem mesmo
o que comer e deixa seus filhos jogados nas ruas. O que
separa essas famílias, geograficamente, é, às vezes,
apenas um muro. Eu estava no meio dessas duas reali-
dades, conhecendo e transitando de um lado ao outro e
colocando essa galera para conversar.
26 Enraizados: os híbridos glocais
Antes de tudo 27
28 Enraizados: os híbridos glocais
Antes de tudo 29
Primeiro contato
com a arte

Não tocamos para agradar os críticos.


Tocamos o que queremos, quando queremos
e o quanto quisermos.
E temos motivos para tocar.
— Bob Marley

Em 1993 o funk carioca ficou muito forte e presente na


minha vida, e comecei a arriscar algumas composições.
Justamente quando ele deixa de aparecer nas páginas
culturais dos jornais e passa a frequentar as páginas
policiais. Creio que esse foi meu primeiro contato com a
produção de arte: fazer letras de música. O processo de
criação me fascinou, e depois que vi minha letra de rap
pronta tive vontade de mostrar para alguém, mas sentia
muita vergonha.
Eu ouvia música desde pequeno, influenciado por meu
pai, que gostava de Tim Maia, Jorge Ben, Elis Regina, Car-
los Alberto, Roberta Miranda. Ele era – e acho que ainda
é – apaixonado pela música da Roberta Miranda, mas não
sabe cantar nenhuma, só os refrões e alguns pequenos
trechos. Fazia questão de “zoar o plantão” fazendo uns
sons esquisitos nas partes em que não sabia cantar.
Meu pai colocava o som no último volume pros vizinhos
ouvirem também. Hoje ainda é assim, e se bobear é
ainda pior. No quartinho que ele tem no terraço de casa,

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Antes de tudo 31

construído para guardar as ferramentas, e que hoje é o


local em que ele faz alguns trabalhos de artesanato, foi
montada uma espécie de rádio comunitária. São alto-
falantes pendurados no telhado do terraço, ligados a
um rádio velho – porém barulhento –, em que ele põe
as músicas antigas pra tocar e agora também o rap da
minha rapaziada. O maneiro disso tudo é que ele gosta
de rap. Ele e minha avó foram as pessoas que sempre
me deram força pra eu fazer rap, mesmo sem saberem
exatamente o que era.
Com essa idade eu já curtia os bailes funk no clube Vas-
quinho de Morro Agudo. Uma época que tinha muita
briga, quando quem morava no bairro da Tenda não podia
ir pro outro lado da estação de trem porque era o bonde
inimigo. Dentro do baile, que supostamente era um local
neutro, a porrada era generalizada. Eu era novo, mas
estava lá, com os caras mais velhos da minha rua. Era
uma maluquice de garotos, a gente ia pro baile pegando
carona na porta dos ônibus. Lembro de um camarada
chamado Ripe, que apesar de ser novo era o mais alto do
grupo. Ele sofreu um acidente quando estava pegando
carona na porta do ônibus. O motorista, por pura mal-
dade, jogou a lateral do ônibus num caminhão, e um
parafuso entrou no braço dele. Era sangue pra todos
os lados. Levamos ele em casa, entregamos pra mãe, e
depois fomos pro baile.
Também lembro de uma vez que fiquei com medo por-
que o motorista estava correndo muito e eu pulei do ôni-
bus em movimento. Ele estava descendo uma ladeira,
a rua era de paralelepípedo, mas tinha muita areia, e
quando o ônibus passava subia poeira como naqueles
filmes antigos de faroeste. Eu ainda não tinha a malícia
de pegar carona, então pulei e fiquei parado. Meu corpo
foi jogado para a frente e só lembro de descer rolando o
morro atrás do ônibus. O mundo ia girando cada vez mais
32 Enraizados: os híbridos glocais

rápido, eu colocava a mão na frente para não machucar


o rosto, e no final deu tudo certo. Não machuquei o rosto,
mas em compensação minha mão ficou em carne viva,
minha roupa toda rasgada, joelhos e cotovelos ralados,
e mesmo assim fui curtir o baile. Quando cheguei dentro
do Vasquinho fui no banheiro lavar as pernas, os braços
e corri para o “trenzinho” dar meus gritos de guerra.
Nas brigas dos bailes e do bairro eu sempre me desta-
cava porque era bom de porrada. Além disso, os garo-
tos da minha idade sentiam certo medo de mim porque
eu andava com os caras mais velhos, mais influentes.
Quando algum moleque da minha idade vacilava era por-
rada nele. Eu não costumava praticar as mesmas ati-
vidades que os garotos da minha idade, não sabia sol-
tar pipa, até jogava bola direitinho, mas não gostava, e
só jogava bola de gude porque a molecada toda estava
jogando. Eu gostava mesmo era de trocar ideia, escre-
ver, desenhar e fazer programas de computador.
Ao mesmo tempo em que eu deveria ser educado, res-
peitar os mais velhos, eu também tinha que ser respei-
tado na rua, senão eu virava “comédia”. Nessa época eu
pegava um teclado e um gravador do Marcelo Granja, um
microfone com outro camarada, fazia bases de funk e
gravava minhas músicas em casa. Foram minhas primei-
ras gravações de funk. Eu envolvi até o próprio Marcelo
nas gravações, a gente fez uns sons zoando uma mina
que era ex-namorada dele. Mostramos a fita pra ela, que
mostrou pra mãe, e então deu uma confusão danada. Eu
tenho certeza que elas gostaram do som, porque ficou
maneiro de verdade, mas a gente falava várias besteiras,
e a mãe da menina tinha que impor respeito.
No final de 1993 terminei o primeiro grau, e no próximo
ano eu daria um passo importante: sairia do colégio onde
estudei por toda a minha vida e iria estudar à noite, no
Antes de tudo 33

centro de Nova Iguaçu. Pra mim isso significava a minha


independência. Minha mãe queria que eu estudasse no
colégio Iguaçuano, que pertencia à mesma família da
minha antiga escola. Eu não concordava porque no Igua-
çuano estudavam uns playboys de Nova Iguaçu e nessa
época eu já sentia o preconceito e a discriminação que
esse pessoal tinha por mim.
Nós conversamos e eu convenci minha mãe a me matri-
cular num colégio chamado Ceni, pois somente lá tinha
o curso que eu queria fazer: tecnologia em processa-
mento de dados. Depois que comecei a estudar percebi
que o ensino não era muito bom, mas foi a partir dali
que dei um rumo na minha vida e comecei a me tornar o
cara que sou hoje.
Já no primeiro ano conheci o Netinho, que hoje também
é policial militar. Ele sempre morou perto da minha casa,
mas a gente nunca tinha trocado ideia antes do Ceni.
Começamos a vir de ônibus juntos pra casa, até que nos
falamos a primeira vez e ficamos logo camaradas. A gente
tocava o maior terror no colégio. Ele já era bem funkeiro
e me levava pra curtir os bailes em outros lugares da
cidade. E eu levava ele para gravar umas músicas comigo.
34 Enraizados: os híbridos glocais
Antes de tudo 35
Trabalho: como
conseguir grana?

Sua profissão não é aquilo que traz para casa o seu salário.
Sua profissão é aquilo que foi colocado
na Terra para você fazer com tal paixão e tal intensidade
que se torna chamamento espiritual.
— Vincent Van Gogh

Enquanto estudava, já arrumava um trocado instalando


som de carro, pois além de informática eu também gos-
tava de eletrônica e usava os dois como um meio alter-
nativo de conseguir grana. Para os meus pais era difícil
pagar meus estudos. Minha mãe trabalhava muito para
pagar minha escola e eu não podia exigir mais dela.
Aprendi a consertar som de carro com o Mário, pai de um
amigo da rua onde moro. Ele ganha a vida consertando
aparelhos eletrônicos, e de tanto eu pedir me ensinou
essa atividade que já me rendeu uns bons trocados. Mário
dizia que som de carro quando para de funcionar quase
sempre é problema da saída do próprio som, então eu
tinha que trocar o CI (circuito interno). E isso era “batata”:
quase sempre era mesmo esse o problema.
Ganhei uma grana maneira consertando o rádio dos
outros, e a fama ia aumentando, e cada vez chegava mais
gente. Meu portão vivia cheio de carros. Com apenas 14
anos já sabia dirigir, era um dos poucos garotos da rua
que tinha essa habilidade. Até ensinei outros garotos,

36
Antes de tudo 37

como o César, filho do cara que me ensinou a conser-


tar aparelhos eletrônicos. Quem emprestava o carro era
o Marcelo, um cara um pouco mais velho que eu, que
morava no final da rua. Meu pai nunca teve carro e até
hoje não sabe dirigir, então tive que aprender olhando os
outros na rua e pedindo para dar um rolé no carro deles.
Para arrumar um dinheiro a mais eu aprendi também a
recondicionar alto-falantes, isso também foi o Mário
quem me ensinou. Quando as pessoas chegavam à minha
casa para instalar um som já vendia o pacote de servi-
ços completo. O tempo foi passando e a grana estava
ficando curta com esse esquema de recondicionamento
de alto-falantes, então eu e o Netinho decidimos correr
atrás de um trabalho de carteira assinada. Compramos
o jornal no domingo e fomos atrás das vagas dos clas-
sificados. Chegamos até uma agência de empregos em
Duque de Caxias, que nos mandou fazer uma entrevista
na Comercial Lubi Peças, em Nova Iguaçu.
Estávamos confiantes, nosso primeiro emprego estava
por vir. Na manhã do dia marcado chegamos à loja, que
era uma autopeças, fazia calor, mas eu sentia frio na
barriga. Nunca tinha passado por aquela situação antes.
Tinha muita gente querendo aquela vaga de estágio.
Fizemos uma entrevista com uma senhora chamada
Sandra, uma morena de cabelos longos e encaracola-
dos, que estava grávida de uns sete ou oito meses. Ela
era responsável pelo setor de recursos humanos. Fez a
entrevista comigo e com o Netinho ao mesmo tempo.
Eu fiquei desanimado porque ela conversou muito mais
com ele, me fez três perguntas e duas dúzias para ele,
que ficou muito mais confiante. Surpreendentemente,
no outro dia, foi o meu telefone que tocou, quer dizer,
o da minha vizinha, pois a gente não tinha telefone em
casa. Eu estava contratado, era o meu primeiro emprego.
38 Enraizados: os híbridos glocais

Na verdade era um estágio em que eu deveria trabalhar


na área de informática, mas me jogaram no setor finan-
ceiro. Fiquei três meses por lá, até que tive uma discus-
são com o dono da empresa.
Eu já estava puto da vida porque me tiraram do setor
maravilhoso que eu estava trabalhando e me jogaram
pra emitir nota fiscal. O rapaz que estava neste setor
não dava conta do serviço e era sobrinho de um amigo do
meu patrão. No novo setor, além de eu ter que lidar com
a pressão dos vendedores, tinha que ir frequentemente
trocar cheques por dinheiro na sala do todo-poderoso,
que nem sempre estava de bom humor.
Eu chegava em casa todo dia muito cansado porque
trabalhava e estudava e no trabalho estava um saco.
Então parei pra conversar com o meu “coroa”, que me
deu um conselho um tanto quanto perigoso para um
cara da minha idade. Ele disse: “Filho, não deixe nin-
guém tirar onda com a tua cara, principalmente patrão,
se tu sentir que ele tá abusando, tu manda logo ele se
foder, porque tu não precisa dessa merda de trabalho,
aqui em casa a gente dá um jeito, de fome tu não morre.
Eu quero é que tu estude.”
Eu fiquei com aquilo martelando na cabeça. Ninguém vai
tirar onda comigo, se o meu patrão meter uma bronca eu
meto duas. Até que um dia subi para trocar um cheque
e ele estava de mau humor, eu também não estava em
um dos meus melhores dias, e o nosso encontro foi fatal.
A vontade dele prevalecia porque era dono da empresa
e gostava de pisar nas pessoas, então quando ele ten-
tou me humilhar a gente se enfrentou, um garoto de 15
anos batendo boca com um homem de quase 50. Pare-
cíamos gladiadores divertindo os funcionários que
ficavam ouvindo através da porta.
Antes de tudo 39

Rolaram uns “puta que o pariu” pra cá, uns “filho da


puta” pra lá, e quando eu já estava cansado de xingar, fui
embora. Era quinta-feira de manhã quando aconteceu o
bate-boca, e voltei ao trabalho somente no sábado, só
pra pegar minhas coisas, mas o patrão já estava calmo
e queria que eu continuasse na empresa. Ele ainda elo-
giou meu gênio forte, mas eu não quis ficar. Sabia que ali
tinha acabado meu respeito por ele e não via como cres-
cer profissionalmente naquele lugar.
Apesar das alternativas que eu tive para ganhar dinheiro,
e de ter conseguido emprego logo na primeira tentativa,
essa não é a realidade da juventude das periferias do Rio
de Janeiro, e quem sabe de todo o Brasil. Paula Martins
Salles comenta em sua monografia “Caminhos de Visi-
bilidade para a Juventude da Periferia da Metrópole do
Rio de Janeiro”:
Os jovens das camadas populares têm oportunidades
bastante limitadas de usufruir dessas características
juvenis, não só porque precisam começar a trabalhar e
construir família mais cedo, mas porque não têm como
usufruir um período longo de despreocupação. [p. 9]

Tempos depois, quando o Movimento Enraizados produ-


ziu o documentário “E o meu direito ao emprego”, perce-
bemos que existem diversas juventudes no Brasil, e com-
parando a juventude pobre, que vive nas periferias das
grande metrópoles, com a de classe média, concluímos
que os jovens da periferia não têm as mesmas oportuni-
dades de trabalho porque não tiveram a mesma qualidade
no ensino. Ainda de acordo com Paula Martins Salles:
A juventude é uma construção social historicamente
determinada, daí que não se pode pensá-la sem espe-
cificar de qual juventude se está falando. As condições
sociais, culturais, políticas e econômicas em que se
encontram esses jovens são determinantes para se
40 Enraizados: os híbridos glocais

entender e definir as experiências juvenis. A situação de


desigualdade da sociedade brasileira torna esse recorte
ainda mais fundamental. (...)

É importante ressaltar que a concepção moderna de


juventude (adotada pelo senso comum até os dias de
hoje) foi calcada principalmente na experiência dos
jovens das classes médias. A esses, foi aberta a pos-
sibilidade de se alongar na fase de transição ao mundo
do trabalho, visando um maior investimento na sua for-
mação profissional. Isso significou uma ampliação con-
siderável no número de estudantes na sociedade (Corti,
2004). Esse alongamento permitiu a esses jovens um
adiamento de todas as marcas de entrada na vida adulta:
trabalho, matrimônio e filhos. Como essa experiência
de postergamento da vida adulta não foi e não é igual
para todos os jovens torna-se necessário, ao se falar de
juventude, definir de que juventude se está falando.
[Paula Martins Salles, pags 5 e 9]
O rap: como conheci
e por que pratiquei

Ser você mesmo em um mundo


que está constantemente tentando
fazer de você outra coisa
é a maior realização.
— Ralph Waldo Emerson

Assim que acabamos o primeiro grau, o Luciano Gomes


foi morar em Cascadura, subúrbio do Rio de Janeiro. Nós
já éramos muito amigos nessa época, todo fim de semana
eu ia pra casa dele, e num desses fins de semana ele me
mostrou uma fita cassete com uma música que eu achei
bem mais maneira do que o funk carioca, uma fita com
o rap do Racionais MCs. Creio que esse foi meu primeiro
contato com o rap, e gostei na hora.
Para mim era tudo muito novo, as músicas duravam mui-
tos minutos, eram interessantes e inteligentes, e havia
também histórias que falavam daquilo que eu vivia.
Nessa época eu começava a refletir a respeito da minha
vida, a respeito da sociedade, começava a analisar o
mundo por outro ângulo, e percebi que toda a angústia
que eu já sentia era retratada naquelas músicas.
A partir daí, eu e o Luciano começamos a escrever algu-
mas letras de rap do hip-hop. Digo assim porque no Rio de
Janeiro tínhamos que falar desta forma – rap do hip-hop
– senão as pessoas achavam que era funk, e o funk já
estava totalmente demonizado pela sociedade carioca.

42
Antes de tudo 43

Nesse mesmo ano as músicas do Gabriel, o Pensador


começaram a tocar nas rádios do Rio de Janeiro. Eu gos-
tava da maneira que ele escrevia e comprei o primeiro
vinil dele, em que havia as músicas “Tô feliz (matei o pre-
sidente)” e “Indecência militar”, que eu gostava muito.
Gabriel, o Pensador colaborou para a disseminação do
rap e do hip-hop. Muita gente pode até não admitir, mas
tem uma galera boa no rap do Rio de Janeiro que come-
çou ouvindo o rap do Gabriel, que é um puta letrista.
Com minha saída da Lubi Peças fiquei “quebrado”, tinha
que arrumar outro emprego. Eu lembrei que meu primo
Acácio, que tem o apelido de Junior Baiano, trabalhava
num lava-jato, e fui ver se ele arrumava um trabalho pra
mim. Ele disse que um camarada dele tinha um lava-
jato no Carmari, um bairro que apesar de ser na cidade
de Nova Iguaçu era muito distante de onde eu morava, e
que eu poderia arrumar um trabalho por lá. Me passou
o endereço e eu fui pedir emprego. Eu já sabia dirigir e
isso facilitou na hora da contratação. Chegando ao lava-
jato fiquei surpreso porque três caras que moravam na
minha rua já trabalhavam lá, falei com o dono e comecei
no mesmo dia.
O salário era R$15,00 por semana. Não tinha folga, não
tinha dinheiro de passagem, não tinha dinheiro pra com-
prar almoço, e o salário mínimo na época era R$64,79.
Mas eu estava feliz de estar trabalhando lá, era o meu
dinheiro, conseguido, literalmente, com o meu suor.
Com o passar do tempo eu comecei a rezar pra chover,
pois quando chovia a gente não trabalhava. Todos os
funcionários do lava-jato se reuniam, pegávamos uns
baldes pra batucar e começávamos a cantar samba, eu
sempre infiltrava umas rimas no meio. Mas no outro dia,
se fizesse sol, tinha trabalho em triplo.
44 Enraizados: os híbridos glocais

Eu passava muito tempo na rua, e não a achava perigosa.


Frequentemente via corpos nas esquinas, muitas vezes
de conhecidos e até mesmo de amigos.
Era costume os pais levarem as crianças para verem os
mortos. Minha mãe nunca me levou, ela morria de medo.
Quando as pessoas não morriam assassinadas, eram
atropeladas na Dutra e a molecada ia ver, esperando o
rabecão chegar pra recolher o corpo.
A morte estava banalizada na minha área, a vida não
tinha valor, e creio que hoje, por conta de muitos fato-
res, é ainda pior. Amigos de infância se mataram. Todo
mundo sabe quem são os assassinos, mas ninguém fala
nada. A polícia não investiga e fica tudo por isso mesmo.
Eu ficava pensando: “Por que a polícia não investiga as
mortes que acontecem nas periferias?”
Teve um momento, na minha rua, em que todos anda-
vam armados, inclusive eu. Um dia minha mãe tomou um
susto. Ela achou que eu estava meio estranho, entrava e
saía muitas vezes do quarto. Ela esperou eu sair e abriu
a porta do meu guarda-roupas, foi mexer nos meus livros
e caiu um revólver calibre 38 no seu pé.
Nunca vi minha coroa chorar tanto. A arma era do meu
tio, disse que ele tinha dado pra eu guardar. Ela acredi-
tou na minha versão, porém ficou com um ódio mortal
do meu tio.
Como eu tinha o costume de andar com os caras mais
velhos, às vezes ouvia o que não devia. Sabia das pes-
soas que iriam morrer, dos assaltos que os caras iriam
fazer, mas eu estava ali no meio e eles não se importa-
vam em falar desses asssuntos perto de mim, ficavam
tranquilos porque sabiam que eu era confiável. Acho que
na época eu tinha ainda 15 anos. E de uma maneira ou
Antes de tudo 45

de outra eles eram minha referência, eu achava maneiro


o que eles faziam, apesar de não fazer igual. E isso é o
que acontece com os moleques da minha área até hoje,
eles acham que vão ter mais respeito dos outros se eles
andarem armados, se roubarem ou praticarem outro
delito qualquer. Minha sorte era que a palavra da minha
mãe era sobreposta a qualquer outra, então valiam sem-
pre os valores que ela me passava.
Hoje em dia os valores estão perdidos, e se ninguém
intervir para mudar essa realidade, muito garoto ainda
vai morrer, porque em Morro Agudo não tem tráfico de
drogas igual ao centro do Rio de Janeiro, onde os bandi-
dos passeiam de fuzil na rua. Em Morro Agudo é grupo
de extermíno, se as pessoas fumam maconha, cheiram,
brigam em baile e roubam, não tem perdão, é morte.
Um dia estava saindo de casa, acho que ia pra escola, e
dezenas de carros de polícia estavam parados na minha
rua, procurando uma galera da área que dias antes tinha
roubado um carro-forte. O pessoal do bairro fazia piada
dizendo que se alguém chegasse na 56ªdelegacia, Morro
Agudo, e dissesse que morava na minha rua, a Turíbio da
Silva, ficava preso. Os policiais diziam que toda a bandi-
dagem do bairro morava nessa rua. E tem gente que não
entende de onde vinham as inspirações para o rap que
eu escrevia. Toda essa história contraditória que eu vivia
e testemunhava se transformava em arte através do rap.
Ao mesmo tempo que eu estava tão próximo, me afas-
tava cada vez mais.
Nesse mesmo ano, 1994, eu saí do lava-jato porque
estava pleiteando fazer um estágio na Petrobras Dis-
tribuidora. O meu tio Humberto trabalha lá e estava
me ajudando a conseguir uma vaga. Nessa época ouvia
muito rap, GOG, Thaide, DJ Hum e não posso esquecer
do Consciência X Atual. Tudo era na base da fita cassete.
46 Enraizados: os híbridos glocais

Lembro que fui numa excursão pra Lambari, em Minas


Gerais, e um moleque, achando que eu morava por lá,
me emprestou uma fita do CXA (Consciência X Atual).
Eu trouxe pro Rio e mostrei pro Luciano, que na época já
era o meu irmão, e a partir de então começamos a ouvir
somente CXA.
Desde 1992 já existia a organização ATCON no Rio de
Janeiro, e Gabriel, o Pensador, Def Yuri, TR, Big Richard,
entre outros, já estavam no cenário, pensando e discu-
tindo o rap carioca. Mas eu e meu irmão estávamos ini-
ciando no processo sem ter noção da importância que
tinha o movimento hip-hop pra essa galera. Hoje tenho
orgulho de dizer que todos esses que citei, com exceção
do Gabriel e do DJ Hum, são meus amigos, e que isso é
uma honra pra mim.
O meu irmão conhecia e gostava de rap bem mais do que
eu, e ele sempre tinha as novidades. Mas é importante
deixar claro que a gente não tinha noção do que real-
mente era o hip-hop, nem mesmo sabíamos que exis-
tiam os famosos quatro elementos: rap, break, DJ e gra-
fite. A gente gostava mesmo de rap, de ouvir e escrever
algumas coisas, sempre protestos, seguindo a linha dos
grupos que já conhecíamos.
Antes de tudo 47
Cabeça vazia:
oficina do diabo

O Estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores,


não porque deseje aboli-los, mas sim porque quer monopolizá-los.
— Sigmund Freud

O estágio na Petrobras não “virava”, ou seja, não acon-


tecia, e por isso eu tinha que arrumar outra parada pra
fazer. Foi então que o Serginho me chamou para traba-
lhar com ele numa obra, eu seria ajudante de pedreiro.
Nunca tinha preparado uma massa em toda a minha
vida, mas como eu estava precisando de grana, enca-
rei na boa. O Serginho é mais um dos meus amigos que
entrou para a Polícia Militar.
Em julho de 1995 comecei a estagiar na Petrobras. Eu
pegava o trem em Morro Agudo, descia em São Cristóvão
e de lá ia andando. Levava cerca de uma hora até chegar
no prédio da BR, como o pessoal chamava. Recebia um
salário legal, ainda tinha vale-transporte, ticket refeição
e quase sempre vinha um dinheiro a mais no pagamento.
Foi nessa época que comprei meu primeiro computa-
dor. Era um 486DX4-100, top de linha, os famosos Pen-
tium nem existiam. Fui aclamado por meus amigos que
já tinham computador, agora eu estava no bonde dos
caras que tinham computador, e não rolava inveja, eles
sabiam que eu merecia ter minha própria máquina, que
era um sonho e não um capricho, tanto que fiquei usando

48
Antes de tudo 49

o mesmo computador até 2002. Foi nesse computador


que produzi muitos beats pra mim, para o Léo da XIII,
para o Ultimato à Salvação, e muitos anos depois nele fiz
também o Portal Enraizados e outros trabalhos.
Nesse ano o Netinho trabalhava no centro do Rio de
Janeiro, nós vínhamos juntos de trem, da Central para
Morro Agudo, nos divertindo na viagem. Ele vinha na
porta, eu na parte de dentro, tinha uma preocupação
porque dois amigos da minha rua já caíram do trem, os
caras iam em cima porque o trem vivia lotado.
No ano seguinte saí da Petrobras e fiquei novamente
desempregado. Estava com 17 anos e provavelmente não
arrumaria emprego por causa do quartel, então fiquei só
estudando e fazendo trabalhos de informática em casa.
O tempo livre para esses jovens está relacionado ao
desemprego e à falta de oportunidades, portanto suas
consequências são bastante diferentes do tempo livre
dos jovens mais abastados.
[Paula Martins Salles, pag 9]

Eu fiz tanta merda esse ano que quase fui preso duas


vezes. A primeira foi porque os moleques da minha rua
andavam armados e um dia bateram de frente com o
carro da polícia. Eles saíram correndo, a polícia atrás
deles, e no desespero e sem ter onde se esconder, entra-
ram numa casa. A polícia ficou com medo de entrar e os
moleques mandarem bala, então a tia de um deles saiu
chorando no portão e disse que a arma era minha. Os
policiais foram bater na minha casa, meus pais estavam
trabalhando, eu estava em casa, mas não abri a porta
porque sabia que eles não poderiam invadir.
A rua estava cheia de gente. Eles foram embora, mas as
fofoqueiras esperaram no ponto de ônibus a minha mãe
chegar do trabalho e disseram que a polícia estava me
50 Enraizados: os híbridos glocais

procurando porque eu havia roubado o Ciep. Nem pre-


ciso dizer que minha mãe quase morreu do coração.
Dessa vez eu nem tive culpa. Mas na semana seguinte
falsifiquei umas carteiras de um clube aqui da cidade,
o Dallas, porque lá tinha uma piscina enorme e a galera
da minha rua queria curtir, mas não tínhamos grana pra
entrar. A saída era falsificar as carteiras.
Um dos sujeitos que andavam comigo conseguiu uma car-
teirinha do clube e me deu pra eu reproduzir. Fiz 12 idên-
ticas, mas não deu tempo de fazer os carimbos. Eu disse
pra todo mundo não alterar a carteira, mas um dos garo-
tos passou uma canetinha em torno da foto para simular
o carimbo. Quando nós chegamos no Dallas quem estava
na porta olhando as carteirinhas era o dono do clube e o
segurança particular dele, que era policial. Quase todas
as carteirinhas passaram, mas na última o cara percebeu
que era falsificada, justamente porque a tinta da caneti-
nha manchou. Então sujou pra todo mundo.
Eles enquadraram a gente na parede, seguraram nossas
carteiras de identidade e chamaram a polícia. O dono do
clube perguntou quem tinha feito e respondi dizendo que
tinha sido eu. Ele me chamou de estelionatário, disse que
minha mãe ia me visitar na cadeia. Lembrei do que havia
acontecido na semana anterior e tentei argumentar, mas
o cara nem deixava eu abrir a boca. Colocava a pistola
9mm na minha cabeça, perguntava se eu era maluco, se
eu sabia quantos anos de cadeia eu iria pegar por isso.
Eu, tranquilo, disse: “Nenhum, nós somos todos menores
de idade.” Então ele gritou que ia matar todo mundo pra
gente deixar de bancar o malandro. Com muita argumen-
tação o cara liberou a gente, com a condição de levarmos
a pessoa que deu a primeira carteirinha, pois ela seria
expulsa do clube. Deixamos nossas identidades com
ele como prova de que voltaríamos com o tal sujeito que
Antes de tudo 51

tinha a original. Assim que saímos do clube chegaram três


carros de polícia. A gente estava de bicicleta e corremos
muito, meu coração estava a mil por hora. No final tudo
deu certo, ninguém foi preso e ninguém morreu.
No ano seguinte comecei na Unig, uma universidade parti-
cular de Nova Iguaçu. Fiquei por lá uns dois anos, cursava
Tecnologia em processamento de dados, mas não conse-
guia pagar. Minha mãe estava desempregada, eu também
não arrumava mais grana, então tava tudo na conta do
meu pai, que não conseguiu segurar. Ele até disse pra eu
ficar que ele daria um jeito, mas eu não quis, porque pas-
sava por constrangimentos em sala de aula. Quem estava
devendo a mensalidade não podia ter acesso à nota e
era cobrado dentro de sala, na frente de todos, e isso me
envergonhava muito, até que abandonei o curso.
52 Enraizados: os híbridos glocais
Antes de tudo 53
Cap.02
Enraizados: como começou?
Cap.02
Enraizados: como começou?
A criação do
Movimento Enraizados

Dou um destino para minha mente


e o inconsciente trabalha em cima do caminho que devo seguir!
— Israel Ziller

Era tímido, não gostava de conversar com muita gente,


nem de ser o centro das atenções, e se eu pudesse até
preferiria passar despercebido, mas sempre gostei de
ficar por dentro das coisas, saber de tudo o que acon-
tece, como acontece e por que acontece.
Assim que recebi minha carta de alforria do Exército,
meu amigo Netinho informou que precisavam de uma
pessoa no supermercado em que ele trabalhava. Neguei
na hora. Não fazia sentido eu sair da Petrobras Distribui-
dora e entrar no supermercado Alto da Posse, um super-
mercado de que até então nunca tinha ouvido falar.
Porém a necessidade falou mais alto, e eu aceitei.
Comecei a trabalhar no mercado no dia 25 de novembro
de 1997. Lembro que pensei em ficar somente uns três
meses, até eu me estabilizar, por isso aceitei qualquer
setor, e caí no de contas a pagar. Meu sonho sempre foi a
área de informática e eu havia prometido para mim mesmo
que só trabalharia se fosse nesta área, jamais aceitaria
outra proposta. Na verdade, eu queria adquirir experiên-
cia na carteira e depois voltar para a universidade.

58
Enraizados: como começou? 59

Quando me dei conta já estava há um ano no supermer-


cado, não era mais tão ligado aos camaradas do meu
bairro e ficava muito na casa do meu irmão, que nessa
época morava na Abolição, bairro da Zona Norte do Rio
de Janeiro. Foi nesse ano que conheci minha primeira
namorada, a Shirley, com quem namorei sete meses, o
namoro mais longo da minha vida até eu conhecer a Fer-
nanda Rocha, minha atual namorada, com quem estou
há mais de dois anos.
Nesta época eu só ouvia rap, já tinha muitas fitas cas-
sete, então eu e meu irmão, o Luciano Gomes, conhe-
cemos o Arariboia, um camarada que sabia tudo de rap,
pelo menos bem mais do que a gente. Depois de algumas
conversas surgiu o Humildes Pensativos, nosso primeiro
grupo de rap. Escrevi muitas letras nessa época, inclu-
sive a música “Sacolinha”, que gravei no meu primeiro
disco solo, “Rolo compressor”, dez anos depois.
O Humildes Pensativos nunca saiu do papel, simples-
mente pelo fato de eu não conseguir cantar em público e
o meu irmão não conseguir cantar no ritmo. O Arariboia
foi preso pouco tempo depois da criação do grupo, o que
desandou tudo de vez. Terminei o namoro com a Shirley,
me afastei da Abolição e voltei para Morro Agudo.
Em 1998, já estava muito envolvido com o rap. Escre-
via muitas letras, tinha ido algumas vezes ao show do
Racionais MCs (grupo de maior projeção no hip-hop bra-
sileiro, chegaram a vender mais de um milhão de cópias
do disco “Sobrevivendo no Inferno”), e também conhe-
cia a música de alguns grupos de rap que não eram tão
populares no meio do hip-hop. Sentia a necessidade de
aprender mais sobre essa cultura.
Algum tempo depois passei um mês em Barra do Piraí,
cidade do interior do Rio de Janeiro, porque minha
namorada estava grávida. Lá os dias pareciam mais
60 Enraizados: os híbridos glocais

longos, eu tive tempo de refletir sobre a minha vida e


o que aconteceria dali para frente. A minha responsa-
bilidade aumentaria, e muito, com a chegada da minha
primeira filha, a Bia.
Lembro que meu cunhado também gostava muito de
rap. A gente ficou amigo logo na primeira conversa, ele
é um cara gente boa, molecão, leva a vida “na vaselina”.
Ele disse que me apresentaria a um outro camarada
que também gostava muito de rap, e que inclusive tinha
um grupo chamado 2ª Via, o Wilson Neném, um cara
negro, magro, que usava dreadlocks e que media mais
ou menos 1,75m.
Conheci o Neném, como o chamam em Barra do Piraí,
numa manhã ensolarada. Ele nos atendeu com cara de
quem tinha acabado de acordar. Nesta época ainda não
existia o Dudu de Morro Agudo, eu era o Flávio Eduardo
ou o Cabeça, apelido que me colocaram na infância. O
Neném tinha uma visão ideológica, filosofava o tempo
inteiro, às vezes muito sonhador, mas eu precisava
dessa carga de positividade para ter a ideia de criar o
que mais pra frente seria o Movimento Enraizados.
Eu já estava de saco cheio de ficar em Barra do Piraí, não
tinha o que fazer na cidade. Passava um tempo na casa
do Neném conversando sobre rap, ele me mostrando
CDs de rap gringo. Lembro que ele me deu um disco do
grupo Fugges, e a partir daí eu virei fã da Lauryn Hill.
Ele também gostava muito de Thaíde e DJ Hum. Até hoje
aprendo muito com ele, nos damos superbem, apesar de
nossas personalidades serem bem diferentes.
Alguns dias depois o Neném me apresentou o Juninho, que
também tinha dreadlocks. Eles pareciam artistas concei-
tuados, falavam bem e conheciam muito de música, os
dois já eram integrantes de bandas, o Neném como DJ e o
Juninho cantando. Eu me sentia feliz em estar com esses
Enraizados: como começou? 61

novos amigos, então os convidei para o aniversário da


minha namorada. Ela, por sua vez, convidou seus amigos
e amigas, mas a galera do rap ficava no lado B (entre eles)
da festa, bebendo cerveja e fazendo rimas.
Nesse dia, talvez por causa do álcool, eu improvisei muito
bem, e improvisar nunca foi meu forte, minha parada era
escrever letras de rap. Mas nesse dia o Neném se conven-
ceu de que eu era um bom rimador, e, por causa da minha
performance, ele me convidou para integrar o grupo de
rap 2ª Via. Quando o convite aconteceu, dentro de um ôni-
bus que seguia do bairro de Vila Helena para o centro de
Barra do Piraí, eu não acreditei, principalmente porque o
Neném me disse que tinha uns contatos na Sony e estava
quase tudo certo para gravarmos um disco.
Estava cada vez mais eufórico com o rap e o hip-hop, sons
que eu começava a entender o fundamento. Andando
pelas ruas do centro de Barra do Piraí passei por uma
banca de jornal e comprei uma revista de hip-hop cha-
mada “Som na Caixa”. Comprei também canetas, lápis,
borracha e um caderno pra escrever letras de rap, por-
que a inspiração vinha a toda hora. Quando cheguei em
casa comecei a folhear a revista e vi algo interessante:
o CD que vinha junto, além dos endereços de militantes
do hip-hop. Eu pensei em escrever para todos aqueles
endereços, mas não sabia o que dizer.
Talvez dizer que eu era um cara gente boa, morador de
Morro Agudo, no Rio de Janeiro, e que não entendia de
rap, mas que gostaria de receber alguns materiais para
estudar sobre essa cultura. Isso seria o mais correto,
mas achei que as pessoas não dariam atenção a um
cara tão sem história dentro do hip-hop como eu. Então
decidi escrever outra história, contando que fazia parte
de uma organização de hip-hop. Eu precisava arrumar
rápido um nome para a tal organização que estava aca-
bando de criar.
62 Enraizados: os híbridos glocais

Pesquisando na internet encontrei uma frase do Tupac:


“Quanto mais escura é a pele, mais profundas são as raí-
zes.” Achei a frase muito boa, forte. Lembrei também do
Juninho, que sempre falava a palavra enraizado. Era uma
espécie de gíria que somente ele usava, não sei bem se
isso vem do reggae, mas ele falava essa frase com fre-
quência. Eu não tinha mais dúvidas. Fazia parte do Movi-
mento Enraizados, uma organização com o objetivo de
interligar pessoas que praticam hip-hop em todo o Brasil.
Lembro que enviei apenas três cartas, uma para o Dime-
nor (Rodrigo de Oliveira), de São Paulo, outra para o Cas-
siano Pedra, de João Pessoa, na Paraíba, e por último
para o Gil BV, de Teresina, no Piauí. Recebi o retorno
do Dimenor e do Cassiano Pedra, que me informaram
que enviaram meu endereço para alguns militantes de
outros estados do Brasil, e que também gostariam de
fazer parte do Movimento Enraizados.
Os dois foram os primeiros integrantes da organização
que acabava de nascer.
Quando recebi as duas primeiras cartas senti uma feli-
cidade impossível de descrever. Foi algo que nunca mais
senti na vida. Ser valorizado por um trabalho não tem a
ver com ego, mas com autoestima. Passaram-se alguns
dias e chegaram dezenas de cartas na minha casa. Eu
tentava responder a todas, mas com a falta de tempo
era inviável retribuir a enorme quantidade de cartas que
chegavam. O custo dos correios estava ficando alto e
minha mãe começava a ficar preocupada porque eu não
saía mais de casa. Era o tempo todo dedicado ao Movi-
mento Enraizados, lendo e respondendo cartas.
As histórias que os militantes relatavam eram impres-
sionantes, as pessoas queriam falar, se mostrar para
mundo, mostrar o seu mundo, suas músicas, suas ideias
e pinturas, mas não havia um canal para escoar toda
Enraizados: como começou? 63

essa arte, essa gana de comunicação. A propagação


de endereços, poesias e desenhos foi devida aos fanzi-
nes, que eram febre na época. Existiam diversos títulos,
em toda carta que eu recebia via um fanzine, às vezes o
mesmo em cartas diferentes.
Fanzine é uma abreviação de fanatic magazine, mais pro-
priamente da aglutinação da última sílaba da palavra
magazine (revista) com a sílaba inicial de fanatic. Trata-
se de uma publicação despretensiosa. Engloba todo
o tipo de temas, com especial incidência em histórias
em quadrinhos, ficção científica, poesia, música, femi-
nismo, em padrões experimentais. No Brasil o termo
fanzine é genérico para toda produção independente.
Houve uma distinção entre fanzines (feitos por fãs) e
produção independente (produção artística inédita),
mas a disseminação do termo fanzine fez com que toda
a produção independente no Brasil, antes denominada
boletim, fosse denominada fanzine.
Fonte: Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/fanzine)

Atualmente vários estudos tentam conceituar o Movi-


mento Enraizados, e pode ser que estejam certos por
alguns momentos, mas somos um organismo vivo,
mutante, assim qualquer definição expira rapidamente.
64 Enraizados: os híbridos glocais
Enraizados: como começou? 65
66 Enraizados: os híbridos glocais
Enraizados: como começou? 67
Portal Enraizados

Muita gente pequena


Em muitos lugares pequenos
Fazendo coisas pequenas
Mudará a face da Terra
— Provérbio Africano

Impulsionado por minha dificuldade financeira, resolvi


criar uma maneira que evitasse as cartas, foi assim que
surgiu a ideia de fazer a versão 1.0 do Portal Enraizados.
Por meio das cartas e dos fanzines percebi que meus
novos correspondentes tinham necessidade de se comu-
nicar e mostrar sua arte para o mundo. Decidi usar minha
experiência com programação para criar uma ferramenta
que possibilitasse publicar textos, pinturas e músicas
dos novos membros do Movimento Enraizados. A ferra-
menta ideal seria um site, mas havia um grave problema:
eu era formado em uma linguagem de programação que
não dava suporte à internet. Teoricamente eu não con-
seguiria fazer um site. Além disso, a internet não era tão
popular em meados de 1999, quando surgiu esta ideia, e
talvez o site não tivesse a utilidade que eu esperava.
Mesmo com todos os contras, fazer o site era a única
solução prática que estava ao alcance naquele momento.
Eu já tinha um computador e minha avó havia com-
prado uma linha telefônica com uma extensão até o meu
quarto. A questão da internet estava resolvida, mesmo

68
Enraizados: como começou? 69

sendo uma internet que quando estava veloz chegava


a no máximo 46kbps. Coloquei a mão na massa, baixei
apostilas da internet e comecei a estudar HTML para
poder construir o site. Aprendi também a editar imagens
para produzir algumas coisas gráficas, como por exem-
plo, o logotipo do Movimento Enraizados.
Aliás, fazer o logotipo foi uma força-tarefa. Começou
com uma vaga ideia que eu tive do que seria o símbolo
que representaria a organização. Pedi, então, ajuda
para um amigo que trabalhava na mesma empresa que
eu, no departamento pessoal, o Luiz Antônio, um cama-
rada que com o passar do tempo se tornou um verda-
deiro irmão. Todos os dias a gente parava num bar pra
beber umas cervejas e eu ficava o tempo inteiro falando
de Movimento Enraizados e hip-hop. Ele, que curtia
mais rock, de tanto ficar ouvindo minhas histórias aca-
bou gostando de rap. O Luiz arrumou o desenho que eu
comecei a fazer, mas ainda estava muito ruim, longe de
ser um logotipo decente.
Então liguei para o Neném e pedi ajuda. O Neném, além
de rapper, grafiteiro, b. boy e DJ, é ainda um dos melho-
res desenhistas que eu conheço. Inclusive foi ele quem
me ensinou os primeiros passos no Corel Draw e no Pho-
toshop. Já desenhou para marcas como a Redley, a Qix e
a Oceano, e hoje ele tem sua própria marca de roupas, a
Jah Bless. Ele topou fazer o logo, então enviei pelo cor-
reio o esboço que eu e o Luiz criamos.
Hoje a gente manda tudo por e-mail e usa algum ser-
vidor para baixar depois, mas antigamente era mais
difícil. A saída era recorrer aos correios e esperar um
tempo até a pessoa receber, fazer o trabalho e enviar
de volta. Uma semana depois ficou pronto o logotipo
que ficou famoso no Brasil inteiro, totalmente diferente
do esboço que enviamos.
70 Enraizados: os híbridos glocais

Assim como surgiram conceitos a respeito do nome


Enraizados e da forma de trabalho da organização, não
foi diferente com o logotipo. Ele tem alma e concei-
tos próprios, não é apenas um desenho, representa as
etnias, o modo como trabalhamos nas comunidades:
não vejo, não escuto e não falo. Teoricamente.
Em menos de um mês eu já sabia bastante de HTML, e
coloquei o primeiro site do Movimento Enraizados no ar,
com hospedagem e endereço gratuitos. (www.enraiza-
dos.cjb.net). Enviei cartas para todos que se correspon-
deram comigo e pedi que passassem o endereço do site
para outras pessoas, e que também me enviassem tex-
tos por meio de cartas ou e-mail para que eu pudesse
publicar no site. Como não havia tanta gente com acesso
a internet, as cartas continuaram a chegar aos montes,
mas eu tinha a vantagem de não ter obrigação de res-
ponder a todas, somente publicar no site.
O Portal Enraizados foi o primeiro projeto do Movimento
Enraizados e está no ar até hoje, no endereço www.
enraizados.com.br. Ficava feliz quando comparava as
estatísticas iniciais do site, em que havia somente 30
acessos por mês, com as dos meses posteriores, e a
cada novo acesso eu vibrava e tentava descobrir quem
era. Percebia que a organização dava certo, que as pes-
soas estavam aderindo e que realmente o Movimento
Enraizados se tornava aquilo que eu havia profetizado
nas primeiras cartas.
Trabalhar para o desenvolvimento do Movimento Enrai-
zados era parte da minha rotina, e a cada dia eu induzia
mais pessoas a fazer o mesmo. Meus amigos contribu-
íam com a organização sem saber ao certo o que era.
Alguns achavam que era um hobby, e que mais cedo ou
mais tarde eu desistiria da brincadeira.
Iniciando projetos

Se não puder voar, corra.


Se não puder correr, ande.
Se não puder andar, rasteje,
mas continue em frente de qualquer jeito.
— Martin Luther King

O Movimento Enraizados se comunicava com São Paulo,


Paraíba e Mato Grosso do Sul. No Rio de Janeiro os locais
de maior engajamento eram Nova Iguaçu e Barra do Piraí.
Cada vez mais pessoas entravam em contato, enviavam
músicas e fotografias. As perguntas sobre os projetos
que o Movimento Enraizados realizava no Rio de Janeiro
eram frequentes nas cartas, assim como os pedidos
para que eu enviasse minhas músicas e as músicas dos
outros integrantes.
Como o grupo de rap 2ª Via não saía das conversas de
fim de semana que aconteciam na casa do Neném,
eu decidi gravar meu primeiro rap sozinho. Havia um
programa de computador chamado Hip-hop eJay que
servia para fazer bases instrumentais de hip-hop. Fiz
algumas para gravar uns raps que havia escrito, mas
não conhecia um estúdio, e isso era um problema.
Trabalhava comigo no supermercado Alto da Posse um
senhor evangélico chamado Edson, que era evolvido com
música. Ele tinha muitas composições e estava come-
çando a gravar um disco. Perguntei se ele conhecia algum

72
Enraizados: como começou? 73

estúdio onde eu pudesse gravar meus raps, e ele me indi-


cou um em Campo Grande, bairro que fica a quilômetros
de distância de onde eu moro, Nova Iguaçu. Mas aceitei ir
nesse estúdio, até porque eu não conhecia outro.
O senhor Edson se encarregou de marcar a hora para mim
no estúdio, me disse o preço, eu juntei o dinheiro e fui com
minhas letras debaixo do braço. Quando estava chegando,
lembrei que uma das músicas era cheia de palavrões e
se o dono do estúdio fosse evangélico poderia haver um
constrangimento de ambas as partes, mas graças a Deus
não foi o que aconteceu. O cara era super gente boa e até
gostou das minhas músicas, que eram quilométricas.
Tinha uma com quase dez minutos, seguia o padrão dos
raps da época. As músicas que gravei naquela ocasião
foram: “Dudu”, “Negra difícil” e “Por quê?”.
Gravei as três músicas em duas horas, pois não tinha
dinheiro para ficar mais tempo no estúdio, e nem expe-
riência para saber se aquilo estava certo ou errado. Eu
queria pegar a fita K7 gravada com minhas três músicas,
colocar no walkman e ir para casa ouvindo-as repetida-
mente nas quase duas horas de viagem de volta. Quando
cheguei em casa coloquei o som para minha família
ouvir. Era tudo muito diferente para eles, ninguém sabia
ao certo o que falar. Na música “Dudu” eu cantava em
primeira pessoa. Era um bandido que no final da música
morria por causa das drogas, do crime na sua comuni-
dade e da traição de um amigo. Hoje, quando paro pra
refletir, percebo que essa letra era o reflexo da minha
infância. Essa música pode ser ouvida em sua versão
original no site da gravadora Trama (http://tramavirtual.
uol.com.br/dudu_de_morro_agudo).
Rapidamente eu dei um jeito de copiar algumas fitas e
distribuir entre os amigos, principalmente os que tra-
balhavam comigo e não acreditavam que era eu mesmo
74 Enraizados: os híbridos glocais

quem estava cantando. Cada vez mais empolgado com


as músicas, decidi enviar algumas fitas para rappers de
outros estados, e estes, por sua vez, me enviavam as suas
para que eu e todos do Enraizados ouvíssemos.
Alguns meses depois fui a Barra do Piraí e contei para o
Neném que o Movimento Enraizados estava crescendo,
e que já existiam algumas pessoas de outros estados
fazendo parte dele. Neném não entendia como isso tudo
estava acontecendo tão rápido, mas mesmo assim ficou
orgulhoso. Mostrei, então, as músicas que havia gra-
vado. Eu sabia que nosso estilo de cantar rap era dife-
rente, mas mesmo assim senti que ele se surpreendeu
com o que eu havia feito em tão pouco tempo. Naquele
momento devolvi a carga de positividade que ele me
deu quando o conheci. Toda vez que ele criava algo e me
mostrava, parecia que eu tomava uma injeção de ânimo
e começava a criar também, até mesmo para além da
música. Eu estudava para aperfeiçoar o site, por exem-
plo, entre outras atividades.
Em nossa primeira conversa institucional gravamos raps
num estúdio em Barra do Piraí, muito mais bonito e equi-
pado do que aquele em Campo Grande, onde eu havia gra-
vado as primeiras músicas. Gravei com o Juninho um rap
chamado “O ponto”. O Neném também utilizou o programa
Hip-hop eJay para produzir as bases instrumentais. Esse
era o único que a gente conhecia e sabia manusear.
Quando voltei para Nova Iguaçu enviei as minhas músicas
e as do Neném para a galera dos outros estados. Nessa
época não dava para colocar as músicas no site porque
nas hospedagens gratuitas não havia espaço suficiente.
Muita gente gostou das nossas músicas. Eu me empol-
guei e divulguei que o Movimento Enraizados planejava
fazer uma coletânea nacional de rap, e que os interessa-
dos deveriam enviar suas músicas por correio ou e-mail.
Enraizados: como começou? 75

A notícia se alastrou como um rastro de pólvora. Fanzi-


nes e rádios comunitárias divulgavam a coletânea, e eu
fuzilava e-mails pelo site. Essa foi a primeira vez que o
coletivo, pessoas com que eu nunca havia conversado
pessoalmente, trabalhava a comunicação alternativa –
fanzines, rádios comunitárias e internet – para propa-
gar um projeto do Movimento Enraizados. Quase o Bra-
sil inteiro sabia da coletânea que faríamos, menos o Rio
de Janeiro, por isso decidi procurar alguns grupos de
rap da minha cidade.
Lembrei que quando vinha de ônibus do centro de Nova
Iguaçu para Morro Agudo, via a movimentação de uma
galera que aparentemente era do hip-hop num lugar
chamado MAB (Federação das Associações de Bairro de
Nova Iguaçu). Um dia, quando saímos do trabalho, por
volta das 18h, chamei o Netinho para me acompanhar
até o local e verificar se aquelas pessoas eram mesmo
do hip-hop, e se eles queriam participar da coletânea. O
Neto já estava totalmente envolvido no processo, parti-
cipando lado a lado.
Chegando lá falei com um rapaz que estava em um quarto
mexendo na aparelhagem de som. Conversamos através
da grade da janela. Ele estava muito tenso porque dias
antes roubaram todo o equipamento de sua organização,
a M2HBF (Movimento Hip-Hop da Baixada Fluminense).
Apresentei-me como Dudu e disse que fazia parte do
Movimento Enraizados, uma organização de hip-hop de
Morro Agudo. Para minha surpresa ele ficou nervoso e
disse que não existia organização de hip-hop em Morro
Agudo, a única organização de hip-hop que existia na
cidade de Nova Iguaçu era a dele, a M2HBF.
Mesmo o achando estúpido e mal-educado, tive que con-
cordar com o fato. O Movimento Enraizados era uma orga-
nização mais virtual do que presencial, e até então eu não
76 Enraizados: os híbridos glocais

conhecia qualquer integrante do hip-hop em Nova Iguaçu.


Aquele era o meu primeiro contato, e não estava sendo
muito bom. Todos os integrantes do Enraizados eram de
fora do estado do Rio de Janeiro, em Nova Iguaçu a minha
rapaziada nem sabia o que era hip-hop.
O rapaz se apresentou como B. Boy Gero, nos mostrou
as instalações do MAB e disse que fazia eventos ali den-
tro, mas não tinha dinheiro nem para comprar papel higi-
ênico. Sugeri fazer alguns eventos de hip-hop e cobrar
o valor simbólico de R$1,00 de entrada, somente para
comprar os produtos de limpeza, que eram uma neces-
sidade. Na época eu procurava eventos de hip-hop como
um louco, e se eu pudesse curtir um na cidade certa-
mente pagaria R$1,00. Outras pessoas também, só era
necessário encontrá-las.
Ele discordou firmemente de mim e disse que não cobra-
ria evento ali de maneira alguma. Realmente o hip-hop
tinha dessas coisas, e acho que ainda tem. Você investe
do seu bolso, não tem retorno e acha normal. Eu mesmo
fiz isso várias vezes, a diferença é que não reclamava.
Durante a conversa o B. Boy Gero me apresentou outro
camarada que também era MC, a quem tempos depois
eu seria apresentado novamente, o SDL, que hoje atende
pelo pseudônimo Átomo. Ele era integrante do grupo
Ultimato à Salvação, hoje apenas U-SAL, junto com sua
esposa, Lisa Castro.
Eu e B. Boy Gero não chegamos a um acordo. Já na pri-
meira conversa pude perceber que a gente não tinha
muito em comum. Continuei, assim, minha procura por
outros grupos de rap da cidade. Apesar de respeitar o
trabalho e a história dele dentro do hip-hop na Baixada
Fluminense, essa foi a primeira e a última vez que a
gente conversou por mais de dez minutos.
Enraizados: como começou? 77

Recebi cartas de muitas pessoas que queriam partici-


par do CD. Naquela época era muito difícil gravar, mas
mesmo assim chegaram músicas de oito grupos de rap,
de seis estados diferentes (PB, SP, MS, TO, RJ e SC). No
começo de 2001 instalei um gravador de CD no computa-
dor para gravar a coletânea. Comprei os CDs virgens, fiz
a arte-final das capas e comecei o processo de gravação
dos CDs. Eu não tinha conhecimento de mixagem e mas-
terização. Do jeito que as músicas chegavam à minha
mão elas entravam no CD.
A coletânea tinha três objetivos:
1) Divulgar os grupos de rap. Numa coletânea de oito gru-
pos de rap, se um divulgasse o CD na sua cidade, divulgaria
a música dos outros sete grupos em lugares a que eles,
teoricamente, não teriam acesso. Era um trabalho para
ser executado coletivamente, pois quanto mais empenho
houvesse mais retorno de divulgação nós teríamos.

2) Gerar renda. O projeto do CD era livre, desde que man-


tivesse sua forma original, isto é, as músicas na ordem e
a capa. Cada grupo, ou qualquer pessoa, poderia vender
o CD para gerar renda e, voltando ao objetivo número
um, divulgar ainda mais os grupos. Quanto mais gente
envolvida no processo de venda, mais longe as músicas
chegariam.

3) Propagar as ideias do Movimento Enraizados. Como a


ideia inicial do Movimento Enraizados era fazer as pes-
soas interagirem, esse projeto cairia como uma luva.
Dezenas ou centenas de pessoas de várias cidades do
Brasil, trabalhando coletivamente por um objetivo, sem
gastar grana. Pelo contrário, ganhando grana.

Eu gravava dez CDs por dia e enviava para um dos grupos


participantes. Esse, por sua vez, deveria vender os CDs,
fazer mais cópias no seu estado e divulgar os outros gru-
pos. Era esse o combinado. O valor dos CDs ficou muito
78 Enraizados: os híbridos glocais

alto para eu bancar sozinho. Para cortar custos parei de


fazer as capas na gráfica. A ideia era fazer fotocópias
em preto e branco, mas chegou num ponto que até a
cópia saía caro. Para piorar ainda mais a situação o meu
gravador de CD queimou com um mês de uso.
Apesar de não haver mais como levar o projeto adiante, a
coletânea dava o que falar pelo Brasil afora, as pessoas
comentavam que essa era a primeira coletânea nacio-
nal de rap. Para o projeto não parar, pedi ajuda aos meus
amigos de trabalho, do supermercado Alto da Posse,
para produzir mais CDs a um custo mínimo.
Na verdade eu só comprava os CDs e tirava cópia das
capas na empresa. A gente fazia uma verdadeira opera-
ção. Havia apenas uma máquina copiadora no escritório
para todos os funcionários usarem. A galera se organi-
zava e cada um tirava dez cópias, para eu não ter pro-
blemas depois. Eram uns cinco caras envolvidos no pro-
cesso para a coletânea continuar sendo reproduzida.
Na empresa também havia um gravador de CD, que ficava
no servidor. O programador da empresa, responsável
pelo servidor, é até hoje meu camarada, Luciano Lyrio.
Ele gravava todos os meus CDs na hora do expediente,
o que muitas vezes causava lentidão nos terminais. Os
funcionários pediam que fosse reiniciado o servidor
pelo menos umas 30 vezes por dia, mas ele só reiniciava
quando acabava de fazer as cópias. Às vezes os funcio-
nários tinham que esperar vinte minutos até acabar de
gravar um único CD, só depois eles podiam trabalhar.
Creio que o maior presente que eu ganhei com esse pro-
jeto foi presenciar a coletânea sendo negociada durante
o Fórum Social Mundial de 2005, em Porto Alegre. Essa
coletânea verdadeiramente cumpriu seu papel. Nos anos
seguintes lançamos mais duas coletâneas que fizeram
Enraizados: como começou? 79

muito sucesso. A “Dudu de Morro Agudo apresenta: A


Banca”, também nacional, e a “Raiz do hip-hop”, ape-
nas com grupos de Morro Agudo. As coletâneas foram se
transformando em marca registrada do Movimento Enrai-
zados, e por meio delas o nome da organização começou
a ser citado com frequência nas periferias do Brasil.
Enlaçado pelo
Enraizados

Temos de aprender a viver todos como irmãos


ou morreremos todos como loucos.
— Martin Luther King

A cada dia que passava o Portal Enraizados se firmava


como ponto de encontro virtual dos praticantes do hip-
hop no Brasil e um eficaz veículo de comunicação. Nesta
época, começo de 2001, grande parte dos artistas, mili-
tantes e produtores culturais que praticavam o hip-hop
faziam seus projetos – CDs, eventos e palestras – com
o dinheiro do próprio bolso, isto é, do trabalho formal.
E isso não era um investimento, não havia um retorno
financeiro, o dinheiro era perdido em sua totalidade pelo
simples prazer de exercitar o hip-hop.
Com a repercussão da coletânea, muitos convites para
participar de eventos começaram a aparecer no Rio de
Janeiro. Lembro que foi nessa época que conheci a Veri-
diana Serpa, da Firma Produções. Ela fazia uns even-
tos no Rio de Janeiro, na Lapa, e também tinha um site
(http://firmaproducoes.com) que divulgava seus traba-
lhos. Ela me ligou um dia e disse:
— Alô, posso falar com o Dudu?
— É ele quem está falando.
— Oi, aqui é a Veridiana, da Firma Produções. Nós

80
Enraizados: como começou? 81

vamos fazer um evento na Lapa neste fim de semana e


queria saber que se você topa tocar lá.
— É evento de quê? De rap?
— É, de rap. Um evento beneficente.
— Tranquilo, vou ver aqui na agenda e depois te ligo.
Qual o seu número?

Eu fiquei apavorado, tinha subido no palco apenas uma


vez e estava com o Wilson Neném, em Barra do Piraí.
Agora era diferente, eu tinha que fazer um som sozinho,
na Lapa. Estava realmente entrando para o cenário.
Dias antes do telefonema da Veridiana, eu havia rece-
bido um e-mail de dois caras, Max e Zulu, que trabalha-
vam no Rio de Janeiro e curtiam hip-hop. Por alguma
obra do destino eles encontraram o site do Movimento
Enraizados e enviaram um e-mail querendo trocar algu-
mas ideias.
Liguei para Veridiana confirmando minha presença e logo
depois pros caras, convidando-os para ir ao meu show. No
dia marcado eu estava lá, com o CD de base e dois amigos
da minha comunidade. E muito medo de cantar. Eu ficava
me perguntando: O que eu tô fazendo aqui? Meu telefone
tocou, era o Max perguntando onde eu estava. Falei que
estava dentro da Fundição Progresso, e então ele conse-
guiu me encontrar. Estava ele, a noiva e o Zulu. Uma chuva
inacreditável caiu, era muita chuva, e o evento começou
a esvaziar. Encontrei a Veridiana, que me apresentou seu
irmão, Jimmy Luv, que disse gostar do som que eu fazia.
Foi o primeiro cara desconhecido a elogiar meu trabalho,
o que me deu forças para continuar.
A rede do Enraizados começava a crescer no Rio de
Janeiro, já havia Wilson Neném, Max, Zulu, Veridiana,
Jimmy Luv, e logo depois foram chegando mais pes-
soas. Todo o trabalho de programação e gerência de
conteúdo do Portal Enraizados era feito na minha casa
82 Enraizados: os híbridos glocais

e no meu trabalho, assim como as ligações. Por causa


da repercussão do Portal Enraizados, muitas pessoas
de fora do estado começavam a se comunicar. No Rio de
Janeiro essa prática começou por causa do evento Mil-
leniun Rap, que aconteceria no Anhembi, em São Paulo,
e estava sendo divulgado no Portal.
Eu queria muito ir ao evento, mas não tinha dinheiro.
Todo o meu salário estava comprometido com as dívidas
de casa. Não tinha esperança de que algo sobrenatural
pudesse acontecer naquela altura do campeonato, mas
aconteceu. O Max me ligou:
— E aê, Dudu, você vai no Millenium Rap em São Paulo?
— Não mano, não vou. Tô com uns compromissos aê.
— Ah mano, eu e o Zulu vamos, nós vamos de carro e se
você quiser pode ir junto com a gente.
— Tudo bem, se rolar de eu ir te ligo ainda hoje. Mas
caso eu vá, tem vaga para mais um amigo no carro?
— Claro que tem, pode chamar mais um irmão que
tem vaga.
— Então tá tranquilo, vou levantar uma grana aqui
porque tô meio quebrado.
— Nem esquenta a cabeça Dudu, tu tá comigo, eu banco
a tua parte.
— Então já é, firmou bonde!

Liguei para o Neném e perguntei se ele gostaria de curtir


um evento em São Paulo, expliquei que iríamos de carro
com dois camaradas meus, e tudo era de graça. Mas não
falei que conheci os caras pela internet. O Neném concor-
dou na hora e então marcamos o encontro na via Dutra,
num posto de gasolina próximo de casa. Fomos todos
para São Paulo, conversando, cantando e fortalecendo,
mesmo que inconscientemente, o Movimento Enraiza-
dos. Nos meses que se seguiram mais pessoas se apro-
ximaram do Movimento Enraizados. Eu lidava com isso
de forma natural, apresentava uns aos outros. Não tinha
Enraizados: como começou? 83

muito a noção do que estava acontecendo, mas gostava


de estar com meus novos amigos, de apresentar pessoas
quando eu identificava que tinham algo em comum.
Comecei a me surpreender quando passei a receber liga-
ções de outros estados me informando que pessoas do
hip-hop estavam chegando ao Rio de Janeiro e se era pos-
sível eu dar um suporte, uma atenção para não deixar os
caras se envolverem com o crime ou algo parecido. Não
conseguia ver perigo na rapaziada do hip-hop, sempre
que alguém me procurava pedindo ajuda eu colocava den-
tro de casa, mesmo quando eram desconhecidos. Essa é
uma característica do hip-hop. Muitas vezes viajei pra
São Paulo e o tratamento dos caras comigo foi o mesmo.
No final de 2001 o hip-hop começava a ser visto pelo
poder público como uma ferramenta socioeducativa.
Parcerias entre o governo e organizações não governa-
mentais eram frequentes. Foi quando surgiu a parce-
ria entre o AfroReggae, o Governo do Estado do Rio de
Janeiro e a Unesco para ministrar oficinas de hip-hop
em escolas estaduais situadas em áreas de risco,
no estado do Rio de Janeiro. Recebi a proposta para
ministrar uma oficina de rap em uma escola no bairro
Bom Pastor, na cidade de Belford Roxo, no Rio de
Janeiro. Belford Roxo já foi considerada uma das cida-
des mais violentas do mundo.
Como eu não aprendi a cantar rap na escola, achava que
seria inviável ter aulas de rap ou de qualquer outro ele-
mento do hip-hop, e fui contrário a isso por muito tempo.
Mas por fim aceitei a proposta e fiquei alguns meses na
escola. Foi quando conheci o DJ DMC, do grupo Baixada
Brothers, o b. boy Luck, do grupo GBCR, e o grafiteiro
Chico CH2, da Nação Crew. Assim como eu, todos eram
oficineiros. Bom Pastor era um bairro muito violento,
dominado pelo Comando Vermelho, mas dias antes de
84 Enraizados: os híbridos glocais

começarem as oficinas o morro foi tomado pelo Terceiro


Comando. O local era um verdadeiro barril de pólvora. E
eu estava lá, querendo fazer o meu papel de militante do
hip-hop, mas minha oficina era muito vazia, a molecada
queria mesmo era fazer aula de DJ, dançar e grafitar.
Certo dia chegaram dois caras, disseram que gosta-
riam de fazer aula de rap e entraram para minha turma.
Eles moravam em Brás de Pina, Alfina e Tokaia. Na ver-
dade, o Alfina já era MC e queria conhecer mais pessoas
que cantavam rap. Logo entrou pra família Enraizados.
Outros Enraizados ministravam oficinas em escolas de
São Gonçalo. Lembro que o b. boy Bolinho dava oficina
de break. Anos depois estava participando de progra-
mas de TV e viajando para países da Europa com uma
companhia de dança.
As pessoas iam se conhecendo e se enlaçando como
peças de um grande quebra-cabeças, que com o passar
do tempo dava forma a uma linda paisagem chamada
Movimento Enraizados.
A imprensa nos
descobriu e
descobrimos a
imprensa
Não há opinião pública,
há opinião publicada.
— Winston Churchill

No dia 26 de novembro de 2001 aparecemos pela pri-


meira vez num jornal, “O São Gonçalo”, e em 2002 está-
vamos tocando em rádios comerciais e principalmente
rádios comunitárias. O ano de 2002 foi repleto de apre-
sentações artísticas. Nosso nome circulava como nunca
no cenário hip-hop brasileiro. Com o dinheiro das minhas
férias fiz mais uma coletânea do Movimento Enraizados:
“Dudu de Morro Agudo apresenta: A Banca”. A Banca, na
nossa gíria, significa os amigos mais próximos.
Impulsionado pela venda dos CDs, me reuni com os outros
camaradas da organização e propus confeccionarmos
algumas blusas do Enraizados. A ideia era criarmos
uma sociedade, cada um entraria com uma parte do
dinheiro e receberia algumas blusas para vender, uma
porcentagem voltaria para a organização, para fazer-
mos mais blusas, e o restante ficava com a galera que
investiu. O objetivo era gerar uma renda complementar,
pois todos já tinham um trabalho formal, e ainda divul-
gar a organização.

86
Enraizados: como começou? 87

Deu tudo muito certo, vendíamos muitas blusas e dis-


cos, conseguíamos visualizar o Movimento Enraizados
nas ruas, principalmente nas noites de sexta-feira na
Lapa. Comecei a fazer algumas viagens para São Paulo,
ficava hospedado na casa do Rodrigo Oliveira, o Dime-
nor, primeiro integrante do Movimento Enraizados, e foi
nessa época que conheci o maranhense Lamartine Silva,
integrante do grupo de rap Clã Nordestino. Fiquei admi-
rado com seu jeito de falar. Ele tinha o dom, ou a prática,
da oratória. Logo que nos conhecemos ficamos até de
madrugada conversando em uma praça próxima à casa
do Dimenor. Bebemos e falamos muito, até que começou
a amanhecer e o Lamartine disse que teria que ir embora.
Trocamos telefones, ele tinha uma agenda velha, muito
velha. Anotou meu número no meio da agenda e eu pen-
sei que ele nunca mais iria achar aquela anotação.
Quando menos esperávamos aconteceu o inevitável, a
gente começou a aparecer nos veículos de comunicação
convencionais. A ONG Viva Rio tinha um site chamado Viva
Favela e fizeram uma matéria bem legal conosco. Lembro
que eu não tinha muita experiência e eles me ligavam toda
hora querendo marcar a entrevista. Só podiam fazer no
horário comercial, mas eu não podia porque trabalhava
no supermercado. O fotógrafo Walter Mesquita foi até
minha casa fazer umas fotos. Na época eu morava num
quarto de 9m², com minha esposa e minha filha.
Achei que ele não acreditaria na minha história. Como
um cara que vende tanto CD e roupa mora num lugar tão
pequeno e pobre? Acho que eu também não acredita-
ria. No final de 2002, exatamente no dia 10 de dezem-
bro de 2002, recebi a ligação do Bruno Porto, do jornal “O
Globo”, querendo saber a opinião do Movimento Enraiza-
dos sobre o crescimento do hip-hop em 2002. Quando a
matéria saiu na revista Megazine, de “O Globo”, vi o nome
88 Enraizados: os híbridos glocais

do Movimento Enraizados ao lado de Jorge de Sá (filho


da cantora Sandra de Sá) e Elza Cohen (produtora da tra-
dicional festa Zoeira, que acontecia na Lapa), e percebi
a importância dessa matéria para a organização, porque
muitas pessoas em todo o Rio de Janeiro leriam:
O crescimento do hip-hop também pode ser conferido em
sites dedicados ao tema, como o do Movimento Enrai-
zados (www.enraizados.com.br). “O hip-hop brasileiro
nunca cresceu tanto como em 2002” – diz o rapper Dudu
de Morro Agudo, fundador do Movimento Enraizados, da
Baixada Fluminense.

Nenhum de nós sabia bem o que estava fazendo, cada


um tinha um motivo próprio para estar na organização.
Alguns porque gostavam de cantar rap, outros porque
queriam estar mais próximos e adoravam a bagunça que
rolava todo fim de semana, e ainda outros curtiam filo-
sofar e discutir sobre os mais variados assuntos. Não
tínhamos um objetivo claro, éramos jovens que deseja-
vam se divertir e praticar arte. Eu particularmente tinha
aversão a tudo o que se inclinasse para política partidá-
ria, talvez por isso sempre utilizei o dinheiro das minhas
férias ou o décimo terceiro salário para realizar as ações
do Movimento Enraizados.
Eu era um líder que não sabia muito bem para onde ir,
apenas seguia o fluxo e, na maioria das vezes, meu cora-
ção. Ainda em 2002 conheci a Giordana Moreira, e ela
me chamou para participar de algumas reuniões porque
queria fazer, em janeiro de 2003, o Fórum Carioca de Hip-Hop,
levantando algumas propostas para o Fórum Social Mundial.
Começamos a produzir o Fórum Carioca de Hip-Hop juntos,
com reuniões que me tiravam do sério, pois não avançavam.
Sempre tinha um que chegava, fazia a reunião regredir e
depois ia embora, o que me irritava.
Enraizados: como começou? 89

Eu e a Giordana não concordávamos apenas em um


ponto. Ela queria fazer discussões e mais discussões
dentro de uma sala de aula e eu queria fazer um evento
cultural, com música, dança e grafite. Eu tinha certeza
que se chamássemos jovens para discutir dentro de uma
sala de aula não daria certo, teria uma grande evasão,
mas se mesclássemos com algum divertimento talvez
pudesse funcionar.
Chegamos num acordo e nos dias 11 e 12 de janeiro de
2003 fizemos o Fórum Carioca de Hip-Hop, no Sesc
de Nova Iguaçu e no Colégio Rangel Pestana. O jornal
“Inverta” (PC) cobriu o evento e publicou uma matéria
falando muito bem. Acho que foi a Giordana quem escre-
veu a matéria. De qualquer maneira, o evento foi real-
mente um sucesso, as discussões foram legais e a parte
artística ficou ótima. O ano de 2003 marcou a história do
Movimento Enraizados. Fizemos um grande esforço para
trazer a revista “Rap Brasil”, única do gênero no nosso
país, para fazer uma matéria com os grupos de rap do
Rio de Janeiro. Conversamos com o Alexandre de Maio e
ele disse que seria uma revista especial Rio de Janeiro,
com todos os grupos que conseguíssemos encontrar. Foi
muito trabalhoso fazer a matéria. Não tínhamos tempo
e nem dinheiro para dedicar ao Alexandre. Como todos
trabalhavam, havia um revezamento de horários. Eu
tentava deixá-lo à vontade, mas não tinha como ficar à
vontade com o cara da revista “Rap Brasil”. Ainda mais
quando a grana podia acabar a qualquer momento.
Fazíamos ligações para marcar com o maior número de
grupos possível no mesmo lugar, para não gastarmos
com condução. Eu saía todos os dias de Morro Agudo, ia
para Vila Valqueire e de lá partia para São João de Meriti,
onde ficava o estúdio do DJ Criolo, ponto de encontro
para as entrevistas. Não aceitava a ideia de que alguns
90 Enraizados: os híbridos glocais

grupos de rap não conseguiam chegar ao local no horário


marcado. Se eu conseguia fazer todo esse malabarismo
e chegava no horário, por que os outros grupos que mui-
tas vezes moravam próximo não conseguiam?
Quando a revista foi publicada o Enraizados fez uma
festa. No total 38 grupos de rap foram contemplados:
NRC, Fúria Brasileira, Delano, O Bando, P10, Literarua,
B32, GBCR, Slow da BF, Força Hip-hop, LC Fidalguia, Nove
Balas, Kapella, Kwanza, Poder Consciente, Fator Bai-
xada, Rodrigo RG, Criolo, Tropeço, Aliados 021, Mistura
Racial, Reis, Oeste Selvagem, Última Trombeta, Punho
Cerrado, Papo Reto, Descendentes da Ralé, Negresoul,
Consciência e Verdade, Contenção, Família Tiro Verbal,
Re.Fem, Ciência Rimática, Gás-Pa, Don Negroni, B Negão,
Inumanos, e nós do Movimento Enraizados. Muitos gru-
pos se desfizeram menos de um ano depois de publicada
a revista, mas outros sobrevivem até hoje.
Um fato negativo foram os comentários maldosos que
fizeram. Mesmo sendo contemplados com a matéria
alguns grupos se sentiram prejudicados e tentaram
espalhar o boato que a gente fazia panela para favore-
cer certos grupos. Mas nós nem tínhamos acesso a isso,
essa parte era toda com o Alexandre. Ele fazia as per-
guntas e decidia o tamanho da matéria. No começo isso
me deixou chateado, mas depois percebi que à medida
que a gente ia crescendo, por mais que tentássemos,
agradar a todos seria cada vez mais difícil.
A matéria na “Rap Brasil” abriu algumas portas para os
que participaram da edição, e nos tornamos mais conhe-
cidos em todo o território nacional. Nessa época a gente
só conseguia ver um lado da imprensa, a parte que falava
a verdade e nos dava notoriedade. Anos depois, apesar
de mantermos bons contatos com alguns jornalistas,
passamos por maus momentos quando uma pessoa que
Enraizados: como começou? 91

se dizia amiga publicou inverdades sobre a organização,


mostrando o nível do seu profissionalismo. Não tivemos
muitos problemas porque o veículo de comunicação que
ela trabalhava não atingia um grande número de pes-
soas, mas mesmo assim esse fato serviu para que nós
aprendêssemos a abrir o olho com a imprensa.
92 Enraizados: os híbridos glocais
Enraizados: como começou? 93
2003: um ano
divisor de águas

Sonho que se sonha só


É só um sonho que se sonha só.
Mas sonho que se sonha junto
É realidade.
— Raul Seixas

Certamente 2003 foi um ano divisor de águas. Foi nesse


ano que conhecemos o escritor Alessandro Buzo, bem
no comecinho da carreira, e conheci também um cara
superarticulado chamado Fábio ACM. DJ, mantinha
trabalhos com rádios comunitárias, trabalhava na ONG
Cemina e fazia um som com o grupo de rap Poetas de
Ébano. Ele nos convidou para participar do projeto “Hip-
hop na linha de frente contra o tabaco”.
Este projeto reunia artistas do hip-hop para uma dis-
cussão sobre os riscos do tabaco. Alguns dos parti-
cipantes acharam um pouco estranho, pois a maioria
fumava, mas ficamos observando para ver aonde aquilo
ia chegar. A gente assistia a vídeos e ouvia palestras
com estatísticas informando a quantidade de pessoas
que morrem vítimas do tabaco em todo o mundo. A ideia
era refletirmos sobre o assunto, entender como tudo
isso funciona e depois escrever e gravar raps alertando
sobre os perigos do tabaco.

96
Enraizados: como começou? 97

A metodologia deste projeto deu muito certo. Prova disso


é que surgiram vários outros com propostas parecidas e
nós do Movimento Enraizados éramos sempre convida-
dos a participar. Eu participei de um que era sobre sexu-
alidade, a Lisa de outro chamado “Mulheres do hip-hop
pelo fim da violência contra a mulher” e por último parti-
cipei junto com o Léo da XIII do projeto “Homens do hip-
hop pela não violência contra as mulheres”. Outro fato
importante que aconteceu no ano de 2003 foi a visita do
Clã Nordestino, Preto Ghóez, Lamartine e Nando, para
nos apresentar o MHHOB (Movimento Hip-Hop Organi-
zado Brasileiro).
Como eu já conhecia o Lamartine, troquei ideias com
os caras. Reuni alguns participantes do Enraizados, e
o Preto Ghóez começou a falar. Eu já conhecia alguma
coisa do MHHOB, talvez por isso tenha sido o único a
questionar, mas o Ghóez sempre tinha um argumento
forte para cada questionamento meu. Ninguém do
Enraizados falava, só balançavam a cabeça, o Lamartine
às vezes tentava mediar a conversa, mas no fim rolou, o
Movimento Enraizados estava filiado ao MHHOB.
Enquanto o Movimento Enraizados era um grupo total-
mente cultural que se espalhava pelo Brasil, o MHHOB
era uma organização que discutia políticas públicas
para a juventude. Todas as organizações que faziam
parte de MHHOB estavam mais maduras do que nós.
Eu não me sentia à vontade em ter que me reportar a
outra pessoa – ou organização – sobre o que aconte-
cia conosco no Rio de Janeiro. Mas o Preto Ghóez me
tranquilizou dizendo que isso não seria necessário. O
Enraizados não teria, de maneira alguma, que se mol-
dar ao MHHOB, e sim o MHHOB se adaptar à realidade
do Movimento Enraizados.
98 Enraizados: os híbridos glocais

As conversas com o MHHOB eram cada vez mais fre-


quentes. Começaram então as viagens para congressos
nacionais, mas por dois motivos eu nunca ia. Primeiro,
eu trabalhava no supermercado Alto da Posse todos os
dias da semana e não poderia faltar; depois, achava um
saco essas reuniões, seminários e palestras. Eu rece-
bia convites para ir para Porto Alegre, mas sempre me
esquivava e repassava para outro artista do Movimento
Enraizados. Por um lado era legal porque a galera come-
çou a andar de avião e a conhecer diferentes estados e
culturas, e andar de avião não passava nem em sonho na
cabeça da molecada que morava na periferia.
Era interessante porque quando eles retornavam das
viagens vinham com novas ideias e até mesmo outro
vocabulário. Era um costume nos reunirmos sempre que
alguém chegava de viagem, a gente não fazia relatórios,
como nos dias de hoje. Naquela época os relatórios eram
orais, e eu sempre dizia: “Mano, o que fizeram contigo?”
Mas era o processo, a galera ia de um jeito e voltava
de outro. Conheciam gente nova, as ideias eram mais
maduras e interessantes. Como eu costumava dizer,
era papo de futuro. Conversava muito por telefone com
o Preto Ghóez, pedia e dava conselhos. Ele começava a
entender como funcionava o hip-hop no Rio de Janeiro,
pelo menos nas partes em que estávamos envolvidos, e
eu entendia a importância de se discutir políticas públi-
cas para a juventude.
Trabalhava de segunda a sexta, e na própria sexta-feira
fazia shows. Às vezes ficava até três dias sem aparecer
em casa. Minhas músicas começaram a tocar nas rádios
e os convites para as apresentações eram aos montes,
mas o dinheiro era sempre zero. Nos eventos eram pagos
os técnicos de som, o palco, o som, o frete, mas nunca os
artistas. Por causa da repercussão das minhas músicas
Enraizados: como começou? 99

nas rádios e por meu nome carregar o nome do bairro em


que moro, os artistas de hip-hop do bairro Morro Agudo
começaram a se interessar por mim. Foi nessa época
que o Léo, hoje Léo da XIII, veio, por indicação do meu
primo Júnior, até minha casa.
O Léo da XIII tentou pelo menos três vezes me encon-
trar, mas nunca conseguia. Até que um dia ele madru-
gou na porta da minha casa. Quando levantei para ir até
a padaria tomei um susto com o garoto sentado na cal-
çada, em frente ao portão. Eu tinha 22 anos e ele apenas
uns 13, mas já estava convicto de que queria fazer rap.
Quando a gente começou a conversar reparei que ele
tinha algum problema, pois quase não falava. Passava
boa parte do tempo lá em casa. Eu fazia umas produ-
ções de beat e pedia pra ele escrever as letras. Ele che-
gava à minha casa e ficava sentado olhando eu produ-
zir, ficávamos horas em casa sem trocar uma palavra.
De repente ele levantava e ia embora sem se despedir.
Com o passar do tempo essas coisas foram mudando,
eu dizia pra ele que não precisava falar comigo, mas
tinha que ter educação. Na hora de ir embora ao menos
deveria acenar quando estivesse no caminho da porta.
Quando começou a se comunicar efetivamente comigo
descobri que ele era depressivo porque com 10 anos de
idade presenciou o irmão dele, de apenas 11, morrer
atropelado na via Dutra. A mãe e a irmã diziam que ele
não falava muito, era muito reservado, e que depois do
hip-hop começou a ficar mais sociável.
100 Enraizados: os híbridos glocais
Enraizados: como começou? 101
A experiência de
mobilizar e entreter

Os loucos abrem caminhos que


logo serão seguidos pelos sábios.
— Carlo Dossi

O poder de mobilização do Movimento Enraizados era


impressionante, as pessoas queriam estar conosco de
alguma forma, e ainda hoje é assim. Nossas aparições
em jornais e revistas eram cada vez mais frequentes.
Gente de outros estados começava a militar pela orga-
nização. O Dimenor sempre dava entrevistas falando
do movimento. Muitos coletivos de hip-hop nasciam e
desapareciam, e nós continuávamos nossa caminhada.
Foi nessa época que o Pevirguladez começou a fazer o
evento Ressaca Hip-Hop, em Duque de Caxias, e o legal
é que ele está até hoje na pista fazendo seus eventos.
Ele é professor, canta rap, e agora está envolvido em um
espetáculo de teatro e rap. Sempre esteve ao lado do
Movimento Enraizados. Quase tudo relacionado ao hip-
hop no Rio de Janeiro tinha alguém do Enraizados envol-
vido de alguma maneira.
O Léo da XIII me acompanhava em algumas apresenta-
ções pelo Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo que ele pegava
experiência como rapper, me auxiliava nos shows. Um dia
ele questionou por que eu não fazia um evento de hip-hop

102
Enraizados: como começou? 103

em Morro Agudo. Eu disse que os eventos de hip-hop não


costumavam encher, portanto era inviável a gente des-
perdiçar energia numa atividade que não daria certo.
No outro dia eu estava em casa fazendo um som e ele
chegou:
— Dudu, posso te pedir um favor?
— Claro que pode, fala, o que você quer?
— Eu tô querendo fazer uma festa de aniversário e
convidar algumas pessoas do hip-hop, gostaria que me
ajudasse a organizar isso.
— Tudo bem, vamos fazer. Só precisamos ver o local, o
som e a comida.

A cada semana o Léo da XIII chegava com uma novi-


dade e a festa de aniversário ia tomando uma proporção
gigantesca. Sempre que ele chegava na minha casa o
papo era esse:
— Dudu, o salão de festas que eu estava vendo não vai
rolar mais, mas eu já falei com o Jack e ele liberou o
espaço do bar para fazermos a festa.
— Tu não acha que essa festa tá ficando grande demais?
— Não, acho que vai dar tudo certo. Agora você precisa
falar com o Luisinho da Cerâmica pra ver se ele arruma
o som.

Luisinho da Cerâmica era um candidato a vereador da


época. Ele ajudava a molecada a fazer umas ativida-
des no bairro da Cerâmica, mas eu não gostava de pedir
absolutamente nada a políticos. Só que a festa do mole-
que estaria comprometida se não houvesse o som, então
liguei para o tal Luisinho.
— Alô!!! Luisinho?
— Sim, quem tá falando?
— Aqui é o Dudu de Morro Agudo!
— Dudu de onde?
104 Enraizados: os híbridos glocais

— Dudu de Morro Agudo, acho que o Jack falou de mim


pra você. É a respeito de uma festa de hip-hop que eu
tô querendo fazer no bar dele, e ele disse que você pode
ajudar com o som.
— Ah! Sim. Lembrei. E quanto é?
— Não sei, é o aluguel de um som que já está lá no bar.
É um som que fica fixo por lá e ele disse que você já está
acostumado a alugar.
— Tudo bem, diz pro Jack que está tudo certo e depois
eu passo lá pra acertar com ele.

Estava tudo certo, o cara não pediu nada em troca, mas


eu queria que ficasse claro que eu não colocaria nenhuma
faixa e muito menos falaria o nome dele durante o evento.
— Luisinho, tem um problema, meu parceiro.
— E qual é o problema?
— Esse evento não tem nada a ver com política, não tem
como a gente vincular o seu nome ao nosso.
— Eu não vejo problema nenhum nisso. Boa sorte com
o evento de vocês e se possível vou aparecer por lá para
ver a apresentação.
— Valeu então, obrigado pela moral.

A festa de aniversário do Léo da XIII tinha se transfor-


mado em um evento, e agora teria que haver uma mobi-
lização dos Enraizados para fazer o flyer, divulgar na
internet e fazer ligações para convidar a massa do hip-
hop carioca a comparecer em Morro Agudo, ou melhor,
na Cerâmica. Reunimos os grupos de rap de Morro
Agudo, Fator Baixada, Dudu de Morro Agudo, Léo da
XIII e Ultimato à Salvação, e decidimos que o nome do
evento seria Raiz do Hip-Hop. Por motivos ideológicos,
mas também por causa do nome Enraizados.
Fiz a arte-final e divulguei na internet, no Portal Enrai-
zados. Passei a arte pros amigos do Alto da Posse e eles
copiaram centenas de cartazes. O Átomo, o Léo da XIII, o
Kall e eu colamos os cartazes no bairro inteiro. Do meu
106 Enraizados: os híbridos glocais

emprego fiz as ligações convidando todos a comparece-


rem. Fui trocar uma ideia com o Jack pra saber se real-
mente estava tudo certo. Ele disse que emprestaria o
espaço do bar, mas tinha certeza que não daria certo,
porque um monte de preto junto só podia dar em confu-
são, assim como o funk sempre deu.
Mostrei para ele o quanto eu fiquei chateado com seu
comentário racista e preconceituoso, mas falei que até
o fim da noite a gente conversaria novamente, e talvez
ele mudasse de opinião. Eu e o Kall chegamos meia hora
antes do evento começar. Para minha surpresa chega-
ram conosco dez carros de polícia e bombeiros, dizendo
que haviam recebido uma denúncia anônima delatando
venda de drogas durante o evento.
Percebi que nosso trabalho estava indo pelo ralo. Não
sabia com que cara olharia para meus amigos que viriam
de diferentes partes do Rio de Janeiro para curtir um rap
e teriam que voltar para casa. O Jack veio saber o que
estava acontecendo. Assim que soube da denúncia ligou
para um comandante da polícia e outro “peixe grande”
dos bombeiros, explicou que era um evento de hip-hop
dos garotos do bairro e que ele se responsabilizava por
tudo. Passaram-se cinco minutos e os carros da polícia
e dos bombeiros dispersaram.
As pessoas começavam a chegar ao evento. Era gente
de Duque de Caxias, São João de Meriti, Japeri, Bangu,
Campo Grande, São Gonçalo, Barra do Piraí, Maricá,
Niterói, Madureira, Petrópolis, Jacarepaguá e muitos
outros lugares. Alguns não se gostavam, mas estavam
ali, juntos, e alguns até voltaram a se falar naquela oca-
sião. Isso é uma característica do Movimento Enraiza-
dos, unir até os que não se gostam.
Enraizados: como começou? 107

Pessoas que nunca estiveram em Morro Agudo conse-


guiram chegar na Cerâmica, que era bem mais difícil de
encontrar. Apesar de o bar do Jack ser no centro do bairro,
o acesso era difícil. A galera da Revista Ocas me ligou per-
guntando como faziam para chegar no evento. O Cacau
se comprometeu em fazer a filmagem. Por coincidência
naquele dia ele estava na gravação do filme “Um ano e
um dia”, que ele dirigia, e levou toda a equipe, inclusive
os equipamentos, para ajudar no DVD “Raiz do hip-hop”.
Apesar de não lotar como os bailes funk, nosso evento
ficou mais cheio do que os eventos de hip-hop que acon-
teciam no Rio de Janeiro, e foi um sucesso absoluto. O
Jack ficou visivelmente emocionado, gritando a cada
movimento do b. boy Bolinho, de São Gonçalo, e a cada
rima do MC Papo Reto, o apresentador da noite. Sem-
pre que eu apresentava uma nova pessoa que chegava, o
Jack pagava uma cerveja. Quando o evento terminou ele
me chamou e propôs fazermos outro, mas ele daria uma
estrutura melhor. Eu disse que tudo bem, que a gente
poderia conversar mais pra frente, mas alguns meses
depois ele morreu.
Depois do sucesso de Raiz do Hip-Hop, o mito de que evento
de hip-hop no Rio de Janeiro não enchia acabou, e começa-
ram a pipocar eventos do Movimento Enraizados em várias
partes do Rio de Janeiro, sempre com as mesmas caracte-
rísticas. Saindo do padrão dos acontecimentos de hip-hop
tradicionais começamos a fazer eventos que uniam o hip-
hop e o futebol, chamados de Boladão, numa alusão à fisio-
nomia carrancuda que os rappers fazem questão de mos-
trar, que na gíria carioca é “bolado”.
A gente ia às comunidades e jogava uma partida de fute-
bol com os moradores. Sempre acontecia um bate-papo
em que as pessoas se integravam e ficavam sabendo o
que os outros faziam. O Boladão virou moda no Rio de
108 Enraizados: os híbridos glocais

Janeiro e em pouco tempo as pessoas nos procuravam


comunicando que gostariam de fazer uma edição do
Boladão em sua comunidade. Os moradores se articu-
lavam para conseguir um campo de várzea e uma chur-
rasqueira, nós do Enraizados convocávamos militantes,
amigos e informávamos o local. No dia todo mundo levava
um pouco de dinheiro e o evento acontecia o dia inteiro.
O fim do começo...

Quem anda com sábios, sábio será.


— Salomão

Depois de me esquivar de muitas viagens, resolvi viajar


para alguns estados. Eu estava muito envolvido com o
MHHOB (Movimento Hip-hop Organizado Brasileiro), mi-
nha experiência com programação web me permitiu
ocupar o cargo de gerente de comunicação do movi-
mento, por isso falava diversas vezes por dia com o
Preto Ghóez. E o Movimento Enraizados começava a
ter um rumo mais sério.
Em junho de 2004 aconteceu em Porto Alegre o 1º Encon-
tro Nacional do MHHOB, em que lideranças de vários
estados estiveram presentes: Lamartine Silva, Nando
e Ghóez (MA), Edjales Fama (RO), Gil BV (Piauí), Fabiana
Menini, Saroba e Amarelo (RS), Mano Brown (SP) e outros.
A maneira como o MHHOB trabalhava e se articulava para
conseguir fazer suas reuniões com as lideranças nacio-
nais me surpreendia. Para o Enraizados fazer as brinca-
deiras na Baixada Fluminense era um grande sacrifício.
Mas fomos aprendendo o caminho das pedras a cada
minuto, e sempre buscávamos aprender mais.
O escritor Alessandro Buzo, que tinha uma ligação forte
com o Movimento Enraizados, nos convidou para o lança-
mento do seu livro “Suburbano convicto”, em São Paulo.

110
Enraizados: como começou? 111

Por muito tempo ele foi um dos maiores colaboradores do


Portal Enraizados, e até hoje mantém uma coluna quin-
zenal. Por escrever e participar tanto, recebia os méritos
de estar com o nome sempre em evidência no Portal. Em
setembro de 2004, o jornalista André Caramante escre-
veu uma matéria com o Alessandro para a revista do jor-
nal “Agora”. Ele apareceu com a blusa do Enraizados, o
que fez crescer o nosso nome no estado de São Paulo.
Com isso percebi que ele não estava brincando na organi-
zação, ali era fechamento pra qualquer parada.
Eu tinha a missão de atualizar diariamente o Portal
Enraizados, que sempre foi a porta da organização para
o mundo. Além de colocar as notícias, ainda deveria
estar por dentro das novidades em linguagem de pro-
gramação para dar sempre um upgrade no site. Baixei
muitas apostilas de informática, como a de ASP (Active
Serve Pages), uma linguagem de programação proprie-
tária, e pedi ajuda ao analista de sistemas da empresa
em que trabalhava, o Jorge, que sempre foi um cara
muito gente boa, uma das pessoas mais prestativas que
já conheci na vida.
O Jorge me passou mais algumas apostilas, mas disse
que não sabia muito de programação web, o negócio dele
era Cobol. Como ele ajudava a todos o tempo inteiro, eu
passava muito tempo no CPD (Centro de Processamento
de Dados) trocando ideia com ele e com o meu camarada
Luciano Lyrio, que sempre permitiam que eu ficasse nos
computadores da empresa programando e testando
novas versões do Portal Enraizados.
Eu estudava de tudo para colocar o Portal Enraizados
entre os portais de hip-hop mais bonitos e acessados
do Brasil. Programação, design, marketing e técnicas
de redação. Outros integrantes do Enraizados faziam
música o tempo inteiro, alguns eram desenhistas e cola-
boravam com seu trabalho, a gente ia vivendo como dava.
112 Enraizados: os híbridos glocais

O Lamartine me ligava com frequência, a gente conver-


sava e ele me passava responsabilidades. Dizia que o
Movimento Enraizados era o nome do MHHOB no Rio de
Janeiro, e eu deveria assumir isso. Eu pensava a respeito
e achava que não poderia ser tão ruim, e a cada conversa
com o Lamartine ficava cada vez mais envolvido.
Além das atribuições que eu já tinha – pai, marido, MC,
programador e produtor – era necessário ainda apren-
der a fazer projeto, pois descobri que não sabia. Execu-
tava minhas ideias com maestria, mas não conseguia
enquadrá-las em editais, por exemplo.
A Fabiana Menini, do Instituto Trocando Ideia, de Porto
Alegre, estava muito próxima do Ghóez, acho que foi ele
quem nos apresentou. Ele usava muito o telefone dela e
por isso eu ligava pra Fabiana com frequência, tentando
falar com Ghóez. A gente se falava tantas vezes por dia
que eu sabia que ficaríamos amigos. A Fabiana fez algo por
nós, e por mim particularmente, que jamais esquecerei.
Um dia perguntei se ela podia me ajudar a fazer um pro-
jeto, eu nunca tinha visto um pronto e não conseguia
aprender pelas apostilas “Faça você mesmo”. Ela me
mandou por e-mail um projeto do Trocando Ideia e um
material com endereço, e-mail e telefone de centenas
de instituições, do mundo inteiro, que apoiavam e patro-
cinavam projetos iguais ao nosso. Lembro que ela me
disse para não disponibilizar o material para qualquer
pessoa, pois aquilo era trabalho de uma vida inteira.
Fiquei feliz pela confiança dela, nós ainda nem nos
conhecíamos pessoalmente.
Eu tinha certeza que o MHHOB daria certo. Muitas pes-
soas inteligentes estavam comprometidas, era a prá-
tica da revolução que os MCs pregavam em seus raps. O
Ghóez era o tipo de liderança que a gente não vê nascer
todos os dias e ele estava do nosso lado, ou nós do lado
Enraizados: como começou? 113

dele, prontos para mudar a estrutura de tudo. Em uma de


nossas conversas o Ghóez me fez entender a importância
em estarmos juntos, mas não era eu e ele, e sim todos os
pretos, pobres, nordestinos, todas as pessoas que eram
discriminadas de uma maneira ou de outra. Ele dizia:
— Dudu, a gente precisa criar e cuidar das nossas pró-
prias atividades e empreendimentos, da nossa própria
gente e do nosso dinheiro.
— Eu sei disso. (respondia positivamente, mas não fazia
ideia de como isso poderia acontecer na prática.)
— Então a gente tem que conversar com um por um,
com as lideranças.
— É, mas às vezes as lideranças estão muito ocupadas
cuidando das suas mulheres e filhos, deixam a causa
em stand-by. E a gente não pode nem mesmo criticar
os caras, porque a gente faz o mesmo quando as coisas
apertam em casa.
— Eu sei, mas não é disso que eu estou falando.
— E tem mais!

Interrompi o Ghóez e continuei falando de modo eufórico.


— Em minha pouca experiência de vida já percebi que
onde tem dinheiro tem traição, tem tumulto, tem guerra de
egos. Onde tem liderança tem gente querendo derrubar.

Nessa época eu era bastante cético, meus pensamen-


tos eram sempre radicais, só conseguia expor em reuni-
ões internas do Enraizados, quando havia três ou quatro
pessoas. Um dia o Ghóez falou sobre nós do hip-hop ter-
mos nossas próprias roupas, nossa grana deveria circu-
lar entre a gente. Incentivaríamos campanhas para boi-
cotar as empresas racistas e preconceituosas, pois eles
sobrevivem do nosso dinheiro, nós somos a maioria.
Ele continuava:
— Dudu, imagina tu lançar um disco no Rio de Janeiro
hoje e daqui a uma semana o disco já estar vendendo
114 Enraizados: os híbridos glocais

em quase todo o Brasil, nas comunidades que tiverem o


MHHOB presente?
— Seria muito bom, mas é sonho isso, né?
— É possível. A gente pode criar um mercado indepen-
dente, próprio. Não fica pesado pra ninguém e a gente
ainda fomenta a produção e o consumo dos nossos
produtos.
— É verdade!

Eu só concordava. Não conseguia entender como isso


poderia funcionar, mas sempre concordava esperando
o dia da prática, porque na teoria a gente estava bem
avançado. Hoje penso que o Ghóez sempre me enxer-
gou como uma grande liderança ligada à tecnologia e ao
empreendedorismo, mas não ao rap propriamente dito.
No dia 9 de setembro, em uma de minhas ligações diá-
rias para a Fabiana Menini, veio a triste e dura notícia.
Eu disse:
— Alô Fabiana!! Cê sabe do Ghóez?
— Você não soube, Dudu?
— Não, o que houve?

Eu esperava que ela dissesse qualquer coisa, menos que


o cara tinha morrido. Isso não era nem a última coisa que
passava pela minha cabeça. Definitivamente isso não
poderia acontecer. Ela continuou:
— Dudu, eu tentei falar com o Ghóez e fiquei sabendo que
ele sofreu um acidente de carro, mas não sei de muitos
detalhes, tenta ligar para os meninos (do Maranhão) e se
souber de alguma notícia me liga pra informar.
— Tudo bem, Fabi, vou tentar saber com os caras.

Nessa hora o meu telefone celular começou a tocar, uns


querendo saber e outros querendo informar. O Preto
Ghóez realmente tinha morrido em um acidente de carro.
Enraizados: como começou? 115
Ousadia: deixe-me
ir, preciso andar...

Aos que me perguntam o motivo de minhas viagens,


geralmente lhes respondo que sei bem do que fujo,
mas não o que busco.
— Michel de Montaigne

O ano de 2005 foi um ano de mudanças consideráveis para


o Movimento Enraizados, e eu também estava disposto
a mudar. O ano começou com muitas propostas, e uma
delas foi participar do Trocando Ideia, evento produzido
pela Fabiana Menini, em São Luís, no Maranhão. Nós do
Enraizados éramos responsáveis pelas artes-finais que
sairiam na revista “Rap Brasil”, blusas, cartazes e flyers.
Eu nunca fui designer, nem sequer fiz curso de Corel Draw
ou Photoshop, apenas aplicava os ensinamentos que o
Wilson Neném me passou, com um pouco de criatividade
que só pode ser coisa de Deus. Também fomos convida-
dos a finalizar e atualizar o site do Trocando Ideia.
Aceitamos, mas eu é que ficaria semanas na frente do com-
putador. Trabalhei pesado e apliquei um pouco daquele
conhecimento no nosso Portal. Na verdade não sabia muito
bem o que faria, peguei o projeto do site e comecei a analisar
os códigos. Como não conseguia começar o trabalho, peguei
o recurso que a Fabiana Menini havia me adiantado, cerca
de R$800, e comprei um monte de livros para estudar e fazer
o site ao mesmo tempo.

116
Enraizados: como começou? 117

Com tudo pronto e aprovado pela diretoria do Trocando


Ideia, que era apenas a Fabiana, me prepararei para via-
jar pela primeira vez para São Luís. Tive que inventar
muita história na empresa onde trabalhava, porque eles
não me liberariam se eu dissesse a verdade e eu decidi-
damente necessitava fazer aquela viagem. Agora havia
chegado a minha vez.
No dia de viajar para o Maranhão eu estava muito tenso,
era a minha primeira viagem de avião. Não tinha dinheiro
nem para ir ao aeroporto. Lembrei que o Marquinhos,
irmão do Marcio Periquito, trabalhava em uma agência
de locação de automóveis, a Localiza, no aeroporto. Fui
à casa dele e toquei o interfone pronto para fazer um
pedido quase desesperado:
— Marquinhos, posso falar contigo um minuto,
meu parceiro?
— Quem é?
— É o Dudu.
— Claro, entra aí. O que tá acontecendo?
— Boa noite, meu parceiro. Tô dependendo de sua
ajuda e se você não puder me ajudar eu não tenho mais
a quem recorrer.
— Calma, cara, fala o que você precisa, se eu não puder
resolver talvez um outro amigo possa.
— Você ainda trabalha no aeroporto?
— Sim, trabalho na Localiza. Aquela empresa
que aluga carros.
— É porque eu tô precisando ir para o aeroporto amanhã
de manhã, mas não tenho o dinheiro da passagem e
queria ir de carona contigo.
— O que tu vai fazer no aeroporto?
— Vou viajar pro Maranhão, a trabalho.
— Qual o horário do teu voo?
— É 10h, mas eu tenho que chegar às 9h.
— Dudu, tá tranquilo, meu parceiro, mas só tem
um problema.
118 Enraizados: os híbridos glocais

— Fala aí, qual o problema?


— A gente vai chegar lá às 6h da manhã.
— Marquinho, isso não é problema nenhum, o pior seria
se eu chegasse atrasado.
— Então tá tranquilo, amanhã cedo você brota aqui em
casa e a gente vai.
— Valeu, camarada, muito obrigado. Tu tá ligado que se
precisar de qualquer parada, é nós.

Como ele havia afirmado, chegamos às 6h no aeroporto.


Fiquei lá sentado, sem saber o que fazer, até que chega-
ram meus camaradas Fábio ACM e Def Yuri. Eles me orien-
taram em todo o processo. Fomos beber cerveja e por
pouco não perdemos o voo. Eu achei aquilo muito compli-
cado. Check-in, revista, portões, embarque, e certamente
se eles não estivessem ali eu não conseguiria chegar a
São Luís sozinho. Para mim tudo era novo. O hotel onde
nos hospedamos era lindo, tinha uma piscina gigante e
logo depois da piscina era a areia da praia. A maré subia
três vezes por dia, em alguns momentos a água do mar
quase entrava no hotel, em outros o mar sumia, parecia
um deserto, com algumas piscinas naturais.
Eu me sentia mal por não poder ficar no sol, na piscina,
na praia. Havia dito aos meus superiores no trabalho
que estava doente, como poderia voltar queimado de
sol? Nessa viagem, além do Fábio ACM e do Def Yuri,
estavam Alexandre de Maio (SP), Fabiana Menini (RS),
Nando (MA), Lamartine (MA), Edjales Fama (RO), Saroba
(RS), Filho (PI), Patrícia (RS), Paulinha (RS), DJ Morce-
gão (AP), DJ Juarez (MA), e vários outros parceiros que
ainda reencontraria no futuro. Durante o Trocando Ideia,
houve batalha de break, shows, palestras e reuniões do
MHHOB, além de uma apresentação do projeto “Hip-hop
na linha de frente contra o tabaco”, mas depois que o
Ghóez morreu nada era como antes no MHHOB.
Enraizados: como começou? 119

O ano de 2005 estava apenas começando e eu já tinha


envolvido o Movimento Enraizados em muitas parcerias.
Já no dia 14 de janeiro outro integrante do Enraizados
participaria de um projeto a convite do Fábio ACM, o
“Hip-hop mandando fechado em saúde e sexualidade”.
O Fábio não queria que eu fosse, porque eu já havia par-
ticipado do projeto anterior, mas insisti muito e ele aca-
bou liberando. Este projeto foi realizado bem perto da
minha casa, em Nova Iguaçu, no bairro Tinguá, eu saía do
trabalho e ia direto.
Eu deveria chegar na sexta-feira pela manhã, assim
como todos os outros participantes, mas estava no tra-
balho e não poderia inventar outra história uma semana
depois da viagem para São Luís, seria muita cara de pau
da minha parte. Tinha comprado uma moto YBR, zero
quilômetro, e fui com ela para Tinguá. Rolou um bochi-
cho dentro do Movimento Enraizados falando que eu
tinha comprado a moto com dinheiro da organização.
Mas quem falou isso estava tão distante que não sabia
que o Enraizados só me dava lucros de realização pes-
soal. Sentia-me realizado em fazer as atividades, mas
financeiramente era um prejuízo atrás do outro, nem no
zero a zero ficava. Tinha comprado a moto em 36 vezes e
pagava com o dinheiro da passagem de ônibus. Vendi a
moto meses depois porque caí umas três vezes.
Chegando na pousada em Tinguá, procurei os amigos.
Fiquei impressionado com o lugar, era muito especial,
muito verde, pra onde eu olhasse via árvores, grama e
cerca. Mais acima, na casa onde comíamos, tinha uma
piscina. Eu estava começando a curtir esses encontros,
sempre com piscina e comida da melhor qualidade, mas
não me encantava muito porque na segunda-feira a vida
voltava ao normal, e a realidade era triste.
120 Enraizados: os híbridos glocais

Foi nesse dia que conheci o Japão (DF), a gente trocou


muita ideia e ficamos amigos na hora. Há tempos ele
cantou no grupo do GOG e a história de vida dele den-
tro do hip-hop é muito importante. Eu não o conhecia,
fiquei até envergonhado. Apesar de cantar rap há algum
tempo, só conhecia os grupos que ninguém conhecia, os
que começaram a cantar comigo e aqueles com quem eu
tinha um contato via carta ou e-mail. Mas o Japão tam-
bém não me conhecia e ficou tudo no zero a zero.
Esse projeto foi importante porque eu comecei a pen-
sar sobre a questão de gênero, dar mais valor e atenção
para as mulheres. Percebi o quanto eu era homofóbico
e o quanto a maioria das pessoas do hip-hop ainda é. Vi
que as minas tiravam de letra, mas os caras não. A maio-
ria queria saber se havia algum homossexual dentro do
hip-hop, mas só apareceram as minas. Se havia algum
homossexual no dia ficou quieto, até mesmo por receio.
Não era medo de apanhar, porque acredito que ninguém
chegaria a esse ponto, mas a encarnação, as fofocas.
Como era costume em outros projetos do Fábio, a gente
fez músicas baseadas nos temas propostos. Nenhum
cara quis fazer música falando de homossexualidade.
Dias depois o Cacau, do grupo Baixada Brothers, me
ligou e falou:
— Dudu, vamos fazer um som juntos?
— Claro, meu parceiro, vamos sim.
— Vamos falar de homossexualismo. Vou convidar
outros caras pra fazer também.
— Por mim tudo bem, cara.

Passaram-se alguns dias e eu não tinha feito a minha


parte ainda. O Cacau já estava com a base produzida,
me ligou e perguntou:
Enraizados: como começou? 121

— Dudu, a letra da música tá pronta?


— Tá sim, Cacau.
— É que eu tô escrevendo a parte de todos os partici-
pantes pra ver quais se encaixam e colocar em ordem.
Tem como você me mandar a sua parte agora?
— Claro que tem, mano, me liga daqui a pouco que eu
te falo.
— Tudo bem, daqui a cinco minutos eu te ligo.
— Beleza!

Fiquei doido, peguei papel e caneta e comecei a escrever


desesperadamente, mas como iria falar de homossexu-
alismo? Resolvi falar para as pessoas não serem precon-
ceituosas, fiz comparações e alusões. Trinta minutos
depois e o Cacau já tinha me ligado umas dez vezes, ele
estava me pressionando e eu já estava ficando irritado.
Pensei em desistir, mas consegui terminar a letra. Ele
anotou tudo e depois me ligou.
— Dudu, aqui é o Cacau de novo.
— Eu sei, fala tu!
— Você já viu a parte do Mad no rap que a gente tá
fazendo?
— Não!
— Esta semana a gente vai gravar e tu vai ver.
— Ficou maneira, Cacau?
— Sim, ficou muito maneira.

O Mad é um cara que eu conheço há muito tempo, mas


não lembro quando foi a primeira vez que a gente trocou
ideia. Sempre foi nosso camarada, mas hoje está bem
mais próximo do Enraizados. Ele fez parte dos primeiros
b. boys e MCs do Rio de Janeiro, cantou funk também.
É polêmico e não se preocupa com o que as pessoas
falam. O negócio dele é tacar lenha na fogueira. O Mad
fez a música em primeira pessoa, dando a entender que
era homossexual. Quando eu ouvi, não sabia o que dizer.
Achei incrível a atitude e resolvi ligar para ele.
122 Enraizados: os híbridos glocais

— E aí, Mad, tudo bem? Aqui é o Dudu.


— Fala aí, piranha.
— Mano, achei irada a tua letra.
— Pô mano, tu gostou mesmo?
— Sim, cara, gostei muito. Gostei mais ainda da tua
atitude. Expor sua vida assim, falar da sua homossexua-
lidade numa música.
— Mas espera aí, Dudu, eu não sou homossexual!
— Aaaaaah, é sim!
— Não, não sou não.

Então nós começamos a rir muito! E ele indagou:


— Você faz música dizendo que dá tiro e nem por isso
é bandido.
— Mas Mad, uma coisa é você dar tiro e outra é dar a
capital da Coreia do Sul.

Nós rimos mais ainda, um provocando o outro.


Foi uma letra precursora, que se tornou eterna abor-
dando um assunto jamais falado dentro do hip-hop. E
o mais maneiro é que ele teve a iniciativa que nenhum
homossexual havia tido, apesar de ele ser heterosse-
xual. Veja a parte do Mad na letra “O julgamento”:
A vida passa, o mundo gira e vê que nada mudou
E vê que o novo pensamento ainda não se formou
A ignorância, o preconceito, sai do escuro e mostra a cara
Sua face é violenta e despreparada
Que vai no fundo da alma e corta a calma
Transforma a luta da igualdade num sonho sem causa
O seu olhar de reprovação me traz indignação
Torna mais forte a minha posição
Vocês não sabem como é difícil enfrentar
O julgamento desse seu olhar
Quando não quero que me entenda
Só quero o seu respeito
A opção é minha, eu tenho o meu direito
Enraizados: como começou? 123

Deixe-me em paz, deixe-me sorrir ou chorar


Me lambuzar de prazer ou me penalizar
A opção é minha, então vamos por parte
Respeite a minha individualidade

Que movimento é esse que estamos participando


Que agride outros seres humanos
Que porra de cultura é essa que estamos formando
Ao invés de unir estamos segregando

Na semana seguinte, dia 28 de janeiro, eu voava de novo


para Porto Alegre, para participar do Fórum Social Mun-
dial e do MHHOB Mundi, evento do MHHOB que fazia
parte do calendário do Fórum. Ainda não me sentia
seguro em viajar sozinho de avião, por sorte o Def Yuri
também estava indo para Porto Alegre, ficaríamos na
casa da Fabiana Menini. A viagem foi tranquila.
Assim que entrei no portão da escola onde a maioria das
pessoas do MHHOB estavam hospedadas topei com o
Gilberto Gil, então ministro da Cultura. Na pressa, ele
apertou a minha mão e foi embora. A galera olhou a cena
e achou que éramos relacionados, e algumas pessoas
que nem me conheciam começaram a se chegar.
Como participava ativamente do MHHOB, fui convidado
para dar palestra sobre Software Livre na mesa “Comu-
nicação popular e cultura hip-hacker” junto com o Cláu-
dio Prado, do Cultura Digital, do Ministério da Cultura, e
a Fernanda Weiden, criadora do projeto “Software Livre
mulheres”. Apesar de eu não saber absolutamente nada
de Software Livre, na época era o cara do MHHOB que
mais entendia de tecnologia. Estudei um pouco antes de
viajar e preparei um discurso bem básico e superensaiado.
Participei de todas as discussões, mas não falava muito,
apenas observava, tentando absorver o máximo do que
os experientes diziam. Reparei que quando dava uma opi-
nião, uma maioria sempre concordava comigo, e vi que um
Enraizados: como começou? 125

questionamento meu podia mudar algo no rumo da histó-


ria. Mas não questionava muito porque não queria ser o
centro das atenções. Na verdade, minha vontade era pas-
sar despercebido. Desejava que ninguém fosse à pales-
tra, ou que ela tivesse sido cancelada por algum motivo.
Mas nada disso aconteceu. No dia e na hora marcada,
cerca de 20 pessoas sentadas em círculo esperavam
as sábias palavras de Dudu de Morro Agudo, Cláudio
Prado e Fernanda Weiden. Nunca vou esquecer o que o
Cláudio Prado fez por mim aquele dia. Como a Fernanda
não apareceu, ele fez questão que eu falasse primeiro,
pois certamente se ele começasse não haveria chance
de eu falar depois.
Meu discurso começou bem técnico, falando das dife-
renças entre o Windows e o Linux. Depois parti para a
discussão ideológica, e de maneira abrupta terminei a
longa palestra de dez minutos. Foram os dez minutos
mais longos da minha vida. As 20 pessoas me olharam
com cara de espanto, sem acreditar que eu realmente
tinha terminado a palestra. O Cláudio olhou pra mim e
disse a todos os presentes:
— A ideia do Software Livre é justamente essa
que o Dudu acabou de falar, agora eu vou apenas
complementar.

Ele falou durante duas horas, e eu aprendi bastante


sobre Software Livre. Depois desse dia estudei muito.
Precisaria saber a respeito porque as discussões sobre
os Pontos de Cultura estavam aceleradas e eu era a
pessoa que participava dos grupos de discussão com
o Ministério da Cultura, representando o MHHOB. Nas
reuniões do MHHOB durante o V Fórum Social Mun-
dial falava-se muito sobre a Conferência do MHHOB
que aconteceria em Teresina, no Piauí, em fevereiro
daquele mesmo ano.
126 Enraizados: os híbridos glocais
Enraizados: como começou? 127
128 Enraizados: os híbridos glocais

Assim que cheguei ao Rio de Janeiro recebi uma ligação


da Fabiana Menini informando que a Conferência seria
durante o carnaval, a partir do dia 5 de fevereiro de 2005.
Eu tinha acabado de chegar e já me preparava para mais
uma viagem, dessa vez para o Piauí. Eu sabia que as dis-
cussões teriam dois eixos muito importantes: a apro-
vação dos Pontos de Cultura e a institucionalização do
MHHOB por meio de um braço jurídico chamado Instituto
Ruas. Minha participação era muito importante nas duas
discussões. Não viajei sozinho, levei mais dois integran-
tes do Movimento Enraizados, achava importante que
essa galera estivesse viajando e conhecendo gente nova.
Não poderia imaginar que essa viagem mudaria total-
mente o rumo do Movimento Enraizados no Rio de Janeiro.
Todos os participantes da Conferência se hospedaram
em um hotel perto do Centro de Teresina. Era um hotel
duas estrelas, mas era bem confortável e os funcionários
muito gentis. Faziam de tudo para nos agradar.
Os trabalhos e reuniões aconteciam no Centro de Refe-
rência do Hip-Hop, na sede da ONG Questão Ideológica,
também filiada ao MHHOB, uma escola abandonada que
foi ocupada por eles. Quando cheguei ao Centro de Refe-
rência do Hip-Hop e vi de perto a organização daqueles
jovens, fiquei deslumbrado. Não somente com o tama-
nho do local, mas também com os equipamentos que
eles tinham ali e mais ainda com a administração. A
média de idade era no máximo 25 anos.
Eu teria que voltar para o Rio antes de terminar a Confe-
rência. Algumas reuniões foram antecipadas para que eu
participasse. Queria mais informações a respeito da ocu-
pação da escola abandonada. Em Morro Agudo havia uma
escola estadual abandonada havia mais de quinze anos,
onde eu jogava bola quando era criança. O Gil BV, um dos
coordenadores da ONG Questão Ideológica e a pessoa com
Enraizados: como começou? 129

que eu mais tinha contato no Piauí, me contou que eles


estavam precisando de uma sede e identificaram aquela
escola. Organizaram-se e em apenas um dia ocuparam o
espaço, colocaram luz, água, pintaram, grafitaram tudo e
ainda começaram as oficinas de hip-hop.
A imprensa documentou as atividades, e o governo fez
um acordo com eles, que permitia que ficassem durante
dez anos no local. O Gil BV me disse também que foi
muito importante o apoio financeiro da Fase, ONG do
Rio de Janeiro, por meio de um fundo de apoio cha-
mado Saap (Serviço de Análise e Apoio a Projetos). Foi
o pontapé inicial, quando eles começaram uma nova
fase em suas vidas.
Uma nova fase também começava na minha vida. Durante
as reuniões soube que oito Pontos de Cultura poderiam
ser aprovados para o MHHOB, e um deles iria para o
Movimento Enraizados. Além disso, as negociações
com o Instituto Ruas também avançavam. Fui embora
de Teresina feliz, com uma força renovada, louco para
chegar ao Rio e compartilhar com os companheiros do
Movimento Enraizados as novidades. Em breve teríamos
equipamentos novos para fazer nossas próprias produ-
ções de música, vídeo, e tudo mais que tivéssemos von-
tade e criatividade.
Depois que fui embora muita coisa ainda aconteceu em
Teresina. A Fabiana Menini saiu do MHHOB. Acho que
ela não queria, mas talvez tenha sido obrigada a dei-
xar a organização. Isso nunca ficou muito claro, cada
um com uma versão diferente da história. Creio que
foi uma guerra de egos, mas nada podia ser feito. A
Fabiana integrou o MHHOB a convite de Preto Ghóez,
e sem ele seria impossível mantê-la na organização.
Mas a Fabiana continuou com êxito nos seus projetos
na Trocando Ideia, sua organização.
O Neoenraizados

Não estrague aquilo que você tem, desejando o que não tem;
lembre-se de que o que você agora possui
um dia já esteve entre as coisas com relação
às quais você só tinha esperança.
— Epicuro

Eu não parava de pensar no Centro de Referência do Hip-Hop.


Se aqueles garotos conseguiam ter algo daquele tama-
nho funcionando em Teresina, por que nós não conse-
guiríamos fazer o mesmo em Nova Iguaçu? Fui várias
vezes ao colégio abandonado pensando o que pode-
ríamos fazer para ocupar o lugar, construir ali a nossa
sede e colocar os equipamentos do Ponto de Cultura,
que chegariam a qualquer momento. O local é a quadra
de um Ciep com mais de 4.000m². O colégio pertence
ao Governo do Estado do Rio de Janeiro e está até hoje
murado nos quatro lados. Não há como entrar, não existe
portão. A diretora da escola, por medo dos adolescentes
que usavam a quadra para praticar esportes e usar dro-
gas, pediu que murassem o espaço.
Nessa mesma época, o Dinho e o Jack, do grupo de rap
Fator Baixada, compraram um transmissor FM e mon-
taram uma rádio comunitária no terraço da casa do
Dinho. Eles tinham um programa diário de rap que era
sucesso absoluto no bairro. O Kall e o Jack eram os

130
Enraizados: como começou? 131

apresentadores e o Dinho cuidava da parte técnica. O


programa era à noite, das 22h à meia-noite, e todos nós
íamos ver a performance deles. Em pouco tempo eles
compraram uma linha telefônica e ar-condicionado. Eu
achava tudo muito legal, as pessoas ligavam querendo
participar e a gente conseguia brindes para eles sortea-
rem. Aos sábados o programa era de tarde. A gente com-
prava cerveja e ficávamos bebendo enquanto eles traba-
lhavam. Sempre levávamos algumas pessoas do hip-hop
para serem entrevistadas aos sábados. Uma vez convi-
damos o Alessandro Buzo, que sempre estava no Rio de
Janeiro, e fizemos um churrasco na laje do Dinho. Entre
uma cerveja e outra o Buzo respondia às perguntas.
No dia 31 de março de 2005 saímos tarde da rádio sem
saber o que estava acontecendo na cidade de Nova
Iguaçu. Somente quando acordei no dia seguinte soube
que 29 pessoas foram brutalmente assassinadas em
Nova Iguaçu e em Queimados. Meu telefone não parava de
tocar, eu não sabia o que fazer. Depois descobrimos que
policiais militares foram os responsáveis pelo assassi-
nato das pessoas, e que nenhuma delas tinha passagem
pela polícia. Todas as 29 pessoas eram inocentes. Nova
Iguaçu entrava para a história de uma forma terrível.
No meio desses trágicos acontecimentos chegava a boa
notícia de que a data de envio dos kits do Ponto de Cul-
tura estava cada vez mais próxima.
Um dia chamei o Léo da XIII e falei:
— Léo, tenta reunir as pessoas que praticam hip-hop
em Morro Agudo porque eu preciso dar uma informação
que vai ser importante pra todo mundo.
— Tá bom, que dia eu marco pra eles virem?
— Marca no sábado, dia 30 de abril.
— Tudo bem, vou falar com o pessoal.
132 Enraizados: os híbridos glocais

— Marca no refeitório do Ciep. Eu vou falar com a


diretora e é certo de ela liberar.
— Tudo bem, deixa comigo.

Falei com a diretora da escola e ela não implicou com a


reunião, apenas me disse o que repeti pra todo mundo:
não faz barulho, não faz bagunça, e não quebra nada.
No dia da reunião fiquei surpreso. Não imaginava que
tanta gente praticasse hip-hop em Morro Agudo. Tam-
bém fiquei feliz com o empenho do Léo da XIII. Cinquenta
pessoas apareceram na reunião, que seria a primeira do
Movimento Enraizados em Morro Agudo.
Há dois anos o Kall, do Fator Baixada, queria me apresen-
tar um cara que morava perto da casa dele. Sempre que
a gente se encontrava ele lembrava desse camarada e
dizia que eu precisava conhecê-lo, mas eu não dava muita
atenção e o Kall nunca trazia o cara. Quando o Léo da XIII
convocou o Kall para a reunião, ele viu a oportunidade de
levar o tal camarada que ele tanto queria me apresentar.
Apesar de estar feliz com a quantidade de pessoas pre-
sentes, não demonstrei o sentimento. Apresentei-me,
pois alguns não me conheciam. Comecei falando um
pouco sobre a trajetória do Movimento Enraizados até
aquele momento, e depois da vontade de fixar a sede da
organização em Morro Agudo. Mas para isso precisaria da
ajuda de todos. Falei das últimas viagens que havia feito
e de tudo que tinha visto. Disse que era possível nós, jun-
tos, construirmos algo sólido em Morro Agudo, com base
no que a gente sabia fazer de melhor: o hip-hop.
Lembro que todos, sem exceção, me olharam como se o
que eu falasse naquele momento fosse impossível. Cer-
tamente se eu não tivesse visto o Centro de Referência
do Hip-Hop, em Teresina, e alguém me contasse que era
possível fazer algo parecido, eu encararia a pessoa com
Enraizados: como começou? 133

o mesmo olhar. Mas quando eu comecei a falar do Ponto


de Cultura, dos equipamentos que usaríamos gratuita-
mente, e o que poderíamos fazer com aquilo, todos fica-
ram animados. Mesmo sem saber o que era o Ponto de
Cultura e como isso poderia chegar a Morro Agudo.
Por participar das atividades do MHHOB, aprendi a orga-
nizar a reunião e a minha palestra. Um dos tópicos era
a criação de um zine, um meio de comunicação nosso,
criado e alimentado por nós. Fizemos um rápido concurso
para saber qual seria o nome do zine, e ganhou “Voz Peri-
férica”, sugerido pelo Short, um grafiteiro que mora no
bairro Nova Era e é liderança da Gorgonoyde Crew. Quando
acabou a reunião o Kall me apresentou o camarada dele,
Luiz Carlos, que era ator e havia gostado da organização.
Das 50 pessoas presentes na reunião, 49 faziam parte
da cultura hip-hop. Apenas o Luiz Carlos, hoje conhecido
como Luiz Carlos Dumontt, era do teatro. Todos foram
embora muito animados e comprometidos em lutar
comigo por Morro Agudo, aproveitando o que o Movi-
mento Enraizados já havia conseguido e querendo abrir
novos horizontes. Mas todos tinham emprego e família,
e a evasão foi inevitável.
Para ocupar a quadra da escola era necessário fazer
tudo como manda o figurino. A realidade em Nova Iguaçu
é bem diferente da de Teresina. Se nós ocupássemos a
quadra, a vida dos meninos e meninas poderia estar em
risco. Em Morro Agudo a polícia ou os bandidos facil-
mente confundem ocupação com invasão.
Sendo assim, dias depois apresentei um documento para
a diretora do Ciep, solicitando a quadra. Havia argumen-
tos bem sinceros no ofício que redigi. Ela me deu espe-
rança e pediu que eu entregasse o documento na coorde-
nadoria. Até hoje aguardo um retorno que nunca chegou.
134 Enraizados: os híbridos glocais

As atividades artísticas não paravam. Minha casa de qua-


tro cômodos era o nosso home estúdio, o lugar onde pro-
duzíamos os beats. O computador ficava no meu quarto
e quando a rapaziada chegava minha esposa e minhas
filhas tinham que ir para a casa da minha mãe. Um dia o
Léo da XIII estava comigo em casa, produzindo beats para
o grupo Ultimato à Salvação, quando recebi uma ligação
do Luiz Carlos Dumontt. Ele queria trocar algumas ideias,
tinha pensado algumas coisas para o movimento.
Fiquei um pouco preocupado. Eu sempre tomava as ini-
ciativas dentro da organização e chamava os camara-
das para colocar em prática. Esse cara que nem era do
hip-hop já estava pensando coisas para o Movimento
Enraizados. Esperei ele chegar pra ver o que realmente
queria. Quando ele chegou eu e Léo estávamos com um
teclado da Cássio muito usado, tentando captar melo-
dias para colocar no beat. O Dumontt olhou aquilo e nem
falou o que ele tinha vindo fazer, simplesmente disse:
— Vocês estão precisando de um teclado?
— Não, não precisamos, não. Esse aqui dá pra usar.
— É que eu tenho um teclado lá em casa que não estou
usando.
— Ah! Se você não está usando então acho que vai
servir pra nós, mesmo porque esse aqui não é nosso.
— Espera um pouco que eu vou lá buscar.
— Tudo bem, a gente espera.

Ele saiu da minha casa e depois de meia hora estava de


volta, carregando nos ombros um teclado da Yamaha
gigante, supercaro, que eu nem sabia como ligava. O Léo
da XIII nem piscava, olhando para o equipamento. Acho
que ele pensou: “Se com esse teclado todo ruim a gente
faz um som maneiro, imagina com esse jumbo!” Acaba-
mos de usar o teclado e fomos devolver para o Dumontt.
Ele disse que o teclado tinha mais utilidade com a gente,
Enraizados: como começou? 135

era uma doação para o Movimento Enraizados. Aceitei


na hora. Acho que o Movimento Enraizados, antes deste
dia, nunca tinha ganhado nada.
Eu e o Dumontt começamos a conversar, ele queria saber
mais sobre o Movimento Enraizados, sobre a história da
organização, e eu queria saber mais sobre ele. Quem
era ele? Expliquei tudo sobre o Movimento Enraizados e
disse que era a hora de construir uma história em Morro
Agudo. Eu cresci ouvindo que o lugar onde nasci e fui
criado é amaldiçoado, que nada de bom sai desse lugar,
e isso faz com que as pessoas fiquem com autoestima
baixa. Isso mexeu comigo durante muito tempo, mas me
fez ter mais força para fincar aqui minhas raízes.
Apesar de estar totalmente envolvido com a questão dos
Pontos de Cultura do Ministério da Cultura, ainda não
me sentia à vontade pra conversar com políticos. Mas
já na primeira conversa o Dumontt tentou me mostrar a
importância da articulação política. Hoje conversando
com os Enraizados, a gente sempre bate nessa tecla:
“Se estiver longe da política, será mais fácil os políticos
mal intencionados enganarem você e sua comunidade.”
Eu e Dumontt conversávamos bastante, mas eu não
podia imaginar que nossa amizade fosse durar mais do
que as outras. A gente não tinha muito em comum, e até
hoje não temos, e parece que esse é o nosso segredo.
Não imaginava que aprenderia tanto e ficaria tanto
tempo, literalmente, do lado desse cara. Eu nunca fui
religioso, mas tenho certeza que algo sobrenatural fez
com que eu e Dumontt nos conhecêssemos especifica-
mente naquele momento. Tudo o que a gente passou do
momento que nos conhecemos até hoje foi literalmente
guiado por Deus.
136 Enraizados: os híbridos glocais
Enraizados: como começou? 137
Level two

Não há mais que dois tipos de pessoas:


as determinadas e as indeterminadas.
As primeiras sabem aonde vão chegar;
as outras nem sabem onde estão.
— Marina Pechlivanis

Depois daquela primeira reunião no Ciep, o Dumontt foi


o único que me procurou. Sem contar, claro, os que já
estavam enraizados, como o Léo da XIII, o Kall, a Lisa e o
Átomo. Eu sabia que não poderia dar muito espaço entre
uma reunião e outra. Os garotos não compareceriam.
Era união para não evasão. A partir dessa ideia surgiu o
evento Encontrão, em que lançaríamos o nosso zine, o
“Voz Periférica”. Além disso, era um evento para trocar
ideia, conhecer gente nova, trocar CDs e fazer tudo que
desse vontade. O objetivo era compartilhar.
O Léo da XIII era, como ele mesmo se intitulou, o aproxi-
mador. Chamou artistas e militantes para participarem
do Encontrão. O primeiro evento aconteceu no dia 28 de
julho de 2005, e compareceram aproximadamente 20
pessoas. Pegamos emprestada uma tenda de plástico
com o meu tio Humberto, uma caixa de som muito antiga
com o Moisés, filho do dono da pizzaria Cyntia, fizemos
uma parceria com a Webnetwork (a empresa de um amigo
que estudou comigo na faculdade, que disponibilizava

138
Enraizados: como começou? 139

internet a cabo em Morro Agudo), ligamos a internet e a


caixa de som no meu computador, um Pentium 100 com
o monitor quase queimado, e fizemos a festa.
Cantamos e distribuímos a primeira edição do zine “Voz
Periférica”. Disponibilizamos muitas revistas “Rap Bra-
sil”. O Alexandre de Maio enviava às vezes alguns exem-
plares pra nós, era difícil encontrar revistas de hip-hop
nas bancas de jornal de Nova Iguaçu. O evento come-
çou às 14h e terminou depois das 21h. No dia seguinte o
Dumontt havia marcado uma reunião com o secretário de
Cultura de Nova Iguaçu, que na época era o Roberto Lara.
A maioria dos garotos que estava no Encontrão compare-
ceu à reunião, que ainda contava com a presença do coor-
denador de Igualdade Racial, Geraldo Magela.
O secretário perguntou o que nós precisávamos e que-
ríamos. Sempre que acontecia uma reunião desse tipo
com a galera do hip-hop, era unânime o pedido de apoio
para a realização de eventos de rap, ou dinheiro para
gravação de discos. Mas nós queríamos levantar uma
discussão a respeito de um fundo para a cultura em
Nova Iguaçu, e que essa grana fosse liberada por meio
de editais para os grupos culturais da cidade.
O Dumontt ainda complementou e disse que o mais
importante era uma formação para os grupos cultu-
rais aprenderem a fazer projetos. Se os editais um dia
saíssem, a maioria dos grupos não saberia como pre-
encher os formulários. Todos, inclusive nós, precisáva-
mos aprender a fazer projetos, captar recursos e pres-
tar contas. O Roberto Lara disse que batalharia por nós,
mas logo foi exonerado do cargo.
Tudo que acontecia com o Movimento Enraizados, em
Morro Agudo, era disponibilizado no Portal Enraizados, e
por isso o Encontrão, mesmo sendo um evento pequeno
140 Enraizados: os híbridos glocais

e sem qualquer estrutura ou recurso financeiro, come-


çava a ganhar projeção nacional. As discussões com o
poder público também chamavam a atenção dos Enrai-
zados de outros estados. Rapidamente o Dumontt
inseria o Enraizados em algumas atividades em Morro
Agudo, enquanto eu o levava para conhecer os eventos e
os meus camaradas do hip-hop carioca.
No mês seguinte fizemos a segunda edição do Encon-
trão, desta vez com mais de 50 participantes. Além
da galera de Morro Agudo, compareceram pessoas da
Ilha do Governador e de Duque de Caxias. Nessa época
conhecemos o cordelista Jota Rodrigues, que mora em
Morro Agudo há mais de trinta anos. O Kall foi até a sua
casa para fazer uma matéria para o “Voz Periférica”.
Enquanto isso o Léo da XIII se envolvia num encontro
de Pontos de Cultura, na Leopoldina, centro do Rio de
Janeiro, e eu acompanhava reuniões que a prefeitura
fazia nas comunidades. Eles traziam arquitetos para
conversar com as lideranças do bairro e nos prometeram
construir uma casa do hip-hop em Morro Agudo.
Também participei, junto com o Dumontt, de mais uma
reunião com a diretora do Ciep 117, para tentar resolver
de uma vez por todas a questão da ocupação da quadra.
Neste dia ela levou um deputado que deu a entender
que tinha o poder de liberar a quadra para nós ocupar-
mos. Tudo me pareceu um jogo político-partidário, em
que a conversa mansa dele insinuava que não teríamos
liberdade de trabalhar do nosso jeito. Meu lado radical
falou mais alto e fomos embora sem fechar qualquer
acordo, continuando nas ruas do bairro. Foi quando
entendi o que o Antônio Carlos Magalhães queria dizer
com a frase “A ocasião faz o aliado”. Mas com a gente
não funcionava dessa forma.
Enraizados: como começou? 141

O Encontrão não parava de crescer, a terceira edição


foi bem maior do que a segunda. Conversando durante
o evento, decidimos que nos encontraríamos uma vez
por semana. Como não tínhamos sede, nossos encon-
tros seriam na praça, no centro de Morro Agudo. Nossas
reuniões semanais eram engraçadas, o Dumontt trazia
dinâmicas de grupo para fazermos durante o encontro.
Cerca de 20 pessoas participavam da reunião. Durante
as dinâmicas a gente se abraçava, e as pessoas que pas-
savam na rua não entendiam o que estávamos fazendo
ali. Acho que só o Dumontt sabia, ele trazia os ensina-
mentos do teatro e aplicava no Enraizados. Em uma de
nossas reuniões, o Átomo, que é evangélico, disse:
— O pessoal da minha rua vai passar e me ver aqui na praça
e vão dizer que depois que eu virei crente fiquei maluco.

Com o sucesso do Encontrão e a publicação das fotogra-


fias no Portal Enraizados, recebíamos muitos e-mails
e telefonemas de grupos de rap que queriam se apre-
sentar no evento. Mas eu não permitiria que as pes-
soas viessem de outros estados para participar de um
evento que nem microfone tinha. O Dumontt disse que
era quase impossível conseguir um palco a uma semana
do evento, mas tentaria uma articulação com algumas
pessoas da prefeitura que talvez desse certo.
Os Enraizados de outros estados estavam decididos
que viriam para Morro Agudo, mas mesmo assim eu
não divulguei. Na sexta-feira, um dia antes do evento,
ainda não tínhamos confirmação do palco. A calma do
Dumontt me incomodava. Às 22h ele recebeu uma liga-
ção, era o pessoal da prefeitura confirmando o palco
do nosso evento, mas eles não tinham o som. Tínhamos
outro problema nas mãos.
142 Enraizados: os híbridos glocais

Na madrugada de sexta para sábado o palco foi mon-


tado, e quando os moradores acordaram se depararam
com uma verdadeira espaçonave na porta de suas casas.
Como não havíamos divulgado o evento, os moradores não
sabiam para que era aquele palco gigantesco, e as crian-
ças na mesma hora o usaram como parque de diversões.
Começamos a fazer uns contatos para arrumar o som. Eu
sabia que o Chico, pai do Dinho, DJ do grupo Fator Bai-
xada, tinha uma aparelhagem, então fomos até a casa
dele para conversar. O Chico é muito gente fina e topou
na hora, cobrou bem baratinho pra nós. Os moradores
do bairro de fato não conheciam a cultura hip-hop, então
tentamos trazer os quatro elementos. Convidamos os
grafiteiros Tihkin (Penha) e Kajaman (Duque de Caxias)
para participarem do evento conosco.
A ideia inicial era grafitar o muro de algumas casas da rua,
mas os moradores não aceitavam de jeito nenhum. A solu-
ção foi comprar um tapume para grafitar. No dia, o César,
filho do cara que me ensinou a consertar rádio, cedeu a
parede do bar dele para o Kajaman grafitar. Quando os
outros moradores viram o resultado quiseram liberar os
muros para o grafite, mas não dava mais tempo.
O Alessandro Buzo veio de São Paulo para apresentar
o evento. Para cantar, além do casting do Movimento
Enraizados (Dudu de Morro Agudo, Fator Baixada, Ulti-
mato à Salvação e Léo da XIII), vieram Os Guerreiros e
Hórus, ambos de São Paulo, além de alguns grupos do
Rio de Janeiro. Mesmo sem entender o que era o hip-
hop, os moradores da minha rua queriam se vestir e ficar
iguais a nós. Toda hora aparecia uma touca ou um boné
de lado, em crianças, jovens, adultos e idosos. A força do
Enraizados estava ali, materializada.
Cap.03
Seguindo em frente
Cap.03
Seguindo em frente
A arte de criar o
inimaginável

Ainda não houve homem de gênio extraordinário


sem algo de louco.
— Sêneca

Eu e o Dumontt começávamos a trocar ideia todos os


dias da semana. O Dumontt representava intelectual-
mente todas as atividades que o Movimento Enraizados
executava. A cada dia ele me apresentava planos mira-
bolantes para serem executados a longo prazo no Enrai-
zados. Eram dezenas de ideias que talvez eu só fosse
pensar uns trinta anos depois.
Aos poucos ele contava sua história de vida, e a gente
começou a se identificar. Ele cresceu gago, mas tão gago
que não conseguia se comunicar. Sua infância foi dentro
de casa, lendo centenas de livros e vendo TV. Destacava-
se na escola, foi o primeiro da família a ingressar na uni-
versidade. Antes de se formar já dava aulas de matemá-
tica. Para conseguir uma bolsa na faculdade entrou para
o grupo de teatro, e a partir daí sua vida mudou.
Logo depois entrou na Cia. Encena – companhia de tea-
tro – e se descobriu ator. Conseguiu controlar aquilo que
o perturbava desde pequeno: a gagueira. Iniciou a facul-
dade de cinema. A Cia. Encena era um movimento cultu-
ral, enquanto Dumontt queria institucionalizar tornando-
a uma associação, outros integrantes preferiam montar

146
Seguindo em frente 147

uma produtora, o que motivou um racha. Quando a Asso-


ciação Cia. Encena estava com os documentos em dia, era
ele quem “carregava o piano”. Depois de grandes decep-
ções e uma dívida de seis mil reais, a gente se conheceu.
Eu estava diante de um gênio, não tinha dúvidas. Sempre
o chamei de meu guru. Dificilmente ele toma decisões de
forma lógica, por mais que tudo indique que aquele não
é o caminho, se ele achar que é, a gente vai conferir. Em
uma de nossas conversas me contou que quando parti-
cipou da reunião no Ciep sua vontade era ajudar aqueles
garotos durante um tempo, e depois seguir seu caminho.
Mas foi se envolvendo com o passar do tempo, e a cada
minuto estava mais comprometido com o Enraizados,
até que não conseguiu mais ir embora.
Eu e Dumontt nos reuníamos no bar Continental, sempre
após os encontros do Movimento Enraizados na praça
de Morro Agudo. Quando tínhamos dinheiro, o que não
era comum, bebíamos umas cervejas enquanto pen-
sávamos nas estratégias que usaríamos nos próximos
meses. Em uma dessas conversas surgiu a ideia de mar-
carmos a cidade com nosso logotipo. Resolvemos grafi-
tar a cidade e depois fazer blusas do Movimento Enrai-
zados para colocar na rua. Além de nos dar visibilidade
geraria uma renda extra para a organização. Outra estra-
tégia era continuar compartilhando poder com os garo-
tos, sempre os enviando para participar das atividades
para as quais nós do Enraizados éramos convidados.
Ficamos uns três meses fazendo encontros na Praça de
Morro Agudo, até que um dia uma senhora passou de
carro, viu nossa situação, chamou o Dumontt e ofereceu
a varanda da casa dela para nos reunirmos. Acho que ela
ficou com pena da gente ou achou perigoso ficarmos ali, e
a partir de então passamos a nos reunir na casa dela. Seu
nome é Rosinha, uma senhora muito boa, que nos ajuda
bastante, e por isso foi apelidada de Mãe do Enraizados.
148 Enraizados: os híbridos glocais

O Dumontt conceituou e organizou o modo como tra-


balharíamos, chamou de Rede Enraizados e definiu
como essa rede funcionaria dali pra frente. Foi quando
Dumontt participou, em dezembro de 2005, da I Con-
ferência Nacional de Cultura, em Brasília. Chegando lá
conheceu pessoas de diversas instituições. Nós sabí-
amos que trabalhávamos em rede, mas neste dia o
Dumontt me ligou e disse:
— Filhote, estou aqui em Brasília com muitas institui-
ções que trabalham com hip-hop e juventude. Posso
convidar eles pra entrar na Rede Enraizados?

Eu sem saber muito bem do que ele estava falando,


concordei:
— Pode sim, cara! Claro que pode.

Formava-se naquele momento a Rede Enraizados, com


seis instituições. A partir de fevereiro de 2006 nos reu-
níamos uma vez por semana, à noite, já que todo mundo
trabalhava. A Rosinha não se importava com a nossa
presença. A gente chegava e já ia sentando na varanda
da casa dela, falando alto, mostrando as rimas e dando
os informes. Nosso nome já era bastante comentado
em Nova Iguaçu, tanto pelos grupos culturais como
pelos políticos.
Ficamos sabendo que Nova Iguaçu sediaria o Fórum
Mundial de Educação, no fim do mês de março. O
Dumontt sugeriu que nos inscrevêssemos em uma ativi-
dade autogestionada. Ele articulou com a escola muni-
cipal Ivonete dos Santos Alvez, e levamos cerca de 50
crianças, mais professores e diretores da escola.
Dez Enraizados estavam empenhados, por meio do pro-
jeto “A escola é mais hip-hop”, em mostrar oficinas,
palestras, bate-papo e debates sobre quanto o hip-hop
Seguindo em frente 149

pode contribuir para a formação de cidadãos que respei-


tam qualquer tipo de diversidade e, acima de tudo, como
essa cultura já está integrada à educação.
Preparamos uma palestra em que eu contei a história
do hip-hop mundial e nacional, o Dumontt falou sobre
o Movimento Enraizados, o Léo da XIII, o Kall e o Átomo
sobre o rap – a literatura da periferia –, e o Short falou
sobre o grafite. As crianças estavam quase dormindo e
as diretoras começaram a reclamar. Explicamos que a
palestra não era para as crianças, e sim para os adultos.
A parte das crianças seria a próxima: o hip-hop na prática.
Nossa intenção era levar o hip-hop para as escolas. Terí-
amos primeiro que convencer os adultos, as diretoras,
e depois as crianças. Quando começamos as atividades
com as crianças, primeiro trabalhamos com a oficina
de rap. Usamos uma metodologia simples. Fizemos um
grande círculo em que todos podiam se ver. Os partici-
pantes falavam frases e a gente ia escrevendo no qua-
dro negro. Os rappers tinham a missão de fazer com que
as frases rimassem. Construímos uma música coletiva,
inclusive com direito a refrão, mas sempre com conexão
lógica entre os fatos.
No final, nós, rappers, selecionamos uma base instru-
mental e começamos a musicar com a ajuda de todos
os presentes. O ponto alto da oficina foi o ensaio, que
durou mais de meia hora. Todos aprenderam a música
em menos de dez minutos, mas gostaram tanto que não
queriam parar de cantar:

A escola é mais hip-hop


A escola é mais hip-hop, pode crer
Lá é o lugar aonde eu vou para aprender
Inclusão social, pode crer
A escola é o lugar aonde eu vou para aprender
150 Enraizados: os híbridos glocais

Vou à escola para aprender, já sei ler e escrever


Mas por causa da miséria também vou para comer
E quando crescer quero ter uma profissão
Para poder trabalhar e formar um novo cidadão
Ser um escrivão para andar de carrão
Ter inteligência e ser mais um na inclusão
E hoje tô no Fórum Mundial da Educação
Usando o hip-hop para a transformação

A escola é mais hip-hop, pode crer


Lá é o lugar aonde eu vou para aprender
Inclusão social, pode crer
A escola é o lugar aonde eu vou para aprender

Em seguida os b. boys ensinaram para as crianças


alguns passos de break e evoluímos até chegar a uma
coreografia. Os adultos não resistiram e também entra-
ram na dança. Pessoas de outras salas quiseram par-
ticipar de nossas atividades, mas a sala de aula já não
suportava tanta gente.
Com a missão cumprida, fomos comemorar. Quando
abria a primeira cerveja em casa, o telefone do Dumontt
tocou. Era o Paulô, um grande camarada nosso, que tra-
balhava na articulação política da prefeitura de Nova
Iguaçu, dizendo que por causa da repercussão da nossa
atividade no Fórum o prefeito Lindberg Farias gostaria
que fôssemos até o Sesc, onde acontecia uma palestra
sobre segurança pública, e falássemos da nossa experi-
ência com o projeto.
O Paulô pediu que um carro da prefeitura fosse nos
buscar. Fui para o Sesc como estava vestido: uma ber-
muda de basquete, a blusa Black Panters do Movimento
Enraizados, calçando Havaianas. Alías, todos os Enrai-
zados estavam com a blusa Black Panters. Causáva-
mos espanto por onde passávamos. Vi ali a oportuni-
dade de falar algumas verdades em público. Participar
Seguindo em frente 151

dessa palestra custava uma grana, e quem era professor


pagava um pouco menos. Como eu não era professor e
não tinha dinheiro, teria fatalmente que ficar de fora da
discussão, mas minha oportunidade chegara e eu não
poderia deixá-la passar entre meus dedos.
Esperamos o anúncio dos organizadores, que não
sabiam a hora certa de nos deixar falar. Em uma mistura
de pressa e nervosismo nos anunciaram antes da hora
prevista. Então entramos, nove Enraizados uniformiza-
dos, prontos para falar uma verdade que nem todos que-
riam ouvir. Lembro que na plateia havia muitos profes-
sores e que a maioria morava na cidade de Nova Iguaçu.
Conviviam diariamente com problemáticas ligadas a
todo o tipo de violência, dentro e fora da escola.
A primeira coisa que fizemos quando pegamos o micro-
fone foi desconstruir o que os palestrantes diziam. Eles
não moravam em Nova Iguaçu, não caminharam pelas
ruas violentas da cidade. Nenhum deles poderia falar
com legitimidade como é viver em Nova Iguaçu. Passa-
mos o discurso para as pessoas que estavam na pla-
teia, aquele evento não deveria ser uma palestra em que
cinco pessoas falam e 150 ouvem. Aquilo deveria ser uma
troca, em que todos falavam e ouviam, todos aprendiam
juntos e desse modo buscariam soluções efetivas para
os problemas, uns com a experiência de vida e outros
com o saber da academia.
Logo depois mostramos que as crianças entendiam o que
é desigualdade social e recitamos a letra da música “A
escola é mais hip-hop”. Todos ficaram perplexos quando
dissemos que grande parte das frases foi feita por crian-
ças entre 5 e 10 anos. Cantamos a música juntos, diver-
sas vezes. A mesa foi esvaziando e ninguém mais quis
falar. Depois disso foi só festa, todos os presentes que-
riam saber mais sobre o Movimento Enraizados, de onde
152 Enraizados: os híbridos glocais

éramos e como poderíamos fazer uma parceria com as


escolas. O prefeito Lindberg Farias veio nos agradecer e
nos apresentou alguns políticos ligados à educação.
Ficamos em evidência na cidade e fomos convidados a
apresentar a música “A escola é mais hip-hop”, junto
com os alunos do colégio Ivonete dos Santos Alves,
durante a posse dos diretores das escolas municipais
de Nova Iguaçu, que aconteceria no colégio Monteiro
Lobato, no centro de Nova Iguaçu. O Dumontt ligou pra
escola Ivonete dos Santos Alves e falou com as direto-
ras, que permitiram a apresentação dos alunos no dia
30 de março. Um dia antes o Léo da XIII foi até a escola
ensaiar com a criançada, todos estavam com a música
na ponta da língua.
No dia da posse havia mais de 1.000 pessoas no colégio
Monteiro Lobato, mas a quantidade de gente não aba-
lou as crianças. Todos estavam eufóricos e cantavam a
música o tempo inteiro. O Léo da XIII e o Faminto, res-
ponsáveis pelas crianças naquele dia, envelheceram
três anos em uma hora. A apresentação foi uma festa. A
acústica do lugar era horrível e acho que ninguém enten-
deu nada, mas era impossível passar despercebida a
felicidade estampada no rosto de cada criança.
Ousando em novos
territórios

As riquezas deste mundo pertencem, com efeito,


àqueles que têm a ousadia de proclamar-se seus donos.
— Georges Duhamel

Em abril de 2006, aconteceria a primeira edição do


evento Teia, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. O Teia
reuniu os Pontos de Cultura participantes do Programa
Nacional de Cultura, Educação e Cidadania – Cultura
Viva, do Ministério da Cultura. O MHHOB estava organi-
zando o Espaço Preto Ghóez, que aconteceria durante o
Teia. Todos os integrantes do MHHOB no Brasil enviaram
representantes para as reuniões que aconteceriam em
paralelo ao evento, e a principal pauta das reuniões era a
discussão sobre os Pontos de Cultura, que estavam mais
próximos de virar realidade para nós.
Alguns ônibus levariam os integrantes dos Pontos de
Cultura para São Paulo, mas eu e Dumontt não pudemos
ir porque era dia de semana e horário comercial. O Gil BV
(Teresina-PI) me ligou dizendo que o ônibus passaria às
9h na rodovia Presidente Dutra para buscar os integran-
tes do Movimento Enraizados. Porém não havia ninguém
para ir, muitos eram menores de idade, outros estuda-
vam e trabalhavam. Rapidamente liguei para o Léo da
XIII e disse que tinha uma missão pra ele. No Enraizados,
quando há uma missão, é impossível dizer não.

156
Seguindo em frente 157

O Léo saiu de casa às 8h30 e o ônibus só passou às 11h


da manhã. Ele tinha apenas dez centavos na carteira e
ia pela primeira vez para São Paulo, encontrar pessoas
que nem conhecia. Para piorar a situação, o motorista
do ônibus levou o Léo para o hotel errado, largou ele
lá e foi embora. Quando foi fazer o chek-in não havia
reserva em seu nome. Eu acompanhava tudo por tele-
fone, ligando para o Gil BV e para o Lamartine, mas eles
não tinham notícias do Léo.
Por sorte o Léo vestia uma blusa do Movimento Enrai-
zados e a Mary Monteiro, do Núcleo Cultural do América
Futebol Clube, em Juscelino, no Rio de Janeiro, começou
a conversar com ele pra saber mais a respeito da orga-
nização que tanto ouvira falar. Durante a conversa o Léo
disse que o ônibus o havia deixado no hotel errado, e ele
precisava ir para outro hotel, na rua Augusta. Mary tam-
bém estava indo para lá de táxi e ofereceu uma carona.
Quando chegou ao hotel, todos o procuravam. Final-
mente me ligaram, informando que ele estava bem.
Dois dias depois fui para São Paulo participar do evento.
Quando cheguei ao hotel onde Léo da XIII estava, todos
falavam maravilhas dele. Faltavam adjetivos para definir
sua atuação na Teia.
Rolaram até algumas piadas por causa do seu excesso
de vontade de cantar rap. Diziam que ele ajudava todo
mundo, mas não podia ouvir um cara martelando um
prego na madeira, porque se ouvisse o barulho tum, tum,
tum, já começava a rimar.
Muitos passaram pelo Espaço Preto Ghóez, e o Enraiza-
dos SP estava bem representado pelo Rodrigo Dimenor,
presente com sua esposa e filho, pelo Terno e, é claro,
pelo Alessandro Buzo, que daria uma palestra. Outras
personalidades das periferias brasileiras estiveram ali,
158 Enraizados: os híbridos glocais

marcando presença. Os escritores Sérgio Vaz e Dinha, e


muitos integrantes do MHHOB, como Adonias Luz (jor-
nal “Estação Hip-hop”), Lamartine, Gil BV, Robson Codó,
Saroba e Jackson.
Nas reuniões do MHHOB fiquei sabendo que os kits dos
Pontos de Cultura estavam no Parque Ibirapuera, e que
a gente já poderia levar dali os equipamentos. O Movi-
mento Enraizados era um dos contemplados para rece-
ber o kit dos Pontos de Cultura. Apesar de não ter onde
colocar os equipamentos, eu queria levá-los para Nova
Iguaçu de qualquer maneira naquele dia.
A gente se reunia, conversava, tentava imaginar alguma
solução, mas nada era possível. O Gil BV disse que tal-
vez pudéssemos colocar os equipamentos no ônibus
que ia para o Nordeste, e quando ele passasse por Morro
Agudo a gente pegaria, mas não deu certo. Tentei con-
tratar uma empresa para pegar o material no Ibirapuera
e entregar em Morro Agudo, mas o valor que a transpor-
tadora cobrava era muito alto, cerca de R$800, um valor
inviável de a gente arrumar.
Liguei para o Dumontt, que era o cara que realizava o
impossível. Ele disse que era pra eu arrumar uma trans-
portadora e quando a mercadoria chegasse ao Rio de
Janeiro ele dava um jeito de pagar. Tentei de todas as
formas, mas não consegui. Fomos pra casa com as mãos
abanando e com a promessa de que o Ministério da Cul-
tura entregaria os equipamentos em Morro Agudo no
máximo em quinze dias.
Eu sabia que os equipamentos do MHHOB do Piauí che-
gariam com certeza. A articulação da organização local
com o Ministério da Cultura era muito grande, e o Cen-
tro de Referência do Hip-Hop seria o lugar onde have-
ria, entre outras, uma formação de metarreciclagem
Seguindo em frente 159

(reaproveitamento de computadores velhos) do MinC.


Eu não tinha tanta certeza de que o nosso chegaria, por
isso queria trazer embaixo do braço. Quando vi a quan-
tidade de caixas, recuei e só tive a opção de esperar os
dias que o MinC pediu.
O kit do Ponto de Cultura era composto por um computa-
dor multimídia, um terminal burro (sem HD), uma filma-
dora handcam da Sony, uma máquina fotográfica digital,
um MD portátil, um microfone lapela, uma impressora
jato de tinta, uma impressora a laser, um scanner, uma
mesa de som de seis canais, um amplificador, dois kits
de três microfones e cabos de rede. Imagina um bando
de garotos que produziam com apenas um computador
Pentium 100 e um teclado velho emprestado com todo
esse equipamento nas mãos?
Voltando para Nova Iguaçu contamos as novidades aos
nossos camaradas. Eles ficaram felizes, mas não fize-
ram nenhum estardalhaço. Esses equipamentos já esta-
vam para chegar há tanto tempo que ninguém mais acre-
ditava no envio.
Cada um com o seu
cada um

Políticos: somos parceiros, não somos aliados.


— Luiz Carlos Dumontt

A Mary Monteiro nos chamou para fazer uma entrevista


na Rádio Tropical Solimões. A missão ficou por conta do
Léo da XIII, que já a conhecia e que liderou o bonde rumo
à rádio. Foram com ele o Elison, o Short, o Faminto e a
Kelly. Ficaram realizados, pois a maioria nunca tinha
dado entrevista. Nossa vida continuava como sem-
pre. Alguns em seus trabalhos convencionais, família
e estudos. Outros sem emprego. Mas todos correndo
pelo hip-hop e, consequentemente, pelo Movimento
Enraizados. Um mês depois, um repórter do jornal “O
Dia”, Helvio Lessa, nos procurou querendo fazer uma
matéria para o caderno Baixada. Eu queria marcar em
um fim de semana, mas ele marcou numa quarta-feira,
às 14h. Eu pedi que pelo menos fosse na casa da Rosi-
nha, e ele concordou. Liguei para todos os companhei-
ros do Movimento Enraizados avisando dia e local da
entrevista. Quando saí do trabalho fui direto para casa
– tinha o costume de parar em uma padaria para beber
umas cervejas – separar os materiais do Movimento
Enraizados para apresentar ao Helvio.

160
Seguindo em frente 161

No dia da entrevista compareceram, além de mim, Léo


da XIII, Kall, Velho, Lisa, Átomo, Short, Suellen Casticini
e mais dois garotos que resolveram entrar para a organi-
zação no dia da fotografia para o jornal e depois nunca
mais apareceram. O Helvio fez uma matéria ampla, saí-
ram quatro páginas falando de nós. Foi um ótimo pre-
sente para nossas mães, o jornal saiu no dia 14 de maio
de 2006, domingo de Dia das Mães. Nesse dia acordei
cedo e fui direto para a banca comprar o jornal. Quando
vi a matéria, fiquei muito feliz porque não sabia que apa-
receríamos em tantas páginas. Além da organização,
cada pessoa envolvida ganhou visibilidade, o Short com
o grafite, o Ultimato à Salvação com seu rap de crente,
o Kall com o Fator Baixada e eu, liderando o movimento.
Quando cheguei em casa entrei no quarto da minha mãe
e coloquei o jornal em cima de sua cama. Ela ficou toda
boba quando viu a matéria, e nossa autoestima foi nas
nuvens. O título era: “O som do pensamento. Cultura
hip-hop se consolida em Nova Iguaçu e faz intercâmbio
internacional.” Na época o intercâmbio internacional, e
até mesmo o nacional, era feito somente de modo vir-
tual. Nós não imaginávamos que os primeiros intercâm-
bios internacionais presenciais aconteceriam apenas
três anos depois. Um trecho da matéria:
O hip-hop de Nova Iguaçu está rompendo fronteiras atra-
vés do Movimento Enraizados. Depois de começar timi-
damente com um site, idealizado pelo rapper Dudu de
Morro Agudo há sete anos, o projeto já tem no currículo a
produção de dois CDs coletâneas de artistas nacionais e
um só com grupos de Morro Agudo, onde tudo começou.

O intercâmbio com adeptos do ritmo nos quatro cantos


do mundo está consolidado. Agora o grupo da Baixada
troca figurinhas com rappers do Japão, Angola e Moçam-
bique – inclusive produzindo CDs de grupos africanos
e exportando projetos. A página na internet está com a
marca de 80 mil acessos por mês.
162 Enraizados: os híbridos glocais

Para completar o ciclo de conquistas, a sede defini-


tiva dos Enraizados está em fase de negociação com o
governo do estado. Equipamento como ilha de edição de
vídeo e câmera digital chegam na próxima semana, atra-
vés de convênio com o Ministério da Cultura.

Realmente tínhamos retomado o contato para con-


seguir ocupar a quadra do Ciep, mas o Dumontt achou
melhor começarmos tudo novamente. Fizemos outro
ofício e fomos direto ao governo do Estado, mas a bata-
lha estava apenas recomeçando. Os equipamentos do
Ponto de Cultura deveriam chegar na outra semana. Na
verdade, toda semana eu ouvia essa desculpa do pes-
soal do MinC, mas aguardava porque não tinha muito o
que fazer. Estávamos confiantes, em alguns estados os
equipamentos realmente chegavam, e isso nos animava.
Não foi o que aconteceu com o MHHOB do Rio Grande
do Sul. O governo prometeu enviar o equipamento deles,
mas não o fez. Eles se reuniram e ocuparam o prédio
do Ministério da Cultura, passaram a noite nas salas,
os militantes levaram suas famílias. No dia seguinte as
lideranças nacionais do MHHOB me ligaram para infor-
mar o que estava acontecendo. As opiniões estavam
divididas, alguns achavam correto, outros que eles esta-
vam sendo extremistas. Eu achava que eles estavam
certos. Para acalmar os ânimos, algumas pessoas do
MHHOB e outras do Ministério da Cultura pediram per-
missão para enviar o equipamento do Ponto de Cultura
do Movimento Enraizados para o Rio Grande do Sul, em
seguida enviariam os equipamentos de outro Ponto de
Cultura para nós. Enviaram, então, nosso equipamento
para o Sul e os militantes saíram do prédio do MinC.
Nossa popularidade aumentava e o portal estava entre
os mais acessados, não só dentro dos sites de hip-hop.
Muitos convites chegavam e a ideia de descentralizar
Seguindo em frente 163

o poder da organização dava certo. Léo da XIII, Elison e


Scooby representavam o Enraizados em alguns eventos
de dança e de rap na cidade. O grafiteiro Short dava conti-
nuidade à ideia de marcar a cidade com o nosso logotipo e
nos representava participando de eventos e dando ofici-
nas de grafite. As reuniões ficavam cada vez mais cheias.
Em junho de 2006 fomos convidados pela Mary Monteiro
para fazermos um quadro dentro do programa do Amé-
rica na Tropical Solimões, uma rádio AM. Entrevistáva-
mos uma pessoa e dávamos informes sobre nosas ati-
vidades. As pessoas que entrevistávamos eram sempre
do nosso meio, primeiro foi o Short, depois o rapper Kall,
e em seguida o Léo da XIII. Um dia o Lamartine (São Luís
- MA), quando era Conselheiro Nacional de Juventude,
veio ao Rio de Janeiro com o cineasta francês Lahzari e
os entrevistamos também. O Lamartine falou de modo
muito interessante sobre o movimento hip-hop:
Eu queria deixar um recado para as pessoas que não
conhecem o movimento hip-hop.

É um movimento que hoje trabalha na perspectiva de anu-


lar o analfabetismo, anular a violência, inclusive eu estava
conversando com a ministra – Matilde Ribeiro – que é
necessário uma ação para prever a mortalidade juvenil
negra e essa ação em Nova Iguaçu não nasce simplesmente
com vocês ouvindo uma pessoa que veio da França e outra
pessoa que veio do Maranhão e dizer o seguinte: “É, os
caras estão certos, o hip-hop realmente resgata.”

Vocês têm uma forma de ajudar, as autoridades aqui


têm que se sensibilizar e colar com o movimento hip-
hop, não do Maranhão, não de Porto Alegre, mas com o
movimento hip-hop de Nova Iguaçu. É o movimento hip-
hop de Nova Iguaçu que está discutindo políticas públi-
cas, que está ocupando os espaços públicos para fazer
essas mudanças, esse movimento se chama Enraizados
166 Enraizados: os híbridos glocais

No Brasil inteiro a gente vê organizações fazendo polí-


tica pública, exercendo o papel do estado sem espaço
físico, e aqui não é muito diferente. É a forma de aju-
dar, a forma de mudar, de dar oportunidade de o jovem
mudar a realidade de analfabetismo, tráfico, drogas,
desemprego e violência em Nova Iguaçu. A juventude
não confia em partido, não confia em político, é porque
normalmente essas instâncias usam a juventude como
massa de manobra, para dar voto, como coisas des-
cartáveis, mas, a partir do momento que você coloca
a juventude como ator principal do seu processo de
mudança, esse processo de mudança vem, e um exem-
plo disso é o Movimento Enraizados em Nova Iguaçu.

Cerca de três meses se passaram e nossos equipamen-


tos não chegaram. Eu liguei para o Aldo Rebelo, que me
ligou para informar que nossos equipamentos iriam para
o Sul, e perguntei o motivo por que nossos equipamentos
ainda não tinham chegado.Ele disse que havia acontecido
um imprevisto, mas que tudo estava sendo resolvido e
quando nós menos esperássemos os equipamentos che-
gariam. Eu disse:
— Aldo, eu sou bastante tolerante, inclusive sou
considerado o diplomata do MHHOB, mas se esse equi-
pamento não chegar aqui até amanhã, o que os meninos
do MHHOB do Sul fizeram vai parecer brincadeira de
criança perto do que nós vamos fazer no Rio de Janeiro.
— Dudu, fica calmo que as coisas vão se resolver, não
tem como o equipamento chegar amanhã porque ele
está na Bahia.
— Aldo, amanhã a gente conversa.

Desliguei o telefone e em seguida liguei para o Dumontt.


Contei o que tinha acontecido, falei da conversa com o
Aldo e disse que tinha certeza que esse equipamento
não chegaria no dia seguinte. E se eles só funcionam na
pressão, então nós pressionaríamos. O Dumontt deu a
Seguindo em frente 167

ideia de enchermos um ônibus de grafiteiros, MCs, b.


boys e rappers, além dos militantes do Enraizados e par-
tir para o edifício Gustavo Capanema, situado na rua da
Imprensa, no centro do Rio de Janeiro. Enquanto os b.
boys faziam uma roda de break no saguão do prédio, nós
ocuparíamos uma das salas e ficaríamos lá até que nos-
sos equipamentos chegassem, grafitando uma parede
por hora, ou até a polícia nos prender.
Eu adorei a ideia. Começamos as articulações para con-
seguir o ônibus, mas misteriosamente todos os equipa-
mentos chegaram à minha casa no dia seguinte, frus-
trando as quase 40 pessoas que ocupariam o Capanema.
Era tanta caixa que não cabia dentro da minha casa, e nós
nem tínhamos ainda um lugar para colocar os equipamen-
tos. Mas aprendi com o Dumontt a não encarar isso como
um problema, e sim como um desafio. A partir de agora
tínhamos o desafio de conseguir um local para instalar o
Ponto de Cultura Fome de Livro, na Quebrada-RJ.
168 Enraizados: os híbridos glocais
Seguindo em frente 169
Nossas
superproduções

Quando você não sabe o que está fazendo,


e o que está fazendo é o melhor,
isto é inspiração.
— Robert Bresson

Quando o equipamento chegou eu estava no trabalho,


vi somente quando cheguei em casa. Comecei a abrir
as caixas, quando olhei a câmera de vídeo e a máquina
fotográfica digital liguei para o Dumontt e pedi que
viesse até minha casa. A única câmera que tínhamos
era uma Samsung de 1.3 megapixels, que eu havia
comprado havia alguns meses para o Enraizados. O
Dumontt saía pela rua fotografando tudo o que estava
à sua volta. Ele disse que quando estudava cinema
tinha escrito uns roteiros, mas não tinha filmadora, e
os roteiros ainda estavam na casa dele.
Quando ele chegou mostrei a filmadora. Hoje sei que
era apenas uma handcam, mas na época, apesar de não
conhecer, achava que era a melhor filmadora do mundo.
Na realidade, era a melhor do mundo porque era a que
nós tínhamos. Falei para o Dumontt levar a filmadora e
o manual – até hoje a gente não gosta de ler manual –
aprender a utilizar a câmera e ensinar para os garotos
do Enraizados. Dumontt saiu de casa com a filmadora e
a máquina fotográfica parecendo uma criança que aca-
bara de ganhar um brinquedo novo.

170
Seguindo em frente 171

Algumas pessoas da Cia. Encena começavam a partici-


par mais ativamente do Movimento Enraizados, como
Gil Torres, Samuel Azevedo, Nadir, Eliel e Suelen Cas-
ticini. Todos são atores, mas a Gil Torres foi a única
que conseguiu uma projeção maior. Ela participou de
“Cidade dos homens” – uma série de teledramaturgia
exibida pela Rede Globo durante quatro temporadas
– em um dos episódios que mais gostei, mas não con-
seguia me lembrar dela. Por sorte eu gravei este pro-
grama e pude conferir a Gil, que teve uma participação
enorme. Ela era professora de história do Acerola, per-
sonagem do Douglas Silva. Fiquei superorgulhoso.
O zine “Voz Periférica” era um sucesso. Começamos a
fazer oficinas para produzir o zine. A matéria de capa se
chamaria matéria rimada. Primeiro a gente identificava
um problema no bairro e depois falávamos a respeito.
Uma pessoa redigia e os rappers faziam com que as
frases rimassem. Fizemos um bem interessante sobre
o rio Botas.
O Rio Botas é um rio brasileiro que banha o estado do
Rio de Janeiro. É muito prejudicado pela quantidade de
resíduos tais como entulhos, galhadas e lixo domiciliar
que constantemente são removidos. Nasce na APA de
Gericinó-Mendanha, localizada na cidade de Nova Iguaçu
e tem aproximadamente 20km de extensão, passando
pelo bairro de Comendador Soares, mais conhecido
como Morro Agudo. Deságua no rio Iguaçu no bairro de
São Vicente, em Belford Roxo. Seus principais afluentes
são os rios Maxambomba e o Rio das Velhas.
(Fonte: Wikipedia)

Rapensando as bostas que botas no Rio Botas


Brota bosta no rio Botas! Não, não brota, jogam!
Jogam até carro, onde deveriam brotar flores
Rio Botas com bosta, quem gosta?
Acho que ninguém, mas se quiser a gente bate uma aposta
172 Enraizados: os híbridos glocais

Se a gente bota no Botas, o Botas também bota na gente


Prova disso são as enchentes, inclusive a garota apren-
deu a nadar na enchente
Quando ela passa, o pé atola na fossa, é difícil
Não é como a bossa de Tom e Vinicius
Na verdade, as crianças de Morro Agudo
Nadam no rio como peixinho barrigudo
É a alegria dessa gente, que nasce desse afluente
Que vive contente com a droga da enchente
Nem a dengue quer ficar no Botas porque gosta de
água limpa
Brotam ratos no meio das mazelas dos detritos que lá
jogam
Sujeiras e nojeiras são coisas que me incomodam
O Botas te devolve tudo aquilo que nele botas
Viram as costas e enchentes tomas pelas costas
Nas olimpíadas do Botas existem várias modalidades
Lançamento de lixo à distância e outras atividades
Levantamento de móveis e nado sincronizado
Enquanto o povo se diverte com o Pan, a periferia sofre
por outro lado
Corpos aparecem no Botas, isso é um grande mistério
Pois além de outras atividades o Botas também é
cemitério
Como se fosse um sonho, tipo “De volta à lagoa Azul”
Ops! É só mais uma vala negra em Nova Iguaçu
Essa realidade não deveria ser vista só pelos povos
E sim por aqueles em que as comunidades votam
Quem é responsável por este chulé?
Vossas excelências, por favor ponham essa bota no pé.

Autores: Paulô, Gil Torres, Suellen Casticine, Dudu de


Morro Agudo, Anderson Cravo, Dumontt, Léo da XIII, Lisa
Castro, Átomo e Short.

No dia 19 de julho estávamos novamente nas páginas do


jornal “O Dia”, dessa vez por causa da chegada dos equi-
pamentos do Ponto de Cultura.
Seguindo em frente 173

Filmes e coletânea hip-hop em Nova Iguaçu


No Morro Agudo, em Nova Iguaçu, jovens que se uniam
desde 1999 para gravar suas músicas ampliaram seus
projetos com a chegada do kit do MinC. O grupo Enraiza-
dos, ligado ao Movimento Hip-Hop Organizado Brasileiro
(MHHOB), não ganhou a antena, mas conseguiu conexão
banda larga (ADSL) com outra parceria.

Eles usam Software Livre e atendem a cerca de 60 ado-


lescentes e jovens. Estão em produção a segunda cole-
tânea “Raiz do hip-hop” e dois documentários, sobre gra-
videz na adolescência e alcoolismo. “São problemas que
afetam diretamente as pessoas daqui”, explica o rapper
Dudu de Morro Agudo, 27 anos, fundador do grupo.

O CD terá tiragem inicial de mil cópias e será vendido na


comunidade e pela internet. Os documentários serão
prensados em DVD e VCD e distribuídos para os mora-
dores. “Também haverá sessões gratuitas no Ponto de
Cultura”, planeja Dudu.

Marlon Mendes, jornal “O Dia”, 19 de julho de 2006

Mais convites chegavam e a gente literalmente não


parava de trabalhar. Fomos convidados para um evento
no Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova
Iguaçu, e fizemos uma festa. A gente incentivava e a
galera movimentava o zine entrevistando moradores
e denunciando problemas graves da cidade. Cópias do
zine sempre circulavam pela prefeitura. Eu e Átomo par-
ticipamos de um programa de rap na rádio Novos Rumos,
em Queimados (cidade vizinha a Nova Iguaçu).
O Léo da XIII criou um evento chamado “Banca de frees-
tyle”, em que reunia MCs na porta de sua casa, uma espé-
cie de miniencontrão. Participávamos de muitas ativida-
des ao mesmo tempo. Eu já não conseguia me dedicar
ao trabalho formal, e o escritório onde trabalhava era na
174 Enraizados: os híbridos glocais

verdade uma extensão do Enraizados, mesmo no horário


comercial. Só conseguia pensar nas atividades da orga-
nização, onde a galera estava naquele momento e o que
estava fazendo.
O Dumontt dizia que precisávamos dedicar mais tempo
ao Movimento Enraizados. Se acreditávamos mesmo no
que fazíamos, tínhamos de nos sustentar desse traba-
lho. Eu concordava com ele, mas não conseguia me des-
ligar do trabalho porque o dinheiro, apesar de ser pouco,
era certo, e eu tinha uma família que dependia desse
dinheiro. O Alessandro Buzo havia passado pela mesma
situação que eu. Nós conversávamos diariamente pelo
telefone e o assunto era sempre sobre a vontade de
podermos nos dedicar de modo integral àquilo que real-
mente gostamos de fazer.
No dia 14 de setembro de 2006, Ítalo Lopes, o Ita, como
era conhecido no hip-hop, foi assassinado em Mesquita
por policiais do 20º Batalhão, enquanto participava de
uma festa. O crime revoltou militantes do hip-hop e dos
direitos humanos. Na semana seguinte ao crime fomos
convidados para uma manifestação em Mesquita, em
um bar onde aconteciam eventos de rock, ali eu vi que
estavam todos unidos por uma mesma causa: a vida.
Numa das reuniões do Movimento Enraizados, o Dumontt,
portando a handcam do Ponto de Cultura, criara mais
uma metodologia. Eu estava em São Paulo fazendo umas
articulações com o Alessandro Buzo, e não participei
dessa reunião. A metodologia era a seguinte:
01) O Dumontt dividiu o grupo em dois e pediu que cada
um criasse uma história;

02) E que cada grupo contasse a sua história para o


outro grupo;

03) Em seguida pediu que os grupos se unissem e


juntassem as histórias;
Seguindo em frente 175

04) Depois que cada um adotasse


um personagem da história;

05) E por último avisou que naquele momento iriam gravar.

Entre 9h e 12h eles criaram a história e gravaram. Tudo


foi improvisado. Não havia roteiro, figurino e nem mesmo
atores, mas o resultado foi surpreendente. A autoestima
da galera ia nas nuvens. Quando cheguei de viagem,
peguei as fitas e editei. O detalhe é que eu nunca havia
editado um filme na minha vida, mas a necessidade
me forçava a tentar. O suporte do MinC não viera nem
mesmo para montar o equipamento. E como tudo era em
Software Livre, a dificuldade era ainda maior.
Quando o filme ficou pronto, disponibilizamos um DVD na
reunião de sábado e pedimos que todos vissem o filme
até o sábado seguinte. Era mais uma estratégia para
que eles ficassem juntos durante a semana. No sábado
seguinte foram muitos comentários, eu conseguia ver o
brilho no olho de cada um. Eles estavam felizes, com a
autoestima em alta.
Durante a reunião decidimos fazer mais um Encontrão.
Dessa vez o alvo seria a praça de Morro Agudo, que
estava muito feia. Os feirantes ocupavam a praça com
caixas e barracas, que lá permaneciam durante toda
a semana. Havia um muro cinza de aproximadamente
cinco metros, era uma coisa horrível, inclusive fizemos
uma matéria rimada falando da praça. Se liga:

A praça é nossa
Praça é uma coisa que não tem perto da minha casa
Aqui em Morro Agudo não se vê nem com
telescópio da Nasa
Se procurar na Baixada talvez encontre alguma
Mas se juntar todas elas, acho que não dá uma
Na Zona Sul vi gangorra e escorrega
176 Enraizados: os híbridos glocais

Mas aqui em Nova Iguaçu só tem viela e beco


Na praça dos grã-finos tem quiosque, cê pode crer
E as biroscas de Morro Agudo atrapalham nosso lazer
Político vai, político volta, com promessa que revolta
Mas pra pisar em Morro Agudo tem que vir com escolta
Quem destrói a praça não merece ser chamado de animal
Porque os bichinhos não destroem seu habitat natural
O galante perde a inspiração pra dizer que ama
Como o aposentado perdeu seu assento e o
tabuleiro de dama
Enquanto os pela-sacos vêm quebrando tudo
O Enraizados revitaliza a praça de Morro Agudo
Não é praça Mauá, Quinze e nem Onze
Aqui não tem chafariz e nem escultura de bronze
A comunidade divide lugar com a sujeira
Pois a praça parece hotel de mendigo e depósito de feira
Urinas em praça transbordam em metros cúbicos
A praça que era nossa agora é banheiro público
Isso não é rebeldia e nem pirraça
Porém só vamos nos calar no dia em que tivermos
verdadeiras praças

Autores: Movimento Enraizados – Núcleo Morro Agudo

A ideia desta vez era fazermos um Encontrão de grafite,


para dar um colorido naquele muro cinza e trazer alegria
para o lugar. Ligamos para o Helvio Lessa, do jornal “O
Dia”, e informamos que faríamos o evento. Ele colocou
uma nota na capa do jornal e publicou a seguinte maté-
ria, de uma página:

Hip-hop e muito mais


Evento vai reunir o melhor da cultura popular
na praça de Morro Agudo
O Movimento Enraizados de Nova Iguaçu, que promove a
cultura hip-hop, vai realizar no próximo sábado a 5ª edi-
ção do Encontrão Cultural. O evento acontece a partir
das 14h na Praça de Morro Agudo, e vai reunir jovens de
Seguindo em frente 177

várias partes do estado para praticar, aprender e ensi-


nar culturas populares, além dos quatro elementos do
hip-hop (rap, DJ, break e grafi te), para jovens moradores
da comunidade.

O evento vai pegar uma carona no projeto Cinema nos


Bairros, que acontece na praça aos sábados, quando
será projetado um filme no meio da rua, além de exibição
de clipes de rap nacional e um longa-metragem.

O Movimento Enraizados mantém um portal de hip-hop


(www.enraizados.com.br), um dos maiores do gênero na
América Latina, passando dos 300 mil acessos mensais.

Helvio Lessa, jornal “O Dia”, 24 de setembro de 2006

Toda a correria para fazer o Encontrão já tinha sido feita.


Como as nossas reuniões estavam cada vez mais cheias,
e pela primeira vez o número de homens e mulheres era
próximo, dividimos bem as tarefas. A Rosinha cedeu a
cozinha da casa dela para que nós fizéssemos a comida
para a equipe que trabalharia no evento. Mas a uma
semana do evento ainda não tínhamos o principal mate-
rial: o spray. Foi aí que descobrimos que havia um grupo
novo no bairro: o Amigos do Enraizados. Liderados pelo
Paulô, vários moradores nos ajudaram doando uma lata
de spray. Assim conseguimos uma quantidade conside-
rável de spray, só não sabíamos que os sprays doados
não eram apropriados para o grafite.
No dia do evento, quando os grafiteiros chegaram (Short,
Dante, Kajaman e Tihkin), a gente apresentou as tintas
que havíamos recebido como doação dos moradores.
Eles nos olharam com uma cara de quem não acredi-
tava no que estava acontecendo. Eu perguntei qual era
o problema e eles informaram o tamanho do problema.
Tentamos trocar as tintas em algumas lojas de material
de construção do bairro, mas não conseguimos. Como
todos os grafiteiros haviam trazido tinta, eles mistura-
ram as tintas boas com as ruins e começaram o trabalho.
178 Enraizados: os híbridos glocais

Os moradores paravam para olhar. Ficavam dezenas de


minutos parados, somente observando, alguns ficaram
horas. Outros não resistiam e perguntavam.
— Quem é que está fazendo isso aí?
— Somos nós do Movimento Enraizados.
— É da prefeitura?
— Não, é o Movimento Enraizados.
— Mas quem tá dando o dinheiro?
— É o Movimento Enraizados!
— Vocês estão gastando o dinheiro de vocês pra fazer
isso aí? Vocês são malucos.
— Por quê? Tá feio?
— Não, está muito bonito, mas isso é trabalho para a
prefeitura fazer.

Dezenas de pessoas vestindo a nossa blusa. Eu comen-


tava com o Dumontt que a ideia tinha sido boa. Quase
sempre a gente cruzava com alguém vestindo a blusa, e
nem sempre a gente conhecia a pessoa. O tempo inteiro
chegava gente ao evento. A chuva ameaçava cair, mas
São Pedro a segurava lá em cima. O grupo de rap Família
MDG, de Itaboraí, e o grupo O Bando, de Irajá, estiveram
presentes, sem contar, é claro, o Ultimato à Salvação,
Fator Baixada, Léo da XIII, eu e Marcio RC.
Quando começou a anoitecer as pessoas chegaram
para assistir ao filme que passaria. Mas, para frustra-
ção geral, a empresa que traria o telão não apareceu
em Morro Agudo. Dezenas de pessoas ficaram frustra-
das, homens e mulheres, crianças, adultos e idosos. Eu
sabia que havia pessoas ali que nunca tinham pisado
no cinema. Quando questionamos sobre o cinema, a
empresa respondeu que a prefeitura estava devendo, e
por isso eles decidiram não ir.
Naquele dia eu disse pro Dumontt que a gente, de uma
vez por todas, não poderia mais depender de ninguém,
deveríamos ter nossos próprios equipamentos para
Seguindo em frente 179

fazer as atividades, e ele concordou. Para compensar


o furo, começamos a rimar. Muitos shows acontece-
ram, os b. boys dançavam na praça, no chão, enquanto
a gente rimava. Até hoje, 2010, a praça de Morro Agudo
está grafitada. A tinta está meio fraquinha, porque não
era de qualidade, mas está bem melhor do que era antes
da nossa interferência.
180 Enraizados: os híbridos glocais
Seguindo em frente 181
Dinheiro: solução ou
mais problemas?

É de uso dizer-se que o dinheiro é a raiz de todos os males.


A afirmação vale também para a falta de dinheiro.
— Samuel Butler

Algumas pessoas do Enraizados tinham trabalhos for-


mais, até mesmo para sustentar suas famílias, mas
outros não tinham renda, apesar de já pensarem em
construir sua própria família.
Eu e Dumontt, há tempos, havíamos conseguido a bolsa
Agente Cultura Viva, do governo federal, para os partici-
pantes do Enraizados que se encaixavam no perfil. Nossa
ideia era que pudessem ganhar dinheiro com a arte deles.
Surgiram então algumas oportunidades de dar aula no
Polo Esportivo e Cultural do América Futebol Clube, onde
o Elison e o Léo da XIII dariam aulas e seriam remunerados.
Nessa época, acho que por causa das bolsas, nos-
sas reuniões de sábado beiravam umas 100 pessoas.
O Dumontt sempre aparecia com uma dinâmica nova.
No início era bem divertido, o pessoal do hip-hop não
conhecia dinâmicas de grupo porque era uma prática
mais comum no teatro. Tinha uma dinâmica, das palmas,
que todo mundo pedia pra fazer, toda semana a gente
fazia essa dinâmica.

182
Seguindo em frente 183

Apesar de a maioria dos participantes praticar um dos


quatro elementos do hip-hop, havia muitas pessoas que
nem gostavam de hip-hop, mas estavam lá para ganhar
os R$150 mensais do governo. E eu não imaginava que
essas bolsas trariam tantos problemas. As pessoas que
frequentavam o Movimento Enraizados antes da bolsa
pararam de frequentar assim que conseguiram o auxi-
lio. Outros que não estavam no perfil continuavam indo
mesmo sem bolsa. Alguns que nunca participaram dos
encontros começaram a ir por causa da bolsa e nunca
mais pararam. Outros ainda receberam a bolsa e nunca
pisaram nas reuniões. Sempre que tinha dinheiro envol-
vido dava confusão. Um pensava que era mais malandro
que o outro e no final todo mundo se enrolava.
Antes das oficinas no América começarem, o Dumontt
conversou com o Elison e o Léo da XIII, explicou que eles
não poderiam fazer feio porque o nome do Enraizados
estava em jogo. Mas algumas semanas depois os garo-
tos começaram a chegar atrasados, e depois a faltar. Um
dia o Dumontt chegou lá sem avisar, e nenhum dos dois
tinha ido trabalhar. Quando o Dumontt perguntou, eles
tentaram mentir, mas não havia como mentir naquela
altura do campeonato, porque o próprio Dumontt deu
aula no lugar deles. Depois de um tempo preferimos
interromper as oficinas no América e todo mundo ficou
sem dinheiro novamente. O que nos deixava sem enten-
der a situação era que de uma hora pra outra os garo-
tos deixaram de nos ver como aliados que lutavam pela
mesma causa e passaram a nos enxergar como empre-
gadores. Aí o caldo entornou de vez.
Certa vez o Dumontt foi à prefeitura falar com a Maria
Antônia, primeira-dama e coordenadora do programa
Bairro Escola, a respeito do nosso problema de espaço.
A prefeitura havia prometido alugar um espaço para
184 Enraizados: os híbridos glocais

nós instalarmos o Ponto de Cultura, mas por questões


burocráticas dependíamos da liberação do procurador.
Mas ninguém achava o tal procurador, e a Maria Antô-
nia simplesmente não quis receber o Dumontt. Ele fez
um ofício e entregou no gabinete do prefeito. Voltou pra
Morro Agudo e lá encontrou o Samuel Azevedo e o Short.
Pegaram a filmadora e a máquina fotográfica do Ponto
de Cultura e partiram novamente pra prefeitura. Entra-
ram na procuradoria e o Dumontt orientou os Enraiza-
dos a filmarem todo lugar que ele apontasse. O Dumontt
falava: “Filma ali ó, aqui ninguém trabalha, esse aqui tá
no Orkut e aquele no MSN!”
Segundo o Dumontt foi uma correria danada na prefei-
tura, e resolveram atendê-lo, pelo menos para dar uma
desculpa. O Dumontt fez outro ofício e entregou no gabi-
nete do prefeito para explicar por que fez tudo aquilo. O
prefeito pediu uma reunião com a Maria Antônia e com
o procurador-geral. Acabou que eles não alugaram o
espaço e a gente continuou sem ter onde colocar os equi-
pamentos, que continuavam na minha casa, alguns ainda
dentro das caixas. Todo o recurso necessário para as ati-
vidades do Enraizados saíam do meu bolso ou do bolso do
Dumontt, sendo que meu salário era a metade do dele e
eu tinha dois filhos para criar. Eu sabia que a gente pre-
cisava de um lugar como sede, mas essa parceria com a
prefeitura não aconteceu, e o processo com o governo do
estado para ocupar a quadra do Ciep 117 não andava.
Apesar de alguns atritos com a prefeitura a gente tinha
uma boa relação com o pessoal da articulação política,
o Toninho, o Cláudio Jorge e o Paulô, que sempre que
podiam nos ajudavam. O Dumontt me chamou para con-
versar e falou que precisávamos alugar pelo menos uma
sala para receber as pessoas, fazer nossos projetos,
ter um endereço de verdade. Eu concordava, mas tinha
Seguindo em frente 185

muito medo de não conseguir grana para honrar nossos


compromissos, afinal todo aluguel tem contrato de no
mínimo um ano.
Ele já tinha visto uma sala no centro de Morro Agudo. O
aluguel era R$160 e a gente ainda teria que pagar uma taxa
de R$20 da água, isso sem contar com a conta de luz. No
mínimo, teríamos um custo de R$200 por mês. O Dumontt
me chamava de conservador, eu dizia que trabalhava com
a realidade. No fim ele me convenceu a alugar o local,
mas eu ainda morria de medo de ter que tirar dinheiro da
minha família pra pagar aluguel do Enraizados.
Era difícil aceitar uma organização em que quase
100 pessoas participam mas quando o laço apertava
somente meia dúzia aparecia pra ajudar. Eu e Dumontt
conversávamos muito sobre esse assunto. A gente preci-
sava prezar pela qualidade, e não pela quantidade. Base-
ado neste princípio o Dumontt propôs criarmos o Cefam
(Centro de Estudo e Formação de Ativismo e Militância),
um grupo de estudos que se reuniria semanalmente.
Estava entrando o mês de novembro e os convites para
participarmos de eventos não paravam de chegar. Pro-
postas de parcerias eram aos montes. Fizemos oficina
de grafite na Casa das Meninas (instituição beneficente
Brasil-Itália, situada na Cerâmica, bairro vizinho a Morro
Agudo); participamos da organização do Bingo Dançante,
produzido pelo Roger Craum; estivemos no Cortejo Cul-
tural dos Pontos de Cultura, na Cinelândia; participamos
da Semana da Consciência Negra de Nova Iguaçu; do Dia
da Bíblia, na Alerj, além de outras atividades.
Recebi uma homenagem do América Futebol Clube,
como personalidade negra jovem. Nem preciso falar que
fiquei todo bobo. Primeira homenagem da minha vida.
E quem entregou o troféu foi o senhor Edevair, pai do
186 Enraizados: os híbridos glocais

Romário. Algumas semanas antes a Claudia Perluxo e


o Edu, diretores da ONG Casa de Anyê, nos convidaram
para participar do seminário “Música pra que serve?”,
em que faríamos a filmagem e a edição de um vídeo ins-
titucional. Nossa participação no seminário aumentava
a cada dia. Estivemos presentes na filmagem, na mesa
de palestra, na produção, na curadoria e ainda editamos
e produzimos um DVD triplo, com todo o seminário. Tudo
feito em Software Livre.
Paralelo ao seminário, a gente produzia a sexta edição
do Encontrão, em que pela primeira vez fecharíamos
cinco ruas no centro de Morro Agudo e misturaríamos os
grupos de pagode locais com o nosso hip-hop. Por causa
da visibilidade do Portal Enraizados e do crescimento
estrondoso da Rede Enraizados, muitas pessoas liga-
vam querendo participar dos nossos eventos, mas infe-
lizmente não tínhamos estrutura para alojar todos.
Cada um que viesse deveria arcar as despesas, como
foi o caso dos Realistas NPN, que vieram com um ôni-
bus com 40 pessoas de Belo Horizonte (MG) no dia do 6º
Encontrão, 25 de novembro de 2006. Eles chegaram pela
manhã e fomos todos para o Ciep 117, onde aconteceria o
seminário, que na verdade foi uma espécie de bate-papo
em que as pessoas trocaram ideias e falaram de suas
experiências de vida. Nesse dia conhecemos o Ice Band,
que contou a história mais chocante. Se envolveu com o
crime, tomou vários tiros e, segundo ele, foi resgatado
pelo hip-hop.
O Ice Band comentou que as mães das crianças do seu
bairro diziam aos filhos que se eles não as respeitassem
ou enveredassem pelo caminho do crime ficariam como
ele, com um olho de vidro, manco de uma perna e com
várias cicatrizes no corpo. Ele dizia que o crime servia pelo
menos pra isso: ele servia de exemplo para as crianças
Seguindo em frente 187

não entrarem na vida errada. Neste dia fazia muito calor,


acho que uns 45 graus. Os mineiros estavam desespe-
rados, nós também, mas não falávamos nada para não
assustar ainda mais nossos amigos. Todos procuravam
uma sombra para escapar do sol, mas o calor castigava.
O dono do bar Continental, bar onde eu e Dumontt pará-
vamos com frequência para beber umas cervejas, ficava
em frente ao palco e vendeu bastante cerveja. Ele tam-
bém colaborou conosco, liberou todo o estoque de
água mineral para nossa equipe e nossos convidados.
Conversamos com os grupos que se apresentariam no
evento, expondo nossa vontade de gravar os shows e
produzir um CD e um DVD para divulgar o trabalho artís-
tico e gerar renda, mas para isso precisaríamos da libe-
ração das músicas para comércio. Argumentamos que
todas as músicas que iríamos cantar ali, naquele evento,
estavam disponíveis para download gratuito na internet,
mas a maioria do nosso público-alvo, pessoas da peri-
feria, não tinha acesso à nossa música justamente por
isso. A ideia era a gente disponibilizar as músicas para
download nos camelôs. O argumento foi forte, sincero, e
todos concordaram.
Quando o CD e o DVD “6º Encontrão ao vivo” ficou pronto,
enviamos para todos os envolvidos no projeto, disponi-
bilizamos as músicas na internet e fomos para as ruas
negociar com os camelôs. Nossa ideia era dar a matriz
para os camelôs, que fariam as cópias, e de cada CD ou
DVD que eles vendessem voltaria um real para a organiza-
ção. Eles toparam e no começo até que devolviam parte
da grana, que não era muita. Mas nem todos os grupos
que participaram do projeto fizeram o mesmo. A inicia-
tiva deu parcialmente certo. Os CDs e DVDs se alastraram
por bancas de camelô do Rio de Janeiro. Inclusive a Lisa
Castro, do Ultimato à Salvação, foi reconhecida na rua por
188 Enraizados: os híbridos glocais

causa do DVD. E essa pessoa comprou o DVD em Bangu,


Zona Oeste do Rio de Janeiro. Participaram da coletânea
os grupos Re.Fem (Duque de Caxias), Ultimato à Salva-
ção (Nova Iguaçu), Léo da XIII (Nova Iguaçu), Família MDG
(Itaboraí), Missionários do Rap (Belo Horizonte), Realis-
tas NPN (Belo Horizonte), Wiza (Rio das Ostras), Marcio
RC (Nova Iguaçu), RDF (Belo Horizonte), Sindicato do Rap
(Belo Horizonte), ainda outros.
Quando fechamos contrato e alugamos nosso primeiro
espaço, o Dumontt convenceu a proprietária e nós não
precisamos de um fiador. Um escritório de 10m² onde
muita gente importante passaria no próximo ano, e a
gente nem imaginava. Eu, Dumontt, Léo da XIII, Guará
e Short pintamos a sala e fizemos a mudança. Monta-
mos todos os equipamentos do Ponto de Cultura. Nem
sei como coloquei aquilo tudo pra funcionar. Meu com-
putador e o do Dumontt foram pro escritório também. O
Dumontt alugou um apartamento ao lado da sala, ele era
o nosso segurança. No mês seguinte eu e Dumontt deci-
dimos deixar nossos empregos para nos dedicarmos em
tempo integral ao Movimento Enraizados. No dia 20 de
dezembro de 2006 eu e Dumontt pedimos demissão dos
nossos empregos formais.
Comunicação:
passeando entre
classes
Ao começar o meu próprio negócio,
descobri que você pode ter a maior ideia do mundo.
Mas não vai chegar a lugar nenhum
se não conseguir vendê-la às outras pessoas.
— Roger von Oech

No fim de 2006 fizemos uma festa na casa da Rosinha


e entregamos os certificados dos Agentes Cultura Viva
que resistiram fortemente até o fim do projeto. Para a
nossa felicidade ficou uma menina chamada Patrícia
Ximango, que entrou para o Enraizados a convite do Léo
da XIII e continuou mesmo depois do auxílio do governo
ter acabado. Ninguém imaginava que a Patrícia ficaria
no projeto. Ela era roqueira, não suportava rap, chegava
às reuniões toda vestida de preto, com piercings e tudo
mais. Quem diria que dois anos mais tarde ela trabalha-
ria conosco como auxiliar administrativa.
A cada ano a organização crescia mais. O Dumontt dizia
que crescíamos uns 500%. A Rede Enraizados estava
em dez estados com instituições e nos 27 estados com
artistas e pessoas que nos procuravam querendo ajuda,
espaço e atenção. Nós nos autoanalisávamos sempre
para entender o que realmente éramos. Tudo acontecia
rápido demais. Eu e Dumontt trabalhávamos como men-
tores, financiadores e carregadores. Fazíamos o traba-
lho intelectual e braçal.

190
Seguindo em frente 191

Nosso portal beirava os 600 mil acessos mensais. Deze-


nas de pessoas no bairro falavam o tempo inteiro de
nós. Tínhamos força política na cidade e conhecíamos
pessoas do Brasil inteiro, além das que moravam em
outros países. Mas não sabíamos nos definir bem, éra-
mos mutantes.
Oferecíamos atenção às pessoas que nos procuravam e
espaço no Portal Enraizados. Uma de nossas caracterís-
ticas era tratar todos de forma igual, não importava se
o cara era famoso ou anônimo, o espaço era o mesmo.
E isso a gente mantém até hoje, é uma identidade. Nós
tínhamos muitos contatos. A gente tinha o hábito de
compartilhar de tudo, e começamos a compartilhar os
contatos também, apresentar pessoas, fazer com que
gente que podia se ajudar se conhecesse conforme a
necessidade de cada um.
Com isso a Rede Enraizados crescia ainda mais. Até hoje
utilizamos todas as ferramentas gratuitas de comunica-
ção da internet para particar a Cyber Militância, e ensai-
návamos os outros a fazer isso também. A partir daí,
universitários, tanto alunos como professores, nos pro-
curavam para entender como tudo funcionava. Quando
nós contávamos de forma simples e objetiva, a reação
deles era de espanto.
O ano de 2007 nos preparava uma grande surpresa. Além
de militantes e artistas do hip-hop do Brasil inteiro, a
gente também teria mais próximo pessoas e organiza-
ções bastante influentes, que nos ajudariam a encarar
a nova fase da nossa vida. Bem no início do ano, eu e
Dumontt conhecemos o Aercio, da Fase. Um dia ele ligou
e marcou uma conversa. Fomos ao encontro dele num
bar em Nova Iguaçu. Lembro que eu e Dumontt demos
uma mancada, pedimos uma cerveja mas o cara não
bebia. Todos bebemos água.
192 Enraizados: os híbridos glocais

Não lembro muito bem para que o Aercio marcou a reu-


nião, mas sei que a gente queria se aproximar da Fase
porque diziam que ela ajudava as organizações que
estavam começando. Eu acho que ele nos fez um convite
para participarmos de um projeto de juventude chamado
“Derechos e direitos”, que aconteceria durante dois dias
na Cáritas, em Nova Iguaçu. Participaram deste projeto,
além de nós dois, a Gil Torres e o Eliel Garcia.
Nesse primeiro projeto encontramos alguns amigos
que já trabalhavam com hip-hop. A galera do Setor BF,
organização de hip-hop de Mesquita, liderada por Mad,
Sebá e Nego Joe, que já eram nossos amigos. Conhece-
mos também outros jovens, que não trabalhavam com
hip-hop, mas com circo, mobilização comunitária, tinha
também um pessoal de São João de Meriti que mexia
com griot, além de alguns jovens que não eram tão orga-
nizados, mas já exerciam uma atividade de liderança em
sua comunidade.
Depois deste projeto com a Fase o Movimento Enrai-
zados passou a direcionar mais as atividades. A gente
entendeu o que significava exigir direitos e o que signifi-
cava direitos humanos. A partir de então tudo o que faze-
mos tem como base a exigibilidade de direitos humanos,
e utilizamos a nossa arte como ferramenta.
A população de Morro Agudo já conseguia enxergar o
Movimento Enraizados como uma organização de juven-
tude do bairro. Eles não sabiam de onde vínhamos, nem
onde estávamos, parecíamos fantasmas que sumiam,
de repente apareciam para balançar o bairro, depois
desapareciam novamente e deixavam como marca uma
mudança significativa. Como muitos estudiosos, jornalis-
tas e representantes de organizações sociais e culturais
começavam a frequentar Morro Agudo para conhecer os
meninos que mobilizavam pessoas no Brasil inteiro, os
comerciantes tentavam dar informações sobre nós.
Seguindo em frente 193

Os visitantes perguntavam:
— Você conhece os Enraizados?
— Sim, conheço.
— Onde é a sede deles?
— Ah! Isso eu não sei, senta ali na praça que daqui a
pouco passa um deles por aqui, com uma camisa que
tem um desenho igual ao daquela pintura que tem lá na
praça, é só você prestar atenção.
— Tudo bem, obrigado.
— De nada.

Quando a gente passava os comerciantes comentavam.


— Ei, rapazinho!!!
— Ôpa, fala aí!
— Apareceu um pessoal do jornal aqui procurando
vocês e eu falei pra eles que vocês de vez em quando
passam ali na praça. Ele conseguiu achar vocês?
— Sim, conseguiu. Obrigado!
— De nada.

Era tudo muito divertido. Eu pensava que isso só acon-


teceria num futuro bem distante, mas já era a nossa
realidade. Além disso, outro acontecimento anormal no
bairro era a presença de pessoas de outros países. Nós
começamos a receber a visita de pessoas de diversos
países, como a Audrey, da França, que veio nos conhecer
e mostrar sua arte. Ela trabalha numa organização cha-
mada Meninos de Rua, na França.
O ano de 2006 foi certamente um ano de muitas ativi-
dades, em que nos dividíamos para conseguir dar conta
de tantos compromissos. Mas em 2007, como já tínha-
mos um escritório, começamos a receber visitas de
pessoas importantes.
O Dumontt mais uma vez tinha razão, era fundamental
termos um lugar para receber as pessoas.
194 Enraizados: os híbridos glocais
Seguindo em frente 195

Em meados de fevereiro de 2007 conhecemos algumas


pessoas que trabalhavam numa nova secretaria da pre-
feitura de Nova Iguaçu, a Secretaria de Valorização da
Vida e Prevenção da Violência. Conhecemos o Tiago
Borba e conversamos com ele sobre a quadra do Ciep
117. A gente não desistia da ideia de ocupar aquele lugar.
O Tiago foi conosco até Morro Agudo conhecer o local.
Pulamos o muro e entramos na quadra. Ele ficou impres-
sionado. Também não entendia como um local daquele
tamanho poderia estar sem utilidade, ao mesmo tempo
que a comunidade não tinha equipamento público para
prática de esporte e cultura.
Eu, nessa época, não acreditava mais que existissem
pessoas de bom coração. O Dumontt acreditava menos
ainda, mas a gente reparou que o Tiago era diferente. O
cara tinha um ar de sinceridade, de positividade. Nessa
época também conhecemos o Luiz Eduardo Soares,
antropólogo e cientista político brasileiro, que era o
secretário de Valorização da Vida e Prevenção da Violên-
cia da prefeitura de Nova Iguaçu. Ele ligou e marcou uma
conversa conosco, em nosso escritório. Queria conver-
sar, começaria a atuar na cidade e gostaria de conhecer
as organizações culturais e de juventude.
Lembro que no dia marcado, meia hora antes do horário,
ele ligou para o Dumontt e avisou que se atrasaria um
pouco. O Dumontt comentou comigo que havia gostado
da atitude dele, nós estávamos acostumados a pes-
soas que marcavam, chegavam atrasadas e nem sequer
pediam desculpas. Conversamos algumas horas com o
Luiz Eduardo e percebemos que as pessoas que traba-
lhavam com ele tinham essa mesma energia positiva.
Ele nos tratou de igual para igual, assim como as outras
pessoas que passaram por ali. A diferença é que ele
nunca foi embora, está até hoje de olho na gente.
196 Enraizados: os híbridos glocais

Luiz Eduardo disse que talvez alguns amigos pudessem


nos ajudar, mas que não podia prometer nada. Entraria
em contato com eles e, se houvesse uma resposta posi-
tiva, nos comunicaria. Ficamos ansiosos pela resposta
durante algum tempo. Enquanto aguardávamos o con-
tato do Luiz Eduardo, as reuniões abertas realizadas
aos sábados na casa da Rosinha deram lugar ao Cefam
(Centro de Estudo e Formação de Ativismo e Militância).
Conversamos com os meninos e meninas que partici-
pavam das reuniões convencionais e explicamos o que
era o Cefam. Dissemos que iríamos estudar, conversar e
compartilhar tudo o que a gente aprendia com os nossos
irmãos, família e amigos, além de identificar a violação
de direitos em nosso bairro e colocar em prática a exigi-
bilidade de direitos humanos. Cerca de 15 pessoas topa-
ram participar e todo sábado estavam presentes.
Sempre com um ar meio profético, o Dumontt me per-
guntou o que era importante a gente fazer para evitar
que as pessoas se afastassem das reuniões do Cefam.
Eu disse que seria legal a gente passar uns filmes, mas
lembrei que não tínhamos televisão e nem DVD. Ele res-
pondeu: “Vamos comprar esses equipamentos, eles
são necessários. Depois a gente marca as sessões de
cinema uma vez por mês.” Eu concordei, mas lembrei a
ele que não tínhamos dinheiro nem para pagar o aluguel
do escritório. Ele disse simplesmente que a gente com-
praria o equipamento porque era necessário.
Fazíamos muita dinâmica, como nas reuniões conven-
cionais. O Dumontt preparava o material para a aula de
um sábado e eu preparava a do sábado seguinte. Junto
com o Átomo, selecionamos os temas que seriam abor-
dados ao longo do ano. Uma das dinâmicas deu resultado
muito positivo. Li a cópia de um livro de dinâmicas pro-
curando algo que pudesse fazer nas reuniões de sábado.
Seguindo em frente 197

Achei uma que era perfeita, mas precisava de algumas


modificações. Pesquisei o nome de diversas lideranças
negras brasileiras, confesso que da grande maioria eu
nunca tinha ouvido falar. Coloquei o nome delas numa
folha de caderno.
No sábado cada participante do Cefam escolheria um
nome, e eu colocaria o nome do participante ao lado do
nome escolhido. Uns escolheram o nome mais engra-
çado, outros nomes parecidos com os deles, mas a mis-
são era pesquisar sobre o nome escolhido, fazer um
estudo e no sábado seguinte dar uma aula para os outros
companheiros sobre quem era a liderança sobre a qual
eles pesquisaram. Eu e Dumontt também participamos.
Eu pesquisei Milton Santos e o Dumontt, Luiz Gama.
O resultado foi surpreendente. Para pesquisar, os parti-
cipantes do Cefam passaram a semana inteira no escri-
tório do Enraizados, usando os computadores. Depois de
pronta, a pesquisa foi para o Portal Enraizados. O exér-
cito do Cefam era formado por: Dudu de Morro Agudo,
Dumontt, Átomo, Willian Robson, Rafael, Mailini, Lisa
Castro, Sidélia Cantuária, Eliel Garcia, Barraquinha, UR
Clau, Marcela, Patrícia Ximango e Léo da XIII.
Se não
sonhássemos, não
sairíamos do lugar

Há dois tipos de pessoas no mundo:


os realistas e os sonhadores.
Os realistas sabem onde estão indo;
os sonhadores já estiveram lá.
— Robert Orben

Até então não tínhamos atrasado nem um mês de alu-


guel, mas era sempre por pouco. Às vezes um dia antes
do vencimento a gente não tinha nem um real em caixa.
Como um milagre recebíamos uma ligação, era alguém
querendo contratar uma apresentação minha, mas a pes-
soa só poderia pagar 200 reais, que era justamente o valor
que precisávamos para quitar o aluguel daquele mês.
As coisas foram apertando de tal forma que às vezes eu
e Dumontt dividíamos um miojo na hora do almoço e na
janta eu ia pra casa da minha mãe e ele pra avó dele. Eu e
Dumontt não sabíamos fazer projetos, tínhamos apenas
alguma ideia. Numa época um pouco melhor, tínhamos
dois mil reais em caixa. O Dumontt me chamou pra con-
versar e falou sobre a importância de termos uma for-
mação em produção cultural. Disse que havia um curso
no centro do Rio de Janeiro que estava com uma turma
quase formada. Eu concordei, se era necessário deve-
ríamos fazer. Achei que nós dois faríamos o curso, pois
acreditava que custava no máximo uns 200 reais. Quando

198
Seguindo em frente 199

ele disse que o valor do curso era justamente todo o


dinheiro que tínhamos em caixa, entrei em desespero.
Logo agora que estávamos conseguindo dar uma respi-
rada, íamos voltar ao zero novamente. Ele ainda pediu
que eu fizesse o curso e depois passasse o conheci-
mento. Como o Dumontt é bem mais paciente para ensi-
nar do que eu, fez o curso e nos ensinou o que aprendeu.
Logo depois conseguimos aprovar um projeto na Peace
Child. Era o projeto de um jornal temático chamado “Voz
Periférica”. Uma continuação, ou evolução, do zine “Voz
Periférica”. Seriam três edições com o objetivo de des-
mistificar a linguagem jurídica das leis que estabelecem
nossos direitos. Uma edição falando sobre o ECA (Esta-
tuto da Criança e do Adolescente), outra sobre os Direi-
tos do Consumidor e por último uma abordando partes
da Constituição Brasileira.
A ideia era que somente os meninos fizessem o jornal,
sem que eu e Dumontt interferíssemos. Antes mesmo de
escrever o projeto chamamos Patrícia Ximango, Léo da
XIII, Short, Willian Robson e Lisa, que assumiram o pro-
jeto. A Patrícia Ximango era a coordenadora, o que pra nós
era engrandecedor. A gente começava a entender que o
Movimento Enraizados tinha como base o hip-hop, mas
ia ainda além dele. Até os dias de hoje, a gente presenteia
com o jornal as pessoas que nos visitam, e levamos tam-
bém para as escolas e seminários de que participamos.
O ano de 2007 foi um ano de altos e baixos para o Enrai-
zados. Quando a gente estava novamente em baixa, ten-
tando escrever alguns projetos, o Dumontt entrou no site
do Governo Federal e viu que o edital para o Prêmio Cultura
Viva estava aberto. Ele inscreveu a Rede Enraizados, mas
não acreditava que pudéssemos ganhar. Ele passou dias
e noites preenchendo dezenas de formulários, juntando
e enviando documentos, enquanto eu me ocupava com a
200 Enraizados: os híbridos glocais

organização. Pelo menos uma vez na semana ele falava do


prêmio, eu concordava e procurava dar uma força pra ele
continuar, afinal estava muito confiante. Meses depois ele
me disse: “Dudu, estamos entre os 200 selecionados.” E
eu disse: “Parabéns!!!”, mas não botava muita fé. A gente
estava entre as duzentas iniciativas. Pô, duzentas é muita
coisa! Mas o Dumontt continuava na empreitada.
Algumas semanas depois: “Dudu, a gente está entre as
cinquenta iniciativas.” E eu, como sempre: “Parabéns!
Agora vai, hein!” E o Dumontt preenchendo mais for-
mulários, pedindo para eu ler os textos, dar opiniões e
ajudar a procurar umas fotografias. Mais algumas sema-
nas se passaram e ele veio: “Dudu, tu não vai acreditar,
filhote.” E eu: “Fala tu, o que tá pegando?” E ele: “Esta-
mos entre os dez!” Aí eu já fiquei preocupado. Entre
quase 2.000 iniciativas, nós estávamos entre as dez. Eu
comecei a ver uma luz no fim do túnel.
Algumas semanas:
— Dudu, reúne o pessoal porque a gente está entre os
três. Agora é à vera. Ruim de tudo a gente tá com 10.000
reais no bolso e dá fazer melhorias na organização.
— Como assim entre os três?
— Lembra do Prêmio Cultura Viva?
— Sim, lembro.
— Então, a gente está entre os três primeiros lugares e
na próxima semana vai vir um avaliador nos visitar, pra
ver se o que a gente escreveu no edital é verdade.

Eu estava meio desnorteado com a notícia, mas disse:


— Tá tranquilo, vou reunir a galera.

A gente não tinha um centavo em caixa, mas era neces-


sário alugar um carro pra mostrar a comunidade pro cara,
ele tinha que ver como era o nosso dia a dia no bairro.
Alugamos o carro com o cartão de crédito. Liguei para a
Seguindo em frente 201

nossa galera, e no dia estavam todos presentes no horá-


rio marcado, mas o avaliador chegou muitas horas atra-
sado e o Dumontt cobrou isso dele o tempo inteiro.
Algumas pessoas do Enraizados disseram para seus
patrões que chegariam um pouco atrasadas no traba-
lho para poderem estar presentes na avaliação, mas não
puderam participar por causa do atraso do avaliador. Ele
se apresentou como Alan Arrais, um produtor indepen-
dente, contratado pelo Cenpec (Centro de Estudos e Pes-
quisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) para
fazer a avaliação.
Ele começou a fazer algumas perguntas técnicas a res-
peito da organização para o Dumontt e para mim, mais
para o Dumontt. Depois ele começou a perguntar a res-
peito dos participantes, e o Dumontt respondeu:
— Por que você não pergunta pra eles?

O Alan perguntou se realmente podia, porque nas outras


organizações avaliadas era sempre uma pessoa que
falava por todo mundo. Enquanto ele conversava com
a galera, eu e Dumontt tentávamos resolver a questão
do aluguel e outros assuntos pendentes que envolviam
o dinheiro que a gente não tinha. O Alan também ficou
impressionado com o protagonismo feminino presente
no Enraizados, e eu nem havia percebido isso. Neste dia
estavam Lisa Castro, Suellen Casticini, Mailine, Marcela
e Patrícia Ximango, e o Alan trocou altas ideias com elas.
O melhor ainda estava por vir. A galera foi embora e nós
tínhamos que levar o Alan para dar uma volta pelo bairro
e mostrar que éramos articulados com o poder público.
A ideia era levarmos ele até o Paulô, que era da articu-
lação política da prefeitura. O Paulô já era Enraizados
até os ossos, a pessoa mais indicada para conversar
com o Alan e falar bem de nós. Mas o universo conspi-
rava a nosso favor e nos três quilômetros que separavam
202 Enraizados: os híbridos glocais

o nosso escritório do local onde o Paulô nos esperava,


havia dezenas de pessoas que falavam conosco na rua,
nos cumprimentavam o tempo inteiro, paravam o carro
que nós estávamos para contar uma história, pediam
ajuda, muitas estavam com nossas blusas e isso com
certeza mexeu com a cabeça dele.
Quando chegamos ao Paulô foi tudo como deveria ser,
mas não combinamos nada com ele. Dissemos apenas
que viria um camarada avaliar o Movimento Enraizados
para um prêmio que estávamos concorrendo, e o Paulô
fez bonito. Para fechar com chave de ouro levamos o Alan
até o Aércio, da Fase, para mostrar que tínhamos arti-
culação com outras organizações também. Já era noite
e o Aércio estava no colégio Monteiro Lobato, nesse dia
aconteceria uma reunião da Fase por lá.
Quando o Alan começou a conversar com o Aércio a
nosso respeito, fiquei perto observando suas respostas
e não conseguia entender por que ele falava sobre nós
como se o que fizéssemos fosse algo sem importância.
Tive essa impressão no início, mas o Aércio sabia muito
bem o que estava fazendo e terminou de modo genial
usando uma ótima frase de efeito. O Alan perguntou a
ele: “O que você acha do trabalho deles?” E o Aércio: “Eu
não vejo nada de mais, a Fase já faz um trabalho pare-
cido há algum tempo...”
Eu não conseguia acreditar que ele estava tirando o foco
de nós. Até que, minutos depois, usou a tal frase de efeito:
— Mas tem uma coisa que me intriga nisso tudo. A Fase
trabalha com um orçamento parecido com o de uma
prefeitura de pequeno/médio porte e tem muitos funcio-
nários, o que torna possível realizar um projeto desses,
porém o Dudu e o Dumontt, junto com os outros Enrai-
zados, não têm um tostão e executam perfeitamente a
Rede Enraizados, com maestria. Como eles fazem tudo
isso sem dinheiro, eu juro que não sei.
Seguindo em frente 203

Nessa hora o olho do Alan brilhou e eu abri um sorriso


enorme. Depois disso levamos o Alan na estação de
trem de Nova Iguaçu, e ele foi embora. Após essa mis-
são nossa vida voltava ao normal, na incessante busca
pelo dinheiro para pagar o aluguel. O dinheiro não apa-
recia, mas continuávamos nas páginas do jornal “O
Dia”, graças ao desempenho do Portal Enraizados, que
ultrapassara a marca de 600.000 acessos mensais, e
nossas atividades. O projeto Enraizadinhos, uma cole-
ção do Movimento Enraizados voltada para o público
infantil, com dezenas de personagens usados em dese-
nhos animados, cadernos, roupas, foi idealizado pelo
Dumontt e materializado nos papéis pelo Willian Rob-
son, um ótimo desenhista. O CD e o DVD “Sexto Encon-
trão ao vivo” estavam na boca do povo. E nossas produ-
ções audiovisuais, tendo como carro-chefe os filmes no
formato Contra Cinema – um filme feito no mesmo dia,
por amadores, sem atores, roteiro, figurino, cenário,
apenas com ideias – e o documentário sobre o primeiro
emprego, dirigido pelo Dumontt.
Mais uma matéria no jornal “O Dia”:

Cultura negra on-line


Oito anos depois de o Movimento Enraizados começar
timidamente, em Morro Agudo, a divulgar o hip-hop e
culturas afins, como o grafite e o break, a página na
internet do grupo de Nova Iguaçu (www.enraizados.com.
br) ganhou impulso e hoje ostenta a marca de 600 mil
acessos mensais.

No rastro do sucesso, as conquistas do grupo encabe-


çado pelo rapper Dudu de Morro Agudo incluem vários
CDs independentes e um DVD ao vivo, produzidos no
estúdio de edição de vídeo obtido através de convênio
feito com o Ministério da Cultura.
204 Enraizados: os híbridos glocais

Na lista de realizações para este ano, destacam-se a


produção de três documentários feitos pela câmera digi-
tal obtida no pacote do governo federal e a publicação
de uma história em quadrinhos, na qual os personagens
foram criados nos moldes da cultura hip-hop.

“São conquistas que estamos obtendo com muita luta


da nossa comunidade. Aprendemos que o mais impor-
tante no momento é mostrar o trabalho dessa galera da
periferia. Por isso, não nos incomodamos se os CDs vão
ser pirateados ou se vão baixar na internet”, disse Dudu
de Morro Agudo.

O Movimento Enraizados é uma organização que tem como


objetivo principal identificar, capacitar e orientar artistas
e militantes para o ativismo cultural. “Somos organizados
em uma rede presente em quatro continentes. Estamos
na Colômbia, Portugal, Espanha, Finlândia, França, Bél-
gica, Angola, Moçambique e Japão”, contou Dudu.

No site, os rapazes do Enraizados expõem pensamentos,


atividades e mandam para o mundo músicas de jovens
que não têm acesso à mídia. Através do Centro de Estudo
de Ativismo e Militância (Cefam), os jovens da comu-
nidade participam ativamente da vida política, social e
cultural da cidade.

Helvio Lessa, jornal “O Dia”, 20 de maio de 2007

Foram quatro páginas de jornal. Sempre que estáva-


mos nos jornais nossa autoestima ia nas nuvens, por
isso quisemos várias pessoas nas fotografias. Dessa vez
estávamos eu, Jack, Nadir, Átomo, Kall, Faminto, Rafael,
Barraquinha, Erivelton, Elicarlos, Dumontt, Short,
Samuel, Willian Robson, Lisa Castro e Ur Clau.
As reuniões do Cefam esquentavam, os questionamentos
eram frequentes. Numa das reuniões surgiu o assunto da
necessidade de uma rádio comunitária para tocar nossas
músicas (a maioria dos participantes era MC) e propagar
Seguindo em frente 205

nossas mensagens no bairro. A galera participava efetiva-


mente das atividades da organização. Visitávamos outras
organizações do bairro, como a escolinha de futebol do
Ouro Preto, onde o Cefam foi conversar com a criançada,
que adorou, pois chegamos com muitos doces. O Cefam
também se preparava para produzir o sétimo Encontrão.
Sem que perdêssemos o fôlego, na semana seguinte já
aconteceria o sétimo Encontrão. O Dumontt, como sem-
pre, fez toda a articulação para conseguirmos palco e
som, eu articulei com os artistas para se apresentarem.
Além dos artistas do nosso casting – Dudu de Morro
Agudo, Léo da XIII, Ultimato à Salvação, Fator Baixada e
Poetas da BF –participariam do evento o rapper Kapella,
de Mesquita, e a banda Nego Kapor, do Maranhão.
A nossa rede funcionava perfeitamente, estiveram pre-
sentes Enraizados de Rio das Ostras, São Gonçalo, Belo
Horizonte, Itaboraí, Rio de Janeiro (Santa Teresa e Jaca-
repaguá), Duque de Caxias, São João de Meriti, Queima-
dos, Japeri e de muitos bairros de Nova Iguaçu. A LUB
(Liga Urbana de Basquete) estava cobrindo o evento, o
que para nós foi uma honra.
206 Enraizados: os híbridos glocais
Seguindo em frente 207
Algumas luzes no
fim do túnel

Não há maior prova de ignorância do que acreditar


que o inexplicável é impossível.
— S. Bilard

Como a maioria dos participantes do Movimento Enrai-


zados eram rappers, eles sentiam a necessidade de um
meio de comunicação que divulgasse nossos eventos,
tocasse as músicas e interagisse com a nossa comu-
nidade. Mas a gente não tinha grana para comprar um
transmissor FM pra montar a própria rádio, e nem que-
ríamos. A gente não conseguiria a concessão do governo
e a Polícia Federal estava fechando muitas rádios comu-
nitárias no Brasil inteiro.
Então a gente soube que o Dinho, DJ do Fator Baixada,
estava trabalhando numa rádio comunitária chamada
Atitude FM, que era nova no bairro. Fomos até ele tentar
um horário para nosso programa de rap. Dinho cedeu a
faixa das 22h à meia-noite, de segunda a sexta-feira. Aí
começaram alguns problemas, pois a maioria das pes-
soas que deu a ideia de montar a rádio eram as mesmas
que não queriam dedicar parte do seu tempo para fazer
o programa. Entramos num acordo e cada dia da semana
ia alguém para a rádio, que ficava a dez quilômetros de
distância do centro de Morro Agudo. Todos nós íamos de
bicicleta e às vezes alguns iam a pé.

208
Seguindo em frente 209

Não tínhamos muita experiência, mas o Dinho nos ensi-


nou. Levávamos de boa o programa, com muita música
e notícias sobre as atividades do Enraizados. A equipe
que trabalhava na rádio era Dumontt, Kall, Léo da XIII,
eu, Lisa Castro e Átomo.
Com o tempo percebemos que os integrantes do Enraizados
que pediram a rádio não ouviam o programa. Começamos,
então, a pedir que eles ligassem para a rádio todos os dias e
pedissem também para seus amigos ligarem. Não era justo
que nós seis ficássemos até meia-noite na rua, passando
por lugares perigosos e correndo até mesmo risco de vida,
e eles que estavam em casa não contribuíssem de alguma
forma para valorizar nosso trabalho. Éramos uma equipe, e
deveríamos trabalhar como tal.
Continuávamos a fazer pequenas apresentações em
troca de 200 reais pra pagar o aluguel e continuar com
nossas atividades. Os gringos continuavam nos visi-
tando, cada vez mais frequentemente. Certa vez o Luiz
Eduardo Soares trouxe para nos conhecer alguns repre-
sentantes do BID (Banco Interamericano de Desenvolvi-
mento), e dias depois da organização Room to Ritch. Eu
brincava com o Dumontt dizendo que se o pessoal do BID
desse uma ajudinha eu pararia de comer miojo, que já
estava me fazendo mal.
Mas as semanas seguintes reservavam boas notícias e
um pouco de paz. Certo dia, eu e Dumontt estávamos tra-
balhando no escritório, eu ia almoçar na casa da minha
mãe e ele passaria mais tarde na casa de sua avó. Já não
tínhamos grana para o miojo. Fui andando para a casa da
minha mãe pensando que tipo de trabalho poderíamos
fazer para descolar uma grana. Mas a única forma que
a gente conseguia arrumar dinheiro era fazendo shows.
Eu pensei em fazer filmagens e edições, mas as pessoas
não pagavam. Pensei também em oficinas culturais, mas
210 Enraizados: os híbridos glocais

fazer oficina cultural na periferia cobrando mensalidade


é tempo perdido, a galera também não tem dinheiro.
Chegando em casa, bem desiludido porque não tinha
conseguido pensar em nada, recebi a seguinte mensa-
gem do Dumontt no meu celular (usamos o programa
Cool SMS, que envia mensagens gratuitamente para
celular através da internet): “Dudu, consegui comprar o
miojo. Ah!!! O Luiz Eduardo conseguiu aquele apoio pra
gente, acho que são cinco mil euros, nosso cineclube tá
garantido.” Eu demorei a entender a mensagem. Como
assim conseguiu o apoio? Eu não tinha como ligar pra
ele, mas queria saber dessa notícia.
Comi metade da comida e voltei correndo para o escri-
tório. Ele me contou a história toda, disse que a gente
tinha que fazer uma espécie de proposta, mas metade
do caminho já estava andado. Nós íamos continuar
comendo miojo, mas agora teríamos um cineclube, e
isso era o máximo. Compramos um projetor, um sistema
de som que também servia para fazermos nossas fes-
tas, e uma filmadora Mini DV da Sony, modelo PD170, que
a gente nem sabia usar, mas era a mesma que o Cacau,
do grupo Baixada Brothers, usou para filmar o evento
Raiz do Hip-Hop, três anos antes.
Dias depois recebemos a visita de um senhor chamado
Robson Aguiar, coordenador social do projeto de tele-
centros da RITS (Rede de Informações para o Terceiro
Setor) em parceria com a Petrobras. Ele nos procurou
porque queria instalar um telecentro na cidade de Nova
Iguaçu e havia recebido boas indicações de nós. Gosta-
ria que nós administrássemos o telecentro, mas antes
faria uma visita e depois traria um representante da
Petrobras para visitar o local também.
Seguindo em frente 211

Quando o Robson começou a falar dos equipamentos


do telecentro, das atividades que deveríamos realizar
para dar acesso à comunidade, ficamos animados. Mas
quando ele disse que haveria uma grana para duas pes-
soas trabalharem no telecentro durante um ano, gos-
tamos mais ainda.O ditado, porém, já dizia: “Alegria de
pobre dura pouco.” Ele condenou nosso escritório por
causa do difícil acesso. Nós teríamos que conseguir
um novo local para instalar o telecentro, e não tínha-
mos muito tempo. Depois desse susto ele nos deu uma
boa notícia. Tinha uma verba pra fazer obra e adaptar o
local para receber o telecentro.
Assim que o Robson foi embora eu e Dumontt saímos
pelas ruas de Morro Agudo procurando um novo local
para instalar o Movimento Enraizados. Nossa sede seria
no mesmo lugar do telecentro. Vimos dois lugares. O pri-
meiro era uma pequena loja no centro do bairro, mas o
aluguel estava além da nossa realidade, cerca de R$800
por mês, mais documentação e fiador. O outro local
também era inacessível porque era num prédio e o alu-
guel era alto. Vimos uma casa, mas a proprietária criou
empecilhos porque era para um projeto sociocultural.
Ficamos andando de um lado para o outro, sem sucesso,
até que vimos uma placa de aluga-se. Atravessamos a
rua e olhamos através da grade, o lugar era enorme. O
Dumontt queria ligar para ver o preço, mas como esse
lugar também era no centro, e a primeira lojinha que a
gente viu custava R$800, quanto seria o aluguel deste
lugar enorme? Ficamos parados em frente ao local
durante alguns minutos, um olhando para a cara do
outro e para a placa de aluga-se e decidimos que liga-
ríamos somente por curiosidade. Para nossa surpresa
o aluguel era R$1.000. Ficamos animados por uns dez
segundos, quando lembramos que sofremos durante um
212 Enraizados: os híbridos glocais

ano pra pagar os R$200 de aluguel do nosso escritório.


Havia os salários do telecentro, que somavam R$1.000,
mas nós continuaríamos a comer miojo.
A gente se enganava dizendo que tudo daria certo, que o
dinheiro seria suficiente pra pagar o aluguel. O telecen-
tro viria com um recurso para as obras e o local era tão
grande que poderíamos fazer nossos eventos, vender
nossos produtos e serviços pra levantar uma grana. Como
faltava pouco tempo para o Robson voltar com o pessoal
da Petrobras para avaliar o local, ligamos para a imobiliá-
ria, por sorte era a mesma do outro escritório, e dissemos
que estávamos interessados naquele imóvel. No mesmo
dia entramos para ver a estrutura de perto. Além do que
havíamos conseguido ver através das grades, havia ainda
uma outra parte coberta que era enorme. Definitivamente
aquele lugar deveria ser nosso. Fechamos acordo e arran-
jamos de pagar uma semana depois.
Passou-se quase um mês e o Robson não aparecia. Nem
sozinho e muito menos com o avaliador da Petrobras. A
proprietária do lugar onde alugaríamos estava nos pres-
sionando, dizia que havia outras pessoas interessadas no
local. A gente sabia que era mentira dela, mas fizemos o
jogo, demos algumas desculpas, sempre afirmando que
alugaríamos o imóvel. O Robson apareceu e nos deu a pior
notícia dos últimos anos. Por motivos políticos – eu diria
politicagem – o telecentro não viria para as nossas mãos,
mas para um outro bairro de Nova Iguaçu, onde inclusive
já existiam alguns telecentros. Nós realmente acreditá-
vamos no Robson, ele estava sendo sincero, e agora nós
estávamos bastante encrencados.
Dentre as dezenas de pessoas que passavam pelo nosso
escritório, recebemos a Helena Aragão, do site Over-
mundo, que trabalhava, na época, com o Hermano Viana.
Ela ouviu falar de nós em algum lugar e veio nos visitar.
Seguindo em frente 213

Já estávamos com a história do Movimento Enraizados


ensaiada de tanto que a gente contava. Ela ficou bem
próxima, e sem saber entrou pra rede. Falava bastante
de nós, até que um dia comentou com algum jornalista
da revista “Carta Capital”. Quando recebi a ligação da
Renata Carraro, da “Carta Capital”, estava muito ocu-
pado tentando resolver os problemas do novo espaço
e não pude dar atenção a ela. Na segunda vez que ela
ligou estava ainda mais ocupado, mas não pude deixar
de atendê-la. Ela queria saber sobre o CD e o DVD “Sexto
Encontrão ao vivo”. Contei toda a história pra ela e fica-
mos mais de uma hora no telefone.
No mês de outubro saiu uma matéria especial na revista
“Carta Capital” n.º 464.

O hip-hop sobrevive
Do Alto do Pascoal para o Morro Agudo. É ali, no maior
bairro de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Rio de
Janeiro, que outra rede articulada em torno do hip-hop
mostra sinais de vigor econômico. Flávio Eduardo da
Silva Assis, o Dudu de Morro Agudo, é uma das lideran-
ças do Movimento Enraizados, cujo chamariz é o portal
www.enraizados.com.br, com uma loja virtual e 600 mil
acessos por mês.

Tudo começou em 1999. “O site era para divulgar a


música, não tinha o objetivo de renda”, explica o rapper.
Mas os contatos foram crescendo, gente do Brasil inteiro
começou a acessar, e hoje o Movimento Enraizados tem
filiados em 16 estados. Depois que se juntou ao Movi-
mento Hip-Hop Organizado Brasileiro (MHHOB), Dudu
percebeu que era preciso discutir políticas públicas para
a juventude e pensar em melhorias para a comunidade.

“Agora vamos criar um espaço cultural com loja, biblio-


teca, telecentro, cinema.”
214 Enraizados: os híbridos glocais
Seguindo em frente 215
218 Enraizados: os híbridos glocais

O Enraizados tem um esquema de CDs e DVDs. A última


coletânea, “6º Encontrão”, foi toda editada em Software
Livre. Com o objetivo de popularizar o trabalho, as matri-
zes são repassadas para os artistas e camelôs. Nas ban-
cas montadas na rua, cada produto é vendido a 5 reais,
dos quais 1 real deve retornar para o Enraizados na forma
de pagamento de uma licença (Creative Commons), o que
rende cerca de 35 reais semanais. Já os artistas podem
reproduzir as matrizes e vender pelo preço que desejarem.

Viver do hip-hop ainda é para poucos, mas a experiência


como a do Recife e a de Nova Iguaçu mostram uma força
econômica embrionária que pode revelar novos elemen-
tos desse movimento cultural.

Bernardete Toneto, Jaqueline Lemos e Renata Carraro,


“Carta Capital” n.º 464,

3 de outubro de 2007

Sem ter de onde tirar grana, fomos procurar nosso anjo


da guarda, Luiz Eduardo Soares.
Nessa época, a Semuv (Secretaria de Valorização da
Vida e Prevenção da Violência) estava implantando um
projeto na cidade de Nova Iguaçu que acompanhávamos
de perto por se tratar de um trabalho com a juventude
da cidade. Conversamos com o Luiz Eduardo e fecha-
mos uma espécie de consultoria, dávamos palestras e
oficinas, e recebíamos uma grana. Assim, depois de um
tempo, conseguimos alugar o imóvel.
Batizamos o lugar de Espaço Enraizados. Já estávamos
acostumados a trabalhar triplicado no mês de novem-
bro, e em 2007 não seria diferente. Por não ter mais
trabalho formal eu viajava bastante, principalmente no
mês de novembro. Fui a São Paulo para dar uma pales-
tra no seminário Conhecimento e Cultura Livres e de lá
voei para o II Congresso Nacional do MHHOB, em Porto
Seguindo em frente 219

Velho. O Dumontt estava a caminho da Argentina para


participar do projeto “Derechos e direitos” da Fase. O
Dumontt nunca tinha viajado de avião, e foi logo pra fora
do país. Ele ficou algum tempo sem aparecer em Morro
Agudo, pulava de um estado para o outro. O combinado
foi Dumontt ir direto de Buenos Aires para Porto Velho,
onde ficaríamos até o dia 7 de novembro.
No Congresso Nacional do MHHOB as discussões eram
sobre a aprovação dos novos Pontos de Cultura, for-
mação em produção cultural e institucionalização do
MHHOB. Como éramos a organização do MHHOB que
mais crescera nos últimos anos, e a mais bem apare-
lhada, ficou estabelecido que a nova sede nacional do
MHHOB seria no Espaço Enraizados, em Morro Agudo,
e que o Dumontt cuidaria da administração do Instituto
Ruas, enquanto eu seria o presidente. Estiveram presen-
tes no congresso, entre outros, Saroba (Porto Alegre-
RS), Jackson (Porto Alegre-RS), Léo Cabral (Brasília-DF/
Fortaleza-CE), Lamartine Silva (São Luís-MA), Augusto
(Rio Branco-AC), Dumontt (Nova Iguaçu-RJ), Dudu de
Morro Agudo (Nova Iguaçu-RJ), Edjales Fama (Porto
Velho-RO), Branco (Macapá-AP), Morcegão (Belém-PA) e
Edi Rock (São Paulo-SP). O Américo Córdola que viria a
ser nomeado secretário da Identidade e da Diversidade
Cultural, também participou.
De Porto Velho o Dumontt voou para Belo Horizonte,
onde estava acontecendo o Teia, o maior encontro da
diversidade cultural no Brasil, que durou até o dia 11
de novembro. Quando cheguei de Porto Velho recebi a
notícia de que estava solteiro, minha esposa havia me
deixado. Eram tantas as atividades que nem tive tempo
de sofrer, deixei pra chorar em dezembro ou janeiro,
meses menos turbulentos.
Entre trancos e
barrancos

O homem consequente crê no destino;


o volúvel, no azar.
— Benjamin Disraeli

Isso não foi legal: parte 1


Havia um camarada chamado Valdemar, meu vizinho,
que sempre me emprestava o carro dele para eu fazer
uns corres pro Enraizados. Era uma Fiat Uno ano 1989,
mas muito conservada. Certa vez, no final do dia, alguns
amigos que foram conhecer o Espaço Enraizados convi-
daram a mim e ao Dumontt para uma festa. Entre eles
estavam Viviane Torres, Natanael, Thiago e sua noiva, e
outras pessoas que não conhecia bem.
O Dumontt não queria ir, mas eu insisti. Havia muito
tempo que a gente não saía pra se divertir, era trabalho
o tempo inteiro. Mesmo contra a vontade ele nos acom-
panhou. Algumas pessoas foram no carro comigo, eu
estava com o carro do Valdemar seguindo o do Thiago. A
100 metros da festa olhei para o lado, tinha umas cinco
mulheres sentadas na calçada bebendo cerveja, quando
o carro do Thiago freou por causa de um quebra-molas.
As pessoas gritaram tentando me alertar, mas já era
tarde demais. Quando percebi já estava afundado
na traseira do Celta zero quilômetro. Graças a Deus

220
Seguindo em frente 221

ninguém se machucou, mas o prejuízo foi enorme. Eu


estava a no máximo uns 40 quilômetros por hora, mas
o barulho e o estrago foram tão grandes que eu parecia
estar em alta velocidade. E o prejuízo não foi somente
material. O Dumontt havia me orientado a não ir à festa
e eu insisti para irmos.
Além disso tinha a Fiat Uno que meu amigo me confiava
para trabalho e eu usei para ir a uma festa. Esse carro
significava bem mais que uma Fiat Uno 89 pra ele, difi-
cilmente tirava o carro da garagem pra passear, mas
todo domingo colocava o carro na calçada, em frente à
sua casa, ligava o som e lavava o carro, mesmo quando
já estava limpo. Nem os filhos podiam dirigir aquele
carro e ele havia me confiado uma cópia da chave. Essa
era uma das muitas coisas ruins que aconteceriam nos
próximos meses.

Coisas boas: parte 1


No dia 14 de novembro o grafiteiro Dante liderava a Bai-
xada Crew para grafitar o Espaço Enraizados. No dia 15
aconteceria um cortejo cultural para dar abertura à Jor-
nada Cultural, evento que aconteceria no Espaço Enrai-
zados em que participariam dezenas de pessoas de paí-
ses diferentes.
Eu e Dumontt acompanhávamos todo o processo de
perto. No dia 14 à noite, eu tive uma apresentação no
centro de Nova Iguaçu, da qual saí às três horas da
madrugada, tendo a missão de ir ao aeroporto buscar o
Alessandro Buzo, que a convite do Aercio também parti-
ciparia da Jornada Cultural.
No dia 15, além do cortejo cultural, eu fiz uma apresen-
tação no Circo Voador pra levantar um dinheiro. O Léo
da XIII foi comigo, mas rapidamente voltamos para o
222 Enraizados: os híbridos glocais

Espaço Enraizados, onde estavam dezenas de pessoas


de vários países, como Alemanha, Uruguai, Paraguai e
Argentina. Era o primeiro evento no Espaço Enraizados,
e já um evento internacional.
No dia 16 eu tive outra apresentação no Sesc de Nova
Iguaçu, e no dia seguinte a Coordenadoria de Igualdade
Racial nos fez uma homenagem. Colocaram uma fotogra-
fia minha na via Light. Por causa disso meu telefone tocou
o dia inteiro, eram os amigos nos parabenizando. Com um
descanso de dois dias antes da próxima viagem, aprovei-
tamos que o Buzo estava no Rio e fomos curtir uma praia.

Isso não foi legal: parte 2


No dia 20 de novembro tinha uma atividade em Forta-
leza, a convite da Ação Educativa, ONG de São Paulo, em
que eu participaria de uma mesa e faria uma palestra.
Aproveitei que estaria por lá e contactei a Rede Enraiza-
dos no Nordeste para saber se haveria algum evento por
lá nas datas em que eu estivesse, pois gostaria de fazer
apresentações.
Fiquei muito animado com o retorno da galera. Muitos
eventos de rap estavam rolando naquele mês e eu havia
fechado três apresentações.
No dia da viagem saí de casa bem cedo. O aeroporto é
distante da cidade onde moro e a rodovia Presidente
Dutra costuma engarrafar. Eu poderia ter problemas
com o horário. Mesmo com todos os cuidados que tomei,
a van que me levava para o aeroporto bateu, mas de uma
forma que fechou a rodovia e não havia como qualquer
outro carro passar por ali.
A batida foi tão violenta que eu estava na parte de trás
da van e fui projetado para a parte da frente, ao lado do
motorista. Por sorte ninguém se machucou, mas todos
Seguindo em frente 223

ficaram bastante abalados. Inclusive o motorista, que


não sabia explicar ao certo o que havia acontecido. O aci-
dente foi num lugar sem ruas paralelas. Andei quilôme-
tros para tentar achar um táxi ou qualquer outra condu-
ção que me levasse até o aeroporto. Depois de bastante
tempo caminhando encontrei um taxista que me levou o
mais rápido que pôde, porém nem o mais rápido taxista
do mundo faria com que eu não perdesse aquele voo.

Coisas boas: parte 2


O pessoal da Fase ligou marcando uma reunião para o
dia 11 de dezembro. Pediram para levarmos um projeto,
eles tinham um recurso do Serviço de Análise e Assesso-
ria a Projetos (Saap). Comecei imediatamente a escrever
o projeto do Cefam.

Isso não foi legal: parte 3


Estava escrevendo o projeto em casa quando meu tele-
fone tocou. Como eu tinha me separado há pouco tempo,
o único móvel que tinha na minha casa era a mesa do
computador, que ficava embaixo da janela do quarto.
Meu telefone celular, que estava na sala carregando,
começou a tocar, mas como estava mal-humorado não
quis atender.
Poucos minutos depois me chamaram no portão, mas
eu também não quis atender. Até que minha tia me disse
que era meu primo Júnior Baiano quem estava cha-
mando. Pensei que pudesse ser algo importante, pois
dificilmente ele ia na minha casa. Fui atender e aprovei-
tei pra ver quem estava me ligando. Meu primo não que-
ria nada importante, e nem era relevante a ligação que
recebi. Quando voltei pra casa, a janela do quarto tinha
caído em cima da cadeira que eu estava trabalhando.
Decididamente a urucubaca estava solta pro meu lado.
224 Enraizados: os híbridos glocais

Coisas boas: parte 3


Como nada de grave aconteceu, terminei o projeto e
fomos para a Fase entregá-lo. Para nossa surpresa,
lá encontramos alguns companheiros de caminhada,
outras organizações de juventude que também foram
convidadas. Estávamos entre os três primeiros lugares
do Prêmio Cultura Viva 2007 e no dia 18 de dezembro
seria a entrega do prêmio, em Brasília. Só lá saberíamos
nossa colocação.
Como eu era uma espécie de porta-voz do Enraizados,
o Dumontt queria que eu fosse pra Brasília. Mas, além
dos problemas pessoais que tinha pra resolver, achei
justo que ele fosse. Todo o processo começou por
causa de sua persistência. E eu estava meio receoso
com os fatos estranhos que estavam acontecendo, era
capaz até de o avião cair.
No dia 18 de dezembro o Dumontt me ligou, superemo-
cionado, dizendo que nossa iniciativa havia ganhado
o primeiro lugar do Prêmio Cultura Viva, mais de 30 mil
reais. Minhas pernas tremiam, eu suava frio e dava pulos
de alegria, fiquei eufórico com a notícia. De uma vez por
todas, entre trancos e barrancos, fechamos o ano de
2007 com chave de ouro.
Cap.04
Estamos só no início
Cap.04
Estamos
Acionando a Rede
Enraizados

O mundo se divide em duas espécies de pessoas:


aquelas que querem falar com você
e aquelas com as quais você quer falar.
— Thomaz Souto Corrêa

O ano de 2008 começou com boas expectativas para a


organização: nova sede, Prêmio Cultura Viva e o projeto
do Cefam aprovado. Abrimos inscrições para o Cefam,
mas apenas 12 pessoas poderiam participar, sem contar
comigo e com o Dumontt.
Inscreveram-se Guará, Binho, Júnior, Léo da XIII, Suellen
Casticini, Ualax, Lisa Castro, Átomo, UR Clau, Marcela,
Kadu e Kall.
A Rede Enraizados funcionava a todo vapor. Precisáva-
mos comprar uns equipamentos, e acionamos a rede. O
Big Dáblio, morador do Capão Redondo, em São Paulo,
trabalha numa loja de equipamentos eletrônicos e fez
um preço camarada. Fui até São Paulo comprar com ele.
Na mesma época, o Jackson Brum, de Porto Alegre,
acionou a Rede Enraizados para realizar um projeto
chamado “Seis direções”, patrocinado pela Petrobras e
pela Funarte. A ideia era grafitar painéis de 100m² em
seis cidades, partindo de Porto Alegre (RS) e passando
por Florianópolis (SC), Curitiba (PR), São Paulo (SP), Nova

228
Estamos só no início 229

Iguaçu (RJ), finalizando em Belo Horizonte (MG). Quatro


grafiteiros locais seriam convidados para interagir com
os outros seis que vinham com o projeto.
Por meio da Rede Enraizados o Jackson conseguiu os
contatos que não tinha em algumas cidades, e o Movi-
mento Enraizados foi responsável pela produção do pro-
jeto em Nova Iguaçu. Convidamos os grafiteiros Dante e
Tihkin e a grafiteira Anarkia para participarem do pro-
jeto. O Jackson chamou o grafiteiro Ments, mas por pro-
blemas pessoais ele não pôde participar.
Fechamos uma parceria com a SuperVia e nos dias 26,
27 e 28 de janeiro grafitamos o muro da estação de trem
de Comendador Soares. Este projeto mudou a cara do
bairro. As pessoas comentavam que quando passavam
de trem para ir pro trabalho, de madrugada, os grafites
transmitiam alegria. Realmente era algo bom.
Transformávamos o Espaço Enraizados, que antes era
uma oficina de carros, em uma opção cultural para a
cidade. A intenção era colocarmos, além do escritório,
uma loja para escoar nossos produtos e de parceiros,
uma lanchonete, uma biblioteca e um estúdio audiovi-
sual. Queríamos inaugurar o Espaço Enraizados o mais
rápido possível, por isso precisávamos de voluntários
para as obras não pararem. As articulações eram diárias.
Estávamos saindo de um espaço de aproximadamente
10m² e indo para um de 350m². Tínhamos que adminis-
trar os recursos de modo que conseguíssemos equipar
o novo espaço e pagar as obrigações mensais, como
conta de luz e telefone. O Dumontt trabalhava incessan-
temente em suas articulações, e eu correndo como um
louco nas minhas.
Em meio desse turbilhão de acontecimentos, recebemos
a ligação do Écio Salles, um amigo de longa data em quem
sempre confiei bastante. Ele me comunicou que estava
230 Enraizados: os híbridos glocais

trabalhando na secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, a


convite do novo secretário de Cultura, o Marcus Vinícius
Faustini, e gostaria de marcar uma reunião conosco.
Andávamos distantes da Secretaria de Cultura, porque a
relação com os últimos secretários não havia sido muito
boa. Numa das reuniões de coordenação eu e Dumontt
decidimos conversar com Écio e Faustini. Mas estava
claro que era apenas porque o Écio pedia. Se desse
algum problema, era deles a responsabilidade.
Foi justamente isso que falamos com o Écio, que assu-
miu total responsabilidade por já conhecer o Faustini e
confiar nele. Até hoje não tivemos problemas com eles.
Pelo contrário, temos uma relação bastante transpa-
rente. Não só na Secretaria de Cultura, mas no dia a dia.
Convidamos muitas pessoas para participarem da inau-
guração do Espaço Enraizados, que aconteceu no dia 5
de abril de 2008. Nosso convite era um cartão-postal
que mostrava a localização do Espaço Enraizados via
satélite. Eu fui ao correio e enviei um deles para meu
endereço para registrar o dia, que foi perfeito. Mili-
tantes, universitários, políticos, empresários e, o mais
importante, a população de Morro Agudo estavam lá,
marcando presença.
Nossa loja funcionava com muito movimento.
As pessoas não conseguiam acreditar no que viam.
Aquele espaço enorme, todo grafitado, equipado, tocando
rap, no centro de Morro Agudo, era todo nosso, da peri-
feria. Os Enraizados que vieram de outros estados reno-
varam suas esperanças, como o Terno e o Alessandro
Buzo, do Enraizados-SP, que viram como era possível
fazer o mesmo nas suas comunidades.
Estamos só no início 231

Dentre as centenas de pessoas que passaram pelo


Espaço Enraizados naquele dia, faço questão de citar
o nome de algumas: Lindberg Farias, prefeito de Nova
Iguaçu (RJ); Juana Nunes, mobilização e articulação de
redes sociais do Ministério da Cultura (DF); Écio Salles,
subsecretário de Cultura de Nova Iguaçu, com sua famí-
lia; Vladimir Palmeira, líder da passeata dos 100 mil con-
tra a ditadura militar, em 1968 (RJ); Cida Diogo, deputada
federal (RJ); Tiago Borba, subsecretário de Valorização da
Vida e Prevenção da Violência (RJ); Edson, do Cefet (RJ);
Elicarlos (Japeri-RJ); Def Yuri, do Viva Rio (RJ); Alessandro
Buzo (Itaim Paulista-SP); Marilda Borges (SP); Pêvirgula-
dez (Duque de Caxias-RJ); Pinah (Santa Teresa-RJ); Trutty
(SP); Andressa Leite (Méier-RJ); Bruno Thomassin e Jane
Thomassin (São Gonçalo-RJ); Numa Ciro (Santa Teresa-
RJ); Mirian Juvino (RJ); Terno e sua esposa, Enraizados-
SP (Parque Bristol-SP); Re.Fem (Duque de Caxias-RJ);
Luciano Lyrio (Nova Iguaçu-RJ); Erivelton (Nova Iguaçu-
RJ); Jota Rodrigues, cordelista e xilogravador (Nova
Iguaçu-RJ); e Dante (Mesquita-RJ).
E não poderia deixar de falar dos militantes e ativistas
da comunidade: Dico, Short, Samuel, Suellen Casticini,
Júnior, Guará, Kadu, Ualax, Léo da XIII, Kall, Átomo, Lisa
Castro, Gil Torres, UR Clau e Marcela. Começamos cedo
com a festa, que foi até altas horas da noite com shows de
rap e apresentação do cordelista Jota Rodrigues, e termi-
nou com uma roda de samba, no melhor estilo periferia.
234 Enraizados: os híbridos glocais
Estamos só no início 235
Um elefante branco
nas mãos

O que separa as pessoas que alcançam seus objetivos


das pessoas que não está diretamente relacionado
com a habilidade de saber pedir ajuda na hora certa.
— Donald Keough

Dias depois da inauguração abrimos o Espaço Enrai-


zados para a comunidade. Usávamos o cineclube para
exibir o campeonato carioca, por isso pessoas que não
conheciam a cultura hip-hop passaram a frequentar
o espaço por causa do futebol. Fizemos as exibições
durante alguns meses, mas paramos porque alguns
estavam abusando e o local era para ser familiar.
Estávamos muito bem equipados, mas também com
muitas dívidas. Precisávamos de maneiras diferentes de
obter recursos. Chamei alguns produtores de evento pra
conversar. Além dos eventos de hip-hop queríamos fazer
também outros tipos, dando opção para a comunidade
curtir e conhecer a organização. A loja também era uma
boa opção para gerar renda. Como tínhamos uma loja
virtual, pensamos em integrar com a presencial.
Falei com alguns artistas da Rede Enraizados e ofereci
a loja para escoar seus produtos. Seria venda através de
consignação, uma espécie de comércio solidário, para

236
Estamos só no início 237

nosso dinheiro circular entre nós. Fizemos uma faixa


com programação fixa do Espaço Enraizados, que come-
çava às terças-feiras.

Terça-feira
Mistureba: sarau de poesias num misto de músicos
populares, rappers e poetas.

Quarta-feira
Samba de mesa: samba de mesa que começou com
o grupo Reflexo do Batuque e depois abriu para outros
grupos de samba da comunidade.

Quinta-feira
Cineclube Enraizados: exibição de documentários
de curta e longa-metragens.

Sexta-feira
Charm soul black: o melhor do hip-hop internacional,
do charm e do soul.

Sábado
Raiz do hip-hop: o melhor do hip-hop nacional.

Domingo
Futebol no telão: a partir das 16h, final do Cariocão.

A programação era permanente, além das atividades que


aconteciam durante a semana. Alguém sempre queria
fazer uma oficina, apresentação ou workshop no espaço.
Emprestávamos toda a estrutura do Espaço Enraizados
e não cobrávamos nem um real, o que fazemos até hoje.
Estávamos confiantes de que com essa programa-
ção, e uma forte divulgação no bairro, a comuni-
dade abraçaria a ideia, e todos os nossos problemas
estariam resolvidos.
Então o que parecia o paraíso se tranformou no nosso
inferno particular.
238 Enraizados: os híbridos glocais

Nossos pequenos problemas tomaram uma proporção


gigantesca, uma enorme dívida se acumulava e a gente
estava com aquele elefante branco nas mãos, sem saber
o que fazer. Continuávamos a receber muitos convites e
a participar das atividades dos parceiros, como o Favela
Toma Conta, projeto realizado pela Suburbano Convicto,
organização do Alessandro Buzo, filiada a Rede Enraiza-
dos em São Paulo; apresentações para o Graal, projeto
da Secretaria de Valorização da Vida e Prevenção da Vio-
lência; o Dia da Abolição, projeto da Coordenadoria de
Igualdade Racial; além dos encontros da Fase.
O Mistureba nunca se firmou enquanto evento. Con-
vidamos alguns músicos e poetas da cidade, mas eles
não compareceram durante três semanas consecuti-
vas. Justamente na semana que não fizemos o evento,
eles começaram a ligar, querendo participar. O mesmo
aconteceu com o Samba Enraizados e o Charm, só que
no Samba e no Charm quem não aparecia era o público.
Mais uma vez, na semana que decidimos parar com o
evento o público bateu na porta, mas infelizmente não
podíamos continuar com eventos que davam preju-
ízo. Enquanto de um lado as coisas iam mal, de outro o
Cefam (Centro de Estudo e Formação de Ativismo e Mili-
tância) fazia muitos progressos.
Uma epidemia de dengue assolava a cidade de Nova
Iguaçu. Acionamos escolas particulares e públicas,
associações de moradores e líderes comunitários para
articularmos uma ação para mobilizar os moradores
do bairro contra a dengue. Concluímos que a melhor
forma seria uma passeata com as crianças das escolas
públicas e particulares do bairro, distribuindo folhetos
informativos, esbanjando a alegria da criançada e cha-
mando a atenção da população. Enquanto nos articulá-
vamos com as outras organizações para conversar com
Estamos só no início 239

as escolas, trabalhávamos em outros eixos. Estávamos


empenhados em identificar violações de direitos em
nossa comunidade.
Nós, do Cefam, começamos a nos reunir com mais frequ-
ência. Identificamos que o direito de ir e vir dos morado-
res do bairro era violado tanto pelos comerciantes, que
utilizavam as calçadas para expor seus produtos, como
pelos motoristas, que estacionavam os carros em cima
da calçada, o que inviabilizava a locomoção dos pedes-
tres. Eles tinham que disputar as ruas com os carros
em alta velocidade, correndo risco de vida. No dia 10 de
maio de 2008, eu, Lisa Castro, Léo da XIII, Guará e Júnior
fomos para rua e fizemos o documentário “Cefam: pelo
direito de ir e vir”, em que entrevistamos alguns morado-
res que mostraram a sua revolta com a situação e flagra-
mos algumas violações.
Algumas semanas depois, esperávamos de cinco a oito
escolas para a passeata contra a dengue, com cerca de
50 alunos cada uma. Mas não sabíamos que havia uma
espécie de rixa entre elas. Somente uma escola apare-
ceu, com seis alunos, o que causou grande decepção.
O Dumontt resolveu adiar a passeata. Quando todos
já tinham concordado que adiar seria a melhor opção
naquele momento, chegou uma escola com quase 100
crianças, carregando faixas, cartazes e folhetos. Fize-
mos a passeata, filmando todo o processo e encantando
os lugares por onde passávamos.
Fizemos um documentário com as imagens captadas
nesse dia chamado “Cefam: na luta contra a dengue”. O
retorno da comunidade foi muito positivo. Distribuímos
100 DVDs com o documentário, o exibimos no cineclube,
e conseguimos centenas de acessos no Youtube.
240 Enraizados: os híbridos glocais
Estamos só no início 241
Núcleo de mulheres
do Enraizados: uma
questão de gênero

Há dois tipos de pessoas:


as que fazem as coisas e as que ficam com os louros.
Procure ficar no primeiro grupo:
há menos competição lá.
— Indira Gandhi

As meninas do Enraizados sempre me cobravam pelo fato


de o Enraizados ser uma organização machista. Eu não
tinha muito pra onde correr, minha explicação era sem-
pre a mesma: “Eu não posso criar um núcleo de mulheres
porque eu sou homem, vocês têm que se organizar para
tomar conta e ocupar o espaço de vocês na organização.”
A Lisa Castro já era bastante atuante no Enraizados, mas
sozinha realmente era difícil conseguir muita coisa. Em
2008, a Janaina Oliveira, mais conhecida no cenário hip-
hop como Re.Fem, começou a se aproximar do Movimento
Enraizados, apesar de eu já a conhecer havia uns cinco anos
e ela sempre participar das atividades da organização.
A Lisa Castro e a Re.Fem fazem parte de um projeto
chamado “Rap de saia”. Elas se juntaram e idealiza-
ram o evento Donas da Arte, cuja primeira edição foi
no dia 31 de maio de 2008. Nesse dia circularam deze-
nas de mulheres pelo Espaço Enraizados, participando
de diversas atividades. Eu, Átomo, Dumontt e Guará
somente carregávamos o pesado.

242
Estamos só no início 243

O Donas da Arte nasceu para dar visibilidade à arte das


mulheres, especialmente as de Nova Iguaçu, de qualquer
faixa etária. O importante era ter um dom. O evento deu
visibilidade pro trabalho dessas mulheres, permitindo
que outras pessoas da comunidade admirassem suas
artes, elevando a autoestima da mulherada. Aconteceram
sete edições do Donas da Arte, que hoje se transformou
no Núcleo de Mulheres do Movimento Enraizados, lide-
rado por Janaina Oliveira (Re.Fem) e Lisa Castro. A ideia é
inserir discussões sobre a questão de gênero no dia a dia
das pessoas que fazem parte da Rede Enraizados.
Financeiramente o Espaço Enraizados ia mal das pernas,
mas socialmente estava indo muito bem. A partir de junho
fechávamos as portas da organização para nos dedi-
car somente a escrever projetos. O simples fato de abrir
o Espaço Enraizados gerava custos altos, por isso eu e
Dumontt decidimos deixar os portões fechados enquanto
nos dedicávamos à elaboração de projetos. Nessa época
já havíamos nos comprometido com a Fase para fazer um
encontro de juventude no Espaço, que rolou num astral
superlegal. Participaram organizações de juventude que
não eram necessariamente de hip-hop, como a Rede Funk
Social, a Pastoral da Juventude, a Arte Jovem, os jovens
griots, Anticinema e Com Causa.
Eu me sentia realizado toda vez que uma pessoa nova
conhecia nossa sede, por isso organizei um churrasco no
dia 28 de junho e convidei uma galera da Rede Enraiza-
dos no Rio de Janeiro.
Como sempre, vieram pessoas de diversas partes do
estado, mas algumas nunca haviam estado em Morro
Agudo e marcaram presença nesse encontro. O DJ LP,
o Eddi MC, que levou seu filho e a rapper Jamile, o que
aumentou mais um pouco nossa rede. Compareceram
também um pessoal novo de Mesquita e Campo Grande
Estamos só no início 245

que queriam conhecer o espaço, e os amigos de sempre:


Mad, Nelinha, Pêvirguladez, Pinah, Slow da BF e Re.Fem,
sem contar com os residentes e minha família – minha
mãe e minhas tias que ficaram cuidando do rango.
A galera se identificou bastante com a biblioteca, muitas
pessoas ficaram lendo durante o evento, que terminou
às 22h com apresentações de rap de quase todos os que
estavam presentes. A convite do secretário de cultura
de Nova Iguaçu, Marcus Vinícius Faustini, participamos
da Conferência de Cultura de Nova Iguaçu. Dividi a mesa
com o próprio secretário e com a Ivana Bentes, diretora
da Escola de Comunicação da UFRJ. Apesar de essa não
ser nossa primeira atuação numa Conferência de Cultura,
sempre fomos bastante ativos na vida política da cidade,
era a primeira vez na mesa com pessoas dessa influência.
Mil fitas
acontecendo

Quem não é contra nós é por nós.


— Marcos 9:40

Eu e Dumontt estudávamos muito para poder sair


daquela situação financeiramente incômoda. Estáva-
mos endividados com cartões de crédito e cheque espe-
cial, e até pegávamos dinheiro emprestado com nossos
familiares para arcar com os compromissos do Movi-
mento Enraizados.
O Dumontt sinalizava que o caminho para sairmos dessa
crise seriam os editais públicos, eu aceitava sua ideia,
mas mesmo assim insistia em abrir espaço para even-
tos. Foi quando surgiu a ideia de fazermos o evento
“Hip-hop (+)”, que durou até dezembro, contabilizando
24 edições que aconteciam toda semana. Passaram pelo
“Hip-hop (+)” os rappers Léo da XIII, Ultimato à Salvação,
Poetas da BF, Fator Baixada, Realidade, Dudu de Morro
Agudo, Marcio RC, BDO MCs, K.A.S, Estilhaço, Marcelo
Comuna, Slow da BF, Wr Soul, DJ Pica Pau, Dom Black,
Pêvirguladez e Sagat. Fizemos também algumas edições
especiais como a do Encontrão e a de b. boys.
O “Hip-hop (+)” era um evento de produção coletiva. O
artista era convidado, ou entrava em contato com a
organização para fazer uma apresentação, e entrava

246
Estamos só no início 247

na programação do mês, que começou às sextas-fei-


ras. Fechávamos quatro artistas por mês, um para cada
sexta-feira. O Movimento Enraizados se comprometia
em fazer 10.000 flyers com a programação mensal, o que
daria 2.000 flyers para cada artista e mais 2.000 flyers
para a organização divulgar.
Era o mesmo princípio das coletâneas. Se cada artista
divulgasse seu próprio evento, estaria também divulgando o
evento dos outros artistas. Além disso, a organização entre-
vistava o artista na semana do show e publicava a entre-
vista no Portal Enraizados, o que aumentava a rotatividade
de matérias do portal. Fazíamos ainda e-flyers que divulgá-
vamos na internet através de sites de relacionamento e do
newsletter com mais de 60.000 e-mails válidos cadastra-
dos. A produção do dia ficava por conta dos artistas.
Às vezes dava um desânimo muito grande, pois havia
eventos em que ia apenas uma pessoa. Com o tempo
percebemos que isso dependia muito do comprome-
timento de cada artista na divulgação e na produção
do seu evento. Nem mesmo o mau tempo era capaz de
impedir a realização de um “Hip-hop (+)”. Em paralelo
aos eventos de rap a gente emprestava o espaço para
grupos organizados e artistas da cidade. Foi como acon-
teceu o Fórum de Juventude Negra e a apresentação
artística do Roberto Lara (músico e ex-secretário de
Cultura de Nova Iguaçu), que trouxe um outro público da
comunidade para dentro do Espaço Enraizados. Tenta-
mos também inserir o forró como opção. Era um evento
que estava dando certo. As pessoas curtiam o lugar, o
público do forró consumia as roupas de hip-hop, e come-
çamos a enxergar uma luz no fim do túnel, mas infeliz-
mente o produtor do evento vacilou.
No terceiro dia de evento, quando o local deveria se fir-
mar como o ponto de forró do bairro, o produtor não apa-
receu com o grupo e nem deu satisfação. Depois desse
248 Enraizados: os híbridos glocais

dia foi um furo atrás do outro, até que numa noite o grupo
que se apresentou cantava músicas pornográficas. Foi a
gota d’ água. Terminamos o evento na hora e as últimas
moedas do Enraizados se foram.
O Bruno Thomassin, cineasta francês, e sua esposa,
Jane Thomassin, amigos de muitos anos, são pessoas
envolvidas na minha vida, tanto pessoal quanto pro-
fissional, se é que conseguimos separar uma da outra.
Quando os conheci, não lembro bem o ano, estávamos
num bar em São Gonçalo, o Bruno fazia uma filmagem
para uns camaradas dele que eu também conhecia, e
nesse dia tive um embate ideológico com a Jane, mas
logo depois já éramos grandes amigos.
Dia 8 de agosto foi a minha apresentação no evento “Hip-
hop (+)”. Muitas pessoas estiveram presentes, foi ines-
quecível. O Bruno fez um vídeo com depoimentos dos
meus amigos e família. Fico emocionado toda vez que
vejo. Neste dia até mesmo a primeira-dama, Maria Antô-
nia, esteve presente com sua mãe e filho, e num rápido
bate-papo ela me informou que o edital para o Projovem
Adolescente seria aberto em breve, e ela achava que a
gente tinha o perfil para executar o projeto. Como essa
área não era minha especialidade, disse que falaria com
o Dumontt. O Dumontt achou legal e começou a tra-
balhar no projeto do Projovem Adolescente, dentre as
dezenas de outros que estávamos escrevendo.
Fomos convidados a participar de uma reunião que acon-
teceria em Brasília no dia 11 de setembro, em que se dis-
cutiria como seria a execução do Prêmio Cultura Hip-Hop
– Edição Preto Ghóez, uma espécie de consultoria do
governo com instituições nacionais e de referência den-
tro do hip-hop. O governo daria apenas uma passagem e
diária, mas era necessário que o Dumontt também esti-
vesse presente. Começamos uma busca louca por outra
Estamos só no início 249

passagem, contactamos dezenas de pessoas, até que um


dia ligamos para a Fase e eles atenderam o nosso pedido,
conscientes de que era uma ação importante para a orga-
nização. Estavam na reunião o Nino Brown, o Fama, o Gil
BV, o GOG, a Fabiana Menini, entre outros.
Articulação
internacional

O auge do sucesso é o luxo de dar a si mesmo


tempo para fazer o que se quer.
— Leontyne Price

A Escola de Música Eletrônica, uma organização sediada


no bairro da Cerâmica, em Nova Iguaçu, estava com pla-
nos de fazer um curso de DJ, mas queriam ensinar com
aparelhagem profissional e com ênfase no hip-hop, e
vieram nos procurar. Queriam que nós assumíssemos
a oficina na sede deles. Chamamos o DJ Soneca, da
Cidade Alta, para ministrar as aulas.
Nessa mesma época, a Ana Massa, uma mineira gente
fina que estudava na França e estava no Rio de Janeiro
fazendo uma pesquisa com grupos de jovens que traba-
lhavam com hip-hop, apareceu num sábado, dia da reu-
nião do Cefam, para nos pedir para acompanhar nossas
atividades. Ela havia começado a fazer uma pesquisa com
uma organização francesa chamada Talent et Develop-
ment e agora planejava fazer o mesmo no Rio de Janeiro.
Ana disse que havia passado por algumas organizações
no Rio de Janeiro, mas não tivera sucesso. Na conversa
com ela, estávamos eu, o Dumontt, o Kall, o Átomo e o UR
Clau. O Dumontt não viu problemas em ela acompanhar
as atividades, e inclusive orientou que acompanhasse o
DJ Soneca na Escola de Música Eletrônica. Era lá o local

250
Estamos só no início 251

onde ela poderia ter mais sucesso nas pesquisas, porque


além da oficina de DJ daríamos formação de ativismo e
militância, um pequeno braço do Cefam no bairro vizinho.
Avisei que não poderia levá-la e apanhá-la todos os dias
na Escola de Música Eletrônica. Meu tempo estava curto.
Eu levaria naquele dia e depois ela teria que ir sozinha.
Usei um termo típico de Minas Gerais para explicar onde
era o lugar que iríamos naquele momento: “É logo ali.”
Andamos cerca de três quilômetros e a Ana já estava
desistindo quando falei que realmente estava chegando.
Acho que depois desse dia ela nunca mais foi a pé do
Espaço Enraizados até a Escola de Música Eletrônica.
A Ana estava toda semana conosco, e com o tempo ela
começou a ir direto para a Escola de Música Eletrônica.
Foi inevitável que entrasse para a rede também. Fez
amizade com o DJ Soneca e com os alunos do curso, que
também gostavam muito dela.
O Ecio Salles me convidou para participar do seminário
Antídoto, em São Paulo. Este seminário é uma parceria
entre o Grupo Cultural AfroReggae e o Itaú Cultural. Eu
faria parte de um projeto chamado “Onda cidadã”, de
que já havia participado no Rio de Janeiro. Esse ano o
“Onda cidadã” estava inserido no Antídoto, para gerar
um conteúdo mais informal e jovem.
Eu saí do Rio de Janeiro pensando que o evento não seria
muito interessante, o que resultaria em textos com crí-
ticas bastante negativas da minha parte. Mas fiquei
surpreso com a qualidade do projeto, com a riqueza de
informações e com as maravilhosas e inspiradoras his-
tórias de vida que os participantes compartilhavam com
o público, formado em sua maioria por universitários e
estudiosos da área de ciências sociais – o que me deixou
muito insatisfeito. Na minha opinião, o público deveria
ser formado também por líderes comunitários.
252 Enraizados: os híbridos glocais

Foi nesse dia que ouvi falar do país Burkina Faso. Senti-
me um grande ignorante por não conhecer a história do
país. Fiquei mais surpreso ainda com a história de vida
do líder Koudbi Koala. Assisti ao documentário “Sete
dias em Burkina”, de Carlinhos Antunes e Marcio Wer-
neck, em que contam parte da história de Koudbi.
Quando saí da sede do Itaú Cultural fui abordado por uma
menina, estudante da UFRJ, que conhecia a mim e a his-
tória do Movimento Enraizados. Sua professora estava
fazendo um estudo sobre nós, inclusive já havia nos feito
algumas visitas. Começamos a conversar e falei do meu
interesse pelo documentário que acabara de ver, ela
disse que conhecia o Carlinhos Antunes e que poderia
me apresentar a ele. Concordei na hora e fomos até ele.
Eu e Carlinhos trocamos algumas ideias. Contei um
pouco sobre o Movimento Enraizados e ele me disse que
estaria no Rio de Janeiro na semana seguinte. Se qui-
séssemos, poderíamos articular uma sessão do filme
em Morro Agudo. Achei o máximo, na mesma hora liguei
para o Dumontt, que adorou a ideia.
Quando cheguei ao Rio, fui rapidamente convidando
alguns amigos para estarem presentes no dia da exibi-
ção do filme. Ainda teriam a oportunidade de conversar
com o próprio Koudbi Koala, Carlinhos Antunes e Marcio
Werneck. Foi um dia realmente construtivo. Participa-
ram do encontro eu, Dumontt, Bruno Thomassin, Cacau
Amaral, Átomo, Re.Fem e Lisa Castro.
Nossas conversas passaram pelo festival de cinema
de Burkina Faso, o Fespaco, por técnicas de gravação,
equipamentos, curiosidades sobre o país, entre outras
coisas. Quando Koudbi e os outros que o acompanha-
vam foram embora, ficamos conversando eu, a Re.Fem,
o Bruno Thomassim, o Cacau e o Dumontt e eu falei com
Estamos só no início 253

o pessoal do meu interesse em fazer um documentário


sobre o hip-hop, mas não queria fazer um filme clichê,
sem história ou com história repetida, eu queria algo
novo. Apresentei então a proposta do filme “Mães do
hip-hop”. A ideia de fazer esse filme surgiu a partir de
uma conversa que tive com a doutora Numa Ciro, que na
época fazia sua tese de doutorado. Ela me fez várias per-
guntas, uma delas a respeito do que minha mãe achava
da minha trajetória no rap, e eu não soube responder.
Fui dormir com a ideia na cabeça e sonhei com o filme.
Acordei com ele quase pronto, inclusive já definidas as
pessoas que participariam da produção. Todos ficaram
interessados na empreitada. A conversa sobre o assunto
durou alguns meses.
Três dias depois da visita de Koudbi Koala, recebemos
aproximadamente 40 chilenos, de Santiago. Foram
conhecer o Espaço Enraizados junto com a Fase. Faziam
parte do projeto “Derechos e direitos”, e esse intercâm-
bio era muito importante para nós. Eles passaram tam-
bém pelo Setor BF, em Mesquita, e depois foram noutra
favela do Rio de Janeiro. Demos uma volta com eles pelo
bairro, os levamos na praça de Morro Agudo, na estação
de trem, na farmácia, e depois fomos almoçar.
Como de praxe, contamos a história do Movimento
Enraizados.
Muitos ficaram impressionados com a nossa estrutura,
disseram que nossa vida era um sonho. Principalmente
o Zerta e o José, que pensavam em morar no Brasil por-
que as coisas aqui pareciam mais fáceis para o hip-hop.
Eu avisei que não era bem assim, quando tivesse um
tempo eu contaria toda a trajetória do hip-hop, e como
nós havíamos conseguido o que temos. Depois dessa
correria fomos para Cabo Frio, para um encontro
254 Enraizados: os híbridos glocais

internacional organizado pela Fase, em que cerca de


200 jovens dos países do Mercosul (Argentina, Brasil,
Paraguai e Uruguai) mais o Chile participariam, durante
quatro dias, de uma série de debates, painéis e oficinas,
com o foco na exigibilidade de direitos. Além de parti-
cipar do evento a gente aproveitava para fazer nossas
articulações e aumentar a Rede Enraizados.
Fomos apenas eu e Dumontt para Cabo Frio, porque já
estávamos envolvidos com o projeto. Os militantes do
Enraizados (Kall, Lisa Castro, Átomo e UR Clau) assumi-
ram o controle e fizeram sozinhos o evento “Hip-hop (+)”
no Espaço Enraizados, sem a nossa presença, o que na
época não era comum. Hoje em dia as coisas já são bem
diferentes, e o evento bombou.
Tudo estava legal, as ligações com a imprensa conti-
nuavam firmes. Estávamos trilhando um caminho de
sucesso, articulações com o governo, com a imprensa,
com a iniciativa privada e com a sociedade civil. Come-
çamos a pensar na possibilidade das articulações inter-
nacionais presenciais, mas dessa vez nós é que iríamos
para outros países. Ainda não sabíamos como, mas já
estava decidido que iríamos. E quando a gente decide
uma coisa, ela acontece.
Em uma conversa entre a Ana Massa e o Dumont, surgiu
a ideia de fazer um projeto de intercâmbio virtual entre o
Movimento Enraizados e a organização francesa Talent
et Developement. O intercâmbio consistia em fazer uma
música e um vídeo coletivos. A metodologia era simples.
Escolheríamos juntos um tema, faríamos o beat no Bra-
sil e enviaríamos para os franceses. Todo o processo de
produção da letra da música seria gravado e depois o
Bruno Thomassin faria um filme.
Estamos só no início 255

Na hora de executar, utilizamos uma metodologia dife-


rente da organização francesa. Decidimos que o Léo da
XIII, que é da segunda geração de MCs do Movimento
Enraizados, faria uma oficina de rap com dois meninos
da terceira geração, o Kadu e o Júnior. Eles escreveriam
juntos e o Léo também participaria da música.
Foi o Léo quem fez o beat. Fiquei muito feliz e orgulhoso.
Vi que o cara que começou me vendo produzir música
tinha evoluído e até me ensinava a usar alguns softwa-
res. Ele evoluiu também na maneira de escrever e cantar
rap. Alguns garotos começavam a cantar influenciados
por ele. O Léo tem uma maneira peculiar de ensinar a
fazer rap, parece que ele semeia uma semente no cora-
ção da galera e muitos nunca mais param de cantar.
A organização francesa trabalhou de modo totalmente
diferente. Eles se reuniram num grupo de 15 pessoas e
conversaram sobre o Brasil, o que eles conheciam do
Brasil. Depois fariam um rap em cima do tema escolhido.
O tema do rap era “As nossas cidades”, Nova Iguaçu e
Blanc Mesnil. Retrataríamos os problemas sociais e
depois faríamos uma comparação entre as duas cidades
e os dois países.
O pulo do gato

Qualquer homem pode alcançar o êxito


se dirigir seus pensamentos numa direção
e insistir neles, até que aconteça alguma coisa.
— Thomas Edison

Apesar de continuarmos no osso, sem dinheiro e cheios


de dívidas, ainda assim executávamos vários projetos
simultaneamente. Era bom fazer isso. Toda vez que eu
pensava que perdi dez anos da minha vida trabalhando
em algo de que não gostava, me empenhava mais nos tra-
balhos dentro da organização, mesmo que não ganhasse
dinheiro com isso, mas chega um ponto que fica inviável
e o dinheiro tem que vir de algum lugar. Somente no final
de 2008 as notícias boas começaram a chegar. Durante o
ano pulverizamos cerca de dez projetos, para vários luga-
res, e, por incrível que pareça, aprovamos os dez. Nosso
investimento em conhecimento começava a dar retorno.
Dentre os projetos aprovados estavam o Projovem Ado-
lescente (Ministério de Desenvolvimento e Assistência
Social), a Biblioteca Enraizados (Casa da Moeda do Bra-
sil), ambos executados durante o ano de 2009; Festival
de Hip-Hop VIII Encontrão (Fundo Municipal de Cultura),
executado no início de 2010; o filme “Round one Morro
Agudo X Comendador Soares” (Fundo Municipal de Cul-
tura); o Pontão de Cultura Digital (Ministério da Cultura)

258
Estamos só no início 259

e o Pontinho de Cultura (Prefeitura de Nova Iguaçu), rea-


lizados em 2010. Além dos outros projetos que executa-
mos sem recurso financeiro.
Em dezembro começamos a contratar os funcionários
que trabalhariam no Projovem Adolescente e na Biblio-
teca Enraizados. Como não queríamos qualquer pessoa
trabalhando para nós, eu Dumontt começamos a trazer
pessoas próximas e depois contratamos aquelas que
tinham um perfil parecido com o da organização. Fize-
mos imersão em que explicávamos o projeto que seria
executado e falávamos sobre a organização. O projeto
deveria se integrar à organização, não iríamos somente
executar o projeto, nós viveríamos o projeto. De novo
crescemos absurdamente.
A cada ano era mais difícil para nós, eu e Dumontt, traçar
as metas, as atividades nos atropelavam, mas sempre
fazíamos um esforço para colocar nossos pensamentos
em sintonia. Fazíamos uma análise do ano que passara
e definíamos as metas para o seguinte, mesmo sabendo
que iríamos bem além daquilo, era somente para ter uma
direção. A organização que devia dinheiro a todo mundo
conseguiu pagar todas as contas e ainda contratou 40
pessoas durante o ano. A experiência de lidar com pes-
soas era nova pra mim, e se o Dumontt não estivesse à
frente eu certamente não conseguiria.
Conhecer pessoas é muito bom, mas lidar com elas no
dia a dia é algo muito difícil que, sinceramente, não me
agrada. Por exemplo, não gosto de falar duas vezes a
mesma coisa, acho que quando as pessoas sabem de
suas obrigações a cobrança é desnecessária. Mas esse
pensamento só funciona na minha cabeça, o mundo real
é diferente. É administrar, acompanhar, cobrar, elogiar,
chamar a atenção e muitas outras coisas que têm que
ser feitas a todo momento.
260 Enraizados: os híbridos glocais

O Dumontt tem o prazer, e o dom, de desenvolver algu-


mas atividades que eu não consigo, não gosto e não
tenho vontade de aprender. Já eu gosto de fazer outras
coisas que ele também não tem a mínima intenção de
aprender. Acho que esse é o segredo de a gente traba-
lhar juntos há tanto tempo, alimentando a organização.
Além da confiança que temos um no outro.
Para executar o Projovem Adolescente, a equipe deve-
ria atrair os adolescentes para as atividades oferecidas
pelo Movimento Enraizados. Eles deveriam ter entre 15
e 17 anos, serem moradores do bairro e beneficiários
do Bolsa Família (programa social do Governo Federal).
Como tínhamos que executar o projeto em dois polos,
nos bairros Morro Agudo e Austin, tivemos que alugar
outro espaço em Austin, maior do que o de Morro Agudo
e com uma piscina enorme.
A gente fazia de tudo para atrair os adolescentes. Eu
mesmo fiz apresentações no Espaço Enraizados e em
outros lugares onde havia meninos e meninas com o
perfil do projeto. Até mesmo as oficinas que seriam exe-
cutadas deveriam chamar a atenção dos adolescentes.
Decidimos colocar oficinas de DJ, ministrada pelo DJ
Soneca, de cinema, Bruno Thomassin, de rap, pelo Léo
da XIII , e de jornalismo, pela Flávia Ferreira.
No mês de abril começamos as filmagens para o filme
“Mães do hip-hop”. Foi uma correria louca, grava-
mos tudo e editamos em um mês. A equipe – Dumontt,
Re.Fem, Cacau Amaral, Bruno Thomassin, Felipe Fer-
reira e eu – adorava trabalhar nesse projeto. Marcáva-
mos as gravações com antecedência, pra não pegar as
mães de surpresa, e elas arrumavam uns comes e bebes
pra gente. Toda filmagem tinha comidinha pra galera.
Estamos só no início 261

Cada um tinha uma função específica nas filmagens. O


Bruno era responsável pela fotografia, a Re.Fem e eu
estávamos na direção e no roteiro, o Cacau como auxi-
liar de fotografia, Felipe Ferreira técnico de som e o
Dumontt na produção. No meio do projeto o Dumontt já
estava na fotografia e eu e a Re.Fem captando o som. No
final éramos eu e Re.Fem dirigindo a edição, e o Bruno
editando. Foi um processo cansativo, mas muito impor-
tante. O filme pronto ficou maravilhoso. O Bruno ainda
legendou para francês.
Além de pegar pesado no filme “Mães do hip-hop”, o
Bruno Thomassin ainda fazia da oficina de cinema uma
das que os adolescentes mais gostavam. Lembro que o
Bruno ficou um pouco inseguro na hora de aceitar o con-
vite para dar a oficina. Como ele é francês, achou que
o idioma pudesse prejudicar o entendimento das aulas,
mas o Bruno é o francês mais carioca que eu já conheci.
Um fato legal que aconteceu durante a oficina de cinema
foi a TV Brasil fazer uma matéria com o Bruno justa-
mente porque o ano de 2009 foi o ano da França no Bra-
sil. Todo francês que eles conheciam eram cheios da
grana e faziam um trabalho bem burocrático. O Bruno
seria um contraponto, um francês que trabalhava na
periferia da periferia.
O Bruno preferiu fazer a matéria no Espaço de Aus-
tin, assim os adolescentes poderiam ver a semelhança
entre os equipamentos da TV e os que eles usavam nas
oficinas, além das técnicas, que eram as mesmas que
eles aprendiam na oficina. A garotada achou o máximo.
Enquanto os profissionais faziam a matéria para a TV
Brasil, eles faziam a matéria para a TV Enraizados e
ainda tiraravam dúvidas com a galera da televisão.
262 Enraizados: os híbridos glocais

Outra oficina que no início eu achei que os adolescentes


não iriam aderir era a de jornalismo, mas eles se interes-
saram bastante e essa foi uma das mais frequentadas,
com menos evasão. Parecia um sonho, por causa do Pro-
jovem Adolescente cada vez mais gente frequentava o
Movimento Enraizados, e aos poucos essas pessoas se
envolviam também com a organização.
Estamos só no início 263
Nossa odisseia
pela Europa

Viajar é descobrir que todas as pessoas estão erradas


a respeito dos outros países.
— Aldous Huxley

Desde que meu disco ficou pronto, em abril de 2008, eu


tinha planos de fazer o lançamento fora do país. A nossa
rede já tinha uma grande articulação com países como
Colômbia, Chile, Portugal, Finlândia, Estados Unidos,
Japão, França, Alemanha, Espanha, México, Angola,
Moçambique e Argentina, mas não sabíamos se estáva-
mos preparados para essa nova odisseia.
Eu, o Dumontt e o Kall fazíamos um curso de inglês no
Brasas de Nova Iguaçu, um dos melhores, conseguimos
bolsas de estudo através de uma articulação. Nós já sabí-
amos que precisávamos dominar outros idiomas para
diminuir cada vez mais o contato com os intermediários.
Quando a Ana Massa se despediu de nós, lembro que ela
fez uma cara de que nunca mais nos veríamos, e eu disse:
“Tchau, Ana, a gente se vê na França.” Ela achou engra-
çado o que eu disse e começou a rir. Eu então usei a céle-
bre frase do Racionais MCs: “Pode rir, mas não desacre-
dita, não!” Ela falou que botava fé, e rimos juntos.

264
Estamos só no início 265

Até que um dia o DJ Soneca chegou ao Espaço Enraizados,


acho que isso em fevereiro ou março de 2009, dizendo que
estava a fim de ir para a França, tinha contatos por lá. Lem-
bro como se fosse hoje, num dia ensolarado, ele chegou
meio desastrado querendo falar comigo:
— Dudu, cê tá ocupado?
— Não, fala aí!
— Cara, tô com uns contatos na França. O que tu acha
de irmos pra lá?
— Acho legal, por quê? Você quer ir?
— Sim, quero!
— Então vamos!

Ele começou a rir, e eu também. Até que o surpreendi:


“Eu tô falando sério. Tá a fim de ir? Ele deu uma gague-
jada e respondeu:
—Claro que tô, mas como vamos?

E eu disse:
— Essa parte você deixa comigo.

Ele voltou para dar oficina de DJ e eu fui conversar com


o Dumontt a respeito da viagem que estava decidido a
fazer. O Dumontt estava ocupado com a prestação de
contas do Projovem e não deu muita atenção quando falei
com ele a primeira vez, somente concordou como se eu
estivesse dizendo pra ele que nós íamos no bairro vizinho.
Perguntou para quando eu estava planejando a viagem,
respondi que não sabia ainda, o mais rápido possível.
Lembrei que o Gil BV, do Piauí, havia conseguido passa-
gens aéreas para a França através do edital do Programa
de Intercâmbio e Difusão Cultural, do Ministério da Cul-
tura. Entrei no site para ver o edital, baixei e no mesmo
instante comecei a escrever o projeto, antes mesmo de
acionar a Rede Enraizados na França pra saber a possi-
bilidade de irmos em maio, como o edital sugeria.
266 Enraizados: os híbridos glocais

A ideia era fazer um intercâmbio presencial do projeto


Iguaçu-Mensil, dando oficinas, palestras, workshops,
shows e produzindo um evento em parceria com a organi-
zação Talent et Developement. Como a equipe que traba-
lhava comigo no meu disco, DJ Soneca e Léo da XIII, tam-
bém estava envolvida no projeto de intercâmbio virtual
Iguaçu-Mensil, era tranquilo levá-los para dar continui-
dade ao projeto, promovendo um intercâmbio presencial.
Quando boa parte do argumento já estava preparado,
comuniquei ao Bruno Thomassin, que é francês, estava
envolvido na primeira parte do projeto e também iria
para a França em maio, que estávamos escrevendo um
projeto para viajar para lá, e que eu pretendia fazer uns
shows além do projeto Iguaçu-Mesnil e gostaria de con-
tar com ele para me ajudar na articulação e para quebrar
a barreira do idioma. Ele, como sempre, topou na hora.
Depois de acertado com o Bruno, liguei para Ana e contei
a novidade. Ela ficou muito feliz, disse que nos ajudaria
em Paris e começou a articular com a Talent et Develope-
ment para que nossa passagem por lá fosse produtiva.
O Bruno, por sua vez, conversava com a Rute – sua amiga,
que trabalha numa associação chamada MJC, na cidade
de Nancy – sobre a possibilidade de fechar shows por lá.
Ela disse que tentaria arranjar, mas já era quase certo de
nós tocarmos em maio na MJC. Se nós fôssemos pode-
ríamos ficar num apartamento da MJC exclusivo para os
artistas que se apresentam. Terminei de lapidar o pro-
jeto e enviamos para o Ministério da Cultura.
Fui falar novamente com o Dumontt que já havia man-
dado o projeto, ele perguntou se eu precisava de alguma
ajuda, estava muito envolvido com a prestação de con-
tas do Projovem Adolescente e com a faculdade, quase
não tinha tempo. Eu pedi que, se desse, seria bom ele
Estamos só no início 267

ajudar na articulação política. Pouco tempo depois


recebi a notícia de que o projeto estava aprovado. Todos
deveriam providenciar o passaporte e os outros docu-
mentos solicitados.
O Dumontt e o Léo da XIII resolveram esse problema rápido,
eu ainda precisava do certificado de reservista. Fui na
Junta Militar dar entrada no documento e só depois bus-
quei o passaporte. A situação do Soneca era pior do que
a minha. Ele não havia se recadastrado na Receita Fede-
ral e seu CPF estava inválido. Por pouco ele não conseguiu
resolver essa pendência a tempo de viajar.
Quando estava tudo certo com o governo, comuniquei ao
Dumontt que compraria nossas passagens. Ele pergun-
tou em que dia iríamos, eu disse dia 31 de maio. Ele se
assustou, a data da viagem estava muito próxima, e per-
guntou quanto tempo ficaríamos na França. Quando eu
respondi trinta e cinco dias, ele se assustou novamente.
Era muito tempo fora. O Projovem consumia muito o
nosso tempo. Além disso, ele cursava administração na
UFRRJ, como poderia ficar 35 dias longe da universidade?
De qualquer modo, Dumontt disse que tentaria resolver,
inclusive pediu que eu comprasse as passagens. Em cima
da hora a Rute confirmou um show na MJC no dia 29 de
maio, comprei a passagem para dia 25. Quando o Dumontt
comunicou aos professores que ficaria fora da faculdade
por mais de 30 dias porque iria pra França, todos libera-
ram, pediram inclusive presentinhos, mas disseram que
ele deveria estudar. Voltaria em época de provas.
Soube que o governo francês mandava de volta todos
os brasileiros que chegavam a Paris. Liguei novamente
para a agência onde eu havia comprado a passagem e a
atendente me orientou a fazer um seguro para cada pes-
soa que fosse viajar comigo. Pesquisei na internet e vi
268 Enraizados: os híbridos glocais

que realmente o governo francês solicitava o seguro, um


documento da prefeitura da cidade onde ficaríamos, a
reserva num hotel e um cartão de crédito internacional.
Eu fiquei preocupado, como pagaria o seguro? A gente
não tinha grana pra isso. Liguei para o Ministério da Cul-
tura e perguntei se poderia pagar o seguro com dinheiro
do governo. Eles responderam que sim, esta condição
estava inclusive no edital. Fizemos os seguros, falei com
a Rute e com a Ana sobre a possibilidade de conseguirem
a carta da prefeitura, e fui ao banco pedir ao meu gerente
um cartão internacional.
Graças a Deus estava tudo dando certo, até que a irmã
do Léo da XIII foi até o Espaço Enraizados saber sobre
a viagem. Ela me questionou, fez muitas perguntas,
estava preocupada com o irmão. Eu tentei acalmá-
la, disse que apesar de o Léo já ter 22 anos estava sob
minha responsabilidade. Eu jamais deixaria ele passar
dificuldade. Essa era uma oportunidade única pra ele.
Então eu disse: “Tem certeza que você quer privar ele
disso?” Ela disse que não e pediu pra eu cuidar dele.
Sabia que o Léo ficaria irritado quando eu contasse que
a irmã dele estivera no Espaço Enraizados. Pedi que ela
mesmo contasse e explicase que só falou comigo porque
estava preocupada. Esteve lá para saber mais, já que ele
não falava em casa.
Preparamos muito material para a viagem à França.
Além de várias cópias do meu disco, levamos muitas
blusas do Enraizados. Mas esperávamos maior retorno
do filme “Mães do hip-hop”, que estava pronto e com
legendas em francês. Então no dia 25 de maio nós quatro
fomos pela primeira vez para a França, sendo que para o
Léo da XIII e o Soneca era ainda mais emocionante, era a
primeira vez que os dois viajavam de avião.
Estamos só no início 269

Quando chegamos ao aeroporto Charles de Gaulle, em


Paris, a Ana Massa nos esperava, junto com a Anne, que
é advogada. Se houvesse algum problema na imigração
a Anne resolveria, era o que nós esperávamos que ela
fizesse. Foi ela também quem nos levou para a estação
de trem Gare de l’Est. Passaríamos os primeiros 14 dias
em Nancy, cidade que fica a uma hora e meia de Paris,
onde a Rute estava articulando alguns shows para nós.
Todas as pessoas que conhecemos em Nancy são ami-
gas do Bruno e da Jane Thomassin. Nos primeiros dois
dias passeamos pela cidade, conhecemos o centro his-
tórico, fomos a um restaurante árabe, fizemos compras
no supermercado, até que chegou o dia do show na MJC,
29 de maio. O combinado foi que faríamos a apresenta-
ção e depois o filme “Mães do hip-hop” seria exibido. O
Bruno me apresentou ao Henry, um senegalês, de apro-
ximadamente 1,80m, que toca pandeiro com maestria, e
eu o convidei pra participar do meu show.
A ideia era o Henry entrar tocando pandeiro no meio da
música “Não presto”. Ensaiamos algumas vezes, em
nenhuma deu certo, mas mesmo assim decidi colocá-lo
no show. Na hora que cantávamos a segunda parte da
música, o Soneca parou o beat e o Henry entrou tocando
o pandeiro. Eu continuei rimando, foi emocionante,
nunca tinha experimentado fazer algo assim nas minhas
apresentações. O público foi à loucura, realmente foi
muito emocionante.
Quando fomos assistir ao filme “Mães do hip-hop”, em
vez de olhar pra tela fiquei reparando na reação das pes-
soas para sentir se o filme passava a mensagem que que-
ríamos. Quando terminou, as pessoas vieram nos cumpri-
mentar, e reparei que somente depois de assistir ao filme
elas haviam entendido a proposta do Movimento Enraiza-
dos. O filme cumpria o seu papel até mesmo noutro país.
270 Enraizados: os híbridos glocais

Depois que cantei não vendi muitos discos, mas logo


que o filme acabou a galera comprou uns discos e até
autografei alguns. O bom era que o disco, que custava
R$6 no Brasil, era vendido por €6 na França. Depois que
cumprimos a agenda do show, o Bruno nos levou para
conhecer um casal de amigos, Hiogy e Vivane, e suas
filhas Mimi e Fujiko.
Dias depois conhecemos o Poeta, um ótimo músico, que
faz parte de algumas bandas da cidade e nos convidou
para fazer uma participação num show do Atomic Kids,
uma banda de rock liderada por ele, que faz umas inter-
venções com rap. No dia 31 de maio quando acordamos,
alguém ligou para o Bruno perguntando se os amigos
brasileiros já haviam chegado. Ele respondeu que sim e
perguntou o motivo da pergunta. O interlocutor explicou
que um avião da Air France que saiu do Rio de Janeiro
com destino a Paris havia caído no oceano. O Bruno
disse que nós já estávamos na França há alguns dias, e
desligou o telefone.
Quando ele me contou o que havia acontecido lembrei
que nós estaríamos nesse voo, a sorte é que a Rute tinha
confirmado o show do dia 29 de maio, por isso comprei
a passagem para o dia 26, e não para o dia 31, como já
estava definido. Deu-me uma sensação ruim. Contei
para o Dumontt e o Léo, ambos não ficaram muito preo-
cupados, mas quando contei para o Soneca, ele não con-
seguia acreditar que pudesse ser verdade.
Nossa passagem por Nancy estava sendo muito mar-
cante. A vontade e a disponibilidade de conhecer uma
nova cultura nos dava a oportunidade de participar de
atividades que víamos apenas em filmes, como, por
exemplo, um piquenique. Fizemos várias amizades em
Nancy e gostamos muito de ter passado por lá, mas no
dia 9 de junho tínhamos que ir para Paris começar o pro-
jeto com a Talent et Developement.
Estamos só no início 271

A Ana Massa foi para a casa de um amigo e nos empres-


tou seu apartamento, que é superpequeno, mas aco-
modou cinco adultos (eu, Soneca, Dumontt, Léo da XIII
e Bruno) por mais quatorze dias. Além de fazer a articu-
lação e produzir várias atividades de que participamos,
a Ana, a Anne e a Bettina nos proporcionaram momen-
tos únicos. Fazer um piquenique no canal de Lurc, outro
piquenique em frente ao museu do Louvre, depois ir ao
Louvre, passear pelas margens do rio Sena, fazer um
show num Squat e, é claro, conhecer a torre Eiffel.
Na primeira vez que estivemos em Blanc Mesnil conhe-
cemos a sede da Talent et Developement, uma sala na
sede de outra organização do governo chamada La Mai-
son des Tilleuls. Neste dia somente vimos o local, Mar-
camos a oficina de DJ, a apresentação do filme “Iguaçu-
Mesnil” (sobre o intercâmbio virtual), e um rápido
bate-papo com a juventude local. No início a Ana ficou
um pouco preocupada. Ela não poderia nos acompanhar
no dia a dia, tinha que trabalhar. Nos ensinou a andar de
metrô e de trem, e a partir daí começamos a transitar
sozinhos pelas ruas de Paris.
No dia 13 de junho começaram as gravações de rap nos
estúdios da Talent et Developement. A Ana e a Anne ten-
taram organizar um pouco a ordem da gravação, mas
eram muitos meninos e todos queriam gravar conosco. A
gente chegou no estúdio e começou a escrever as letras
de rap. O Léo da XIII queria fazer som com todo mundo,
eu ia na energia dele e as músicas saíam muito boas.
Funcionava mais ou menos assim: a gente chegava às
10h, cinco garotos e garotas queriam gravar conosco.
Escolhíamos um tema; o Léo fazia 16 linhas, eu fazia 16
linhas e os garotos franceses deveriam fazer também
as 16 linhas, mas eles não tinham esse padrão, o que
dificultava bastante. Depois das letras escritas a gente
272 Enraizados: os híbridos glocais
Estamos só no início 273
274 Enraizados: os híbridos glocais
Estamos só no início 275
276 Enraizados: os híbridos glocais

gravava, sem mesmo ter decorado a letra. E após a gra-


vação, começávamos a escrever outra letra pra gravar
com outro cara.
Fizemos o som “Respeito”, com uma garota chamada La
Peste, que ficou muito bom, na letra, no beat e na levada.
A música está no Portal Enraizados (www.enraizados.
com.br) disponível para download.

Respeito
Léo da XIII

Com maior respeito tá ligado parceiro, direto do Rio


de Janeiro, Léo da XIII e Dudu de Morro Agudo, tâmo
envolvido aqui na Europa com a La Peste, se liga
como é que é.

Eu não gosto de quem leva e traz meu nome,


falar de mim pelas costas,
isso é coisa de quem não é sujeito homem
passando fome, sonhando com a Cherokee
tem uma Preta do lado,
mas quer tá casado com a Kelly Key
Super rimador, MC, direto da favela
história e ficção emociona quem vive de novela
a vida é bela né truta e curte mais quem tem
não quem acorda com o galo cantando e pega o trem
vai vendo bem, isso daqui não é viagem
é Léo da XIII no mic com a trilha inspirada no Sabotage
em alta voltagem, nem por isso de gloc
não sou perfeito, meu defeito fez meu hip-hop
não por ibope, por amor, assim é verdadeiro
visão artística no mundo, quem não quer dinheiro?
nem pagodeiro, nem roqueiro, nem superstar
apenas um moleque pele parda que veio pra ficar

Enquanto o sol brilhar e a lua aparecer


enquanto o dom permanecer, meu rap te envolver
Estamos só no início 277

eu vou, e não importa onde eu vou vagabundo


não sou o dono da verdade. Filho do dono do mundo

Dudu de Morro Agudo

Eu vi oportunidade onde ninguém encontrava


porque eu passei pela cidade que ninguém habitava
eu encarei o leão de frente e ninguém acreditava
que eu sairia de pé, enquanto ele se arrasava
sou vencedor e já provei mais de uma vez
porque eu driblei o terror e acenei pra vocês
o neguinho conquistou, o inimigo é freguês
a favela tá atuando e dispensando os dublês
sou da Baixada, cria da periferia
que cria melodia e realiza um sonho por dia.
Geral dizia: - Esses malucos são quente!
A mente tá carregada, são mais de trinta no pente
e consequentemente poesia vira prosa
o rap sai da gente a cento e vinte no corsa
a gente está contente e minha vida é a prova
de que a gente é que cava a nossa própria cova.

Essa letra foi feita como uma espécie de desabafo, para


mostrar pras pessoas que dá pra virar o jogo. É uma letra
que se relaciona com superação, por mais que você faça
correto, nunca vai agradar a todos. Sempre haverá uma
âncora querendo te levar pra baixo ou te deixar estag-
nado em algum lugar. A saída é seguir o seu caminho,
fazer aquilo que você acredita, realizar sonhos, essa é
a meta. Se você hoje está por baixo e estão pisando em
você, não desista. A roda da vida gira o tempo todo, e
mais cedo ou mais tarde você vai estar em cima. É como
a história do Enraizados ou de vários brasileiros.
Eu me sentia muito bem na França. Desde que cheguei
sempre fui muito bem tratado e as pessoas se esfor-
çavam para poder ajudar e agradar. Talvez fosse por-
que já tivéssemos amizade com algumas pessoas, ou
278 Enraizados: os híbridos glocais

simplesmente por sermos estrangeiros, as pessoas


queriam estar sempre perto de nós. Ali eu percebi que
nada é igual a um intercâmbio presencial. Eles nos leva-
vam pra almoçar, arrumaram um show para fazermos no
estádio de Blanc Mesnil, trouxeram beats para gravar-
mos. Além da troca de ideias, a parte mais legal.
O DJ Plays deu um mixer que custa R$3.000 para o DJ
Soneca horas depois de o conhecer, a Bettina – que é
argentina e trabalha num restaurante dentro do museu
do Louvre – conseguiu que nós entrássemos de graça
no museu e ainda arrumou uma comidinha pra nós no
restaurante onde trabalhava, a Anne conseguiu comida
e passagem de metrô para nós durante vinte e um dias.
Eu e Dumontt éramos os piores alunos no curso de inglês,
porque estávamos sempre envolvidos com alguma ati-
vidade do Enraizados e não tínhamos muito tempo para
nos dedicar aos estudos. Mas foi justamente o nosso
inglês que aguentou a barra na França. Era uma salada
de idiomas incrível. A Bettina falava espanhol e francês,
a Ana português e francês, a gente falava inglês e portu-
guês e, como diz o Dumontt, no final de tudo o que salvou
mesmo foi a linguagem de sinais.
Uma vez demos uma volta pelo bairro 212, e conhecemos
uma organização muito legal, onde passamos o filme
“Mães do hip-hop” para várias crianças. A intenção era
exibir o filme para adolescentes, mas naquela região
existe uma rixa entre bairros e os adolescentes não apa-
receram, somente as crianças assistiram. Na hora do
bate-papo, muitos deles nem prestaram atenção, mas
alguns , especialmente duas meninas chamadas Fanta,
que fizeram várias perguntas como essa: “Como vocês
dizem que são pobres e têm casas tão bonitas?” E a
gente respondia: “Nossa casa está em obras há mais
de 20 anos.” Elas riam e faziam outra pergunta ainda
mais engraçada, até que chegaram à pergunta que elas
Estamos só no início 279

queriam fazer desde o começo. Apontando para o Léo


da XIII disseram: “Vamos fazer uma pergunta anônima.
Ele é casado?” Todo mundo riu, elas tinham uns 8 anos
de idade. Como o Léo é pequeno, elas achavam que ele
era criança e se encantaram com ele, que respondeu o
seguinte:“Sim, sou casado e tenho uma filha quase da
tua idade.” Nesse momento todo mundo riu ainda mais.
Nossa passagem pela França era intensa, a gente quase
não dormia. Pegamos uma época boa, no verão, onde o
sol nascia às 5h e só ia embora às 22h, então quando
dava 22h achávamos que ainda eram 18h, e entrávamos
pela madrugada até perceber que o sol estava nascendo
novamente. O fuso horário nos deixou malucos. Sem-
pre que dava ligávamos para o Espaço Enraizados para
saber como estavam as coisas por lá sem nós. Sabia que
quando chegássemos ao Brasil trabalharíamos em tri-
plo. Não sei como o Dumontt faria as provas na facul-
dade. Ele sequer havia encostado a mão nos livros, nos
35 dias que passamos na França.
Eu ligava com frequência para a minha família, que es-
tava bastante preocupada com todos nós desde que o
avião da Air France caiu, no dia 31 de maio. No mês de ju-
nho um monte de aviões caiu pelo mundo afora. Toda vez
que passava esse tipo de notícia na televisão ficavam
bem apreensivos na minha casa. Sempre que eu e o Léo
ligávamos para o Brasil falávamos também com nossas
mulheres, ele com sua esposa, a Kelly, e eu com a minha
namorada, a Fernanda Rocha.
Tinha dias que o Léo ficava pensativo num canto, outros
ele nem saía da cama. Achei que ele estava entrando em
depressão, pensei que pudesse ser saudades da mulher
e da família. Convidei ele pra fazer uma letra de rap para
as nossas mulheres. Escrevemos, então, a letra abaixo,
“Pras pretas”, que teve a participação de Hallima e Amel,
cantoras francesas de R&B.
282 Enraizados: os híbridos glocais

Pras Pretas
Léo da XIII

Difícil imaginar como seria


um cara como eu se eu não encontrasse um dia
alguém como você, preciso te dizer
Preta, “mó” saudade de você
eu preciso te escrever, sei lá, desabafar
entre palavras, só uma pode me confortar
te amo, é você que eu clamo
quando eu deito na cama é você que eu chamo
lembro quando a gente se encontrou pela primeira vez
um beijo seu arrancando a minha timidez
no seu olhar enxerguei o começo de uma nova vida
passo contigo na rua, “as mina” duvida
”- O que esse cara tem? Ela é demais pra você!”
quer saber, sou romântico sim também curto lazer
vinte quatro horas de prazer, eu e você minha Preta
te declaro amor eterno através dessa letra

Hallima e Amel

La femme de sa vie
Cette flamme qui n’fait que d’agrandir
Fonder une famille
Finir ensemble réunies
« Saodadje » ma promise x 2
Carinho, Carinho
Notre enfant sera mon cado

Dudu de Morro Agudo

Cê sabe que eu te amo né preta, nem preciso falar


Se a gente conta nossa história eles vão duvidar
às vezes eu não tinha um “din” pra “nós” se divertir
e você ainda conseguia me fazer sorrir
eu boladão, travado, cheio dos esquemas
e você lado a lado resolvendo tudo quanto é problema
tem gente que ainda duvida do nosso amor
Estamos só no início 283

mas um dia eles aprendem, cê vai ver,


o tempo é professor
sorte grande pra dois amantes
o destino garante e a gente segue adiante
constante, no fluxo que a vida levar
sem luxo, só tendo o bastante pra gente se amar
você é a Preta mais linda que já se ouviu falar
as outras se contentem com o segundo lugar
porque amar faz mais sentido com você
pode esperar porque tem muita coisa boa pra gente viver.

Essa letra ficou muito boa também, tem uma energia


especial e de lá da França mesmo a gente já disponibili-
zou na internet. As garotas do rap no Brasil adoraram o
nosso som. Mas a letra que eu mais gostei de fazer foi a
de “Reencontro”, que eu fiz com a Amel. Parecia que eu
estava em transe quando escrevi. Consegui passar para
o papel tudo o que estava sentindo lá:

Reencontro
Dudu de Morro Agudo

Não importa o idioma e nem mesmo importa o país


O que importa é quem a gente ama e o que faz a gente feliz
Amor à primeira vista são amizades que a gente conquista
E a cada dia que eu passo em Blanc Mesnil,
cresce mais a minha lista

Quando rolar o “hasta la vista”


meu coração vai partir ao meio
e quando eu voltar ao Brasil ele vai se refazer, eu creio,
tem gente que dá valor a coisas que não têm valor
e não dá o mínimo valor às amizades que conquistou

Cê entende? É um lance meio espiritual


É bem mais do que a cor da pele, vai além do material
284 Enraizados: os híbridos glocais

Isso não sai no jornal, você nunca vai ver na TV


E a playboyzada por mais que estude,
eles nunca vão aprender

Que foi um grande prazer conhecer e estar com você


Periferia é periferia, provei na fonte mais uma vez
Parecia que eu sentia a energia que iria rolar aqui
Consegui achar semelhanças entre Morro Agudo e
Blanc Mesnil

Enquanto estivemos na França, passamos por quatro


casas, a última foi a casa de Chong e Marie Pierre. Eles
são ótima gente. Viveram no Brasil tempos atrás, o Bruno
falou que o Chong foi o engenheiro-chefe que fez a linha
do trem ou do metrô do Rio de Janeiro. O Chong quis nos
agradar de todas as formas. Abriu os melhores vinhos e
champanhes, inclusive teve uma história muito engra-
çada, pois a gente não conhecia esse tipo de bebidas.
Um dia o Chong abriu uma garrafa de champanhe que
não sei qual é o nome, só sei que era bem famosa, por-
que ele fez uma propaganda enorme antes de abrir a gar-
rafa, colocou na mesa junto com algumas comidas finas
e um vinho também muito fino. Tinha todo um ritual pra
comer o que no Brasil a gente chamaria de “tira-gosto”.
Toda casa em que o Léo da XIII chegava ele se tornava
o xodó da família, e na casa do Chong não foi diferente.
A Marie Pierre sempre tentava agradar o Léo de alguma
forma. Ele sempre tinha que estar na mesa conosco
senão tínhamos que ir buscá-lo. Eu não queria beber o
champanhe, mas o Chong fez tanto comercial da bebida
que não pude recusar, ele poderia ficar triste comigo.
Quando ele encheu a minha taça, bebi e fiz uma cara
como se aquele champanhe fosse a melhor coisa que
eu já tinha bebido em toda a minha vida. Ele nem preci-
sou perguntar o que eu tinha achado, só pela minha fei-
ção deduziu a resposta. Ao encher a taça do Léo da XIII,
Estamos só no início 285

foi sensacional, o Léo bebeu, a cara que ele fez foi a de


quem estava bebendo água. O Chong então perguntou o
que ele tinha achado da bebida. O Léo respondeu: “É né?
Boazinha.” E novamente fez cara de que estava bebendo
uma coisa qualquer, tipo um refrigerante Simba. Foi o
limite pra todo mundo mudar de assunto antes que o
Chong tivesse um troço.
Depois que exibimos o filme “Mães do hip-hop” na pre-
feitura de Blanc Mesnil nosso último compromisso era
produzir e participar da Festa das Associações, o que
foi enriquecedor para todos nós, uma produção nossa
com a Talent et Developement. Depois que terminamos
tudo o que tínhamos planejado voltamos pro Brasil, o
Bruno e a Jane Thomassin ficariam na França por mais
alguns meses.
Voltando para casa

Cada pequena vitória tem de ser celebrada.


— Lucília Diniz

Quando chegamos ao Brasil, encontramos o Espaço


Enraizados totalmente mudado. O que eu e Dumontt
tínhamos definido foi mudado sem que nos comunicas-
sem. Teríamos que arrumar a casa. Já havia convites
para participarmos de projetos de parceiros e ainda
deveríamos produzir a “Mostra Cultural Enraizados”,
nossa contrapartida para o Governo Federal referente
à viagem pra França.
A “Mostra Cultural Enraizados” foi no dia 26 de setem-
bro de 2009. Aconteceram as seguintes atividades:
mostra de resultados do projeto de intercâmbio Iguaçu-
Mesnil; apresentação de Capoeira com o instrutor do
Projovem Adolescente; tenda estilizada de fotografia;
lançamento dos livros “Poesia revoltada”, de Écio Sal-
les, “Acorda hip-hop”, DJ TR, com direito a palestra e
debate; exibição do filme “Iguaçu-Mesnil”; exposi-
ção de fotografias do projeto Iguaçu-Mesnil; inaugu-
ração da Biblioteca Enraizados; teatro e show de rap
com os grupos do casting da organização. Cerca de 500
pessoas passaram pelo Espaço Enraizados durante a
“Mostra Cultural Enraizados”.

288
Estamos só no início 289

No dia 15 de novembro de 2009, eu e Dumontt fomos para


Santiago, no Chile, participar do projeto Muro Por La Paz,
a convite do amigo da Rede Enraizados no Chile, Zerta
Rapper, que visitou o Espaço Enraizados em outubro de
2008. Lá encontramos o Dante, grafiteiro de Mesquita
(RJ), conhecemos os grafiteiros de Macaé, Muk e Ric, que
entraram pra Rede Enraizados, e também reencontramos
muitos grafiteiros do Rio Grande do Sul que participaram
do projeto “Seis direções”, em janeiro de 2008.
Esse evento no Chile materializava bem a nossa Rede Era
através dos nossos pontos que a galera se comunicava e
se conhecia, a gente colaborava de alguma forma e colo-
cava as pessoas em contato. Quando voltamos do Chile
continuávamos com a missão de participar de projetos
parceiros, e então logo no comecinho de dezembro par-
ticipamos do Fórum de Mídias Livres, na Ufes, em Vitó-
ria, e da Universidade das Quebradas, na UFRJ, no Rio
de Janeiro. Atualmente, executamos o Pontão de Cultura
Digital, o Projovem Adolescente, o Pontinho de Cultura, a
Biblioteca Enraizados, o Telecentro Comunitário e o filme
“Round One: Morro Agudo X Comendador Soares”.
Temos também projetos de comunicação que envolvem
a Revista Enraizados. Estamos reformulando o Portal
Enraizados, a Rádio Comunitária e online, e criamos
um núcleo de comunicação para mostrar de modo mais
eficiente a evolução de cada projeto e os passos da
organização. Faremos mais cópias do meu disco “Rolo
compressor”, que esgotou. Prensaremos o DVD do filme
“Mães do hip-hop” com legendas em português, inglês,
espanhol e francês.
Contamos com um quadro de excelentes profissionais,
que já conhecemos há muito tempo, que agora traba-
lham conosco. Alexandre de Maio (“Rap Brasil”, “Folha
de S.Paulo” e “Revista Raça”), Bruno Thomassin (La
290 Enraizados: os híbridos glocais

Casa Loka), Simone, Re.Fem, Léo da XIII, Lisa Castro,


além de todas as outras pessoas que são extremamente
importantes para um bom desempenho da organização.
Este livro termina aqui, mas vamos aguardar a segunda
parte em 2020. Nossa história não tem fim!
Anexo
Movimento Enraizados por
Movimento Enraizados
(Frases no twitter)
Augusto (Rio Branco – AC)
O Enraizados é família de caboclo! Enraizados é poder
contar com a rede que te socorre em qualquer lugar do
país onde exista um computador conectado, seja no
âmago da floresta ou no meio do fim do mundo.

Verídico (Boca do Rio/Salvador – BA)


O Enraizados se concentra na ideia de que podemos mudar
de lugar, mas nossas raízes sempre serão as mesmas.

GOG (Ceilândia - DF)


Enraizados é o sentimento de transformação arraigado
nas comunidades do Rio de Janeiro e nas periferias do
planeta se faz atuante.

J3 (Vitória-ES)
O Enraizados é mais uma iniciativa louvável que surgiu
para fortalecer o hip-hop no Brasil, divulgando a grande
variedade de talentos da cena nacional e facilitando o
nosso intercâmbio.

Lamartine Silva (São Luiz – MA)


Enraizados é a cadeia de comunicação que nasce no
Rio, se espalha pelo Brasil e como uma peste benigna se
alastra pelo mundão, pregando não a inclusão, mas uma
forte e necessária revolução, em que a cultura e a arte
sejam o instrumento de solução.

Jéssica Balbino (Juiz de Fora – MG)


Enraizados é a raiz da cultura nos becos e vielas do Rio
de Janeiro. É arte enraizada no coração dos brasileiros!

Gil BV (Teresina-PI)
A frase “Nunca deixe de sonhar” foi seguida pelo
Enraizados ao pé da letra. Acompanhei toda a luta na

292
Anexo 293

construção do que é hoje o maior espaço de cultura


digital e alternativa do Rio de Janeiro.

Janaina Oliveira (Parada Angélica/Duque de Caxias - RJ)


Enraizados é uma rede de pessoas que acreditam na
transformação social por meio da cultura e amam
construir parte da história hip-hop no Brasil.

O Átomo [U-SAL] (Morro Agudo/Nova Iguaçu - RJ)


Lembro da minha adolescência ociosa, das confusões
em que me meti. Entre mortos e feridos, cá estou, graças
a Deus. Ah se houvesse um quilombo como o Enraizados!

Jana Guinond (Tijuca/Rio de Janeiro - RJ)


Enraizados é um espaço para reflexões que rompe a bar-
reira do som, do racismo, da invisibilidade e o principal:
conquista o mundo.

Samuel Azevedo (Miguel Couto/Nova Iguaçu - RJ)


Enraizados é um campo de batalha mitológica, onde
nos faz expurgar a metástase da alma e enxergar o rival
cometer harakiri. Um ótimo anticoagulante cerebral.

Numa Ciro (Santa Teresa/Rio de Janeiro – RJ)


Enraizados é o macete loko puxado pelo rap de raiz
de Dudu de Morro Agudo, que faz da sua autobiogra-
fia uma rede que tece, por meio da arte, a história dos
seus contemporâneos.

Pêvirguladez (Duque de Caxias - RJ)


Ser “Enraizados” é usar suas origens, seu habitat e sua
cultura para reordenar a sociedade, mostrando que a
“revolução” parte do nosso interior, e não do exterior.

MC Marechal (Niterói - RJ)


Enraizados é plantio de futuro... Um só caminho...
294 Enraizados: os híbridos glocais

Adriana Facina (Santa Rosa/Niterói - RJ)


O Enraizados é a vitória da fé no trabalho criativo e a
certeza de que a revolução que construirá um outro
mundo virá das periferias.

Luiz Eduardo Soares (Rio de Janeiro - RJ)


Enraizados são lunáticos maravilhosos numa salinha
apertada em Nova Iguaçu conversando com o planeta e
evocando os deuses da paz e da justiça.

Big Richard (Rio Comprido/Rio de Janeiro - RJ)


Enraizadamente o Enraizados subverte a ordem e
reconstrói a autoestima dos carenciados, reconectando
de Sul a Sul a esperança. É tudo nosso!

Hannah Lima (Flamengo- RJ)


Enraizados é algo que brota da terra e se expande
em direção ao universo. Raízes fincadas e mentes em
expansão criativa.

Marcus Vinícius Faustini


(Santa Teresa/Rio de Janeiro - RJ)
Os Enraizados são um bando de botocudos!!!

Alexandre Taurus (Petrópolis/Natal - RN)


Enraizados é um movimento cultural democrático que
despertou em mim uma forma de escrever que vai além
do rap. Transparência e amor pelo hip-hop.

Edjales Fama (Porto Velho-RO)


O Movimento Enraizados é uma inovação no conceito
de rede sociais. Ultilizando a internet como meio para
essa inovação, consegue articular informação, políticas
públicas, cultura, arte, comércio justo e etc. sempre em
uma linguagem acessível e jovem.
Anexo 295

Débora Bós e Silva (Bento Gonçalves-RS)


O Enraizados é um movimento que se preocupa com seus
membros, busca fazer atividades de cunho social utilizando
estratégias como a informação e a cultura, de forma a
mostrar que a participação popular pode se dar por diversos
meios, possibilitando uma transformação na sociedade.

Fabiana Menini (Porto Alegre – RS)


Conheço o Enraizados, acredito no Enraizados e tenho
certeza da força e do poder de transformação deste
grupo, que de sua comunidade muda o mundo.

Noise Dee (Menino Deus/Porto Alegre - RS)


Enraizados é ser forte. Ter o conhecimento como
alicerce e capacidade de reação. É lutar pela essência e
mudar esse mundão.

Dimenor (Parque Bristol/São Paulo – SP)


O Enraizados e o hip-hop chegaram para romper barreiras
e contrariar o que o sistema burguês impõe. O Enraizados
é o sucesso de uma vida de vitórias, estudos e amizades.

Alessandro Buzo (Itaim Paulista/São Paulo - SP)


Enraizados é você ser do hip-hop e pensar grande.
Se fosse pra pensar pequeno era melhor curtir axé!
Enraizados é ser líder!

Jurandir Fernandes (São Paulo – SP)


O Movimento Enraizados é como uma grande árvore
onde cada galho representa uma história, atitude,
opinião, respeito e humildade.

MC Taike (Palmas - TO)


Enraizados é a gente poder ajudar a nossa comu-
nidade com o pouco de conhecimento que cada um
possui na mente.
296 Enraizados: os híbridos glocais

Zerta Rapper (Peñalolen/Santiago – Chile)


Son un ejemplo para los jóvenes que sueñan con cambiar
su país, porque en sus proyectos si logran beneficios
colectivos e integradores.

São um exemplo para os jovens que sonham em mudar


seu país, porque seus projetos produzem benefícios
coletivos e integradores.

Bruno Thomassin (Galo Branco/São Gonçalo - RJ/


Nancy - França)
Enraizados é coletivo de hip-hop, grupo de rap militante,
rede de autoajuda, Centro de Cultura Alternativa, Pon-
tão de Cultura, Biblioteca Comunitária... O Enraizados
cresce na busca de uma sociedade mais justa onde cada
um tenha o seu lugar.

MC Kabron (Peñañolen/Santiago – Chile)


Movimientos como el de Enraizados son fundamentales
en Lationamerica, ya que generan instancias de partici-
pacion juvenil, en el ambito del arte y porsupuesto social.
Ojala el modelo de Enraizados se pueda copiar en muchos
otros paises del cono sur un afectuoso, saludo desde Chile
hermanos mios de parte del Mc Kabron, Felix Bezares.

Movimentos como o Enraizados são fundamentais na Amé-


rica Latina, pois geram instâncias de participação juvenil no
âmbito artístico e, claro, social. Tomara que o modelo seja
adotado em muitos outros países da região. Saudações
afetuosas do Chile, irmãos, do Mc Kabron, Felix Bezares.

Ana Massa (Paris - França/Belo Horizonte - MG)


Tive o prazer de conhecer o Movimento Enraizados,
em 2008, em Morro Agudo. Encontrei portas abertas e
pessoas inteligentes e comprometidas com uma verda-
deira transformação social. Em 2009, estivemos juntos
Anexo 297

na França, quando o Movimento Enraizados fez prova


do seu profissionalismo, transformando a experiência
em Nova Iguaçu em uma contribuição generosa para
a reflexão e a mobilização dos manos, dos frères de
Blanc Mesnil. É o Movimento Enraizados fazendo rede,
articulando jovens e trabalhando para um mundo onde
as relações sejam mais justas e igualitárias.

Edilasio (Cazenga / Luanda - Angola)


Enraizados é um espaço de interação cultural mais
voltado ao hip-hop, onde podemos dar nossas opiniões,
e que nos faz sentir jovens de personalidade firme.

Ecio Salles (Olaria / RJ)


Enraizados é um abalo sísmico que propõe o ritmo da
dança e mistura os ingredientes; é gente junta, movi-
mento de cardume, melodia de enxame.

Letícia Almeida (Copacabana / RJ)


Enraizados é protagonismo revolucionário, resistência,
criatividade, coragem, uma linda estória de amor.

Célio Turino (DF)


Enraizados é a cultura brasileira sendo escrita por quem a faz.

Def Yuri (RJ)


Enraizados é ser integrado. É se ver enquanto parte de
uma fonte que integra percepções e ações em prol da
transformação em comum.

Queen Odara (RJ)


Enraizados redireciona futuros dando novo sentido
às vidas!!!
Posfácio

Conheci pessoalmente o Dudu de Morro Agudo em janei-


ro de 2010, apesar de já conhecer o trabalho do Enraiza-
dos há muito tempo. Quando tivemos a chance de con-
versar um pouco logo vi que tínhamos muito em comum.
O respeito por suas ideias veio de imediato e o convite
para dar um workshop e conhecer o Enraizados foi ma-
ravilhoso. Logo em seguida, estimulado pela cineasta
Re.Fem, o convidei para se apresentar no 4º Festival de
Hip-Hop do Cerrado, em Brasília.
A minha maior impressão sobre o Dudu não foi a apre-
sentação maravilhosa que ele fez, mas a humildade que
ele teve de, antes e depois do seu show, andar no meio
de um público de mais de 15.000 pessoas só para sen-
tir o calor humano das pessoas presentes e descobrir
novos motivos para seguir em frente. É impossível não
gostar do Dudu. Esse cara humilde, sincero, verdadeiro,
idealista e, acima de tudo, um visionário.
DJ Raffa
(Brasília - DF)

301
Imagens: índice
e créditos

P.26-27 Dudu de Morro Agudo na 3ª série, com 8 anos


foto: Acervo pessoal

P.28 Dudu de Morro Agudo na formatura do 1º grau, com os amigos


Luciano Gomes à esquerda e Márcio ao centro
foto: Acervo pessoal

P.29 Dudu de Morro Agudo na Comercial Lubi Peças, aos 14 anos,


quando trabalhava no setor financeiro
foto: Acervo pessoal

P.34 Dudu de Morro Agudo em seu aniversário de 18 anos, com os


amigos Luciano Gomes, Fernandinho e Bruno
foto: Acervo pessoal

P.35 Dudu de Morro Agudo na discoteca “Must”, em Nova Iguaçu,


com Fernandinho
foto: Acervo pessoal

P.41 Dudu de Morro Agudo com os colegas de trabalho do Lava


Jato, no bairro Camari, em Nova Iguaçu
foto: Acervo pessoal

P.47 Dudu de Morro Agudo na rua de casa com os amigos Fábio,


Alex Pneu e Fernandinho
foto: Acervo pessoal

P.52-53 Na Petrobras Distribuidora, onde fazia estágio


foto: Acervo pessoal

P.54-55 Dudu de Morro Agudo com os primos Wilson e Felipe e o


amigo Dedé Barbosa na festa que fazia na rua de casa
foto: Acervo pessoal

P.64-65 O amigo desenhista e rapper Wilson Nenem


foto: Dudu de Morro Agudo

P.66-67 Rodrigo Dimenor


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.71 Portal Enraizados


foto: Acervo Movimento Enraizados
P.79 Grafite do Enraizados no bairro Jardim Nova Era,
em Nova Iguaçu
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.85 Matéria no Jornal O São Gonçalo


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.92-93 Matéria na revista Megazine, do Jornal O Globo


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.94 Matéria na revista do SESC de Nova Iguaçu


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.95 Capa da Revista Rap Brasil


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.100 Alessandro Buzo e Dudu de Morro Agudo durante o


lançamento do livro Suburbano Convicto, no Itaim Paulista,
em São Paulo
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.101 Léo da XIII


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.105 Lisa Castro e Átomo, do grupo U-SAL, durante


apresentação no evento Raiz do Hip-Hop, no bairro
Cerâmica, em Nova Iguaçu, em maio de 2004
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.109 Matéria com Alessandro Buzo


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.115 Def Yuri, Dudu de Morro Agudo e Fábio ACM dentro do avião
rumo a Porto Alegre
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.124 Ministro Gilberto Gil durante o Fórum Social Mundial,


em 2005
foto: Dudu de Morro Agudo

P.126 Dudu de Morro Agudo e Claudio Prado dando palestra


durante o Fórum Social Mundial, em 2005
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.127 Estúdio do Centro de Referência do Hip-Hop, em Teresina,


no Piauí
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.136-137 Participantes da primeira reunião do Movimento Enraizados


em Morro Agudo
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.143 Grafiteiro Tihkin durante o 4º Encontrão, em Morro Agudo


foto: Acervo Movimento Enraizados
P.153 Os Enraizados durante o Fórum Mundial de Educação, em
Nova Iguaçu
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.154-155 Matéria na Revista Rap Brasil


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.164-165 Matéria no Jornal O Dia


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.168-169 O rapper maranhense Lamartine Silva e o cineatra francês


Lahzari durante entrevista no quadro Janela do Enraizados,
na Rádio Trocipal Solimões, em Nova Iguaçu
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.180 Taffarel, Aércio, Sebá, Kapella, Dudu de Morro Agudo e Joe


durante tributo ao mano Ita, em Mesquita (RJ)
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.181 Luiz Carlos Dumontt com as crianças do bairro Nova Era


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.189 Homenagem do governo do Estado do Rio de Janeiro ao


Movimento Enraizados
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.194 Dudu de Morro Agudo e Tiago Borba na quadra do CIEP 117


fotógrafo: Luiz Carlos Dumontt

P.206 Galera do Enraizados com as crianças do bairro Ouro Preto


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.207 Galera do Enraizados assistindo ao filme “E o meu direito


ao emprego?”
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.214-215 Primeira fotografia do Espaço Enraizados


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.216-217 Matéria na Carta Capital


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.225 Encontro de juventude na FASE


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.232 Prefeito Lindberg Farias e Luiz Carlos Dumontt durante a


inauguração do Espaço Enraizados, em abril de 2008
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.233 Terno (Enraizados SP), Big W e Dudu de Morro Agudo


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.234-235 Alessandro Buzo, Átomo, Kall Gomes e Lisa Castro


foto: Acervo Movimento Enraizados
P.240-241 Luiz Carlos Dumontt filmando a passeata contra a dengue,
em Morro Agudo
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.244 Re.Fem, Lisa Castro e Marcela (Dona da Arte)


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.249 Américo Córdola, Edjales Fama, Dudu de Morro Agudo


e Luiz Carlos Dumontt durante reunião sobre o Prêmio
Cultura Hip-Hop, em Brasília
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.256-257 Dudu de Morro Agudo contando a história do Movimento


Enraizados para jovens que vieram do Chile para conhecer
a organização
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.263 Equipe do Projovem Adolescente, em 2009


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.272-273 Luiz Carlos Dumontt, Hyogi, Dudu de Morro Agudo, Léo da XIII
e DJ Soneca, em Nancy, na França
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.274-275 Dudu de Morro Agudo mostrando o cartaz do seu show nas


ruas de Paris, na França
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.280-281 DJ Soneca, Dudu de Morro Agudo e Léo da XIII durante show


em um Squat, em Paris, na França
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.286-287 Léo da XIII, Bruno Thomassim (ao fundo), Chon, Marie


Pierre, Jane Thomassim, Dudu de Morro Agudo e Luiz Carlos
Dumontt na casa do Chon, em Medon, na França
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.290 Dudu de Morro Agudo, em Santiago, no Chile, durante o


evento Hip-Hop Por La paz, que entrou para o Guinness Book
foto: Acervo Movimento Enraizados

P.298-299 Galera do Enraizados durante o Oitavo Encontrão


foto: Acervo Movimento Enraizados

P.306 Dudu de Morro Agudo


foto: Alexandre de Maio
Sobre o autor

Dudu de Morro Agudo começou com 14 anos de idade


na cultura hip-hop. A identificação imediata com a lin-
guagem da periferia, as lutas de classe, a discrimina-
ção social e racial tão cantada nos raps o ajudaram a
construir uma consciência crítica e cidadã, retirando-o
da margem social para que pudesse ajudar outros ado-
lescentes que, assim como ele, também tinham um his-
tórico de exclusão cultural. A sua eloquência de líder
colocou-o cara a cara com aquilo que consideramos o
primeiro milagre do Enraizados: transformar três cartas
escritas a mão livre em uma rede de articulação multi-
cultural e intercontinental.
A Rede Enraizados não foi criada nem inventada, foi des-
coberta, aprimorada e maximizada sob a inconfundível
liderança desse “preto de conceito”, que consegue unir a
liderança juvenil, a articulação artística, a coordenação
de projetos e a amizade à vida prática. Do Rio Branco a
Poá, de São Luís ao Rio de Janeiro. Se militância e supe-
ração têm nome, pode chamá-lo de DMA.
Este livro foi composto em Akkurat.
O Papel utilizado para a capa foi o Cartão Supremo 250g/m².
Para o miolo foi utilizado o Pólen Bold 90g/m².
Impresso pela Imprinta Express em novembro de 2010.

Todos os recursos foram empenhados para identificar e


obter as autorizações dos fotógrafos e seus retratados.
Qualquer falha nessa obtenção terá ocorrido por total
desinformação ou por erro de identificação do próprio
contato. A editora está à disposição para corrigir e conceder
os créditos aos verdadeiros titulares.