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A metamorfose da precarização

A metamorfose da precarização social do


trabalho no Brasil

GRAÇA DRUCK

Após vinte anos da crise sistêmica do fordismo no país, pode-se afirmar que a precarização do
trabalho se constitui em um velho e novo fenômeno, cujas principais características, modalidades
e dimensões apontam para um processo de precarização social inédito que se desenvolveu nessas
últimas duas décadas e se evidenciou pelas mudanças nas formas de organização e gestão do
trabalho, na legislação trabalhista e social, no papel do Estado e de suas políticas sociais, no novo
comportamento dos sindicatos e nas novas formas de atuação de instituições públicas e de
associações civis.

Essa nova precarização social do trabalho instala-se econômica, social e politicamente por meio
de um processo que institucionaliza a flexibilização e a precarização modernas do trabalho,
renovando e reconfigurando a precarização histórica e estrutural no Brasil, agora
justificada - na visão hegemonizada pelo capital - pela necessidade de adaptação aos
novos tempos globais, marcados pela inevitabilidade e inexorabilidade de um
processo mundial de precarização, também vivido a passos largos pelos países desenvolvidos.
Essa it reversibilidade é o principal argumento defendido pelo patronato que
contaminou diversos segmentos da sociedade, inclusive parte dos representantes
dos trabalhadores.
No Brasil, a precarização do trabalho foi reconfigurada e ampliada, levando a uma
regressão social em todas as suas dimensões. Atualmente, fia é abrangente, generalizada e central,
estando presente: i) tanto nas regiões mais desenvolvidas do país, a exemplo de São Paulo,
quanto nas mais tradicionalmente marcadas pela precariedade, como a Bahia; ii) nos setores mais
dinâmicos e modernos do país, nas indústrias de ponta, assim como nas formas mais tradicionais
de trabalho informal, autônomo e rural; e iii) tanto na vida dos trabalhadores mais qualificados
como na dos menos qualificados. Enfim, essa precarização se institucionaliza como um processo
social que desestabiliza as relações de trabalho, trazendo insegurança e volatilidade permanentes,
fragilizando os vínculos e impondo perdas dos mais variados tipos (de direitos, do emprego, da
saúde e da vida) para todos os que vivem-do-trabalho.
Trata-se, portanto, de uma metamorfose da precarização que, mesmo presente
desde as origens do capitalismo, assume novos contornos em consequência dos
processos históricos marcados por diferentes padrões de desenvolvimento, frutos das relações
de força entre capitalistas e trabalhadores.
Na era da acumulação flexível, as transformações trazidas pela ruptura com o
padrão fordista geraram outro modo de trabalho e de vida, no qual o trabalho
flexível e precário é exigência do processo de financeirização da economia. Houve
uma evolução da esfera financeira, que passou a determinar todos os demais
empreendimentos do capital, subordinando a esfera produtiva e contaminando
todas as suas práticas e os modos de gestão do trabalho, apoiada centralmente em
uma nova configuração do Estado que passou a desempenhar um papel cada vez
mais de “comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”[1],
desregulamentando os mercados, especialmente o financeiro e o de trabalho.
Essa hegemonia da “lógica financeira” impregna todos os âmbitos da vida social,
dando conteúdo a um novo modo de trabalho e de vida. Vê-se uma aceleração
inédita do tempo social, representada pela volatilidade, efemeridade e
descartabiliclade sem limites de tudo o que se produz e, principalmente, dos que
produzem - homens e mulheres que vivem do trabalho. O curto prazo - elemento
central dos investimentos financeiros - impõe processos ágeis de produção, e para
tal é indispensável contar com trabalhadores flexíveis que se submetam a quaisquer
condições para atender ao novo ritmo e às rápidas mudanças.
Por isso, considera-se a terceirização como a principal forma de precarização do
trabalho, pois ela viabiliza um grau de liberdade do capital quase ilimitado para
gerir e dominar a força de trabalho, já que se descompromete com o vínculo formal
por meio da transferência de responsabilidade legal e de custos trabalhistas para
um terceiro. Essa é uma prática que encontra respaldo no marco regulatório e na
ação de grande parte dos operadores do direito do trabalho no Brasil que, também
contaminados pela tese da irreversibilidade, optam pela negociação como regra na
relação entre capital e trabalho, independente da própria e limitada legislação em
vigor.
Nesse quadro, defendo a tese de que estamos vivendo uma epidemia sem controle
da terceirização, assim como uma epidemia de desrespeito aos direitos trabalhistas.
E isso se expressa por meio:
1) Do crescimento da terceirização para todos os setores de atividade públicos e
privados. Os resultados preliminares de uma pesquisa em andamento que visa
mapear a terceirização no Brasil[2] demonstram que em 37 setores da indústria,
serviços, comércio, agricultura e serviços públicos, a terceirização se faz fortemente
presente e tem sido objeto de autuação, ações civis, processos e denúncias de
ilegalidade.
2) Da inversão do número de empregados contratados diretamente pela empresa
em relação ao número de subcontratados ou terceirizados, tendência já
demonstrada por empresas de setores dinâmicos e modernos, como é o caso do
setor químico, petroquímico e petroleiro. Em pesquisa realizada no Polo
Petroquímico de Camaçari, na Bahia[3], para os anos 1990 e meados dos anos 2000,
observaram-se redução do quadro de empregados efetivos e ampliação da
terceirização - por exemplo, uma das empresas tinha 25,4% de empregados diretos
e 74,6% de terceirizados. Esse é também o caso da Petrobras, que, de acordo com
seu relatório de sustentabilidade de 2009[4], tinha 295.260 empregados
terceirizados (79%) no Brasil e no exterior e 76.919 funcionários (21%), isto é, uma
proporção de 3,8 terceirizados para cada funcionário efetivo.
3) Das novas modalidades de terceirização: cooperativas, ONGs e pessoas jurídicas
(PJs). Dentre estas, cabe destacar duas, que são as mais utilizadas hoje no setor
público e privado: a) as empresas individuais, incentivadas pela ideologia do
empreendedorismo, que de fato apoia a liberdade das grandes empresas de se
desobrigarem de encargos sociais e direitos trabalhistas e de exigirem que os
trabalhadores alterem sua personalidade jurídica, registrando uma empresa em
seu nome (“pejotização”) e, consequentemente, perdendo todos os direitos
garantidos pelas leis do trabalho. Dessa forma, a relação entre o trabalhador
(pessoa jurídica) e a empresa passa a ser “entre iguais”, pois o contrato entre
empresas é regido pelo direito comercial, e não pelo do trabalho; e b) as
cooperativas, nova modalidade de terceirização muito utilizada pelas empresas e na
área pública de saúde por ser protegida por legislação específica.
Mas por que essa epidemia? Por que as empresas terceirizam? Não se trata de
especialização ou focalização, mas de uma política de precarização com a
transferência de riscos para os trabalhadores por parte da tomadora, isto é,
a desobrigação da empresa de garantir os direitos trabalhistas em nome da redução
de custos. Assim, transfere-se para uma terceira a responsabilidade pelo
cumprimento da legislação do trabalho, enquanto a gestão do processo do trabalho
é feita em geral pela própria tomadora. Ou seja, esta repassa a responsabilidade
legal, mas não a gestão. Isso explica o número de processos na Justiça do Trabalho
e no Tribunal Superior do Trabalho contra as empresas tomadoras, conforme
justificativa do edital deconvocação de uma audiência pública realizada em 2011[5].
Nessa audiência pública, os defensores da terceirização - representantes patronais
- usaram como argumentos de defesa a especialização como necessária à
modernização empresarial[6] e a terceirização como criadora de empregos. Nada
mais falacioso. Nos depoimentos de trabalhadores e dirigentes sindicais dos mais
diferentes setores de atividade, que mostraram a realidade dos processos de
trabalho, ficou evidente que os principais objetivos das empresas que
recorrem à terceirização são .1 redução de custos, a desobrigação dos direitos
trabalhistas e a transferêi 1 cia de riscos - materiais, financeiros e de saúde - para os
trabalhadores, provocando uma cisão entre eles e enfraquecendo-os como gmpo.
Ao se discutir a relação entre terceirização e precarização, é possível afirmar - com
base nos resultados de pesquisas - que a precarização se tornou uma estratégia de
dominação, viabilizada em grande parte pela terceirização do trabalho, na medida
em que divide os trabalhadores e desrespeita seus direitos. Isso pode ser constatado
por um conjunto cle indicadores[7], dentre eles: os salários mais baixos pagos aos
terceirizados, que, em dezembro de 2010, ganhavam 27,2% a menos que os demais
trabalhadores[8]; as maiores jornadas de trabalho, que chegam a ser de 3 horas a
mais por semana, sem contar horas extras e banco de horas; e o desrespeito às
normas de saúde e segurança, refletido no número de acidentes de trabalho que,
invariavelmente, são maiores entre trabalhadores terceirizados. Segundo o estudo
realizado pela subseção do Dieese do Sidieletro Minas Gerais em 2010, “entre 2006
e 2008 morreram 239 trabalhadores por acidente de trabalho, dentre os quais 193,
ou 80,7%, eram terceirizados”[9]. A taxa de mortalidade média apresentada nesse
estudo para o mesmo período é de 15,1 para os trabalhadores efetivos e de 55,5 para
os terceirizados. Dados da FUP também indicam que de 1995 até 2010 houve 283
mortes por acidente de trabalho no sistema Petrobras, das quais 228 foram de
trabalhadores terceirizados.
Diversas condições exprimem o grau de precarização a que é submetido um
conjunto cada vez maior de trabalhadores. Uma delas é a discriminação dos
trabalhadores em “primeira e segunda categorias”, situação que tem levado à sua
fragmentação e à pulverização dos sindicatos, enfraquecendo as lutas e as formas
de organização coletiva.
Entretanto, a precarização como estratégia de dominação do capitalismo flexível e
globalizado começa a mostrar o seu esgotamento. As possibilidades de uma crítica
radical e anticapitalista expressa nos movimentos Democracia Real
Ya, nos Indignados, Occupy Wall Street, dentre outros, são bons exemplos.

[1] Karl Marx e Friedrich Engels, Manifesto Comunista (São Raulo, Boitempo,
1998), p. 42. (N. E.)
[2] Pesquisa em andamento realizada por Vitor Filgueiras, doutorando do
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFBa), com base em relatórios
de fiscalização do e ações civis públicas, além de pesquisas realizadas sobre
terceirização no Brasil, no período de 2000 a 201 I.
[3] Resultados apresentados em Graça Druck e Tânia Franco, A perda da razão
social do trabalho: terceirização e precarização (São Paulo, Boitempo, 2007).
[4] Petrobras, “Relatório de sustentabilidade", Rio de Janeiro, 2009, disponível
em .
[5] A convocação e os vídeos com as exposições dos 49 participantes na Audiência
Pública sobre Terceirização, realizada em outubro de 201 I, estão disponíveis em:
<www.tst.gov.br>.
[6] "Em uma pesquisa realizada pela FUP (Federação Única dos Petroleiros) em
2010, 98% das empresas foram motivadas a terceirizar devido ao menor preço e
apenas 2% devido à especialização técnica", CUT e Dieese, “Terceirização e
desenvolvimento: uma conta que não fecha - dossiê sobre o impacto da
terceirização sobre os trabalhadores e propostas para garantir a igualdade de
direitos", São Paulo, set. 201 I, disponível em .
[7] Conforme pesquisa realizada pela CUT e Dieese, “Terceirização e
desenvolvimento...", cit.
[8] Em pesquisa realizada no setor industrial da região metropolitana de
Salvador, constatou-se que os terceirizados recebem uma remuneração entre 1,4 e
5 vezes menor que a dos empregados contratados diretamente. Ver Graça Druck e
Tânia Franco, A perda da razão social do trabalho: terceirização e
precarização (São Paulo, Boitempo, 2007), p. I 13-4.
[9] CUT e Dieese, “Terceirização de desenvolvimento...", cit.
http://www.controversia.com.br/index.php?act=textos&id=15832