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Pelo presente, discorreremos tratando da problemática referente ao declínio do

valor simbólico do trabalho. Questão essa intimamente próxima à conseqüente


decomposição da lei simbólica, cujo representante seria o Pai. A partir da psicanálise,
exploraremos brevemente esta temática, bem como sua implicações na subjetividade
contemporânea. Algumas noções clínicas atuais nos serviram de subsídio nesse estudo,
norteando nossa análise para os pontos de maior relevância dentro da proposta acima
citada.

Primeiramente, partimos do conceito de trabalho como “atividade


correspondente ao artificialismo da existência humana” que segundo Hannah Arendt,
seria responsável pela produção de “um mundo artificial de coisas, nitidamente
diferente de qualquer ambiente natural”. Através dessa atividade, deslocamo-nos a uma
condição além daquela dada pela natureza.

Entretanto, o significado atribuído ao trabalho estaria sujeito a perspectiva sócio-


histórica. Com o passar do tempo, cada cultura situou-o de forma particular em seu
discurso. Seu valor, portanto, encontrar-se-ia ajustado à escala imaginária construída
pelo ideal social de cada época. Escala organizada por uma lógica comparativa, onde o
valor fundamental é o valor fálico.

O trabalho seria uma das principais formas de representação do sujeito no


discurso social. O valor a ele conferido consideraria o esforço humano como pré-
condição para sua elaboração. Isso porque a necessidade e a importância da mão-de-
obra delegavam certo reconhecimento ao trabalhador. Ao menos era essa a lógica
prevalecente antes da industrialização. Como pode se representar quando a crescente
mecanização da produção destituiu o valor simbólico de sua mão-de-obra? Em termos
produtivos, o homem entrara numa disputa impossível com a máquina.

Essa produção visaria, através da propaganda e dos recursos midiáticos


modernos, a exaltação do objeto produzido. Passa a ser apresentado como necessidade e
institui-se uma demanda. Dessa forma, este se inscreve como substituto do “objeto
materno recalcado”, tornado sempre presente pelo consumo constante.

A precariedade do trabalho enquanto sistema de intercâmbio social se revela


ainda nas lutas reivindicatórias. Se historicamente direitos eram conquistados por meio
de manifestações e greves, o peso dessas medidas hoje em dia já é questionável. Em
contrapartida, vemos como o trabalhador encontra-se compelido a integrar-se ao
discurso da empresa/instituição, “vestindo a camisa” desta. Seu emprego depende disso.

Cientes de que o discurso social referido é o discurso capitalista, acompanhamos


essa subversão do saber, situado agora do lado do objeto. Jerusalinsky descreve
como“...hoje o sujeito fica numa total dependência para estabelecer seu valor simbólico,
de sua equivalência ao objeto. Seja por possuí-lo, seja por fabricá-lo, seja por dominá-lo
ou por usufruí-lo, eis como o sujeito encontra seu valor”.

Todo esse discurso seria em nome de um ideal de produção que garante a


competitividade da empresa, tornando-a apta a ampliar seu capital – sem resultar
necessariamente em benefício para quem nela trabalha. Portanto, as concessões em prol
do trabalhador seguem uma estratégia de produção ou derivam da preocupação para
com seu bem-estar da parte do “capitalista”?

Lacan em seus últimos seminários fala a respeito do discurso capitalista como


sendo destinado a consumir o próprio homem. Consumido enquanto objeto produtivo
responsável pela elaboração autômata de seu “mestre absoluto”, o objeto de consumo.
Então vemos o humano rebaixado a condição de coisa, e a coisa enaltecida, detentora do
saber alienante que a situa como indispensável para a “ascensão” ao gozo.

No dito “Estado Democrático de Direito”, de que democracia estamos falando?


Democracia social ou democracia de consumo? Pois bem, o significante “consumidor”
nos vêm à mente com muito mais fluência que o significante “cidadania”. Na
psicanálise, o primeiro teria uma relação referente à posição do sujeito diante os objetos.
Por conseguinte, o segundo seria o exercício de uma posição discursiva do sujeito no
social. Qual parece prevalecer?

Sabemos que o declínio do valor simbólico do trabalho produz efeitos em toda


conjuntura social. Um dos exemplos é o declínio da função paterna (FP). De que forma
um pai explorado, sem reconhecimento social satisfatório e relativamente impotente
pode se apresentar referência identificatória? Pois é este um modelo típico nas famílias
contemporâneas.

O que se investirá sobre esse pai, para que o mesmo sustente o lugar de rival
edípico (falo imaginário) e depositário do desejo da mãe? Se essa dinâmica não se dá a
criança não tem apresentado um ideal de eu para orientá-la. O corte entre mãe-filho não
ocorre, não há castração e portanto, inscrição simbólica. Sem falta, não há o que ser
restituído através dos objetos substitutivos, o falo simbólico. Eis a psicose.

Jerusalinsky aponta que por via dessa peculiar relação objetal - onde a falta
passa a ser da ordem da posse real – os laços paranóicos tendem a predominar. Ao
menos se essa lógica de quebra dos sistemas de valor continuar regendo tais relações.
Bibliografia:

JERUSALINSKY A. N. . Papai não trabalha mais.. O Valor Simbólico do


Trabalho e o Sujeito Contemporâneo.. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000, v. ,
p. 9-35

HARENDT, Hannah. A condição humana – Ed. Forense Universitária - 1958

J.D. Nasio. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise – pág. 37

LACAN, J. (1969-70) O seminário, livro XVII: O avesso da psicanálise. Rio de


Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.
UNIJUÍ-UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO
GRANDE DO SUL
DFP - DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E PSICOLOGIA
CURSO - PSICOLOGIA

O DECLÍNIO DO VALOR SIMBÓLICO DO TRABALHO

Nome: Gonzalo P. Rohleder, Bruna Bertasso, Daniela Dalcim

Professor(a): Luciane Gheller Veronese

Ijuí
Outubro de 2009