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Psicologia-USP, S. Paulo, 2(1/2): 77-84, 1991 DESCRIGAO DE ALGUMAS VARIAVEIS NO COMPORTAMENTO DE ESPERAR POR RECOMPENSAS PREVIAMENTE ESCOLHIDAS Rachel Rodrigues Kerbauy* Marina Plastina Buzzo** KERBAUY, R.R. & BUZZO, M.P. Descti previaments escolhidas. 10 de algumas varidveis no comportamento de esperar por recompensas 77-84, 1991, RESUMO: 0 presente experimento foi realizado com o objetivo de verificar se a escolha por recompen- sas dependia do conhecimento da situagio, de treino anterior em autocontrole, ou se a situagio experi- mental favorecia a aprendizagem de autocontrole, definido como esperar por tecompensa maior. O pro- ‘cedimento consistiu em colocar a erianga em situacio de escolha entre uma recompensa menor imedliata ¢ ‘ovira maior, porém atrasada, O tempo de espera foi definido pelo experimentador como sendo de 15 mi- nutos, sem conhecimento da erianga. As eriancas, 27, foram sclecionadas do fichério da primeira série de tima cocoa pblica com idsdssvarindo ene 67 anos a7,10 anes. Os autos entrovsiados cram eon. siderados como tendo contacto prévio com o experimentador. Dos sujeitos, 13, nio foram entrevistados antes do experimento. Metade dos sujeitos tinham a recompensa visivel e metade escondida. Os resultados ‘mostraram que os grupos no diferiam entre si quanto o esperar por recompensa imediata ou atrasada, por conhecer previamente o experimentador ou por ter a recompensa visfvel ou escondida. Os sujeitos apren- diam com a situagio experimental e passaram a esperar ap6s serem submetidos a cla mas trés das criangas no esperavam mesmo apés cinco tentativas. No entanto outros sujeitos esperaram na primeira ou aps somente duas tentativas. Os resultados sio discutidos em termos da nccessidade de novos experimen tos em que se registre a fala das criangas durante a espera para esclarccer algumas variveis como: re~ forgo, situagio experimental, tempo de espera, DESCRITORES: Autocontrole. Comportamento de escolha, Recompensas. Modificagio do comporta- mento, Com 0 objetivo de investigar o papel da atengiio no comportamento do autocontrole, om situago ex perimental, foi desenvolvido por MISCHEL (1966) um modelo fundamentado na definigdo de autocontrole como a capacidade do individuo comportar-se preferindo uma recompensa maior ¢ atrasada, em detrimento de uma recompensa menor ¢ imediata, Essa maneira de tabalhar contém clementos que alguns autores como SKINNER (1953), BRIGHAM (1978) ¢ KANFER (1975) realgam, tais como, a manipulagio de varidveis acessiveis apenas para proprio individu (eventos privados) ¢ de eventos piblicos para a solugiio de problemas, a antecipagdo de contingéncias em resposta as alternativas presentes, ¢ a exccugiio da decistio tomada, que altcra os cstimulos disponiveis, Para SKINNER (1953), 0 que configura substancialmente a situagao de autocontrole, 6 a existéncia de conflito caracterizado pela presenga de duas alternativas incompativeis, ¢ que RACHLIN (1974), AINSLIE (1975) ¢ MISCHEL (1966), reafirmam pela contemporineidade destas alternativas. Na proposta de SKINNER, quando 0 individuo opta pela alternativa A ou B, 0 conflito deixa de existir ¢ cessa a respos- ta de autocontrole, sendo que esta é uma resposta simples, cuja probalidade de ocorrer fungaio da hist6ria passada do individuo, da genética ¢ de antecedenies ¢ consequentes ambientai Considlera-se 0 modelo de MISCHEL (1966) ¢ MISCHEL, EBBSEN ¢ ZEISS (1972), em que o sujei- to deve escolher entre duas recompensas de valores diferentes, recebendo a menor imediatamente, ou a maior, atrasada, apss a situagio de espera como de preexisténcia do conflito, (SKINNER, 1953) e, portan- to, uma situag’o de autocontrole. Durante © perfodo de espera, a crianga cncontra-se entre duas alternativ: interromper a espera ¢ receber a recompensa de menor valor, ou esperar pela de maior valor. + Professora associada do Instituto de Psicologia da USP. *+ Mestre em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. 7 Kerbawy, RR. & Buzzo, MP. Psicologia-USP, S. Paulo, 2(1/2), 1991 Em um de sous experimentos, MISCHEL (1970) manipulou a disposigdo do objeto para investigar os efeitos da atengdo sobre a recompensa durante periodo de espera. Os resultados sugeriram que, quando confrontadas com a recompensa esperada, as criangas reagiam diferentemente a situagdo de espera esperavam mais quando nio tinam nenhuma recompensa presente, ¢ menos quando estavam diante da recompensa alrasada ou imediata, Em estudo posterior MISCHEL (1972), com a manipulagio de instrugdes que proviam distragzio da recompensa, verificou que 0 atraso voluntirio ¢ facilitado quando a atengiio ¢ pensamento dirigom-se a distragdes agradivcis mais do que ao objeto esperado, Estudos complementares (MISCHEL ¢ BACKER, 1975), indicaram que o atraso pode ser aumentado por atividades abertas ou encobertas, as quais Gistracm 0 individuo da recompensa esperada, ¢ que inversamente, o mesmo parece diminuir quando se dirige aatengio A recompensa durante 0 atraso. Outros estudos SCHAK ¢ MASSARI (1973); MISCHEL c MOORE (1973); MISCHEL e BACKER (1975), afirmaram e complementaram estas interpretagdes. © presente experimento foi realizado com o objetivo de verificar se a escolha dependia do conheci- mento da situagiio de treino anterior em autocontrole ¢ se a situagiio experimental favorccia a aprendizagem de autocontrole definido como esperar por recompensas, METODO Sujeitos: Foram sclecionados 27 sujeitos através do fichario de matricula dos alunos de 1* série de ‘uma escola piblica experimentalmente ingénuos, de ambos os sexos, com idades que variavam de 6,7 anos 7, 10 anos ¢ residentes em favela, Desses sujeitos foram entrevistados 14, Eram os sujeitos considerados como tendo contato prévio com 0 experimentador, Os outros 13 sujeitos nao foram entrevistados. Material: Como recompensa foram usadas balas cobertas de chocolate envolvidas em papel lamina- do ¢ opaco. Estas, dependendo do controle experimental vigente, permancciam dentro de uma caixa de cor bege, que ficava a dircita do sujeito. Também utilizou-se uma campainha vermetha, de metal, que ficava sobre a mesa, do lado dit sujeito, Esta emitia um som descontinuo audivel pelo experimentador na frea externa da sala de experimen- tagiio, desde que o sujeito pressionasse um interruptor contido em sua parte superior. Local: A sala experimental media 2,60m. x 3,00m., Nela estavam dispostos: um armério com 6 portas; ‘uma bandeira do Brasil no mastro, uma lousa de 1,80cm. x 0,80cm., uma pia branca com torneira medindo 1,20m. x 0,75cm ¢ um anteparo mével para observaciio, KERBAUY (1979), no qual permanccia um observa- dor que registrava cursivamente os comportamentos emitidos pelo sujeito durante. espera. Procedimento: As professoras foram avisadas de que alguns alunos haviam sido escolhidos, pela faixa etdria, para participar de um experimento, que consistia em observar as criangas em sala de aula ¢ em uum local fora da sala, Registraram-sc os comentirios da professora a respeito dos alunos selecionados tanto do entrevistado como daquele que niio foi selecionado para entrevista, procedimento foi dividido em uts fases: fase I, II ¢ III, Durante as tres fases as instrugdes cram as ‘mesmas para todos 0s sujeitos enirevistados ou no, bem como o treino inicial. procedimento padrio foi o mesmo apresentado por MISCHEL (1966) ¢ descrito por KERBAUY (1982). Consistia basicamente em uma crianga ser treinada a chamar o experimentador ausente através do som de uma campainha ca escolher entre as recompensas apresentadas, a de sua preferéncia. Para facilitar a escolha, que observamos ser muito sujcita a modificagdes, optamos por variar somente a quantidade da recompensa: trés ¢ scis balas. O experimentador apresentava balas ¢ perguntava: * Qual dos dois montinhos de bala voc prefere?" Se 0 sujeito escolhia o de trés, dava-se uma bala ¢ dispensava-se 0 mesmo, que cra novamente colocado na situagdo experimental reteste em outro momento. Caso essa escolha persistisse de- sligava-se o sujeilo. Feita a escolha por scis balas explicava-se as instrugdes, portato 0 procedimento que apresentava as condigdes para recebt-l ‘Ap6s a verilicagdo da compreensiio das instrugdes 0 experimentador passava a outra etapa, a Fase I, que consistia em determinar se 0 sujeito preferia VER ou esconder (ESC) a recompensa preferida durante 0 perfodo de espera: "Vocé quer ficar olhando as balas ou quer que cu as esconda?", Se a crianga parecia no entender substituia-se esconder por guardar. De acordo com a resposta do sujeito, a escolha VER ou ESC, 0 experimentador o distribuia em uma condicdo oposta ou idéntica & escolhida. Para determinagdo dessa con digdo experimental distribuiam-se os sujeitos tomando-se como base a sua escolha ¢ uma tabela feita pre~ viamente ¢ que dividia os sujcitos, alcatoriamente, nas virias condigodes: Nas fases seguintes, Il ¢ III, a mesma pergunta cra feita, dando-se novamente oportunidade de optar entre VER ¢ ESC a recompensa escolhida. No entanto, independentemente da resposta do sujeito, este per- 8 Kerbawy, R. R. & Buzzo, M. P. Psicologia-USP, 8. Paulo, 2(1/2), 1991 TABELA 1 — Distribuigio das condigdes Experimentais Escolha Condigio na qual permanece Esconder Ver Esconder Esconder Ver Esconder Ver Ver ‘manecia na condigio anteriormente determinada pelo experimentador para a fase I, descrita acima, Dessa forma, 0 sujeito permanecia em ver, mesmo que houvesse mudado na escolha de VER para ESC. Portanto, poderia ocorrer que 0 sujeito estivesse em condigo igual & que estava na fase I ou diferente dela, Para os sujeitos que esperavam os 15 minutos previstos no procedimento, pela recompensa maior, ter- minava a fase II. Os sujeitos que niio esperaram na situago experimental, cram reconduzidos & situagzo ex- perimental em outro dia, até que esperassem 15 minutos pela recompensa escolhida e entéo terminava para t0 a fase II. Estipulou-se 0 maximo de 5 tentativas para essa fase. Na fase III, apés intervalo de tempo varisivel que dependia do final da fase Il, tomaram-se novamente todos os sujeitos, reduzidos agora a 23, por abandono da escola. A seguir cles foram colocados na situagiio experimental da fase I, ou soja deveriam passar pela situagdo experimental novamente, RESULTADOS E DISCUSSAO Os dados obtidos dos sujcitos entrevistados ou niio entrevistados antes da sessiio experimental, encontram- seanotados na tabela2, Verifica-se que dos27 sujeitos da fase I, 14 compuseram o grupo dos entrevistados. TABELA 2 ~ Sujcitos entrevistados ¢ nfo entrevistados que esperaram ou nio pela recompensa eseolhida Nao Esperaram Esperaram Total Entrevistados 6 8 14 Nio entrevistados 8 5 13 Total 4 13 2 Desses 14 sujeitos, oito esperaram para obter a recompensa atrasada maior, ¢ seis sujeitos nao espera- ram, Do grupo de 13 sujcitos no entrevistados tivemos cinco sujcitos que esperaram ¢ oito que nao espera- ram a recompensa, Para averiguar a existéncia de diferenga significativa entre 0 grupo de entrevistados ¢ de nifo entre- vistados, quanto 2 esperar ou ndo pela recompensa escolhida, aplicou-se a prova do Fischer e os resultados mostraram (p2 0,19) que a entrevista nio interferiu na resposta de esperar pela recompensa, o que faz supor que essa varidvel resposta de esperar esté distribuida aleatoriamente na populagdo estudada. TABELA 3 — Distrituigio dos sujeitos que esperaram ¢ réio esperaram, conforme acondigio de espera em que permaneceram na primeira tentativa Escolha/condigio na qual permanece Esperaram Nio-esperaram Total ESC/VER 1 2 >— ou ESC/ESC 3 é 5 = 10 > 7+ VER/ESC 5 4 > 16 VERIVER 4 3 ‘TOTAL 3B 4 2 79