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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

UNIDADE ACADÊMICA ESPECIALIZADA: ESCOLA DE MÚSICA


Curso de Bacharelado em música
Professor: Agostinho Lima

Primórdios da Igreja e a organização do canto litúrgico

Nos primórdios da liturgia cristã, as formas teatrais presentes na tradição grega, e a


presença e diversidade de instrumentos musicais são excluídos. Os cânticos da igreja têm
uma recitação livre, sem ritmo compassado, e são monódicos, até o surgimento da
polifonia. Inicialmente havia diversas orientações ou tipos de liturgia1. José Subirá afirma
que “... a igreja latina, antes de realizar sua unificação, tinha quatro liturgias típicas: a
Milaneza ou Ambrosiana; a Galicana ou Francesa; a Espanhola ou Mozárabe e a Romana,
vindo esta última a prevalecer sobre as demais” (SUBIRÁ, 1968, p. 202). Com a
organização do “Antiphonarius Sento”, o papa Gregório (590 a 604) estabeleceu as bases
musicais para a interpretação dos textos litúrgicos, assim como todas as antífonas e
responsos a serem usadas no ofício anual da igreja.

 Processo de unificação da Igreja.


. Séc. IV-V - processo de unificação das diversas doutrinas e ritos. Criação da hierarquia
episcopal (mais tarde -> Bispos, presbíteros, diáconos). Cerimônias e rituais (missa - missão,
cantos).
. Santo Agostinho (Séc. IV). Teólogo. Criador de muitas doutrinas da Igreja. Escreveu
“Confissões” e “Cidade de Deus” (livro que trata basicamente da questão do Céu e do
Inferno).
. Séc. V-VI tem o início da vida monástica (monastérios - seguindo os preceitos de Jesus
Cristo). São Bento e os beneditinos em Nápoles estabelecem regras bem definidas de conduta
(ca. 520).
. Gregório I (O Magno - séc. VI-VII) torna as regras dos monastérios beneditinos como
normas gerais para os demais monastérios. Organiza os cantos. Coro papal.

. Roma - Schola Cantorum - (por volta do séc. VIII). Grupo determinado de cantores e
maestros a quem se confiava o ensinamento de crianças e homens para fazer deles músicos
eclesiásticos. (as mulheres não cantavam)
. Nos primeiros séculos a perseguição aos cristãos. Proibição dos cantos.

1
Culto público e oficial instituído por uma igreja; forma social de render graças a uma divindade.
2

. Séc. I, II e III representava apenas grupos dispersos. Inexistência de uma doutrina específica
unificada.
. Séc. III, a proibição da Igreja por parte do Império.
. Séc. IV (313) Decreto de autorização. A Igreja é permitida pelo Império Romano.
. Séc. IV (381) - A Igreja é decretada a Religião oficial do Império Romano.
. Séc. IV-V - processo de unificação das diversas doutrinas e ritos. Criação da hierarquia
episcopal (mais tarde -> Bispos, presbíteros, diáconos). Cerimônias e rituais (missa - missão,
cantos).
. Com o fim do Império Romano (476) a igreja torna-se a grande herdeira desse mesmo
império.
São Bento (480-543), o primeiro dos grandes fundadores de ordens religiosas,
ritmou o percurso das horas estabelecendo o ofício divino, os oito momentos do dia e da
noite em que o monge dedica o melhor de sua energia na prece coletiva e cantada.
As horas canônicas.
É em torno das Horas que se organiza a vida dos mosteiros, ou seja: oito reuniões de
oração ao longo das 24 horas.
. Matinas – antes do nascer do sol.
. Laudes – ao alvorecer.
. Prima, terça, sexta e nona – Respectivamente às seis da manhã, nove, meio-dia e três horas da
tarde.
. Vésperas – ao por do sol
. Completas – Normalmente logo a seguir as vésperas.

 Contribuição de São Gregório.

- Recolher, escolher, pôr em ordem as peças e dar-lhes um lugar no calendário litúrgico para
formar o Antifonário oficial.
- Reformar e aperfeiçoar os cantos já existentes e em uso.
- Fundar a Schola Cantorum.
- Organização de vários poemas e canções, que foram reunidos nos livros:
. Graduale (cantos solos e corais para todas as festas católicas).
. Antíphonale (cantos, hinos e orações dos monges).
. Kyriale (cantos para as partes fixas das missas.
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 Características do cantochão
. É o canto oficial da Igreja Católica;
. O texto é em latim; a importância é dada ao texto e não à música (objetivo é propagar a fé);
. Deve ser cantado, obrigatoriamente, só por homens;
. Os compositores são anônimos, pertencentes ao clero.
. Não pode ter acompanhamento instrumental de qualquer espécie;
. É prosódico (um tipo de canto falado);
. Tem melodias simples com pouca mudança de notas e uma tessitura menor que um oitava; é
monofônico (uma única linha melódica); é Diatônico – sem alteração cromática das melodias.
O ritmo depende das palavras – é livre de esquemas de compassos.

 Tipos de cantochão:

. Salmodia (cantadas ou recitadas).


. Antífonas (responsório - solista e coro).
. Tratos (cantos longos com melismas).
. Graduais.
. Aleluia (solista e coro - aleluia, solista - versículo, coro – aleluia).
. Hinos.
. Cantos ligados à liturgia.

De acordo com o texto o cantochão era dividido em bíblicos e não-bíblicos (poesia e


prosa).
. Textos bíblicos: salmos, hinos.
. Textos não bíblicos – Te Deum.

 Aspectos melódicos.

- A música é vocal e monódica e os intervalos melódicos de segunda e terça são os mais


usados.
- Há melodias onde cada nota corresponde a uma sílaba, nos cantos silábicos. Outras onde
uma sílaba pode ser cantada em dois ou mais sons, os cantos neumáticos. E aquelas
melodias onde diversos sons são entoados em apenas uma sílaba, os cantos melismáticos,
que são comuns em algumas partes da missa como o gradual, o aleluia e o ofertório.
4

- O ritmo das músicas é declamatório e os acentos melódicos correspondem, muitas vezes,


aos próprios acentos das palavras. Um dos procedimentos é “... fazer corresponder às
sílabas acentuadas as notas mais agudas ou atribuindo um maior número de notas as essas
sílabas. Mas é uma regra que admite muitas exceções (...). Nas peças mais ornamentadas o
acento melódico tem muitas vezes mais importância do que a acentuação das palavras; e é
assim que podemos encontrar longos melismas sobre sílabas átonas, especialmente nas
sílabas finais como, por exemplo, o último a de aleluia ou a última sílaba de palavras como
dominus, exultemus, ou kyrie”. (GROUT, 1997, p. 60).

 Procedimentos de canto.

. Canto solo.
. Canto em uníssono coral, onde todos cantam a mesma melodia.
. Canto antifônico, onde dois coros se alternam na execução musical.
. Canto responsorial, onde solista e coro se alternam nos cantos.

 A liturgia da missa.

A liturgia2 da missa tem três partes:


1. A Introdução da missa: onde são recitados ou cantados o Intróito, o Kyrie, o Glória e a
Colecta (oração que na missa antecede a epístola).
2. A liturgia da palavra: na qual se canta ou recita a Epístola3, o Gradual4, Aleluia/Tracto 5
(mais comum na Idade Média), Evangelho6 (sermão) e o Credo7.

2
Culto público e oficial instituído pela Igreja Católica para a missa, cujo rito sofreu alterações a partir do
Concílio Vaticano II (1962-1965), e que consta das seguintes partes: ritos iniciais (saudação, ato penitencial,
Kyrie e Glória); liturgia da palavra (duas leituras do Antigo e do Novo Testamento, aleluia, evangelho, homilia,
credo ou profissão de fé); liturgia eucarística (oferendas, prefácio, Sanctus, Benedictus, cânon romano ou
introdução à consagração); rito da comunhão (pai-nosso, Agnus Dei, comunhão) e ritos finais (oração e bênção
final).
3
Cada uma das cartas ou lições dos apóstolos a comunidades cristãs primitivas. Parte da missa em que se lê
trecho das epístolas dos apóstolos, antes do Evangelho.
4
Versículos da missa, entre a Epístola e o Evangelho. Livro que contém o cantochão das rezas eclesiásticas.
5
Tracto: cada um dos versículos que se cantam nas missas de réquiem e nas épocas de penitência, logo após o
gradual (4), para substituir a aleluia, e cuja melodia é das mais ricas do canto gregoriano.
6
Cada um dos quatro livros principais do Novo Testamento. Trechos desses livros que se lêem na celebração da
missa.
7
Oração cristã iniciada, em latim, pela palavra credo (creio), e que encerra os artigos fundamentais da fé
católica. [Sin., fam.: creio-em-deus-padre e creio-em-deus-pai]. Parte da missa que se inicia com essa oração,
recitada ou cantada.
5

3. A liturgia da eucaristia8: composta pelo Ofertório9, Prefácio10, Sanctus11, Agnus Dei12,


Comunhão e Ite, missa est.
E os cânticos do Próprio e do Ordinário.
As missas têm o Próprio, aqueles cantos cujos textos indicam sobre qual
festividade ou época do ano a missa foi elaborada: se de Natal, Páscoa, Pentecostes. Os
assuntos dos cânticos do próprio de uma missa de natal são, por exemplo, diferentes de uma
missa de Páscoa. A introdução, epístola, gradual, aleluia, tracto, evangelho, ofertório
prefácio e comunhão fazem parte do próprio de uma missa e têm textos diferentes de
acordo com a missa.
Os cânticos e textos do ordinário das missas são os mesmos para as missas de todo
o ano. O ordinário de uma missa é composto pelos cânticos do kyrie, glória, credo, sanctus,
agnus Dei e Ict, missa est.
A organização da missa tem a seguinte sequência:
- Sinaxe (reunião)
- Intróito (Canto de entrada)
- Kyrie (Ordinário - cantado)
- Glória (Ordinário – cantado)
- Coleta (Próprio – recitado)
- Epístola (próprio - recitado)
- Gradual (próprio - cantado)
- Alduia (próprio - cantado)
- Evangelho (próprio – cantado)
- Credo (ordinário - cantado)
- Ofertório (próprio - cantado)
- Eucaristia.
- Prefácio (próprio — recitado)
- Sanctus (ordinário - cantado)
- Canon (ordinário — cantado)
- Agnus Dei (ordinário — cantado)
8
Um dos sete sacramentos da Igreja Católica no qual, segundo a crença, Jesus Cristo se acha presente, sob as
aparências do pão e do vinho, com seu corpo, sangue, alma e divindade. Ato central do culto cristão; missa,
banquete sagrado, comunhão, ceia do Senhor, memorial do Senhor, pão dos anjos, pão da alma.
9
A parte da missa em que se oferece a Deus o pão e o vinho. Oração que antecede ou acompanha essa oblação
(Ação pela qual se oferece qualquer coisa a Deus ou aos santos. Oferenda feita a Deus ou aos santos; oblata.
Oferecimento a Deus do pão e do vinho, feito pelo sacerdote).
10
Parte da missa católica que precede imediatamente o cânon (Parte central da missa católica).
11
Parte da missa que se inicia com a repetição tríplice dessa palavra, recitada ou cantada, em aclamação ao
Senhor.
12
Oração recitada ou cantada na missa e que antecede a comunhão.
6

- Comunhão (próprio - cantada)


- Pós-comunhão (próprio - recitada)
- Ite Missa est (ordinário - cantado)

O texto da introdução indica a que festividade a missa faz referência. Uma missa
de natal, por exemplo, traz na introdução um texto referente ao nascimento de Cristo.

 Tropos, sequências e drama litúrgico.

Com o passar dos séculos os cânticos religiosos absorveram intervenções criativas.


Estas intervenções nos cânticos litúrgicos são denominadas tropos. Os primeiros registros
de tropos na música cristã datam do século IX. Mas, foi entre os séculos X e XI que, esse
tipo de procedimento foi realizado em maior quantidade, em mosteiros como o de São
Marcial de Limoges. Tropos são “... o desenvolvimento musical ou literário, ou ainda
músico-literário, de uma peça de canto”. Tropar consiste na ampliação de um canto litúrgico
por meio de acréscimo ou substituição de textos ou melodias. Para Brigitte MASSIN
(1997, p. 152) “... Distinguem-se três tipos de tropos (...): o desenvolvimento melismático
de uma melodia preexistente; o acréscimo de um texto literário novo a um cântico
preexistente; o acréscimo, a um cântico, de um texto literário novo e de uma melodia nova
(MASSIN, p. 153).
O tropo através da estruturação em cântico melismático do “Aleluia” era
denominado sequência. Posteriormente as sequências passaram a ser organizadas como um
tipo de composição onde pares de versos, numa estrutura aa, bb, cc, etc, e melodias são
adicionados a um canto já existente.
Os dramas litúrgicos que surgem a partir do século X são tropos elaborados em
torno de cânticos. Esses tropos consistiam em diálogos cantados e deviam ter alguma
encenação. Antecediam a introdução da missa de Páscoa e abordava o episódio da
ressurreição de Cristo, ou antecediam o intróito terceira missa de Natal, o “Quem quaeritis
in praesepe, pastores, dicite?”, “O que queres no presépio, pastores, dizei?”, que abordava a
chegada dos pastores à manjedoura de Cristo. Consistem numa retomada da música ligada à
encenação que havia sido retirada da liturgia cristã nos seus primórdios.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
7

GROUT, Donald e PALISCA, Claude. História da Música Ocidental. Lisboa: Gradiva,


1997.
MASSIN, Jean e Brigitte. História da música ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1997.
SUBIRÁ, José. História de la Música. Madri: Aral, 1976.