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EXCELENTÍSSIMA SENHORA DOUTORA JUÍZA DE DIREITO DA COMARCA


DE CARMÓPOLIS

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SERGIPE,


presentado pela Promotora de Justiça que esta subscreve, no uso de suas
atribuições constitucionais e legais, notadamente aquelas previstas nos arts.
127, caput, e 129, inciso III, da Constituição da República e na Lei nº 8.429-92
(LIA), vem, perante Vossa Excelência, com base nos fundamentos de fato e de
direito adiante aduzidos, promover a presente

AÇÃO POR ATO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA c/c


PEDIDO DE TUTELA DE URGÊNCIA E QUEBRA DE SIGILO
BANCÁRIO
em face de:

- ETELVINO BARRETO SOBRINHO, brasileiro, casado, atualmente exercendo


o cargo de Prefeito do município de Rosário do Catete-SE, portador da cédula
de identidade n° 499.943 e CPF N° 234.896.775-87, nascido em 27/03/1960, na
cidade de Rosário do Catete-SE, estado de Sergipe, residente domiciliado na
Fazenda Nova Taperoá – Área Rural, CEP 49.075-000, Rosário do Catete-SE.

- MAURA CECÍLIA SANTOS, brasileira, solteira, portadora da cédula de


identidade nº 1.136.486, e CPF nº 664.105.685-68, filha de Aloysio Bispo dos
Santos e Maria José Santos, residente e domiciliada na Rua da Pedreira, nº
579, centro, Rosário do Catete-SE.

-SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS, brasileiro, solteiro, portador da


cédula de identidade nº 3.452.238-7, e CPF nº 064.834.895-44, filho de Sidney
Ribeiro Chagas e Ana Cristina Barreto Chagas, residente e domiciliado na Rua
José Leite Prado, nº 192, Bairro Atalaia, Aracaju-SE

- LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ, brasileira, solteira, portadora da cédula


de identidade nº 3.196.619-5, e CPF nº 054.157.115-03, filha de Marcia
Medrado Gomes da Cruz e Alfredo Elizeu Barreto da Cruz, residente e
domiciliada na Rua Manoel Andrade, nº 2263, Coroa do Meio, Aracaju-SE.
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I – DOS FATOS E CIRCUNSTÂNCIAS APURADAS:

Foi instaurado na Promotoria de Justiça de Carmópolis o


procedimento tombado sob n. 26.17.01.0142, para apurar o teor da
manifestação nº 12730, registrada, sigilosamente, no Sistema da Ouvidoria do
MP/SE, indicando o servidor SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS,
ocupante do cargo de DIRETOR DE EVENTOS-CC2, como sendo um “servidor
fantasma” do Município de Rosário do Catete.

Inicialmente, requisitamos ao Ente Municipal relação


contendo o nome de todas as pessoas nomeadas para o exercício do cargo em
comissão acima assinalado. A resposta foi encaminhada através do expediente
acostado à fl. 08 do procedimento extrajudicial, no bojo da qual a Secretaria
Municipal de Administração assinalou que, no momento, o aludido cargo estava
desocupado, contudo já havia sido ocupado pelo senhor SIDNEY HENRIQUE
CHAGAS, exonerado em 29/09/2017, através do Decreto nº 300/2017 (cópia às
fls. 11/22).

Doravante, atendendo à requisição deste Parquet, a


Prefeitura de Rosário do Catete encaminhou as folhas de ponto do servidor
mencionado, durante o período em que exerceu o cargo comissionado na
Administração, as quais encontram-se acostadas às fls. 29/36, assinadas pela
então Secretária Municipal de Cultura e do Turismo, Maura Cecília Santos.
Verifica-se que em todas as folhas, referentes aos meses de Fevereiro/2017 a
Setembro/2017, foi registrado um mesmo horário (com uma pontualidade
britânica que chama a atenção) de entrada e saída (08:00 às 14:00), sem que
houvesse nenhuma variação.

Por conseguinte, realizamos audiência, nesta Promotoria,


no dia 18/05/2018 (termo à fl. 40) com a finalidade de colher o depoimento da
senhora Maura Cecília Santos, ocupante do cargo de Secretaria Municipal de
Cultura e do Turismo na época em que o servidor Sidney atuava no cargo
referido. Na oportunidade ela afirmou que a denúncia registrada na Ouvidoria do
MP/SE era “infundada”, confirmando que Sidney, de fato, exercia a função,
dentro nos parâmetros estabelecidos, comparecendo ao setor de trabalho, de
segunda a sexta, no horário ininterrupto das 08:00 às 14:00h, sendo que a
fiscalização da folha de ponto dos servidores era realizada pelo servidor
CLEVERTON. Ela, ainda, indicou o nome das pessoas que, supostamente,
trabalhavam junto com Sidney no aludido órgão. Vejamos o inteiro teor das
declarações da senhora Maura naquela oportunidade:

“Que está como Secretária Municipal de Cultura e Turismo desde


janeiro de 2017; Que conheceu SIDNEY quando de sua nomeação
para exercer o cargo comissionado de Diretor de Eventos na cidade
de Rosário do Catete; Que SIDNEY foi lotado na Secretaria de
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Cultura e Turismo; que SIDNEY se apresentou para a depoente


em janeiro de 2017; que SIDNEY operacionalizava os eventos
previstos no calendário da Secretaria, mas no ano passado, devido
a crise política o Município só realizou a Emancipação Política e do
São João na cidade; que SIDNEY trabalhava com subordinação
à depoente; que SIDNEY realizava atividades externas e internas;
que as demandas externas consistiam em organização de eventos
“faça bonito”, “sete de setembro”, dentre outros; que SIDNEY
trabalhava mais na própria Secretaria do que externamente; que
trabalhavam com SIDNEY, LILIAN RODRIGUES (diretora de
turismo), ADAILTON ANDRADE (Diretor de Artes), RAFAEL (do
setor administrativo), CIDA e HELENA (copeiras), CLEVERTON
(do setor administrativo), para além da própria depoente; que
SIDNEY trabalhava todos os dias, das 08:00 às 14:00h, exceto
quando havia eventos, quando se fazia hora extra; que a carga
horária era de seis horas por dias, de segunda a sexta, sem
horário de almoço; que CLEVERTON fiscalizava a folha de
ponto; que SIDNEY morava em Aracaju; que não sabe se
SIDNEY exercia outra atividade; que não sabe dizer qual a
formação de SIDNEY para ele exercer o cargo de diretor de
eventos; que não sabe dizer como SIDNEY conseguiu a nomeação
para o referido cargo em comissão, nem tampouco lhe questionou
sobre isso; que não sabe dizer como se dava a assinatura da
folha de ponto no caso de SIDNEY porque esta tarefa era
delegada ao servidor CLEVERTON; que CLEVERTON
apresentava a folha de ponto de todos os servidores com 15
dias e depois no final do mês, quanto, então, a depoente
assinava; que não cobrava do servidor o preenchimento com
os exatos horários de saída e chegada, mas cobrava a
presença; que orientou que o preenchimento da folha se desse
sempre que o servidor chegasse ao local de trabalho e saísse; que
não sabe dizer o motivo da exoneração de SIDNEY, mas a
exoneração dele se deu juntamente com outros servidores, o que
faz crer que a razão foi por contingenciamento de despesas; que
considerada infundada a “denúncia” de que SIDNEY é um
servidor fantasma; que todas as vezes que a depoente esteva
na Secretaria de Cultura, viu SIDNEY no local; que, atualmente,
o cargo de SIDNEY está vago.”

(Termo de Declarações de Maura Cecília Santos - fl. 40)

No dia 04/07/2018 foi realizada a oitiva do senhor SIDNEY


HENRIQUE BARRETO CHAGAS (Termo à fl. 46). Na oportunidade, ele também
negou os termos da denúncia, afirmando que cumpria regularmente o horário de
trabalho, que ele aduziu ser das 07:30 às 14:00h. Importante destacar que o
depoente informou que, apenas assinava as folhas de ponto, cujos horários já
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estavam previamente anotados; e que o motivo da sua exoneração do cargo foi


exatamente a notícia da denúncia que o indicou como sendo “servidor
fantasma” do Município. Para além disso, são evidentes as divergências
existentes entre o depoimento do senhor Sidney e da senhora Maura, ouvida
anteriormente; bem como o fato de o referido senhor não possuir qualificação
técnica para o exercício do cargo. Vejamos o inteiro teor das declarações
prestadas:

“Que foi nomeado para exercer o cargo em comissão de Diretor de


Eventos da Cidade de Rosário do Catete; Que era lotado na sede
da Secretaria de Cultura; que desempenhava suas atividades
juntamente com RAFAEL e com a Dra. MAURA, que era chefe
da depoente; que só se recorda dessas duas pessoas; que não
ficava muito na sala, pois fazia festa no município; que nesse
momento não saberia dizer o nome de outras pessoas que
trabalhavam no prédio da Secretaria de Cultura, pois está
muito nervoso; que era responsável por organizar o “dia das
mães”, “dia do peixe” e outras “festas pequenas do município”; que
registrava ponto; que trabalhava todos os dias, das 07:30 às
14:00h; que acertou o referido horário de trabalho com a Dra.
MAURA; que a folha de ponto já ficava na entrada do prédio,
que ficava com um guarda municipal, mas esqueceu o nome
dele; que chegava às 07:30, mas só assinava a folha de ponto
às 08:00h, depois de tomar de café; que os horários de entrada
e saída das folhas de ponto de fls. 29/36 não foram
preenchidos pelo depoente; que as assinaturas às fls. 23/36
são todas do depoente; que o depoente assinava a folha de
ponto diariamente, mas não preenchia os horários de chegada
e saída, pois já os encontrava preenchidos nas folhas de
ponto; que não sabe dizer quem preenchia os horários de
entrada e saída nas folhas de ponto; que conseguiu ser nomeado
para o cargo em comissão de diretor de eventos, por meio do
Prefeito Etelvino; que conheceu Etevilno na cidade de Aracaju, pois
o depoente trabalhava organizando apresentações da banda
Zoeirões do Forró; que o Prefeito disse ao depoente que ele tinha
“muito desenvolvimento” para trabalhar com eventos, sendo que o
depoente também pediu ao Prefeito um trabalho; que na função de
diretor de eventos não tinha nenhuma pessoa subordinada ao
depoente; que possui segundo grau completo; que iniciou o
curso superior de educação física, mas o interrompeu; que se
deslocava de Aracaju para Rosário do Catete em veículo de sua
propriedade; que nunca ninguém pediu nada em troca ao depoente
pelo exercício do cargo em comissão; que quando trabalhou para a
Prefeitura de Rosário do Catete não desempenhou outros vínculos
empregatícios; que hoje está desempregado; que antes de ser
nomeado para o cargo em comissão de diretor de eventos, prestou
serviços também ao município, desempenhando praticamente as
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mesmas funções que passou a exercer na condição de Diretor de


Eventos; que foi exonerado em decorrência da denúncia de que
o depoente era um “servidor fantasma”; que não sabe dizer a
origem dessa denúncia, pois trabalhava todos os dias; que
quando soube da denúncia, foi através de Dra. MOURA e
RAFAEL, sendo que estava na sala em que trabalhava, na
secretaria de Cultura; que foi comunicado da exoneração pela
Dra. MAURA, que optou por exonerar o depoente, mesmo
sabendo que ele trabalhava.”

(Termo de Declarações prestadas por SIDNEY HENRIQUE


BARRETO CHAGAS)

Conforme destacamos no termo acima transcrito, na


oportunidade em que prestou depoimentos perante este órgão ministerial,
Sidney afirmou que antes de ser nomeado para o cargo em comissão de diretor
de eventos, já havia prestado serviços ao município, desempenhando
praticamente as mesmas funções que passou a exercer na condição de Diretor
de Eventos. Essa informação, no entanto, não foi confirmada pelo Ente Público,
que aduziu, no expediente de fl. 51, que “conforme informações da Secretaria
de Planejamento não houve contrato de prestação de serviço como Sr. SIDNEY
HENRIQUE.” (sic).

Ocorre que, no dia 18/10/2018, a senhora Maura Cecília


Santos, já exonerada do Cargo de Secretária Municipal de Cultura,
compareceu, de forma espontânea, nesta Promotoria, para se retratar do teor
do depoimento prestado no dia 18/05/2018. O novo depoimento da senhora
Maura foi filmado e gravado na mídia anexada à fl. 53 dos autos extrajudiciais,
abaixo transcrito:

“Que se arrependeu do que foi dito anteriormente, porque não


é sua postura mentir. Que sua vida pública não foi feita de
mentiras. Que, desde que recebeu a notificação desta Promotoria
vem se sentindo mal, porque sabe que pode ser responsabilidade
solidariamente com o Prefeito pelos atos de nomeação do servidor
Sidney. Que, até então, não sabia que poderia ser responsabilizada
e apenada pelo ato de nomeação do Sidney. Que, somente após a
primeira audiência realizada nesta Promotoria, foi que veio a
entender a gravidade da situação. Que havia um outro
“fantasma” nomeado para exercer as funções na Secretaria de
Cultura, a senhora LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ. Que
Sidney realmente era um fantasma; que nunca conheceu,
recebeu, nem foi apresentada a Sidney. Que as pessoas que
trabalhavam com ela na equipe nunca conheceram Sidney.
Que faziam parte da equipe Adailton Andrade, Rafael, Cida,
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Helena e Cleverton. Que Sidney nunca trabalhou no local. Que


foi chamada na Secretaria de Administração para assinar as
folhas de ponto. Que conheceu Sidney quando foi chamada
para uma reunião no Escritório de Jorge Rabelo, em Aracaju,
que aconteceu uma semana antes da primeira vinda dela nesta
Promotoria. Que o Escritório de Jorge Rabelo foi contratado pela
Prefeitura de Rosário do Catete, nesta atual gestão de Etelvino.
Que compareceram à mencionada reunião, a depoente, junto com
uma testemunha que ela levou; Dr. Alan, procurador do Município;
o Prefeito Etelvino; Domingos Sávio; e Sidney. Que foi apresentada
a Sidney pelo Dr. Jorge Rabelo. Que nessa reunião, a depoente
foi orientanda quanto ao que falar nesta Promotoria. Que no dia
da audiência nesta Promotoria, a depoente compareceu
acompanhada da Dra. Joana Vieira dos Santos, que faz parte da
equipe do Escritório do Dr. Jorge Rabelo. Que a depoente foi
orientada a dizer que Sidney realmente trabalhava na
Secretaria, mas também realizava trabalhos externos. Que
somente teve conhecimento de que poderia ser penalizada por
ter mentido no primeiro depoimento prestado nesta
Promotoria, após receber orientação de um advogado amigo.
Que, desde a primeira audiência extrajudicial, “sua vida profissional
tem sido um inferno” (sic), porque tem tido diversas discussões
com o Prefeito e com a primeira dama. Que Sidney surgiu num
acordo entre o Prefeito Etelvino e Domingos Sávio, conhecido
como “Domingão”, proprietário da “Arena do Catete”. Que
sabe que o terreno onde a Arena está construída pertence ao
Município. Que existe uma discussão judicial sobre esse terreno.
Que o acordo era o seguinte: a Prefeitura faria a regularização das
pendências existentes sobre esse terreno, em favor de Domingos;
e em troca Sidney viria nesta Promotoria “mentir também” (sic).
Que Sidney não compareceu à primeira audiência, juntamente com
a depoente, porque Domingos impediu, uma vez que ainda não
havia uma certeza de que o acordo seria cumprido pelo Município.
Que até o momento a regularização da doação do terreno não foi
cumprida. Que tudo que ela declarou nesta Promotoria antes
não foi verdade. Que foi exonerada do cargo de Secretária de
Cultura. Que acredita que o motivo da exoneração foi por conta
das reiteradas cobranças que fez ao Prefeito Etelvino, após a
instauração deste procedimento. Que, LAILA MEDRADO GOMES
DA CRUZ também era “funcionária fantasma”. Que, depois de
ter participado da primeira audiência, nesta Promotoria, ficou
temerosa e decidiu devolver a funcionária, por receio do problema
se agravar. Que LAILA nunca esteve no prédio da Prefeitura, e
não reside no Município. Que tem alguns parentes na cidade (pai
e avó). Que ELIZEU, pai de LAILA, é amigo do Vereador
DEDEU. Que acredita que existe um acordo pelo qual LAILA
recebe o salário e faz o repasse para DEDEU. Que LAILA
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nunca trabalhou na Secretaria, nem no Gabinete do Prefeito,


como está no decreto de nomeação. Que não tem o hábito de
olhar o portal da transparência, mas após a audiência, nesta
Promotoria, fez um levantamento no portal para saber quais
servidores estavam designados para trabalhar na Secretaria de
Cultura, e foi aí que encontrou LAILA. Diante disso, no dia
21/05/2018, encaminhou um memorando à Secretaria de
Administração devolvendo a servidora. Que foi questionada pelo
Secretário de Administração KARLISSON pelo fato de ter devolvido
a funcionária e afirmou que “não iria responder por mais um
fantasma” (sic). Que só conhece LAILA por foto. Que não sabe se
ela já foi exonerada pelo Município. Que veio a esta Promotoria se
retratar, por questão de princípios. Que, na reunião ocorrida no
Escritório de Jorge Rabelo, também se discutiu a possibilidade da
depoente pedir exoneração. Que sempre fez parte da oposição ao
governo de Etelvino. Que, após a realização de uma pesquisa, o
agrupamento político da depoente viu que não conseguiria
derrubar o ex-Prefeito Laércio, nem mesmo lançar uma
candidatura autônoma, então decidiram se coligar ao partido de
Etelvino. Que, fazia parte da agremiação da terceira via política.
Que, em virtude dessa coligação política, após a vitória de Etelvino
recebeu o convite para ser Secretária de Cultura do Município. Que
não tem a confiança da equipe de governo de Etelvino porque
é tida como uma “pessoa polêmica” (sic). Por conta disso, na
reunião havida no Escritório de Jorge Rabelo, recebeu a
proposta de se retirar da Secretária e em troca receber uma
remuneração mensal de R$ 15.000,00 (quinze mil reais), “para
ficar em casa calada” (sic). Que não aceitou a proposta. Que
tem conhecimento da gravidade dessas afirmações. Que tudo que
foi tratado nessa reunião foi feito por intermédio do advogado Jorge
Rabelo, e Etelvino não falou nada. Que, desde setembro, a
Secretaria está sem ninguém. Que não foi coagida por ninguém
para comparecer nesta Promotoria, e não foi motivada pela sua
recente exoneração do cargo. Que o depoimento está sendo
prestado de livre e espontânea vontade. Que tem consciência das
consequências dos seus atos, e que está disputa a contribuir com
as investigações. Que recebeu diversas ligações para
conversar com o Prefeito, porque supunham que ela viria
nesta Promotoria, mas não chegou a informar a ninguém que
compareceria na presente data.

Para além disso, na oportunidade em que compareceu a


esta Promotoria, a senhora Maura Cecília Santos também pugnou pela juntada
da Portaria nº 113/2018, que designou a senhora LAILA MEDRADO GOMES DA
CRUZ para desempenhar a função de Assessor Especial na Secretaria
Municipal de Cultura e Turismo de Rosário do Catete (fl. 54); bem como do
IO

Memorando nº 16/2018, pelo qual ela operou a devolução da funcionária à


Secretaria Municipal de Administração de Rosário do Catete (fl. 55).

Diante do teor destas novas declarações, oficiamos a


Prefeitura de Rosário do Catete requisitando as seguintes informações, que
foram acostadas aos autos na seguinte ordem:

a) Cópias da ficha funcional, ficha financeira, e atos de


nomeação e exoneração da servidora Laila Medrado Gomes da Cruz às fls.
68/76.

Conforme se verifica a senhora LAILA MEDRADO


GOMES foi nomeada para exercer o cargo em comissão de ASSESSORA
ESPECIAL, CC-02, através do Decreto nº 051/2018, de 01 de Março de 2018,
assinado pelo Prefeito Etelvino Barreto Sobrinho. Através da Portaria nº
113/2018, de 03 de Abril de 2018, tendo sido designada para desempenhar
suas atividades junto à Secretaria Municipal de Cultura e do Turismo de Rosário
do Catete; e por fim, através do Decreto nº 109/2018, de 12 de Junho de 2018,
também assinado pelo Prefeito Etelvino, ela foi exonerada do cargo. Ou seja,
ela esteve a serviço do Município pelo período de Março/2018 a Junho/2018,
sendo remunerada pela Administração Municipal, como se vê na ficha financeira
acostada à fl. 69.

Importante registrar que também requisitamos ao


Município demandado cópias das folhas de ponto da funcionária Laila Medrado,
no entanto, a requisição não foi atendida pelo ente público.

b) Cópia da ficha funcional e financeira do servidor


SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS às fls. 77/79.

Conforme se verifica o senhor SIDNEY HENRIQUE


BARRETO CHAGAS exerceu o cargo em comissão de DIRETOR DE
EVENTOS, CC-02, pelo período compreendido entre Janeiro/2017 a Outubro
de 2017, sendo remunerado pela Administração Municipal, como se vê na ficha
financeira acostada à fl. 78/79.

c) Informações sobre quem estava exercendo, atualmente,


o cargo de Secretário Municipal de Cultura.

Com efeito, referido cargo passou a ser ocupado,


interinamente, pela Secretária Municipal de Comunicação, a Sra. Tirzah
Rezende da Rocha Barreto, mediante o Decreto nº 190/2018, acostado à fl. 80
Cópia do contrato firmado com o escritório de advocacia Melo e Tabelo
Advogados Associados às fls. 83/99.

d) Informações sobre a quem pertencia o imóvel onde está


IO

construída a Arena do Catete, na cidade de Rosário do Catete; bem como se


houve algum processo judicial sobre o referido bem.

Em conformidade com as informações de fl. 65, o imóvel


“Arena do Catete” pertence a Domingos Sávio de Oliveira, existindo,
atualmente, duas ações em trâmite, relativas ao imóvel: uma referente à patente
do nome “Arena do Catete” (Processo nº 201374200251); e outra referente à
regularização da área para eventos (Processo nº 201374200563).

Paralelamente, requisitamos à Prefeitura de Rosário do


Catete que fossem apresentados, perante esta Promotoria, os servidores que
formavam a equipe da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, indicados
pela senhora Maura, para prestar esclarecimentos, a saber: os senhores Maria
Aparecida Ferreira da Silva, Carlos Rafael Pereira Dortas, Cleverton Felix
Vasconcelos, Adailton dos Santos Andrade, e Maria Helena dos Santos.

Transcrevemos, abaixo, o inteiro teor dos depoimentos


prestados. Vejamos:

“Que é servidora pública efetiva no cargo de auxiliar de serviços


gerais, há aproximadamente 19 anos, no município de Rosário do
Catete; que trabalha na Secretaria Municipal de Cultura há
cerca de oito anos; que a última Secretária Municipal de Cultura
que tem conhecimento foi a Sra. MAURA CECÌLIA; que tomou
conhecimento que a filha do Prefeito, a Sra. TIRZAH REZENDE
ROCHA, está atualmente como Secretária Municipal de Cultura;
que não tem conhecimento dos motivos da exoneração da Sra.
MAURA CECÍLIA do cargo; que não conhece SIDNEY HENRIQUE
BARRETO CHAGAS; que nunca o viu; que desconhece que ele
tenha trabalhado na Secretaria de Cultura de Rosário do
Catete; “que nunca viu ele por lá”; que não sabia que SIDNEY
era servidor de Rosário; que apresentada a fotografia
constante do RG do Sr. SIDNEY à depoente (fl. 47), esta
declarou que não o conhece; que também nunca viu SIDNEY
em confraternizações e festas de aniversário da equipe do
local de trabalho; que confirma que os servidores ADAILTON,
CLEVERTON, RAFAEL e HELENA trabalhavam na Secretaria de
Cultural; que não conhece a Sra. LAILA MEDRADO GOMES DA
CRUZ; que LAILA nunca trabalhou na Secretaria de Cultura do
Município; que apresentada a fotografia da Sra. LAILA
constante da fl. 62 deste procedimento, a depoente nunca a ter
visto.”

(Termo de Declarações prestadas pela senhora Maria


Aparecida Ferreira da Silva- fl.105)
IO

“Que é servidor público efetivo no cargo de assistente


administrativo, desde de 2011, no município de Rosário do Catete;
que trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura, de janeiro de
2017 a outubro de 2018; que, atualmente, está lotado na
Secretaria de Educação; que acredita que a sua relotação tem
respeito com o objeto do presente procedimento, apesar de
ninguém da Administração ter comentando nada com o depoente;
que no período em que trabalhou na Secretaria de Cultura, a
Secretária de Cultura era a Sra. MAURA CECÌLIA; que pelo que
tem conhecimento a exoneração da Sra. MAURA CECÍLIA do cargo
foi em decorrência de divergências políticas com o Prefeito; que
não conhece SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS; que
nunca o viu; que desconhece que ele tenha trabalhado na
Secretaria de Cultura de Rosário do Catete; que não sabia que
SIDNEY era servidor de Rosário; que apresentada a fotografia
constante do RG do Sr. SIDNEY ao depoente (fl. 47), este
declarou que não o conhece; que como trabalhava no setor
administrativo da Secretaria de Cultura, certamente, se o Sr.
SIDNEY trabalhasse no local também teria conhecimento, até
mesmo em razão da assinatura de memorando e ofícios; que
também não há registros fotográficos de SIDNEY nos eventos
realizados pela Secretaria de Cultura do Município, o que
deveria ocorrer, já que ele era Diretor de Eventos; que também
não há registros fotográficos de SIDNEY em confraternizações
e festas de aniversário da equipe do local de trabalho; que
confirma que os servidores ADAILTON, CLEVERTON, CIDA e
HELENA trabalhavam na Secretaria de Cultural; que não conhece
a Sra. LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ; que LAILA nunca
trabalhou na Secretaria de Cultura do Município; que
apresentada a fotografia da Sra. LAILA constante da fl. 62 deste
procedimento, o depoente declarou a conhecer pela imagem,
não pelo nome; que a conhece de vista da cidade, mas nunca
mais a viu; que já viu LAILA nas festas da cidade; que após
apresentada a fotografia de fls. 62, o depoente reafirma que a
Sra. LAILA MEDRADO nunca trabalhou na Secretaria de
Cultura, no período em que o depoente lá esteve lotado.
Que encaminhou, na oportunidade, para o e-mail desta Promotoria
fotografias dos eventos externos e internos da Secretaria Municipal
de Cultura, onde se pode constatar que nem SIDNEY e nem LAILA
estão presentes.”

(Termo de Declarações prestadas por Carlos Rafael Pereira


Dortas-fl. 107)

“Que é servidor público efetivo no cargo de auxiliar de serviços


gerais, desde outubro de 2011, no município de Rosário do Catete;
IO

que foi nomeado em março de 2018 para exercer a função de


Secretário da Junta de Serviço Militar no município de Rosário do
Catete; que por conta dessa função, recebe uma gratificação
equivalente a 50% do salário mínimo; que trabalhou na Secretaria
Municipal de Cultura, de janeiro de 2017 a março de 2018; que no
período em que trabalhou na Secretaria de Cultura, a Secretária de
Cultura era a Sra. MAURA CECÌLIA; que não sabe dizer o motivo
da exoneração da Sra. MAURA CECÍLIA do cargo; que não
conhece SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS; que nunca o
viu; que desconhece que ele tenha trabalhado na Secretaria de
Cultura de Rosário do Catete; que não sabia que SIDNEY era
servidor de Rosário; que apresentada a fotografia constante do
RG do Sr. SIDNEY ao depoente (fl. 47), este declarou que não o
conhece; que confirma que os servidores ADAILTON, RAFAEL,
CIDA e HELENA trabalhavam na Secretaria de Cultura; que não
conhece a Sra. LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ; que LAILA
nunca trabalhou na Secretaria de Cultura do Município; que
apresentada a fotografia da Sra. LAILA constante da fl. 62 deste
procedimento, o depoente declarou não conhecer referida
pessoa.”

(Termo de Declarações prestadas pelo senhor Cleverton Felix


Vasconcelos-fl.109)

“Que exerceu o cargo em comissão de diretor de cultura do


Município de Rosário do Catete, desde 01 de fevereiro de 2017,
sendo que foi exonerado, no mês de setembro ou outubro de 2018,
não se recordando exatamente a data; que no período em que
exerceu o cargo de diretor de cultura, a secretária Municipal era a
Sra. MAURA CECÍLIA; que tinha vários projetos para a cidade, já
que é um historiador, estando realizando mestrado na oportunidade,
por isso, foi nomeado para o exercício do referido cargo
comissionado; que durante o período em que exerceu as suas
funções se sentiu perseguido por MAURA CECÍLIA por não fazer
parte do grupamento de afinidade dela; que foi exonerado, segundo
lhe foi informado pelo Secretário de Administração, KARLISSON,
em razão de dificuldades financeiras enfrentadas pelo Município;
que não conhece SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS; que
nunca o viu; que desconhece que ele tenha trabalhado na
Secretaria de Cultura de Rosário do Catete; que não sabia que
SIDNEY era servidor de Rosário; que apresentada a fotografia
constante do RG do Sr. SIDNEY ao depoente (fl. 47), este
declarou que não o conhece; que confirma que os servidores
CIDA, CLEVERTON, RAFAEL e HELENA trabalhavam na
Secretaria de Cultura; que não conhece a Sra. LAILA MEDRADO
GOMES DA CRUZ; que LAILA nunca trabalhou na Secretaria de
IO

Cultura do Município; que apresentada a fotografia da Sra.


LAILA constante da fl. 62 deste procedimento, o depoente
declarou a conhecer pela imagem, não pelo nome; que a
conhece de vista da cidade, sendo é que muito amigo do avô
dela, Sr. LUIZ FERREIRA GOMES, já que ele é referência de
fontes históricas na cidade; que conhece de vista “Alfredo
Construtor”, acreditando ser ele casado com a mãe de LAILA,
filha do Sr. Luiz; que não sabe dizer da relação existente entre
LUIZ FERREIRA e o Vereador “DEDEU”; que após apresentada
a fotografia de fls. 62, o depoente reafirma que a Sra. LAILA
MEDRADO nunca foi vista pelo depoente por lá na Secretaria
de Cultura, no período em que o depoente exerceu seu cargo
no local.”

(Termo de Declarações prestadas pelo senhor Adailton dos


Santos Andrade-fl.103)

“Que era auxiliar de serviços gerais da Prefeitura de Rosário do


Catete, na condição de servidora efetiva; que se aposentou no mês
de maio de 2018, sendo que o seu último local de lotação foi na
Secretaria de Cultura, onde estava desde 2010; que quando se
aposentou a Secretária de Cultura era a Sr. MAURA CECÌLIA; que
não conhece SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS; que
nunca o viu; que desconhece que ele tenha trabalhado na
Secretaria de Cultura de Rosário do Catete; que não sabia que
SIDNEY era servidor de Rosário; que apresentada a fotografia
constante do RG do Sr. SIDNEY à depoente (fl. 47), esta
declarou que não o conhece, “que nunca viu”; que confirma que
os servidores ADAILTON, RAFAEL, CIDA e CLEVERTON
trabalhavam na Secretaria de Cultura; que não sabe dizer o motivo
da exoneração da Secretária MAURA CECÍLIA; que não conhece
a Sra. LAILA MEDRADO; que LAILA nunca trabalhou na
Secretaria de Cultura do Município; que apresentada a
fotografia da Sra. LAILA constante da fl. 62 deste
procedimento, a depoente declarou não conhecer referida
pessoa; que não foi procurada por ninguém da Prefeitura antes da
realização da presente assentada; que nega que o Prefeito tenha
estado na casa da depoente, juntamente com seu irmão, no dia 29
de novembro de 2018, por volta das 19:00h, conforme informação
que consta à fl. 63 dos autos deste procedimento; que tem uma
filha, ANA PAULA DOS SANTOS, que exerce cargo em comissão
na Prefeitura, no setor de Recursos Humanos; que a filha da
depoente chegou a comentar que o Prefeito mencionou que a
depoente poderia ser chamada a prestar depoimento na
Promotoria, mas que não tem conhecimento de que o Prefeito
tenha orientado sua filha acerca do que a depoente deveria dizer;
IO

que, inclusive, em conversa com sua filha, esta disse que a


depoente deveria dizer sempre a verdade.”

(Termo de Declarações prestadas pela senhora Maria Helena


dos Santos-fl.111)

Consoante se afere nos depoimentos acima colacionados,


todos os servidores que formavam a equipe da Secretaria de Cultura e
Turismo foram uníssonos em afirmar que os senhores Sidney Henrique
Barreto Chagas, e a senhora Laila Medrado Gomes da Cruz nunca
trabalharam na referida Secretaria, aliás, todos eles nem mesmo
conheciam os referidos “servidores fantasmas”.

Corroborando estas informações, o servidor Carlos Rafael


Pereira Dortas, a pedido desta signatária, encaminhou ao e-mail desta
Promotoria fotografias de eventos internos e externos da Secretaria de Cultura e
Turismo, nos quais nem Sidney, nem Laila estão presentes (vide fls. 114/124).

Ato contínuo, registramos que, em virtude do depoimento


prestado pela senhora Maura Cecília em 18/10/2018 (fl. 53), também
notificamos a comparecer nesta Promotoria, para prestar esclarecimentos, os
senhores Manoel Santana Filho (Vereador “Dedeu”); bem como o senhor
Domingos Sávio de Oliveira (proprietário da “Arena Catete”), oportunidade na
qual ambos negaram terem realizado a indicação de Laila e Sidney,
respectivamente, para ocupar cargo comissionado na cidade de Rosário do
Catete (vide termos de declarações às fls. 100 e 128).

Por derradeiro, a senhora LAILA MEDRADO GOMES DA


CRUZ também foi notificada para prestar esclarecimentos, nesta Promotoria. No
entanto, apesar de devidamente notificada, não compareceu à assentada, nem
tampouco justificou sua ausência (certidão de fl. 127).

Diante disso, comprova-se que LAILA MEDRADO


GOMES DA CRUZ recebeu indevidamente remuneração do Município de
Rosário do Catete, no período de Março/2018 a Junho/2018, conforme
documento em anexo, à fl.69; e que SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS
recebeu indevidamente remuneração do Município de Rosário do Catete, no
período de Janeiro/2017 a Outubro/2017, totalizando os valores apontados na
tabela abaixo, que deverão retornar aos cofres públicos:
IO

SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS


Mês Valor Recebido Valor
atualizado até
14/01/2019
Janeiro/2017 R$ 3.078,20 R$ 3.245,17
Fevereiro/2017 R$ 3.078,20 R$ 3.231,60
Março/2017 R$ 2.958,20 R$ 3.098,18
Abril/2017 R$ 4.995,75 R$ 5.215,46
Maio/2017 R$ 4.050,40 R$ 4.225,15
Junho/2017 R$ 4.050,40 R$ 4.210,00
Julho/2017 R$ 4.050,40 R$ 4.222,66
Agosto/2017 R$ 4.050,40 R$ 4.215,50
Setembro/2017 R$ 4.050,40 R$ 4.216,76
Outubro/2017 R$ 2.747,62 R$ 4.390,83
TOTAL: R$ 37.109,97 R$ 40.271,31
TOTAL ATUALIZADO: R$ 40.271,31 (QUARENTA MIL, DUZENTOS E SETENTA E
UM REAIS E TRINTA E UM CENTAVOS)

LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ


Mês Valor Recebido Valor
atualizado até
14/01/2019
Março/2018 R$ 3.010,12 R$ 3.096,43
Abril/2018 R$ 3.010,12 R$ 3.094,26
Maio/2018 R$ 3.010,12 R$ 3.087,77
Junho/2018 R$ 2.440,78 R$ 2.493,03
TOTAL: R$ 11.471,14 R$ 11.771,49
TOTAL ATUALIZADO: R$ 11.771,49 (ONZE MIL, SETECENTOS E SETENTA E UM
REAIS E QUARENTA E NOVE CENTAVOS)

II – DA LEGITIMIDADE:

II. a) ATIVA:

A legitimidade do Ministério Público do Estado de Sergipe


para ajuizamento da presente ação de improbidade administrativa repousa,
essencialmente, na Constituição Federal de 1988.

Ao definir as funções institucionais do Parquet, a Lei Maior


prediz, expressamente, no inciso III, do seu art. 129, que lhe compete “promover
o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e
IO

social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos”.

Por fim, completando o arcabouço normativo que confere


legitimidade ao Órgão Ministerial para a propositura das ações de improbidade
administrativa, tem-se o disposto na Lei 8.429/92, artigo 17: “A ação principal,
que terá o rito ordinário, será proposta pelo Ministério Público ou pela pessoa
jurídica interessada, dentro de trinta dias da efetivação da medida cautelar ”
(grifamos).

Logo, indubitável a legitimidade ativa do Parquet para


figurar no pólo ativo da presente demanda.

II.b) PASSIVA:

Nos termos da Lei 8.429/92, sujeitam-se às sanções nela


previstas os agentes públicos, servidores ou não, bem como os particulares que
de qualquer forma induzam ou concorram para a prática do ato de improbidade,
ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta.

O artigo 2° do diploma legal supracitado conceitua agente


público nos seguintes termos, in verbis:

Reputa-se agente público, para os efeitos desta lei, todo aquele


que exerce, ainda que transitoriamente e sem remuneração, por
eleição , nomeação, designação, contratação ou qualquer outra
forma de investidura ou vínculo , mandato, cargo, emprego ou
função nas entidades mencionadas no artigo anterior. (grifo
nosso)

Desse modo, torna-se incontestável a legitimidade passiva


dos réus para integrar o pólo passivo da presente demanda.

O Prefeito Etelvino Barreto Sobrinho foi responsável


pelas nomeações dos servidores SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS e
LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ. Além disso, a então Secretaria Municipal
de Cultura e Turismo, Maura Cecília Santos consentiu, tacitamente, que ambos
fossem designados para exercer suas atividades na referida Secretaria,
concorrendo para a prática de atos que importaram em lesão aos cofres
públicos, maltrato aos princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade da
administração pública, gerando enriquecimento ilícito, com prejuízo ao erário
público.

Não se pode deixar de mencionar, incluisve, que a Sra.


IO

Maura Cecília Santos chegou a apresentar documentação falsa, por ela mesma
assinada, a esta Promotoria de Justiça, qual seja folha de ponto do funcionário
fantasma SIDNEY, a fim de comprovar perante este Órgão Ministerial o seu
pseudo comparecimento ao local de trabalho.

Por outro lado, SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS


e LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ agiram na qualidade de servidores
comissionados do Município de Rosário do Catete, e, assim, consciente e
volitivamente, receberam remuneração indevidamente do Poder Executivo
Municipal, mesmo sem desempenharem regularmente suas funções.

III – DO DIREITO:

O fundamento para a responsabilização por atos de


improbidade administrativa repousa no artigo 37, caput , da Constituição
Federal, in verbis:

A administração pública direta e indireta de qualquer dos


Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios obedecerá aos princípios de legalidade,
impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também,
ao seguinte:
(...)
§ 4° Os atos de improbidade administrativa importarão a
suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a
indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma
e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível;

Visando a dar concreção ao mandamento constitucional


acima, foi editada a Lei 8.429/92, a qual definiu os atos de improbidade
administrativa, separando-os em três modalidades : a) no artigo 9°, tratou dos
atos de improbidade administrativa que importam enriquecimento ilícito; b) ao
artigo 10, reservou as condutas que causam prejuízo ao erário; c) e, finalmente,
dedicou o artigo 11 aos atos de improbidade administrativa que atentam contra
os princípios da administração pública.

Diversamente das normas penais incriminadoras, que


exigem a perfeita correlação entre a conduta do agente e o tipo previsto em lei,
os atos de improbidade administrativa vem exemplificativamente elencados nos
artigos mencionados no parágrafo precedente.
IO

III.a) RESPONSABILIZAÇÃO PELOS ATOS DE IMPROBIDADE


ADMINISTRATIVA DOS SERVIDORES SIDNEY HENRIQUE BARRETO
CHAGAS e LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ, BEM COMO DO
NOMEANTE ETELVINO BARRETO SOBRINHO, E DA ENTÃO SECRETÁRIA
MUNICIPAL DE CULTURA E TURISMO, MAURA CECÍLIA SANTOS.

Os atos praticados pelos Requeridos amoldam-se às três


modalidades de atos de improbidade administrativa descritos pela Lei nº
8.429/92, quais sejam: enriquecimento ilícito (art. 9º), dano ao erário (art. 10º) e
violação aos princípios constitucionais da Administração Pública (art. 11).

Inicialmente, por terem recebido da Prefeitura de Rosário


do Catete valores a título de remuneração sem prestarem a devida
contraprestação, os Requeridos SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS e
LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ enriqueceram ilicitamente às expensas
do Poder Público, encontrando-se incurso na conduta descrita no art. 9º caput
e inc. VIII, da Lei nº 8.429/92, verbis:

Art. 9° Constitui ato de improbidade administrativa importando


enriquecimento ilícito auferir qualquer tipo de vantagem
patrimonial indevida em razão do exercício de cargo, mandato,
função, emprego ou atividade nas entidades mencionadas no
art. 1° desta lei, e notadamente:
[...] VIII - aceitar emprego, comissão ou exercer atividade de
consultoria ou assessoramento para pessoa física ou jurídica
que tenha interesse suscetível de ser atingido ou amparado por
ação ou omissão decorrente das atribuições do agente público,
durante a atividade;

Ademais, é de ver que o Requerido ETELVINO BARRETO


SOBRINHO concorreu decisivamente para a prática do ato de enriquecimento
ilícito, na medida em que foi o responsável pelas nomeações espúrias, para o
exercício dos cargos em comissão citados.

Outrossim, a senhora MAURA CECÍLIA SANTOS, à época


Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, também contribui para a prática dos
atos de improbidade, na medida em que consentiu tacitamente com a
designação dos referidos servidores para exercerem suas funções na referida
Secretaria, deixando de exigir o controle de ponto e a efetiva prestação de
serviços, mesmo sabendo que eles recebiam seus salários com regularidade,
sem prestarem a devida contraprestação à municipalidade. Nesse sentido,
ressaltamos que a própria Secretária confirmou, perante esta Promotoria (fl. 53),
que as folhas de ponto (falsas) de Sidney Henrique, que constam às fls. 29/36,
foram assinadas por ela, posteriormente à instauração do procedimento
IO

extrajudicial 26.17.01.0142, ante a notificação deste Parquet para que referido


documento fosse apresentado. As folhas de ponto de Laila, por outro lado,
sequer foram encaminhadas, embora o Município também tenha sido notificado
para tanto, evidenciando que estas inexistiam.

O valor do enriquecimento ilícito no caso correspondem às


remunerações percebidas mensalmente por SIDNEY HENRIQUE BARRETO
CHAGAS e LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ, ao longo do tempo, sem a
devida contraprestação do serviço.

Devem todos, portanto, responderem solidariamente.

Saliente-se que esta modalidade de ato de improbidade


administrativa – enriquecimento ilícito – é necessário que a conduta do agente
seja praticada com dolo. In casu, o dolo está evidenciado, pois os requeridos
tinham plena consciência de que os ditos “servidores” seriam remunerados pelo
Poder Público Municipal, sem ter se prestar qualquer tipo de serviço, nem
mesmo comparecer regularmente ao posto de serviço. Isso fica evidente no
depoimento prestado pela senhora MAURA CECÍLIA SANTOS, em 18/10/2018
(fl. 53), quando, de forma espontânea, compareceu a esta Promotoria para se
retratar do depoimento outrora prestado em 18/05/2018. Nesta oportunidade, a
depoente afirmou ter mentido no primeiro depoimento, e que os referidos
servidores, de fato, eram “fantasmas”, sendo tal situação de pleno
conhecimento do Prefeito Etelvino.

A segunda modalidade de ato de improbidade


administrativa é o que causa prejuízo ao erário, tipificado no art. 10 da Lei nº
8.429/92.

Diferentemente do que ocorre no enriquecimento ilícito,


esta modalidade de ato ímprobo permite a responsabilização do agente público
que tenha agido com dolo ou culpa.

Em análise ao art. 10 da Lei nº 8.429/92, Emerson Garcia e


Rogério Pacheco Alves averbam que “qualquer diminuição do patrimônio
público advinda de ato inválido será ilícita, pois 'quod nullun est, nullum producit
effectum', culminando em caracterizar o dano e o dever de ressarcir” (GARCIA,
Emerson; ALVES, Rogério Pacheco. Improbidade Administrativa. 3ª Edição,
2006. Ed. Lumen Juris. p. 265).

Deste modo, como os Requeridos SIDNEY HENRIQUE


BARRETO CHAGAS e LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ receberam
indevidamente do Município de Rosário do Catete, conforme quadro resumo de
valores indicado mais acima, sem terem executado nenhuma atividade de
interesse público ou inerente aos cargos que ocuparam, eles e ETELVINO
BARRETO SOBRINHO e MAURA CECÍLIA SANTOS, que foram os agentes
públicos que permitiram e executaram o ato, devem responder solidariamente
IO

pelo dano sofrido pelos cofres da Municipalidade, encontrando-se incursos no


caput do art. 10 da Lei nº 8.429/92:

Art. 10. Constitui ato de improbidade administrativa que causa


lesão ao erário qualquer ação ou omissão, dolosa ou culposa,
que enseje perda patrimonial, desvio, apropriação,
malbaratamento ou dilapidação dos bens ou haveres das
entidades referidas no art. 1º desta lei, e notadamente:

Com efeito, os Requeridos ETELVINO BARRETO


SOBRINHO e MAURA CECÍLIA SANTOS, por terem permitido, facilitado ou
concorrido para que SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS e LAILA
MEDRADO GOMES DA CRUZ tenham se enriquecido ilicitamente, também
encontra-se incurso no inc. XII do supracitado artigo:

XII - permitir, facilitar ou concorrer para que terceiro se


enriqueça ilicitamente;

Finalmente, a terceira classe dos atos de improbidade


administrativa contempla os atos que atentam contra os princípios da
administração pública. Esta classe encontra previsão no artigo 11 da Lei nº
8.429/92.

Por descumprirem os princípios regentes da atividade


administrativa insculpidos no art. 37, caput, da Constituição Federal,
notadamente os princípios da legalidade, moralidade, impessoalidade e
eficiência, os Requeridos também incorreram na prática de ato de improbidade
administrativa tipificado no art. 11, caput, e inciso I, da Lei 8.429/92.

Nesse ponto, imperioso destacar as lições de Marino


Pazzaglini Filho, que sustenta que violar um princípio “é a MODALIDADE MAIS
GRAVE E IGNÓBIL DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA, pois contempla o
comportamento torpe do agente público que desempenha funções públicas de
sua atribuição de forma desonesta e imoral” (MARINO PAZZAGLINI FILHO. Lei
de Improbidade Administrativa Comentada, Atlas, 2002, p. 54).

O primeiro princípio descrito no art. 37 da Constituição


Federal é o princípio da legalidade, o qual, segundo Celso Antônio Bandeira de
Mello:

“É o princípio basilar do regime jurídico-administrativo (...). É o


fruto da submissão do Estado à lei. É em suma: a consagração
IO

da ideia de que a Administração Pública só pode ser exercida


na conformidade da lei e que, de conseguinte, a atividade
administrativa é atividade sublegal, infralegal, consistente na
expedição de comandos complementares à lei” (MELLO, Celso
Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 9. ed. São
Paulo: Malheiros, 1997, p. 58 e 59).

Hely Lopes Meirelles, ao abordar o tema, lembra que:

“A eficácia de toda atividade administrativa está condicionada


ao atendimento da lei. (...) As leis administrativas são,
normalmente, de ordem pública e seus preceitos não podem
ser descumpridos, nem mesmo por acordo ou vontade conjunta
de seus aplicadores e destinatários, uma vez que contêm
verdadeiros poderes-deveres, irrelegáveis pelos agentes
públicos. Por outras palavras, a natureza da função pública e a
finalidade do Estado impedem que seus agentes deixem de
exercitar os poderes e de cumprir os deveres que a lei lhes
impõem” (MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Administrativo
Brasileiro. 22. ed. São Paulo: Malheiros, 1997. p. 82).

Assim, com amparo nos ensinamentos da melhor doutrina,


resta sobejamente demonstrado que os Requeridos violaram o princípio da
legalidade, pois, arquitetaram um “esquema” de obterem vantagem econômica
indevida, sem prestarem a devida atividade de interesse público.

O princípio da impessoalidade, por sua vez, tem recebido


diversas interpretações. Segundo Maria Sylvia Zanella di Pietro:

Exigir impessoalidade da Administração tanto pode significar


que esse atributo deve ser observado em relação aos
administrados como à própria Administração. No primeiro
sentido, o principio estaria relacionado com a finalidade pública
que deve nortear toda a atividade administrativa. Significa que a
Administração não pode atuar com vistas a prejudicar ou
beneficiar pessoas determinadas, uma vez que é sempre o
interesse público que tem que nortear o seu comportamento. No
segundo sentido, o princípio significa, segundo José Afonso da
Silva baseado na lição de Gordillo que os atos e provimentos
administrativos são imputáveis não ao funcionário que os
pratica, mas ao órgão ou entidade administrativa da
Administração Pública, de sorte que ele é o autor institucional
do ato. Ele é apenas o órgão que formalmente manifesta a
vontade estatal." (DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito
administrativo. 17. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 71).
IO

Os Requeridos agiram com pessoalidade, praticando atos


visando interesses próprios.

O princípio da moralidade administrativa também não foi


respeitado.

Para Celso Antônio Bandeira de Mello, de acordo com o


princípio da moralidade administrativa:

“(…) a Administração e seus agentes têm de atuar na


conformidade de princípios óticos. Violá-los implicará violação
ao próprio Direito, configurando ilicitude que assujeita a conduta
viciada a invalidação, porquanto tal princípio assumiu foros de
pauta jurídica, na conformidade do art. 37 da Constituição.
Compreendem-se em seu âmbito, como é evidente, os
chamados princípios da lealdade e boa-fé” (MELLO, Celso
Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 9. ed. São
Paulo: Malheiros, 1997. p. 72 e 73).

A imoralidade decorre das próprias condutas dos


Requeridos, contrárias aos valores éticos e morais e sobretudo, contrárias à lei.

Os Requeridos também agiram contrários aos interesses


da Instituição que representavam, especialmente ETELVINO BARRETO
SOBRINHO, que na qualidade de Prefeito Municipal, deveria ser a agente com
a maior qualificação possível, diligente em seus atos, compromissado
incondicionalmente com a lei, mas preferiu utilizar do cargo para permitir a
obtenção de vantagens e praticar atos ilícitos.

Por fim, quanto ao princípio da eficiência, Hely Lopes


Meirelles ensina o seguinte:

Dever de eficiência é o que se impõe a toda agente público de


realizar suas atribuições com presteza, perfeição e rendimento
funcional. É o mais moderno princípio da função administrativa,
que já não se contenta em ser desempenhada apenas com
legalidade, exigindo resultados positivos para o serviço público
e satisfatório atendimento das necessidades da comunidade e
de seus membros ( MEIRELLES, Hely Lopes. Direito
Administrativo Brasileiro. 22ª ed. São Paulo: Malheiros, 1997.p.
90).
IO

Assim, é inegável que os Requeridos SIDNEY HENRIQUE


BARRETO CHAGAS e LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ não agiram com
presteza, perfeição ou rendimento funcional, eles agiram ardilosamente para
auferirem benefícios às expensas do Poder Público, sendo absolutamente
ineficientes e incapazes de desempenharem as funções ou cargos público para
os quais foram nomeados.

Com efeito, pelos atos que importaram enriquecimento


ilícito, lesão ao patrimônio público e que atentaram contra os princípios da
administração pública, SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS, LAILA
MEDRADO GOMES DA CRUZ, ETELVINO BARRETO SOBRINHO, e MAURA
CECÍLIA SANTOS estão sujeitos às penalidades do art. 12, I, II e III, da Lei
8.429/92.

III.b) ELEMENTO SUBJETIVO (DOLO):

Por outro lado, também se encontra presente, na conduta


dos demandados o elemento subjetivo necessário à caracterização do ato de
improbidade. Com efeito, o elemento subjetivo reclamado para os atos ímprobos
em testilha, já que envolvem, além do enriquecimento ilícito e da violação de
princípios, a efetiva lesão aos cofres públicos, pode ser o dolo ou a culpa. E,
longe de dúvidas, os demandados na presente ação sabiam que estavam
cometendo ilícitos, como se pode aferir da farta documentação acostada aos
autos do procedimento extrajudicial que sustenta a presente demanda.

Em relação ao Prefeito Municipal, deve-se dizer que é


inaceitável que ele, pessoa esclarecida e no exercício de cargo eletivo de
tamanha relevância, alegue desconhecer preceitos tão basilares da boa
administração. É inconcebível que ele tenha atuado de boa-fé, em face de
nomeações que causaram prejuízos ao Erário. Se, de fato, desconhecesse
regras tão essenciais de boa administração pública, não teria mínimas
condições de governar o Município de Rosário do Catete, o que, definitivamente,
não é o caso.

Ora, Excelência, é certo que o Município de Rosário do


Catete é pequeno, não se podendo imaginar da existência e permanência de
verdadeiros “servidores fantasmas”, por tanto tempo, sem o conhecimento e
conivência do Prefeito. LAILA, inclusive, como se vê no Decreto de nomeação
de fl. 70/71 era lotada no Gabinete no Prefeito, e só posteriormente foi
designada para exercer suas funções na Secretaria Municipal de Cultura e
Turismo.

Por sua vez, a senhora Maura Cecília Santos, que estava à


frente da pasta da referida Secretaria, à época, também estava plenamente
ciente de que os “servidores” Laila e Sidney eram “fantasmas”, tanto é que
IO

chegou a comparecer nesta Promotoria, volitivamente, para expor a realidade da


situação, mesmo sabendo que a responsabilização pelos atos de improbidade
administrativa seria extensiva a ela. Registramos que, conforme exposto nesta
Promotoria, a senhora Maura operou a devolução, por memorando (fl. 55), da
servidora Laila Medrado, logo após participar da primeira audiência, nesta
Promotoria, temendo, justamente, o agravamento da situação.

Conforme bem observado pelo nobre colega ALEXANDRE


ALBAGLI OLIVEIRA, Promotor de Justiça do Estado de Sergipe, “o cenário
jurídico-legal vigente, calcado na imperiosa necessidade (constitucional) de
atenção à eficiência administrativa, impõe aos que labutam com a coisa pública
um verdadeiro princípio de boa gestão pública. Vale dizer, o trato com a coisa
pública não reclama apenas condutas honestas em sentido estrito,
relativamente à (não) prática de atos de corrupção. Exige, ainda, condutas que
não sejam, por exemplo, negligentes. Condutas estas que, reitere-se, revelam
um tenebroso ranço do comportamento tupiniquim, que é o desdém com a
coisa pública”.

Em suma, aos Administradores Públicos é vedado


distanciar-se do legal, do honesto, do moral, da lealdade e da boa-fé, e ao
Prefeito demandado, bem como aos seus Secretários Municipais de
Administração e Cultura, à época, como agentes públicos que eram, estavam
obrigados a conhecer e zelar pelos princípios e regras da Administração
Pública.

Não é admissível, nos dias atuais, tratar os


Administradores Públicos como se fossem pessoas que desconhecem suas
obrigações e que agem inocentemente, pois, na realidade, com raras exceções,
eles têm plena e total consciência de seus deveres e dos procedimentos legais
que regem a Administração Pública, já que recebem orientação dos servidores
que os auxiliam, notadamente de seus Procuradores, dos Tribunais de Contas e
de outras entidades.

IV – DA NECESSIDADE DA QUEBRA DO SIGILO BANCÁRIO DOS


DEMANDADOS SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS, LAILA MEDRADO
GOMES DA CRUZ.

Conforme é cediço, nos dados bancários de uma pessoa


física e jurídica constam, dentre diversas informações, as movimentações
financeiras de depósitos, saques, transferências, pagamentos etc.

Assim, uma forma muito eficaz de se conhecer a vida, a


capacidade e os relacionamentos financeiros de uma pessoa física ou jurídica é,
sem dúvida, através da sua movimentação bancária.
IO

Tais informações, além de já possuírem um valor individual


importante à apuração, quando confrontadas entre si e com outros elementos
investigatórios permitem verificar, por exemplo, se a movimentação financeira do
investigado é compatível com os seus ganhos declarados e com a sua profissão.

Contudo, as movimentações bancárias se encontram


protegidas pelo sigilo de dados, conforme previsão inscrita no artigo 5º, inciso
XII, da Constituição da República. Entretanto, tal direito não é absoluto, havendo
a possibilidade do seu afastamento, conforme previsto na Lei Complementar
Federal nº 105, de 10 de janeiro de 2001, que delimita a forma e as hipóteses de
quebra do sigilo bancário, in verbis:

Art. 1º (...)
§ 4º A quebra de sigilo poderá ser decretada, quando
necessária para apuração de ocorrência de qualquer ilícito, em
qualquer fase do inquérito ou do processo judicial, e
especialmente nos seguintes crimes:
I – de terrorismo;
II – de tráfico ilícito de substâncias entorpecentes ou drogas afins;
III – de contrabando ou tráfico de armas, munições ou material
destinado a sua produção;
IV – de extorsão mediante sequestro;
V – contra o sistema financeiro nacional;
VI – contra a Administração Pública;
VII – contra a ordem tributária e a previdência social;
VIII – lavagem de dinheiro ou ocultação de bens, direitos e valores;
IX – praticado por organização criminosa.

Pois bem, no caso em tela, as declarações prestadas pela


senhora Maura Cecília Santos (mídia à fl. 53), quando do seu comparecimento
espontâneo, nesta Promotoria, para se retratar do depoimento prestado no dia
18/05/2018 apontou a participação de terceiros que estariam sendo beneficiados
financeiramente com a nomeação dos “servidores fantasmas” Sidney e Laila,
para o exercício de cargos em comissão no Município de Rosário do Catete.
Diante disso, o acesso aos dados bancários dos senhores
Sidney Henrique Barreto Chagas e Laila Medrado Gomes da Cruz, durante o
período em que foram remunerados pelo citado Município, se torna uma medida
imprescindível à necessidade de se reunir todos os elementos de investigação
que permitam a realização de outras diligências investigatórias, ou que já deem
ensejo à formação da opinio ministerial.
Pelo exposto, é que requeremos, com fulcro na Lei
Complementar 105/2001, a quebra do sigilo bancário das contas abaixo
assinaladas, pelo período também indicado na tabela, sendo sugerido o prazo
de 30 (trinta) dias, a contar da comunicação do Banco Central à Instituição
Financeira, abaixo referida, para que esta cumpra a determinação.
IO

TITULAR CONTA CPF PERÍODO


BANCÁRIA
Laila Medrado Gomes da BANCO BANESE 054.157.115-03 Março/2018 a
Cruz Agência: 053 Junho/2018
Conta: 0082043
Sidney Henrique Barreto BANCO BANESE 064.834.895-44 Janeiro/2017 a
Chagas Agência: 035 Outubro/2017
Conta: 0397283

V-DA TUTELA DE URGÊNCIA - NECESSIDADE DE DECRETAÇÃO DA


INDISPONIBILIDADE DOS BENS DOS DEMANDADOS:

A Lei n.º 7.347/85 prevê expressamente no seu art. 12 a


possibilidade de concessão de liminar com ou sem justificação prévia para
evitar dano irreparável ou de difícil reparação, presentes, claro, os requisitos do
fumus boni iuris e do periculum in mora.

No mesmo sentido, o art. 300 do CPC dispõe que:

Art. 300 - A tutela de urgência será concedida quando houver


elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo
de dano ou o risco ao resultado útil do processo”.

Na sequência, o art. 301 do CPC trata do poder geral de


cautela do juiz, que autoriza a ele adotar qualquer medida idônea para
assegurar o direito invocado pela parte, verbis:

Art. 301. A tutela de urgência de natureza cautelar pode ser


efetivada mediante arresto, sequestro, arrolamento de bens,
registro de protesto contra alienação de bem e qualquer outra
medida idônea para asseguração do direito.

A probabilidade do direito repousa na vasta prova


documental acostada autos, especialmente: nas próprias declarações prestadas
na Promotoria de Justiça por Sidney Henrique Barreto Chagas (fl.46); por todos
os integrantes da equipe da Secretaria de Cultura e Turismo (fls. 103/112); e
pela senhora Maura Cecília Santos (mídia à fl. 53); bem como nas fotografias
acostadas às fls. 114/124.

O segundo requisito para concessão da tutela de urgência


- perigo de dano ou ao resultado útil do processo – também se encontra
presente. As provas ou, no mínimo, evidências de que os Requeridos SIDNEY
IO

HENRIQUE BARRETO CHAGAS, LAILA MEDRADO GOMES DA CRUZ,


ETELVINO BARRETO SOBRINHO, e MAURA CECÍLIA SANTOS praticaram
atos que acarretaram enriquecimentos ilícitos, causaram danos ao erário e
atentaram contra os princípios constitucionais da administração pública, exige,
nesse momento, a contrição de seus bens para assegurar o ressarcimento ao
Poder Público, evitando que dilapidem seus patrimônios ou pratiquem qualquer
ato fraudulento.

Diante do exposto, presentes os requisitos autorizadores


para concessão da tutela de urgência previstos no artigo 300 do CPC, o
Ministério Público requer a concessão da indisponibilidade de bens dos
Requeridos SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS, LAILA MEDRADO
GOMES DA CRUZ, ETELVINO BARRETO SOBRINHO, e MAURA CECÍLIA
SANTOS até o limite abaixo indicado, devidamente atualizado, que corresponde
ao valor do dano ao erário, devidamente atualizado, acrescido do valor da multa
civil, que nos termos do art. 12, II, da Lei nº 8.429/92, equivale a duas vezes o
valor do dano.

ETELVINO, MAURA E SIDNEY Valor total R$ 37.109,97 (Trinta e


sete mil, cento e nove
reais e noventa, e sete
centavos)
Valor atualizado R$ 40.271,31 (Quarenta
mil, duzentos e setenta
e um reais, e trinta e
um centavos)
Valor da multa (art. 12, II, da Lei R$ 80.542,62 (Oitenta
n.8.429/92 mil, quinhentos e
quarenta e dois reais, e
sessenta e dois
centavos)
TOTAL A SER BLOQUEADO R$ 120.813,93 (Cento e vinte mil, oitocentos e treze
reais, e noventa e três centavos)

ETELVINO, MAURA E LAILA Valor total R$ 11.471,14 (Onze


mil, quatrocentos e
setenta e um reais, e
quatorze centavos)
Valor atualizado R$ 11.771,49 (Onze
mil, setecentos e
setenta e um centavos
e quarenta, e nove
centavos)
Valor da multa (art. 12, II, da Lei R$ 23.542,98 (Vinte e
n.8.429/92 três mil, quinhentos e
IO

quarenta e dois reais,


e noventa e oito
centavos)
TOTAL A SER BLOQUEADO R$ 35.314,47 (Trinta e cinco mil, trezentos e quatorze
reais e quarenta e sete centavos)

Acerca da possibilidade de constrição de bens


considerando o valor da multa civil elencada na Lei de Improbidade
Administrativa, confira-se a ementa do seguinte enunciado de jurisprudência do
TJGO:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.


IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. INDISPONIBILIDADE DE
BENS. 1- A concessão de medida liminar em ação civil pública
por ato de improbidade administrativa, com a decretação de
indisponibilidade de bens da parte requerida, tem seu
fundamento no artigo 7º, da Lei nº 8.429/1992, e reclama, para
a sua concessão, a presença concomitante do fumus boni iuris
e do periculum in mora, em juízo de cognição sumária. Cumpre
ressaltar que, conforme precedente do STJ, o periculum in
mora, nesse caso, é presumido. INDISPONIBILIDADE DE
BENS LIMITADA AO VALOR INDICADO NA INICIAL DA AÇÃO
CIVIL PÚBLICA ACRESCIDO DA MULTA LEGAL. 2-
Considerando que, na inicial da presente ação de improbidade,
o representante ministerial quantifica inicialmente o prejuízo ao
erário na esfera de R$23.253,92 (vinte e três mil, duzentos e
cinquenta e três reais e noventa e dois centavos), deve ser esta
a quantia considerada na decretação de indisponibilidade dos
bens, devendo ser acrescentado o valor da multa civil, que nos
termos do art. 12, II, da Lei nº 8.29/92, equivale à duas vezes o
valor do dano. PLURALIDADE DE RÉUS. BLOQUEIO DO
VALOR INTEGRAL. POSSIBILIDADE. 3- Em caso de
pluralidade de réus e não sendo possível quantificar, de plano, o
montante do prejuízo atribuível a cada um deles, devem ser
mantidos bloqueados tanto quantos bens forem necessários
para garantir a execução de eventual sentença condenatória,
vez que somente após a formação do contraditório e da
instrução processual é que poderá ser exigido e emitido um
juízo de certeza acerca do alcance da decisão com relação a
cada réu. AGRAVO DE INSTRUMENTO CONHECIDO E
PARCIALMENTE PROVIDO. (TJGO, Agravo de Instrumento
( CPC ) 517924734.2017.8.09.0000, Rel. Sebastião Luiz Fleury,
4ª Câmara Cível, julgado em 20/09/2017, DJe de 20/09/2017)

A constrição deve ser realizada por meio do sistema


IO

BacenJud, eis que possível o uso de penhora on line de forma cautelar e não
somente na fase de execução, o que inegavelmente geraria efetividade ao
processo.

Se o bloqueio dos valores nas contas bancárias dos


Requeridos não alcançar a cifra referendada, requer seja decretada a
indisponibilidade de seus bens imóveis e veículos, com expedição de ofícios
aos cartórios de registro de imóveis do Estado, bem como a expedição de
ofícios ao DETRAN/SE para registrar a indisponibilidade nos cadastros dos
veículos de propriedade dos Requeridos.

V – DOS PEDIDOS:

Ante todo o exposto, requer o Ministério Público Estadual:

a) O deferimento da medida cautelar incidental inaudita


altera pars, consistente na decretação de indisponibilidade de bens dos
Requeridos até o limite indicado na tabela abaixo, que corresponde ao valor do
dano ao erário, devidamente atualizado, acrescido do valor da multa civil, que
nos termos do art. 12, II, da Lei nº 8.429/92, equivale a duas vezes o valor do
dano;

ETELVINO, MAURA E SIDNEY Valor total R$ 37.109,97 (Trinta e


sete mil, cento e nove
reais e noventa, e sete
centavos)
Valor atualizado R$ 40.271,31 (Quarenta
mil, duzentos e setenta
e um reais, e trinta e um
centavos)
Valor da multa (art. 12, II, da Lei R$ 80.542,62 (Oitenta
n.8.429/92 mil, quinhentos e
quarenta e dois reais, e
sessenta e dois
centavos)
TOTAL A SER BLOQUEADO R$ 120.813,93 (Cento e vinte mil, oitocentos e treze reais,
e noventa e três centavos)
IO

ETELVINO, MAURA E LAILA Valor total R$ 11.471,14 (Onze mil,


quatrocentos e setenta
e um reais, e quatorze
centavos)
Valor atualizado R$ 11.771,49 (Onze mil,
setecentos e setenta e
um centavos e
quarenta, e nove
centavos)
Valor da multa (art. 12, II, da Lei R$ 23.542,98 (Vinte e
n.8.429/92 três mil, quinhentos e
quarenta e dois reais, e
noventa e oito
centavos)
TOTAL A SER BLOQUEADO R$ 35.314,47 (Trinta e cinco mil, trezentos e quatorze
reais e quarenta e sete centavos)

b) O deferimento da decretação da quebra de sigilo


bancário, com fulcro na Lei Complementar 105/2001, das contas abaixo
assinaladas, pelo período também indicado na tabela, sendo sugerido o prazo
de 30 (trinta) dias, a contar da comunicação do Banco Central à Instituição
Financeira, abaixo referida, para que esta cumpra a determinação.

TITULAR CONTA CPF PERÍODO


BANCÁRIA
Laila Medrado Gomes da BANCO BANESE 054.157.115-03 Março/2018 a
Cruz Agência: 053 Junho/2018
Conta: 0082043
Sidney Henrique Barreto BANCO BANESE 064.834.895-44 Janeiro/2017 a
Chagas Agência: 035 Outubro/2017
Conta: 0397283

c) A notificação dos demandados para, querendo,


apresentarem defesa preliminar e, após o recebimento da inicial, suas citações
para apresentar contestação;

d) A citação do Município de Carmópolis, nos termos do


art. 17, § 3º, da Lei 8.429/92;

e) A procedência do pedido para condenar os Requeridos


SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS, LAILA MEDRADO GOMES DA
IO

CRUZ, ETELVINO BARRETO SOBRINHO, e MAURA CECÍLIA SANTOS nas


penas do art. 12, I, II e III, da Lei nº 8.429/92, por ETELVINO BARRETO
SOBRINHO e MAURA CECÍLIA SANTOS terem incorrido nas condutas
descritas no art. 9º, 10º, caput e inc. XII e 11, caput, e inc. I, da Lei nº 8.429/92,
e SIDNEY HENRIQUE BARRETO CHAGAS e LAILA MEDRADO GOMES DA
CRUZ, nas condutas descritas no art. 9º, caput, e inc. VIII, 10º caput e 11 caput,
da mesma Lei;

f) A condenação dos requeridos ao pagamento de custas e


emolumentos processuais e ônus de sucumbência;

Protesta desde já o Parquet por todos os meios de prova


em Direito admitidos, inclusive, neste momento, pelo depoimento pessoal de
MAURA CECÍLIA SANTOS, bem como oitiva das testemunha cujo rol segue
abaixo.

E dá à causa o valor de R$ 156.128,40 (cento e cinquenta e


seis mil, cento e vinte e oito reais, e quarenta centavos).

Nesses Termos,
Pede e Espera Deferimento.

Carmópolis, 14 de Janeiro de 2019.

ALDELEINE MELHOR BARBOSA


Promotora de Justiça

ROL DE TESTEMUNHAS:

1. ADAILTON DOS SANTOS ANDRADE, residente e domiciliado na Rua B, nº


93, apt.404, Edf. Elke Luciana, Bairro Luzia, Aracaju/SE;

2. MARIA APARECIDA FERREIRA DA SILVA, residente e domiciliada na


RuaEdson Monteiro, nº 16, Conjunto INCRA, Rosário do Catete/SE;

3. CARLOS RAFAEL PEREIRA DORTAS, residente e domiciliado na Rua N, nº


5, Conjunto Manoel do Prado Franco, Laranjeiras/SE;

4. CLEVERTON FELIX VASCONCELOS, residente e domiciliado na Rua


Desembargador Enoque Santiago, nº 212, Novo Paraíso, Aracaju/SE

5. MARIA HELENA DOS SANTOS, residente e domiciliada na Rua Padre Rocha


Vilar, nº 155, Rosário do Catete/SE.

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