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Princípios Gerais da Economia Autores: Prof. Maurício Felippe Manzalli Profa. Ivy Judensnaider Colaboradores: Profa.
Princípios Gerais da Economia Autores: Prof. Maurício Felippe Manzalli Profa. Ivy Judensnaider Colaboradores: Profa.
Princípios Gerais da
Economia
Autores: Prof. Maurício Felippe Manzalli
Profa. Ivy Judensnaider
Colaboradores: Profa. Amarilis Tudela Nanias
Profa. Glaucia Aquino
Prof. Me Livaldo dos Santos

Professores conteudistas: Maurício Felippe Manzalli / Ivy Judensnaider

conteudistas: Maurício Felippe Manzalli / Ivy Judensnaider Maurício Felippe Manzalli Economista pela Universidade

Maurício Felippe Manzalli

Economista pela Universidade Paulista – UNIP e mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atualmente é professor da UNIP nos cursos de Ciências Econômicas e Administração e também é coordenador do curso de Ciências Econômicas na mesma universidade.

Ivy Judensnaider

Economista pela Fundação Armando Álvares Penteado e mestra pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo no Programa de Estudos Pós-Graduados em História da Ciência. Atualmente é professora da Universidade Paulista – UNIP nos cursos de Ciências Econômicas e Administração, no qual coordena o curso de Ciências Econômicas no campus Marquês (SP). Também atua no setor de publicações, dirigindo a editora eletrônica arScientia, e é autora de inúmeros textos de divulgação científica publicados na web.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

M296

Manzalli, Maurício Felippe

Princípios Gerais da Economia. / Maurício Felippe Manzalli; Ivy Judensnaider. - São Paulo: Editora Sol.

128 p. il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e

Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XVII, n. 2-056/11, ISSN 1517-

9230

1.Economia 2.Mercado 3.Pensamento econômico I.Título

CDU 330

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista.

Prof. Dr. João Carlos Di Genio Reitor Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento,

Prof. Dr. João Carlos Di Genio

Reitor

Prof. Fábio Romeu de Carvalho

Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças

Profa. Melânia Dalla Torre

Vice-Reitora de Unidades Universitárias

Prof. Dr. Yugo Okida

Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa

Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez

Vice-Reitora de Graduação

Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy

Prof. Marcelo Souza

Profa. Melissa Larrabure

Material Didático – EaD

Comissão editorial:

Dra. Angélica L. Carlini (UNIP) Dr. Cid Santos Gesteira (UFBA) Dra. Divane Alves da Silva (UNIP) Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR) Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT) Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:

Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:

Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:

Cristina Alves

Sumário   Princípios Gerais da Economia   APRESENTAÇÃO 7 INTRODUÇÃO 7 Unidade I

Sumário

 

Princípios Gerais da Economia

 

APRESENTAÇÃO

7

INTRODUÇÃO

7

Unidade I

1 ABORDAGENS INICIAIS: FUNDAMENTAÇÕES TEÓRICAS DA ECONOMIA

9

1.1

Antiguidade e Idade Média

12

2 MERCANTILISMO E FISIOCRACIA

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3 DA ESCOLA CLÁSSICA AO MARXISMO

18

4 A SÍNTESE NEOCLÁSSICA, A REVOLUÇÃO KEYNESIANA E O

PENSAMENTO ECONÔMICO CONTEMPORÂNEO

33

Unidade II

5 PRINCIPAIS CONCEITOS ECONÔMICOS: DA TEORIA À PRÁTICA

60

5.1

Conceitos gerais

60

5.1.1 Problema econômico fundamental

62

5.1.2 O fluxo circular da renda e do produto

64

6 SISTEMAS ECONÔMICOS

72

7 POLÍTICA ECONÔMICA

75

7.1

Política monetária

76

7.1.1 Moeda 76

7.1.2 De volta à política monetária

81

7.1.3 Política fiscal 83

7.1.4 Política cambial

86

7.1.5 Política de rendas 87

8 O PAPEL DO ESTADO

88

8.1 O desemprego e suas causas

92

8.2 Economia brasileira: da estabilização da inflação aos dias atuais

94

8.3 Desenvolvimento econômico

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Prezado aluno, APRESENTAÇÃO O livro-texto que aqui apresentamos servirá de apoio ao estudo da disciplina
Prezado aluno, APRESENTAÇÃO O livro-texto que aqui apresentamos servirá de apoio ao estudo da disciplina

Prezado aluno,

APRESENTAÇÃO

O livro-texto que aqui apresentamos servirá de apoio ao estudo da disciplina Princípios Gerais de Economia. Note que ele está dividido em duas unidades.

Na Unidade I, você entrará em contato com os primórdios do pensamento econômico. A partir

desses conceitos, o aluno será convidado a refletir sobre a importância do conhecimento econômico

e sobre a construção histórica do mundo em que vivemos. O conteúdo dessa unidade inclui os

conceitos relacionados às ciências econômicas e à economia de mercado, a transição do feudalismo para a economia de mercado, o mercantilismo e a fisiocracia, a Revolução Industrial e os pensadores

clássicos (Adam Smith, David Ricardo, Thomas Malthus, J. S. Mill e Marx), o pensamento neoclássico

e a revolução keynesiana e, finalmente, o pensamento econômico atual e os desafios a serem enfrentados.

A Unidade II tratará da economia e do mundo real, pela abordagem de temas como os

referentes ao problema econômico fundamental, aos sistemas econômicos, à política econômica

e ao papel do Estado na economia. Ainda nessa unidade, serão discutidas questões relacionadas

ao desemprego e suas causas e a estabilização monetário-financeira da economia brasileira no período recente.

Por fim, um esclarecimento se faz importante: nossa proposta não é a de tão somente transferirmos um conjunto predeterminado de saberes. As escolhas metodológicas e didáticas a partir das quais o livro-texto foi confeccionado incluem o aperfeiçoamento do espírito crítico e o desenvolvimento das capacidades e habilidades de produção e geração de conhecimento. Dessa forma, o aluno poderá notar que os conteúdos estão sempre entrelaçados aos contextos sócio-históricos que os geraram, bem como aos problemas do cotidiano e do ambiente do Serviço Social.

Esperamos que aprecie o texto.

Bom trabalho!

INTRODUÇÃO

As necessidades da vida cotidiana tornam obrigatório o conhecimento sobre economia, independentemente da área profissional ou da formação acadêmica. Assim, qualquer indivíduo tem noções de microeconomia e de macroeconomia, mesmo que não saiba exatamente do que

tratam esses saberes. Em outras palavras, todos nós nos deparamos com aspectos relacionados

à formação de preços, às estruturas de mercado, às questões de escassez de bens e serviços, à

inflação, ao desempenho de determinados setores da economia e aos níveis de desenvolvimento

e crescimento das nações.

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No caso particular dos assistentes sociais, a necessidade de operarem a partir de conceitos econômicos
No caso particular dos assistentes sociais, a necessidade de operarem a partir de conceitos econômicos

No caso particular dos assistentes sociais, a necessidade de operarem a partir de conceitos econômicos é mais premente. Afinal, são esses os profissionais que devem compreender, como ação preventiva

a situação criada pela proposição do empreendimento que gerará novas

condições de vida para a população, [

os explorados. Entendendo-se como os expropriados urbanos e rurais os diretamente atingidos (lavradores e índios) que são removidos compulsoriamente de suas terras ou moradias, para dar lugar a construção; os espoliados urbanos – aqueles indiretamente atingidos tanto na zona rural como na urbana e que sofrerão não só os efeitos ambientais como

os expropriados, os espoliados e

]

também esses efeitos sobre o seu sistema de produção; e na zona urbana cujos efeitos serão sentidos na infraestrutura de serviços existentes no local de moradia; e por fim os explorados – representados pelos trabalhadores não qualificados que são recrutados para o trabalho nos canteiros de obras

e que terminada a construção, se veem desempregados 1 .

Assim, é claro que, para efeito desta disciplina, nossa expectativa vai além do conhecimento genérico que a população tem sobre o tema econômico. Por isso, vamos às transformações da sociedade que criaram o ambiente econômico tal como o conhecemos, título dado ao capítulo inicial desta apostila.

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Unidade I 1 ABORDAGENS INICIAIS: FUNDAMENTAÇÕES TEÓRICAS DA ECONOMIA Em outubro de
PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Unidade I 1 ABORDAGENS INICIAIS: FUNDAMENTAÇÕES TEÓRICAS DA ECONOMIA Em outubro de

Unidade I

1 ABORDAGENS INICIAIS: FUNDAMENTAÇÕES TEÓRICAS DA ECONOMIA

Em outubro de 2008, todos se chocaram com as notícias que anunciavam uma crise econômica de proporções tão imensas quanto a da quebra da bolsa americana em 1929. Segundo Judensnaider 2 , Delfin Netto, economista que em vários momentos da história econômica brasileira desempenhou papel de fundamental importância na formulação e na coordenação de políticas econômicas, em palestra proferida na Universidade Paulista, “opinou que estaríamos vivendo mais uma das tantas crises da

história do capitalismo. ‘O mundo não vai acabar’, nas suas palavras”. Do ponto de vista da economia de

mercado, [

]

[isto é] absolutamente correto.

Analisemos a história econômica mundial: desde o século XVIII, o mundo vem caminhando lentamente no sentido de se organizar sob estruturas básicas que são conhecidas como sendo de economias de mercado. De forma simplificada, e considerando o período dos Setecentos até o século XXI, poderíamos identificar três grandes momentos de inflexão do Capital, a saber, a primeira grande depressão do final do século XIX, a grande depressão dos anos 30 e as crises do final da década de 70. Em cada uma delas, o sistema de mercado deu um jeito de resolver a situação: inicialmente, “avançou” em direção a novos mercados por meio de estratégias imperialistas, e que isso tenha acabado em guerra é assunto com o qual economistas do mainstream não costumam se preocupar. Na de 30, entre as duas grandes guerras mundiais, o capital, reconhecendo a inabilidade das suas mãos invisíveis, atribuiu ao Estado o papel de tirar a economia de mercado do imenso buraco em que havia se metido. Depois, cansado da imobilidade à qual estava sujeito por força da mão visível do Estado, arquitetou o grande discurso da globalização, sedimentando, ao longo do caminho, os caminhos para a liberdade do capital através de incursões militares em países estrangeiros e a institucionalização de organismos financeiros internacionais 3 .

A constatação de que o mundo econômico opera por meio de falhas e de forma cíclica nos leva a indagar: afinal, que mundo é esse? Que instrumental teórico temos à nossa disposição que nos permitirá conhecê-lo e nele operar?

Vejamos, inicialmente, do que trata a Economia. Os economistas, em geral, admitem que a discussão sobre economia surge no mesmo período em que ocorre a Revolução Industrial e com o desenvolvimento

2 Em texto disponível em: <http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1185>. Acesso em: 15 dez. 2011.

3 A citação encontra-se disponível no mesmo link da nota anterior.

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Unidade I

Unidade I dos mecanismos de mercado de formação de preço e alocação dos recursos de produção.

dos mecanismos de mercado de formação de preço e alocação dos recursos de produção. Assim, a Economia é percebida como uma ciência já no século XIX e, desde então, seus especialistas debatem incansavelmente sobre seu campo de atuação e seus limites.

Do ponto de vista antropológico, o ser humano vem estabelecendo relações de troca com seu grupo e com a natureza desde sempre, assim o fazendo, em parte, para garantir as condições materiais necessárias para a sua sobrevivência. Em período anterior ao século XVIII, havia atividade econômica, e sobre ela foram escritas obras e realizados estudos.

Saiba mais Sugerimos que você assista à belíssima obra A G u e r r

Saiba mais

Sugerimos que você assista à belíssima obra A Guerra do Fogo (Direção:

Jean-Jacques Annaud, 97 minutos, l981). O filme mostra os diferentes estágios do desenvolvimento social da espécie humana. Embora o diretor tenha tomado a liberdade de colocar todos os estágios como se tivessem ocorrido simultaneamente, pode-se perceber o valor e a importância de cada transformação e o quanto a sociedade e nosso modo de viver foram historicamente construídos ao longo do tempo.

No entanto, consideramos a gênese da ciência econômica aquela relacionada à investigação de uma determinada forma de organização econômica, qual seja, aquela que resulta das relações existentes no mercado. Uma explicação possível é que, apenas a partir do nascimento da economia de mercado tornou-se possível falar em atos econômicos com interesses e objetivos essencialmente econômicos; que apenas a partir do advento da economia de mercado as relações sociais passaram a ser explicadas em função de um sistema econômico organizado.

Como estava organizada a produção de bens e serviços antes da economia de mercado? Naquele

tempo, o chefe de família provia sua prole porque isso era o que a sociedade esperava dele. As trocas se realizavam não para o lucro, mas para a sobrevivência material. Produzia-se comida não para vendê-la e,

a partir da venda, obter lucro. Produzia-se para consumir. Quando passou a existir governo, ele distribuía

a riqueza para os cidadãos, por que esse era seu papel. Foi apenas com o advento do capitalismo que os fatores de produção (mão de obra, terra, conhecimento técnico, capacidade empresarial e dinheiro, entre outros) não apenas se dirigiram ao mercado, mas fizeram mesmo parte dele. Comprava-se e vendia-se mão de obra. Comprava-se e vendia-se conhecimento. O dinheiro passou a ter um custo, mensurado por meio dos juros que os bancos cobravam para fornecê-lo sob a forma de crédito. Trabalhava-se não para produzir os bens necessários, mas para obter recursos capazes de serem trocados pelos bens necessários. Essa é uma diferença fundamental que marca um momento de transição nas formas de organização da sociedade.

Normalmente, os atos econômicos anteriores às sociedades capitalistas, ou que nelas não estejam inseridos, são objeto de estudo dos antropólogos econômicos. Considerando nossos objetivos, basta

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA não confundirmos a Economia (ciência) com o próprio sistema de mercado. Entende-se

não confundirmos a Economia (ciência) com o próprio sistema de mercado. Entende-se por ciência econômica a ciência que investiga como fatores escassos de produção são alocados para a produção de bens e serviços que se destinam a saciar necessidades ilimitadas. Em contrapartida, economia de mercado representa a forma pela qual, nas sociedades capitalistas, a reprodução material das sociedades passou a acontecer por meio de instituições orientadas para objetivos econômicos, como os mercados (CERQUEIRA, 2001). Assim, nos mercados, as trocas produzem preços, sendo essas “trocas realizadas como resultado de barganha, de uma negociação, onde cada parte é livre para buscar sua vantagem e não tem que se submeter, por exemplo, a preços preestabelecidos por algum agente regulador externo” (CERQUEIRA, 2001, p. 400). Portanto, compreenderemos que, na economia de mercado

toda a organização da produção é confiada aos mercados, que compõem um sistema autorregulado: indivíduos perseguindo apenas seu interesse pessoal ofertam e demandam mercadorias, fazendo com que estes bens alcancem um preço determinado. As decisões sobre o que e quanto produzir serão tomadas como base apenas nos preços informados pelos mercados, que sinalizam as expectativas de ganho em cada processo produtivo. Da mesma maneira, a distribuição do produto depende apenas de preços, já que eles formam os rendimentos de cada indivíduo: aluguel e salários são os preços do uso da terra e da força de trabalho; o lucro é a diferença entre o preço do produto e os preços dos insumos necessários para sua produção. Em resumo, a reprodução material da sociedade depende de que tudo alcance um preço, ou seja, se comporte como uma mercadoria, inclusive a terra e o trabalho (CERQUEIRA, 2001, p. 402).

Seria possível haver Economia sem economia de mercado? Os economistas não respondem de forma consensual e unânime à questão. Para nós, e para efeito dessa disciplina, consideraremos que o surgimento da Economia ocorre não apenas por que a estrutura econômica passa a ser a de mercado (finalmente havendo o que se investigar), mas porque as condições do pensamento científico daquele momento permitem que ela, enquanto saber, se organize enfim de forma sistemática e autônoma. Também é importante ressaltar que naquele momento (e, de forma hegemônica, até os dias de hoje), o que se há para investigar são justamente as relações que se estabelecem no mercado. Considerar como seu objeto de análise única e simplesmente a economia de mercado significa represá-la de forma tautológica à imutabilidade das estruturas e relações materiais tais como desenvolvidas no Ocidente a partir do século XVIII: a Economia, sob essa ótica, seria tão somente o estudo das maneiras como o Ocidente se organizou em termos de determinada estrutura econômica.

Saiba mais É interessante, nos tempos atuais, a produção de uma grande quantidade de estudos

Saiba mais

É interessante, nos tempos atuais, a produção de uma grande quantidade de estudos relacionados a outras culturas, particularmente em relação às respostas dadas por elas aos problemas de produção de bens e serviços

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Unidade I

Unidade I capazes de satisfazer as necessidades da comunidade. Nesse sentido, recomenda-se a visita ao site

capazes de satisfazer as necessidades da comunidade. Nesse sentido, recomenda-se a visita ao site da Associação Brasileira de Antropologia, disponível em: <http://www.abant.org.br/>.

Embora isso acrescente dificuldade à investigação econômica, há que se considerar, portanto, que

o sistema de mercado foi historicamente construído, não sendo “uma entidade acima do tempo e do

espaço” 4 . Da mesma forma, os pressupostos comportamentais de racionalidade econômica (autointeresse

e propensão para o lucro) não são “naturais”, mas socialmente construídos.

Há economia sem mercado? Apesar de a antropologia ter demonstrado a existência de outras racionalidades socioeconômicas, “é intrínseca à racionalidade econômica moderna, como uma espécie de monopólio epistemológico e moral, a desvalorização dos outros modos de vida diferentes do conduzido pela lei do valor” 5 . Os economistas ainda estão a debater possíveis respostas a essa pergunta e, embora esse debate seja extremamente interessante, ele extrapola os limites da nossa disciplina. Assim, assumiremos que, segundo os parâmetros científicos da modernidade, a Economia nascerá à época de Adam Smith, no século XVIII, sendo Riqueza das nações um texto fundador, obra que marca

uma mudança na natureza da reflexão sobre os temas econômicos, não tanto pela criação de novos conceitos, mas pelo estabelecimento de um novo arranjo dos conceitos, de um novo ponto de vista. Não se trata apenas do fato de que a reflexão sobre assuntos econômicos tenha deixado de ser tópica, fragmentada e guiada por interesses essencialmente práticos, como nos escritos mercantilistas. Importa, sobretudo, que ela tenha ganhado a forma de uma disciplina autônoma, desligada da ética e da filosofia política, no interior das quais a escolástica e as doutrinas do direito natural ainda a enquadravam (CERQUEIRA, 2001, p. 397).

1.1 Antiguidade e Idade Média

É evidente que a compreensão do contexto histórico que irá ensejar o nascimento das ciências econômicas trás à tona uma questão de fundamental importância: afinal, se a Economia surge por meio do esforço de se distinguir da História, da Sociologia, da Ética, da Filosofia Moral e da Política,

poderíamos ser levados a crer na existência de uma distância entre ela e essas outras áreas, especialmente do ponto de vista da delimitação do seu objeto de estudo ou da determinação de sua metodologia de investigação. Esse é um problema que economistas da atualidade vêm buscando lidar e equacionar

e aqui, nessa disciplina, serão debatidas não apenas as condições necessárias para o surgimento da economia de mercado mas, também, os desafios que esse sistema e sua investigação têm a enfrentar no tempo presente.

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4 Texto disponível em: <http://www.viannajr.edu.br/revista/eco/doc/artigo_90002.pdf>. Acesso em 15 dez. 2011.

5 A citação encontra-se disponível no mesmo link da nota anterior.

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Nesse período de asfixiante domínio conservador, forte desarticulação das forças de

Nesse período de asfixiante domínio conservador, forte desarticulação das forças de esquerda e virtual ausência de um projeto alternativo de sociedade, trabalha-se sempre dentro de condições preestabelecidas (sociedade capitalista globalizada), raramente questionando-se sua origem e seu caráter histórico, o tipo de hierarquia e a desigualdade que produz e o tipo de ilusão (comumente veiculada pela teoria econômica) que necessita para sobreviver 6 .

Façamos então uma viagem ao tempo. Na Europa do medievo, o mundo era bem diferente daquele que hoje conhecemos: em vez de trabalhadores livres, políticos, organizações não governamentais, supermercados e shopping centers, havia reis, senhores feudais, cavalheiros, servos e clérigos. Assim estava organizada a sociedade durante o feudalismo, e essa estrutura iria sofrer abalos contínuos até a degradação total, num processo que levaria alguns séculos para se completar.

Sobre o período medieval, a imagem mais comumente lembrada é a do feudo, grande propriedade trabalhada por camponeses que aravam não apenas a terra arrendada, mas também a terra do senhor. Nesse sistema, que sobreviveria na Europa até o século XVIII, o castelo era o centro do mundo: era nele que morava o senhor e sua família. O feudo, unidade autossuficiente, era o espaço em que ocorriam as relações de vassalagem entre o servo e o seu senhor.

O servo não era um escravo: não podia ser vendido ou ter sua família desmembrada. Por mais incrível que possa parecer aos nossos olhos do século XXI, o servo fazia parte da propriedade, e só passava a ter outro patrão se a terra fosse vendida. E se imaginarmos que, àquele tempo, não eram comuns as transações imobiliárias, podemos alcançar a real dimensão do relacionamento entre servo e senhor. O servo muda de senhor, mas não de terra e, portanto, não pode ser expulso e dela não pode escapar.

O senhor do feudo, como o servo, não possuía a terra, mas era, ele próprio, arrendatário de outro senhor, mais acima na escala. O servo, aldeão ou cidadão “arrendava” sua terra do senhor do feudo que, por sua vez, “arrendava” a terra de um conde, que já a “arrendara” de um duque, que, por seu lado, a “arrendara” do rei. E, às vezes, ia ainda mais além, e um rei “arrendava” a terra a outro rei! A relação de vassalagem, inclusive, é transferida hereditariamente, de pai para filho: o filho será servo daquele a quem seu pai e seu avô também foram servos (HUBERMAN, 1986, p. 10).

O feudo tinha suas próprias regras e leis, e elas serviam para reger tudo e todos. O senhor feudal era quem decidia sobre casamentos, litígios e conflitos. Ele resolvia o que, como plantar e quanto colher. Em algumas regiões da Europa, o senhor feudal tinha o direito “da primeira noite”, ou seja, podia desvirginar a noiva que morasse em sua propriedade, ou que fosse esposa de alguém que more nas suas terras. Longe de ser mero capricho, esse direito selava seu papel de senhor absoluto e também consagrava a continuidade da vassalagem por meio da suspeita em relação à paternidade dos filhos do servo.

Unidade I

Unidade I Saiba mais Sugerimos, sobre o assunto, o filme C o r a ç ã
Saiba mais Sugerimos, sobre o assunto, o filme C o r a ç ã o

Saiba mais

Sugerimos, sobre o assunto, o filme Coração valente. (Direção: Mel Gibson, 177 minutos, 1995). O enredo, apesar de algumas imprecisões históricas, retrata bem a relação de vassalagem. Aborda, ainda, as lutas e os conflitos na Escócia do século XIII.

Tudo o que era necessário para a sobrevivência podia ser produzido dentro do próprio feudo. O comércio era inexistente e, quando ocorria, era baseado no escambo, ou seja, na troca de mercadorias sem que qualquer dinheiro fosse utilizado, necessariamente, como meio de pagamento ou padrão de referência.

Havia moedas, claro. Elas existiam e sua variedade era imensa: cada uma delas tinha valor apenas numa determinada região e não havia referência cambial com outras moedas de outras regiões. Porque haveria de existir referência, afinal? A vida econômica ocorria dentro dos muros do próprio feudo, não havendo quaisquer relações comerciais com o que era exterior.

É provável que, à essa altura, surja um questionamento: como, a partir dessa organização econômica, poderia ter surgido algo como o sistema de mercado? Quais foram os caminhos percorridos para que esse modelo (o feudal) fosse substituído por outro (o mercado) em que tudo era mercadoria e tinha um preço? Como o feudo, afinal, se tornou pequeno demais para as necessidades da sociedade e como seus muros acabaram por ruir? Foram vários os fatores que, com

o tempo, criaram rachaduras e fissuras irreversíveis no sistema feudal e, agora, os investigaremos de forma resumida.

Um deles foi a realização das Cruzadas, expedições armadas que tinham como objetivo a reconquista da terra santa para os cristãos. Os cruzados precisavam de provisões e, ao longo do trajeto que percorriam em direção ao Oriente, foram sendo criados entrepostos comerciais e feiras. Ao longo dos séculos, esse comércio cresceria cada vez mais, surgindo então, em torno dele, as primeiras cidades.

Os senhores feudais, donos das terras onde se realizavam as feiras, tinham direito a receber comissões pelos negócios lá efetuados; assim, eles eram receptivos às atividades comerciais por que elas traziam lucro e prosperidade. Esse comércio também ensejaria o surgimento de uma figura muito importante:

o trocador de dinheiro, responsável pela troca e pelo câmbio entre as várias unidades monetárias. Já se pode perceber: lentamente, a economia sem mercado transformava-se em economia de vários mercados,

já bem distante do sistema autossuficiente dos feudos.

Devagar, apareciam pequenas aberturas na estrutura feudal de imobilidade social: surgiam comerciantes e “banqueiros”; crescia uma população urbana que não se encontrava aprisionada pela vassalagem e tampouco tinha uma relação visceral com a terra.

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Esta população, de outro tecido social que não aquele costurado pelo feudal,

Esta população, de outro tecido social que não aquele costurado pelo feudal, exerceria pressão por leis menos arbitrárias do que as do senhor feudal: afinal, era preciso liberdade para se mover, para comerciar, para vender e comprar. Da mesma forma, o camponês se distanciava do senhor feudal, já que o seu excedente agora podia ser negociado e transformado em dinheiro. Sua sobrevivência não dependia mais da vassalagem, mas podia ser providenciada com o uso do talento para produzir o que outros necessitassem ou com o talento para comerciar o que outros desejassem consumir.

A riqueza agora não era medida pela propriedade possuída, mas pelo dinheiro possível de ser ganho com a atividade comercial. Aliás, o golpe de morte no sistema feudal ocorre justamente no momento em que se percebe ser a terra também uma mercadoria.

Os mercadores se reúnem em corporações. Eles se autointitulam possuidores de direitos monopolistas que normatizarão as atividades comerciais (nas feiras) ou profissionais: às suas leis, seus membros se sujeitam, sob pena de expulsão. Os artesãos, e outros profissionais, também se organizarão em corporações, chamadas de guildas.

se organizarão em corporações, chamadas de guildas. Lembrete As guildas funcionavam como centros onde o aprendiz

Lembrete

As guildas funcionavam como centros onde o aprendiz era treinado no ofício, segundo as normas e tradições da categoria. Esse treinamento, que chegava a durar mais do que uma década, lhe assegurava o conhecimento das artes secretas do seu ofício, além do direito de exercer sua profissão e ter proteção em caso de necessidade.

das

mercadorias) pertencem aos artesãos que produzem e comercializam o fruto do seu trabalho. O espírito é de fraternidade, e não de concorrência: se algum membro introduzir alguma inovação, todos devem ter acesso à mudança. “Patentes” ou “diferenciais produtivos” são práticas desleais, e passíveis de punição.

Nas guildas,

os meios

de

produção (ferramentas

e

utensílios necessários

para a

fabricação

Nas guildas,

reunir-se-ão padeiros,

pintores, curtidores de couro,

ferreiros, açougueiros,

fruteiros,

cirurgiões, jornaleiros, entalhadores, costureiros, sapateiros, e

supervisores das corporações

nas

[que] faziam

pesos

e

viagens regulares de

usados

inspeção,

pelos membros, os

quais examinavam os

medidas

tipos

de matérias-primas e

o caráter

do

produto acabado.

Todo artigo

era cuidadosamente

inspecionado

e

selado.

Essa fiscalização

rigorosa era

considerada necessária para que a honra da corporação não fosse manchada,

prejudicando com isso os negócios de todos os seus membros. As autoridades

municipais,

proteção desse público, algumas corporações marcavam seus produtos com

o ‘justo preço’ (HUBERMAN,

Para maior

por sua vez,

a exigiam

como proteção

ao

público.

1986, p. 68).

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Unidade I

Unidade I Saiba mais Rembrandt, pintor holandês do século XVII, retratou alguns membros dessas corporações: •
Saiba mais Rembrandt, pintor holandês do século XVII, retratou alguns membros dessas corporações: • na

Saiba mais

Rembrandt, pintor holandês do século XVII, retratou alguns membros dessas corporações:

• na tela A ronda noturna, ele mostra a corporação dos oficiais bacamartes. Disponível em: <http://www.uncp.edu/home/rwb/ rembrandt_nightwatch>.

• na obra Lição de anatomia do professor Tulp, a corporação dos

<http://www.biol.unlp.edu.ar/images/

cirurgiões.

Disponível

em:

anatomia/anatomia-rembrandt.jpg>

• no quadro Os membros da guilda dos alfaiates, como sugere o título,

vemos os alfaiates reunidos em seu sindicato. Disponível em: <http://

www.abcgallery.com/R/rembrandt/rembrandt121.html>.

O próprio Rembrandt foi membro de uma guilda, a dos pintores.

Aos nossos olhos, estruturas como as das guildas podem parecer muito estranhas. Afinal, no mundo em que vivemos, as competências relacionadas à competitividade são atributos positivos e desejados, seja em se tratando de um empresário, seja de um trabalhador. No entanto, é importante entender as regras da guilda no seu contexto específico, ou seja, o da transição entre um sistema autossuficiente e fechado para outro, aberto aos negócios e à participação de todos. É claro que o tempo também se encarregaria de provocar a desintegração das guildas e o justo preço sendo substituído pelo de mercado. No entanto, àquele momento, a existência das corporações era o que permitia o exercício da atividade artesanal, a sobrevivência dos artesãos nos centros urbanos e a regulação de uma atividade que se distanciava, pouco a pouco, das tradições e costumes feudais.

O surgimento das nações também teria sua participação ativa no processo de deterioração do sistema feudal. O senhor feudal já não conseguia proteger a população (e seu poder havia diminuído com a perda de terras, servos e recursos gastos em expedições ao Oriente), tampouco funcionar como autoridade central. Dessa forma, era necessário que alguém ocupasse esse vácuo, chamando para si a tarefa de centralizar o poder. Quem o faria seria o Rei, aliado das cidades na luta contra os senhores feudais. Será ele quem arregimentará um exército profissional, quem tratará de armá-lo e treiná-lo usando os recursos obtidos pela cobrança de impostos. O mais importante é compreender que esse exercício de poder se faria em subtração ao poder das próprias cidades e dos comerciantes.

] [

pretendiam praticar seu ofício e os mercadores que ambicionavam realizar

os camponeses que desejam cultivar seus campos, os artesãos que

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA seu comércio – pacificamente – saudaram essa formação de um governo central

seu comércio – pacificamente – saudaram essa formação de um governo central forte, bastante poderoso para substituir os numerosos regulamentos locais por um regulamento único, de transformar a desunião em unidade (HUBERMAN, 1986, p. 86).

O Rei representará a unidade nacional, e a Nação (o conjunto de pessoas que acreditam compartilhar entre si um passado e um futuro em comum) passa a lutar por seus territórios e pela formação de sua identidade: língua, moeda e legislação nacionais. Todas essas serão conquistas que, guiadas e conduzidas pela unidade central de poder, construirão um novo mundo. Não à toa, será o Rei também o responsável pelo empreendimento ultramarino, de descoberta, povoamento e exploração do que se acreditava ser realmente um novo mundo, mundo esse que fornecerá a matéria prima, depois, para as indústrias nascentes e que consumirá as mercadorias produzidas nas metrópoles. Os muros dos feudos haviam ruído e, agora, as fronteiras avançavam em direção a terras desconhecidas.

Saiba mais Os filmes Elizabeth (Direção: Shekhar Kapur, 125 minutos, 1998) e Elizabeth, a era

Saiba mais

Os filmes Elizabeth (Direção: Shekhar Kapur, 125 minutos, 1998) e Elizabeth, a era de ouro (Direção Shekhar Kapur, 114 minutos, 2007) são sugestões excelentes sobre o assunto. Em ambos é tratada a questão religiosa na Inglaterra, bem como são retratados os esforços para que o país alcançasse o crescimento e a riqueza por meio das ações de um poder central: a rainha.

2 MERCANTILISMO E FISIOCRACIA

Em termos do pensamento econômico desse período, duas são as principais vertentes:

Mercantilismo

Para os mercantilistas, a origem da riqueza estava relacionada ao acúmulo de ouro e prata. O metal era obtido com as exportações; de forma contrária, as importações representavam o envio de metal para outras nações. Como uma determinada nação deveria proceder para obter esse superávit? Quanto mais poderosa ela fosse, quanto mais numerosas fossem suas rotas comerciais, quanto maior a dependência de suas colônias em relação à metrópole, maiores seriam as possibilidades de acumular ouro e prata (BRUE, 2006). Para isso, é evidente que se fazia necessário um Estado forte. O espírito nacionalista associado a um conjunto de instituições militares capazes de dar conta da ação expansionista também seriam fundamentais. Um governo centralizado bastante forte era outra exigência e o controle governamental bastante rigoroso deveria dar conta das políticas e das metas mercantilistas, com esse controle tornando-se visível por meio da concessão de monopólios, da edição de leis protecionistas, e da elaboração e fiscalização de normas que regulamentassem a produção e a distribuição de mercadorias. O controle das importações era rigoroso, quando não proibido, e a fixação de preços dos produtos nacionais no mercado interno obedecia às exigências da política mercantilista.

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Unidade I

Unidade I • Fisiocracia A fisiocracia francesa, representada pelas obras de Quesnay e Turgot, pode ser

• Fisiocracia

A fisiocracia francesa, representada pelas obras de Quesnay e Turgot, pode ser considerada como uma reação às antecessoras práticas mercantilistas. A oposição se dá, principalmente, em relação ao excesso de regulamentação e de normatização da ação governamental. Os fisiocratas introduzirão (ao menos no campo econômico) a ideia de ordem natural, até por influência da mecânica newtoniana e dos desenvolvimentos da medicina: acreditava-se numa ordem da natureza que se responsabilizaria por manter tudo em equilíbrio. A mesma ordem natural seria responsável por manter os planetas no céu, realizar o movimento circular do sangue e também cuidaria da harmonia econômica terrestre. A oposição à regulamentação e à intervenção do Estado na economia explica o lema fisiocrata: laissez-faire, laissez-passer (deixe fazer, deixe passar). Finalmente, é importante salientar a importância que a agricultura tem no pensamento fisiocrático: é ela a responsável pela produção de riqueza por meio da geração de excedente, sendo o comércio e a indústrias estéreis, apesar de úteis.

3 DA ESCOLA CLÁSSICA AO MARXISMO

Para que dessas vertentes pudesse surgir um pensamento econômico que desse conta da análise da atividade econômica, era necessária uma mudança nos valores morais e nas atitudes em relação ao lucro e ao trabalho: faltava agora uma nova ética que norteasse e conduzisse os agentes em direção à acumulação do capital. Afinal,

a moderna noção de que qualquer transação comercial é lícita desde

que seja possível realizá-la não fazia parte do pensamento medieval. O homem de negócios bem-sucedido de hoje, que compra pelo mínimo e vende pelo máximo, teria sido duas vezes excomungado na Idade Média.

O comerciante, porque exercia um serviço público necessário, tinha direito

a uma boa recompensa e a nada mais do que isso (HUBERMAN, 1986, p.

47).

Portanto, se quisermos compreender como nos transformamos em seres sedentos por sucesso e lucro, devemos retroceder à transição de uma sociedade que se baseava na noção do justo preço para outra que perseguia o sucesso econômico. Temos que supor que tal transição fosse requerer uma mudança drástica na maneira de pensar e agir: era necessária uma nova ética. “A suspeita e o constrangimento que cercavam as ideias de lucro, mudança e mobilidade social devem dar lugar a novas ideias que encorajem essas mesmas atitudes e atividades” (HEILBRONER, 1987, p. 64). Vamos tratar, então, de compreender como surge essa ética e como ela passa a conduzir o comportamento da sociedade que a ela se submete.

Vamos pensar e refazer esse caminho: até o final da Idade Média, a Igreja Católica era a responsável pela difusão e pela manutenção dos valores morais. Com base no texto sagrado, ela defendia a vida como mera passagem transitória pela Terra, anterior à ida para o Paraíso, destino daqueles que haviam cumprido seu papel aqui.

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Conforme afirma Huberman (1986, p. 47): A Igreja ensinava que, se o

Conforme afirma Huberman (1986, p. 47):

A Igreja ensinava que, se o lucro do bolso representava a ruína da alma, o bem-estar espiritual é que estava em primeiro lugar. “Que lucro terá o homem, se ganhar todo o mundo e perder sua alma?” Se alguém obtivesse, numa transação, mais do que o devido, estaria prejudicando a outrem, e isso estava errado. São Tomás de Aquino, o maior pensador religioso da Idade Média, condenou a “ambição do ganho”. Embora se admitisse, com relutância, que o comércio era útil, os comerciantes não tinham o direito de obter numa transação mais do que o justo pelo seu trabalho.

O que era considerado pecaminoso? Por exemplo, a busca pelo lucro ou pelo ganho pessoal e o trabalho (além do necessário para satisfazer as necessidades mais básicas). Quem tivesse o suficiente para viver e, apesar disso, continuasse a trabalhar incessantemente, “seja para conseguir uma posição social melhor, seja para viver mais tarde sem trabalhar, ou para que seus filhos se tornassem homens de riqueza e importância – todos esses estavam dominados por uma avareza, sensualidade ou orgulho condenáveis” (HUBERMAN, 1986, p. 47). A ética católica pregava o conformismo e abominava qualquer tentativa de romper com o que estava dado e acertado. Mais: obter qualquer vantagem em relação ao seu concorrente (se é que existia esse conceito) era simplesmente inimaginável. Como novamente aponta Huberman (1986, p. 67):

Assim como se precaviam da interferência estrangeira em seu “monopólio”, as corporações tinham também o cuidado de evitar, entre si, práticas desonestas que pudessem causar prejuízos a terceiros. Nada de competição mortal entre amigos, é o que realmente significa o item 3 dos estatutos dos curtidores. O membro da corporação não podia furtar um jornaleiro ou o aprendiz de seu mestre. Também era tabu a prática comercial, hoje muito difundida, de obsequiar o cliente ou suborná-lo para conseguir realizar um negócio. Em 1443, a corporação dos padeiros de Corbie, na França, determinou que ninguém daria bebidas ou faria qualquer outra gentileza a fim de vender seu pão, sob pena de pagar uma multa de 60 soldos.

Como se pode perceber, a mudança capaz de introduzir uma nova forma de pensar deveria ser ampla e irreversível. O que se sabe é que o Calvinismo e a Reforma transformaram, à sua época, a forma de ver o mundo, trazendo em seu bojo uma nova ética e uma nova moral.

Em contraste com os teólogos católicos, propensos a considerar a atividade humana como coisa fútil e vã, os calvinistas santificavam e aprovavam o esforço humano como uma espécie de indicador de valor espiritual. De fato, cresceu entre os calvinistas a ideia de um homem dedicado ao seu trabalho:

‘vocacionado’ para ele, por assim dizer. Daí, a fervorosa entrega de cada um à sua própria vocação, muito ao contrário de evidenciar um afastamento dos fins religiosos, passou a ser considerada uma evidência da dedicação à vida religiosa. O comerciante enérgico e empreendedor era, aos olhos calvinistas,

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Unidade I

Unidade I um homem piedoso , não um ímpio; e desta identificação de trabalho e virtude

um homem piedoso, não um ímpio; e desta identificação de trabalho e

virtude não foi necessário mais que um passo para se desenvolver a noção de que, quanto mais bem-sucedido um homem fosse na vida, mais virtuoso

e mais valor ele tinha (HEILBRONER, 1987, p. 79).

Trabalhar, especialmente além do necessário, era virtuoso. A conquista da riqueza não era imoral, especialmente se a piedade e a virtude direcionassem o uso dessa riqueza: nada de luxo, jogos e hábitos faustosos. O trabalho era sagrado, e sagrado também era o seu fruto. Os homens deveriam viver com simplicidade, com economia e com humildade:

[o calvinismo] fez da poupança, da abstinência consciente do usufruto da renda, uma virtude. Fez do investimento, do uso da poupança para fins produtivos, um instrumento tanto de devoção como de lucro. Justificou até, com vários quids e quos, o pagamento de juros. De fato, o calvinismo estimulou uma nova concepção de vida econômica. Em lugar do antigo ideal de estabilidade social e econômica, de se conhecer e manter o ‘lugar’ de

cada um, conferiu respeitabilidade a um ideal de luta, de aperfeiçoamento

e progresso material, de crescimento econômico (HEILBRONER, 1987, p.

80).

Essa moral criaria o que Max Weber, no século XIX, ao estudar a fundo a relação entre a religião e o capitalismo, identificou como sendo o espírito do capitalismo:

De fato, o summum bonum dessa ética, o ganhar mais e mais dinheiro,

combinado com o afastamento estrito de todo prazer espontâneo de viver

é, acima de tudo, completamente isento de qualquer mistura eudemonista,

para não dizer hedonista; é pensado tão puramente como um fim em si mesmo, que do ponto de vista da felicidade ou da utilidade para o indivíduo parece algo transcendental e completamente irracional. O homem é dominado pela geração de dinheiro, pela aquisição como propósito final da vida. A aquisição econômica não mais está subordinada ao homem como um meio para a satisfação de suas necessidades materiais. Essa inversão daquilo que chamamos de relação natural, tão irracional de um ponto de vista ingênuo, é evidentemente um princípio guia do capitalismo, tanto quanto soa estranha para todas as pessoas que não estão sob a influência capitalista (WEBER, 1996, p. 21).

Assim, em algum momento do passado, o processo de industrialização foi ganhando o espaço antes reservado à agricultura e às outras atividades extrativas. O período em que esse processo efetivamente teve início, e a partir do qual se desenvolveu, é aquele que compreende o final do século XVIII até o século XIX. Nesse momento, as velhas estruturas fabris ainda continuavam a conviver com modernas técnicas produtivas (e isso aconteceria por um bom tempo); grandes invenções transformavam a indústria: máquina de fiar, tear mecânico, máquina a vapor, lançadeira volante, patentes para técnicas diversas de fundição, bombeamento de minas e obras hidráulicas. Todas

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA essas inovações seriam responsáveis por profundos desenvolvimentos em relação às

essas inovações seriam responsáveis por profundos desenvolvimentos em relação às atividades das indústrias de lã e siderurgia, embora ainda existissem pequenas firmas que empregavam poucos trabalhadores (nessas, o empregador não era o grande capitalista, mas o empreiteiro intermediário). A manutenção desses padrões de indústria domiciliar, inclusive, representaria um obstáculo na consagração de um caráter homogêneo da classe trabalhadora, às vezes envolvida nos processos produtivos das grandes indústrias, em outras ainda vinculada aos sistemas dos ofícios e pequenas unidades produtoras.

O uso intensivo de maquinário nas fábricas – fruto de um incessante processo de inovação tecnológica –, e a expansão de uma classe trabalhadora, explorada e assalariada, caracterizavam uma crescente atividade econômica já bem distante da economia comercial e mercantil dos séculos XVII e XVIII.

Saiba mais Sugerimos a leitura das obras de Charles Dickens. O autor, de forma magnífica,

Saiba mais

Sugerimos a leitura das obras de Charles Dickens. O autor, de forma magnífica, soube mostrar a Inglaterra pobre e miserável do século XIX. Entre seus livros recomendamos Tempos Difíceis e Oliver Twist. Este último foi transformado em filme com o mesmo nome (Oliver Twist. Direção: Roman Polanski, 130 minutos, 2005).

Nada parecia se traduzir em algo além de um intenso pessimismo em relação ao “progresso” da sociedade e à “evolução” da humanidade (pessimismo esse visível nas obras de Malthus e Ricardo), mas alguns viam nos Oitocentos razões para otimismo e esperança de dias melhores e de um futuro mais promissor.

As degradadas e sujas cidades inglesas viam circular trabalhadores esfomeados e que viviam em condições totalmente inadequadas; ao mesmo tempo, os pensadores e a elite empresarial discutiam o terrível destino que aguardava a humanidade (em especial, a fome resultante da explosão populacional e da escassez de terras aráveis e produtivas); outros pensadores e capitalistas buscavam alternativas que pudessem criar um sistema social justo dentro (e a partir do) contexto de industrialização e da economia de mercado.

Num período em que a crença na ideia do progresso era hegemônica, essas alternativas incluíam sonhos extravagantes e projetos – às vezes mais, outras menos – mirabolantes. Saint- Simon e seus seguidores pretendiam construir uma pirâmide social na qual se ganharia em função do trabalho útil para a sociedade. Fourier escreveria sobre as falanges, locais parecidos com hotéis, onde todos viveriam e “todos teriam que trabalhar, é claro, porém poucas horas por dia. Mas ninguém tentaria escapar do trabalho, porque cada qual estaria fazendo o que mais gostava” (HEILBRONER, 1996, p. 118).

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Unidade I

Unidade I Outras iniciativas ocorreriam de forma mais pragmática como, por exemplo, a fábrica de Nova

Outras iniciativas ocorreriam de forma mais pragmática como, por exemplo, a fábrica de Nova Lanark, localizada nas redondezas de Glasgow, de propriedade de Robert Owen (1771-1858).

Em Nova Lanark havia duas perfeitas fileiras de casas de trabalhadores com dois quartos em todas elas; havia ruas com o lixo cuidadosamente empilhado, à espera de remoção, em vez de estar espalhado em asquerosa imundície. E, nas fábricas, uma cena ainda mais incrível apresentava-

Outra surpresa se impunha: não havia

crianças na fábrica — pelo menos, nenhuma com menos de dez ou onze anos —, e as que lá se encontravam trabalhavam duro apenas dez horas e quinze minutos por dia. Além disso, nunca eram castigadas; na verdade, ninguém era castigado e, a não ser poucos adultos incorrigíveis que tinham sido despedidos por embriaguez crônica ou algum outro vício, a disciplina parecia basear-se na bondade e não no medo. A porta da sala do capataz da fábrica permanecia aberta e quem quer que fosse podia (e o fazia) apresentar suas objeções a qualquer regra ou regulamento. Todos podiam consultar o livro que continha o relatório detalhado do próprio comportamento, que servia para que cada qual recebesse seu cubo, e quem se julgasse injustamente tratado podia reclamar. O mais notável de tudo eram as crianças pequenas. Em vez de viverem correndo e fazendo diabruras pelas ruas, os visitantes as encontravam na escola enorme, estudando ou brincando (HEILBRONER, 1996, p. 103).

se aos olhos dos visitantes. [

]

Owen, apesar de capitalista, mostrava sentimentos bastante negativos em relação ao uso do dinheiro e à propriedade privada; em função disso, proporia a criação de aldeias de cooperação, comunidade de pobres onde estes poderiam se tornar “produtores de riqueza se tivessem chance de trabalhar e que seus hábitos sociais deploráveis podiam se transformar com facilidade em hábitos virtuosos sob a influência de um ambiente decente” (HEILBRONER, 1996, p. 118). No entanto, aquele era um tempo de exploração humana, das crianças em particular. Em uma passagem do livro A riqueza do homem de Leo Huberman, podemos ver o que era considerado normal, no século XIX, em termos de duração de um dia de trabalho em uma fábrica inglesa:

As crianças agora trabalhavam em fábricas, sob a direção de um supervisor cujo emprego dependia da produção que pudesse arrancar de seus pequenos corpos, com horários e condições estabelecidos pelo dono da fábrica, ansioso por lucros. Até mesmo um senhor de escravos das Índias Ocidentais poderia surpreender-se com o longo dia de trabalho das crianças. Um deles, falando a três industriais de Bradford, disse: “Sempre me considerei infeliz pelo fato de ser dono de escravos, mas nunca, nas Índias Ocidentais, pensamos ser possível haver ser humano tão cruel que exigisse de uma criança de 9 anos trabalhar 12 horas e meia por dia, e isso, como os senhores reconhecem, como hábito normal” (HUBERMAN, 1986, p. 192).

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Heilbroner (1996) também se espanta com a miséria e a exploração infantil.

Heilbroner (1996) também se espanta com a miséria e a exploração infantil. Conforme o autor,

em 1828, The Lion, uma revista radical para a época, publicou a incrível história de Robert Blincoe, uma das oito paupérrimas crianças que haviam

sido enviadas para uma fábrica em Lowdham. Os meninos e as meninas — tinham todos cerca de dez anos — eram chicoteados dia e noite, não apenas pela menor falta, mas também para desestimular seu comportamento preguiçoso. E comparadas com as de uma fábrica em Litton, para onde Blincoe foi transferido a seguir, as condições de Lowdham eram quase humanas. Em Litton, as crianças disputavam com os porcos a lavagem que era jogada na lama para os bichos comerem; eram chutadas, socadas

e

abusadas sexualmente; o patrão delas, um tal de Ellice Needham, tinha

o

horrível hábito de beliscar as orelhas dos pequenos até que suas unhas

se encontrassem através da carne. O capataz da fábrica era ainda pior. Pendurava Blincoe pelos pulsos por cima de uma máquina até que seus joelhos se dobrassem e então colocava pesos sobre seus ombros. A criança e seus pequenos companheiros de trabalho, viviam quase nus durante o gélido inverno e (aparentemente apenas por pura e gratuita brincadeira sádica) os dentes deles eram limados! (HEILBRONER, 1996, p. 101).

Saiba mais O trabalho infantil ainda é uma tragédia nos nossos tempos. Se você quiser

Saiba mais

O trabalho infantil ainda é uma tragédia nos nossos tempos. Se você quiser saber mais sobre o combate ao trabalho infantil, leia o conteúdo do site do Ministério do Trabalho e Emprego e, em particular, as publicações que ali estão sobre o assunto. Disponível em <http://www.mte.gov.br/trab_ infantil/default.asp>.

Aquele era um tempo em que mudanças surgiriam não apenas sob a forma do livre pensamento de políticos e capitalistas, mas também sob a forma de teorias que buscavam explicitar uma ordem racional na história da humanidade, ordem essa sempre no sentido de avanço e da melhoria.

A documentação sobre esse período é farta: “o século da imprensa ao alcance de todos e da disseminação quase universal da alfabetização nos legou fontes documentárias de uma abundância até agora superior à de qualquer outro século anterior” (DOBB, 1987, p. 257). Aquele seria o momento em que se organizariam estruturas sociais bastante específicas. O aumento populacional (principalmente em função da queda da mortalidade causada pelas melhorias nas técnicas de saúde pública), a expansão do mercado (por meio da divisão do trabalho e dos acréscimos na produtividade) e as invenções modificariam as cidades e a produção.

Entre 1775 e 1875, o mundo passaria por um intenso progresso econômico, embora desigual se comparados países, ou mesmo se comparados diferentes setores industriais. Os trabalhadores

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Unidade I

Unidade I concentram-se num só lugar, a fábrica. O processo de produção agora é coletivo e,

concentram-se num só lugar, a fábrica. O processo de produção agora é coletivo e, do operário, não é mais esperada vontade própria ou aptidão especial, mas apenas destreza e obediência às exigências das máquinas. Também,

era agora necessário capital para financiar o equipamento complexo requerido pelo novo tipo de unidade de produção; e criara-se um papel para um tipo novo de capitalista, não mais apenas como usurário ou comerciante em sua loja ou armazém, mas como capitão de indústria, organizador e planejador das operações da unidade de produção, corporificação de uma disciplina autoritária sobre um exército de trabalhadores que, destituídos de sua cidadania econômica, tinham de ser coagidos ao cumprimento de seus deveres onerosos a serviço alheio pelo açoite alternado da fome e do supervisor do patrão (DOBB, 1987, p. 262).

Nesses termos, a Revolução Industrial pode ser descrita como “uma série contínua de transformações que perdurou além mesmo do século XIX, em vez de como uma modificação feita de uma só vez” (DOBB, 1987, p. 269). No entanto, “uma vez vinda a transformação crucial, o sistema industrial embarcou em toda uma série de revoluções na técnica de produção, como traço notável de uma época do capitalismo amadurecido” (DOBB, 1987, p. 270). As invenções provocavam a especialização do trabalho que, assim dividido, facilitava a introdução de novas inovações, caracterizando um processo cumulativo e irreversível em termos do aumento da produtividade, da concentração da produção e da acumulação.

Essa última tendência, filha da complexidade crescente do equipamento técnico, é que iria preparar o terreno para outra transformação crucial na estrutura da indústria capitalista, e gerar o ‘capitalismo de corporação’ monopolista (ou semimonopolista ou quase monopolista) em grande escala da era atual (DOBB, 1987, p. 270).

As invenções surgiam em função das necessidades prementes das indústrias e, com o auxílio do espírito prático e comercial dos capitalistas, mudavam a face da economia e das estruturas sociais. A força de trabalho não apenas era uma mercadoria, mas uma mercadoria disponível e disposta a se empregar em troca de salários extremamente baixos. Os cercamentos de terra e o êxodo da população rural disso resultante, também faria aumentar o número de trabalhadores dispostos a trabalhar em troca de qualquer salário. A acumulação do capital, portanto, excedia o crescimento da oferta de trabalho.

São os pensadores clássicos que irão consagrar uma forma de “ler” esse novo mundo. As preocupações desses primeiros teóricos resumem-se a três categorias: produção, distribuição e circulação de riqueza, essa última vista como consequência da consolidação do Estado burguês na Europa oitocentista. Os principais pensadores dessa escola foram Adam Smith, David Ricardo, Thomas Malthus e John Stuart Mill. Essa doutrina, a do liberalismo econômico, terá em suas bases a liberdade pessoal, a propriedade privada, a iniciativa individual, a empresa privada e a interferência mínima do governo: as ideias clássicas eram liberais, em contraste com as restrições feudais e mercantilistas sobre a escolha de profissões, as transferências de terra e o comércio.

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Esse liberalismo clássico irá defender a interferência mínima do Estado na economia,

Esse liberalismo clássico irá defender a interferência mínima do Estado na economia, o comportamento econômico individual baseado no autointeresse e buscará leis explicativas dos fatos econômicos. Para ele, não é apenas a agricultura que cria riqueza: a origem desta se encontra em todos os ramos da atividade econômica.

Adam Smith (1723-1790) é o precursor dos autores clássicos, desenvolvendo um padrão de análise

a

ser reproduzido por seus sucessores (o sumário de A riqueza das nações, sua principal obra, é quase

o

mesmo daqueles dos escritos de Malthus e Ricardo). Para Smith, a riqueza de uma nação é medida

pela produção total anual de um país, que será consumida por um determinado número de pessoas. Assim, a riqueza é dada pela relação entre a produção anual e a população. A divisão do trabalho gera

a riqueza e esse processo (o de consecutivas divisões e especializações) só encontra limites no tamanho

do mercado: a divisão do trabalho ocorrerá até o limite das possibilidades do tamanho do mercado. Para Smith, o sistema econômico tende ao equilíbrio natural, tal como observado na natureza física, e é resultado do comportamento egoísta que, direcionado ao bem-estar individual, gera o bem-estar social. Como isso ocorre?

Para Smith, ao buscar seu próprio interesse, cada agente tem também que considerar o interesse do outro: um bom exemplo é o de um comerciante que diminui o preço de sua mercadoria se os clientes optam por outro comerciante que venda mais barato. Será essa busca pelo progresso individual, busca essa motivada pelo autointeresse, que resulta no crescimento das cidades, no aumento da eficiência econômica e no acúmulo da riqueza material.

Saiba mais Sobre a questão do autointeresse, sugerimos a leitura do texto A f á

Saiba mais

Sobre a questão do autointeresse, sugerimos a leitura do texto A fábula

das abelhas: vícios privados, benefícios públicos, de Eduardo Gianetti da

Fonseca,

papers/05.php>.

disponível

em:

<http://pt.braudel.org.br/publicacoes/braudel-

Smith tentaria, dessa forma, compreender o sistema econômico como um todo, em especial no que diz respeito à alocação de recursos para os fatores de produção, aos mecanismos de autorregulação do mercado e ao modelo de crescimento. Segundo Heilbroner e Milberg (2008, p. 75),

Smith mostrou que o sistema de mercado é um processo autorregulador. A bela consequência de um mercado competitivo é que ele é seu próprio guardião. Se preços ou lucros saírem de seus níveis “naturais”, determinados pelos custos, haverá forças que os reconduzirão à linha. Surge, então, um paradoxo curioso. O mercado competitivo, que tem em seu ápice a liberdade econômica individual, é ao mesmo tempo o mais rígido supervisor econômico.

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Unidade I

Unidade I O exemplo utilizado por Adam Smith em A riqueza das nações é o da

O exemplo utilizado por Adam Smith em A riqueza das nações é o da fábrica de alfinetes. Por meio

das atividades observadas nessa fábrica, ele explicará como a divisão de trabalho acaba por gerar riqueza

a partir do aumento da produtividade:

Um operário desenrola o arame, outro o endireita, um terceiro o corta, um quarto faz as pontas, um quinto o afia nas pontas para a colocação da cabeça do alfinete; para fazer uma cabeça de alfinete requerem-se três ou quatro operações diferentes; montar a cabeça já é uma atividade

diferente, e alvejar os alfinetes é outra; a própria embalagem dos alfinetes também constitui uma atividade independente. Assim, a importante atividade de fabricar um alfinete está dividida em aproximadamente 18 operações distintas, as quais, em algumas manufaturas, são executadas por pessoas diferentes, ao passo que, em outras, o mesmo operário às

Se, porém, tivessem trabalhado

vezes executa duas ou três delas. [

independentemente um do outro, e sem que nenhum deles tivesse sido treinado para esse ramo de atividade, certamente cada um deles não teria conseguido fabricar 20 alfinetes por dia, e talvez nem mesmo 1 (SMITH, 1996, p. 66)

]

Por seu turno, Thomas Malthus (1766-1834) está preocupado com outra coisa: o que o atormenta é a fome e a imensa miséria dos trabalhadores. Para ele, é visível que, como consequência dos desenvolvimentos da Revolução Industrial, a acumulação do capital e da renda da terra se faz a partir do arrocho do salário dos trabalhadores; Malthus escreve sob efeito dos conflitos de seu tempo, conflitos esses marcados pelo confronto dentro da elite econômica entre os interesses do capital agrário e do capital industrial, ainda nascente. Os proprietários de terra desejam impostos altos de importação para os cereais para que possam elevar os preços internos. Os industriais querem os cereais vendidos a preços menores para que não tenham que aumentar os salários. Os pobres e miseráveis perdem, aos poucos, a parca ajuda financeira das paróquias.

Malthus está extremamente preocupado com o destino da espécie humana. Para ele,

tem sido dito que uma grande questão está hoje em debate: se doravante o homem se lançará para frente, com velocidade acelerada, em direção a um aperfeiçoamento ilimitado e até agora inimaginável, ou se será condenado a uma permanente oscilação entre a prosperidade e a miséria e, depois de todo esforço, ainda permanecerá a uma incomensurável distância do objetivo desejado (MALTHUS, 1996, p. 243).

Malthus analisa o crescimento populacional e o aumento da produção de alimentos e chega à

seguinte conclusão: “não há como essa conta bater”. A população cresce a taxas geométricas, enquanto

a produção de alimentos cresce a uma taxa aritmética. Malthus conclui: em pouco tempo haveria

milhões de esfomeados, a não ser que se pudesse contar com o providencial auxílio das guerras, das

pragas e das pestes. O modelo malthusiano pode ser representado como a seguir:

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Teoria de Malthus Crescimento populacional Produção de alimentos Fome, doenças, crises

Teoria de Malthus

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Teoria de Malthus Crescimento populacional Produção de alimentos Fome, doenças, crises

Crescimento populacional Produção de alimentos Fome, doenças, crises sociais, políticas, mortes Capacidade de produção de alimentos

Figura 1 - O modelo malthusiano 7

Para Malthus, essa era a tendência natural da humanidade: “independentemente do êxito conseguido pelos reformadores, em suas tentativas de modificar o capitalismo, a atual estrutura de proprietários ricos e trabalhadores pobres reapareceria inevitavelmente” (HUNT, 2005, p. 69). Essa divisão de classes era uma consequência inevitável da lei natural: “parecia que, pelas leis inevitáveis da natureza, alguns seres humanos teriam de passar necessidade. Essas eram as pessoas infelizes que, na grande loteria da vida, tinham tirado um bilhete em branco” (idem, p. 69).

Malthus, apesar da rigorosa formação religiosa, é contrário a contra qualquer tipo de ajuda aos pobres. Em sua opinião, se a ajuda aos menos privilegiados surtisse qualquer efeito, eles já teriam desaparecido da face da terra. Segundo ele, “o fato de que aproximadamente três milhões são coletados anualmente para os pobres e, entretanto, sua miséria ainda não tenha sido eliminada, é um objeto de permanente assombro” (MALTHUS, 1996, p. 268). Sua opinião apoia-se na seguinte justificativa:

As leis dos pobres da Inglaterra tendem a rebaixar a condição geral do pobre dos dois modos seguintes. Sua primeira tendência óbvia é de aumentar a população sem um aumento de alimento para sustentá-la. Um pobre pode casar com pouca ou nenhuma perspectiva de ser capaz de sustentar uma família com independência. Pode-se dizer que, de certo modo, as leis criam

o pobre que mantêm; e como as provisões do país, em consequência do

aumento populacional, devem ser distribuídas a cada pessoa em pequenas

quantidades, é evidente que o trabalho daqueles que não são sustentados pela assistência da paróquia comprará menor quantidade de provisões do que anteriormente e, consequentemente, a maioria deles será forçada

a reclamar por sustento. Em segundo lugar, a quantidade de provisões

consumida em albergues por uma parcela da sociedade que não pode, em geral, ser considerada a mais importante diminui as cotas que, de outro modo, caberiam aos elementos mais operosos e mais dignos; e, então,

Unidade I

Unidade I dessa maneira, obriga muitos a se tornarem dependentes. Se os pobres dos albergues fossem

dessa maneira, obriga muitos a se tornarem dependentes. Se os pobres dos albergues fossem viver melhor do que vivem hoje, essa nova distribuição de dinheiro da sociedade tenderia mais evidentemente a rebaixar a condição daqueles que não estão nos albergues, por ocasionar uma elevação do preço das provisões (MALTHUS, 1996, pp.270-271).

do preço das provisões (MALTHUS, 1996, pp.270-271). Observação Ideias não nascem sós: evidência disso é a

Observação

Ideias não nascem sós: evidência disso é a série de estudos que vem sendo feita para investigar a relação entre as ideias de Thomas Malthus e as de Charles Darwin. Ambos partiram de uma mesma realidade e suas obras apresentam aproximações interessantes. Afinal, ambos buscaram compreender os processos de seleção natural e de sobrevivência da espécie humana.

Saiba maisSe você quiser ler K. P. mais sobre o assunto levantado na Observação de em:

Se

você

quiser ler

K. P.

mais sobre o

assunto levantado na

Observação

de

em: <http://www.scielo.br/scielo.

anterior, sugerimos

Anna Carolina

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O conceito da natureza em a origem das espécies,

Regner. Disponível

David Ricardo (1772-1823) tinha ideias em comum com Malthus. Discordava, porém, em uma série de coisas: apesar da enorme amizade pessoal entre os dois, eram inimigos intelectuais. Ricardo concordava com a ideia de o crescimento populacional ser responsável pela “corrosão” salarial do trabalhador, sempre levando esse salário ao nível de subsistência. No entanto, Ricardo discordava de Malthus em relação à

renda da terra. Para Ricardo, “o preço dos cereais, em relação ao preço das mercadorias industrializadas,

terras cada vez menos

era

férteis, a produzir cada vez menos cereais” (HUNT, 2005, p. 87). Quer dizer, eram as terras menos férteis que determinavam a renda das terras mais férteis.

regulado

pela tendência

do trabalho e do capital, quando empregados em

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Saiba maisAs ideias desses fundadores das ciências econômicas são ainda debatidas e analisadas à exaustão: por

As ideias desses fundadores das ciências econômicas são ainda debatidas

e analisadas à exaustão:

por um estatuto de ciência que a diferenciasse da filosofia moral, as obras desses autores ainda trazem as marcas – indeléveis – de um período em que juízo moral e ciência podiam – e deviam – estar próximos.

buscava

do tempo

em que a

economia política

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Figura 2 - Thomas Malthus 8 Figura 3 - David Ricardo 9
Figura 2 - Thomas Malthus 8 Figura 3 - David Ricardo 9 Apesar de oponentes

Figura 2 - Thomas Malthus 8

Figura 3 - David Ricardo 9

Apesar de oponentes nas ideias, Thomas Malthus e David Ricardo desenvolveram uma amizade que se manteve durante suas vidas. Segundo Heilbroner (1996, p. 85), “O debate sem fim dos dois prosseguiu, por cartas e visitas, até 1823. Em sua última carta para Malthus, Ricardo escreveu: ‘E agora, meu querido Malthus, para mim chega. Como outros disputantes, depois de muita discussão, cada um de nós mantém as próprias opiniões. No entanto, essas discussões jamais alteraram nossa amizade; eu não gostaria mais de você, caso concordasse com minhas opiniões’. Ele morreu nesse ano, subitamente, com cinquenta e um anos; Malthus viveu até 1834. Sua opinião sobre David Ricardo: ‘Não amei ninguém tanto assim, a não ser minha família’”.

Você pode ter contato com pensamentos do período consultando o livro A era do economista, de Daniel R. Fusfeld. Outra obra interessante e que em

muito o ajudará é Novas ideias de economistas mortos, escrito por Todd.

Entre a perspectiva otimista de Smith e o olhar pessimista de Malthus e Ricardo, temos a obra de John Stuart Mill: nascido em Londres, em 1806, filho do filósofo James Mill, iniciou sua educação ainda muito criança. Talvez seu maior desafio tenha sido sobreviver à rotina massacrante de estudos imposta pelo pai: o estudo de grego teria começado aos três anos de idade, e aos sete os primeiros seis diálogos de Platão já eram conhecidos. Fiel defensor dos direitos das mulheres e do sufrágio universal, Mill acreditava na necessidade de dar voz às minorias como forma de legitimar a decisão majoritária. Nas suas obras, Mill indaga: como conciliar uma visão histórica do homem e da sociedade com os critérios

Unidade I

Unidade I metodológicos consagrados como verdadeiramente científicos? Forjado na herança intelectual de seu pai e de

metodológicos consagrados como verdadeiramente científicos? Forjado na herança intelectual de seu pai e de Bentham, erudito em Lógica, estudioso refinado da Economia política, socialista utópico para uns e defensor do sistema de mercado para outros, John Stuart Mill procura realizar o estudo da Economia política a partir da herança deixada por outros pensadores do passado (Adam Smith, Malthus e Ricardo, entre eles), inspirado pelo pensamento científico do século XIX, impulsionado pelos conflitos éticos e sociais do momento histórico em que vivia, otimista e progressista, mas profundamente interessado em fazer a ciência esperada segundo os critérios da comunidade científica de seu tempo. O mundo passava por grandes transformações.

De fato, entre o pessimismo e o otimismo, uma grave crise estava sendo alimentada: essa crise resultaria da expansão da produção associada à redução da lucratividade dos negócios: dificuldades para abertura de novas oportunidades, rapidez na acumulação de capital e limites para a exploração da mão de obra contribuíram para o desenvolvimento da crise que romperia ao final do século XIX, aparentemente tão promissor nos seus primórdios.

A substituição crescente da mão de obra por maquinário gerava desemprego, e a revolta era tão grande que, ao final do século XVIII e nos primeiros anos do século XIX, eram normais as invasões de fábricas por hordas de trabalhadores. Conforme afirma Heilbroner (1996, pp. 102-103),

fábricas destruídas espalhavam-se pelo campo, e a cada uma o comentário era ‘Ned Ludd passou por aqui’. O boato era que um rei Ludd ou um general Ludd estava dirigindo as atividades da turba. Não era verdade, claro. Os luddites, como eles eram chamados, inflamavam-se pelo puro e espontâneo ódio às fábricas, que viam como prisões, e ao trabalho

Para a maior parte dos observadores

as classes baixas estavam escapando do controle e era preciso

assalariado, que desprezavam. [

], [

agir severamente para acabar com a situação. E, para as classes altas, aqueles acontecimentos pareciam indicar que um violento e terrificante Armageddon se aproximava.

]

Ao final do século XIX, a concorrência exigia a criação de mecanismos de defesa contra a redução de preços e de margens de lucro. “Essa maior preocupação com os perigos da concorrência sem barreiras veio numa época em que a crescente concentração da produção, principalmente na indústria pesada, lançava os alicerces de uma centralização maior da propriedade e do controle da política dos negócios” (DOBB, 1987, p. 310). Esse contexto enseja a formação de trustes, de associações de produtores industriais e de cartéis. As empresas europeias (especialmente as de capital britânico), desesperadas por conquistar novos mercados, irão exportar bens de capital para a Ásia, a África e a América.

Assim será com a exploração do salitre no Chile, com a construção de ferrovias e portos no Brasil, no México, no Japão, no Canadá e na Argentina: se o capital já não pode ser traduzido em acumulação nos seus locais de origem, irá ser exportado para o exterior, e de lá trará os lucros tão desejados pelos empresários.

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Saiba mais Sugerimos a leitura de Santa Maria de Iquique, Há Cem
Saiba mais Sugerimos a leitura de Santa Maria de Iquique, Há Cem Anos , d

Saiba mais

Sugerimos a leitura de Santa Maria de Iquique, Há Cem Anos, de Ivy

Judensnaider, em que a autora relata o ocorrido nas minas de salitre do Chile no começo do século XX. Disponível em: <http://www.arscientia.com.

br/materia/ver_materia.php?id_materia=442>.

Também sugerimos o filme Mauá, o Imperador e o Rei (Direção: Sérgio Rezende, 134 minutos, 1999), que trata do embate entre o capital inglês e o capital nacional).

Inspirados pela visão dos sucessos de levantes operários e envolvidos no trabalho de entender e resolver os problemas oriundos da acumulação capitalista, Marx e Engels buscarão a análise do capitalismo, defendendo sua inexorabilidade rumo à destruição.

origina-se do

princípio que a produção, e com a produção a troca de seus produtos, é a

base de toda ordem social; que em cada sociedade que apareceu na História

a distribuição dos produtos, e com ela a divisão da sociedade em classes ou estados, é determinada pelo que é produzido, como é produzido e como

A concepção materialista da História, escreveu Engels, [

]

o produto é trocado. De acordo com esta concepção, as causas finais das

mudanças sociais e das revoluções políticas devem ser vistas, não na mente

dos homens nem em seu crescente impulso em direção da eterna verdade

e da justiça, mas sim nas mudanças das maneiras de produção e de troca;

devem ser vistas não por meio da filosofia, mas sim da economia da época concernente (HEILBRONER, 1996, p. 138).

Marx, acrescentando, fará uma previsão: o capitalismo se destruirá por si mesmo. A produção não planejada, a desorganização do sistema, as constantes oscilações de preços, tudo estaria conspirando para a inexorável crise.

O sistema, simplesmente, era complexo demais; desencaixava-se de maneira

constante, perdia o ritmo, produzia determinada mercadoria em excesso e

outra de menos. A segunda, o capitalismo deveria produzir seu sucessor sem

o saber. Dentro de suas grandes fábricas ele precisaria não apenas criar a

base técnica para o socialismo — produção racionalmente planejada —, mas teria, além disso, que criar uma classe bem treinada e disciplinada que viria

a ser o agente do socialismo, o amargurado proletariado. Por sua própria

essência dinâmica, o capitalismo iria produzir a própria queda e, no processo,

alimentaria o inimigo (HEILBRONER, 1996, p. 141).

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Unidade I

Unidade I Algumas das principais ideias de Marx podem ser assim resumidas: para ele, o capital

Algumas das principais ideias de Marx podem ser assim resumidas: para ele, o capital era quem gerava lucros para uma específica e especial classe social; a relação econômica básica era a da troca e, nesse sentido, as mercadorias tinham um valor de uso (criado pelo trabalho útil) e um valor de troca

(criado pelo valor abstrato); o valor de troca era expresso em termos de preço monetário; ainda, “o valor de uso não poderia ser a base do valor de troca” (HUNT, 2005, p. 198). Tendo “estabelecido a ligação entre o valor de troca de uma mercadoria e ‘a quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário

mostrou as condições sócio-históricas específicas necessárias para os

produtos do trabalho humano se transformarem em mercadorias” (idem, p. 200).

para sua produção’, Marx [

]

Para Marx, enquanto numa sociedade não capitalista o fluxo de troca poderia ser descrito por mercadoria – dinheiro – mercadoria (o processo, nesse caso, envolvendo a troca com o objetivo de adquirir outras mercadorias para uso), numa sociedade capitalista o fluxo caracterizava-se por dinheiro – mercadoria – dinheiro (ou seja, o dinheiro era gerado pela produção e troca de mercadorias produzidas a partir do capital disponível); a diferença entre dinheiro recebido pela troca das mercadorias produzidas e dinheiro gasto com salários era denominada mais-valia, gerada no processo de produção e que tinha como origem o fato de os capitalistas comprarem um conjunto de mercadorias (fatores de produção, incluindo o trabalho que o operário vendia como mercadoria) por um valor abaixo daquele representado pelo conjunto de mercadorias vendidas (resultantes do processo produtivo).

Para Marx, essa análise permitia concluir que a única maneira de o capitalista sobreviver era por meio da acumulação cada vez maior de capital, e essa a luta pela sobrevivência acabaria por gerar concentração econômica e queda da taxa de lucro (em suma, crises setoriais, alienação e miséria da classe operária).

Saiba mais Germinal (Direção: Claude Berri, 160 minutos, 1993) é um filme baseado na obra

Saiba mais

Germinal (Direção: Claude Berri, 160 minutos, 1993) é um filme baseado na obra homônima de Émile Zola e retrata a situação dos mineiros franceses ao final do século XIX, especialmente as condições insalubres de trabalho associadas aos baixos salários.

Esse seria o contexto a partir do qual se desenvolveria a depressão da década de 1870 e, em consequência, a articulação de um discurso analítico feito sob medida para compreendê-lo em toda a sua extensão.

O que se tornou conhecido como Grande Depressão, iniciada em 1873, interrompida por surtos de recuperação em 1880 e 1888, e continuada em meados da década de 1890, passou a ser encarado como um divisor de águas entre dois estágios do capitalismo: aquele inicial e vigoroso, próspero e cheio de otimismo aventureiro, e o posterior, mais embaraçado, hesitante e, diriam alguns, mostrando já as marcas de senilidade e decadência (DOBB, 1987).

Afinal, se os mercados são tão necessários para a sobrevivência do capital, as nações desenvolvidas entrariam em guerra para disputá-los.

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Para refletir Veja o mapa a seguir. Ele mostra as regiões do

Para refletir

Veja o mapa a seguir. Ele mostra as regiões do mundo que sofrem com o problema da fome. Em sua opinião, as previsões de Malthus estavam corretas?

-180º -135º -90º -45º 0º 45º 90º 135º 180º 45º 45º 0º -45º -45º -180º
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< 5%
5 - 20%
20 - 35%
> 35%
Dados não disponíveis

Fonte: FAO/GIS (ESNP / SDRN), 2003

Figura 4 - O mapa da fome 10

4 A SÍNTESE NEOCLÁSSICA, A REVOLUÇÃO KEYNESIANA E O PENSAMENTO ECONÔMICO CONTEMPORÂNEO

Como vimos ao final do item anterior, o marxismo marcou indelevelmente o pensamento econômico ao final do século XIX: colocando sob o holofote crítico do materialismo histórico, ele veio se configurar como a mais estruturada manifestação contrária ao capitalismo. É evidente que os liberais e os adeptos do livre mecanismo de mercado precisavam reagir, e eles reagiram: em verdade, a síntese neoclássica se mostrou, ao menos no primeiro instante, como uma tentativa de responder às previsões pessimistas de Marx quanto ao futuro da relação capital-trabalho que até então se mostrava hegemônica e insubstituível.

Dessa forma, podemos entender o pensamento neoclássico como resultante das ideias que

surgiram por volta de 1870 como reação aos movimentos socialistas de meados do século XIX, que eclodiram devido à concentração de renda e à intensa migração rural-urbana decorrentes da industrialização. Os marginalistas ou neoclássicos combatiam a teoria clássica baseada no

Unidade I

Unidade I valor-trabalho e na ideia de que a renda da terra não era socialmente justa.

valor-trabalho e na ideia de que a renda da terra não era socialmente justa. Novas teorias foram desenvolvidas para o valor, distribuição e formação dos preços. Suas suposições são as de que a economia é formada por um grande número de pequenos produtores e consumidores, incapazes de influenciar isoladamente os preços e as quantidades no mercado. Os consumidores, de posse de determinada renda, adquirem bens e serviços de acordo com seus gostos, a fim de maximizarem sua utilidade total, derivada do consumo ou da posse das mercadorias. Essa é uma concepção hedonista, segundo a qual

o homem procura o máximo prazer, com um mínimo de esforço 11 .

Segundo o texto anterior, a escola neoclássica (também chamada de marginalista), se organizaria a partir de algumas ideias básicas, tendo como centro o indivíduo e a firma e como forma de investigação a abstração teórica e a argumentação lógica: produzir-se-á ou se consumirá a partir da análise do custo ou benefício que a última unidade (produzida ou consumida) proporciona; as ações dos indivíduos e das firmas proporcionam o equilíbrio entre o consumo e a oferta; o modelo de estrutura de mercado adotado é aquele representado pela concorrência perfeita; a demanda é o elemento mais relevante na determinação dos preços; a determinação do valor dos bens se dá pela sua utilidade; a racionalidade conduz as ações dos agentes econômicos e a liberdade de mercado é essencial para o equilíbrio de mercado. Como pode ser visto, o pensamento neoclássico se encarregaria de tirar de cena as questões incômodas de valor de troca, de salário e de mais-valia da análise econômica, traduzindo-se assim como real alternativa teórica aos estudos marxistas.

A crise de 1929 traria outros ingredientes para a análise do pensamento econômico, e a escola neoclássica teria que proporcionar soluções antes não cotejadas no seu desenvolvimento teórico. Vejamos um texto publicado na revista Veja sobre o famoso outubro daquele ano:

Um alvoroço incomum nos arredores da Bolsa de Valores de Nova York chamou

a atenção do comissário de polícia da cidade, Grover Whalen, na última

quinta-feira, dia 24. Por volta das 11 horas, um rugido cavernoso começou

a escapar do edifício. Alguns minutos depois, já não era possível identificar

se o bramido vinha de dentro ou de fora da Bolsa; uma multidão estrepitosa tomara as cercanias de Wall Street e Broad Street, como formigas rodeando um torrão de açúcar esquecido na pia da cozinha. Alarmado, o comissário logo enviou um destacamento especial para a região. A turba, contudo, não representava uma ameaça à ordem pública, como o oficial perceberia mais tarde. Com olhares horrorizados e incrédulos, os nova-iorquinos, espremidos

uns aos outros, estavam inertes. Eles apenas esperavam, não se sabe ao certo quem ou o quê. Era o pânico. Dentro do prédio, a consternação era semelhante

e estava ainda mais evidente na agitada face de corretores e operadores,

protagonistas e testemunhas do acontecimento que pode mudar os rumos da economia mundial. Símbolo maior da pujança econômica dos Estados Unidos, o mercado de ações, que se tornou verdadeira mania nacional nesta

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA década gloriosa para os americanos, via seu baluarte, a rica e poderosa

década gloriosa para os americanos, via seu baluarte, a rica e poderosa Bolsa de Nova York, despedaçar-se em poucos minutos naquela que já entrou para os anais como a “quinta-feira negra”. Uma onda súbita e sem precedentes de vendas tomou de assalto o pregão nova-iorquino. Ações outrora valorizadas simplesmente não encontravam novos compradores, nem mesmo por verdadeiras ninharias. Os preços dos papéis, fossem eles da United States Steel ou da American Telephone and Telegraph, caíam vertiginosamente, arrastando com eles as economias, esperanças e sonhos de milhares de americanos levados à bancarrota instantânea 12 .

de americanos levados à bancarrota instantânea 1 2 . Observação O primeiro número impresso da revista

Observação

O primeiro número impresso da revista Veja foi publicado em 1968. Por meio da internet, porém, sob o nome Veja na História, a publicação tem colocado à disposição dos interessados edições especiais sobre fatos históricos relevantes que aconteceram no mundo nas mais diversas épocas, como o crash na Bolsa de Nova York.

A notícia faz referência à quebra da bolsa da maior economia do mundo em 1929, que, por sua dimensão, disseminou a crise por todos os continentes. Para Dobb (1987, p. 322), o que desmontava era o sonho de um paraíso econômico:

Os próprios fatos desses anos sombrios, com suas falências repentinas, fábricas abandonadas e filas de gente a pedir pão, forçaram nos espíritos já refeitos a conclusão de que algo – muito mais fundamental do que uma adaptabilidade lenta de desordenadas relações de preços – devia estar errado no sistema econômico, e que a sociedade capitalista teria sido tomada por algo com todos os sinais de ser uma doença crônica que ameaçava tornar-se fatal.

Saiba mais Recomendamos a leitura do livro As vinhas da ira, de John Steinbeck, editora
Saiba mais
Recomendamos a leitura
do livro
As vinhas da
ira, de John
Steinbeck,
editora
Record. O
romance
é de 1939 e
o autor
narra
a trajetória dos
camponeses sem trabalho que vagam
pelo território americano em
busca
de alguma oportunidade de sobrevivência.

Entendamos, portanto, a crise. A atividade econômica tinha, naquele momento, a produção de massa como principal característica. O antigo artesão, o produtor independente da máquina e o agente que operava

12 Texto disponível

em: <http://veja.abril.com.br/historia/crash-bolsa-nova-york/especial-quebrou-panico-acoes-

wall-street-impressao.shtml>. Acesso em:

16 dez. 2011.

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Unidade I

Unidade I a máquina, todos eles haviam sido substituídos, aos poucos e de maneira irreversível, por

a máquina, todos eles haviam sido substituídos, aos poucos e de maneira irreversível, por máquinas que operavam e comandavam a produção. Ela se tornara um processo de equipe, mecanizado e unificado.

Nas primeiras décadas do século XX, tudo parecia funcionar exatamente como o previsto pelo modelo da “mão invisível”: aos capitalistas e industriais, era requerido apenas que se conhecesse o mercado para conduzir a oferta em sua direção. Porém, problemas não previstos passaram a ocorrer: o mercado parecia dominado cada vez mais por monopólios e oligopólios. As margens de lucro não mais aumentavam e os preços pareciam não admitir elevação. O emprego se reduzia cada vez mais e mesmo isso parecia não elevar a rentabilidade dos negócios. Uma situação como essa não poderia culminar em outra coisa que não crise e foi exatamente isso que se observou ao final da secunda década daquele século que parecia tão promissor.

A demanda havia se reduzido de forma significativa e os produtos produzidos permaneciam estocados acima dos níveis normais. Mesmo com o desaquecimento da produção (com demissões em massa para reduzir custos), os lucros pareciam “dados” por força da ação do sistema monopolista. De acordo com Dobb (1987, p. 360), ainda havia outro fator a ser considerado:

À medida que o processo de produção se torna um todo unificado, em vez de uma coleção de unidades atomísticas, impõe-se pelo menos um tamanho mínimo, abaixo do qual uma fábrica não pode operar. E, à medida que os custos fixos ou gerais são aumentados, enquanto os custos diretos ou primários (ou variáveis) são simultaneamente rebaixados, a praticabilidade de variar a produção de uma dada fábrica (por exemplo, pela sua dotação com uma força de trabalho menor) fica ao mesmo tempo reduzida.

O otimismo que havia conduzido os negócios até então contrastava com a triste realidade da superprodução e do desemprego, sendo esse otimismo perceptível na febre de poerações na bolsa de valores: os lucros eram tão imensos que todos compravam ações. Do padeiro ao motorista de ônibus, todos compravam ações, embalados pelo sonho da prosperidade rápida e sem riscos, sequer imaginando que o fim estava muito mais próximo do que se imaginava. Mas, por qual motivo?

Desde muito, o governo americano incentivava o cidadão a participar do mercado acionário. Seria nesse tipo de mercado que agentes superavitários encontravam formas alternativas de valorizar suas riquezas, deixando-as à disposição dos empresários que investiriam mais e mais na produção de coisas úteis. Ao final do processo, o empresário vendia sua produção e repassava parte dos lucros aos agentes superavitários que acreditaram no “negócio”. No entanto, essa participação entusiasmada no mercado de ações acabou perdendo o contato com a realidade cruel da superprodução e do desemprego reais:

na ânsia capitalista de querer acumular mais e mais capital, algumas pessoas chegaram a hipotecar seus imóveis para arriscar os lucros extraordinários do mercado financeiro. Já se deve ter percebido a cilada: para que lucros maiores fossem repartidos entre mais pessoas, maiores deveriam ser os lucros das empresas; para aumentar os seus lucros, empresas deveriam diminuir custos e salários, produzir mais e vender mais. Como aumentar o consumo se os salários baixavam para aumentar a margem dos lucros? Como desaguar a produção se cada vez havia mais desempregados fora do mercado de consumo?

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA As empresas industriais desempregavam pessoas e aumentavam as quantidades de produtos

As empresas industriais desempregavam pessoas e aumentavam as quantidades de produtos produzidos. Não havia quem comprasse, não havia como gerar receitas. Dessa forma, não havia como devolver o capital anteriormente investido pela população no mercado de ações. Assim,

quando os escombros foram varridos, o estrago era assustador. Em dois insanos meses, o mercado perdera todo o terreno que ganhara em dois anos delirantes; US$ 40 bilhões em valores haviam simplesmente desaparecido. Houve também o fato de que o americano médio usara sua prosperidade de forma suicida; ele se hipotecara até o pescoço, esticara seus recursos de forma perigosa sob a tentação de compras a prestação e acabara por selar o próprio destino comprando avidamente fantásticas quantidades de ações — cerca de 300 milhões de quotas, é a estimativa — com dinheiro emprestado (HEILBRONER, 1996, p. 233).

Para piorar a situação, o monopólio, estrutura na qual operava a maior parte do mercado, tinha como característica a imposição de obstáculos à entrada de novas empresas. A queda de investimentos logo se faria sentir. Capacidade ociosa: esse seria o resultado da adoção desse conjunto de práticas, e a ociosidade seria não apenas de equipamentos e ativos imobilizados, mas especialmente da mão de obra, que se caracterizaria como exército industrial de reserva de dimensões alarmantemente ampliadas. Superprodução e desemprego seriam, dessa forma, as características mais evidentes da crise que se anunciava.

Os Estados Unidos, antes reconhecidos como país de sucesso e de oportunidades para todos, seriam agora identificados como geradores de crises. Os milhões de desempregados eram como obstruções nas veias pelas quais circulava a riqueza da nação e, embora sua evidente existência demonstrasse que algo estava errado no sistema, os economistas simplesmente não conseguiam entender, diagnosticar ou receitar: não havia, no referencial teórico à disposição, qualquer remédio conselhado para essa situação inédita. Desemprego — este tipo de desemprego — simplesmente não se encontrava na lista dos possíveis problemas do sistema; era absurdo, irracional e, portanto, impossível. Mas estava ali. (HEILBRONER, 1996, p. 234).

O mecanismo da crise está representado no quadro a seguir.

Subconsumo e superprodução Desemprego Quebra dos rendimentos Falências industriais e comerciais Diminuição
Subconsumo
e
superprodução
Desemprego
Quebra dos
rendimentos
Falências industriais e
comerciais
Diminuição
do crédito
industriais e comerciais Diminuição do crédito Baixa de preços Quebra dos lucros Quebra das ações

Baixa de preços

Quebra dos

lucros

do crédito Baixa de preços Quebra dos lucros Quebra das ações Falências bancárias Quadro 1 -
Quebra das ações
Quebra
das ações
Falências bancárias
Falências
bancárias

Quadro 1 - Mecanismo da crise de 1929

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Unidade I

Unidade I O que fazer com o mundo que parecia não encontrar o caminho para o

O que fazer com o mundo que parecia não encontrar o caminho para o equilíbrio tão prometido, previsto e preconizado pelo liberalismo vigente até então? Como fazer se a oferta não criava a sua própria demanda? Várias foram as estratégias que inspirariam os governantes dos mais diversos países do mundo, rompendo com determinados paradigmas do pensamento econômico e se configurando como uma verdadeira revolução.

O contexto gera a oportunidade de desenvolvimentos teóricos: a partir das catástrofes causadas pela grande depressão (consequência direta da crise de 1929), vamos perceber uma ruptura com a ciência clássica e com os principais pressupostos sobre a capacidade de os mercados, sem a interferência do governo, utilizarem de maneira eficiente os recursos disponíveis, ou seja, produzirem esses recursos com pleno emprego. As teorias econômicas, até então, sugeriam a existência de uma tendência automática ao pleno emprego de recursos, sem o desemprego de trabalhadores. Por conta da grande depressão dos anos 30, a evidência empírica mostrava agora pessoas buscando constantemente emprego sem alcançar sucesso.

Não se tratava apenas de um problema de superprodução associada ao desemprego: é importante notar que outros acontecimentos da economia americana da época, conjugados à euforia especulativa, acabariam por alimentar a crise. Um desses acontecimentos refere-se às dificuldades sofridas pelo setor agrícola. Vejamos com mais detalhes: este mercado funciona a partir de um modelo de concorrência perfeita e de tal forma que se, por exemplo, baixarmos significativamente o preço da alface, o seu consumo não aumentará na mesma magnitude. O mesmo fenômeno ocorre em função da renda: como a sociedade industrializava-se cada vez mais, era esperado que os salários dos trabalhadores da indústria fossem maiores em comparação aos dos trabalhadores agrícolas. Mais: como as sociedades estavam mais concentradas nos centros urbanos do que nos rurais, o consumo de produtos industrializados era maior do que o dos produtos agrícolas, gerando superprodução dos produtos agrícolas e diminuindo os lucros dos empresários desse setor.

Outro elemento complicador (e, portanto, estimulador da crise) diz respeito ao desenvolvimento do setor de serviços, que dava suporte e assistência às indústrias. Para que as empresas do setor de prestação de serviços pudessem operar, eram necessários trabalhadores que, de forma muito provável, deveriam ser “roubados” do setor da indústria. Como esses trabalhadores somente mudariam de emprego se a relação de salário fosse melhor, ou seja, se o setor de serviços pagasse salários maiores, percebia-se que os lucros nesse setor eram baixos se considerados os pagamentos de salários elevados, comparativamente aos salários industriais. Lucros baixos remetiam à baixa remuneração do investimento em ações na bolsa de valores. Tudo parecia conspirar para que a crise atingisse, portanto, diversos setores, disseminando-se e alastrando-se com rapidez.

Se a crise já tinha contornos bem visíveis, faltava agora a solução. Em 1933, Roosevelt assumiu a presidência dos Estados Unidos, herdando a pesada conta de 17 milhões de desempregados. Para tentar solucionar a crise, sua equipe elaborou um plano que passou a ser conhecido como New Deal (Novo Acordo) e que envolvia, basicamente, a atribuição ao Estado da responsabilidade de intervir na economia, vigiando o mercado e os empresários, corrigindo as distorções e monitorando as atividades

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA nas bolsas de valores. De forma resumida, o New Deal procurou consertar

nas bolsas de valores. De forma resumida, o New Deal procurou consertar o desequilíbrio na economia por meio de algumas estratégias:

• criação de um grandioso e ambicioso programa de obras públicas a serem executadas por órgãos públicos e empresas estatais: estradas, escolas, hospitais, aeroportos e toda uma infinidade de obras de infraestrutura;

• criação da Previdência Social e elaboração de leis sociais para a proteção dos trabalhadores e desempregados;

• criação do salário mínimo;

• diminuição da jornada de trabalho e manutenção dos salários;

• compra de estoques de cereais e sua posterior queima, para manter a remuneração dos setores da economia envolvidos com o setor primário;

• arbitragem dos conflitos entre empresários, forçando-os a concretizar acordos sobre os níveis de produção e preços;

• renegociação e perdão das dívidas dos pequenos proprietários;

• concessão de crédito aos fazendeiros.

A proposta do New Deal baseou-se numa combinação bastante simples: por um lado, procurou aumentar a capacidade de consumo da sociedade; por outro, evitou-se aumentar a capacidade de produção das empresas. A preocupação maior de Roosevelt era proporcionar à sociedade novos tempos de consumo e produção, e não aumentar a estocagem de produção vigente, já imensa; assim, procurou- se transferir renda para a sociedade, por meio da ação do governo.

Acompanhe o raciocínio: para que o governo possa construir uma escola, ou um hospital, por exemplo, precisa inicialmente de um espaço geográfico, um local físico. Terá, então, que adquirir uma fábrica fechada em função da crise anterior; ao comprar o imóvel, o governo está, portanto, repassando renda a uma família que pode voltar ao mercado de consumo. Agora, é necessário construir a escola ou o hospital: o governo terá que adquirir, no mercado de construção civil, todos os materiais necessários à construção; também terá que contratar pessoas que trabalharão nas obras. Cada um desses profissionais receberá um salário como forma de remuneração de sua atividade, podendo então voltar ao mercado de consumo de mercadorias. E, assim por diante.

Por outro lado, os empresários, incentivados também pelo governo com subsídios à produção, retomam o interesse na continuidade de seus negócios, percebendo agora que a sociedade também retorna ao mercado de consumo. Assim, empresas voltam a empregar outras pessoas e a produzir. O círculo do incentivo se fecha.

Esse exemplo, bastante simples, mostra o efeito da intervenção do governo no status quo da economia: aumento no nível de emprego da economia, da produção e da contratação de empregados, manutenção da atividade econômica e controle das tensões sociais. De tal monta é o resultado da

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Unidade I

Unidade I intervenção do Estado que a resposta à pergunta de qual a solução para o

intervenção do Estado que a resposta à pergunta de qual a solução para o capital parece ser uma só: a resposta é: o Estado. O Estado, finalmente, salva o capital. Chega ao fim a era da crença no equilíbrio natural e automático do mercado e esse será o contexto a partir do qual se desenrolará aquilo que chamamos de revolução keynesiana.

desenrolará aquilo que chamamos de revolução keynesiana. Lembrete há certa mudança no papel do Estado: de

Lembrete

há certa

mudança no papel do Estado: de instrumento utilizado pela classe dominante, ele passa a ser visto como importante regulador da atividade econômica.

Conforme avançamos em

nossa disciplina, percebemos que

A revolução keynesiana é assim denominada

traduzir

essa

nova situação dentro dos

obra

de Keynes,

parcela considerável

em função do economista britânico que se proporia

Maynard Keynes.

a

A

ele adjetiva

teoria clássica, as economias capitalistas

não eram capazes de promover automaticamente o pleno emprego. Assim, caberia ao governo direcionar

mostrar que, contrariamente aos resultados apontados pela

rigores do

pensamento

econômico: John

A teoria geral do emprego, do juro e da moeda,

dos economistas do

mainstream

13

 

foi tão

brilhante

que ainda hoje

.

No seu

trabalho,

Keynes

buscou

a economia rumo à utilização total dos recursos.

Keynes

concluiu

estático, porque ela

revitalizando assim a economia. Como parte da renda é gasta

no consumo de bens e serviços e outra

parte é poupada (em bancos ou por meio da aquisição de ações), é esperado que essa renda retorne ao

sistema, via concessão de empréstimos ou produtivas.

por meio de financiamentos para a expansão das atividades

de mercadorias,

posse da população. Atenção: renda, aqui, não é um conceito

Vejamos como ele desenvolveu sua

que sua

medida

é a

renda em

se transfere

análise: partindo do estudo da riqueza

no processo de

produção e

no

de uma

nação,

de mãos

consumo

Apresentado dessa forma, o modelo parece ser simples; no entanto, o problema surge porque essa comunicação entre poupança e investimento não é automática.

E aí está a possibilidade de depressão. Se nossas poupanças não forem investidas por empresas com negócios em expansão, nossas rendas vão declinar. Estaremos na mesma espiral de contração como estaríamos se tivéssemos congelado nossas poupanças guardando-as no colchão (HELBRONER, 1996, p. 248).

O fluxo circular da renda não funciona de forma automática e a economia fica paralisada, segundo

acabado com o

montante de poupanças. De fato, sequer havia renda para o consumo, quanto menos para poupança.

a economia

No contexto

Keynes. Ele ainda descobriria mais

uma coisa: a depressão e a crise da

a partir

de 1929,

bolsa haviam

da crise que

se desenvolvera

a situação era

mais grave:

encontrava-se

paralisada exatamente

quando precisava ser

mais dinâmica. Não

havendo excedente

de poupanças,

não

havia pressão

na taxa de juros suficiente

para encorajar

os negociantes

a

pedir

empréstimos. “Se não havia empréstimos e gastos com investimentos, não havia ímpeto de expansão.

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Assim, dava-se o paradoxo da pobreza em meio à fartura e à

Assim, dava-se o paradoxo da pobreza em meio à fartura e à anomalia de homens e máquinas sem ter o que fazer” (HELBRONER, 1996, p. 252).

(

)

Nessa situação de paralisia, Keynes recomendaria o que se tentara antes, e de forma bem-sucedida, com o New Deal americano: cabia ao governo tirar a economia do fundo do poço, investindo e criando empregos. Ao criar empregos, criava-se renda para o consumo e para a poupança. Criando demanda, criaria estímulos para que a oferta fizesse a produção retomar seu crescimento. Ao investir em obras públicas, mesmo que fosse apenas para cavar buracos que, posteriormente, fossem tapados, o governo atendia ao que era prioritário: a criação de empregos.

Em outras palavras,

os projetos de obras públicas atacariam o problema com uma faca de dois gumes: ajudando diretamente a manter o poder de compra das pessoas, que de outra forma permaneceriam desempregadas, e liderando o caminho para a retomada da expansão privada dos negócios (HELBRONER, 1996, p. 256).

A “mão visível” do Estado colocava ordem no mercado, ordem essa que outra mão invisível lograra não conseguir. Os resultados obtidos foram satisfatórios. Como pode ser visto no gráfico da figura a seguir, a economia americana voltou a crescer e nesse ritmo se manteria até a década de 70. Observe: a linha pontilhada corresponde ao crescimento americano e as barras verticais correspondem ao crescimento da economia brasileira.

Tendência secular do crescimento no Brasil e nos Estados Unidos (1900-2005)

secular do crescimento no Brasil e nos Estados Unidos (1900-2005) Figura 5 - Crescimento no Brasil

Figura 5 - Crescimento no Brasil e nos Estados Unidos

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Unidade I

Unidade I Faltava ordenar ainda alguns mecanismos, em especial em relação aos mecanismos de interdependência entre

Faltava ordenar ainda alguns mecanismos, em especial em relação aos mecanismos de interdependência entre as economias do mundo. Isso finalmente ocorreria em Bretton Woods: uma sequência de acordos iriam determinar algumas regras de relacionamento monetário entre os países.

Depois dos efeitos desastrosos da crise de 1929, e ainda sob a comoção da II Guerra Mundial, os países industrializados estabeleceriam regras para a paridade cambial, tornando as moedas indexadas ao dólar

e ancorando a ele (e apenas ele) a conversibilidade ao ouro. Bretton Woods também ensejaria a criação do Banco Internacional de Reconstrução de Desenvolvimento (Bird), constituinte do Banco Mundial,

e do Fundo Monetário Internacional (FMI). A intenção era estabelecer uma nova ordem econômica mundial e, conforme Manzalli e Gomes (2006, p. 89-90),

o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional são dois importantes organismos criados para promover a coordenação de políticas entre países, notadamente na área financeira, mas muitas vezes tal coordenação ocorre em detrimento de interesses de sociedades. Com o avanço do comércio de longa distância na Europa, surge certa tendência de que as coordenações financeiras, predominantemente administradas por famílias dos comerciantes locais, passem a desempenhar um papel primordial na definição dos interesses políticos e econômicos de diversos grupos no continente. Com o tempo, o desenvolvimento do comércio privado de moedas e instrumentos financeiros.

Para Sandroni (1996), o objetivo da criação do FMI em 1944 era o de estabelecer mecanismos para estímulo da cooperação monetária entre todos os países do mundo. A iniciativa tinha como escopo a necessidade de equilibrar paridades monetárias justas entre diferentes moedas, evitando as desvalorizações concorrenciais e formando um grande fundo com recursos dos países membros. A manutenção do equilíbrio mundial das economias poderia exigir a utilização desses recursos em favor de países que encontrassem dificuldades nos pagamentos internacionais, principalmente aqueles que apresentavam recorrentes déficits em sua conta de transações correntes.

Uma das principais funções do Fundo era regular as paridades das moedas. Tinha o objetivo essencial de presidir um regime internacional de câmbio praticamente fixo, promovendo a cooperação monetária internacional mediante uma instituição permanente que servisse de mecanismo para consulta e colaboração sobre problemas monetários. Em seu instrumento constitutivo estabeleceu-se, ainda, que recursos financeiros do Fundo seriam oferecidos temporariamente aos países membros para proporcionar- lhes oportunidades de corrigir desequilíbrios no seu balanço de pagamentos, sem recorrer a desvalorizações cambiais, consideradas destrutivas da prosperidade internacional (MANZALLI e GOMES, 2006, p. 96).

A criação do Banco Mundial correspondia ao atendimento de outras necessidades: a instituição financeira internacional ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), e também criada em 1944, tinha como propósito financiar projetos de recuperação e de promoção de desenvolvimento econômico dos países atingidos pela guerra (SANDRONI, 1996). Na prática, o banco passou a lidar de modo crescente com o tema do desenvolvimento econômico e a atuar, sobretudo, junto aos países subdesenvolvidos

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA (BAUMANN, 2004). Formalmente, sua estratégia consistia na canalização de capital para

(BAUMANN, 2004). Formalmente, sua estratégia consistia na canalização de capital para investimentos que elevassem a produtividade das empresas, o padrão de vida das pessoas e as condições de trabalho nos países membros. Em outras palavras, a preocupação primordial do Banco Mundial estaria ligada à melhoria das condições de vida da população, quer dizer, às questões de cunho qualitativo (ficando as questões de cunho quantitativo-financeiro a cargo do FMI).

Se o objetivo básico do Banco Mundial era o de auxiliar na reconstrução e no desenvolvimento de territórios dos países membros atingidos pela destruição da guerra, ele agiria no sentido de desenvolver uma série de atividades dedicadas a:

• prover capital para fins produtivos;

• promover o investimento externo privado;

• complementar o investimento privado mediante o fornecimento de capital para fins produtivos;

• promover o crescimento equilibrado de longo prazo do comércio internacional;

• manter o equilíbrio nos balanços de pagamento mediante o incentivo internacional a investimentos para o desenvolvimento de recursos produtivos.

Os resultados das políticas keynesianas logo se fariam sentir e a economia americana viveria o seu período de maior riqueza e crescimento.

Nós, keynesianos antes de Keynes

No Brasil, também se adotaria estratégia parecida à do New Deal: ao tempo de Getúlio Vargas, a produção de café seria comprada pelo governo apenas para remunerar os fatores de produção empregados. Depois, esse café seria queimado, em vez de ser colocado no mercado, abaixando ainda mais o preço do produto. Comprava-se café não para revendê-lo, mas apenas para manter a remuneração de setores importantes da economia.

Cavando buracos

Em sua obra Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, Keynes explicaria a necessidade de investir na criação de empregos como medida para manter a demanda agregada e evitar a queda da produção. Se fosse necessário, que se cavassem buracos e os cobrissem novamente. Ou, nas palavras dele: “Cavar buracos no chão, à custa da poupança, não só aumentará o emprego como também a renda nacional em bens e serviços úteis” (KEYNES, 1996, p. 216).

Para refletir

Veja o texto abaixo e reflita, conforme o proposto.

Situação – Numa entrevista concedida nos anos 1970, Golbery do Couto e Silva, então Ministro Chefe da Casa Civil, afirmou que a maior ou menor intervenção do Estado na economia assemelhava-se

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Unidade I

Unidade I aos movimentos cardíacos de sístole e diástole, o que os tornava, portanto, inexoráveis com

aos movimentos cardíacos de sístole e diástole, o que os tornava, portanto, inexoráveis com o passar do tempo 14 .

Proposta – Em que situações você acha ser importante a intervenção do Estado na economia?

Observe o trecho da entrevista de Fernando Ferrari Filho, professor titular do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pesquisador do CNPq, sobre a situação proposta:

Keynes nunca deixou de viver, no aspecto figurativo. Entre os anos 1950

e 1970, o mundo passou por um período de prosperidade jamais visto,

conciliando crescimento econômico e estabilização de preços. E, queiramos ou não, essa prosperidade se alicerçou em concepções de caráter keynesiano,

ou seja, políticas monetárias e fiscais extremamente expansionistas, controle de capitais e estabilidade das taxas de câmbio. Foram as regras do sistema

criado em Bretton Woods, na década de 1940. [

ninguém mais moderno que o Keynes para explicar as dificuldades atuais

e para nos fazer entender que essas crises financeiras do capitalismo não

são anômalas. Elas tendem a se repetir por períodos. Os economistas que são céticos a Keynes, o são porque nunca o leram. Segundo ponto: é aquilo que você falou. As pessoas se apoiam no Keynes, se reportam às ideias dele, como agora, defendendo políticas fiscalistas, políticas de injeção de liquidez, como se fosse para solucionar um problema de curto prazo. Ou seja, hoje existe uma “aceitabilidade” de Keynes, para remediar os problemas. Pegando a sua expressão, na visão dessas pessoas, Keynes é só para o tempo em que durar a chuva. Por quê? Porque entendem que os mercados tendem a seguir uma lógica definida. Entendem que políticas fiscais e políticas monetárias de cunho essencialmente keynesiano devem ser utilizadas em épocas de crise, de depressão, mas não devem ser utilizadas em épocas de prosperidade. Acreditam que o mercado funciona na lógica da normalidade e só veem relevância no Estado keynesiano dentro de uma lógica de depressão. Essa é, infelizmente, a percepção. 15

Eu diria que não há

]

Proposta – O que podemos concluir a respeito da atualidade das ideias keynesianas?

Se a Revolução Keynesiana mudara a perspectiva econômica em relação à intervenção do Estado na economia, os anos seguintes tratariam de ratificar suas ideias e seus paradigmas. Um mundo novo desenvolvia-se e o progresso, novamente, era visível. Fábricas funcionando a pleno vapor, países em pleno desenvolvimento e a economia americana ia de vento em popa. Tudo contribuía para a construção do que ficou conhecido como o período dos anos dourados do capitalismo.

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Nesse mundo do pós-guerra, os avanços da ciência surgiam sob a forma

Nesse mundo do pós-guerra, os avanços da ciência surgiam sob a forma de técnicas e tecnologias que não necessitam ser compreendidos pelos usuários finais (HOBSBAWM, 1995). A física quântica, desenvolvida por Einstein no começo do século, era agora visível nos produtos do cotidiano e, para utilizá-los, não era sequer necessário entender qualquer teoria. Se na Terra, por inspiração da Guerra Fria, americanos e soviéticos disputavam um lugar ao sol, a corrida espacial sugeria a imortalidade e infinitude do espaço.

A segunda metade do século XX também alojaria o debate e a especulação sobre o processo de conhecimento científico. Das teorias sobre falseabilidade de Popper à investigação das revoluções científicas e quebras de paradigma de Kuhn, os cientistas se questionariam: o conhecimento leva à certeza ou apenas nos aproximamos, probabilisticamente, da verdade? É possível algum conhecimento certo e seguro sobre o mundo que nos cerca? O conhecimento científico realmente avança? É a história da ciência uma linha de sucessivos aprimoramentos ou estamos sempre rompendo com o pensamento do passado? Como lidar com esse saber que, ao mesmo tempo em que se produz em circunstâncias e processos ainda desconhecidos, pode ser o responsável pelo fim da humanidade? Aos poucos, formava- se uma nova mentalidade que tinha como principal tarefa a compreensão dos impactos sociais dos desenvolvimentos científicos e que se construía em um mundo destinado ao progresso e, ao mesmo tempo, à destruição.

Para os Estados Unidos, aqueles seriam esplêndidos anos: os anos posteriores ao final da II Guerra haviam sido nada mais do que a continuidade do estupendo desempenho que beneficiou o país nos anos de conflito armado, embora tenha sido notável o fato de que as taxas de crescimento fossem lentas, comparativamente às de outras nações. Nas economias dos países desenvolvidos, o pleno emprego era uma realidade, finalmente atingida nos anos 1960: a perspectiva era de crescimento e prosperidade contínua, não havendo por que duvidar que o desenvolvimento dessa década não se reproduzisse na década posterior (HOBSBAWM, 1995).

Até as nações do bloco não capitalista cresciam e a fome e miséria ainda não se faziam visíveis, apesar dos sinais de explosão populacional e de exclusão dos povos do Terceiro Mundo na repartição do bolo dourado do capitalismo. Na década de 60, a produção de manufaturas produzidas no mundo já havia se quadruplicado e o comércio mundial dos produtos da industrialização havia se multiplicado por dez (HOBSBAWM, 1995).

Os Estados Unidos alavancavam o crescimento de outras nações, particularmente dos perdedores da II Guerra – (Alemanha Ocidental e Japão) e as guerras (Coreia e Vietnã, por exemplo) objetivavam saciar as necessidades expansionistas e de mercado das grandes corporações transnacionais. Mesmo os organismos internacionais criados ao final da década de 40 (Fundo Monetário Internacional – FMI e Banco Mundial) estavam a serviço das políticas hegemônicas norte-americanas, até porque justificadas pelo êxito econômico de tais políticas.

Não havia porque temer nada, nem mesmo em relação ao esgotamento dos recursos ambientais:

apenas anos depois, o primeiro choque do petróleo impulsionaria a institucionalização das preocupações ambientais e seu subsequente alastramento pelo mundo nos anos 80 e 90.

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Unidade I

Unidade I Como em outros momentos da história, o progresso tornava-se visível por meio das inovações

Como em outros momentos da história, o progresso tornava-se visível por meio das inovações tecnológicas decorrentes dos desenvolvimentos científicos. O uso da terra e de seus recursos nada mais era do que resultado do direito legítimo de o ser humano habitar o mundo e dele retirar o necessário, ou o mais que necessário. Os números relativos à posse de automóveis, telefones e outros bens industrializados (grande parte deles com base na tecnologia desenvolvida durante os anos de guerra) evidenciavam o crescimento econômico e a disseminação do bem-estar para todos aqueles que houvessem adotado (por bem ou por mal) o modelo capitalista. O crescimento desmesurado ocultava outra realidade: parcelas cada vez maiores da população estariam desempregadas em breve, especialmente em função do uso intensivo da tecnologia. Nesse contexto, portanto, não havia por que duvidar de que o sistema de mercado não fosse a razão de ser da própria economia e, a partir desse ponto de vista, tudo aquilo que teria sido obstáculo ao surgimento da economia de mercado também seria responsável pelos obstáculos ao desenvolvimento da economia como ciência.

A crise surgiria em meados da década de 70, com o esgotamento das políticas que combinavam liberalismo econômico e bem-estar social (que, na Europa, significou a eleição de vários governos social- democratas), e com o esquecimento das lições do período entre guerras e da depressão. A ação da OPEP (Organização dos Países Produtores de Petróleo) no sentido de elevar significativamente o preço do petróleo também faria sua parte, aumentando o endividamento dos países dependentes de sua importância e acelerando o processo inflacionário no mundo todo.

O frágil equilíbrio entre o crescimento da produção e a capacidade de consumir a riqueza (obtido,

a duras penas, pela adoção do receituário keynesiano) iria cair por terra (HOBSBAWM, 1995). A aliança

entre o livre mercado e os mecanismos de controle do Estado (desde que não socialista ou comunista)

havia sustentado os anos dourados do capitalismo no século XX e as teorias econômicas keynesianas

agora já não conseguiriam mais salvar as economias à beira de processos inflacionários, de desemprego

e de queda de produção.

O problema agora não era apenas o da garantia do pleno emprego, mas o da estabilidade monetária.

Afinal, embora a história já houvesse contabilizado outros momentos de inflação, eles eram apenas passageiros, diferentes daqueles que penalizavam todas as economias do mundo, independentemente do grau de desenvolvimento. Agora, a inflação era sinônimo de crise. Uma crise monetária de excesso de

moeda em circulação. Crise pois, apesar da expectativa em contrário que apostava na sua transitoriedade,

a inflação dos anos 70 configurava-se, naquele instante, como um problema crônico, tão sério quanto

a depressão de outrora.

O que se seguiu é do conhecimento de todos: ativos monetários sofrendo erosão, falências, tentativas

de conter o processo via tributação ou via recessão, adoção de estratégias ortodoxas e heterodoxas. Tudo se tentou para secar a água que transbordava sem parar dos diques financeiros e a corrente monetarista (uma vertente do pensamento econômico daquele instante) encarregou-se de estruturar os diagnósticos e estratégias que buscariam resolver o problema da inflação.

Pode não parecer evidente, mas aquilo que o capital acabou por utilizar na resolução dos seus problemas foi resultado do próprio processo histórico. Acompanhe o nosso raciocínio: durante o século XVI, período da revolução comercial e da consolidação do pensamento mercantilista, as teorias

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA explicativas das relações comerciais prescreviam que cada nação deveria exportar o

explicativas das relações comerciais prescreviam que cada nação deveria exportar o máximo e importar

o

mínimo para que assim fosse possível um saldo positivo em sua balança comercial. Nesses termos,

o

comércio com o exterior era visto como fonte de riqueza dos países. Conforme Dowbor (1990) e

Singer (1989), esse comércio trazia dois efeitos sobre a estrutura sócio-político-econômica da Europa. O primeiro era o fluxo de metais preciosos para a Europa, e não coincidentemente a quantidade de ouro chegou a dobrar em meados do século XVI. Como a produção de bens pouco se alterava, havia elevação de preços e redução dos rendimentos dos senhores feudais pois,

nesta época, os senhores feudais recebiam as contribuições anuais dos servos ainda em trabalho e em produtos, mas a forma dominante já era

de simples pagamento, em moeda, de uma taxa fixa por pessoa. Ao dobrar

a quantidade de ouro, enquanto a produção de bens permanecia pouco

alterada, os preços duplicaram [

reduzindo pela metade os rendimentos

dos senhores feudais (DOWBOR, 1990, pp. 26-27).

],

O outro efeito está relacionado ao reforço da produção, vez que

a rápida acumulação de capital nas mãos dos comerciantes e a abertura

dos mercados internos criam uma situação em que há ao mesmo tempo

a procura pela produção e a procura pelos meios para desenvolver esta produção (DOWBOR, 1990, pp. 26-27).

Dessa forma, percebemos que o comércio internacional, por meio da abertura dos portos, era tido como mecanismo para obtenção de metal precioso; mais: cada país só obteria vantagens à custa dos demais. Posteriormente, outra visão substituiria essa (mercantilista): a capacidade de produzir seria a variável explicativa da riqueza.

No século XVIII, a Inglaterra tinha um mercado interno comparativamente muito desenvolvido

e, nesse mercado, procurava-se produzir cada vez mais, a preços mais baixos, obtendo assim lucros crescentes. Além disso, a demanda externa por produtos ingleses industrializados serviria de estímulo

à produção na Inglaterra, ensejando inclusive a explosão de inovações tecnológicas então ocorridas

(HUNT, 2005). Assim, a revolução industrial cumpriria seu papel na disseminação do uso da tecnologia, especialmente em relação à produção de ferramentas e provocando, nesse processo, a especialização

e a modernização da produção manufatureira. O desenrolar desses acontecimentos, é claro, acabaria

por promover, nos países desenvolvidos, o processo de enriquecimento cumulativo, com a conquista de novos mercados nas mais diversas partes do mundo (DOWBOR, 1990).

Em 1776, com A riqueza da nações de Adam Smith e, em 1817, com Princípios de economia política

e tributação de David Ricardo, ocorre uma transformação no pensamento econômico. Em verdade, a musculatura do corpus científico da Economia começa a se estruturar, resultando nas formulações teóricas clássicas do liberalismo. Essas formulações preconizavam que os capitalistas deveriam se opor à intervenção do Estado central na economia, dado o declínio de políticas mercantilistas que dependiam de forte regulamentação do Estado: o sistema econômico livre do Estado se apoiava na crença de que cada capitalista e trabalhador deveria buscar o seu próprio interesse no mercado. Esse é o sistema que

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Unidade I

Unidade I identificamos com o laisse-faire, laissez-passer , que Dowbor (1990) entende como a recomendação da

identificamos com o laisse-faire, laissez-passer, que Dowbor (1990) entende como a recomendação da irrestrita abertura dos portos e mercados – entre as nações – fato que, na época, favorecia o poder industrial inglês. Dentro desse contexto, a abertura dos portos, ou dos mercados, era fundamental pois, como enfatiza Smith (1996, p. 77),

quando o mercado é muito reduzido, ninguém pode sentir-se estimulado a dedicar-se inteiramente a uma ocupação porque não pode permutar toda

a parcela excedente de sua produção que ultrapassa seu consumo pessoal

pela parcela de produção do trabalho alheio, da qual tem necessidade.

Ainda para Smith (1996, p. 420),

com plena segurança, achamos que a liberdade do comércio, sem que

seja necessária nenhuma atenção especial por parte do governo, sempre nos garantirá o vinho de que temos necessidade; com a mesma segurança

podemos estar certos de que o livre comércio sempre nos assegurará o ouro

e a prata que tivermos condições de comprar ou empregar, seja para fazer circular as nossas mercadorias, seja para outras finalidades.

] [

O que podemos concluir disso? Podemos perceber que, aos olhos daquele contexto, o comércio externo beneficiaria todos os países participantes já que, em primeiro lugar, permitiria o escoamento da produção excedente de manufaturados caso não existisse demanda interna; em segundo lugar, valorizaria, externamente, mercadorias que talvez não mais correspondessem às preferências do mercado interno, e em terceiro lugar, resultaria na elevação da produção, “aumentando assim a renda e a riqueza reais da sociedade” (SMITH, 1996, p. 430).

Conforme Manzalli (2000), já na segunda metade do século XIX, a economia dos países então desenvolvidos alcançava a maturidade e, nos tempos e nos padrões de um capitalismo industrial ainda caracterizado por mercados dominados por empresas de porte relativamente pequeno, associava- se também a um grau elevado de evolução tecnológica. As transformações ocorridas nos setores de siderurgia, metalurgia, mecânica e ferrovias e o crescimento da capacidade produtiva industrial levariam à necessidade, cada vez maior, de novos mercados que dessem conta de adquirir a produção extraordinária gerada pelo setor; precisava-se também, e com urgência, de novos mercados fornecedores de matérias- primas. Esse é o período que corresponde, portanto, ao avanço do capitalismo em direção aos países em desenvolvimento, que comprarão das nações industrializadas aquilo que lhes falta: estradas de ferro, navios, tecidos, artigos de luxo e de consumo popular. Em troca, as nações periféricas enviarão ao Velho Mundo e aos Estados Unidos as matérias-primas tão necessárias.

Vamos resumir, de forma simplificada, como a teoria das vantagens absolutas, de Smith, e a teoria das vantagens comparativas, de David Ricardo, explicam esse processo de interdependência das economias:

cada país se especializa na produção de mercadorias com maiores vantagens naturais ou adquiridas na produção. Também podemos fazer uso das ideias mercantilistas, que pregavam que o comércio exterior serviria para a obtenção de mais metais preciosos. Fazendo uso das teorias neoclássicas do comércio internacional, bem como com das teorias marxistas, podemos notar que a tendência à internacionalização

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA da economia, longe de ser algo inédito ao final do século XX,

da economia, longe de ser algo inédito ao final do século XX, foi construída ao longo do tempo à medida que as economias se especializavam em determinados produtos e trocavam estes produtos entre si, atingindo um nível mais elevado de produtividade, consumo e acumulação de capital, ainda que com distribuição não homogênea entre os países envolvidos no processo (MANZALLI, 2000). Ou melhor, ainda que nesse processo houvesse países que lucrassem mais do que os outros. Dessa forma,

o conceito de internacionalização associa-se à possibilidade de comércio entre países e, facilitado pelo desenvolvimento dos meios de transporte, acabou por resultar na interdependência de uma economia às outras, com relação a mercados.

Por que estamos tratando disso? Porque vivemos na era da globalização, cuja principal característica

é a intensificação das relações comerciais entre os países, como se pode ver no gráfico da figura a seguir.

Crescimento do Volume da Produção e Exportação Mundiais de Bens (1950-2004)1950 = 100

(1950-2004)1950 = 100

Mundiais de Bens (1950-2004)1950 = 100 (1950-2004)1950 = 100 Fonte: OMC (2005b). Figura 6 - Intensificação

Fonte: OMC (2005b).

Figura 6 - Intensificação do comércio internacional 16

Podemos perceber, pelas informações anteriores, que o comércio internacional aumentou mais do que aumentou a produção mundial de bens. Assim, considerando aquele aumento resultante do próprio crescimento econômico mundial, o comércio internacional apresentou taxas de aumento superiores. Em outras palavras: a economia mundial cresceu, mas o comércio internacional cresceu mais. Esse fato, aliado a outros (tais como a predominância do capital especulativo em detrimento do capital produtivo, as estratégias de alocar etapas do processo produtivo em diferentes países e as iniciativas de abertura das economias locais ao mercado internacional, por exemplo, caracteriza um fenômeno que ficou conhecido como globalização.

De acordo com Chesnais (1996) e Mattei (1997), o termo globalização nasce no início dos anos 80 nas escolas americanas de administração de empresas, representando a nova ordem mundial

Unidade I

Unidade I única caracterizada por um processo de interdependência e interação entre países e povos no

única caracterizada por um processo de interdependência e interação entre países e povos no que diz respeito às relações produtivas, comerciais, financeiras, tecnológicas e culturais. Esse seria um fenômeno que interligaria o mundo todo a partir dos meios de comunicação e a partir dos desenvolvimentos tecnológicos da informática.

Saiba mais O filme Wall Street, poder e cobiça (Direção: Oliver Stone, 126 minutos, 1987)

Saiba mais

O filme Wall Street, poder e cobiça (Direção: Oliver Stone, 126 minutos, 1987) é icônico: nele são retratadas as atitudes e os novos valores morais do período da globalização. Vale a pena assistir e entrar em contato com a cultura do tatcherismo e do reaganismo daquele momento.

Segundo Manzalli (2000), esse processo de internacionalização está associado à capacidade de os países estabelecerem relações comerciais entre si, relações essas envolvendo a produção, as informações e o setor financeiro. Essa intrincada rede de relacionamentos estaria, também, vinculada ao desenvolvimento do capitalismo e da concorrência: afinal, era fundamental a manutenção de boas relações internacionais.

Já o processo de globalização, para o mesmo autor, pode ser visto como um aprofundamento do antigo processo de internacionalização ao qual já nos referimos: a diferença se explicaria em função de um maior padrão tecnológico e concorrencial, bem como da expansão dos meios de comunicação e de transportes: assim, o processo de globalização resultaria numa maior intensidade na interdependência entre economias.

É importante salientar também que a era da globalização na qual vivemos é aquela que pressupõe um Estado bem diferente daquele representado pelos tempos do welfare state. Em verdade, temos agora um retorno às práticas liberais de períodos anteriores. Inspirado no liberalismo dos séculos XVIII e XIX, o neoliberalismo de agora reafirma valores que “defendem a menor intromissão do Estado na dinâmica de mercado, devendo o poder público se voltar para um conjunto limitado de tarefas, tais como a defesa nacional, a regulação jurídica da propriedade e a execução de algumas políticas sociais” (BARBOSA, 2006, p. 88). Opondo-se ao Estado do bem-estar, o que se valoriza é o Estado mínimo: mínima intervenção, mínimas barreiras ao livre-comércio, impostos mínimos, benefícios sociais mínimos. A receita parece ser bem simples: sobreviverá quem souber melhor aproveitar as oportunidades do mercado. Sobreviverá mais rapidamente quem encontrar vantagens competitivas. Sobreviverá quem for mais capaz. É claro que esse ideário não leva em considerações as oportunidades históricas de equidade e igualdade social.

Tal mudança no comportamento do Estado, de interventor para neoliberal, ocorre em função do período de crise vivenciado pelas economias capitalistas dos anos 80, da década perdida e do período de elevação do endividamento público. Também concorre para essa mudança o processo de inflação galopante, sobre a qual já falamos e sobre cujo arcabouço teórico será tratado na Unidade II.

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA A década de 90 será, portanto, a dos ajustes: fiscal, monetário e

A década de 90 será, portanto, a dos ajustes: fiscal, monetário e administrativo. Todos eles se comprometem a equacionar os problemas anteriores, causados pela excessiva participação do Estado na economia. Como condição, portanto, requerem que o Estado não mais produza mercadorias: esse será o tempo das privatizações. O Estado também não será mais o grande pai responsável por todos: esse será

o tempo em que o aparelho estatal ficará encarregado de apenas regular o sistema econômico. Não à

toa, o neoliberalismo empresta do liberalismo anterior a marca da liberdade aos agentes econômicos e

sua primazia nas decisões relacionadas à produção e comercialização.

O Consenso de Washington será o documento norteador dessa nova era. Fruto de decisões de

economistas que se reuniram em Washington em 1989, ele institucionalizará o discurso de um novo tempo. Esse será um tempo em que as economias agirão no sentido de eliminar barreiras comerciais

e subsídios do governo a determinados setores, buscando um ambiente concorrencial mais “justo e

honesto”. Buscar-se-á a privatização das empresas estatais e a “flexibilização” das leis trabalhistas: tudo deverá contribuir para um ambiente sem restrições às ações dos agentes econômicos, livres enfim de

quaisquer entraves e da coerção do Estado. O welfare state cede espaço à hegemonia da economia de mercado. É evidente que tal discurso não obtém unanimidade. Para alguns, não se trata de uma nova forma de gerenciar o funcionamento da economia, mas somente de um retrocesso em relação às conquistas do passado. Afinal, as evidências mostram que, no seu rastro, a globalização deixa as marcas da fome, da guerra, das ditaduras e do desrespeito aos direitos sociais.

A falta de unanimidade ocorre em relação ao próprio conceito do processo. Segundo Ianni (1997)

Na época da globalização, o mundo começou a ser taquigrafado como “aldeia global”, “fábricaglobal”, “terrapátria”, “naveespacial”, “novababel”, entreoutras expressões que ele chama de “metáforas da globalização”, que correspondem às conquistas e dilemas da modernidade e expressam inquietações sobre o presente e ilusões sobre o futuro (IANNI, 1997, pp. 15-16).

Por seu turno, Baumann (1996) afirma que a dificuldade em conceituar o que realmente designa

o processo de globalização está na variedade de significados que se têm atribuído às transformações

a ele relacionadas, em especial por que o fenômeno impacta diversas áreas da economia. Ainda, sendo

um processo difuso no próprio desenrolar da história, adicionar-se-ia a dificuldade da datação no tempo. Para o autor, há indícios de uma gênese apontando para os acontecimentos e as condições favoráveis ao crescimento do comércio internacional pós-II Guerra Mundial. A partir daí, a economia mundial teria passado por transformações desde o pós-guerra: na esfera técnico-produtiva, dado o avanço tecnológico; na esfera financeira, dado o movimento de “financeirização da riqueza”, ou, como chama Chesnais (1996), dada a “indústria das finanças”; na esfera comercial, cujo fluxo do comércio mundial é altamente crescente; e, na esfera organizacional das empresas, provocando uma mudança de paradigma produtivo nas economias capitalistas. Todas essas mudanças seriam responsáveis pelo constructo daquilo que denominamos globalização. Justamente em função dessa dificuldade, para Baumann (1996), o fundamental é o conhecimento dos aspectos estritamente econômicos do processo de globalização, em especial quanto à identificação dos fluxos de investimentos externos diretos entre empresas transnacionais e suas subsidiárias: esse seria o principal eixo explicativo do fenômeno e nele deveria estar focada a análise do processo.

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Unidade I

Unidade I Conforme Manzalli (2000), todas as transformações que acabaram por desaguar na globalização, na sua

Conforme Manzalli (2000), todas as transformações que acabaram por desaguar na globalização, na sua maioria decorrentes de um ajuste macroeconômico e industrial que foi efetuado por países centrais – leia-se Estados Unidos, Japão e Alemanha – logo após a II Guerra Mundial, teriam surgido como resposta à crise financeira internacional derivada do primeiro choque do petróleo em 1973. Essa crise refere-se à ação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) quando do aumento súbito dos preços do petróleo e que teria resultado na decadência de diversas economias capitalistas, em função dos elevados endividamentos gerados pela subida dos preços desse fator de produção. Com a subida dos preços do barril do petróleo, vários países passariam por crises recorrentes em balanço de pagamentos devido à maior quantidade de dólares que eram requeridos para pagamento de importações de petróleo, insumo de produção utilizado de forma intensa por empresas.

De qualquer forma, e independentemente da controvérsia, grande parte da comunidade econômica percebeu, no processo de globalização, os arautos do fim da história, não havendo mais nada novo a acontecer. Mas, se o fim da história é o aqui e agora, se a Guerra Fria teve fim, se o receituário de Washington é tão bom, como é possível que um modelo como o globalizador possa encontrar dificuldades na sua propagação pela aldeia global? Talvez porque, mesmo em tempos de paz (se é que se pode chamar de pacífico o século em que vivemos), “a construção de uma economia de mercado e instituições democráticas não é tarefa fácil” (BARBOSA, 2006, p. 84). Corrupção, desmandos e eleições fraudulentas parecem conspirar contra os valores democráticos. Alguns adversários dos valores neoliberais, se não conspiram, ao menos torcem para que o projeto globalizador dê com os burros n’água. Ao chamá-lo de neoliberalismo, parecem querer que ele tenha o mesmo fim que seu antecessor, o liberalismo. Mas, afinal, o que é neoliberalismo?

O termo surge na escola austríaca do pensamento econômico com a figura de Friedrich August von Hayek e seu O caminho da servidão, mas, como prática, somente aparece períodos mais tarde. Essa escola de pensamento pregará, inicialmente, uma reduzida participação do Estado na condução da economia e, em contrapartidade, uma total liberdade às leis de mercado como aquelas que levariam as economias capitalistas ao equilíbrio.

Assim, a certeza de que problemas recorrentes como subdesenvolvimento, inflação e endividamento público seriam consequências da ineficiência da gestão governamental daria impulso a políticas de privatização e de transferência ao capital privado de empresas estatais, até então por uns consideradas não rentáveis e, por outros, verdadeiros “elefantes”.

Também seriam praticadas políticas fiscais contracionistas, com a elevação de tributação e a diminuição de despesas e investimentos, e políticas monetárias também restritivas (caracterizadas pela elevação das taxas de juros com o interesse de diminuir investimentos produtivos e de aumentar a expansão do crédito favorável ao capital especulativo). Estratégias fiscais e cambiais também são adotadas na mesma direção: favorecem-se as importações de mercadorias com o objetivo de obrigar o empresariado nacional à baixa dos preços de venda de sua produção. Outro objetivo dessas políticas será o de aumentar a saída de dinheiro do país, por meio do pagamento de importações, fazendo diminuir a renda interna e, consequentemente, a circulação de moeda nas economias nacionais.

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA Você deve estar se perguntando a essa altura: afinal, a globalização significa

Você deve estar se perguntando a essa altura: afinal, a globalização significa um retrocesso ou um progresso em termos dos desenvolvimentos do pensamento econômico? Vejamos: como resultado das políticas neoliberais, observa-se avanço em relação à estabilidade de preços; por outro, os avanços são bastante tímidos quando pensada a questão social. Afinal, no neoliberalismo globalizador, a sociedade ocupa um segundo plano, dando a primazia ao equilíbrio financeiro.

Talvez em função disso, muito da fala neoliberal não encontrou apoio em diversos países: muito do receituário neoliberal se perdeu no caminho em função da recusa do paciente ao qual se pretendeu administrá-lo. Dessa forma, contrariamente ao que se imaginava que iria acontecer, os Estados nacionais continuam firmes e fortes. Contrariamente ao que se desejava, o Estado ainda é chamado para apagar o incêndio das crises do capital, em todos os continentes e independentemente do grau de desenvolvimento da nação em que ocorrem. Em outras palavras, apesar do discurso defensor da mão invisível do mercado, o Estado vem sendo convocado para

impedir que o processo de globalização instaure uma sociedade segmentada

entre incluídos e excluídos. Para isso, os Estados nacionais [

em ciência e tecnologia, qualificação profissional, [

seus sistemas produtivos, aumentando a competitividade do país, além de erradicar os bolsões de miséria (BARBOSA, 2006, p. 92).

[e estimulam] os

[investem]

]

]

Os organismos internacionais e multilaterais também cumprem o seu papel, ao mesmo tempo disseminando e controlando o fenômeno globalizador. Apesar de a intervenção econômica acontecer por meio do FMI e do Banco Mundial, outros organismos também buscam formas alternativas de ajuda aos países em desenvolvimento ou em dificuldades: fóruns, organizações não governamentais, diversas agências da ONU e até mesmo bancos e instituições privadas, todos eles procuram minimizar o ônus da globalização naqueles países em que o processo não converteu- se em resultados favoráveis (ou melhor, tão favoráveis quanto os imaginados). A OMC, herdeira dos primeiros acordos do GATT (sigla em inglês para Acordo Geral de Tarifas e Comércio), também tem funcionado como tribunal das disputas comerciais entre países. Afinal, “se não forem criadas novas leis e mecanismos que permitam maior autonomia e maior participação no crescimento do comércio para os países subdesenvolvidos, cedo ou tarde estes países” (BARBOSA, 2006, p. 97) poderão optar por outros modelos de desenvolvimento.

O discurso neoliberal também encontra dificuldades para responder adequadamente ao problema da fome e da miséria que assolam o mundo. Segundo Judensnaider, informações da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) revelam que

são aproximadamente 920 milhões de famintos no mundo e, deste total, aproximadamente trinta por cento são crianças. Na Cúpula do Milênio, a meta estabelecida era de reduzir a fome pela metade até o ano de 2015. Dentre as recomendações da Força-Tarefa Contra a Fome, preconizou-se o planejamento e execução de políticas integradas para agricultura, nutrição e desenvolvimento rural, acesso à terra, intensificação de pesquisas, apoio à pequena propriedade e à agricultura de subsistência, programas de assistência

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Unidade I

Unidade I e proteção com foco nas grávidas, lactantes, bebês e crianças, restauração e conservação dos

e proteção com foco nas grávidas, lactantes, bebês e crianças, restauração e conservação dos recursos naturais essenciais para a segurança alimentar. Ao final de 2008, já se considerava a meta impossível de ser atingida 17 .

se considerava a meta impossível de ser atingida 1 7 . Observação Qual o custo de

Observação

Qual o custo de umprograma sério como esse? Algumas fontes mensuram aproximadamente 25 milhões de dólares por ano para a obtenção dessas metas até 2015. Bem menos que os três trilhões de dólares estimados por Joseph Stiglitz e Linda J. Bilmes em relação ao custo da Guerra no Iraque até agora e detalhadamente estudados em A guerra de US$ 3 trilhões O

custo real do conflito no Iraque.

Saiba mais Sugerimos que você assista Zwick, vulnerabilidade de Serra Leoa. 143 minutos, 2006). O

Saiba mais

Sugerimos que você assista

Zwick,

vulnerabilidade de Serra Leoa.

143 minutos, 2006). O

a Diamante de Sangue

filme mostra a

(Direção: Edward

e

situação

de

miséria

Miséria gera mais miséria. Não por acaso, a região africana é a que mais sofre com a escassez de água,

esse bem que um dia foi livre de valor econômico e que, no futuro, provavelmente, será o mais precioso

da humanidade.

distribuíram

naturalmente, sob força das mãos invisíveis da economia do mercado. Segundo Barbosa (2006, p. 107),

É o

outro

lado

da promessa

de um

mundo justo,

em que as

riquezas se

o crescimento da

nos subdesenvolvidos esteve

relacionado à abertura dos mercados e ao crescimento desordenado da esfera financeira, propiciando a expansão do desemprego e do emprego informal na grande maioria dos países, ainda que em ritmos e com significados diferentes.

o aumento

pobreza tanto nos

da desigualdade

entre países ricos

e pobres e

países desenvolvidos como

os

níveis de emprego, de escolaridade e de renda da população. Ainda, explica também a ação contida do Estado, que agora deixa ao mercado e à sociedade civil a tarefa de se mobilizar na criação de mecanismos que possam diminuir o impacto dos efeitos da pobreza.

Para

os assistentes sociais, a

compreensão desse contexto é fundamental, já

que ele determina

Seja por falta se depara com

elas relacionadas à

econômicos da

parcelas consideráveis da população brasileira.

de ação do

Estado ou

ainda hoje

no que diz respeito ao atendimento às demandas sociais, sejam

os relativos sucessos

que atingem

da pouca

ou

mobilização da sociedade civil, o

Mesmo considerando

Brasil

um déficit expressivo

habitação,

à educação

à saúde.

última década, esses são problemas

que ainda não

foram resolvidos e

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA No caso da habitação, por exemplo, a situação é dramática: embora o

No caso da habitação, por exemplo, a situação é dramática: embora o Estado tenha buscado orientar seus investimentos com o objetivo de diminuir o déficit habitacional, a atual situação condena milhares de famílias brasileiras a moradias em condições precárias. Segundo a Agência Câmara de Notícias,

mais de 5,5 milhões de moradias precisam ser construídas em todo o país para acabar com o déficit habitacional, segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad) 2008, utilizados pelo Ministério das Cidades. Lançado em 2009 e ampliado em março do ano passado, o programa Minha Casa, Minha Vida pretende construir ou reformar três milhões de moradias até 2014 para famílias com renda mensal de até dez salários mínimos 18 .

A tabela a seguir retrata essa situação em detalhes:

Deficit de domicílios permanentes (em números absolutos)

Deficit de domicílios permanentes (em números absolutos)

Região/Estado

Deficit

Região/Estado

Deficit

Norte

Total: 557.092

Sudeste

Total: 2.052.956

RO

31.229

MG

476.287

AC

19.584

ES

85.344

AM

132.224

RJ

428.959

AP

14.295

SP

1.062.366

RR

13.969

Deficit de domicílios permanentes

PA

286.110

(em números absolutos)

TO

59.681

Região/Estado

Deficit

Deficit de domicílios permanentes (em números absolutos)

Centro-Oeste

Total: 419.491

MS

77.206

Região/Estado

Deficit

MT

74.149

Nordeste

Total: 1.956.380

GO

163.115

MA

434.750

DF

105.021

PI

124.047

Deficit de domicílios permanentes

CE

276.915

(em números absolutos)

RN

105.605

Região/Estado

Deficit

PB

104.699

Sul

Total: 4586.394

PE

266.360

PR

215.752

AL

86.900

SC

141.425

SE

66.492

RS

229.217

BA

490.612

Total Brasil

5.572.313

Fonte: Ministério das Cidades

Tabela 1 - Déficit habitacional (2011)

Unidade I

Unidade I Saiba mais Os déficits nas áreas de educação e saúde também são significativos. Sugerimos
Saiba mais Os déficits nas áreas de educação e saúde também são significativos. Sugerimos a

Saiba mais

Os déficits nas áreas de educação e saúde também são significativos. Sugerimos a consulta ao banco de dados do IBGE, notadamente os relativos aos aspectos demográficos, ao trabalho e ao rendimento, à educação e às condições de vida. Essas informações encontram-se disponíveis em:

<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/ indicadoresminimos/defaulttab.shtm>. Acesso em: 15 dez. 2011.

Acesso em: 15 dez. 2011. Resumo   A Economia ganha estatuto de ciência a

Resumo

 

A

Economia ganha estatuto de ciência a partir do século XVIII, com

as

obras fundadoras de Adam Smith, David Ricardo e Thomas Malthus.

O

cenário econômico é aquele resultante das transformações que, da

sociedade medieval, criaram as condições para o surgimento da economia

de mercado.

A Revolução Industrial permitiu a especialização e a divisão de trabalho

em níveis nunca antes alcançados. Os antigos camponeses agora ofereciam

a mão de obra para as indústrias nascentes e o capital mercantil acumulado

era investido em máquinas e equipamentos. O aumento populacional se encarregaria de garantir um mercado consumidor para os bens e mercadorias produzidos.

Apesar do crescimento extraordinário, as condições de trabalho eram precárias e a miséria deixava os trabalhadores em uma situação

insustentável. A partir desse contexto, Marx investigará o sistema capitalista

e a exploração da massa trabalhadora e fará uma previsão aterrorizante: o capitalismo se autodestruirá.

A superprodução e os movimentos cíclicos do capital provocaram a crise de 1929 nos Estados Unidos, crise essa que, posteriormente, se alastrou para o restante do mundo. O desequilíbrio econômico, que se refletiu em milhões de desempregados, motivou a formulação de políticas públicas que visassem ao investimento na geração de empregos. John Maynard Keynes foi o teórico que melhor elaborou as teorias referentes às políticas que se constituíram na base do modelo de welfare state (estado do bem-estar).

O processo inflacionário que teve início na década de 70 inverteu essa

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA situação. Agora, a preocupação não era mais o emprego e sim a

situação. Agora, a preocupação não era mais o emprego e sim a inflação que corroía o poder da moeda. Os keynesianos tiveram que abrir espaço para os monetaristas, teóricos que priorizaram a questão da inflação em detrimento das políticas públicas de geração de postos de trabalho.

Os anos 90 acrescentaram outras variáveis nesse processo de profundas

transformações econômicas. A partir do Consenso de Washington, o discurso globalizador tornou-se hegemônico e, mais do que nunca, o Estado foi convidado

a se retirar do cenário econômico, deixando ao mercado e à sociedade civil a tarefa de se ocupar de áreas antes sob responsabilidade do poder público.

Mais de vinte anos após a reunião em Washington, os governos atuais vêm procurando equilibrar ações típicas de welfare state com os

compromissos assumidos pelo discurso neoliberal de dar ao mercado toda

a liberdade possível.

neoliberal de dar ao mercado toda a liberdade possível. Exercícios Questão 01 (ENADE 2006). A ciência

Exercícios

Questão 01 (ENADE 2006). A ciência econômica nasce com os fisiocratas e Adam Smith, através da concepção do sistema econômico. Embora o mercantilismo não possa ser descrito como uma escola do pensamento, é natural que sejam comparados os seus pressupostos com aqueles defendidos pelos fisiocratas e por Smith. Assim, como seria julgada a política econômica mercantilista pelos fisiocratas e por Smith?

A) Adequada, por possibilitar moldar os condicionantes do sucesso econômico de uma nação.

B) Adequada, por respeitar as leis naturais do funcionamento da economia.

C) Inadequada, por aumentar o excedente econômico e causar problemas de demanda efetiva.

D) Inadequada, por interferir na ordem do mercado e, assim, na reprodução e no crescimento das nações.

E) Inócua, não afetando o desenvolvimento das nações.

Resposta correta: alternativa D.

Análise das alternativas:

A) Alternativa incorreta.

Justificativa:

Para Smith e fisiocratas, as políticas mercantilistas são inadequadas. A fisiocracia e Smith se apresentam como ferrenhos opositores ao mercantilismo. Contrariamente à política mercantilista, os fisiocratas e

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Unidade I

Unidade I clássicos defendem a autonomia do mercado por meio de seus mecanismos de autorregulamentação, sendo

clássicos defendem a autonomia do mercado por meio de seus mecanismos de autorregulamentação, sendo o sucesso econômico de uma nação fruto da atividade econômica, atividade essa livre de quaisquer regulamentações. Para os fisiocratas e Smith, o Estado deve interferir o minimamente possível na economia, já que o mercado tem uma capacidade “natural” de encontrar o equilíbrio. Ainda, para esses, são todas as atividades econômicas que produzem valor (embora os fisiocratas acreditassem serem o comércio e indústria estéreis); para os mercantilistas, em contrapartida, é o comércio que pode gerar riqueza, já que somente assim se produzirá superávit em metais preciosos. Em resumo: para os mercantilistas, será o comércio – por meio da geração de riqueza – o condicionante para o sucesso econômico de uma nação; para os fisiocratas e clássicos, será a atividade econômica esse condicionante, por meio especialmente da divisão de trabalho e dos mecanismos de autorregulação.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa:

Para Smith e fisiocratas, as políticas mercantilistas são inadequadas. São os fisiocratas que introduzem a idéia de uma ordem “natural” da economia, princípio esse posteriormente desenvolvido por Smith. Para os mercantilistas, fazia-se necessária a intervenção de um governo central forte, especialmente por meio de normas, leis e regulamentações que permitissem o perfeito comportamento do mercado. Os fisiocratas e clássicos, em oposição, pedem laissez-faire, laissez-passer: que o mercado possa funcionar com toda a liberdade possível, confiando-se a ele mesmo sua autorregulamentação e equilíbrio.

C) Alternativa incorreta.

Justificativa:

Para Smith e fisiocratas, as políticas mercantilistas são inadequadas, mas não pelo motivo alegado. Vale relembrar: o comércio mercantilista se baseia na importância do excedente de estoque de metais preciosos (ouro e prata), excedente esse obtido por meio de exportações maiores que importações. Para os fisiocratas e clássicos, entretanto, a origem da riqueza está na divisão do trabalho e em todas as atividades econômicas. As práticas do mercantilismo são inadequadas não por que aumentam o excedente econômico, já que isso não ocorre. São inadequadas, mas não por causar problemas de demanda efetiva, já que isso tampouco ocorre.

D) Alternativa correta.

Justificativa:

Para Smith e fisiocratas, as políticas mercantilistas são inadequadas, e as razões são justamente as mencionadas no item: os mercantilistas, ao apoiarem a regulamentação excessiva do mercado e de seus agentes, acabam por interferir numa ordem que já está “dada” e que é natural. Se for deixada ao mercado sua própria regulamentação, o mercado será capaz de alcançar o equilíbrio, especialmente em função da existência de uma ordem na natureza que também se traduz em ordem na atividade econômica. Para Smith e os fisiocratas, a riqueza de uma nação tem sua origem na atividade econômica,

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PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA

PRINCÍPIOS GERAIS DA ECONOMIA atividade essa livre de qualquer amarra ou regulamentação. E) Alternativa incorreta.

atividade essa livre de qualquer amarra ou regulamentação.

E) Alternativa incorreta.

Justificativa:

Para Smith e fisiocratas, as políticas mercantilistas são inadequadas, e as obras clássicas têm como eixo central a crítica ao mercantilismo. Em A Riqueza das Nações, por exemplo, Smith passa a maior parte do texto justamente valorando – negativamente – as práticas do mercantilismo que seriam, na opinião dele, prejudiciais ao crescimento econômico.

Questão 02. Segundo Malthus, “o fato de que aproximadamente 3 milhões são coletados anualmente para os pobres e, entretanto, sua miséria ainda não tenha sido eliminada, é um objeto de permanente assombro. (MALTHUS, 1996, p. 268). Veja a charge abaixo e responda:

(MALTHUS, 1996, p. 268). Veja a charge abaixo e responda: Disponível em:

Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/_CKXr2m51ezo/TTY3eFpWSsI/AAAAAAAABp0/JdRFsn1V0tc/s1600/com%25C3%25A9rcio+d o+Jahu+12-01-11.jpg>. Acesso em: 24 de junho de 2011.

A análise dos dois textos nos permite concluir que:

A) Sempre existirão pobres, independentemente do que se faça.

B) O problema da pobreza acompanha a história da humanidade, não sendo exclusividade do tempo em que vivemos.

C) Os pobres não sabem aproveitar os benefícios que o setor público oferece.

D) A natureza e os seus acidentes são responsáveis pela existência da pobreza.

E) Não há interesse, na sociedade, em se acabar com o problema da pobreza.

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