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Uma elipse no centro do furacão

Amélia Dalomba tem desenvolvido uma vocação poética única no panorama literária da sua
geração e, mesmo, no panorama literário angolano.

O percurso não é linear (uma progressão em linha recta), nem esférico (ou repetitivo,
obsessivo), mas elíptico (evoluindo sem perder identidade). A figura da elipse dá bem conta de
um caminho em espiral que tanto se nota na evolução de livro para livro quanto na estrutura
de muitos dos poemas de cada obra. De maneira que os temas, tópicos, motivos vão sendo re-
tomados mas, de cada vez que repega num deles o seu perfil muda, o tema se relaciona com
os tópicos e motivos actuais construindo um assunto novo, ou re-convertendo pela vivência
presente um assunto mais antigo.

Em Espigas do Sahel, por exemplo, a África e Angola, a África e a Angola de hoje, ressoam
naturalmente, poetizando-se já sem a função de reclamar a independência (entretanto
conseguida), ou a revolução (luta-se por justiça e direitos e o resto é a memória de uma
desilusão), numa espiral de sofridas emanações mas a que assiste uma luz persistente mesmo
quando, ainda, vaga. Nota-se a naturalidade com que o faz, por exemplo, pela integração
harmónica dos termos bantu e outros quotidianos nos ritmos, na sintaxe, no conjunto do
poema.

Em Noites ditas à chuva, lançado em Julho de 2005 em Luanda, Amélia Dalomba continua a ser
uma poetisa de garra e da África e da Angola do seu tempo, mas há mais. De um para outro
livro intensificou-se a contenção, a densidade e a sugestão, para além de se ter apurado o
sentido de beleza. Os poemas agradam pela magia, pela metaforização que surpreende e
apraz. Ao mesmo tempo vinculam-se a uma linha crítica incisiva, onde o feminino se afirma
cada vez mais e onde a ironia se apura sem se alhear do presente nem da veemência. Continua
também a provocar a sensação de naturalidade com que vive e sofre a sua África e a sua
Cabinda, mas também a humanidade. A sua visão abre-se igualmente a paisagens externas e é
muito significativa a imagem que nos dá de Madrid e do Prado. A enciclopédia cultural e
poética está globalizada sem perda de autenticidade, nem do amor encantado e feminino
(materno até) que pulsa nesses versos.

O que, porém, mais cresce são os motivos, tópicos e as figuras que se relacionam com a
religiosidade. Afirma-se aqui também uma religiosidade nebulosa mas forte, revelando uma fé
intensa e verdadeira (pela representação coerente, acutilante, persistente). A religiosidade,
sob diferentes formas, vem-se manifestando muito lentamente na poesia angolana (sublinho:
na poesia angolana, pois não considero poesia a substituição de palavras de ordem políticas
por palavras de ordem eclesiais e frases da Bíblia disfarçadas que circulam por aí com muita
pretensão). É um movimento em sincronia com o da sociedade em geral, onde proliferam
seitas e religiões que, ora substituem as ideologias, ora os psicólogos, enfim, vão abrindo os
supermercados de esperança. Mas que também dão sinal da inclinação dos angolanos para
assuntos religiosos – registada aliás por manifestações mais antigas como a da Senhora da
Muxima – peregrinação renascida – ou a de Beatriz Kimpa Vita. A religião circula pelo
quotidiano, mais ou menos deformada mas veiculando a vocação de todo um povo. Deus, esse
Deus tão respeitado e venerado, é quase palpável, sente-se nas artérias e no trânsito
conturbado, invoca-se humilde e fervorosamente a cada momento e escapa-nos entre mãos
como o dinheiro, ou com o dinheiro e dele nos escondemos com vergonha de nos
confessarmos a nós próprios. A literatura não repara nisso muitas vezes, ou repara
negativamente. O cânone do poeta, em Angola, é ainda o do ser instruído e rigoroso que não
cai nos ópios do munhungo nem dos ignorantes. A literatura está marcada ainda, em Angola,
pela intelectualidade crítica mas descrente, que se envergonharia de uma confissão religiosa.
Ela cumpre o seu papel quando nos denuncia a exploração da crendice e da fé por igrejas e
seitas que não passam de empresas bem montadas e sem qualquer escrúpulo, como sucede
nas narrativas de Boaventura Cardoso e Pepetela, em algumas caricaturas de Sérgio Piçarra e
num longo etc.. Mas isso é tão claro, tão denunciado e combatido já, que tanto perde efeito
ouvir a denúncia quanto a mensagem a denunciar. O poeta cumpriria bem melhor o seu papel
caso fosse capaz de subverter ou reverter o discurso demagógico dos pregadores profissionais,
transformando-os em poesia, em simulação satírica ou surrealizante por exemplo. Em
particular aqueles poetas que, apesar da figura pública tão cuidadosamente trabalhada, vão às
igrejas e têm uma prática religiosa regular, haviam de saber transformar a prática, o discurso e
a crença das religiões em poesia com a força simbólica, por exemplo, dos versos de Tagore.
Onde há muita religiosidade há sempre muita falsificação e é preciso denunciar mas
ultrapassar ao mesmo tempo, o que se faz pela própria tessitura da invenção poética, estando
especialmente preparados para isso os que vivem pela religião, ou com ela. Apesar do cânone
desfasado e sua consequente prática, a literatura angolana vem, a pouco e pouco, dando sinais
de uma reaproximação densa e vívida ao sentimento religioso. Nas narrativas (por exemplo em
Puko o N’gombo, há já muitos anos; em O pano preto da velha Mabunda, de outra forma em O
que a África não disse) e na lírica, de forma pontilhada. Este livro de Amélia Dalomba, se
virmos bem, é um bom indício do resultado poético a que pode chegar a aspiração religiosa,
ainda não totalmente desenvolvida aqui (de resto, não é um livro místico, mas um magma
lírico fundido em misticismo nos pontos mais quentes). No seu caso a linguagem dos falsos
pregadores é, não subvertida, mas revertida à raiz do silêncio pleno de que nos falam os
místicos, por um lado, e por outro irradia, quase se dilui no sentido cósmico das paisagens e
visualizações que nos sugere.

A tendência revelada em Noites ditas à chuva – livro feliz logo pelo título – vem tomando
corpo na lírica da autora cada vez com mais propriedade. O polo da religiosidade veio tomando
o eixo central, estruturante, dos conteúdos, ao mesmo tempo em que a forma se liberta
crescendo, o sopro versicular e estrófico se alonga em alguns poemas sem cansar, sem forçar e
sem perda de tensão estética. Porém, se olharmos para trás, estas características formais
estavam lá, mesmo o tímido alargamento dos ritmos, agora voltam com ligeiras alterações de
carga e de unidades mínimas de som. É o que se confirma lendo os poemas de Sinal vermelho
nas estrelas e Aos teus pés quanto baloiça o vento, obras publicadas já em 2010 e editadas em
São Paulo e nas quais atinge talvez o ponto culminante essa religiosidade simultaneamente
cósmica, humana e muito pessoal. Leiam, por exemplo, com particular atenção os poemas
«Em todos os carnavais» e «Incógnitas». Dessa profunda e alta consciência, respirada no pão
duro do quotidiano, se re-compõe e alimenta o compromisso social, ético, do poeta,
particularmente conseguido em «Argumentando um pesadelo» e «A poética da fartura». Ele
resulta – não só aqui, mas com maior nitidez nestes últimos poemas – da vivência pessoal da
liberdade, “tão individual como um rosto” («O rosto e a liberdade»), orientada por essa
religiosidade cósmica, viva, que o mesmo é retorná-la “da lágrima à nascente” («Fonte da
chuva e da lágrima»).

No princípio falava de elipse. Relativamente aos primeiros livros falei mais de Angola e de
África. Podiam pensar os leitores que, no final, isso desaparecia. Mas não, elíptica poesia, está
lá tudo no fim como esteve no princípio – só que de maneira diferente. É a comovida e
consciente vivência africana e angolana de hoje que a religiosidade cósmica e solidária de
Amélia Dalomba reestrutura e nos devolve, sua matéria-prima, sua carne viva tanto quanto a
do amor. Também a crítica feminina permanece, quer feminina nos tópicos e motivos, quer
feminina pelas vivências que sugere, quer pela focalização que nos dirige o olhar. Essa
presença permanece e transforma-se, destacando-se agora a figura da mulher-mãe, a grande
mãe das tradições antigas neste mundo caótico, tenso e gritante de injustiças indiferentes.
Também nesse aspecto o percurso da autora é o de uma elipse, como se vê, pois ao mesmo
tempo retorna e se transforma. Como nos outros aspectos, porém, não esqueçamos: é uma
elipse no centro de um furacão.

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