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FILIPENSES

Através dos
Olhos de Paulo

Z 1:12–20 um prisioneiro! Embora outros se sintam cheios de


autopiedade numa situação semelhante a essa, o
Talvez você já tenha ouvido o provérbio que
texto que estamos estudando não contém nenhum
diz: “Se a vida lhe der um limão, faça dele uma
traço de amargura da parte de Paulo.
limonada”. A ilustração é vívida: o suco de limão
Como Paulo fez uma “limonada” com os seus
em si é azedo, mas um pouco de suco de limão
“limões”? A resposta reside em sua atitude para
misturado com água gelada e açúcar dá uma sabo-
com tudo o que aconteceu com ele. Sim, já men-
rosa limonada, uma bebida refrescante. A analogia
cionamos a importância de desenvolver a atitude
cabe bem aqui. Às vezes, a vida “nos dá limões”—
correta, mas ouviremos isso vez após vez nesta
circunstâncias desagradáveis. Quando isso aconte-
série de estudos sobre Filipenses. Num sentido, o
ce, podemos meramente enfrentar a situação—ou
livro fala sobre a necessidade de termos um senti-
podemos tentar ver o lado bom: podemos trans-
mento, ou seja, uma atitude [NVI] correta:
formar nossos “limões” em “limonadas”.
Paulo certamente não conhecia esse provér- Tende em vós o mesmo sentimento [“atitude”] que
bio, mas ele acreditava na filosofia por trás dele. houve também em Cristo Jesus (2:5; grifo meu).
Desde que se tornou cristão, ele ganhou “um ver-
dadeiro carregamento” de “limões”. O Livro de Todos, pois, que somos perfeitos, tenhamos este
Atos registra alguns infortúnios do apóstolo (veja sentimento [“atitude”]; e, se, porventura, pensais
doutro modo, também isto Deus vos esclarecerá
Atos 9:1—23:11), mas essa foi apenas uma fração (3:15; grifo meu).
do que ele teve que enfrentar pelo Senhor (veja 2
Coríntios 11:23–30). A última humilhação de Pau- Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro,
lo foi uma prisão injusta. Ele teve que passar dois tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo
o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é
anos em Cesareia (veja Atos 23:12—26:32). Depois de boa fama, se alguma virtude há e se algum
de apelar para César (Atos 25:10–12), ele foi man- louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensa-
dado para Roma (veja Atos 27:1—28:15). Quan- mento (4:8; grifo meu).
do Paulo escreveu para os filipenses, ele já estava
preso naquela cidade havia dois anos (Atos 28:30; Se você olhasse para Paulo em Roma, veria
veja 28:16–31). (Vários detalhes no livro indicam um pregador velho preso em correntes. Leia File-
que ele foi escrito próximo ao fim da primeira pri- mom 9, Atos 28:20 e Efésios 6:20. A palavra grega
são de Paulo em Roma, incluindo o fato de que para “correntes” ou “cadeias” (halusis), em duas
Paulo esperava ser solto em breve [2:24]). dessas passagens, significa “a pequena corren-
Ele ansiava por visitar Roma como um prega- te pela qual o punho de um preso era preso ao
dor (Romanos 1:10, 11, 13; 15:22–24) e não como punho do soldado que o guardava, de modo que

“Será Cristo engrandecido no meu corpo,


quer pela vida, quer pela morte.”

1
era impossível ele escapar”1. Quando analisamos mente, a palavra era usada para um pioneiro que
o confinamento de Paulo e outras injúrias que ele abre caminho pela floresta.”3 A palavra também era
sofreu, somos tentados a menear a cabeça em so- usada para descrever a atividade de engenheiros
lidariedade e indignação. Desviemos, porém, os militares que iam adiante do exército, derrubando
nossos olhos daquilo que podemos ver para aqui- árvores e desvencilhando aquelas que pudessem
lo que não vemos: o coração de Paulo. Quando impedir o avanço do exército4. Isso geralmente
Paulo contemplava sua situação, ele não via tra- abria um novo território5. A prisão de Paulo estava
gédia, mas triunfo. Ele não pensava em si mesmo “abrindo caminho” para o evangelho!
como vítima, mas como vitorioso.
Nesta lição, nosso desafio será olhar pelos Contato com os Perdidos
olhos do apóstolo, ver a situação como ele via. Paulo deu dois exemplos do progresso do
Fazendo isso, talvez aprendamos alguma coisa evangelho decorrente de sua prisão. Primeiramen-
sobre como ver a vida positivamente. te, estava o contato com os perdidos. Paulo expe-
rimentou oportunidades evangelísticas notáveis
ELE VIA O PROGRESSO DA desde que foi preso em Jerusalém. Ele pregou para
CAUSA DE DEUS (1:12–14) o Sinédrio, para governadores romanos e outros
Chegamos ao corpo da carta de Paulo. Era oficiais de alto escalão, incluindo um rei (Atos
costume o corpo de uma carta começar com uma 23:1; 24:10, 24, 25; 25:23; 26:1). Todavia, nenhuma
observação pessoal, incluindo como o escritor dessas oportunidades foi mais compensadora do
estava. De certa forma, Paulo começou o corpo que a situação que ele se encontrou quando estava
de sua epístola dando informações pessoais... acorrentado a soldados em Roma (veja Atos 28:16).
mas veremos que não foi bem assim. Os olhos do Depois de falar do “progresso do evangelho” (Fili-
apóstolo não estavam em si mesmo, mas em Jesus penses 1:12), ele disse: “de maneira que as minhas
e no evangelho de Jesus. cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda
Ele começou dizendo: “Quero ainda, irmãos, a guarda pretoriana” (v. 13a).
cientificar-vos” (v. 12a). Paulo gostava das pala- A versão latina do grego traduzido por “guar-
vras “irmão” e “irmãos”. Elas denotam um rela- da pretoriana” seria pretorium. Alguns estudio-
cionamento familiar. Essas palavras são usadas sos acreditam que o termo se referia ao palácio do
cerca de 130 vezes em suas cartas, nove vezes nos imperador. Embora seja verdade que o evangelho
quatro capítulos deste breve volume (vv. 12, 14; alcançou o palácio de César (4:22), a maioria dos
2:25; 3:1, 13, 17; 4:1, 8, 21). eruditos acredita que a palavra, conforme usada em
Ele continuou: “...de que as coisas que me 1:13, refira-se à guarda pretoriana. Esses soldados
aconteceram têm, antes, contribuído para o pro- de elite eram o regimento da mais alta qualidade do
gresso do evangelho”. A expressão “coisas que exército romano, as tropas que formavam a Guarda
me aconteceram” inclui tudo que Paulo sofreu Imperial de Roma6. Eram dez mil tropas italianas es-
no passado e estava enfrentando no presente. O colhidas a dedo, todas lideradas por um centurião
apóstolo prontamente apagou da memória tudo (um oficial encarregado de cem soldados). Entre ou-
isso com duas palavras: “me aconteceram”. tros deveres, eram a guarda particular do impera-
A mente de Paulo não estava centrada em dor. Exerciam muita influência em Roma, chegando
problemas, mas em progresso: “o progresso do mais tarde até a “produzir” imperadores do Império
evangelho”. “Evangelho” é a transliteração do Romano. Tinham privilégios especiais, incluindo o
grego euangelion, que significa “boa notícia”.
Quando o apóstolo falou de avanço do evan- nário Vine. Rio de Janeiro, 7ª. ed., 2007, p. 966.
3 
Ibid.
gelho, ele usou uma palavra pitoresca. A palavra Barclay, p. 20; Avon Malone, Press to the Prize. Nashville: 20th
4 

grega traduzida por “progresso” vem de uma Century Christian, 1991, p. 35; Charles R. Swindoll, Laugh Again
palavra composta (prokope) que, na forma verbal (Dallas Word Publishing, 1992), p. 53; Warren W. Wiersbe, Comen-
tário Bíblico Expositivo. São Paulo: Geográfica Editora, s.d., s.p.
(prokoptein) significa “cortar adiante”2. “Original- 5 
No Brasil, os bandeirantes cumpriram esse papel abrin-
do caminho para novos territórios pelo interior do país.
1 
William Barclay, The Letters to the Philippians, Colossians, 6 
As informações neste parágrafo são de uma variedade
and Thessalonians, ed. rev., The Daily Study Bible Series. Fila- de fontes, incluindo Wilbur Fields, Philippians-Colossians-
délfia: Westminster Press, 1975, p. 22. Philemon. Joplin, Mo.: College Press, 1969, p. 27; Malone,
2 
W. E. Vine, Merrill D. Unger e William White Jr., Dicio- p. 36 e Barclay, p. 21.

2
pagamento dobrado e quartéis em Roma. Quando sa de Cristo” (NVI) tornou-se conhecida “de toda
se aposentavam após doze a dezesseis anos de ser- a guarda pretoriana e de todos os demais” (v. 13b).
viço, ganhavam cidadania romana e uma pensão “Todos os demais” incluía outras pessoas às quais
generosa. O fato de Paulo se dirigir a esse regimento os apóstolos influenciaram. (Uma delas era um es-
e ser guardado por eles pode indicar a importância cravo fugitivo chamado Onésimo; veja Filemom
que os oficiais romanos deram ao seu caso. 10–21.) Em Roma, essa notícia espalhou-se rapida-
Na guarda de Paulo, a prática padrão era mu- mente. Paulo provavelmente teve participação na
dar o turno a cada seis horas. O apóstolo teve as- conversão dos membros da família de César (veja
sim a oportunidade de influenciar quatro soldados 4:22). O mensageiro de Deus podia estar preso, mas
por dia. Se nossos cálculos estiverem corretos, isso a mensagem de Deus não (veja 2 Timóteo 2:9)!
poderia totalizar 2.920 contatos num período de Assim, o primeiro exemplo de como o evange-
dois anos!7 Os soldados, sem dúvida, consideravam lho avançou ou progrediu como resultado das ca-
Paulo um prisioneiro, mas era ele quem prendera a deias de Paulo foram oportunidades ímpares para
atenção deles enquanto vivia aqueles dias agitados: a Palavra espalhar-se. Como já observamos, você e
eu podemos nos sentir “presos” de muitas manei-
Z Ditando cartas, como a endereçada aos fili- ras—mas a maioria dessas “correntes” gera opor-
penses. tunidades para partilhar o evangelho com outros.
Z Conversando com amigos, como Timóteo e Enquanto Paulo estava acorrentado aos soldados,
Epafrodito (veja 1:1; 2:25). eles estavam acorrentados a ele. Da mesma forma,
Z Ensinando aqueles que vinham vê-lo (veja não são apenas os cristãos que estão “presos” a situ-
Atos 28:17–31). ações menos que desejáveis, mas geralmente outros
Z Orando e adorando a Deus. (Veja Filipenses também estão “acorrentados” às mesmas situa-
1:3, 4. Atos 16:25, que fala de uma prisão an- ções—o que gera oportunidades para influenciá-los.
terior, mostra o tipo de atividade com que Uma mãe pode se sentir “acorrentada” a uma casa
Paulo se ocupava na prisão.) cheia de filhos; mas se ela ensinar a esses filhos o ca-
Z Conversando com as autoridades romanas minho do Senhor (Deuteronômio 6:7), quem sabe o
e respondendo suas perguntas. (O texto não bem que eles farão no reino?8 Uma mulher pode se
diz que ele conversava com os soldados, mas sentir “acorrentada” ao seu cônjuge incrédulo, mas
poderíamos imaginar Paulo perdendo tal ela tem a oportunidade de ser um bom exemplo
oportunidade única? Veja Romanos 1:14–16.) para ele (veja 1 Pedro 3:1, 2). Um empregado pode
se sentir “acorrentado” a um emprego de que ele
Se Paulo tivesse ido para Roma como pla- não gosta, mas a maioria dos empregos envolve co-
nejava inicialmente e tivesse pregado no fórum laboradores que podem ser ensinados. Muitas pes-
romano, provavelmente nenhum dos soldados soas estão “acorrentadas” a enfermidades físicas,
teria parado para ouvi-lo. No entanto, estando mas essas circunstâncias podem ser usadas para
acorrentados a ele dia e noite, era difícil ignorá- fazer a causa de Cristo avançar. Pessoas que estão
lo. Deus opera por meios misteriosos! enfrentando debilidades físicas descobrem que de
Algum desses soldados tornou-se cristão? Se- outra maneira não teriam tempo para servir a Deus
gundo a tradição não-inspirada, alguns se con- e ajudar outras pessoas. Certa dona-de-casa cristã
verteram. Pelo menos, chegaram a entender o anima outras pessoas enviando cartões, cartas e fa-
que Paulo representava. A NVI diz no versículo zendo ligações telefônicas.
13: “Como resultado, tornou-se evidente a toda a
guarda do palácio e a todos os demais que estou na Encorajamento para os Salvos
prisão por causa de Cristo” (grifo meu). Eles ficaram Paulo deu um segundo exemplo de como
sabendo que o apóstolo não estava preso por causa suas cadeias ou correntes ajudaram no progres-
de algum crime, mas por causa da fé em Jesus. so do evangelho: elas deram coragem aos salvos.
Paulo também disse que sua “prisão por cau- “E a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor

Provavelmente, houve reincidências nesses 2.920 con-


7  8 
Nos Estados Unidos, há várias famílias grandes em que
tatos. Aqueles que ficaram impressionados com o apóstolo um ou mais dos filhos tornou-se um proeminente pregador
e o seu ensino podem ter pedido para serem recolocados na do evangelho. Talvez você pense em ilustrações para cada
escolta de Paulo num esquema rotativo. uma das “correntes” mencionadas.

3
por minhas algemas, ousam falar com mais de- ceramente, julgando suscitar tribulação às mi-
nhas cadeias (vv. 15–17).
sassombro a palavra de Deus” (v. 14). Isso não se
aplicava a todos, como observou Paulo alguns
versículos mais adiante—mas era verdade a res- “Alguns” homens estavam “pregando Cristo”
peito da maioria dos irmãos. (NVI) de “boa vontade” por Paulo e “por amor”
Como a prisão de Paulo deu coragem aos ir- a ele. De fato, “a maior parte dos irmãos” (1:14)
mãos? Quando eles viam como Paulo confiava que estavam fazendo isso. Apreciavam Paulo, o que
o Senhor cuidaria dele, isso deve ter aumentado a ele representava e o que ele tentava fazer. Sabiam
confiança deles em Deus. Quando viram a certeza que ele fora “incumbido da defesa do evange-
do apóstolo apesar de seus problemas, talvez te- lho”. No contexto, a palavra grega traduzida por
nham tido coragem para enfrentar qualquer ridicu- “incumbido” implica “divinamente nomeado”
larização que surgisse. Podem ter deduzido que se para defender a boa notícia sobre Jesus. Embora
Deus tinha poder para realizar grandes coisas atra- logo fosse comparecer na corte de César, Paulo
vés de um homem preso, Ele também faria grandes não estava preocupado em defender a si mesmo,
coisas através deles. A péssima situação de Paulo mas em defender o evangelho!
certamente gerou aumento dos esforços para que o
evangelho não sofresse, enquanto um de seus prin- Incertezas
cipais porta-vozes encontrava-se imobilizado. Todavia, alguns irmãos estavam pregando
O versículo 14 usa o termo “falar” no lugar de Cristo por motivos errados, esperando aumentar
“pregar”. A palavra comumente usada para “pre- a tribulação de Paulo. Quem eram esses irmãos?
gar” (karusso, “anunciar”) implica proclamação Não eram incrédulos ou judeus que perseguiram
pública, enquanto a palavra usada aqui (uma for- o apóstolo no passado. Paulo usou várias vezes a
ma de laleo) é um termo grego comum que signi- palavra “irmãos” referindo-se a seus colegas ju-
fica “falar”. Os comentaristas têm sugerido que a deus, irmãos na carne (veja 1:14); mas estes não
ênfase não estava na proclamação pública da Pa- pregavam Cristo (v. 15). Eles também não eram
lavra, mas no compartilhar diário do evangelho mestres judaizantes—cristãos judeus que ensi-
por iniciativa de cada cristão (veja Atos 8:1, 4). navam que os cristãos precisavam guardar a lei
Celso, um crítico do cristianismo do primei- de Moisés para serem salvos. Paulo jamais se ale-
ro século, escreveu que “pessoas que trabalhavam graria com a mensagem deles (veja Gálatas 1:8, 9;
com couro e lã, sapateiros, os mais iletrados e vulga- 5:2–4), mas ele se alegrava com a mensagem dos
res membros da sociedade, são pregadores do evan- irmãos mencionados em Filipenses 1:18. Leiamos
gelho zelosos”9. Celso disse isso como uma crítica, a mensagem com cuidado. O problema não estava
mas de fato era um elevado louvor. “O balcão do na mensagem, e sim no motivo dos mensageiros.
comerciante, a mesa do coletor de impostos, o arado Não sabemos ao certo quem Paulo tinha em
do agricultor eram os seus púlpitos.”10 A prisão de mente, mas provavelmente eram evangelistas
Paulo deu aos cristãos essa grande coragem. cristãos residentes em Roma. Roma era uma das
poucas cidades em que a igreja já estava estabe-
ELE VIA A PREGAÇÃO DO lecida quando Paulo chegou. Via de regra, ele
EVANGELHO DE DEUS (1:15–18) preferia “não edificar sobre fundamento alheio”
Paulo não só passou pela humilhação da pri- (Romanos 15:20). Todavia, há tempos ele culti-
são, mas também teve que enfrentar a dor de vava um forte desejo de ir até Roma (Romanos
irmãos que o menosprezavam e tentavam preju- 1:11–15). Talvez uma das razões disso era que ele
dicá-lo. Por mais estranho que pareça, eles tenta- sabia que o evangelho poderia espalhar-se dali
vam fazer isso através da pregação de Cristo! para todos os cantos do Império Romano.
Uns cinco anos antes11, Paulo escrevera à igreja
Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por em Roma e se reportara a mais de uma dezena de
inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa
vontade; estes, por amor, sabendo que estou
cristãos citando-os pelo nome (Romanos 16:3–16).
incumbido da defesa do evangelho; aqueles,
contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insin- 11 
Isto pressupõe que o Livro de Romanos tenha sido
escrito por volta do início da primavera de 57 d.C. e que o
9 
Citado em Malone, p. 37. Livro de Filipenses tenha sido escrito próximo ao fim da pri-
Ibid.
10 
meira prisão de Paulo em Roma, por volta de 62 d.C.

4
Sem dúvida, a igreja naquela cidade fora abenço- trabalhar para obter apoio a qualquer preço, ga-
ada com uma série de evangelistas habilidosos nhando as pessoas para o seu “lado”.
antes mesmo da chegada do apóstolo. É difícil acreditar que havia cristãos assim no
Infelizmente, alguns desses irmãos não gosta- primeiro século? Parece que até hoje existem in-
vam de Paulo. Não sabemos por quê. A animosi- divíduos parecidos com eles à nossa volta. É fácil
dade deles para com Paulo não era partilhada por apontar para as falhas dos outros; façamos, po-
todos da igreja em Roma (veja Atos 28:14b–16a). rém, um auto-exame. Nossos motivos para servir
Talvez esses evangelistas em particular tivessem a Cristo são menos do que “sinceros”? Aos que
tentado despertar a simpatia dos incrédulos para desejam pregar, convém uma palavra: pregar não
com a igreja, sentindo-se depois desconcertados é um meio fácil ou bom de “ganhar a vida”. Pre-
pelo fato de Paulo ser levado para lá como prisio- gar não é um meio de ganhar respeito e atenção;
neiro. É até possível que tenham sentido ciúmes da é um meio de salvar almas e glorificar a Deus. E,
atenção dada ao apóstolo. Podem ter sentido que aos que não pregam, convém observar que cada
seus papéis na liderança estavam ameaçados. um de nós precisa examinar por que faz o que faz
A parte mais estranha da situação é o fato de pela causa de Cristo. Trabalhamos em certos mi-
pensarem que pregar o evangelho traria mais tri- nistérios ou atividades por que gostamos de re-
bulação à prisão de Paulo. Talvez supusessem que ceber louvor e atenção? Desistimos ao sentir que
Paulo tinha os mesmos motivos egocêntricos que “não estamos sendo valorizados”? Que Deus nos
eles tinham. Nesse caso, podem ter pensado que, ajude a servi-lO “de boa vontade” e “por amor”.
se fossem mais bem sucedidos na pregação do Paulo poderia se sentir amargurado. Ele pode-
que Paulo, isto o deixaria infeliz. Outra possibili- ria ter dito: “Estou preso há mais de quatro anos
dade é terem pensado que a pregação vigorosa do e estou tentando lidar da melhor maneira com
evangelho incomodaria as autoridades romanas, esta situação intolerável. Estou ensinando e escre-
ao mesmo tempo influenciando-as a dificultar as vendo cartas e tentando manter uma boa atitude.
coisas para Paulo. Se era esse o raciocínio desses Agora me aparecem meus próprios irmãos tentando
irmãos, deveriam ter reconhecido que eles tam- me prejudicar! Isso não é justo!” Em vez disso, ele
bém poderiam ser afetados. Entretanto, nunca há disse: “Todavia, que importa? Uma vez que Cristo,
lógica no ciúme ou na inveja. de qualquer modo, está sendo pregado, quer por
pretexto, quer por verdade, também com isto me
Certezas regozijo, sim, sempre me regozijarei” (v. 18). Essa
Não sabemos ao certo quem estava pregando tem sido considerada “uma das elocuções mais
Cristo por motivos errados ou por que, mas sa- nobres feita por um dos maiores homens”13. Pau-
bemos, com base no texto, que é possível alguém lo não estava preocupado com Paulo. Ele estava
servir ao Senhor por motivos impuros. Vejamos preocupado com o evangelho. Ele não estava triste
com atenção as motivações daqueles que ten- por causa das críticas contra ele, mas se alegrava
tavam prejudicar Paulo. O versículo 15 diz que com o fato de o evangelho estar sendo pregado.
alguns “pregavam a Cristo... por inveja e rivali- Fazem-se necessárias duas notas de adver-
dade” (NVI). Esses pregadores, evidentemente, tência aqui: a primeira é que Filipenses 1:18 não
se colocaram em competição com Paulo. Inveja e ensina que a motivação de uma pessoa não tem
rivalidade [“porfia”; RA] andam juntas e sempre importância. Já sabemos que o motivo por que fa-
aconteceram no ambiente da igreja. zemos determinada coisa é importante aos olhos
O versículo 17 diz que eles pregavam Cristo de Deus (veja 1 Coríntios 13:1–3; Romanos 16:17,
“por discórdia, insinceramente” ou, como diz a 18; 2 Coríntios 9:7). A segunda nota é que Fili-
NVI, “por ambição egoísta”. No original grego, o penses 1:18 não estabelece um precedente para
termo usado significa originalmente “servir por acusarmos as pessoas de terem motivos errados.
pagamento”12, vindo a denotar aquele que traba- Diferentemente de Paulo, nós não somos inspira-
lha só pelo salário, somente para benefício próprio. dos e não podemos falar com autoridade sobre os
Finalmente, o termo veio a ser usado na política: motivos que levam as pessoas a agir. Cabe a nós
12 
The Analytical Greek Lexicon. Londres: Samuel Bagster 13 
James Burton Coffman, Commentary on Galatians, Ephe-
& Sons, Ltd., 1971, p. 166. As informações gerais deste pará- sians, Philippians, Colossians. Austin, Tex.: Firm Foundation
grafo foram extraídas de Barclay, p. 23. Publishing House, 1977, p. 269.

5
examinarmos nossos próprios motivos e deixar- tou certo de que isto mesmo, pela vossa súplica
mos o Senhor julgar os motivos dos outros (veja e pela provisão do Espírito de Jesus Cristo, me
Hebreus 4:13; Romanos 2:16). redundará em libertação”. O grego traduzido por
O que podemos aprender com Filipenses 1:18? “libertação” (uma flexão de soterias) é mais co-
Podemos aprender a não saturarmos nossas men- mumente traduzido por “salvação”. “Salvação” é
tes com pensamentos destrutivos. Quem dá ênfase uma parte tão vital da nossa fé e uma palavra tão
aos maus tratos que de fato ou imaginariamente preciosa para nós que, às vezes, nos esquecemos
sofreu acaba se sentindo infeliz. Além disso, po- de que, por si só, ela é “vazia”. O contexto deve
demos aprender a apreciar o bem que as pessoas indicar o perigo do qual somos salvos. Que tipo
fazem, mesmo quando suspeitamos de que não de “libertação”/”salvação” Paulo tinha em men-
estejam fazendo esse bem pelos motivos mais pu- te? Quais são as possibilidades?
ros. Precisamos procurar as coisas positivas nas
pessoas, e não as negativas. Z Libertação da prisão? Talvez, mas Paulo
poderia não ter tanta certeza de sua soltura
ELE VIA A PROVISÃO DO (veja 2:17, 23, 24). A expressão “estou certo”
FAVOR DIVINO (1:19, 20) parece forte demais para se referir somente à
O que mais Paulo via quando olhava para sua sua libertação da prisão.
situação? Ele via os acontecimentos culminando Z Libertação da morte e dos maus tratos defe-
num “final feliz”: ridos por seus inimigos? Talvez. Paulo usou
a mesma terminologia que Jó na tradução da
Porque estou certo de que isto mesmo, pela vos- Septuaginta de Jó 13:16. Muitos comentaris-
sa súplica e pela provisão do Espírito de Jesus
Cristo, me redundará em libertação, segundo a tas acreditam que Paulo estava citando Jó e
minha ardente expectativa e esperança de que queria dizer o mesmo que Jó: “Serei justifica-
em nada serei envergonhado; antes, com toda a do” (veja Jó 13:18).
ousadia, como sempre, também agora, será Cris-
to engrandecido no meu corpo, quer pela vida, Z Libertação do constrangimento perante
quer pela morte (vv. 19, 20). Nero? Talvez; isto teria uma ligação perfei-
ta com o que é dito no versículo seguinte.
Nesses versículos, o apóstolo continuou a di- Paulo, sem dúvida, orou para que ele pro-
zer por que ele se alegrava (a palavra “porque” clamasse intrepidamente a sua fé em Jesus
vincula os versículos 19 e 20 ao 18). Os dois ver- quando apresentasse sua defesa perante a
sículos são intensos. No versículo 19 Paulo disse: corte romana.
“estou certo”. O termo originalmente usado aqui Z Libertação (salvação) eterna? Paulo cria nis-
sugere “conhecimento confiável”14. O versículo 20 so de todo o seu coração (Filipenses 1:23;
refere-se à “ardente expectativa” de Paulo, termo veja Romanos 5:9).
que vem de uma palavra grega composta, apoka-
radokia, que combina a preposição apo (“fora de”) A nossa preferência é pela última possibilida-
com o substantivo kara (“cabeça”) e o verbo dokein de. Via de regra, Paulo costumava usar a palavra
(“olhar”). Esta palavra refere-se a um “olhar ávi- “salvação” para se referir à salvação do pecado.
do, intenso, que se desvia de qualquer outra coisa Talvez haja uma combinação de ideias inclusa na
para fitar o objeto de desejo”15. palavra “libertação” aqui. O que quer que aconteces-
se a Paulo seria, no fim de tudo, sua “libertação”.
A Libertação de Paulo Duas coisas contribuiriam para a libertação do
Quando Paulo contemplou tudo o que esta- apóstolo. A primeira era o apoio das orações dos
va acontecendo, ele viu dois resultados bons. O filipenses: “Porque estou certo de que isto mesmo,
primeiro era sua própria libertação: “Porque es- pela vossa súplica... me redundará em libertação”.
Paulo orava por eles (1:3, 4) e eles oravam por ele
14 
Pat Edwin Harrell, The Letter of Paul to the Philippians, (1:19). Paulo sempre ansiou pelas orações dos ir-
The Living Word Commentary series, ed. Everett Ferguson. mãos (Romanos 15:30–32; 2 Coríntios 1:11; 1 Tessa-
Austin, Tex.: R. B. Sweet Co., 1969, p. 68. lonicenses 5:25; 2 Tessalonicenses 3:1, 2; Filemom
Barclay, p. 26. Outras definições incluem “um olhar que
15 

vira a cabeça” (Harrell, p. 70) e “virar a cabeça e focar as facul- 22). Os cristãos precisam orar uns pelos outros.
dades intecionalmente num objeto ou alvo” (Malone, p. 39). A segunda contribuição para a libertação de

6
Paulo era o apoio do Espírito Santo: “Porque estou “aumentar” ou “ampliar” Sua grandeza? Como nós
certo de que..., pela provisão do Espírito de Jesus podemos fazer isso? A resposta é que “podemos
Cristo, me redundará em libertação”. A raiz da exaltá-lO nas mentes dos homens.” Assim como
palavra grega vertida para “provisão” (“socorro”, uma lente de aumento pode ajudar pessoas a en-
A21, RC) deu origem à palavra “coral” (de vozes). xergarem mais claramente, uma vida centrada em
O termo originalmente se referia ao pagamento de Cristo pode ajudar seres humanos a enxergarem o
despesas de um coral quando uma cidade grega es- Senhor por causa de quem Ele realmente é.
tava planejando realizar uma festividade. O gover- Paulo cria que Cristo “seria engrandecido em
no exigia que um cidadão rico fizesse uma doação seu corpo”. Nossos corpos são o santuário ou templo
generosa para pagar os coristas. Com o uso, a asso- de Deus (1 Coríntios 6:19) e devem ser dedicados ao
ciação com um coral desapareceu, mas o termo rete- Senhor (Romanos 12:1). Paulo cria que Cristo “seria
ve a ideia de prover com generosidade e profusão16. engrandecido... quer pela vida, quer pela morte”—
“O Espírito de Jesus Cristo” é o Espírito Santo. Jesus em outras palavras, quer vivesse, quer morresse. O
prometeu mandar o Espírito Santo e cumpriu essa apóstolo acreditava que provavelmente seria solto
promessa (João 14:16, 17; Atos 1:8; 2:1–4). William após ser julgado, mas sabia que não era onisciente.
Barclay traduziu essa importante expressão por: “a Independentemente do que acontecesse, ele estava
ajuda generosa que o Espírito Santo me dá”17. determinado a engrandecer a Jesus.
Paulo previa que o Espírito Santo lhe concederia Paulo previa que, ao enfrentar seus acusado-
todas as provisões com generosidade e profusão— res, evitaria ser envergonhado e que o Senhor seria
e o Espírito Santo também provê para nós. Rece- engrandecido. Ele pretendia levar os méritos des-
bemos o Espírito Santo como um presente quando ses resultados? Não. No texto original, “ser enver-
somos imersos em água e nos tornamos cristãos gonhado” e “ser engrandecido” estão ambos no
(Atos 2:38). O Espírito Santo, que habita em todos futuro passivo. A voz passiva denota o que é feito ao
os filhos de Deus, é uma fonte de força e socorro sujeito da frase. Paulo não acreditava que ele era o
(Romanos 8:11–13, 26–28). Paulo provavelmente responsável pelo que viria a acontecer, e sim Deus.
estava incluindo o socorro do Espírito quando es- Se olharmos para a vida como Paulo olhava,
creveu: “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em acreditaremos que, independentemente do que
glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de nos aconteça, tudo vai acabar bem. Se o nosso re-
vossas necessidades” (Filipenses 4:19). lacionamento com Deus e a nossa atitude forem
corretos, o Senhor certamente fará tudo dar certo
A Exaltação de Cristo (veja Romanos 8:28). Que paz de mente isso traz
O segundo bom resultado previsível era a aos nossos corações!
exaltação de Jesus: “Segundo a minha arden-
te expectativa e esperança de que em nada serei CONCLUSÃO
envergonhado; antes, com toda a ousadia, como Paulo conseguiu fazer de seus “limões” “li-
sempre, também agora, será Cristo engrandecido monadas”. Aprender a ver a vida e seus proble-
no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte” mas como Paulo nos ajuda? Com toda certeza.
(1:20). Essa afirmação provavelmente prevê a No decorrer desta lição, talvez você tenha sentido
apresentação de Paulo perante César. O apóstolo Paulo sussurrando ao seu ouvido: “Melhore a sua
estava confiante de que teria ousadia no palácio atitude!” Ao chegar ao fim dela, porém, oramos
do rei—e assim não “envergonharia” nem deson- para que você tenha percebido que, na verdade,
raria a causa pela qual dera a vida. ele estava gritando, clamando! Como precisamos
Paulo acreditava que todas as coisas que acontece- corrigir nossas atitudes!
ram eram, em última análise, para exaltar a Cristo. O
termo que significa “engrandecido” também pode- NOTA
ria ser traduzido por “aumentado” ou “ampliado”18. Quando apresentar este sermão, inclua um
A ideia inicialmente soa estranha. Considerando convite à obediência ao evangelho. Poderia dizer
que Jesus já é “grandioso”, como Paulo poderia aos seus ouvintes: “Mais importante ainda é a sua
atitude para com Jesus Cristo. Você ama Jesus Cris-
16 
Harrell, p. 68; Wiersbe, p. 69.
17 
Barclay, p. 24. to e confia nEle? Se a sua resposta for ‘sim’, você
18 
Harrell, p. 70. fará a vontade dEle (João 14:15; Marcos 16:16)”.
Autor: David Roper
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