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[SERMÃO DA SEXAGÉSIMA: INVENÇÃO E DISPOSIÇÃO DE IDEIAS] O ensaio argumentativo

Aristóteles distinguia, quanto ao assunto, três géneros de discurso : a) o género judicial,


ou discurso de defesa e de acusação perante um tribunal; b) o género deliberativo, ou discurso em
que se argumenta a favor ou contra uma determinada posição política; c) o género demonstrativo,
cuja função é a censura ou o louvor dos actos de alguém.
Os ensaios argumentativos apresentam-se numa enorme variedade de formas , cada
uma das quais tem uma estrutura muito própria, que nem sempre são fáceis de utilizar numa fase
de iniciação ao filosofar. Porém, se aplicarmos a distinção aristotélica ao ensaio filosófico, podemos
distinguir três espécies principais de ensaio que o aprendiz pode tentar com algum proveito: a) o
ensaio valorativo; b) o ensaio deliberativo; c) o ensaio demonstrativo.
O ensaio valorativo consiste basicamente em discutir as vantagens e desvantagens de uma
posição. Divide-se em duas partes: a exposição de um problema e de uma tese/argumento sobre
esse problema e a crítica ou exame crítico da validade ou da força persuasiva dessa argumentação.
No ensaio deliberativo, o autor actua como uma terceira parte numa disputa ou debate
entre duas teses/argumentações rivais e tenta chegar a uma avaliação crítica dos pontos fortes e
fracos de cada posição. Esta espécie de ensaio organiza-se genericamente do seguinte modo:
formulação do problema; exposição da posição 1; exposição da posição 2; avaliação da posição 1;
avaliação da posição 2; resolução final. Note-se que a sequência de exposições e avaliações não tem
de ser exactamente esta, podendo, no desenvolvimento do ensaio o seu autor oscilar ou alternar
entre uma posição e outra.
Finalmente, no ensaio demonstrativo, o seu autor discute um problema e sugere uma
solução que tenta demonstrar como sendo a melhor. Assim, é uma espécie de ensaio que depende
menos das capacidades de observação externa, nomeadamente da pesquisa e da interpretação de
fontes alheias, e que se apoia mais na riqueza da observação interna e na originalidade/criatividade
da reflexão ou meditação pessoais. Em termos de organização, o ensaio demonstrativo divide-se nas
seguintes partes: formulação e análise do problema; exposição de critérios para decidir que uma
solução é adequada; exposição da posição ou das posições que se consideram inadequadas à luz
desses critérios; exposição da solução proposta; apreciação da adequação da solução proposta;
resposta antecipada às dificuldades ou objecções que possam vir a ser apresentadas.
Na perspectiva do aprendiz ou aluno(a) que escreve ensaios , importa clarificar e
explicitar as motivações pessoais para se dedicar à escrita: 1) escrever o ensaio para chegar a
alguma conclusão? 2) escrever o ensaio para formular e escolher argumentos? 3) escrever o ensaio
pelo prazer de debater opiniões ou de exercitar a técnica do debate? 4) escrever o ensaio para
exercitar a reflexão crítica? 5) escrever o ensaio para escolher entre teorias ou argumentações
rivais? 6) escrever o ensaio para desenvolver uma opinião original?
A não ser que haja uma determinação exterir, por parte do professor, deve-se escolher a
espécie de ensaio consoante a motivação pessoal para a escrita. Por exemplo, quem procura chegar
a uma conclusão sobre um problema inclina-se naturalmente para o ensaio demonstrativo. De
modo semelhante, quem hesita entre opiniões rivais sobre uma questão inclina-se para o ensaio
deliberativo e quem está convicto de que uma determinada opinião é a melhor ou a pior, tende a
escolher o género valorativo.
Encarando agora a pergunta na perspectiva do leitor, podemos dizer que há seis modos
distintos de ler um mesmo ensaio filosófico: 1) ler o ensaio de um filósofo em busca de conclusões;
2) ler o ensaio em busca de argumentos; 3) ler o ensaio para aprender com o autor a técnica do
debate; 4) ler criticamente um filósofo; 5) ler o ensaio para apreciar o contributo relativo do autor?
6) ler criativamente um ensaio, usá-lo como fonte de inspiração de uma reflexão pessoal.
ANEXO 1

INVENÇÃO DISPOSIÇÃO
OBSERVAÇÃO MEDITAÇÃO ou REFLEXÃO
ENSAIO ARGUMENTATIVO
Observação interna Observação externa Objeto em si1 Objeto em Relação2
a) Ideias a) Ideias a) Definição a) Género / espécie MPA 0 – INTRODUÇÃO
a) Título

b) Situação-problema:

c) Tese pessoal a defender:

d) Frase tópica:

b) Sentimentos b) Sentimentos b) Análise, divisão, enumeração b) Causa / efeito MPA 1 – DESENVOLVIMENTO


MPA 2 – organização da inferência3

a) Problema / Questões básicas

b) Teorias / teses

c) Imagens c) Imagens c) Conveniente/Inconveniente c) Circunstâncias

c) Argumentos (favor; contra):

d) Avaliação dos argumentos

d) Exemplos d) Exemplos d) Exemplos d) Exemplos MPA 3 – Conclusão


a) Tese pessoal defendida:

1 O objecto da meditação (ideia, sentimento, imagem ou tópico) é considerado em si mesmo, isoladamente.


2 O objecto da meditação é encarado nas suas relações com outros elementos, é considerado no contexto das suas relações possíveis.
3Prever a ordenação mais conveniente, consoante o modelo de ensaio escolhido.
b) Resposta a objeções: