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“O QUINTO IMPÉRIO (OU ‘O LUSCO-

FUSCO’) : UM MITO (PORTUGUÊS) EM


ÓRBITA”

Trabalho elaborado para a UC de Tradição Literária Ocidental

Paulo César Gonçalves;


A44153;
Estudos Culturais (3º);
Universidade do Minho
RESUMO;

O mito do Quinto Império é recorrente no imaginário colectivo do Povo Português. É


um traço identitário da sua Cultura.

Atribui-se (quase unanimemente) ao Padre António Vieira a interpretação mais


completa no que concerne ao destino de Portugal poder estar ligado a esta mitologia de
cariz messiânico. Outros (Fernando Pessoa e Agostinho da Silva) se lhe seguiram, mas
também outros o antecederam (Bandarra).

O Quinto Império, mais sonho do que meta, foi uma apaixonante possibilidade para
aqueles que sempre consideraram a Portugalidade uma característica de excepção.

Em momentos de fervor patriótico, mas não só, lá aparece a referência à primazia do


espírito sobre a matéria, movimento do qual Portugal, ou a Alma Portuguesa, seria (é?)
a “tocha que indica o caminho.”

Discorreremos sobre a (sua) história, desde as suas origens até à idade contemporânea,
numa filosofia assente no “vai” e no “vem”, sendo que o “vai” é o equivalente a uma
sentinela, aquela que não se vê, mas que está (aparentemente inerte, mas sempre
vigilante).
GÉNESE;

Segunda a Bíblia (Antigo Testamento), o Rei Nabucodonosor (604-562 a.C.), soberano


da Babilónia, tivera um sonho muito pouco usual. Como tal, procurou que os sábios da
sua corte fizessem uma interpretação precisa desse sonho: uma majestosa estátua, com
cabeça de ouro, peito e braços de prata, ventre e ancas de bronze, pernas de ferro e pés
de barro sucumbira à queda de uma enorme rocha vinda, rolando, de uma montanha
próxima. A pedra despedaçou os pés à estátua, fazendo com que a mesma colapsasse.

O profeta Daniel, chamado à presença do rei, apresentou-lhe uma interpretação: com o


seu dom de oratória, tentou convencê-lo de que só dizia respeito a Deus, e à sua
vontade, o apogeu e a queda dos Impérios, ainda que os homens vivessem sob a capa do
orgulho, convencidos de que era deles essa responsabilidade.

Daniel (2:37-44) :

"Tu que dos reis és o rei, aquele a quem Deus ofereceu a realeza, o poder, a força e a
glória; aquele a quem entregou o domínio, onde quer que se achem, sobre os homens,
os animais terrestres e as aves do céu: é tua a cabeça de ouro. Depois de ti, aparecerá
um outro reino, o de prata, mas não tão grandioso; depois, virá um terceiro reino, o de
bronze. Esse reino dominará toda a Terra conhecida, mas não subsistirá. Assim, um
quarto reino emergirá, forte como o ferro. Ainda no tempo em que os reis do ferro
fizerem sentir a sua palavra, Deus, o Todo Poderoso, contribuirá para o surgimento de
um reino que jamais desaparecerá. Será esse o derradeiro.”

Daniel profetizou, assim, que à grandiosidade da Babilónia, suceder-se-iam outros


impérios, igualmente sumptuosos, mas que apenas o último, o quinto, subsistiria.
O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E A INTERPRETAÇÃO DO SONHO
BABILÓNICO;

Ao Padre António Vieira (1608 – 1697), o “Imperador da Língua Portuguesa”,


como lhe chamou Pessoa, deve-se o desenvolvimento da interpretação do mito do
Quinto Império. Vieira considerava que os quatro impérios descritos no sonho eram a
Assíria (de Nabucodonosor), a Pérsia, a Grécia e Roma. Depois disso, emergeria uma
espécie de Império Universal Cristão, o dito Quinto Império, liderado pelo Rei do
império Português.

Escreveu Vieira, no seu “História do Futuro”:

“Chamamos Império Quinto ao novo e futuro que mostrará o discurso desta nossa
História; o qual se há de seguir ao Império Romano na mesma forma de sucessão em
que o Romano se seguiu ao Grego, o Grego ao Persa e o Persa ao Assírio."

Assim, para Vieira, os Portugueses seriam, como os Hebreus, um povo eleito, só que a
Terra Prometida seria bem mais ampla: teriam, por missão, erguer o Quinto Império (do
Cristo) na Terra.

Apoiar o fado/destino de Portugal numa tarefa envolta em presságio (missão?), a partir


da releitura de textos bíblicos e das antigas profecias de Bandarra, o sapateiro-poeta de
Trancoso, era a forma de o Padre António Vieira acreditar que o seu pequeno país,
apesar do seu diminuto tamanho, tinha oferecido novas possibilidades ao mundo,
através da sua política ecuménica (acreditava) de criar/possibilitar ligações (pelo
diálogo). Logo, pelo desígnio de Deus, seria Portugal a nação “escolhida” para
encabeçar uma imensa fraternidade (universal, na essência).

No mesmo “História do Futuro”, Vieira profetizou, na figura de Dom João IV, “O


Restaurador”, talvez por necessidade de fervor patriótico (em altura complicada para a
soberania nacional) a realização desse reino intemporal e universal, sob a égide de
Cristo:
"Todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema
cabeça, todas as coroas se rematarão em um só diadema, e esta será a peanha da Cruz
de Cristo."

À mente, acorre-nos, no imediato, o elemento decorativo das velas das Naus


portuguesas durante o período áureo da nossa História: precisamente a Cruz de Cristo.

O Padre António Vieira cria num futuro Império marcado pela paz e justiça universais,
assente na fraternidade, procedente da mesma fé.

António Vieira foi, como é óbvio, controverso. Mas o seu “Quinto Império” teve
seguidores.
ANALEPSE ( OU A EVOCAÇÃO DO SAPATEIRO-POETA BANDARRA);

Gonçalo Annes Bandarra (1500 - 1556), popularmente conhecido por Bandarra, foi um
sapateiro, poeta e profeta popular, natural de Trancoso, Guarda. Era sapateiro de
profissão, assim como um estudioso das Escrituras do Antigo Testamento.

Bandarra dedicou-se, também, à escrita de profecias (de sua autoria) em verso.


Regularmente, fazia interpretações muito próprias de passagens do Antigo Testamento.

A sua obra, "Paráfrase e Concordância de Algumas Profecias de Bandarra", editada por


Dom João de Castro, foi interpretada como uma profecia para o regresso do Rei Dom
Sebastião, após este ter desaparecido a 4 de Agosto de 1578, na Batalha de Alcácer-
Quibir.

Pelo cômputo geral das suas acções, foi acusado, pelo Tribunal da Inquisição, de judiar.
As suas trovas foram proibidas. Acabou ilibado, mas foi obrigado a participar na
procissão do auto-de-fé, em 1541. Também foi proibido de interpretar a Bíblia ou de
escrever sobre assuntos relacionados com as Sagradas escrituras.

Faleceu em Trancoso, em 1556. Contudo, os seus escritos influenciariam,


decisivamente, a filosofia messiânica do Padre António Vieira.

Os três principais aspectos da sua profecia eram o Quinto Império, a ida e o regresso de
El Rey Dom Sebastião, assim como os destinos de Portugal.

Perceberemos como todos estão/estavam interligados.


DOM SEBASTIÃO, O SEBASTIANISMO E A INDEFINIÇÃO;

Dom Sebastião (1554 - ?) desapareceu em Alcácer-Quibir. Com ele, desaparece,


também, o Portugal soberano (e o da expansão marítima, rico e influente).

Do folclore português, fazem parte os constantes avistamentos de Dom Sebastião, ou as


estórias que o colocam “a ser curado das feridas de guerra na casa dos Távora, em
Guimarães”. Sem corpo, porque o que apareceu não era convicente (diziam ser de um
“suíço”), aparece uma corrente messiânica que foi baptizada de “Sebastianismo”:
aquela que defende que toda a decadência lusitana será ultrapassada com a vinda do
“Encoberto”, numa manhã de nevoeiro.

O Sebastianismo veste a capa de mito: quando há épocas de crise, ei-lo, acenando com a
esperança em melhores dias que estão por vir, à semelhança do mito do Quinto Império.
Foi assim que o Padre António Vieira apontou a Dom João IV, vendo nele a figura do
“Unificador”, ou o “Encoberto”.

O Quinto Império e o Sebastianismo: dois braços do mesmo tronco.


FERNANDO PESSOA E AS ILHAS AFORTUNADAS (OU DOM SEBASTIÃO
COMO PORTA-ESTANDARTE DO QUINTO IMPÉRIO);

"Grécia, Roma, Cristandade,


Europa – os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?"

Fernando Pessoa (1888 – 1935), na sua obra “Mensagem”, anuncia um novo império
civilizacional. À semelhança de Vieira, acredita que esse Império é/será português.

Um império imaterial.

A estrutura de Mensagem, livro editado um ano antes da sua morte (1934), divide-se em
três partes, correspondentes a três fases distintas da existência: Brasão, ou o
nascimento; Mar Português, ou o crescimento, a manifestação da acção e da vontade; O
Encoberto, a morte que é, na verdade, renascimento.

Este renascer, sob a égide do Quinto Império, é assim, em Pessoa, "A esperança do
Quinto Império, tal qual em Portugal a sonhamos e concebemos, não se ajusta, por
natureza, ao que a tradição figura como o sentido da interpretação dada por Daniel ao
sonho de Nabucodonosor. Nessa figuração tradicional, é este o seguimento dos
Impérios: o Primeiro é o da Babilónia, o Segundo o Medo-Persa, o Terceiro o da
Grécia e o Quarto o de Roma, ficando o Quinto, como sempre, duvidoso. Nesse
esquema, porém, que é de impérios materiais, o último é plausivelmente entendido
como sendo o Império de Inglaterra. Desse modo se interpreta naquele país; e creio
que, nesse nível, se interpreta bem. Não é assim no esquema português. Esse, sendo
espiritual, em vez de partir, como naquela tradição, do Império material de Babilónia,
parte, antes, com a civilização que vivemos, do Império espiritual da Grécia, origem do
que espiritualmente somos. Nós o atribuímos a Portugal, para quem o esperamos."
Essa crença, ou fé, ou esperança, no Quinto Império é uma “obsessão”. Numa entrevista
a Alves Martins, para a Revista Portuguesa nº 23-24, data de 13 de Outubro de 1923,
declarou:

"O Quinto Império. O futuro de Portugal – que não calculo, mas sei – está escrito já,
para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus.
Esse futuro é sermos tudo."

A terceira parte de “Mensagem” é uma ode à esperança num “Messias” que o Poeta
esperava. O “Messias” era Dom Sebastião.

Para Pessoa, O Quinto Império era uma variação do Sebastianismo, ou uma mescla de
ambos, trazendo para a luz a figura do Rei-Menino, desaparecido em combate.

O Poema “As Ilhas Afortunadas”, parte de “O Encoberto”, introduz Dom Sebastião


como o “porta-estandarte” dessa demanda, esperando, num lugar sem tempo, a hora do
seu retorno.

Pessoa eleva Dom Sebastião para lá do mito, transformando-o em revelação.

“Ilhas Afortunadas” é, por isso, o inconsciente que quer ser consciente, o sonho para lá
do sonho.
A RELEITURA DE AGOSTINHO DA SILVA: O IMPÉRIO DO ESPÍRITO
SANTO;

Agostinho da Silva, ao contrário do Padre António Vieira, buscava o Quinto Império


dentro de cada um, ou seja, começava por ser um “trabalho” pessoal, individual, para
depois o poder “espalhar” na realidade exterior, sem que para isso tivesse de passar
pelos círculos do poder instituído, sem imposições, mas antes com a sugestão.

A desumanização da sociedade preocupava, de forma profunda, Agostinho da Silva.

Agostinho acreditava naquilo que designava por “Império do Espírito Santo”, uma
sociedade sem classes económicas ou sociais, diversa e completa, onde cada um(a)
pudesse cumprir-se de acordo com as suas especificidades, numa filosofia de plenitude
para todos.

Foi a Joaquim de Fiore que Agostinho da Silva recorreu para urdir a sua própria
interpretação. Assim, ele dividia o tempo em três idades distintas: a idade do Pai, a do
Filho e a derradeira, a do Espírito Santo, ou a da compreensão.

Este “Império do Espírito Santo” remete para uma celebração que ocorria em Portugal,
no reinado de Dom Dinis. Aliás, as Festas do Espírito Santo ainda se celebram em
Tomar, agora designadas “Festa dos Tabuleiros” (de quatro em quatro anos), em Sintra
(Celebrações do Divino Espírito Santo), nos Açores (onde a Rainha Santa Isabel assume
uma simbologia muito importante) e no Brasil.

Assim, aquilo a que Vieira chamava “Quinto Império”, Agostinho designou por
“Espírito Santo”.

Numa das famosas entrevistas, parte do programa televisivo “Conversas vadias”,


Agostinho da Silva, à pergunta “acredita no Quinto Império?”, respondeu:

“É claro que acredito no Quinto Império, porque senão o acto de viver era inútil.”

Um Império que pudesse conduzir as pessoas até uma filosofia capaz de englobar a
todas, sem excepções.
“O Quinto Império será o restaurar da criança em nós e em nós a coroarmos
imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do império.”

Nas Festas do Espírito Santo, por exemplo, há uma criança que é, simbolicamente,
coroada.

Agostinho da Silva considerava que esta sua filosofia era procedente de um acto de fé,
ou transcendente, mas não religioso. E entenda-se fé por vontade, ou desejo, de ser mais
completo, ou de estar mais perto da plenitude. Só a fé justificará este almejado desígnio,
porque exige o apelo a uma gnose que não é física, ou visível. Na verdade, poderemos
substituir fé por outra palavra: Esperança.

E é a Esperança que pode(rá) fazer a diferença.


CONCLUSÃO (EM JEITO DE)

Podemos afirmar que estas visões referentes ao Quinto Império se complementam,


partindo de um princípio incontornável: a busca da/pela fraternidade universal a ser
vivido na Terra, tendo Portugal (ou os Portugueses) o papel de o anunciar (e
concretizar).

Essa transformação, ou purificação, fará, no mundo de hoje, sentido? Qual a


necessidade de acreditar numa Utopia?

A resposta parece-nos óbvia: O Ser Humano precisa de utopias para correr, sendo que o
vislumbre da meta, lá ao fundo, é necessário: cada passo na sua direcção alimentará, ou
ajudará a alimentar, o desígnio (ainda que a meta se vá, lentamente, afastando,
obrigando-nos a empregar outro e outro esforço).

Numa era profundamente material, a resposta deverá residir, também, no espírito, na


comunhão entre um e outro: no equilíbrio.

O Quinto Império é o caminho para o aperfeiçoamento da civilização. Poderá ser


Portugal a indicar a direcção?
BIBLIOGRAFIA;

VIEIRA, António; História do Futuro;

MARTINS, Alves; Entrevista a Fernando Pessoa; Revista Portuguesa nº 23-24, 13 de


Outubro 1923;

PESSOA, Fernando; O Quinto Império; Mensagem;

PESSOA, Fernando; As Ilhas Afortunadas; Mensagem;

QUADROS, António; Fernando Pessoa, Iniciação Global à Obra;

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