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ISSN 2446-7014

BOLETIM
GEOCORRENTE

ANO 4 • Nº 85 • 7 DE DEZEMBRO DE 2018

O Boletim Geocorrente é uma publicação quinzenal do Núcleo de NORMAS DE PUBLICAÇÃO


Avaliação da Conjuntura (NAC), vinculado à Superintendência de Para publicar nesse Boletim, faz-se necessário que o autor seja
Pesquisa e Pós-Graduação (SPP) da Escola de Guerra Naval (EGN). pesquisador do Grupo de Geopolítica Corrente, do NAC e submeta seu
O NAC acompanha a Conjuntura Internacional sob o olhar teórico da artigo contendo até 350 palavras ao processo avaliativo por pares.
Geopolítica, a fim de fornecer mais uma alternativa para a demanda
Os textos contidos neste Boletim são de responsabilidade única
global de informação, tornando-a acessível e integrando a sociedade
dos autores, não retratando a opinião oficial da EGN ou da
aos temas de segurança e defesa. Além disso, proporciona a difusão
Marinha do Brasil.
do conhecimento sobre crises e conflitos internacionais procurando
corresponder às demandas do Estado-Maior da Armada.
CORRESPONDÊNCIA
O Boletim tem como finalidade a publicação de artigos compactos
Escola de Guerra Naval – Superintendência de Pesquisa e Pós-
tratando de assuntos atuais de dez macrorregiões do globo, a saber:
Graduação.
América do Sul; América do Norte e Central; África Subsaariana;
Av. Pasteur, 480 - Praia Vermelha – Urca - CEP 22290-255 - Rio de
Oriente Médio e Norte da África; Europa; Rússia e ex-URSS; Sul da
Janeiro/RJ - Brasil
Ásia; Leste Asiático; Sudeste Asiático e Oceania; Ártico e Antártica.
TEL.: (21) 2546-9394 | E-mail: geocorrentenac@gmail.com
Ademais, algumas edições contam com a seção “Temas Especiais”.
O grupo de pesquisa ligado ao Boletim conta com integrantes de
Os textos do BOLETIM GEOCORRENTE poderão ser encontrados
diversas áreas do conhecimento, cuja pluralidade de formações e
na home page da EGN:
experiências proporciona uma análise ampla da conjuntura e dos
<https://www.egn.mar.mil.br/boletimgeocorrente.php>
problemas correntes internacionais. Assim, procura-se identificar
os elementos agravantes, motivadores e contribuintes para a
escalada de conflitos e crises em andamento, bem como seus
desdobramentos.

ESCOLA DE GUERRA NAVAL


SUPERINTENDÊNCIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
NÚCLEO DE AVALIAÇÃO DA CONJUNTURA
ÍNDICE
CONSELHO EDITORIAL
EDITOR RESPONSÁVEL
Leonardo Faria de Mattos (Egn)

EDITOR CIENTÍFICO
Francisco Eduardo Alves de Almeida (Egn)
AMÉRICA DO SUL
EDITORES ADJUNTOS Maduro e a “diplomacia do ouro”........................................................................ 3
Jéssica Germano de Lima Silva (Egn)
Noele de Freitas Peigo (Facamp)
AMÉRICA DO NORTE & CENTRAL
Pedro Allemand Mancebo Silva (Ufrj) Tensão em Tijuana............................................................................................. 3
________________________________________________________ Novo presidente mexicano: breves perspectivas futuras................................... 4
PEQUISADORES DO NÚCLEO DE AVALIAÇÃO DA CONJUNTURA
Ana Luiza Colares Carneiro (Ufrj)
Adriana Escosteguy Medronho (Ehess) ÁFRICA SUBSAARIANA
André Figueiredo Nunes (Eceme) Nigéria: pirataria e o mercado ilegal de hidrocarbonetos .................................. 4
Ariane Dinalli Francisco (Universität Osnabrück) Múltiplas crises na República Democrática do Congo ...................................... 5
Beatriz Mendes Garcia Ferreira (Ufrj)
Beatriz Victória Albuquerque da Silva Ramos (Egn)
Carolina Côrtes Góis (Puc-Rio) EUROPA
Carlos Henrique Ferreira da Silva Júnior (Ufrj) Momento de decisão no Reino Unido................................................................ 6
Daniel Santos Kosinski (Ufrj) Uma coalizão europeia de defesa emerge......................................................... 6
David Severo Pereira França Pinto (Uerj)
Dominique Marques de Souza (Ufrj)
Ely Pereira da Silva Júnior (Uerj) ORIENTE MÉDIO & NORTE DA ÁFRICA
Felipe Augusto Rodolfo Medeiros (Egn) Da retórica à realidade: o retorno das sanções dos EUA ao Irã........................ 7
Franco Napoleão Aguiar de Alencastro Guimarães (Puc-Rio)
Gabriela Mendes Cardim (Ufrj)
Gabriele Marina Molina Hernandez (Uff) RÚSSIA & EX-URSS
Giulianna Bessa Reis Anveres (Puc-Rio) As tensões no Mar de Azov e as eleições ucranianas....................................... 7
Glayce Kerolin Rodrigues Maximiano (Ufrj) Putin na Cúpula do Leste Asiático...................................................................... 8
Jéssica Pires Barbosa Barreto (Egn)
João Felipe de Almeida Ferraz (Ufrj)
João Miguel Villas-Boas Barcellos (Ufrj) LESTE ASIÁTICO
João Victor Marques Cardoso (Unirio) O terceiro elemento do poder marítimo chinês.................................................. 9
José Gabriel de Melo Pires (Ufrj)
Karine Fernandes Santos (Ufrj)
Laila Neves Lorenzon (Ufrj) SUL DA ÁSIA
Louise Marie Hurel Silva Dias (London School of Economics) Paquistão e Arábia Saudita: diplomacia econômica e parceria estratégica ..... 10
Marcelle Torres Alves Okuno (Ibmec)
Matheus Bruno Ferreira Alves Pereira (Ufrj)
Matheus Souza Galves Mendes (Egn) SUDESTE ASIÁTICO & OCEANIA
Pedro Emiliano Kilson Ferreira (Universidade de Santiago) Soberania à venda? a questionável aproximação China-Filipinas.................... 10
Pedro Mendes Martins (Eceme)
Pérsio Glória de Paula (Uff)
Philipe Alexandre Junqueira (Uerj) ANTÁRTICA & ÁRTICO
Rebeca Vitória Alves Leite (Ufrj) Groenlândia: aproximações com a China e a busca pela independência......... 11
Rodrigo Abreu de Barcellos Ribeiro (Ufrj)
Shakila de Sousa Ahmad (Ufrj)
Stefany Lucchesi Simões (Unesp) Artigos Selecionados & Notícias de Defesa........... 12
Taynara Rodrigues Custódio (Ufrj) Calendário Geocorrente......................................... 12
Thaïs Abygaëlle Dedeo (Université Sorbonne Nouvelle)
Referências............................................................ 13
Thayná Fernandes Alves Ribeiro (Ufrj)
Victor Cabral Ribeiro (Ufrj)
Victor Eduardo Kalil Gaspar Filho (Puc-Rio)
Vinícius de Almeida Costa (Egn)
Vinicius Guimarães Reis Gonçalves (Ufrj)
Vivian de Mattos Marciano (Ufrj)
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AMÉRICA DO SUL

Maduro e a “diplomacia do ouro”


Adriana Escosteguy

E m outubro, o International Crisis Group relatou o


assassinato de sete mineradores próximo à região
do “Massacre de Tumeremo” de 2016, na Venezuela
de narcóticos e, recentemente, do contrabando de
produtos básicos.
Não obstante o fracasso da estratégia em Orinoco,
(Boletim 37). No início de novembro, membros do Maduro tornou a reiterá-la em agosto passado, quando
Exército de Libertação Nacional (ELN) atacaram tropas do anúncio do novo plano econômico governamental
da Guarda Nacional da Venezuela, assassinando três para a saída da crise. Este incluía, entre outros pontos, a
oficiais e ferindo outros dez na fronteira com a Colômbia. viabilização da compra de ouro nacional pela população.
As duas regiões integram a área do Arco Mineiro do Em reação à medida, os Estados Unidos impuseram
Orinoco, que possui a segunda maior reserva aurífera novas sanções à Venezuela, proibindo investimentos
do mundo. Em 2016, o presidente venezuelano Nicolás americanos em Orinoco. Contrariamente ao que
Maduro decretou concessão à extração aurífera na região afirma Maduro, a crise venezuelana não é fruto das
para impulsionar a diversificação da base econômica do sanções americanas, mas sim do longo histórico de má
país, cuja produção petrolífera está em queda vertiginosa administração que culminou com a obsolescência da
desde 2014. capacidade tecnológica nacional de exploração de seus
Entretanto, a estratégia do governo fracassou. Poucas recursos naturais (Lezama, 2018). Destarte, Maduro busca
companhias investiram efetivamente na região, e a aprofundar alianças para reverter o caos econômico pela
crescente e desordenada extração ilegal vem provocando “diplomacia do ouro”. Projetos de investimento conjunto
o escalonamento de conflitos entre diferentes grupos em Orinoco foram avaliados em novembro pelo ministro
armados pelo controle das minas. Outrossim, a suspensão do Desenvolvimento Mineiro da Venezuela, Víctor
das negociações de paz com o ELN pelo recém-eleito Cano, junto ao embaixador russo, Vladimir Zaemskiy.
presidente colombiano, Iván Duque, facilitou o avanço Ademais, a aproximação venezuelana com a Turquia se
da presença do grupo em Orinoco, agravando a já dá sob as mesmas bases. A administração turca importou
conflituosa relação entre Colômbia e Venezuela (Boletim mais de 20 toneladas de ouro venezuelano em 2018,
82). A fronteira já padecia da intensa atividade do tráfico contra nenhuma em 2017.

AMÉRICA DO NORTE & CENTRAL

Tensão em Tijuana
Victor Cabral

A pós 5.000 km de caminhada, cansaço, fome, abrigos


insalubres e ameaças por parte do governo Trump de
não terem seus pedidos de asilo humanitário reconhecidos,
dos governos mexicano e estadunidense. López Obrador,
recém-empossado presidente do México, afirma que
acolherá os solicitantes de asilo em seu país e que lhes
cerca de 500 membros da caravana de migrantes centro- proverá emprego, saúde e educação, além de respeitar
americanos se manifestaram e alguns tentaram atravessar seus direitos.
à força a cerca fronteiriça entre Tijuana (México) e San Seja a pé ou em comboios de carros e ônibus, as
Diego (Estados Unidos), no dia 25 de novembro. Com quase 10 mil pessoas saídas de Honduras, Guatemala,
quase 50 detidos e centenas de feridos, a caravana segue El Salvador e Nicarágua se motivaram pela esperança
estacionada enquanto os agentes da fronteira norte- de viver sem medo de grupos armados do narcotráfico e
americana recebem e analisam os requerimentos de asilo. das milícias, que transformam esses países em alguns dos
Autoridades internacionais dos Direitos Humanos pedem mais violentos do mundo.
respeito às leis internacionais e não-violência por parte A turbulenta reeleição de Juan Orlando Hernandez

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como presidente de Honduras há quase um ano, não responsável por ter planejado a caravana de migrantes,
reconhecida pela Organização dos Estados Americanos originada no país em meados de outubro. A ideia seria
(OEA), observadora internacional do processo, trouxe à incentivar um fluxo migratório seguro, sem os riscos de
tona o desejo dos partidos de oposição de enfraquecê- abusos físicos, sexuais e roubos ao longo da travessia até
lo. Os altos índices de homicídios, aumento da pobreza os EUA, diferentemente da realizada pelos coyotes. O
e violência interna, casos de corrupção e acusações plano expôs para todo o mundo a realidade dos que fogem
de fraude eleitoral são elementos centrais da situação da fome, do medo e da violência na América Central.
hondurenha. A oposição do país é vista como a principal

Novo presidente mexicano: breves perspectivas futuras


Carolina Côrtes

N o dia 1º de dezembro, Andres Manuel Lópes


Obrador (AMLO), assumiu a presidência do
México, não só rompendo com o ciclo de governos
mexicana do setor petroquímico, devido à incerteza na
estratégia e no futuro da empresa, como possíveis cortes
de gastos e reformas previdenciárias.
conservadores e centristas que ocuparam o cenário político Em relação à política externa, a nova gestão mexicana
mexicano até então, como também indo contrariamente terá um grande desafio com questões migratórias, por
ao modelo neoliberal adotado por alguns vizinhos, como ser uma região de passagem para imigrantes centro-
Brasil e Estados Unidos, ao adotar um posicionamento americanos que pretendem chegar aos EUA. Apesar
mais voltado à esquerda política. Seu mandato durará de apoiar o plano de Trump para mudar a política de
seis anos (até 2024), no entanto, há uma promessa por fronteira entre os dois países — refugiados deverão
parte do mandatário de se convocar um referendo, após esperar no México enquanto o processo segue pelos
três anos, para que a população decida se ele completará tribunais estadunidenses — AMLO defende a proteção
o tempo determinado para o cargo. da população centro-americana que busca refúgio. Outra
AMLO venceu as eleições de julho de 2018 com questão crítica será a relação do país latino-americano com
a promessa de consolidar a paz no país através da o Brasil, pois ambos possuem um histórico de rivalidade
legalização das drogas, anistias, instalação de comissões no quesito liderança regional, e com os atuais cenários
da verdade e justiça transnacional, com o objetivo de presidenciais há uma grande possibilidade do aumento
reduzir a violência endêmica e a crise de corrupção de tensões com consequências negativas, principalmente
estatal que assolam o país. No entanto, ainda carece de no que diz respeito à competição por capital estrangeiro,
detalhes do caminho a ser adotado. Na economia, o novo exacerbado pelo antagonismo chinês e estadunidense que
presidente é visto como uma ameaça à Pemex, estatal buscam maior preponderância na região.

ÁFRICA SUBSAARIANA

Nigéria: pirataria e o mercado ilegal de hidrocarbonetos


Vivian Mattos

O s relatórios trimestrais da International Maritime


Bureau (IMB) deste ano mostram que o Golfo da
Guiné, situado no Atlântico Sul, é o espaço oceânico
África, predominantemente em águas nigerianas, com
41 casos. Apesar dos ataques ocorrerem com vários tipos
de embarcações, as ocorrências na Nigéria e países do
mais perigoso para o transporte marítimo do mundo. De entorno, em sua maioria, são contra navios petroleiros.
janeiro a setembro de 2018 ocorreram cerca de 156 casos O modus operandi na região é o roubo de carga,
de pirataria e roubo armado em escala mundial, sendo corroborando com o crescimento do mercado ilegal de
que 57 desses ataques ocorreram na costa ocidental da petróleo na África Ocidental.

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As ações de pirataria, de roubo armado e contrabando a venda ilegal do “ouro negro”. Consequentemente, os
de hidrocarbonetos têm impactado negativamente no acréscimos de gastos com segurança marítima e portuária
crescimento da economia nigeriana, pois o país tem 87,7% provocam um aumento no valor final dos produtos da
da sua pauta exportadora voltada para esse mercado. Tais região.
ações geram insegurança no tráfego marítimo da região Apesar do crescimento das ameaças marítimas,
e tem influenciado diretamente na elevação dos preços especialmente da pirataria e do roubo armado no Golfo
dos seguros e no custo do frete, visto que ambas as taxas da Guiné, a Nigéria e os demais países do entorno têm
aumentaram mais de 6 vezes ao longo do ano. Estima-se trabalhado coordenadamente com outros atores não
que somente a Nigéria perdeu cerca de US$ 2,74 bilhões africanos. Ademais, a Nigéria tem reforçado alguns
em 4 anos com o pagamento de sobretaxas relativas a procedimentos de revista portuária para dissuadir ataques
seguros de navios e cargas. Em relação ao mercado ilegal piratas e desarticular o mercado ilegal de petróleo que tem
de petróleo, um estudo da Universidade de Yale calculou lesado a indústria de hidrocarbonetos na região.
que a Nigéria perde cerca de US$ 1,5 bilhão por mês com

Múltiplas crises na República Democrática do Congo


David Severo

A República Democrática do Congo (RDC) tem sido


palco de diversos episódios de crise e violência nos
últimos dois anos. No dia 15 de novembro, oito capacetes
de 17.000 soldados e policiais, mas sem um contingente
do Brasil. O trabalho da ONU tem sido duplamente
dificultado nos últimos meses: por um lado, grupos
azuis da Organização das Nações Unidas (ONU) foram armados rebeldes sabotam sistematicamente o combate
mortos em uma operação conjunta contra os rebeldes ao surto de ebola, com a destruição de equipamentos,
armados no leste do país. Além disso, o país vive uma sequestros e assassinatos de membros das equipes
intensa crise política (Boletins 54 e 68), pois não se tem médicas. Por outro lado, o número grande e crescente
conseguido eleger um novo presidente para substituir de grupos armados faz com que a estabilidade política
Joseph Kabila, que ocupa o poder desde 2001. Por fim, nacional seja adiada.
a RDC tem vivido o pior surto de ebola da história, em A eleição presidencial na RDC está marcada para
que milhares de pessoas já morreram ou não conseguem o dia 23 de dezembro deste ano. Apesar da crise ainda
acessar os meios necessários para se tratarem. A Missão não ter sido solucionada devido à imensa desconfiança
das Nações Unidas na República Democrática do Congo que a oposição tem sobre o atual presidente, o governo
(MONUSCO), operação de paz atualmente em curso no sinalizou que não será necessária a ajuda externa para
país, tem se esforçado para evitar que o panorama seja conduzir as eleições. A expectativa é de que com uma
mais dramático. sucessão presidencial minimamente pacífica, o país
O atual comandante da MONUSCO é o general consiga ter um alento para buscar soluções para a crise
brasileiro Elias Martins e conta com um grupo de mais de saúde pública e para a crise política.

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EUROPA

Momento de decisão no Reino Unido


Matheus Mendes

A pós a aprovação do acordo de retirada do Reino


Unido da União Europeia (UE), o governo
britânico buscará a anuência do Parlamento do país no
de tarifa única", evitando o backstop. Entretanto, essa
proposta não agrada ao DUP (democratas unionistas),
partido da Irlanda do Norte que compõe o governo e
próximo dia 11 de dezembro para que o processo tenha é contrário à ideia de uma fronteira rígida. Por fim,
prosseguimento. Tal acordo foi consumado a partir de a questão pesqueira também será resolvida durante
um documento de quase 600 páginas (Draft) abordando o período de transição (março de 2019 a dezembro de
diversas questões pertinentes ao Brexit. Entretanto, 2020). Nesse ponto, apesar de os países europeus terem
muitas críticas surgiram, sobretudo em questões sensíveis acordado unanimemente com o texto apresentado pelo
como: Gibraltar; o backstop (política a ser adotada para Reino Unido, serão travadas muitas discussões sobre as
evitar um controle de fronteira mais rígido na Irlanda); e a cotas de pescado, bem como a economia de subsistência
questão da pesca. O grande desafio da primeira-ministra de países próximos à região.
Theresa May é aprovar o Draft dentro de seu país. Um relatório do King's College London apontou que
Apesar de o governo espanhol ter afirmado aos o Reino Unido pode ter uma queda de até 5,5% em seu
britânicos que não usaria Gibraltar como barganha para PIB per capita nos próximos 10 anos, caso o projeto
as negociações do Brexit (Boletim 59), ambos os países atual passe pelo Parlamento. Mas, se os deputados não
entraram em um acordo e qualquer assunto envolvendo aceitarem e propuserem outro acordo que não seja do
o enclave obrigatoriamente envolverá a Espanha, mas a interesse da UE, esse valor pode chegar a 8,7% nesse
questão da soberania não será colocada em pauta. No que período. A tentativa do governo britânico é fazer um
diz respeito à Irlanda do Norte, o texto conta com um acordo que minimamente funcione para o país e para o
protocolo que estabelece algumas diretrizes. Na prática, bloco. Apesar disso, há muita resistência da oposição e
a Irlanda do Norte, assim como o restante do Reino interesse de correligionários de retirar Theresa May do
Unido, permaneceria na UE sob um regime de "território cargo de primeira-ministra.

Uma coalizão europeia de defesa emerge


Thaïs Dedeo

N o dia 7 de novembro, em Paris, foi formada a


primeira coalizão europeia de defesa. Alemanha,
Bélgica, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia,
Trump, que considerou a iniciativa ofensiva à OTAN
e cobrou o cumprimento da taxa dos 2% do PIB em
investimentos de defesa.
França, Holanda, Portugal e Reino Unido formaram Horas após a resposta de Trump, a chanceler alemã
uma aliança entre as Forças Armadas europeias prontas Angela Merkel fez um discurso histórico no parlamento
a reagir em caso de crises militares e humanitárias em europeu, no qual apoiou seu homólogo francês, propondo a
regiões próximas ao continente. Com o objetivo de criação do Conselho de Segurança Europeu com assentos
aumentar a interoperabilidade e facilitar ações conjuntas, rotativos para agilizar decisões de política externa de
essa coalizão representa o primeiro passo da Iniciativa de forma unânime, sem ter que esperar a aprovação nos 27
Intervenção Europeia (IIE). parlamentos nacionais. Ademais, a chanceler afirmou
Como abordado no Boletim 62, o conceito da IIE foi que uma defesa europeia seria um complemento à OTAN,
criado pelo presidente francês Emmanuel Macron em lembrando que ambas organizações possuem quase os
setembro do ano passado visando formar uma força de mesmos membros.
intervenção europeia e uma cultura estratégica de defesa A busca por uma Europa de defesa autônoma pode
comum. Em novembro, Macron reafirmou a ideia de se ser entendida como resultado da imprevisibilidade da
criar um “exército europeu independente dos Estados administração Trump, das interferências cibernéticas
Unidos”, o que gerou tensões com o presidente Donald nas últimas eleições europeias, a anexação da Crimeia

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e a recente detenção de navios ucranianos por parte da dificuldade em cumprir o orçamento requisitado pela
Rússia. Entretanto, a defesa europeia independente, OTAN. Ademais, Merkel pode estar no fim de sua
ainda é embrionária, apesar de avanços importantes carreira e seu sucessor pode não apresentar a mesma
como a criação da Cooperação Estruturada Permanente vontade política. Se esses países não forem capazes de
e do Fundo Europeu de Defesa. Na prática, é altamente manter um crescimento dos seus orçamentos de defesa,
dependente da França e da Alemanha, que enfrenta tais iniciativas poderão não vingar.

ORIENTE MÉDIO & NORTE DA ÁFRICA

Da retórica à realidade: o retorno das sanções dos EUA ao Irã


Shakila Ahmad

N o dia 5 de novembro, o presidente estadunidense


Donald Trump implementou novas sanções ao Irã,
aumentando ainda mais as preocupações quanto a um
Médio e ampliar conflitos sectários da Síria ao Iêmen,
uma vez que o Irã aumentaria a sua posição estratégica
frente aos interesses dos EUA na região, buscando
possível conflito envolvendo ambos os países. Os Estados aumentar o custo da presença norte-americana.
Unidos impuseram sanções financeiras e petrolíferas ao À sombra dos fatores supracitados, a percepção de
Irã, ampliando significativamente a pressão sobre Teerã tensão coloca o debate sobre um possível conflito cada
para conter seus supostos programas de armas nucleares vez mais evidente. A retirada dos EUA do acordo nuclear
e levar o atual presidente iraniano, Hassan Rouhani, à estimulou vozes poderosas no Irã, pressionando pela
mesa de negociações. retirada do país do Tratado de Não Proliferação de Armas
Em 2015, o ex-presidente Barack Obama assinou o Nucleares (TNP) e por seguir o modelo norte-coreano
acordo nuclear multilateral destinado a monitorar e limitar de modo a também levar os Estados Unidos à mesa de
o programa nuclear do Irã. O acordo estabeleceria que negociações. Por um lado, este cenário marcaria o pior
esse não possuísse caráter militar e fosse exclusivamente ponto na história das relações EUA-Irã e anunciaria um
pacífico, em troca da retirada das sanções internacionais potencial conflito no Oriente Médio, com custos ainda
sobre a economia do país. Ao analisar esse contexto, mais elevados para o norte-americanos do que já foi a
poucos previam que seu sucessor não apenas se retiraria invasão do Iraque em 2003. Por outro lado, se a Rússia, a
do acordo, como reintroduziria as sanções. A problemática China e, mais importante, a Europa como um todo agirem
desse cenário tem como consequência direta a relação de forma pró-ativa para defender o acordo e se opuserem
entre Estados Unidos e o Irã, dado que dificulta o diálogo aos esforços adicionais dos EUA para enfraquecê-lo, há
regional e a cooperação. Cabe ressaltar que esse quadro uma chance do Irã permanecer no acordo.
poderia ocasionar uma corrida armamentista no Oriente

RÚSSIA & Ex-URSS

As tensões no Mar de Azov e as eleições ucranianas


Pedro Martins

N o dia 25 de novembro, dois navios patrulha e um


rebocador ucranianos saíram do porto de Odessa
em direção aos portos de Mariupol e Berdyansk no Mar
estreito, enquanto o governo russo acusa Kiev de fazer
“manobras perigosas” em águas territoriais russas e de
não avisar antecipadamente sobre a passagem dos navios
de Azov. Ao chegar no estreito de Kerch, que separa a de guerra ucranianos.
península da Crimeia do território continental da Rússia, Esse episódio faz as tensões entre Kiev e Moscou
foram interceptados pela Marinha russa, culminando atingirem os patamares mais elevados desde a eclosão
na presente tensão. O governo ucraniano acusa sua da crise ucraniana, no final de 2013. Como resposta, o
contraparte russa de agressão e de violar tratados Conselho de Segurança Nacional e de Defesa da Ucrânia
internacionais e bilaterais sobre a navegação nesse recomendou ao presidente Poroshenko a decretação de

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Lei Marcial por 60 dias, mas o presidente submeteu o maior importância e incertezas a este, sendo mister seu
pedido ao parlamento ucraniano limitado a 30 dias e a acompanhamento.
dez regiões do país (aproximadamente 50% do território).
Para muitos críticos do atual presidente, o mencionado
decreto no país é visto como uma forma de capitalizar
em cima do incidente, tendo em vista que Poroshenko
está em empate técnico nas pesquisas de intenção de
voto para as eleições presidenciais de março de 2019
com Volodymyr Zelenski e poucos pontos percentuais à
frente do ex-ministro da Defesa Anatolii Hrytsenko e do
candidato pró-Rússia Yurii Boyko.
Deve-se acrescentar que as eleições estão marcadas
por uma severa indecisão do eleitorado ucraniano.
Segundo a última pesquisa realizada pelo Kiev
International Institute of Sociology em setembro, 26,6%
do eleitorado ucraniano não tinha se decidido em quem
votar enquanto cerca de 12,6% havia decidido não votar
em candidato algum. Nesse sentido, a atual tensão entre
a Ucrânia e a Federação Russa terá inegáveis impactos
no pleito presidencial ucraniano de 2019, o que confere

Fonte: Stratfor

Putin na Cúpula do Leste Asiático


Pérsio Glória

A recente participação do presidente russo Vladimir


Putin na Cúpula do Leste Asiático (CLA), que
ocorreu junto à Cúpula da Associação de Nações do
O crescimento do número de compradores dos
equipamentos militares russos tem causado reações
adversas no cenário internacional. Além das vendas para
Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês) entre os parceiros tradicionais, como a China e a Índia, a Rússia
dias 14 e 15 de novembro, em Singapura, demonstrou a logrou estabelecer novos contratos, não só com países do
relevância dos setores energético e de venda de armas Terceiro Mundo, que aproveitam a burocracia reduzida
na inserção diplomática russa, além de reforçar suas e os preços baixos russos, mas também com países
intenções de aproximação com os países da região. Essa próximos ao Ocidente, incluindo a Turquia, membro da
tendência se confirma pelos acordos selados com o país OTAN, que encomendou os modernos sistemas de defesa
anfitrião do evento, que investirá no desenvolvimento de antiaérea "S-400".
um polo petroquímico no Tartaristão, e pelos encontros Os Estados Unidos criaram ferramentas de
bilaterais com os líderes da Malásia e da Indonésia, pressão para tentar coibir tal crescimento, entre elas o
com os quais se discutiram a venda de armamentos e o Countering America's Adversaries Through Sanctions
aprofundamento das relações econômicas e militares. Act (CAATSA), que prevê sanções contra os países e
Ao se aproximar dessa região, que recebeu 12% do empresas compradores de determinados equipamentos
total de armamentos russos exportados entre 2013 e russos. Apesar da medida ter gerado contenciosos com
2017, Moscou pretende amenizar os efeitos das sanções a China e a Índia, ela é amparada pela preocupação
ocidentais e evitar um isolamento diplomático. A venda de que Moscou consiga romper efetivamente o
de armamentos e a cooperação militar têm tido um papel cerco diplomático ocidental. Outra preocupação é o
instrumental crescente na política externa russa, para fornecimento de armamentos capazes de deteriorar as
além da histórica lógica econômica-comercial do setor, condições geoestratégicas norte-americanas frente aos
e passando a servir cada vez mais como ferramenta seus adversários, como o Irã e a Síria, que receberam
diplomática e geopolítica. sistemas "S-300" da Rússia em 2018.

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LESTE ASIÁTICO
O terceiro elemento do poder marítimo chinês
Vinicius Costa

N o dia 9 de novembro de 2018, ocorreu um


importante fórum chamado Diálogo Diplomático e
de Segurança EUA-China. Nele, o secretário de Defesa
Desde 2015, sediada na cidade de Sansha, no
arquipélago das Paracels, a PAFMM desenvolve unidades
de dedicação exclusiva cada vez mais profissionalizadas,
norte-americano James Mattis ressaltou a atuação do militarizadas e bem pagas. Seu inventário consta de 84
chamado Terceiro Elemento do Poder Marítimo da embarcações equipadas com hidro-canhões montados em
República Popular da China (RPC), a Milícia Marítima mastros e cascos de aço reforçados. Já foram empregadas
das Forças Armadas do Povo (PAFMM, em inglês). em diversos episódios: Ilhas Paracels Ocidentais do
A PAFMM se trata de uma instituição marítima Vietnã (1974); incidente com as Filipinas em Mischief
chinesa que atua em uma zona “cinzenta” civil-militar. Reef (1995); aproximação do USS “Impeccable” (2009) e
É constituída de pescadores, trabalhadores marítimos e “Howard O. Lorenzen” (2014); bloqueio do Scarborough
militares reformados da PLA, que atuam com embarcações Reef (2012); expulsão de navios vietnamitas de águas
voltadas a pesca, mas que recebem treinamento para próximas à plataforma petrolífera "HYSY-981" da
as contingências em tempo de paz e tempo de guerra, CNOOC (2014); e bloqueio contra as Filipinas em Sandy
inclusive com armas leves por parte da PLA Navy com Cay na Ilha Thitu, onde a RPC mantêm pelo menos dois
intuito de dar suporte aos interesses do Estado. Opera navios da PAFMM desde agosto de 2017.
sob uma estrutura hierárquica militar, tendo Xi Jinping O emprego de tal instituição possui três implicações
como comandante. É empregada em operações civis- geopolíticas: a ambiguidade proposital do status jurídico
militares de forma não declarada, em “lutas de proteção da PAFMM dificulta um combate jurídico-militar
de direitos marítimos de baixa intensidade”, projetada simétrico, afastando reclamações internacionais legais;
para “frustrar” legalmente a resposta efetiva das outras favorece o controle e mesmo o domínio de extensas
instituições marítimas envolvidas, especialmente em porções do MSC por meio da presença permanente; e,
reivindicações de soberania em incidentes marítimos nos por fim, constitui uma ferramenta estatal econômica, de
mares do Sul e do Leste da China. rápido preparo e emprego material e humano.

Fonte: andrewerickson

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SUL DA ÁSIA

Paquistão e Arábia Saudita: diplomacia econômica e parceria estratégica


Rebeca Leite

N o dia 14 de novembro, participaram de um encontro


o primeiro-ministro paquistanês, Imran Khan, e
o embaixador saudita no Paquistão, Nawaf Saeed Al
entre os líderes, do que exatamente por tratados formais.
Assim, atualmente, os países estão discutindo aprofundar
e formalizar laços no setor de defesa. Existem cerca de
Maliky. Durante a reunião, foram abordados tópicos 1.200 militares paquistaneses treinando militares sauditas
de interesse mútuo e questões bilaterais, tais como em diversos setores das Forças Armadas e de Segurança.
economia e defesa. Tal encontro está relacionado com Além disso, recentemente, diálogos e intercâmbio de
o conceito chave da política externa do novo governo delegações entre os dois países também estão sendo
paquistanês: a diplomacia econômica. Conforme conduzidos com o objetivo de explorar investimentos em
mencionado no Boletim 81, o Paquistão está buscando defesa e compartilhamento de inteligência no combate
estreitar laços com a Arábia Saudita visando mitigar as ao terrorismo.
dívidas decorrentes dos empréstimos chineses, fato que, A ideia da aproximação com a Arábia Saudita é
associado a questões estruturais de corrupção, culminou iniciar um relacionamento de segurança interdependente
na atual crise econômica que o país atravessa. Após o e pragmático, pois, apesar de também dialogar com o Irã,
encontro, foi anunciado que Riad transferirá a primeira o Paquistão deixou claro que apoia os interesses sauditas
parcela da ajuda financeira, no valor de US$ 3 bilhões, à em se proteger contra a interferência iraniana no Golfo,
Islamabad. ao passo que a Arábia Saudita está fortalecendo laços
Em termos de política internacional, ao longo da estratégicos com a Índia, e alegou que não pretende que
história do Paquistão, é possível identificar movimentos isso prejudique sua relação com Islamabad. Em resumo,
pendulares entre Arábia Saudita e Irã. No entanto, desde a relação bilateral parece estar caminhando para um nível
a posse de Khan, o pêndulo está mais inclinado para Riad, estratégico, tornando importante o acompanhamento
transcendendo os aspectos econômicos dessa relação. destas negociações, haja vista o impacto deste cenário
A relação entre Paquistão e Arábia Saudita sempre foi na dinâmica de poder e interesses geopolíticos na região
conduzida mais pela qualidade das relações pessoais do Índico.

SUDESTE ASIÁTICO & OCEANIA


Soberania à venda? a questionável aproximação China-Filipinas
Thayná Fernandes

N os últimos dias 20 e 21 de novembro, o presidente


Xi Jinping visitou as Filipinas após 13 anos desde
a última visita de um chefe de Estado chinês. Xi foi bem
à Corte Internacional de Haia, cuja decisão favoreceu as
Filipinas, apontando que os chineses não possuíam bases
jurídicas para reclamar territórios na região.
recebido por Rodrigo Duterte e, apesar de breve, sua Desde que assumiu o governo, Duterte tem
estada possibilitou a assinatura de 29 acordos bilaterais. surpreendido a Comunidade Internacional e tornou-
A visita levantou muitos questionamentos a respeito se alvo de diversas críticas, especialmente por seu
da cada vez maior proximidade diplomática Manila- modelo de “guerra às drogas”. Uma de suas primeiras
Pequim: embora a maioria dos acordos firmados ações foi declarar afastamento dos tradicionais laços
envolva o investimento chinês em empréstimos para com os Estados Unidos firmados, principalmente, por
infraestrutura, visando ao melhor apoio das Filipinas à um acordo mútuo de segurança em vigor desde 1951.
iniciativa Belt and Road. A principal desconfiança gira Embora muitos apoiadores do governo filipino tenham
em torno da possibilidade de um tratado que estabeleceria apontado a cooperação conjunta com Pequim como um
a exploração conjunta de óleo e gás e outros recursos possível passo em direção à pacificação e estabilidade
minerais na região do Mar do Leste filipino, área no território, outros acreditam que seria a abdicação da
disputada pelos dois países por ser parte das reclamações soberania nacional e ferimento grave à constituição do
do Mar do Sul da China. Em 2016, tal contenda foi levada país.

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Conforme apontado por Mendoza e Banaag (2018), investimentos chineses sejam importantes à economia
apesar das iniciativas diplomáticas, em comparação com filipina, há sempre a desconfiança sobre a possibilidade
outros Estados e blocos econômicos, em 2017 o capital do super endividamento do país como estratégia para
chinês investido em Manila representava apenas 0,9% do imposição das vontades do Estado credor. Assim, com
total, enquanto os EUA figuravam em terceiro lugar com disputas crescentes no Mar do Sul da China, torna-se
14,4%; ao mesmo tempo em que o comércio bilateral difícil crer que a maior proximidade Manila-Pequim vise
aumentou cerca de 30% no período 2017-2018. Embora apenas à “pacífica e amigável prosperidade regional”.

ÁRTICO & ANTÁRTICA

Groenlândia: aproximações com a China e a busca pela independência


Pedro Silva

N o mês de novembro, o governo da Groenlândia


fez uma alteração em sua estratégia de exploração
de petróleo e gás, que passou a priorizar os campos
de transportes que pouco auxilia na integração territorial.
Com uma economia extremamente dependente da pesca,
o governo groenlandês também depende de repasses da
onshore nas concessões que serão feitas a partir de coroa dinamarquesa que representam mais da metade das
2021. No mesmo mês, o ministro da indústria e energia receitas do governo da ilha.
da Groenlândia, Aqqalu Jerimiassen, fez uma visita à Além de petróleo e gás, a Groenlândia também conta
China, em um evento na embaixada dinamarquesa, onde com recursos minerais em seu território e o self-rule
encontrou representantes das duas maiores empresas de alcançado pelo movimento de independência permite ao
petróleo - a China National Petroleum Corp (CNPC) e governo da ilha algum grau de liberdade na gestão de
a China National Offshore Oil Corp (CNOOC) - bem tais recursos. Os recentes ensaios de aproximação com
como autoridades chinesas do ramo da energia. Em a China se deram em dois campos: o da infraestrutura,
uma entrevista, Jerimiassen explicitou que a mudança com a questão da seleção de empresas para reformas
dos aeroportos do país, e o da exploração de petróleo e
da estratégia visa acelerar a geração de receitas para o
gás. Essa aproximação, que visa diversificar a economia
estado.
groenlandesa, criando novas fontes de receita para
Um dos objetivos de longo prazo do governo
o governo, viabilizando a independência, pode, no
groenlandês é sua emancipação da Dinamarca. Dos sete
entanto, gerar tensões, especialmente com Dinamarca
partidos que compõem o Inatsisartut (parlamento da
(a metrópole) e com os EUA. A chegada do capital
ilha), apenas um se declara contrário à independência.
chinês no papel de fiador da independência groenlandesa
O país, no entanto, tem uma população reduzida e o
tem como contrapartida o potencial de desestabilizar o
desenvolvimento da atividade econômica sofre com as
cenário regional.
condições climáticas adversas e com uma infraestrutura

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ARTIGOS SELECIONADOS E NOTÍCIAS DE DEFESA

• DEFENSE ONE, Patrick Tucker • FOREIGN AFFAIRS, Sulmaan Khan


The Us Military is Genetically Avoiding War Between America And
Engineering New Life Forms To Detect China
Enemy Subs
• CSIS, Nikos Tsafos
• GEOPOLITICAL FUTURES, Xander Snyder Qatar leaves OPEC
The Oil Price Is Now Controlled By Just
Three Men • RSIS, Pradumna B. Rana, Xianbai Ji
G20 at Ten: Time For Greater
• CARNEGIE, Alexander Baunov Multilateral Role
What Drives The Russian State
• EL PAIS, Marc Bassets
• PROJECT SYNDICATE, John A. Mathews, Mark Macron Cede Ante Los ‘Chalecos
Selden Amarillos’
The Rise Of The “Petroyuan”
• WASHINGTON POST, David Ignatius
• STRATFOR The U.S. Needs To Learn How To Win
The Next Phase Of The Syrian Conflict Wars Without Fighting
Could Be The Most Damaging

CALENDÁRIO GEOCORRENTE

DEZEMBRO JANEIRO

1
11 Posse do presidente eleito do
Votação do Brexit pelo Brasil
Parlamento Britânico
Saída do Qatar da OPEP
12
Visita do Primeiro Ministro
Indiano ao Nepal

13 e 14
European Council Meeting

23
Eleições presidenciais na
Rep. Democrática do Congo

30
Eleições gerais em Bangladesh

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BOLETIM GEOCORRENTE • ISSN 2446-7014 • N. 85 • Dezembro | 2018

REFERÊNCIAS

• Maduro e a “diplomacia do ouro”


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• Novo presidente mexicano: breves perspectivas • Putin na Cúpula do Leste Asiático


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