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Fernando Pessoa e a cultura pop: uma aula no Ensino Médio

Júlia Nunes Azzi


Mariana Backes Nunes

1. Introdução
Nosso projeto de ensino tem por objetivo a criação de um plano de aula para
Ensino Médio para a disciplina de Literatura que leve a obra de Fernando Pessoa até a
realidade palpável dos alunos contemplados. Criamos um planejamento que tem por
objetivo permitir aos alunos tomar consciência da figura de Fernando Pessoa, além de
conseguir relacioná-lo com suas próprias vivências. Consideramos que a importância
de Pessoa para a literatura é inegável e que é importante para a formação
humanizadora do aluno enquanto leitor entrar em contato com sua obra, não
enquanto mera exposição de princípios estéticos, mas como contato real com aquilo
que o autor escreveu. Além de propiciar o contato com as palavras de Pessoa, é
importante criar uma relação de proximidade de sua obra com os alunos para que
estes possam perceber Pessoa – e a poesia no geral – não como algo elevado e
distante, mas como algo que possa entrar em diálogo com seus contextos culturais.

2. Sumário das aulas


As aulas compreenderiam atividades de leitura e interpretação dos poemas pelos
alunos, uma exposição dialogada sobre Fernando Pessoa e sua obra e uma produção
ativa do aluno relacionando-se ao tema trabalhado. As atividades foram pensadas para
três aulas de dois períodos tendo como público alvo uma turma de 1º ano do Ensino
Médio de uma escola pública, entretanto este projeto pode ser aplicado em outras
turmas com certas adaptações.
Primeiramente, buscaríamos levar aos alunos um primeiro contato com a escrita
de Fernando Pessoa e permitir que eles tenham essa primeira experiência de leitura.
Assim, seriam distribuídos aos alunos quatro poemas com características
representativas de cada heterônimo (“Autopsicografia”¹ - de Fernando Pessoa -,

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“Poema em linha reta”² - de Álvaro de Campos -, “XXIV” - In O guardador de rebanhos³,
de Alberto Caeiro - e “Segue o teu destino”4 - de Ricardo Reis), e seriam informadas
micro-biografias de cada um deles para que os alunos vissem como os quatro poetas
têm nomes e histórias bem diferentes (além de estéticas diferentes). A princípio não
seria dada aos alunos a informação de que os heterônimos tratam-se da criação de um
mesmo poeta. Eles leriam com a percepção de serem autores diferentes, e apenas em
um segundo momento é que seria dada a revelação. Os alunos leriam individualmente
e discutiriam em grupo sobre as temáticas e sentidos mais gerais de cada poema para
posteriormente levarem as interpretações e comentários ao grande grupo.
Depois desse primeiro contato com Fernando Pessoa e seus heterônimos, o
professor buscaria os conhecimentos prévios dos alunos sobre o poeta, para que assim
possa prosseguir com uma explicação mais teórica. Três perguntas norteariam tal
discussão: a) quem foi Fernando Pessoa?; b) vocês já ouviram falar dele?; c) o que
vocês sabem sobre o poeta?. Através dos comentários feitos pelos alunos é que o
professor vai introduzindo a concepção artística de Fernando Pessoa, contando um
pouco sobre a sua biografia e trazendo curiosidades sobre o poeta.
Em uma segunda aula, o professor utilizaria diversos elementos da cultura pop que
façam referência a Fernando Pessoa, tais como tirinhas, memes, posts de Facebook e
Twitter (Anexo 2). Desta forma, os alunos perceberiam o quão próximo de seu
cotidiano Fernando Pessoa pode estar, deixando de ser algo presente somente nos
livros da biblioteca. O professor então indagaria aos alunos se eles já leram algum
poema atribuído a Fernando Pessoa no seu dia a dia. Alguns exemplos desses
elementos da cultura pop seriam entregues aos alunos para analisarem e
interpretarem considerando o material escrito, mas também o imagético e o meio de
circulação e, além disso, discutirem em grupos se tais citações seriam mesmo de
Pessoa, para que, então, depois seja feita uma análise no grande grupo.
Mostrar que Fernando Pessoa e sua obra podem aparecer também em meios que
estão no dia a dia de cada aluno é importante, pois desmistifica a ideia de que a poesia
seria algo distante, com alguma espécie de barreira intransponível entre seus versos e

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a realidade. O que os posts de Facebook, as páginas do Twitter e os cartoons mostram
é que a poesia pode sim estar presente de variadas formas na vida do jovem, mesmo
que despercebida. Pretende-se mostrar que há algo ali que é universal, que nos
constitui, como algo que faz parte do espírito humano e de nossas sensações e que é o
que torna uma leitura de poesia algo tão atemporal, tão passível de identificação.
Esta última atividade levaria a uma discussão maior sobre as informações
compartilhadas na Internet, em que o leitor torna-se também produtor de
conhecimento. O professor traria tais questionamentos: a) devemos confiar em tudo
que é postado nas redes sociais?; b) vocês já postaram alguma citação de algum poeta
nas redes sociais?; c) vocês pesquisaram antes de postar?; d) que outros poetas e
autores são também bastante citados?. Outra questão a ser debatida entre os alunos e
o professor seria: por que Fernando Pessoa é tão citado pela cultura pop?

3. Projeto Final
Na última aula, como atividade final deste projeto de ensino, os alunos seriam
orientados a produzirem seu próprio post de Facebook/Twitter tendo em mente a
concepção artística de Fernando Pessoa. No post poderiam fazer reflexões, frases ou
poemas, tendo a oportunidade de escolher entre: 1) escrever de forma a tentar se
passar por escritos de Pessoa ou um de seus heterônimos trabalhados em sala de aula;
2) criar o seu próprio heterônimo/fake5. Eles também poderiam postar essas reflexões
em seus perfis da rede social em questão. Uma próxima etapa seria a leitura das suas
criações em sala de aula para seus colegas opinarem e darem sugestões.
Essa escrita final visa a fazê-los ter uma produção ativa a partir daquilo que
aprenderam nas aulas, para que mostrem reflexos individuais do contato com
Fernando Pessoa. Dessa forma, eles pensam sobre o que foi estudado para então criar
com base nisso e também, de certa forma, experimentam por si só o que seria o
método de escrita de Pessoa. Seria um exercício criativo de alteridade, pois permite
aos alunos justamente colocar-se no lugar de outro, buscar pensar e escrever com
outro tipo de subjetividade.

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Notas
¹ O poema “Autopsicografia” está disponível online em
<http://www.releituras.com/fpessoa_psicografia.asp> (acessado em 18/07/2016).
² O poema “Poema em linha reta” está disponível online em
<http://arquivopessoa.net/textos/2224> (acessado em 18/07/2016).
³ O guardador de rebanhos está disponível online em
<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/pe000001.pdf> (acessado em
18/07/2016).
4
O poema de Ricardo Reis está disponível online em
<http://arquivopessoa.net/textos/602> (acessado em 18/07/2016).
5
Consideramos neste contexto como fake um perfil criado em uma rede social em
que o indivíduo se passa por outra pessoa, criando identidades e personalidades
diferentes da sua e agindo a partir das mesmas, representando os pensamentos que
teriam, etc. Aqui estamos fazendo uma aproximação dos heterônimos de Fernando
Pessoa com um conceito a princípio comum aos adolescentes, afinal são eles os
maiores usuários de tais perfis. Entretanto, entendemos que tal comparação não
reflete de forma alguma uma igualdade entre ambos os conceitos.

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Anexos
Os elementos da cultura pop que fazem referência a Fernando Pessoa
utilizados na segunda aula.

1. Post de Twitter (Fonte: https://twitter.com/fernandopessoa )

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2. Post de Facebook (Fonte:https://www.facebook.com/FernandoPessoaDaDepressao)

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3. Memes

(Fonte: http://fernandonpessoa.weebly.com/heteroacutenimos.html)

(Fonte: http://www.usp.br/aun/exibir.php?id=6952&edicao=1213)

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4. Tirinhas (Fonte: http://www.citador.pt/cartoons.php?op=1)

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Júlia Nunes Azzi
Graduanda em Letras Licenciatura com ênfase em
Língua Portuguesa e Língua Inglesa e suas respectivas
literaturas na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). Atualmente atua como bolsista de
Iniciação Científica (PROBIC/CNPQ) na área de
Literatura Brasileira Contemporânea.

Mariana Backes Nunes


Graduanda em Letras Licenciatura com ênfase em
Língua Portuguesa e Língua Inglesa e suas respectivas
literaturas na Universidade Federal do Rio Grande do
Sul (UFRGS). Atualmente atua como bolsista de
Iniciação Científica (SEAD/UFRGS) nas áreas de
Linguística Aplicada e Tecnologia Educacional.

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