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Para quê serve a história?

Pergunta sem resposta definitiva, mas que sempre traz uma


reflexão desconfortável ao historiador(a).

Da crítica
“Uma definição apenas define os definidores”.
QUINTANA, M. Caderno H. 2. ed. São Paulo: Globo, 2006

O ato de estabelecer categorias categoriza aquele que se vale dos


parâmetros para tanto.
Essa afirmação não leva em consideração as características do
objeto.
Ou leva, mas as tais características do objeto são menos
importantes que o sujeito definidor.

O poeta traduz para sentir, o historiador traduz para ter sentido.

Educação histórica e a Didática da História são atualmente


constantemente confundidas.

O caso alemão
Didática da História - Virada paradigmática – 1960-70 na
Alemanha.
-Contexto de crise geracional – Geração pré-guerra/geração pós-
guerra.
Segunda Guerra Mundial precisa ser entendida como um “espaço
de experiência” momento histórico que transformou radicalmente
a forma de dar sentido às experiências de vida.
-Diferentes percepções habitavam um mesmo contexto histórico.

Richard Bessel – Alemanha,1945 – Sofrimento concentrado em


um período muito curto.
Norbert Elias – Os Alemães – Transformações na Alemanha foram
mais fortes que nos outros países.

Crise de legitimidade da História como disciplina. Era a mesma do


período de Bismark.
-Narrativa histórica constituía a ideia de nação forte.
Nacionalismo e História: vínculo do passado imemorial comum.
Orientação para o presente que não encontrava recepção.

-Crise da história acadêmica – questionamento do Historicismo.


Grandes homens, grandes nações.

-Didática da história nasce analítica, na busca de compreender a


vida externa a grande política, vida prática.
Ir além da condição de transmissora do conhecimento acadêmico
produzido na “torre de marfim”.
-Legitimidade do conhecimento histórico vem de sua função.
Nacionalismo exacerbado perde lugar na sociedade, instancias
legitimadoras desse nacionalismo também.
História se institucionaliza na sociedade ocidental a medida que
legitima o Estado-nacional oferecendo um passado comum.

“irracionalização” da história – história que molda a vida prática


sem ter relação com as aspirações populares.

Jörn Rüsen - Pensamento heterogêneo pautado na sociologia


para entender a sociedade e a história.

Didática da História: subdisciplina que estuda os vínculos entre a


história produzida e a vida da sociedade.
Vida prática: materialidade. Narrativas autoreferenciais “só”
servem para entender as construções narrativas das sociedades.
Modernidade e a vida sem sentido.

Didática da História defende a função da história como


orientadora da vida prática.

Hobsbawn: Era dos Extremos, presentificação da sociedade. Sem


passado, logo sem futuro.
Conhecimento histórico é emancipatório, história tem função.
Orientar o presente, através do passado, para o futuro.
Preocupações da Didática da História foram colocando o campo
cada vez mais perto da História e mais longe da Pedagogia.

Longe também da condição de mera transmissora de


conhecimento histórico.
Pesquisador(produtor)X Professor(divulgador).
Transmissão tem problema também, Redução.

Lugares da Didática da História:


Historiadores passam a respeitar outras dimensões dos estudos
históricos – necessidades, interesses, propósitos – como fatores
determinantes.
Novo paradigma (re)ligando diretamente o conhecimento
histórico e a vida prática.
Contudo, com objetivos não muito claros.

Exemplo: entender os marcos religiosos também como


produtores de marcos históricos. Usos públicos da história vão
muito além do ambiente escolar.
Dilúvio como produtor de entendimento sobre o presente.
Passado imemorial. Mito de depuração.
Didática da História tem como objetivo investigar a consciência
histórica de cada sociedade.

O caso inglês
Contexto Inglês entre 1960-70 – Peter Lee
Crise do Ensino de História
História acadêmica também em crise de legitimidade
Disciplina optativa, estudantes preferiam matemática

Projeto educacional histórico


Professores de MTM partem do raciocínio mais simples(do aluno)
e vão para o raciocínio mais complexo, através da resolução de
problemas.

O que se descobriu? Raciocínios próprios da História


-Esquemas próprios
-Perguntas reflexivas
-Relações de fontes com esquemas e perguntas
-Articulações de pressupostos e elementos próprios da História
-Necessidade de compreender as interpretações dos agentes
históricos

Contra uma História Inglesa pronta e acabada


-Alunos traziam questões próprias da epistemologia da História:
“professor, mas não pode ser assim”. Crise do sistema escravista
romano.

Ideia chave: progressão do pensamento histórico = acumulação


+ evolução
[matemática] :problemas vão se tornando mais complexos a
medida que são resolvidos.

Objetivos: Compreender as ideias de história dos alunos


-Criar exercícios específicos para cognição;
-Classificar as ideias em diferentes formas.
[A partir da compreensão estrutural passa a mapear os
problemas, oferecendo novas configurações
esquemáticas/narrativas]

1986 – Holandês Piet Fontaine lança os questionários respondidos


pelos membros da International Society of History Didactics. Com
a pergunta What is History Didactics?
Alemães respondem em conformidade com a ideia de Didática da
História que Rüsen compartilha.

Peter Lee – Didática é uma pregação. Termo não agrada. Termo


pode ser melhor entendido como History Education.
Que busca entender e articular o pensamento histórico com o
pensamento das crianças. Sempre ampliando e complexificando a
capacidade dos alunos pensarem historicamente.
≠ da Didática da História.

1980 – Ensino de História sem orientação, só complexidade.


1990 – Peter Lee mais próximo de Rüsen, problema da orientação
resolvido.

No Brasil o diálogo com os alemães é muito forte. Ex.: UFPR.

Problema do nacionalismo: Necessidade de uma ruptura com a


história tradicional que valoriza as virtudes cívicas.
1930: Cidadão é quem trabalha.
1964: Cidadão é que respeita o Estado.

Revisitar a orientação dada pela história ao presente.

Aprendizado Histórico: sujeito consciente em meio a um


horizonte de interpretações se apropria de um dado objetivo,
tornando aquilo uma realidade em sua consciência.
-muda sua relação com o passado.
-(re)determina o próprio dado histórico.
Consciência Histórica: a suma das operações mentais com as
quais os homens interpretam suas experiências da evolução
temporal de seu mundo, de tal forma que possam orientar
intencionalmente sua vida prática no mundo.

Cultura Histórica: forma como a sociedade lida com seu passado


e sua história.
Aleida Assmann – Culturas são ofertas de identidades.

Revisão

Didática da História tem como objetivo investigar a consciência


histórica de cada sociedade.

Ensino de História busca entender e articular o pensamento


histórico com o pensamento das crianças. Sempre ampliando e
complexificando a capacidade dos alunos pensarem
historicamente.

Aprendizado Histórico. Apropriação de conhecimento histórico.


Consciência Histórica. Avaliação dos conhecimentos objetivos
para usá-los no intuito de orientar a vida prática.
Cultura Histórica. Soma das consciências históricas individuais.

Conclusão
Rüsen - a favor de múltiplas perspectivas, mas contra
relativismos.

Revisita: ciência, método, razão, tradição, consciência histórica,


narrativa, identidade.
Articulam-se de forma estrutural para dar conta da realidade.

Didática Histórica retira as sombras do processo de definição de


sentido na produção do conhecimento histórico.

“O passado não reconhece o seu lugar, está sempre presente”.


QUINTANA, M. Caderno H. 2. ed. São Paulo: Globo, 2006