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Folha de S.Paulo - Deficit de atenção e cônjuges infelizes - 02/08/2010

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Folha de S.Paulo - Deficit de atenção e cônjuges infelizes -

02/08/2010

Sintomas podem abalar relações entre adultos

Distração pode ser confundida com falta de amor

VINCENT WEST/REUTERS
VINCENT WEST/REUTERS

Casal num banco em Pamplona; adultos com deficit de atenção costumam apresentar dificuldades no convívio doméstico

Por TARA PARKER-POPE

Seu marido ou sua mulher constantemente esquece tarefas ou perde a noção do calendário? Você às vezes sente que está convivendo não com um cônjuge, mas com uma criança? Seu casamento talvez sofra de transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Não é piada: a ideia de que os problemas de

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atenção podem afetar relações adultas está atraindo mais atenção dos especialistas em saúde mental. Num casamento, os sintomas comuns -distração, desorganização, esquecimento- podem ser facilmente confundidos com preguiça, egoísmo e falta de amor ou preocupação. Adultos que sofrem do transtorno aprendem estratégias para permanecerem organizados e focados no trabalho, mas especialistas dizem que muitos deles enfrentam dificuldades em casa. Algumas pesquisas sugerem que esses adultos têm o dobro de propensão a se divorciar. Melissa Orlov, autora de "The ADHD Effect on Marriage" (O efeito do TDAH no casamento), a ser lançado em setembro, diz que se interessou pelo tema depois do diagnóstico dado ao seu marido, cinco anos atrás. Embora já trabalhasse com Ned Hallowell, importante pesquisador do assunto, Orlov não percebia que o transtorno também estava arruinando seu casamento. "Eu sentia como se ele fosse consistentemente inconsistente", disse Orlov numa entrevista. "Eu nunca podia contar com ele." (Eles agora têm um casamento feliz, acrescentou ela.) As queixas de que um cônjuge é insensível ou desatento, ou que não ajuda suficientemente na casa, não se limitam a casamentos em que um ou ambos têm problemas de atenção. Mas o TDAH pode piorar as coisas. O transtorno pode deixar um cônjuge com 100% da responsabilidade familiar, porque o outro se esquece de apanhar os filhos na escola ou pagar as contas em dia. Parceiros sem problemas de atenção podem se sentir ignorados ou não amados quando o marido ou a mulher se distrai -ou, em outro sintoma do transtorno, se dedica demais a um projeto de trabalho ou a um jogo de computador. Eles podem sentir que não têm escolha exceto pegar no pé constantemente para que as coisas aconteçam. Os cônjuges portadores do TDAH, enquanto isso, costumam estar alheios à sua falha mais recente e ficam confusos com a ira que pouco a pouco toma conta do parceiro. Uma longa lista de afazeres ou uma casa bagunçada parecem demais para um cérebro com TDAH, levando a pessoa a se

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refugiar no computador ou em um videogame. Embora o tratamento costume começar com medicação, ela normalmente não resolve os problemas de um casal. Terapia comportamental e estratégias de sobrevivência -para ambos os cônjuges- são essenciais; Orlov, por exemplo, baniu as longas listas de afazeres e adotou cartões, cada um com uma só tarefa, ordenados por prioridade. É uma mudança sutil, diz ela, mas surpreendentemente eficaz. Um dos maiores desafios é o de ambos aceitarem o preço muito real que um distúrbio de atenção pode cobrar na vida conjugal. Com frequência o parceiro sem TDAH teme que o diagnóstico dê ao outro um pretexto para

não ajudar; este, por sua vez, em geral tem dificuldades em entender como

o seu comportamento afeta os demais.

"Inicialmente acho que fui um pouco cético com o TDAH em geral", disse um homem de 52 anos, morador de Cleveland, cuja mulher recentemente recebeu esse diagnóstico. Ele descreveu uma vida de "responsabilidade

esmagadora", trabalhando em tempo integral e ainda cuidando dos filhos e da mulher. "Após anos assim, eu senti que não tinha dois filhos, tinha três", disse ele.

À beira do divórcio, a mulher encontrou o site de Orlov e Hallowell, o

www.adhdmarriage.com, e começou a se consultar com a especialista. "Tem sido uma revelação", disse a mulher.

Meus avós paternos tinham um segredo. Quando eu era criança em Savannah, no Estado da Geórgia, na década de 1970, eles viviam na casa imediatamente atrás da nossa e faziam algo que sempre foi um mistério para mim. Eles dormiam em quartos separados. Eu especulava que isso tinha algo a ver com a gentileza sulista, o hábito do

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vovô de conversar no rádio amador até tarde da noite, ou alguma fissura invisível no casamento deles. Mas, como meus pais dormiam em camas de solteiro lado a lado, e minha mulher e eu mais tarde escolhemos um colchão "king size", eu supunha que os quartos separados haviam tido o mesmo destino de outras relíquias. Eu estava errado. O fato é que meus avós eram precursores de uma tendência. Quase 1 em cada 4 casais americanos dorme em camas ou quartos separados, segundo uma pesquisa de 2005 da Fundação Nacional do Sono. Estudos recentes no Reino Unido e no Japão chegaram a resultados similares. E a Associação de Construtores de Casas dos EUA prevê que 60% dos imóveis feitos sob encomenda terão duas suítes master até 2015. O leito conjugal, que já foi um símbolo do casamento, está ameaçado de extinção. "Até que a morte nos separe" está rapidamente virando "até que o sono nos separe". Quem dorme separado cita várias razões para isso, inclusive apneia, síndrome das pernas inquietas, a insistência dele em ver TV à noite e a necessidade dela de levantar cedo para a ioga. Como disse recentemente ao "New York Times" Barbara Tober, ex- presidente do Museu de Artes e Design, "não é que não nos amemos, mas a certa altura você simplesmente quer o seu próprio quarto". "O que aconteceu na última década é que as pessoas estão de repente fazendo do seu próprio sono uma prioridade", disse Meir Kryger, especialista em sono do Hospital Gaylord, em Connecticut. "Se o seu descanso está sendo prejudicado por seu parceiro, a atitude agora é de que eu não tenho de suportar isso." As crianças representam outra ameaça. William Sears, líder do movimento da "criação com apego", diz no seu "Baby Sleep Book" (Livro do sono dos bebês, de 2005) que dois terços das famílias americanas relatam dormir "às vezes" ou "sempre" com uma criança na cama. Paul Rosenblatt, professor de psiquiatria da Universidade de Minnesota, entrevistou 42 casais para o seu livro "Two in a Bed: The Social System of

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Couple Bed Sharing" (Dois numa cama: o sistema social do compartilhamento da cama entre casais) e chegou a conclusões surpreendentes. Dormir junto é melhor para a saúde. Os pacientes citavam convulsões, choques diabéticos e outras emergências médicas que passariam despercebidas se não houvesse um cônjuge próximo. Dormir junto é melhor para a vida sexual. "Conversei com vários homens (e mulheres) que acham que a relação sexual é bem mais frequente se eles têm acesso ao parceiro", afirmou Rosenblatt. Dormir junto é melhor para a segurança. As mulheres, em especial, se sentem mais protegidas contra intrusos se dormem com outra pessoa. Durante anos, dormi mal, ao contrário da minha mulher, que era uma profissional nisso. Aí tive câncer e passei nove meses na cama. Temi que minha mulher fosse se transferir para o sofá, mas ela ficou ao meu lado, e sua presença, seu toque ocasional e sua respiração tranquila confortaram muitas das minhas longas noites. Ao final daquele ano, talvez por ter confrontado meus piores temores, eu estava curado do meu desassossego. Meus avós possivelmente apreciariam saber que, forçado a encarar os meus pesadelos, eu aprendi a não me preocupar mais e a amar a minha cama. Esse é o nosso segredinho.

Grupo promove colaboração "high-tech" na madrugada

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Por JENNA WORTHAM

Os Nightowls (corujas noturnas) de Nova York são uma espécie de grupo de estudos para empresários, profissionais independentes e desenvolvedores de software que se reúnem todas as terças-feiras das 22h às 4h em busca de ideias criativas e espíritos similares. "O objetivo é vir, inspirar-se, conhecer novas pessoas e trabalhar", disse Amber Lambke, consultora criativa que formou o grupo em abril com Allan Grinshtein, diretor de design de produtos no site de vídeo Blip.tv. "São seis horas de um período produtivo e ininterrupto em que você está cercado de outras pessoas criativas fazendo coisas incríveis", acrescentou Lambke. O conceito está pegando. Grupos já se formaram em quase uma dúzia de cidades, como San Francisco, Boston, Estocolmo (Suécia) e Melbourne (Austrália). Johan Hedberg, consultor de relações públicas de 33 anos de Estocolmo, se interessou por coordenar uma versão local depois que ele viu uma publicação sobre o grupo na internet. "Tenho muitos amigos e colegas que escrevem livros e trabalham em projetos da web e que ficam sozinhos em casa", disse. "Há muito a ganhar trabalhando com outras pessoas." Mas trabalhar à noite pode ir além da necessidade de fugir das distrações. Algumas pessoas são "programadas" para ter um melhor desempenho durante a noite, disse Michael Thorpy, diretor do Centro de Distúrbios do Sono e Vigília no Centro Médico Montefiore, no Bronx, em Nova York. "Nosso ritmo circadiano de sono é afetado pela genética, e todas as pessoas são diferentes", ele disse. Em Nova York, cerca de duas dúzias de pessoas armadas de notebooks e bebidas cafeinadas se reúnem semanalmente na cobertura de um prédio de escritórios em Chinatown. Alguns, como Grinshtein, trabalham em projetos preferidos e empreitadas colaterais. A maioria passa o tempo mergulhada em pensamentos sobre uma tela reluzente.

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Os participantes dizem que um espírito de colaboração e camaradagem se

infiltra durante a noite, o que pode ser difícil de conseguir durante as horas de trabalho normais. "Eu não codifico muito bem, e um desenvolvedor trabalhando aqui poderia ser capaz de resolver em 30 segundos um problema que para mim levaria três horas", disse Jonathan Wegener, que cria aplicativos para celulares. "É muito mais fácil conseguir a ajuda de alguém neste ambiente, e é realmente valioso."

O grupo começou em uma noite de abril passado, quando Grinshtein

enviou uma mensagem para o Twitter perguntando se alguém queria formar um grupo de trabalho informal. "Em casa eu durmo, fico adiando as coisas e não faço nada", disse. "Eu pensei: 'Deve haver alguém aí fazendo a mesma coisa'."

Lambke, que não conhecia Grinshtein, ficou imediatamente interessada. "Eu vi o 'tuite' e pensei: 'É exatamente do que eu preciso'", ela disse. Uma semana e vários e-mails depois, estava formado o New York Nightowls. As reuniões são gratuitas, e Lambke e Grinshtein tentam limitar o tamanho do grupo a cerca de 30 pessoas. Eles pedem que os participantes marquem uma visita por meio do Meetup, um serviço que organiza eventos. Tony Bacigalupo, que dirige um espaço de trabalho compartilhado chamado New Work City, que atende a profissionais autônomos e outros tipos de personalidades independentes, se ofereceu para deixar os Nightowls usarem o escritório sem custo. "Já existe uma cultura de realizar trabalhos aqui", disse Bacigalupo. "Podemos colocar a música em volume um pouco mais alto à noite, abrir algumas cervejas, mas acho que as pessoas sabem que vêm aqui para se concentrar e produzir coisas."

E há menos distrações do que durante o dia. Até a web fica tranquila. As

pessoas se sentem menos instigadas a verificar o Twitter, o Facebook ou as

mensagens instantâneas. "Quando você não tem seus colegas constantemente a interrompê-lo e menos amigos entediados no trabalho e no MSN é mais fácil fazer as

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coisas", disse Montana Low, o principal cientista da RescueTime, que faz software para produtividade. "Muita gente tem problemas com esse tipo de distração, e todo o mundo procura maneiras de produzir um pouco mais durante um dia." Em uma jornada de trabalho média no escritório, a maioria das pessoas visita cerca de 40 websites, que vão de redes sociais a portais de compras e entretenimento, segundo a RescueTime, que estuda os hábitos de 200 mil pessoas que baixaram seu software. A frequência com que as pessoas saltitam na internet desacelera quase pela metade durante as primeiras horas da manhã, disse Low. Segundo Thorpy, muitas pessoas experimentam surtos de atividade duas ou três horas antes de dormir. "Se isso combinar com seu estilo de vida, pode dar muito certo", ele disse. "Uma grande parte do início do dia para elas é quando as coisas se acalmam." As sessões dos Nightowls duram enquanto houver pessoas trabalhando. "Ficamos abertos até eu me cansar", disse Grinshtein. Lambke, que admite que na maioria das semanas não fica além de 1h ou 2h da manhã, disse que qualquer pessoa que precisar de um cochilo rápido pode se retirar para uma cadeira-saco muito confortável. "Talvez sejamos meio louco", ela disse. "Mas é divertido." "Somos nova-iorquinos", acrescentou Grinshtein. "De qualquer jeito não dormimos muito."

Por meio da ciência, descobrimos não apenas o que não sabíamos, mas o que pensávamos saber, porém desconhecíamos. Algo que durante muito tempo pode ter sido aceito como verdade autoevidente -que a Terra é

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plana, por exemplo- pode ser exposto como mito.

O que é fácil deixar de levar em conta é que mesmo a ciência nem sempre

sabe o que pensa saber. O mito, sob a forma de especulações teóricas, é a argamassa que aglutina muitos dos tijolos das descobertas científicas. Ou, poderíamos dizer, é a matéria escura que aglutina o universo do conhecimento científico.

É claro que a própria matéria escura constitui um exemplo de "mito"

científico. Embora sua existência ainda seja apenas especulada, cada vez mais ela é dada como algo factual. Mas existe outro mito que se faz passar por fato há tanto tempo e tão bem que a maioria de nós nem sequer pensaria em questioná-lo: a gravidade. Quem pensaria que há dúvidas em relação a algo que parece ser confirmado simplesmente pegando-se uma maçã na mão e deixando-a cair?

Mas, como informou o "New York Times", um respeitado físico holandês declarou que a gravidade é uma ilusão. "A gravidade não existe", disse Erik Verlinde.

É claro que não há dúvida de que os objetos na Terra caem e que ganham

velocidade ao longo de sua queda. Mas uma força chamada gravidade não é necessariamente a melhor explicação disso. A explicação oferecida por Verlinde é demasiado complexa até mesmo para outros físicos. Mas ele não é o primeiro a atacar a credibilidade de Newton. Stephen Hawking já tentou fazê-lo e, antes dele, Einstein. Menos surpreendentes, talvez, sejam os ataques lançados contra a teoria da evolução. Contudo, excetuando setores conservadores que defendem o desígnio inteligente, geralmente se presume que a ideia original de Darwin tenha sido plenamente confirmada. Uma das demonstrações mais curiosas dessa ideia é a forma surpreendente pela qual certas espécies imitam a forma e coloração de outras. O "Times" noticiou um exemplo disso entre lagartas e crisálidas na Costa Rica. Mas essa imitação aparentemente mágica se coaduna mal com a ideia de que teria sido produzida, conforme Darwin propôs, por uma série

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demorada de mutações aleatórias e pequenas que, por mero acaso, auxiliaram a propagação dessas espécies.

O verdadeiro mecanismo que a desencadeou, e como ele se ajusta e

aperfeiçoa a imitação, ainda é algo que a ciência pode aparentar saber, mas

que, na realidade, ela desconhece.

O fato de a ciência desconhecer uma coisa particular pode causar

perplexidade. Quem diria que cientistas não sabem realmente como as aves pequenas migram, como percorrem distâncias tão grandes e a frequência com que precisam parar? Segundo o "Times", pesquisadores que empregaram novas tecnologias para rastrear aves se espantaram ao descobrir que, como a maioria de nós, muitas delas preferem fazer voos sem escalas. Evidentemente, os cientistas são positivistas. Não gostam de chamar a atenção à "matéria negativa" feita da imensidão das brechas em seu conhecimento. E isso nos permite viver como se a ciência iluminasse nosso caminho mais do que de fato ilumina. Talvez seja hora de algum Carl Sagan da ignorância científica apresentar-se com um livro sobre o tema dos bilhões e bilhões de coisas que a ciência, surpreendentemente, ainda desconhece. Seria um projeto que poderia terminar com algo que até mesmo os cientistas concordam que dificilmente chegarão a saber algum dia: o porquê de existir algo em lugar de nada e, é claro, a finalidade ou o significado de tudo isso. CARLOS CUNHA

A eleição de Barack Obama despertou grandes esperanças nos Estados

Unidos e em todo o mundo. Hoje, enquanto seus índices de aprovação caem constantemente bem abaixo de 50%, surge a questão de por que os eleitores americanos se sentem tão abandonados por ele. Ele não aprovou legislações notáveis para o estímulo econômico, o seguro- saúde e a reforma bancária? E ele poderia realmente ter mais êxito, diante da profundidade da crise econômica e do poder republicano de bloquear as leis usando a obstrução no Senado?

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Se os democratas perderem um número significativo de assentos legislativos em novembro, como se espera, a capacidade de Obama em influenciar a agenda americana será muito reduzida, e ele enfrenta a possibilidade de perder a Presidência quando disputar a reeleição em 2012. Em uma recessão profunda, os eleitores tendem a culpar o partido no poder. Na política americana, o melhor indicador isolado de sucesso político é o índice de desemprego. Por exemplo, Ronald Reagan foi eleito avassaladoramente em 1980, mas, durante a recessão de 1982, seu partido perdeu assentos nas duas casas. George Bush pai foi rejeitado em 1992, durante uma crise bastante mediana. Mesmo sem recessão, um presidente recém-eleito geralmente consegue levar membros de seu partido à Câmara e ao Senado. Então, quando a lua de mel se desgasta, a oposição quase sempre recupera alguns assentos na primeira eleição para o Congresso, dois anos depois. Com o desemprego estagnado perto de 10%, seria um milagre se a popularidade de Obama não declinasse. Mas já ocorreram tais milagres na história política americana. Em 1934, dois anos depois da eleição de Franklin D. Roosevelt para presidente, os democratas aumentaram sua maioria legislativa, apesar de um índice de desemprego que estava bem acima de 15%. Como isso foi possível? As pessoas achavam que as condições econômicas estavam melhorando e que Roosevelt estava inegavelmente do seu lado. Elas não têm tanta certeza sobre o atual presidente. Obama teria sido um tanto intimidado pelos obstáculos constitucionais ao ativismo presidencial, não importa que rumo ele escolhesse. Mas sua decisão mais fatal foi não governar como Roosevelt, como o carrasco de Wall Street e o defensor do americano comum, fazendo os eleitores duvidarem sobre onde estão suas lealdades. Obama começou nomeando uma equipe econômica liderada por defensores da desregulamentação financeira da era Bill Clinton -Lawrence Summers e Timothy Geithner. Ambos tinham trabalhado amigavelmente

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com a equipe de George W. Bush durante a transição e essencialmente mantiveram a política de apoiar os grandes bancos em vez de mudar drasticamente seu modelo de negócios. Consequentemente, os eleitores não viram a "mudança" que Obama havia prometido, e as políticas econômicas que causaram o colapso persistiam. Wall Street se recuperou, enquanto a "main street" perdia vigor, e os republicanos e os ativistas do movimento ultraconservador Tea Party se apropriaram de pelo menos uma parte da revolta popular. Mas nenhum partido parecia falar pelo homem e pela mulher comuns. Obama também nomeou gaviões do deficit, como seu primeiro diretor de orçamento, Peter R. Orszag. Apesar de as pesquisas de opinião pública mostrarem que os eleitores comuns estão mais preocupados com os empregos do que com os deficit, Obama entrou na parada da austeridade adorada por Wall Street, muito antes de a economia estar fora de perigo, enviando mais sinais confusos. Por temperamento, o presidente é um conciliador, e não um lutador. Às vezes essa é uma posição construtiva -exceto quando não há um terreno comum com um partido de oposição decidido a destruí-lo.

Mesmo que um programa econômico mais abrangente destinado a ajudar a classe média fosse derrubado pelos republicanos, Obama poderia ter-se saído melhor ao propô-lo e lutar por ele. Essa foi a estratégia do presidente americano Harry S. Truman (1945-53), que foi dado como perdido em

1948.

Truman enviou ao Congresso vários projetos de lei naquele verão, sobre empregos, habitação, assistência à saúde e educação, sabendo que os republicanos os derrubariam. Então, ele disputou a reeleição como porta-

voz do americano esquecido, atacando os obstrucionistas republicanos com o slogan "Dê-lhes o diabo, Harry". Truman venceu o maior embate da história política americana, e os democratas conseguiram 75 cadeiras na Câmara. No colégio e na faculdade, o apelido de Barack Obama era Barry. Talvez esteja na hora de um "Dê-lhes o diabo, Barry".

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Por JEFFREY GETTLEMAN

MOGADÍCIO, Somália - Existe um lugar nesta cidade devastada pela

guerra que se destaca por seu silêncio e sua vegetação fértil, onde as árvores são mais antigas, repletas de cipós e com galhos que se entrelaçam sobre a rua, criando uma cobertura de folhas que filtra o sol, normalmente forte. Aqui, as folhas parecem mais verdes e brilhantes. As gramíneas são altas e espessas, perfeitas para funcionar como esconderijo.

É a linha de frente de Mogadício. Faixa de terra de cerca de 60 metros de

largura de edifícios destruídos por explosões e invadidos por mato alto, ela

traça um caminho irregular através da cidade, separando o pequeno e cercado encrave (controlado pelo governo) dos milhares de insurgentes islâmicos radicais. Mas a beleza estranha dessa faixa de terra é enganosa. De cada lado dela, centenas de homens se escondem atrás de troncos de árvores e muros

lascados, olhando uns para os outros através das miras telescópicas de suas armas.

E a geografia conta uma história: a despeito de milhões de dólares vertidos

pelos EUA e a ONU; apesar das divisões extremas entre os insurgentes e de eles serem fortemente criticados; apesar de o presidente da Somália, xeque Sharif Sheik Ahmed, ter chegado ao poder há mais de um ano em meio a algumas das maiores esperanças que o país nutriu em relação a um líder desde que o governo central da Somália desabou, em 1991, a linha de frente praticamente não se moveu. Diplomatas ocidentais soam desanimados e totalmente frustrados. Quando, recentemente, foi perguntado a um deles por que a ofensiva do governo ainda não começou, ele respondeu, traindo sua decepção: "Esses caras são uns ineptos. É simples assim". Recentemente, o edifício do Parlamento somali, situado numa área do centro de Mogadício especialmente atingida por disparos e explosões, foi repintado pela primeira vez em anos. Mas o que se vê em seu interior é

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confusão. Os parlamentares andam envolvidos em uma rodada de disputas internas especialmente amargas (em parte sobre o que fazer em relação ao premiê, que o presidente tentou recentemente afastar do cargo, tendo recuado em seguida). Muitos parlamentares estão se rendendo ao discurso de Sharif Hassan

Sheik Adan, comerciante de gado analfabeto e astuto que foi eleito presidente da Casa em maio. Visto como um dos homens mais poderosos do país, e próximo da Etiópia, ele parece ter pouca experiência ou interesse em construir instituições democráticas. Alguém que se agache ao lado das tropas do governo na linha de frente observará que não há aparelhos de rádio, paramédicos, alimentos, sargentos responsáveis por transportes, capitães encarregados de reabastecimento, tenentes-coronéis ou coronéis. As tropas se dividem entre dois homens grisalhos que se autointitulam comandantes e centenas de soldados rasos, entre os quais crianças -fato que (além da presença dos soldados mirins) traz à tona mais um problema mais que evidente: não existem escalões de comando intermediários. Os aliados da Somália estão tentando urgentemente preencher esse vazio.

A União Europeia, por exemplo, está treinando centenas de suboficiais em

Uganda, procurando preparar uma espinha dorsal profissional para reforçar a base de soldados rasos da Somália.

A ideia prevalecente de que os EUA e outros países vão apoiar o governo

somali de transição até o amargo fim porque têm medo da alternativa - uma Somália governada pelo Al Shabab, o principal grupo insurgente do país, abertamente alinhado com a Al Qaeda- pode estar mudando. "Fazer menos é melhor que causar danos", escreveu Bronwyn E. Bruton em relatório especial para o Council on Foreign Relations. "A não ser que haja mudanças decisivas na política dos EUA, da ONU e regional", ela escreveu, "a interferência externa ineficaz ameaça prolongar e agravar o conflito, radicalizar a população ainda mais e elevar as chances de a Al Qaeda e outros grupos extremistas acabarem por encontrar um refúgio seguro na Somália".

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Por DAN BILEFSKY

GAZIANTEP, Turquia - Sírios endinheirados já vinham frequentando Gaziantep, antiga cidade industrial turca, atraídos pelas bolsas Luis Vuitton e pelos letreiros em árabe na frente das lojas. Mas comerciantes locais dizem que foi a letal ação de Israel contra embarcações majoritariamente turcas na costa de Gaza, em maio, que solidificou a amizade entre Síria e Turquia, o novo herói do mundo islâmico. "As pessoas na Síria amam a Turquia porque o país apoia o mundo árabe, são camaradas muçulmanos", disse Zakria Shavek, 37, motorista de uma transportadora síria com sede em Gaziantep, enquanto atendia uma família de consumidores de Aleppo, cidade síria a duas horas de carro dali. "Nosso inimigo no mundo é Israel, então também gostamos da Turquia, porque o inimigo do nosso inimigo é nosso amigo." As peregrinações mensais de dezenas de milhares de sírios a essa cidade do sudeste turco -que se intensificaram desde que os dois países suspenderam a exigência de visto, em setembro- são apenas mais uma manifestação dos esforços do governo turco para, usando vínculos econômicos e culturais com seus vizinhos, se projetar como um líder regional. A guinada turca para o mundo islâmico -o que inclui a recente desavença com Israel e as declarações do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan qualificando de pacífico o programa nuclear do Irã- provoca nos Estados Unidos e na Europa temores de que a Turquia, um importante membro da Otan (aliança militar ocidental), esteja dando as costas ao Ocidente. Mas na Turquia, onde 70% das exportações se destinam à Europa, empresários insistem em que a política do governo de cultivar amizades com todos os vizinhos reflete o impulso -sagaz e muito ocidental- de

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contrabalançar a dependência em relação aos estagnados mercados europeus, além de consolidar a posição do país como uma ponte político- econômica entre Ocidente e Oriente. Aliás, a maioria dos países árabes, inclusive a Síria, apoia entusiasticamente a eventual adesão turca à União Europeia, por considerar a Turquia um intermediário vital para os mercados ocidentais, de outro modo talvez inacessíveis. Em nível político, a influência da Turquia no Oriente Médio também é muito fortalecida por suas relações ocidentais -algo reconhecido pelo ditador sírio, Bashar al Assad, que chocou muita gente em julho na capital turca ao advertir que a nova crise entre Israel e Turquia poderia abalar o papel de Ancara como mediador na região. Há apenas dez anos, as relações bilaterais estavam abaladas. A Turquia acusava a Síria de abrigar separatistas curdos, e a Síria recriminava a Turquia devido a disputas envolvendo água e territórios. "Hoje, os países árabes outrora ressentidos conosco querem ser como nós, mesmo que eles estejam olhando para os turcos mais do que nós para eles", afirmou o turco Emin Berk, coordenador do Escritório Comercial Turquia-Síria em Gaziantep. O comércio entre os dois países saltou de US$ 795 milhões em 2006 para US$ 1,6 bilhão em 2009. Em Gaziantep -cujo passado é tão interligado à Síria que chegou a ser parte da Província síria de Aleppo durante o Império Otomano- os sinais da nova lua de mel entre Turquia e Síria estão em toda as partes. Toda sexta-feira, milhares de sírios ocupam o centro da cidade. Atraídos por bons preços e pelas marcas ocidentais, a maioria se dirige imediatamente ao shopping center Sanko Park. Cursos de árabe para empresários turcos estão surgindo. Casamentos entre pessoas dos dois países vêm se tornando mais comuns. Na Síria, a mistura turca entre islamismo e democracia cosmopolita é cada vez mais vista como um modelo para a nova geração. Num dia recente no Sanko Park, Mays al Hindawi Bayrak, uma sofisticada síria de 27 anos que

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comprava uma camisa Pierre Cardin para seu marido turco, observou que, para os sírios, a Turquia se tornou sinônimo de modernidade europeia. Depois das recentes críticas da Turquia a Israel, contou ela, seu irmão de 21 anos disse à família que gostaria de solicitar cidadania turca. Empresários turcos em Gaziantep dizem que a nova abertura do seu país ao Oriente está melhorando seus resultados financeiros. Cengiz Akinal, diretor-gerente da Akinal Bella, uma grande indústria calçadista, disse que a política de inspiração islâmica do governista Partido Justiça e Desenvolvimento contribui para as boas relações com os clientes árabes. A empresa aumentou em 40% suas exportações para a Síria no ano passado. Akinal recentemente transferiu parte da produção da fábrica para Aleppo e Damasco, onde os salários são cerca de metade dos da Turquia. Mas ele disse que a Síria ainda está décadas atrás da Turquia no que diz respeito a padrões de qualidade e capacitação técnica. "A Turquia pode estar 15 anos atrás da Europa, mas a Síria ainda está 30 anos atrás da Turquia."

Por NORIMITSU ONISHI

JACARTA, Indonésia - A disseminação global do inglês, com seus efeitos às vezes corrosivos sobre as línguas locais, causou muita preocupação em vários cantos do mundo que não falam o idioma. Mas as implicações podem ter maior alcance na Indonésia, onde gerações de líderes políticos promoveram o indonésio para unir o país e forjar uma identidade nacional entre inúmeros grupos étnicos, antigas culturas e dialetos diferentes.

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O legado linguístico da Indonésia está cada vez mais ameaçado, conforme

números crescentes de famílias ricas e da classe média alta evitam as escolas públicas onde o indonésio continua sendo a língua principal, mas o

inglês muitas vezes é mal ensinado. Em vez disso, elas recorrem a escolas privadas que se concentram no inglês e dedicam pouco tempo ao indonésio. Para alguns indonésios, o domínio do inglês tornou-se cada vez mais ligado

à posição social, e a língua nacional foi relegada a uma situação de segunda classe. Em casos extremos, algumas pessoas se orgulham de falar mal o indonésio.

O governo recentemente anunciou que exigirá que todas as escolas

privadas ensinem a língua oficial do país para seus alunos indonésios até 2013. Mas os detalhes continuam imprecisos. "Essas escolas funcionam aqui, mas não oferecem bahasa [o idioma indonésio] para nossos cidadãos", disse Suyanto, que supervisiona a educação primária e secundária no Ministério da Educação. "Se nós não as regulamentarmos, em longo prazo poderá ser um risco para

a continuidade de nossa língua", disse Suyanto, que, como muitos

indonésios, usa apenas um nome. "Se este grande país não tiver uma língua forte para uni-lo, poderá ser perigoso."

O holandês já foi a língua estrangeira predominante. Em 1928, os

nacionalistas que buscavam a independência dos holandeses escolheram o indonésio, uma forma de malaio, como língua da união civil. Enquanto uma pequena porcentagem de indonésios educados falava

holandês, o indonésio tornou-se a língua preferida dos intelectuais.

Mas, com a democratização do país, na última década, dizem especialistas,

o inglês tornou-se o novo holandês.

As regras foram afrouxadas, permitindo que crianças indonésias frequentassem escolas privadas que não seguiam o currículo nacional, mas ofereciam o inglês. As mais caras, com anuidades de vários milhares de dólares, geralmente empregam falantes nativos de inglês, disse Elena Racho, vice-presidente da

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Associação Nacional de Escolas Plus, uma organização guarda-chuva para escolas particulares. Centenas dessas escolas abriram nos últimos anos, disse Racho. As menos caras, que não podem contratar estrangeiros, muitas vezes têm professores indonésios que ensinam todas as disciplinas em inglês, mesmo que às vezes imperfeito, ela acrescentou. Della Raymena Jovanka, 30, mãe de dois pré-escolares, desenvolveu algumas dúvidas sobre o inglês. Seu filho Fathiy, 4, participou de um grupo de brincadeiras em inglês e foi matriculado em um jardim de infância concentrado no inglês; Jovanka só permitia que ele assistisse a programas de televisão em inglês. O resultado foi que seu filho só respondia aos pais em inglês e tinha dificuldades com o indonésio. Jovanka estava pensando em mandá-lo para uma escola pública normal no ano que vem. Mas amigos e parentes a pressionaram para escolher uma escola privada, para que seu filho pudesse se tornar fluente em inglês. Questionada se ela preferia que o menino fosse fluente em inglês ou indonésio, Jovanka disse: "Para ser franca, em inglês. Mas isso pode se tornar um grande problema para sua sociabilização. Ele é indonésio e vive na Indonésia. Se não puder se comunicar com as pessoas, será um grande problema".

Por NORIMITSU ONISHI

GATTON, Austrália - A julgar pelo que diz Athol Klieve, a chave para a redução das enormes emissões australianas de gases do efeito estufa é tornar a vaca mais parecida com o canguru, o animal-símbolo do país.

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Ambos os animais são herbívoros e fermentam o alimento antes de passá- lo ao estômago principal. Mas, enquanto o gado expele enormes quantidades de metano para digerir a comida, os cangurus arrotam ácidos inofensivos, que podem ser transformados em vinagre. Klieve, um especialista em estômagos bovinos, tem mexido na dieta dos ruminantes para que eles arrotem menos. Mas se anima ao falar em comandar uma equipe de pesquisadores para fazer o intestino do gado

funcionar como o dos cangurus. "Aditivos na ração podem levar a reduções no metano", disse Klieve. "Mas estamos tentando outras coisas que poderiam nos permitir um salto quântico e, por isso, estamos observando os cangurus."

A Austrália emite mais gases do efeito estufa per capita do que

praticamente qualquer outro país, graças às suas usinas termoelétricas a carvão. Mas mais de 10% desses gases vêm daquilo que burocratas chamam de emissões pela criação animal.

A qualquer momento, após mastigarem e regurgitarem sua comida,

dezenas de milhões de vacas australianas, e também ovelhas, estão arrotando metano incessantemente. Como o metano é considerado 21 vezes mais potente do que o dióxido de carbono no processo de aquecimento da atmosfera, esses arrotos dão munição para ambientalistas, vegetarianos e outros críticos da carne. Agora, a indústria da carne está reagindo. Junto com o governo, ela está financiando uma campanha de US$ 24 milhões para reduzir as emissões animais de gases. Os pesquisadores examinam medidas como ajustar as rações, melhorar a gestão do estrume, recalibrar os organismos estomacais e selecionar geneticamente animais que arrotam menos. Esses cientistas estudam os estômagos de ruminantes como vacas, ovelhas e cervos. Num país onde a crescente conscientização ambiental pode afetar a venda de carne, a entidade Carne e Criação Austrália está convidando ambientalistas importantes para seminários intitulados "Carne vermelha pode ser verde?".

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Na parte anterior do sistema digestivo de uma vaca, que pode conter mais de 90 kg de pasto a qualquer momento, a fermentação do alimento leva à liberação de hidrogênio. Micróbios chamados metanogênicos ajudam a eliminar o excesso de hidrogênio, produzindo metano. Em outros animais que apresentam fermentação na parte posterior do sistema digestivo -ou seja, depois da passagem pelo estômago-, o metano às vezes é liberado por meio de flatulência, algo que, segundo Klieve, tem gerado confusões sobre o seu trabalho. Como o gado, os cangurus fazem a fermentação na parte anterior do trato digestivo. Mas, em vez de usarem micróbios metanogênicos para se livrar do hidrogênio indesejado, os cangurus usam micróbios diferentes, que reduzem o hidrogênio não pela produção de metano, e sim de ácido acético, a base do vinagre. Seria possível transplantar esses micróbios para as vacas? Seria possível criar nos estômagos bovinos um ambiente em que os micróbios bons substituiriam os metanogênicos? "Se pudermos responder essas perguntas, estaremos avançando para conseguir que esses animais não fiquem produzindo metano", disse Klieve. Nem todo o mundo apoia a pesquisa. "Isso soa surpreendente para mim, que este seja o foco primário, quando já há um animal que faz isso", disse George Wilson, diretor da Australian Wildlife Services, empresa de gestão da vida selvagem, que faz campanha pelo maior consumo de carne de canguru na Austrália. A proposta foi favoravelmente citada num relatório governamental de 2008 sobre a mudança climática, que apontava que por 60 mil anos os cangurus foram a principal fonte de carne para os aborígenes australianos. Mas Beverley Henry, encarregada de questões climáticas da Carne e Criação Austrália, disse que a ideia é inviável. "Você precisa de algo como dez cangurus para produzir a mesma quantidade de carne de um bezerro. Não dá para pastoreá-los ou cercá-los."

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Emissões de dióxido de carbono estão crescendo no país

Por KEITH BRADSHER

CANTÃO, China - O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, prometeu recentemente "mão de ferro" para que seu país se torne mais eficiente do ponto de vista energético. Nos últimos três anos, a China já fechou mais de mil usinas termoelétricas a carvão que usavam uma tecnologia ainda comum nos Estados Unidos. O país também superou o resto do mundo como maior investidor mundial em turbinas eólicas e em outras energias limpas. E determinou novos padrões energéticos rígidos para a iluminação e os carros. Agora, as cidades receberam ordens para acabar com as fábricas ineficientes. Mas, embora Pequim imponha a campanha nacional de energia mais rigorosa do mundo, o esforço está sendo sobrepujado pelas demandas de mais de 1 bilhão de consumidores chineses. Se a China não conseguir cumprir suas próprias metas de eficiência energética, as chances de evitar graves danos ambientais decorrentes da elevação de temperaturas "são muito próximas de zero", disse Fatih Birol, economista-chefe da Agência Internacional de Energia (AIE), em Paris. Aspirando a um padrão de vida mais ocidentalizado, a população chinesa clama por mais e maiores carros, por eletrodomésticos e por confortos como ar condicionado nos shopping centers. Por isso, a eficiência energética da China está, na verdade, diminuindo. E,

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como a maior parte da sua energia ainda vem da queima de combustíveis fósseis, as emissões chinesas de dióxido de carbono estão piorando. O último período inverno/primavera teve o maior aumento semestral de

emissões já registrado por qualquer país. Até recentemente, a AIE e a Administração de Informação Energética dos EUA supunham que a China alcançaria rápidas melhorias na sua eficiência energética até 2020. Mas, agora, a China tem dificuldades até mesmo para reduzir suas emissões aos níveis habituais. "Realmente temos uma tarefa árdua [para cumprir as atuais metas de eficiência]", afirmou Gao Shixian, integrante da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas, em discurso no final de junho.

A meta da China é reduzir neste ano em 20% o consumo de energia por

unidade econômica produzida, em relação aos níveis de 2005, e até 2020 reduzir em 40% a 45% as emissões de gases do efeito estufa por unidade econômica produzida, também em relação a 2005. Mesmo que a China consiga isso, a AIE projeta que as emissões chinesas vão crescer mais do que a soma de todo o resto do mundo até 2020.

A demanda energética na China cresce tão rapidamente que está ficando

mais difícil até mesmo alcançar as metas mais amplas de eficiência energética -ainda que o país tenha superado os EUA na eficiência média das suas usinas termoelétricas a carvão. Enquanto a China impõe padrões de eficiência luminosa para novos prédios e prepara regras semelhantes para os eletrodomésticos, a construção de edifícios segue a todo vapor. E as vendas de geladeiras, lavadoras e outros eletrodomésticos pesados mais do que duplicou nas zonas rurais no ano passado. Conforme a economia se torna mais dependente da demanda doméstica em vez das exportações, o crescimento se direciona para a produção de aço e cimento -setores famintos por energia. Os carros chineses rendem até 40% mais por litro de gasolina do que os americanos porque tendem a ser muito menores e a ter motores mais

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fracos. Mas o mercado automobilístico chinês cresceu 48% em 2009, ultrapassando o dos EUA. Um dos mais recentes fatores no uso de energia da China surgiu fora do alcance do planejamento de Pequim, na forma da insatisfação trabalhista nas fábricas do país. Uma geração mais antiga de migrantes operários aceitava dormitórios e fábricas onde mal havia um ventilador para lhes refrescar. Já os jovens chineses, além de salários mais altos, exigem também seus próprios apartamentos conjugados de 9 m2, com ar condicionado em casa e nas fábricas. O primeiro-ministro Wen admitiu, em nota oficial em maio, que a eficiência energética está regredindo e teve uma piora de 3,2% no primeiro trimestre. A indústria representa para a economia chinesa até o triplo do que para a americana, e usa muita energia. "A China tem tentando agarrar a fruta que está baixa no pé -encontrar essas oportunidades em que a maior eficiência pode poupar dinheiro e reduzir as emissões de dióxido de carbono", disse Ken Caldeira, especialista em mudança climática no Instituto Carnegie para a Ciência, em Stanford, na Califórnia. "Está começando a parecer que pode não ser tão fácil encontrar e agarrar essa fruta."

Coalizão prioriza ambiente em vez dos negócios

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Por ELISABETH ROSENTHAL

O governo britânico se propôs a limitar o fenômeno que já foi descrito

como "viagens aéreas descontroladas", recusando-se a construir novas pistas de pouso para receber mais aviões.

Em maio, dias após sua eleição, o premiê britânico David Cameron,

citando os altos níveis de emissões de gases-estufa decorrentes das viagens aéreas, cancelou abruptamente os planos britânicos de longa data para a construção de uma terceira pista no aeroporto de Heathrow. Cameron disse que tampouco aprovará a construção de novas pistas nos aeroportos secundários de Londres, Gatwick e Stansted.

O Reino Unido está remando na contracorrente de uma tendência global.

Na esperança de se manterem competitivas, cidades em toda a Ásia,

Europa e América do Norte vêm construindo pistas novas ou ampliando seus terminais aéreos para poder receber o crescimento projetado de voos e transportes aéreos de carga. Heathrow, um dos aeroportos mais movimentados do mundo e ponto vital de conexão para destinos em Europa, sul da Ásia e Oriente Médio, já é conhecido por suas filas intermináveis e os atrasos em seus voos. É o único aeroporto de seu tamanho a contar com apenas duas pistas. Na recessão global atual, as preocupações comerciais geralmente têm prevalecido sobre preocupações climáticas. Os britânicos têm se acostumado a viagens aéreas frequentes e fáceis, e o país tornou-se centro de atuação de companhias aéreas de baixo custo.

A Lei de Mudanças Climáticas, promulgada em 2008, prevê que até 2020 o

Reino Unido reduza suas emissões em pelo menos 34% em relação aos níveis de 1990.

A ministra dos Transportes, Teresa Villiers, disse que "as emissões foram

um fator importante" na decisão de cancelar os planos de construir novas

pistas. Peter Jensen, especialista em transportes junto à Agência Europeia de Aviação, disse que, pelo que sabe, o Reino Unido é "o único país a ter

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tomado uma decisão consciente baseada em considerações climáticas". Muitos empresários e executivos ficaram chocados quando Cameron, depois de chegar ao poder em uma coalizão com os liberais-democratas, cancelou o plano de construção de novas pistas. "Este é um governo novo que afirmava ser favorável às empresas", disse Steve Lott, porta-voz da Associação Internacional de Transportes Aéreos. "Estamos diante de uma decisão política míope que terá consequências econômicas lamentáveis." Villiers disse que uma ferrovia de alta velocidade para substituir os voos de distâncias curtas seria uma maneira melhor de resolver os congestionamentos no aeroporto. "Reconhecemos que aumentar o número de passageiros e voos no sudeste do Reino Unido não justifica os custos ambientais", disse ela. O governo britânico calcula que a aviação foi responsável por apenas 6% das emissões de dióxido de carbono do país em 2006. Mas, em relatório, previu que até 2030 o setor poderá contribuir para até 25% dessas emissões. Para cidades interessadas em atrair negócios e turismo, a tentação de ampliar os aeroportos é grande. Hoje a maioria dos aeroportos da Europa é administrada por empresas privadas; quanto maior o tráfego, maior o lucro. Críticos dizem que a posição assumida pelo Reino Unido não faz sentido, porque as companhias aéreas e os passageiros simplesmente voarão por um aeroporto diferente. Em lugar de as emissões serem reduzidas, afirmam, elas apenas serão transferidas. Mas Leo Murray, porta-voz do grupo ambiental Plane Stupid, descreveu a decisão do governo como "ponto de virada para a aviação", acrescentando, contudo, que "é incômodo o fato de o tiro se misericórdia ter sido disparado pelo governo conservador".

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Por LINDA BAKER

VICTORIA, Colúmbia Britânica (Canadá) - São raras as pessoas que apreciam ter uma usina de tratamento de esgoto em seus quintais. Mas em Dockside Green, condomínio de 70 mil m2 que está sendo construído ao norte do porto central da cidade de Victoria, os serviços públicos no bairro são menos um motivo de alarme do que parte do pacote de vantagens. "Essas são as nossas unidades que vendem mais rápido", disse Joe Van Belleghem, empreiteiro local que ganhou o concurso promovido pela cidade em 2004 para desenvolver Dockside Green. Em uma tarde recente, Van Belleghem estava na obra, apontando para os apartamentos térreos com deques que se projetam sobre uma rede de lagoas e canais com plantas nativas, lontras e patos.

O riacho artificial circula a água reciclada em uma usina de tratamento de

esgoto subterrânea adjacente. A água também é usada para a descarga nos

banheiros e para irrigar a paisagem -um sistema fechado que ajuda a reduzir as contas de água dos moradores, oferece um refúgio para animais silvestres e "melhora a comercialidade do espaço", disse Van Belleghem. Dockside reflete o interesse de Victoria por manter o caráter industrial da cidade enquanto reurbaniza os terrenos à beira-mar, disse Deborah Day, diretora de planejamento da cidade. "Há um esforço para incorporar o uso residencial misto em equilíbrio com a preservação do porto, que é uma grande parte da tradição e do motor econômico de Victoria."

O projeto também inclui uma usina de aquecimento, que transforma

dejetos da madeira abatida no local em um gás de queima limpa que gera o aquecimento de ambientes e da água da comunidade.

O sistema, que elimina a necessidade de usar combustíveis fósseis como

fonte de calor, ilustra a abordagem comunitária de Dockside a um projeto ambientalmente amigável, disse o arquiteto Robert Drew, principal sócio

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da firma Busby Perkins & Will. Dockside foi originalmente uma sociedade entre o Windmill Development Group, dirigido por Van Belleghem, e o Vancity, sindicato de crédito do Canadá. O projeto deverá custar cerca de 500 milhões de dólares canadenses (R$ 852 mi). Outros sinais da sensibilidade ambiental de Dockside são as turbinas de vento nos telhados. E um projeto solar passivo, ventilação com ar externo e eletrodomésticos eficientes ajudam a reduzir o uso de energia nos edifícios de Dockside em cerca de 50%. As unidades têm sensores que permitem o monitoramento diário do uso de energia e água. Como os dejetos de madeira são considerados um combustível de emissão zero, os residentes não têm de pagar uma taxa de carbono para aquecer os ambientes ou a água. Em fevereiro, o analista técnico Scott Wilson e a auxiliar de enfermagem Shirley Ronco compraram um apartamento de 93 m2 por 430 mil dólares canadenses (cerca de R$ 730 mil). Wilson disse que a conta de aquecimento e água quente do casal em maio foi de 12,66 dólares canadenses. "Eu pensei que eles tivessem esquecido de colocar um zero", ele contou.

Genes se adaptam a novos ambientes ou á dieta das pessoas

Por NICHOLAS WADE

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Muitos especialistas acreditavam que os seres humanos tivessem deixado de evoluir num passado distante, talvez quando as pessoas aprenderam pela primeira vez a se proteger do frio, da fome e de outros agentes agressivos da seleção natural. Mas os biólogos que examinam as sequências do genoma humano, hoje disponíveis do mundo inteiro, encontraram evidências crescentes da seleção natural em ação nos últimos milhares de anos, levando muitos a supor que a evolução humana continua em progresso. Cientistas do Instituto de Genômica de Pequim, por exemplo, descobriram entre os tibetanos um conjunto de genes que evoluiu para enfrentar os baixos níveis de oxigênio apenas 3.000 anos atrás. Se isso for confirmado, seria o caso mais recente conhecido de evolução humana. "Não acho que haja motivos para supor que o ritmo baixou ou diminuiu", diz o geneticista populacional Mark Stoneking. A seleção natural hoje pode ser avaliada em todo o genoma humano. Isso se tornou possível por meio de dados extraídos principalmente do Hap Map, um projeto do governo dos EUA. Ele contém amostras de 11 populações de todo o mundo e consiste em leituras de DNA nos locais ao longo do genoma onde as variações são comuns. Uma das assinaturas da seleção natural é que ela perturba o crescimento de mutações que se acumulam ao longo do genoma. Conforme uma versão preferida de um gene se torna mais comum em uma população, os genomas serão cada vez mais parecidos entre si perto desse gene. Como a variação é afastada, a ascensão em popularidade do gene preferido é chamada de sweep, ou "varredura". Os geneticistas desenvolveram vários métodos estatísticos para detectar varreduras e, portanto, a seleção natural em ação. Vinte e um rastreamentos do genoma para seleção natural foram concluídos em 2009, dando evidências de que 4.243 genes -23% do total humano- estavam sofrendo a seleção natural. É uma proporção surpreendentemente alta. Uma nova abordagem foi desenvolvida por Anna Di Rienzo, da

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Universidade de Chicago. Ela começou com genes que teriam probabilidade de mudar conforme as pessoas adotassem ambientes e dietas diferentes e, então, verificou como diferentes populações haviam reagido. Ela encontrou sinais fortes de seleção em populações que vivem nas regiões polares, em pessoas que vivem de caça e coleta e pessoas cujas dietas são ricas em raízes e tubérculos, conforme relatou com seus colegas em maio na revista "Proceedings of the National Academy of Sciences". Os menores sinais de seleção foram encontrados entre pessoas que vivem nos trópicos úmidos, onde evoluiu a população humana ancestral. "Poderíamos argumentar que estamos adaptados a isso e que a maioria dos sinais é vista em lugares onde as pessoas se adaptam a novos ambientes", disse Di Rienzo. Em uma adaptação, descobriu-se que a maioria dos asiáticos do leste tem uma forma especial de um gene conhecido como ABCC11, que faz as células do ouvido produzirem cera seca. Mas a maioria dos africanos e dos europeus possui uma forma ancestral do gene, que faz cera de ouvido úmida. A versão asiática do gene pode ter sido selecionada por alguma propriedade, como fazer as pessoas suarem menos, diz uma equipe liderada por Kohichiro Yoshiura, da Universidade de Nagasaki. Os casos de seleção natural que foram rastreados até agora assumem a forma de varreduras substanciais, com uma nova versão de um gene presente em uma grande porcentagem da população. Essas varreduras bruscas, como muitas vezes se supõe, partem de uma nova mutação. Mas poderia levar até 300 mil gerações para ocorrerem, segundo cálculo do geneticista Jonathan Pritchard, da Universidade de Chicago. Mas a nova evidência de que os humanos se adaptaram rápida e extensamente sugere que a seleção natural deve ter outras opções para modificar uma característica. Em "Current Biology", Pritchard sugere que a seleção natural pode ocorrer por meio do que ele chamou de varreduras

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suaves. Suponha que haja cem genes que afetam a altura. Cada gene existe em uma versão que reforça a altura e em outra que não. A pessoa média poderia herdar a versão de aumento da altura de 50 desses genes e, consequentemente, ter uma altura mediana. Suponha que essa população migre para uma região onde é vantajoso ser muito alto. A seleção só precisaria tornar as versões de aumento da altura desses cem genes apenas um pouco mais comuns na população, e agora a pessoa média provavelmente herdaria 55 deles, digamos, em vez de 50, e, consequentemente, seria mais alta. Como as versões dos genes para altura maior já existem, a seleção natural pode agir imediatamente, e a população pode se adaptar com rapidez ao seu novo lar.

Próximo Texto: Aprender com o fracasso

Os desastres ensinam mais que os êxitos. Essa ideia pode soar paradoxal, mas é aceita por engenheiros. Estes dizem que as lições amargas surgem porque as razões do sucesso em questões tecnológicas muitas vezes são arbitrárias e invisíveis, sendo que a causa de um fracasso específico com frequência pode ser identificada, documentada e estudada para que se possam buscar aperfeiçoamentos. Ou seja, desastres podem servir de incentivo à inovação. Não há dúvida de que, ao longo dos séculos, o processo de construção de máquinas e indústrias pelo método de tentativa e erro já resultou em muito sangue e milhares de vidas perdidas. Os fracassos, às vezes terríveis, são inevitáveis, e engenheiros dizem que vale a pena tirar bom proveito deles para evitar erros futuros.

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O resultado disso é que as façanhas tecnológicas que definem o mundo

moderno às vezes são fruto de acontecimentos que alguns gostariam de esquecer. "[O fracasso] é uma grande fonte de conhecimento, algo que nos impõe humildade e que às vezes é necessário", disse Henry Petroski, historiador da engenharia na Universidade Duke e autor de "Success Through Failure". "Ninguém deseja fracassos. Mas tampouco é o caso de se desperdiçar uma boa crise."

Agora, dizem especialistas, esse tipo de análise provavelmente levará ao aprimoramento dos equipamentos e procedimentos complexos empregados por empresas para extrair petróleo em águas cada vez mais profundas. Eles afirmam que a falha catastrófica de 20 de abril no golfo do México - que causou 11 mortes e desencadeou o pior vazamento marítimo de óleo da história dos EUA- incentivará avanços. "A indústria petrolífera sabe que isso não pode voltar a acontecer", disse David W. Fowler, professor da Universidade do Texas, em Austin, que ministra um curso de engenharia forense. Em Londres, em 22 de junho, no Congresso Mundial de Companhias Petrolíferas Nacionais, manifestantes do Greenpeace interromperam o discurso de um representante da BP, a empresa que perfurou o poço causador do vazamento. Antes de ser retirado do recinto, um manifestante gritou que a responsabilidade planetária "implica em acabar com as perfurações perigosas".

A história da tecnologia sugere que esse fim é improvável. Equipamentos

podem se tornar malvistos, mas raramente ou nunca são abolidos de forma planejada. Em lugar de pôr fim às aeronaves rígidas, a explosão do dirigível Hindenburg demonstrou os perigos do uso de hidrogênio como gás para elevar balões e resultou em uma ênfase nova no uso do hélio, que não é inflamável. E a engenharia é, por definição, uma profissão de resolução de problemas. Analistas dizem que o impulso construtor, e seu provável resultado para a

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exploração petrolífera em águas profundas, levará, por meio da análise do fracasso ocorrido, a inovações que aumentarão a segurança dos poços, sejam quais forem os méritos de se reduzir a dependência humana do petróleo. Para eles, o desastre da BP acabará por inspirar avanços tecnológicos. Do naufrágio do Titanic ao derretimento do reator de Tchernobil, em 1986, do desabamento da ponte Tacoma Narrows, em Washington, em 1940, à queda do World Trade Center, em 2001 -todos esses incidentes forçaram engenheiros a buscar soluções de falhas. Engenheiros de design dizem que, com frequência, a natureza de seu ofício é voar no escuro. O engenheiro britânico Eric J. Brown, que desenvolveu aeronaves na Segunda Guerra Mundial, debateu o problema com franqueza. Em livro de 1967, descreveu a engenharia estrutural como "a arte de moldar materiais que não compreendemos realmente em formas que não podemos analisar realmente, para que resistam a forças que não podemos avaliar realmente, de maneira que o público não imagina realmente". Em "Success Through Failure", Henry Petroski, da Universidade Duke, chamou atenção ao corolário inovador. Os fracassos, disse, "com frequência levam obras a serem redesenhadas, conduzindo a coisas novas e aprimoradas".

Vinda de mexicanos injeta nova vida, mas desafia velhos hábitos

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Por KIRK SEMPLE

Em 1986, quando tinha 14 anos, Ramiro Cariño se esgueirou pela fronteira mexicana e chegou a Nova York. Foi morar com uma irmã mais velha na rua 187 em Belmont, o bairro conhecido como Little Italy (Pequena Itália) do Bronx. Cariño não tinha muita certeza de onde havia pousado: a língua principal na rua era a italiana, a bandeira da Itália enfeitava as fachadas de lojas e casas, e havia restaurantes e lojas italianos por toda parte. Atualmente, o sotaque espanhol predomina em Belmont. Os mexicanos tornaram-se um pilar social, trabalhando nas lojas ao longo da avenida Arthur e habitando os apartamentos ao redor. Alguns abriram seus próprios negócios, de restaurantes a lojas que vendem roupas de vaqueiros mexicanos ou equipamento para futebol. Cariño, que sobreviveu os primeiros anos no bairro recolhendo garrafas e às vezes comida das latas de lixo, abriu sua própria empresa no ano passado: El Sureño, uma pequena loja de comida e restaurante mexicano. Com três filhos nas escolas públicas americanas, Cariño não abandonou seu emprego de cozinheiro em uma delicatessen em outra parte do Bronx. Ele trabalha lá das 6h da manhã às 16h, quando volta para seu restaurante e cozinha até as 22h. "Eu ainda não sinto que fiz sucesso, mas quero vencer", disse Cariño. Então, falando sobre as vitórias de seus conterrâneos em Belmont, ele acrescentou: "Investindo tudo o que você tem, é possível triunfar". Com a explosão de mexicanos em Nova York nas últimas décadas, seu impacto nos bairros onde se assentaram em maior número foi bem documentado, como em East Harlem, Mott Haven, no sul do Bronx, e Sunset Park, no Brooklyn. Mas Belmont oferece uma visão de como os mexicanos estão fincando pé em outras partes da cidade que são menos claramente rotuladas e onde estão em número muito menor.

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Lenta e silenciosamente, a população mexicana do bairro parece ter atingido o apogeu, injetando nova vida na área e desafiando antigos costumes. "Eles praticamente nos pegaram de surpresa", disse Frank Franz, um líder empresarial que passou a vida toda em Belmont. "Quando você via que eles abriam suas lojas, você dizia: 'Puxa! Eles vieram em grande número'." Ainda não está claro se essa prosperidade nascente vai se traduzir em verdadeiro poder político e econômico -uma questão com grandes implicações para uma cidade em que os mexicanos hoje são o grupo imigrante de crescimento mais rápido. Em 1980, 35 pessoas de origem mexicana viviam em Belmont, segundo cálculos baseados em dados do departamento de sociologia do Queens College, em Nova York. Em 2008, eles haviam crescido para mais de 3.200, ou cerca de 14% da população. Isso equivale ao aumento de mexicanos em toda a cidade -segundo o Departamento do Censo, de cerca de 6.700 em 1980 para mais de 170 mil hoje-, impelido pela imigração e o alto índice de nascimentos. Em Belmont, o surto populacional foi sentido nas escolas e igrejas. Na igreja católica de Nosso Salvador, os mexicanos hoje constituem cerca de 80% da congregação, segundo funcionários. Na Escola Pública 32, aproximadamente um quarto do corpo dicente é de origem mexicana, no cálculo da administração. Na igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo, em Little Italy, foram adotadas missas em espanhol depois de uma resistência inicial dos fiéis italianos, acostumados às missas em inglês e em italiano. "Eu acho que eles aceitaram a situação", disse a irmã Martina San Pedro, que foi trazida do México pela Arquidiocese de Nova York há 14 anos, para trabalhar com os fiéis latinos na Monte Carmelo. "Eu acho que eles perceberam que as coisas escaparam de suas mãos e que eles tinham de aceitar." Franz, o líder empresarial, já viu muitas evidências de que os mexicanos estão se enraizando em Belmont. Quatro anos atrás, ele disse, depois que o

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México foi eliminado da Copa do Mundo e a Itália ganhou, os mexicanos saíram às ruas com bandeiras italianas, gritando "Vencemos!". Os antigos moradores tomaram nota, e isso ajudou a unir as duas populações, disse Franz. "Acho que eles pensaram assim: 'Sim, nós gostaríamos que o México ganhasse, mas se o México não pode ganhar gostaríamos que a Itália ganhasse, porque fazemos parte de Little Italy'. Eles estão aqui para criar seu lar, assim como nós criamos o nosso", contou ele. Como é o caso de muitos bairros de Nova York, os mexicanos ainda não se tornaram ativos em associações comerciais em Belmont. Ainda incipientes politicamente, eles carecem de líderes. Franz disse esperar que os mexicanos cresçam e ajudem a conduzir o progresso. "Estamos realmente tentando incorporar todos como uma só comunidade", disse.

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Por ANEMONA HARTOCOLLIS

A Prefeitura de Nova York aumentou o tempo de travessia em mais de 400 cruzamentos da cidade, de forma a deixar as ruas mais seguras para as pessoas mais velhas, e há sete meses ônibus escolares levam idosos às compras. As pessoas vivem em Nova York por ser um lugar como nenhum outro - cheio de vida, energia e opções-, mas os urbanistas reconhecem que ela poderia ser uma cidade mais agradável para se envelhecer. As iniciativas, num momento em que a geração dos "baby boomers" começa a chegar à idade da aposentadoria, nascem de boas intenções e também de uma estratégia econômica.

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"Nova York se tornou uma cidade mais segura, e temos tamanha riqueza de parques e cultura que estamos nos tornando um destino de aposentadoria para idosos", disse Linda Gibbs, vice-prefeita para assuntos de saúde e serviços humanos. "Eles vêm não só com suas cabeças e corpos; vêm também com suas carteiras." Em todos os EUA, casais dos subúrbios voltam para as cidades ao verem o ninho vazio, juntando-se àqueles que simplesmente envelheceram onde foram jovens.

É claro que Nova York não é o único lugar que está tentando facilitar essa

transição. Cidades como Cleveland e Portland (Oregon) já tomaram medidas para serem mais "amigas do idoso". Mas talvez nenhuma cidade

tão acelerada e voltada para os jovens como Nova York tenha encarado o desafio.

O Departamento de Planejamento Urbano prevê que em 20 anos Nova

York terá parcelas mais ou menos iguais de escolares e idosos, 15% de cada grupo -o que representa uma acentuada mudança em relação a 1950,

quando havia na cidade mais de dois escolares para cada habitante idoso. Até 2030, o número de nova-iorquinos com 65 anos ou mais - consequência dos "baby boomers", da redução da fertilidade e da maior longevidade- deve chegar a 1,35 milhão, 44% a mais do que em 2000.

Sob certos aspectos, a cidade já resolveu os desafios mais difíceis a fim de

se tornar atraente para os seus moradores mais velhos, e também para os

de outras partes dos EUA que possam cogitar a ideia de curtir a aposentadoria no Upper East Side ou em Brooklyn Heights.

A criminalidade tem caído há quase duas décadas; a cidade ganhou mais

áreas de parques do que em qualquer outro período similar da sua história; e o sistema 311 facilitou o contato com órgãos públicos e serviços sociais. Agora, a cidade quer melhorar a vida de maneiras mais modestas, porém mais significativas. A Academia de Medicina de Nova York adotou em 2007 a ideia da Organização Mundial da Saúde de criar uma cidade amiga do idoso e, para isso, buscou apoio da Câmara e da prefeitura. A academia tem feito reuniões e pesquisas com milhares de idosos na cidade.

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O que as pessoas mais dizem querer é viver num lugar com vizinhança

amigável, onde seja seguro atravessar a rua e onde a farmácia da esquina lhes ofereça um copo d'água e lhes deixe usar o banheiro. Elas desejam melhor drenagem nas ruas, porque é difícil saltar poças quando se usa andador ou cadeira de rodas. "Toda a conversa em torno do envelhecimento passou, na minha cabeça, de uma coisa voltada para doenças, voltada para o trágico fim da vida, para algo que tem muito mais a ver com a força, a fidelidade e a energia com as quais uma população mais velha contribui para a nossa cidade", disse Gibbs.

O gabinete dela está promovendo projetos-piloto nos bairros de East

Harlem e Upper West Side para estimular as empresas a adotar voluntariamente confortos para os idosos. Exemplos podem incluir adesivos nas vitrines para identificar empresas amigas do idoso; bancos adicionais; iluminação adequada; cardápios com letras maiores; e até descontos em bebidas para a terceira idade. "Centros para idosos são ótimos, mas eles têm um estigma, goste você ou não", disse a vereadora Gale Brewer, do Upper West Side. "Eles não são

para todo o mundo. Mas o que é para todo o mundo é um banco. O que é para todo o mundo é um desconto na mercearia quando você tem mais de 65 anos."

Bairro se desenvolve perto de um "lindo" canal poluído

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Por MATT GROSS

O bairro que cresce ao longo das margens do notoriamente poluído canal

Gowanus, no distrito nova-iorquino de South Brooklyn -cercado por áreas de casas geminadas e repleto de armazéns semivazios e fábricas parcialmente desocupadas-, está atraindo jovens modernos de Nova York para galerias de arte, academias que oferecem aulas de alpinismo, boates e filmagens de seriados com cenas de ação sobre telhados. Parece que a decadência pós-industrial e o canal, muito criticado, estão proporcionando a Gowanus um fator de atração cultural especial, como se fosse uma Baltimore ou Detroit em miniatura (com poluição assustadora no lugar de criminalidade assustadora). "Não há lugar no Brooklyn, ou mesmo em Nova York, que seja mais agradável de se estar do que aqui, o que é estranho, considerando que este é um canal contaminado", comentou Jennifer Prediger, produtora de vídeos ambientais que vive na vizinha Carroll Gardens. "Mas o lugar realmente é bem bonito. É o canal contaminado mais bonito no qual já estive."

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) pretende reduzir a

contaminação do canal. Em março, o órgão conferiu ao local e suas

redondezas imediatas o status de zona Superfund (lei voltada à limpeza de locais contaminados), ordenando obras de limpeza que, segundo informou, levarão entre dez e 12 anos e custarão de US$ 300 milhões a US$ 500 milhões.

A iniciativa foi combatida pela prefeitura, que queria evitar o estigma

associado ao Superfund e administrar ela própria o projeto de limpeza, e também por construtoras como a Toll Brothers, que pretendia construir

um complexo de 480 apartamentos à margem do canal. "Fizemos uma festa grande", recordou Marlene Donnelly, membro do grupo Amigos e Residentes da Grande Gowanus, que lutou pela designação Superfund. "Havia esperança de que o prefeito, seus cupinchas e as construtoras

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sedentas de dinheiro perdessem", disse o marido de Donnelly, o arquiteto Benjamin R.M. Ellis. "Foi uma vitória inequívoca." Para eles, a vitória ainda é apenas parcial. A limpeza a ser promovida pela EPA abrange só o canal e o solo poluídos, mas não o escoamento de esgotos. Quando chove, o esgoto dos bairros vizinhos é levado ao canal.

A responsabilidade do problemaé da prefeitura, cujos planos atuais

reduziriam apenas parte do escoamento, disse Ellis. Enquanto o sistema de esgotos não for aprimorado, disse, a construção de novas unidades residenciais deve ser adiada.

O que os moradores locais gostariam de ver são mais projetos como o Old

American Can Factory, complexo de construções de tijolinhos da era da Guerra Civil que foi convertido em escritórios, ateliês e oficinas de preço módico para empresas criativas como a grife de moda Vena Cava.

A ideia é preservar os elementos que atraem pessoas para Gowanus:

pessoas como o músico de folk e blues Turner Cody, que recentemente filmou um clipe musical na área e descreveu a vista como "um pouco de decadência urbana simpática". E James Stillwaggon, 34, que, em um fim de tarde recente, levou seu sobrinho de 12 anos para um passeio exploratório com o clube de canoagem de Gowanus. "Vimos manchas de óleo, garrafas de cerveja boiando na água, reboques e barcaças", contou Stillwaggon. "Vimos um cálice de vinho boiando, o que foi fantástico. Alguém se divertiu ali! Mas também vimos uma garça, um gato e muitas aves sobrevoando o canal. É espantoso como tanta vegetação cresce sobre o espaço industrial." Ele achou preocupante estar em um canal poluído? "Não. Afinal, quem cresceu em Long Island nos anos 1980 sabe que sempre havia dias em que se viam dejetos de esgoto na água, todo tipo de coisas horríveis. Por isso, acho que não há nada a temer."

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Por PATRICK HEALY

Com o público geral da Broadway em declínio, os produtores estão apostando especialmente em frequentadores afro-americanos para aumentar suas receitas.

O uso de grupos de opinião é uma das estratégias usadas pelo musical

"Memphis", um romance turbulento entre uma cantora negra de R&B e um

DJ branco, e pela nova peça "Race", outro espetáculo concentrado em personagens negros, que raramente ocupam o primeiro plano nas principais peças e musicais. Enquanto os produtores de "Memphis" estimam que 25% a 30% de seu público seja formado por negros, a produção de uma remontagem de "Fences" e de "Race" diz que sua iniciativa resultou em uma plateia composta por 40% de negros. "Fences", estrelada por Denzel Washington, também atraiu um grande número de afro-americanos (a temporada terminou em 11 de julho).

A programação da Broadway para esta temporada inclui dois novos

musicais sobre homens negros, "Unchain My Heart: The Ray Charles Musical" e "The Scottsboro Boys", e possivelmente a nova peça "The Mountaintop", sobre o reverendo Martin Luther King Jr., dependendo de se a produção conseguir astros como Samuel L. Jackson e Halle Berry. Na verdade, os produtores de "Memphis" dão crédito à publicidade boca a boca entre a população negra por manter o show em cartaz por tempo suficiente para ganhar o Prêmio Tony de melhor novo musical, em junho. Com uma partitura e história desconhecidas, "Memphis" não tem astros. Mas seus produtores acreditavam que o show ficaria conhecido como um entretenimento memorável se fosse divulgado entre religiosos, diretores de coro e mulheres da comunidade afro-americana. "Qualquer um que disser que 'Memphis' não é original como peça de teatro musical não está percebendo o impacto que o show tem sobre um amplo leque de pessoas que sentem que a Broadway de modo geral não é para

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elas", disse Sue Frost, uma das principais produtoras do espetáculo, comentando com orgulho que Michelle Obama levou suas filhas a uma apresentação. Uma empresa de venda de ingressos para grupos que se dedica às minorias, a Full House Theater Tickets Inc., relatou que "Memphis", "Race" e "Fela!" (sobre o músico afrobeat Fela Kuti) atraíram um número extremamente grande de afro-americanos. "Parte do interesse desses shows é que eles dão às plateias negras algo de que falar", disse Sandie M. Smith, presidente da Full House. O sabor R&B de "Memphis" e o tratamento sério da vida afro-americana segregada na década de 1950 foram pontos que atraíram Willie Anderson, turista de Atlanta, o qual levou um grupo de 11 parentes e amigos para uma apresentação. Cada um pagou US$ 94 por ingresso. "Queríamos ver algo com sabor africano e ouvimos falar que 'Memphis' era um show que valia a pena assistir", disse Anderson. "Não tenho nada contra 'Mary Poppins', mas não o considero um espetáculo para nós, como 'Memphis'."