Sérgio Santana Pedra

A ESTRUTURA NO JORNALISMO OPINATIVO: Uma análise do conteúdo dos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Sérgio Santana Pedra

A ESTRUTURA NO JORNALISMO OPINATIVO: Uma análise de conteúdo dos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo
Monografia apresentada ao curso de Comunicação Social, do Departamento de Ciências da Comunicação do Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI - BH como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Jornalismo. Orientadora: Mestre Ana Rosa Vidigal Dolabella

Belo Horizonte Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH) 2010

Agradeço a Deus por me proporcionar esse momento de alegria com todas as pessoas que amo e a professora Ana Rosa Vidigal Dolabella pela paciência, interesse e entrega no desenvolvimento deste trabalho. Agradeço também ao meu amigo Juliano pela amizade em momentos complicados, pelas conversas, zueiras e etcs...Aos amigos Fernando, Bruno, Henrique, e todos os companheiros de caminhada no curso de jornalismo levarei a amizade de todos para sempre. Dedico esta monografia ao meu pai, irmãos e namorada por me darem forças nos momentos difíceis. Aos amigos e colegas por estarem sempre ao meu lado. Professores quantos ensinamentos, quantas respostas as minhas perguntas. Dedico a você minha mãe que não pode estar aqui nesse momento em que eu sinto tanto a sua falta, mas sei que mesmo no andar de cima olha por mim e me guia nos meus passos. Obrigado a todos, vocês fazem parte da minha caminhada, hoje, amanhã e sempre!

SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 05 2 A IMPRENSA: OS CRITÉRIOS DE NOTICIABILIDADE E O JORNALISMO OPINATIVO .......................................................................................................................... 08 2.1 O papel da imprensa junto ao público ............................................................................... 08 2.2 Os critérios de seleção das notícias ................................................................................... 09 2.3 Jornalismo opinativo ......................................................................................................... 15 3 O JORNALISMO OPINATIVO: OS EDITORIAIS ...................................................... 23 3.1 O jornalismo opinativo e a questão dos gêneros ............................................................... 23 3.2 O editorial .......................................................................................................................... 25 4 ANÁLISE DOS EDITORIAIS DOS JORNAIS ESTADO DE MINAS e FOLHA DE S. PAULO .................................................................................................................................... 35 4.1 Introdução à análise ........................................................................................................... 35 4.2 Breve história do jornal Estado de Minas ......................................................................... 35 4.3 Breve história do jornal Folha de S. Paulo ....................................................................... 36 4.4 Período de análise e objetivo ............................................................................................. 37 4.5 Análise: os editoriais e o resgate dos temas mais relevantes ............................................. 38 4.6 Considerações da análise quantitativa ............................................................................... 41 4.7 A estrutura do editorial: a linguagem e a opinião .............................................................. 47 5 CONCLUSÃO..................................................................................................................... 54 REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 57

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1 INTRODUÇÃO

O jornalismo é considerado o principal meio de informação. A utilidade e prestação de serviço, além do ato de informar são as principais características dos meios de comunicação. O jornalismo impresso tem papel de destaque por ser um dos meios mais antigos de informação, por isso tem papel fundamental na divulgação da informação para o interesse público. Para Melo (2003), o jornalismo impresso é um meio de busca por informações mais detalhadas, já que hoje a velocidade da informação faz com que tudo seja muito rápido. Como o acesso a informação cresce em virtude dos diferentes meios de comunicação nem todas as pessoas tem o acesso à notícia mais detalhada, e os jornais impressos assumem esse papel junto ao público. Mais do que um simples meio de informação, o jornalismo sempre foi cercado por mitos, o principal deles da objetividade jornalística e a imparcialidade. E esse é um tema colocado em questão sempre que acontecem fatos que despertam interesses distintos, seja do público ou dos próprios meios de comunicação. Mas o jornalismo tem por base características específicas que se manifestam por gêneros. Por isso, o jornalismo é dividido entre um eixo que o objetivo principal é apenas o de informar. Outro eixo que é o dos gêneros opinativos, que são constituídos pelo editorial, carta, charges, artigos, entre outros. Através dessa divisão podemos entender melhor as especificidades de cada um desses gêneros. Esse é o objetivo desta monografia, abordar o gênero opinativo editorial. Saber a relação de um editorial com o público não é tarefa fácil de ser entendida, pois este pode representar significados diferentes para cada pessoa que o lê. De acordo com Alfreu Barbosa (1970), em um jornal diário, o editorial apresenta aos leitores assuntos da atualidade e geralmente de maior repercussão, para muitos é a opinião da empresa sobre o determinado tema. Os jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo trabalham com a coluna de opinião; na Folha são dois editoriais por dia, enquanto que o jornal mineiro tem uma publicação diária. A pesquisa monográfica busca identificar as estruturas do editorial dentro do conteúdo opinativo em que se insere o editorial. A linguagem e a opinião serão analisadas verificando o posicionamento do editorial sobre determinado fato. Além disso, serão

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observados os temas que mais são tratados pelos dois jornais. Dessa maneira, poderemos apontar como funciona a construção desse discurso e como ele se dá ao longo do texto opinativo presente nos editoriais. O método utilizado para a realização da pesquisa será o de análise de conteúdo dos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo. Além disso, a comunicação de massa dentro do jornalismo também será abordada, bem como características inerentes à profissão e ao formato específico dos conteúdos opinativos. Os aspectos lingüísticos são também objetos importantes de estudo dentro dessa análise monográfica. Os posicionamentos políticos e ideológicos que os jornais apresentam, inerentes ao jornalismo, ganham importantes proporções, visto que segundo os autores através deles estará a opinião da empresa de comunicação. Em uma primeira abordagem vamos observar se os editoriais apresentam matérias regionais, nacionais ou internacionais. Depois passamos a verificar os temas de cada editorial, exemplo política, economia, gerais. Essa etapa ajuda a organizar, inicialmente, o material e entender os principais aspectos relacionados a temas que os dois veículos tratam. Além disso, a seleção dos editoriais por datas será embasada por temas iguais, exemplo dois artigos de fundo sobre política, para que, possa ser estabelecida uma análise comparativa entre eles. Para análise qualitativa dos textos, são estabelecidas relações entre os conceitos que fundamentam o gênero jornalístico editorial levantado pelos autores na pesquisa bibliográfica, procurando identificar a relação dos temas com a chamada opinião da empresa. Primeiramente, é realizada uma análise do jornalismo e os critérios de noticiabilidade. Para essa etapa foram abordados autores como Wolf (1999) e Rodrigues (1990) sobre as estruturas e critérios de seleção de notícias, e as características em geral do jornalismo. Para Wolf (1999), os jornalistas adotam critérios de seleção das notícias, e são estes critérios que determinam o direcionamento a ser dado aos fatos. O autor afirma que, para que esse direcionamento possa ser entendido é necessário seguir a regra dos mass media e que estas ocorrem por questões ideológicas.

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Rodrigues (1990) afirma que, na prática do jornalismo, os fatos são sempre soberanos, entretanto, quanto mais imprevisível e improvável o fato for, maiores são as chances dele de se tornar notícia. Nesse caso é a relação estabelecida com o improvável ou o que se torna fora do comum, o que foge a regra. Na segunda etapa, o objetivo é o de analisar o jornalismo opinativo, como se apresenta e se estrutura. Além disso, o mesmo capítulo trata o editorial como meio de informação e de opinião. O objetivo é identificar como se apresenta o conteúdo através de uma análise qualitativa e quantitativa dos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo. Dessa maneira o estudo apresenta um olhar de como pode ser visto a construção de elementos de opinião em um jornal. Além disso, cria a possibilidade de estabelecer maior ligação entre jornalista e o produto final.

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IMPRENSA:

OS

CRITÉRIOS

DE

NOTICIABILIDADE

E

O

JORNALISMO OPINATIVO

2.1 O papel da imprensa junto ao público

Os jornais são caracterizados como um dos principais veículos de informação diária. As pessoas buscam no jornalismo impresso diferentes tipos de informação: política, economia, esporte, lazer, educação, dentre outras. Apesar de a modernidade apresentar novas ferramentas midiáticas, o jornal ainda tem grande aceitação popular, por isso ele se constitui como um dos principais meios de comunicação. Ao longo dos anos foram criados diferentes tipos de mídias, porém José Marques de Melo (2003) acredita que o jornalismo impresso é um meio de busca por informações mais detalhadas, já que hoje a velocidade da informação faz com que tudo seja muito rápido e nem todas as pessoas tenham o acesso a notícia mais detalhada como acontece nos jornais impressos. Contudo, esse processo de informação se desenvolveu através de TV, rádio e atualmente internet. E a imprensa passou a ter uma espécie de convergência de mídias, que uma mesma notícia pode ser relatada em diferentes formas de acordo com o veículo que a noticia. Por isso Muniz Sodré (1996) conclui que a imprensa foi assumindo um papel de poder, seja pela possibilidade de denúncias de irregularidades ou pela capacidade de suscitar ou defender causas públicas. Entretanto, esse suposto poder da imprensa tem características intrínsecas, haja vista o seu compromisso moral com a verdade pública. Segundo o mesmo autor, o aspecto interno da imprensa supera os poderes advindos dos vínculos desses meios de comunicação, sendo assim, com a estrutura de poder estabelecida socialmente. Contudo, a imprensa nunca foi o único meio a serviços ditos das causas públicas. A linha editorial dos jornais aliou os interesses daqueles grupos que detinham o poder político e econômico a que apoiavam. Entretanto, a partir do século XIX, a imprensa já se apresentava como um elo essencial entre a sociedade e o Estado.

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A legitimidade jurídico-racional do Estado – tipo básico adequado, segundo Max Weber, ao Estado liberal – era reafirmada na sociedade civil por uma mentalidade ―tipográfica‖, que priorizava o uso racional das faculdades mentais e estimulava formas objetivas de discussão pública. (SODRÉ, 1996: p.68)

Portanto, a imprensa moderna estabelece uma relação específica dos veículos de comunicação com o Estado e a sociedade. Logo, apresentando-se como instrumento de livre circulação de idéias e opiniões, a imprensa, nesse caso, passa a ceder espaço para outras forças de poder, além da estatal. A partir, desse ponto passa a informar a sociedade civil quanto às omissões e as corrupções do Estado, mas concomitantemente, ela expõe esse mesmo público aos mecanismos de controle do Estado. Os meios de comunicação de massa poderiam ser descritos como lugar comum ou ideal para a construção de uma realidade ou então para a tentativa de uma moldagem ideológica do mundo, fazendo-o de maneira relativamente autônoma.

A relativa autonomia produtiva dos media e as singulares estratégias de negociação simbólica que mantêm com seus públicos não os deixam tornar-se mecânicas caixas de ressonância das empresas e Estado. Mediações complexas intervêm na elaboração de seus códigos tecnoculturais. (SODRÉ, 1996: p.72)

Sodré (1996) considera que o acesso as informações está intimamente associado à situação econômica do usuário. Em qualquer discurso, a informação é um produto à venda, uma estratégia avançada de atribuição de valor. Logo, na sociedade contemporânea, as indústrias culturais e a mídia podem estimular o consumo de informações em massa, criando assim a expectativa de que por meio deste caminho alcançar-se-á a democracia social.

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2.2 Os critérios de seleção da notícia

O discurso jornalístico é representado por algumas características que fazem com que este tenha espaço para variadas formas e conteúdos. A argumentação e a linguagem presentes nesse discurso é que determinam o caráter persuasivo ou informativo de um texto. Por isso Wolf (1999) retoma a questão sobre os mass media e a hipótese da agenda setting, e finalmente passando pelo entendimento do newsmaking. O percurso seguido pela pesquisa sobre o mass media se concentra de início na questão dos problemas da manipulação para depois passar aos da persuasão, depois disso a influência e por fim chegar às funções. Em um primeiro momento ressalta-se a importância do estereótipo para a conclusão da notícia em relação a uma realidade social.

Os estereótipos são um elemento indispensável para se organizar e antecipar as experiências da realidade social que o sujeito leva a efeito. Impedem o caos cognitivo, a desorganização mental, constituem, em suma, um instrumento necessário de economia na aprendizagem. Como tal nenhuma atividade pode prescindir deles. (Wolf, 1999: p.91)

Com o decorrer dos anos, a função do estereótipo foi alterada profundamente. E as divisões por gêneros conduziram ao desenvolvimento de formas rígidas, fixas, e tornaram mais importante o modelo de atitude do receptor. Isso exigiu que a indústria cultural antecipasse a notícia, em divisões por conteúdos específicos, e a partir daí, a classificação desses gêneros tornou-se uma atração para o receptor que agora poderia ver a sua busca direcionada através das subdivisões por categorias. Com isso, o público passou a ter expectativas antes de se encontrar com a própria matéria A principal idéia passada com esse conceito da estereotipização é que, ―[...] quanto mais os estereótipos se materializarem e fortalecem [...], provavelmente tanto menos as pessoas modificarão as suas idéias preconcebidas com o aumento da sua experiência (WOLF, 1999: p.92). O homem se encontra em uma sociedade manipuladora que o consome; o receptor é o objeto da indústria cultural que o manipula e o direciona, para variadas formas de pensamento.

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Diante disso, na medida em que as posições e influências da indústria cultural se consolidam e solidificam, mais ela pode agir sobre as necessidades do consumidor, guiando-o e disciplinando-o. Para Wolf (1999), a forma como o produto é apresentado para o receptor faz com que ele seja um objeto e que o direcionamento e o entendimento sejam controlados pelo lado psicológico. Atualmente o mass media transforma a mensagem que por muitas vezes, é repetitiva em uma voz quase que autoritária, e com uma obediência irreflexiva e dominante, exercendo sobre o consumidor um controle e impondo uma aceitação daquilo que está sendo proposto. Já para o conceito de agenda setting os mass media não tem a intenção de persuadir. Neste conceito, o que se diz é que o mass media descreve a realidade e apresenta ao público como forma de discussão e opinião. O pressuposto fundamental da agenda setting é que as pessoas têm a compreensão por parte da indústria cultural, mas por empréstimo que eles repassam para o receptor (WOLF, 1999).

No estado actual, a hipótese da agenda setting é, portanto, mais um núcleo de temas e de conhecimentos parciais, susceptível de ser, posteriormente, organizado e integrado numa teoria geral sobre a mediação simbólica e sobre os efeitos de realidade exercidos pelos mass media, do que um modelo de pesquisa definido e estável. (Wolf, 1999: p.145)

Por fim a hipótese da agenda setting defende que os mass media são eficazes, principalmente na construção, da imagem da realidade que o receptor vai estruturando ao longo dos anos. Essa imagem é uma metáfora que representa, em sua maioria, a totalidade da informação sobre o mundo em geral que cada indivíduo tratou, organizou e acumulou. A partir dessas idéias os mass media se dividem em duas coordenadas, a primeira é representada pelos estudos sobre as características dos destinatários que intervêm no resultado final do efeito. A segunda parte esta direcionada para o estudo das mensagens com finalidades persuasivas. Para se compreender as comunicações de massa, é necessário que a pessoa possa centralizar a atenção no âmbito social, e que este campo seja mais vasto em relação às empresas de comunicação. Mas para atingir níveis de cunho jornalístico é necessário que o próprio texto seja explicativo a partir, desse texto é que se constrói uma matéria, porém esta só acontece

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fundamentada por um acontecimento, desde que este seja de interesse público e tenha elementos que possam fazer com que ele seja constituído de fatos que afetam a vida das pessoas de forma direta ou indireta. Adriano Duarte Rodrigues (1990) apresenta elementos que ajudam a identificar o que é, e o que não é um acontecimento. Segundo o autor um acontecimento pode ser transformado em notícia desde que apresente características que o tornem notável. Existem três registros de noticiabilidade: o excesso, a falha e a inversão. Dentro deste pensamento o autor acredita que quanto maior for à improbabilidade de um fato, maior será a possibilidade dele se tornar notícia. Os critérios apresentados pelo referido autor são explicados, o excesso é um registro que foge ao comum, é algo anormal dentro de uma determinada norma. Um exemplo do autor quando um exército regular comete um massacre. A falha está ligada ao defeito dentro de algo que poderia estar dentro de uma normalidade, o autor ilustra essa situação com a falha humana caracterizada pelo erro físico. Já a inversão é quando os papéis se invertem, no melhor exemplo apresentado pelo autor que quando um cão morde um homem não é notícia, mas se o homem morde o cachorro isso se torna notícia. Rodrigues (1990) apresenta ainda um segundo acontecimento chamado por ele de metaacontecimento, o autor sugere que ele exista apenas pelo próprio discurso que o gera, neste caso o discurso jornalístico. Este tipo de acontecimento ocorre quando, por exemplo, aconteça uma revolta de câmeras ou repórteres diante de uma televisão. Contudo, o autor define que os metas-acontecimentos ocorrem em função do discurso, do mundo simbólico e não propriamente pela natureza dos fatos. O meta-acontecimento não é exatamente o fato, e sim o discurso atualizado sobre tal acontecimento. O referido autor conclui que no momento em que o discurso jornalístico anuncia algum acontecimento, este discurso midiático produz alterações da realidade e conseqüentemente produz, também, novas ações. Isso acontece, devido à carga valorativa subjacente que o discurso midiático pode possuir ou produzir, por mais objetivo que este possa ser possuir para constituir-se como notícia e ganhar publicidade, a qual está diretamente relacionada às rotinas produtivas, de certa forma, estáveis.

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Wolf (1999), o autor explica como funcionam estes critérios de seleção da notícia indicados por Beltrão (1980). No livro Teorias da Comunicação Wolf (1999), afirma que o newsmaking é um dos critérios utilizados do fazer jornalístico, nele, o autor avalia todas as etapas, desde os processos produtivos até pontos de processos que influenciam na notícia ou na informação. Nas rotinas produtivas jornalísticas são estabelecidos e convencionados critérios que determinaram o que tem potencial de notícia e como estas serão produzidas, ou seja, serão definidos alguns critérios de noticiabilidade. Segundo o autor, esses critérios são o conjunto de características que um fato deve possuir para constituir-se como notícia, e a partir daí ganhar publicidade, a qual está diretamente relacionada às rotinas produtivas, de certa forma, estáveis. A noticiabilidade está relacionada ao conceito de perspectiva de notícia e ao que os jornalistas consideram importante e relevante dentro dos acontecimentos do cotidiano. O autor afirma que as notícias são definidas pelos próprios jornalistas. Porém, o acontecimento do cotidiano que será foco para a notícia deve ser suscetível de ser trabalhado sem irromper em desarmonia dos processos de produção, normais, do jornalismo. Não obstante, o autor ressalta que os veículos de comunicação possuem flexibilidade para adaptar suas rotinas produtivas quando se faz necessário, por exemplo, em casos fora do comum. O acontecimento só terá notoriedade transformando-se em notícia caso seja possível, trabalhá-la dentro dos processos produtivos do jornalismo. Wolf (1999) lembra que os acontecimentos têm de ser vistos e trabalhados por meio de uma perspectiva prática. Dessa maneira, torna-se possível oferecer ao público algumas avaliações simplificadas e mais diretas a respeito de suas relações. Assim, o tratamento dado ao fato para transformá-lo em notícia gera, pelo próprio processo, uma descontextualização das relações inerentes ao acontecimento, para que, em seguida, ele possa ser contextualizado dentro das perspectivas da mídia. De acordo com Wolf (1999), as qualidades que fornecem ao acontecimento a possibilidade desses fazerem parte de um noticiário são denominadas como valores/notícia. Para esse autor, são eles que vão orientar, implícita ou explicitamente, os procedimentos dos profissionais de jornalismo. Da mesma forma, servem para estabelecer rotinas e tornar possível o trabalho jornalístico, isso permiti que a seleção

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dos acontecimentos seja rápida, ao mesmo tempo flexível, uma vez que podem ocorrer fatos extraordinários e mudanças no próprio critério de noticiabilidade. Importante saber que os valores/notícias são dinâmicos. Porém, esses valores/notícia, na prática, não funcionam isolados, e sim, por meio das inúmeras combinações feitas entre elas. O autor distingue os valores/notícia nas seguintes categorias: a) às características substantivas da notícia; ao seu conteúdo; b) à disponibilidade do material e aos critérios relativos ao produto informativo; c). ao público e d. à concorrência. O autor relata quatro aspectos relacionados às características substantivas. Primeiro, o autor afirma sobre a hierarquia social dos indivíduos que estão envolvidos, e que, na prática, significa que quanto mais pessoas da elite estiverem envolvidas mais chances o acontecimento tem de se transformar em notícia. Em segundo lugar, Wolf (1999) menciona que, quanto maior for o impacto sobre a nação e também sobre o interesse nacional, maior será o grau de noticiabilidade. Em terceiro, o autor afirma que, quanto maior o número de pessoas envolvidas no acontecimento, maior serão as chances de serem noticiados. Finalmente, aponta-se que a relevância e a significatividade do acontecimento e o que ele pode representar para o futuro quanto aos desdobramentos das situações, também, o torna noticiável. Porém, este quarto aspecto liga-se a outros fatores de noticiabilidade, tais como interesse do público, capacidade do acontecimento de entretê-lo e, também, a forma como o jornalista vai abordar o assunto. Barros Filho (1995) tem a concepção de que a comunicação implica o ato de sugestionar uma produção composta de subjetividade, e a informação, por sua vez, respeito ao conteúdo propriamente dito. Segundo o autor, a diferenciação feita marginaliza a subjetividade inerente à construção da mensagem em um processo comunicativo e supõe que a informação dada, seja entendida como a materialidade da mensagem, sendo assim, desprovida de subjetividade.

1.3 O jornalismo opinativo

As formas de divulgação das notícias e o conteúdo de um veículo definirão a pretensão de um veículo. O compromisso do jornalista em relação à confecção da informação

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jornalística, e a forma como esta se encontra inserida no jornal, pode, de certa forma, demonstrar um posicionamento ético do veículo. Entre estas características de autonomia apresenta-se o jornalismo opinativo que está presente através dos conteúdos: carta, editorial, comentário, crítica, crônica, coluna e caricatura. Para Beltrão (1980), a idéia acerca do jornalismo opinativo consiste na função psicológica, pela qual o ser humano, que é informado sobre idéias, de fatos ou de outras situações conflitantes, que exprimem a respeito o seu juízo. O jornalista tem a possibilidade de veicular três categorias de opinião: a do editor, a do jornalista e a do leitor que juntas consistem na manifestação do discurso conhecido como opinião pública.

A opinião do editor, definida como o julgamento que faz sobre determinado problema ou questão o grupo de elite que mantém o veículo, é que dita a política editorial. Fundamenta-se em diversos elementos como: a) as convicções filosóficas do grupo; b) as informações e relações que envolvem o tema proposto; c) as sondagens e pesquisas realizadas na área de circulação e influência do veículo; d) a experiência jornalística dos chefes de redação, algumas vezes mesmo reunidos em conselhos editoriais; e, finalmente, e) os interesses econômicos da empresa. (BELTRÃO, 1980, p.19)

O jornalista precisa elaborar e manifestar a opinião, seguindo três pontos para que possa manipular a informação. O primeiro ponto é dominar a informação, ou calcular todas as suas variáveis de alcance e extensão, a relevância daquilo que chegou ao seu conhecimento, inteirando-se amplamente sobre suas causas, aspectos significativos e sua seqüência lógica. Segundo ponto reger a informação, levar ao conhecimento público quando for conveniente e no momento oportuno, seguindo as regras éticas e normas de divulgação. E por último, assistir a informação, o acompanhamento dos seus efeitos imediatos e mediatos. A notícia não deve ser escrita e se perder no tempo, cabe ao jornalista buscar todas as possibilidades para repassá-la ao público leitor. A melhor maneira de compreender como se apresenta o texto é através do estudo da linguagem, apesar de ser uma ferramenta que pode ter dentre outras coisas características persuasivas a linguagem se apresenta no âmbito da questão como um meio de explicar a elocução do texto jornalístico.

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Já na concepção de Koch (1996), a presença de fatores semióticos pode ajudar em um melhor entendimento da mensagem. O relacionamento que o homem tem com os seus semelhantes e com a natureza é mediatizado por símbolos, ou seja, as relações homemhomem e homem-natureza estruturam-se de maneira simbólica. A interação do homem se da através da argumentatividade, porque ele julga-se dotado de razão e vontades, por isso o homem crítica, avalia, julga e forma juízos de valor. Mas, é pelo discurso que pode se dizer como uma ação verbal que é dotada de intencionalidade que o seres humanos tentam influenciar sobre o comportamento ou o pensamento de outras pessoas. É por esta razão que se pode afirmar que o ato de argumentar, isto é, de orientar o discurso no sentido de determinadas conclusões, constitui o ato lingüístico fundamental, pois a todo e qualquer discurso subjaz uma ideologia, na acepção mais ampla do termo. (KOCH, 1996, p.19) É por este motivo que a autora procura mostrar que através de uma possível neutralidade existe uma ideologia. Neste caso a neutralidade ou imparcialidade é apenas um mito, porque o discurso que se pretende dizer com neutralidade, tem por trás dessa própria intenção de neutralidade uma ideologia, que é o da sua própria objetividade. Contudo o ato de persuadir procura atingir a vontade, ou o sentimento dos interlocutores, através de argumentos plausíveis ou verossímeis, e este têm caráter ideológico, temporal e subjetivo. A linguagem é constitutiva de características que tem próprias possibilidades de significação. E o modo como são montadas as palavras dentro de um texto podem fazer com que um texto seja ou não persuasivo, mas principalmente moldados pela argumentatividade e pelo ato enunciador. É neste sentido que pode se dizer que a linguagem é constitutiva de suas próprias possibilidades de significação. Dentro disso, a linguagem se subdivide em três atos; falar, dizer e mostrar. De acordo com Koch (1996) o falar baseia-se na produção de frases, que são decorrentes da variada capacidade do falante de produzir determinados sons de acordo com determinadas regras gramaticais. O dizer está relacionado à capacidade de se produzir enunciados, onde é necessário estabelecer uma seqüência de sons a um estado de coisas. O enunciado neste caso é uma entidade semântica. Já o mostrar está ligado à enunciação, este tem por função ter um sentido, e que incorpore o processo de significação e mostre a direção para o qual se aponta o seu futuro discursivo.

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Quando estas frases se atualizam em enunciados temos o que chamamos de texto, mas só com essa significação que só é possível através dessas regras estruturais é que podemos direcionar estes sentidos que tendem a terminar em forma de texto. Tendo em vista estas informações pode ser observado que cada enunciação pode ter uma variada gama de significações, haja vista que a intenção de quem fala, ao produzir um enunciado não tem necessariamente uma única interpretação verdadeira. Dessa maneira, Koch (1996) afirma que assim o sentido de um enunciado, se constrói através das relações interpessoais que se estabelece no momento do ato enunciador, é nessa estrutura que se dá as intenções persuasivas.

Não basta conhecer o significado literal das palavras ou sentenças de uma língua: é preciso saber reconhecer todos os seus empregos possíveis, que podem variar de acordo com as intenções do falante e as circunstâncias de sua produção... É preciso notar, porém, que apenas o enunciado de uma frase é que pode ser considerado verdadeiro ou falso. (KOCH, 1996, p.28; 29)

Contudo as maneiras com que são apresentados os tempos verbais diferenciam no discurso. Analisando textos de várias formas comunicativas separamos estes em dois grupos: o mundo comentado e o mundo narrado. É graças aos tempos verbais que empregamos que o falante apresenta o mundo, este mundo entendido como possível conteúdo de uma comunicação lingüística, para o ouvinte entender, ou como um mundo comentado ou como um mundo narrado. O mundo narrado pertence a todos os tipos de relato, sejam estes literários ou não, estes tratando de elementos possivelmente distantes, ao passarem pelo relato estes perdem muito a sua força. Já na questão do mundo comentado, trata-se do lírico, o drama, o ensaio, o comentário, o dialogo. Todas as vias comunicativas que não tenham ligação com relato, e que a principal característica seja a atitude tensa, porque nestas o falante está em estado de tensão dramática com o discurso, pois afetam diretamente o falante. Em um exemplo disso, o contexto mais amplo, aquele que identifica o resumo como parte de uma situação comentadora, faz com que os enunciados tenham também formas resumidas de direcionar a sua mensagem ou o seu conteúdo persuasivo. É por este motivo que as manchetes de jornais ou até mesmo as matérias que veiculam em folhetins diários apresentam geralmente o fato com os verbos no presente. É justamente

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a partir deles que se fará o comentário, ou seja, é através dessa estrutura que se solicita a atenção do leitor, afirma a autora. Koch (1996) conclui seu pensamento afirmando que dentro disso a argumentação ganha espaço, pois ela ocupa um espaço grande no conteúdo lingüístico dos homens, mais do que isso, pode se dizer que ela está na própria língua. O discurso é orientado pela argumentatividade e pelo ato enunciador, essa orientação busca determinar os encadeamentos possíveis com outros enunciados, e a partir dele dar uma sequência em uma intenção clara de orientar o interlocutor a ter determinados tipos de conclusão. Para que isso seja possível é necessário que a orientação discursiva mostre ao falante como apresentar o enunciado. Os textos que tem a maior objetividade ou maior grau de aceitação são aqueles que são permeados por comparações. Este tipo de texto é montado basicamente sobre comparações. De acordo com Citelli (2001) o primeiro caminho para compreender essa questão do discurso é retomar a tradição retórica. Falar em persuasão implica, em retomar certa tradição do discurso clássico e de buscar os vários estudos sobre a linguagem. Isso se faz necessário devido à preocupação, que começou com os gregos, com o domínio da expressão verbal. Os gregos utilizavam, e muito, do discurso verbal para explicitar um conceito de democracia, para que pudessem expor suas idéias e dominar as formas de argumentação. A preocupação com o discurso foi levado às escolas acerca da preocupação que os gregos tinham com o domínio do discurso, e nelas os alunos passaram a aprender o controle da palavra, a eloqüência, a gramática e principalmente a retórica. O objetivo final era unir a arte e o espírito, e fazer o discurso de forma convincente e elegante. A retórica teria então o papel de mapear esse discurso conclui o autor. A retórica passou, então a ter papel fundamental, porque ela seria responsável por estudar a linguagem não como língua e sim como discurso, com a função de constituir palavras que buscassem convencer o receptor sobre uma dada verdade. Porém, com o passar dos anos a retórica foi se transformando em uma forma de embelezar o discurso, ganhando um tom de certa forma pejorativo. Alguns autores passaram anos estudando a retórica e escrevendo sobre ela e as formas de melhorar o discurso. Pensadores como Sócrates e Platão, fizeram estudos sobre ela, mas foi com Aristóteles que o discurso foi melhor aprofundado e dissecado, através da

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Arte retórica. O trabalho pode ser considerado como um resumo dos estudos que foram acumulados sobre a retórica, e como um guia para se fazer um texto persuasivo. Para Citelli (2001), retomar Aristóteles é a melhor maneira de compreender a linguagem de hoje, como os elementos da gramática, a lógica e a filosofia da estilística. Aristóteles 1 (escrito por volta de 338 a.C, citado por CITELLI, 2001), não buscava confundir retórica e persuasão como faziam muitos de seus contemporâneos. Para o filósofo grego, a retórica tem algo de ciência, e a busca era mostrar quais mecanismos poderiam ser utilizados para que algo pudesse ganhar a dimensão de verdade, e então dimensionar a retórica como a faculdade de ver teoricamente, em cada caso, se ela gera a persuasão. Entendido isso, a retórica mostra que pode revelar a persuasão e que a retórica é analítica e que esta leva a descobrir o que é próprio para persuadir. Acerca disso não entra no mérito daquilo que está sendo dito, mas, sim, no como aquilo está sendo dito, no modo eficiente de dizê-lo. O autor discute que, observando como aprendemos a escrever, e o jeito que muitos livros didáticos ensinam as crianças, pode-se perceber que as maneiras utilizadas nestes textos seguem de perto o modelo sugerido por Aristóteles. Para observar a importância da retórica basta analisar os mecanismos que fixam a estrutura do texto em quatro instâncias seqüenciais e integradas: o exórdio, a narração, as provas e a peroração. O exórdio trata-se do começo do discurso. Pode ser a indicação do tema, um conselho ou elogio ou até mesmo uma censura. A narração é o assunto, dizer como se deu o tema e utilizar os meios que ilustram de certa forma o fato aconteceu. As provas servem para comprovar aquilo que está sendo dito. E a peroração, que é a conclusão, dividiu-se em quatro partes: a primeira consiste em dispor o receptor mal para com o adversário; a segunda tem a função de amplificar ou atenuar o que se disse; a terceira excitar as paixões no ouvinte; e a quarta induzir a uma recapitulação. O autor afirma que para uma conclusão deste assunto cabe dizer que Aristóteles não foi o inventor da retórica. Ele analisou os discursos presentes em seu tempo, identificou a existência de elementos estruturais, a partir desse ponto indicou a função e o espaço a serem ocupados pelos estudos retóricos.

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Citelli (2001) conclui, assim, que a relação da persuasão e da retórica não é saber até onde o ato de se convencer se mostra como uma verdade. Persuadir é sinônimo de submeter-se, a partir deste ponto se vê a sua vertente autoritária. Quem persuade leva a outra pessoa a aceitar uma determinada idéia de outrem. ―É possível que o persuasor não esteja trabalhando com uma verdade, mas tão somente com algo que se aproxime de uma certa verossimilhança ou simplesmente a esteja manuseando (CITELLI,2001: p.13).‖ Ou ainda verossímil é aquilo que se constitui de verdade a partir de sua própria lógica. Daí surge à necessidade de se construir o efeito de verdade. Com o passar dos anos a retórica passou por uma renovação onde ficou evidenciando sua ligação com a poética. Este novo papel está vinculado a dois pólos: o estudo das figuras de linguagem e o das técnicas de argumentação. Para se verificar a construção do discurso persuasivo, o autor ressalta que é importante conhecer a organização e a natureza em que estão os signos lingüísticos. Porque é á partir dos signos que se produzem as frases, o período, o texto. E a base de raciocínio que será adotada para um melhor entendimento do assunto é a dupla face dada ao signo: significante e significado. O significante é o conjunto de sons, que apresenta o signo audível ou legível. Já o significado é a parte imaterial, conceitual e que mostra a representação mental que é evocada pelo significante. Diante disso, o signo é sempre arbitrário, ou seja, não existe relação direta entre significante e significado. O signo é representativo, simbólico, onde as palavras não são as coisas que designam. Em síntese, é impensável afastarmos do estudo das ideologias o estudo dos signos, e que o signo se prolonga na questão das ideologias. Existe entre ambas uma relação dependência que leva a crer que só é possível o estudo dos valores e idéias contidos nos discursos atentando para a natureza dos signos que os constroem. Contudo, o signo ajuda a entender uma série de exemplos, onde vários instrumentos servem para confirmar a sua presença, como o martelo e a foice na bandeira da antiga União Soviética, que visto na visão do signo representam a união entre os camponeses e os operários, e muitos outros como, a balança para a justiça, o pão e o vinho para os cristãos, a maçã para o pecado e a pomba para a paz, dentre outros.

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Em suma a conclusão do signo cabe a observação do momento em que ele nasce e se desenvolve em contato com as organizações sociais. Ele só pode ser pensado socialmente, contextualmente. Se por exemplo as palavras nascem neutras, quando estas são contextualizadas, passam a adquirir valores, conceitos, pré-conceitos. As palavras são absorvidas, transformadas e reproduzidas, criando assim um circuito de formação e reformulação de nossas consciências. ―Em síntese o signo forma a consciência que por seu turno se expressa ideologicamente.‖ (CITELLI, 2001: p.29). Tomando por base o que foi dito sobre a retórica e sobre o entendimento do signo, a idéia que se tem até aqui sobre o discurso persuasivo: ele se dota de signos que são marcados pela superposição, estes signos funcionam como expressões de uma verdade, querem fazer-se passar por sinônimos de toda a verdade. ―Então o discurso persuasivo se dota de recursos retóricos objetivando o fim último de convencer ou alterar atitudes e comportamentos já estabelecidos‖. (CITELLI, 2001: p.32). O entendimento do discurso persuasivo subdividiu-se em três: o lúdico, polêmico e o autoritário. O discurso lúdico seria a forma mais aberta e democrática de discurso. Aqui existe um grau menor de persuasão, tendendo ao desaparecimento do imperativo e da verdade única e acabada. Exemplo disso a música e a literatura. O discurso polêmico cria um centramento na relação entre interlocutores, aumentando assim o grau de persuasão. Aqui estes são dirigidos como num debate, tendência de uma voz derrotar a outra. Exemplo disso uma discussão entre amigos, uma defesa de tese, etc. O discurso autoritário essa é a forma discursiva por excelência persuasiva, é nele que se instalam todas as condições para o exercício de dominação da palavra. É um discurso exclusivo que não permite mediações ou ponderações. ―A sociedade moderna está fortemente impregnada desta marca autoritária do discurso. A persuasão ganhou a força de mito. Afinal, a propaganda é ou não é a alma do negócio?‖. (CITELLI, 2001: p.40)

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VOILQUIN, Jean & CAPELLE, Jean (Eds.). Aristóteles. Arte retórica e arte poética. Rio de Janeiro, Ouro, s.d. p.212. 3Id, IBID., p. 34

Com estas definições chega-se à algumas conclusões, a primeira delas é que: a persuasão não é sinônimo imediato de coerção ou mentira. Segundo para existir persuasão é necessário que certas condições se façam presentes, a principal é a de circulação de idéias. Terceiro é que é possível de se imaginar em certas áreas do conhecimento uma imperação do discurso menos persuasivo, até mesmo lúdico e aberto. E quarto a arte moderna, ou de vanguarda, que possui e muito desta natureza antipersuasiva. Logo para entender a informação com persuasão é necessário compreender a retórica a lógica dos signos, e as notoriedades do discurso. Desse modo, acreditamos que, por meio da análise dos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo, expostos nas publicações recolhidas, torna-se possível entender como se apresenta o conteúdo presente nos dois veículos de comunicação. Todos os assuntos abordados nos editoriais estão expostos, á partir, do jornalismo opinativo, e esse é o ponto de partida para compreender como se estrutura esse conteúdo. Passaremos agora a tratar, especificamente, do jornalismo opinativo, e dos editoriais presentes nos jornais em questão, para, em seguida, proceder à análise e estrutura do discurso presentes no artigo de fundo do Estado de Minas e Folha de São Paulo.

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3 O JORNALISMO OPINATIVO: OS EDITORIAIS

3.1 O jornalismo opinativo e a questão dos gêneros

O editorial presente em quase todos os tipos de jornais impressos apresenta características que colocam este dentro dos chamados gêneros opinativos do jornalismo. A principal ferramenta é a opinião, que é relatada através de um tema especifico: política, economia, cultura, esportes, entre outras. Dentro dos critérios de seleção as empresas jornalísticas buscam meios de manifestar a sua opinião, estas encontram-se os chamados gêneros opinativos compostos pela: carta, editorial, comentário, crítica, crônica, coluna e caricatura.

Melo (2003) afirma que a seleção da informação a ser divulgada através dos veículos jornalísticos é o principal instrumento que a instituição (empresa) possui para expressar a sua opinião. A partir dessa seleção, é que se define a linha editorial e o posicionamento dos veículos de comunicação. No jornalismo, a questão da opinião que é colocada nos textos também gera discussão entre os autores. A partir disso outra questão é apresentada: a capacidade de persuadir que os veículos de informação têm sobre o público

Para Wolf (1999), a indústria cultural, nome como o autor apresenta a produção jornalística, tem uma estratégia para ter o domínio da opinião e persuadir o receptor. A notícia é selecionada, passa por uma canalização, é escolhida a maneira de ser abordada, e consequentemente como será apresentada ao leitor. Esta função também tem o objetivo de direcionar o pensamento do leitor para a mesma opinião do mass media que não tem apenas a função de descrever as mensagens, como também de expandir o pensamento que é apresentado no conteúdo exposto ao receptor. O percurso seguido pela pesquisa sobre os mass media se concentra de início na questão dos problemas da manipulação das informações para depois passar aos da persuasão, seguido da influência e por fim chegar às funções, Wolf (1999). O autor afirma ainda que os meios de comunicação buscam maneiras de persuadir o público da mensagem e levá-los ao mesmo pensamento. Essa persuasão indicada pelo autor tende a apresentar para o público, que muito mais do que um meio de informação o jornal ou qualquer

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outro veículo de comunicação, tende para conteúdos que podem induzir o público ao mesmo posicionamento da empresa jornalística. Wolf (1999) apresenta a possibilidade da persuasão através da emissão da mensagem que pode ocorrer desde que sejam estruturadas de uma forma adequada às características psicológicas dos destinatários. ―Persuadir os destinatários é um objetivo possível, se a forma e a organização da mensagem forem adequadas aos factores pessoais que o destinatário activa quando interpreta a própria mensagem.‖ (WOLF, 1999: p.34) Já na concepção de Citelli (2001), o fator de opinião indica diretamente uma maneira de persuasão. Como informar sem persuadir? Para entender isso, é necessário descobrir os caminhos que cercam os limites da informação e da persuasão, por onde se cruzam e até onde podem chegar, e mais do que isso, para onde ele quer nos levar. A partir dessas opiniões colocadas em questão verifica-se que o jornalismo opinativo está envolvido por outras características. Mas a principal evidência da opinião, de acordo com os autores, está no editorial, pelo fato, de remeter à opinião da empresa. Dotado de características únicas o artigo de fundo apresenta-se, como um conteúdo opinativo sobre determinado tema, geralmente ligados a política e economia, mas podendo se estender as demais áreas da produção jornalística. Para Melo (2003), os critérios utilizados pelas empresas jornalísticas é a melhor maneira de compreender que está linguagem está diretamente ligada a uma ideologia e a questões políticas. A partir desse ponto é que se define a linha editorial, que é a posição da empresa em relação aos acontecimentos, afirmados por Wolf (1999) juntamente com os critérios de seleção da notícia. O principal instrumento nas mãos dos proprietários das empresas é a própria estrutura da redação, as decisões tomadas seguem como uma pirâmide. As ordens surgem de cima para baixo, entende-se isso, pela chefia de reportagem, pelo editor chefe, e o próprio jornalista. Uma relação de ordem e obediência, o que é colocado em questão sobre o que deverá ser feito sobre cada notícia (MELO, 2003). As empresas jornalística entendendo ter um forte poder de persuasão através da linha editorial buscam e dedicam, uma atenção especial a esta parte dos jornais, para que

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traga uma integração entre as políticas da empresa e os interesses corporativos que defendem. Contudo, Melo (2003) enfoca que a questão da opinião no jornalismo contemporâneo não é um fenômeno monolítico. Por mais que a empresa jornalística tenha uma orientação já definida, nesse caso fala-se de posição ideológica, método na qual se pretende que a empresa seja organizada. De acordo com o autor, atualmente, é muito difícil estabelecer um controle total sobre aquilo que se publica devido ao fato de que as equipes de jornalismo são cada vez mais numerosas. Isso gera uma impossibilidade de se ter um controle daquilo que será divulgado. Melo (2003) afirma que o editorial é caracterizado por um espaço de contradições. Seu discurso esconde diversas linhas de interesse, sejam elas da empresa, ou de investidores e anunciantes. Por isso, busca-se um equilíbrio semântico a fim de a opinião contida no editorial possa atingir um indicador de orientar a opinião pública, assim o editorial é dirigido à coletividade. Entende-se esta coletividade pelas empresas que atuam em sociedades que possuam opinião pública autônoma, ou seja, que tenham uma sociedade civil forte e organizada, contrapondo-se ao poder do Estado. Contudo, o pensamento que se tem, é de que os editoriais remetem a procura do dizer aos dirigentes do Estado aquilo que a própria empresa gostaria de orientar, neste caso sobre os assuntos de interesse público.

3.2 O editorial

Para Fraser Bond (1962), o editorial é a página dedicada à opinião da empresa. Para o autor apesar de os jornais dedicarem apenas 2% de seu espaço para as suas próprias opiniões e sua própria defesa, consideram este material muito mais importante do que o espaço cedido pareceria indicar. Neste sentido, observa-se especial cuidado na expressão das opiniões do jornal tanto no que se refere à redação como ao seu conteúdo.

Em todas as páginas, exceto uma, o jornal relata e registra as ações, as idéias e opiniões do mundo em geral. Reserva somente uma página e, às vezes, só uma coluna para divulgar suas próprias idéias, seus próprios pensamentos, suas próprias opiniões. Esta página especial, a página editorial, consiste geralmente nas opiniões

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do jornal, expressas em seus editoriais e em caricaturas e também nas opiniões dos outros. Estas opiniões de fora podem ser a opinião dos leitores. (BOND, 1962: p.227)

Segundo o autor, frequentemente, o editorial é a única matéria realmente criada pelo redator no jornal inteiro. O editorialista recusa o sensacionalismo das manchetes e o poder da atração do crime e dos conflitos brutais, que as páginas de notícias exibem, e procura outros meios de captar o interesse dos leitores, através das idéias que discute e do método de apresentá-los. Para Bond (1962), o editorialista dedica tempo e meditação à escolha e ao uso das palavras; procura escrever com autoridade, e neste sentido tende a neutralizar o efeito das excessivamente apressadas e, às vezes, desmazeladas reportagens e títulos das notícias; embeleza seu próprio estilo com adequadas citações, extraídas de suas leituras passadas, e preocupa-se em dar ao seu trabalho o beneficio de uma revisão cuidadosa e precisa. Em consequência, frequentemente, produz uma peça de prosa moderna que é, ao mesmo tempo, elegante, convincente, informativa e estimulante. Porém segundo o referido autor, isto não significa, entretanto, que um editor ou editorialista deva conformar-se a regras fixas e rígidas. Mantém-se livre para influenciar seu leitor, de qualquer maneira que considere apropriada. O único ponto que os editoriais reivindicam ter em comum é que geralmente aparecem sob o expediente do jornal, na página de opinião. Melo (2003) seu pensamento sobre o editorial: ―O editorial tem uma singularidade: estruturalmente, reproduz um modelo universal do discurso aristotélico; funcionalmente orienta-se não como bússola da opinião pública, e sim como conversação (ora matreira, ora ostensivamente ameaçadora) como os donos do poder (MELO, 2003: p.181).‖ Essa opinião apresentada pelo autor é compartilhada por Beltrão (1980) que afirma, que estas características principais remetem ao editorial. Segundo o autor, a linha editorial da empresa é marcada por várias especificidades e que estas estão diretamente ligadas a um posicionamento político e também ideológico. A política editorial não é casuística, porque o editor, delimitado a múltiplas tarefas de empresário, não pode ser árbitro de todos os juízos emitidos pelo jornalista responsável, por exemplo, por uma sessão, coluna ou caderno do jornal. Quanto menos ingerência

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houver por parte do editor no trabalho do jornalístico, maior e melhor será a harmonia e a tão almejada meta de um jornal, tendo assim crédito como órgão da imprensa e como empresa de solidez econômica. É através do editorial que a empresa jornalística ou grupo administrador do periódico manifesta a sua opinião sobre os fatos que se desenrolam em todos os setores de importância e interesses para a comunidade, ligados à existência e desenvolvimento da empresa. A notícia no editorial é essencialmente objetiva: apresenta o que se sucede, ou está se sucedendo ou ainda que vá suceder. O editorial, porém, apresenta também outras dimensões, além das do tempo e do espaço que limitam a notícia: a dimensão de profundidade.

Por ser uma manifestação do ponto de vista do grupo editorial, esse gênero jornalístico tem características especiais, que o diferenciam de outras formas de expressão opinativas, como o artigo ou a crônica. Nestas últimas, os comentários a respeito de um fato ou as explanações de uma tese ou de um ponto doutrinário se fundamentam em argumentos e idéias pessoais; no editorial, a nota dominante é a impersonalidade. (BELTRÃO, 1980: p.52)

Segundo Beltrão (1980), essa impersonalidade se apresenta por duas características do gênero: a primeira é não ser assinado; e a segunda é a de utilizar a terceira pessoa do singular ou a primeira do plural, o que pelo lado psicológico confere ao jornal maior autoridade sobre os conceitos expendidos. Outro atributo do editorial é a sua topicalidade, que é a sua adequação a um tema ainda latente, ou mal formulado, mas que esteja vivo e presente na cabeça do público. Em outras palavras, exprime não só a opinião sedimentada como, sobretudo, a opinião que se está formando. O leitor dos editoriais é um ser perplexo que, diante da vertiginosa mutação da face do mundo, busca no jornal uma explicação, seja ela enciclopédica ou profética, de tudo que seja significativo e esteja acontecendo ao seu redor, ou até mesmo daquilo que vai acontecer. O terceiro atributo do editorial é a sua condensabilidade, quanto menor ou menores forem às opiniões exprimidas no texto melhor se torna o artigo de fundo. É imprescindível que este esteja condensado por uma idéia central, uma vez que, se o editorial apresenta vários pensamentos, que pode resultar dentre outras coisas, no não

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entendimento da mensagem pelo leitor e, em consequência, o ediorialista não consegue concluir bem. O derradeiro atributo do gênero, como Beltrão (1980) classifica, é a plasticidade; esta característica tem caráter dinamizador das energias do público, sendo persuasivo por excelência. O editorial visa a orientação de seu público leitor e a comunidade em geral. O editorial se estrutura de forma simples: primeiro título; segundo, introdução; terceiro, discussão; e quarto conclusão, embora, em alguns casos, essas partes não estejam divididas em unidades distintas. Escolhido o tema, fixa-se a tese a defender. Esta tese é ditada pela linha editorial do jornal ou da empresa que comanda o veículo de informação, e será do pleno conhecimento do editorialista que, como um dos executores de determinada política, deverá estar, a par da situação e do pensamento e objetivo do grupo empresarial, sentindo diretamente a pressão das diretrizes traçadas de antemão pelo editor. A opinião presente nos textos jornalístico é conhecida pela questão dos gêneros que cercam o jornalismo opinativo, dentro destes, apresentam-se: carta, editorial, comentário, crítica, crônica, coluna e caricatura. Traçar as características da opinião e como ela se apresenta no texto é objeto de estudo de autores como Melo (2003), Beltrão (1980), Barbosa (1970). Mas o ponto de encontro dos autores se faz através da opinião presente nos editorias das empresas jornalísticas. Na concepção de Melo (2003), a seleção da informação a ser divulgada através dos veículos jornalísticos é o principal instrumento que a instituição (empresa) possui para expressar a sua opinião. A partir dessa seleção é que se define a linha editorial. Para o autor, essa seleção é o modo como a empresa vê o mundo. A empresa pretende publicar, em cada edição privilegiando este ou aquele assunto, destacando personagens, ocultando outros, e dando menos importância a alguns. Já na opinião de Beltrão (1980), o problema da opinião no jornalismo, a responsabilidade daquilo que é apresentado ao público recai em última instância na figura do editor, que representa o grupo que ajuda a manter o jornal. É ele quem instala, financia e administra a empresa, neste caso o encarregado diretamente por circulação e venda do produto do trabalho jornalístico.

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O editor é ao mesmo tempo um agente cultural e um empresário. O grande problema da imprensa é o de estabelecer o equilíbrio entre as duas maneiras que se moldam a atividade editorial: atender a requisitos técnicos e econômicos e exercer a função sócioespiritual (BELTRÃO, 1980). De acordo com Beltrão (1980), traçar a política editorial é, ponto básico para o editor. Essa política não é arbitrária, apenas obedece a princípios éticos e as normas práticas, de que este profissional esteja imbuído, não apenas por sua excelência naquilo que faz, mas também a sua adequação as idéias e sentimentos da comunidade, e modo especial, os grupos que congregam os jornalistas que são os seus executores. Para Beltrão (1980) e Melo (2003) a questão da opinião está diretamente ligada à figura do editor, tanto na visão de um funcionário, como na função de um empresário. Dentro dessa importância colocada pela parte de edição é que aparece o principal gênero de opinião da empresa; o editorial. Barbosa (1970) apresenta o que para ele é um editorial e quais são os métodos e os meios que um jornalista precisa ter para que possa um dia alcançar essa função dentro de um veículo de comunicação. No passado, os editoriais, geralmente, eram escritos pelo redator chefe. Com o passar dos anos surgiu à necessidade da especialização. Na atualidade, o que se vê é um revezamento entre editorialistas, de acordo com a natureza do assunto posto em análise, política, esporte, internacional, sociologia, educação, trabalho, entre outras.

Editorial é o artigo – também chamado artigo-de-fundo – em que o jornal emite o seu conceito ou define sua posição perante certo fato ou determinado tema. Deve primar pela clareza, síntese, precisão vocabular e domínio do assunto focalizado. Há de ser dialético nas premissas e naturalmente lógico na conclusão. (BARBOSA, 1970: p.9)

Porém o editorial não se constitui como leitura obrigatória pela maior parte do público. O leitor, em sua maioria, prefere as reportagens ou noticiários que apresentam fatores emocionais maiores do que o de um artigo-de-fundo. Os jornais concedem os editoriais aos jornalistas de melhor categoria intelectual. De acordo com Barbosa (1970), escrever

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um editorial é o ápice da carreira de um jornalista, prova a desenvoltura e magnificência adquirida na formação do ofício. O editorial ocupa lugar em destaque nas páginas dos jornais. Geralmente localizado na segunda página, tem corpo (tipo de letra) mais destacado e colunas que são mais largas do que as que corriqueiramente são apresentadas nos veículos impressos. Para a preparação de um editorial, mesmo que o autor não tenha um saber enciclopédico sobre o assunto, é necessário que este seja dotado de excelente escrita sobre qualquer assunto pré-determinado. ―Exige-se dêle excelente cultura geral e perfeito afinamento com os problemas da atualidade nacional e mundial‖ (BARBOSA, 1970: p.11). O autor afirma que o editorialista pode preparar melhor o tema, mas para isso é necessária uma divisão de espécies entre, preparação remota e preparação imediata. A preparação remota é a que o jornalista tem que fazer constantemente, que é ler outros jornais (cinco, diariamente, é a cota mínima desejável). Nessa preparação, cabe ao editorialista observar o bom estilo de outros editoriais e a forma em que são conduzidos (apresentados ao leitor). De preferência anotando conceitos autorizados sobre os temas em evidência, ―formando em suma, boa bagagem de conhecimentos históricos, sociológicos, políticos, econômicos, estatísticos e filosóficos, ainda que sem a presunção de profundidade total.‖ (BARBOSA, 1970: p.11). A parte noticiosa dos jornais e revistas, bem como TV e rádio, ou publicações especializadas também merecem uma atenção maior e curiosidade do editorialista. Com a preocupação de ser bem informado, o candidato a futura vaga de artigo-de-fundo estará sempre preparado para que possa desenvolver o temas em que este poderá se deparar no futuro. A preparação imediata é a que se faz diante do assunto a ser abordado para a produção do artigo. Essa parte é a busca de dados, que devem proceder de fontes fidedignas, a de quem escreve e do que se escreve depende do conhecimento que se tem do tema proposto. ―Assim como o orador não é capaz de falar sobre aquilo que desconhece, também o jornalista bem não escreverá se estiver à míngua de dados.‖ (BARBOSA, 1970: p.11) Além das preparações para a produção do editorial, cabe ao jornalista um vocabulário corrente e adequado. ―O artigo-de-fundo requer boa apresentação estilística para que os conceitos, ainda que profundos, não fiquem apoucados na indigência da frase‖

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(BARBOSA, 1970: p.11). No jornalismo moderno existe o interesse de transmitir aos leitores a notícia em linguagem acessível. O que pode acontecer frequentemente é de aparecer gírias, como por exemplo, no noticiário policial.

Mas o editorial deve ser escrito em estilo nobre, não se lhe podendo emprestar os matizes da vulgaridade. Igualmente, o vocabulário há de ser escolhido, sem preciosismos é certo, mas buscando, antes de tudo, a perfeita adequação no dizer. Os períodos devem ser equilibrados entre si, assim como a divisão dos parágrafos: êstes, muito curtos, prejudicam gráficamente o artigo, enquanto que os excessivamente longos tornam a leitura menos correntia. (BARBOSA, 1970: p.12)

Na visão do autor, o editorialista é peça importantíssima para o conceito dos jornais como órgão de imprensa. A responsabilidade carregada pelo articulista é de expressar a posição do jornal ou a sua linha de conceituação. Por isso, o editorialista só terá êxito no seu trabalho se for devoto daquilo a que se dispõe a fazer, e saber avaliar qual o tema deverá ser focado. Dentro dessas diretrizes, chega-se a conclusão de que o jornalista com pretensões de escrever um editorial deve ser atualizado, e em dia com os acontecimentos do mundo social. Com esse conhecimento técnico, além da condição de um domínio estilístico e vocabular, este estará apto a redigir um bom texto para a empresa e um pleno desempenho da função. ―O editorialista, expressando sempre a opinião do jornal, deve ter a versatilidade suficiente de adaptar-se à linha do órgão para o qual escreve‖ (BARBOSA, 1970: p.13) Em uma conclusão, o articulista de editoriais é o jornalista ideal, que constitui pela sua filosofia de vida e por seu estilo aprimorado seja este estilisticamente ou vocabular, um conteúdo repleto de conhecimento sobre assuntos de todos os cunhos sociais. Cabe a este ter a astúcia de um bom orador que sabe expressar bem as suas palavras em um texto corrido, mas que seja inteiramente instigante aos olhos de quem o lê. Segundo o autor, a opinião do editor é apresentada pelos editoriais e pela linha do jornal, está é identificada através do critério de seleção das informações, e também, pela relevância dada a determinados temas, pelos títulos, fotografias entre outras características.

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O editorial passou a ser visto como uma ferramenta de opinião da empresa que trata de temas que geralmente seguem a linha de raciocínio da empresa. Por isso, ele remete a opinião da empresa segundo os autores acima. Mas o artigo de fundo pode esconder características persuasivas por trás das palavras que cercam os editoriais. As características opinativas podem levar o público a ser persuadido pela mensagem isso porque, a pessoa que lê o editorial pode ser induzida indiretamente a um mesmo tipo de raciocínio que o descrito nas linhas do artigo de fundo. A persuasão pode aparecer de maneira sutil no texto. Por exemplo, em uma afirmação a palavra utilizada pelo editor pode induzir o leitor a uma espécie de concordância automática. Esse poder da palavra pode ser entendido pela questão da retórica, tema abordado anteriormente. O jornalismo dito como opinião ou emissão da mensagem ao receptor vai bem mais além do que o simples ato de informar. Há muito tempo os meios de comunicação ganham destaque como parâmetros de opinião, e esse tipo de conceito é extremamente considerado por boa parte do público como um ponto de partida do pensamento lógico de um determinado jornalista ou de um jornal específico abordado. Dentre os jornais em estudo, Estado de Minas e Folha de S. Paulo têm características editoriais marcadas pelo jornalismo conceito, àquele que tenta estabelecer uma formalidade com o público leitor, diferente daqueles jornais considerados de apelo popular e informais, como exemplo, os jornais de Minas Gerais, Super Notícia e Aqui. Como o Estado de Minas, fundado em 1928, completou 80 anos. O jornal mostrou em suas páginas momentos marcantes da história como a ditadura militar e a campanha das diretas já. Hoje é o jornal formato standart com maior circulação em Minas Gerais. Faz parte do grupo Diários Associados, que também é composto pela rádio Guarani FM, a TV Alterosa e o tablóide Aqui. Adquirido por Assis Chateubriand que na época formou uma grande cadeia de jornais dentre estes o Estado de Minas foi uma das aquisições. Economia, EM Cultura, Esportes, Gerais, Internacional, Nacional, Opinião, Política são as seções que compõem o jornal. A principal característica do jornal está relacionada com o compromisso de informação com credibilidade. Desde que foi criado o jornal a linha editorial sofreu com poucas mudanças e a sua peculiaridade está no ato de abordar temas relacionados à política e

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economia em sua maioria. Como já foi apresentado anteriormente como parte deste trabalho, o editorial representa a opinião da empresa, e com Estado de Minas pode-se ver através dos artigos de fundo o modelo de jornalismo representado pelo diário mineiro. O jornal Folha de S. Paulo, fundado em 1921 por Olival Costa e Pedro Cunha chamavase Folha da Noite e este foi seu nome até 1960, quando o jornal foi comprado pelos empresários Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho. Então o periódico passou a se chamar Folha de São Paulo. Hoje o periódico paulista é considerado um dos principais jornais do país e tem a maior tiragem e vendas. Um dos motivos que justificam o sucesso da Folha de São Paulo se deve a presença de grandes jornalistas que escrevem para o veículo como: Clovis Rossi, Elio Gaspari, Jânio de Freitas, dentre outros. No diário paulistano existe uma verossimilhança com o jornal mineiro, uma linguagem mais formal e uma busca por linguagens fáceis de serem entendidas, porém sem uma intenção de ser popular, ao contrário disso uma linguagem totalmente voltada para públicos de classes mais altas da sociedade. Em um jornal diário, o editorial apresenta aos leitores assuntos da atualidade e geralmente de maior repercussão, para muitos é a opinião da empresa sobre o determinado tema, afirma Alfreu Barbosa (1970). Os jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo trabalham com a coluna de opinião; na Folha são dois editoriais por dia, enquanto que o jornal mineiro trabalha com apenas uma publicação diária. O jornalismo proposto pelos dos veículos estudados nesse trabalho tem características expressas de formalidade e um claro direcionamento ao público das classes A, B e C. Esta característica tem em comum uma relação com a linha editorial um jornal que tenha cunho popular irá abordar os temas com um apelo maior, um destaque extravagante, algo que realmente chame a atenção do público. Mas é claro que essa relação é estabelecida através de uma forma imagem e semelhança o público que compra um jornal com estilo popular sabe o que pode encontrar. Já para as pessoas que compram o jornal direcionado ao público de melhor poder aquisitivo. Por essas características os jornais têm esse padrão de formalidade que é refletido através da linha editorial dos veículos, mas engana-se quem pensa que este tipo de

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público é sempre o mesmo. Em meio ao crescimento aos poderes de informação e os novos meios de convergência de mídias o jornalismo passou a ser um meio bem mais acessível de informação. Isso se reflete nas facilidades que o público encontra para ter acesso à notícia, seja pelo impresso, rádio, TV ou internet, a mídia está presente na vida de todo cidadão direta ou indiretamente e a tendência é de aumentar cada vez mais. Os jornais em questão serão analisados no próximo capítulo principalmente pelas características de linguagem, persuasão, temas abordados e como são apresentados ao público. Para esta etapa do trabalho foram recolhidos exemplares do Estado de Minas e Folha de S. Paulo durante dois meses. Com este passamos agora a busca pela resposta da pergunta em questão: como se apresenta o conteúdo dos editoriais, bem como as suas características, através de uma análise qualitativa e quantitativa dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo e verificar as respostas para as questões colocadas acima.

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4 ANALISE DOS EDITORIAIS DOS JORNAIS ESTADO DE MINAS E FOLHA DE S. PAULO

4.1 Introdução a análise

Nas páginas seguintes, apresentamos os dados referentes à pesquisa e o objeto de estudo, a partir da análise dos seguintes critérios: características dos editorias, como são tratados os temas, e quais o assuntos mais abordados. Antes de iniciar a análise convém relembrar que o objetivo dessa monografia é verificar como se estruturam os editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo. Para poder responder a pergunta dessa monografia será realizada uma análise quantitativa e outra quantitativa, afim de, observar os conteúdos e as características desses editoriais. E por fim, verificar como se estruturam os editoriais nos dois jornais impressos em questão.

4.2 Breve história do ESTADO DE MINAS

O jornal Estado de Minas começou a circular no dia 7 de março de 1928, na época Pedro Aleixo, Mendes Pimentel e Juscelino Barbosa compraram o acervo do Diário da Manhã. Os acadêmicos juntaram-se a Milton Campos e Abílio Machado para criar uma sociedade. Em 1929, Assis Chateaubriand incorpora o novo jornal ao grupo Diários Associados que era uma cadeia de grupos de comunicação na qual ele era o presidente. Logo nos primeiros anos a redação do jornal contou com a presença de vários colaboradores que mais tarde se destacariam. Entre eles os irmãos Braga: o poeta Newton Braga, de 1929 até 1932 e o cronista Rubem Braga em 1932, então com apenas 19 anos de idade. Com o passar dos anos o Estado de Minas foi consolidando a sua marca e ganhando respeito até se tornar o principal jornal em Minas Gerais. Depois de algumas reformas

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ortográficas no jornal, a tiragem subiu o que alavancou às vendas e assinaturas, e mais tarde resultou no apelido de ―O Grande Jornal dos Mineiros‖. Atualmente é o principal jornal em formato standart do Estado, tem uma tiragem na faixa de 78 mil exemplares dia, segundo dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), mas a liderança foi perdida para o diário popular Super Notícia, que é responsável pela elevação das vendas de jornais em Minas Gerais. O editorial objeto de estudo dessa monografia geralmente aparece nas páginas, 6, 8 ou 10, de acordo com o tamanho do primeiro caderno. O Estado de Minas circula diariamente os cadernos fixos: Política, Opinião, Nacional, Internacional, Economia, Gerais, EM Cultura e Economia. Os seus suplementos são: Agronegócio, Bem viver, Ciência, Ragga Drops, Direito & Justiça, Emprego, Especial, Feminino & Masculino, Guia de gastronomia, Guia de negócios, Gurilândia, Hora Livre, Imóveis, Informática, Pensar, Prazer EM ajudar, Tursimo, TV e Veículos.

4.3 Breve história da FOLHA DE S. PAULO

Fundado em 19 de fevereiro de 1921 com o nome original Folha da Noite por Olival Costa e Pedro Cunha, o jornal foi comprado na década de 1960 pelos empresários Octavio Frias de Oliveira e Carlos Caldeira Filho que mudaram o nome do jornal para Folha de S. Paulo. A ascensão da redação se deu na década de 80 onde grandes nomes do jornalismo brasileiro, como Claúdio Abramo, Bóris Casoy, Clóvis Rossi e Jânio de Freitas, e esses jornalistas foram os principais responsáveis pela mudança na linha editorial do jornal paulistano. Na mesma década o jornal ficou marcado pelo apoio imediato a campanha das Diretas já. Na mesma década de 80 a Folha de S. Paulo foi pioneira na implantação de computadores e informatização de toda redação. Já no final da década de 1990, o jornal foi ousado ao contratar um ombudsman, que trata-se de um ouvidor que anota críticas e

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opiniões dos leitores, e que tem ainda o direito de criticar matérias e reportagens publicadas pelo jornal com imparcialidade. O jornal crescia e aumentava a sua gama de produtos, na mesma década de 90 foram lançados os suplementos, como a Revista da Folha, o caderno Folhateen e a TV Folha. Com esses investimentos a Folha de S. Paulo passou liderar as vendas em São Paulo, superando o Estado de S. Paulo. A reforma gráfica nessa década e o lançamento de brindes como o Atlas da Folha e dicionários reforçaram as novidades do jornal, e ajudou na consolidação da liderança nas vendas. Tanto que em 1996, a venda avulsa do jornal em uma edição de domingo chegava a mais de 495 mil exemplares. Atualmente a Folha continua sendo o maior jornal do Brasil, em termos de circulação segundo dados do IVC, porém com as sucessivas crises econômicas e dos jornais como um todo, a tiragem foi reduzida drasticamente chegando abaixo da casa dos 300 mil exemplares em 2009. Segundo dados do Instituto Verificador de Circulação (IVC) a Folha de S. Paulo é o jornal com maior circulação, junto com, O Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Os caderno da Folha são: Capa, Opinião, Brasil, Mundo, Ciência, Dinheiro, Cotidiano, Esporte, Ilustrada, Acontece, Classificados. O diário paulistano têm os suplementos: Folhateen, Fovest, Informática, Equilíbrio, Turismo, Guia da Folha, Folhinha, Vitrine, Mais!, Revista da Folha, Revista Serafina, Classificados, Veículos, Construção, Empregos, Negócios e Imóveis.

4.4 Período de análises e objetivo

Para o cumprimento dessa análise, foram selecionadas edições de três períodos distintos dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo. O primeiro período, referente ao mês de fevereiro de 2010, compreende os dias 3, 6, 7, 8, 9, 11, 12, 15, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 25, 26, 27 e 28. Já o segundo período, refere-se ao mês de março do mesmo ano, destacando os dias, 1, 2, 4, 5, 7, 8, 9, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 18, 19, 20, 21, 22, 25, 26, 27, 28 e 29. E o terceiro e último período corresponde ao mês de abril do mesmo ano e aos dias subsequentes, 1, 3, 4, 5, 6, 8 e 24.

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O material coletado durante os períodos citados acima será dividido por temas exemplo, política, economia e gerais. O objetivo dessa etapa é verificar os principais temas que compõem esses editoriais. Além disso, serão exemplificados durante essa etapa da análise quantitativa. Posteriormente será realizada uma análise qualitativa do material, para poder direcionar o objeto ao referencial teórico. Por esse motivo, torna-se indispensável verificar a estrutura de cada jornal editorial, em uma análise da linguagem e da construção da opinião da empresa dita pelos autores do referencial bibliográfico. Sendo o objetivo final de responder como se estrutura os editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo no jornalismo impresso.

4.5 Análise: os editoriais e o resgate dos temas mais relevantes

Conforme ressaltado nos capítulos anteriores, os editoriais conhecidos, como gêneros opinativos, apresentam ao público a opinião da empresa e o seu posicionamento político. Percebe-se nos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo, uma tendência em veicular temas que já foram abordados, mas, que são porém, resgatados com desdobramentos atuais. Essa premissa pode ser constada pelo editorial da (FLH, 28.03.10, p.A2): ―Dança dos números‖. Trata-se de uma abordagem sobre as eleições para presidente em 2010, um assunto atual, mas que a Folha, abordou várias vezes durante esta monografia. Nota-se que os construtores do editorial assim que teve acesso as pesquisas fizeram uma abordagem sobre o tema, conforme exposto no editorial. O mesmo pode ser percebido nos editoriais da (FLH, 21.03.10, pg. A2) ―Debate engessado‖ que trata sobre a candidata Dilma Rouseff usar como palanque as obras do PAC para poder se beneficiar quanto a sua campanha a presidente da república. O editorial ―Contas erradas‖ (FLH, 22.03.10, p.A2) apresenta uma crítica sobre os erros nas contas dos gastos públicos da união. Nos dois exemplos citados acima verifica-se a abordagem de temas que já foram tratados nos jornais. O primeiro exemplo mostra claramente uma questão que caminha

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ao longo do tempo, já que o assunto eleição percorre todo um ano de pesquisa eleitoral. Contudo essa premissa também pode ser constatada no jornal mineiro que traz no editorial (04.03.10) ―O papel da oposição‖ a discussão sobre a importância da oposição no desenrolar das eleições. Além disso, é feita uma abordagem no sobre os sucesso e insucessos que cercam o candidato a presidência. A característica de retomar um tema é composta de acordo com a sua capacidade de atingir um público grande, onde o interesse do público é alto. Essa ―questão‖ abordada por Wolf (1999) indica que se o fato realmente desperta alto interesse na sociedade ele pode ser retomado no futuro com os desdobramentos e o desenrolar dos fatos. Esse exemplo pode ser visto nos editoriais Verifica-se que no desenrolar dos temas expostos nos editoriais apresentados que existe uma característica de abordagem de fatos que já haviam sido tratados anteriormente, tanto como notícia, como nos editoriais. Essa prática é desenvolvida sempre que algum caso de maior repercussão ganha novos capítulos. E por esse motivo que o assunto eleições 2010 aparece tantas vezes ao longo dos editoriais analisados. Com isso, percebemos que, sendo a notícia um recorte no espaço e no tempo em relação a processos sociais mais amplos, os limites desse recorte são definidos pelas perspectivas distintas de jornalismo, as quais resultam em critérios de noticiabilidade. Assim, cada publicação define os seus próprios valores-notícias conforme a proposta editorial. Nesse caso, Estado de Minas, e Folha de S. Paulo apresentam escolhas diferentes entre si. O editorial (EM, 02.03.10, p. 8) ―Para enrolar aposentados‖ trata sobre as manobras que são feitas para iludir os aposentados em épocas de eleições com promessas sobre aumento do valor pago aos aposentados. As questões relativas a temas políticos apresentam grandes projeções nos editoriais citados acima e em mais este exemplo do Estado de Minas. O fato em si apresenta uma nova narrativa sobre o fato relacionado aos aposentados. Nos capítulos anteriores verifica-se essa questão da opinião sobre determinados temas. Em relação ao editorial citado acima alguns trechos evidenciam essa questão de temas que já foram abordados abaixo trechos da do editorial citado acima e da matéria que o jornal mineiro fez alguns meses atrás sobre o mesmo assunto. Nota-se que esse resgate

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de um assunto é sempre recorrente nos jornais seja em forma de matérias ou de gêneros opinativos. Como Rodrigues (1990) aborda depende da quantidade de pessoas que o assunto pode atingir para que se torne uma notícia.

Os cerca de 9 milhões de aposentados que contribuíram por boa parte da vida com quantia calculada sobre rendimentos acima do salário mínimo não são vítimas apenas da injusta redução progressiva do valor que recebem do Instituto Nacional do Seguro Nacional (INSS). Ao descaso dos governos, é comum os políticos somarem, principalmente em ano de eleições, manobras de demagógicas para iludir essa gente condenada à pobreza e ao constrangimento [...]. (EM, 02.03.10, p. 8)

No trecho da matéria abaixo do Estado de Minas ―Aposentados em 2030 receberão apenas 1 salário‖ aborda as possíveis reduções no salário pago pelo INSS aos aposentados. A matéria faz críticas e aponta que mesmo aqueles que pagaram mais de um salário passaram a receber apenas o valor do mínimo.

Até 2030, os rendimentos de todos os aposentados brasileiros estarão reduzidos ao salário mínimo, mesmo os que recebem valores maiores, se prevalecerem os mesmos critérios de reajuste das aposentadorias adotados até agora pelo Palácio do Planalto. O achatamento vai atingir cerca de 8,1 milhões de segurados que ganham acima de um salário mínimo (R$ 415), e que vêm recebendo reajustes inferiores devido à decisão de desvincular a política de correção das aposentadorias e do piso salarial. (EM, 19.01.09, p. 22)

O que pode ser observado através dos trechos citados acima é que um fato pode ser retomado dependendo de novos desdobramentos principalmente os assuntos ligados ao interesse público. Conforme Wolf (1999) afirmou nos capítulos anteriores a notícia passa por uma série de critérios de noticiabilidade para se tornar notícia. O Assunto referente ao compromisso do governo com os aposentados tem grande interesse por parte das pessoas da terceira idade. A capacidade de dimensionar esses fatos também interfere nessas publicações constantes. Isso acontece porque, qualquer notícia que tenha cunho jornalístico e apelo popular tem que se tornar notícia. Através dessa constatação é que pode ser percebido que os jornais podem acompanhar os temas e seus desdobramentos. De acordo, com o grau de interesse podemos verificar constantemente itens sendo retomados, como aconteceu nos editoriais citados acima.

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O editorial e a matéria citados acima fazem críticas à situação do ponto de vista do idoso, mas o assunto de promessas do governo sobre um aumento da rentabilidade do FGTS. Como no caso do editorial do Estado de Minas ―Uma velha injustiça‖. Nesse caso a crítica é em um contexto geral sobre uma promessa feita pela oposição, justamente em ano de eleições, o que gera desconfiança dos servidores.

Por mais que o governo tente rotular de eleitoreira a tentativa da oposição de melhorar a rentabilidade das contas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), a iniciativa não teria o menor apelo se não se tratasse de uma velha injustiça. [...] Não há de faltar criatividade ao governo ou ao mercado para encontrar remuneração minimamente decente para o espoliado do patrimônio do trabalhador. [...] A verdade é que o dinheiro do FGTS tem dono e somente a ele deveria caber a decisão de onde aplicá-lo. (EM, 07.03.10, p.10)

Finalmente, verifica-se que a retomada de um fato deve acontecer principalmente se tiver grande conotação. O que determina é o conjunto de valores que o fato pode ter o seu dimensionamento e o grau de interesse público. Estes são os ―pilares‖ para a retomada de um texto seja como artigo de opinião (editorial), ou como uma matéria expressa nos jornais.

4.6 Considerações da análise quantitativa

Após a verificação dos principais temas abordados pelos dois jornais diários chega-se à outra conclusão, de que os dois veículos de comunicação dedicam o espaço dos editoriais em assuntos ligados a política ou economia, tanto que, dos 92 editoriais observados durante a pesquisa, 45 destes abordaram temas ligados a política, sendo que desses artigos de fundo, a maioria cerca de 40 editoriais tiveram temas relacionados a projetos de lei e as eleições 2010. O segundo tema mais abordado foi a economia, que esteve presente com 29 das 92 publicações possíveis, sendo que, 23 trataram de temas relacionados a economia em geral, e 4 sobre os royalties do petróleo.

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Assuntos gerais com repercussão nacional ou mesmo estadual se enquadraram no tema geral, que teve 18 publicações em um total de 92, na maioria matérias falando sobre temas regionais, como no caso do Estado de Minas sobre o maníaco que atacava mulher e em seguida tirava a vida das mesmas. Ou no caso da Folha de S. Paulo que abordou assuntos ligados a projetos ambientais para diminuir a poluição na cidade de São Paulo e regiões. Como resultado final das 92 publicações, 49% abordaram temas ligados a política, em seguida economia com 32%, e os assuntos gerais, que nesse trabalho foram classificados como regionais receberam 19%. Nesse caso ficou constatado que os editoriais tratam geralmente de assuntos ligados a política e a economia. Em segundo plano analisamos somente os editoriais do jornal Estado de Minas que teve em 50% das suas publicações relacionados à política, em seguida, 26% temas econômicos, e por último 24 de assuntos gerais que neste quadro foram definidos como assuntos locais. No terceiro quadro o jornal em questão é a Folha de S. Paulo e nele verifica-se uma proximidade com as percentagens do jornal mineiro. Sendo que, 50% abordam temas políticos, seguidos de 37% de assuntos econômicos, e 13% de editorias com temas gerais que mais uma vez foram classificados como assuntos regionais. A seguir os gráficos da análise quantitativa.

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O gráfico abaixo aponta as principais editoriais utilizadas pelos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo. Os temas são: política, economia e gerais.

O primeiro gráfico apresenta uma visão geral do quadro de análise dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo, são 92 matérias, sendo que 45 sobre política, 29 de economia, e gerais, 18, que tratam de temas variados. Essa primeira etapa ajuda a delinear os principais assuntos presente nos editoriais dos jornais.

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O gráfico a seguir aborda os temas: política, economia e gerais do jornal Estado de Minas ao longo do período de análise.

EDITORIAIS DO ESTADO DE MINAS

GERAIS 24% POLÍTICA POLÍTICA 50% ECONOMIA GERAIS

ECONOMIA 26%

O segundo gráfico apresenta a abordagem sobre os editoriais do jornal Estado de Minas, que retrata em sua maioria, temas ligados a política que somam 23, em seguida aparecem os artigos de fundo ligados a economia com 12, e com 11 assuntos gerais. Verifica-se uma maior utilização de temas relacionados à política.

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O gráfico abaixo aborda as principais editorias abordadas pelo jornal Folha de S. Paulo divididos pelos temas: política, economia e gerais.

EDITORIAIS DA FOLHA DE S. PAULO
GERAIS 13% POLÍTICA
ECONOMIA 37%

POLÍTICA 50%

ECONOMIA GERAIS

O terceiro gráfico refere-se ao jornal Folha de S. Paulo, onde são apresentadas 23 editoriais sobre política, 17 de economia e, 6 sobre assuntos variados. Portanto, verificase uma utilização de assuntos relacionados à política em destaque, em relação aos outros elementos abordados nos editoriais da Folha de S. Paulo.

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O gráfico a seguir trata dos temas mais abordados dentre os editoriais analisados, a divisão de temas possibilita uma constatação dos assuntos que mais são abordados pelos editoriais do Estado de Minas e da Folha de S. Paulo.

O quarto gráfico representa os principais temas abordados pelos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo, verifica-se que os temas mais abordados são os de economia e assuntos ligados a política que em geral falam sobre as eleições 2010, o item projetos de lei, pode-se dizer que também estão ligados a questões políticas, mas devido ao grande número de editoriais abordando o tema foi separado dos demais para uma melhor análise. Em relação a temas ligados a economia, os dois veículos de comunicação abordaram quantidades significativas sobre o tema o que equivale a pelo ao menos um editorial por semana com temas econômicos.

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4.7 Estrutura do editorial: a linguagem e a opinião

É impossível nos comunicarmos verbalmente a não ser por algum gênero, seja através de um texto oral ou mesmo escrito; a língua nesta visão, é tida como atividade histórica, social e cognitiva. Por isso gêneros são considerados formas de ação social. Observando essas características os editoriais tornam-se objetos de análise de linguagem e opinião. É importante ressaltar que os temas abordados são definidos pelo ―corpo chefe‖ do jornal, constituído pelo dono da empresa, os editores e o chefe de reportagem. Segundo Amaral (2006), na imprensa popular, os fatos a serem noticiados são priorizados conforme a capacidade de entretenimento, a proximidade geográfica ou cultural do leitor, a possibilidade de simplificação e o grau de identificação dos personagens com os leitores. Já na imprensa considerada referência, a possibilidade de um acontecimento se transformar em notícia está condicionada ao grau de importância das pessoas envolvidas, ao impacto sobre a nação, ao envolvimento de muitas pessoas, à geração de desdobramentos importantes, à relação com as políticas públicas e à possibilidade de ser divulgado em caráter de exclusividade. A possibilidade ressaltada acima de temas locais abordados nos editoriais ocorrem com frequência. A constatação dessa premissa é recorrente também em outras publicações dos editoriais dos jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo. Na publicação de (EM, 11.03.10, p. 6) ―Passou do limite‖ do diário paulistano a constatação pode ser verificada em mais uma vez sobre assuntos relacionados à política. O editorial faz uma crítica ao presidente Lula sobre a sua defesa em relação à ditadura cubana. Já na publicação do diário mineiro do mesmo dia, ―Interesses de Minas‖ o assunto é de cunho econômico, porém visto pelo lado político que a divisão dos royalties do pré-sal.

Ao defender mais uma vez a ditadura cubana, e equiparar presos políticos a comuns, Lula escarnece dos valores democráticos. Não parece demais, em nome do registro histórico, reproduzir mais uma vez as palavras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à Associated Press: ―Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos de deter as pessoas em função da legislação de Cuba. A greve de fome não pode ser utilizada como pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade‖. [...] (FHL, 11.03.10, p.A2)

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A verdadeira batalha em que se transformou a votação na Câmara dos Deputados do projeto que cria o regime de partilha e garante à União a posse do petróleo extraído da camada pré-sal, mostra dificuldade e urgência na defesa dos interesses de Minas. [...] Mas os mineiros não podem deixar de lutar por sua parte e pela correção da injustiça histórica que faz do estado o mais prejudicado pela decisão da natureza de depositar em seu subsolo a maior parte das riquezas minerais que garantem saldo positivo à balança comercial do país. (EM, 11.03.10, p.10)

A opinião apresentada nos editoriais citados acima constata o posicionamento dos veículos de informação em relação aos temas. No primeiro exemplo, o jornal paulistano aponta como descabida, a opinião de Lula sobre a defesa da ditadura cubana, e a falta de valores democráticos segundo o próprio jornal. A crítica nesse caso é a figura do presidente Lula e de suas opiniões. No trecho ―ao defender mais uma vez a ditadura cubana‖ percebe-se que o jornal paulista já havia constatado anteriormente um posicionamento igual do presidente. No segundo exemplo, do jornal Estado de Minas, verifica-se uma observação interessante. Porque, o diário mineiro defende o interesse local sobre a divisão dos royalties do pré-sal. Nesse caso a observância a ser feita deve-se em relação a localização do interesses, nesse caso específico interesses estaduais. O Estado de Minas defende um interesse para uma divisão de verbas para um enriquecimento de Minas e também para uma quantidade de recursos maiores para o Estado podendo refletir em novos investimentos. O jornal O Globo do Rio de Janeiro tem posicionamento diferente, como pode ser constatado no editorial ―Missão do Senado no pré-sal‖ porque nesse caso defende os interesses do Estado, e no editorial abaixo pode ser percebida essa constatação.

O Senado, onde cada estado tem o mesmo número de votos, pode e deve proteger o pacto federativo, lastreado numa solidariedade rompida quando se formou — sem qualquer ação contrária do governo federal — a frente de estados não produtores de petróleo para confiscar parte dos royalties já garantidos às regiões produtoras. [...] Houve, no mínimo, o rompimento unilateral de contratos, numa ilegal retroatividade da lei. Deu-se, assim, um caso de arbítrio da maioria. (O GLOBO, 01.04.10, p.1)

A abordagem do diário carioca evidência que o que Melo (2003) relatou nos capítulos anteriores de que, cada jornal defende o seu interesses. Nesse caso o Estado de Minas defende o seu interesse local, enquanto O Globo defende os interesses do estado do Rio

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de Janeiro pelos interesses fluminenses como os descobridores da camada pré-sal. Esse exemplo mostra que um jornal pode ter opinião diferente do outro, sobre um mesmo tema. A estrutura e a forma como se desenvolve o editorial também é objeto importante de análise, para um melhor entendimento da construção da opinião e da linguagem ao longo do texto. Por isso, cabe uma análise sobre essas estruturas e como elas se desenvolvem ao longo do texto opinativo. Primeiramente para compreender essa estrutura é preciso observar o editorial como ferramenta de opinião. A primeira observação a ser feita sobre a linguagem utilizada nesses editoriais é com relação a palavras que podem indicar opinião. Um exemplo é o editorial da Folha de S. Paulo (FLH, 19.03.10, p.A2) ―Direito do Rio‖ que trata como uma injustiça a emenda Ibsen Pinheiro que muda os critérios de divisão dos royalties do petróleo. O que fica evidente é o posicionamento do jornal a favor da causa do Rio. Fato que pode ser percebido no trecho abaixo.

Dezenas de milhares de pessoas marcharam anteontem pelo centro do Rio em protesto contra a emenda Ibsen Pinheiro, aprovada pela Câmara, que altera os critérios de rateio dos royalties do petróleo. [...] O lamentável espetáculo encenado na Câmara, com parlamentares mais preocupados em amealhar recursos do que em debater o modelo para a exploração do pré-sal. [...] (FLH, 19.03.10, p.A2)

Essa premissa pode ser observada em outro editorial da Folha, ―Lamentável‖, que trata da viagem do presidente Lula a Cuba em momento inoportuno segundo a publicação paulistana. Verifica-se termos de opinião do jornal contra a visita do presidente como no trecho abaixo.

Sua visita a Cuba, nesta semana, ocorreu em um momento especialmente sombrio. [...] Nada disso se confunde com a revoltante ―ternura‖, para lembrar o celebre dito de Che Guevara, que o governo Lula ―não perde jamais‖ quando se trata de emprestar apoio a um regime decrépito, ditatorial e homicida [...]. (FLH. 27.02.10, p.A2)

A opinião de um determinado veículo de informação, não é expressa exclusivamente nos editoriais, mas principalmente na forma como se organiza pela quantidade dos

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assuntos como foi apresentado nos capítulos anteriores. Em alguns textos opinativos as próprias matérias de um jornal são imbuídas de uma carga opinativa, mas não chegam a ser separados como são os editoriais. Ambos os temas citados acima pelo diário paulistano e mineiro tratam-se de temas políticos, essa idéia de opinião sobre determinados assuntos é a mesma enfatizada por Melo (2003) nos capítulos anteriores sobre a constatação de que os editoriais remetem a opinião da empresa. Em casos como os editoriais citados acima a linguagem utilizada, às vezes, torna-se uma crítica ao longo do texto. Fato esse que é comprovado pela forma como é caracterizado os próprios títulos como nos exemplos abaixo da Folha ―A candidata oficial‖, que trata sobre a questão da candidatura da ministra Dilma Rouseff a Presidência da República e do Estado de Minas ―O fiasco do Enem, que aborda críticas a um modelo que poderia ser de sucesso na educação brasileira, e não é por causa do amadorismo dos ―mandatários‖ como cita o editorial mineiro.

[...] O estilo Dilma Rouseff, assim como sua imagem pública, não se caracteriza pelo carisma e pela espontaneidade que, tantas vezes, fizeram a glória e o rídiculo do presidente Lula. Citando poetas e usando poucos números, a candidata procura diminuir o tom rígido e tecnocrático que marca sua personalidade como ministra. Ainda assim, Dilma Rouseff continua a pertencer mais ao universo estatal do que ao universo político propriamente dito. Nesse sentido, pode ser vista até mesmo como um ―Lula em negativo‖[...]. (FLH, 22.02.10, p. A2)

Parece não haver estoque de boa vontade que resista às trapalhadas do Ministério da Educação (MEC), principalmente quando se trata da sua insistência em comprometer uma das melhores idéias surgidas nos últimos tempos, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). [...] E tudo culpa do amadorismo e da incompetência dos que se meteram não apenas a implantá-lo sem estarem à altura da tarefa, como a fazer dele uma bandeira eleitoral na base da correria imposta pelo calendário. [...] (EM, 05.03.10, p.12)

Ambos os editoriais citados acima são carregados de conteúdos opinativos e de certa forma até críticas ―fortes‖. Essa relação está associada ao conjunto de idéias que cercam a política editorial dos jornais em questão. As características de cada um são definidas por uma linha de raciocínio como Melo (2003) abordou nos capítulos anteriores. A opinião da empresa diante de um determinado fato tem a possibilidade de apresentar críticas ou elogios. Nota-se, porém, que na maioria dos editoriais analisado até agora as críticas aparecem em grande maioria.

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Essa característica citada acima não quer dizer que os editoriais são em suma críticos. Mas esse atributo faz-se presente devido à necessidade de abordar temas que geralmente despertam um interesse maior do público. Essa ―questão‖ foi abordada por Wolf (1999) nos capítulos anteriores, e esse pode-se dizer é um dos critérios que fazem com que o fato venha a se tornar notícia. Outro exemplo, de como os jornais manifestam a suas opiniões pode ser constatado no editorial do diário mineiro (21.03.10) ―Mais justiça para Minas‖ que aborda a criação de novas varas em Minas para poder agilizar o julgamento de vários processos que estavam arquivados. E no editorial (22.03.10) ―Perigo de frustração‖ que fala sobre a possível recusa de virar lei caso de projeto que exige ficha limpa dos candidatos a cargos na política de quem estiver com ficha suja na justiça. A constatação de que o editorial pode ser um agente que leve o leitor a uma persuasão. Como foi abordada nos capítulos anteriores a linguagem ressaltada por Koch (1996), pode afirmar que o ato de argumentar, isto é, de orientar o discurso no sentido de determinadas conclusões, constitui o ato linguístico fundamental, pois a todo e qualquer discurso subjaz uma ideologia, na acepção mais ampla do termo. É por este motivo que a autora procura mostrar que através de uma possível neutralidade existe uma ideologia por parte da empresa que escreve o editorial. Nesse caso a neutralidade ou imparcialidade é apenas um mito, porque o discurso que se pretende dizer com neutralidade, tem por trás dessa própria intenção de neutralidade uma ideologia, que é o da sua própria objetividade. Contudo o ato de persuadir procura atingir a vontade, ou o sentimento dos interlocutores, através de argumentos plausíveis ou verossímeis, e este têm caráter ideológico, temporal e subjetivo. A linguagem é constitutiva de características que tem próprias possibilidades de significação. E o modo como são montadas as palavras dentro de um texto podem fazer com que um texto seja ou não persuasivo, mas principalmente moldados pela argumentatividade e pelo ato enunciador. Essa característica pode ser observada através do editorial (EM, 27.02.10, p.8) do Estado de Minas ―Mais tempo para os juros‖, que aborda o fato do Banco Central ter desmontado uma série de medidas tomadas em caráter excepcional para enfrentar a escassez do crédito bancário nos meses da crise financeira internacional. Uma possível

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persuasão do leitor através do editorial pode acontecer em pequenas expressões, ou através de afirmações que parecem indiscutíveis. O exemplo do editorial citado acima apresenta logo em seu início essa possibilidade, a partir do trecho, ―Acerta o Banco Central (BC) em iniciar logo parte das medidas [...] (EM, 2010, p.8). A palavra acerta já indica uma aprovação ao tema em questão, porém como Wolf (1999) abordou nos capítulos anteriores, que os meios de comunicação buscam maneiras de persuadir o público da mensagem e levá-los ao mesmo pensamento Outros exemplos estão nos editoriais da Folha de S. Paulo ―O valor da educação‖, que aborda as dificuldades do Brasil para ter um ensino de qualidade, e do Estado de Minas ―Freio no continuísmo‖ que trata sobre a possível reeleição do presidente da Colômbia Álvaro Uribe.

A EDUCAÇÃO básica já ocupa lugar de destaque na agenda nacional. Embora tardia, a prioridade que vem sendo conferida à formação e à qualificação dos 48 milhões de brasileiros em idade escolar se reflete no aumento paulistano da parcela do PIB investida no setor. De 3,9% em 2000, alcançou-se a marca de 4,7% em 2008, ou 140 bilhões, já perto de cumprir a meta simbólica de 5% neste ano. (FLH, 18.03.10, p.A2)

Vai muito além da Colômbia a importância da decisão da Justiça daquele país de vetar definitivamente a possibilidade de realização de uma consulta popular sobre a permissão para que o presidente Álvaro Uribe dispute uma segunda reeleição. Não se trata de apenas mais um dos caudilhos populistas que atualmente prosperam na América do Sul e que vêm tentando a perpetuidade no poder pela manipulação das frágeis democracias do subcontinente. (EM, 01.03.10, p.8)

Os exemplos citados acima apresentam posicionamentos diferentes. O primeiro editorial da Folha aborda os problemas que a educação básica no Brasil enfrenta. O texto faz críticas e mostra que os jornais podem ter contribuição para uma melhora nos assuntos relacionados à formação dos jovens. Já no segundo exemplo, do Estado de Minas a crítica é em relação a uma possível reeleição pela segunda vez do presidente Álvaro Uribe, o jornal mineiro define o assunto como: ―perpetuação de governantes é onda em fase terminal e fora de moda‖. Os interesses nesse caso são mais de interesse do público do que propriamente da empresa. Mas, o papel de democracia é representado através dos conteúdos presentes nos editoriais citados acima.

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Porém, como Citelli (2001) afirmou anteriormente a persuasão não é sinônimo imediato de coerção ou mentira. Por isso, o autor ressalta que para existir essa possível persuasão é necessário que certas condições se façam presentes, a principal é a de circulação de idéias. Assim sendo, nem sempre a idéia que se faz presente no discurso indica uma opinião compartilhada, exemplo disso, é uma pessoa que antes mesmo de ler algum texto já tem uma carga de pré-conceitos. Neste caso a neutralidade ou imparcialidade é apenas um mito, porque o discurso que se pretende dizer com neutralidade, tem por trás dessa própria intenção de neutralidade uma ideologia, que é o da sua própria objetividade.

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5 CONCLUSÃO Pode-se dizer que a discussão em torno de uma analise de conteúdo é bastante complexa. De uma maneira geral, todo e qualquer tipo de sensação provocada por meio do tratamento dado às notícias contidas nos editoriais destes jornais pode causar uma impressão de opinião da empresa. Conforme apresentado no capítulo I, o rótulo de que o editorial retrata o posicionamento ideológico da empresa está ligado principalmente às abordagens e à maneira como os assuntos são tratados. Porém, o que difere esse gênero opinativo um do outro são as características de posicionamento, alguns podem ter críticas, outros idéias, elogios, e até soluções para problemas apresentados ao longo do texto. Quando se fala em jornalismo opinativo sabe-se que o conteúdo expresso tem um posicionamento crítico, porém analítico, ou seja, aborda um assunto, mas expressa a opinião. Constantemente, na história da imprensa, são observadas críticas à informação opinativa, às vezes, imprecisa, ou até mesmo distorcida, com culpa ou dolo e ofensiva contra os objetivos fundamentais do jornalismo. Porém, o papel do editorial é informar e comentar o assunto de maneira curta e objetiva, mas com compromisso ao interesse do público e também da empresa. Por esse motivo o editorial é a principal ferramenta de opinião da empresa. Através dessa conclusão é que se tem um tema de grande relevância, uma linguagem rebuscada e culta, e um posicionamento da empresa sobre o que será veiculado. Por isso, o editorial segue uma estrutura de apresentação do tema, reflexão, comentário ou crítica e uma conclusão. Nota-se que pelo fato das publicações analisadas terem em sua maioria temas relacionados à política ou economia, podem existir conflitos de interesses como citados no caso dos editoriais do Estado de Minas e O Globo sobre os royalties do pré-sal. Portanto, um assunto pode ter mais de um tipo de opinião e os interesses de cada empresa é que determinam essas condições de posicionamento. Por isso, conclui-se que os editoriais têm estruturas de opinião distintas, mas em grande maioria abordam temas relacionados à política e a economia, como pode ser constatado

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na análise quantitativa. Além disso, atinge o que se espera do editorial como ferramenta de informação e opinião. Outra constatação é sobre o ato de persuadir o leitor, que busca informações nesses editoriais e respostas para as suas perguntas. Desse modo o público tem nos editoriais uma explicação quase que profética sobre os fatos. Os jornais, através dos gêneros opinativos, procuram atingir a vontade, ou o sentimento dos interlocutores, através de argumentos plausíveis ou verossímeis, e estes têm caráter ideológico, temporal e subjetivo. A linguagem é constitutiva de características que tem próprias possibilidades de significação. E o modo como são montadas as palavras dentro de um texto pode fazer com que um texto seja ou não persuasivo, mas principalmente moldados pela argumentatividade e pelo ato enunciador. É neste sentido que pode-se dizer que a linguagem é constitutiva de suas próprias possibilidades de significação. Sendo assim, pode-se constatar que a principal característica inerente ao jornalismo opinativo é a de ser uma espécie de conselheiro do leitor, que identifica na opinião do jornal uma maneira de enxergar o mundo e determinados assuntos. Além disso, a persuasão pode ser constatada como uma idéia contida naquele editorial, e o leitor pode não identificar essa opinião do jornal tornando-a uma verdade incontestável. Isso não quer dizer que a opinião do jornal seja falsa, mas que a condição que ela estabelece sobre determinado tema pode abranger diferentes interesses e

posicionamentos ideológicos. Verificado, a condição em que estes editoriais se apresentam, percebe-se que tanto Estado de Minas quanto Folha de S. Paulo retratam temas opinativos com estruturas de opinião e de linguagem diferentes. Nota-se também que o posicionamento ideológico dos dois veículos também é diferente. O modo como os textos são elaborados pode se dizer que são iguais, em termos de estrutura. Essa premissa é constatada pelos critérios de seleção da notícia explicados nessa monografia em que o interesse pelo novo, por aquilo que está acontecendo é uma das principais ferramentas para chamar a atenção do leitor. O que interessa é sempre o que vai acontecer e não o que aconteceu, por isso a factualidade aplicada nos editoriais é fundamental no entendimento do editorial como um meio de informação e formação de opinião.

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Em termos gerais, podemos concluir que os editoriais do Estado de Minas e da Folha de S. Paulo tratam de temas geralmente ligados à política e à economia. Baseando-se nesta pesquisa, percebe-se também que os veículos de informação abordados apresentam características que remetem à persuasão. Desta forma, esses jornais demonstram, por um lado, o papel do jornalismo de informar e, por outro, combinam o conteúdo opinativo com os interesses da empresa. Portanto , entende-se que os jornais Estado de Minas e Folha de S. Paulo buscam a persuasão como forma de reafirmar o conteúdo opinativo presente em seus editoriais.

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