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Cabala: transgressão ou heresia?

reginaldo heller
Graduado em Comunicação Social pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e
em História Social pela Universidade Federal Fluminense, Mestre e Doutor em História Social pela Universidade
Federal Fluminense. Professor de História no Centro Universitário de Volta Redonda e Professor de História
Judaica do Centro Cultural Midrash, Rio de Janeiro.

resumo A história do misticismo judaico, mais conhecido abstract The history of the Jewish mysticism, known as
como Cabala, tem-se revelado, desde suas origens, uma Kabala, has shown from its origins a path of intense debates
trajetória de intensas polêmicas e conflitos entre os místicos, and conflicts between the Kabalistic and the rabbinic
cabalistas, e as autoridades rabínicas. Situando-se na authorities. Found in an intersection between philosophy
intersecção entre a Filosofia e a Religião, o misticismo and religion, the Kabala frequently encountered the esoteric
judaico/ Cabala refugiou-se, frequentemente, no esoterismo as a protection shield against external and internal risks
como forma de preservação contra riscos externos such as excommunication and the transformation from
(excomunhão) ou internos (a transformação da spirituality to infirmary, respectively. During the hardest
espiritualidade em enfermidade). Algumas vezes, nos moments in Jewish History, the Kabala found massive
momentos mais difíceis da história judaica, encontrou maciça popular support from those in search for hope and
adesão popular em busca de esperança e compensação às compensation for the misfortunes of the exile. In that
desventuras do exílio. Neste quadro, este artigo discute a scenario, this article proposes the discussion of the
face transgressora do misticismo judaico e seus momentos transgression side of the Jewish mysticism and its
conflituosos que o fazem beirar a heresia. conflicting moments that make it border on heresy.

palavras-chave Misticismo judaico, Cabala, transgressão, keywords Jewish Mysticism, Kabala, transgression,
heresia, judaísmo rabínico, autoridade religiosa. heresy, rabbinic Judaism, religious authorities.

Tradicionalmente, a Cabala, ou o misticismo judaico, tem sido tratado,


nos estudos acadêmicos, ora como uma forma de conhecimento não racional que so-
breviveu aos séculos de dispersão e uma expressão viva do que poderíamos chamar de
“ethos” judaico, ora como um fenômeno histórico que exerceu intenso fascínio nas
massas judaicas, especialmente durante os momentos mais dramáticos de sua existên-
cia. No primeiro caso, os exemplos são os numerosos escritos que, desde a Antiguida-
de até recentemente, foram produzidos pelos místicos sempre com o objetivo de trans-
mitir, compartilhar ou indicar os caminhos da contemplação, do êxtase e de uma vida
devota. No segundo caso, os escritos dos historiadores, filhos do iluminismo judaico
e secular a partir do século XIX, que tentaram, inicialmente, desprezar essa sobrevivên-
cia “primitiva” de uma mentalidade judaica medieval.
Apenas mais recentemente, no século XX, surgiram estudiosos mais isentos deste
fenômeno exclusivo do judaísmo e da judeidade diaspórica1, aplicando os critérios ob-
jetivos de análise ao estudo da Cabala, reconhecendo a importância histórica desta vi-
são de mundo e o significado político de seus principais atores. Dentre estes, deve-se
destacar a figura exponencial de Gershom Scholem, cujos trabalhos balizaram o co-
nhecimento atual da mística judaica.2
A importância histórica e o significado político talvez não tenham sido enfatica-
mente realçados por estes historiadores, mas, certamente, a ideia está implícita em seus
trabalhos. Não apenas Gershom Scholem, que frisou em seus livros o caráter epistemo-

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lógico conflitante e quase herético da Cabala e dos gue adaptar-se ao vocabulário ortodoxo e o usa
cabalistas. Também, Itzhak Baer, o grande estudio- como uma asa ou um veículo para seus pensa-
so do judaísmo sefaradita (espanhol), aponta para mentos (SCHOLEM, 1972, p. 11).
as tensões sociais vivenciadas dentro da sociedade
judaica medieval, especialmente na Espanha dos A cabala e os cabalistas
séculos XIII, XIV e XV, refletidas nas posturas dos
cabalistas e suas ideias místicas. Não se pode afirmar categoricamente que o misti-
É, exatamente, a partir desta última vertente da cismo de per si representa uma transgressão, seja
historiografia da Cabala que se pretende, neste tex- ela comportamental, seja ela ideológica. Afinal,
to, extrair algumas ilações, nem tanto originais em embora dialogando com outras formas de conhe-
sua essência, mas expostas por uma abordagem cimento, o pensamento místico não contesta a exis-
mais inteligível para a contemporaneidade. Afinal, tência destas, mas apenas manifesta sua maior efi-
já se disse que os fenômenos históricos nunca são cácia em se tratando de uma abordagem ontológi-
percebidos da mesma forma ao longo do tempo. ca. Enquanto a Filosofia (e hoje a Ciência) busca
O conhecimento acumulado favorece um olhar di­ a essência do SER através de um pensamento ra-
­­­ferenciado do passado, sem que com isso projetemos cional, sistemático e coerente, a Cabala, como to-
nele nossas indissiocrasias. Para além de uma percep­ do pensamento místico, desdenha – embora não
­­ção questionável do conflito religioso ou social en­ renegue inteiramente – a Filosofia e todo e qual-
­­­tre o mundo do misticismo e o do judaís­­mo ra­­­bí­­­ni­ quer racionalismo sistemático. Para tanto, utiliza-
­­co “oficial”, a proposta que tentaremos demonstrar -se de técnicas especificas de concentração e con-
aqui é que aquilo que Gershom Scholem chama templação para se atingir um êxtase, objetivo maior
de “quase heresia” pode ser interpretado, hoje, co- do místico. O êxtase propicia a manifestação e/ou
mo uma tendência permanente à transgressão den- compreensão daquele SER. Trata-se de uma expe-
tro de um determinado sistema estabelecido. Um riência única, singular, impossível de ser compar-
sistema que, formalmente e, talvez, por ironia da tilhada e somente acessível àqueles iniciados nos
própria história, manteve-se razoavelmente aberto, exercícios da contemplação.
ao menos o suficiente para assegurar a coexistên- Não que o cabalista não flerte com a Filosofia
cia de polos quase inconciliáveis. Afinal, como ele ou até explore as técnicas racionalistas para justifi­
mesmo diz, não havia, como na cristandade, uma ­­car o alcance de suas especulações. Para Gershom
estrutura política centralizada capaz de se impor, Scho­­­lem, muitas vezes “o místico ainda não apren-
perseguir e punir os desvios ideológicos na religião. deu a falar sua própria linguagem, muitas vezes usa,
e usa mal, o vocabulário da filosofia” (SCHOLEM,
Não necessito dizer mais nada sobre as razões 1972, p. 24). A expressão de um rabino do século
que, frequentemente, transformam os místicos em XIII, na Espanha, sobre esta questão é conclusiva:
heréticos. Tal heresia nem sempre precisa ser “deveis saber que estes filósofos, cuja sabedoria elo­
combatida a ferro e fogo pela comunidade reli- ­­­giais, terminam onde nós começamos” (SCHO-
giosa; pode mesmo acontecer que sua natureza LEM, 1972, p. 24). Na verdade, o próprio caráter
herética não seja compreendida e reconhecida. da contemplação mística, seja de qualquer nature-
Isto se dá, em especial, quando o místico conse- za ou vinculada a qualquer sistema religioso, pres-

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cinde inteiramente da racionalidade. A experiência para a religião e, até, conduz a um choque frontal.
é indescritível ou, quando há a tentativa de descre- O caráter transgressor dos cabalistas ao longo
vê-la, sua essência se esvai pela insuficiência de vo- de toda a história judaica está, exatamente, não na
cabulário. Em resumo, a Cabala em si e de per si prática do misticismo, mas na contestação velada
não contesta a Filosofia, não rivaliza com a racio- ou aberta ao judaísmo rabínico, especialmente das
nalidade: ela simplesmente é uma alternativa de regras, padrões e limites da religião oficial. Em ou-
conhecimento sem se constituir numa epistemo- tras palavras, a transgressão não reside no misticis-
logia sistematizada definida. Não há evidências – à mo em si, mas na sua relação com o que ele não
exceção de apenas uns poucos episódios históricos é. No caso, o judaísmo rabínico. A tendência, con-
que confirmam a assertiva – de que fatores sociais tudo, tem sido de se evitar o choque frontal, esta-
explicariam o florescimento deste tipo de saber.3 belecendo entre ambos uma convivência acordada,
O mesmo, contudo, não pode ser dito em re- na qual a rejeição oficial não desemboca na excomu­
lação aos cabalistas. Estes integram um sistema so- ­nhão, e na qual a contestação permanece sutil, esca­
cial estabelecido, com suas regras, padrões e limites ­moteada por uma adesão externa e formal à autori­
bem definidos. Uma experiência pessoal intrans- ­da­­de rabínica. “O místico judeu vive e age em rebe­
ferível é sempre uma ameaça às verdades coletivas ­­lião perpétua contra um mundo com o qual ele
consagradas. Por exemplo: a experiência de um trata a todo custo de estar em paz” (SCHOLEM,
místico pode conduzi-lo a uma revelação tão ver- 1972, p. 34). É certo que essa convivência nem sem-
dadeira e tão significativa quanto, ou mais, àquelas pre foi pacífica, mas também é certo que não gerou
socialmente estabelecidas. A revelação do Sinai, ti- consequências mais graves. Por exemplo, a exco-
da como dogma fundamental e integrante do mi- munhão (o herem) que os rabinos caba­­­listas da
to fundador da identidade judaica, pode parecer Provença (Narbona), no século XIII, impuseram a
irrelevante e distante a um místico que experimen- Moisés ben Maimon, o Maimônides, filósofo ra-
tou uma revelação em seu íntimo de forma inten- cionalista, em nada afetou seu prestígio e represen-
sa e até perturbadora. É, exatamente, nesse momen- tatividade.4 Ou as manifestações messiânicas que
to, que o conflito se estabelece. Afinal, quem há tanto abalaram a vida comunitária judaica duran-
de controlar essas revelações individuais e que, qua- te séculos. Ou, ainda, a excomunhão aplicada pelo
se sempre, minimizam o dogma coletivo? Até que Gaon de Vilna ao fundador do movimento hassí-
ponto a verdade vivenciada pelo místico é compa- dico na Polônia, no século XVIII, o BESHT.5
tível com a verdade religiosa? Uma das maneiras que os cabalistas encontra-
Um exemplo deste risco é a parábola talmúdica ram para evitar a transgressão aberta, por um lado,
do PARDES: quatro sábios entraram no paraíso (par­ e eventuais incursões punitivas dos rabinos, de ou-
­­­des em hebraico significa pomar, e pomar represen­ tro, foi a prática do esoterismo. Apenas os inicia-
­­ta o paraíso): Simon ben-Azai (olhou e morreu); ben dos mais qualificados poderiam ingressar nos círcu­
Zoma (olhou e foi punido mentalmente, enlouque­ ­los fechados da Cabala e nos quais seus mistérios
­­ceu); Elisha ben Avuya, também chamado de Aher seriam guardados, não ameaçando as verdades esta­
– o outro – (abandonou o judaísmo rabínico); só ­belecidas pela religião, zeladas com rigor pelas auto­
Rabi Akiva entrou e saiu em paz. Em outras palavras, ­ridades rabínicas. Outra forma de se imunizar con-
a especulação mística implica riscos inaceitáveis tra as acusações de heresia ou campanhas de des­­­

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legitimação, de descrédito, é a produção de textos são poucos os historiadores do Israel Antigo que
apócrifos. E não são poucos os textos atribuídos identificam os profetas como um segmento social
a sábios talmúdicos consagrados, como Iochanan marginal da sociedade israelita, mesmo que convi-
Ben Zakai (fundador da Academia de Iavne, sécu- vendo muito proximamente com as elites sacerdo-
lo I DeC), Rabi Akiva ben Iossef, Rabi Ishmael, tais (CARROLL, 1979). Mas, certamente, pelos es-
ambos copiladores do Talmud, ou, ainda, Eliezer critos a eles atribuídos, não se pode categorizá-los
ben Hircano. O mais famoso deles é Rabi Shimon como místicos, ainda que tivessem revelações in-
Bar Iochai (século I), a quem os cabalistas atribuem dividuais, singulares. É que, de acordo com os mais
a autoria do Zohar, a obra máxima do cabalismo destacados teóricos do misticismo, a profecia teria
espanhol. Em todos estes casos, a autoria anônima outra classificação, muito própria, a partir de uma
escondeu-se por trás de nomes consagrados.6 experiência ou visão capaz de ser transmitida, inte­
Há, ainda, uma terceira estratégia adotada por ­­gralmente, por uma linguagem racional. A visão,
muitos cabalistas em reação às críticas dos rabinos por exemplo, de Ezequiel do “trono da Glória” é
“filósofos”: a acusação de heresia. A discussão, por descrita em detalhes, o que a difere da visão mís-
algum tempo, era mesmo equilibrada. No mundo tica, que não tem fundamento visual e audível, mas
asquenazita, destacam-se nomes famosos como o sim uma experiência extática. Mesmo assim, a pro-
rabino veneziano Leone de Modena (1571-1648), fecia invadiu, em alguns momentos, a experiência
que defendeu o marrano David Farrar em Amster- mística – refiro-me, por exemplo, ao que alguns cha­
dã, 40 anos antes de Spinoza, ou Joel Sirkis (1561- ­­­mam de “cabala profética”, da qual um dos maio­
1640), polonês, que o acusava de heresia; Moises ­­­res representantes foi Abraham Abuláfia (1240-1292).
Isserles, o rabino de Praga, intensamente criticado Entretanto, esta modalidade profética medieval foi,
pelo seu sobrinho Salomão Luria por sua posição quase sempre, contestada pela legalidade rabínica.8
racionalista; Abraham Horowitz, de Praga, que de- De certa forma, a profecia em Israel limi­­­tou-se à
fendeu veementemente a filosofia e o pensamento Antiguidade, sendo, desde então, banida pelos ra-
racional contra a avassaladora expansão da Cabala, binos. Aliás, nos próprios textos canonizados, já
especialmente aquela inspirada por Isaac Luria e se antevê esta reação contra o que se chamou de
Moisés Cordovero de Safed. Aquele último contes- “falsos profetas”.
tou o misticismo de Joseph Ashkenazi. Seu filho, Também, estão longe de nosso interesse os aspec-
Isaiah Horowitz, rabino de Praga que emigrou pa- tos mágicos constantes da religião do Israel Antigo
ra Safed, autor de Shnei Luchot Habrit, desdenhou e que se preservaram ao longo dos séculos através
o estudo da Filosofia. “As palavras dos filósofos da chamada Cabala Prática.9 Aliás, a Cabala Prática,
são vazias”, disse ele em seu livro. E Sirkis foi ain- com suas “feitiçarias”, não apenas foi condenada
da mais longe: “A cabala é a essência da ortodoxia; pelos rabinos ao longo de toda a história, como te-
heresia é a rejeição à Cabala”.7 ria sido também um dos aspectos que deram origem
à identificação do judeu com as bruxas na Idade
Relações conflituosas Média. Mas essa não é a proposta deste trabalho.
Uma das primeiras manifestações desta tensão
Na abordagem que aqui se formula, não se inclui entre o misticismo judaico e o judaísmo rabínico
a profecia, nem a magia. No primeiro caso, não oficial pode ser encontrada numa passagem talmú-

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dica que diz: “A história da criação não deve ser ideias, também vários tanaítas (da época talmú­­­dica)
ex­­­posta ante duas pessoas, nem o capítulo sobre a não conseguiam esconder inteiramente suas in­­­­clinações
carruagem ante uma pessoa, a menos que seja um místicas, deixando transparecer suas opi­­­­niões de
sá­­­bio e já tenha entendimento independente da forma sutil e legitimada. No famoso trata­­­do dos
ma­­­téria”.10 Por “história da criação”, os sábios refe­ Pirkei Avot (Ética dos Pais), algumas afirma­­­ções e
­­rem-se ao conjunto de textos místicos produzidos, expressões ali contidas revelam esse clima qua­­­­se clan-
especialmente, na Pérsia/ Babilônia nos primeiros destino de algumas autoridades rabínicas.13 A opo-
séculos da era comum e denominados Maassei Be- sição quase nunca beirou as raias da ruptura. Co-
resshit (fatos ou origem da criação). E por “carrua­ mo diz Gershom Scholem, “apesar das oposições,
­­gem”, referem-se ao livro do profeta Ezequiel, que da resistência dos rabi­­­nos, também os místicos evi­
fala da carruagem que o levou aos palácios celestiais ­­­taram o confronto”, sancionando a autoridade ra-
e que se constituiu no tema de um conjunto de bínica, salvo raras exceções.
textos místicos denominados Maassei Mercavá (fa-
tos da carruagem) escritos naquela mesma época. Um conflito social
Também Maimônides, deixando transparecer
um tom crítico ao misticismo da cabala, afirma Mas não reside apenas no plano ideológico-religio-
em seu célebre Mishné Torá (segunda repetição da so-metafísico a oposição entre cabalistas e autori-
Torá): “só aquele que saciou devidamente o corpo dades rabínicas. Alguns autores são enfáticos em
com pão e carne é digno de dar-se, também, ao pa- relacionar o que aqui chamamos de transgressão
raíso da especulação mística” (SCHOLEM, 1972, mística com o contexto social coevo. O mesmo
p. 127). Gershom Scholem, do alto de seus conhecimentos,
Ou, ainda, esta outra passagem talmúdica: “to- afirma:
do aquele que pondere sobre quatro coisas, melhor
para ele fôra não houvesse nascido; o que está aci- Lá onde o cabalismo espanhol do século XIII ma-
ma, o que está abaixo, o que era antes e o que será logrou – tornou-se fator histórico real só bem mais
depois” (SCHOLEM, 1989, p. 11). Até os excessos tarde, após a expulsão dos judeus da Espanha e
devocionais dos hassídicos (pietistas e devotos) das depois que Safed se convertera em novo centro
épocas posteriores à queda do II Tempo eram con- – o hassidismo alemão foi bem sucedido. Longe
denados pelos rabinos tanaítas (autores da Mish- de permanecerem isolados, os hassidim manti-
ná), como salienta esta passagem também citada veram-se em íntima ligação com toda a vida ju-
por Scholem: “aquele que multiplica o louvor a daica e os interesses religiosos do povo comum.
Deus em excesso será eliminado deste mundo”.11 (SCHOLEM, 1972, p.82)
Ou, ainda, a citação atribuída ao Rabi Hanina
quando este assistia um fiel com o exagero já men- Talvez, devido às condições políticas e sociais
cionado. Diz ele de forma irônica: “Terminaste de da época áurea do misticismo dos hassidei Ashque­
louvar a D´us? Que significado tem tudo isso?”12 ­­nazi (devotos da Alemanha nos séculos XII e XIII),
Mesmo assim, para Gershom Scholem, da mes- quando a Europa Ocidental, especificamente os
ma forma que os místicos não raro recorriam, inde­ reinos da Inglaterra, França e o Sacro Império, ape-
­­­vidamente, à linguagem filosófica para expor suas nas antecipava um clima de efervescência que logo

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eclodiria com as Cruzadas, as sucessivas expulsões fronteiras sociais (e culturais) entre dois grupos,
dos judeus e a devastação causada pela Peste, este mais eles se distanciam um do outro, fortalecendo
movimento tivesse encontrado ampla aceitação jun- suas próprias identidades e por isso mesmo, no
to à massa judaica.14 Gershom Scholem aventa, até, caso em questão, mais agarrados à sua religião.16
que, nesta época de vasta produção das tossafot, Os judeus menos aquinhoados pela “fortuna” eram,
dos estudos e comentários talmúdicos, o Livro dos eles próprios, os maiores defensores da tradição,
Devotos (Sefer haHassidim) era visto com escrú- das leis e dos costumes.
pulos pelos rabinos líderes das famosas ieshivot O renomado historiador da judeidade espanho-
(academias) da Alemanha. “Mas não entre a média la Itzhak Baer é enfático nesta questão. Não se tra-
do piedoso burguês, do dono de casa (baal habait)” tava apenas de reconduzir o judaísmo daquela épo-
(SCHOLEM, 1972), do homem simples. É claro, ca aos padrões da Lei e da Tradição (da halachá e
a elite sempre encontrava uma forma viável de so- da Agadá), tal como os sábios da Mishná que en-
brevivência, enquanto a grande massa empobreci- frentaram o racionalismo helênico. Em síntese,
da se tornava alvo mais fácil das perseguições. Há, não se tratava apenas de uma luta ferrenha, sem
aqui, portanto, uma dicotomia do ponto de vista fronteiras contra os racionalistas. Um combate fi-
social que poderia justificar esta maior adesão po- losófico liderado, por um lado, por Moisés ben
pular ao misticismo alemão. Nachman, o Nachmanides, um rabino com incli-
Se, no caso da Alemanha, a relação entre con- nações místicas, e, por outro, por Moisés ben Mai-
dições de vida dos judeus e seu misticismo parece mon, o Maimônides, o grande rabino filósofo.
evidente, embora ainda no nível de suposições mui- Para Baer, havia, seguramente, uma questão social
to prováveis, no caso da Espanha as evidências fa- implícita por trás deste embate. Diz ele:
lam per si. A documentação, aqui, é mais vasta, e
o conflito interno entre as massas e as elites dentro No contexto das lutas sociais, cresceu na Espa-
da judeidade é mais do que manifesto. Na Espa- nha, durante o século XIII, o movimento cabalista.
nha dos séculos XIII, XIV e XV, a sociedade judai- Este movimento teve grande importância na his-
ca poderia ser classificada em dois grandes segmen- tória judaica. Uma das razões específicas para
tos: os judeus cortesãos, ricos, geralmente letrados colocar-se o movimento dentre aqueles que tive-
na poesia e na filosofia, e convivendo muito pro- ram papel importante no processo histórico, está
ximamente primeiro com a nobreza islâmica e de- o fato de os cabalistas não foram apenas indiví-
pois com a espanhola; e os judeus pobres, encerra- duos submersos em suas meditações e reflexões,
dos nas judiarias, dependendo dos favores daqueles mas, desde seus primórdios, travaram uma vigo-
para sua sobrevivência e sujeitos, não raro, às in- rosa luta contra a classe de judeus cortesãos,
cursões antijudaicas dos clérigos católicos fanáti- engrossando as fileiras daqueles que buscavam
cos.15 Este segundo grupo, por razão destas mesmas reformar os fundamentos da vida religiosa e so-
circunstâncias, inclinava-se muito mais para a re- cial. (BAER, 1981, p. 197)
sistência ao outro, mesmo que esse outro fosse re-
presentado por aqueles primeiros. Aliás, este é um Para Gershom Scholem, contudo, esta disputa
fenômeno muito comum na experiência de dife- política pelo predomínio material e espiritual den-
rentes grupos sociais: quanto mais restritas são as tro do judaísmo somente viria a ocorrer como con-

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sequência da expulsão dos judeus da Espanha, em ou no sul da França, ou que, ainda, foram enri-
1492. Até lá, os cabalistas eram um grupo diminu- quecidos pela cultura árabe, então a mais avançada
to de esotéricos e que “teriam sido os últimos a da época. O cotidiano judaico, na maior parte, ex-
promover qualquer movimento com o fito de in- perimentou – exceto naqueles momentos mais crí-
troduzir mudanças radicais na vida judaica, ou de ticos – uma convivência interétnica que faz lem-
alterar seus ritmos” (SCHOLEM, 1972, p. 251).17 brar o atual multiculturalismo. A verdadeira Idade
Para este autor, foi somente com a catástrofe da das Trevas para a judeidade europeia – e aí incluí-
expulsão que a judeidade sefardita percebeu as “de- das as comunidades asquenazitas e aquelas sefar-
moníacas realidades do Exílio”. A “ilusão de que ditas mais próximas ao centro político do Império
seria possível viver pacificamente sob a lei sagrada Otomano – ocorreu a partir dos séculos XIV e XV
no exílio” (SCHOLEM, 1972, p. 251) desfez-se co- e atingiu seu auge quando a Europa experimenta-
mo um castelo de cartas. A questão social desdo- va a alvorada da Modenidade, mais precisamente
bra-se, então, numa questão diaspórica e, neste sen- nos séculos XVII e XVIII.
tido, a reforma que impunham ao judaísmo basea­ A catástrofe espanhola lança os judeus sefardi-
­va-se num novo mito: a ideia messiânica. Se, antes, tas (espanhóis) para a experiência marrana (a práti­
a mística judaica jamais enfatizara este elemento ­­ca clandestina do judaísmo) e para a esperança
fundamental da doutrina judaica, agora ele estava mes­­­­­siânica. Esta, agora desenvolvida pela Cabala
presente com toda a sua força.18 Como diz, ainda, lu­­­riânica20, que floresceu na cidade galileia de Safed,
Gershom Scholem: “Na grande reviravolta mate- vai conferir um novo alento de vida às massas de-
rial e espiritual daquela crise, o cabalismo estabe- sesperadas da segunda diáspora sefardita. O caráter
leceu sua pretensão de domínio espiritual no judaís­ “revolucionário” dentro do misticismo judaico re-
­mo” (SCHOLEM, 1972, p. 251).19 presentado pelos conceitos desenvolvido por estes
cabalistas de Safed, como o Tzimtzum (contração),
A transgressão coletiva shivrat hakeilim (quebra dos vasos) e tikun (con-
certo) – os quais não cabem aqui discutir em por-
Longe das atribuídas trevas, a Idade Média judaica, menores – foram decisivos para acender com inten­
apesar das crises experimentadas em decorrência ­­sidade a ideia messiânica.
das Cruzadas, da Peste e das expulsões, esteve lon- Não que antes a ideia já não circulasse em meios
ge de ter sido uma era pálida. A criatividade germi­ cabalísticos mais restritos, sob outra roupagem dou-
­nou tanto ao norte como ao sul dos Pirineus, e trinária.21 Mas, com a cabala luriânica, o messia-
nis­­­to a Europa Ocidental era homogênea. As ca- nismo assume proporções inéditas no mundo ju-
tástrofes ocorreram tão somente no final do perío­ daico. Até então, a ideia era sistematicamente re-
­do, no apagar das luzes da Baixa Idade Média. Pri- jeitada pelos rabinos. E entre os próprios cabalistas,
meiro no século XIV, com as expulsões da Ingla- não foram poucos os que contestavam a ideia mes-
terra e França, e, logo, no século XV, com a expul- siânica. No já mencionado Livro dos Devotos (Se-
são dos judeus da Espanha. Como descreve muito fer haHassidim), seu autor, Iehuda heHassid, é ca-
bem o historiador Cecil Roth, não foram apenas tegórico: “se vires alguém fazendo profecias sobre
os estudos cabalísticos e talmúdicos que floresce- o Messias, deverás saber que ele lida com feitiçaria
ram à luz das academias rabínicas na Alemanha e tem trato com demônios; ou então é um daque-

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les que procuram conjurar com o nome de Deus” judaico – não implicam necessariamente heresias.
(SCHOLEM, 1972). Apesar destas admoestações, Estamos falando, por exemplo, do asceticismo fran-
tanto dos rabinos como de alguns cabalistas pro- ciscano, que encontrou sua contrapartida no pietis­
eminentes, não poucos cabalistas na Espanha anun- ­­mo hassídico alemão e no asceticismo de algumas
ciavam a próxima chegada do Messias.22 Nesta épo- correntes cabalistas. Ou nas ideias de “penitência”,
ca, antes da expulsão, as massas judaicas não se desenvolvidas por doutores da Igreja e pelos devo-
deixavam contaminar por tal frenesi esotérico. Ape- tos alemães; ou no misticismo de João Scotus e
nas quando ficou patente que a “catástrofe” era irre­ Mestre Eckard; nas contestações dos cátaros do
­­­versível, após gerações desesperadas pela maciça Lan­­­guedoc e nos cabalistas do sul da França. Sequer
re­­­jeição, é que o campo ficou fértil para adesão se pode afirmar categoricamente que ocorreram,
po­­­­pular à ideia messiânica. E as teses luriânicas de fato, apropriações. Mas, sem dúvida, conexões
vieram como uma “luva” para as expectativas e existiram e ainda demandam investigações mais
ansiedades da “rua judaica”. consistentes que comprovem tais fenômenos.
O momento histórico foi, portanto, decisivo Contudo, chama a atenção do historiador, en-
para que, ao contrário das ocorrências insignifi- quanto pesquisador e observador, a efetiva ocor-
cantes anteriores, o judaísmo rabínico estabelecido rência de relações interétnicas como um antece-
não encontrasse meios de deter o surto irresistível dente significativo do que hoje se conceitua mul-
e fanatizado da promessa messiânica. Tal como um ticulturalismo. Na Espanha, a coexistência de três
rastro de pólvora, o anúncio de que um rabino grandes grupos sociais confirma esse propósito cla-
desconhecido, Shabtai Tzvi, seria o Messias pro- ramente. E nem por isso – pelas eventuais apro-
metido acendeu, nos anos cinquenta do século priações uns dos outros – configuram-se, inevita-
XVII, o despertar da redenção escatológica em toda velmente, heresias. Como já se disse antes, talvez
a diáspora. Nascido em Esmirna, na Turquia, mas pela inexistência de uma autoridade central coer-
vivendo em Jerusalém, ele foi reconhecido por um citiva. O que não explica tudo, pois os caraítas –
jovem cabalista imbuído das ideias luriânicas, Na- uma seita rabínica que negava autoridade ao Tal-
than, da cidade de Gaza, e logo recebeu a ampla mud ainda no auge do judaísmo babilônico – fo-
adesão das massas em todas as diásporas. O dra- ram excomungados sem contestar os dogmas fun-
mático desfecho deste triste episódio da história damentais do judaísmo, enquanto atitudes filoso-
judaica gerou consequências para além da impac- ficamente divergentes foram, não raro, toleradas.
tante transgressão que ele, em si, representava para Entretanto, as dramáticas consequências do mes-
o judaísmo rabínico.23 Em outras palavras, não foi sianismo desiludido de Shabtai Tzvi geraram, efe-
apenas a ascensão e queda de um mito, com suas tivamente, heresias que abjuraram, ao menos for-
frustrações e desencantos. Foi, acima de tudo, a malmente, o judaísmo como um todo. Os segui-
geração de autênticas heresias dentro do judaísmo. dores mais inconformados com a conversão do
Não se podem apontar as constantes apropria- Messias passaram a justificar teologicamente seu
ções de valores e costumes nas relações interétnicas ato e a adotar postura semelhante. Estavam, certa-
como indícios de heresias no discurso religioso. mente, familiarizados com um marranismo que
Ao longo da Idade Média, ideias produzidas tanto pressupunha a abjuração formal e a permanência
num contexto como no outro – diga-se, cristão e clandestinamente na fé abjurada. Tal foi o caso dos

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adeptos da seita dos Doenmé (apóstatas), que, man- lendas e parábolas hassídicas que contam a história
tendo a fachada islâmica, praticavam clandestina- do fundador do movimento, BESHT, e de seus se-
mente o judaísmo, aguardando o ressurgimento guidores – muitos dos quais se consagraram como
do Messias convertido. Seu líder já estava familiari­ tzadikim (justos) – revelam essa visão, nem tanto
­­zado com esta duplicidade: Abraão Miguel Cardo- ascética (afinal muitos desses ra­­­­binos hassídicos
so era um marrano português que vivia em Esmir- formavam verdadeiras cortes sectárias), mas, sobre-
na (Turquia) em 1683. Ou, ainda, dos seguidores tudo, místicas.27 Elas demonstram claramente a
de Jacob Frank, na Galícia Oriental (Polônia e par- rejeição do intelectualismo e das elites acadêmicas
te da Lituânia), asquenazitas que aderiram ao cato­ (das ieshivot), voltadas para os es­­­­tudos talmúdicos,
­­licismo, mantendo um judaísmo secreto até que a e o desprezo que se conferia às manifestações ra-
missão de Shabtai Tzvi fosse completada.24 Eram cionais da religião. O confronto era tal que, como
os maaminim (crentes), muitos dos quais, nas gera­ já mencionamos antes, o Gaon de Vilna, o grande
­­ções posteriores, aderiram ao iluminismo que já rabino talmúdico, excomungou o Baal Shem Tov.
flo­­­rescia na Europa Ocidental em muitos círculos Entretanto, esse embate não durou muito. Lo-
judaicos. Em suas memórias, Moisés Porges relata go os cabalistas hassídicos poloneses encontraram
a percepção de que os cabalisas da heresia frankis- uma forma de reconciliação. Seguindo uma tradi-
ta eram vistos como revolucionários, baseados no ção milenar dos místicos judeus, aceitaram a au-
Zohar, e que “seu fim, sua meta é a liber­­­tação da toridade rabínica, incorporando o estudo do Tal-
opressão espiritual e política” (PORGES apud mud por seus discípulos, sem abrir mão da espe-
SCHOLEM, 1972, p. 322).25 O auge do que pode- culação cabalística.
mos chamar de transgressão destes grupos “quase- Finalmente, cabe salientar o aspecto mais im-
he­­­réticos” ocorre quando o cabalismo saba­­­taísta vai portante deste caráter transgressor implícito no
ao extremo de antecipar uma das características da pensamento místico e cabalístico e, ao mesmo tem-
era messiânica: a anulação da Torá, da lei judaica. po, responsável pelo conflito e pela tensão que se
O impacto da grande frustração causada pelo estabelece com a autoridade rabínica e com os re-
sabataísmo e as seitas heréticas, do tipo “neo-marra­ presentantes da filosofia judaica. Por um lado, nem
­­no”, foi agravado, na Europa Oriental, pelas perse­ os filósofos, nem os cabalistas, admitem pacifica-
­­guições sofridas pelos judeus. Primeiro, em conse- mente algumas afirmações da Torá (o Pentateuco).
quência da Guerra dos Trinta Anos, eles foram as Tratam-se das repetidas referências antropomórficas
vítimas preferenciais das hordas genocidas dos cossa­ à ideia de Deus. Para aqueles primeiros, deve-se
­­cos liderados por Chemielnitzky, nos anos 1640/50.26 considerar o estilo metafórico de algumas dessas
Depois, no século XVIII, pela expansão da Rússia afirmações; para os segundos, tais afirmações con-
czarista sobre o território da Polônia-Lituana, on- firmam que existe outro significado, oculto, no
de se situava o Pale, a ampla região intensamente texto bíblico. Nos dois casos, a exegese caminha
habitada por judeus que ali foram confinados. Nes- para becos sem saída. Para os filósofos, a pergunta
te fértil terreno, de pobreza e pouca instrução, o é: o que deve e o que não deve ser considerado me-
discurso místico e emocional prevaleceria com mui- tafórico? Para os místicos, o número de significa-
ta facilidade sobre a Filosofia ou a tradição talmú- dos multiplica-se pelo número de leituras indivi-
dica, que implicavam estudos por anos a fio. As duais.28 Nos dois casos, a autoridade do texto ori-

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ginal, texto básico da doutrina judaica, a Torá, es- tatória dos cabalistas do que, propriamente, na
tará sempre sob questionamento. qualidade deste conhecimento especulativo que se
De qualquer forma, a tentativa de superar os contrapõe à Filosofia e a todo pensamento siste-
impasses levantados na interpretação da Torá terá, mático. Não que a mística, por se apoiar, muitas
certamente, salvo o judaísmo e preservado o texto vezes, no gnosticismo e no neo-platonismo, não
sagrado da crítica racional contundente. O funda- flerte com a Filosofia, mas, sobretudo, porque se
mento da identidade individual e coletiva estaria, coloca como um saber alternativo, eventualmente
dessa forma, assegurado, ou seja, através de dois até com ele rivalizando, e como fruto de uma ex-
caminhos excludentes. Como declarou, certa feita, periência individual, intransferível. A contraparti-
o Rabi Pinhas, de Koretz (morreu em 1791): “o da social das relações entre as duas visões de mun-
Zohar me sustentou no judaísmo” (SCHOLEM, do, que, em última instância e em outros contex-
1972, p.157). tos, conduz à heresia, resultou numa tensão de
Neste mesmo sentido – da preservação do ju- caráter transgressor, mas cujas consequências foram
daísmo –, outro elemento, ainda mais fundamen- controladas voluntária ou involuntariamente pelos
tal, foi lapidado com muito cuidado para que, sem atores sociais, graças, sem dúvida, às condições his-
perder substância, não se constituísse numa autên- tóricas e sociais em que tais atores sociais viveram.
tica heresia, como ocorreu com a filosofia da Ba- E foi exatamente este caráter transgressor que pos-
ruch Spinoza. Trata-se da dificuldade em aceitar sibilitou a sobrevivência do Judaísmo como um
sem restrições a ideia de um Deus transcendente. todo, superando suas próprias contradições inter-
Os cabalistas enfrentaram dilemas muito pertur- nas, através de um sistema de tolerância, de con-
badores a partir, mesmo, de suas experiências ex- cessões mútuas e, até, de adequação às novas reali-
táticas e suas revelações íntimas do espírito de Deus. dades nas quais esse mesmo Judaísmo se insere na
Iehuda heHassid afirmou em seu livro: “tudo é em contemporaneidade.
Ti e Tu és em tudo; Tu preenches tudo e abranges Neste ultimo sentido, concluo estas reflexões
tudo; quando tudo foi criado, Tu estavas em tudo, com uma parábola hassídica que embute uma sé-
ante de tudo que fosse criado, Tu estavas em tudo” ria contestação à tradição judaica, sem, contudo,
(SCHOLEM, 1972, p.109). A ideia é generalizada rejeitá-la e, ao mesmo tempo, tornando-a mais a­tual.
entre os cabalistas e representa um contraditório Os elementos básicos do imaginário judaico, o
fundamental com a doutrina rabínica oficial.29 Uma misticismo deles se distancia, estendendo os mes-
das tarefas mais difíceis dos cabalistas tem sido, mos elementos despidos de sua singularidade ju-
efetivamente, conciliar suas versões imanentes da daica, mas, ao mesmo tempo, aflorando, certamen-
ideia de Deus e a posição transcendente defendida te, o que, em essência, o judaísmo sugere.
pelo judaísmo rabínico oficial.
PARÁBOLA HASSÍDICA
Conclusão Shloyme Zanvil Rapoport
(AnSki – 1863-1920)
Vimos, ao longo deste artigo, que o caráter trans- O universo de D’us é grande e sagrado. O país
gressor do cabalismo ou do misticismo judaico mais sagrado do Universo é Eretz Israel. A cida-
reside mais fundamentalmente na atitude contes- de mais santa de Eretz Israel é Jerusalém. O lugar

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mais sacro de Jerusalém é o Santíssimo Templo notas


(beit hamikdash) e, nele, encontrava-se o Sancta
Santorum (Kodesh haKodashim). 1 Seguimos a orientação de Gershom Scholem segundo a
Existem no mundo setenta povos. Deles, o mais qual cada misticismo está umbilicalmente vinculado a uma
corrente ou denominação religiosa. Portanto, a Cabala,
sagrado é o povo de Israel. Dentro do povo de
como uma manifestação mística, somente pode ser
Israel, a tribo de Levi é a mais santa. Da tribo de concebida enquanto judaica. Talvez, por isso mesmo, a
Levi, os mais santificados são os sacerdotes (co- chamada Cabala cristã, uma iniciativa similar desenvolvida
hanim), e, entre os sacerdotes, o mais santo é o nos primórdios da modernidade, não tenha sobrevivido.
Grão Sacerdote (Cohen HaGadol). 2 Gershom Scholem, historiador alemão, emigrou para
O ano tem 354 dias. Dentre estes, os mais sagra- Israel ainda antes da criação do Estado e foi professor da
dos sãos os dias de festa. Ainda mais sagrados, Universidade Hebraica de Jerusalém. Contemporâneo de
porém, são os sábados. E, dos sábados, o mais Martim Buber e interlocutor e amigo de Walter Benjamin,
santo é o Dia do Perdão (Iom Kipur). estudou profundamente a Cabala e o misticismo judaico,
produzindo, em consequência, uma extensa bibliografia
Há setenta idiomas no mundo. O mais santo é o
sobre o tema – alguns traduzidos para o português – além
hebraico. A coisa mais sagrada deste idioma é a de trazer, para o conhecimento público, milhares de
Torá. Na Torá, a mais santa coisa são os Dez responsas (documentos rabínicos) produzidos durante a
Mandamentos. E, nos Dez Mandamentos, a pa- Idade Média e Moderna.
lavra mais sacra é o nome de D´us. 3 Isto não quer dizer que, em alguns e determinados
Uma vez no ano, a uma hora determinada, cos- momentos históricos, esta visão de mundo não tenha
tumavam reunir-se as quatro grandes santidades. atraído a adesão maciça das massas judaicas. A questão,
Era no Dia do Perdão (Iom Kipur), quando o Grão no ponto referido, é a relação entre a Cabala e as massas
Sacerdote (Cohen haGadol) penetrava no San­­cta judaicas, que podem sofrer influência direta das
Santorum (Kodesh haKodashim) e pronunciava circunstâncias históricas, e a relação entre dois saberes, a
Cabala e a Filosofia, a qual não está necessariamente
o nome de D´us. Como este instante era extraor-
atrelada a circunstâncias históricas.
dinariamente sagrado e terrível, era, também, o
de maior risco, tanto para o Cohen haGadol como 4 A famosa excomunhão de Spinoza em Amsterdã nada
tem a ver com a Cabala. Foi o judaísmo oficial que expeliu
para todo o povo de Israel. Se, nesse momento,
um filósofo racionalista. Muito embora, como veremos mais
a ele, o Cohen haGadol – D´us livre e guarde! – adiante, a tese de Spinoza foi, também, advogada por
lhe ocorresse um pensamento pecaminoso ou muitos cabalistas, ainda que não expressa de forma
estranho, o mundo seria aniquilado. sistematizada.
Qualquer lugar do qual um homem eleve o olhar 5 Israel ben Eliezer, conhecido por Israel Baal Shem Tov.
ao céu é igual, para o Todo Poderoso, ao Templo
6 Geralmente, a atribuição de autoria a terceiros derivava
(beit hamikdash). Todo homem, que D´us criou à
do fato dos textos terem esses personagens como seus
sua imagem, é um Cohen haGadol. Qualquer dia narradores. No caso do Zohar, Gershom Scholem, após
da vida humana é um Dia de Perdão (Iom Kipur), análises extensas, atribuiu a sua real autoria a Moisés Shem
e toda palavra proferida com sinceridade equi- Tov de Leon. Ver Scholem, 1989.
vale ao nome de D´us. É por isso que qualquer 7 Sobre as relações entre cabalistas e rabinos não-
pecado ou delito de um ser humano acarreta o cabalistas, entre Cabala e Filosofia, no mundo asquenazita
aniquilamento do universo. do século XVII, ver Davis (2005).

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8 De acordo com Scholem (1972), Rabi Iehuda Haiat (1500) 19 Estamos nos referindo aqui às expulsões dos judeus da
foi um, entre muitos, de seus mais acirrados opositores. Europa Ocidental e às perseguições ocorridas na Europa
9 Um exemplo da magia no Israel Antigo remonta às pedras Oriental.
no vestuário do Grão Sacerdote do Templo, “urim vetumim”, 20 A doutrina foi desenvolvida por Isaac Luria Ashkenazi
espécie de oráculo ao qual se recorria em certas ocasiões; (que morreu em 1570) e difundida pelo seu discípulo Haim
ou à magia da cabala prática que pode ser encontrada nos Vital (1543-1620) através de seu livro Etz Haim (Árvore da
talismãs da Pérsia (Babilônia) ou nas mãos da sorte Vida).
(hamsa), muito comuns, hoje, entre os judeus. 21 Isaac Abravanel, o judeu cortesão que, após tentar
10 Chag 2:1, século 1 AeC. Tanto no Talmud babilônico, infrutiferamente demover os reis de Espanha da ideia de
como no de Jerusalém. (SCHOLEM, 1989, p. 11). expulsão dos judeus, prefere o exílio e nele desenvolve
11 TALMUD: Meguilá 18 a; Berachot 33b (apud SCHOLEM, seus famosos escritos, incluindo a “profecia” da próxima
1972, p.61). chegada do Messias. Na mesma época, surgiram alguns
“falsos messias” de pouca importância, que não chegaram
12 TALMUD: Meguilá 18 a; Berachot 33b. (apud SCHOLEM, a abalar as bases da judeidade sefardita, como, por
1972, p.16). exemplo, David Reubeni.
13 “Rabi Iaakov diz: Este mundo parece um vestíbulo do 22 Moisés Shem Tov de Leão, o autor do Zohar, fez
mundo vindouro; prepara-te no vestíbulo para que possas cálculos segundo os quais o Messias chegaria ainda no
entrar no palácio.” Esta expressão, especialmente a figura início do século XIV.
do “palácio” (celestial), está presente na profecia de
Ezequiel. (Ética dos Pais, 1979). 23 Após mobilizar as massas para a proximidade
escatológica, Shabtai Tzvi foi obrigado a se converter ao
14 Aqui diferenciamos os países da Europa Ocidental de Islamismo por ameaça do sultão otomano.
além Pirineus dos reinos hispânicos ou ibéricos. Primeiro,
porque as cruzadas não atravessaram esses reinos 24 A doutrina sabataísta, baseada na cabala luriânica,
peninsulares; segundo, porque foram muito menos afetados informava que a vinda do Messias seria consequência de
pela peste que grassou a região e, terceiro, porque a um processo cósmico que representava, inicialmente, uma
expulsão somente ocorreu um século depois das queda profunda (a quebra dos vasos) seguida de um tikun
registradas naquelas regiões mais ao norte. cósmico (um concerto). O papel do Messias é realizar este
processo, e a conversão era parte deste processo.
15 O mais famoso deles foi o frei Vicente Ferrer, que liderou
uma perseguição aos judeus espanhóis no final do século 25 Todo o capítulo dedicado ao Sabatianismo e à heresia
XIII. Sobre os judeus na Espanha Cristã, ver Baer (1981). mística demonstra com farta documentação esse caráter
“revolucionário” da Cabala herética dos sucessores de
16 Sobre a questão das fronteiras étnicas, ver Barth (2000). Jacob Frank (ver Scholem, 1989).
17 A questão do exílio e da diáspora renasce entre os 26 As revoltas dos cossacos estão diretamente
cabalistas, na concepção de Scholem, a partir da expulsão relacionadas à Guerra dos Trinta Anos. A coroa dos
da Espanha (SCHOLEM, 1972, p. 251). Habsburgos cobrava pesados impostos de seus súditos
18 Apesar de, ao longo da história judaica, terem ocorrido para financiamento da guerra. Na Polônia, a drenagem da
várias manifestações messiânicas, estas jamais tiveram riqueza pelos nobres era feita pelos cobradores judeus,
destaque maior. A única exceção foi Bar Kochba que teve o atraindo, dessa forma, o rancor dos camponeses, já mais
apoio de Rabi Akiva. Nos primórdios da Idade Moderna, a que incitados pelos representantes clericais. Sobre a
ideia messiânica vagava, também, no mundo não judeu, história dos judeus na Europa, ver as obras de Simon
como é o caso do sebastianismo português. Dubnov (1953) e Cecil Roth (1962).

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27 Muitas destas histórias do Baal Shem Tov foram _____. Cabala. Rio de Janeiro: Koogan, 1989.
preservadas pelo seu braço direito, o rabino Iaakov Iosef _____. A Cabala e seus simbolismos. São Paulo:
(Katz Heller) de Polonnoye/Polonne, também conhecido por Perspectiva, 1988.
Toldot Iaakov Iosef. Já a melhor compilação das histórias
dos tzadikim hassidícos foi feita por Martin Buber (1967). SELTZER, Robert M. Povo judeu, pensamento judaico; A
experiência judaica na História. Rio de Janeiro: Koogan,
28 De fato, os escritos cabalísticos insistem nas diferentes 1990. 2 vol.
leituras da Torá em função do contexto histórico (as shmitot
– ou eras, que para Cabala são sete desde a criação do
mundo), ou da subjetividade da leitura (uma para cada
israelita que saiu do Egito, ou seja, originalmente, 600 mil).
29 Gershom Scholem cita, ainda, Moisés Azriel, heHassid
do século XIII; Eleazar de Worms, genro do citado Iehuda
Hehassid, e as advertências rabínicas quanto ao risco
dessas afirmações (ver Scholem, 1989).

referências

BAER, Yitzhak. Historia de los judios en la Espana


Cristiana. Madrid: Altalena, 1981.
BARTH, Frederick. O guru, o iniciador e outras variações
antropológicas. Rio de Janeiro: Contracapa, 200.
BUBER, Martin. Histórias do Rabi. São Paulo: Perspectiva,
1967.
CARROLL, R. P. “Prohecy and society” in CLEMENTS, R.E.
The world of ancient Israel. Cambridge: UP, 1989.
DAVIS, Joseph. Yom-Tov Lipmann Heller; Portrait of a
Seventeenth-Century Rabi. England and Wales: The Littman
Library of Jewish Civilization, 2005.
DUBNOV, Simon. História Judaica. Buenos Aires: Sigal,
1953.
Ética dos Pais (Perkei Avot), 1979. Tradução e notas
explicativas de Eliezer Levin. São Paulo: Editora B’nai Brith.
1979.
ROTH, Cecil. Pequena história do povo judeu. São Paulo:
CIP – Fundação Fritz Pinkuss, 1962.
SCHOLEM, Gershom. As grandes correntes da Mística
Judaica (ou A Mística Judaica). São Paulo: Perspectiva,
1972. Recebido em 22/11/2011
Aceito em 16/01/2012

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