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IDENTIDADE DE BAIRRO:

A RESISTÊNCIA DO LUGAR NUMA TRAMA DE ENREDOS –


UMA ANÁLISE SOBRE ÁGUA FRIA (RECIFE-PE)

Bruno Maia Halley,


Mestrando do Programa de Pós-Graduação em
Geografia da UFPE, bhalleype@hotmail.com

Geógrafos do horizonte humanista descrevem o lugar como uma entidade única, um


conjunto especial, que tem história e significado. Uma porção do espaço estruturado e
ordenado, constituído a partir das experiências e aspirações dos seres humanos, sendo
comumente materializado em diferentes escalas concêntricas de mundo vivido. Podendo ser
desde o lar, a rua, o quarteirão, e o bairro, até os locais de encontro, lazer e de trabalho.
Inserido nesta hierarquia, na condição de realidade material a partir da qual se torna possível
compartilhar a experiência do lugar, o bairro para esses profissionais, configura-se num local
vivido por excelência, demarcado e eleito afetivamente por seus moradores em sintomáticas
relações sociais de familiaridade, vizinhança e compadrio. É ainda exaltado como portador de
identidade própria, resultante de uma fisionomia particular e de uma convivência social
específica.
Nesse sentido, entendendo o bairro como um lugar de vivência íntima investido por
características marcantes que denotam identidade, buscar-se-á desvendar e analisar as
particularidades que individualizam o bairro de Água Fria no contexto da cidade do Recife.
Principiando por resgatar a trajetória conceitual do bairro nos estudos geográficos, para em
seguida, desconstruir leituras mais atuais à luz dos postulados humanísticos, que aproximam a
categoria espacial ao conceito fenomenológico de lugar. Por fim, a última parte do texto tem
por objetivo apreender e analisar a trama central de Água Fria, a partir do desvendamento
dos seus principais enredos identitários.
DESVENDANDO A TRAJETÓRIA DO BAIRRO NO BRASIL
O período compreendido entre as duas últimas décadas do século passado até os dias
atuais constituem por excelência um momento singular para o estudo do bairro no Brasil.
Nesse momento emerge um expressivo número de estudos que toma o bairro como foco de
análise, sobretudo na perspectiva da metrópole. O que vem a atender aos reclamos de Souza
(1989, p. 141) que em texto de referência a propósito do tema deixara claro que quando se
examina a literatura acadêmica “à procura de tratamento teórico-conceituais da realidade

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bairro, surpreende-se com a relativa escassez destes, pelo menos no que concerne a
contribuições de peso”. Ainda de acordo com este autor,
Na Geografia, a discussão teórica sobre o bairro tem sido tradicionalmente superficial. (...) A
Geografia Urbana clássica ficava satisfeita em poder estabelecer, partindo do senso comum, do
bairro como uma noção popular dada “a priori” ao pesquisador, a natureza da individualidade da
“alma singular” de um determinado bairro, enfatizando a relação do meio físico (sitio) com a
evolução da ocupação humana (Op.Cit., p. 141-2).
Na verdade, alguns estudos pioneiros sobre bairro, a exemplo dos que foram
desenvolvidos por Mendes (1958) e Soares (1958), estão centrados nessa perspectiva. Com
efeito, entendendo o bairro como local de originalidade própria, o primeiro analisou os bairros
das zonas norte, sul, orientais e ocidentais da cidade de São Paulo; enquanto Soares
discorreu a respeito de alguns bairros cariocas a partir da coexistência de uma série de
elementos (sítio, conteúdo social, paisagem urbana e função) que os singularizavam em meio a
outros da mesma cidade. Justificando, assim, o quanto procede à assertiva de Souza, que
pode ser reiterada na noção conceitual de Mendes (1958, p. 185), segundo o qual, “o bairro
possui determinadas características muito próprias que, com o passar do tempo, se reforçam
e acabam por individualizá-lo de maneira inconfundível, tanto para os que nele habitam como
no conceito geral da população citadina”.
Os anos que se sucederam as publicações desses trabalhos constituíram um hiato de
mais de uma década de ausência de estudos a propósito do bairro no Brasil. Conforme
lembra Seabra (2003, p. 50) “a partir dos anos sessenta diminuem as motivações de estudos
sobre bairro entre nós”, só sendo retomado efetivamente a partir da década de 1980, com o
resgate de alguns aspectos contemplados nos primeiros estudos aqui comentados, que
adicionados a outros de natureza da vida cotidiana, iniciam uma nova fase na sua análise.
Assim é que Scarlato (1988) preocupado em desvendar a realidade objetiva do Bexiga (São
Paulo) reafirma que a opção pelo estudo do bairro conduz a uma maior complexidade do que
a simples escolha de um território com limites administrativos, uma vez que
Ele (o bairro) é o resultado de um conjunto de relações sociais que passam pela consciência
histórica de pertencerem a uma localidade, cujos limites podem ser definidos pelo grau de relações
entre as pessoas ao viverem um mesmo cotidiano, problemas de rua ou quarteirão, cria um clima de
“cumplicidade” para viver ou encontrar saída para os mesmos. O bairro pode ser encarado portanto,
como lugar onde as relações de vizinhança se encontram mais bem configuradas (Op. Cit., p. 178).
Dessa forma, para o autor o bairro constitui uma unidade espacial de profunda
significância à compreensão das transformações de uma cidade ou da sociedade como um
todo. Unidade menor onde se realiza com intensidade a vida cotidiana da população urbana,
é ainda o lugar onde se manifesta importantes movimentos sociais urbanos (Op. Cit., p. 179).

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O derradeiro decênio do século XX e o momento posterior, por sua vez, aparece como
um interstício temporal promissor no estudo do bairro. Um significativo número de escritos
fora desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Universidade
de São Paulo, sob a orientação marxista-lefebvriana, e uma série de monografias nos
Departamentos de Geografia da Universidade Federal da Bahia, e da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro, ancorados na Geografia Humanística. Do ponto de vista da vertente
humanista faz-se importante mencionar que essa corrente aproxima cada vez mais a
concepção de bairro à noção de lugar, passando a compreendê-lo como uma porção do
espaço recortado afetivamente por seus usuários em profundas e duradouras relações
interpessoais de parentesco, vizinhança e compadrio. É ainda entendido como o lócus da
experiência humana a partir da qual se torna possível compartilhar inúmeros sentidos e
significados no local onde se habita. Logo, abrindo um leque de possibilidades de se pensar a
propósito desse fragmento urbano em toda a sua complexidade.
BAIRRO E LUGAR: RECORTES COMPLEMENTARES DA GEOGRAFIA
HUMANÍSTICA
A nova abordagem cultural emergiu na Geografia Humana nas últimas quatro décadas.
O ressurgimento dessa perspectiva nos estudos geográficos, após um período de relativa
perda de prestígio (entre 1940 e 1970) ganha novo fôlego tanto na Europa como nos Estados
Unidos. Constitui-se, na verdade, uma revisão da abordagem geográfica da Escola de
Berkeley, ancorada numa conjuntura científica pós-positivista, e caracterizada pela
consciência de que a cultura reflete e condiciona a diversidade da organização espacial.
Nesse sentido, a dimensão cultural torna-se necessária para a compreensão do mundo
através de diferentes enfoques temáticos que carregam consigo influências herdadas tanto de
um período antecedente como de aspectos oriundos do materialismo histórico dialético.
Outrossim, a “nova geografia” recebe aportes das filosofias do significado (existencialismo,
hermenêutica, fenomenologia, e idealismo) através da geografia humanística que valoriza a
experiência no mundo vivido, a intersubjetividade, e os valores e sentimentos dos seres
humanos na compreensão do espaço circundante. Dentro deste contexto, o espaço urbano
passa a ser objeto de análise dos estudos culturais (antes mais voltados às questões
relacionadas ao campo), e o lugar adquire status de conceito-chave. Assim, geógrafos do
horizonte humanista como Y-Fu Tuan, Edward Relph e Anne Buttimer definem o lugar como
a porção do espaço demarcado e eleito afetivamente, investido de reminiscências identitárias

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dentro de um “mundo ordenado e com significado” (TUAN, 1983, p. 63). Ele é concebido
emocionalmente nas experiências cotidianas, podendo ser o lar, o bairro, os locais de

trabalho, dos encontros e lazer, bem como os caminhos que conduzem a esses.
Essa concepção de lugar fora corroborada no Brasil pelos estudos desenvolvidos por
Mello (1991) e Holzer (1990) a partir dos anos de 1990. Na sua dissertação de mestrado,
Mello (1991) aponta e analisa diferentes apreensões do lugar à luz das experiências
vivenciadas dos compositores da Música Popular Brasileira na cidade do Rio Janeiro. Neste
trabalho, o geógrafo carioca define lugar como a base territorial experenciada do indivíduo no
espaço, enquanto que o bairro é interpretado como uma condição material a partir da qual se
torna possível compartilhar a existência do lugar. Desse modo, para o autor (Op. Cit., p. 62),
o bairro pode ser compreendido como um “lugar vivido por excelência, percorrido com
segurança, onde muitos se conhecem e, portanto se familiarizam”. Ainda de acordo com ele,
“no bairro, no qual se habita, não é conhecido em sua totalidade” (MELLO, Op. Cit., p. 62).
Contudo,
Os laços de afinidade são muito expressivos nesses centros de significância, onde não há tabuletas
indicando a sua designação. Mas a experiência repetida dos homens, transformada em fraternidade,
identifica ou traça os limites de seu território. Os administradores estabelecem fronteiras rígidas
para os bairros. Entretanto, para os moradores do lugar a demarcação é tênue e não muito rígida,
podendo variar para lhes conceder status, por exemplo (MELLO, Op. Cit., p. 62).
Percebe-se, assim, a carga simbólica e subjetiva que o fragmento urbano encerra em si
na Geografia Humanística, sendo entendido como uma porção do espaço caracterizado pelas
sociabilidades engendradas no seu interior e pelas particularidades que o individualiza. Outro
aspecto diz respeito à ausência de coincidência entre os limites pré-estabelecidos pelo poder
público em detrimento àqueles delimitados e tomados como verdadeiro pelo senso comum. A
propósito dessa realidade, Serpa (2007, p. 9) sugere como procedimento
teórico-metodológico, a superação da rígida dicotomia centro versus periferia, relativizando-a
a partir da instrumentalização do conceito de bairro como espaço vivido e sentido. Pois,
conforme ressalta o autor, os recortes espaciais priorizados pelos órgãos municipais (as
regiões administrativas ou os distritos) se mostram “grandes demais para despertar empatia
como “espaços vividos” pela população, como “lugar””, uma vez que essas divisões acabam
por esconder o sentimento de pertencimento ao bairro, tido como “espaço das práticas
cotidianas e aparentemente banais” (SERPA, Op. Cit., p. 10) dos seus usuários. Certo da
magnitude desse pensamento e apoiando-se nas concepções desenvolvidas por Edward

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Relph e Marc-Augé sobre espaço vivido, Serpa (Op. Cit., p. 11) vincula o bairro ao conceito
de lugar, o que implica enxergá-lo como um sistema de relações particulares, “já que o lugar é
mais que a soma de objetos ou uma localização (...) e exprime a experiência e o envolvimento
com o mundo”. Ele, segundo o autor, “é sempre identitário, relacional e histórico”, uma “fonte
de autoconhecimento e responsabilidade social” (SERPA, Op. Cit., p. 11).
Mesmo não se enquadrando na perspectiva humanista, Carlos (1996, p. 20) igualmente
aproxima a noção de bairro ao conceito de lugar, partindo do entendimento que o indivíduo
morador de uma grande cidade não a vivência em sua totalidade, vive apenas fragmentos
deste espaço. Que corresponde ao “lugar – porção do espaço apropriável a vida –
apropriada através do corpo – dos sentidos – dos passos dos seus moradores”. Podendo ser
a rua, a praça, o bairro... Que compreende ao
Espaço imediato da vida das relações cotidianas mais finas – as relações de vizinhança, o ir as
compras, o caminhar, o encontro dos conhecidos, o jogo de bola, as brincadeiras, o percurso
reconhecido de uma prática vivida/reconhecida em pequenos atos corriqueiros, e aparentemente
sem sentido que criam laços profundos de identidade, habitante-habitante, habitante-lugar”
(CARLOS, Op. Cit., p. 21).
No entanto é Tuan (Op. Cit., p. 189) quem mostra que “a rua onde se mora é parte da
experiência íntima de cada um, mas a unidade maior, o ‘bairro’, é um conceito”. Não se
expande automaticamente o sentimento que se tem pela rua para todo o bairro. O conceito
depende da experiência, mas não é uma conseqüência inevitável da experiência, já que o
‘bairro’ só adquire visibilidade e torna-se um ‘lugar’ através de um esforço da mente (TUAN,
Op. Cit., p. 189). Assim, segundo o geógrafo chinês, o bairro pode ser deduzido e
esclarecido por meio de perguntas, dirigidas inicialmente para o concreto e depois para o
mais abstrato (o que é ou constitui o meu bairro? o que é nosso bairro? o que é o bairro?).

Dessa forma, “o bairro inteiro torna-se lugar” (TUAN, Op. Cit., p. 189). Todavia,
É um lugar conceitual e não envolve as emoções. As emoções começam a dar cor ao bairro inteiro –
recorrendo e extrapolando da experiência direta de cada umas de suas partes – quando se percebe
que o bairro tem rivais e que está ameaçado de alguma maneira, real ou imaginária. Assim, o
sentimento afetuoso que se tem por uma esquina expande-se para incluir a área maior (TUAN, Op.
Cit., p. 189)
Em outras palavras, é a partir da diferença, da alteridade, do reconhecimento, enfim do
despertar identitário face às outras unidades urbanas que se processa a transformação do
bairro em lugar. Nessa perspectiva, a emergência da identidade do bairro pode decorrer
tanto de fortes fatores individualizantes (estrato social, amenidades locais, arquitetura secular,
etc.), como por sintoma de reação aos pequenos ou grandes atos de interferência na vida
cotidiana do morador, a exemplo da demolição de algum imóvel simbólico, ou mesmo do

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risco de desocupação do lugar em razão de um processo de reurbanização. Contudo, a
atribuição de um significado ao bairro, a formação de uma imagem mental forte, a construção
da personalidade do lugar na mente do indivíduo também dependem de outras circunstâncias.
IDENTIDADE DE BAIRRO: A RESISTÊNCIA DO LUGAR NUMA TRAMA DE
ENREDOS – UMA ANÁLISE SOBRE ÁGUA FRIA (RECIFE-PE)
Ao longo de sua trajetória, o bairro sempre fora evocado como um fragmento social
delimitado por relações primárias estabelecidas cotidianamente por vizinhos, parentes e
compadres. E ainda como uma unidade urbana de características próprias, marcada por uma
dinâmica fortemente definida pela atração exercida pela igreja local e pelos festejos e
comércio de bairro garantidores de um certo fechamento e de uma atmosfera de intimidade.
No entanto, com o crescimento urbano e a emergência de novas práticas sociais advindas dos
processos globalizantes, a realidade do bairro e da vida de bairro torna-se fragmentada.
Deixando evidente que quanto mais complexas as relações capitalistas na cidade, mais se
acelera o declínio da vida de bairro e mais o usuário tende a se deslocar do seu bairro para
vivenciar outros lugares da mesma. Nessa perspectiva, observa Bauman (1999, p. 8) que “ser
um local num mundo globalizado é sinal de privação e degradação social”. E acrescenta:
Os desconfortos da existência localizada compõem-se do fato de que, com os espaços públicos
removidos para além do alcance da vida localizada (o bairro), as localidades estão perdendo a
capacidade de gerar e negociar sentidos e se tornam cada vez mais dependentes de ações que dão e
interpretam sentidos, ações que elas não controlam” (BAUMAN, 1999, p. 08).
Assim, para o morador, o bairro deixa de ser o meio único de satisfazer as suas
necessidades, sejam elas de lazer, trabalho, ou consumo. O que o remete a transitar por
outros lugares, separando o lugar da moradia daquele do trabalho, redefinindo o bairro como
lócus de construção das relações interpessoais de seus habitantes. Logo, ele tende a viver
mais superficialmente o lugar, o que resulta na diluição das relações de vizinhança, dos
encontros, das festas comunitárias, e de tantas outras práticas sociais que se manifestam no
interior do bairro. Pois, “com a expansão do processo de globalização, a reprodução das
relações sociais dá-se fora das fronteiras do lugar. Mais e mais, aquilo que de mundial existe
no local redefine seu conteúdo, sem, todavia anular suas particularidades” (CARLOS apud
NOGUEIRA DA SILVA, Op. Cit., p. 17). Nesse sentido, aqueles pequenos atos
corriqueiros, freqüentemente praticados sem sentido no local onde se habita, acabam por
construir diferenças e particularidades de bairros, sendo percebidas e representadas pela
população urbana como importantes na demarcação de identidades. Para os moradores do
bairro de Água Fria (Zona Norte da Cidade do Recife), abstraídos das reflexões e imersos no

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seu cotidiano, o bairro ainda representa o lugar de referência para a construção de relações
interpessoais e também a referência a partir da qual se relacionam com espaços mais amplos.
Constituindo-se, dessa forma, numa porção de espaço de vivência íntima, demarcado
afetivamente por eles em diferentes práticas sociais estabelecidas cotidianamente através de
sintomáticos enredos.
Durante a pesquisa, observou-se como um dos principais enredos de Água Fria àquele
associado ao “bairro negro”. Caracterizado especialmente pelos aspectos religiosos dos
tradicionais terreiros de Xangô, bem como pelas múltiplas instituições ligadas à cultura afro.
Outrossim, as atividades religiosas do Catolicismo Romano (as missas, batizados, casamentos
e procissões), estabelecidas e conduzidas pela Paróquia Santo Antônio, exerce significativa
influência, mostrando-se presente na vida cotidiana da população do bairro e adjacências.
Representado pelos grupos e agremiações da cultura popular, o enredo carnavalesco do
bairro se expressa nos inúmeros maracatus, afoxés, caboclinhos, troças e clubes de bonecos
espalhados nos recantos do lugar. Que igualmente encontra-se singularizado pelo comércio
local, marcado por um antigo mercado público, por expressivas casas comerciais, e por uma

particular feira livre associada à sua origem.


Essa trama de enredos possibilita no interior do espaço urbano a comunhão entre as
pessoas não somente porque elas moram, compram, trabalham, cultuam ou se divertem no
mesmo bairro. Mas porque fazem de forma personalizada – todos se conhecem (de uma
forma ou de outra). Saber quem é quem é uma imposição da própria intensidade do contexto
e das muitas oportunidades diferentes em que ela se dá. E mais, significa conhecer o mesmo
indivíduo em diferentes situações, desempenhando os papéis de vizinho, freguês, associado,
folião, freqüentador do mercado ou da feira livre, membro de uma igreja ou do terreiro,
profissional disto ou daquilo e assim por diante. A troca reiterada de “personagens”
encontra-se assentada na raiz da construção social e identitária da pessoa com o lugar.
Graças ao seu comprometimento, o indivíduo tende a viver com maior intensidade o bairro,
adquirindo um apego, um sentimento de pertencimento ao lugar tanto mais rico quanto mais
variado forem os papéis por ele desempenhados. Assim, ao participar de um conjunto de
experiências conduzidas por uma série de enredos, o morador insere-se numa trama de
relações vividas e reconhecidas, suscitando, no dizer de Carlos (Op. Cit., p. 21), a criação de
“laços profundos de identidade, habitante-habitante, habitante-lugar”.

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Outro aspecto relevante dos enredos diz respeito à delimitação daquilo que Mendes
(Op. Cit.) cunhou de “coração de bairro”. Um espaço simbólico de elevada magnitude,
constituído por um conjunto de valores e representações sobre os quais se concentra o
conteúdo concreto da existência. No caso de Água Fria, a sobreposição de cartas temáticas
referentes aos principais enredos do bairro (das agremiações carnavalescas, das instituições
religiosas e do comércio local), indica a existência de um núcleo denso, que centraliza o
palpitar mais intenso da vivência cotidiana, estimulando e ressoando suas especificidades para
outros recantos da célula urbana. Trata-se, na verdade, de um “retalho urbano”,
correspondente à localização dos principais pontos de encontro da população (o mercado
público, a feira livre, o Sítio de Pai Adão, a Paróquia de Água Fria, e mais de 10 instituições e
agremiações da cultural popular) localizados nas duas principais vias do lugar, a Estrada
Velha de Água Fria e Avenida Beberibe.
Nestes lugares-símbolos que regem a experiência do morador, ainda encontra-se com
facilidade aspectos singulares da vida local. São as conversas na calçada, o jogo de cartas
e/ou dominó nas esquinas, o encontro e a conversa diária nas padarias, no mercado público,
ou na feira livre; o jogo de bola das crianças nas ruas; os rituais no terreiro de Xangô; as
peculiares apresentações dos caboclinhos, ursos e afoxés; os bingos, as missas e casamentos
realizados na Paróquia de Santo Antônio. Que, afora essas cerimônias, nos dias de procissão
as múltiplas ruas dos bairros (Água Fria e Arruda) são tomadas por cantos e orações
louvando o andor do santo padroeiro ao longo de um itinerário simbólico, histórico e
sentimental. Outra referência religiosa que exerce significativa influência no cotidiano do bairro
é o Terreiro Obá Ogunté. Durante a semana, o popular “Sítio do Pai Adão” realiza entre os
“seus” sessões internas de oferendas ao ritual Xangô. Nas quartas-feiras, todavia, o terreiro
disponibiliza o espaço para visitação e celebração, representando em si o mais expressivo
centro religioso dos cultos afro-recifenses.
Já o mercado de Água Fria, datado de 1954, rivaliza as atenções com as casas de
comércio espalhadas ao longo da Avenida Beberibe, e com a feira livre disposta diariamente
nas ruas paralelas do bairro. Neste centro comercial freqüentado por usuários advindos de
lugares próximos (Alto do Pascoal, Pereirinha, Padaria e Deodato), bem como de bairros
vizinhos (Arruda, Bomba do Hemetério, Fundão e etc.), ainda encontra-se antigas relações
de confiança, marcadas pela concessão de crédito pessoal, conhecido popularmente como

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“fiado”. Percebe-se, assim, a permanência de formas refratárias do capital, que ainda se faz
presente nas inúmeras bodegas, mercearias, mercadinhos, e leiterias (que sobrevivem aos
hipermercados e magazines). Que também constituem pontos de encontro da população, ou
lugares que regem a experiência do morador e lhes possibilita perceber a fluidez e as coisas
do bairro. São nesses espaços por entre eles compartilhados, verdadeiros abrigos ou refúgios
de significativos laços identitários, que se processa o sentimento de bairrofilia (SOUZA,
1989), referente à empatia, afeição e apego do individuo ao lugar de moradia.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Segundo George (1983, p. 76), “o morador refere-se ao seu bairro, quando quer
situar-se na cidade; tem a impressão de ultrapassar um limite quando vai a um outro bairro”.
Sobretudo no encontro com o núcleo denso de um determinado bairro, onde ele constata a
efervescência das práticas ali engendradas e as características físicas e simbólicas mais
peculiares do lugar. O que não seria possível nos pontos imprecisos da cidade, as áreas de
transição intra-urbana, que acabam por confundir o sentimento de pertencimento do habitante
de estar em tal ou qual bairro. Assim, a vivência íntima do bairro acontece na rua com os
vizinhos e parentes, mas também na área mais densamente habitada, onde há o maior número
de atividades sociais, comumente conduzidas por sintomáticos enredos identitários. Através
deles há um envolvimento mútuo das pessoas, e, doravante, a construção de um espaço
comum para todo um conjunto de indivíduos, os quais vêem assim suas imagens mentais se
aproximarem e se superporem a ponto de proporcionar a comunicação para além dos limites
de suas casas.

REFERÊNCIAS

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Zahar, 1999.

CARLOS, Ana Fani Alessandri. O Lugar no/do Mundo. São Paulo: Hucitec, 1996.

GEORGE, Pierre. Geografia Urbana. São Paulo: Difel, 1983.

HOLZER, Wether. A Geografia Humanista – sua Trajetória de 1950 a 1990.


Dissertação (Mestrado em Geografia). Rio de Janeiro, UFRJ, 1990.

MELLO, João Baptista Ferreira de. O Rio de Janeiro dos Compositores da Música
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(Mestrado em Geografia), UFRJ, 1991.

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NOGUEIRA DA SILVA, Regina Celly. As Singularidades do Bairro na Realização da


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Cidade de João Pessoa – PB. Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) – Faculdade
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SACARLATO. Francisco Capuano. O Real e o Imaginário no Bexiga: autofagia e


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