Você está na página 1de 187

Capa

IRENE FLUNSER PIMENTEL

A história da PIDE

Badana da Capa

Irene Flunser Pimentel é licenciada em História pela Faculdade de Letras da


Universidade de Lisboa, mestre em História Contemporânea (Século XX) e doutorada
em História Institucional e Política Contemporânea, pela Faculdade de Ciências Sociais
e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Elaborou diversos estudos sobre o Estado
Novo, o período da II Guerra Mundial, a situação das mulheres e a polícia política
durante a ditadura de Salazar e Caetano.
É investigadora do Instituto de História Contemporânea (FCSH da UNL), autora do
livro História das Organizações Femininas do Estado Novo (Círculo de Leitores, 2000,
e Temas & Debates, 2001), dos textos relativos a Portugal da obra Contai aos Vossos
Filhos. Um Livro sobre o Holocausto na Europa, 1933-1945 (Gótica, 2000), da
Fotobiografia de Manuel Gonçalves Cerejeira (Círculo de Leitores, 2002), de Judeus em
Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. Em Fuga de Hitler e do Holocausto
(Esfera dos Livros, 2006), e Vítimas de Salazar. Estado Novo e Violência Política
(Esfera dos Livros, 2007), em co-autoria com João Madeira e Luís Farinha. No prelo
encontra-se o livro Um País de Refúgio. Os Refugiados em Portugal. 1933-1945 (a sair
na Alemanha).

Contracapa

Criada em 1945, a partir da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, 1933-


1945),
a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), que mudaria de nome para
Direcção Geral de Segurança (DGS) em 1969, foi a policia política do regime ditatorial
que vigorou em Portugal até 1974. Serviu, por um lado, para intimidar e, deste modo,
prevenir a contestação pública ao regime, bem como, por outro lado, para destruir toda a
oposição organizada contra o Estado Novo.

Na presente obra analisa-se a forma como á polícia política reprimiu, nos vários sectores
da sociedade portuguesa, todos aqueles que revelavam qualquer dissidência social,
política e até religiosa relativamente ao regime, tentando responder, entre outras, às
perguntas: como se estruturava e quais eram os seus métodos, desde a vigilância, à
captura, ao interrogatório, à investigação e à instrução dos processos? Quantos e quem
foram os detidos políticos? Como era a vida nas prisões da PIDE/DGS? De que forma
decorriam os julgamentos políticos nos tribunais plenários? E quais eram as relações
entre a polícia política e o aparelho judicial político?
Por fim, descreve-se de forma breve como a DGS soçobrou no dia 25 de Abril de 1974.

Um importante trabalho sobre a nossa história mais recente, a levar-nos aos calabouços
da PIDE, aos meandros do poder político e a um dos lados mais negros do Estado Novo.

Folha de rosto
A história da PIDE

IRENE FLUNSER PIMENTEL

Círculo de Leitores
Temas e debates

Ficha técnica

Autora: Irene Flunser Pimentel


Copyright © Círculo de Leitores, Temas e Debates e autora, 2007
Capa e design gráfico: Fernando Rochinha Diogo
Revisão: Fotocompográfica
Paginação e pré-impressão: Fotocompográfica
Impressão: Printer Portuguesa Ind. Gráfica
Casais de Mem Martins, Rio de Mouro
Impresso em Outubro de 2007
1 .a edição: Outubro de 2007
ISBN: 978-972-759-956-1
Edição (Círculo de Leitores): 7197
Depósito legal: 265 228/07
Reservados todos os direitos. Nos termos do Código do Direito de Autor, é
expressamente
proibida a reprodução total ou parcial desta obra por qualquer meio, incluindo a
fotocópia e o
tratamento informático, sem autorização expressa dos titulares dos direitos.

Dedico este trabalho a Maria Ângela Vidal e Campos e a Maria Fernanda de Paiva
Tomás,
que infelizmente já não se encontram entre nós.
Foram as duas mulheres que, durante mais tempo, permaneceram presas por razões
políticas pela PIDE.
No entanto, conseguiram guardar um espaço de liberdade interior, tanto no cárcere,
como num país com uma longuíssima ditadura.

SUMÁRIO

Introdução 11

Primeira parte

A INSTITUIÇÃO POLICIAL.
FUNÇÕES E RELAÇÕES COM O ESTADO
I. A PIDE/DGS. Poderes, funções e evolução (1945-1974) 24; II. Os funcionários da
PIDE/DGS: recrutamento, formação e disciplina 52; III. Relações da PIDE/DGS com o
Estado e a Igreja 73; IV A «Polícia Internacional» 102

Segunda parte
A PIDE/DGS E OS SEUS PRINCIPAIS ADVERSÁRIOS
V. A PIDE e o PCP no pós-guerra (1945-1957) 132; VI. Do «furacão Delgado» ao final
do regime. A PIDE/DGS e o PCP entre 1961 e 1974 159; VIL A extrema-esquerda e as
organizações de luta armada 186

Terceira parte

OUTROS ADVERSÁRIOS/VÍTIMAS DA PIDE/DGS


VIII. Tentativas de golpe militar e outros alvos políticos e religiosos 220;
IX. Alvos «sociais» 250; X. O outro lado da barricada: a luta contra a PIDE/DGS 278

Quarta parte

OS MÉTODOS DA PIDE/DGS
XI. A informação e os informadores 308; XII. Da vigilância à investigação 338; XIII. As
modalidades de tortura da PIDE/DGS 360; XIV. Mortos pela PIDE/DGS em Portugal
387

Quinta parte

DA PRISÃO AO JULGAMENTO
XV. As prisões políticas 414; XVI. A vida quotidiana nos cárceres e o comportamento
prisional 441; XVII. As medidas de segurança 459; XVIII. Os julgamentos, os tribunais
e a defesa dos presos políticos 476

Epílogo

XIX. A PIDE/DGS, as Forças Armadas e o MFA 498

Conclusões 520

Apêndices 537

Fontes e Bibliografia 543

Índice Onomástico 557

AGRADECIMENTOS

Este estudo sobre a polícia política do Estado Novo — PIDE/DGS —, entre 1945 e
1974, que constitui uma versão resumida e corrigida da dissertação de doutoramento em
História Contemporânea Institucional e Política defendida, em Janeiro de 2007, na
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, é em
primeiro lugar devedor à atenta e disponível orientação do Prof. Doutor Fernando
Rosas. Sem a partilha da sua sabedoria e o diálogo estimulante que aceitou travar, as
conclusões a que cheguei não teriam sido do mesmo teor.
Agradeço também a ajuda e a disponibilidade insubstituíveis do Prof. Doutor Bernardo
de Vasconcelos e Sousa e da Prof.a Doutora Miriam Halpern Pereira, directores do
Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo (IAN/TT), e, em especial, da Dr.a
Maria de Lourdes Henriques e de muitos outros funcionários e funcionárias que
possibilitaram a consulta de documentação do Arquivo da PIDE/DGS.
Estou igualmente muito grata à Dr.a Natércia Coimbra, do Centro 25 de Abril da
Universidade de Coimbra, ao Dr. Aniceto Afonso, do Tribunal Histórico Militar, à Dr.a
Isabel Hipólito, à Dr.a Paula Cristina Ucha e a D.a Angelina, do Arquivo Histórico do
Ministério da Administração Interna (MAI), bem como à Dr.a Leonor Sá, conservadora
do Arquivo Histórico da Polícia Judiciária, do Instituto Superior de Polícia Judiciária e
Ciências Criminais. Sem o seu profissionalismo e interesse em apoiar a investigação, as
condições adversas em que se encontram parte dos arquivos portugueses teriam tornado
mais difícil e até impossibilitado o acesso a determinadas fontes.
Não quero ainda deixar de manifestar a minha gratidão em primeiro lugar ao Dr. José
Barata, à Prof.a Doutora Maria de Fátima Bonifácio, que me aconselhou, à Prof.a
Doutora Maria Inácia Rezola, que foi fundamental, ao criar bases de dados para o meu
trabalho, à Dr.a Teresa Campos Rodrigues, que me ajudou em vários tarefas da
investigação, ao meu irmão, arquitecto Rui Flunser Pimentel, que fez vários quadros e
gráficos, aos meus jovens amigos, António Veiga, Francisco e Mariana Veiga, e ao Dr.
Nuno Brederode dos Santos, com o qual tive diversas conversas muito estimulantes e
elucidativas para a realização deste estudo. Com saudade, ao Miguel Medina.

10

Resta-me ainda agradecer o apoio, através de uma bolsa de investigação, por parte da
Fundação para a Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino
Superior. Agradeço também a todos os meus amigos e familiares, especialmente ao meu
pai, que já não está entre nós, e à minha mãe, bem como a muitos outros que não
nomeio porque são os primeiros a saber a quem eu me refiro, o apoio e o encorajamento
constantes, que atenuaram momentos de maior impaciência e cansaço que um trabalho
deste teor origina. Finalmente, uma palavra de agradecimento especial à Dr.a
Guilhermina Gomes, do Círculo de Leitores, que aceitou novamente publicar um estudo
de carácter académico, e cuja coragem editorial nunca é demais realçar.

Irene Flunser Pimentel

11

INTRODUÇÃO

Analisar a polícia política do Estado Novo e do marcelismo, entre 1945 a 1974, com o
objectivo mais amplo de caracterizar a repressão política exercida pelo regime de
António de Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano, é o propósito deste estudo. A Polícia
Internacional de Defesa do Estado (PIDE), criada em 1945 a partir da Polícia de
Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, 1933-1945), e a sua sucessora, Direcção-Geral
de Segurança (DGS), instituída em 1969, constituíram a polícia política desse regime,
cuja principal função era o combate aos «crimes políticos», considerados «contra a
segurança externa e interna do Estado».
Cabe, primeiro, esclarecer que a PIDE/DGS será aqui estudada enquanto instituição
especializada na informação, vigilância, investigação e, sobretudo, na repressão política.
Ora, a repressão política exerceu-se sobre determinados indivíduos, considerados como
os adversários do regime e, por isso, toda a análise será orientada para as «relações»
entre essa polícia e os membros da oposição ao Estado Novo, de carácter político, social
e religioso.
Dar-se-á particular atenção ao «relacionamento entre» a PIDE/DGS e o Partido
Comunista Português (PCP), principal alvo do «trabalho» da polícia política, até final
dos anos 60. Lembre-se que, por um lado, a repressão do PCP pela PIDE/DGS acabou
por moldar a acção ofensiva dessa polícia, que, na prática funcionou em função desse
partido. Pelo seu lado, a actividade defensiva e reactiva dos comunistas relativamente à
repressão da PIDE/DGS também enformou grande parte da acção do PCP. A partir do
final dos anos 60, surgiram no espectro político português, em parte com origem na
FAP/CMLP — cisão pró-chinesa ocorrida em 1964 no PCP —, a chamada extrema-
esquerda e os grupos vocacionados para a luta armada e, por isso, será também dada
atenção ao papel da PIDE/DGS relativamente a essas organizações, no período final do
regime.
É verdade que, a partir de 1961, uma das tarefas mais importantes da PIDE/DGS se
prendeu também com a luta contra os movimentos de libertação africanos e com a
informação de apoio às Forças Armadas no esforço de Guerra Colonial. Foi também a
partir de então que o quadro de funcionários dessa polícia nunca deixou de aumentar,
em particular em Angola, Moçambique e na Guiné, chegando mesmo a ter, em 1974,
mais efectivos nessas colónias do que na metrópole.

12

No entanto, por razões de delimitação do tema, apenas será analisada a acção dessa
polícia política no chamado território metropolitano, não sendo por isso aqui abordada a
actividade da PIDE/DGS nas colónias, nem a sua importante colaboração com as Forças
Armadas nos terrenos de guerra africanos, já objecto de estudo. Por outro lado, apenas
muito brevemente se referirão as funções da PIDE/DGS relativamente à vigilância das
fronteiras e dos estrangeiros, bem como à repressão à emigração clandestina e ao
engajamento. Também as funções dessa polícia relativas à segurança externa do Estado,
ou seja, às suas tarefas de «agência» secreta de informações, espionagem e contra--
espionagem, serão aqui abordadas apenas nos casos estritamente políticos. O período
cronológico em análise é um tempo longo, de modo a possibilitar a detecção da
evolução e das eventuais mudanças sofridas pela PIDE/DGS ao longo de quase trinta
anos. O limite inicial do trabalho é o final do ano de 1945 — fim da Segunda Guerra
Mundial e dos regimes nacional-socialista e fascista —, quando o Estado Novo se viu
obrigado a «mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma» e criou a PIDE, em
substituição da anterior PVDE. Quanto ao limite final do estudo, situa-se no ano de
1974, quando a DGS foi dissolvida, na sequência do golpe militar do Movimento das
Forças Armadas (MEA), a 25 de Abril.

1. Os arquivos da PIDE/DGS

Em termos de fontes, optou-se por recorrer sobretudo à documentação escrita, em


particular do arquivo da própria PIDE/DGS, razão pela qual se justifica relatar
brevemente a história deste. Com o golpe de Estado do MEA, em 25 de Abril de 1974, a
DGS foi imediatamente extinta na metrópole, embora o diploma da sua dissolução
especificasse que «no Ultramar, depois de saneada», seria reorganizada «em Polícia de
Informação Militar, nas províncias em que as operações militares o exigirem». Em 24
de Junho de 1974, foi criado o Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e da
Legião Portuguesa (SCE da PIDE/DGS e LP), à guarda do qual ficaram os arquivos
dessa polícia, e, dois dias depois, foi, por seu turno, instituída a comissão liquidatária
para a DGS.
Refira-se que, embora o desmantelamento da PIDE/DGS tenha sido enquadrado pelos
militares, a tarefa de análise da documentação coube a civis, que actuaram de acordo
com uma lógica partidária. Elementos de diversas forças políticas trataram dos dossiês
dos seus próprios militantes, embora, na prática, apenas o PCP dispusesse então de
estrutura, organização e funcionários em número suficiente para aproveitar o acesso aos
arquivos da PIDE/DGS (Nota 1). Mais polémico foi o facto de parte desses arquivos
terem sido entregues ao KGB, da ex-URSS, como foi revelado por elementos desse
antigo serviço soviético, nomeadamente Oleg Kaluguin, que os consultou em Moscovo,
no Verão de 1975. Igor Prelin, reconheceu, por seu turno, ter lido na Lubyanka, sede do
KGB (o serviço secreto soviético), uma parte dessa documentação da PIDE/DGS (Nota
2).

Nota 1 - Pedro Vieira, «O mistério dos arquivos voadores», in Visão, 6/10/1994, pp. 24-
27.
Nota 2 - Paula Serra, «O dossier negro dos arquivos da PIDE. Caça no Outubro
Vermelho», in Visão, n.° 84, 1994, pp. 37-42.

13

Por seu lado, Vasili Mitrokhine, que procedeu, no seio do KGB, à feitura da relação
dessa documentação, esclareceu que continha informação extremamente importante
sobre a estrutura, os métodos de trabalho e redes de agentes dos serviços especiais de
informações dos EUA, da França, da RFA e da Espanha em território português e
colonial (Nota 1).
Seja como for, em 5 de Dezembro de 1975, o SCE da PIDE/DGS e LP passou a
depender do Conselho da Revolução (CR). Depois, com a dissolução deste órgão, em
1982, o SCE foi colocado na dependência da Assembleia da República, que ordenou, no
início da década de 90, a transferência dos arquivos da PIDE/DGS para o IAN/TT.
Finalmente, em 25 de Abril de 1994, os arquivos começaram a poder ser consultados,
com algumas restrições.

2. Fontes e narrativa: problemas epistemológicos

A análise historiográfica de arquivos judiciários contém diversos perigos, pois não


deixam de apresentar um mundo aos bocados: por exemplo, sabe-se que a maioria dos
interrogatórios policiais são feitos de perguntas e respostas imprecisas, frequentemente
com lacunas, de parcelas, de frases e de pedaços de vida, cujo fio condutor é, na maior
parte do tempo, pouco visível (Nota 2). Por outro lado, o problema começa desde logo a
montante, com o próprio trabalho dos arquivistas, dado que os arquivos contemporâneos
estão sujeitos a duas figuras antitéticas e complementares: entre o «tudo guardar», ou
seja, o «todo transparente», e, por outro lado, o «tudo apagar, tudo fechar», num
movimento impeditivo de a comunidade nacional «se reapropriar do seu passado para
ganhar o seu futuro» (Nota 3).
Depois, quando o historiador inicia a fase «documentalista», procurando as suas fontes,
utiliza umas, dispensando outras, para depois as reinterpretar de forma singular. Por
outro lado, a ausência de fontes não representa em si uma prova: por exemplo, nunca se
encontrou uma ordem escrita a incitar à tortura, na guerra da Argélia, e, da mesma
forma, não há nenhum texto de Hitler a ordenar expressamente o desencadeamento da
«solução final», embora esta não deixasse de ter existido. O mesmo aconteceu com as
torturas infligidas pela PIDE/DGS, que esta polícia teve o cuidado de nunca mencionar
por escrito. Como quaisquer outras fontes, as fornecidas pelo arquivo da PlDE/DGS
devem ser, assim, manuseadas cuidadosamente e incessantemente cotejadas com outra
documentação informativa.
O facto de o conteúdo dos arquivos da PIDE/DGS se reportar a acontecimentos
recentes, ainda encarados de forma traumática por muitas pessoas vivas, tenham elas
sido «vítimas» ou «carrascos», também representa um perigo. Ao contrário da história
da Inquisição, por exemplo, a história da PIDE interfere ainda hoje com a vida das
pessoas atingidas e dos seus próximos descendentes.

Nota 1 - Christopher Andrew e Vasili Mitrokhine, O Arquivo Mitrokhine, O KGB na


Europa e no Ocidente, Publicações Dom Quixote, 2000, pp. 388-389.
Nota 2 - Arlette Farge, Le gout de L’archive, Paris, Seuil, 1989, pp. 81 e 146.
Nota 3 - Annette Wieviorka, «Entre transparence et oubli», in Le Débat, Paris, n.° 115,
Mai-Aôut, 2001, pp. 139 e 144.

14

Lembre-se que, por seu lado, os investigados/presos, de um modo geral, por razões
óbvias, procuravam fugir à investigação e à revelação de dados. Por outro lado, a polícia
omitia ou falsificava, nos seus relatórios, factos e objectos da sua investigação, escondia
os métodos «ilegais» de pressão e tortura utilizados e mentia, para obter condenações
nos tribunais, apesar da ausência de provas. Além disso, era a própria polícia que
elaborava os «autos de perguntas», com fragmentos retirados de vários sítios, e depois
os dava a assinar a presos sujeitos à tortura.
O estudo sobre uma organização policial também parece, à primeira vista, estar
facilitado, na medida em que a «investigação», feita pela própria polícia, já surge
anteriormente à pesquisa do investigador. Mas a PIDE foi uma organização secreta,
inserida no processo de justiça política de um regime não democrático e ao serviço da
manutenção da ideologia deste, cuja missão era desmantelar as organizações de
ideologia oposta, através de meios ilegais.
A ideologia está, assim, sempre presente de ambos os lados — «carrascos» e «vítimas»
—, somando-se à própria ideologia do investigador. Por outro lado, a neutralidade, para
a qual deve tender o historiador, ciente de que nunca a atingirá absolutamente, não deve
fazê-lo esquecer que analisar a PIDE/DGS é estudar um microcosmo em que
funcionavam, numa situação-limite dramática e radicalmente desigual, os agentes da
polícia e os que ela detinha e interrogava.
A escrita da história não é neutra. A história é, como diz Paul Ricoeur, uma narrativa
construída para validar hipóteses, que não se limita a enumerar eventos, mas tem de «os
organizar de forma inteligível», através da criação de um enredo («mise en intrigue»)
(Nota 1). Neste estudo da PIDE/DGS, procurou-se estabelecer como principais
«personagens», quer os elementos dessa polícia, quer os militantes, funcionários e
dirigentes do PCP, bem como os da extrema-esquerda e das organizações de luta
armada. O «enredo» é a actuação dos primeiros contra os segundos e os meios de defesa
destes contra aqueles, bem como as consequências e efeitos (perversos ou não) dessa
acção. Mas esse enredo e essa narrativa são modelados pela forma como se pensa sobre
uns e outros, a qual não deixa de ser «moral», embora tudo se tente fazer para
compreender os motivos de todos os «personagens» e para tentar abarcar um máximo de
significado possível da acção de uns e outros.
Analisar a PIDE/DGS através dos seus arquivos é investigar a história contemporânea
muito recente e, por isso, apresenta diversos perigos. E há, por exemplo, o problema, na
história do passado recente, ocasionado pelo facto de o investigador estar confrontado
com um tempo truncado do seu futuro, dado que, por vezes, não conhece o destino
temporal dos factos estudados, cujo sentido se revela habitualmente a posteriori (Nota
2).

Nota 1 - Joel Guibert e Guy Jumel, La Socio-histoire, Paris, Armand Colin, 2002, pp.
128-130 e 145.
Nota 2 - François Bedarida, «La mémoire contre l'histoire», in Esprit, n.° 7, Juillet,
1993, «Le poids de la mémoire»; Pierra Nora, «La loi de la mémoire», in Le Débat,
1994, «Mémoires comparées»; Henry Rousso, La hantise du passe, conversations pour
demain, entretien avec Philippe Petit, Paris, Les Editions Textuel, 1998.

15

Este problema, porém, não se coloca no estudo da PIDE/DGS, dado que o golpe de
Estado de 25 de Abril de 1974 e a subsequente extinção da polícia política
representaram um efectivo corte cronológico, ao colocar um ponto final na existência
dessa instituição policial. «Fazer» a história do passado recente implica também um
confronto com regras arquivísticas que não possibilitam a consulta de todas as fontes,
muitas das quais nunca poderão ser disponibilizadas, ou apenas o serão ao fim de um
certo período. Para não falar do facto de os arquivos da PIDE/DGS terem visto a sua
integridade abalada e de chegarem «expurgados» à mesa do investigador.
Alguns dos perigos da história do tempo presente podem, porém, ser revertidos em
vantagens para a investigação: é o caso da profusão de arquivos que colmatam a
ausência dos que foram esbulhados ou não podem ser consultados. Não é, na verdade, a
dificuldade provocada pela falta de fontes que impera, mas sim a vantagem/armadilha
que representa a sobreabundância das mesmas, que ora encantam o investigador,
contribuindo para refrear a vigilância, ora o confundem pelo excesso de informações e
pelas dificuldades em descodificar a sua linguagem legal hermética (Nota 1).
Além disso, na história do contemporâneo próximo, há muitas outras fontes,
nomeadamente as provenientes de testemunhas que viveram os acontecimentos. Embora
se tenha feito recurso a depoimentos e testemunhos escritos, quer de ex-presos políticos,
quer de ex-elementos da PIDE/ /DGS, optou-se, porém, por não utilizar a chamada
história oral. Não só porque se podia contar com a já referida profusão de fontes e com
muitos testemunhos escritos, como, sobretudo, porque se encontrou dificuldades em
entrevistar, paralelamente aos ex-presos políticos e opositores ao regime alvo da
PIDE/DGS, um número suficiente de ex-elementos desta polícia, que se revelaram
indisponíveis.
Mas, além destes factores, houve outros, de carácter heurístico. Embora a história seja
um inquérito quase policial, dado que analisa indícios e ouve testemunhas, o
depoimento oral não constitui necessariamente uma prova, mesmo que possa contribuir
para esta. Acresce que esse tipo de depoimento é dado num tempo diferente daquele em
que o actor viveu o acontecimento e não garante, assim, o carácter presente dos eventos.
Tal como a informação proveniente da imprensa, o testemunho oral não é o simples
reflexo da opinião, mas o resultado de uma mediação.
Por outro lado, o testemunho oral é «provocado» pelo historiador, que, ao interrogar a
testemunha, constrói a sua própria fonte, utilizando-a à maneira de um produtor. Ao
questionar a testemunha, o historiador fá-lo em função de um saber prévio, de uma
narrativa de eventos que ele já construiu de antemão, mas que o depoente desconhece.
Se há uma contemporaneidade entre o historiador e a testemunha, há também uma
distância temporal entre a acção relatada por esta e o tempo em que o testemunho é
dado. Por isso, o investigador da história contemporânea próxima cria, entre ele e a
testemunha, uma mediação, construída através da perspectivação crítica do testemunho
(Nota 2).

Nota 1 - Questions aux sources du temps présent, sous la responsabilité de A. Chaveau


et Philippe Tétard, Paris, Ed. Complexe (Questions au XXème siècle), 1992.
Nota 2 - Robert Frank, in idem, ibidem, pp. 111-123.

16

É certo também que as fontes escritas não deixam de ser construídas, mas diferem das
fontes orais, pois não são destinadas ao historiador: este não é o destinatário nem o autor
da fonte escrita quando, por exemplo, o director da PIDE escreve ao ministro do Interior
ou a Salazar. Por outro lado, a narrativa do «vivido» coloca ainda um problema de
escrita, pois o historiador não deixa de escolher as palavras para fazer ouvir a
testemunha. De certa forma, ao citar, o historiador estabelece-se em saber do outro e,
nesse sentido, priva a testemunha da sua própria palavra (Nota 1).
A sua maneira, a memória de uma testemunha dá conta das transformações socio-
históricas à escala de uma vida, mas tem as suas próprias imperfeições, pois é selectiva.
Tanto embeleza, como recalca e censura, pois é condicionada pelo esquecimento, pela
transformação e pela selecção das lembranças (Nota 2). E um facto, porém, que a
memória da testemunha é uma fonte, por vezes insubstituível, ao dar o ambiente e o
contexto de uma época, mas também é geradora de erros e de mitos, que cabe ao
historiador corrigir e desmistificar. Mas, quando se trata de estabelecer factos cinquenta
anos depois, são os documentos da época que marcam a diferença (Nota 3).

3. Memória e história. Estudar a PIDE/DGS trinta anos depois

O historiador francês Henry Rousso, que estudou a memória (chamou-lhe «a


síndroma») do regime de Vichy, assinalou quatro fases nesse processo: uma primeira, de
«luto inacabado», em que coexistiram duas memórias, ambas mistificadoras e
mitificadas — a gaullista e a comunista —; uma segunda, de negação e recalcamento,
tanto da derrota francesa como do regime de Vichy e do seu anti-semitismo; uma
terceira, marcada pelo levantamento progressivo dos recalcamentos anteriores e,
finalmente, uma quarta fase, caracterizada pela obsessão com que os temas recalcados
foram debatidos e tomaram uma dimensão exagerada. Ora, esta fase marcada pelo
«excesso de passado» (Nota 4) contribui, tal como a «insuficiência» de memória, para o
desenvolvimento de uma memória patológica, como observou o filósofo Paul Ricoeur.
Ao longo do período de trinta anos de democracia, a memória da ditadura portuguesa e
dos seus instrumentos tem sofrido mudanças. Logo após o 25 de Abril, quando surgiu na
imprensa muita informação acerca da ditadura, um jornalista profetizou que, «se algum
dia vier a ser publicada», a história da PIDE/DGS «causará náuseas e assombro,
vergonha e desprezo, asco e mal-estar» (Nota 5). O certo é que se atenuaram entretanto
os fortes sentimentos de há trinta em causa — a PIDE/DGS -, continue de certo modo a
existir tanto um excesso de memória, por parte de uns, como uma insuficiência de
memória, por parte de outros.

Nota 1 - Antoine Prost, «L'historien, le juge, le témoin et l’accusé», in Le génocide des


juifs entre procès et histoires: 1943-2000, Paris, Complexe, 2000, pp. 292-295 e 299-
300.
Nota 2 - Joel Guibert e Guy Jumel, La Socio-histoire, Paris, Armand Colin, 2002, pp.
128-130 e 145.
Nota 3 - Jean-Pierre Azéma e Georges Kiejman, «L’Histoire au Tribunal», in Le Débat,
n.° 102, Novembre-Décembre, 1998, p. 49.
Nota 4 - Eric Conan e Henry Rousso, Vichy, um passe qui ne passe pas, Paris,
Gallimard («Folio Histoire»), 1994, pp. 19, 23, 28, 161, 183, 401, 406, 411, 413, 416 e
421-423; Henry Rousso, La hantise du passe, entretien avec Philippe Petit, Paris, Les
Éditions Textuel, 1998, pp. 15-17 e 45; Henri Rousso, Pour une historie de la mémoire
collective..., pp. 249 e 251.
Nota 5 - Viriato Ruas, «Dossier PIDE?», parte 1, in Século Ilustrado, cit. p. 9, por
Fernando Luso Soares, PIDE/DGS: Um Estado dentro do Estado, Portugália Editora
(Instituições do Fascismo), s.d., p. 9.

17

Em Portugal, devido à forma como caiu a ditadura e à crise do Estado que se


desencadeou na fase inicial da transição para a democracia, houve uma tentativa de
ajuste de contas, nomeadamente com o aparelho repressor do antigo regime, da parte
das oposições a este. Essa primeira fase, em que a ditadura ainda estava muito presente,
foi caracterizada pelo estilhaçar violento do «espelho». No entanto, posteriormente,
devido às clivagens políticas do Verão Quente de 1975, caiu um certo — embora nunca
total — silêncio sobre o que tinha sido a ditadura, em proveito das lutas partidárias
então em presença.
Depois, no decurso dos anos 80, houve assim um segundo período, marcado por um
certo recalcamento da memória da ditadura. No entanto, a partir da abertura à consulta
dos arquivos da PIDE/DGS, tem havido, nos últimos dez anos, um levantamento
progressivo dos recalcamentos, muito devido ao trabalho historiográfico. Através de um
processo por vezes entrecortado por acessos esporádicos de memória, reveladores de
que o passado tem relutância por vezes em «passar», parece que se está a viver hoje em
Portugal um novo período, marcado pela feitura da história dessa época, contribuindo,
esta, para que haja uma «boa» memória» relativamente ao tema.
Uma das questões que se colocam, em qualquer investigação histórica, é a da empatia
do investigador com o seu objecto de estudo, uma vez que, ao analisar qualquer situação
humana, este tem de se tentar colocar no lugar do outro, na forma de pensar ou de sentir
do outro, para a tentar interpretar, compreender e narrar. Ora, alguns autores consideram
que a tentativa de compreensão, «de forma empática», dos protagonistas só se deveria
colocar relativamente às vítimas, dado que compreender os carrascos poderia facilmente
descambar numa desculpa dos seus actos. O historiador Christopher Browning propôs-
se, pelo contrário, fazer a história dos «perpetradores» ou «carrascos» do regime nazi e
sentiu a obrigação de recusar «demonizá-los», e de «empatizar» com eles, para tentar
compreender e explicar os seus motivos, o que não é a mesma coisa que perdoar e
desculpar. O reconhecimento de que os criminosos são seres humanos — e não
«monstros», diferentes de todos os outros seres humanos — torna desejável a tentativa
de empatizar, mesmo se isso acarreta terríveis conclusões, entre as quais a de que
elementos da espécie humana, em determinada situação, são capazes de cometer as
maiores monstruosidades (Nota 1).
Se compreender não é perdoar e se a empatia não é a mesma coisa que a simpatia,
estudar a PIDE/DGS implica tentar apreender os motivos e comportamentos dos seus
elementos. Ao analisar-se a PIDE/DGS deve-se tentar escapar tanto ao refúgio numa
aparente neutralidade, como ao envolvimento total e principal com as vítimas.

Nota 1 - Christopher Browning, Ordinary Men, Londres, Penguin Books, 2001.

18

Deve-se também fugir à tentação de se proceder como um polícia ou um juiz, mesmo se


os processos de investigação do historiador se assemelham aos do detective ou do
magistrado em juízo (Nota 1).
O processo em tribunal é, por assim dizer, o único caso de «experimentação
historiográfica», mas «não é uma lição da história». Enquanto os juízes têm de provar os
«factos» e de chegar a uma conclusão, os historiadores podem dar-se ao luxo de
concluir consoante a «preponderância da prova», mas nunca de forma categórica (Nota
2). A justiça tenta saber se um indivíduo é culpado ou inocente, enquanto a história é um
processo de conhecimento e elucidação de encadeamentos plausíveis, mas sem
capacidades probatórias, persuasivas e condenatórias.
Por outro lado, a justiça vai do geral ao particular, enquanto a história faz o contrário,
porque parte do singular para apreender o quadro geral de conjunto, elaborando um
contexto com valor hipotético, construído a partir da generalidade de casos particulares
analisados (Nota 3). Quer pela metodologia utilizada, quer pelos fins que pretende
atingir — compreender, interpretar, mas não julgar —, o historiador não tem o objectivo
de defender valores, a não ser o «valor em si» que constitui a própria escrita de uma
história capaz de restituir o máximo da substância complexa do passado. Esse «valor em
si» da história só supera, porém, o positivismo estreito se contém a valoração que o
historiador, com os seus valores, lhe imprime, dando algum sentido ao que escreve.

4. A PIDE/DGS NA HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA DO ESTADO NOVO

Num dos primeiros trabalhos académicos de caracterização do Estado Novo, escrito em


1968, Hermínio Martins observou que, em Portugal, a polícia política se foi
transformando, com o tempo, num aparelho «de notável eficiência, fortalecido por uma
rede de informadores muito vasta». Neste trabalho, marcado pela data em que foi
realizado, em que recorreu à teoria do «totalitarismo», o autor discutiu um conceito que
era também frequentemente utilizado, na época: o de «coeficiente óptimo de terror», ou
de «economia do terror».
Ao comparar o caso português com o totalitarismo nazi, Martins lembrou que pode
«haver um coeficiente óptimo de terror que interesse à totalidade da população sem que
seja necessário recorrer a um extermínio em larga escala, mas evidenciando e
propagandeando ao máximo, com crueldade, a realidade desta situação».

Nota 1 - Carlo Ginzburg, «Le juge et 1'historien», in L’Histoire aujourd'hui, coord.


Jean-CIaude Ruano-Borbalan, Paris, Éditions Sciences Humaines, pp. 39, 40 e 44.
Nota 2 - «Les historiens et le travail de mémoire. Les roles respectifs du juge et de
l’historien», in Esprit, n.° 8/9, Aôut-Septembre, 2000; Christopher R. Browning,
«German, Memory, Judicial Interrogation, Historical Reconstruction», in Probing the
Limits of Representation. Nazism and the «Final Solution», ed. Saul Friedlander,
Harvard University Press, 1992, pp. 27 e30.
Nota 3 - Yan Thomas, «La vérité, le temps, le juge et 1'historien», in Le Débat, n.° 102,
Novembre-Décembre, 1998, pp. 21, 27, 29, 33 e 35; Michael Wildt, «Des vérités qui
diffèrent. Historiens et procureurs face aux crimes nazis», in Le génocide des juifs entre
procès et histoires: in 1943-2000, Paris, éd. Complexe, 2000, pp. 281 e 286.

19

Ora, «o regime português conseguiu um resultado óptimo deste género: com um número
exíguo de assassínios políticos e prisões». (Nota 1) Noutro estudo, sobre «A oposição
em Portugal», de 1969, Hermínio Martins voltou a considerar que o sistema político de
Marcelo Caetano continuava a caracterizar-se «por um nível relativamente baixo de
violência política» e a revelar «um elevado grau de racionalidade política nesta esfera,
tentando alcançar um óptimo de terror, e não um cru máximo de terror», evitando,
assim, os ardis do terror e do contra-terror (Nota 2).
Num livro editado em 1976, onde considerou o Estado Novo um regime «assaz
despótico» e «autoritário» mas não «totalitário» no domínio político, Manuel de Lucena
observou que «o pai (Salazar)» se fartou de «castigar», mas fê-lo «sem extremismo», e
que «o verdadeiro terror é desconhecido em Portugal, na metrópole entenda-se». Para
Lucena, que aliás não menosprezou o carácter «sinistro» da repressão política
portuguesa, embora sistemática, esta era «comedida e racional, no sentido de bem
proporcionada às necessidades e aos fins» e, por isso, diferente do que acontecia na
Alemanha de Hitler ou mesmo na Espanha franquista (Nota 3).
Para caracterizar o aparelho policial e judicial do Estado Novo, Hermínio Martins
utilizou o conceito de «sistema justiça política» (Nota 4), depois retomado por Manuel
Braga da Cruz, num estudo publicado em 1988. Segundo este autor, o regime salazarista
«criou aquilo a que podemos chamar sistema de justiça política, como justiça paralela,
dependente aliás no fundamental, e quase sempre, não já do Ministério da Justiça, mas
do Ministério do Interior», cujo principal meio era a polícia política. Braga da Cruz
observou que foi «uma repressão ditatorial muito mais do que uma repressão
totalitária», «selectiva, estratificada e dissuasora» em termos sociais. Ou seja, não foi
«uma repressão de massas, limitando-se a atingir opositores», tão mais duramente
quanto maior e mais diametralmente oposta fosse essa contraposição (Nota 5).
O primeiro trabalho exclusivamente sobre a polícia política, abrangendo o período entre
1928 e 1945, foi realizado por Maria da Conceição Ribeiro. Ao definir a PVDE mais
como «uma arma preventiva», através de uma imagem de omnipresença e omnisciência,
a autora afirmou que essa polícia foi uma «poderosa força dissuasora de ulteriores
«desvios» à mentalidade e ao comportamento que se pretendia incutir nos cidadãos». Só
quando se revelava ineficaz a sua «capacidade "persuasiva" e "educadora"», é que essa
polícia intervinha, em último recurso, «de forma punitiva, castigando o que era
considerado "prevaricador", desencorajando possíveis veleidades de outros actos de
desobediência, instalando o medo e convidando ao silêncio e à resignação» (Nota 6).

Nota 1 - Hermínio Martins, «O Estado Novo», in Classe, Status e Poder, ICS, 1998, pp.
42-45.
Nota 2 - Hermínio Martins, «A oposição em Portugal», in Classe, Status e Poder, p. 68.
Nota 3 - Manuel de Lucena, A Evolução do Sistema Corporativo Português, volume i: O
Salazarismo, Lisboa, Perspectivas e Realidades, 1976, pp. 112, 113, 121 e 145-146.
Nota 4 - Günter Grass, Crabwalk, Londres, Faber and Faber, trad. Krishna Winston,
2002, p. 45. Esta expressão foi utilizada, desde o pós-guerra, pelo professor de Direito,
Friedrich Grimm, que editou um livro célebre, Political Justice: The Blight of our Era.
Nota 5 - Manuel Braga da Cruz, O Partido e o Estado no Salazarismo, Lisboa, Editorial
Presença,
pp. 84-96.
Nota 6 - Maria da Conceição Ribeiro, A Polícia Política do Estado Novo: 1926-1974,
Lisboa,
Editorial Estampa, 1995, pp. 78, 196, 197, 250, 254 e 273.

20

Ao considerar a polícia política portuguesa como um «elemento central de um sistema


repressivo» de «justiça política», no qual se articulavam, além da polícia política — «a
espinha dorsal do sistema» —, as prisões especiais, os tribunais especiais, as medidas de
segurança e o saneamento político, Fernando Rosas afirmou que se pode falar do Estado
Novo como um regime de «natureza claramente policial» (Nota 1). Num ensaio onde se
propôs encontrar as causas da longevidade do regime salazarista, Fernando Rosas
considerou a repressão policial, como «um factor decisivo da conservação do Estado
Novo e do silenciamento, intimidação e liquidação dos seus oponentes». Para esse
historiador, a PIDE actuou, porém, «como complemento, como segunda linha de uma
outra repressão menos visível mas mais eficaz» que «apostava na desmobilização
cívica, no medo, na subserviência, na intimidação generalizada». Segundo Rosas, «a
censura, a Igreja católica, os caciques locais, os professores primários e liceais
arregimentados, etc., foram instrumentos de opressão e de intimidação que precederam
e frequentemente dispensaram os bons ofícios da polícia política e da repressão política
strictu sensu» (Nota 2).
Evelyne Monteiro concluiu que a política criminal, sob Salazar, reenviava a um modelo
de Estado autoritário e não totalitário, onde se mantinha a referência à legalidade. Face a
esse argumento, observe-se que, embora se concorde que o regime ditatorial português
não teve um carácter totalitário — e para a discussão desse carácter do regime, remeto
para a conclusão de outro livro meu (Nota 3) —, a questão da «legalidade», em
Portugal, tem muito que se lhe diga, como se verá mais tarde.
Mas, ao considerar a política criminal do regime salazarista como sendo de tipo
autoritário, Monteiro assinalou também, nela, uma «deriva totalitária», manifesta «na
preeminência do poder executivo e no facto de este colocar sob sua tutela a autoridade
judicial».

Nota 1 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», in História de Portugal, dir. José Mattoso,
vol. vil, Lisboa, Círculo de Leitores, pp. 275-278.
Nota 2 - Fernando Rosas, «Salazar e o salazarismo: Um caso de longevidade política»,
in AAW, Salazar e o Salazarismo, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1989, pp. 23-31.
Nota 3 - Irene Flunser Pimentel, História das Organizações Femininas do Estado Novo,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2000. Neste livro se dizia que, em Portugal, houve um
regime «tirânico» e não um regime «totalitário», porque o «Estado Novo atirou os
indivíduos para o "isolamento", no que se refere à esfera política, e não para a
"desolação" (termo de Hannah Arendt), que remete para a esfera das relações humanas,
sociais e privadas» e porque «os portugueses mantiveram um grau de pertença a outras
instâncias, quer à família, quer à Igreja, instituições intermédias entre o indivíduo e o
Estado, que continuaram a funcionar cora grande autonomia e capacidade de iniciativa».
Salazar erigiu como seus adversários e suas principais vítimas os seus opositores
políticos, «portanto em função das suas acções e pensamentos". Acções e pensamentos
que continuaram a subsistir, na intimidade individual. Mesmo ao perderem a liberdade
de expressão, de actuação e até a liberdade física, os adversários políticos do
salazarismo mantiveram, contra a vontade do ditador, a esfera da sua vida privada
intocável e um pensamento próprio, além de não lhes terem sido retirados nem a
nacionalidade nem a vida (biológica), como aconteceu na Alemanha "nazi" aos
considerados "biologicamente inferiores". [...] Caiu sobre os portugueses a tirania, mas
não se abateu indiscriminada e arbitrariamente sobre eles o "terror total", que segundo
Hannah Arendt, constituiria a própria natureza do "totalitarismo"».

21

Ao comparar a justiça política do Estado Novo com a do regime de Vichy, Evelyne


Monteiro mostrou que estes dois regimes cederam à tentação de consagrar o raciocínio
«analógico». Ora, ao tratar-se de uma «incriminação elástica», este raciocínio «cheira a
nazismo e totalitarismo». Ou seja, nesse sector, a política criminal portuguesa ter-se-ia
aproximado da política criminal totalitária, segundo a qual «toda a forma de
dissidência» se confundia com a delinquência, «para dar lugar a diversas práticas de
prevenção, repressão e eliminação», desenvolvidas «à margem das leis e de todo o
controlo da autoridade judicial» (Nota 1).
Destaque-se ainda, muito recentemente, o estudo de Dalila Cabrita Mateus acerca da
PIDE/DGS nos três teatros da Guerra Colonial, no período entre 1961 e 1974. Ao
debater a questão da qualidade do trabalho da polícia política em Angola, Moçambique
e na Guiné, a autora afirmou que esta revelou «uma organização muito experimentada e
com uma enorme eficácia», sobretudo tendo em conta os seus efectivos e a fraca
instrução destes, apenas com a 4.a classe do ensino primário. Dalila Mateus demonstrou
que a PIDE/DGS colaborou «estreitamente com as Forças Armadas, fornecendo-lhes
informações, realizando operações ou, pura e simplesmente, reprimindo de forma
massiva e indiscriminada os africanos», concluindo que ela teve um papel de grande
relevo na Guerra Colonial. Esta autora observou, porém, que, ao contrário da metrópole,
onde a PIDE/DGS era temida mas desprezada, em Africa, os colonos e muitos militares
eram, na sua maioria, favoráveis à polícia política (Nota 2).

5. Plano do estudo

O carácter preventivo, repressivo, selectivo ou massivo, ou a questão da eficácia ou não


da PIDE/DGS serão, de seguida, abordados neste estudo, que está dividido em cinco
partes. A primeira parte, dedicada à análise da instituição policial, das suas funções e
relações com o Estado, começa com uma história «legal» da PIDE (1945-1969) e da
DGS (1969-1974), bem como da sua estrutura dirigente. Esta parte do trabalho
terminará com uma abordagem de outra das grandes funções da PIDE/DGS: ou seja, a
sua função de «polícia internacional», com tarefas de vigilância das fronteiras e
estrangeiros, da repressão à emigração clandestina, bem como do seu relacionamento
com polícias e serviços secretos de outros países.
Partindo da hipótese inicial de que a PIDE serviu, por um lado, para intimidar e, deste
modo, prevenir a contestação pública ao regime e, por outro lado, para destruir toda a
oposição organizada contra o Estado Novo, dar-se-á um papel central às relações entre a
polícia política e os militantes das organizações da oposição. A segunda parte é dedicada
à forma como a PIDE/DGS lidou com os seus principais adversários/vítimas: o PCP, até
ao final da década de 60, e, depois, os grupos de extrema-esquerda e de luta armada.

Nota 1 - Evelyne Monteiro, «La politique criminelle sous Salazar: approche


comparative du modèle d'État autoritaire», in Archives de politique criminelle, n.° 20,
1998.
Nota 2 - Dalila Cabrita Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial: 1961-1974, Lisboa,
Terra-mar (col. Arquivos do Século XX), 2004, pp. 394-397 e 420.

22

A vigilância da PIDE/DGS não poupava ninguém, dos monárquicos a elementos das


Forças Armadas, passando pelos católicos, mas sobretudo todos aqueles que revelavam
uma qualquer dissidência social, política e até religiosa em relação ao regime ditatorial.
E isso que será analisado na terceira parte do trabalho, que começará por abordar a
forma como a PIDE/ /DGS lidou com as tentativas fracassadas de golpe militar e com
outros alvos políticos, religiosos e «sociais». Dedicado ao «outro lado da barricada», ou
ao «outro lado do espelho», o final desta parte aborda ainda as formas de luta contra a
PIDE/DGS, quer por parte do PCP e da extrema-esquerda, quer por parte da «opinião
pública».
Na quarta parte procurar-se-á ver que métodos «eram utilizados pela PIDE/DGS nas
várias fases do processo repressivo: a informação, a vigilância, a captura, o
interrogatório, a investigação e a instrução dos processos. A PIDE/DGS estava,
basicamente, estruturada em dois grandes sectores: o da informação e o da investigação.
Era, por um lado, no importante serviço de informação que funcionavam as redes de
informadores, bem como a escuta telefónica e a intercepção e apreensão de
correspondência. Após a vigilância e a detenção, decorriam os interrogatórios, onde
eram utilizados métodos de coação física e psicológica, a cargo do serviço de
investigação, que instruía os processo-crimes. Embora de forma excepcional, estes
métodos resultaram, por vezes, na morte dos presos, aspecto que será abordado num
capítulo à parte.
A quinta e última parte do trabalho tratará do processo que decorria após a «instrução do
processo», ou seja, a vida nas prisões privativas da PIDE/DGS — onde era cumprida a
detenção sem culpa formada ou preventiva, mas também, em certos casos, onde os
detidos políticos cumpriam as penas a que eram condenados pelos tribunais plenários.
Começando por ver quantas pessoas a PIDE/DGS prendeu, ao longo do período em
estudo, tenta-se responder à pergunta central: quantos e quem foram os detidos
políticos? Segue-se uma análise sobre as prisões políticas da PIDE/ /DGS e o quotidiano
dos presos mas também acerca dos dois poderes principais da polícia política — a
prisão preventiva e a medida de segurança de internamento. Esta quinta parte terminará
com um estudo das relações entre a polícia política e o aparelho judicial político e, antes
de serem apresentadas as conclusões, com uma breve descrição da forma como a DGS
soçobrou, no dia 25 de Abril de 1974.

PRIMEIRA PARTE
A INSTITUIÇÃO POLICIAL.
FUNÇÕES E RELAÇÕES COM O ESTADO

24
I.
A PIDE/DGS. PODERES, FUNÇÕES E EVOLUÇÃO (1945-1974)

A polícia política do Estado Novo agiu a coberto da legalidade (Nota 1), por isso se
analisará neste capítulo a definição jurídica da PIDE/DGS e da forma como ela se
manteve numa «legalidade» aparente e na «ilegalidade» permanente. Começar-se-á com
uma breve incursão pelo período anterior ao da criação da PIDE, em que será referida a
história da sua antecessora, a PVDE (1933-1945), e, para efeitos comparativos, abordar-
se-ão alguns modelos policiais estrangeiros de ditaduras existentes no período entre as
duas guerras. Tentar-se-á, depois, fazer a história «legal» da PIDE (1945-1969) e da
DGS (1969-1974), para tentar captar as ideias subjacentes à sua concepção jurídica
inicial, verificar os seus poderes, definir as suas funções e traçar a sua evolução no
decurso do longo período entre 1945 e o 25 de Abril de 1974.

I.1. A Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) [1933-1945]:


A LEGISLAÇÃO

Após o golpe de 28 de Maio de 1926, na sequência do qual foi instituída uma Ditadura
Militar, foram criadas, ainda nesse ano e no seguinte, a Polícia de Informações (PI) de
Lisboa e a Polícia de Informações do Porto, As duas foram unificadas, em 17 de Março
de 1928, na Polícia de Informações do Ministério do Interior (PIMI), com a função
principal de reprimir os «crimes sociais» — o termo «social» substituía então
frequentemente o termo «político» — e coadjuvar o governo nos assuntos policiais de
carácter internacional.
No período entre 1930 e 1932, marcado pela instabilidade político-militar resultante
quer das conspirações militares contra a ditadura, quer das dissensões que se
manifestaram no seio do bloco político-militar apoiante do regime saído do movimento
de 28 de Maio, houve protestos contra as violências da PIMI — nomeadamente em
1931 —, que mudou de nome, passando a chamar-se Polícia Internacional Portuguesa
(PIP). Inicialmente sob tutela do Ministério da Justiça e Cultos, a PIP passou, em 30 de
Julho desse ano, para a do Ministério do Interior, enquanto repartição autónoma com
funções de polícia de estrangeiros, combate à espionagem e repressão do comunismo
(entendido como uma quinta coluna estrangeira).

Nota 1 - Artur Costa, «O julgamento da PIDE/DGS e o direito à memória», in De


Pinochett a Timor Lorosae: Impunidade e Direito a Memória, 2000, p. 46.

25

No ano seguinte, de 1932, em que António de Oliveira Salazar foi nomeado presidente
do Conselho de Ministros, o novo ministro do Interior do seu governo, Albino dos Reis
(1932-1933), criou a Polícia de Defesa Política e Social (PDPS), com o objectivo de
reprimir os desvios «políticos e sociais» a nível interno. Com a demissão desse ministro,
demitiu-se também o director da PDPS, cujo pessoal passaria posteriormente para a
PVDE (Nota 1).

1.1.1. Oliveira Salazar e a violência política

António de Oliveira Salazar caracterizou desde logo o que viria a ser o seu novo regime
— o Estado Novo, institucionalizado, em 1933, com o plebiscito de uma nova
Constituição —, reconhecendo que ele se assemelhava ao fascismo italiano, entre outros
factores, «no reforço da autoridade». (Nota 2) Numa das entrevistas dadas, em 1932, a
António Ferro, Salazar esclareceu, no entanto, que a «violência» fascista não se
adaptava à «brandura dos costumes» portugueses e que o Estado Novo não podia fugir
«a certas limitações de ordem moral», que tornavam as leis portuguesas «menos
severas», os «costumes menos policiados» e o Estado «menos absoluto».
A uma pergunta sobre possíveis maus tratos que estariam a ser exercidos pela polícia,
Salazar declarou que após um inquérito, se chegara «à conclusão que as pessoas
maltratadas eram sempre, ou quase sempre, temíveis bombistas, que se recusavam a
confessar, apesar de todas as habilidades da Polícia, onde tinham escondido as suas
armas criminosas e mortais». Justificou ainda que «só depois de empregar esses meios
violentos» é que eles se decidiam «a dizer a verdade», interrogando Ferro «se a vida de
algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica
largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras...» (Nota 3).
Ao definir, no ano seguinte, os princípios da nova Constituição, afirmou que ela
limitaria, pela «moral e o direito», a omnipotência do Estado, ao impor-lhe «o respeito
pelos direitos individuais e corporativos, ao assegurar a liberdade de crença e prática
religiosa» (Nota 4). Quanto à afirmação de que, segundo a Constituição, o Estado
reconheceria, fora do partido único (União Nacional), as liberdades e os direitos
políticos, ficou sem aplicação prática, pois admitia, ao mesmo tempo, uma excepção
que abria a porta a todas as excepções: não seriam toleradas quaisquer «ofensas à
actividade governativa nem aos fins da Constituição».

Nota 1 - Arquivo Histórico Militar, Fernando Gouveia, proc. 21/80, pasta 67, arquivo,
volume 1, fls. 1, 23 e 30-32.
Nota 2 - «Problemas da organização corporativa», conferência no SPN, em 13 de
Janeiro de 1934, in António de Oliveira Salazar (AOS), Discursos, vol. i, p. 285.
Nota 3 - Entrevistas de António Ferro a Salazar, Lisboa, Parceira A. M. Pereira, 2003,
pp. 34 e 54.
Nota 4 - «O Estado Novo português na evolução política europeia», discurso na
inauguração do I Congresso da UN em 26 de Maio de 1934, in AOS, Discursos, vol. i,
pp. 335, 338, 342 e 344.

26

Como referia o 10.° ponto do Decálogo do Estado Novo, os «inimigos do Estado Novo»
eram «inimigos da Nação», contra os quais e ao serviço da qual — «isto é: a ordem, do
interesse comum e da justiça para todos» — se podia e devia «usar a força, que
realizava, neste caso, a legítima defesa da Pátria» (destaque do próprio texto).

1.1.2. Criação da PVDE, através da fusão de polícias já existentes

Em 29 de Agosto de 1933, o Decreto-Lei n. 22 992 fundiu a PIP com a PDPS,


resultando dessa fusão a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE). Nesse
diploma de criação da PVDE, considerava-se que tanto as funções da PIP como as da
PDPS estavam estreitamente ligadas à segurança do Estado e da sociedade, devendo,
por isso, ambas ser submetidas a um comando único, directamente subordinado ao
ministro do Interior.
A PVDE ficou, assim, estruturada em duas secções, a de defesa política e social e a
internacional, cometendo à primeira, especialmente, a prevenção e repressão dos crimes
de natureza política e social, e à segunda verificar, nos postos de fronteira, a legalidade
dos passaportes nacionais e a regularidade dos passaportes dos estrangeiros.
A partir de Junho de 1934, foram ainda atribuídas à PVDE competências prisionais,
sendo criada, no seu seio, uma Secção de Presos Políticos e Sociais, bem como de
controlo da actividade dos engajadores de emigrantes clandestinos e da circulação de
passaportes falsos (Decreto-Lei n.° 23 995, de 12 de Junho). Em 1935, dois novos
diplomas reforçaram a actuação repressiva da PVDE: por um lado, a proibição das
associações secretas, e, por outro lado, a aposentação ou demissão dos funcionários e
empregados civis ou militares que tivessem revelado ou revelassem «espírito de
oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política» ou não dessem «garantia
de cooperar na realização dos fins superiores do Estado» (Nota 2).
No ano seguinte, os funcionários públicos passaram a ficar obrigados, sob juramento, a
repudiar «o comunismo e todas as ideias subversivas» e a aceitar «a ordem estabelecida
pela Constituição Política de 1933» (Nota 3). Esses vários diplomas introduziram,
assim, «o saneamento preventivo da função pública, isto é, a selecção política dos seus
quadros», que, a partir de então, apenas eram admitidos nos serviços públicos mediante
prévia informação da polícia política (Nota 4).

1.1.3. Os dirigentes da PVDE

Assim como a PVDE resultou da fusão de polícias já anteriormente existentes, também


os quadros destas foram aproveitados pelo regime salazarista para dirigir a sua polícia
política.
Nota 1 - Discriminação Política no Emprego no Regime Fascista, 1982, p. 261; Lei n.°
1901, de' 21 de Maio de 1935, de proibição das associações secretas.
Nota 2 - Decreto-Lei n.° 23 317, de 13 de Maio de 1935.
Nota 3 - Decreto-Lei n.° 27 003, de 14 de Setembro de 1936.
Nota 4 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», in História de Portugal, dir. José Mattoso,
vol. 7, Lisboa, Círculo de Leitores, p. 278.

A maior parte dos dirigentes da PVDE eram oficiais das Forças Armadas e, em
particular, do Exército. Estavam neste caso o próprio diretor, capitão de reserva
Agostinho Lourenço, e o seu braço direito, tenente José Ernesto Catela do Vale,
secretário-geral da PVDE entre 1933 e 1945. Os dois tinham sido antes, repectivamente,
diretor e subdiretor da PIP.

Nascido em 1886, Agostinho Lourenço tinha sido governador civil de Leiria e um


defensor de Sidónio Pais, começando por ingressar na Polícia de Segurança Pública
(PSP), então dirigida pelo tenente-coronel Ferreira do Amaral. Em 1931, assumira a
direcção da PIP a pedido do ministro de Interior, coronel Lopes Mateus, juntamente
com o seu amigo José Catela e com pessoal da polícia de trânsito que já dirigia
anteriormente. Em 1932, Agostinho Lourenço iniciou um processo de reforço da
disciplina da sua polícia, ao impor aos candidatos à entrada na mesma a apresentação de
um registo criminal limpo e o patrocínio de dois oficiais do Exército, ao mesmo tempo
que expulsava todos os que haviam praticado roubo ou homicídio.
Após serem separados, no seio da PIP, os serviços internacionais dos serviços políticos,
Agostinho Lourenço passou a dirigir a recém-criada Polícia de Defesa Política e Social
e, a partir de 1933, a PVDE. Sob a sua chefia, a PVDE exerceu, em 1936, uma acção
informativa sobre a Espanha, «até à ocupação das forças nacionalistas de toda a
fronteira hispano-portuguesa» (Nota 1).
Também o capitão, depois major, Rui Pessoa de Amorim ingressou na polícia, em 1931,
passando posteriormente para a PVDE, em 1933, onde actuou na respectiva Secção
Internacional, na Secção de Vigilância Política e Social e, depois, na delegação do
Porto. Vindo da PIMI, o capitão Balei-záo do Passo ingressou na PVDE em 1933,
embora fosse exonerado das suas funções em Dezembro do ano seguinte. Neste ano de
1934, a PVDE integrou ainda o capitão de cavalaria António Maia Mendes, que foi, até
1937, subdirector e chefe da Secção de Vigilância Política e Social, à qual estiveram
também ligados os tenentes Joaquim Correia Lucas e António Vieira de Castro e Silva,
adjunto da Secção Internacional.
Passaram também a desempenhar funções dirigentes na PVDE, respectivamente em
1935 e 1936, os capitães Jorge Alcides Pedreira e Gaspar de Oliveira, antigo chefe de
gabinete do ministro do Interior (Mário Pais de Sousa), bem como o tenente Paulo
Cumano, colocado nos Serviços de Fiscalização e Fronteiras. Em 1937, o capitão
Porfírio Hipólito da Fonseca substituiu o capitão Maia Mendes na Secção de Vigilância
Política e Social, onde também passou a desempenhar funções o capitão João Amado de
Vasconcelos e à qual estiveram ainda ligados os tenentes Joaquim Correia Lucas e
António Vieira de Castro e Silva, adjunto da Secção Internacional.
No ano seguinte foram ainda integrados no quadro dirigente da PVDE os tenentes
Manuel Magro Romão e Adelino Soares, este último como adjunto na delegação do
Porto (Nota 2). Para esta delegação nortenha iria, ainda em 1937, o tenente António
Neves Graça, que viria a ser mais tarde director da PIDE.

Nota 1 - Polícias: 25 Anos ao Serviço da Nação, dir. Ferreira de Andrade e Luís


Ferreira, Lisboa,
Nota 2 - Maria da Conceição Ribeiro, A Polícia Política do Estado Novo (1926-1945),
Lisboa, Estampa, 1995, pp. 114-121.

28

Finalmente, ingressou ainda na PVDE, em 1941, o capitão Joaquim da Silveira. Outros


oficiais do Exército foram também nomeados para dirigir as prisões privativas da
PVDE, nomeadamente o Aljube e Caxias» em Lisboa, os fortes de Angra do Heroísmo e
de Peniche, bem como a co-l lónia penal do Tarrafal, em Cabo Verde.

1.1.4. Polícias políticas ditatoriais no tempo da PVDE

Quando a PVDE surgiu, a existência de ditaduras em vários países da Europa no


período entre as guerras tornou aparentemente evidente o facto de os diversos regimes,
apesar das diferenças, apresentarem características semelhantes, nomeadamente no que
se relacionava com a polícia política. Quanto às diferenças, lembre-se, por um lado, que
eram ditaduras nacionalistas, com a preocupação de apresentarem modelos «nacionais»,
e, por outro lado, que o caso do nacional-socialismo alemão apresenta diferenças de
essência tão grandes com o fascismo italiano e a ditadura salazarista que tem sido
colocado numa espécie à parte, totalitária e racista. Quanto às semelhanças, todas as
ditaduras apresentaram em comum uma continuidade em relação ao regime liberal
anterior.

I.1.4.1. A Itália fascista


Foi o caso do fascismo italiano, que manteve a polícia do Ministério do Interior e o
corpo militar de Carabinieri, já existentes no período libe-B ral. Em 1923, o novo
regime de Mussolini criou a Milizia Volontaria per la Sicurezza Nationale (MVSN), do
PNF (Partido Nacional Fascista), mas não teve, porém, a preocupação de «fascizar» os
órgãos da polícia tradicional. Além disso, o chefe da polícia do Ministério do Interior,
Arturo Bocchini, era um antigo prefeito que se opôs sempre aos esforços do PNF para
«fascizar» os corpos policiais.
O organigrama da Polícia de Segurança da Itália fascista tinha, no topo, o chefe da
polícia, que dirigia a Direcção-Geral da Polizzia di Sicurezza (D.G.P.S., Polícia de
Segurança), da qual dependiam, entre outras, as divisões da polícia política, da polícia
de fronteiras, os Carabinieri, o Ufficio Politico delle Questure e o Ufficio Politico della
MVSN. Todos estes organismos foram centralizados em 1930 na «secção especial da
OVRA» (Opera Volontaria di Repressione degli Antifascisti), integrada na Direcção-
Geral da PS, chefiada por Bocchini e tutelada pelo Ministério do Interior.
Em 1931, o Código da Polícia, versão desenvolvida do sistema liberal de polícia
preventiva, fez da Direcção-Geral da PS a base da ditadura, cuja tarefa principal era
proteger o seu regime contra a dissidência política, o I que teve como resultado
substituir a violência institucionaliza nos comisB sariados à violência semilegal do
partido fascista (Nota 1).

Nota 1 - Jonathan M. Dunnage, «La police et le fascisme italien», in Pouvoirs et polices


au XXe" siècle, dir. Jean-Marc Berlière et Denis Peschanski, Paris, Éditions Complexe,
1997, pp. 35-37; Franco Fucci, Le Polizie di Mussolini. La Repressione del
Antifascismo nel «Ventennio», Milano, Mursia. 1985, pp. 7, 126, 394-395.

29

Quadro I com a estrutura dos Serviços policiais e de segurança do regime fascista em


Itália

Refira-se que, durante a vigência do regime fascista em Itália, um dirigente da polícia


italiana, Leone Santoro, esteve em Portugal, entre 1938 e 1940, para proceder a um
estudo sobre a remodelação da polícia portuguesa (Nota 1). Em 25 de Abril de 1940,
Santoro enviou, ao Ministério do Interior português, um relatório onde defendia a ideia
de uma polícia «compreendida como principal expressão do Poder executivo e como
entidade única e forte». Ora, como «um Estado forte» não podia ter «uma Polícia
fraccionada», propôs, à maneira do sistema italiano, «a unificação do Comando» e a
criação de uma Direcção-Geral da Polícia, na dependência do Ministério do Interior,
que englobaria todas as polícias e a LP. Esta proposta não foi aceite pelo governo
português, embora tivesse sido assinado, entre a PVDE e a polícia italiana, um acordo
técnico e uma troca de informações sobre pessoas «politicamente perigosas»,
nomeadamente comunistas.

I.1.4.2. A Alemanha nacional-socialista: a Gestapo


Embora, nos anos 30, a PVDE tenha mantido contactos com a Gesta-po-SD, com troca
de visitas entre agentes, entre os quais o capitão Paulo Cumano recebeu treino policial
na Alemanha, o exemplo nacional-socialista também não vingou em Portugal. Aliás,
apesar de algumas semelhanças, o regime salazarista distinguiu-se na sua essência, do
totalitarismo anti-semita alemão. A polícia secreta da Alemanha nazi teve a sua génese
na Schutzstaffel (SS, «escalão de protecção»), serviço de segurança de Hitler,
controlada, a partir de 1929, por Heinrich Himmler, e no Sicherheitsdienst (SD,
«serviço de segurança»), organizado em 1931, como um ramo de inteligência das SS.

Nota 1 - Repressão Política e Social no Regime Fascista, 1986.

30

Neste ano, em que — note-se — ainda não vigorava o regime nazi, foi criada, na
Alemanha, uma medida repressiva que consistia na aplicação aos suspeitos de uma
detenção até três meses sem ordem judicial — a polizeiliche Haft («prisão policial»). Na
medida em que conferia «poderes de detenção à polícia, de que o Ministério Público
não dispunha», Paulo Pinto de Albuquerque considerou que esta «prisão policial» se
assemelhou ao regime de detenção policial português, subordinado à tutela hierárquica
das polícias (PIDE e Polícia Judiciária) (Nota 1).
A Geheime Staatspolizei (Gestapo, «polícia secreta estatal»), criada em 1933, sob a
chefia de Hermann Göring, foi depois fundida com o SD e começou, desde logo, a
exercei as suas prerrogativas, independentemente do sistema judiciário, instituindo os
seus próprios objectivos, métodos e processos de administração da justiça. Para
caracterizar esse tipo de justiça, o historiador Robert Gellately utilizou o conceito de
Polizeijustiz, que se pode traduzir por «justiça policial».
Em 4 de Fevereiro de 1933, o decreto de «protecção do povo alemão» possibilitou à
Gestapo prender e internar administrativamente os suspeitos (adversários do regime),
colocando-os, «por medida de segurança» (literalmente: medida de protecção), em
«detenção preventiva», ou na chamada «custódia protectora». Em 28 de Fevereiro, no
dia a seguir ao incêndio do Reichstag, foi emitido o decreto presidencial sobre a
«protecção da nação e do Estado» (decreto sobre o incêndio do Reichstag), que declarou
o estado de urgência permanente, possibilitando à polícia a detenção preventiva, sem
controlo de qualquer instância judicial, e interditando o Partido Comunista e o Partido
Social-Democrata.
Em 1 de Abril, Heinrich Himmler, chefe supremo (Reichsführer) das SS, tornou-se
comandante da polícia política da Baviera. Depois, secundado por Reinhardt Heydrich,
chefe do SD, foi sucessivamente acumulando o controlo dos corpos policiais de todos
os Länder. Em Abril de 1934, Himmler foi nomeado director da polícia secreta do
Estado da Prússia, bem como da Gestapo em todo o território nacional (Nota 2) e, nos
anos seguintes, centralizou em Berlim o controlo de todas as forças policiais, ocupando
os seus postos-chave com membros das SS (Nota 3). Na sequência da Noite das Facas
Longas e do massacre de diversos críticos de direita do regime (entre 30 de Junho e 2 de
Julho de 1934), todos os campos de concentração foram colocados sob a autoridade de
Himmler e as SS tornaram-se autónomas (22 de Julho).
Em 10 de Fevereiro de 1936, quase todas as acções da Gestapo deixaram de ficar
sujeitas à fiscalização dos tribunais, podendo essa polícia decidir a detenção
«provisória» de qualquer suspeito. A Gestapo passou também a «corrigir» decisões dos
tribunais e do Volksgerichtshof (VGH, «tribunal do povo»), adoptando a prática de
prender de novo os indivíduos absolvidos, internando-os, sob «custódia protectora», em
campos de concentração à sua guarda.

Nota 1 - Paulo Pinto de Albuquerque, A Reforma da Justiça Criminal em Portugal e na


Europa. Almedina, 2003, pp. 565-570.
Nota 2 - Norbert Frei, L’État hitlérien et la société allemande: 1933-45, Paris, Seuil,
1994, pp. 180-188.
Nota 3 - Michael Burleigh, The Third Reich. A New History, Pan Books, 2000, pp. 179-
197.

31

Segundo afirmava a própria Gestapo, a sua estratégia era, sobretudo, de carácter


«preventivo», impedindo a actividade «subversiva» antes de ela eclodir (Nota 1). Este
conceito de prisão preventiva, como se verá, tanto fM utilizado no totalitarismo alemão,
como na ditadura de Salazar e Caetano.
Himmler foi nomeado, em 17 de Junho de 1936, chefe supremo das SS e do
Reichssicherheitshauptamt (RSHA, «ofício da polícia secreta do Estado»), que
centralizava o SD, chefiada por Heydrich, a Gestapo (polícia política) e a Kripo (polícia
criminal). No início de 1938, um decreto do ministro do Interior atribuiu
exclusivamente ao RSHA o direito de deter «provisoriamente» e colocou todos os
«campos nacionais de trabalho e de reeducação» sob tutela das SS. Por seu turno, um
decreto de 23 de Junho ordenou que o pessoal de todas as polícias de segurança
(Gestapo e Kripo) se inscrevesse nas SS. A partir do início da guerra, em Setembro de
1939, foram inseridas na RSHA todas as forças policiais, que ficaram, na prática, sob o
controlo de Himmler e Heydrich (Nota 2).

I.2. A criação da PIDE (1945). Mudanças reais ou aparentes?

Todas essas polícias — fascista e nacional-socialista — foram extintas com a derrota


desses regimes ditatoriais e totalitários, no final da Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Em Portugal, terminado esse conflito, a polícia política ficou não só com um novo
nome, passando a designar-se por Polícia Internacional de Defesa do Estado (PlDE),
como ganhou novos poderes. Centralizando no seu seio todos os organismos com
funções de prevenção e repressão política dos crimes contra a segurança interna e
externa do Estado, a PIDE conservou a instrução preparatória dos processos respeitantes
àqueles delitos e ficou ainda com a capacidade de determinar, com quase total
independência, o regime de prisão preventiva.
O Decreto-Lei n.° 35 046, de 22 de Outubro de 1945, que criou a PIDE, considerou-a
como organismo judiciário autónomo, com a mesma orgânica interna, poderes e funções
que o direito comum atribuía à PJ e formou, pela primeira vez, um quadro de
funcionários e agentes. Lembre-se que, se a PVDE apenas tinha cerca de 30 agentes, em
1935, através de uma reorganização dos serviços, em 1947 (Decreto-Lei n.° 36 527), a
PIDE ficou com um quadro composto por 541 funcionários de direcção e investigação e
150 de secretaria (Nota 3). Em 1948, o quadro tinha 726 funcionários, embora só
houvesse 521 elementos colocados, faltando sobretudo preencher as vagas do pessoal de
investigação (Nota 4).

Nota 1 - Edward Crankshaw, Gestapo, Instrument of Tyranny, Greenhill Books, nova


ed., 2002, pp. 91, 124, 204 e 215.
Nota 2 - Encyclopedia of the Third Reich, dir. Louis L. Snyder, Wordsworth Military
Library, 1998, nova ed., pp. 113-115 e 286.
Nota 3 - AOS/CO/TN, 16, pasta 4 (Arquivo Oliveira Salazar, Correspondência Oficial,
no IAN/ ITT).
Nota 4 - PIDE/DGS, OS 195/49 (Arquivo da PIDE/DGS, Ordens de Serviço, no
IAN/TT).

32

A PIDE tinha competência em matéria administrativa relativa à emigração,


compreendendo o licenciamento das agências de passagem de passaporte, à passagem
das fronteiras terrestres e marítimas e ao regime dei permanência e trânsito de
estrangeiros em Portugal. Em matéria de repressão criminal, estavam no seu âmbito de
actuação as infracções praticadas por estrangeiros, relacionadas com a sua entrada ou
permanência em território nacional, os crimes de emigração clandestina e aliciamento
ilícito dei emigrantes, bem como os crimes contra a segurança exterior e interior do
Estado (Nota 1).
A PIDE tinha, por outro lado, capacidade para propor a aplicação de medidas de defesa
(ou de segurança) previstas no art. 175 do Código Penal e vigiar indivíduos a elas
sujeitos, mesmo se estes estivessem entregues à supervisão do ministro da Justiça. A
este ministério foram entregues, até ao fim do ano de 1945, a colónia penal do Tarrafal,
em Cabo Verde, e o forte de Peniche, presídios dirigidos por intermédio do Conselho
Superior dos Serviços Criminais, bem como a superintendência na execução das penas e
medidas de segurança privativas da liberdade aplicadas nos processos instruídos pela
PIDE.
Se todos os autores analisaram a criação da PIDE, contextualizando-a no período do
pós-guerra, alguns consideram que as mudanças então operadas apenas foram de
fachada, enquanto outros acham que, pelo contrário, essas modificações foram reais.
Está no primeiro caso Manuel Braga da Cruz, segundo o qual a instrução preparatória
de crimes políticos, a cargo da PIDE, «permaneceu sempre secreta e sem contradição,
isto é, sem a assistência de advogados e a presença de qualquer juiz de instrução» (Nota
2). Fernando Rosas partilha a mesma opinião, ao observar que, com as reformas!
processuais do pós-guerra (Nota 3), «sobretudo formais e cosméticas», a polícia política
continuou a ser «a entidade verdadeiramente condutora de todo o processo de "justiça
política", desde a instrução dos processos à execução das penas, passando pelo
julgamento dos réus que levava a tribunal» (Nota 4).
Pelo contrário, contra os que afirmam que a PIDE ficou com poderes discricionários, ao
ter a possibilidade de estender por três meses (mais dois períodos de 45 dias, cada) o
período de prisão sem culpa formada de oito dias, do tempo da PVDE, Paulo Pinto de
Albuquerque considerou que esse prazo máximo constituiu uma «limitação efectiva do
arbítrio policial que reinava anteriormente» (Nota 5). Este autor lembrou que, antes do
diploma de 1945, a detenção policial para averiguações era ilimitada, tal como o era a
detenção ordenada ou mantida pelo Tribunal Militar Especial (TME) uma vez que, na
jurisdição militar, não existia limite para a prisão sem culpa formada (Nota 6).
Essa afirmação de que o diploma de 1945 limitou «efectivamente» o arbítrio policial
que reinava no tempo da PVDE merece, porém, duas observações.

Nota 1 - 25 Anos ao serviço da Nação, dir. Ferreira de Andrade e Luís Ferreira, Lisboa,
1953.
Nota 2 - Manuel Braga da Cruz, O Partido e o Estado no Salazarismo, p. 93.
Nota 3 - Decretos-lei n.° 35 007, de 9 de Outubro de 1945, e n.° 35 015, de 15 de
Outubro de 1945.
Nota 4 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», in História de Portugal, p. 278.
Nota 5 - Paulo Pinto de Albuquerque, A Reforma da Justiça Criminal em Portugal e na
Europa, Almedina, 2003, p. 559, nota 1301.
6 Idem, ibidem, p. 844 e nota 1298, p. 576.

33

Em primeiro lugar, deve-se dizer que esse diploma manteve de facto o arbítrio,
cobrindo-o com o manto da legalidade, dado que possibilitou legalmente à PIDE
prender preventivamente durante seis meses. Além disso, esse período podia ainda ser
prolongado, através de uma medida de segurança provisória, ou pela prática usada por
essa polícia, de libertar um detido ao fim dos seis meses e prendê-lo de novo, à saída da
porta da cadeia, por mais um período de seis meses.
Por outro lado, depois de 1945, a situação do arguido detido era ainda agravada pela
inexistência de prazos de prisão preventiva depois da formação da culpa, confundindo-
se esta com a duração do próprio processo até ao trânsito da decisão. Como se verá,
houve diversos presos que tiveram de aguardar presos até quatro anos, pelo julgamento.
Por outro lado, o arguido preso só podia requerer para o Supremo Tribunal diligências
para acelerar o andamento do processo, ficando sem qualquer meio eficiente para
provocar o fim da detenção preventiva, se o julgamento se protelasse para além de
certos prazos.
A legislação que criou a PIDE visou, assim, legalizar o que na realidade nunca deixara
de ser uma prática constante — e ilegal, dado que nos anos 30 a preocupação com a
legalidade era nenhuma — da PVDE, relativamente à detenção por tempo
indeterminado, sem pena, ou para além desta. Deve-se, assim, dizer que, longe de
acabar, a partir de 1945 o arbítrio não deixou de existir, apenas foi coberto com o manto
da jurisdição.

I.3. A PIDE/DGS ao longo dos anos

A «vida» da PIDE/DGS, entre 1945 e 1974, pode ser dividida em quatro períodos
cronológicos. No primeiro período, entre 1945 e 1953, iniciado com a criação da PIDE,
sucessivos diplomas deram maior poder à polícia política, numa fase em que o regime
recuperava as suas forças e endurecia a repressão contra a oposição. Nesse primeiro
período, especialmente marcado, em 1949, pela criação do Conselho de Segurança
Pública (CSP), a PIDE continuou a ser dirigida pelo capitão Agostinho Conceição
Pereira Lourenço, que já chefiava a PVDE.

I.3.1. O quadro dirigente da PIDE nos anos 40

Na correspondência do Foreign Office britânico, o relatório confidencial do ano de 1946


deu conta de que, sob o controlo de Agostinho Lourenço, a «Política internacional (o
ramo da força policial não só responsável por controlar a actividade de estrangeiros mas
também da segurança do regime)» revelara «uma tendência crescente para exercer
poderes arbitrários» (Nota 1). E certo, por outro lado, que Agostinho Lourenço (Nota 2)
despachava directamente com Salazar, como se pode ver por alguns apontamentos no
diário do ditador, onde este, na sua letra ininteligível, marcava encontros com o director
da polícia política.
Nota 1 - Public Record Office (PRO) FO 179/608, file 1/4 Correspondence respecting
Portugal. Use Foreign Office, Confidential 17633, part 1, January-December 1946,
Annual RFI, p. 14.
Nota 2 - Agostinho Lourenço faleceu em 2 de Agosto de 1964.

34

Lembre-se que a nomeação dos directores da PIDE era feita «por portaria conjunta» do
Ministério do Interior e «do presidente do Conselho», além de que Lourenço era amigo
pessoal do ditador (Nota 1).

Quadro 2 A PIDE em 1945

Nota 1 - AOS/CP, 161, fls. 42-56 (Arquivo Oliveira Salazar, Correspondência Partícula
IAN/TT.

35

Entre as imagens de Salazar, verdadeiras ou falsas, há aquela que dá como um dos seus
passatempos a leitura de relatórios da PIDE (Nota 1) e é um facto que existem provas
directas e indirectas da «mão» de Salazar sobre a polícia política. Independentemente
dos «despachos» pessoais, cuja oralidade fez com que nada tivesse ficado, é verdade
que o Arquivo Salazar contém muitas informações da PIDE enviadas ao presidente do
Conselho (Nota 2).
Diga-se, aliás, que Agostinho Lourenço serviu, por vezes, de correio entre alguns
diplomatas portugueses e Salazar, como se pode ver por uma carta escrita ao presidente
do Conselho por Marcelo Mathias, em 12 de Outubro de 1949, onde dizia aproveitar a
passagem do director da PIDE para lhe enviar em mão uma carta, bem como
«informações sobre a evolução dos problemas do Extremo Oriente» (Nota 3).
O capitão Agostinho Lourenço foi assistido, na direcção da PIDE, pelo tenente Jorge
Marques Ferreira, até 1947, ao ser formado o Conselho da PIDE, constituído pelo
capitão Jorge Pedreira, inspector-adjunto. Este último, por seu turno, coadjuvado pelo
inspector major José Antão Nogueira (Nota 4), que depois acumulou funções de director
do Aljube, foi depois substituído pelo tenente António Vieira de Castro e Silva, que
estava à frente do Bureau Nacional da Comissão Internacional da Polícia Criminal
(Nota 5).
Entre os novos elementos nomeados, em 1945/1946, para os cargos de inspectores
contaram-se, vindos da PVDE, o major Rui Pessoa de Amorim, os capitães Paulo
Cumano, Joaquim Duarte da Silveira (Nota 6) e João da Silva, este último com o cargo
de director da cadeia de Caxias (Nota 7). Em 1947, foi a vez de serem nomeados
inspectores da PIDE os tenentes Ferry Correia Gomes e Rogério Morais Coelho Dias,
no ano seguinte, ascenderam a esse cargo Henrique Amaral Nunes, José Aurélio Boim
Falcão e o tenente Agostinho Barbieri Baptista Cardoso. Em 1949, tornaram-se
inspectores António Diogo Alves e Noé de Freitas Albuquerque, ao mesmo tempo que
José Antão Nogueira e António de Castro e Silva foram promovidos, respectivamente, a
inspector-adjunto e a subdirector da subdirectoria de Lisboa (Nota 8).
No final dos anos 40, a PIDE era composta por três divisões. A então l.a Divisão —
Serviços Internacionais —, que tinha começado por ser chefiada, em 1945, pelo
inspector-adjunto Jorge Alcides dos Santos Pedreira, passou a ser dirigida, em Julho de
1948, pelo inspector Rogério de Morais Coelho Dias, que já lá prestava serviço (Nota
9).

Nota 1 - António de Figueiredo, Portugal: Cinquenta Anos de Ditadura, Dom Quixote,


1976, pp. 204 e 205.
Nota 2 - AOS/CO/IN, 8C, pasta 23.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 7468 Cl (2) EFTA, n.° 1412/61 — GU, fls. 160 e 162.
Nota 4 - PIDE/DGS, OS 263, 20/9/47, e 313, 9/11/47.
Nota 5 - PIDE/DGS, OS 50, 19/2/48.
Nota 6 - PIDE/DGS, OS 154, 22/10/45.
Nota 7 - PIDE/DGS, n.° 24/24 por despacho ministerial, in OS 15, 15/1/46, OS 32,
1/2/46, e
119,29/4/46.
Nota 8 - Ibidem, Portaria de 31/3/48.
Nota 9 - PIDE/DGS, OS 199, 17/7/48, e 312, 8/11/49.

36

Em 1950, Jorge Pedreira (Nota 1a) foi nomeado subdirector da subdirectoria de Lisboa,
onde reorganizou a SCI da PIDE (Nota 1), e Coelho Dias foi transferido para a
subdirectoria do Porto, em substituição do inspector Wenceslau Ferreira Ramos (Nota
2). Nesse mesmo ano, o inspector José Barreto Sacchetti Malheiro foi dirigir a então
inspecção de Coimbra (Nota 3).
A 2.a Divisão — SCI — era dirigida pelo inspector Antonino Faria Pais, responsável
pelos respectivos Serviços Centrais (SC). ASCI era ainda composta pelos inspectores
Ferry Correia Gomes, bem como por Raul Rosa Porto Duarte e pelo tenente Abílio
Garção Alcarva. Estes dois últimos actuavam nos Serviços de Informação Reservada
(SIR), para onde foram transferidos, em 1949, vindos do Porto, os inspectores António
José da Cunha e Henrique Amaral Nunes (Nota 4).
Em Março deste ano, a SCI (Nota 5) passou a ser dirigida pelo então inspector-adjunto
Abílio Alcarva (Nota 6) e o anterior responsável, Antonino Faria Pais, foi transferido
para a direcção dos Serviços de Cadastro e Informativo, em substituição do inspector
Eduardo Aires Trigo de Sousa. Estes Serviços pertenciam à 3.a Divisão da PIDE —
Serviços de Segurança do Estado —, à frente da qual estivera inicialmente o inspector
superior Ernesto Catela do Vale Teixeira (Nota 7), antes de ser aí substituído, ainda em
1949, pelo inspector Agostinho Barbieri Cardoso.
A legislação da PIDE de 1945 foi completada, nos dois anos seguintes, por outros dois
diplomas, um dos quais (Decreto-Lei n. 35 830, de 27 de Agosto de 1946) atribuiu
competência igual à de todos os funcionários superiores da administração pública, aos
sub-inspectores, chefes de brigada e chefes de postos e delegações. A PIDE ficou ainda,
em 1947, com a possibilidade de aplicar «medidas de segurança» aos condenados por
crimes contra a segurança do Estado, aos quais o governo também passava a poj der
fixar residência ou expulsar do país (Nota 8).
O poder da PIDE foi ainda reforçado, em 1949, com a criação do CSP (Nota 9),
segundo o qual as «medidas de segurança» foram transformadas em medidas de prisão,
«em estabelecimento adequado», de um a três anos, ficando a PIDE com a faculdade de
propor a sua aplicação e prorrogação. A PIDE passou a ter ainda o poder de encerrar
tipografias que imprimissem publicações subversivas ou passíveis de perturbar a ordem
pública, proibir comícios e encontros, fechar locais que servissem para facilitar
actividades «subversivas» e vigiar trabalhadores em empresas.

Nota 1a - PIDE/DGS, OS 95, 5/4/50, e 150, 30/5/50.


Nota 1 - PIDE/DGS, OS 71, 12/3/50.
Nota 2 - PIDE/DGS, OS 147, 22/5/50.
Nota 3 - PIDE/DGS, OS 91, 1/4/50.
Nota 4 - PIDE/DGS, OS 88, 29/3/50.
Nota 5 - PIDE/DGS, OS 181, 30/6/48. Este último falecido em 7 de Setemj^o de 1953.
Nota 6 - PIDE/DGS, OS 67, 1949, e OS 333, 29/11/1949.
Nota 7 - Faleceu em 1950.
Nota 8 - Decreto-Lei n.° 36 387, de 1/7/47.
Nota 9 – Decreto-Lei n.° 37 447, de 13/6/49.

37

A legislação de 1947 e 1949 correspondeu a uma fase de contra-ataque do regime sobre


as oposições. Com o diploma de 1949, o Estado Novo procedeu à «desjudiciarização»
completa do controlo cautelar das actividades subversivas, nomeadamente através da
criação da figura de «vigilância especial», aplicável pelo CSP. Este tinha competência
para impor, a indivíduos condenados por crimes contra a segurança do Estado, um
regime de limitações da liberda de vigiada (Nota 1).

1.3.2. O reforço e endurecimento da PIDE nos anos 50 (1954-1960)

Em 1954, o Decreto-Lei n. 39 749, de 9 de Agosto, redefiniu a orgânica e as


competências da PIDE, atribuindo, nomeadamente, ao director, subdirector, inspector
responsável, e eventualmente a inspectores-adjuntos, sub-inspectores e chefes de
brigada, funções de juiz, na instrução preparatória dos processos, relativamente à
manutenção da prisão dos arguidos e à aplicação provisória das medidas de segurança
(Nota 2). Através desse diploma de 1954, a PIDE ficou ainda com a possibilidade de
propor a aplicação de medidas de segurança — posterior ao cumprimento da pena — e
vigiar os indivíduos a elas sujeitos, cabendo porém ao ministro da Justiça a
superintendência da execução das penas e dessas medidas (Nota 3). Em 1954, foi ainda
criado, ao lado do quadro geral da PIDE, um quadro de funcionários do ultramar
pessoal e, junto do director, passou a funcionar um Conselho de Polícia (Nota 4).
Os novos poderes atribuídos à PIDE geraram, aliás, nesse ano de 1954, uma polémica
entre o ministro da Justiça e o do Interior. É que, ao definir a relação hierárquica da
PIDE para com o ministro do Interior, no continente, ou para com o ministro do
Ultramar, nas colónias, o Decreto-Lei n. 39 749 não tornou aplicável a esta polícia o
reforço da posição de domínio do Ministério Público sobre a Polícia Judiciária, que
tinha sido regulamentado pelo Decreto-Lei n. 39 351, de 7 de Setembro de 1953.
O ministro da Justiça, Cavaleiro Ferreira, criticou, nesse diploma, essa «evolução
diferenciada» da PIDE relativamente à PJ (Nota 5), bem como o que qualificou de
«magnanimidade» na concessão da competência para determinar a prisão preventiva
fora de flagrante delito às autoridades administrativas. Quanto à nova competência dos
sub-inspectores e dos chefes de brigada, Cavaleiro Ferreira entendeu que era «mais do
que duvidosa a sua inclusão nesse conceito de "autoridade"».
Nota 1 - Paulo Pinto de Albuquerque, op. cit., p. 578, nota 1299.
Nota 2 - A medida provisória de segurança não deve ser confundida com a prisão
preventiva, embora fosse aplicável ao detido ainda não condenado.
Nota 3 - MAI, gabinete do ministro do Interior (GM), caixa 116, suplemento à ordem de
serviço 221/54, transcrição sobre a reorganização da PIDE.
Nota 4 - Dalila Cabrita Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial (1961-1974), Lisboa,
Terra-mar (col. Arquivos do Século XX), 2004, pp. 24, 25 e 413-414. Nesse ano, o
quadro da PIDE nas três colónias africanas era composto por apenas 58 homens (26 em
Angola, 27 em Moçambique e cinco na Guiné), constituindo cerca de 7,7 % do número
total de elementos dessa polícia (755 elementos). Segundo Dalila Cabrita Mateus, só se
pode considerar que a PIDE se instalou nas colónias com atribuições de polícia em
1957.
Nota 5 - Paulo Pinto de Albuquerque, op. cit., p. 626.

38

Este ministro considerou, além disso, que a confirmação da prisão pelo director da
PIDE dentro de 48 horas, no caso de ela ter sido decretada por um inspector-adjunto ou
funcionários hierarquicamente abaixo, constituía uma mera «fiscalização interna de
serviço», introduzida com vista a evitar a necessidade de validação pelo juiz da comarca
da prisão realizada fora de Lisboa e Porto (Nota 1).

I.3.3. Os directores da PIDE, António Neves Graça e Homero de Matos

Entretanto, o capitão de infantaria António Neves Graça, que dirigia a PIDE desde a
passagem à reforma do anterior director, capitão Agostinho Lourenço, passara a chefiar
efectivamente essa polícia, desde 27 de Novembro de 1956. Participante no golpe
militar de 28 de Maio de 1926, integrado nas forças comandadas pelo major Passos e
Sousa, que avançaram da Elvas para Lisboa, o capitão de infantaria António Neves
Graça tinha sido, depois, presidente da câmara, governador civil e comandante local da
PSP de Beja.
Em 1938, ingressara na PVDE, sendo colocado no Porto, onde se distinguira por ter
montado uma vasta rede de informadores, bem como por se ter ligado a uma funcionária
do PCP, que foi morta no início da década de 50, como se verá. Segundo afirmam dois
autores, António Neves Graça foi perdendo o controlo da PIDE devido ao peso
crescente dos inspetores, progressivamente valorizados pelo trabalho informativo e
repressivo apresentado, que competiam desenfreadamente com o director e uns com os
outros para subirem na hierarquia da polícia.
Crescentemente subalternizado pelos subdirectores — Ferry Correia Gomes, desde
1954, e Rui Pessoal Amorim Melício, desde 1958 —, Neves Graça aproveitou como
pretexto vários falhanços, para sair da polícia em 1960, reformando-se aos 64 anos.
Dois anos depois escreveu a Salazar a queixar-se de estar cheio de tédio e a pedir para
ser nomeado para um «cargo que possa ser desempenhado por um director-geral
aposentado ou oficial do Exército» ou em «empresa ou sociedade onde o Estado
comparticipe». Salazar sublinhou o pedido (Nota 2) e o certo é que Neves Graça
acabaria por aceitar um cargo na Sociedade Central de Cervejas, a convite de Caetano
Beirão da Veiga (Nota 3).
António Neves Graça foi substituído, em 26 de Fevereiro de 1960, pelo coronel de
cavalaria Homero de Matos, nomeado, segundo constou, por influência do general Júlio
Botelho Moniz, novo ministro da Defesa Nacional. Nascido em 1906, em Abrantes,
Homero de Matos assentara praça em 25 de Junho de 1926, concluindo o curso de
Cavalaria em 1930. Em 1942, comandara, com o posto de capitão, a GNR no Alentejo,
no Algarve e no Barreiro, onde se distinguira na repressão às greves de 1943. Tinha
então abaixo de si, na hierarquia militar, o tenente António de Spínola (Nota 4), era
então alcunhado de «Himmler do Barreiro» (Nota 5).

Nota 1 - Idem, ibidem, p. 628, nota 1385.


Nota 2 - AOS/CP, 133. 4.1.6.1. Carta de Macieira de Cambra, fls. 112-1
Nota 3 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, O Caso Delgado..., pp. 51-55 e 59.
Nota 4 - MAI-GM, caixa 196, pasta «pessoal nomeações».
Nota 5 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit, pp. 60-61; Homero de Matos era,
segundo o jornalista Jorge Morais, «um republicano de formação fascista», que deu «ao
regime provas de grande eficácia repressiva», cit. por José Pedro Castanheira e
Valdemar Cruz, A Filha Rebelde, 2003, p. 91.

39

Permanecera na GNR até Fevereiro de 1960, quando aceitou dirigir a PIDE (Nota 1). Ao
chegar à chefia da PIDE, verificou a enorme descentralização e anarquia dos serviços
pelo que propôs ao ministro do Interior um aumento do quadro de pessoal e alterações
na redacção de vários artigos dos diplomas que regulamentava essa polícia (Nota 2). Em
12 de Julho de 1960, Homero de Matos sugeriu, num relatório enviado a Salazar, a
criação de um quadro de pessoal único para a metrópole e o ultramar, de modo a
colmatar a falta de funcionários da PIDE (Nota 3).
Mas a parte mais importante do relatório de Homero de Matos era aquela que se prendia
com a sua intenção de transformar a PIDE numa verdadeira organização de informações
e acabar com a proliferação dos vários «serviços secretos», que se guerreavam entre si e
dispunham de informações de que só a «sua» polícia podia e devia dispor (Nota 4). Era
sua vontade organizar a PIDE como uma polícia «secreta», que não se apresentasse
«como órgão burocrático do Estado, com a sua ordem de batalha publicada no Diário do
Governo», possibilitando assim ao inimigo o conhecimento detalhado dos «efectivos»,
«dispositivo» e «elementos que a constituem, factores que em qualquer organização
desta natureza seria elementar manter em segredo» (Nota 5).
Diga-se que tinha razão nesse ponto, pois efectivamente o PCP recorria frequentemente
à documentação oficial para saber quem eram os seus inimigos, como se pode ver numa
lista encontrada pela PIDE no arquivo de Octávio Pato dos principais dirigentes dessa
polícia, retirada do Diário do Governo de 1 de Abril de 1955.
Inadmissível era também, para Homero de Matos, que elementos de um «órgão de
segurança do Estado ligado à defesa nacional, sob o ponto de vista jurídico e
disciplinar», não estivessem sob a alçada do Código de Justiça Militar e do
Regulamento de Disciplina Militar. Lamentou, por outro lado, que o pessoal da PIDE
tivesse uma mentalidade de funcionalismo público, queixando-se de que os melhores
elementos estivessem a transitar para outros postos da administração ou empresas
particulares, «libertando-se (assim) da referenciação perigosa que lhes acarretava a
qualidade de agentes desta polícia» (Nota 6).

I.3.4. A PIDE e o início da Guerra Colonial


Nos anos seguintes, de 1961 e 1962, iniciou-se um terceiro período na vida da PIDE,
devido ao despoletar da Guerra Colonial em Angola e à unificação dos princípios que
deveriam reger a organização dessa polícia em Portugal e nas colónias.

Nota 1 - MAI-GM, caixa 196, pasta «pessoal nomeações».


Nota 2 - AOS/CO/IN, 16, pasta 4; Arquivo Histórico Militar, Joaquim dos Santos
Costa, 4.º Juízo do TMT, proc. 90/79, pasta 57, arquivo 578, fls. 110-112.
Nota 3 - AOS/CO/IN, 16, pasta 4.
Nota 4 - PIDE/DGS. Tribunal da Boa Hora, caixa 703, 2. juízo, Octávio Pato e Albina
Fernandes, proc. 92/62, fl. 623.
Nota 5 - AOS/CO/IN, 16, pasta 4.
Nota 6 - Idem, ibidem.

40

O Decreto-Lei n.° 43 582, de 4 de Abril de 1961, previa a criação de subdelegações e


postos de fronteira e de vigilância em Angola e Moçambique. Distribuía, por outro lado,
o pessoal da metrópole e do ultramar por um quadro único, colocando a PIDE, «em
relação ao ultramar, tal como se encontravam as forças armadas», tal como tinha
proposto Homero de Matos.
Esse ano de 1961 foi, porém, o último de Homero de Matos à frente da PIDE. Os
acontecimentos desse «annus borribilis» levaram a que fosse exonerado a seu pedido,
tendo provavelmente a sua saída estado ainda relacionada com o facto de os seus
projectos de remodelação da PIDE serem recusados pelo corpo de inspectores, que os
consideraram atentatórios da sua autonomia, nomeadamente a sua sugestão de
subordinação da PIDE ao Ministério da Defesa Nacional (Nota 1).

Quadro 3 - Directoria da PIDE no período da chefia de Homero de Matos. 1960-1961


de Informação

Nota 1 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., pp. 60-61.

41

Lembre-se que Homero de Matos tinha alertado para o facto de a PIDE não poder servir
o país se nela estivessem instalados «os fermentos da insubordinação, deslealdade, má
fé e grave inconfidência relativamente às missões», pelo que propôs a demissão dos
funcionários que constituíam, segundo ele, focos de indisciplina, à cabeça dos quais
estava Barbieri Cardoso (Nota 1).
Freire Antunes afirmou, pelo seu lado, que o coronel Homero de Matos era um homem
do Exército pouco vocacionado para o «trabalho sujo» e considerado afecto à linha de
Júlio Botelho Moniz, cujo «golpe palaciano» para remover Salazar falhou nesse ano.
Esse autor observou ainda que, juntamente com o esfriamento da cooperação entre a
PIDE e a CIA, devido ao contencioso sobre Angola, o «grupo anti-americano» de
Barbieri Cardoso, marginalizado em 1958 e afastado por Homero de Matos, ganhou
novo impulso e voltou à PIDE, com a nomeação para director de Fernando da Silva
Pais, provido no cargo em 6 de Abril de 1962.

I.3.5. Fernando da Silva Pais, director da PIDE/DGS, e Salazar


Nascido no Barreiro, em 1905, Fernando Eduardo da Silva Pais alistara-se como
recruta, em 9 de Janeiro de 1926, e frequentara a Escola Militar, em 1927, tendo desde
logo sido «um modesto, mas esforçado opositor» de todas as «doutrinas dissolventes»,
conforme diria mais tarde (Nota 2). Promovido a capitão em 1943, deixaria a PSP no
ano seguinte para chefiar o serviço de fiscalização da Intendência-Geral de
Abastecimentos (Nota 3). Ao ser nomeado, em comissão permanente de serviço,
director da PIDE, em 6 de Abril de 1962, prometeu colocar «todos os elementos e meios
de que dispunha a Polícia Internacional e de Defesa do Estado à altura da luta que se
impunha contra todos os que, de dentro ou de fora, negam a Pátria, Deus e a Família»
(Nota 4).
Fernando da Silva Pais, tal como anteriormente Agostinho Lourenço, despachava
directamente com Salazar, revelando bem que dependia deste último a aceitação das
suas propostas de remodelação da polícia política. Quando esteve preso, após o 25 de
Abril de 1974, Silva Pais afirmou que nunca tinha actuado por iniciativa própria, mas
sempre sob tutela dos vários ministros do Interior, acrescentando ainda que se
encontrava, semanalmente, com Salazar e, depois, com Marcelo Caetano, para receber
instruções (Nota 5). Noutra ocasião, admitiu (Nota 6) «seguir indefectivelmente
Salazar» (Nota 7) e o certo é que, na sua correspondência com este último, o director da
PIDE informou-o de tudo o que se passava nessa polícia (Nota 8).
Também Barbieri Cardoso foi muito próximo de Salazar (Nota 9). Ingressando na PIDE
em 1948 vindo da GNR, fora colocado, dois anos depois, no serviço de segurança
pessoal de Salazar, acompanhando este último a Espanha para o encontro com o
generalíssimo Franco.

Nota 1 - MAI-GM, caixa 196, pasta «pessoal nomeações, concursos».


Nota 2 - José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, A Filha Rebelde, pp. 90-95.
Nota 3 - O Século, 18/1/1967.
Nota 4 - José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, A Filha Rebelde, pp. 90-95.
Nota 5 - O Jornal, 30/1/1981.
Nota 6 - Sempre Fixe, 19/10/74.
Nota 7 - Diário Popular, 20/10/79, p. 5.
Nota 8 - AOS/CP, 208, fls. 31-35, 115, 121, 292-293, 300 e 306.
Nota 9 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., pp. 265, 267 e 269.

42

Além de visitar pessoalmente o ditador e de ter traduzido, a pedido do próprio Salazar,


do francês para português, o livro de Christine Garnier, Férias com Salazar, o poliglota
Barbieri Cardoso escreveu frequente e pessoalmente ao presidente do Conselho,
assinando sempre como «amigo muito dedicado e grato». Relativamente a um conflito
com o novo director da PIDE, Homero de Matos, de que resultara a sua saída da PIDE
em 1960, Barbieri Cardoso agradeceu a Salazar «a extrema bondade e a santa paciência
com que resolveu o triste incidente» em que se vira envolvido (Nota 1).
Salazar manteve também relações privilegiadas com outros elementos da PIDE, muitos
dos quais o conheceram por terem igualmente feito parte do seu serviço de segurança
pessoal. José da Cunha Passo (Nota 2), que acabaria por substituir, na investigação, José
Sacchetti, em 1969, começou também por ser guarda-costas de Salazar. Numa entrevista
dada em 1994, em que criticou Marcelo Caetano, por causa do 25 de Abril de 1974,
Cunha Passo afirmou que a PIDE teria, de longe, preferido trabalhar para Salazar (Nota
3).
Também Fernando Gouveia, que, segundo disse, apoiou desde logo Salazar na obra de
«reconstrução de Portugal», conheceu o presidente do Conselho nos anos 30, quando
houve ameaças contra ele e o acompanhou de Santa Comba Dão até Coimbra, onde se
«refugiou». Outro elemento que integrou a brigada de segurança do ditador, nos anos
40, foi António Rosa Casaco, a única pessoa autorizada a fotografar a privacidade de
Salazar com Christine Garnier (Nota 4). Quando, nos anos 60, Rosa Casaco sofreu um
acidente de automóvel à saída de Zafra, em Espanha (Nota 5), ficando muito ferido,
Salazar, aliás padrinho de um filho daquele, interessou-se por ele.

I.3.6. A reorganização da PIDE (1962-1968)

Ao enaltecer e justificar, após 1974, a sua estadia na PIDE/DGS, Fernando da Silva Pais
afirmou que sempre se tinha interessado pelos presos e que, ao chegar à direcção dessa
polícia, tinha extinto o Aljube e remodelado do Caxias, dando-lhe melhores condições e
contratando médicos especialistas. Disse ainda que tinha criado, na DGS, as direcções
de serviços, verdadeiras polícias com autonomia e responsabilidades e grande
flexibilidade nas deslocações, e considerou errado o facto de todas as polícias do regime
possuírem serviços de informação para fins políticos, defendendo que apenas a
PIDE/DGS devia recolher todas as informações.

Nota 1 - AOS/CP, 208, fls. 235, 239, 243 e 246. Cartas de Barbieri Cardoso, já com o
timbre da PIDE, de 19/5/58 e de 9/12/60.
Nota 2 - Filho do capitão José (Baleizão) do Passo, um dos fundadores da polícia de
informação em Portugal, demitido em 1937 por se ter virado contra a direcção da
PVDE, José da Cunha Passo nascera em Mafra em 1925. Frequentara a Faculdade de
Ciências, onde teria sido informador da polícia política, e chegara a tenente miliciano da
Força Aérea até ingressar na PIDE, em 1955.
Nota 3 - Ana Almeida, «Pides lavam mais branco», in «1974 foi há 20 anos», Visão, 21
a 27/4/94 n. 57.
Nota 4 - Joaquim Vieira, Fotobiografias do Século XX. António de Oliveira Salazar,
Círculo de Leitores, 2001, p. 145.
Nota 5 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., pp. 149 e 151.

43

Mencionou ainda ter então sugerido ao ministro do Interior que a instrução dos
processos passasse para a PJ, de modo a que a PIDE/DGS reforçasse o seu sistema
informativo e partilhasse a má vontade e o ódio que a população só votava à polícia
política (Nota 1). Como se verá, esta ideia terá sido veiculada, junto do ministro do
Interior, pelo director dos serviços de informação da PIDE/DGS, Álvaro Pereira de
Carvalho.
O certo é que logo que chegou à direcção da PIDE, Silva Pais reorganizou os Serviços
de Segurança da sede (Nota 2), com o objectivo de «reforçar a informação», «efectuar a
convergência dos esforços das Divisões quanto às respectivas actividades» e «promover
o conveniente desenvolvimento de alguns Serviços, designadamente o Gabinete do
Ultramar».

Quadro 4 - Reorganização dos Serviços de Investigação,


a cargo de J. B. Sacchetti, no início da chefia de F. Silva Pais. 1962

Nota 1 - Diário Popular, 3/4/76, p. 25; entrevista de Fernando Silva Pais ao jornal O
País, 29/7/77.
Nota 2 - PIDE/DGS, OS 177, 26/6/62.

44

Os Serviços de Segurança, a partir de então dirigidos por Agostinho Barbieri Cardoso,


eram compostos pelo Gabinete do Ultramar e pela Secção Central (SC), com tarefas de
investigação e informação, onde passaram a prestar serviço (Nota l)
O inspector Sena Martinez e os sub-inspectores António Rosa Casaco el Henrique Sá
Seixas.
Após a chegada de Fernando Silva Pais e de Barbieri Cardoso, a l.a e a 2.a divisões
foram reorganizadas. Na l.a Divisão, de investigação, que passou a ser chefiada por José
Barreto Sacchetti, transferido de Coimbra para Lisboa1, foram colocados os inspectores
Cunha Passo e Antero da Gloriai Santos, bem como o sub-inspector Vilão de
Figueiredo. Compunham ai
1 .a Divisão o Gabinete de Identificação e de Polícia Científica, os serviços de
Contencioso e de Justiça, à frente dos quais estavam inspectores.
Quanto à 2.a Divisão, de informação, bem como o antigo Arquivo Ge-I ral, denominado
Serviço Reservado (SR), foram reorganizados por Álvaro Pereira de Carvalho, que ali
substituiu, em 1962, Manuel da Silva Clara, director dos Serviços Reservados (SR).

Quadro 5 - Reorganização dos Serviços de Informação, por Álvaro Pereira de Carvalho,


no início da chefia de Fernando da Silva Pais. 1962

Nota 1 - Arquivo Histórico Militar, TMT de Lisboa, 4° Juízo, Adelino da Silva


Tinoco, proc. 66/77, 11 vols., EMGFA, 1.» secção, proc. 928, 20/3/75, vol. 6, fls. 227-
229.

45

Integravam a 2.a Divisão os Centros de Informações — nacionais, CI (1), e estrangeiras


e ultramarinas, CI (2) —, o Gabinete Técnico (GT), o Gabinete de Cifra, o Arquivo
Geral de Processos e as Brigadas Especiais de Vigilância. Nessa Divisão de Informação,
trabalharam inicialmente o célebre chefe de brigada José Gonçalves e, depois, António
Rosa Casaco, Agostinho Tienza e Ernesto Lopes Ramos, elementos que, excepto o
primeiro, estiveram todos envolvidos no assassinato de Humberto Delgado (Nota 1).

I.3.6.1. Mulheres na PIDE e recrutamento para o ultramar

Em 6 de Novembro de 1962, Silva Pais enviou aos ministros do Interior e do Ultramar


um relatório a alertar para a necessidade de preencher as vagas do quadro da PIDE
(continente e ultramar), em virtude das crescentes necessidades do serviço, e, tal como
Homero de Matos, insistiu no fim da publicação, em Diário do Governo, da lista de
antiguidade dos funcionários da PIDE (Nota 2). Em Julho do ano seguinte, o director da
PIDE queixou-se do facto de o Supremo Tribunal Administrativo ter imposto a
habilitação mínima do 5.° ano do liceu para a nomeação em lugares do funcionalismo
público, impedindo assim os elementos da PIDE com dez ou vinte anos de serviço,
zelosos e competentes, de ascender às categorias superiores imediatas.
Silva Pais alertou ainda para o perigo de as categorias mais elevadas dos funcionários da
polícia poderem passar, no futuro, a ser preenchidas por 45 elementos do sexo feminino,
com todas as inconveniências que se fariam sentir, nomeadamente nos serviços políticos
de carácter reservado. Entre as várias soluções para resolver esse problema, o director
da PIDE sugeriu a possibilidade de dispensa das habilitações exigidas, mediante parecer
favorável do Conselho da PIDE, e de promoção, por «distinção», à classe
imediatamente superior, baseada na classificação de mérito extraordinário ou de
serviços relevantes prestados em defesa da ordem pública.
No entanto, acompanhando o sinal dos tempos e apesar das reservas de Fernando da
Silva Pais, a PIDE também se «feminizou», a partir de 1961, quando um diploma criou
um quadro de pessoal feminino de investigação, que chegou a ter duas sub-inspectoras,
três chefes de brigada, 16 agentes de l.a classe e 37 agentes de 2.a classe. Muitas das
agentes do quadro especial feminino tinham originariamente ingressado na PIDE como
telefonistas, passando mais tarde para o quadro de investigação (Nota 3). Diga-se que a
Guerra Colonial, com a transferência para o ultramar de muitos dos seus colegas
masculinos, que aí tinham de cumprir comissões de serviço, obrigou à substituição de
muitos homens por mulheres: por exemplo, em 1971, os postos de controlo dos
passageiros no aeroporto já estavam ocupados por agentes femininos (Nota 4).

Nota 1 - Síntese das intervenções de Alfredo Caldeira e A. A. Santos Carvalho in


Humberto Delgado, A Tirania Portuguesa, Publicações Dom Quixote, 1995, pp. 165-
168.
Nota 2 - Decreto-Lei n.° 45 290, de 30/9/63.
Nota 3 - Arquivo Histórico Militar, José Gonçalves, TMT, 4.º Juízo, proc. 109/76, auto
1687 dos Serviços de Justiça da SCE da PIDE/DGS, 25/11/76, vol. 1, fl. 137.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 15673 Cl (2) DGS, OS 245, 29/8/71.

46

Embora continuasse a exercer o cargo de director da PIDE, Silva Pais tfl nha sido,
entretanto, nomeado, em 1967, director da Inspecção-Geral das Actividades
Económicas, cuja função foi exercida interinamente pelo inspector superior Ennes
Ferreira (Nota 1). Enviou então a Salazar um novo projecto dei decreto-lei, a sugerir
novo aumento do quadro geral da PIDE2, na sequencial do qual essa polícia passou a ter
3202 funcionários — efectivos —, 1187 no continente e ilhas e 2015 no ultramar, dos
quais 28 no Estado da Índia (Nota 3).

1.3.7. A PIDE transforma-se em Direção-Geral de Segurança (1969-1974)

Pouco depois, começou o quarto período da vida da polícia política após a substituição
de Salazar por Marcelo Caetano na presidência do Conselho de Ministros. Com o
Decreto-Lei n.° 49 401, de 19 de Novembro de 1969, Marcelo Caetano extinguiu a
PIDE e criou a Direcção-Geral de Segurança (DGS), que continuou sob tutela do
Ministério do Interior excepto nas colónias ultramarinas, onde a tutela pertencia ao
ministro do Ultramar.
A DGS foi, depois, reorganizada em 1972, com o fim de prover à segurança exterior e
interior do Estado, continuando com os mesmos poderes quanto às infracções que eram
objecto da sua competência, que alei conferia à PJ (Nota 4). Esse Decreto-Lei n.°
368/72, de 30 de Setembro desse ano consagrou, por seu turno, uma velha reivindicação
da directoria da PIDE desde o tempo de Homero de Matos, passando a «ser dispensada,
mediante autorização ministerial, a publicação no Diário do Governo e nos boletins
oficiais dos despachos relativos à nomeação e ao provimento do pessoal da DGS, sem
prejuízo de produzirem todos os seus efeitos».

I.3.7.1. Marcelo Caetano e a PIDE/DGS

Durante a fase terminal do regime, a continuidade foi um facto. Ex-1 pressão disso foi
aliás «uma carta que a dupla Barbieri Cardoso/Pereiral de Carvalho» endereçou, sob o
pseudónimo PP, em 30 de Outubro de 1968, ao informador Oliveira (Mário de
Carvalho), em Roma, dizendo-lhe, para o acalmar, que, a «respeito do novo Governo
tudo continua na mesma a não ser uma pequena liberdade de imprensa, e outras no
género mas sem importância» (Nota 5).
No entanto, inicialmente Marcelo Caetano não deixou de ser um crítico das forças
policiais do regime. Em final de 1943, enviara a Salazar uma carta onde dizia que os
«métodos de repressão indiscriminada e bruta» eram uma prova de «fraqueza» do
regime e não de «força», dado que esta era «segura de si, equilibrada e justa».

Nota 1 - O Século, 18/1/1967.


Nota 2 - MAI-GM, caixa 0344. Carta enviada pela PIDE ao Ministério do Interior, em
9/10/68.1
Nota 3 - Decreto-Lei n.° 48 794, promulgado em 16/12/68, e Decreto-Lei n.° 48 999,
promulgado em 30/4/69.
Nota 4 - Decreto-Lei n.° 368/72, de 30/9/72, organização da DGS.
Nota 5 - Síntese das intervenções de Alfredo Caldeira e A. A. Santos Carvalho, op. cit.,
p. 165.

47

Numa exposição ao Conselho de Ministros de Dezembro de 1945 considerara que, entre


as deficiências do regime, se contava a actuação dessa polícia, que era tanto mais
violenta quanto mais incompetente se revelava. (Nota 1)
Mais tarde, após ser apeado do poder, em 1974, Caetano reconheceu que, ao tomar
conta do governo, havia «na Metrópole um mau ambiente em redor da PIDE». Afirmou
no entanto que em conversas com o major Silva Pais verificara «tratar-se de um homem
inteligente e equilibrado, perfeitamente consciente da delicadeza do serviço que dirigia
e aberto a uma colaboração sincera com o novo Governo». Caetano especificou, de
forma enigmática, que isso «não se verificava, infelizmente, com todos os seus
adjuntos». Estar-se-ia a referir a Barbieri Cardoso e/ou a Sacchetti? O certo é que
Caetano assinalou ainda que pretendera sempre evitar o que pudesse justificar a má
reputação da PIDE e que também o ministro do Interior, António Gonçalves Rapazote,
se havia mostrado «constantemente interessado em manter a Polícia dentro da
legalidade».
Da primeira fase da sua estadia na presidência do Conselho de Ministros, há pelo menos
uma carta de Marcelo Caetano, ao Ministério do Interior, de final de 1968, instando-o a
rever a regulamentação da prisão de Caxias, de modo a humanizar o tratamento dos
presos (Nota 2). O próprio Caetano disse ter ordenado, desde logo, «a remodelação do
serviço de investigação, cujo chefe foi posteriormente substituído» (José Barreto
Sacchetti) e, numa ocasião, chegou até a dizer, a polícia devia estar subordinada ao
Estado e não ser «um Estado dentro do Estado» (Nota 3).
Entre os opositores a Salazar que tiveram inicialmente a ilusão de que Marcelo Caetano
iria liberalizar o regime, contou-se o católico António Alçada Baptista, que escreveu um
livro sobre as conversas que manteve com o novo presidente do Conselho. No diálogo
que os dois travaram sobre a DGS e os «crimes «políticos», Caetano afirmou que o
sistema policial português revestia «garantias da legalidade», embora tivesse «em
consideração a natureza especial desses crimes e os reflexos» que estes provocavam
«em toda a instrução preparatória» (Nota 4).
Na verdade, apesar das afirmações de Caetano, os métodos de detenção arbitrária e
tortura não sofreram alterações básicas, tendo mesmo endurecido, no segundo período
de crispação do marcelismo. Também é um facto que Caetano sempre soube, quer por
familiares de presos, quer mesmo por elementos da própria DGS, que eram aplicadas
torturas aos detidos. Por exemplo, o director da delegação do Porto, José Manuel da
Cunha, chegou a escrever-lhe pessoalmente, insurgindo-se contra o tratamento
reservado aos presos e assegurando «que as noites de vigília são infelizmente uma triste
realidade».

Nota 1 - José Freire Antunes, Salazar, Caetano, Cartas Secretas 1932-1968, Lisboa,
Círculo de Leitores, 1993, pp. 146-147; PIDE/DGS. Tribunal da Boa Hora, Ano 1962,
proc. 92/62, caixa 703, 2.° Juízo, Octávio Pato e Albina Fernandes, 2.° vol., fls. 142,
12c (Marcelo Caetano, em 28/5/50).
Nota 2 - MAI-GM, caixa 454, pasta «saneamento da DGS».
'PIDE/DGS, pr. 8 Cl (2), NT 6976, Serviços franceses, vol. n, fls. 158-160, serviço de
escuta da Rádio Portugal Livre, 22/11/69; Marcelo Caetano, Depoimento, pp. 71-73. 4
António Alçada Baptista, Conversas com Marcello Caetano, pp. 140-143.

48

No entanto, pouco tempo depois, Caetano concedeu uma entrevista, ao jornal sueco
Svenska Dagbladet, onde disse que os interrogatórios duravam apenas três a quatro
horas (Nota 1).
Mais tarde, já no exílio, Marcelo Caetano justificou a manutenção de «certas
especialidades do regime processual da instrução dirigida pela DGS», com as reservas
colocadas pela polícia, nomeadamente «objecções a que se aplicasse certos preceitos,
como o da faculdade de assistência do advogado aos interrogatórios dos detidos». Que
houve algumas divergências entre Caetano e a DGS atesta-o o testemunho de Ana Maria
Caetano, filha de Marcelo, segundo a qual os agentes de vigilância dessa polícia, que a
protegiam, lhe afirmaram numa ocasião que o pai não os deixava trabalhar (Nota 2). O
certo é que, relativamente à presença dos advogados de defesa nos interrogatórios,
Caetano aceitou a argumentação da DGS e a presença do advogado permaneceu
«facultativa», «mas sempre obrigatória a de testemunhas» (Nota 3), que, como se sabe,
eram os próprios agentes dessa polícia.
Paulo Pinto de Albuquerque considerou que a substituição da PIDE pela DGS não teve
«natureza meramente semântica ou modificações puramente aparentes», alegando que
teria então passado a haver «uma divisão clara de tarefas entre os órgãos dirigentes da
DGS, aos quais incumbia a validação e a manutenção da captura, e os inspectores, aos
quais competia a direcção da instrução, mas que não podia validar a prisão preventiva
ou a aplicação provisória da medida de segurança» (Nota 4).
Ora, essa divisão de tarefas interna não é de facto suficiente para que sei diga que
ocorreram mudanças, pois, na prática, tudo continuou na mesma. Segundo o Decreto-
Lei n.° 368/72, de 30 de Setembro de 1972, a ordenação da prisão era da competência
do pessoal superior da DGS. Por outro lado, as funções que a lei atribuía ao juiz eram
desempenhadas pelo director-geral, pelos inspectores superiores, directores de serviço e
inspectores-adjuntos.
Quanto às funções do Ministério Público, durante a instrução preparatória ficavam a
cargo dos inspectores, por conseguinte à revelia do controle judicial. Isso também
acontecia na PJ, facto que foi criticado em 1973 por Francisco Sá Carneiro. Segundo o
deputado, essa polícia não deveria instruir processos, dado que não era composta por
juízes e «as polícias não são tribunais», embora tivessem formação jurídica e eram da
carreira judicial.

nem iccn f-inlr,t>-» *-.<*.~ —


Director G de Segurar]

Ora, segundo observou Francisco Sá Carneiro, os elementos da DGS nem isso tinham,
nem isso eram (Nota 5).

I.4. Organização e direcção da DGS no final do regime

A partir de 1972, os diversos serviços da polícia política passaram a ficar organizados


de uma forma que durou até ao final da sua existência. (Nota 6) Foram criados três
Conselhos — o Conselho Técnico Superior, o Conselho da Direcção-Geral e o Conselho
Administrativo — e os antigos serviços passaram a direcções de serviços, chefiadas por
directores de serviços.

Nota 1 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., p. 396, nota 1; PIDE/DGS, pr.
73715/73, Eleições, pasta 1, fl. 95, «Um caso concreto de tortura».
Nota 2 - Joaquim Vieira, op. cit., pp. 124, 128 e 169.
Nota 3 - Marcelo Caetano, Depoimento, pp. 71-73.
Nota 4 - Paulo Pinto de Albuquerque, op. cit., p. 656.
Nota 5 - Idem, ibidem, p. 654, nota 1434.
Nota 6 - DL n.º 368/72, de 30/9.

49

Quadro 6 - A DGS. 1972-1974

Observe-se que a investigação, que começou por ser a 1.ª Divisão da PIDE, passou, em
1972, a 2.a Direcção de Serviços de Investigação e Contencioso (DSIC), e que a antiga
2.a Divisão se transformou na l.a Direcção de Serviços de Informação (DSI). O facto é
revelador não só da importância crescente de Álvaro Pereira de Carvalho, como de uma
vontade de fazer da polícia política uma organização de inteligência, em que a
informação fosse o sector principal. No final da vida da DGS, havia ainda a 3.a
Direcção de Serviços de Estrangeiros e Fronteiras (DSEF) e a 4.a Direcção de Serviços
Administrativos (DSA).
Em 1974, a DGS tinha, além de várias subdelegações, postos de fronteira e de
vigilância, como se pode ver nas páginas dos extratextos (mapas 2 e 3), duas grandes
delegações, no Porto e em Coimbra. Os principais serviços centrais da DGS estavam
concentrados na Rua António Maria Cardoso, em Sete Rios, onde estava sediada a
Escola Técnica de Polícia, e no Reduto Sul de Caxias, onde estavam os serviços de
investigação.

50

Quadro 7 – Organização da PIDE/DGS e principais dirigentes. 1945-1972.

1945-49
— Director: capitão Agostinho Lourenço
— 1.ª Divisão, Serviços Internacionais: Jorge Pedreira (45-48), Rogério Coelho dias
(48)
— 2.a Divisão, Secção Central (SC ou Serviços Centrais de Investigação — SCI):
Antonino Fana Pais (chefia SC ou SCI), com Ferry Correia Gomes, Raul Rosa Porto
Duarte e Abílio Alcarva (Serviços de Informação Reservada. (SRI)
— 3.a Divisão, Serviço de Segurança do Estado; José Ernesto Catela (45), Agostinho
Barbieri Cardoso (49) e Serviço de Cadastro e Informativo: Eduardo Trigo de Sousa
(45-49), Antonino Faria Pais (49)
— Bureau da Comissão Internacional de Policia Criminal (CIPC): Castro e Silva
— Chefe del. Porto: Diogo Alves (45, acumula com direcção de Coimbra), Wenceslau
Ferreira Ramos

1950-61

— Director ETP: Joaquim Duarte da Silveira (49)


— Director: capitão Agostinho Lourenço, capitão António Neves Graça (56-60);
coronel Homero de Matos (60-62).
— Segurança e Serviços Reservados (SR): Ferry Correia Gomes (45-53), Manuel da
Silva Clara.
— Investigação, Aurélio Aboim Falcão (58), Raul Porto Duarte.
— Bureau Interpol: José Manuel da Cunha Passo
— Chefe del. Porto: Rogério Coelho Dias (50)
— Chefe del. Porto: Raul Rosa Porto Duarte (1961)
— Chefe de. Coimbra: José Barreto Sacchetti (50-64)
— Director ETP: Catlos Lopes Veloso (50-74)
— Director Caxias: Jaime Gomes da Silva (61-74)

1962-71

— Director: Major Fernando da Silva Pais (62-74) Reorganização dos Serviços de


Segurança, na sede
— 1ª Divisão (Investigação): José Barreto Sacchetti Malheiro (chefia 62), José Manuel
da Cunha Passo
— 2.ª Divisão (Informação) e Serviços Reservados (SR): Álvaro Pereira de Carvalho
(chefia 62), Ferreira da Costa (SR)
— 3.a Divisão (Estrangeiros)
— 4.a Divisão (Fronteira e Segurança Especial): Abílio Alcarva
— Serviços Administrativos: Manuel da Silva Clara
— Bureau Interpol: José Manuel da Cunha Passo
— Chefe del. Coimbra: Jorge Leite Faria (64-69), Manuel José da Cunha (1969),
Armindo Ferreira da Silva (69-74)

1972-74
— Director: Major Fernando da Silva Pais Direcções de Serviços:
— l.a Direcção, de Informação (DSI) ou Secção Central (SC): Álvaro Pereira de
Carvalho (dir. serv.) Arquivos: Rosário da Silva — Cl (1); Abílio Pires — Cl (2);
Fernando Gouveia, substituído por Delgado Luís GT; Sílvio Mortágua — Cl (3);
Bernardino da Cunha Azevedo — CI (4)
— 2.a Direcção, de Investigação e Contencioso (DSIC): José Manuel da Cunha Passo
(dir. serv. 72)
— 3.a Direcção, de Estrangeiros e Fronteiras (DSEF): Manuel da Silva Clara (69-73),
António José Rodrigues.
— 4,a Direcção, Administrativos (DSA): José Maria Leitão Bernardino
— Bureau Interpol: José Manuel da Cunha Passo
— Chefe del. Porto: Manuel da Silva Clara (73), Manuel José da Cunha (sub-dir.)
Nota:
Outros elementos ao longo dos anos
Informação: Barbieri Cardoso, Baptista da Silva, José Ferreira Cleto, Inácio Ribeiro
Ferreira, José Gonçalves, Rosa Casaco, Mesquita ta Portugal, Álvaro Dias de Melo,
Abílio Pires, Armindo Ferreira da Silva; Joaquim Oliveira Monteiro; José Gonçalves;
António Rosa Casaco; Mesquita Portugal; Baptista da Silva; Ferreira Cleto; Inácio
Ribeiro Ferreira; Agostinho Tienza; Álvaro Dias de Melo; Casimiro Monteiro; João
Nobre; Ernesto Lopes Ramos; Óscar Cardoso; Manuel Lavado; Pedro Ferreira; António
Vilas Boas da Silva; Armando Jorge da Silva Reis Vieira
Investigação: José Manuel Cunha Passo, Fernando Gouveia (44-58), Ferry Gomes;
Aurélio Boim Falcão; Inácio Afonso; Silvino Mortágua; Armindo Ferreira da Silva;
Júlio Henriques Reis; António Capela; Armando Rêgo; Benedito Pereira André; António
Rosa Casaco; Francisco Fernandes; Silvestre Delgado Luís; Joaquim Santos Costa;
Artur P. dos Santos; Pedro de Oliveira; Rodrigues Martins; Abílio Pires; Celso Russo;
Bronze; Pompílio; António Pereira Coelho (Ricardo Graça); Francisco Fernandes.
4 Divisões de Investigação: Rodrigues Martins, Teixeira da Silva, Pinto Galante,
Américo da Silva Carvalho
4 Secções: Matos Rodrigues — Justiça, Antero Glória Santos — Administrativos;
Cândido Pires Jurídicos e de Contencioso; Adelino Tinoco — Serv. prisionais
Delegação do Porto: Sub-inspectores Acácio Costa Matos e Manuel Martins Gomes;
Chefes de Brigada Alberto Ribeiro Monteiro, Alfredo Pereira Bastos, Álvaro Rodrigues
Ferraz, Aníbal de Magalhães, António Manuel Fernandes, António Manuel Morais,;
nio Marques de Almeida, Joaquim Maria de Oliveira, Joaquim Baieizão, José Coelho
Fernandes, Manuel Coelho da Silva
Delegação de Cojmbra; Sub-inspector Sérgio Avelino Pereira; Chefes de Brigada
Arlindo Miranda, Fernando Palma, José Matos da Silva, António Joaquim Aguiar

Várias fontes dão como sede da PVDE a Rua Serpa Pinto — antiga Rua 16 de Outubro,
ainda conhecida, em 1933, por «Rua da Leva da Morte» —, onde estava situada a
Secção Política e Social, e a Rua António Maria Cardoso, onde estava instalada a
Secção Internacional e de Estrangeiros. (Nota 1)

Nota 1 - 1 António Rosa Casaco, Servi a Pátria e Acreditei no Regime, Lisboa, ed. do
autor, 2003, p. 7; Pedro Rocha, Escrito com Paixão, Lisboa, Caminho, 1991, p. 68;
Gilberto de Oliveira, Memória Viva do Tarrafal, Editorial Avante, 1987, pp. 73-76;
Emídio Santana, História de Um Atentado: O Atentado a Salazar, Mem Martins,
Europa-América, 1975, p. 77.

51

O certo é que a sede conhecida por gerações de oposicionistas foi que se localizou na
Rua António Maria Cardoso, em Lisboa, ao lado do Teatro de São Luís e perto do Teatro
de São Carlos.
Em 1960, as instalações da sede da PIDE, alugadas à Casa de Bragança, já não eram
suficientes e o respectivo director, na época Homero de Matos, pediu a aquisição pelo
Estado não só desse edifício como de um terreno situado entre a directoria e o cinema
São Luís e o prédio onde tinha estado sediada a antiga Embaixada do Brasil, na Rua dos
Duques de Bragança, nas traseiras da Rua António Maria Cardoso (Nota 2). O Estado
continuou porém a alugar as instalações da PIDE, e, seis anos depois, Silva Pais
solicitou o arrendamento de ainda outro andar na mesma rua, com rés-do-chão e cave
(Nota 3).
A primeira grande subdirectoria ou delegação, depois da de Lisboa, foi a do Porto,
situada na Rua do Heroísmo, a qual tinha uma cadeia privativa. Em 1974, era chefiada
por Manuel da Silva Clara e subdirigida por Manuel José da Cunha, enquanto à frente
da delegação de Coimbra, na Rua Antero de Quental, estava Armindo Ferreira da Silva
(Nota 4).

Nota 2 - AOS/CO/IN, 16, pasta 4. Planta da instalação-sede da PIDE, Lisboa, 25/3/59;


MAI-GM, caixa 0207, carta enviada à PIDE pelo chefe do gabinete do ministro do
Interior, Mário Bento, em 12/7/61, e ofício da 2.a secção dos serviços administrativos da
PIDE ao ministro do Interior, em 24/7/61.
Nota 3 - MAI-GM, caixa 0309, pasta «postos da fronteira».
Nota 4 - AEPPA, «Elementos para a história da PIDE, «Para que o tribunal julgue a
PIDE»,
n.° 1,1976, p. 19.

52

II.
OS FUNCIONÁRIOS DA PIDE/DGS:
RECRUTAMENTO, FORMAÇÃO E DISCIPLINA

Através da caracterização social, profissional e geográfica dos seus elementos, analisar-


se-á, neste capítulo, o quadro dos funcionários da PIDE /DGS, com destaque para o
pessoal não administrativo, ou seja, os funcionários dos serviços de investigação e
informação, todos aqueles que dirigiram e participaram nas tarefas de informação,
vigilância, investigação e repressão (Nota 1). Serão ainda abordadas a ascensão, na
hierarquia da PIDE/DGS, dos seus principais funcionários policiais, bem como a
formação ministra da na ETP e a disciplina interna da polícia política.
O Quadro 8, baseado nos decretos-lei e ordens de serviço referentes à PIDE/DGS, refere
o número oficial do quadro geral de funcionários, ou seja, os lugares a preencher, mas
que nem sempre eram preenchidos: por exemplo, em 1946, o quadro comportava 518
elementos e a PIDE só tinha então 378 funcionários (Nota 2). Observe-se também que
«a lista de antiguidade do pessoal de direcção, investigação, técnico, administrativo e
menor». onde constam os nomes de todos os funcionários do quadro, apenas a apresenta
completa em 1965, dado que nos outros anos não surgem os nomes dos chefes de
brigada e agentes.
Dito isto, observa-se, no Quadro 8, que, a partir de 1961, por razões óbvias (início da
Guerra Colonial em Angola), houve um aumento exponencial dos elementos da PIDE
nas colónias. Como se viu, o Decreto-Lei n.° 43 582, de 4 de Abril de 1961, unificou
«os princípios que deviam reger o emprego da PIDE» nas províncias ultramarinas e
reuniu «num quadro único» os funcionários do «Ultramar e da Metrópole», conforme
estava previsto nos diplomas anteriores de 1954, 19573 e 1960.
Repare-se ainda que estes números oficiais, não batem certo com os relativos aos
funcionários do continente, ilhas e colónias existentes em 1974, fornecidos pela
Comissão de Extinção da PIDE/DGS, segundo a qual essa polícia teria então 2626
elementos (Quadros 9 e 10).

53

Quadro 8 – Número de funcionários segundo os quadros gerais de pessoal da PIDE, no


continente e ilhas

Alfredo Caldeira, que colaborou com a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, observou


que «os verdadeiros efectivos da PIDE/DGS nunca foram divulgados, pois que a polícia
mantinha-os secretos», mesmo perante a tutela, além de que, nos números de 1974,
também não se incluem os contratados fora do quadro, os eventuais e, evidentemente, os
informadores.

54

A discrepância pode ainda ter outras três explicações: ou, como se disse, o quadro
oficial da PIDE/DGS sempre teve oficialmente mais lugares do que aqueles que
efectivamente foram preenchidos; ou os números da Comissão de Extinção da
PIDE/DGS são os mais próximos da realidade, ou ainda esta última não apresentou o
número total certo, omitindo involuntária ou voluntariamente que havia mais
funcionários dessa polícia nas colónias. Lembre-se que, nas colónias, os funcionários da
DGS continuaram em actividade no período imediato ao 25 de Abril de 1974, encarados
já não como uma polícia política, mas como um serviço secreto de informações, de
apoio às Forças Armadas. No entanto, convém explicar que essa discrepância não tem
grande importância para o trabalho que aqui se pretende fazer, dade da PIDE/DGS no
continente duzidos pela Comissão de Extinção dos números oficiais acima referidos

Quadro 9 - Total de funcionários da PIDE/DGS em 1974, no continente, ilhas e colónias

II. 1. Caracterização dos funcionários da PIDE/DGS ao longo dos anos


Através de uma análise do cadastro dos funcionários da PIDE/DGS existente no
IAN/TT procedeu-se a uma tentativa de caracterização dos 3600 elementos que
estiveram ao serviço da PIDE/DGS no período entre 1945 f 1974, no continente e ilhas.
Deixa-se assim de fora os funcionários directamente colocados nas colónias
portuguesas, embora muitos dos que estão ti universo analisado também tivessem
cumprido comissões de serviço no ultra mar. No quadro abaixo, também estão incluídos
elementos que entraram pai a PVDE ou para polícias anteriores (Polícia Internacional,
etc.) mas que permaneceram, depois, na PIDE/DGS, entre 1945 e 1974.

55

Quadro 11 – Ano de contrato de elementos da PIDE/DGS

Por isso, surgem dois totais: um relativo a todo o quadro e outro relativo ao período
entre 1945 e 1974, sobre o qual foram calculadas as percentagens.
No Quadro 11, salta à vista que ingressaram na polícia política mais elementos nos anos
1948, 1954 e 1958 e após o início da Guerra Colonial, nomeadamente no período a
partir de 1964, quando, como se viu, a habilitação necessária para a entrada na
corporação passou a ser apenas a 4ª classe do ensino primário, e até 1967. Com o
intervalo do ano de 1969 — com menos admissões — entraram, depois de 1970, até ao
final do período de existência da DGS, um número considerável de novos funcionários.
Como se verá em apêndice, a maioria dos elementos da PIDE/DGS, ou seja, 77,1 % do
total, ingressou entre os 20 e os 35 anos. Fizeram-no já depois de se terem casado,
representando o número destes mais de 65 % do total, embora se deva observar que se
fez essa análise sobre um universo mais restrito, dado que se ignora o estado civil de
1215 elementos (31,3 %). Tinham evidentemente também já cumprido o serviço militar
obrigatório — uma regra para ingressar na PlDE, exceptuando os isentos —, na sua
maioria, em postos subalternos: assim, os sargentos, cabos e furriéis constituíam 39,4 %
do total. Também aqui o universo analisado é mais restrito, pois se ignora em que posto
militar ingressaram 1347 indivíduos.

56

Existe o lugar-comum de que o grosso dos elementos da PIDE/DGS, nomeadamente


dos agentes, eram elementos das classes mais baixas da sociedade, originários dos
campos, com pouca cultura e quase analfabeta. É um facto, porém, que a PIDE/DGS
evoluiu muito ao longo do tempo e, até ao início dos anos 60, o recrutamento era feito
num meio mais rural, uma década depois «a grande base de recrutamento foi a tropa, os
homens que fazem a guerra das colónias e que são recrutados "in loco". É isso que
afirma Fernando Rosas, ao acrescentar que os homens foral da PIDE, entre os quais se
contaram «o Mortágua, o Tinoco, o Abílio Pires» começaram «como tarimbeiros», ou
seja, ingressaram na polícia comi agentes auxiliares, enquanto os chefes da mesma,
«como o Saquetti [sic], o Silva Pais, o Agostinho Lourenço», eram oficiais das Forças
Armadas. O mesmo autor observa que não houve «grande recrutamento, entre os
intelectuais fascistas assumidos», os quais revelavam incomodidade em dizer que
colaboravam com a PIDE. (Nota 1)
Como se viu, a partir de 1964 era apenas necessário ter concluído) 4.a classe do ensino
primário ou o 1.° ciclo para entrar na PIDE. Como a pode ver em apêndice, 27,5% dos
elementos da PIDE/DGS tinha apenas essas habilitações. Havia, porém, alguns que
eram mesmo analfabetos oj apenas sabiam ler e escrever e até tinham ficado isentos de
fazer o exame da 3.a classe do ensino primário. Por outro lado, 38% tinha apenas o 1.°
ciclo do ensino secundário, muitos deles incompleto.
Ao acrescentar-se à percentagem de 65,5% dos que apenas tinham a escolaridade
primária e o primeiro ciclo incompleto do ensino secundário os que tinham a frequência
incompleta de cursos técnicos, conclui-se que 77,5 % dos elementos da PIDE/DGS
tinha apenas essas habilitações. Isto, além do facto de 2,6 % dos elementos terem
frequentado o seminário, de bem a medida da origem social dos mesmos, provenientes
do meio rural Finalmente, respectivamente 7,1% e 2,47% dos elementos da PIDE /DGS
haviam frequentado o 2.° ciclo e o 3.° ciclo do ensino secundário apenas 1,1 % tinha
frequentado o ensino superior.
Relativamente às profissões, num universo de cerca de 1400 elemento (muitos não têm
indicação, o que pode significar que não tinham uma profissão anterior) verifica-se que
cerca de 30 % dos admitidos nessa polícia eram camponeses ou assalariados agrícolas,
operários, pessoal menor ofl com outras profissões manuais, enquanto mais de 35 %
provinham do comércio e dos serviços. Os estudantes (não se trata aqui de estudantes
universitários, mas de elementos que estavam em qualquer grau de ensino), ou seja, os
jovens que ainda não tinham tido outra profissão anterior, representavam 12 % do total.
Finalmente, apenas 1,25 % eram licenciados ou tinham uma profissão liberal, 6,8 %
eram mulheres domésticas e cerca de 6 % provinham de outras forças policiais e
militares.
Quanto à naturalidade dos elementos da PIDE/DGS, Setúbal, Beja e Évora e, em parte,
Aveiro, Viana do Castelo, Braga e Leiria parecem ter sido os distritos onde não havia
«tradição» de ingressar nessa polícia. Numa posição intermédia estavam os distritos de
Portalegre, Faro, Santarém e Guarda, onde nasceram em média 4 a 5 % dos elementos
da PIDE.

57

Em contrapartida, os Açores e as cidades de Tondela, Viseu, Bragança, Castelo Branco,


Tomar, Torres Novas, Santarém, Lamego, Coimbra, Porto e, sobretudo, Lisboa deram
numerosos elementos à polícia política.
De relevar que certos microcosmos «tradicionalmente» com grande influência do PCP
e, como se verá, com muitas detenções ao longo dos anos, parecem ter sido regiões onde
poucos conterrâneos desejaram ingressar na PIDE/DGS. Além do mais não exerciam a
sua tarefa policial no local: veja-se como exemplo o facto de o único elemento natural
de Alpiarça ter sido o tenente-coronel Rui Pessoa de Amorim Melício, admitido como
subdirector da PIDE, em Janeiro de 1958, que chegou a inspector superior nessa
corporação policial.
Entre as zonas fronteiriças, de onde eram naturais muitos elementos da PIDE/DGS,
contaram-se Castro Marim (Faro), Sabugal, Pinhel e Guarda e as zonas raianas de
Bragança (Torre de Moncorvo, Vinhais, Mirandela e Mogadouro) e Vila Real (Alijó,
Montalegre e Chaves). No distrito de Aveiro, enquanto nenhum elemento da PIDE é
natural de São João da Madeira e só um de Castelo de Paiva, o número de naturais da
polícia é relativamente alto em Sever do Vouga. No distrito de Braga, muitos são
naturais de Barcelos e de Braga, mas nenhum de Cabeceiras de Basto.
Outros concelhos com um proporcionalmente grande número de funcionários da polícia
política aí nascidos foram os de Idanha-a-Nova, Fundão e Castelo Branco, no distrito
com este nome, de Pampilhosa da Serra, Montemor-o-Velho e Oliveira do Hospital
(distrito de Coimbra), de Leiria e Pombal (Leiria), de Elvas e Portalegre (zonas
fronteiriças do distrito de Portalegre), da Póvoa do Varzim e de Penafiel (Porto).
Em conclusão, pode dizer-se que a maioria dos elementos da polícia política são
originários dos meios rurais do Norte e centro interior do país, ou seja, de terras de
pequena propriedade, mas também das grandes cidades como Lisboa, Porto e Coimbra.

II.2. Ingresso e formação dos funcionários da PIDE/DGS


No cadastro de funcionários da PIDE/DGS, entre 1945 e 1974, observa-se que, de um
modo geral, a maioria ingressou como agente provisório, auxiliar ou de 3.a classe,
consoante a definição que lhe foi dada nos diferentes períodos, ou, a partir de
determinado período, como agente de 2.a classe. Após frequentarem um curso elementar
de três meses, os agentes cumpriam um estágio, durante um mínimo de seis meses, em
vários postos, delegações ou na sede, nomeadamente no SEF e na DSIC (Nota 1).
Ascendiam depois, lentamente, ao fim duns anos, após frequentarem a ETP e se
submeterem a um concurso, com provas para ingresso na categoria de agente de 1ª
classe. Após novo curso e concurso, ascendiam ou não a chefe de brigada, a
subinspector e, depois, a inspector.

Nota 1 - Portugal Informação, «Dossier para a história do fascismo português — a


PIDE».

58

Entre os que chegaram a postos mais altos, contaram-se António Rosa Casaco, Fernando
Gouveia, Sílvio Mortágua e Adelino Tinoco, que passaria por uma longa tarimba.
Quando, a partir de meados dos anos 60, começara a ingressar na PIDE alferes
milicianos que já haviam cumprido o serviço militar, nomeadamente comissões de
serviço em África, alguns entraram já no posto de inspector.
Os principais elementos da PIDE/DGS que fizeram uma longa carreira nessa polícia
distinguem-se, do ponto de vista cronológico, por terem pertencido a quatro levas
principais: a primeira, que incluiu elementos recrutados nos anos 30, para as polícias
anteriores à PVDE e quando esta foi criada, em 1933; a segunda, que integra os
funcionários que ingressaram na PIDE em 1945 ou nos anos seguintes; e, finalmente, a
terceira e quarta levas, juntam os que entraram, respectivamente, nos anos 50 e 60. Em
apêndice pode-se ver o percurso ascensional no seio da PIDE/DGS dos seus principal
elementos ao longo dos anos.
Como se viu, muitos funcionários ingressaram e subiram na escala hierárquica da
PIDE/DGS a partir do final dos anos 40, mas houve também candidatos a essa polícia
que não lograram aí arranjar lugar. Por exemplo em 1948, um antigo elemento da PVDE
e da LP, Salvador José dos Santos, pediu a sua reintegração na PIDE, mas foi recusado
por ser considerado «de moral duvidosa» (Nota 1). Outro caso de recusa de entrada na
PIDE ocorreu em Outubro de 1955 com o inspector da PJ Gastão de Lorena de Sèves,
que pedira para ingressar como subdirector. O gabinete do ministro de Interior
informou-o, porém, de que a pretensão não podia ser deferida devido a duas prisões que
teria ordenado na PJ por razões menos dignas. (Nota 2)
Perante uma recusa do Ministério do Interior, um indivíduo do Porto explicou, em 1961,
que não pretendia ingressar na PIDE mas numa «CIA portuguesa e não um FBI (que é o
equivalente da nossa PIDE)» (Nota 3). Nesse período, o próprio Silva Pais agastou-se,
ao verificar que muitos candidata à PIDE apenas pretendiam pertencer a uma força de
autoridade. Por exemplo, sobre um determinado indivíduo, considerou que era «mais
um dos que pretendem um cartão de autoridade, para exibição e actuação, o que não é
possível atender, não só por ser ilegal como pelos inconvenientes que disso poderiam
resultar» (Nota 4).

II.2.1. A formação na ETP


A maioria dos agentes da PIDE/DGS tinha fracas habilitações, ao ingressar nessa
polícia, que, consciente dessas deficiências, teve a preocupação de formar os seus
funcionários.

Nota 1 - PIDE/DGS, NT 4172, copiador SR, correspondência expedida, Serviços


Centrais,» pasta 1; MAI-GM, caixa 40, 17/8/48 e 5/5/49.
Nota 2 - MAI-GM, pasta «processos», carta do ministro de 31/10/55.
Nota 3 - Ibidem, caixa 207,10/2/61.
Nota 4 - Ibidem, caixa 250, pasta «nomeações, licenças, concursos».

59

O capitão Agostinho Lourenço criou, ai sim, em 1948, a Escola Técnica de Polícia ou da


PIDE (ETP) (Nota 1ª), destinada ao ensino e selecção de candidatos a agentes de
polícia, bem como ao aperfeiçoamento e especialização dos graduados e agentes,
mediante cursos elementares, de ?¦ ;rfeiçoamento e de especialização (Nota 1).
Dirigida, em 1949, por Joaquim Duarte da Silveira, a ETP contava, entre os seus
professores Fernando Falcão Machado, Carlos Lopes Veloso e Guilherme Frédéric
Daupiás, os inspectores Raul Rosa Porto Duarte e Jorge Marques Ferreira e o capitão
Paulo Cumano, estes três últimos funcionários da PIDE. A estes professores juntaram-
se, nos anos seguintes, Noé de Freitas Albuquerque, Luís Mouzinho de Albuquerque
Viana Pedreira, Rui Jorge de Amorim Pessoa Ribeiro, professor de Ciências e Química,
e o capitão Henry Dumond Nesbitt (Nota 2).
Entretanto, para os elementos mais graduados, a PIDE criou um Gabinete de Estudos e
um Boletim de Informação, que surgiu pela primeira vez, a stencil, em Julho de 1951, e
foi publicado até Fevereiro de 1954, num total de 32 números. O director da ETP
sugeriu, nesse mesmo ano de 1951, a organização de um núcleo de estudos e
investigação científica, que se passou a chamar Conselho Escolar (CE) (Nota 3). Em
1963, ano do primeiro curso elementar para agentes femininos de 2.a classe, Carlos
Lopes Veloso assumiu interinamente a direcção da ETP (Nota 4) e, no ano seguinte,
foram novamente definidos os objectivos e requisitos dos cursos elementares, de
aperfeiçoamento e especialização ministrados na ETP.
Veja-se de que forma foram analisados e valorizados os candidatos, em 1966, através
das observações feitas pelo CE, então presidido por Manuel da Silva Clara: assim,
enquanto um dos candidatos foi considerado como sendo «conquistador, filósofo,
amável», outro tinha «espírito generoso e firme», enquanto outros surgiam como
«descontentes consigo próprios» e «excessivamente dissimulados e orgulhosos» (Nota
5). Quanto às candidatas a agentes auxiliares, uma foi considerada como tendo
«consciência pura» e seguindo «tranquila o seu caminho não alternando a sua placidez
nem com questões de moral», enquanto outra era vista como tendo «nervos fortes» e
desejando «governar o mundo», ao mesmo tempo que era «terna» e «mulher do lar»
(Nota 6).
No final dos cursos desse ano, o director da ETP considerou, porém, que os agentes
tinham uma formação deficiente e que só eram aprovados graças à benevolência dos
professores.

Nota 1a - Nota 5 - PIDE/DGS, NT 8851, OS 21, de 21/1/48, portaria de 26/12/47, OS


71, de 11/3,1 OS 348, 13/12.
Nota 1 - Ibidem. Catálogo da Exposição sobre a PIDE/DGS no IAN/TT, cat. 117, vol. i.
Nota 2 - MAI-GM, caixa 476, pasta «Janeiro a Junho».
Nota 3 - PIDE/DGS, NT 8851, Actas do Conselho Escolar da ETP, de 1952, actas n.°
32, de 1/2, en.° 187, de 6/7.
Nota 4 - Eram então professores da ETP o sub-inspector Raposo de Medeiros, o major
Francisco Saldanha e Fonseca, o agente técnico Fernando Castanheira Francisco, bem
como Júlio Alberto Costa Evangelista, Januário dos Santos Pinheiro, José João Baptista
e Joaquim da Costa Micael.
Nota 5 - PIDE/DGS, Actas do CE da ETP, vol. n, 1965-1974, actas n.° 186, de 8/4/65,
n.° 188, de 20/4, n.° 192, de 18/6/65, no vol. n do livro de actas, 1965-1774.
Nota 6 - Ibidem, acta n.° 202, de 26/5/66.

60

Benevolência essa que, porém, o presidente do júri, Manuel Silva Clara, agradeceu,
devido à necessidade que a PIDE tinha, por falta de pessoal, de aproveitar quase todos
os candidatos, mesmo os menos capazes, muitos dos quais haviam revelado grandes
qualidades no ultramar (Nota 1). Em 1970, a situação permanecia pouco brilhante,
embora o CE sugerisse que os cursos elementares de admissão a «agentes provisórios»
(Nota 2) tivessem duração inferior ao habitual e que as aulas fossem substituídas por
palestras (Nota 3).
Dadas as dificuldades sentidas pela DGS de Luanda no preenchimento das vagas na
categoria de agentes estagiários e de 2.a classe, a respectiva delegação passou, em
Dezembro de 1972, a efectuar mensalmente provas para admissão de funcionários
daquela primeira categoria, propondo aindam criação de uma escola técnica nessa
colónia. Ao ser extinta, na sequência do golpe militar de 25 de Abril de 1974, a ETP
tinha, no seu quadro docente, 39 professores (Nota 4).
Na ETP, os agentes aprendiam todas as normas legais, tinham aulas de prática
processual e treinavam a feitura de diversos autos. No caso de indivíduos presos, eram
feitos «autos de perguntas» e, nos casos de arguidos soltos, eram realizados «autos de
declarações». Havia ainda «autos de reconhecimento» e «autos de corpo delito»
(inquirição a testemunhas). Nas aulas de Prática Processual, ficavam a saber quais eram
«as competências da DGS, ou seja, a «investigação de crimes contra segurança interior
e exterior do Estado e a instrução preparatória desses processos, e do mesmo modo
quanto a infracções de emigração, imigração, passagem de fronteiras e per-manência e
trabalho de estrangeiros em Portugal, prazos e instrução contraditória».
Além da recolha dos indícios, feitura de exames e da inspecção de vestígios do crime,
os alunos eram instruídos no sentido de reconhecer os «direitos das testemunhas e
declarantes» e, nomeadamente, que «as pessoas não são obrigadas a depor nem a prestar
declarações» (destaque na própria sebenta da ETP). Quanto às «buscas e apreensões»,
as primeiras não poderiam «iniciar-se antes do nascer ou depois do pôr-do-sol, salvo se
nisso consentir o detentor do prédio ou se se tratar de casa sujeita por lei à fiscalização
especial da Polícia, como é dos casos dos hotéis, hospedarias, restaurantes , cafés,
tabernas, casas de diversões, casas de pernoita ou com quarto de aluguer, casas de
prostituição».
Outra matéria importante ministrada na ETP era a «técnica ao serviço da polícia», onde
os elementos da PIDE/DGS aprendiam as formas de colaboração entre os serviços
técnicos e os serviços de investigação e, sobretudo, as modalidades de «interrogatórios»
(Nota 5). Segundo a sebenta da ETP, «para se poder concluir é preciso estar
suficientemente informado, o que, em parte, resulta do interrogatório», e, por isso, havia
a necessidade de «saber de que forma, sobre que e quem, interrogar, sem intimidar,
animar, ou excitar, admitindo que a sinceridade nem sempre representa a verdade e que
honestamente e sem intenção se falseia (Nota 6 ).

Nota 1 - Ibidem, acta n.° 200, de 2/4/66.


Nota 2 - Ibidem, acta n.° 238, de 5/12/69. A última acta, n.° 238, tem a, data de 4/1/74.
Nota 3 - Ibidem, acta n.° 248, de 24/10/70, cursos.
Nota 4 - «Revelados professores da PIDE», A Capital, 1/4/75, p. 10.
Nota 5 - PIDE/DGS, NT 8868.
Nota 6 - Ibidem, pr. 12641 Cl (2), Catálogo da Exposição sobre a PIDE/DGS, cat. 103,
fl. 623.

61

Quadro 12 - Alunos aprovados e excluídos nos cursos da ETP e percentagem destes


últimos relativamente aos primeiros (1947/48-1965/1966)

Anos Aprovados Excluídos %


1947/1948 37 9 24,3
1948/1949 104 33 31,7
1949/1950 68 19 27,9
1950/1951 88 11 12,5
1951/1952 39 19 13,6
1952/1953 88 22 25
1953/1954 89 29 32,5
1954/1955 80 14 17,5
1955/1956 110 37 33,6
1956/1957 99 23 23,2
1957/1958 73 20 27,3
1958/1959 93 11 11,8
1959/1960 72 15 28,8
1960/1961 154 16 10,3
1961/1962 82 4 4,8
1962/1963 64 1 1,5
1963/1964 105 3 2,8
1964/1965 120 2 1,6
1965/1966 50 1 2

Fonte: actas do CE da ETP, NT 8244 e 88.

Finalmente, nas aulas de preparação política eram valorizados os conhecimentos sobre o


comunismo, considerado o inimigo principal. Havia, nomeadamente, uma sebenta
intitulada «As medidas legislativas de defesa contra o comunismo», onde, entre as
propostas de medidas de defesa na legislação, se enumerava: a obrigatoriedade de
publicidade dos métodos comunistas; a depuração da administração pública; o reforço
contra a espionagem e sabotagem da defesa nacional; a interdição dos partidos
comunistas e das suas organizações satélites e a repressão da acção legal dos seus
membros (Nota 1).

II.3. A DISCIPLINA NA PIDE/DGS


Os funcionários da polícia política estavam sujeitos a um regulamento disciplinar
próprio, que premiava os que eram considerados dignos de louvor pela sua actividade e
punia os que cometiam infracções. A maioria dos louvados eram-no por serviços
prestados: foi o caso, por exemplo, do então chefe de brigada Fernando Araújo Gouveia,
elogiado em 1947 «pelas diligências das quais resultaram prisão de elementos do PC e
apreensão de documentos», juntamente com dois agentes que prenderam um indivíduo
travando luta da qual resultou o ferimento de um deles (Nota 2).

Nota 1 - Ibidem, cat. 103, fls. 103-104, sebenta do curso da ETP.


Nota 2 - Ibidem, OS 184, de 3/7/47; OS 66, de 7/3/49.

62

Muitos dos elementos louvados foram também promovidos à categoria hierárquica


superior e a corporação no seu todo também foi, frequentemente, louvada pelo ministro
do Interior, como em 1947, devido à «disciplina, dedicação, espírito de sacrifício e
abnegação» com que servia o país, defendendo a ordem (Nota 1). A partir de 1950, os
louvores não especificavam, em regra, as razões das recompensas, provavelmente para
não dar publicamente conta de quem tinha prendido quem. Por exemplo, em 1952, os
chefes de brigada António do Sacramento e Manuel Farinha dos Santos, bem a mo sete
agentes, foram louvados por terem evitado «conflitos propositadamente provocados»,
num «serviço de vigilância melindroso» (Nota 2).
Mas se muitos funcionários da PIDE/DGS foram louvados, outros ou os mesmos
também foram castigados. Ao chegar à chefia da PVDE, o capitão Agostinho Lourenço
impôs a existência de um registo criminal limpo e o patrocínio de dois oficiais do
Exército para ingressar na polícia política. Expurgou a corporação de agentes acusados
de furto ou assassínio e estabeleceu uma disciplina interna, punindo, nomeadamente,
todos os que usurpassem ou abusassem da autoridade (Nota 3). No ano de 1945, em
que, com criação da PIDE, Agostinho Lourenço emitiu uma série de regulamentos
disciplinares, muitos elementos foram castigados por se envolverem em desordens,
enquanto outros foram sancionados. (Nota 4)
Os oficiais superiores raramente eram castigados. Veja-se, por exemplo, o inquérito
instaurado, em 1947, ao subinspector Júlio de Almeida, onde não se verificou que
tivesse «cometido qualquer infracção antes se demonstrando que actuou com zelo numa
espinhosa e delicada missão confiada à PIDE», devendo por isso reassumir as suas
funções (Nota 5). Júlio de Almeida tinha afastado, no ano anterior, provavelmente
devido à sua relação com a comunista Carolina Loff da Fonseca, igualmente expulsa do
PCP. (Nota 6)

II.3.1. Abuso de autoridade

Abusar da autoridade foi talvez das práticas mais usuais entre os e1ementos da
PIDE/DGS, o que levou a que, por vezes, alguns casos fossem punidos. Em 1946, foi
sancionado um agente ao qual tinha sido embargada a entrada numa sala de teatro, por
ausência de livre-trânsito, que abusou da sua autoridade ao ordenar ao fiscal que o
acompanhasse à sede da PIDE (Nota 7). Esse e outros factos levaram a que fossem
dadas, em 1948, instruções para obstar ao uso abusivo de documentos de livre-trânsito,
lembrando a direcção da PIDE que eram um instrumento do serviço e não uma regalia
(Nota 8). Quanto às viagens de comboio, só podiam frequentar as carruagens de
primeira classe os funcionários com categoria de primeiro-oficial e superior, viajando
todos os outros em terceira classe (Nota 9).

Nota 1 - Ibidem, OS 44, de 13/2/47.


Nota 2 - Ibidem, OS 177, de 26/6/52.
Nota 3 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., nota 1, p. 293.
Nota 4 - PIDE/DGS, OS 194, de 13/7/46.
Nota 5 - 'Ibidem, OS 121, de 1/5/47.
Nota 6 - Ana Barradas, As Clandestinas, p. 91.
Nota 7 - PIDE/DGS, OS 271, de 28/9/46.
Nota 8 - Ibidem, OS 174, de 22/6/48.
Nota 9 - Ibidem, OS 285, de 12/10/49.

63

Para só dar dois exemplos de casos de abuso de autoridade, registe-se o de um agente


que, em 1965, se identificou como sendo da PIDE «em termos autoritários», exibindo
ostensivamente a pistola, para poder permanecer durante a noite na sala de espera da
estação de Portimão. Acabou, porém, apenas punido com oito dias de multa, por se ter
mostrado arrependido e ter alegado que, criado no campo, tinha pouca experiência da
vida da cidade (Nota 1). Em 1968, os agentes Luís Gonçalves Ribeiro e António Pereira
Malta foram a uma livraria para apreender livros proibidos, mas acabaram a insultar e
agredir o proprietário, o qual obrigaram, depois, a pagar a conta do que consumiram
numa cervejaria. Os dois agentes foram sujeitos a processo disciplinar, instruído por
Fernando Gouveia, que propôs a pena de demissão, mas Silva Pais resolveu dar-lhes
uma última oportunidade, punindo-os com seis meses de suspensão (Nota 2).
Por vezes, os abusos de autoridade encontravam resistência por parte das suas vítimas.
Foi o que aconteceu com o porteiro do banco do Hospital de Santa Maria, em Lisboa,
que recusou a entrada, em 1970, ao agente Abílio Santana Novo, que pretendia visitar
um cunhado, recusando identificar-se. Em face da informação apresentada pelo agente
de que o porteiro teria dito «é da PIDE, dessa merda», o chefe de brigada Tienza
ordenou a sua detenção.
Levado para a DGS, o porteiro queixou-se, depois, de ter sido espancado, no gabinete
de Seixas, pelo inspector Abílio Pires, pelo chefe Tienza e pelos agentes Abílio Novo,
Pompílio Rosário, José Dionísio e Alberto António Silva Ribeiro. O certo é que deu
entrada no Hospital de Santa Maria com um traumatismo craniano com perda de
conhecimento e diversas feridas, mas a DGS concluiu que os ferimentos eram poucos
para quem alegara ter sido espancado por seis elementos. O agente Abílio Novo foi
punido com vinte dias de suspensão, Agostinho Tienza com uma advertência, José
Dionísio com cinco dias multa e Pompílio do Rosário com uma repreensão escrita (Nota
3).

II.3.2. Infracções à confidencialidade

A necessidade de confidencialidade foi também permanentemente lembrada a todos os


funcionários da PIDE4, para os quais havia punições caso entregassem documentos
respeitantes à segurança do Estado a pessoas não autorizadas, obtivessem ou revelassem
informações a espiões estrangeiros (Nota 5). Em 1948, um agente de l.a classe foi
punido com 30 dias de suspensão de exercício e vencimentos por fornecer, para fins
meramente particulares, um documento oficial a uma pessoa estranha ao serviço (Nota
6),

Nota 1 - Ibidem, proc. disc. 6/65, Sá e Seixas, 7/12/65.


Nota 2 - Ibidem, proc. disciplinar 1/68; AOS/CP, 208, p. 21, 6.1.1/21.
Nota 3 - MAI-GM caixa 033, fls. 155 e segs. Processo de inquérito disciplinar, ano de
1970, agente Abílio Santana Novo, subinspector Tienza, agentes José Joaquim Dionísio
Alberto e Pompílio Gabriel do Rosário e instrutor Rogério Morais Coelho Dias.
Nota 4 - PIDE/DGS, OS 118, de 28/4.
Nota 5 - Ibidem, OS 229, 17/8/46.
Nota 6 - Ibidem, OS 317, de 12/11/48.

64

enquanto um chefe de brigada foi demitido por revelar, a estranhos, factos de que só aos
seus superiores devia dar conhecimento (Nota 1).
Em 1951, houve um processo disciplinar curioso, motivado por falta de
confidencialidade, no caso Mário Mesquita, um funcionário do PCP que delatou os seus
antigos camaradas. Para se vangloriar dessa traição, a agente da brigada de Fernando
Gouveia disse ao chefe de brigada Gomes da Silva e ao agente Mortágua, da
subdirectoria do Porto, que em Lisboa é que se trabalhava, «tanto assim que havia sido
preso um membro do CC do PCP, o qual havia feito declarações» (Nota 2). Outro caso
aconteceu com uma tradutora-intérprete, que trabalhou na PIDE/DGS e foi detida, em
1969, sob a acusação de vender «segredos» da polícia. Interrogada pelo Serviços de
Coordenação de Extinção da PIDE/DGS, após 25 de Abril de 1974, afirmou a sua
detenção apenas durara 24 horas e que continuara, depois, a trabalhar pontualmente na
DGS, porque, fazendo bluff, alegara «existirem em poder de pessoas das suas relações
documentos manuscritos que denunciavam actividades ilegais da ex-DGS» (Nota 3).

II.3.3. Agressões e ameaças

Maus tratos a presos e outras pessoas foram, por vezes, assumidos pela hierarquia da
PIDE, que moveu por esse motivo alguns processos disciplinares a agentes. Manuel
Farinha dos Santos foi suspenso, durante 60 dias, em 1948, por ingestão de bebidas
alcoólicas, de que resultara agressão a «dois presos, que estavam a ser interrogados e
cujas respostas considerou incompletas ou insuficientes» (Nota 4). Em 1950 foi a vez de
o agente Santos Costa ser acusado de ter agredido o preso Carlos Simões, em Caxias
(Nota 5).
Mas nem só presos eram agredidos e diga-se que, por vezes, a imprensa regional
denunciou actos de violência por parte de elementos da PIDE, como aconteceu com a
Voz de Melgaço, que, em 1 de Julho de 1956, noticiou uma agressão perpetrada pelo
agente do posto de São Gregório, Manuel Moreira Ferreira. O instrutor do processo
disciplinar, subinspector José da Costa Pereira, apurou, porém, que o indivíduo
«supostamente agredido era um alcoólico inveterado, cujos ferimentos se tinham devido
ao estado de embriaguez, e concluiu que o agente se havia limitado a praticar um «acto
humanitário» (Nota 6).
Em Maio de 1957, outro indivíduo queixou-se de a sua casa ter si alvo de busca e de ele
próprio ter sido obrigado a ir à sede da PIDE de Coimbra, onde tinha sido agredido e
ameaçado de cavalo-marinho pelo chefe de brigada Armando Rego, que recusara a sua
hospitalização.
Nota 1 - MAI-GM, caixa 0377.
Nota 2 - Ibidem, proc. disciplinar de 26/3/51.
Nota 3 - Arquivo Histórico Militar, José Gonçalves, TMT, 4.a Juízo, proc. dos serviços
de justiça da SCE da PIDE/DGS, 25/11/76, vol. 1, fl. 118.
Nota 4 - PIDE/DGS, OS 363, de 28/12/48.
Nota 5 - MAI-GM, caixas 0038 e 0042, 1950, 1951, 29/8/51.
Nota 6 - Ibidem, caixa 030, proc. disc. «Diversos».

65

O chefe da subdelegação afirmou que «o mexilhão» era um «cadastrado» «mentiroso»,


envolvido em emigração clandestina e engajamento, e assegurou, «sem receio de
desmentido, que nenhuns maus-tratos lhe foram infligidos (Nota 1).

II.3.4. Insultos e maus tratos a mulheres

Atentados «ao pudor» a crianças e a mulheres, agressões a presas e familiares destas


também fizeram parte do rol do comportamento de elementos da PIDE. Em 1949, a
mulher de um detido acusou um agente de lhe ter proferido palavras atentatórias da sua
dignidade de mulher casada. No entanto, no inquérito, conduzido por Agostinho
Barbieri Cardoso, este concluiu que o agente Oliveira e Costa só teria tentado acalmar a
mulher, que era, «aliás, feia e nojenta», não sendo, por isso, «de admitir que o agente
sentisse qualquer desejo que o tentasse a faltar ao seu dever de correcção» (Nota 2).
Nos anos 50 e 60, foram vários os casos de processos disciplinares por envolvimento
com mulheres (Nota 3). Um dactilógrafo da PIDE e um guarda da prisão de Caxias
foram acusados de agarrarem pelas costas uma detida de nacionalidade belga, quando
esta se encontrava nua da cintura para cima na casa de banho (Nota 4). Em 1972,
ocorreu outro episódio com um agente da então DGS, em serviço no comboio Lusitânia
Expresso, que foi demitido, por ter entrado na carruagem-cama onde dormia uma
jovem, tentando molestá-la (Nota 5).
A violência de elementos da PIDE chegou mesmo a atingir, por vezes, as próprias
mulheres destes e, num dos casos, os maus tratos chegaram ao assassinato. Em 12 de
Setembro de 1952, O Século noticiou que continuava preso em Portimão o agente
Mário Rocha, da PIDE, suspeito de ter assassinado com a pistola de serviço Maria da
Conceição Costa, grávida, com quem vivia maritalmente. Preocupada com a má
publicidade feita à corporação, a PIDE interrogou o correspondente do jornal, que,
provavelmente ameaçado, declarou ter indicado a profissão do arguido por
desconhecimento da lei de imprensa e não com «qualquer intenção de desprestígio para
a corporação» a que pertencia.
No auto de declarações prestadas à PIDE de Portimão perante o inspector Boim Falcão
e o chefe de brigada Filipe dos Reis Teixeira, o arguido disse ter deixado a arma em
casa, dando a entender que a mulher a tinha disparado acidentalmente. Diga-se que o
cadáver desta apresentava quatro diferentes orifícios de entrada de bala. Em 24 de
Outubro, o agente foi libertado, sendo apenas punido com 60 dias de suspensão de
vencimento, por apenas se ter provado que transportava a arma sem as elementares
precauções de segurança, além de que tinha ignorado os mais elementares cuidados na
conservação de vestígios de um processo crime (Nota 6).
Nota 1 - Ibidem.
Nota 2 - MAI-GM, caixa 004, 5/9/49.
Nota 3 - Ibidem, proc. disc. Subdirector do Porto 8/53.
Nota 4 - Ibidem, proc. disc. 5/64.
Nota 5 - Ibidem, caixa 037, 1972, agente de 1.ª classe Francisco António da Mata
Pereira.
Nota 6 - Ibidem, caixa 824, 1962-1963, proc. disc. 18/52, Ser. de 1952, fls. 2, 3, 15, 34 e
35.

66

II.3.5. Embriaguez, pancadaria e frequência de bordéis e bares

Informado de que diversos funcionários da PIDE frequentavam bares e dancings e


outros recintos «duvidosos», pela «qualidade das pessoas dos dois sexos que
normalmente ali se encontram», o director da PIDE proibiu-lhes, em 1952, a frequência
desses locais (Nota 1). Assim, em 1953, um agente foi punido com 30 dias de suspensão
por não relatar ocorrências relativas a uma bailarina espanhola do Maxim’s, «talvez com
a intenção de ter relações íntimas com ela» (Nota 2).
O agente de l.a classe António Epifânio Nogueira Correia foi reincidente em vários
casos e alvo de diversos processos disciplinares. Num deles, em 1962, deu voz de prisão
a um indivíduo que afirmou depois ter sido insultado e agredido com o cabo de uma
navalha, na sede da PIDE. (Nota 3)
Em 1964, António Epifânio Correia foi novamente punido com 10 dias de suspensão,
acusado de ter causado escândalo público e puxado da pistola num café onde, segundo
ele, lhe tinham chamado «bufo da PIDE» (Nota 4). Em Junho, sem se identificar como
elemento da PIDE, entrou em altercação com o proprietário de uma pastelaria, um
espanhol que teria, segundo ele, proferido insultos contra Portugal e os Portugueses.
Muitos clientes defenderam, porém, o proprietário e o agente Epifânio chamou um
guarda da PSP, que recusou actuar, afirmando não se meter em «assuntos políticos».
Resta dizer que Epifânio Correia omitiu, ao ser inquirido em processo disciplinar, que
tinha agredido o espanhol (Nota 5).
Esse agente tornou-se bastante conhecido na própria PIDE, por se exceder e embriagar
(Nota 6). Um dos casos passou-se em 1965 em Loures, onde mesmo o seu presidente
da câmara apresentou queixa ao governador civil de Lisboa, por aquele agente ter
agredido «barbaramente» diversas pessoas, na rua, levando-as para a esquadra, onde
continuara a espancá-las, mostrando-se como um «indivíduo comandado por alcoólica
bebida». Essa «atitude inesperada de autêntico terrorismo, tomada por tal indivíduo, que
em altos gritos fazia alarde da sua condição de agente da PIDE», espalhara o pânico e a
revolta entre a população. Lembrando que estava em causa «o próprio prestígio da
PIDE», o presidente da câmara pediu ao governador civil para informar a «gente de
Loures» das «providências tomadas» por essa corporação policial, pela qual tinha, aliás,
a maior consideração. Que fez o instrutor do processo disciplinar, Óscar Cardoso? Não
negando os factos, considerou, porém, que a «atitude impetuosa, imponderada, isenta de
bom senso» do agente não havia sido «tão calamitosa» como lhe havia imputado o
autarca, pedindo benevolência para o arguido.
Não tendo sido a primeira, esta acusação também não foi a última pois em 1966 o
mesmo Epifânio Correia foi acusado de agressão a quatro soldados, um deles a pontapé
e soco, quando já estava prostrado no chão.

Nota 1 - PIDE/DGS, OS 46, 15/2/52. Determinação extensiva à subdirectoria do Porto,


Inspecção de Coimbra, delegações e postos.
Nota 2 - MAI-GM, caixa 008, 1953, proc. disc. 2/53.
Nota 3 - Ibidem, caixa 022, proc. disc. 5/62.
Nota 4 - Ibidem, proc. disc. 1/64
Nota 5 - Ibidem.
Nota 6 - Nuno Vasco e Óscar Cardoso, A bem da Nação, p. 50.

67

Concluído o inquérito, a PIDE considerou provada, embora exagerada, a acusação e, de


novo, o facto de ele ser considerado um óptimo profissional fez com que só fosse
punido com 15 dias de suspensão. Dois anos depois, foi novamente acusado de agressão
a um indivíduo (Nota 1).

II.3.6. Altercações entre elementos da PIDE e problemas com a PSP

Devido a diversas altercações entre elementos da PIDE e da PSP, Agostinho Lourenço


emitira, em 1948, uma recomendação onde se dizia que na execução de várias
diligências poderia ocorrer que agentes da PIDE se vissem obrigados, por razões
imperiosas de serviço, a transgredir determinações de carácter geral, de trânsito ou
outras. Quando tal acontecesse — continuava a nota — e interviessem elementos da
PSP, os da PIDE deviam identificar-se, rápida mas claramente, mostrando o crachá e
acrescentando que a transgressão se dera por motivo de serviço (Nota 2).
Continuaram, porém, a acontecer casos de desrespeito pela autoridade da PSP (Nota 3).
Em 1950, um funcionário da PIDE foi apanhado pela PSP no Rossio «em propostos
desonestos» com um indivíduo, pelo que foi demitido. Ocorreram, aliás, outros casos de
homossexualidade que envolveram elementos da PIDE: num deles, sete anos depois, um
agente foi apanhado num beco de Ponta Delgada a praticar «actos contra a moral»,
seguindo-se um inquérito no qual nada se provou, apesar de uma antiga namorada
daquele se ter queixado de que «seus modos e a sua maneira de falar, até mesmo o seu
tom de voz», lhe deixavam dúvida de se estar ou não «perante um pederasta» (Nota 4).
Mas voltando aos problemas com a PSP, em 1965, dois agentes auxiliares da PIDE
envolveram-se à pancada com «gente de baixo nível social, sendo insultados» e
puxando da pistola; a PSP foi chamada a intervir e a levar os dois elementos à esquadra.
Como o caso teve «grande repercussão», foram punidos com 30 dias de suspensão sem
vencimento (Nota 5). Finalmente, em 1971, um agente da delegação da DGS de
Coimbra que se embebedara com uns amigos e desfechara dois tiros contra um cartaz do
cinema Sousa Bastos foi levado para a esquadra da PSP e depois entregue à DGS.
Como, porém, tivesse afirmado não se lembrar de nada, foi apenas afastado para outro
serviço análogo (Nota 6).

II.3.7. Infracções relativas à emigração, a passaportes e a estrangeiros

Nos postos de fronteira era fácil os funcionários da PIDE utilizarem o cargo para
receber quantias através do apoio à emigração clandestina e ao engajamento, bem como
da falsificação e venda de passaportes.

Nota 1 - MAI-GM, caixa 029, proc. disc. 2/68 e gabinete do ministro, caixa 0368, pasta
«recursos diversos».
Nota 2 - PIDE/DGS, OS 338, de 3/12 /48 e OS 174, de 23/6/49.
Nota 3 - Ibidem, OS 80, de 21/3/51, 215, de 3/8/51, e 199, de 18/7/51.
Nota 4 - MAI-GM, caixa 015, proc. disc. 31/57, de 20/4/57.
Nota 5 - Ibidem, proc. disc 12/64, fls. 31-33.
Nota 6 - Ibidem, caixa 034, delegação de Coimbra, processos do ano 1971.

68

Relativamente ao contrabando, refira-se um caso, em 1956, quando correram rumores


de que um agente do posto de Monção fazia «esperas» aos contrabandistas, exigindo-
lhes quantias em dinheiro para não serem presos. Mais frequentes foram os delitos
relativos a passagem de fronteiras perpetrados por elementos da PIDE/DGS. A direcção
da PIDE verificou, em 1952, que era «deprimente e vergonhoso que, desses
exploradores sem escrúpulos», fizessem parte «funcionários desta polícia que, além do
crime de engajamento», cometiam «ainda actos de deslealdade para o Estado de quem»
eram servidores, aproveitando «para obter lucros ou ganhos indevidos (Nota 2).
Relativamente a estrangeiros, houve também funcionários da PIDJ /DGS que
procederam contra a lei, sendo por isso castigados. Dois agentes em serviço na
«residência fixa» da Ericeira, onde eram mantidos refugiai estrangeiros
indocumentados, foram punidos, em 1946 com 60 dias suspensão, por aceitarem
dádivas, bem como exigi-las, em termos ameaçadores (Nota 3). Nos aeroportos, nos
portos e nos comboios houve também ao longo dos anos queixas relativamente a
funcionários da PIDE, como aquela, em 1948, contra agentes em serviço no aeroporto
de Santa Maria, acusados de receber dinheiro. O inquiridor do processo instaurado pela
PI sugeriu que o chefe do posto fosse transferido para Lisboa. Propôs, porém, que os
agentes em serviço nesse aeroporto recebessem uma gratificação especial, pois era mau,
«num meio como o aeroporto de Santa Maria», não poderem, com os seus fracos
vencimentos, manter um trem de vida e uma apresentação correspondente à função»
(Nota 4).

II.3.8. O caso Matesa

Em 21 de Maio de 1970, o Diário de Notícias noticiou a condenação em Espanha, de


quatro portugueses envolvidos no caso Matesa (Maquinaria Têxtil do Norte), três dos
quais eram elementos da DGS — chefes de brigada João Nobre e Luís Meneses de
Aguiar, bem como o 3.° oficial Rodrigues Machado —, sentenciados a um ano de
prisão, e outro, Jorge Farinha Piano, a três anos de reclusão. Provara-se que eram
culpados de envio ilegal para o estrangeiro de 5400 milhões de pesetas, referentes a
préstimos concedidos pelo Estado.
No processo disciplinar da DGS, foi ouvido o agente Luís Meneses Aguiar, que
confirmou a sua estadia em Espanha em diligências dessa polícia, em 1969, por
determinação do inspector António Rosa Casaco. Negou, porém, estar envolvido no
caso Matesa e conhecer qualquer um dos que tinham sido condenados. Ao ser também
interrogado, Rosa Casaco afirmou ser «completamente estranho a quaisquer actividades
referidas na imprensa», embora tivesse admitido a priori que três dos condenados
pertenciam à DGS, um dos quais era seu afilhado de casamento.

Nota 1 - Ibidem, caixa 014.


Nota 2 - PIDE/DGS, Ordens de Serviço, OS 84, de 24/3/52.
Nota 3 - PIDE/DGS, OS 74, de 15/3/46, e OS 140, de 20/5/46.
Nota 4 - MAI-GM, pasta «Ministério das Comunicações», 9/6/48.
69

Confirmou que ele próprio havia enviado esses funcionários a Madrid, . deveriam trazer
umas malas para o banqueiro Jorge Piano, de Bem Rosa Casaco era «amigo por força de
relações profissionais no aspecto policial, dado que era através dele que se pagava a
alguns colaboradores colocados no estrangeiro» (Nota 1). Como se verá, era através de
Piano que o informador em Roma, «Oliveira» (Mário de Carvalho), traidor de
Humberto Delgado, era pago pelos seus serviços à PIDE. Devido ao caso Matesa,
Aguiar, João Nobre e Luís Machado foram transferidos para o ultramar, enquanto Rosa
Casaco foi colocado na delegação do Porto (Nota 2).

II.3.9. As «garantias administrativas»

Em 1972, a DGS emitiu uma instrução segundo a qual o seu pessoal de investigação
estava sujeito à jurisdição dos tribunais militares e ao Código de Justiça Militar,
gozando ainda de garantias administrativas (Nota 3). Relate-se, a propósito, o caso de
um agente da DGS, acusado de crime de injúria, que pediu ao Ministério do Interior
uma garantia administrativa para não comparecer em julgamento. Considerando
oportuno proteger os agentes da DGS contra situações que pudessem «diminuir-lhe o
prestígio», o auditor jurídico desse ministério desaconselhou que fosse dada a
autorização para o julgamento do arguido (Nota 4).
Assim se vê que, embora tenha havido internamente muitos processos disciplinares e
provavelmente ainda mais infracções e crimes que não foram sujeitos a processos, a
impunidade era a regra, numa polícia onde os métodos de actuação eram violentos e
arbitrários. Com efeito, eram vários os elementos dessa polícia que se dedicavam à
violência quotidiana, à prepotência, à chantagem, ao abuso de poder e ao arbítrio,
seguros que estavam de que a «garantia administrativa» os furtava a uma punição real.
Eram certamente sujeitos a processos internos, mas por parte de uma polícia que, na
prática, se julgava a si própria e se «punia» a si própria, mantendo a impunidade, que
era uma porta aberta para pequenos e grandes crimes e para o abuso permanente do dia-
a-dia. Pode-se mesmo dizer que essas «punições» internas e a ausência de qualquer
punição externa possibilitavam e mantinham, de forma perversa, o status quo de
violência dessa polícia.

II.4. OS VENCIMENTOS E AS DESPESAS DA PIDE/DGS

Ao criar, em 1947, o Cofre Geral da PIDE, o legislador visou assegurar a esta polícia
certa independência financeira e libertá-la de condicionalismos, de modo a permitir uma
liberdade de acção adequada e imprescindível ao desempenho das suas missões. Foi isso
que recordou à tutela, numa carta de 1962, Fernando da Silva Pais, segundo o qual o
cofre cobrira efectivamente os encargos, até 1955.

Nota 1 - PIDE/DGS, OS 322, de 18/11/70.


Nota 2 - MAI-GM, caixa 389, pasta «diversos», PSP.
Nota 3 - Ibidem, caixa 405, 1972, pasta «pessoal», Decreto-Lei n.° 48 794, de
26/12/68, art.°81.
Nota 4 - Ibidem, auditor jurídico do Ministério do Interior, 6/4/72.

70
Concorriam então, para as receitas da polícia, as taxas pagas pelas viaturas, nas
fronteiras, a cobrança de atestados de sanidade passados a emigrantes e as multas
aplicáveis a empresas marítimas e aéreas que transportassem para portos nacionais e
estrangeiros indocumentados (Nota 1). Ora, a partir de então, haviam sido suprimidas
essas receitas — que representavam cerca 1700 000$OO - e as contas da PIDE
passaram a ter um défice crónico anual superior a dois mil contos, também devido ao
aumento das despesas (Nota 2).
Como a PIDE tivesse sofrido um défice de 1629446$50 em 1961, era obrigada a
requerer ao Estado um subsídio no valor de 25000000$00 para o ano seguinte, o qual
não foi, porém, concedido. O director da PIDE de então, Homero de Matos, propusera
que se aumentasse para o dobro as receitas, onerando o Orçamento Geral do Estado na
parte respeitante à PIDE.

Quadro 13 - Défice crónico (1956-1962)


Ano Receitas Despesas Diferença negativa
1954 5327 800$00
1956 4407 970$40 4697 078$40 289108$00
1957 5076 688$40 6702 668$30 1625 979$90
1958 3949 185$70 6259 629S40 2310443$70
1959 3703 829S90 6329 685$80 2625 855$90
1960 3878 698$60 6005 613$30 2126 914$50
1961 3922 368$40 5551 814$90 1629 446$50
1962 3679 531$70 7187 176$90 3507645$20

Fonte: anos 1945 a 1954. MAI-DDA, gabinete do ministro do Interior, caixa 454, pasta
ex-DGS; anos de 1956 a 1962, 1962, MAI-DDA, caixa 23, pasta «reorganização dos
serviços da PIDE».

A solução mais razoável era, porém, que «os estrangeiros pagassem a crise» e, por isso,
em Maio de 1962, o novo director da PIDE, Fernando da Silva Pais, sugeriu ao ministro
do Interior um aumento para o dobro dos emolumentos de títulos de residência dos
estrangeiros, de modo a diminuir o défice em cerca de 1800 000$00, proposta que foi
aceite. Após uma queixa de Silva Pais, novamente enviada, em Novembro de 1962, à
tutela, o Decreto-Lei n.° 44 709, de 21 desse mês, elevou para o dobro os títulos de
residência dos estrangeiros, conseguindo-se, assim, um aumento de 1700 contos.
Em 1963, as receitas aumentaram em 2211 640$20 relativamente às de 1962, devido em
parte ao facto de a PIDE ter deixado de instruir os processos dos emigrantes
clandestinos, os quais, a partir de então, eram desde logo libertados com termo de
residência, após levantados os autos (Nota 3). A situação financeira da PIDE manteve-
se, no entanto, problemática e, em Maio de 1967, o Ministério do Interior teve de
autorizar a antecipação de duodécimos das verbas reservadas à PIDE, não sem avisar
que não haveria «futuros reforços» (Nota 4)

Nota 1 - MAI, caixa 133, pasta «dotações orçamentais da PIDE». O Decreto-Lei n.°
397l 9/8/54, aumentou as taxas a pagar pelos automóveis à entrada nas fronteiras.
Nota 2 - Ibidem, caixa 235, pasta «reorganização de serviços da PIDE»; pasta «dotações
orçamentais» 1962; caixas 016 e 093, pasta «projectos de orçamentos».
Nota 3 - Ibidem, gabinete do ministro do Interior, caixa 277, pasta «dotações
orçamentais..
Nota 4 - Ibidem, caixa 326, pasta «dotações orçamentais»; cf. também AOS/CO/IN-14
pi pasta 43, «Situação do cofre-geral da IDE, pedido de mais verbas, 29/6/67».

71

Quadro 14 - Dotações orçamentais da PIDE


Total das despesas Anos Total das despesas
1946 8 745 422 1960 30 950 800
1948 9 706 603 1962 46 534
1950 20 998 929 1964 53 389 640
1952 21693 014 1966 55 813 055
1954 21944 429 1969 61 226 835
1956 23 432 194 1971 86119160
1958 24 465 817 1974 105 778 445

Fontes: Conta Geral do Estado, MAI-DDA, gabinete do ministro, caixa 0033, pasta
«circulares do Ministério do Interior aos governadores civis; caixa 0399, pasta
«orçamento, 1970/71»; MAI-DDA, gabinete do ministro, caixa 454, pasta ex-DGS. ola:
para 1974, o valor é uma projecção do orçamento das despesas da DGS para esse ano
económico.

Por razões óbvias separou-se o período entre 1946 e 1960 do período entre 1962 e 1974,
este último marcado pela Guerra Colonial. Como se vê, o grosso dos gastos da
PIDE/DGS era compreensivelmente, composto pelas despesas com pessoal. Diga-se que
pertencer à PIDE/DGS não era apetecível, pelos vencimentos que os seus funcionários
auferiam, pois estes não escapavam à mediania das remunerações na função pública.
Mas os vencimentos nunca foram a pedra-de-toque para assumir um cargo no governo
ou pertencer a qualquer outra instituição do regime ditatorial. Era a partilha de uma
parte do poder numa ditadura, apenas detido por uma minoria, que atraía alguns, embora
também não se deva esquecer que a participação nesse mesmo poder possibilitava
remunerações suplementares ou cargos futuros, públicos ou privados.

Quadro 15 /DGS - Aumentos das despesas da PIDE/DGS ao longo dos anos em


percentagem
Aumento despesas totais Aumento despesas com pessoal Aumento com gastos
confidenciais
(1946-1960) 54% 58,2 % 57,9 %
(1960-1964) 26,6 % 24,6 % 38%
(1962-1974) 38,9 % 36,96 % 44,6 %
(1946-1974) 84,8 % 85,2 % 91,8%

Fomes: Conta Geral do Estado, MAI-DDA, gabinete do ministro, caixa 0033, pasta
«circulares do Ministério do Interior aos governadores civis»; para o ano de 1974, MAI-
DDA, gabinere do ministro, caixa 454, pasta ex-DGS.

Logo a seguir às despesas com pessoal, em termos de valor, vinham os «gastos


confidenciais», onde se incluíam nomeadamente o pagamento dos informadores. Entre
1960 e 1966, houve um aumento de 57,7 %, e, entre 1964 e 1966, de 25,4 %, nessa
rubrica, embora, neste mesmo período, as despesas com pessoal tivessem diminuído em
7,34 por cento. De qualquer forma, entre 1946 e 1974, as despesas totais e com o
pessoal aumentaram em cerca de 85 %. As despesas com gastos confidenciais
aumentaram mais de 90 por cento. Veja-se de seguida quanto representavam as despesas
da PIDE/DGS no Orçamento Geral do Estado.
Estes valores coincidem com os apresentados pelo relatório oficial da Comissão
Liquidatária da ex-PIDE/DGS, segundo a qual esta corporação policial recebeu do
Orçamento Geral do Estado 30,9 mil contos, em 1960, 55,5 mil contos, em 1965, 80,3
mil contos, em 1970, e 91,6 mil contos, em 1973.

72

Para o ano de 1974, estava prevista a verba de 105,7 contos, o que representava um
aumento de 14,1 mil contos relativa/na ao ano anterior. Esse relatório concluía, assim,
que, de 1960 a 1974, aij tacão orçamental da PIDE/DGS tinha aumentado de 74,8 mil
contos, que representa um acréscimo de 250 por cento.
Além de receber verbas do Ministério do Interior, a PIDE/DGS também recebia
dinheiro da Presidência do Conselho, dos ministérios do Ultramar e da Defesa Nacional,
bem como dos governadores-gerais das colónias. Tinha ainda receitas próprias, que
advinham das suas «funções legais» — cauções de presos políticos, verbas de
passaportes, autorizações de residência para estrangeiros e vistos dos serviços de
fronteiras. Por outro lado, chegava-lhe dinheiro de outras fontes, nomeadamente de
empresas, destinado a «fins assistenciais», eufemismo que encobria o pagamento de
prestação de informações. Este dinheiro era movimentado do mesmo modo que as
verbas dos «gastos confidenciais e reservados», ou seja, não existiam documentos
comprovativos dessas doações e movimentos efectuados (Nota 1).
Em 1974 foram encontrados no cofre da DGS, à ordem de Fernando Silva Pais, 5600
contos em numerário, sem documentos legais justificara do movimento dessa rubrica,
um depósito no Banco de Portugal de 9167 contos, que constituía parte do produto do
assalto pela LUAR ao banca Figueira da Foz, em 1967, e 1068 moedas comemorativas,
que se destinavam a «ofertas», no valor de 53 070$00. A data da sua extinção, a DGS
ocupava 39 edifícios do Estado e arrendava 60 outros, com um encargo anual de 2446
contos. Possuía ainda 85 viaturas, três das quais apreendidas a presos político, e seis
motociclos (Nota 2).

Nota 1 - MAI-GM, caixa 505. Relatório dos trabalhos «amados pela Comissão
Liquidatária da PIDE/DGS; Diário de Lisboa, 4/2/76, p. 5; «Pelo menos na
administração, a PIDE já foi liquidada», in Luta Popular, 30/11/78; relatório oficial da
Comissão Liquidatária da ex-PIDE/DGS, edição da CNSPP.
Nota 2 - Ibidem, Relatório dos trabalhos realizados pela Comissão Liquidatária da
cm /DGS.

73

III.
RELAÇÕES DA PIDE/DGS COM O ESTADO E A IGREJA

Além de ser a polícia política do regime, de «defesa da segurança interna e externa do


Estado», com a tarefa de prevenir e reprimir os «crimes» políticos, a PIDE/DGS teve
também outras funções, algumas das quais se prenderam com o seu relacionamento com
o Estado, nomeadamente no apoio à censura e à informação sobre a idoneidade «política
e moral» de candidatos à função pública. É esse relacionamento com outras instituições
do regime que se analisará neste capítulo, onde serão ainda abordadas as relações que
manteve com as outras forças policiais e a hierarquia da Igreja católica.
Algumas palavras devem ser ditas para explicar porque não será aqui abordado o
relacionamento entre a PIDE/DGS e as Forças Armadas, embora seja um facto que estas
colaboraram, em geral, com a polícia política, mesmo se também houve conflitos entre
as duas instituições. A PIDE/DGS foi mesmo levada a reprimir militares envolvidos em
revoltas e sublevações contra o regime, como aconteceu, com a da Mealhada, as de
1946 e 1947 e os golpes falhados da Sé, em 1959, e de Beja, em 1962. Deixar-se-á a
análise dessas revoltas para outro capítulo, referente aos «alvos» da PIDE/DGS, e,
quanto as relações que a polícia política manteve com a instituição militar na metrópole,
serão abordadas sumariamente no último capítulo, onde também será tratada a atitude
da DGS face ao golpe militar do MFA.

III. 1. O Ministério do Interior

No período aqui analisado, a pasta do Interior começou por ser preenchida, entre 6 de
Setembro de 1944 e 4 de Fevereiro de 1947, pelo general Júlio Botelho Moniz (1900-
1970), que, em 1961, no cargo da Defesa Nacional, viria a protagonizar um falhado
golpe palaciano contra Salazar. Da sua estadia no Ministério do Interior, ficou
conhecida a polémica levantada quando, contra as vontades locais e perante inúmeros
protestos, substituiu quase todos os governadores civis.
Em substituição de Júlio Botelho Moniz, foi nomeado, para a pasta do Interior, em
Fevereiro de 1947, o engenheiro Augusto Cancela de Abreu (1895-1965), que procedeu
desde logo a uma alteração orgânica e funcional, remodelando os serviços do gabinete
do ministro e a Secretaria-Geral e da Direcção Geral de Administração Política e Civil
(Nota 1).

Nota 1 - Decretos-lei n.° 36 601 e 36 702, de 24 de Novembro e 30 de Dezembro de


1947.

74

Além de continuar a tutelar, entre outros organismos, a PSP, a GNR, PIDE, a LP e a


Junta de Emigração (JE), o Ministério do Interior orientava e actuava sobre os corpos
administrativos e as autarquias locais. Na prática, recebia de todo o país e das
instituições que tutelava, as mais variadas informações, que enviava depois à PIDE. Por
seu turno, esta informava regularmente a tutela sobre os presos políticos ou os
oposicionistas, mas também sobre a situação da «opinião pública» e as crises de
trabalho, denunciando por vezes patrões de empresas por não aumentarem os salários e
contribuírem assim para a «desordem social» (Nota 1).
Numa breve análise do livro de correspondência do Ministério do Interior, no final dos
anos 40, pode-se ver que era esse ministro que concedia, a pedido da PIDE, a
prorrogação da prisão preventiva, enviava, por seu turno, a essa polícia, os pedidos dos
governos civis no sentido de libertar as zonas de «elementos indesejáveis» e servia de
intermediário entre os denunciantes anónimos e as diversas autoridades tuteladas (Nota
2).
Era ainda o ministro do Interior, sob proposta e informações da PIDE que autorizava ou
não a criação de associações, a admissão de candidatos na função pública ou, por
exemplo, a obtenção de uma «casa económica». Quando o presidente da República ou
Salazar recebiam queixas contra a prisão de opositores políticos ou mesmo contra a
PIDE, estes remetiam-nas para o Ministério do Interior, que, por seu turno, as enviava
para aquela polícia — ou seja, a mesma contra a qual se erguiam os protestos. (Nota 3)
Dessa forma, o facto de o Ministério do Interior tutelar a PIDE não significava que as
arbitrariedades desta polícia fossem limitadas ou impedidas (Nota 4).
Cancela de Abreu foi substituído por Joaquim Trigo de Negreiros, que, após assumir a
pasta do Interior, em 2 de Maio de 1950, enviou aos organismos dependentes do seu
ministério uma circular confidencial a recomendar-lhes cautela nas nomeações que
fizessem para cargos do Estado «de forma a evitar o indesejável alastramento de
infiltrações a que a tolerância do governo» tinha dado lugar. Com igual fim, solicitou
aos outros ministérios a consulta prévia aos governadores civis sobre a idoneidade
política dos indivíduos indicados para o provimento de cargos análogos. O ministro do
Interior recebia também inúmeras cartas de candidatos a informadores ou a agentes da
PIDE, bem como denúncias e calúnias anónimas. Em 1951, Trigo de Negreiros chegou
mesmo a preocupar-se com o alastramento desse mau hábito, que considerou, além do
mais, contrário ao chamado corporativismo e à ideia orgânica de nação. Assim sendo,
enviou ao director da PIDE uma carta onde se manifestava contra utilização da calúnia
como arma política», com prejuízo do respeito devido aos que exerciam determinadas
funções públicas bem como da ordem e da tranquilidade públicas (Nota 6).

Nota 1 - MAI-GM caixa 020, 1948-49, pasta «comunicados», pasta do Porto.


Nota 2 - Ibidem, livro15, 0003, livro 14, e 0004, livro 16, Registo de entrada de
correspondência.
Nota 3 - Ibidem, caixa 0009, livro 21.
Nota 4 - Ibidem, caixa 226, 1962, pasta «Porto: actividades anti-situacionistas».
Nota 5 - Ibidem, gabinete do ministro, caixa 050.
Nota 6 - Ibidem, caixa 080.

75

Diga-se aliás que, considerado um ministro «fraco» e conotado como próximo de


Marcelo Caetano, Cancela de Abreu chegou a ser acusado de «moleza» na repressão
pela ala mais à direita do regime que lhe atribuiu nomeadamente a explosão delgadista
de 1958 (Nota 1). Talvez por isso, Trigo de Negreiros foi nesse ano substituído por José
Pires Cardoso, que assumiu por pouco tempo o cargo (de Agosto a Novembro),
seguindo-se-lhe Arnaldo Schultz, ministro entre 1958 e 1961. Em Maio deste último
ano, foi nomeado Alfredo Rodrigues dos Santos Júnior, um ultraconservador que
endureceu a repressão (Nota 2). Foi também na vigência de Santos Júnior que a
imprensa portuguesa se encheu de notas oficiosas, da PIDE (Nota 3).
Sete anos depois de ter assumido funções, Santos Júnior foi substituído por António
Manuel Gonçalves Rapazote (Nota 4), que, logo ao tomar posse, visitou, em 19 de
Novembro de 1968, a sede da PIDE/DGS. No discurso então proferido, elogiou esta
polícia pela sua actuação, afirmando, porém, que enquanto a sua acção vinha sendo
«abençoada» nas colónias africanas, o mesmo não acontecia na metrópole. Concluiu
assim pela indispensabilidade de dar «alguns esclarecimentos» que ajudassem «a formar
uma opinião isenta sobre a acção directa da polícia no território continental», onde o
«tema dos presos políticos» estava a ser permanentemente explorado pelos comunistas
ou criptocomunistas (Nota 5).
Em 1970, esse ministro criou um serviço de informações próprio, para a chefia do qual
nomeou o coronel Júlio Viana Serzedelo Coelho (Nota 6). Numa reunião com a
presença dos comandantes gerais da GNR, PSP, LP e do director da DGS convocada
pelo Ministério do Interior, em Janeiro de 1971, onde se decidiu criar um grupo de
trabalho contra a subversão, concluiu-se que se deveria estimular a recolha e selecção de
informação, bem como vigiar a actividade dos informadores, de modo a não se
confundir a informação com a «indesejável delação». Foi ainda decidido que apenas a
DGS, ao nível da sua direcção, poderia difundir as informações relativas à segurança do
Estado e as respeitantes à idoneidade política e moral dos cidadãos (Nota 7).
Em 19 de Abril desse ano, o ministro do Interior emitiu um despacho sobre a segurança
das empresas privadas e de interesse público, de modo a contrariar os efeitos da «acção
subversiva» nas comunicações, nos transportes, na energia e na saúde. Prevenindo
críticas, Gonçalves Rapazote assegurou que defenderia tanto os indivíduos de qualquer
acção irregular da DGS, como esta polícia «da acção denegridora dos inimigos da
ordem social e das manobras dos grupos de pressão». Recordou, por outro lado, que os
crimes contra a segurança do Estado eram de difícil investigação e, por isso, o
interrogatório dos arguidos exigia a «maior confidência» (Nota 8).

Nota 1 - Fernando Rosas, «O Estado Novo: 1926-1974», História de Portugal, vol. 7,


pp. 511,
518 e 524.
Nota 2 - MA1-GM, caixa 345; caixa 208, 1961.
Nota 3 - Ibidem, caixa 248, pasta «notas oficiosas».
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 3557 E/GT Padre Felicidade Alves; Diário de Notícias, 17/8/68.
Nota 5 - MAI-GM, caixa 345.
Nota 6 - Ibidem, caixas 372 e 383, pastas «política» e «diversos». Veja-se um exemplo
de informação desse gabinete (caixa 430): 23-30/6/73.
Nota 7 - Ibidem, caixa 389, pasta «diversos, PSP».
Nota 8 - Ibidem, caixa 390, 1971, circular.

76

Em 7 de Novembro de 1971, Gonçalves Rapazote foi substituído na pasta do Interior


por César Henrique Moreira Baptista, que tinha dirigido no final dos anos 50 o
Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI). Como se sabe,
exerceu por pouco tempo o seu cargo, ou seja, até 25 de Abril do ano seguinte (Nota 1).
II.2. O relacionamento por vezes difícil com o ministério da Justiça

Ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, nem sempre os ministérios dos
governos de Salazar e de Caetano afinaram pelo mesmo diapasão. Os ministérios do
Interior e da Justiça tiveram, entre eles, alguns equívocos, ligados às instâncias que
tutelavam. Por exemplo, em 1949 e em 1954, o facto de Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro
e Henrique Galvão estarem presos na Penitenciária de Lisboa, cadeia tutelada pelos
Serviços Prisionais do Ministério da Justiça, desencadeou críticas mútuas entre m dois
ministérios, com a PIDE de permeio (Nota 2).
Em 1949, o director da Penitenciária de Lisboa, António Abrantes Tavares, tutelado pela
Direcção-Geral dos Serviços Prisionais (DGSP) do Ministério da Justiça, perguntou ao
3.° Juízo Criminal de Lisboa, se tinha dado o seu consentimento para a vigilância
policial de que Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro estavam a ser alvo por parte da PIDE.
Questionou-o ainda, sobre o tipo de assistência médica e de regime de visitas a que
estavam sujeitos os dois reclusos. O certo é que o tribunal respondeu que as visitas e o
recreio apenas diziam respeito à direcção da cadeia, frisando ainda que nada justificava
«a incomunicabilidade dos detidos».
Numa carta de 4 de Novembro a PIDE queixou-se, por seu turno junto do Ministério do
Interior e de Salazar, das reclamações da Penitenciária de Lisboa contra esse regime de
incomunicabilidade (Nota 3). Por seu lado, Cancela de Abreu enviou ao seu colega da
pasta da Justiça um parecer segundo o qual esses reclusos não eram «presos políticos
vulgares», razão pela qual não podiam «usufruir do regime normal» que lhes permitisse
«continuar a exercer, da própria cadeia, a sua nefasta actividade dirigente da horda da
comunista». O ministro do Interior solicitou ainda ao seu colega da Justiça que desse «à
direcção da cadeia as ordens convenientes».
O director da penitenciária continuou, porém, a erguer-se contra a PIDE, avisando até
que, caso os elementos desta polícia destacados nessa cadeia interferissem nas ordens de
serviço internas, se veria «forçado a impedir a entrada dos referidos agentes» naquele
estabelecimento prisional. Em 14 de Novembro voltou a dirigir-se ao chefe de brigada
da PIDE, Manuel Raposo Medeiros, aí em serviço, comunicando-lhe que deveria
abandonar a cadeia, se continuasse a impedir o cumprimento das suas ordens (Nota 4).

Nota 1 - Ibidem, caixa 422.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 5618 SR, fls. 90 e 91.
Nota 3 - Ibidem, pr. dir. 746/49, Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira, fls. 96
i
Nota 4 - Ibidem, fls. 101-103; AOS/PC, 37, pasta 24, fl. 105.

77

Anos depois, novo caso aconteceu com Henrique Galvão, também detido na enfermaria
da Penitenciária de Lisboa. O director da PIDE, Agostinho Lourenço, escreveu a Salazar
a propósito da «actividade subversiva de Henrique Galvão na Penitenciária», onde se
queixou de que o director da Penitenciária ignorava totalmente essa polícia. No mesmo
dia, a Comissão Executiva da União Nacional também se envolveu no assunto, pedindo
explicações ao ministro da Justiça. Em resposta ao ministro do Interior, aquele sugeriu
que, havendo suspeitas de difamação por parte de Galvão, a PIDE instaurasse um
processo de instrução, o que o colocaria em prisão preventiva à ordem dessa polícia
(Nota 1).
Foi o que a PIDE fez, ao instaurar um processo contra Galvão, transferindo-o assim da
Penitenciária para Caxias, prisão privativa dessa polícia, sob a acusação de ter editado
propaganda subversiva no interior da cadeia. António Neves Graça, director interino da
PIDE, enviou depois ao Ministério do Interior um relatório onde lembrava que os
problemas com a penitenciária já existiam desde 1949 e acusava de negligência o
director da mesma cadeia, que acabou por ser suspenso (Nota 2). Os equívocos entre os
responsáveis pelo Interior e a Justiça continuaram posteriormente (Nota 3). No entanto,
nem sempre as relações foram tensas e frequentemente a DGSP, ou pelo menos algumas
direcções de cadeias tuteladas por ela, não deixaram de colaborar com a PIDE.

III.3. Ministério do Interior versus Ministério da Defesa Nacional

As ligações entre o Ministério da Defesa Nacional e a PIDE/DGS, relativamente à


retaguarda metropolitana, eram feitas por intermédio do Ministério do Interior. Em 23
de Novembro de 1966, por exemplo, a Defesa Nacional apresentou ao Ministério do
Interior, que a transmitiu à PIDE, uma queixa contra Luís de Sttau Monteiro, que havia
publicado o livro Peças em Um Acto, entre as quais se encontrava «A guerra santa», que
representaria, segundo aquele ministério, «um ultraje às tropas» em África. Embora
reconhecesse que os livros tinham sido apreendidos, a Defesa Nacional considerou,
porém, que, quer o autor, quer a editora deviam ser punidos. O ministro do Interior
pareceu concordar com o da Defesa Nacional, pois informou, em 3 de Dezembro, que
tinha «imediatamente determinado que o autor fosse detido para organização do
respectivo processo-crime» (Nota 4).
Com o desenvolvimento da Guerra Colonial, os ministros do Interior e da Defesa
Nacional discutiram sobre quem deveria tutelar o sector de informações do regime. Em
Maio de 1969, o ministro da Defesa Nacional, Sá Viana Rebelo, apresentou ao
Ministério do Interior um projecto do futuro Conselho Superior de Defesa Nacional
(CSDN), que seria comandado pelo chefe do Estado-Maior-General das Forças
Armadas, general Venâncio Deslandes, com o objectivo de vigiar a metrópole «como
retaguarda de um dispositivo geral que cairia rapidamente se, no Portugal europeu, se
instalasse uma subversão violenta e triunfante».

Nota 1 - AOS/PC, 37, pasta 24; MAI-DDA, gabinete do ministro, caixa 119, pasta
«Lisboa».
Nota 2 - Ibidem, PIDE/DGS, pr. 153/54 Serv. Inv., 1.° e 3.° volumes, Henrique Galvão e
outros.
Nota 3 - Ibidem, pr. cr. 106/55, fls. 1 e segs, 35, 64, 69, 94, 96-98, 102, 106, 109, 112,
125, 143-144, 160, 173, 176-178, 182, 214, 234-253, 485 e 567.
Nota 4 - Ibidem, pr. 1271/73 Cl (2), pasta «programas radiofónicos».

78

Nos sublinhados que o ministro do Interior apôs ao texto do projecto do CSDN, ficou
evidente o receio que tinha de perder a tutela das forças policiais a favor do Ministério
da Defesa Nacional (Nota 1).
Em 29 de Setembro, o ministro do Interior enviou aos comandantes das polícias que
tutelava uma circular confidencial a avisá-los de que as suas relações com o CGSI
apenas seriam estabelecidas através do gabinete do ministro e, depois, a partir de Abril
de 1971 através do oficial de ligação, Serzedelo Coelho (Nota 2). Após analisar nova
proposta do ministro da Defesa Nacional, para que fossem criadas Comissões de
Segurança Interna (CSI) de troca permanente de informações e de coordenação da acção
entre m forças militarizadas e de segurança (Nota 3), o ministro do Interior respondeu,
em final de 1972, que, em tempo de paz, as relações das forças de seguram com o CGSI
continuariam a processar-se através do gabinete do ministro do Interior (Nota 4).

III.4. A PIDE/DGS e as outras forças policiais portuguesas

Como se viu, a fim de pôr à disposição da PIDE e colocar sob o sei comando todas as
forças repressivas do país, foi criado, em 1949, o Conselho de Segurança Pública, que
incluía os directores da PIDE, da P] e m PSP, bem como os comandantes da GNR e da
LP. Em alguns estudos, considera-se que dessa forma, a PIDE passou a ter «um
ascendente institucional e operacional» sobre os outros organismos do sistema de
segurança — PJ, PSP, GNR e GF — e a LP5. No entanto, se é certo que as informações
relativas à «segurança do Estado» das várias forças policiais acabava por ir parar à
polícia política, quem continuava a tutelar as polícias — excepto a PJ — era o governo,
através do Ministério do Interior.
Refira-se, ainda que brevemente, que a GF e a Polícia Marítima (PM) também
colaboraram com a PIDE/DGS ao longo dos anos. A primeira, por razões óbvias, devido
a também actuar como polícia de fronteiras, relativamente ao contrabando e à passagem
ilegal de armas e explosivos. Como exemplo de colaboração entre a GF e a PIDE, veja-
se, por exemplo, o caso da entrega, em 31 de Maio de 1968, a esta polícia de um
desertor pelo comandante da secção fiscal da Póvoa do Varzim (Nota 6). Quanto à PM,
não deixou, por vezes, de existir sobreposição de funções relativamente às da PIDE
(Nota 7). I

Nota 1 - MAI-GM, caixa 418, pasta «forças de segurança», secreto, directiva para a
Segura
Interna n.° 1/69, de 21/8/69.
Nota 2 - Ibidem, caixas 372 e 383, pastas «política» e «diversos». Assina o chefe do
gabinete Geraldes Nunes e o oficial adjunto coronel do CEM, Serzedelo Coelho.
Nota 3 - Ibidem, caixa 418.
Nota 4 - Ibidem, pastas «pessoal do gabinete», 9/11/72, e «forças de segurança».
Nota 5 - José Freire Antunes, Nixon e Caetano, pp. 180-183.
Nota 6 - PIDE/DGS, pr. 1 Cl (1), pasta 1 «correspondência recebida da Guarda-Fiscal,
emigração e imigração clandestinas, actividades subversivas», 1967-1971.
Nota 7 - Arquivo do Ministério do Interior no IAN/TT, gabinete do ministro, caixa 093,
maço 535.

79

III.4.1. A GNR

Tutelada pelo Ministério do Interior em tempo de paz, e pelo Ministério da Guerra,


enquanto parte do Exército, em situação de guerra, a GNR, criada em 1911, com uma
actuação preferencial no meio rural, sobreviveu à queda da I República, embora tivesse
atravessado um período conturbado devido à participação de parte dos seus comandos e
elementos nas tentativas reviralhistas de 1927 e 1928. No entanto, tornou-se depois
numa guarda ao serviço do Estado Novo, nomeadamente ao ser reorganizada por um
diploma de 1944 (Nota 1). A sua colaboração com a PIDE foi, depois, uma constante
(Nota 2).
Foi graça à colaboração da GNR que a PIDE obteve, em 1949, duas importantes
vitórias, ao detectar duas casas clandestinas do secretariado do PCP, em Macinhata de
Vouga e no Luso, e ao deter Luísa Rodrigues, Militão Ribeiro, Álvaro Cunhal e Sofia
Ferreira (Nota 3). Por seu turno, em 1953, a PIDE elogiou a «extrema dedicação,
sacrifício e espírito nacionalista», bem como «o alto espírito de colaboração e interesse»
manifestados pelo comandante de posto da GNR e dos seus subordinados em Albufeira,
que haviam detido os funcionários do PCP Ângela Vidal Campos e Carlos Costa (Nota
4).
Numa circular confidencial de Outubro de 1961, a GNR ficou de estabelecer contactos
directos com os elementos da PSP e PIDE, nas respectivas localidades, realizar reuniões
periódicas com estas, para troca de informação, bem como estudar os moldes de uma
estreita cooperação entre essas forças policiais (Nota 5). Ainda nesse mês, um
informador da PIDE, da margem sul do Tejo, deu conta da tentativa, por parte de
trabalhadores do Arsenal do Alfeite, de organizar uma manifestação comemorativa do 5
de Outubro, elogiando o «serviço de autoridade» conduzido pela GNR, bem como a
colaboração desta com a polícia política (Nota 6).
A PIDE nem sempre elogiou, porém, a actuação da GNR, como se vê num relatório
confidencial da delegação daquela polícia do Porto, enviado ao Ministério do Interior,
em 11 de Setembro de 1961, onde se acusava aquela guarda de tardar em informar a
PIDE acerca de indivíduos subversivos (Nota 7). Também a PIDE de Peniche não
deixou, de se queixar à tutela de que o comandante do posto da GNR do Bombarral não
colaborava com essa polícia (Nota 8).
Mas, de um modo geral, mesmo se tardavam, as informações da GNR chegavam à
PIDE, habitualmente através do Ministério do Interior (Nota 9).

Nota 1 - Breve Resenha Histórica, coord. e ed. pelo serviço de relações públicas da
GNR, 1977.
Nota 2 - J. M. Campos e L. Pereira Gil, Opressão (Fascismo) e Repressão (PIDE), pp.
68, 69, 70 e 101-103.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. dir. 746/49, Milhão Ribeiro, Álvaro Cunhal e Sofia Ferreira, fls.
1-3.
Nota 4 - Ibidem, pr. 627/48 SR, Carlos Costa, fls. 35 e 37.
Nota 5 - Ibidem, Posto do Aeroporto, correspondência, fl. 30.
Nota 6 - Ibidem, pr. 1498 Cl (1), Ordem dos Advogados.
Nota 7 - MAI-GM, caixa 208.
Nota 8 - Ibidem, R. 205.
Nota 9 - Ibidem, caixa 226.

80

Por exemplo, na correspondência confidencial expedida pela PIDE dessa ml ma vila de


Peniche, à sua directoria, existem provas de que, pelo menos em Novembro de 1966,
houve um encontro entre esta polícia e os comandantes da GNR das Caldas da Rainha,
de Torres Vedras e do forte de Peniche (Nota 1). Por seu lado, só para dar mais um
exemplo, no distrito de Setúbal tanto o comandante da secção de Almada da GNR,
tenente Jaime Romariz Gomes, como o chefe do posto de Setúbal da PIDE, Canto e
Silva, tinham a mesma «fonte fornecedora das informações» (Nota 2).

III.4.2. A PSP

Tal como entre a GNR e a PIDE/DGS, a colaboração entre esta polícia e a PSP nunca
deixou de ser estreita. Esta força policial fornecia nomeadamente «relatórios imediatos»
do seu Gabinete de Estudos e Planeamento (Nota 3) e colaborava na prisão de
indivíduos, como aconteceu, em Fevereiro de 1950, com o membro do PCP José Maria
do Rosário, entregue pela PSP à polícia política (Nota 4). Sobre a colaboração entre a
PIDE e a PSP, esta polícia enviou um relatório ao Ministério do Interior, onde informou
que, entre Janeiro de 1963 e Maio de 1964, prestara à polícia política 409 informações e
123 actos de ajuda (Nota 5).
A título de exemplo, mencione-se que, neste último ano, foi a PSP que prendeu, em
Lisboa, o estudante José Luís Saldanha Sanches, atingindo-o a tiro e entregando-o à
PIDE (Nota 6). Depois, em Janeiro de 1965, o comandante-geral da PSP dirigiu-se
novamente a Salazar a solicitar o aumento dos seus efectivos, com o argumento da
colaboração dessa polícia com a PIDE, em 1965, na detenção de elementos da
FAP/CMLP (Nota 7). A identificação, por uma parte da população e pela oposição ao
regime, entre a PIDE e a PSP, consideradas cúmplices e como tendo o mesmo tipo de
actividade repressiva, não deixou de ser verdadeira, como se pode ver no quadro abaixo,
baseado em informações então enviadas pela PSP ao Ministério do Interior (Nota 8).
No seio da PSP, diversos guardas, muitos deles aposentados, foram informadores da
PIDE/DGS. Veja-se o caso do guarda reformado Antero Coelho, que, em 5 de Julho de
1973, denunciou Júlio (ou António) Araújo Pinto, desertor do Exército e portador de
propaganda subversiva (tinha consigo o jornal Avante!), que transitava num autocarro
no Porto. Na sua emissão de 11 de Setembro, a Rádio Portugal Livre denunciou esse
«miserável bufo» e, em face disso, o comandante-geral da PSP, general Tristão
Carvalhais, escreveu ao ministro do Interior, preocupado por «ter havido inconfidência
em relação à pessoa que forneceu a informação», que poderia «vir a sofrer as
consequências desse facto».

Nota 1 - PIDE/DGS, NT 9149, correspondência expedida de Peniche, 1965-66, vol. 1.


Nota 2 - Ibidem, fls. 29 e 30. P
Nota 3 - Nuno Vasco e Óscar Cardoso, A bem da Nação, p. 81.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. dir. 180/50 SC (1), fl. 105.
Nota 5 - Ibidem, fls. 99, 116e 143.
Nota 6 - PIDE/DGS, pr. 508/64 SC2, 1.ª divisão, fls. 92 e 93.
Nota 7 - Ibidem, pr. 1441 Cl (1) e pr. 245 GT, Salvador Pereira Amália.
Nota 8 - Ibidem, fls. 154, 186, 196, 197, 198 e 208.

81

Quadro 16 - Colaboração prestada pela PSP à PIDE (1966)

Informações 2393
Presos por actividades subversivas 60
Presos por emigração clandestina 32
Estrangeiros indocumentados presos 3
Total 2841

No seu despacho, o ministro Gonçalves Rapazote considerou que o guarda Antero tinha
cumprido exemplarmente o seu dever, mas que o comando da polícia do Porto deveria
ter sido mais prudente, «reservando a informação» recebida (Nota 1).
No entanto, houve também desacordos entre as duas polícias e acusações recíprocas de
que o trabalho de uma se sobrepunha ao da outra (Nota 2). Por seu turno, a PIDE não
deixou de vigiar a actuação de membros da PSP: em Janeiro de 1965, recebeu, por
exemplo, uma carta anónima a denunciar o comandante do 1.° posto de Cheias da PSP
como sendo da oposição, e transmitiu a denúncia ao comando desta polícia (Nota 3).
Dois anos depois, o informador da PIDE «Lojistas» deu conta de que, na esquadra da
PSP de Moscavide, o novo chefe, João Sobrinho, instigava os guardas a não internem
nos assuntos de carácter político (Nota 4).
Em Março e Abril de 1968, o chefe de posto da PIDE de Peniche queixou-se, junto da
direcção em Lisboa da falta de colaboração dos postos da PSP dessa vila, de Torres
Vedras e das Caldas da Rainha. Afirmou, nomeadamente que os guardas dessa
localidade se revelavam «indecisos quanto à colaboração a prestar aos agentes» da
PIDE5. Mas o certo é que a colaboração continuou até à queda do regime. Refira-se que
muitos episódios referentes à colaboração ente a PSP e a PIDE são desconhecidos
porque esse relacionamento era, a maior parte das vezes, oral. Em 1970, a própria
divisão de pessoal da PSP chegou a enviar um ofício confidencial, à DGS de Coimbra,
instando-a a não prestar informações «por escrito» àquela polícia (Nota 6).
Entre outros exemplos de colaboração entre as duas polícias, mencione-se uma
comunicação da PSP à DGS sobre incidentes ocorridos na Praça do Chile, numa
manifestação de cerca de 60 jovens, em Fevereiro de 1973, à qual tinha assistido «um
público tomando sempre o partido dos civis» (Nota 7). Em Fevereiro de 1974, a PSP
informou a DGS, do surgimento, no Hospital de Santa Maria, de um indivíduo ferido
numa manifestação subversiva, em Lisboa. Em novos incidentes registados numa
manifestação junto à Cervejaria Portugália, a PSP deteve dois indivíduos, acusados de
agredir com barras de ferro um agente da DGS à paisana, entregando-o a esta polícia.

Nota 1 - MAI-GM, caixa 410, pasta «Diversos de Julho a Dezembro».


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 810 Cl (1), pasta 2, «Roubo e desvio de material de guerra», fl.
17.
Nota 3 - Ibidem, pr. 141 Cl (1), pasta 4, Comando da PSP de Lisboa. Correspondência
diversa, fls. 128, 135, 147, 153-154 e 163-164.
Nota 4 - Ibidem, pr. 810 Cl (1), pasta 2, fl. 17.
Nota 5 - Ibidem, NT 9149, correspondência expedida de Peniche, Fevereiro a Maio de
1968, fls. 104, 174, 195 e 173.
Nota 6 - MAI-GM, caixa 039, 11/5/1970.
Nota 7 - PIDE/DGS, pr. 141 Cl (1), pasta n.° 4, Comando da PSP de Lisboa,
correspondência diversa, correspondência enviada pelo comandante da PSP coronel de
infantaria Pedro de Barcelos, fl. 52.

82

Esses tempos, porém, já se estavam a aproximar do fim... e, como é evidente, os dois


presos não permaneceram detidos por muito tempo (Nota 1).

III.43. Polícia Judiciária

Logo após o golpe de 28 de Maio de 1926, a Ditadura Militar pensara que a Polícia de
Investigação Criminal (PIC, criada em 1922) poderia assumir as funções de polícia
política. No entanto, a transferência da PIC, em 1927, para o Ministério da Justiça e dos
Cultos, determinara, entre as duas polícias, uma separação, que aumentara depois com a
edificação do Estado Novo e a criação da PVDE, em 1933. Em 1945, ano em que foi
criada a PIDE, a PIC foi substituída pela Polícia Judiciária (PJ), desde então
vocacionada para a investigação criminal (Nota 2).
A atitude dos opositores políticos portugueses, nomeadamente dos comunistas, diferia
consoante lidavam com a PJ ou com a PIDE. Por exemplo, ao ser preso no Luso em
1949, Álvaro Cunhal recusou responder a qualquer pergunta da PIDE, «instrumento de
repressão exercida contra os trabalhadores e todos os portugueses democratas»,
explicando isso mesmo ao chefe de brigada da PJ, Antero da Glória Santos — que mais
tarde ingressaria, aliás, na PIDE (Nota 3).
A PJ viu-se, porém, também envolvida na investigação de casos de carácter político,
quando estes envolveram aspectos considerados de carácter comum, ao incluírem
nomeadamente homicídio ou roubo. Foram os casos, entre outros, do assalto ao Banco
de Portugal na Figueira da Foz, pela LUAR, em 1967, e dos assassinatos dos
funcionários do PCP, Aurélia Celorico, Manuel Vital, Manuel Domingues e José
Miguel, como se verá. Relativamente a estes assassinatos, pode-se desde já afirmar que
a PJ colaborou com a PIDE, mesmo se houve então alguma rivalidade entre as duas
polícias.
O inspector da PIDE Fernando Gouveia contou que, no primeiro caso, foi abordado por
um inspector da PJ do Porto, que lhe pediu colaboração (Nota 4). No caso Manuel
Domingues, a PIDE informou a PJ, acerca dos métodos clandestinos dos comunistas, e
entregou-lhe, três funcionários do PCP, José Magro, Alcino Ferreira e Augusto da Silva
Martins, que, aliás se prontificaram a prestar declarações nesta polícia, ao contrário do
que haviam feito naquela. Depois, no relatório final sobre o caso, a PJ conta que, «pela
natureza da sua própria missão», era a PIDE que tinha a «competência para investigar o
crime» (Nota 5) e ordenou a remessa da cópia dos autos a esta polícia (Nota 6).

Nota 1 - Ibidem.
Nota 2 - Polícias: 25 Anos ao serviço da Nação; sítio da PJ na Internet; Leonor Sá,
«Criminal Investigation Police versus Political Police during the "First Republic" and
the Dictatorship of Salazar: notes from an archive», February, 1996; PIDE/DGS, OS 88,
29/3/45 — Decreto-Lei n.° 35 042, de 20/10/45.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. dir. 746/49, assinado pelo agente José Mesquita Portugal.
Nota 4 - Ibidem, pr. 431 GT, Luís Moreira do Vale, fl. 1.
Nota 5 - INPCC, Museu e Arquivos Históricos da Polícia Judiciária, Arquivo Histórico
Documental, Arquivo da PJ, Ofício da PJ 5-1753.
Nota 6 - Ibidem, pr. 14379/761; Arquivo da PJ, pr. 7123, ano de 1951.

83

Quase dez anos depois, a investigação do assassinato de José Miguel, membro suplente
do CC do PCP, foi entregue ao então chefe de brigada Carlos Rodriguez da Silva
Martinez, o mesmo que, dez anos antes, tinha investigado o caso Manuel Domingues.
No seu relatório, considerou novamente que a PJ não estava especializada para apurar o
crime em causa, mas, numa crítica velada à PIDE, sugeriu que a polícia política não
tinha colaborado, prestando as devidas informações (Nota 1).
Diga-se que, após o 25 de Abril de 1974, a PJ esforçou-se por não ser confundida com a
PIDE/DGS, tendo então um funcionário daquela polícia afirmado, numa assembleia,
que, «entre DGS e PJ houve sempre entendimento sobre o que era um crime
marcadamente político e um crime de delito comum» (Nota 2).
Também no caso referente à LUAR houve uma clara colaboração da PJ, cujo chefe de
brigada Saraiva informou a PIDE de que, ao prender vários elementos, em Alhos
Vedros, tinha encontrado apontamentos de carácter político, pelo que os remeteu àquela
polícia. Quantos aos métodos da PJ, aproximaram-se pela violência dos utilizados pela
PIDE: Rui Gonçalves, um dos presos pela PJ, afirmou à PIDE que só referira ter sabido
da operação da Figueira da Foz porque o tinham obrigado a fazê-lo à força de pancada.
Por seu lado, Ângelo Cardoso, atraído a Espanha para um falso encontro, pela PJ, que o
prendeu, raptou e espancou, contou que o próprio director desta polícia lhe disse que era
escusado denunciar ao juiz esse rapto, pois o tribunal acreditava mais numa mentira da
polícia do que numa verdade de um preso. Outro detido, posteriormente entregue à
PIDE, contou que na PJ havia sido colocado, no meio de 12 elementos desta polícia,
entre os quais se contaram o chefe de brigada Saraiva e o agente Regadas, que o haviam
espancado (Nota 3). O mesmo Regadas e outros dois elementos da PJ, Júlio Santos e
Meireles, foram, durante o movimento estudantil de 1969 em Coimbra, acusados pelo
estudante Manuel Pinto de o terem colocado «de pé, em sentido, a meio metro da
parede», insultado e espancado (Nota 4).

III.4.4. A PIDE/DGS e a Legião Portuguesa

Não cabe aqui fazer a história da Legião Portuguesa (LP), criada como uma milícia
paramilitar do regime, em 1936, e que, ao longo dos anos, se transformou num órgão de
elementos idosos, cuja pertença a essa organização servia sobretudo para obter
empregos na função pública ou ascender na hierarquia dos mesmos. Se, entre 1936 e
1945, a LP funcionou como um «corpo militar» chamado a colaborar com o Exército,
no período da Guerra Fria assistiu-se a uma cristalização da organização, que nos anos
60 se dedicou ao combate à subversão, no plano sindical e estudantil (Nota 5).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 14379/761, fls. 154 e segs., conclusão.


Nota 2 - Diário Popular, 19/li /75, p. 11.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 8259 Cl (2), pasta 3, fls. 1-6, 14, 43, 45, 112, 117, 130, 140,
160, 163, 164, 181, 188, 202, 251, 259, 385, 389, 453 e segs.
Nota 4 - Expresso, 10/6/99, pp. 66, 68 e 70.
Nota 5 - Art.° 3.º do Decreto-Lei n.° 44 062, de 28/11/61.

84

Lembre-se que a LP tinha uma rede de informadores, até porque teoricamente, embora
nem sempre na prática, qualquer legionário deveria ser um potencial denunciante.
Legionários eram a maioria dos que queriam ascender na hierarquia da função pública, e
também em algumas empresas privadas, embora se deva notar, que o facto de se ser
legionário nem sempre indicava lealdade ao regime ou espírito militante na defesa do
Estado Novo.
Embora a LP tenha habitualmente colaborado com a PIDE/DGS, o relacionamento entre
essas duas forças, tuteladas pelo Ministério do Interior, não esteve isento de conflitos e
rivalidades. Refira-se também, por outro lado, que alguns legionários mais «afoitos» e
«activos» acabaram por ingressar na PIDE, mesmo continuando na LP, e que as redes
próprias de informadores das duas organizações, por vezes, se sobrepuseram. A PIDE
mostrou, aliás, frequentemente o seu desagrado relativamente ao facto de os legionários
manterem, em paralelo, um serviço de informação e de escuta das emissões clandestinas
(Nota 1) e nem sempre enviarem a esta polícia os dados recolhidos.
Um dos elementos da PIDE/DGS, o inspector adjunto Óscar Cardoso, confirmou que a
LP procurava «a todo o custo colaborar com a DGS», mas que esta sempre «procurou
afastá-los, pois criavam, por vezes, situações embaraçosas além de que a maior parte da
sua colaboração era um «trabalho de amadores» (Nota 2). A PIDE não deixou, aliás,
de ter, no seio desta força paramilitar, um informador, chamado «Penha de França»
(António Antunes de Almeida (Nota 3)) devido ao local onde estava a sede da Legião,
em Lisboa. Teria sido, através de «Penha de França» que António Rosa Casaco, chefe da
brigada da PIDE que assassinou o general Delgado e a sua secretária, em 1965, soube
da realização de um curso, ministrado por Yves Guérin Sérac, chefe da Aginter Press,
em Lisboa, onde um dos exercícios foi a execução de um rapto e assassinato de uma
figura da oposição (Nota 4).

III.4.4.1. «Consta que...»


As denúncias da LP enviadas ao Ministério do Interior começavam habitualmente pela
expressão «consta que» (Nota 5), proposta ao ministro do Interior pelo comandante-
geral Francisco Craveiro Lopes, em 1944, ao verificar que as informações prestadas
pelos seus serviços «nem sempre assentavam em bases suficientemente sólidas para
poderem ser aceites por entidades superiores» (Nota 6).

Nota 1 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., pp. 259 e 260. Os autores relatam
que os serviços secretos da LP à escuta das rádios clandestinas eram feitas por um
«Inocêncio».I
Nota 2 - Arquivo Histórico Militar, Oscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso, 4.° Juízo
do TMT, proc. 118/76, fl. 37.
Nota 3 - Nuno Vasco, Óscar Cardoso, A bem da Nação, p. 81.
Nota 4 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, Lourdes, op. cit. p. 81.
Nota 5 - PIDE/DGS, proc. n.° 663/46, de 28/11/46.
Nota 6 - MAI-GM, caixa 044, em 4/8/50.

85

Em Fevereiro de 1949, a LP acusou Luís Lupi, da agência noticiosa Lusitânia e


representante da Associated Press, de ser do «rerviralho» e ter fornecido à Grã-Bretanha
notícias tendenciosas do último eleitoral. Como se viu, a PIDE convocou esse jornalista
para um interrogatório (Nota 1).
Por vezes, a LP incorria em excesso de zelo e mostrava desconhecimento de factos da
história recente, o que não deixava de irritar a PIDE. Por exemplo, em Julho de 1949, a
PIDE recebeu uma denúncia de um legionário acerca do director dos serviços
administrativos dos CTT, acusado de ter sido cabecilha de uma greve dos Correios
durante a I República. Ora, além de a referida greve ter tido então como alvo o Partido
Democrático, o denunciado era um informador da PIDE, conforme esta polícia deu
conta ao ministro do Interior (Nota 2).
Tal como vigiou outras instituições do regime, a PIDE também se manteve atenta
relativamente à LP. Em 1968, o posto de Peniche enviou à direcção da PIDE várias
informações sobre os legionários da região, referindo que um deles, ex-comandante,
tinha sido julgado por fraude e que o segundo-comandante ostentava «vaidade e
jactância». Ainda nesse ano, o chefe do posto de Peniche informou a sua direcção de
que o comandante da LP se recusara a condecorar o chefe de brigada Fernando José
Waldeman do Canto e Silva, por «não querer nada com os gajos da PIDE» (Nota 3).
Com efectivos cada vez mais diminutos e desprestigiados à medida que se tornavam
mais violentos, a LP distinguiu-se pelas provocações feitas aos oposicionistas durante as
eleições de 1969 (Nota 4). Em Outubro desse ano compareceu na delegação de Coimbra
da PIDE/DGS o cabeleireiro José João Frutuoso Ribas a queixar-se de, numa sessão da
CDE «por motivos que ignora, a sua presença ter sido notada, razão porque um dos
organizadores da reunião que não soube identificar, lhe fizera sentir que o melhor era
abandonar aquela sala», enquanto outros diziam que ele era «um elemento da PIDE». O
cabeleireiro esclareceu, porém, a DGS de que, na realidade ele era um elemento da LP,
«enviado para a sede da CDE». Desagradado com o facto de «tudo anda(r) à paisana e,
depois, tudo é da PIDE», o responsável da delegação desta polícia em Coimbra
considerou que se deveria impedir a repetição de procedimentos «desta ordem por parte
de elementos mal preparados» (Nota 5).
Depois, no decurso da campanha eleitoral de 1973, a LP perguntou à DGS a sua opinião
sobre uma acção de legionários que, na Baixa da Banheira, tinham feito «pichagens nos
muros fronteiros ao edifício onde decorria a sessão» da CDE e furado «os pneus das
viaturas de alguns participantes».

Nota 1 - Ibidem, caixa 018, pasta «Lisboa», carta ao SNI, de 25/2/49.


Nota 2 - Ibidem, carta de 12/7/49.
Nota 3 - PIDE/DGS, NT 9149, correspondência expedida de Peniche, de Fevereiro de
1968 a Maio de 1968, fls. 74, 176, 331, 339, 370, 383 e 386.
Nota 4 - MAI-GM, caixa 372, pastas «política» e «diversos».
Nota 5 - PIDE/DGS, NT 10715, delegação de Coimbra, fls. 9 e 14.

86

Não se sabe qual foi a opinião da DGS mas, pelo exemplo, vê-se que uma parte da LP
tinha claramente enveredado por actividades violentas e provocatórias, com destaque
para os Centuriões, um grupo de choque criado no seio do batalhão n.° 1 da LP, com
sede no Largo do Rato, comandado por Carlos Góis Mota (Nota 1). Lembre-se que este
último terá tido uma intervenção no assassinato de Humberto Delgado, em 1965 (Nota
2).

III.5. A PIDE/DGS e o aparelho distrital e local

O Ministério do Interior requeria habitualmente às câmaras municipais e aos governos


civis, informações que eram depois transmitidas aos diversos ministérios e à PIDE
(Nota 3), com o objectivo de «travar a infiltração no aparelho de Estado» (Nota 4).
Através de uma circular de 1947, o Ministério do Interior convocou também os
governadores civis a actuar contra os autores, proprietários de tipografias e
distribuidores de imprensa clandestina, solicitando a intervenção da GNR e da PIDE.
Que os governadores civis e autarcas eram obedientes provam-no os exemplos das
informações enviadas, ao Interior, em 1948, pelo Governo Civil de Lisboa, de que
existiam em Alcoitão alguns adeptos do MUD, e o pedido do vice-presidente da Câmara
Municipal de Cascais, coronel Júlio Garcez de Lencastre, para que a PIDE enviasse
agentes a esse concelho. (Nota 5)
Por vezes instados pela tutela a prestar informações sobre a idoneidade dos elementos
locais, os governos civis pediam-nas, por seu turno, à PIDE, atitude contra a qual o
ministro do Interior se insurgiu. Diga-se, porém, que este também não permitiu que as
informações dos governos civis fossem directamente transmitidas à PIDE, como queria
essa polícia. Por seu turno, alguns governos civis manifestaram-se contra o facto de a
PIDE pedir directamente informações sobre oposicionistas. Em Novembro de 1948, o
Governo Civil de Bragança estranhou, junto do Ministério do Interior, que a PIDE lhe
tivesse pedido elementos pormenorizados sobre oposicionistas de Mirandela, dado que
não era das suas atribuições esse tipo de informação (Nota 6). Acerca desse assunto,
Cancela de Abreu esclareceu junto da PIDE que todas as consultas deveriam passar pelo
seu gabinete. (Nota 7)
Às vezes, embora raramente, os governadores civis queixavam-se à tutela das violências
da PIDE (Nota 8). No entanto, a maioria deles informou obedientemente o Ministério
do Interior, e, através deste, a PIDE. Muitos mostraram-se mesmo muito zelosos,
transmitindo toda a espécie de de denúncias sobre indivíduos das suas regiões, a ponto
de a própria PIDE desmentir algumas dessas suspeitas (Nota 9).

Nota 1 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., pp. 132 e 161.
Nota 2 - Juán Carlos Jimènez Redondo, El Otro Caso Humberto Delgado. Archivos
Policiales y de Información, pp. 217 e 252-253. Este historiador assinalou que estes
Centuriões surgiram após a tensão criada pelo caso do assassinato de Delgado e que
uma das suas primeira acções foi, em 1965, o ataque à Sociedade Portuguesa de
Escritores.
Nota 3 - MAI-GM, caixa 008, 1947, pasta «Santarém», carta do governo civil ao
ministro do Interior, de 25/9/47.
Nota 4 - Ibidem, livro 115, correspondência enviada pelo chefe do gabinete do ministro
do interior, capitão Manuel Pereira Coentro, 24/4/47.
Nota 5 - Ibidem, caixa 020, 1948-49.
Nota 6 - Ibidem, caixa 003.
Nota 7 - Ibidem, caixa 018.
Nota 8 - Ibidem, caixa 011, pasta «subsídios a famílias de presos políticos».
Nota 9 - Ibidem, caixa 020, 1948-49, pasta «comunicados».

87

Em 1960, o director da PIDE transmitiu à tutela que, segundo informação da delegação


do Porto, havia exagero na denúncia de que o presidente da Câmara de Arcos de
Valdevez fosse comunista, lembrando que, para «certa camada menos ilustrada da
população» eram comunistas todos os que não demonstravam «estar desassombrada e
abertamente com os ideais que norteiam a nossa política actual» (Nota 1).
Outra atribuição desta polícia, embora não oficial, foi a de vigiar os autarcas e
governadores civis, inquirindo sobre a veracidade das suspeitas e denúncias de
corrupção e outras contravenções não políticas formuladas contra estes que pudessem
manchar ainda mais a imagem já deteriorada do regime. Nesse sentido, também a PIDE
funcionou como uma espécie de departamento de «relação públicas» do Estado Novo.
Veja-se a comunicação do posto de Torres Vedras segundo a qual a Câmara de Sintra
estaria na mais completa anarquia e haveria funcionários a fazer fortuna. No mês
seguinte, o posto de Peniche acusou o presidente da Câmara da Lourinhã ser «pouco
amigo de colaborar com as autoridades» (Nota 2).
O mês de Agosto de 1971 foi o do primeiro festival de música pop de Vilar de Mouros.
A DGS recebeu então, do seu «elemento informativo», críticas ao que lá se tinha
passado, assinalando, entre outros «horrores», relações sexuais», «porcaria de todo o
género no chão» e «cabeludos». Sobre o festival houve aliás visões desencontradas.
Enquanto para a Câmara Municipal de Caminha nada de «anormal» se tinha passado, o
governador civil de Braga solicitou ao Ministério do Interior que cessassem festivais
anarquistas desse tipo. O seu colega de Viana do Castelo não concordou, porém, com
esta opinião, mas o ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, escreveu a este último
recomendando-lhe que cesassem essas iniciativas (Nota 3). O regime vivia entretanto,
como se sabe hoje, lenta mas seguramente, um clima de estertor. Em Janeiro de 1973, as
más notícias — para a DGS — continuavam, evidenciando muitas delas o facto de o
regime se estar a debater com dificuldades no recrutamento para a administração local e
regional (Nota 4). De Évora, o chefe de posto da DGS, António Cândido Melo,
denunciou nesse ano o presidente da Câmara de Mourão, por ver «com indiferença o
pessoal» dessa polícia (Nota 5).
A DGS de Aveiro transmitiu, por seu turno, à sua direcção, em 1974, que o deputado
Manuel José Homem de Melo informara telefonicamente o presidente da Câmara
Municipal de Águeda de que o ministro do Interior iria enviar «outra Polícia», em
diligências para essa zona. De facto, em Fevereiro de 1974, o inspector da DGS do
Porto mandou um relatório sobre buscas efectuadas em Águeda, onde nada tinha
encontrado, dado que a população tinha sido avisada da deslocação dessa polícia através
de alguém da família Mendes Leal (Nota 6).

Nota 1 – Ibidem, caixa 226, 1962, pasta «actividades anti-situacionistas de Outubro a


Dezembro», 18/10/62.
Nota 2 - PIDE/DGS, NT 9149, fls. 11, 106, 108, 109, 132, 134, 153, 338, 343, 357 e
435.
Nota 3 - Ibidem, caixa 396, pasta «diversos Julho a Dezembro», inf. da DGS 226 Cl (1).
Nota 4 - Ibidem, fl. 2, 8 e 11.
Nota 5 - Ibidem, pasta 10, distrito de Évora, fls. 2 e 8.
Nota 6 - Ibidem, pasta 1, distrito de Aveiro.

88

III.6. A PIDE/DGS e outros organismos estatais

A PIDE/DGS tinha uma função com grande repercussão na vida dos Portugueses — dar
informações em abono ou desabono de candidatos a lugares na função pública. Dessa
forma, a polícia política nunca deixou de receber informações das instituições estatais,
transmitindo-lhes, por seu turno, os dados que considerava interessar-lhes. Estavam
neste caso, as instituições ligadas ao almejado «corporativismo» do Estado Novo. Por
exemplo, em 1962, a polícia recebeu denúncias acerca do gerente do grémio da lavoura
e também secretário da Casa do Povo de Aljustrel, considerado pelo anónimo
denunciante um «intriguista político, com tendências comunistas» (Nota 1).
Lembre-se que os próprios ministérios tinham também os seus serviços privativos de
informação, como se viu no caso do Ministério do Interior. Sobre o do Ministério da
Educação Nacional, com o nome de Centro de Documentação Internacional, que
transmitia à tutela informações sobre o meio estudantil, há duas versões sobre a autoria
do mesmo: numa teria sido formado, em 1966 (Nota 2), pelo ministro da Educação
Nacional, Inocêncio Galvão Teles, mas noutra teria sido da autoria de Hermano Saraiva
(Nota 3). O certo é que a PIDE/DGS colaborou com esse organismo, «fornecendo
subsídios e estabelecendo elos de informação que permitiam prever as movimentações
dos estudantes antifascistas» (Nota 4).

III.6.1. Informação sobre funcionários da administração pública

A missão de informar sobre a «idoneidade política e moral» de candidatos a um


emprego na função pública foi oficializada através da criação do Conselho Nacional de
Segurança, em 1949 (Nota 5), que definiu a classe de indivíduos sujeitos à vigilância da
PIDE. Dado que era a administração pública que empregava muitos portugueses, pode-
se imaginar como era terrível o facto de a PIDE dar uma má informação sobre alguém,
que, a partir de então, podia pura e simplesmente ficar desempregado e sem hipóteses de
arranjar trabalho.
Como se verá, na vigência de Salazar, era ele, enquanto presidente do Conselho de
Ministros, que despachava definitivamente no sentido de aceitar ou não o candidato. A
colaboração entre a PIDE e os diversos organismos estatais era, bem entendido, feita
directamente através do Ministério do Interior e dos organismos por este tutelados, entre
os quais se contaram as câmaras municipais e os governos civis dos distritos, como
também se verá mais adiante.
Recorde-se desde já um episódio que servirá depois abundantemente à PIDE nessa
missão informativa: a entrega, no pós-guerra, pela comissão central do MUD ao
Ministério do Interior, das listas com os assinantes a favor desse movimento político.

Nota 1 - Ibidem caixa 226, 1962, pasta «actividades anti-situacionistas de Outubro a


Dezembro», inf. n.° 793 Cl (1).
Nota 2 - AEPPA. Elementos para a História da PIDE, «Para que o tribunal julgue a
PIDE», nº 1, 1976, p. 17.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 3529/62 SR, pasta 79, Ministério da Educação Nacional.
Nota 4 - AEPPA. Elementos para a História da PIDE, p. 17.
Nota 5 - PIDE/DGS, NT 4172, copiador SR, correspondência expedida, serviços
centrais, pasta 1.

89

Lembre-se também que a comissão distrital do MUD do Porto se recusou então a


entregar as listas respeitantes ao Norte do país. O certo é que a PIDE ficou, a partir de
1948, com as listas distritais dos assinantes do MUD. O mesmo aconteceria, depois,
com os requerimentos entregues nos governos civis solicitando autorização para
promover sessões de propaganda a favor do candidato presidencial da oposição, Norton
de Matos. Ainda em 1948, o subsecretário de Estado das Corporações e Previdência
Social tornou dependente de prévia informação do gabinete do ministro do interior, «sob
aspecto político», a nomeação de médicos dos postos da Federação das Caixas de
Previdência. O Ministério do Interior enviou, por seu turno, uma circular aos
governadores civis a pedir indicações sobre a idoneidade política dos candidatos a
empregos na função pública, onde se devia indicar os que eram «nitidamente adversos»
e os «afectos» ou simpatizantes do regime salazarista (Nota 1).
Os candidatos a um emprego recusados foram inúmeros. Em 1950, o médico João dos
Santos teve de ir viver para Paris depois de ser demitido do Hospital de Júlio de Matos,
devido a uma informação da PIDE de que tinha assinado as listas do MUD. A mesma
polícia queixou-se, aliás, de que, apesar de oposicionista, o médico tinha recebido uma
casa económica do Estado no Bairro da Encarnação, beneficiando «da política e
realizações do governo no que respeita a regalias».
Noutro caso, apesar de o presidente da comissão concelhia da UN ter intercedido por
ele, um médico da Casa do Povo continuou a ser considerado, tanto pelo governador
civil de Bragança como pela PIDE, «desafecto ao regime (Nota 2). Que muitos médicos,
para obterem trabalho, fossem obrigados a renegar anteriores atitudes políticas não era
das menores tragédias. Por exemplo, em 1952, um candidato a assistente à Faculdade de
Medicina de Lisboa afirmou ao ministro do Interior ser a favor do regime e de ter sido
anteriormente coagido a assinar uma lista da oposição, apresentada pela assistente
Cesina Bermudes, da qual era subordinado (Nota 3).
Em Maio de 1965, a Presidência do Conselho colocou à consideração do ministro de
Estado um processo disciplinar movido pelo Ministério da Saúde e Assistência contra
Fernando de Oliveira Rodrigues, 1.° assistente do Sanatório D. Carlos I, que tinha sido
condenado, em 11 de Julho de 1964, a 18 meses de prisão por pertencer ao PCP. A
Presidência do Conselho considerou, porém, inútil o processo disciplinar, dado que «as
infracções cometidas» por esse médico já tinham, como consequência, «a aposentação
ou a demissão do funcionário» (Nota 4).
Nota 1 - MAI-GM, caixa 002; caixa 018, despachos do Interior de 12/8 e 23/8/48, chefe
do gabinete major Manuel da Costa Monteiro, em 1/10/48.
Nota 1 - Ibidem, caixa 044, do chefe de gabinete ao ministro das Colónias e
subsecretário das Corporações e Previdência Social, em 21/1/50, informação da PIDE
de 1/3/50.
Nota 3 - Ibidem, caixa 080, carta do ministro do Interior, de 10/7/52.
Nota 4 - Discriminação Política no Emprego no Regime Fascista, pp. 196-198; Manuel
Sertório e Ricardo Sá Fernandes, «Um processo político. Após 1974, requereu a revisão
do processo», in Diário de Notícias, 12/10/77, p. 9.

90

A situação já não era, porém, rigorosamente a mesma, nos anos 70, quando Marcelo
Caetano se tornara presidente do Conselho, em parte também porque a DGS já não
conseguia lidar com o amontoado de informações, e em parte porque a oposição ao
regime se ia diversificando e aumentando. Notou-se então, em vários casos, a
readmissão de alguns médicos oposicionistas nos hospitais civis. Isso levou, aliás, a
DGS a queixar-se, em 1970, de que os meios «subversivos» de Pias, Vale do Vargo,
Aldeia Nova de São Bento e Serpa rejubilavam, devido à admissão de três médicos
«destacados oposicionistas» (Nota 1).
Outra das profissões ligadas ao Estado era a docente, com a qual, por razões evidentes,
o regime salazarista sempre se preocupou, mantendo-a sob apertada vigilância. Um caso
terrível passou-se, em 1946, com Maria Isabel Aboim Inglês, convidada para professora
da Faculdade de Letras de Lisboa, em 1942, mas demitida pelo ministro da Educação
Nacional, Mário de Figueiredo. Em 1949, dois dias antes das eleições para a Presidência
da República, em que apoiou o candidato da oposição, general Norton de Matos, o seu
colégio foi encerrado e o Conselho de Ministros decidiu «cassar-lhe os diplomas de
directora de estabelecimento de ensino e de professora. Depois foi convidada a
leccionar Filosofia numa universidade brasileira, mas o regime não lhe concedeu o
passaporte, obrigando-a a permanecer no país (Nota 2.)
Este caso, porém, só serve de exemplo, pois não foi único. Por vezes, as próprias
entidades locais e distritais intercediam a favor de indivíduos que tinham sido alvo de
má informação da PIDE (Nota 3). Que esta polícia não conseguia dar conta dos
inúmeros pedidos de informação feitos pelas autarquias, distritos e pelos mais variados
organismos do Estado pode ser atestado pela resposta que deu, em 1952, a uma crítica
da Câmara Municipal do Alandroal, ao argumentar que estava com excesso de trabalho,
lembrando a possibilidade legal de essa competência poder ser exercida pela PSP, «na
falta de serviços locais da PIDE» (Nota 4).
Finalmente, refira-se um último caso de impedimento de exercício da profissão docente,
que atingiu Maria Branca Ribeiro de Lemos, professora da Escola Industrial e
Comercial de Aveiro, secção de Ílhavo. Soube que se encontrava impedida de continuar
a leccionar, devido a uma informação da PIDE enviada em 1958 à Presidência do
Conselho, segundo a qual ela tinha subscrito uma circular do MUD e havia pertencido à
direcção da delegação do Porto da Associação Feminina Portuguesa para a Paz,
dissolvida pelo governo em 1952 (Nota 5).
Não eram só os candidatos a médicos e professores a serem alvo de vigilância e
despedimento, mas também outros funcionários.
Nota 1 - PIDE/DGS, pr. cr. 406 Cl (1), NT 1185, pasta 6, distrito de Beja, 1972, íls.M
Era governador civil João Luís Graça Sagalo Vieira da Silva (exonerado), Fernando de
Almeida Nunes Ribeiro, Adriano Gonçalves da Cunha.
Nota 2 - José Ricardo, op. cit., pp. 196 e 197. Isabel Aboim Inglês morreu
repentinamente em 7 de Março de 1963.
Nota 3 - MAI-GM, caixa 080, pasta «Évora», carta da PIDE, de 22/12/52.
Nota 4 - Ibidem.
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 825/47 SR, Maria Branca Ribeiro de Lemos, fls. 14, 15 e 59, de
17/5/71.

91

Veja-se o caso da viúva de Bento de Jesus Caraça, Cândida Caraça, empregada nos
serviços
mecanográficos da Federação das Caixas de Previdência e à beira de ser promovida a
chefe de divisão, sobre a qual a PIDE deu, em 1949, a informação de que tinha sido
«catequizada» pelo marido para as ideias comunistas, razão pela qual não deveria
continuar no emprego.
Por seu turno, em 3 de Março de 1964, o director da PIDE informou o secretário-geral
da Presidência do Conselho do «mau» currículo «político» do arquitecto Manuel
Mendes Tainha, candidato a professor na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa
(Nota 1). Em 26 de Março de 1968, outro arquitecto, Raul Hestnes Ferreira, foi
«riscado», pelo director da PIDE, que informou a Presidência do Conselho de que tinha
sido preso em 1955 por ser «elemento de acção dentro do "M.U.D. Juvenil"» (Nota 2)
Refira-se ainda que os indivíduos detidos eram impedidos de continuar na função
pública, mesmo quando eram libertados ou absolvidos, por nada se ir contra eles: por
exemplo, em 1963, um funcionário do Comissariado do Desemprego, preso por ter
alegadamente proferido frases subversivas e agredido um elemento da Delegação de
Saúde de Lisboa, foi afastado do emprego, mesmo depois de ter sido absolvido (Nota
3). As câmaras municipais, o Subsecretariado da Corporação e Previdência Social, o
INTP, os grémios (Nota 4) os vários ministérios chegaram a afastar funcionários por não
terem ou por terem secretariado mesas de voto pela oposição (Nota 5).
Como se verá mais à frente, os mais variados informadores anónimos ajudavam também
a PIDE nessa sua tarefa de informação. Em 1962, um «teimoso nacionalista» acusou de
subversão um advogado, chefe do movimento do pessoal dos CTT, e o próprio
Ministério das Comunicações solicitou ao do Interior, no sentido de que ele fosse
vigiado pela PIDE. Após inquérito, esta respondeu que efectivamente o dito funcionário
«parecia não inspirar confiança» (Nota 6). No entanto, também houve casos em que,
após investigação, a própria PIDE considerou que afinal os denunciados eram bons
«nacionalistas», como aconteceu com um empregado de lavandaria do Hospital de São
José, denunciado por ser comunista, mas ilibado pela PIDE, segundo a qual ele dava
«indícios de simpatia pela actual Situação» (Nota 7).

Nota 1 - Discriminação Política no Emprego no Regime Fascista, p. 178.


Nota 2 - Ibidem, pp. 208, 224 e 226.
Nota 3 - MAI-GM, caixa 252, pasta «actividades subversivas», carta de 26/3/63.
Nota 4 - Ibidem, caixa 018, Lisboa 22/9/49, carta ao presidente da Câmara de Lisboa do
ministro do Interior, chefe de gabinete Filipe Guedes, 24/6/49.
Nota 5 - Ibidem, caixa 025, 1949. Listas de funcionários dos vários ministérios que não
votaram ou foram secretários numa mesa eleitoral da oposição, etc...; caixa 018, 1949,
carta ao Mistério da Economia do chefe de gabinete do ministro do Interior, de 30/7/49,
denunciando um funcionário do grémio da Lavoura do Cadaval de ser «comunista
confesso»; caixa 340, 1950, pasta «tarefeiros», a PIDE envia, a pedido do Ministério do
Interior, informações sobre indivíduos que prestavam serviço no Laboratório de Física e
Engenharia Nuclear; caixa 080, 1952, pasta «Lisboa».
Nota 6 - 'Ibidem, caixa 252, 1963.
Nota 7 - Ibidem, 1947.

92

Para o fim fica um terrível caso, revelador do que as más informações E/DGS levavam
alguns candidatos a um emprego a fazer: em 1971, o nome de um deles foi retirado de
uma lista «maldita» enviada aos governos civis, após informação da DGS de que tomara
o compromisso de abandonar aquilo a que chamava «actividade artística» e afirmara «a
sua ligação consciente aos princípios orientadores da política do Estado» (Nota 1)

III.6.2. Colaboração entre outras entidades estatais e a PÍDE/DI

Para se ter em conta o grau de colaboração de outras entidades com a PIDE/DGS, veja-
se um quadro que dá conta de quem entregava essa polícia os presos e quem pedia a
captura destes. Assim, num universo de 3188 prisões, se a PIDE/DGS, a nível central
ou local, foi responsável pela prisão de 58,5 %, por outro lado, 18,54% e 4,26%,
respectivamente, foram da autoria de outros polícias e dos tribunais, que entregaram os
respectivos detidos à polícia política. Perto de 20% foram entregues à PIDE/DGS por
outras forças policiais, o que revela o grau de colaboração entre essas forças e a polícia
enquanto 5,8 % foram entregues pelas autoridades militares. As autoridades marítimas
e capitães de navios, provavelmente relativamente a emigração clandestina, entregaram
à PIDE 4,35 % dos presos. Destaque-se a colaboração das câmaras municipais,
responsáveis por entregarem à PIDE/DGS mais de 2% dos presos.

Quadro 17 Colaboração das forças armadas, das polícias e dos tribunais

Outras entidades estatais Entregues à PIDE/DGS


Forças Armadas 186 (5,83%)
A pedido de ministérios 4 (0,03 %)
Autoridades marítimas 62 (1,95%)
Capitães de navios 76 (2,4 %)
Câmaras municipais 68 (2,1 %)
Cadeias civis 105 (3,3 %)
GNR 180 (5,64%)
PSP 336 (10,5)%
PJ 77 (2,4 %)
Guarda Fiscal 20 (0,6 %)
Polícia de Viação 4 (0,03 %)
Legião Portuguesa 11 (0,34%)
Directoria de Lisboa 1241 (38,9%)
Delegações 550 (17,25 %)
Postos da PIDE/DGS 78 (2,44 %)
Autoridades espanholas 206 (6,46 %)
Países estrangeiros 9 (0,28 %)
Tribunais 136 (4,26 %)
Presos a pedido de tribunais 22 (1,58%)
Entregues por tribunais à PIDE 114 (3,57%)
Outras 19 (0,6 %)
Total de prisões analisadas 3188

Fonte: Cadastro de presos da PIDE/DGS.

Dito isto, a maioria das prisões foram feitas pela própria PIDE/DGS ou seja, pelos seus
postos, delegações, subdelegações e pela diretoria de Lisboa, responsáveis pela prisão
de mais de 58,5 % dos indivíduos assim, é sintomático que 41,5 % dos presos tivessem
sido entregues à PIDE/DGS por outras autoridades do país. Destaque-se ainda o facto
autoridades espanholas serem responsáveis pela entrega de muitos indivíduos à
PIDE/DGS, incluindo-se, neste número, uma maioria de emigrantes clandestinos
portugueses.

III.7. Apoio da PIDE/DGS à Censura

A Censura não surgiu repentinamente, em Portugal, nem foi uma criação do Estado
Novo.

Nota 1 - Ibidem, caixa 372, pasta «Lisboa», e caixa 390.

93

De facto, tal como o fez relativamente a outras instituições, nomeadamente as policiais,


o novo regime erguido por Salazar a partir de 1932/1933, recorreu a mecanismos
censores da I República e, sobretudo, aos da Ditadura Militar, «civilizando-os» e
aumentando a sua eficácia ao longo dos anos.
Ao assumir o novo cargo de presidente do Conselho de Ministros e ao erguer, a partir de
1932, o Estado Novo, Salazar lançou a chamada «Política do Espírito», com uma dupla
finalidade: a propaganda do regime, a cargo do Secretariado de Propaganda Nacional
(SPN), dirigido por António Ferro, e a Censura, dirigida por Álvaro Salvação Barreto.
Os dois serviços - de propaganda e de censura — estiveram, aliás, relacionados desde o
início e, não por acaso, viriam a ser reunidos no Secretariado Nacional de Informação
(SNI), sucessor do SPN.
Mais tarde, em 1949, ao ser criado o já referido Conselho de Segurança Pública, a PIDE
ficou com o poder de encerrar tipografias que imprimissem publicações, manifestos, ou
panfletos subversivos, bem como as funções de assegurar a colaboração com os serviços
de Censura e o SNI, na apreensão de livros e publicações periódicas nas livrarias, além
da vigilância da imprensa.
A colaboração era mútua. Após o assassinato do general Humberto Delgado pela PIDE,
os serviços de Censura emitiram, em 10 de Julho de 1965, uma circular sobre as notícias
que deviam ser silenciadas na imprensa, contando-se, entre estas, quase tudo o que dizia
respeito a essa polícia. Qualquer notícia sobre repressão e prisões políticas devia ser
fornecida, oficial ou oficiosamente, pela própria PIDE ou pelo SNI (Nota 1).
No ano seguinte foi detido, sob a acusação de transmitir informações para Paris de maus
tratos, exercidos pela PIDE a um preso comunista, um funcionário da France Presse
(FP) de Lisboa, Ludgero Pinto Basto, que era, aliás, um oposicionista político já
conhecido dessa polícia, nomeadamente por ter pertencido ao PCP. Desta vez, Pinto
Basto acabou por ser caucionado e ilibado da acusação (Nota 2). O novo correspondente
da AP em Lisboa, Isaac Flores, foi, em 1967, alvo de vigilância do informador
«Visconde» (Nota 3), da PIDE, que o chamou, aliás, à sua sede, devido às críticas que
tinha feito à censura sobre as notícias das catastróficas inundações e à forma como as
autoridades portuguesas tentavam diminuir a tragédia. A PIDE interrogou então também
o correspondente da United Press International (UPI), Edouard Khavessian, acerca de
uma informação dada por essa agência sobre protestos estudantis contra a actuação do
governo português em relação aos socorros prestados, nessas inundações (Nota 4).
Embora nunca descurasse a imprensa estrangeira, mantendo um serviço de recortes
minucioso de tudo o que se dizia nela sobre Portugal, bem como um serviço de escuta
de rádio, a PIDE esteve, como é evidente, sobretudo muito atenta à imprensa
portuguesa. Vigiava, interceptava e apreendia nomeadamente a correspondência enviada
aos semanários e possuía as listas dos seus assinantes. O Comércio do Funchal (CF) foi
alvo de muitas perseguições e suspensões e, em Maio de 1967 (Nota 5), foi suspenso,
por conter um artigo sobre a ditadura militar grega, embora a suspensão! basse por ser
levantada graças à interferência de deputados pelo circula Funchal.

93

Nota 1 - A Política de Informação no Regime Fascista, Comissão do Livro Negro do


Regime Fascista, pp. 190-191.
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 1967 Cl (2), imprensa estrangeira em Portugal, fls. 79, 94 e 96.
Nota 3 - Ibidem, fl. 61, informação «Visconde» onde se fala da vida de Isaac Flores,
8/5/67.
Nota 4 - Ibidem, fls. 55, 56, 28 e 34.
Nota 5 – Ibidem, pr. 3608 Cl (2), Comércio do Funchal, 1967-73, fl. 121.

94

Também interceptada foi a correspondência de e para as publicações O Tempo e o


Modo e Seara Nova, cuja redacção foi alvo de inúmeras buscas (Nota 1). O mesmo
aconteceu com o Jornal do Fundão (JF) e o Notícia Amadora (NA). (Nota 2).
Mas, mais que os semanários, foram os jornais diários, já por si ai da Censura, a serem
vigiados pela polícia política, que aí mantinha informadores. O arquivo da PIDE/DGS
referente ao DL contém, por exemplo, uma incriminação feita por essa polícia, em 1971,
ao administrador António Ruella Ramos, por ter publicado no suplemento «A Mosca»
um cartoon sobre o festival da canção, de João Abel Manta, também alvo de processo.
Numa nota manuscrita acerca de um artigo de Janeiro desses sobre o acórdão do
Supremo Tribunal relativo ao recurso feito pelos presos João Pulido Valente, Rui
d'Espiney e Francisco Martins Rodrigues, a DGS acusou o autor do artigo de «incutir
nos leitores o ódio à DGS» (Nota 3). Além deste, um dos jornais mais visados pela
vigilância e acção da PIDE/DGS foi o República, cuja correspondência interceptou
habitualmente (Nota 4).
Quanto aos livros, as buscas e apreensões começavam nas tipografias e terminavam nas
livrarias. Segundo relatou, em 1968, ao Foreign Office britânico, Miss Jane Gilbert,
cada vez que uma importante livraria recebia livros estrangeiros, cinco agentes da PIDE
confiscavam tudo o que mencionasse as palavras «social», «economics» e
«communism» (Nota 6).
Em 1972, o ministro do Interior emitiu um despacho em que alertava para o aumento
das publicações «atentatórias contra a sociedade», instando a DGS a organizar brigadas
para visitar e notificar regularmente as tipografias e livrarias onde eram habitualmente
apreendidas (Nota 7). Pediu porém à DGS para esclarecer os livreiros de que a
«apreensão» — que implicava a perda das publicações — só podia verificar-se
relativamente a «publicações proibidas pelos Serviços de Censura» (sublinhado no
texto) (Nota 8). Veja-se, a título de exemplo, um caso de «efectiva apreensão», realizada
pela DGS no final do regime: uma rusga em 23 de Março de 1972 na Livraria Europa-
América, em Queluz, onde foram apreendidos 400 livros e cartazes. (Nota 9)

III.8. A PIDE/DGS, os «situacionistas», a «ala liberal» E A EXTREMA-DIREITA

Contrariamente ao que se possa pensar, a PIDE/DGS não desJ a vigilância sobre os


chamados «situacionistas».

Nota 1 – Ibidem, pr. 560 Cl (1), Seara Nova, fls. 1 e 151.


Nota 2 - Ibidem, pr. 5558 Cl (1), Notícias da Amadora, fls. 1, 23 e 51.
Nota 3 - Ibidem, fls. 3, 8, 16 e 17.
Nota 4 - Ibidem, pr. 5311 Cl (2), jornal República.
Nota 5 - Ibidem, Delegação de Coimbra, Nt 10.625, 1971-73, fls. 1, 12 e 40.
Nota 6 - Public Record Office, PRO, FO 179/607, Lisbon, Portugal, Internai.
Nota 7 - Ibidem, caixa 372, pasta «despachos», de Gonçalves Rapazote, 3/2/72.
Nota 8 - PIDE/DGS, pr. 219 Cl (1), pasta 5, Ministério do Interior, recolha de 1071-73,
fl. 9, 24/4/72.
Nota 9 - A Política de Informação no Regime Fascista, p. 256.

95

Por um lado, para prevenir a dissidência no seio do regime, por outro lado, para obter
matéria sobre fraquezas dos alvos passível de ser usada como chantagem e, em terceiro
lugar, para auscultar a «opinião pública», os boatos e os desejos escondidos ou
manifestos de elementos de sectores do regime1. A PIDE/DGS manteve, além disso,
informadores junto de «situacionistas», como foi o caso de «Inácio» (Nota 2), e vigiou
as organizações do regime e os respectivos membros, bem como a forma como eram
considerados pela «opinião pública».
Tal aconteceu, por exemplo, com o Movimento Nacional Feminino (MNF) e a sua
principal dirigente, Cecília Supico Pinto (Nota 3). Esta tinha o telefone vigiado pela
PIDE, que, em Janeiro de 1966, transmitiu a Salazar o teor de um diálogo telefónico
entre ela e um interlocutor aspirante a um cargo no Estado, que solicitou «a
intervenção» da dirigente do MNF para adiar a sua incorporação militar. Cecília Supico
Pinto respondeu-lhe que iria pôr a sua «bateria a trabalhar» (Nota 4).
A PIDE/DGS também tinha, por via do Ministério do Interior, relações com a União
Nacional (UN). No entanto, Fernando Luso Soares recordou uma «famosa resposta do
capitão Catela» a uma observação de que não podia prender um deputado, em virtude da
imunidade parlamentar»: «Mas qual imunidade, qual carapuça!», disse Catela. «Eu cá
posso prender todas as pessoas menos o presidente do Conselho e o presidente da
República.» (Nota 5)
É um facto que a PIDE/DGS também esteve atenta à actividade dos deputados mais
irreverentes do partido único do regime, chegando a ter sob escuta os telefones de
elementos da UN ou da ANP, como foi o caso do deputado Manuel Homem de Melo
(Nota 6), para informar a tutela sobre se algum deles tinha «telhados de vidro» ou era
considerado corrupto. Veja-se, para só dar um exemplo, a ficha na PIDE do industrial
Sebastião Ramirez, ex-ministro do Comércio. Em 1965, o chefe de brigada Fernando
Waldeman do Canto e Silva, do posto de Portimão, deu conta de que a comissão
concelhia da UN tinha ficado indignada ao saber que a lista de deputados por Faro
incluía não só Ramirez como o almirante Tenreiro, elementos malvistos pela população
(Nota 7).

III.8.1. A «ala liberal»

No entanto, foi sobretudo nos anos 70, durante o marcelismo, que a DGS sentiu o
perigo que poderia representar a «ala liberal» da UN/ANP, a meio caminho entre o
«situacionismo» e o «oposicionismo».

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 5618 SR, pr. 266/48 SR, Ulisses de Cruz de Aguiar Cortês, fl.,
18,
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 266/48, Ulisses Cortês, LP/SI n.° 205/42.
Nota 3 - MAI-GM, caixa 217, pasta «Movimento Nacional Feminino», 1961, 1/8/61.
Nota 4 - AOS/CP-208, Pasta 21, 6.1.1/21, Fernando da Silva Pais, carta a Salazar, fls.
85-86 e 89-90.
Nota 5 - Nuno Vasco e Óscar Cardoso, A bem da Nação, pp. 167-169.
Nota 6 - PIDE/DGS, pr. 3.099 Cl (1), NT 1256, Assembleia Nacional, correspondência
e informações, confidencial, fls. 3 e 4; «Uma CIA de trazer por casa (1)», A Luta,
30/1/75,
pp. 16-18; Cf. ainda Nuno Vasco e Óscar Cardoso, A bem da Nação.
Nota 7 - Ibidem, pr. 727/46 SR, Sebastião Ramirez, fls. 8, 16, 26, 29, 32. 34, 35 e 41.

96

João Bosco Mota Amaral (Nota 1), José Pedro Pinto Leite e o católico João Pedro
Miller Guerra tiveram direito a pastas no arquivo da PIDE/DGS. A participação política
deste último como deputado na Assembleia Nacional teve, porém, pouca duração.
Segundo deu conta a Silva Pais o inspector-adjunto da DGS Armindo Ferreira da Silva,
em Fevereiro de 1973, a situação de Miller Guerra tinha-se revelado insustentável a
partir do momento em que havia considerado legítima a discussão acerca da presença de
Portugal no ultramar, havendo pessoas a considerar que esse deputado devia ser preso.
(Nota 2)
Mas a figura mais emblemática da «ala liberal» foi, sem dúvida, Francisco Sá Carneiro,
cujo telefone esteve sob escuta da DGS. Logo no final de 1969, exigiu, num discurso
sobre «instrução criminal e os direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos», a
presença de advogados nos interrogatórios da PIDE/DGS (Nota 3). Em Dezembro de
1972, Sá Carneiro lembro na AN que ainda não tinha sido colocada à apreciação uma
proposta sua de criação de uma comissão de inquérito à «actuação da DGS» e ao
lembrar que a defesa das sociedades não se podia fazer através do desrespeito pessoas
ouviu do deputado Casal Ribeiro: «faz-se à bomba» (Nota 4).
Em protesto contra a limitação das liberdades públicas e políticas em Portugal, Sá
Carneiro demitiu-se de deputado da AN em Janeiro de 1973. Continuou a ser vigiado
pela DGS, designadamente pelo posto de Leiria que relatou um colóquio aí realizado
pela SEDES com a participação dele e de Marcelo Rebelo de Sousa. Na sua intervenção
— sublinhada pela DGS —, Sá Carneiro afirmou que o governo mantivera, desde 1945,
«o sistema policial repressivo que suprimia as liberdades» e que, depois, havia passado
a controlar «em medida praticamente total o poder judicial» através do Conselho
Superior Judiciário.
Refira-se ainda, na intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, uma passagem — também
sublinhada pela DGS —, onde em resposta a uma pergunta sobre o papel que as Forças
Armada poderiam eventualmente desempenhar no país, aquele afirmou, de forma
premonitória, que se estava então a verificar um certo movimento entre os militares,
iniciado com o alistamento de milicianos saídos das universidades. Marcelo Rebelo de
Sousa manifestou a opinião de que, num futuro próximo, esse grupo iria tomar uma
posição na política do país, mas não pelo «modo democrático (o que lamentava)»,
dando assim a entender que esse movimento se manifestaria pela força (Nota 5).

III.8.2. A PIDE/DGS e a extrema-direita portuguesa

A PIDE/DGS também se relacionou com grupos da extrema-direita portuguesa,


vigiando-os e impedindo-os de se organizarem em partidos fascistas, ao mesmo tempo
que os utilizava como instrumentos seus, no meio académico.

Nota 1 - Ibidem, pr. 5058 E/GT, João Bosco Mota Amaral.


Nota 2 - Ibidem, pr. 5456 Cl (2), João Pedro Miller Guerra, fls. 23, 28, 43, 48, 52 92,
95, 133 e 160.
Nota 3 - Ibidem, pr. 5368 Cl (1), Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro, fls.
245, 291 e 297.
Nota 4 - MAI-GM, caixa 428, pasta «Deputados».
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 5368 Cl (1).

97

Refira-se que o Gabinete Técnico (GT) desta polícia tinha pascerias para a Frente
Patriótica Nacionalista, o Movimento Jovem Portugal e para a Frente Nacional.
Algumas dessas organizações teriam sido criadas por grupos económicos ou elementos
do regime: por exemplo, a Acção Académica teria sido da iniciativa de Luís Supico
Pinto, e a Frente dos Estudantes Nacionalistas (FEN) era apoiada pelo ministro Correia
de de Oliveira. Em 1963, o informador da PIDE «Causa» deu conta de que este ministro
tinha apoiado a FEN com um subsídio de 50000$00 (Nota 1).
O certo é que a PIDE informava o ministro do Interior sobre esses grupos, que também
chegaram, por vezes, a ser alvo de denúncias anónimas de outros «nacionalistas» rivais
(Nota 2). Nos anos 60, o principal grupo de ultranacionalistas era o Movimento Jovem
Portugal (MJP) (Nota 3), que foi vigiado pela PIDE desde o final de 1960, e
relativamente ao qual essa polícia teve uma atitude ambígua. Atesta-o a opinião de Raul
Porto Duarte, da delegação da PIDE do Porto, que, num relatório confidencial de Abril
de 1963, considerou um panfleto desse movimento como «mais um grito de repulsa do
sector académico «politicamente são» contra as manobras de subversão marxista».
O informador da PIDE intitulado «Causa» também esteve infiltrado no MJP, relatando
sobre ele. Em 1961, esclareceu que se tratava de um grupo de jovens ultranacionalistas,
adversários da Maçonaria, da plutocracia e do comunismo, chefiados pelo funcionário
público e estudante da Faculdade de Letras, Zarco Moniz Ferreira Rodrigues. Em 11 de
Fevereiro de 1963, o mesmo informador alertou a PIDE para o facto de os membros do
MJP de Coimbra e de Lisboa estarem a «bombardear» as actividades da FEN, grupo
que, dois anos depois, desempenharia um papel no assalto e destruição da Associação
Portuguesa de Escritores, extinta pelo MEN por ter atribuído o prémio literário desse
ano a Luandino Vieira.
Após dissensões internas, o MJP passou a denominar-se, nesse ano, Movimento da
Juventude Portuguesa Nacional-Sindicalista (MJPNS), continuando, porém, a ser
chefiado por Zarco Moniz Ferreira, que no ano seguinte iniciou relações com a Ordine
Nuovo italiana e, mais tarde, com o extremista francês Fabrice Laroque (Nota 4). Em
Fevereiro de 1966, a PIDE recebeu dos serviços secretos franceses uma informação
sobre uma reunião realizada em Paris de extremistas de direita franceses, para formarem
o Mouvement Nationaliste du Progrès. Os serviços franceses informaram que tinham
estado presentes dois delegados portugueses da FNR, Zarco Moniz Ferreira e um «Luis
Henandez», correspondente dessa organização na capital francesa, pedindo dados sobre
estes à PIDE.
Diga-se que esta apenas enviou referências sobre Zarco, dizendo nada saber sobre «Luís
Fernandes». Pergunta-se: seria este um informador da PIDE em França?

Nota 1 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., p. 131.


Nota 2 - MAI-GM, caixa 226.
Nota 3 - Ibidem, caixa 208, de 16/5/1961.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 1213/61 SR, Zarco Moniz Ferreira, fl.

98

O certo é que a PIDE recebeu, em Novembro, uma fotocópia de uma carta enviada por
Zarco a «Luís Fernando» Caraço, onde o primeiro informava que iria a Paris assistir a
uma conferência de nacionalistas, pelo que não é de crer que a PIDE ignorasse a
existência desse Fernando ou Fernandes. Até porque se sabe que «Caraço» era o
pseudónimo de um informador desta polícia, que em 1967 deu conta à PIDE da criação,
por Zarco Moniz Ferreira, do novo Movimento da Revolução Sindicalista (MRS). Ao
mesmo tempo que sugeria a necessidade de vigiar o MRS, o informador afirmou que
esse movimento poderia prestar «alguns serviços», desde que fosse «habilmente
enquadrado, encaminhado e canalizado» (claro está, pela PIDE).
Em Lisboa, por seu turno, o chefe de brigada António Capela informou o inspector
Álvaro Pereira de Carvalho sobre uma reunião real em Lisboa pelo mensário Frente, da
FEN, cuja mesa tinha sido por Zarco M. Ferreira. A presença na assistência de
legionários, entre os quais se contava Carlos Góis Mota (Nota 1), estava relacionada
com o facto de Zarco defender uma linha «pró-Legião», propondo uma colaboração
grupos de extrema-direita com a LP. Através de uma informação de 1968, a PIDE ficou
a saber que o triunvirato que dirigia o MJP em Lisboa - António Jorge Gonçalves
Rodrigues, Jorge Leite e José Barcelos (que trabalhava na RARET) — se opunha à
orientação pró-Legião Portuguesa de Zarco Moniz Ferreira.
Este último e os seus correligionários foram vigiados pela PIDE quando reuniam numa
garagem na Avenida Barbosa do Bocage, em Lisboa. A propósito da realização em
França do Rassemblement européen de la liberté, em 1970, os serviços secretos
franceses pediram novamente informações sobre Zarco M. Ferreira, que era então
capitão miliciano. Diga-se que, embora os jovens em idade militar não pudessem sair de
Portugal, a própria DGS informou o quartel-general do governo militar de Lisboa que
não havia inconveniente em que este se ausentasse para o estrangeiro. (Nota 2)
A PIDE/DGS também vigiou outros grupos de extrema-direita, nomeadamente a Liga
de Antigos Graduados da Mocidade Portuguesa (LAG da MP) (Nota 3). Em 1966, o
ministro da Educação Nacional, Inocêncio Gil Teles, deu uma «machadada» na MP, ao
colocá-la na dependência dos reitores dos liceus e directores das escolas, esvaziando o
poder do comissário nacional (Nota 4). Os «ultras» do regime não gostaram da
modificação (Nota 5) e a LAC realizou, nesse ano, um congresso, onde foi dado o sinal
de rebelião contra o diploma de Galvão Teles, segundo deu conta a delegação de
Coimbra da PIDE, que permaneceu atenta relativamente ao extremar de posições no
seio dos antigos graduados da MP, onde mantinha um informador (Nota 6).

Nota 1 - Ibidem, pr. 366 Cl (2), fls. 1, 6, 7, 9, 12, 17, 23, 45-49 e 77.
Nota 2 - Ibidem.
Nota 3 - Ibidem, pr. 3529/62 SR, «Estudantes», pasta 17.
Nota 4 - Cf. Irene Flunser Pimentel, As Organizações Femininas no Estado Novo,
Lisboa, Temas e Debates, 2001.
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 3.056 Cl (1), NT 1255, pasta 1.
Nota 6 - Ibidem, pr. 3.056 Cl (1), NT 1255, pasta 1, fls. 9-11, 26, 28-30, 52-53 e 84.

99

III.9. PIDE/DGS E A HIERARQUIA DA IGREJA

Como se sabe, a hierarquia da Igreja católica e o Estado Novo tiveram, o geral, boas
relações, embora, em casos raros, se tenham feito sentir algumas dificuldades, devido à
questão colonial. Em 1952, o arcebispo de Luanda, Moisés Alves de Pinho condenou a
«mecânica do contrato», a «mobilização de mulheres e crianças para as fazendas dos
brancos» e o «bárbaro processo das represálias sobre inocentes». No entanto, foi com o
caso» do bispo do Porto que Salazar ficou verdadeira e gravemente desagradado.
Como se sabe, as eleições presidenciais de 1958 foram um momento fundador da
oposição católica ao salazarismo, não só para muitos leigos, como para uma voz isolada
do episcopado, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto. No seu «pró-memória», de
13 de Julho desse ano, destinado a preparar uma entrevista — nunca levada a efeito —
com Salazar, o bispo do Porto criticou o corporativismo estatal e a aliança do Estado
com o patronato, condenou o «financismo à outrance» de Salazar, bem como «o já
exclusivo privilégio português do mendigo, do pé descalço, do maltrapilho, do
farrapão».
O Estado Novo reagiu à «carta» com uma campanha para desacreditar o bispo do Porto,
ao mesmo tempo que tentou, junto da Santa Sé, obter a sua destituição, com acusações
de que ele quereria transformar a Acção Católica num partido democrata-cristão (Nota
1). A partir do envio da «carta», a PIDE vigiou todos os passos do bispo do Porto,
abrindo várias pastas para o «caso» (Nota 2) e, no Outono de 1959, impediu a entrada
em Portugal de D. António Ferreira Gomes, que esteve exilado no estrangeiro durante
dez anos. Após o seu regresso a Portugal, em 18 de Junho de 1969, durante a vigência
de Marcelo Caetano (Nota 3), a DGS preocupou-se de novo com o prelado,
nomeadamente em 1972, devido à celeuma provocada pela sua homilia acerca do dia da
paz, onde teria atacado os capelães militares (Nota 4).

III.9.1. O cardeal Cerejeira e a PIDE


Voltando ao final da década de 50, quando, como se viu, começou o «caso» do bispo do
Porto, refira-se outro acontecimento directamente relacionado com a PIDE, em que
houve uma intervenção do cardeal-patriarca, Gonçalves Cerejeira. Em 1 de Agosto de
1958, o militante do PCP, Raul Alves, despenhou-se do 3.° andar da sede da PIDE, na
Rua António Maria Cardoso, em Lisboa. A polícia política não conseguiu ocultar o caso,
pois a embaixatriz do Brasil, mulher do embaixador Álvaro Lins, cuja residência se
situava nas traseiras da sede da PIDE, assistiu à queda e queixou-se ao cardeal-patriarca.

Nota 1 - Luís Salgado de Matos, «A campanha de imprensa contra o bispo do Porto


como instrumento político do governo português (9/59-10/59)», in Análise Social, n.°
150, 1999, pp. 29-90.
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 2078/58 SR, vol. I, fls. 2, 84 e 86.
Nota 3 - Ibidem, pr. 3953 CI (1), NT 1267, fl. 455.
Nota 4 - Ibidem, fl. 480.

100

No dia seguinte, Cerejeira escreveu ao ministro do Interior, Joaquim Trigo de Negreiros,


fazendo-se eco de apelos no sentido que não fossem usados pela PIDE processos que a
«humanidade e o Evangelho» condenavam (Nota 1).
Trigo de Negreiros garantiu-lhe que não existiam maus tratos a presos e que tais
acusações eram «fruto das paixões e da especulação política», pois a PIDE o tinha
informado de que se tratara de uma tentativa de fuga. Esta versão também foi
transmitida ao cardeal pelo próprio director dessa polícia, capitão António Neves Graça,
que lembrou a Cerejeira que a polícia era caluniada e odiada apenas por defender os
crentes «em Deus da fúria sanguinária e destruidora da heresia mais diabólica que tem
aparecido na face do mundo depois de Cristo» (Nota 2). Este e outros pequenos casos
foram empolados por alguns dos biógrafos de Cerejeira para demonstrar uma não
fundamentada preocupação do cardeal-patriarca com os presos políticos (Nota 3).
Por outro lado, ao ser-lhe solicitada pela PIDE autorização para deter o capelão da
Armada, padre João Perestrelo de Vasconcelos, implicado no «golpe da Sé» de 1959,
Cerejeira prontamente a concedeu (Nota 4). Em carta ao director da PIDE, o próprio
Perestrelo afirmou que tinha sido detido ao apresentar-se na sede da polícia política,
cumprindo uma ordem de Cerejeira (Nota 5).
E, no entanto, Cerejeira sabia do que se passava na PIDE, não só pela embaixatriz do
Brasil, mas também por ter sido informado, por uma sua familiar, presa em 1963, de que
os detidos eram sujeitos a torturas. Trata-se de Matilde Cerejeira Nunes Bento, casada e
presa com Joaquim Jorge Alves Araújo, a qual contou que foi então visitada por um
padre enviado pelo cardeal, ao qual ela aproveitou para informar que «durante a noite se
ouvia na PIDE pancadas, gritos e corpos a cair». Lamentando a situação o padre
assegurou que iria transmitir «fielmente ao cardeal o depoimento» (Nota 6)
Em 1965, a PIDE vigiou atentamente o «caso» do bispo da Beira, através da intercepção
postal à correspondência para e do núncio apostei monsenhor Maximiliano Fürstenberg
(Nota 7). O «caso» do bispo de Nampula foi o último a envolver um membro da
hierarquia da Igreja que incomodou o regime.

Nota 1 - José Geraldes Freire, Resistência Católica ao Salazarismo-Marcelismo, Porto,


Telos, 1976, p. 230.
Nota 2 - Ibidem.
Nota 3 - «O cardeal Cerejeira jovem em Guimarães», separata «Santa Teresa do Menino
Jesus», conferência na Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, no primeiro
centenário de MGC, 21/5/89, Tomo LXIV, n.° 625, Outubro-Dezembro 1993, Anexo IV.
Nota 4 - Ana Vicente, Portugal Visto de Espanha (Correspondência Diplomática: 1939-
l960), Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 216-217. Ofício de 26 de Março de 1959 do
embaixador de Espanha em Lisboa, pp. 216-217. A tentativa de golpe realizada pelo
Movimento Militar Independente, em 11 de Março de 1959, teve a participação de
alguns católicos, entre os quais Manuel Serra, dirigente da JOC, e os padres António
Jorge Martins e Perestrello de Vasconcelos, um dos assinantes do documento sobre a
PIDE e neto do proprietário dos terrenos onde o pai de Salazar tinha sido feitor, que
tinha cedido uma dependência de Lisboa para reuniões dos conjurados.
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 368/59, 2.° vol., fl. 109.
Nota 6 - Ibidem, pr. 688 GT.
Nota 7 - Ibidem, pr. 7002 Cl (2) SC, fl. 113, emissão da Rádio Portugal Livre,
27/12/66; Patriarcado de Lisboa, fls. 37 e 62.

101

Juntamente com alguns sacerdotes e missionários combonianos, o bispo de Nampula


enviou em 1974 à conferência episcopal um documento a denunciar a atitude servil da
Igreja portuguesa ao não expor os massacres perpetrados pelo exército português. O
documento provocou manifestações orquestradas da população branca de Moçambique
contra o bispo e os missionários, que foram forçados pela DGS a abandonar a colónia. A
conferência episcopal da metrópole acabou por se solidarizar com o bispo de Nampula,
em... 26 de Abril desse ano (Nota 1).

Nota 1 - Jorge Ferreira, «A verdade sobre o caso do bispo de Nampula», in O Século


17/4/74; Diário de Lisboa, 8/5/74, p. 2. Cf. também PIDE/DGS, pr. 4317 CI (2), núncio
apostólico, fls. 1 e 8.

102

IV. A «POLÍCIA INTERNACIONAL»

Inicialmente conhecida pelos Portugueses como a «Internacional», a PIDE/DGS tinha


também a função de fiscalizar e vigiar as fronteiras, gerir a entrada, permanência e saída
dos estrangeiros, bem como lidar com a emigração e imigração clandestinas. É esta
função de carácter «internacional», que se prendia ainda com as relações que mantinha
com as polícias estrangeiras e com as suas competências de serviço secreto de
informação que lidava com a espionagem e contra-espionagem, que se analisará agora.

IV. 1. Repressão à emigração clandestina

Como já se viu, a PVDE ficou, em 1934, com a incumbência de reprimir a emigração


clandestina e a aliciação da mesma, bem como de licenciar e fiscalizar as agências de
passaportes (Nota 1). Com o Decreto-Lei n.° 35 046 de 22 de Outubro de 1945, a PIDE
continuou a ter as competências de vigiar as fronteiras, fiscalizar os estrangeiros, as
agências de emigração e de passagens de passaportes. Em 29 de Março de 1947, o n.°
36 199 suspendeu deu quase por completo a emigração, excepto se fosse feita ao abrigo
de acordos ou convenções reguladoras das condições da admissão e estabelecimento dos
emigrantes nos países ou regiões de destino (Nota 2).
A emigração tornou-se maciça, nomeadamente para França, a partir dos anos 60; por
exemplo, entre 1960 e 1973, inclusive, emigraram 1 409 222 pessoas (um terço das
quais clandestinamente, ou seja 511 899) (Nota 3). Segundo afirmou Hermínio Martins,
historicamente «associada ao campesinato, típica do trabalhador rural com um pedaço
de terra» a emigração portuguesa era «consagrada pela tradição, legitimada pelas
autoridades morais» e não «sujeita a sanções, como a "subversão"» (Nota 4).
Se é certo que a emigração clandestina não foi sancionada como a «subversão», também
é verdade que a PIDE — polícia que «geria» e reprimia as actividades «subversivas» —
colocou em larga escala, a partir dos anos 60, o seu aparelho informativo, ao serviço da
prevenção e repressão da emigração clandestina, chamada «económica».

Nota 1 - Decreto-Lei n.° 23 995, de 12/6/1934.


Nota 2 - Decreto-Lei n.° 36 199, de 29/3/1947. No preâmbulo do diploma de 1947, a
suspensão da emigração era justificada pela necessidade de a regulamentar consoante
«os interesses do país e valorização dos territórios do ultramar pelo aumento da
população branca convinha «assegurar a mão-de-obra para realização dos trabalhos
públicos em curso».
Nota 3 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», História de Portugal, quadro V, p. 423.
Nota 4 - Hermínio Martins, «Classe, status e poder», pp. 127-128.

103

Em 29 de Junho de 1961, informou o Ministério do Interior de que estavam a aumentar,


quer a emigração clandestina, quer o grupo dos «pouco escrupulosos engajadores e
sugeriu que o MNE passasse a conceder salvos-condutos, em vez de passaportes.
Nesse ano, os Renseignements Géneraux franceses revelaram, numa nota dirigida à
PIDE, que a importância numérica dos imigrantes portugueses em França tinha
aumentado desmesuradamente e informaram que a propaganda comunista se estava a
desenvolver junto de núcleos importantes de emigrantes nos arredores de Paris (Nota 2).
Depois, num relatório de 1964 (Nota 3), os serviços secretos franceses deram conta à
PIDE que os trabalhadores portugueses já eram então a quarta força numérica em
França, depois dos 700 000 italianos, dos 450 000 espanhóis e dos 80 000 refugiados de
leste. Já na vigência de Marcelo Caetano, legislou-se em 1969 no sentido de punir com
maior severidade os actos de incitamento e auxílio à emigração clandestina do que a
própria emigração. A emigração clandestina foi assim considerada uma simples
contravenção, punida com multas, embora a saída do país com o propósito de fuga ao
serviço militar continuasse a constituir crime punível (Nota 4). Nos primeiros anos da
década de 70, a DGS já pouco se ocupava de questões de emigração, deixando-as a
cargo da GNR e da Guarda Fiscal. Refira-se que o Serviço Nacional de Emigração,
dirigido por Américo Saraga Leal, passou, em 1971, da tutela do Ministério do Interior
— e, por isso, do âmbito da DGS — para o Ministério das Corporações (Nota 5).

IV.2. A PIDE/DGS e o Ministério dos Negócios Estrangeiros

A PIDE/DGS recebeu, ao longo dos anos, via Ministério do Interior, informações do


estrangeiro, transmitidas pela Direcção-Geral dos Negócios Políticos e da
Administração Interna (DGNPAI) do MNE, provenientes de informadores das várias
embaixadas portuguesas (Nota 6). Em Julho de 1964, nomeadamente, este ministério
avisou a PIDE de que o conselheiro da Embaixada em Paris tinha sido chamado ao Quai
d'Orsay para lhe serem transmitidas informações sobre exilados políticos portugueses na
Argélia (Nota 7).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 11/46 SR, Emigração, fl. 52.


Nota 2 - Ibidem, pr. 623 Cl (2), «Emigração portuguesa com França», fls. 357, 361 e
segs.
Nota 3 - Ibidem, fl. 269, carta do MNE enviada à PIDE, em 22/2/1964.
Nota 4 - Decreto-Lei n.° 49 400, de 19/11/69.
Nota 5 - MAI-GM, caixa 0391.
Nota 6 - Ibidem, caixa 042, pasta «MNE»; PIDE/DGS, pr. 11.813 CI (2), fls. 4, 7, 5, 8,
15 e 17; pr. 6819 Cl (2), pasta 24, fls. 34, 83, 121, 124 e 204.
Nota 7 - Ibidem, pr. 3.943 E/GT, Manuel Alfredo Tito de Morais, fls. 14 e 90.

104

Por indicação do embaixador Marcelo Mathias, também a Casa de Portugal em Paris


transmitia informações ao MNE, e este à PIDE, nomeadamente a partir dos
acontecimentos de Maio de 1968, quando passou a ser um local onde se realizavam
sessões contra a política colonial e ditatorial portuguesa (Nota 1).
Cinco dias antes da chegada a Paris do ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui
Patrício, em Janeiro de 1971, o embaixador Marcelo Mathias enviou ao MNE um
telegrama secreto a avisar que os serviços de segurança franceses lhe haviam dado conta
de que eram esperadas, durante a visita ministerial, manifestações contra Portugal.
Terminada essa visita, o agente da DGS responsável pelo acompanhamento do ministro
a Paris enviou a Silva Pais um relatório onde dizia que a «viajem» (sic!; quem leu o
relatório sublinhou a vermelho o erro) correra bem e realçava «a cordialidade da Polícia
francesa e o grande espírito de colaboração para com a Polícia Portuguesa» (Nota 2).
Em Bruxelas, o embaixador de Portugal, Eduardo Brazão, vira-se obrigado a protestar
contra a indiferença com que a polícia belga tinha assistido a desacatos contra o edifício
da embaixada, em Outubro de 1968, por parte de um grupo que havia assistido à
representação da peça de teatro de Peter Weiss O Canto do Fantoche Lusitano (Nota 3).
Segundo uma «fonte de informação» da PIDE em Bruxelas (escrita em francês, sob o
nome de «Aginter Press»), faziam parte desse grupo quatro portugueses e a polícia actua
«sem usar de grande violência para com os desordeiros» (Nota 4). Diga-se que «o» ou
um dos informadores da PIDE em Bruxelas, também o era da respectiva embaixada. Em
Abril de 1969, o MNE comunicou à PIDE que essa «fonte de informação» transmitira
ao embaixador que os refugiados políticos portugueses em Argel sabiam da existência
no seu seio de um agente da PIDE, em vias de ser identificado (Nota 5).
Relativamente à embaixada de Portugal em Madrid, que manteve, como se imagina,
boas relações com o governo espanhol, veja-se apenas um exemplo (Nota 6). Em
Novembro de 1972, o MNE remeteu à DGS uma carta dirigida ao cônsul geral de
Barcelona pelo chefe superior de polícia espanhola, a informar que tinham chegado
àquela cidade «terroristas» da ARA com o objectivo de cometer actos contra diversos
consulados. O consulado em Barcelona estava a diligenciar para que eles fossem detidos
e entregues às autoridades portuguesas e a embaixada de Portugal em Madrid sugeria
que a DGS praticasse idêntica diligência junto da Seguridad espanhola. (Nota 7) Na
embaixada de Portugal em Washington havia um informador da DGS, segundo o qual
eram destituídos de fundamento rumores de que a CIA estava por trás de movimentos
terroristas portugueses. Ao tomar conhecimento, por escrito, dessa informação, alguém
da DGS escreva mão: «ainda bem!» (Nota 8).

Nota 1 - Ibidem, pr. 1.659 SR, Fernando Piteira Santos, fl. 101; idem, pr. 17.178 Cl (2),
fls. 32 e 7.|
Nota 2 - Ibidem, pr. 7227 Cl (2), embaixada de Portugal em Paris, fls. 20 e 24.
Nota 3 - Ibidem, renseignement transmitido em 12 de Outubro e transcrito em 17,
informação da PIDE.
Nota 4 - Ibidem, pasta 19, embaixada de Portugal em Haia.
Nota 5 - Idem, pr. 6.819 Cl (2), pasta 8, embaixada de Portugal em Bruxelas, fls. 1, 12
35, 36, 57, 65, 68, 78, 79, 81, 84, 101 e 102.
Nota 6 - Ibidem, pr. 6819 Cl (2), pasta 26, embaixada de Portugal em Madrid, fl. 15.
Nota 7 - Ibidem, pr. 8259 Cl (2), pasta 3, fls. 234, 249, 247, 257 e 294.
Nota 8 - Ibidem, pasta 48, embaixada de Portugal em Washington, fls. 64, 84 e 90.

105

Na América, latina, compreensível e evidentemente, os representantes diplomáticos de


Portugal também tinham informadores que davam conta das actividades dos exilados
políticos portugueses, entre os quais estavam infiltrados. Nomeadamente, na Venezuela,
o embaixador foi considerado, por opositores aí exilados, «representante local da
PIDE». No entanto, foi a embaixada de Portugal no Brasil que se destacou, pelo seu
permanente contacto com informadores e por possuir as suas próprias fontes de
informação. Em 9 de Março de 1961, o MNE informou a PIDE de que o consulado de
Portugal em São Paulo lhe dera conta de que Fernando Queiroga iria provocar
brevemente novos tumultos em África, estaria filiado no PC (o que era uma óbvia
falsidade) e manteria ligações com «a Gestapo de Fidel Castro» (Nota 1). Do
informador da embaixada de Portugal no Rio de Janeiro, a PIDE recebeu, no final de
1961, um relatório segundo o qual corria o rumor entre os exilados que estaria ao
serviço dessa representação diplomática o agente Manuel Cruz, dessa polícia (Nota 2).
No início de 1962, o mesmo informador deu conta de uma conversa, que tivera com o
opositor Fernando de Vasconcelos, que lhe dissera ter acompanhado Manuel Serra à
fronteira («Marrocos com Ceuta, Marrocos com Argélia ou luso-espanhola?»
perguntava o próprio informador) (Nota 3).
Pode-se concluir, em suma, que, no campo dos Negócios Estrangeiros, houve uma clara
colaboração com a PIDE/DGS, via Ministério do Interior, mas também de forma
directa, até porque alguns dos informadores das embaixadas e consulados de Portugal
no estrangeiro também o eram da PIDE/DGS. No trabalho informativo do que se
passava nos países onde estavam instalados, destacaram-se os embaixadores e cônsules
na Grã-Bretanha, em França, em Espanha, na Bélgica e no Brasil, países onde havia
abundantes colónias de exilados portugueses.
Além de informarem sobre as actividades destes, as embaixadas, consulados e seus
respectivos informadores deram conta da movimentação dos governos e das opiniões
públicas dos respectivos países relativamente a Portugal, sobretudo da hostilidade
crescente destas face à PIDE/DGS e à Guerra Colonial. Neste último aspecto, os
representantes diplomáticos portugueses dos países referidos funcionaram como
autênticos defensores da imagem do governo ditatorial português e até de «relações
públicas» da PIDE/DGS.

IV.3. AS RELAÇÕES «EXTERNAS» DA PIDE/DGS


A PIDE mantinha, no campo internacional, estreitas ligações com as polícias de outros
países da Europa, das Américas e da Ásia, exercida a coberto da luta contra a
criminalidade comum, mas concretizada numa acção conjugada de «perseguição» e
«trabalho de espionagem» dos exilados portugueses no estrangeiro (Nota 4).

Nota 1 - Ibidem, pr. 11.151 Cl (2), NT 7615, capitão Fernando Gualter Queiroga
Chaves, informadores no Brasil, 1961.
Nota 2 - Ibidem, pr. 3545 Cl (2), Manuel Serra e Maria Amélia Araújo Alves, fl. 182,
informação do director-geral dos Negócios Políticos e Administração Interna dos MNE,
relatório geral de 21/2/1962, fls. 204, 207, 242, 256 e 268.
Nota 3 - Ibidem, pr. 3.943 E/GT, Manuel Alfredo Tito de Morais, fl. 2.
Nota 4 - José Dias Coelho, op. cit. p. 44.

106

Freire Antunes considerou, porém, que o facto de Salazar ter tido uma postura anti-
americana, nos anos 60 levou a que a CIA ficasse numa posição lateral face a outros
serviços europeus com os quais a PIDE/DGS se relacionou preferencialmente. Entre
estes, contaram-se o Service de Documentation Extérieure et de Contre-
Espionnage (SDECE) (Nota 1).
Outros autores observaram que, logo que assumiu a chefia da PM em 1962, Fernando
Silva Pais informou Salazar de que os «nossos vizinhos e amigos, com quem mantemos
estreito contacto, conhecem bem as organizações comunistas francesas do Sul». Entre
esses «amigos» contava-se, segundo disse, ainda o vice-presidente do governo espanhol,
general Muñoz Grande, com quem Silva Pais acabara de acordar a necessidade de um
trabalho conjunto relativamente a Marrocos (Nota 2).
Por outro lado, a PIDE/DGS representava as polícias portuguesa da Interpol e, além da
colaboração com os serviços secretos espanhóis, franceses e norte-americanos, outros
autores assinalaram também um relacionamento com as polícias de Itália, da Bélgica,
Holanda, Alemanha, Checoslováquia, Roménia, Hungria, Polónia e Argélia (Nota 3).
Mesmo ex-elementos da PIDE/DGS não negam a existência de um relacionamento
entre esta e os serviços secretos de outros países, até para afirmar que a polícia política
portuguesa não se distinguia de outras agências policiais de países democráticos. O ex-
inspector Óscar Cardoso confirmou que houve relações com os serviços do Vaticano, a
Mossad e a Shin Bett israelitas (Nota 4), e que Silva Pais foi amigo pessoal de Edgar
Hoover, do FBI (Nota 5).
Diga-se que, aos países democráticos europeus (França, Alemanha, Grã-Bretanha e
outros), não interessou demasiado o facto de Portugal ter um regime ditatorial e que o
relacionamento com os serviços secretos desses países dependia sim dos interesses da
defesa nacional e segurança das referidas nações e de situações mais latas de
geoestratégia. Ora, o período entre o pós-guerra e 1974 foi essencialmente marcado pela
Guerra Fria, tendo-se Portugal situado na órbita «ocidental», com os seus aliados da
NATO, na luta contra a URSS e seus satélites. Por outro lado, a questão colonial e as
guerras travadas por Portugal em África tornaram importantes as relações entre a
PIDE/DGS e a polícia secreta da África do Sul (BOSS), e a Special Branch da Rodésia
(CIO).
Uma palavra deve ser dita a propósito de não se referir aqui as relações com os serviços
secretos da Grã-Bretanha. Não, por não terem existido mas porque os arquivos da
PIDE/DGS sobre o assunto pura e simplesmente são inexistentes, pois foi na parte dos
arquivos da PIDE/DGS relacionados com os serviços secretos estrangeiros que mais se
fez sentir o esbulho dos anos 1974-1975.

Nota 1 - José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, p. 110.


Nota 2 - José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, A Filha Rebelde, pp. 94 e 95.
Nota 3 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., p. 156. «Torcionários da ex-
PIDE/DGS treinados nos EUA», in A Capital, 3/12/74, p. 8.
Nota 4 - Nuno Vasco, Óscar Cardoso, A bem da Nação, p. 211.
Nota 5 - Em 15 de Setembro de 1971, uma delegação chefiada por Silva Pais foi
recebida por Edgar Hoover (AEPPA, «Elementos para a história da PIDE», Lisboa,
«Para que o tribunal julgue a PIDE», n.° 1, 1976, p. 21); Nuno Vasco e Óscar Cardoso,
A bem da Nação, p. 193 e p. 210; Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., pp. 39 e
203.

107

Por outro lado, nos arquivos britânicos, nomeadamente no Public Record Office, em
Londres, apenas se detectou documentação referente ao período anterior a 1945,
havendo outra posterior que ainda não está disponível à consulta. Quanto ao arquivo da
PIDE/DGS, apenas algumas informações dispersas dão conta de que o relacionamento
entre as autoridades inglesas e portuguesas de segurança continuou após a Segunda
Guerra Mundial (Nota 1).

IV.3.1. A PIDE/DGS e a Interpol

Em 1947, o chefe da PIDE, capitão Agostinho Lourenço, deslocou-se, como delegado


português, à 16.a reunião da Assembleia-Geral da Comissão Internacional de Policia
Criminal (CIPC), do qual viria a ser vice-presidente no início da década de 50, dando
então conta a Salazar, da necessidade de constituir um bureau nacional português da
CIPC (Nota 2). Este passou a funcionar, no ano seguinte, junto da PIDE, a cargo do
inspector-adjunto Castro Silva (Nota 3).
Em 1951, a reunião internacional da CIPC (Nota 4) decorreu em Lisboa, sob a
presidência do ministro da Justiça, Cavaleiro Ferreira. O PCP denunciou o facto de, sob
o falso pretexto de «luta contra o crime», essa conferência ter juntado «representantes
das polícias políticas de diversos países fascistas e imperialistas», para tratar de
«concertar uma acção comum contra todas as forças anti-imperialistas e em especial os
Partidos Comunistas» (Nota 5).
Diga-se, aliás, que a PIDE/DGS representava, em Portugal, a Interpol, sem se adequar
aos moldes em que essa comissão internacional de polícia funcionava. Refira-se, a título
de exemplo, que, em 22 de Março de 1963, o ministro do Interior enviou à PIDE uma
nota da Interpol relativa ao «estudo do Direito em virtude do qual ninguém pode ser
arbitrariamente preso, detido ou exilado», norma que, como se verá, não era seguida em
Portugal.
Em 1966, na sequência da reunião internacional da OIPC (Interpol), realizada em
Berna, o director da PIDE, Silva Pais, foi visitar a nova sede desse organismo em
Madrid, e estabeleceu contactos com os serviços especiais da polícia francesa, para
troca de informações acerca de «emídios guerreiros, Manuel Sertório e tantos outros»
(Nota 6). O certo é que Portugal continuou a ser representado, nesse organismo
internacional, por elementos da PIDE, entre os quais o inspector-adjunto Manuel da
Cunha Passo, que foi, até 1974, o chefe do gabinete nacional da Interpol.
Nota 1 - Arquivo PIDE/DGS, pr. 4.831 CI (2), pasta 2, «assuntos diversos», Grã-
Bretanha, Se-Secretaria-Geral da Defesa Nacional, fl. 7.
Nota 2 - AOS/CO/IN-8C, pasta 47.
Nota 3 - PIDE/DGS, Ordens de Serviço da PIDE, OS n.° 50, de 19/2/48.
Nota 4 - MAI-GM, caixas 0006 e 0008, livro 18, 1951, e caixa 0058, pasta «PIDE e
MNE»: Reunião da Comissão Internacional da Polícia Criminal em 1951, Assembleia-
Geral da Comissão Internacional da Polícia Criminal.
Nota 5 - Ibidem, caixa 256; PIDE/DGS, pr. 1353 Cl (2), pasta 4, «FPLN».
Nota 6 -AOS/CP-208, fl. 21, 6.1.1/21, carta de Fernando Silva Pais, fls. 98-104;
PIDE/DGS, pr. 14 CI (1), pasta 2; AOS/CP-208, p. 21, 6.1.1/21.

108

Se a participação de Portugal na Interpol, representada pela PIDE//DGS, possibilitou a


esta polícia uma colaboração com outras polícias, (Nota 1) também a pertença de
Portugal à NATO, a partir de 4 de Abril de 1941 proporcionou amplas relações com as
polícias e serviços secretos de país democráticos da Europa. Portugal foi então
solicitado a aderir a diversas organizações internacionais e passou a trocar, via MNE,
notas com os serviços de informações dos países envolvidos no Pacto do Atlântico
Norte (Nota 2). A PIDE/DGS tinha, aliás, representantes na NATO, como aconteceu,
por exemplo, na reunião do respectivo comité especial, em 1966 e, em 1972 (Nota 3),
em que participaram o inspector superior Barbieri Cardoso e o inspector-adjunto Pereira
de Carvalho (Nota 4).

IV.3.2. Relações com polícias e serviços secretos estrangeiros

A PIDE/DGS manteve também, como já se viu, um relacionamento «institucional» com


agências secretas e polícias congéneres de outros países. Por exemplo, em Fevereiro de
1961, alertou os serviços policiais alemães, franceses, espanhóis, ingleses, israelitas e
americanos de que, desde o assalto ao Santa Maria, os chamados «democratas
portugueses» fixados na América Latina e na Europa pretendiam lançar acções
subversivas (Nota 5).

IV.3.2.1. Espanha

A colaboração da PIDE com a polícia de Franco já vinha desde os tempos da PVDE, em


que esta colaborara com as forças «nacionalistas», logo que eclodira a guerra civil
espanhola (Nota 6). Depois de terminar a guerra civil de Espanha, continuou, até aos
anos 60, uma oposição armada à ditadura franquista, através de um movimento de
guerrilha, com importância na Galiza, que se relacionou com portugueses do outro lado
da raia (Nota 7). Ver-se-á, mais tarde, que a PIDE investigou e prendeu diversos
portugueses acusados de apoio a guerrilheiros espanhóis, em Cambedo da Raia (Nota
8).
No pós-guerra, Portugal foi, por seu turno, lugar de exílio de outros «refugiados», ou
seja, algumas cabeças coroadas europeias, nomeadamente do príncipe D. Juan de
Espanha, que se instalou no Estoril, em 1946, onde de foi sempre atentamente vigiado
por um elemento da PIDE (Nota 9).
Nota 1 - MAI-GM, caixa 039, pasta «estudantes».
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 642/49 SR, fl. 179.
Nota 3 - Ibidem, pr. 2518 SR, fl. 1, Jean Rochet, em 25/11/72, de saída do seu cargo,
enviou cumprimentos a Barbieri Cardoso, com quem teve contactos nas reuniões do
Comité Especial da NATO.
Nota 4 - Ibidem, pr. 19062 Cl (2), fls 1, 2 e 4, relações com a SDECE, Direction de
Surveillance du Territoire, 24/3/66.
Nota 5 - Ibidem, pr. 921 SR. Francisco Gaspar Rolão Preto, informação 211/61-GU:
«Acção Internacional comunista contra Portugal», 23/2/61.
Nota 6 - Julián Casanova, Francisco Espinosa, Conxita Mir e Francisco Moreno Gómez,
Morir, Matar, Sobrevivir: La violência en la dictadura de Franco, Barcelona, Editorial
Critica, 211 p. 248.
Nota 7 - Idem, ibidem, pp. 216 e 219.
Nota 8 - AOS/CO/IN-8 e AOS/CO/IN-8 C, 1944, pasta 22, fl. 44.
Nota 9 - AOS/CO/IN-8C, pasta 35, 1.' subdivisão, fls. 25, 522 e 530; 2.a subdivisão, 3.a
subdivisão fl. 544, 4.a subdivisão, informação sobre o príncipe D. Juan de Espanha,
2/2/46.

109

A vigilância sobre D. Juan era exercida através de João d’Almeida Costa, um antigo
equilibrista de circo, amigo do motorista e criado particular do príncipe espanhol, José
Jurado (Nota 1). O próprio D. Juan sabia, aliás, que estava a ser vigiado, pois numa
ocasião disse ao seu motorista: «No te creas, que la policia, me protege sino que con
mucho cuidado tambien me vigila, con mi seguridad personal, no hago caso, nada me
preocupa.»
Em 17 de Abril, o agente da PIDE informou os seus superiores de que António Sousa
Lara, da Companhia de Açúcares de Angola, o tinha «discretamente» convidado, em
«atenção à PIDE», para um jantar em honra de D. Juan. O agente também convidou, por
seu turno, para jantar o mo-torista-informador, o qual, depois de «uns cognacs», lhe deu
conta de que a permanência de D. Juan em Portugal «estava algo complicada»,
conforme este tinha sido informado pela embaixada de Espanha (Nota 2).
Todas estas informações obtidas pela PIDE foram muito provavelmente transmitidas à
Dirección General de Seguridad (Seguridad) espanhola. Lembre-se, aliás, que o director
de serviços desta polícia espanhola enviou, em Novembro de 1947, a Agostinho
Lourenço, uma carta de agradecimento e louvor pela colaboração do chefe do posto da
PIDE em Elvas, Manuel Vilão de Figueiredo, no desmantelamento de uma organização
comunista em Badajoz (Nota 3). A correspondência oficial e particular da Seguridad à
PIDE (Nota 4) era habitualmente assinada, em Madrid, pelo comissário Vicente
Reguengo Gonzalez, um escritor de livros policiais, chefe dessa polícia e amigo de
António Rosa Casaco (Nota 5).
Em Julho de 1958, o ministro do Exército de Espanha propôs ao embaixador de
Portugal em Madrid a realização de um contacto extraordinário entre as polícias dos
dois países e o ministro da Governación do país vizinho convidou a PIDE a deslocar um
seu representante à capital espanhola. Este e outros encontros com a polícia espanhola
realizaram-se e, no ano seguinte, foi estabelecido em Madrid um intercâmbio de
informações entre a PIDE e a Seguridad (Nota 6). Em 1961, os contactos a nível
superior entre as duas polícias eram feitos através do director Homero de Matos, da
PIDE, e do director-geral Carlos Árias Navarro, da Seguridad, havendo ainda um canal
informativo directo entre a polícia portuguesa e a embaixada de Portugal em Madrid
(Nota 7).
Em Março do ano seguinte, a Secretaria-Geral da Defesa Nacional informou, muito
secretamente, o director da PIDE de que, no decurso da nona conferência dos estados-
maiores peninsulares de segurança interna, realizada em Madrid, tinha sido decidido o
estabelecimento de contai estreitos entre os serviços de informação portugueses e
espanhóis.

Nota 1 - José António Gurriarán, Um Rei no Estoril, Dom Juan Carlos, pp. 76-77.
Nota 2 - AOS/CO/IN-8C, pasta 35, 3.a subdivisão, fl. 544.
Nota 3 - MAI, pastas de pessoal da PIDE/DGS, pasta 40, Manuel Vilão de Figueiredo.
Nota 4 - Ibidem, pr. 19513 Cl (2).
Nota 5 - Vicente Reguengo, Del Crimen a la Confession, Madrid, Editorial Jordan,
1958, pp. 20 e 210; António Rosa Casaco, Servi a Pátria e Acreditei no Regime, p. 91.
Nota 6 - Ibidem, pr. 6341 Cl (2), pasta 6, fls. 1 e 2. Intercâmbio de informações com a
Dirección General de Seguridad, Madrid, informações enviadas a Carlos Árias Navarro,
director geral de segurança. Estas eram enviadas em dois envelopes lacrados dirigidos
àquele.
Nota 7 - Ibidem, pr. 186/48 SIR, Fernanda Paiva Tomaz, secreto, PI-61-132, 5/12/61.

110
No mês seguinte, a PIDE e a Seguridad assinaram um acordo de colaboração mútua,
segundo o qual as duas polícias trocariam mensalmente informações e impressões de
carácter político, bem como dados sobre combate à subversão, ao nível de funcionários
superiores, numa das duas capitais.
Nesse ano, após o falhanço do «golpe de Beja», a PIDE conseguiu atrair a uma
armadilha em La Línea (Gibraltar) um dos participantes, Germano Pedro, que foi preso
em território espanhol por Rosa Casaco, acompanhado de dois agentes espanhóis, e
enviado para Portugal. Mário Soares, que foi o defensor de Germano Pedro no tribunal
plenário, afirmou que esse caso revelou a existência de uma «cooperação política das
duas polícias, portuguesa e espanhola» (Nota 1). O certo é que, relativamente a
Germano Pedro, o próprio Rosa Casaco confirmou ter então ido a Madrid «interessar»
Dom Vicente Reguengo, da DGS espanhola, e que este último lhe teria dado «carta
branca» (Nota 2).
Em 15 de Novembro de 1962, alguém (com assinatura irreconhecível) mas
provavelmente da Seguridad, agradeceu a Silva Pais o envio a Espanha de Álvaro
Pereira de Carvalho, que entregou ao chefe de serviço da Informação da polícia
espanhola documentos «com valiosa informação» acerca de revolucionários
portugueses. De forma críptica e codificada, o autor desta carta acrescentou ter «a
esperança de também poder conseguir em Itália alguma coisa parecida» com o que a
PIDE havia obtido e propôs-se contribuir para «cobrir» o «plano marroquino e argelino
desde o ponto de vista de informação». O certo é que, em 19 de Fevereiro de 1963, a
Seguridad transmitiu, efectiva e confidencialmente, à PIDE, dados de um informador
sobre a movimentação de exilados portugueses em Tânger. Deu também conta da visita
de Agostinho Neto à Itália e da presença, nesse país, de «Santos, Lins e Cunhal», o que
indicava prováveis relações entre a polícia italiana e a polícia espanhola.
Os contactos entre a PIDE e a Seguridad eram então feitos entre o comissário geral da
investigação social, Vicente Reguengo Gonzalez, acompanhado pelo director dos
serviços de informação da Seguridad, tenente-coronel Eduardo Blanco Rodriguez, e
Fernando da Silva Pais. Este último pediu, aliás, ao governo, em 1963, a condecoração
das figuras que mais se haviam distinguido na cooperação policial luso-espanhola, entre
as quais se contavam, além dos dois espanhóis acima referidos, Carlos Árias Navarro,
director-geral da Seguridad, Eduardo Comin Colomer, secretário-geral técnico de
investigação social dessa polícia, e Miguel Martinez Aedon Asencio, adido policial da
embaixada de Espanha em Lisboa (Nota 3). O ministro do Interior português deu a sua
concordância, mas, em Fevereiro de 1965, aconselhou a aguardar «melhor
oportunidade» para as condecorações, talvez devido ao assassinato em Espanha de
Humberto Delgado, não fosse a opinião pública» relacionar as mesmas com o crime.

Nota 1 - Mário Soares, Portugal Amordaçado, pp. 323-324


Nota 2 - António Rosa Casaco, Servi a Pátria e Acreditei no Regime, p. 91.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 9 Cl (2), vol. 6927, serviços espanhóis, fls. 719-721, 722, 728,
732, 737, 762, 770, 773 e 836.

111

O MNE, no entanto, não viu inconveniência em condecorar Eduardo Comim Colomer e


Miguel Aedo Asencio com o grau, respectivamente, de coronel e de capitão (Nota 1).
Entretanto, em Março de 1964, Vicente Reguengo informara António Rosa Casaco
acerca do envio de um «colaborador» da polícia espanhola à Argélia. O mesmo Rosa
Casaco teve, em Abril, um acidente de automóvel Espanha (Zafra), quando se preparava
provavelmente para raptar o exilado político Tito de Morais. O próprio Rosa Casaco
contou ter sido Barbieri Cardoso a ordenar, em 17 de Abril de 1964, a sua ida a Sevilha,
deter um português «que estava a organizar um grupo de terroristas para praticar
atentados a personalidades políticas portuguesas». Rosa Casaco era efectivamente
amigo do comissário chefe da polícia espanhola, em Sevilha, senhor Nieto, ou poderia
recorrer aos seus amigos Vicente Rego ou Eduardo Blanco, da DGS, razão para essa sua
«interferência como “protector da brigada"» (Nota 2).
Terá ainda sido Rosa Casaco o provável autor de um relatório, enviado à PIDE, sobre a
situação espanhola e a nomeação para o governo de tecnocratas da Opus Dei. Nele,
dava-se conta que, segundo o «colaborador» «Covotte», Marcelo Caetano e Francisco
Leite Pinto, considerados da ala modernizadora do Estado Novo, estavam a ser
ultrapassados por Adriano Moreira e Teixeira Pinto, os quais poderiam formar um novo
partido (Nota 3). As actividades revolucionárias espanholas foram também, em
Setembro, tema de um relatório enviado à PIDE pelo Federal Bureau of Investigation
(FBI), onde se referia que Luís Suarez, dirigente do PCE, e delegados, no México, da III
República espanhola afirmavam receber a assistência de revolucionários portugueses, na
Argélia (Nota 4).
Em Dezembro de 19655, em pleno inquérito sobre o assassinato de Humberto Delgado
em Espanha, houve, como se verá, um certo afastamento, reforçado a partir dos anos 60,
com a entrada de elementos da Opus Dei no governo espanhol. O agente da PIDE, Raul
Rodrigues Bernardino, informou a sua direcção de que o embaixador de Espanha em
Portugal, José Ibanez Martin, era um federalista no que tocava ao problema ultramarino
português e, por isso, um adversário de Salazar. Também Rosa Casaco transmitiu, em
Janeiro de 1966, informações sobre espanhóis que não simpatizavam com o regime
português, nomeando, entre outros, Fernando Moran (Nota 6).
Três anos depois, o informador «Caraço» alertou a DGS para o facto de a crescente
liberalização do regime espanhol vir a possibilitar, na administração do Estado, uma
infiltração esquerdista. Conscientes do perigo, grupos nacionalistas espanhóis tinham
entrado em negociações com estudantes portugueses, para, no momento oportuno,
integrarem uma plataforma comum de extrema-direita.

Nota 1 - MAI-GM, caixa 310, pasta «condecorações e nobiliárquica», 9/1/65.


Nota 2 - António Rosa Casaco, Servi a Pátria e Acreditei no Regime, pp. 70, 71 e 75.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 9 Cl (2), serviços espanhóis, fl. 601 e 651.
Nota 4 - Ibidem, vol. 4, NT 6930, serviços espanhóis, fls. 4 e 5.
Nota 5 - Ibidem, pr. 1336 Cl (2), PCP, fl. 469, ficha 1/II/65.
Nota 6 - Ibidem, vol. iv, NT 6930, fl. 5.

112

Entre estes contava-se Blas Pinar, chefe da Fuerza Nueva, com o qual o informador
conversou sobre as consequências desastrosas da liberalização em Espanha (Nota 1).
Durante a vigência de Marcelo Caetano na Presidência do Conselho, foi negociado com
o governo de Franco um acordo de colaboração entre as polícias portuguesa e espanhola
que previa a entrega recíproca de indivíduos suspeitos ou condenados, refugiados em
qualquer um dos países, embora «sem publicidade» (Nota 2). A nível da direcção o
relacionamento continuava relativamente bom. Eduardo Blanco Rodriguez, director-
geral da Seguridad, que esteve então alojado no Hotel Ritz de Lisboa, a expensas da
DGS, informou, em Julho de 1970, o seu «querido amigo» Silva Pais, da substituição do
adido policial da embaixada de Espanha em Lisboa, Martinez Aedo Asencio, pelo
inspector Bernardo Belda Ribes. Manifestou ainda o desejo de que se intensificassem as
relações entre as duas polícias.
A nível local, porém, as coisas não se passavam da mesma formal. Em Novembro, o
chefe de posto da DGS da Beirã informou Álvaro Pereira de Carvalho de que a polícia
espanhola se tinha «fechado em mutismo» relativamente à apreensão de explosivos
checoslovacos numa camioneta de um português vindo de Espanha (Nota 3). Talvez
como represália, Barbieri Cardoso emitiu, em Setembro de 1971, uma circular aos
postos de fronteira a ordenar que, a partir de então, os que atravessavam a fronteira para
Espanha deviam munir-se de passaporte ou salvo-conduto emitido pela DGS, o mesmo
devendo acontecer com os Espanhóis e as autoridades espanholas (Nota 4).
O facto de o relacionamento e a colaboração entre as polícias de Espanha e Portugal já
não serem os mesmos como anos antes é ainda revelado por um depoimento do ex-chefe
de brigada Manuel Lavado, que, em Abril de 1973, se deslocou a Espanha para receber
o português Júlio Rodrigues que iria ser capturado pela polícia espanhola. Esta prendeu-
o, mas não o entregou à DGS e, passados dias, Júlio Rodrigues acabou por ser solto pois
tinha um documento de refugiado da ONU (Nota 5).

IV.3.2.2. França

Em 1946, o governo da IV República francesa decidiu criar o Service de Documentation


Extérieure et de Contre-Espionnage (SDECE) (Nota 6), que se ocupava da pesquisa de
informações estratégicas, bem como da espionagem e contra-espiongem no exterior.

Nota 1 - Ibidem, vol. n, fls. 388, 415, 512, 518 e 532; idem, pr. 13189 CI (2), «Fuerza
Nueva, Força Nova», fl. 2.
Nota 2 - Juán Carlos Jimènez Redondo, El Otro Caso Humberto Delgado, p. 275.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 9 Cl (2), vol. II, fls. 37-40, 120 e 140.
Nota 4 - Ibidem, vol. m, NT 6929, fl. 275.
Nota 5 - Arquivo Histórico Militar, Manuel Lavado, chefe de brigada, 4.a Juízo do MI
85/79, Auto 474 de 20/6/79, fls. 51 e 58.
Nota 6 - Sítio na Internet da Direction Générale de la Sécurité Extérieure.

113

Em França, havia ainda os Renseignements Généraux (RG), responsáveis pela pesquisa


e centralização de informes económicas, sociais e políticas, e a Direction de
Surveillance du Territoire/Direction Générale de la Sureté Générale (DST ou Sureté),
um serviço de polícia que se ocupava da pesquisa, controlo e repressão das actividades
secretas. Embora nenhum dos diplomas reguladores dos serviços franceses de
informação previssem que o fruto do seu trabalho pudesse servir governos estrangeiros,
é um facto que não deixaram de fornecer informações sobre refugiados políticos
estrangeiros em França, ajudando assim regimes ditatoriais, como o português, que
queriam neutralizar os seus opositores (Nota 1).
No caso de Portugal, a PIDE/DGS manteve relações, tanto com os RG, como com a
DST e o SDECE, cujo director, o conde Alexandre de Marenches, ainda no início de
1974, aterrou o seu avião na Base Aérea de Sintra (Nota 2). Após o 25 de Abril de 1974,
foi também encontrada correspondência, entre o director da PIDE e o director da DST,
Roger Wybot, pelo menos a partir de 1952. A Guerra Fria justificava essa colaboração
anticomunista entre as polícias de Portugal e França, num período em que a distinção
entre um comunista e um espião ao serviço da URSS era ténue.
Os serviços franceses também pediram, no entanto, informação sobre nazis e seus
cúmplices franceses: por exemplo, em 1957, solicitaram dados sobre um Jacques de
Bernonville, condenado dez anos antes, em Toulouse, à pena de morte, por colaboração
com o inimigo alemão durante a guerra. Nove anos mais tarde, Barbieri Cardoso
intercedeu junto de um enviado do primeiro-ministro francês, a favor do retorno a
França do elemento da extrema-direita refugiado em Portugal desde 1944, Jacques
Ploncard d'Assac, autor de um livro panegírico sobre Salazar (Nota 3).
Manuel da Silva Clara, habitual receptor, por parte da PIDE, das informações vindas de
França, agradeceu em 1958 ao director da DST, dados sobre agentes de ligação em
França entre o PCP e o PCF, fornecendo, por seu turno, as biografias políticas dos
indivíduos (Nota 4). Em 28 de Janeiro de 1959, alguém do consulado de Portugal em
Bayonne — possivelmente o informador que assinava por «Bayonne» — escreveu a
Silva Clara dizendo-lhe querer obsequiar, com vinho do Porto, os seus informadores
habituais — os cônsules de Espanha, nessa cidade e em Toulouse, e o chefe dos serviços
de contra-espionagem em San Sebastian, Jorge Ozores Araiz (Nota 5).
Noutro relatório, de Setembro de 1960, «Bayonne» assinalou a especial atenção que
merecia o DRIL às autoridades francesas (Nota 6). O mesmo ou outro informador,
inserido no meio português de Toulouse, enviou também à PIDE, nesse período, vários
relatórios sobre exilados portugueses, entre os quais se contava Manuel Bruno dos
Santos Cardoso, que foi, aliás, informador dessa polícia, como se verá.

Nota 1 - Le Monde, de 28/11/74, notícia sobre o jornal Le Canard Enchainé, de


27/11/74.
Nota 2 - Bruno de Oliveira Santos, Histórias Secretas da PIDE/DGS..., p. 43;
PIDE/DGS, pr. 19062 CI (2), pasta 4, fls. 70, 88, 98, 110-112, 131, 154, 169, 174, 181,
183, 189, 202, 214, 216, 221, 238, 269, 246, 276, 279, 280-282, 285, 288, 299 e 300.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 1967 Cl (2), pasta «imprensa estrangeira em Portugal», fl. 76.
Nota 4 - Ibidem, pr. 5618 SR, fl. 41.
Nota 5 - Ibidem.
Nota 6 - Ibidem, pr. 921 SR, Francisco Gaspar Rolão Preto, informação 211/61-GU:
«Acção Internacional comunista contra Portugal», 23/2/61, informação 19/9/60.

114

O informador sugeriu à PIDE que pedisse às autoridades francesas para vigiarem Bruno
Cardoso dos Santos, e noutro relatório, deu conta de que isso já acontecia (Nota 1).
Além de ter passado a informar sobre este último (Nota 2), a DST deu conta,
verbalmente à PIDE, em Maio de 1960, de que Fernando Alberto Queiroga Chaves
tinha sido expulso de França. Por seu turno, o subdirector da PIDE, Manuel da Silva
Clara, remeteu a Pierre Sirinelli, subdirector da DST, um relatório sem data, sobre uma
projectada visita a Paris de Humberto Delgado, pedindo-lhe que tudo fizesse para
proibir a entrada e a estada do general em França. Para tratar dessa viagem de Delgado a
Paris, a PIDE enviou à capital francesa o subinspector Rosa Casaco, que, num relatório
de 27 de Abril de 1961, deu conta aos seus superiores, dum encontro com o inspector-
chefe, Crouzet, que havia «gentilmente» prometido auxílio e colaboração «quando isso
lhe fosse solicitado» (Nota 3).
Em ofício interno enviado a Silva Pais, com a menção de «viagem a França de
comunistas portugueses, com nomes falsos», Álvaro Pereira de Carvalho informou ter
entregue em 11 de Dezembro de 1962, «ao Gaspard», informação sobre uma acção
política contra Salazar por parte dei um casal. Refira-se que Jean Gaspard, cônsul de
França em Madrid, era informador dos serviços secretos franceses e agente de ligação
com a PIDE. Seja como for, os serviços secretos franceses seguiram esse casal, mas
pediram «instamment» à polícia portuguesa para não revelar a «origem francesa» da
informação, caso resolvesse explorá-las no quadro de uma «operação repressiva» (Nota
4).
Questionado por um jornal francês, após o 25 de Abril de 1974, acerca de uma carta
enviada ao director da PIDE após a sua nomeação para director da Sureté Générale, em
1963, Maurice Grimaud esclareceu que as duas polícias, francesa e portuguesa,
cooperaram na procura de membros da OAS. Assegurou, no entanto, que o governo de
França tinha imposto limites estreitos à colaboração, nunca permitindo à polícia
francesa a entrega de refugiados políticos portugueses nem de informação que pusesse
pessoas em perigo (Nota 5). Em Abril desse ano, o embaixador de França em Lisboa
deslocou-se efectivamente ao MNE para agradecer a cooperação demonstrada pelas
autoridades portuguesas na resolução do caso Georges Bidault, dirigente da OAS que se
tinha exilado em Portugal (Nota 6).

Nota 1 - Ibidem, informação de 6/7/60 sobre o PCP e o Centro Português de Toulouse.


Nota 2 - Ibidem, pr. 19062 CI (2), relações com a SDECE, Direction de Surveillance du
Territoire 1952-1960, fls. 27, 30, 31, 34, 39 e 53.
Nota 3 - Humberto Delgado, A Tirania Portuguesa, p. 211, nora 1, e p. 212.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 623 Cl (2), «Emigração portuguesa em França». 1963, fl. 357,
carta dos RG, onde está escrito à mão, pelos SC, entregue em mão aqui pelo director
adjunto da Sureré 1, em 29/5/763, fls. 361 e segs.
Nota 5 - Le Monde, 28/11/1974.
Nota 6 - MAI-GM, caixa 252, carta de MNE, DGNPA, 15/4/63. Georges Bidault (1899-
1983), político francês, partidário de De Gaulle até cortar com ele, por desacordo com a
independência da Argélia, entrou na clandestinidade em 1962, formando, no seio da
OAS, o Conselho Nacional da Resistência, que enveredou pelo terrorismo chegando a
atentar contra a vida de De Gaulle. Exilou-se em vários países, nomeadamente no Brasil
e na Bélgica, tendo estado também em Portugal, voltando a França em 1968, após ser
amnistiado. Cf. Manuel Sertório, Humberto Delgado: Cartas Inéditas, pp. 179 e 180.

115

No entanto, Silva Pais continuou a receber, a partir de 1963, várias cartas de Maurice
Grimaud e, nomeadamente, um relatório sobre as actividades do PCP em França. (Nota
1)
Em 1964, aconteceu algo de importante na cooperação entre os serviços secretos
franceses e a PIDE, como se pode ver na carta «Muito secreto, CI (2), de 13 de Maio,
assinada por Silva Pais e dirigida a Henri Boucoissan, director dos RS, a agradecer as
facilidades concedidas para a aquisição, pela polícia portuguesa, de aparelhos de escuta
telefónica. Entretanto, a correspondência entre a PIDE e a Sureté Nationale passou a ser
enviada para Jean Chambon, BP 114.08, Paris (Nota 2), enquanto as cartas daqueles
serviços franceses para a polícia portuguesa seguiam através de um portador chamado
Klein (Nota 3). Em Outubro desse ano, uma carta de Jacques Baranger (Gaspard), o
agente de ligação francês sediado na Embaixada de França em Madrid, dirigida a
Monsieur Pereira — provavelmente Pereira de Carvalho —, solicitou um encontro com
Barbieri Cardoso para combinar as condições da viagem a Portugal do director dos
serviços secretos franceses e para tratar de questões relacionadas com portugueses na
Argélia (Nota 4).
Em 1966, a PIDE foi informada de que o general Eugène Guibaud que havia sido
nomeado director do SDECE, cujo oficial de ligação com Portugal, coronel Mareuil,
manifestou a esperança de que as polícias secretas Portugal e França continuassem a
manter as melhores relações (Nota 5). Isso parece ter acontecido, dado que, no ano
seguinte, os serviços franceses informaram a PIDE de que a LUAR contava com vários
elementos em França (Nota 6). A PIDE transmitiu, por seu turno, em 1968, aos serviços
franceses os nomes dos portugueses que tinham sido os maiores activistas nos tumultos
de Maio desse ano, em Paris (Nota 7).
Estas informações da PIDE não caíram em saco roto, pois que em 8 de Janeiro de 1969
o MNE deu conta à polícia portuguesa da expulsão, em Novembro do ano anterior, de
portugueses exilados em França (Nota 8). Em Outubro, alguém dos serviços franceses,
que prudentemente não assinou, enviou à DGS uma nota a perguntar quais eram os
objectivos prioritários desta polícia, de modo a decidir em que medida as trocas de
informações podiam ser mais frutuosas.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 2515 Cl (2), fls. 272-75, 278 e 293.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 19062 Cl (2), relações com a SDECE, DST, pasta 2, fls. 2, 133.
O verdadeiro nome de Jean Chambon, o qual não devia ser utilizado, era Jean Paul
Guépratte, comissaire principal, chefe da Section Exploitation-Liaison de la Direction
des RG/Sureté Nationale, rue Saussais, Paris 8, sem timbre e com o remetente Barbieri
Cardoso, Apartado 2756.
Nota 3 - Ibidem, NT 3120, fls. 104 e 159.
Nota 4 - Ibidem, Embaixada de França em Espanha, informações de 1965, fl. 99.
Nota 5 - Ibidem, pr. 19. 062 Cl (2), fl.56.
Nota 6 - Ibidem, fls. 94 e 68.
Nota 7 - Ibidem, fl. 513, f 8/68 assunto: actividade de elementos do CMLP; Vincent
Jauvert, in Nouvel Observateur, n.º 1756, de 2/7/1998.
Nota 8 - PIDE/DGS, pr. 8 Cl (2), NT 6975, vol. 1, fl. 409, sobre portugueses expulsos
de França em 5/11/1968.

116

Pela sua parte, os franceses desejavam receber informações sobre os seus compatriotas
ao serviço da espionagem estrangeira, actividades relativas ao comunismo mundial e
organizações esquerdistas (Nota 1). Quanto à DGS, disse querer ser informada sobre a
actividade dos portugueses residentes em França e que aí desenvolvessem actividades
contra o Estado português (Nota 2).
Refira-se, aliás, que, segundo Alain Krivine, dirigente trotskista francês, havia então em
França muitos informadores da PIDE/DGS, a qual tinha uma secção quase oficial na
Confederação Francesa do Trabalho da Citroën, o sindicato patronal que controlava a
Citroen (Nota 3). O que este dirigente trotskista talvez não soubesse é que, em Janeiro
de 1969, os serviços secretos franceses enviaram à PIDE uma informação sobre a
eventual deslocação a Portugal de trotskistas franceses, e que, no mês seguinte, o
director da polícia portuguesa enviou a todos os chefes de posto um alerta sobre a
entrada desses jovens (Nota 4).
Em Outubro de 1970, Alexandre de Marenches passou a ser o novo director do SDECE
(Nota 5), sendo a ligação com a DGS feita, sob cobertura diplomática, através de Isidore
Banon ou do capitão Gillier, da embaixada de França em Madrid (Nota 6). A
correspondência da DGS era enviada para a embaixada num envelope dirigido a Michel
Koch, que continha no interior outro envelope dirigido a J. Lacase, director dos serviços
de informação do SDECE (Nota 7). Este serviço secreto francês propôs, nesse ano, à
DGS a realização de duas operações em África, para servir em simultâneo, quer os
interesses portugueses, quer os franceses, ao desmantelar o PAIGC e actuar contra
Sékou Touré. Tratava-se das operações Safira e Mar Verde na Guiné.
Segundo Óscar Cardoso, a segunda operação foi preparada, pela parte portuguesa, por
Alpoim Calvão e pelo inspector-adjunto da DGS, Matos Rodrigues (Nota 9). Quanto à
operação Safira, foi programada pelo SDECE para derrubar Sékou Touré e substituí-lo
pelo coronel Diallo, sediado no Gabão, aproveitando o assassinato de Amílcar
Cabral, em 20 de Janeiro de 1973. Um relatório do SDECE de 4 de Abril de 1974 fixou
as modalidades finais da intervenção franco-portuguesa, mas a operação não se chegou
a desencadear, devido ao golpe militar de 25 de Abril desse ano, em Portugal (Nota 10).

Nota 1 Ibidem, fls. 152-157. Os franceses queriam ainda receber dados sobre elementos
marxistas-leninistas (maoístas), bem como sobre os partidos pró-chineses e pró-
albaneses, trotsquistas e as organizações de solidariedade com os povos de África, Ásia
e América Latina.
Nota 2 - Ibidem, ibidem, fl. 167.
Nota 3 - A Capital, 16/4/75.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 8 CI (2), NT 6975, vol. 1, fl. 378, 22/1/69.
Nota 5 - Ibidem, pr. 19062 CI (2), relações com a SDECE, pasta 2, fl. 17.
Nota 6 - Ibidem, pr. 8 CI (2), vol. n, 16/11/70, fl. 128. R. Gillier, que estava na
Embaixada de França em Madrid, era o contacto de Barbieri Cardoso com os RG.
Nota 7 - Ibidem, pr. 19062 CI (2), pasta 2, fl. 14.
Nota 8 - Roger Faligot e Pascal Krop, la Piscine: les services secrets français 1944-
1984, Paris, Seuil, 1985, pp. 334-337.
Nota 9 - Bruno Oliveira Santos, Histórias Secretas..., pp. 103 e 112.
Nota 10 - Roger Faligot e Pascal Krop, op. cit., pp. 334-337.
117

Nos últimos dois anos do regime ditatorial, diversos dirigentes dos serviços franceses
deslocaram-se a Portugal (Nota 1). Diga-se, aliás, que os últimos dias de Agostinho
Barbieri Cardoso à frente da DGS foram passados em França (Nota 2). O conde
Alexandre de Marenches, director do SDECE, contou, mais tarde, que o subdirector da
DGS estava no seu gabinete, em Paris, no 25 de Abril, quando soube que estava a
decorrer um golpe militar. De «boca aberta, profundamente incrédulo», Barbieri
Cardoso telefonou para a sua sede em Lisboa, de onde, porém, só já ouviu um zumbido
(Nota 3). Não podendo voltar a Lisboa, Barbieri instalou-se, depois, numa casa na zona
de Paris, sob a protecção do SDECE, proporcionada pelo chefe das relações com os
serviços estrangeiros, coronel Jacques de Lageneste, antes de ir para Espanha (Nota 4).

IV.3.2.3. Alemanha

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, com a derrota dos nacional-socialistas, os


aliados vitoriosos desmantelaram as redes de espionagem alemãs. Refira-se, aliás, que
tanto os Ingleses como os Norte-Americanos e os próprios Soviéticos não deixaram de
utilizar alguns dos elementos dos serviços secretos nazis para os seus próprios serviços,
durante a Guerra Fria. A reconstrução da Alemanha, dividida em duas partes, originou a
criação de novos serviços secretos na REA, mas apenas nos anos 50. Por isso, o
relacionamento entre a PIDE e os serviços secretos alemães, o Bundes Nachriechtung
Dienst (BND), só se iniciou a partir de 1956. Assim, foi em Agosto deste ano que o
general Reinhardt Gehlen (Nota 5), ex-dirigente da Abwehr, cuja rede de intelligence foi
recuperada, no pós-guerra, pela CIA, antes de ele próprio criar os serviços secretos da
RFA, se avistou com elementos da Secretaria de Estado da Defesa Nacional. Pouco
tempo depois, uma delegação portuguesa visitou a sede do BND, para estabelecer
normas de intercâmbio.

Nota 1 - Ibidem, pr. 19062 Cl (2), pasta 2, fls. 7, 9, 10 e 11. Em 1972, Gillier, agente de
ligação era Madrid, esteve na sede da Rua António Maria Cardoso e no ano seguinte
deslocaram-se, por seu turno, a Lisboa, Jean Lacase e os seus colegas Francis Mollard e
Roger Chabalier, bem como Alain de Gaigneron de Marolles, com mais dois elementos,
que ficaram alojados, a expensas da DGS, no Hotel Tivoli.
Nota 2 - Ibidem, pasta 3. A correspondência ia, sem timbre, para Jacques Prudent (nome
suposto) BP 344.08; 75365 Paris Codex 08.
Nota 3 - Helena Sanches Osório, «Marenches, o aristocrata espião», in Expresso
Magazine, 5/3/1988, p. 44.
Nota 4 - Roger Faligot e Pascal Krop, op. cit., pp. 334-337. Curiosamente, Lageneste
terá organizado, em Setembro de 1975, no Hotel Sheraton de Paris, uma conferência
para preparar uma reacção a um esperado putsch da extrema-esquerda em Portugal, que
juntou partidos e personalidades portugueses opostos ao comunismo, entre os quais se
contavam António de Spínola, Freitas do Amaral, Manuel Alegre, Jorge Jardim e um
representante da UNITA.
Nota 5 - Vincent Jauvert, «Quand l'Amérique recrutait des officiers SS», in Le Nouvel
Observa-teur, n.° 1966, 11/7/2002.
118
No relatório enviado ao director da PIDE pela delegação portuguesa dava-se conta de
que a troca de informações de carácter militar sobre a URSS seria feita entre os
departamentos de Defesa Nacional dos dois países, enquanto o envio de dados sobre
portugueses e estrangeiros suspeitos ficaria a cargo dos serviços policiais alemães da
PIDE (Nota 1).
Em 11 de Fevereiro de 1958, o secretário-geral adjunto da Defesa Nacional, comodoro
Joaquim de Sousa Uva, informou a PIDE de que, devido ao escasso tráfego, as vias de
comunicação com a Alemanha passavam ser feitas, pela PIDE, através do elemento de
ligação dos serviços secretos alemães Heinzgeorg Neumann, residente no Monte Estoril
(Nota 2). Este último exerceu funções de adido da Embaixada da RFA entre 1960 e
Novembro de 1964, mas era, na realidade, «delegado do Serviço Federal Alemão de
Informações (Serviços Secretos)». Antes de regressar a Bona, Neumman pediu para se
despedir de Salazar, junto do qual Silva Pais intercedeu com o seguinte argumento:
«Merece-o bem, pois é muito nosso amigo e tem-nos prestado bons serviços.» (Nota 3)
Ao chegar à chefia da PIDE, em 1962, Fernando Silva Pais enviara entretanto Barbieri
Cardoso à sede do BND, em Munique, confirmando a continuação da cooperação no
combate «contra os fautores da descristianização e do enfraquecimento das forças
morais, base da civilização ocidental». Os serviços alemães também enviaram à PIDE
informações de carácter político (Nota 4). Em Junho de 1970, elementos da DGS
frequentaram na Alemanha, um curso de telecomunicações e visitaram as instalações da
polícia secreta alemã, em Munique, onde assistiram a uma demonstração de aparelhos
de escuta e gravação.
Sobre a cooperação entre as polícias de ambos os países, foi acordado o fornecimento,
da parte dos alemães, de aparelhagem, e a penetração, parte portuguesa, no sistema
rádio dos serviços de segurança da Tanzânia a partir de Moçambique (Nota 5). Roger
Hochdorn, que ingressou no BND, no final de 1973 devido à experiência que tinha
adquirido em Portugal, onde havia estado em comissão militar desde 1970, afirmou que
os contactos entre essa agência secreta alemã e a DGS eram «muito personalizada
passavam pelo director, general Wessel, e por Silva Pais (Nota 6).

IV.3.2.4. Relações com outros serviços secretos europeus e de países «amigos»

As relações entre os «serviços italianos» e os portugueses começaram em 12 de


Novembro de 1964, data em que a PIDE terá enviado uma carta a sondá-los.

Nota 1 - PIDE/DGS, mações 1956-58»


Nota 2 - Ibidem, fl. 1.
Nota 3 - José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, A Filha Rebelde, pp. 102-103.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 8241 CI (2), «Conferência dos católicos progressistas»,
realizada em Berlim oriental, de 22 a 24 de Março de 1966, informações recebidas dos
serviços alemãs pela PIDE.
Nota 5 - Ibidem, pr. 7477 CI (2), pasta 43, fls. 9 e 11.
Nota 6 - Visão, 26 de Abril de 2001, p. 15-16, entrevista com Roger Hochdorn.

119

Em resposta, no ano seguinte, Giovanni Allavena, coronel dos Carabinieri, enviou a


Barbieri Cardoso uma carta a informá-lo sobre as possibilidades de cooperação e troca
de correspondência entre as duas polícias (Nota 1).
Anos depois, em 3 de Julho de 1971, Barbieri Cardoso, que falava e língua italiana,
dirigiu-se ao seu «caro amico» Frederico d'Amato, da direcção de negócios reservados
do Ministério do Interior de Roma, a transmitir informações «não seguras» de que
elementos da extrema-esquerda italiana — um da Lotta Continua e quatro jovens de
Arzignano - iriam a Portugal em Agosto para cometer atentados terroristas (Nota 2).
Tal como com os serviços secretos de outros países pertencentes à NATO, também a
troca de informações entre os holandeses e a PIDE/DGS se processou no quadro dessa
organização atlântica. Além de manter relações com a polícia holandesa através da
NATO e com os serviços secretos holandeses, Hool Hoofd Binnenlandse
Veiligheidsdienstg (HHBV) sediados na Haia, a PIDE/DGS também recebia da
Holanda, via Interpol, informações sobre casos considerados crimes comuns mas que,
na realidade, eram políticos (Nota 3).
Com outros países onde se deram mudanças de regime, nomeadamente através de
golpes militares, para ditaduras anticomunistas, as relações da PIDE/DGS também se
alteraram, passando a ser de colaboração. Esteve nesse caso a Indonésia, cuja legação
em Lisboa tinha anteriormente o telefone sob escuta (pelo menos entre 9 e 30 de Janeiro
de 1965). Outro foi o relacionamento após o golpe de Estado de Suharto, cujas
barbaridades foram, desde logo, do conhecimento da PIDE. A PIDE de Timor chegou
mesmo a mostrar algum incómodo, ao informar Lisboa, em 25 de Fevereiro de 1966,
sobre a forma como os comunistas estavam a ser massacrados no Timor indonésio.
Em informação distribuída em 10 de Março ao governador e ao comando militar, a
PIDE de Timor deu conta da detenção, de 6 a 9, em Batugadé, de cerca de doze
elementos do Partido Comunista Indonésio (PKI) fugidos da Indonésia, entre os quais se
contavam alguns timorenses de nacionalidade portuguesa a residir em Kefamenano.
«Posteriormente e em cumprimento do superiormente determinado foi feita a sua
entrega no posto da Polícia indonésia de Matain, tendo aqueles autoridades ficado muito
reconhecidas» à PIDE. Ou seja, a polícia portuguesa entregou cidadãos portugueses de
Timor às autoridades indonésias, podendo-se adivinhar o que estas fizeram de seguida
(Nota 4).
Devido à questão colonial, a PIDE/DGS manteve colaboração com a polícia e os
serviços secretos da África do Sul e da Rodésia. No entanto, este relacionamento apenas
é aqui sumariamente mencionado, dado que se prendia, sobretudo, com Angola e
Moçambique, que não é o objecto deste estudo. Em Julho de 1954, o tenente-coronel
Prinsloo, da Polícia da União Sul-Africana, visitou Lisboa, avistando-se com Neves
Graça e Ferry Gomes, da PIDE.

Nota 1 - Portugal Democrático, n.° 95, Junho de 1965.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 3110 Cl (2), serviços italianos, fls. 2, 3, 21, 270, 273 e 276;
ibidem, pr. 16.647 CI (2), serviços italianos, fl. 15.
Nota 3 - Ibidem, pr. 631 Cl (2), serviços holandeses, fls. 28, 66, 76, 85, 212, 247, 286,
293, 299, 310, 344, 347, 402 e 435.
Nota 4 - Ibidem, pr. 236 Cl (2), serviços indonésios, fls. 336, 401, 403 e 908.

120

Por seu turno, uma delegação desta polícia deslocou-se a Pretória, para reunir com o
comissário-geral, major general Rademeyer, e dois brigadeiros comissários adjuntos.
Segundo o acordo assinado nesse ano de 1956, as polícias dos dois países ficaram de
trocar informações sobre medidas da combate ao comunismo (Nota 1).
Depois, a partir de 1964, as delegações da PIDE/DGS de Angola e Moçambique
também passaram a cooperar com o Bureau of State Security, com o qual a polícia
portuguesa manteve um novo acordo, entre 1961 e 1974 (Nota 2). Um acordo para troca
de informações entre as autoridades de segurança da Rodésia e Niassalândia e as da
África oriental portuguesa também foi assinado, em Outubro de 1958, em Lourenço
Marques, na presença de Basil M. de Quehen, director do Federal Intelligence Service
Bureau, e do major Hilário Marques da Gama, comandante da polícia de Moçambique.
Ficou acordado que haveria troca de informações de segurança de interesse mútuo
através de um canal principal entre Salisbury e Lourenço Marques (Nota 3). Em 1961,
com o início da guerra em Angola, Basill Quehen deslocou-se a esta colónia e a
Moçambique para conferenciar com os respectivos dirigentes da PIDE (Nota 4) e
aumentar a colaboração.

IV.3.2.5. Estados Unidos da América

Através do National Security Act de 1947, foi criada, nos EUA, a Central Intelligence
Agency (CIA), a qual ficou impedida de exercer funções policiais a nível interno (Nota
5). Nos anos 50, em plena Guerra Fria, a CIA instalou um dos quatro retransmissores da
Radio Free Europe Rádio Europa Livre, criada em 1947, em Glória do Ribatejo (os
outros situavam-se em Espanha, Alemanha Ocidental e Taiwan), e gerida, em Portugal,
pela Sociedade Anónima de Rádio-retransmissão (RARET).
No entanto, a ligação «oficial» entre a PIDE e a CIA só foi formalizada em 7 de Junho
de 1956, quando o coronel Benjamin H. Vandervoort (Nota 6) adido da Embaixada dos
EUA em Lisboa, escreveu a Agostinho Loura comunicando-lhe o convite do director da
CIA para uma deslocação aos EUA «para discutir matérias de mútua preocupação».
Como Agostinho Lourenço se desligou da direcção da PIDE, por limite de idade, em 5
de Setembro, o convite foi transmitido a António Neves Graça, que o aceitou com
«muito agrado». Na correspondência então trocada entre as duas polícias, é possível ver
que a CIA se propôs prestar auxílio à PIDE na organização de um sistema mecanizado
de ficheiros e arquivos.

Nota 1 - Ibidem, pr. 6.341 CI (2) A, pasta 1, Federação das Rodésia e Niassalândia, fls,
29, fl 66, 1954-565. Acordo com a polícia da União da África do Sul para troca de
informações, 24/1/55 a 1/5/56.
Nota 2 - Ibidem, pr. 12.641 CI (2), Colaboração com a RAS, polícia da África do Sul,
Bureau for State Security, fls. 16, 38, 82 e 119.
Nota 3 - Ibidem, pr. 6.341 CI (2)/A, pasta 5, Federação da Rodésia e Niassalândia.
Ligação com Salisbury.
Nota 4 - Ibidem, pasta 7, fls. 34, 41, 128 e segs.
Nota 5 - Sítio na Internet sobre a CIA, Factbook on Intelligence, December 1992, pages
4-5, Vincent Jauvert, «Quand l'Amérique...», in Le Nouvel Observateur n.° 1966,
11/7/2002.
Nota 6 - Idem, ibidem, p. 106. Benjamin Vandervoort era oficialmente political officer
(conselheiro) da embaixada e nessa qualidade consta das listas públicas do
Departamento de Estado. Cessou as suas funções de chefe do posto da CIA em Lisboa
no final de 1958.

121
Neves Graça elaborou, depois, uma proposta de colaboração entre os serviços, na
sequência de uma reunião em Washington. Nesse projecto de acordo, as duas polícias
propunham-se trocar informações sobre a organização comunista e efectuar diligências
e operações conjuntas, entre as
quais se contavam a infiltração no seio dos partidos comunistas. A CIA comprometeu-se
a difundir técnicas de operações e de propaganda anticomunistas, bem como a formar
pessoal especializado em Washington, passível de ser consultado pela PIDE, para treino
e briefing de funcionários da polícia portuguesa. Por seu turno, a PIDE forneceria
informações sobre o PCP e detalhes de operações conduzidas contra ele, cuja utilidade
fosse reconhecida para a CIA. Criaria ainda uma equipa, treinada pela agência
americana e dirigida pela PIDE, para trabalho exclusivo de penetração no PCP em
Portugal (Nota 1).

O «homens das Américas»

Fizeram parte da delegação da PIDE que participou no curso da CIA, Outubro e


Novembro de 1957, realizado em Camp Peary (Virgínia), sob o nome codificado de
Isolation, o subinspector Jaime Gomes da Silva, o chefe de brigada Manuel Vilão de
Figueiredo, os agentes Sílvio Mortágua, Amândio Gomes Naia, Álvaro dos Santos Dias
Melo, Abílio Augusto Pires, Felisbino Marques Gomes, Ernesto Lopes (Ramos) José
Mesquita Portugal e João Nobre e ainda os escriturários Alfredo Fernando Robalo e
Eduardo de Sousa Miguel da Silva, que chegou a 1.º oficial da DGS (Nota 2).
Alguns dos quadros da PIDE que estagiaram na América — Ernesto Lopes Ramos,
Abílio Pires e Miguel da Silva — terão sido depois contratados pela CIA como agentes
de ligação em Portugal. Eduardo de Sousa Miguel da Silva teria sido mesmo
considerado, pelos próprios dirigentes da polícia, como um «homem das Américas». Por
seu turno, numa entrevista dada pelo major João Vargas, da Comissão de Extinção da
PIDE/DGS e da LP, este afirmou que, além do inspector Cunha Passo, também Abílio
Pires tinha sido convidado para os quadros da CIA, pela quantia de 500 dólares mensais
(Nota 3).
Após 1974, o próprio Abílio Pires negou o facto, embora afirmasse que a CIA o tinha de
facto tentado subornar, oferendo-lhe 600 dólares mensais, através de Walter Andrade,
elemento da estação dessa agência em Lisboa, depois substituído por John Morgan.
Pires acrescentou que este último efectivamente o procurara, mas que como sempre com
a CIA, as relações da PIDE/DGS eram de desconfiança, embora o homem da antena em
Madrid, Colombatovic, se deslocasse por vezes a Lisboa para falar sobre questões da
Interpol com o subdirector Barbieri (Nota 4).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 6. 341 CI (2), pasta 2, Acordo com a CIA, serviços americanos
para troca de informações, carta de Lisboa, 9/3/57, assinada por Neves Graça, fls. 2-7,
12, 31, 36,39, 40 e 45.
Nota 2 - Ibidem, pr. 2 CI (2) SC DSI, pasta 5, fls. 1-4, 7, 8, 18, 19,24, 28, 36, 40, 50, 53-
55, 59, 64, 68-69 e 100; José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, p. 105.
Nota 3 - «A PIDE colaborou com a CIA», in Diário Popular, 7/2/1975.
Nota 4 - António Possidónio de Moura Diniz, proc. 104/79 do TMT de Lisboa, pasta
112, vol. 3, fls. 523-525, Abílio Pires, relatório, 14/6/74; Bruno de Oliveira Santos, op.
cit., p. 42.

122
Em 1974, Philip Agee, oficial de operações secretas da CIA, afirmou, por seu turno, que
Rudolfo (sic) Gómez, organizador da rede dessa agência em Portugal, tentara aliciar, no
final dos anos 60, o inspector Rosa Casaco com o qual terá reunido periodicamente no
Porto e em La Toga (Galiza) (Nota 1) António Rosa Casaco também negou ter
trabalhado para a CIA, esclarecendo que apenas teve uma «amizade desinteressada»
com Gómez (Nota 2). Outro elemento que terá trabalhado com a CIA foi Álvaro Pereira
Carvalho, que confessou, aliás, numa entrevista a José Freire Antunes, ter-se apercebia
através do contacto com os serviços americanos, quão atrasadas estavam as técnicas da
polícia portuguesa (Nota 3).

Operações conjuntas entre a PIDE e a CIA: o caso Expectator

Após 25 de Abril de 1974, o ex-inspector Jaime Gomes da Silva da conta de que, no


âmbito da colaboração entre a PIDE e a CIA, foi montada a operação Expectator,
dirigida pelo homem da CIA em Lisboa, Vandervoort, e na qual participou ainda Fred
Hubbard, adido da embaixada dos EUA (Nota 4). A operação Expectator — de «cross
contamination between the expectator and or other Russian intelligencia service aparati
in Portugal and PCP» — destinava-se a «vigiar a actividade de refugiados de guerra em
Portugal, provenientes de leste, quase todos judeus». Entre estes, contavam-se
nomeadamente, «uma senhora com uma loja de artigos de criança na Guerra Junqueiro,
o dono do barco Wildebrandt (de nome Philip Spitzer) que encalhou em Cascais» (Nota
5), o casal Katharina e Adolf Spitz, Max Azancot e Jorge Keri, acusados de fazerem
parte de uma rede soviética (Nota 5).
Em 25 de Novembro de 1957, a CIA enviara a Neves Graça um memorando, baseado
num relatório da inteligência alemã de 1943, onde afirmava que o conde d'Adix,
pertencente à rede soviética Rote Kapelle, tinha estado em Portugal até ser expulso em
1946. Em Abril do ano seguinte, Max Azancot teria colocado novamente d'Adix no
comando da organização comunista em Portugal. Depois, até 1949, vários relatórios
haviam dado este último como representante da NKVD e implicado numa organização
alemã antinazi, a INA (Independência Nacional Alemã), por intermédio dos ex-
elementos do PCP José de Sousa Coelho (José de Sousa) Miguel Wager Russel (Nota
7).

Nota 1 - «Investigação sobre Rosa Casaco leva a rede da CIA», in A Capital, 9/12/74.
Nota 2 - António Rosa Casaco, Servi a Pátria e Acreditei no Regime, p. 93.
Nota 3 - José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, pp. 106-108.
Nota 4 - Ibidem, p. 107. O telefone particular de Hubbard, em Cascais, foi, aliás, um
dos mais escutados pela PIDE, ao longo de 1961-1962. Arquivo Histórico Militar, Jaime
Gomes da Silva, 4.º Juízo do TMT, proc. 28/80, pasta 66, arquivo 622; Luta Popular,
9/11/78.
Nota 5 - Segundo Nuno Vasco, em A bem da Nação, p. 195, esta operação foi dirigida
pelo coronel Vandervoort, elemento da CIA em Portugal.
Nota 6 - PIDE/DGS, pr. 2 CI (2) SC DSI, pasta 5, fls. 152, 160, 162 e 168; «A PIDE
colaborou com a CIA», in Diário Popular, 7/2/75.
Nota 7 - Ibidem, pr. 2 CI (2) SC DSI, pasta 5, fls. 182 e segs. e 201.

123

Em Portugal, tinha ainda actuado, segundo a CIA, outra agência soviética da RIS
(contra-informação russa), da qual faziam parte, entre outros, Katherine Spitz, que a
CIA pediu à PIDE para interrogar, bem como a desta. Paralelamente, a CIA tinha
referenciado, entre 1941 e 1944, outra portuguesa como sendo correio dos serviços
secretos alemães, e detectado ligações entre esta e agentes soviéticos em Portugal. A
CIA informou a PIDE da possível presença de um segundo aparelho soviético a operar
em Portugal ou nas suas colónias, no qual actuaria Carolina Loff da Fonseca, ex-
membro do PCP, partido do qual tinha sido expulsa por se ter tornado amante de um
inspector da própria polícia, Júlio de Almeida (Nota 1).
Convencida de que a Espionagem soviética estava a tentar reactivar os elementos da
Rote Kapelle na Europa, utilizando antigos agentes secretos alemães, a CIA sugeriu
assim à PIDE que preparasse com aquela agência uma investigação conjunta (Nota 2).
O certo é que, num relatório com a data de 23 de Agosto de 1957, a PIDE deu ordens
para «averiguar muito discretamente a identidade completa dos empregados da firma
"Construções Especiais Lda.", em Lisboa, sem dar a conhecer o interesse da polícia
acerca do assunto (Expectator), da qual faziam parte, entre outros, alguns dos
estrangeiros aima mencionados (Nota 3).

A PIDE e a CIA a partir do final dos anos 50

Numa entre várias notas não assinadas, de 3 de Novembro desse ano, dirigida ao
subdirector Manuel da Silva Clara, provavelmente por um elemento da CIA em
Portugal, afirmava-se que a «sede» acabara de enviar aos «serviços em Portugal»
instruções para prestar à PIDE «todo e qualquer auxílio necessário». Este elemento
pretendia encontrar-se com o director da PIDE, para discutir a viabilidade de ele próprio
«ir a Tânger para coordenar todos os serviços americanos num esforço completo para
penetrar a organização de Queiroga». No caso afirmativo, assegurou que a polícia
portuguesa podia considerar «o seu agente neste assunto». O interesse dos os
americanos por Queiroga é revelado noutra nota de 10 de Novembro, onde se dizia que
ele pretendia sabotar os principais pontos estratégicos de defesa da Península Ibérica e
bases militares ligados à NATO (Nota 4). No entanto, apesar da colaboração entre a
PIDE e a CIA, particularmente evidente no final dos anos 50, houve pelo menos um
caso onde, segundo Freire Antunes, a CIA teve uma atitude dúplice: ao apoiar, em 1959,
o grande inimigo do regime, Humberto Delgado.

Nota 1 - Sobre esta figura, veja-se José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal: Uma Biografia
Política, Daniel», o Jovem Revolucionário, Lisboa, Círculo de Leitores e Temas e
Debates, 1999, e a obra de ficção de Vasco Graça Moura, O Enigma de Zulmira:
Romance, Lisboa, Gótica, 02. Correspondência do Ministério do Interior, 1946,
processo Júlio de Almeida, 4/4, ofº 288 envia requerimento sub-inspector Júlio Almeida
em que pede que seja despachado o processo pelo qual está suspenso enviado à PIDE.
Ministério da Justiça, 18/5, of.° 458, indicação do capitão Agostinho Lourenço como
representante à conferência internacional da polícia, enviado ao MNE e à PIDE. –Nota
2 - PIDE/DGS, pr. 2 CI (2) SC DSI, pasta 5, fls. 182 e segs. e 201.
Nota 3 - Ibidem, pr. cr. 2401/57.
Nota 4 - Ibidem, pr. 11.151 Cl (2), capitão Fernando Gualter Queiroga Chaves.

124

Segundo uma versão soviética que carece porém de confirmação, quando a PIDE
provocou uma pretensa manifestação de apoio a Delgado frente à sua casa para o deter,
com o pretexto de essa iniciativa não estar autorizada, Benjamin Vandervoort, o
elemento da CIA, que estava a par dessa provocação, interveio em socorro do general
(Nota 1).
Diga-se, porém, que foi na sequência dessa manifestação que Delgado se refugiou na
embaixada do Brasil, facto que, como se verá, muitos dos apoiantes do general
consideraram um erro, pois resultou na sua saída do país, o que foi conveniente para o
regime. Outros autores também afirmaram que a PIDE recebeu provavelmente da CIA
relatórios sobre Delgado, mas que esta agência também manteve relações com o
general, nomeada mente em 1962, quando este terá sido visitado, no Brasil, por
militares ao serviço da embaixada dos EUA (Nota 2).
A PIDE realizou também, pelo menos, duas viagens marítimas a portos soviéticos com
elementos seus a bordo de navios mercantes portugueses, sobre as quais relatou à CIA.
A primeira viagem realizou-se no mm Melo, ao porto de Riga, em 1959, com a presença
de dois agentes da PIDE, Santos e Lopes (provavelmente Ernesto Lopes Ramos).
Quanto às segunda viagem, ao porto soviético de Tuapse, no Mar Negro, em 1960, foi a
própria CIA que, numa carta muito secreta à PIDE, pediu que esta colocasse um agente
a bordo. Ernesto Lopes Ramos foi de novo o escolhido para se infiltrar no navio, de
onde tirou fotografias ao porto soviético, que a agência norte-americana agradeceu
(Nota 3).
Embora alguns autores datem do início dos anos 60 o incremento de relações entre a
PIDE e a CIA, o ex-elemento da PIDE/DGS Óscar Cardoso afirmou que acontecera
precisamente o contrário. Ou seja, devido ao apoio que os americanos deram em 1961 à
UPA e, três anos depois a Mondlane, as relações apenas não cessaram devido a ambos
os países serem membros da NATO (Nota 4). Também Álvaro Pereira de Carvalho
confirmou a deterioração do relacionamento durante a presidência Kennedy, afirmando
que a agência americana terá então escondido à PIDE dados sobre os movimentos
africanos. Por seu lado, esta polícia não só chegou a manter sob escuta o telefone
privado do chefe da estação da CIA em Portugal como terá recebido ordens de Salazar
para restringir a informação aos norte-americanos (Nota 5).
Nesse ano de 1961, houve ainda problemas relacionados com Henrique Galvão,
responsável pelo assalto ao paquete Santa Maria, o qual tentou então conquistar apoio e
credibilidade nos EUA, embora os serviços de emigração lhe tivessem recusado o visto
de entrada nesse país. Em 3 de Novembro, Galvão encontrou-se, na embaixada dos
Estados Unidos em Estocolmo, com o primeiro-secretário Parsons, e o certo é que ao
regressar a Marrocos deu luz verde à operação Vagô: o desvio de um Superconstellation
da TAP, no percurso Casablanca-Lisboa (Nota 6).

Nota 1 - Freire Antunes, Kennedy e Salazar, pp. 111 e 112.


Nota 2 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., p. 230.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 2 Cl (2) SC DSI, pasta 6, fls. 134, 136, 137,
Nota 4 - Nuno Vasco e Óscar Cardoso, op. cit., p. 94.
Nota 5 - José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, pp. 208 e 249-250.
Nota 6 - Ibidem, pp. 288-290.

125

Ao longo de 1962, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira manifestou


preocupação com o apoio dos EUA à UPA (Nota 1) e afirmou, a Theodore Anthony
Xanthaky, conselheiro da Embaixada dos EUA em Lisboa e elemento da CIA, que se
tornava difícil manter um diálogo com o governo americano (Nota 2). Após deixar
funcionário da Embaixada dos EUA em Lisboa, em 1964, Theodore manteve-se em
Portugal e foi admitido na Sonap, ficando sob vigilância da PIDE. A partir de 1963,
houve uma moderação no discurso anticolonialista dos EUA e uma tentativa de
conciliação, num momento de negociações para a renovação do acordo de utilização da
base das Lajes, nos Açores (Nota 3). Após o fim da administração Kennedy, a PIDE
voltou a ter uma relação «leal» com a CIA, embora, como era «óbvio», houvesse
sempre informações que uma polícia omitia à outra, segundo afirmou Álvaro Pereira de
Carvalho (Nota 4). Em 1964, a colaboração entre a PIDE e os serviços secretos norte-
americanos já era das melhores (Nota 5), como se pode ver pelo facto de a PIDE ter
então sido informada de que o Departamento de Estado norte-americano estava
preocupado com as actividades de Humberto Delgado, contra o qual pensava utilizar
Henrique Galvão (Nota 6). Em Portugal, porém, a PIDE continuou a preocupar-se com
a activividade da embaixada e dos serviços secretos americanos. Refira-se, por exemplo,
que, segundo uma informação da PIDE/DGS, o segundo-secretário da embaixada em
Lisboa, Robert B. Bentley, contactou, em 1969, Jorge Branco Sampaio, ao qual sugeriu
uma reunião em casa do novo conselheiro daquela missão diplomática, Robert W.
Zimmerman, propondo que aí estivessem também presentes Francisco Pereira de
Moura, Lindley Cintra e Victor Wengorovious (Nota 7). O certo é que, em 20 de
Novembro desse ano, o director da DGS soube, de fonte «absolutamente segura», da
ocorrência, dois dias antes, de um jantar em casa de Diego Asencio, conselheiro da
embaixada dos EUA (entre 1967 e 1972) e homem da CIA, com Robert Zimmerman, no
qual tinham estado presentes Mário Soares (Nota 8), Francisco Salgado Zenha e
Francisco Sousa Tavares (Nota 9).
Em 1973, o novo director da CIA, William Colby, que substituiu Richard Helms,
despedido por Richard Nixon, por ter falhado em cobrir o escândalo Watergate (Nota
10), considerou Portugal um sítio tão estagnado que chegou a sugerir o encerramento do
posto da agência no país.

Nota 1 - Luís Nuno Rodrigues, Salazar-Kennedy: A Crise de Uma Aliança, p. 114.


Nota 2 - Idem, ibidem, pp. 71 e 147.
Nota 3 - Idem, ibidem, p. 322.
Nota 4 - José Freire Antunes, Nixon e Caetano, pp. 56 e 57.
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 5962/61, fl. 16, nota, PI-65-24, October, 11, 1965.
Nota 6 - Humberto Delgado, A Tirania Portuguesa..., p. 240. Informação da PIDE sobre
Henrique Galvão. 1. Informação sobre o Departamento de Estado Americano e
Henrique Galvão. Vide doc. n.° [...] 2 de 2 de Outubro de 1964, anexo ao ofício n.° PO
598, de 17 de Outubro de 1964 do MNE.
Nota 7 - PIDE/DGS, pr. 4922 Cl (1), Francisco Pereira de Moura.
Nota 8 - José Freire Antunes, Kennedy e Salazar, pp. 93-95.
Nota 9 - PIDE/DGS, pr. 121 Cl (1), Francisco Sousa Tavares, fl. 16.
Nota 10 - Steve Kangas, «Timeline of CIA Atrocities», no sítio da Internet do National
Security Archives.

126

Pouco antes de 25 de Abril de 1974, o posto da CIA era composto apenas por três
elementos: John Stinard Morgan (Nota 1), acabado de chegar a Lisboa, Frank W. Lowell
e Leslie F. Hughes, ambos incorporados na embaixada como oficiais de
telecomunicações.
John Morgan terá continuado com o trabalho dos seus antecessores, mantendo a
convicção na imutabilidade do sistema político português. No dia 25 de Abril de 1974,
chegou a telefonar a Pereira de Carvalho, que declarou não ter chegado a atender,
embora admitisse que o chefe do posto da CIA lhe quisesse oferecer protecção nos
Estados Unidos, depois de «quase 12 anos de estreita colaboração com os
Americanos» (Nota 2). Pereira de Carvalho afirmou, aliás, que oficiais do EME
avisaram os americanos do golpe e observou que «o 25 de Abril não teria sido possível
sem uma garantia dos Estados Unidos» (Nota 3).

IV.3.2.6. Brasil

Como se sabe, houve em 1959 um severo contencioso entre o Brasil e Portugal, a


propósito do asilo político de Humberto Delgado na embaixada daquele país em Lisboa,
chefiada na época por Álvaro Lins, que se tonara persona non grata para o regime
salazarista. Lembre-se que, depois, a embaixada desse país em Lisboa foi novamente
escolhida também por outros oposicionistas portugueses, nomeadamente por
participantes no «golpe de Beja», para recorrerem ao asilo político.
Mesmo assim, foi assinado nesse ano um acordo para troca de informações, entre a
PIDE e o Departamento Federal de Segurança Pública Rio de Janeiro (Nota 4). Em
Outubro de 1960, esteve, por seu turno, em Portugal, a convite da embaixada no Brasil,
Alberto J. Soares, inspector da divisão da Polícia Política e Social do Departamento
Federal de Segurança Pública brasileiro, que tinha sido, trinta anos antes, o agente de
ligação com a polícia portuguesa relativamente a actividades políticas no Brasil (Nota
5).

O caso Sérgio Baptista

Houve ainda outro contencioso, aberto em 1961, com o caso Sérgio Baptista, repórter
fotográfico nascido no Rio de Janeiro, detido quando desembarcava no cais da Rocha do
Conde de Óbidos, por suspeita de vir a desenvolver «actividades contra a segurança do
Estado».

Nota 1 - John Morgan foi identificado, após o 25 de Abril de 1974, pelo Serviço de
Informações Militares (SDCI) como agente da CIA e antigo elemento de ligação com a
PIDE/DGS. O Pulsar da Revolução: Cronologia da Revolução de 25 de Abril (1973-
1976), Porto, Afrontamento/Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de
Coimbra, 1997, p. 224.
Nota 2 - José Freire Antunes, Nixon e Caetano, pp. 311, 322-324, 345, 349 e 351-355.
Nota 3 - Manuel A. Bernardo, Marcello e Spínola: A Ruptura. As Forças Armadas e a
Imprensa na Queda do Estado Novo (1973-1974), Lisboa, Editorial Estampa, 1996, pp.
177 e 217. Dominique de Roux, que se apresentou como jornalista do semanário Paris
Match, escreveu um livro sobre a sua experiência em Portugal: O Quinto Império,
Delraux, 1977.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 6341 CI (2), pasta 4, fl. 1.
Nota 5 - Ibidem, pr. 565 CI (2). Polícia brasileira. Departamento de ordem política e
social (DOPS), fls. 4 e segs.

127
Foram-lhe apanhadas várias mensagens para contactos em Portugal e material para
fabricação
de explosivos, escondido em latas de goiabada, pelo que recolheu ao Aljube. Os
interrogatórios a que foi sujeito, entre Abril e Junho de 1961, ficaram a cargo de Rosa
Casaco, o qual se tinha, aliás, deslocado ao Brasil logo a seguir ao assalto ao Santa
Maria, não sendo de descartar que tenha tido conhecimento do envio de Sérgio Baptista
a Portugal (Nota 1).
Nos interrogatórios, Sérgio Baptista afirmou ter sido abordado, no ano anterior, por um
amigo português, para fazer parte de um grupo que, no Brasil, preconizava o derrube do
governo português e a colocação no poder Delgado e Galvão. Baptista tinha sido depois
aliciado, segundo ele, a embarcar para Portugal, onde se deveria dirigir a Águeda e à
Figueira da para contactar indivíduos envolvidos numa operação que consistia em fazer
ir pelos ares diversos comboios entre Lisboa e Porto, bem como colocar bombas nas
embaixadas dos EUA e do Brasil, que seriam atribuídas a elementos do regime. Em
tribunal, Sérgio Baptista contestou a acusação, afirmando ter agido com imperfeito
conhecimento do crime e sem intenção criminosa. Lembrou também a sua confissão
espontânea, o que não impediu que fosse condenado a cinco anos de prisão maior e
medidas de segurança (Nota 2).
Em carta dirigida ao seu amigo Franco Nogueira, em 5 de Março de 1963, o brasileiro
Alves Pinheiro, representante da firma Lloyd em Lisboa, intercedeu por Sérgio Baptista,
lembrando que ele apenas tinha sido levado a aceitar a incumbência de transportar
explosivos, por imbecilidade e ânsia viajar, e pediu que fosse indultado e expulso do
país, acto que seria considerado um gesto de simpatia no Brasil. O MNE remeteu o
assunto para o Interior, que o remeteu para a PIDE, mas esta afirmou que ele só poderia
ser libertado quando terminasse metade da pena (Nota 3). Acabou por ser solto e
expulso de Portugal em 10 de Agosto de 1964 (Nota 4).

O golpe militar de 1964, no Brasil

Quando Sérgio Baptista chegou ao Brasil, o regime tinha mudado, através de um golpe
de Estado que instalou uma ditadura, diplomaticamente mais próxima do regime
salazarista do que os governos democráticos anteriores. Diga-se que, em final de Julho
de 1964, a casa do ex-embaixador do Brasil em Portugal, Álvaro Lins — que concedera
asilo a Delgado —, foi assaltada pelos militares brasileiros, afirmando a sua mulher,
Heloísa, ao jornal Ultima Hora, de dia 29, que, após ter visto «com horror se fazerem
monstruosidades assim em Portugal», tinha acabado de as ver, «com vergonha, no
Brasil» (Nota 5).

Nota 1 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., pp. 72-73; António Rosa Casaco,
Servi a Pátria e Acreditei no Regime, p. 208. Rosa Casaco disse que foi ao Brasil tentar
saber quais eram os futuros planos de Henrique Galvão após o assalto ao Santa Maria.
Nota 2 - Arquivo do Tribunal da Boa Hora no IAN/TT, proc. 16586/61, Sérgio Baptista,
3.° juízo criminal, crime contra a segurança do Estado, fls. 2, 24, 29 e 89.
Nota 3 - MAI-GM, caixa 0252 «actividades subversivas». Cópia da carta de Alves
Pinheiro, de 5/3/63, frontispício do jornal brasileiro Globo.
Nota 4 - Arquivo Histórico Militar, Tribunal da Boa Hora, pr. 16586/61, Sérgio Baptista,
fls. 2, li 29 e 89.
Nota 5 - MAI-GM, caixa 264, 1964. Recortes de notícias da imprensa brasileira com a
chegada ao Brasil do indultado Sérgio Baptista.
128

Em 12 de Agosto, o jornal brasileiro Correio da Manhã publicou, em primeira-mão, a


relação dos presos políticos detidos na sede da política DPPS, no Rio de Janeiro, entre
os quais figuravam alguns angolanos e e Fidelis Cabral, que estava em missão do
PAIGC no Brasil, quando eclodira o golpe militar. Depois de terem passado pelo centro
de informação da Marinha, os detidos estavam a ser interrogados na presença do
inspector Cunha Passo, enviado pela PIDE ao Brasil. O jornal não deixou de manifestar
revolta pelo facto de esses cidadãos estarem a ser interrogados na presença de um
elemento da PIDE e de a maioria das perguntas feitas se relacionarem com Angola e
Portugal e não com o Brasil (Nota 1).
O relacionamento entre as forças policiais brasileiras e a PIDE/DGS passou a ser de
cooperação, como atesta uma carta de Sílvio Mortágua de finais de Janeiro de 1973
onde este agradece a Alcides Cintra Bueno Filho, da DOPS de São Paulo, o envio de
documentos apreendidos pela polícia brasileira com notícias «falsas e tendenciosas»
endereçadas à redacção do Portugal Democrático. Ao despedir-se, Mortágua reafirmou
o espírito de colaboração e amizade que unia as duas polícias (Nota 2).

IV.4. A PIDE/DGS E A EXTREMA-DIREITA INTERNACIONAL:


A Aginter Press

Segundo um relatório do Ministério do Interior italiano de 1973, a Aginter Press era


uma «oficina de espionagem coberta pelos serviços secretos portugueses e ligada à CIA,
às redes Gehlen da RFA, à DGS espanhola, à KYP grega e à BOSS sul-africana». Era
constituída por três centros: um
centro de treino e recrutamento de mercenários especializados em atentados e
sabotagem; um centro estratégico para operações de subversão e intoxicação política em
África, na América Latina e na Europa, com ligação a fascistas internacionais, e,
finalmente, uma organização internacional chamada Ordem e Tradição com um braço
militar, a Organização de Acção contra o Comunismo Internacional (OACI) (Nota 3).
A «agência» foi subsidiada pela PIDE/DGS, da qual recebia 900 contos anuais,
fornecidos pelo Ministério da Defesa Nacional, numa operação a cargo dos generais
Deslandes e Paiva Brandão e do major António César de Lima. Por intermédio de Hall
Themido e Caldeira Coelho, o MNE também terá pago 2000 contos à Aginter Press, que
contava com colaboradores na Emissora Nacional, na Voz do Ocidente e no jornal
Agora. Tinha ainda o apoio de elementos da extrema-direita portuguesa, entre os quais
se incluíram Armando Marques de Carvalho, Zarco Moniz Ferreira, José de Barcelos e
José Valle de Figueiredo (Nota 4).

Nota 1 - Ibidem.
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 565 CI (2) social (DOPS), fl. 2.
Nota 3 - Marie-Monique Robin, Escadrons de la mort, couverte, 2004, pp. 190-191.
Nota 4 - A Luta, 24/10/78. Este jornal refere-se ao livro surgido, nesse ano de 1978, en
L’Orchestre Noire, Editions Stock, de Frédéric Laurent, jornalista do Libération.

129

Nominalmente chefiada, até 1974, por Tacques Ploncard d'Assac, um francês fugido à
justiça francesa por colaboracionismo com o ocupante nazi, que vivia em Portugal
desde 1945 (Nota 1), a Aginter Press era, na realidade, dirigida por Yves Le Guillou,
alias Ralf Guérin-Sérac, que se instalou em Lisboa em 1962, para treinar a LP e
unidades antiguerrilha do Exército português. Após ter combatido na Indochina e na
Argélia, este francês da extrema-direita pertenceu à OAS e esteve implicado no atentado
à bomba da Piazza Fontana, em Milão, em 12 de Dezembro de 1969, que fez 16 mortos
e 88 feridos (Nota 2).
A relação entre terroristas da extrema-direita e a Aginter Press também foi revelada por
um livro francês publicado em 1978, segundo o qual, após o fracasso dos vários
atentados neofascistas em Milão e Roma, alguns dos elementos implicados, da
organização Avanguardia Nazionale, se tinham instalado em Lisboa para colaborar com
aquela agência (Nota 3). Citando um despacho de Moscovo, o Diário de Lisboa
noticiou, em 4 de Junho de 1975, que, entre os amigos mais chegados de Guérin-Sérac,
se contavam os elementos da OAS Jean Marie Laffitte e Robert Leroy, um dos
organizadores do atentado desta organização terrorista em Paris (Nota 4).
O mesmo jornal declarou que a Aginter Press não passava de uma capa jurídica sob a
qual funcionava a sede da organização neofascista internacional Ordem e Tradição,
criada em 1966, conforme deu conta um informador da polícia italiana chamado
«Aristo». Em Março de 1967, a Ordem e Tradição contactou a Ordine Nuovo italiana
para a realização de um convénio em Lisboa, mas Guérin-Sérac recusou depois a
colaboração dessa organização neofascista italiana, provavelmente por preferir um
relacionamento então estabelecido com a direita do Partido Republicano italiano (Nota
5). Diga-se, aliás, que existe nos arquivos da PIDE/DGS, com fonte na Ordem e
Tradição, uma informação sobre actividades comunistas na Europa, nomeadamente de
organizações maoístas que, na Bélgica, apoiavam os desertores portugueses (Nota 6).
Segundo o jornal italiano Expresso, a Aginter Press prestava informações à PIDE/DGS
e tinha, além de relações com os neofascistas italianos e alemães, e membros da OAS,
também com os serviços secretos italianos e gregos. Uma das actividades da Aginter era
a provocação e a infiltração em grupos da extrema-esquerda e, por exemplo, o já
referido Robert Leroy, um dos braços direitos de Sérac, terá conseguido infiltrar-se,
nomeadamente, nas Brigadas Vermelhas italianas (Nota 7). O certo é que a Aginter
Press elaborou, entre outros, um relatório geral sobre a situação dos grupos de extrema-
esquerda e, em 1968, um manual sobre a «acção política» destes (Nota 8).

Nota 1 - Pedro Vieira, «O mistério dos arquivos voadores», in Visão, 6/10/1994, pp. 24-
27.
Nota 2 - Marie-Monique Robin, Escadrons de la mort, 1'Ecole Française, pp. 190-191.
Nota 3 - A Luta, 24/10/78. «Aginter Press, arquivo foi para Caxias», in Diário de
Lisboa, 5/10/74, p. 5
Nota 4 - A Luta, 24/10/78.
5 PIDE/DGS, pr. 9241CI (2), fls. 168, 314, 359 e 384.
Nota 6 - Ibidem, Centro de Pesquisas e Informação Especiais e Políticas (CRISP).
Actividades comunistas na Europa, Ficha ot/30 de 18/10, Fonte: «Ordem e Tradição».
Nota 7 - «Um segredo que se esconde em Caxias», in Diário de Lisboa, 1/8/74, p. 19,
citando o jornal italiano Expresso, de 8 de Agosto de 1974.
Nota 8 - Gianni Cipriano, Lo Stato Invisible, Storia dello Spionaggio in Itália, dal
Dopoguerra a Oggi, Milão, Sperling & Kupfer Editorio, 2002, pp. XIII, XXIII, 5, 6, 19
e 22.

Página em branco

SEGUNDA PARTE
A PIDE/DGS E OS SEUS PRINCIPAIS ADVERSÁRIOS

132

V. A PIDE E O PCP NO PÓS-GUERRA (1945-1957)

Partindo da hipótese inicial de que a PIDE serviu, por um lado, intimidar e deste modo
prevenir a contestação pública ao regime bem como, por outro lado, para destruir toda a
oposição organizada contra o Estado Novo, propõe-se, através da análise de casos
escolhidos, dar um papel central às relações entre a polícia política e os militantes das
organizações da oposição. Embora sem esquecer a actuação da PIDE/DGS nos casos de
dissidência de membros do próprio regime, de movimentos «reviralhistas», socialistas,
ou em tentativas civis ou militares de derrube do governo - abordados num próximo
capítulo —, dar-se-á, em primeiro lugar, especial atenção às relações entre a polícia
política e o Partido Comunista Português o principal adversário político do regime até
ao final da década de 60.
Num estudo sobre a «Oposição em Portugal» entre 1945 e 1968, Hermínio Martins
dividiu esta última em quatro tipos, segundo um critério de legalidade e perspectiva
temporal. Teria assim havido uma «oposição, num sentido estrito», de comportamento
anti-regime orientado para as oportunidades legais ou semilegais de conflito político. O
autor adjectivou, outro lado, de «paideia, isto é, acção desenvolvida a longo prazo», «a
estratégia "metapolítica" para a modernização das formas de pensamento e a
mentalidade cultural da intelligentsia adoptada por António Sérgio» e pelo grupo da
Seara Nova. Assinalou ainda, na luta contra o regime, a «conspiração», consagrada pela
tradição pretoriana portuguesa, por definição ilegal e episódica, e, finalmente, a
«resistência», ou seja, a oposição clandestina com uma perspectiva estratégica a longo
prazo.
Ora, para este autor, a «resistência» é de longe a estratégia de oposição que mais custos
tem num regime autoritário, em que «a repressão contra este modo de oposição é tão
severa e inevitável, as compensações tão incertas e remotas, que poucas são as
estruturas organizativas que ousam adoptá-la». Por isso, à «excepção do PC, apenas os
movimentos de "libertação nacional" levaram a cabo com sucesso uma tal estratégia»
(Nota 1). Observe-se que, devido ao facto de ter escrito este ensaio em 1969, o autor
não se referiu à extrema-esquerda nem às organizações de luta armada e de resistência
anticolonial, que surgiram posteriormente.
Há a ideia, em comum aceite, de que o PCP constituiu, para a polícia política, o inimigo
principal.

Nota 1 - Hermínio Martins, «Oposição em Portugal», in Classe, Status e Poder, pp. 56 e


60.

A PIDE/DGS, aliás, sempre o apelidou de «chamado "Partido Comunista Português"»,


colocando aspas em tudo o com de se relacionava — «secretariado», «CC», «partido»,
«funcionários, «militantes» e «simpatizantes» —, para o desvalorizar enquanto
organização política, a favor de uma noção de associação criminosa, subversiva e
terrorista. Diga-se também que, para o PCP, a PIDE/DGS foi o inimigo principal e
parece ser verdade que quer a polícia quer este partido se condiram mutuamente (Nota
1).
Tentar-se-á comprovar essa realidade através da análise de alguns casos que originaram
processos instruídos pela PIDE, a partir de 1945, contextualizados no tempo e nos
acontecimentos políticos que então tiveram lugar. Dada a longevidade do regime e do
processo repressivo, dividir-se-á esta parte do trabalho em dois capítulos dedicados ao
PCP. Num terceiro capítulo será abordada a actuação dessa polícia relativamente às
organizações de extrema-esquerda e de luta armada.

V.l. A mudança de adversário principal, antes de 1945: A PVDE e o PCP

Embora em grande parte do período aqui estudado tenha sido o Partido Comunista
Português o alvo central da repressão, nem sempre assim foi. Até 1934, o inimigo
principal do regime de Salazar foi o reviralhismo e o revolucionarismo republicanista
(Nota 2). Apesar de, com a liderança de Bento Gonçalves, a partir de 1929, o Partido
Comunista Português ter passado a repudiar oficialmente o que designou por
putschismo, os comunistas não passavam então «de um pequeno grupo de agitação
política e sindical, assente num punhado de activistas, com elevado espírito de
militância e iniciativa» (Nota 3).
A «fascização» dos sindicatos, em consequência das leis corporativas de Setembro de
1933, e a dura repressão que se sucedeu à resposta operária a tal legislação — a «greve
geral insurreccional» de 18 de Janeiro de 1934 — alteraram o quadro da relação de
forças oposicionistas. O PCP tornou-se a única organização política permanente no
campo oposicionista, com uma actividade mais ou menos regular e uma estrutura
partidária mais capaz de se adaptar à luta na clandestinidade. Após o «18 de Janeiro»,
que marcou assim uma ruptura histórica no movimento operário e representou o fim de
uma época, o comunismo passou a hegemonizar o campo oposicionista, tomando o
lugar do reviralhismo e do anarcossindicalismo.
O regime apercebeu-se, aliás, disso e no comício da Associação Estudantil Vanguarda,
de 3 de Janeiro de 1934, Salazar definiu, pela primeira vez, o comunismo como «a
grande heresia da nossa idade». Depois, no contexto de crispação fascizante da guerra
civil espanhola, entre 1936 e 1939, o comunismo foi definitivamente consagrado como
o inimigo principal, nomeadamente no período da Guerra Fria, até 1969/1970.

Nota 1 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., p. 62.


Nota 2 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», História, de Portugal, pp. 171-178 e 207-
228.
Nota 3 - Idem, ibidem, pp. 235-241.

134

A extrema-esquerda comunista, as organizações de luta armada e a resistência


anticolonial começaram então a distputar ao PCP o seu lugar anterior de «inimigo
principal», passando esses grupos a constituir alvos da DGS.
Um dos mais importantes inspectores da PIDE/DGS, «especializado» na repressão ao
PCP, Fernando Gouveia, afirmou que, até aos anos 1932-1933, «tinham surgido indícios
da existência de comunistas, mas assinalados apenas como "perigosos agitadores", não
se suspeitando de que fossem membros de uma organização clandestina». Assim, foi
apenas a partir de então que a polícia política começou a compreender o funcionamento
da organização comunista, efectuando importantes apreensões de arquivos e detenções
(Nota 1).
Depois, entre 1934 e 1936, a repressão da PVDE abateu-se sobre a direcção do PCP. Em
1935, foram detidos os dirigentes comunistas Bento Gonçalves, José de Sousa e Júlio
Fogaça. Juntamente com cerca de 150 outros companheiros, entre os quais se contaram
o anarquista Mário Castelhano e os comunistas Milhão Ribeiro e Sérgio Vilarigues, bem
como outros, presos na sequência do 18 de Janeiro de 1934 e da sublevação da
Organização Revolucionária da Armada (ORA) de três navios de guerra em 1936, os
três foram enviados para a colónia penal do Tarrafal, aberta em Setembro deste ano.
Em 1940 e 1941, José Gregório, Manuel Guedes e Álvaro Cunhal, entretanto libertado,
com Júlio Fogaça, Pedro Soares, Militão Ribeiro, Sérgio Vilarigues, Américo de Sousa e
Pires Jorge, também soltos, devido à amnistia dos centenários, encetaram um
movimento de reorganização do PCP, aparentemente iniciada pela Organização
Comunista Prisional do Tarrafal (OCPT). Em luta contra a direcção anterior do PCP —
designada por «grupelho provocatório» —, os «reorganizadores» restabeleceram uma
rede organizativa e, a partir de Agosto de 1941, publicaram um Avante!, paralelamente a
outra publicação, com o mesmo nome, do Secretariado anterior, que acabaria, porém,
por se desarticular. Nesse ano, a PVDE conseguiu desmantelar uma organização do PC
espanhol em Portugal e capturar cerca de 35 pessoas (Nota 2) e, no ano seguinte,
prendeu Dalila Duque da Fonseca, Pedro Soares e Joaquim Pires Jorge, que conseguiria
fugir do Hospital de São José (Nota 3).
Aproveitando, a partir de 1943, a sua condição de força mais organizada na luta contra a
ditadura, o prestígio da URSS e a convicção de que a vitória do campo aliado na guerra
poria fim ao regime salazarista, o PCP «reorganizado» foi-se fortalecendo de forma
crescente. Nesse ano realizou o seu III Congresso (I Ilegal), em que se fez notar Álvaro
Cunhal, reafirmado no Secretariado, juntamente com Manuel Guedes e José Gregório.
Foram então definidos os princípios que norteariam a actividade do PCP nos anos
posteriores: a unificação das forças antifascistas, o desenvolvimento das lutas de massa
e a perspectiva do levantamento nacional com participação de uma parte das Forças
Armadas.

Nota 1 - Maria da Conceição Ribeiro, A Polícia Política do Estado Novo..., p. 261.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 387/41, 1.° volume.
Nota 3 - João Madeira, Os Engenheiros de Almas: O Partido Comunista e os
Intelectuais, pp. 45 e 150.

135

Em consequência foi formado, com representantes do PCP e de quase todas as forças de


oposição à ditadura, o Conselho Nacional de Unidade Antifascista (CUNAF),
organismo dirigente do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF), criado
em Dezembro, e, em Janeiro de 1944, foram ainda lançados os GAC (Grupos
Antifascistas de Combate) (Nota 1 ).

V.2. DA ILUSÃO DE LIBERALIZAÇÃO À REPRESSÃO (1945-1949)

Com a derrota dos nazi-fascistas, a esperança generalizada numa mudança política


surgiu em Outubro de 1945, por iniciativa de elementos da oposição comunista,
socialista e liberal, o Movimento de Unidade Democrática (MUD), que, actuando como
uma organização unitária quase legal, recolheu um grande apoio popular.
O final de 1945 foi, depois, de desilusão para quem tivesse acreditado na vontade
liberalizante do regime. Num momento em que milhares de pessoas já tinham assinado
as listas do MUD, o governo civil comunicou a este movimento que o governo não
satisfazia as suas exigências quanto às eleições. A 11 de Novembro, este movimento
recomendou a abstenção nas eleições, apesar de três dias depois Salazar dizer que elas
seriam «tão livres como na livre Inglaterra».
O governo ordenou a entrega das listas do MUD, cuja direcção de Lisboa acatou a
ordem (Nota 2). Alexandre Babo, do MUD do Porto, considerou que a «entrega das
listas minou a confiança popular nos dirigentes da oposição» e que, por causa dela, «se
exerceu violenta e continuada repressão sobre os assinantes», tendo milhares de pessoas
perdido os empregos ou as promoções, acesso a lugares e até sido sujeitas, em alguns
casos, à prisão. Lembre-se que, no Porto, os dirigentes do MUD recusaram entregar as
suas listas e foram por isso presos, tendo, aliás, sido o próprio Babo e o arquitecto Artur
Andrade que as esconderam no forro do telhado de uma casa que o primeiro então
possuía em Ofir (Nota 3).

V.2.1. A hecatombe de 1945: os «desastres» do Norte e do Sul

Logo no dia a seguir às eleições, realizadas em 18 de Novembro de 1945, sem a


participação da oposição, morreu no Hospital de Santo António dos Capuchos, vindo do
Aljube, Joaquim Henrique Fernandes, preso em Março de 1939 por suspeita de ser
comunista, sem nunca ter sido objecto de julgamento. Não foi caso único, nesse ano de
1945, em que também foram mortos pela PVDE Germano Vidigal, bem como Alfredo
Diniz, do CC do PCP, assassinado a tiro em Julho na estrada de Bucelas, numa cilada
montada por agentes dessa polícia chefiados por José Gonçalves. Nesse ano, além do
assassínio de militantes seus e da prisão de 16 dos seus funcionários, o PCP perdeu sete
casas clandestinas e a tipografia o se imprimia o Avante!, assaltada pela PIDE em 7 de
Novembro.
Ñota 1 - PIDE/DGS, pr. 9078 SC «Elementos para a história do movimento operário e
do PC». 2 Nota 2 - Marcelo Caetano, As Minhas Memórias de Salazar..., p. 393;
PIDE/DGS, pr. 2697 CI (1), João Gaspar Simões, fl. 84.
Nota 3 - Alexandre Babo, Recordações de Um Caminheiro..., pp. 164, 166 e 167.

136

Mais tarde, o inspector da PIDE/DGS Fernando Araújo Gouveia contaria a história


deste «desastre» para o PCP, afirmando que tudo começou com a «queda» de um
primeiro funcionário do partido, João Lopes ( Santos («Rafael» ou «António Soares»),
que possibilitara o desmantelamento de várias células de empresa na zona oriental da
capital, controladas pelo «funcionário» «Alex». Depois, em 3 de Junho de 1945, uma
denúncia à guarda-fiscal de Monção levara à detenção, na respectiva estação de
caminhos-de-ferro, de Francisco Inácio da Costa («Raio X», «João»), operário da CUF
no Barreiro, que fora entregue à PVDE (Nota 1).
Entretanto, a PSP tinha entregue à PJ dois indivíduos presos em Cascais por suspeita de,
envolvidos em desinteligências entre espiões, pretenderem raptar um estrangeiro. Um
dos indivíduos, autor do plano, era uma «pessoa excepcional», caracterizado por uma
mancha na face. A PVDE soube do caso e conseguiu que esse indivíduo passasse,
enquanto preso, a colaborar com ela. Metido numa cela, incomunicável, na prisão da
delegação do Porto, contígua à cela de Francisco Inácio da Costa, acabou obter a
confiança deste, reclamando ser «Rafael», o funcionário caído em Lisboa.
Depois, foi representada a «comédia», relatada por Gouveia: chamado a interrogatório,
«Raio X» deparou com o falso «Rafael», então já a representar outro papel, de elemento
da polícia, reconheceu-o como seu companheiro de cela e acabou por confessar toda a
sua actividade. Segundo Fernando Gouveia, «Raio X» disse ainda que, como a mulher
se recusara a acompanhá-lo na clandestinidade, ele tinha ido sozinho para uma casa
clandestina em São Romão do Coronado. Já descontente com o PCP, ainda mais ficara
quando este passara a censurar a sua correspondência para a mulher, que ameaçava
denunciá-lo caso o marido não voltasse para junto dela (Nota 2).
Por outro lado, «Raio X» afirmara-se, ainda segundo Gouveia, surpreendido por ter sido
preso, pois que apenas Pires Jorge, o responsável pelo Comité Regional do Douro,
conhecia o seu paradeiro. Gouveia utilizou esse facto para tentar responsabilizar Pires
Jorge de ter denunciado à Guarda Fiscal Francisco Inácio da Costa, devido a este se ter
tornado um perigo para o PCP, por causa das ameaças da mulher. O agente da PVDE
deu como razão o facto de ter encontrado, na casa de São Romão, um documento de
«Santos» (Manuel Guedes) segundo o qual «a mulher de Raio X continua com
exigências» e, se devia pôr em prática o plano estabelecido «se o amigo reagir mal».
Ainda segundo Gouveia, não se compreendia que, após a queda de «Raio X», Pires
Jorge não tivesse ordenado o desmantelamento das casas ilegais (Nota 3).
Esta é a versão de Gouveia, mas veja-se outra, diferente, relatada após o 25 de Abril de
1974 por Francisco Inácio da Costa.

Nota 1 - Fernando Gouveia, Memórias..., pp. 537, 539 e 540.


Nota 2 - Idem, ibidem, pp. 152, 156-157, 162-163, 167, 168-169, 172-173 e 175-179.
Nota 3 - Idem, ibidem.

137

Contou a sua experiência com o então agente Fernando Gouveia, que situou no Aljube,
para
Onde tinha sido transferido do Porto. Aí encontrou, na cela, o «mártir «Rafael» que se
terá feito passar por João Lopes dos Santos e o terá incentivado a não se deixar abater
moralmente, já que a «Gestapo» saberia abatê-lo fisicamente. Numa ocasião, «Rafael»
repreendera-o por não ter comunicado ao PCP que, na CUF do Barreiro, ia todas as
semanas a Lisboa buscar o dinheiro para o pagamento do pessoal dessa companhia,
podendo fazer um «assalto de classe e em cheio» para recolher dinheiro para o partido.
Um dia, Fernando Gouveia, «muito sorridente e bem disposto», pediu a Inácio da Costa
para o acompanhar ao seu gabinete, mas, estranhamente, bateu à aporta, pedindo licença
a um «chefe Pinheiro», para entrar. Este não era mais que o falso «Rafael» que, dias
antes, tinha sido colocado na cela 10 do Aljube, «esfarrapado, coberto de nódoas de
sangue e de aspecto faminto». Empurrado por Gouveia em direcção ao «tal "Rafael"»,
Inácio da Costa levou deste um violento soco na cara, que lhe partiu dois dentes e lhe
retalhou a língua, deixando-o sem ouvir do lado esquerdo. O «chefe Pinheiro ameaçou-o
de não o deixar um segundo de pé, caso desmentisse o que lhe dissera no Aljube (Nota
2).
Através dos interrogatórios conduzidos pelo secretário-geral da PVDE, José Catela, pelo
inspector Francisco Sales Velez e pelo agente Fernando Gouveia, a polícia ficou a saber
que «Raio X» tinha sido controlado por «Filipe», na margem sul do Tejo, indo depois
para uma casa de Ermesinde, com «Luís» (Manuel Domingues). Passara então a ser
controlado por Pires Jorge («Gomes»), do Comité Regional do Douro, e, devido a
desinteligências com «Luís», fora transferido para o Comité Local (CL) de Viana do
Castelo, instalando-se na casa de São Romão do Coronado, onde habitavam «Maria» e
«Manuel», depois deslocados para a casa de «Luís», em Ermesinde (Nota 3).
No assalto a esta casa, a PVDE não conseguiu prender estes dois funcionários, Manuel
dos Santos e Luísa Oliveira, a qual só acabaria por ser detida, em 1949, em Sever do
Vouga, após dar fuga ao companheiro de então, Militão Ribeiro. Na casa de São Romão
do Coronado, onde residiam elementos do CR do Douro e do CL do Porto, a PVDE
também não conseguiu prender Joaquim Pires Jorge («Gomes»), que fugiu, mas deteve
Dalila Duque da Fonseca («Aurora», «Maria», «Rosa»). Segundo Gouveia, esta
reconheceu-o, por nos anos 30, ter passado uma busca à casa do seu irmão em Lisboa,
Álvaro Duque da Fonseca, já expulso do PCP. Eram ambos primos de Carolina Loff.
Através do interrogatório a Dalila Duque da Fonseca, em 15 de Setembro, a polícia
ficou a saber que, depois de libertada de uma primeira prisão, em 1943, trabalhara como
farmacêutica até final do ano seguinte, quando «Alex» a convidara para ir para uma
casa clandestina na Maia, com Pires Jorge, onde também estava instalado Manuel dos
Santos («Jorge»), dirigente do CR do Douro.

Nota 1 - Nuno Vasco, Dossier PIDE: Os Horrores e Crimes de Uma Polícia, pp. 104-
106.
Nota - Idem, ibidem, pp. 107-109.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 14 499/46, Álvaro Cunhal e outros, vol. 1, apenso b.

138

Ela e Pires Jorge tinham ido depois para Vil Nova de Gaia e em Janeiro de 1945 para
uma casa de São João do Coronado, onde este reunia com «Pinheiro», «Adelino» e
Francisco Inácio da Costa («João» ou «Raio X»). Este último, entretanto transferido
para a casa de São João do Coronado, ausentara-se em 3 de Junho e Vilarigues ordenou
a desactivação dessa «instalação», três dias antes de aquela funcional ser presa. A 17 de
Setembro, Dalila Fonseca foi colocada em liberdade condicional (Nota 1).
A PVDE assaltou ainda uma casa na Moreira da Maia onde viviam o casal constituído
por Armanda e Miguel Forjaz Lacerda («Maria» ou «Conceição» e «Pinheiro»),
juntamente com Albano Simões («Carlos Alberto») ambos do CL do Porto. Este tinha
sido transferido para o Norte sem a companheira, por esta frequentar a missa, e Gouveia
garantiu que ele teria sentido a prisão como um alívio, dado que o seu «remorso era
patente, pela falta de coragem em ter consentido que o secretariado do CC o separasse
da mulher», facto que possibilitara a sua «abertura» total (Nota 2). Na casa da Moreira
da Maia, assaltada em 14 de Junho, tinham também vivido «Fernando» e «Vítor»
(Manuel dos Santos) (Nota 3).
Enquanto Gouveia estava no Norte do país, em Lisboa o então agente José Gonçalves
não parava, tentando localizar as «pontas» da queda de «Rafael». Conseguiu assim
apanhar, em Junho de 1945, uma casa, na Buraca, onde capturou Fernando F. Barnett e
Salvador Pereira Amália («Carlos»), cuja mulher não foi presa e continuou na
clandestinidade, até ser detida mais tarde, em 1952 (Nota 4). Num auto datado de 13 de
Outubro de 1945, Fernando Barnett apenas disse ter sido controlado por «Filipe»
(Joaquim Campino) e «Alex», sem dar os nomes verdadeiros destes, e ter ido viver para
uma casa clandestina na Damaia.
José Gonçalves localizara ainda, em Julho, dois funcionários que desembarcaram da
estação sul e sueste em Lisboa, Joaquim António Campino («Filipe»), controleiro da
região de Setúbal e do Alentejo, e Orlando Juncal da Silva («Manuel»), advogado do
Porto. Orlando Juncal havia sido convidado por Pires Jorge, a mando de Piteira Santos
(«Fred»), para dar apoio às famílias de presos políticos. Passara depois à
clandestinidade e a dirigir o MUNAF, instalando-se na casa de São Romão do Coronado
com «Gomes» e «Maria» (Dalila Fonseca), antes de ser transferido para Lisboa e de ser
apresentado por «Fred» a «Filipe».
Embora tenha sido espancado, submetido a três dias em estátua e alvo de um logro
parecido com o de José Inácio da Costa, Campino recusou dar a chave da sua cifra
(Nota 5).

Nota 1 - Arquivo do Tribunal da Boa Hora no IAN/TT, pr. 14 499/49, 3.° juízo, caixas
234-236, vol. 8, fls. 480, 485, 488, 498, 504, 519 e 520. Cf. ainda PIDE/DGS, NP 4876,
pr. 729/45 e pr. 18/45 SR. Francisco da Conceição Louro, pasta 3.
Nota 2 - Fernando Gouveia, Memórias..., pp. 152, 156-157, 162-163, 167-169, 172-173
e 175-179.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. de querela n.° 14. 180 C. José Alves Tavares Magro e outros;
pr. 729/45
e pr. 14 499, Álvaro Cunhal e outros, vol. 1, apenso b.
Nota 4 - Fernando Gouveia, Memórias..., pp. 197, 203, 210-211, 220, 221, 233, 224-225
e 229.
Nota 5 – José Pacheco Pereira, «Duarte» ...., pp. 541 e 542.

No entanto, a PVDE conseguiu decifrar a sua agenda, ficando a saber que iria haver em
4 de Julho um encontro conspirativo na estrada que ligava Loures ao Sobral do Monte
Agraço, entre dois elementos do CC, «João» (António Dias Lourenço) e «Alex»
(Alfredo Diniz). Uma brigada da PVDE chefiada por José Gonçalves acabou por só
apanhar e matar a tiro Alfredo Diniz, membro do bureau político do CC e responsável
pelos comités regionais do Ribatejo, sul do Tejo, Alentejo litoral e CL de Lisboa.
Ainda ao decifrar os documentos de Campino, a PVDE descobriu que a casa clandestina
deste se situava em Vila Nova da Caparica e que o funcionário «João» residia em A das
Lebres, perto de Bucelas, concelho de Loures, mas este conseguiu fugir. Os arquivos
apreendidos nesta casa pereciam a um tal «Mourão» — tratava-se de Agostinho Maria
Mourão («Abílio») —, detido em 27 de Julho na Rua da Escola Politécnica, em Lisboa.
Por outro lado, através da documentação apanhada a «Alex», a polícia detectou outra
casa na Portela, onde instalou agentes, e, ao fim de três dias, prendeu, em final de Julho,
Fernando Piteira Santos («Fred» e Gui Lourenço («Álvaro»). No arquivo de «Fred» foi
encontrada documentação sobre a organização do PCP na Marinha e Exército e sobre o
relacionado PCP com o CUNAF e o MUNAF.
Em 28 de Agosto, foi ainda detectada uma parte de casa na Lapa, onde viviam
Georgette Ferreira e António Assunção Tavares («Tomé»), operário da Cimentos Tejo
que passara à clandestinidade depois da greve de 1944, preenchendo, segundo Gouveia,
a vaga de «Rafael» após a «queda» deste. Os dois conseguiram fugir e Assunção
Tavares passou a dormir em estações de comboio, mas, numa ocasião em que
descansava na de Algés, três meliantes quiseram roubar-lhe a pasta, tendo ele gritado e
atraído a polícia, que o revistou e prendeu. Um mês depois da detenção deste, foram
presos o litografo Joaquim Correia, membro do CL do Porto (Nota 1), e Francisco
Louro, ajudante de guarda-livros. Embora este tenha afirmado nunca ter pertencido ao
PCP, a PIDE apurou que ele tinha sido aliciado por Campino e fizera com este parte da
organização militar desse partido, juntamente com José Magro e Piteira Santos (Nota 2).
No relatório da PIDE sobre este caso, investigado por Fernando Gouveia, dizia-se que
tinha sido descoberta, após a prisão de Francisco Inácio da Costa, uma vasta rede do
PCP no Norte, com ligações aos quartéis, Oeste-Sul, Sul do Tejo e Alentejo litoral, e que
se tinha apurado serem do Secretariado desse partido Cunhal, Gregório, Guedes — estes
três do bureau político —, Pires Jorge («Gomes»), Manuel Domingues («Luís») e
Sérgio Vilarigues («Amílcar»), fugidos à polícia. A PIDE ficou também a saber que,
além de «João», pertenciam ao CC Piteira Santos, Alfredo Diniz, falecido, Joaquim
Campino e Miguel Forjaz Lacerda.

Nota 1 - Idem, ibidem, pp. 548 e 549.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. de querela n.° 14. 180 C. José Alves Tavares Magro e outros;
pr. 729/45 e pr. 14499, Álvaro Cunhal e outros, vol. 1, apenso b.

Entre os membros dos comités regionais contavam-se «Rosa», «Augusto», «Lima»,


«Joana» (Cândida Ventura), Manuel dos Santos ou «Manuel da Fonte Santa», fugido da
prisão, onde cumpria pena por homicídio, «Laura» (Luísa Rodrigues), «Crespo»,
«Chaves», «Sérgio», «Mário», «Artur» (José Magro), «Armando» (Eduardo Cortesão) e
«Campos». Todos os arguidos continuaram presos, excepto Dalila Duque da Fonseca e
Armanda Lacerda, soltas em liberdade condicional, «por conveniência de outras
averiguações». O tribunal condenou, em 4 de Novembro de 1946, a maioria dos réus a
uma pena de dez meses de prisão correccional, inclusive Dalila Duque da Fonseca, e a
três meses Armanda Silva Martins Forjaz Lacerda, por ser esposa do réu Miguel
Lacerda e assim o haver acompanhado na clandestinidade.

V.2.2. A tipografia de Alvaiázere

No dia 4 de Novembro de 1945, um domingo, a GNR de Alvaiázere que andava a


investigar furtos ocorridos ali próximo, bateu à porta de uma casa em Barqueiros,
pedindo os documentos aos dois indivíduos que lá se encontravam. Como se verá mais
tarde, tratava-se dos funcionários clandestinos Joaquim Justino Alves e José Augusto da
Silva Martins. Declarando não serem gatunos, afirmaram não os ter e que iam a uma
cabine telefonar a um advogado de Leiria para que este tudo esclarecesse. O primeiro-
cabo deixou-os ir telefonar, mas como ao fim de duas horas não aparecessem, entrou na
casa e deteve Maria Machado («Rubina»), apreendendo uma tipografia clandestina do
jornal Avante! Entregue três dias depois à PIDE pela GNR, Maria dos Santos Machado
recolheu incomunicável em Caxias, sendo o seu caso investigado também por Fernando
Gouveia.
No seu relatório, este contou que ela vivia numa casa clandestina com outros dois
indivíduos, fazendo-se passar por mãe de um deles, o tipógrafo propriamente dito, que
tinha um eczema na face, e tia do outro, com o pseudónimo «Crespo». No dia 13, Maria
Machado foi ouvida em auto de perguntas pelo secretário-geral da PIDE, José Catela, na
presença do inspector Francisco Velez e do agente Fernando Gouveia, declarando não
desejar «prestar quaisquer esclarecimentos» nem «tampouco fornecer outros
pormenores que se prende[ssem]m com o PCP, renunciando assim a ser
denunciante».
Para Gouveia, a recusa em falar sobre a identidade dos companheiros demonstrava «má
fé» da parte de Maria Machado. Apesar disso, Gouveia concluiu que a tipografia aí
estava instalada desde Setembro, ao cuidado de Maria Machado, também acusada de
possuir uma pistola e de ter escrito um documento a exortar o pessoal da GNR a não
entregar a tipografia à PIDE, que «aleivosamente» alcunhava de «Gestapo portuguesa».
Dado que os Tribunais Militares Especiais tinham sido extintos, o processo dei
Machado foi depois entregue ao Tribunal Criminal Plenário, e ela apenas julgada em 15
de Julho de 1946. Considerando a ré inteligente, honesta, culta e sincera, os juízes
condenaram-na a um ano e dez meses de prisão correccional, sendo ela restituída à
liberdade em 31 de Agosto de 1947 (Nota 1)

Nota 1 - Ibidem, pr. cr. 826/45, Maria dos Santos Machado.

141

V.2.3. Repressão sobre o MUD e alguns sectores intelectuais (1946)

Em 1946, o PCP realizou, na Lousã, o IV Congresso (II Ilegal), onde foi eleito um
Secretariado composto por Álvaro Cunhal, José Gregório, Manuel Guedes e Militão
Ribeiro. Foi então decidida a extinção da Federação das Juventudes Comunistas (FJCP)
e a formação do Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD Juvenil), no qual
se integraram posteriormente muitos jovens, comunistas e não comunistas.
Em Agosto, o MUD protestou contra a admissão de Portugal na ONU, vetada pela
URSS, sendo presos os elementos da sua Comissão Central, entre os quais Bento de
Jesus Caraça, que seria afastado pelo governo de professor catedrático do ISCEF e que
viria a morrer dois anos depois (Nota 1). O grande processo da PIDE desse ano foi o do
MUD de Viana do Castelo (Nota 2) ou, como lhe chamou essa polícia, de uma
«ramificação da organização doPCP e respectiva ligação com o Unidade Nacional Anti-
fascista», «com o fim de melhor mascarar a sua actividade subversiva e captar os
elementos que embora sejam inimigos declarados das instituições não estão inteira-
mente de acordo com todos os princípios comunistas».
Começou por ser detido António Ribeiro da Silva e, na sequência dessa prisão, a PIDE
prendeu o presidente da direcção do Clube de Futebol de Viana do Castelo, acusado de
fazer parte do sector intelectual do PCP. Depois, foram caindo, um a um, outros
elementos, entre os quais membros do MUD de Ovar e Vagos, suspeitos de também
pertencer a esse partido (Nota 3). Segundo Fernando Gouveia, um elemento do MUD,
um tipógrafo, genro do editor da Aurora do Lima, de Viana do Castelo, mostrou, após
ser transferido para a delegação da PIDE do Porto, um mutismo «impressionante», só
tendo finalmente reconhecido algumas fotos.
Embora viesse a ser expulso pelo PCP, desconfiado por ele ter sido solto antes dos seus
co-arguidos, Gouveia afirmou que a sua libertação apenas se tinha devido ao director da
delegação do Porto, subdirector António Neves Graça, que era amigo do director da
Aurora do Lima. Gouveia criticou, aliás, essa «generosidade», afirmando que ela se
tinha depois espalhado a outros detidos, autorizados a passar o fim-de-semana em casa
(Nota 4).
O sector intelectual do Norte do PCP começara, segundo Gouveia, a ser estruturado em
final de 1945, sob o controlo de Pires Jorge («Gomes»), responsável, como se viu, pela
organização regional do Norte, desmembrada nesse ano. No entanto, os intelectuais
comunistas do Porto, Flávio Martins, Jorge Delgado de Oliveira e o estudante Oliveira
Pinto, apenas começaram a ser presos a partir dos primeiros meses de 1946, o que,
segundo Alexandre Babo, indicaria que a polícia vigiara primeiro as actividades dos
militantes que conseguira identificar antes de os prender (Nota 5).

Nota 1 - João Madeira, Os Engenheiros de Almas..., pp. 168 e 169.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 949/46.
Nota 3 - MAI-GM, maço 541, caixa 99; proc. n.° 478/46 ag. 7989, de 11/9/46, e n.°
463/46, ag. 7989, de 6/9/46.
Nota 4 - Fernando Gouveia, Memórias..., pp. 235 e 240.
Nota 5 - João Madeira, Os Engenheiros de Almas..., pp. 168 e 169.

142

A PIDE também detectou outras pontas da organização intelectual nortenha: Victor de


Sá, em Braga, e António Vieira da Silva, em Viana Castelo. Ao relatar a prisão de Flávio
Soares Martins, («Chaves»), do Comité Regional do Norte do MUNAF e do sector
intelectual do Porto, Gouveia lembrou que tinha sido ele a arranjar a casa na Granja
onde havia realizado em 1945 a V reunião ampliada do CC e a transportar aí a sua
mulher e a funcionária Maria Armanda Forjaz Lacerda, que, fingindo ser a criada do
casal, se ocupou das refeições dos participantes da reunião (Nota 1).

V.2.4. A «quadrilha» de Cambebo da Raia

Em 1946, ocorreu outro caso que, embora não ligado ao PCP, merece ser referido
devido à sua extensão e excepcionalidade. Em Dezembro desse ano encontravam-se
refugiados em Cambedo, na freguesia de Vilarelho da Raia, concelho de Chaves, três
guerrilheiros galegos, Juan Salgado Rivera, Demétrio Garcia Alvarez e Bernardino
Garcia. A aldeia foi cercada por cerca de mil homens da GNR e da polícia espanhola. A
PIDE instaurou um processo-crime contra 63 pessoas, entre as quais oito galegos e a
maioria, portugueses, considerados «bandoleiros». Todos eram suspeitos de pertencerem
a uma «associação de malfeitores», que cometera um assalto à mão armada em Negrões,
concelho de Montalegre, em 16 de Setembro, e que assassinara três pessoas e ferira
outras duas.
Segundo o relatório do agente investigador desta polícia, Augusto Gomes da Silva, da
subdirectoria do Porto, a GNR de Chaves entregara ao posto de Vila Verde da PIDE sete
elementos e David dos Santos Pires, referenciado e preso por ser presumivelmente um
elemento de ligação «bandoleiro vermelho Manuel Gomez Vueno» ou «Luiz Gomes
Bueno». Diga-se que um dos principais envolvidos, o espanhol Demétrio Garcia
Alvarez, condenado em Dezembro de 1947 a dez anos de prisão seguidos de doze anos
de degredo, que cumpriu em várias colónias penais, apenas foi libertado da
Penitenciária de Lisboa em 19 de Fevereiro de 1965, após dezoito anos de prisão (Nota
2).
No relatório final das averiguações, assinado pelo subdirector do capitão Neves Graça,
referia-se que um grupo de dez indivíduos munidos de espingardas tinha saído, na noite
de 26 de Agosto, da residência de uma viúva em Cambedo da Raia e tinha sido
conduzido, juntamente com sete espanhóis, por Vitorino António de Oliveira, a uma
freguesia de Negrões onde acamparam perto de uma capela.
Segundo a PIDE, o bando de «malfeitores» espanhóis, que incluía portugueses e actuava
na zona de Orense, tinha como objectivo matar um elemento da Falange espanhola, mas
fora aliciado por um português para «liquidar» e roubar o presidente da Junta de
Negrões. Atingiram-no, bem como um filho, uma irmã e um criado, mas, ao ouvirem os
toques de sino a darem o alarme, os «salteadores» fugiram, acabando por não efectuar o
roubo.

Nota 1 - Idem, ibidem, p. 235.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 917/46, subdirectoria do Porto, fls. 15, 50 e 159.

143
V.2.5 Anos de endurecimento repressivo (1947-1948)

O ano de 1947 foi de agitação social e estudantil, mas já limitada pelo movimento de
refluxo que então se vivia, num período em que Salazar concluía o «complexo processo
de reunificação das forças do regime» (Nota 1). Este processo saldou-se, em particular,
numa resolução do Conselho de Ministros segundo a qual eram demitidos diversos
funcionários civis e militares que haviam participado na tentativa de golpe de Abril,
independentemente das penas que seriam aplicadas nos tribunais. Apesar disso, a PIDE
não teve, nesse ano, mãos a medir, atacando greves, putschistas e o MUD Juvenil.
Outra acção visível da tentativa frustrada de conspiração civil e militar unta Militar de
Libertação Nacional, em Abril de 1947, que já se tinha saldado por uma primeira
derrota, em Outubro do ano anterior, com o falhanço da «revolta da Mealhada», acabou
por ser a sabotagem de aviões na Base Aérea n.° 1, da responsabilidade de dois
mecânicos militares, Hermínio da Palma Inácio e Gabriel Gomes. Alertado de que o
movimento revolucionário fora adiado, os dirigentes da conspiração foram presos,
Palma Inácio refugiou-se, com um companheiro, na quinta de um amigo em Loures,
onde se manteve escondido durante sete meses, até ser descoberto pela PIDE (Nota 2).
O ano de 1947 foi ainda de movimentação estudantil, tendo uma nota oficiosa do
governo, de dia 29 de Abril, afirmado que a «agitação provocadora em alguns
estabelecimentos de ensino de Lisboa» se inseria «no plano de agitação comunista
aludido em notas anteriores». No último dia do mês de Maio, a polícia invadiu as
instalações da Faculdade de Medicina de Lisboa, ao Campo de Santana, motivando o
pedido de demissão do director desse estabelecimento de ensino, António Flores. Em
Julho de 1947, a movimentação estudantil estendeu-se a Coimbra, onde a direcção da
Associação Académica havia passado a ser controlada por sectores da oposição ao
regime (Nota 3). À prisão dos membros da Comissão Académica de Lisboa do MUD J.
Mário Ruivo, Castro Rodrigues, Joaquim Ângelo Rodrigues, Fernando Pulido Valente,
José Carlos Gonçalves, Orlando Pereira e outros (Nota 4) sucedeu-se dos membros da
Comissão Central (CC) desse movimento — Mário Soares e Francisco Salgado Zenha,
entre outros. Mário Soares relatou o julgamento onde ele e os seus companheiros foram
acusados de divulgar «notícias falsas e condenados a três meses de prisão, com perda
por cinco anos dos direitos políticos». Francisco Salgado Zenha, «que tinha às costas
um "crime" suplementar», ligado «ao tempo em que tinha sido presidente a Associação
Académica de Coimbra», o qual foi condenado em dois anos de prisão (Nota 5).

Nota 1 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», História de Portugal, pp. 398 e 399. 2«O
aventureiro da liberdade perdida», in Visão, 16/6/1994, pp. 40-42.
Nota 2 - Francisco Salgado Zenha. Liber Amicorum, 2003, testemunho de Miguel
Galvão Teles, p. 269.
Nota 3 - Mário Soares, Portugal Amordaçado, pp. 137 e 138.
Nota 4 - Idem, ibidem, p. 175.

144
A PIDE referenciou, nesse ano, vários grumetes e marinheiros «subversivos» da
Marinha de Guerra, sendo seis deles condenados a 18 meses prisão correccional, três
absolvidos e os outros «desincriminados» (Nota 1). Arguidos noutro processo (Nota 2),
tinham também sido referenciados, na Escola Mecânica de Vila Franca de Xira, sete
elementos acusados de pertencerem à mesma ramificação do PCP na Armada, que
foram julgados em Maio de 1948, sendo dois deles condenados a 20 meses de prisão
correccional (Nota 3).
Lembre-se que estes indivíduos do Exército e da Armada estavam ligados ao PCP ou ao
MUNAF. Todos haviam sido presos entre Dezembro de 1946 e Janeiro do ano seguinte,
excepto, como se verá, Francisco Ramos da Costa. Tinham sido detectados na
documentação apreendida aos funcionários Gui Lourenço e Piteira Santos, onde se dava
a entender que a ORA (Organização Revolucionária da Armada), desmantelada em 1936
estava a ser reestruturada. Ao referir esse caso, Gouveia aproveitou para a criticar os
juízes, ao declarar que o mesmo processo teve despachos diferentes: enquanto no
tribunal da Marinha alguns marinheiros foram condenados al vários meses de prisão
correccional, o TMT de Lisboa absolveu o ex-tenente miliciano Ramos da Costa
(«Campos»), por «não admitir que um "senhor oficial descesse ao ponto de vir aliciar
praças ou ter com essas praças quaisquer quer ligações ou relações sequer"» (Nota 4).

V.2.6. «Desastres» em Ovar, no Alentejo, Ribatejo e em Coimbra

Outro dos processos instruído pela PIDE em 1947 envolveu 21 funcionários e militantes
do PCP, entre os quais se contaram Saul Leal, António José Patuleia, Agostinho Saboga,
a sua mulher, Lucinda Mendes, mais 17 outros elementos do Couço, de Borba, Mora,
Estremoz e de Torres Novas (Nota 5). Nas suas memórias, Fernando Gouveia contou
que, no ano anterior, José Gonçalves e a sua brigada haviam detectado uma tipografia
em Lisboa, quando esta ia ser mudada, e haviam assaltado a casa ilegal de Agostinho
Saboga, que «tinha ido tomar ar». Um dos elementos da brigada era o próprio irmão de
Agostinho, Tomás-Saboga, que acabou por pedir a demissão da PIDE.
Gouveia conseguiu, depois, localizar a casa de Agostinho, nos arredores de Coimbra —
mais concretamente, em Casal dos Galegos-Granja do Ulmeiro, Alfarelos. Ao interrogar
os vizinhos, dizendo que se tratava de um «moedeiro falso», conseguiu saber que uma
camioneta tinha transportado mobília para uma nova casa em Alfarelos, onde Saboga,
que controlava politicamente a região «Y», de Coimbra a sul de Aveiro, acabou por ser
preso com a sua companheira, Lucinda Mendes (Nota 6).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. cr. 232/47.


Nota 2 - Idem, pr. 2594/46, do 2.° Juízo Criminal de Lisboa.
Nota 3 - Idem, fls. 217-238. Relatório de 30/4/1947.
Nota 4 - Fernando Gouveia, Memórias..., p. 214.
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 757/47, 2 volumes.
Nota 6 - Fernando Gouveia, Memórias..., p. 254.

145

Em 8 de Junho desse ano de 1947 foram detidos em Vila Viçosa José António Rosado e
os trabalhadores rurais José Miguel Boquinhas, Isidoro de Albuquerque e António José
Patuleia, que morreu dez dias depois num interrogatório na PIDE de Lisboa, às mãos de
Fernando Gouveia e do chefe de brigada Mário Silva. A PIDE apurou que Rosado
deveria comparecer em encontros com funcionários do PCP e Gouveia conseguiu,
efectivamente, prender em Borba João da Veiga e José António Pombeiro e identificar
mais dois elementos. João da Veiga, natural de Albufeira, disse que era casado mas
recusou-se a indicar onde residia (Nota 1).
Cinicamente, Gouveia contou que as suas conversas com João da Veiga «decorriam
sempre na melhor disposição e, por assim suceder», não o havia mandado recolher ao
Aljube, mantendo-o num dos gabinetes, na Rua António Maria Cardoso, onde fora
colocado um colchão. Este era um eufemismo usado por Gouveia para significar que
João Veiga foi submetido à tortura do sono e, provavelmente, da estátua. Gouveia disse
ter percebido que o detido estava a «jogar» com ele e ia demorando a «entrega» da sua
casa ilegal, até atingir e ultrapassar a data que ele marcara para o seu regresso. Tentava
assim evitar que a sua mulher fosse presa. «O jogo durou pelo menos trinta dias,
resolvendo-se então o João da Veiga a indicar o local.»
A casa localizava-se no pequeno bairro de Escusa-Sacos, próximo do campo da feira,
quase à entrada da cidade de Évora, na qual Gouveia, juntamente com três agentes,
deteve a companheira deste, Mertilina Veiga, e outro elemento que aí tinha ido
«levantar» a casa, o dirigente do PCP Francisco Miguel Duarte (Nota 2).
No relatório do processo dos funcionários do PCP Saul Leal, Agostinho Saboga e
Francisco Miguel, a PIDE concluiu que se confirmava a prova já feita da actuação do
PCP, tanto no MUD adulto como no juvenil, e também a ligação da actividade
académica do PCP com a do sector proletário de Coimbra. Nesse processo era também
provada a culpabilidade de Francisco Salgado Zenha, ligado ao bureau político do CC
através de Pires Jorge, bem como de José Martins Fonte, Jorge Peixoto e Mário
Canotilho, membros do sector estudantil de Coimbra do PCP. Da organização estudantil,
operária e sindical do PCP, MUD e MUD J de Coimbra foram ainda presos, pelo menos,
mais 21 elementos, que foram libertados sob caução (Nota 3).
Através dessas várias detenções, a PIDE ficou a conhecer a organização partidária de
Alpiarça, o CR do Sul do Ribatejo (Vila Franca de Xira, Alenquer, Cartaxo, Azambuja e
Salvaterra de Magos), os CL do PCP de Mora, Couço, Cabeção, Pavia, Montargil e
Coruche), os pseudónimos dos elementos dos subcomités do Ribatejo, bem como o
responsável pela região norte, um «Guilherme», que a PIDE concluiu ser afinal Sérgio
Vilarigues, («Amílcar»), membro do bureau político (Nota 4).

Nota 1 - Pedro Ramos de Almeida, Salazar: Biografia da Ditadura, p. 401.


Nota 2 - Fernando Gouveia, Memórias..., pp. 249 e 254-255.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 836/47.
Nota 4 - Ibidem, pr. 757/47, vol. 2.

146

Em Julho de 1948, ano em que o MUD foi ilegalizado, decorreu o «julgamento dos
108», ou seja, todos os detidos no ano anterior, acusados de propaganda subversiva, que
constituiu o primeiro grande processo político no tribunal plenário após o fim da guerra
(Nota 1). Uma testemunha conta que esse célebre processo se transformou num
conjunto de acções contra o governo da ditadura, tendo então a própria PIDE
compreendido o erro que cometera ao realizar um julgamento com tanta gente. Salazar
terá mesmo puxado as orelhas à polícia e os julgamentos voltaram a fazer-se em
pequenos grupos de acusados, embora, mais tarde, se voltassem a repetir julgamentos
colectivos de muitos réus, com resultados evidentemente idênticos (Nota 2).

V.2.7. O Algarve é atingido

Fernando Gouveia vangloriou-se, nas suas memórias, de ter conseguido, em 1948,


graças à apreensão de três relatórios a Francisco Miguel, um dos quais era da autoria do
funcionário «Ricardo», destroçar a organização do Algarve (Nota 3). Além de passar a
conhecer a organização algarvia, o então chefe de brigada soube ainda que António do
Carmo Lourenço deveria ter um encontro em Portimão, no dia 13, com «Ricardo», o
qual, porém, não compareceu. Gouveia ordenou ainda a detenção, em 24 de Maio, em
Caldas de Monchique, de Clementina Ventura e Manuel Campos Lima, ex-director de O
Diabo, onde Piteira Santos, seu cunhado, tinha sido redactor nos anos 30. Os
interrogatórios aos vários detidos no Algarve, num total de 54, decorreram entre 22 de
Agosto e o final de Setembro.
A PIDE obteve novamente uma importante vitória e o PCP uma perda provisória, com a
prisão pela Guarda Fiscal em serviço na estação de Abrantes, em 28 de Outubro, de um
indivíduo, por suspeita de furto no comboio saído do Entroncamento para a Beira Baixa,
em virtude de uma passageira se ter queixado de que lhe haviam roubado a carteira.
Como, ao ser revistado, lhe fora encontrada propaganda clandestina, o indivíduo foi
entregue à PIDE, que apurou tratar-se de Guilherme da Costa Carvalho («Cruz»), de 27
anos, estudante do Porto, na clandestinidade desde 1946 e responsável pela organização
do PCP do Alto Alentejo.
O facto de se recusar a prestar declarações revelava, segundo a PIDE, que era
funcionário do PCP. De notar que, segundo os autos da polícia, Guilherme foi de novo
interrogado, em 18 de Novembro, e passou a regime de detenção «normal» em 22 de
Novembro, o que não é de todo credível, pois em 13 de Janeiro de 1949 o director dessa
polícia solicitou a prorrogação da prisão preventiva, o que revelava que os
interrogatórios continuavam. Julgado em 21 de Julho de 1949, foi condenado a dois
anos e seis meses de prisão e medidas de segurança (Nota 4).

Nota 1 - Mário Soares, Portugal Amordaçado, p. 155.


Nota 2 - Fernando Miguel Bernardes, Uma Fortaleza da Resistência..., pp. 51 e 52.
Nota 3 - Fernando Gouveia, Memórias..., pp. 258-259 e 264-265; PIDE/DGS, pr.
785/48.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 1002/48, Guilherme da Costa Carvalho, relatório de
28/10/1948, assinado pelo terceiro-oficial Luís Filipe de Sá.

147

Acabaria por ser enviado, em Setembro de 1949, para o Tarrafal, colónia penal que, no
ano anterior, havia feito duas novas vítimas: em 1 de Novembro de 1948 morrera, aos
38 anos, Joaquim Marreiros (Nota 1) e, em 28 de Dezembro, falecera, aos 35 anos,
quase cego, António Guerra (Nota 2).

V.2.8 Annus horribilis para o PCP. A direcção é atingida (1949)

Devido a todas essas prisões de 1947 e 1948, o PCP sofreu uma diminuição no número
de militantes e simpatizantes, que totalizavam neste último ano, respectivamente, 4487 e
5815 (Nota 3). Recorde-se que, em 1947, os militantes haviam sido contabilizados em
7000, enquanto o MUD J tinha, segundo os seus próprios números, na Primavera deste
último ano, 20 000 aderentes, e 10 000, segundo a LP (Nota 4). No final da década, a
situação já era diferente daquela, repleta de optimismo, provocada pela vitória aliada.
Em vez de rejeitarem a ditadura salazarista, os Aliados ocidentais vencedores apoiaram-
na, aceitando a entrada de Portugal na NATO, em 1949, num período em que a Guerra
Fria quebrava as ligações entre comunistas e outros elementos da oposição socialista e
liberal. Já marcada pelas divisões e pela luta entre comunistas e liberais, a unidade
antifascista teve, aliás, nas eleições para a Presidência da República ano, em que toda a
oposição apoiou o general Norton de Matos, o último sopro de vida, antes da caminhada
do deserto, nos anos 50. A candidatura não chegou, porém, ao fim, vencendo, no seio
dela, a linha do PCP, que, contra a opinião do próprio Norton de Matos e dos não
comunistas, defendeu a desistência à boca das urnas.
Depois da proibição do MUD no ano anterior, e para prosseguir o movimento gerado na
candidatura de Norton de Matos, o PCP resolveu criar unilateralmente, em 20 de Março
de 1949, o Movimento Nacional Democrático (MND), dirigido, entre outros, por Rui
Luís Gomes, Virgínia Moura e outros, companheiros de estrada do partido. Considerado
a «face legal» do PCP o MND permaneceu, no entanto, isolado, não aderindo a esse
movimento nem a maioria dos elementos do MUD nem maçons ou republicanos. A
desunião no seio da oposição foi, aliás, claramente utilizada pela PIDE, que, segundo
Mário Soares, «fazendo incidir a repressão sobre pessoas escolhidas, dividia
conscientemente a família oposicionista, que já de si tinha bastos motivos de divisão»
(Nota 5).
No entanto, o pior estava para vir, pois o ano de 1949 foi de «hecatombes para o PCP,
atingido no topo. Sucederam-se os relatos de torturas às mãos de António Lopes, Gomes
da Silva e Fernando Gouveia (Nota 6). Esse ano foi também marcado pela razia de que
foram alvo militantes comunistas da direcção universitária do MUD J.

Nota 1 - Ex-grumete da Marinha, militante do PCP, que tinha chegado em Outubro de


1936, após ser condenado a quatro anos de prisão maior, seguidos de oito anos de
degredo.
Nota 2 - Também do PCP, que tinha participado na greve geral de 18 de Janeiro de
1934, na Marinha Grande, e tinha sido condenado a 20 anos de degredo, com prisão.
Nota 3 - José Pacheco Pereira, «Duarte»..., vol. II, Anexos.
Nota 4 - João Madeira, Os Engenheiros de Almas..., p. 237.
Nota 5 - Mário Soares, Portugal Amordaçado, pp. 164-166.
Nota 6 - José Pacheco Pereira, «Duarte»..., pp. 854-857.

148

Em Janeiro, foi preso o jovem Carlos de Aboim Inglês, o qual deu entrada com outros
companheiros na Aljube, no dia 18 (Nota 1) em plena campanha eleitoral para a
Presidência da República. Mais tarde, Aboim Inglês relatou essa estada na prisão,
contando que, a dado momento, um chefe de brigada e outro agente da PIDE
começaram a agredi-lo «ao murro e ao pontapé», até que «desistiram e fizeram a
asneira» de o levar de novo para Caxias, onde os seus colegas e, mais tarde, familiares
viram os ferimentos (Nota 2).
Estes fizeram um grande escândalo, que se repercutiu nas várias faculdades, sendo
movido um processo ao agente e ao chefe da brigada Meneses, que «foi castigado com
quinze dias de perda de salário». Como reconheceu o próprio Aboim Inglês, a PIDE
fazia «as suas diferenças de classe no tratamento dos presos». Outro estudante preso,
Lino Lima, conta também que a sua prisão foi de ouro e que a PIDE tratava com
brutalidade especial os operários e camponeses, pois ninguém telefonava ao director a
saber deles (Nota 3).
Aboim Inglês referiu ainda o aparecimento na sede da PIDE de um colega da Faculdade
de Letras, o chefe de brigada Farinha dos Santos, (Nota 4) o qual tentou, sem sucesso,
convencer Aboim Inglês a falar. Também Mário Soares, novamente detido em 1949,
referiu, entre os elementos da PIDE que então o interrogaram, o mesmo Farinha dos
Santos, seu «antigo colega na Faculdade de Letras, que,
«alta madrugada», no terceiro andar da Rua António Maria Cardoso, brincou com uma
pistola, dizendo-lhe displicentemente: «Se o matar aqui, como um cão, nada se passa,
nem nada me acontece. Toda a gente estará disposta a acreditar que o matei em legítima
defesa.» (Nota 5)

V.2.8.1, A queda da casa do Secretariado

Mas Março de 1949 foi um mês terrível para o PCP, devido à prisão de Álvaro Cunhal,
Militão Ribeiro e Sofia Ferreira, no Luso. Lembr» que começara por cair uma casa
ilegal em Macinhata do Vouga, Sever do Vouga, descoberta pela GNR devido à
desconfiança despertada entre os vizinhos pelo casal que lá habitava. O homem
conseguira fugir e a mulher fora presa, declinando o seu nome: tratava-se de Luísa
Rodrigues («Laura»), companheira de Militão Ribeiro — esta, como se viu, tinha
conseguido fugir em 1945, ao ser detectada a casa de Ermesinde, onde vivia com
Manuel dos Santos (da Fonte Santa).
Segundo Pacheco Pereira, a casa de Macinhata do Vouga fora denunciada em 10 de
Fevereiro de 1949, três dias antes das eleições presidenciais, à GNR, que conduziu a
operação (Nota 6). É um facto que o chefe de brigada Jaime Gomes da Silva,
responsável da PIDE pelo assalto posterior à casa do Luso, confirmou que tinha sido o
presidente da Câmara de Águeda a transmitir à GNR a suspeita de que nessa casa,
habitada por «António» e «Maria», haveria uma emissora clandestina.

Nota 1 - PIDE/DGS, OS n.° 18, de 18/1/1949.


Nota 2 - Miguel Medina, op. cit., vol. i, pp. 20 e 21.
Nota 3 - João Madeira, Os Engenheiros de Almas..., pp. 190 e 191.
Nota 4 - Miguel Medina, Esboços, vol. I, pp. 20-21.
Nota 5 - Mário Soares, Portugal Amordaçado, p. 166.
Nota 6 - José Pacheco Pereira, «Duarte»..., pp. 869-871.

É também certo que, em 22 de Março, o mesmo presidente da câmara, José Feio, que
vivia no Luso, transmitiu ao seu colega Manuel dos Santos Lousada, presidente da
Câmara da Mealhada, que havia no Casal de Santo António do Luso, uma casa onde
vivia, sem ser visto por ninguém, na companhia de uma mulher, um indivíduo que se
fazia passar por estudante. Uma semana depois da denúncia, Lousada lembrou, numa
carta confidencial para o governador civil de Aveiro, o seu papel de colaboração com a
PIDE na descoberta dos «agentes comunistas» no Luso (Nota 1). Diga-se, por outro
lado, que em 21 de Março de 1949, quatro dias antes da captura dos elementos do
Secretariado do PCP, a polícia espanhola de Piedras Altas informara o posto fronteiriço
da PIDE de que Álvaro Cunhal estaria provavelmente na zona do Porto (Nota 2).
Segundo o relatório de Jaime Gomes da Silva, diversas «diligências» tinham
possibilitado a detecção do «Casal de Santo António», no Luso, uma vivenda, estilo
palacete», onde foram capturados, pela PIDE e pela GNR, em 25 de Março de 1949,
Álvaro Cunhal («Duarte») e Sofia Ferreira («Elvira»), fugidos desde 1942, e Militão
Ribeiro («António»), em fuga desde 1946, após o seu regresso do Tarrafal. Gomes da
Silva fez ainda menção ao ao trabalho do tenente Mário Lopes da Cruz e de alguns
soldados da GNR de Águeda, que, através de recolha de informações, haviam
possibilitado a captura. (Nota 3)
Álvaro Cunhal e Sofia Ferreira recusaram-se a prestar declarações e a assinar os autos e
Militão Ribeiro apenas declarou ser do CC, desde o II Congresso ilegal (Nota 4). Num
relatório de 20 de Maio a PIDE considerou, porém, que da atitude dos dois detidos não
resultavam quaisquer inconvenientes para a determinação das suas actividades
subversivas, pois existiam nos documentos apreendidos comprovações de que ambos
eram do Secretariado do PCP (Nota 5). Diga-se ainda que, no processo da Boa Hora de
Álvaro Cunhal, existe a menção de que muita documentação não está a ele apenso, pois
ainda estava a ser trabalhado. Por seu turno, nas suas memórias, Fernando Gouveia não
deixou de achar estranho que tivesse sido impedido de consultar a documentação
apreendida no Luso e de instruir o respectivo processo-crime (Nota 6).
De qualquer forma, a PIDE encontrou na casa do Luso a chave de uma das cifras usadas
pelo PCP, nomeadamente numa carta de Cunhal enviada para elementos do Secretariado
no estrangeiro, que tornou compreensível parte do seu conteúdo (Nota 7).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. dir. 746/49, Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira,
fls. 1-3. Relatório de instrução elaborada pela PIDE, fls. 669-682.
Nota 2 - Ibidem, pr. 15786 SR, Álvaro Cunhal, 1949, carta do director da PIDE para
subdirectoria,, confidencial, 21/3/49.
Nota 3 - Ibidem, pr. dir. 746/49, fls. 669-682.
Nota 4 - Arquivo do Tribunal da Boa Hora no IAN/TT, pr. 14 499/49, 3.° Juízo, caixas
234-236, fls. 1, 26 e 40.
Nota 5 - Ibidem, vol 8, fl. 542.
Nota 6 - Fernando Gouveia, Memórias..., pp. 248 e 278-279.
Nota 7 - Arquivo do Tribunal da Boa Hora no IAN/TT, pr. 14 499/49, 3.° Juízo, caixas
234-36, vol. 9, fl. 613, e vol. 10, fl. 616.

150

O facto de a PIDE considerar mais importante a decifração da documentação apreendida


explica também porque não utilizou a tortura com Cunhal e Ribeiro, até porque sabia,
por anteriores interrogatórios com espancamentos selvagens, que eles se recusariam a
prestar quaisquer declarações (Nota 1).
Evidentemente que a prisão de Álvaro Cunhal e Militão Ribeiro encheu de júbilo a
PIDE. Mário Soares, por exemplo, referiu que, quando foi preso e interrogado na Rua
António Maria Cardoso, ouviu as «chalaças» triunfantes dos agentes (Nota 2). Cunhal
só recuperaria a liberdade 11 anos depois, ao fugir de Peniche, e Militão Ribeiro
morreu, logo em Janeiro de 1950, não sem antes dizer que a polícia o estava a matar. A
morte foi, aliás, motivo de controvérsia dentro do PCP, por ter sido considerado que se
«suicidara» através de uma greve de fome, da qual se voltará a falar (Nota 3)

V.2.8.2. Prossegue a «colheita» da PIDE

O annus horribilis para o PCP não acabou assim. Uma terceira casa de funcionários
também caiu, no mesmo mês de Março, desta vez na capital. José Gonçalves, que com a
sua brigada calcorreava as ruas de Lisboa à procura de «funcionários», conseguira
prender, num encontro de rua, Jaime Serra («Celso») e Augusto Pereira de Sousa
(«Esteves»), do CL de Lisboa, o que possibilitou à PIDE detectar a casa clandestina do
primeiro. No relatório das investigações, de 19 de Setembro, a PIDE observou que o
desenvolvimento das mesmas tinha sido dificultada, dada a «posição que ambos os
arguidos tomaram, de inteira negativa a um esclarecimento completo das suas
actividades». No entanto, a PIDE apanhara a Jaime Serra, escondido em roupa, um
apelo ao «povo de Lisboa» assinado «JS do CL» de Lisboa, concluindo do facto de
aquele não ter utilizado o pseudónimo que tinha o «firme propósito de continuar a luta
seja em que condições» (Nota 4).
Em 8 e 9 de Abril de 1949, fora detectada outra casa clandestina do PCP, em
Coimbrão/Leiria, onde estava instalada uma tipografia do Avante! e onde foram presos,
por Fernando Gouveia, na época já promovido a subinspector, dois casais de
funcionários. Um destes era constituído por António Eusébio Bastos Lopes («José»), um
carpinteiro de 24 anos e Mercedes Oliveira, costureira de 20 anos, ambos de Vila Franca
de Xira (Nota 5). O segundo casal era composto por Casimira da Conceição Silva,
costureira de 31 anos, também de Vila Franca de Xira, casada com António Dias
Lourenço («João» ou «Marques»), e por José Augusto da Silva Martins («Alves»),
natural de Oliveira de Azeméis e licenciado em Histórico-Filosóficas, membro
substituto do CC e responsável pelo aparelho de agitação e propaganda.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. SC 746/49, vol. 3.


Nota 2 - Arquivo do Tribunal da Boa Hora no IAN/TT, proc. 92/62, caixa 703 2º Juízo.
Octávio Pato e Albina Fernandes, vol. 2, fl. 142 (12), documento interno sobre
repressão.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 238 GT, Militão Bessa Ribeiro, fl. 19; Arquivo do Tribunal da
Boa Hora no IAN/TT, proc. 92/62, caixa 703, 2º Juízo, Octávio Pato e Albina
Fernandes, 10 volumes, vol. 1, fl. 646. Carta de Militão Ribeiro.
Nota 4 - Ibidem, pr. cr. 752/49, «Relatório do processo-crime».
Nota 5 - Fernando Gouveia, Memórias... pp. 248 e 278-279.

151

Sobre a «instalação» do Coimbrão, a PIDE encontrou, mais tarde, em 1961, no arquivo


de Júlio Fogaça, um relatório de António Eusébio Bastos Lopes onde este afirmava que
teria havido denúncia, provavelmente do padre da terra. Segundo Bastos Lopes,
Fernando Gouveia parecera surpreendido por ter apanhado a tipografia, mas não se
ensaiara em pregar-lhe uma coronhada de pistola na cara e empurrá-lo de modo a que
caísse estatelado (Nota 1). A investigação, a cargo do inspector superior José Catela, foi
considerada «morosa», dada «a posição de negativa que tomaram (os detidos), em
esclarecer a sua actividade e ligações, embora tenham sido presos na própria casa onde
a tipografia se encontrava instalada».
Mercedes Oliveira e Casimira da Silva Martins foram libertadas condicionalmente,
respectivamente em Outubro e Dezembro de 1951, enquanto António Eusébio Lopes e
José Augusto da Silva Martins foram amnistiados 11 de Maio de 1953, mas continuaram
presos. Só seriam soltos em 1955, após requererem o habeas corpus (Nota 2).
Além de terem sido apanhadas as casas ilegais do Luso e de Coimbrão, também
detectadas, em zonas onde não havia ramificações do PCP, outras duas «instalações»
clandestinas, que já tinham sido abandonadas quando a polícia lá chegou: uma, no Vale
da Mó, perto de Anadia, onde vivera José Gregório; e outra, na Vacariça, onde tinha
estado instalado Manuel Guedes. No entanto, o desmantelamento de organizações e as
prisões de dirigentes do PCP não acabaram aqui, pois que, em Setembro de 1949, foi
desmembrado o sector intelectual de Coimbra, através de uma acção policial iniciada
com a detenção de Arquimedes da Silva Santos, à qual se seguiram a de sete outros
(Nota 3).
A «colheita» da PIDE de 1949 ainda não tinha, porém, acabado. Em 17 de Dezembro, o
inspector Raul Porto Duarte informou ter detido, nesse dia, pelas 7 horas, António Dias
Lourenço, de 34 anos, casado, torneiro mecânico, natural de Vila Franca de Xira, numa
casa «ilegal» do PCP em Monte de Moraventos, no concelho de Palmela, juntamente
com Georgette Ferreira, de 25 anos. Dias Lourenço («João» até ao II Congresso ilegal
do PCP, depois «Marques») era procurado havia seis anos e tinha dirigido, em 1947, a
greve dos estaleiros navais, autocriticando-se, aliás, pelo insucesso das mesmas junto do
PCP, num documento também apreendido pela polícia. Quanto a Georgette Ferreira, não
«aqueceria» o lugar na cadeia, pois conseguiria fugir do Hospital de Santo António dos
Capunhos em 6 de Outubro de 1950. Como esta se encontrava fugida, Dias Lourenço
foi julgado à parte e condenado a quatro anos de prisão maior celular, ou seis anos de
degredo e medidas de segurança (Nota 4).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 251 GT, António Eusébio Bastos Lopes, fl. 9, documento
encontrado no arquivo de Júlio Fogaça, em 6 de Fevereiro de 1961, da autoria de
Eusébio de Bastos Lopes, sobre o assalto à tipografia do Avante!
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. dir. SC 693/49, cópia do relatório do processo de 5 de Junho de
1949, fls. 127, 204, 402 e 432.
Nota 3 - João Madeira, Os Engenheiros de Almas..., pp. 188 e 189.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. dir. 1144/949.

152

Com todas as prisões realizadas em 1949, a PIDE ficou com muita informação
proveniente dos arquivos apreendidos do PCP, nomeadamente acerca das técnicas e
processos conspirativos da direcção, bem como de células de empresa, organizações
entre os camponeses, comités de zona, comités locais, sub-regionais, regionais e
provinciais de norte a sul do país. Além disso, a polícia atingira a organização sindical e
militar, bem como o aparelho técnico, para não falar do CC e do próprio Secretariado
(Nota 1).

V.3. ANOS DE «CHUMBO» (1950-1960)

Enquanto Cunhal estava preso, o PCP analisou as consequências das prisões de 1949.
Dos eleitos para o CC, em 1946, apenas cinco membros efectivos, José Gregório,
Joaquim Pires Jorge, Manuel Guedes, Júlio Fogaça e Sérgio Vilarigues, e dois suplentes,
Octávio Pato e Soeiro Pereira Gomes, permaneciam activos em Abril de 1949, embora
este último morresse pouco tempo depois, após doença prolongada. De uma grande
organização de massas que efectivamente foi nos anos do imediato pós-guerra, depois
das prisões de 1949 o Partido Comunista transformou-se, segundo Mário Soares, «numa
organização fechada, numa quase seita esotérica, donde os melhores militantes fugiam
até por razões de simples bom senso» (Nota 2).
Os anos 50 foram duros para o PCP, que se fechou sectariamente e endureceu a sua
disciplina, promovendo sucessivas críticas, «autocríticas», expulsões e depurações.
Voltou-se «para si próprio e, dentro de si próprio, para a sua Direcção», parecendo ter
como único objectivo a preservação do seu núcleo dirigente, as tipografias e o corpo de
funcionários (Nota 3). O início da década foi também um período de retraimento e
divisão da oposição, que entrou «em hibernação mais ou menos prolongada».
A oposição não comunista estava então «polarizada pelo Directório Democrático-Social
(DDS)», no qual pontificaram António Sérgio, Mário de Azevedo Gomes, Jaime
Cortesão e Cunha Leal. Ao DDS adeririam também os «patriarcas sobreviventes do
velho Partido Republicano Português», elementos dos «pequenos grupos socialistas de
direita que tinham tentado organizar-se no pós-guerra» e «intelectuais da esquerda
socialista, em ruptura com o Partido Comunista Português, agrupados no núcleo da
Resistência Republicana e Socialista» e ainda activistas da União Socialista dos anos 40
(Nota 4).

V.3.1. A meio do século: endurecimento de ambos os lados

A PIDE teve, no final de 1950, dois contratempos, com as evasões de Georgette Ferreira
e de Jaime Serra, embora tivesse também algumas vitórias, com a detenção de
elementos do PCP.

Nota 1 - Ibidem, «O PCP e o movimento comunista internacional», NT 9100, pasta 4,


«Relatório da da organização do Partido" na Marinha de Guerra portuguesa», Fevereiro
de 1948, fls. 8, 9, 15e 61.
Nota 2 - Mário Soares, Portugal Amordaçado, p. 174.
Nota 3 - José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal... O Prisioneiro (1949-1960), vol. 3, pp.
54-56.
Nota 4 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», História de Portugal, pp. 399, 518-521 e
531.

Segundo relatou Fernando Gouveia, a brigada de José Gonçalves atacou um encontro


marcado para os lados do Arco do Carvalhão, em Lisboa, entre António Saboga, irmão
de Agostinho, e Manuel Rodrigues da Silva, que, em 1935, havia substituído José de
Sousa à frente da actividade sindical clandestina. Ao revistar este último, a PIDE
apanhou a chave de uma casa, na Travessa das Laranjeiras, onde deteve, em 7 de
Fevereiro, a sua companheira, Colélia Maria Alves Fernandes, uma operária de 20 anos
que permaneceu presa por ser solteira e, assim, considerada funcionária do PCP.
No relatório da instrução do processo, assinada por Raul Porto Duarte, a PIDE concluiu
que Manuel Rodrigues da Silva era membro confesso do PCP mas que, dada «a sua
posição de negativa em esclarecer concretamente a sua actividade», não se sabia «em
que sector trabalhava antes de 1947, quando foi substituir Dias Lourenço no de Lisboa».
Quanto a Saboga, recusou prestar declarações e a admitir serem seus os documentos
apreendidos.
Além deles, a PIDE prendeu ainda José Maria do Rosário Costa Júnior, natural de Ovar,
entregue pela PSP, que o havia detido numa rua de Setúbal. Numa nota interna, a PIDE
explicou que essa prisão se tinha devido à publicação, no DN de 14 de Fevereiro de
1950, de uma notícia sobre o «desaparecimento de indivíduo de nome José Maria,
conhecido por Manuel», com uma fotografia. A PIDE considerou que esse anúncio indi-
cava «claramente tratar-se de um aviso do PCP, destinado aos seus membros», ligados a
«Manuel» e conseguiu identificá-lo como sendo José do Rosário Júnior.
Manuel Rodrigues da Silva foi sentenciado a quatro anos de prisão maior, enquanto
António Saboga e José Maria do Rosário Júnior foram condenados a três anos, todos
com medidas de segurança. Colélia foi condenada, em Julho de 1951, a 18 meses de
prisão correccional, mas apenas libertada em 30 de Dezembro de 1953. Ingressando de
novo na clandestinidade (Nota 1), deixou então de visitar Manuel Rodrigues da Silva,
que, por pertencer ao CC, apanhara prisão maior. Este caso voltou a ser aproveitado por
Gouveia com fins caluniosos, para afirmar que ela foi colocada numa casa ilegal como
«companheira» de Dias Lourenço, com o qual seria novamente presa, em 1962, em
Buarcos (Figueira da Foz), juntamente com dois filhos (Nota 2).

V.3.2. O caso Mário Mesquita


Os primeiros anos da década de 50 foram os de todas as purgas e, mesmo, como se verá,
de algumas execuções no seio do PCP (Nota 3). Por volta de 1951, o partido já só
contava com cerca de um milhar de militantes e o número de funcionários havia
diminuído (Nota 4). Apesar de a situação ser então outra que nos anos 40, o PCP tentou
impor novamente uma «frente unida», em torno do Movimento Nacional Democrático
(MND), que, porém apenas contou com o apoio dos comunistas.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. dir. 180/50 SCI, Manuel Rodrigues da Silva, José Maria do
Rosário Costa Júnior, António da Conceição Saboga, Colélia Maria Alves Fernandes, fl.
23.
Nota 2 - Ibidem, fls. 37, 43, 50, 59, 117 e 150.~
Nota 3 – Ibidem, fls. 59-61.
Nota 4 – Ibidem, pr. 3968 SR, Ficheiro Geral, Júlio Fogaça, «Relatório acerca das
actividades do PCP, em 1951», fls. 30 e 32-33

154

Também inspirado pelo PCP, o Movimento Nacional de Defesa m Paz (MNDP)


desenvolveu campanhas contra a bomba atómica e contra a entrada de Portugal na
NATO. O MUD J continuou, mas a sua base antifascista reduziu-se muito, para quase só
incluir comunistas. Em plena Guerra Fria e no contexto da crítica à «política de
transição», o PCP exigiu várias autocríticas a dirigentes seus, acusados de envolvimento
nessa política. Por seu turno, em 12 de Maio, o PCP divulgou a defecção do funcionário
Mário Mesquita, qualificado de «traidor ao serviço da polícia» (Nota 1)
Após o 25 de Abril de 1974, o ex-inspector Fernando Gouveia afirmou que a prisão de
Mário Mesquita se tinha devido a intensa investigação da PIDE e havia sido despoletada
por um telefonema anónimo que ele próprio recebera em 1950: «Interessa-lhe o Mário
Mesquita? A mulher abandonou-o e o MM é doido pelas filhas.» (Nota 2) Afirmando ter
obtido depois a morada da casa onde a mulher vivia, em Ovar, Gouveia confirmou tê-la
detido, na noite de Natal, e transferido para Lisboa, onde havia sido solta após
compromisso do irmão dela de que a colocaria à disposição da PIDE quando fosse
necessário. Vigiada pelo chefe de brigada José Gonçalves, a mulher fora, depois,
localizada em Alcântara, onde vivia uma tia de de Mesquita e onde este acabou por ser
detido num encontro com a família e as filhas, em 28 de Dezembro.
O certo é que Mário Mesquita contou à PIDE tudo o que sabia sobre o PCP e
acompanhou depois a polícia, ajudando-a a detectar casas clandestinas, a identificar
quadros e denunciando pontos de apoios por todo o país. Da cadeia, o PCP foi
informado de que Mesquita saía pela manhã para «interrogatórios» e só regressava à
noite «com os sapatos cheios de lama». Num comunicado de Março de 1951, intitulado
«Mário Mesquita traidor ao serviço da polícia», o CC do PCP deu conta que este se
tinha encontrado com a mulher, «às ocultas da direcção do Partido», entregando-se
assim nas mãos da PIDE, que depois havia feito constar que ele fugira quando se dirigia
com um agente a um hospital. «Devido às condições da sua prisão e a outros factos
anormais e suspeitos, a Direcção do Partido expulsou-o imediatamente das fileiras do
partido.» (Nota 3)
Mesquita foi responsável, entre outras, pelas prisões de Severiano Falcão, em 30 de
Dezembro de 1950, de Alcino de Sousa Ferreira, em Fevereiro de 1951, e do assalto à
casa clandestina, a 24 deste mês, de Júlio Paour, em Loulé. Num documento encontrado
pela PIDE em diversos arquivos de dirigentes comunistas, da autoria de «Pedro»
(Alcino Ferreira), preso devido a denúncia de Mesquita, aquele dá conta de ter ouvido,
nos primeiros dias da sua detenção pela PIDE, que a «casa de F. [provavavelmente o
cunhado de Mesquita] não foi assaltada antes porque quiseram deixar o casal passar o
Natal descansado» (Nota 4).

Nota 1 - Ibidem, pr. dir. 314/50 S. Inv., Severiano Falcão e Maria Beatriz Rodrigues.
Nota 2 - Arquivo Histórico Militar, José Gonçalves, TMT, 4.a Juízo, proc. 109/76, auto
1687 dos serviços de Justiça da SCE da PIDE/DGS, 25/11/76, vol. 1, fl. 97-98.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 174 GT, Mário Mesquita, fl. 94.
Nota 4 - Ibidem, 6 GT, Alcino Sousa Fernandes, fl. 26. Documento encontrado no
arquivo de Joaquim Pires Jorge, em 26/7/60, da autoria de «Pedro».

155

Em Maio de 1951, «Ribeiro» (Gilberto Oliveira), provavelmente controleiro de


Mesquita, fez a análise desse caso e dos «fundamentos da traição e deserção que se
esta[vam] a verificar no PCP». Considerou que a direcção do PCP não conhecia
suficientemente os seus quadros, a sua vida par-
e o seu carácter, além de analisar a posteriori o percurso de Mário Mesquita. (Nota 1).
No folheto do CC do PCP «contra os espiões e provocadores», datado de 1952,
reconhecia-se que se tinha subestimado «durante muito tempo o verdadeiro significado
dos repetidos "encontros" de Mário Mesquita com o agente José Gonçalves, que o
conhecia muito bem e desde há muito». O documento do CC revelava ainda que, «não
obstante espancar a mulher a ocultas do Partido», Mesquita «era por esta dominado por
esta em muitos casos» e que ela era «uma pessoa de baixos sentimentos, tinha um
irmão ligado à PIDE (brigada do José Gonçalves) e, quando da "prisão" do marido fez
um trabalho de colaboração com a PIDE e contra o Partido».
Entre os dirigentes do PCP, apenas permaneciam em liberdade José Gregório, pelo que
ascenderam então ao Secretariado Sérgio Vilarigues, Júlio Fogaça, apesar de este ter
sido forçado, nos anos anteriores, a fazer uma série de «autocríticas», e Manuel Guedes,
detido em 19 de Maio (Nota 2). Continuaram também as purgas, nomeadamente de
diversos intelectuais comunistas. Paralelamente, crescia a lista de «traidores»: Mário
Mesquita, Sequeira, Carlos Gaspar, Joaquim Ventura, Eurico Ferreira Manuel
Domingues («Luís», assassinado) e «Teixeira» (Manuel Lopes Vital, assassinado) (Nota
3).

V.3.3. Três prisões no Algarve

Em 29 de Março de 1953, a PIDE deteve Rogério de Carvalho («José, funcionário do


PCP na clandestinidade, do qual, em interrogatórios, a polícia nem sequer conseguiu
localizar a casa clandestina. Foi condenado a dois anos e dois meses de prisão maior e
medidas de segurança. Maria Lamas foi, por seu turno, presa à chegada ao aeroporto de
Lisboa, em 20 de Dezembro, após ter participado no Congresso dos Povos pela Paz em
Viena e no Conselho Mundial da Paz de Bucareste. Foram também detidos muitos
jovens que esperavam no aeroporto (Nota 4), entre os quais se contou Carlos Brito, que,
relacionado com uma questão ligada a uma sede do MUDJ, continuou depois preso
(Nota 5).
A PIDE obteve uma importante vitória em 1953, com a prisão dos funcionários do PCP
Maria Angela Vidal Campos e Carlos Costa, detidos no Algarve, e, mais tarde, Rolando
Verdial, preso na mina de Jales. Ângela foi a primeira a ser presa, em 12 de Junho, pela
GNR de Albufeira, cujos elementos viriam aliás a ser gratificados pela PIDE.

Nota 1 - Ibidem, pr. 253 GT, José Gilberto Florindo de Oliveira, fls. 69, 75 e 77.
Nota 2 - Ibidem, pr. 1062, Manuel Guedes, fls. 3, 4, 71, 82, 137, 195-201, 213, 331,
340, 342 e 362.
Nota 3 - José Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal... O Prisioneiro (1949-1960), vol. 3, pp.
264-265 e 270.
Nota 4 - «PIDE/DGS, pr. dir. 160/53.
Nota 5 - Carlos Brito, Tempo de Subversão: Páginas Vividas na Resistência, Lisboa, Ed.
Avante, 1958, p. 29.

156

Mais tarde, ao voltar de um encontro partidário, Carlos Costa foi detido na estrada, ao
regressar a casa. Os dois foram entregues à PIDE e transferidos para a sede de Lisboa,
por indicação do inspector Porto Duarte, que ficou responsável pela instrução do
processo, juntamente com o chefe de brigada José Alves e o agente Eugénio Carvela
(Nota 1).
A PIDE considerou que a recusa de ambos os detidos «em descreverem e confessarem
as suas actividades» só confirmava «tratar-se de "funcionários" da citada associação
secreta». Ou seja, as únicas provas que a PIDE tinha eram documentos apreendidos a
Carlos Costa e o facto de nada responderem. Através da documentação, a PIDE
concluiu que os dois, juntamente com Rolando Verdial, actuavam como funcionários
clandestinos no Algarve.
Este último já tinha sido preso, em 24 de Maio de 1952, em Paderne (Albufeira), mas
fora libertado por parecer estar mentalmente doente. A PIDE considerara, porém,
depois, que ele tinha somente fingido ser desequilibrado, continuando afinal a trabalhar
para o PCP na semilegalidade nas minas de Jales, onde foi detido em 25 de Novembro
de 1953. No relatório (expurgado) sobre a detenção de Paderne, a PIDE especificou que,
apesar de parecer estar «a sofrer forte crise nervosa», existia sobre ele a suspeita de ser
um funcionário do PCP, devido a o seu comportamos assemelhar à «maneira de ser
corrente e vulgar entre os comunistas fanáticos, tenham eles a ilustração que tiverem».
Finalmente, indicava-se que já anteriormente Verdial teria infringiu ordens do PCP que
iam no sentido de os seus funcionários ocultarem a militância comunista, razão provável
para ter sido «despedido» da «casa do partido», onde vivia com a mulher, Ângela Vidal
e Campos, e Carlos Costa, e por ter dado «indícios de excitação ou desequilíbrio
mental», que haviam provocado a sua prisão em Paderne (Nota 2).

V.3.4. MUD J, «ramificação do PCP»

Em 29 de Setembro de 1955, foi preso numa rua de Lisboa Américo Gonçalves de


Sousa. Entre a documentação que lhe foi apreendida contava-se uma carta cifrada
dirigida aos presos do reduto norte de Caxias que, segundo a PIDE, comprovava a
«existência de ligações entre presos e a organização no exterior do PCP». Outro
documento apreendido foi aquele já referido, onde o PCP apelava a uma modificação da
orientação do comportamento em julgamento dos funcionários de modo a evitar longas
penas de prisão, para que o partido os pudesse recuperar rapidamente. Américo de
Sousa fugiria em 25 de Maio de 1957 do Aljube, mas viria a ser recapturado em 15 de
Dezembro de 1962 (Nota 3).
Entretanto, a PIDE assanhou-se no mesmo período contra o MUD J, prendendo muitos
dos seus elementos.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 89/53, vol. 1, Rolando dos Santos Verdial, Carlos Campos da
Costa e Maria Ângela e Campos, fls. lf-18, 29, 50, 54, 63-64, 104, 175 e 183-184.
Nota 2 - Ibidem, vol. 2, fls. 150 e 322-323.
Nota 3 - Ibidem, pr. cr. 105/55, fls. 1, 14, 140 e segs., 166, 195 e 200.

157

A sua libertação foi reclamada em dois telegramas endereçados, em Novembro, ao


presidente da República, que os remeteu a Salazar. Este respondeu-lhe que, nos
«últimos tempos, a polícia tem manifestado a sua grande preocupação acerca da
captação muito intensa de estudantes para as organizações comunistas», nas quais
apareciam enredados rapazes e raparigas «das melhores famílias, tanto em bens no em
formação moral». O caso era tão «grave que só por meios políticos é difícil de
controlar», tornando-se necessária uma «contra-ofensiva ideológica» (Nota 1).
Sobre essas prisões, Fernando Gouveia afirmou que ninguém foi preso por ser apenas
membro do MUD J, mas por também militar no PCP. Enquanto a polícia tentava, nos
interrogatórios, apurar se eram ou não também membros do PCP, os jovens defenderam-
se sempre com o argumento de que pertenciam a um movimento juvenil legal, razão
pela qual não deviam estar presos. José Augusto Seabra, que pertenceu ao MUD J, mas
nunca ao PCP, também descreveu que os interrogatórios que então sofreu se
concentravam na obsessão de a polícia querer provar que esse movimento e o
Movimento da Paz eram ramificações daquele partido, daí a utilização de violências e as
torturas aplicadas (Nota 2). No julgamento dos 52 elementos do MUD J detidos, apenas
iniciado em 12 de Junho de 1957, no Tribunal Plenário do Porto, este considerou,
porém, a acusação improcedente, absolvendo e mandando em paz 33 deles, por não ter
ficado provado que tivessem conhecimento de que o PCP dirigia aquela organização
juvenil (Nota 3). No mesmo processo foram considerados
membros do PCP António Borges Coelho, Pedro Ramos de Almeida, Cecília Ramos de
Almeida, Hermínio Marvão, Hernâni Silva e Ângelo Veloso (Nota 4). Refira-se que um
documento do MND, de Abril de 1955, afirmou que em tribunal havia triunfado, contra
a posição da PIDE, a ideia da legalidade dos movimentos de opinião, defendida
energicamente por acusados e testemunhas. Como exemplos davam-se as absolvições
de Arménio Jordão, do estudante Carlos Aboim Inglês e da enfermeira Hortênsia Silva,
apenas acusados de serem do MUD (Nota 5).

V.3.5. A viragem à direita no PCP

Ao longo da década de 50, houve entretanto várias mudanças, quer a nível nacional,
onde se assistiu a um processo de concentração económica, industrialização e
urbanização, quer a nível internacional, em que, em meados da década, se foi
paulatinamente passando do ambiente da Guerra Frias aos princípios da détente e de
«destalinização».

Nota 1 - Pedro Ramos de Almeida, op. cit., p. 519.


Nota 2 - José Augusto Seabra, De Exílio em Exílio, Porto, Fólio Edições, 2004, pp. 42-
43; PIDE/ /DGS, pr, 1959 GT, pasta MUD Juvenil.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 22/55, Acórdão do Tribunal Plenário do Porto.
Nota 4 – Ibidem, pr. dir 47/55, Serv. Inv. do Porto, 2 volumes.
Ñota 5 - Ibidem, pr. 73/56, vol. 2, Maria dos Santos Machado.

158

No PCP, começou a ser desenvolvida, a partir da VI Reunião Ampliada do CC, em


1955, a crítica ao sectarismo nas relações do partido com as restantes componentes da
oposição e na atitude em relação à intelectualidade.
Muito importante para o PCP e o movimento comunista internacional foi, em Fevereiro
de 1956, a realização do XX Congresso do PCUS, onde foram aprovadas as teses de
coexistência pacífica, passagem parlamentar ao socialismo, unidade com os sociais-
democratas e condenação do culto da personalidade estalinista. Aderindo a estas teses, o
CC defendeu em Abril uma linha, mais tarde considerada «direitista», que aceitava a
possibilidade de uma solução pacífica para o problema político português e preconizava
um relacionamento dos comunistas com o movimento liberal burguês (Nota 1).
Sob a influência das teses da coexistência pacífica, Júlio Fogaça defendeu, no V
Congresso do PCP (III ilegal), realizado em 1957, no Estoril, o carácter «nacional» do
partido e o relacionamento deste com o movimento oposicionista não comunista, bem
como a táctica partidária de pequenos levantamentos que levariam a oposição anti-
salazarista a uma transição pacífica para a democracia, em substituição da anterior linha
de insurreição de massas. Noutro informe, Guilherme da Costa Carvalho relevou as
eleições como instrumento de liberalização do regime e, no documento sobre a
organização, da autoria de Dias Lourenço, bem como nos estatutos aprovados, triunfou
a perspectiva da desagregação a breve prazo do regime e a luta contra o culto da
personalidade, na esteira do XX Congresso do PCUS.
Em Portugal, a PIDE capturou, em 5 de Fevereiro de 1957, dois funcionários do PCP,
Francisco Martins Rodrigues, do CL de Lisboa, detido num encontro na Rua do Olival,
em Lisboa, que se recusou a indicar a residência e a profissão, e sua mulher, Fernanda
Ferreira Alves, presa numa
«instalação» na Rua Elias Garcia. Para investigar as chamadas telefónicas feitas nessa
casa, a PIDE recorreu à Anglo Portuguese Telephone Company, do Porto (Nota 2).
Em 23 de Novembro prendeu, na estrada do Pinhal Novo ao Montijo, Rolando Verdial,
recém-evadido da prisão do Aljube, que declarou, aos gritos, o nome e o facto de ser
comunista, detendo ainda no mesmo dia a sua companheira de então, Ivone Dias
Lourenço. A PIDE apreendeu a Verdial uma autocrítica de que tirou «provas» que
serviram para o condenar, em Dezembro de 1960, a seis anos e um mês de prisão maior,
enquanto» Ivone Dias Lourenço foi sentenciada em dois anos de prisão maior. Verdial
fugiria integrado na fuga colectiva de Caxias em 4 de Dezembro de 1961. Recapturado
em 1963, permaneceria preso até 29 de Maio desse ano, depois de o tribunal lhe
conceder a liberdade condicional. Ver-se-á, mais tarde porque é que isso aconteceu
(Nota 3).

Nota 1 . Ibidem, pr. 9078 SC.


Nota 2 – Ibidem. Pr. Dir. 59/57 Dvi. Inv., vol. 1, Francisco Martins Rodrigues e Maria
Fernanda Parrocínio Ferreira Alves, fls. 45, 46, 49, 53, 56, 57, 64, 80, 97, 101, 105, 110,
122, 134, 142, 151, 157, 163, 168, 175, 182, 191, 196, 211, 213, 238, 239, 244, 246,
249, 253, 261, 269 e 324.
Nota 3 – Ibidem, pr. Dir. 728/57, Rolando Verdial e Ivone Dias Lourenço, fls. 204, 290,
335 e segs., 381, 483, 528, 538, 548, 556, 594, 595 e 633.

159

VI. DO «FURACÃO DELGADO» AO FINAL DO REGIME.


A PIDE/DGS E O PCP ENTRE 1961 E 1974

O ano de 1958 foi marcado pelas eleições para a Presidência da República. Pelo lado do
regime, Salazar decidiu que o general Francisco Craveiro Lopes não seria reeleito,
embora a escolha do candidato do governo devesse recair sobre um militar. Depois e,
numa reunião da UN, foi escolhido o almirante Américo Tomás como candidato do
regime. Na primeira quinzena de Fevereiro, um grupo de oposicionistas encarregou o
arquitecto Artur Andrade de sondar o general Humberto Delgado no sentido de se
candidatar às eleições para a Presidência da República. Em Março, O Militante inseriu
um texto em que Cunha Leal era considerado um democrata e Delgado um militar da
confiança do governo e do imperialismo americano, mas o primeiro informou que não
se candidataria, e, no dia seguinte, 19 de Abril, Delgado oficializou a sua candidatura.
Após o falhanço da alternativa Cunha Leal, foi apresentada no dia 21 a candidatura de
Arlindo Vicente, apoiada pelo PCP.

VI.1. O «TERRAMOTO DELGADISTA» E A REPRESSÃO SOBRE O PCP

No dia 10 de Maio de 1958, Delgado proferiu numa conferência de imprensa no Café


Chave de Ouro a célebre frase segundo a qual demitiria «obviamente» Salazar se
ganhasse as eleições, e oito dias depois realizou um comício no Liceu Camões, na
sequência do qual os altos comandos militares se comprometeram, perante o regime, a
defender a «ordem pública». Devido ao extraordinário apoio que a candidatura de
Delgado foi congregando, com recepções apoteóticas pelo país, Arlindo Vicente acedeu,
no fim do mês, em retirar-se a favor do general.
Nas eleições, realizadas a 8 de Junho, em que a candidatura de Delgado se viu
impossibilitada de fiscalizar as urnas e vários dos seus apoiantes foram presos, os
números oficiais deram 76% dos votos para Américo Tomás e apenas 23% para
Humberto Delgado. A partir de 12 de Junho, desencadearam-se diversas greves e
manifestações de protesto, em Lisboa e na Margem Sul, contra o que se qualificou de
fraude eleitoral. No entanto, as oposições revelaram não estar preparadas para fazer face
à nova situação decorrente do clima pré-insurrecional instalado e da vaga de indignação
(Nota 1).

Nota 1 - João Madeira, «As greves de Junho-Julho de 1958», in Humberto Delgado: As


Eleições de 58, pp. 207, 209, 212 e 213; idem, «A oposição e as eleições presidenciais
de 1958», in Humberto Delgado: As Eleições de 58, pp. 60-61.

160

Segundo números do PCP, estiveram, porém, envolvidos em manifestações cerca de


60000 trabalhadores, na Margem Sul, Vila Franca de Xira, Couço, Alpiarça, Ribatejo,
Baixo Alentejo e Porto/Matosinhos, embora em Lisboa a expressão tivesse sido
reduzida. Alda Nogueira («Joel», «Lídia») responsável do PCP pela organização das
greves na capital, atribuiu a incapacidade em desencadeá-las à debilidade de laços
partidários com os trabalhadores e a distorções na assimilação da linha política por parte
dos militantes (Nota 1).
O próprio director da PIDE a partir de 1960, Homero de Matos, descreveria mais tarde,
numa carta a Salazar, a actuação dos funcionários do PCP, na campanha eleitoral de
1958, afirmando que a agitação entre as massas operárias não tinha tido grande sucesso,
pois o PCP não conseguiria desencadear greves nos grandes centros, devido à luta
incessante que a PIDE movia àquele partido. Este tinha, no entanto, segundo Matos,
desencadeado lutas nas pequenas terras da província e levado os rurais do Ribatejo e
Alentejo a deixarem as lutas economicistas por aumentos de jornas para se envolverem
na luta política contra a eleição do candidato da UN (Nota 2). Seja como for, a repressão
directa e brutal dessa movimentação popular começou cedo e, entre 1 de Maio e 31 de
Dezembro de 1958, foram presas 1013 pessoas e remetidos a Tribunal Plenário 31
processos. Foram detidos muitos elementos das comissões centrais de Delgado e
Arlindo Vicente. No Couço, onde o movimento atingira uma maior expressão, foram
presos, no final de Junho, dezenas de trabalhadores rurais e enviados a tribunal mais de
60. Outros, entre os organizadores, passaram a funcionários clandestinos do PCP, entre
os quais se contou Joaquim José Dias, já referenciado pela PIDE (Nota 3). Entre os
funcionários do PCP, foram detidos quatro do CC, dois dos quais da Comissão Política,
oito da direcção intermédia e 11 funcionárias de casas clandestinas (Nota 4).

VI. 1.1. A queda de vários funcionários do PCP

Entretanto, em Março de 1958, Olívia Sobral, companheira de José Carlos, tinha sido
presa em Olhão, à porta de uma fábrica de conservas a angariar assinaturas para o
candidato presidencial da oposição, o que mostra que o PCP estava então a expor
demasiado os seus funcionários. Foi através do arquivo de José Carlos, apreendido a
Olívia, que a PIDE soube das actividades do marido enquanto dirigente do Baixo
Alentejo. Este último acabou por ser detido, em Novembro, por mero acaso, pela GNR
de Salvado, que dele desconfiou ao vê-lo no cruzamento da estrada com Beja
e o entregou à PIDE.
Em Maio, esta polícia prendeu em Lisboa diversos elementos do que viria a concluir ser
um organismo do PCP na função pública, nos organismos corporativos, na banca e nos
seguros.

Nota 1 - Idem, ibidem.


Nota 2 - AOS/CO/IN-16, pasta 4.
Nota 3 - João Madeira, «As greves de Junho-Julho de 1958», in Humberto Delgado: As
Eleições
de 58, p. l91. W
Nota 4 - Idem, ibidem, p. 58.

161

Todos os condenados a prisão maior foram, como habitual, demitidos da administração


estatal (Nota 1). Ainda em Lisboa, a PIDE deteve, em 23 de Junho de 1958, o
funcionário do PCP Joaquim Augusto da Cruz Carreira, na clandestinidade desde 1951,
o responsável pelo CL de Lisboa (Nota 2). Ao relatar a sua prisão e a de Malaquias
Pinela, Joaquim Carreira («Dias») disse ter sido o primeiro a ser detido, pelas 18 horas e
meia de 26 de Junho de 1958, na Rua Latino Coelho, ao encontrar-se «casualmente»
com trabalhadores da Fábrica Portugal, aos quais tinha ido pedir lume (Nota 3).
No seu relato, Carreira considerou que a polícia sabia quem ia prender, e que, por outro
lado, ao entrar no gabinete de Gouveia viu em cima da secretária uma foto sua, além de
que alguém da CP lhe dissera haver uma infiltração da PIDE nessa empresa. Joaquim
Carreira contou ter sido agredido a soco e pontapé por Gouveia e, mais tarde, sujeito a
11 dias de estátua, entre 19 e 30 de Agosto, dos quais nove dias seguidos de pé e sem
dormir. No total, foi chamado quatro vezes à PIDE e esteve três meses numa cela do
Aljube e 43 dias no segredo nas casamatas de Caxias (Nota 4). O próprio Gouveia
confirmou que a polícia «não teve possibilidade de obter proveito da "casa ilegal" de
Joaquim Carreira, por este a ter indicado um pouco tarde», quando já havia sido
«desmontada» pela «companheira», uma «funcionária» de idade que passava por sua
mãe.
Quanto a José Malaquias Pinela, ainda segundo Joaquim Carreira, tinha sido preso
sozinho em Alfama, pouco depois de ter largado um táxi. Este detido foi o mais longe
possível na sua «abertura», conforme contou Gouveia (Nota 5). No entanto, apesar
destas afirmações, a casa de José Malaquias Pinela também já estava vazia quando a
PIDE lá chegou. Gouveia disse ter então montado uma «ratoeira» e, cerca de quinze
dias depois da mudança, foi assinalada junto à casa a aproximação de um indivíduo.
Tratava-se do funcionário Rogério de Carvalho, que foi prontamente detido, em 29 de
Julho. e sujeito, de 30 de Julho a 2 de Agosto, a um tratamento classificado de
«interrogatórios contínuos» — ou seja, a tortura do sono, à qual se tinha seguido o
isolamento total, sem livros nem possibilidade de escrever (Nota 6).
A PIDE fez também, na segunda metade de 1958, uma razia entre funcionários e
dirigentes do PCP. Fernando Gouveia relatou as prisões que a PIDE conseguiu fazer
então, graças à «abertura» total de Joaquim Marinho, «funcionário» e membro suplente
do CC, que, com a mulher, «resolveu igualmente recuperar a liberdade», seguindo
depois ambos para o país da sua escolha.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. cr. 894/58, fls. 204, 233, 242-272, 284, 341, 486-497, 559-561,
601, 688 e 731.
Nota 2 - Ibidem, pr. cr. 1065/58 D. Inv., Joaquim Augusto da Cruz Carreira, fls. 723 e
728.
Nota 3 - Ibidem, pr. 53 GT, Guilherme da Costa Carvalho, fl. 51, relatório de prisão
encontrado em Guilherme da Costa Carvalho, em 14/11/60, da autoria de «Dias»
(Joaquim Carreira), fl. 58.
Nota 4 - Ibidem, Guilherme da Costa Carvalho, fl. 51.
Nota 5 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, pp. 394-396.
Nota 6 - PIDE/DGS, pr. 1135/58, Rogério de Carvalho, fls. 22 e 77.

162

Da sua «franqueza» resultou a localização de uma parte de casa ilegal» na Rua Castilho,
em Lisboa, onde residiam Aida Paulo, a mãe desta, Luísa Paulo, e Fernando Augusto
Blanqui Teixeira («Carlos»), que não foi, porém, capturado (Nota 1).
Em Outubro de 1958, Américo Gonçalves de Sousa («Abel»), que se tinha evadido do
Aljube no ano anterior, juntamente com Carlos Brito e Rolando Verdial, foi novamente
detido, juntamente com a sua companheira, Adélia Terruta, e outro casal de
funcionários. Ainda devido a denúncias de Marinho, foi assaltada a casa onde estava a
troika do Norte no Porto, sendo detidos Joaquim Gomes, Pedro Soares e suas
companheiras, Maria da Piedade Gomes e Maria Luísa Costa Dias, bem como Jaime
Serra «Freitas», que, depois, caiu numa armadilha da PIDE (Nota 2).
Fugido de Peniche em 1950 e de Caxias em 1956, o próprio Serra contou essa detenção,
começando por explicar que, no contexto eleitoral de então, os «quadros clandestinos,
mesmo os mais responsáveis», tinham sido «obrigados a uma maior movimentação à
luz do dia, tornando desse modo mais vulneráveis as defesas do Partido face à violenta
repressão que se seguiu» às eleições presidenciais. Como se vê, Serra não
responsabilizou então a interiorização do ambiente do «desvio de direita» pela
vulnerabilidade política e policial na conjuntura delgadista.
Relatou Serra que, em 8 de Dezembro, Dias Lourenço, também do Secretariado, o tinha
procurado, comunicando-lhe «que, segundo informações de que dispunha, houvera uma
série de prisões de quadros funcionários na região do Porto, entre eles um tal José
Marinho, o qual havia traído o Partido ao ser preso». Ora, como este conhecia várias
casas clandestinas, haveria que tomar medidas urgentes para tentar evitar novas prisões,
estando particularmente em risco de serem presos, no Porto, Joaquim Gomes e Pedro
Soares, do CC.
Sabia-se ainda que na casa de Joaquim Gomes se iria realizar nesse dia uma reunião, na
qual, além dos já citados, deveriam comparecer também Sérgio Vilarigues e Octávio
Pato, do Secretariado do CC. Ao dirigir-se a essa casa para avisar os seus camaradas,
Serra foi detectado pela PIDE que já havia ocupado a «instalação», depois de a ter
assaltado e prendido os seus ocupantes, Joaquim Gomes e Maria da Piedade Gomes,
após ter detido, noutra residência, Pedro Soares e Maria da Luísa Costa Dias. Serra
tentou fugir, mas, quando já havia alcançado uma certa distância dos agentes
perseguidores, a gritarem «agarra! agarra!» e a dispararem na sua direcção, um guarda
da PSP de pistola em punho prendeu-o e entregou-o à PIDE (Nota 3).
Ainda resultante da «abertura» de Marinho, foi localizada uma «casa ilegal» situada nos
arredores da Covilhã, habitada pelo «funcionário» do «sector» das Beiras, Américo
Lázaro Leal, que não foi preso, embora aí tivesse sido detida a sua mulher, Cesaltina
Maria dos Santos (Nota 4).

Nota 1 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, pp. 376-377.


Nota 2 - Idem, ibidem, pp. 682-684.
Nota 3 - Jaime Serra, Eles Têm o Direito de Saber; Páginas de Luta Clandestina, pp.
113-116.
Nota 4 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, pp. 377-378.

163

Em Coimbra, na Cova da Piedade e em Montemor-o-Novo, foram, por seu turno,


detidos Tomás Xavier de Figueiredo («Mourão»), José da Conceição Gomes e Joaquim
José Dias, um dos organizadores da movimentação popular contra a fraude eleitoral, no
Couço, e a sua companheira, Constantina Maria. Finalmente, em São Mamede de
Infesta, foram ainda detidos Agostinho Saboga e a sua companheira, Lucinda Mendes
(Nota 1).

VI.2. 1959 O ANO DE TODAS AS PRISÕES

Em 11 de Março de 1959, a PIDE prendeu os implicados num movimento


revolucionário com cumplicidades nas Forças Armadas, que ficou conhecido como o
«golpe da Sé». O sector militar da revolta, organizado m torno do Movimento Nacional
Independente (MNI), tinha como responsáveis os majores Pastor Fernandes, Luís
Calafate e Alvarenga e os capitães Amílcar Domingues, Fernando Romba e Vilhena e
Almeida. O movimento terá sido infiltrado pela PIDE, onde, pelo menos, Manuel da
Silva Clara, que chefiava os Serviços Reservados (centralização de informações) e
passara, em 1958, para os Serviços Administrativos, teve conhecimento do programado
golpe e vigiou Manuel Serra (Nota 2).
Dezenas de implicados — nove militares e 22 civis — foram presos, acabando Manuel
Serra e Calafate por pedirem asilo político em embaixadas latino-americanas. Em nota
oficiosa, o governo declarou autorizar a saída destes dois do país, embora sem fornecer
salvo-condutos e sem reconhecer a legitimidade do asilo político concedido. Em 12 de
Maio, também Henrique Galvão, que tinha fugido do Hospital de Santa Maria e se havia
refugiado na Embaixada da Argentina, deixou Portugal, com destino a Buenos Aires.
Guilherme da Costa Carvalho («Manuel»), do CC do PCP, foi novamente preso, em 11
de Abril, no Porto, e transferido para Lisboa. No relatório dos autos, a PIDE deu conta
de que essa detenção tinha sido despoletada pela entrega a essa polícia pela PSP
portuense de um elemento detido a distribuir propaganda, que depois denunciara outros,
ligados entre si à União dos Jovens Portugueses e ao PCP. Guilherme Carvalho tinha
sido preso com documentação e um rolo de rastilho, na Praça da República, quando se
ia encontrar com o controleiro dos jovens, já detido na véspera.
A PIDE relatou ainda que, no dia seguinte à prisão de Guilherme da Costa Carvalho, o
PCP tinha espalhado panfletos sobre ele, o que sucedia apenas quando era detido um
dirigente do partido, atribuindo esse «desastre» a traição de «Abel de Gaia». Tratava-se
de Abel Soares da Silva, que foi submetido pelo chefe de brigada Pinto Soares a cinco
dias de estátua e, depois, a mais oito dias de tortura do sono. Segundo declarou o
próprio Abel, Pinto Soares tinha-lhe pago 300$00 para que fizesse declarações falsas
sobre Diniz Miranda.
Refira-se que a PIDE encontrou um papel entregue na cadeia a este último por Abel
onde este confirmava ter prestado declarações e estar desesperado por ter prejudicado
Miranda, ao qual pedia perdão.

Nota 1 - PIDE/DGS, n.° 5618 SR, publicado imprensa de 7/10/1959.


Nota 2 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, op. cit., p. 77.

164

Em 18 de Agosto, Abel tentou golpear-se com um pedaço de vidro da janela, e, no fim


desse mês, deixou de comer, sendo hospitalizado. Condenado inicialmente a uma pena
de 18 meses, Abel foi novamente julgado, por «denúncia caluniosa», ao acusar de maus
tratos e ofertas monetárias o chefe Pinto Soares e o agente Maia, e sentenciado, em
cúmulo jurídico, a dois anos dois meses de prisão e medidas de segurança (Nota 1).
Pelas 21.30 horas de 28 de Maio de 1959, foram também detidos os funcionários do
PCP Sofia Ferreira e António Santo, na Rua da Artilhai Um, em Lisboa. António Santo
(«Silva») e Sofia Ferreira («Soares») recusaram responder às perguntas da PIDE, mas,
segundo o resumo do processo, a PIDE apurou que ambos actuavam num denominado
«organismo regional de Lisboa», de cuja direcção central «fazia parte a arguida Sofia»,
na qualidade de membro suplente do CC, desde o Congresso de 1957. Como prova de
que Santo havia passado à semi-ilegalidade no início de Outubro do ano anterior,
deixando a empresa Sorefame, serviu o facto de ter deixado de pagar as quotas para a
Cooperativa dos Trabalhadores de Portugal (Nota 2).
Nesse ano de 1959, a PIDE teve outro golpe de sorte, ao recapturar, em 14 de Junho,
entre a Avenida João XXI e a Avenida de Paris, Carlos Aboim Inglês, que vivia então
numa casa clandestina no Bairro da Picheleira (Nota 3). Ao PCP, Aboim Inglês
transmitiu que havia sido preso, de pistola em punho, por Fernando Gouveia, num
encontro casual de rua (Nota 4). Embora tivesse sido preso no local acima indicado,
portanto perto de sua casa, constou ao PCP que tinha sido capturado no Bairro de
Alvalade. Foi com base nesta última informação que Carlos Brito se dirigiu à casa de
Aboim Inglês para buscar a mulher daquele, Maria Adelaide, e a filha Margarida, a fim
de as colocar em lugar seguro (Nota 5).
Ao entrar em contacto telefónico com a casa, não se notava ainda qualquer
anormalidade, mas, dado que Brito se atrasou com a resolução de outras tarefas, o
tempo que mediou entre o telefonema e a chegada dele possibilitou à PIDE a ocupação
da casa de Aboim Inglês. Carlos Brito, que se encontrava a monte depois de se ter
evadido do Aljube, foi preso no dia seguinte. Aboim Inglês considerou depois que a
prisão de Brito se devera a descuido e precipitação na ida a sua casa, sem o PCP ter
conhecido devidamente as condições da sua própria detenção, e devido ao facto de aí se
ter deslocado passada uma hora após ter telefonado (Nota 6).
O PCP teve dificuldade em perceber como conseguira a PIDE localizar a casa de Aboim
Inglês tão rapidamente, pois pensava que esta tinha sido detectada após a sua prisão e
não antes, considerando que a polícia tivera «de andar muito depressa e por isso o não
interrogaram na noite da prisão», conforme conclui a direcção do PCP.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. cr. 179/59, Guilherme da Costa Carvalho, fls. 1 e segs., 36, 42,
85, 87, segs., 119, 123, 138, 140, 141, 144, 145, 204, 232, 233, 236, 239, 241, 244, 251
e 296.
Nota 2 - Ibidem, pr. dir. 551/59 D. Inv. António Santo e Sofia Oliveira Ferreira.
Nota 3 - Miguel Medina, Esboços, vol. 1. pp. 39 e 40.
Nota 4 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, pp. 381-382.
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 503/59 SC, Div. Inv., Carlos Brito.
Nota 6 - Ibidem, pr. 20 GT, Carlos Aboim Inglês, fl. 74. Documento sobre a prisão de
Carlos Aboim Inglês, encontrado no arquivo Guilherme da Costa Carvalho, da autoria
de «Óscar».

165

Veja-se como a PIDE conseguiu apanhar a casa ilegal de Aboim Inglês. Gouveia contou
que, logo na manhã seguinte à prisão de Aboim Inglês, na posse do bilhete de identidade
falsificado, com uma fotografia, apreendido ao detido, uma brigada da PIDE percorrera
a rua à entrada da Picheleira. Gouveia — sem dizer porquê - depreendera que a sua
«casa ilegal» estaria situada nessa rua e, de «porteira em porteira, exibiu a fotografia,
até esta ser reconhecida como «senhor professor» que morava em determinado prédio e
andar.
A brigada actuou de imediato, deteve a «funcionária» e depois montou a ratoeira onde
caiu Carlos Brito (Nota 1).
Já a detenção de Domingos Abrantes, em 27 de Julho, não foi casual e ocorreu na
sequência da prisão de João Manuel Louceiro («Costa»), acusado de ter participado
numa reunião conspirativa em Sacavém com mais cem jovens para criar comités
nacionais e regionais da União da Juventude
Portuguesa (Nota 2). Segundo contou mais tarde Domingos Abrantes, a polícia andava
já atrás dele e por diversas vezes tinham-se cruzado na Amadora e em Lisboa, mas ele
sempre tinha atribuído tal facto a meras casualidades. Ao chegar ao local do encontro,
num descampado na Venda Nova, a polícia já tinha montado um cerco e uma
encenação, utilizando um casal com um bebé que parecia estar num piquenique.
Abrantes sentou-se encostado a uma árvore, muito próximo deles, quando surgiram por
detrás outros pides que o prenderam (Nota 3).
Só após o 25 de Abril de 1974 conseguiu saber o motivo da sua prisão e desses
encontros «casuais», ao ser então descoberto e preso um informador da Sorefame que
tinha denunciado esse encontro . Trata-se de José Miguel da Rocha («Régua»),
carpinteiro da Sorefame, responsável pelas detenções de José Magro, António Santo,
Sofia Ferreira, Amador e do próprio Domingos Abrantes (Nota 5). Tinha sido António
Santo, que trabalhava na Sorefame desde 1957, a travar conhecimento com «Régua»,
durante a campanha eleitoral de 1958 e a «agarrá-lo», participando depois com ele
em reuniões alargadas e em movimentos de agitação. Como tivesse boa impressão dele,
Santo encarregara «Régua» de organizar e controlar a célula do PCP da carpintaria da
Sorefame. Por volta de Março ou Abril de 1959, Santo abandonara Amadora-Venda
Nova e, como se viu, foi detido em 28 de Maio, apercebendo-se de que a PIDE sabia
que ele tinha trabalhado nesse sector (Nota 6).

VI. 3. AS PRISÕES DE 1960

Nota 1 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, pp. 383-385.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 556/59 D. Inv., Domingos Abrantes e João Faria Borda, fls. 2,
22, 289 e
303-307.
Nota 3 - Miguel Medina, Esboços, vol. 2, pp. 67 e 68, testemunho de Domingos
Abrantes.
Nota 4 - Arquivo Histórico Militar, José Gonçalves, TMT, 4.a Juízo, proc. 109/76, auto
1687 dos serviços de Justiça da SCE da PIDE/DGS, 25/11/76, vol. 1, fl. 138.
Nota 5 - Arquivo Histórico Militar, Fernando Gouveia, proc. 21/80, pasta 67, arquivo
625, proc. 441, vol. 2, fl. 292.
Nota 6 - Ibidem, fl. 304, depoimento de António Santo.

166

Em 26 de Julho de 1960, a PIDE teve outro golpe de sorte, ao descobrir a residência


ilegal de Joaquim Pires Jorge («Gomes»), na vivenda de Montalvinho em São João do
Estoril. Embora não tivesse conseguido prendê-lo nem à sua companheira (Nota 1),
conseguiu porém apreender um volumoso arquivo (Nota 2). Alguns dirigentes do PCP
também foram presos nesse ano, nomeadamente dois que se tinham evadido em Janeiro
de Peniche, Francisco Miguel (detido em Agosto, quando tentava sair clandestinamente
de Portugal (Nota 3) ) e Guilherme da Costa Carvalho (detido em Novembro), bem
como Júlio Fogaça.
Preso em companhia de um companheiro na Nazaré, em 28 de Agosto, Júlio Fogaça foi
alvo de humilhantes perguntas acerca da sua homossexualidade, a qual tinha sido
confessada pelo outro preso. A recusa de Fogaça em responder às perguntas da polícia
revelava, segundo esta, que estava «cumprindo fielmente as directivas emanadas da
"direcção central" do já referido "PCP"» (Nota 4). Em Novembro de 1961, o CC
comunicaria, porém, a expulsão, «por acções imorais, por graves faltas conspirativas» e
«por gastos indevidos de dinheiro», de Júlio Fogaça (Nota 5). Através de vários
documentos apreendidos a este último, a Pires Jorge e a Alcino Ferreira, a PIDE
conseguiu não só acrescentar dados à tipificação do comportamento dos clandestinos
como usar alguns efeitos contraditórios, conflituosos e perversos provocados pela
clandestinidade (Nota 6).
Ainda em Agosto desse ano de 1960, foram detidos os funcionários clandestinos Maria
Cândida Ventura, membro efectivo do CC, e Orlando Lindim Ramos, membro
substituto do CC, cooptado em 1959 para preencher uma das vagas ocorridas devido a
prisões do ano anterior. Ambos eram então dirigentes do sector do Ribatejo e parte do
Oeste. Foi Gouveia, instrutor do processo, a concluir que Lindim Ramos era do CC,
embora suplente, pois que, se provas faltassem, «bastava o facto de viver em mancebia
(com Ventura) para comprovar aquela posição». Caso contrário, se fosse um simples
funcionário, Gouveia afirmou que nunca «a direcção do PCP consentiria que um
membro seu vivesse daquela forma», «dado que não lhe seria possível esconder a
"responsabilidade" da sua "tarefa" dirigente" no citado "partido"» (Nota 7).
Quase no fim de 1960, a PIDE prendeu diversos trabalhadores rurais do Couço,
suspeitos de ligações ao PCP, provavelmente denunciados por um informador. No
resumo dos autos, conduzidos pelo inspector Pereira de Carvalho, considerava-se o
Couço como «uma das terra do País, à qual o partido tem votado a maior atenção,
fundos, dado grande número de membros» e na qual o PCP gozava «de certa
impunidade».

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 370 GT, José Arandes «Castres», fl. 91.
Nota 2 - Ibidem, pr. 6 GT, Alcino Sousa Ferreira; documento encontrado no arquivo de
Pires Jorge, em 26/7/1960, da autoria de «Pedro», fls. 22 e 26.
Nota 3 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, pp. 179-180.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 844/60, pr. 185 GT Júlio Fogaça, fl. 36.
Nota 5 - Ibidem, pr. cr. 844/60, Júlio Fogaça, fls. 28, 81-90 e 255; O Militante, Julho de
1961.
Nota 6 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, p. 193.
Nota 7 - PIDE/DGS, pr. CI (2) 5349, fls. 22, 24, 28, 33, 62, 87 e 89; pr. 16/GT, fls. 141-
159.

167

A PIDE acrescentava que a organização local do PCP no Couço era constituída por
elementos rudes e sem cultura política, mas que obedece[iam]m fanaticamente à
"palavra de ordem" do "partido", modificando amiudadamente os seus "quadros" como
medida conspirativa» (Nota 1).

VI.4. 1961, ANNUS HORRIBILIS PARA O REGIME MAS TAMBÉM PARA O PCP

O ano de 196l iniciou-se, em 21 de Janeiro, com o arranque, em La Guaira, Curaçao, da


operação Dulcineia, ou seja, o assalto ao paquete Santa Maria. Delgado confirmou
depois, no Rio de Janeiro, que era o responsável pela operação e Henrique Galvão
decidiu entregar o paquete às autoridades brasileiras, encaminhando-o para o Recife,
onde seria entregue às autoridades portuguesas. No dia seguinte, foi divulgado o
documento «Programa para a democratização da República», sendo todos os 62
signatários incriminados e muitos presos, em Maio de 1961.
Em 4 de Fevereiro, independentistas angolanos tentaram assaltar a Casa de Reclusão
Militar e outros objectivos em Luanda, resultando sete mortos entre as forças policiais e
incontáveis vítimas entre os atacantes. Em 15 de Março, a partir da fronteira e da região
dos Dembos, membros das
Tribos Bakong empreenderam uma insurreição que alastrou aos distritos de Luanda,
Cuanza Norte, Maianje, Uíje e Zaire, tendo sido chacinados dezenas de colonos
brancos. Os acontecimentos relatados pela imprensa nacional e internacional causaram
profunda emoção na opinião pública portuguesa, sendo a responsabilidade dessas
acções atribuída à UPA, de Holden Roberto.
Entretanto, em Portugal, recém-fugido de Peniche após 11 anos de prisão, prestigiado
por não se ter envolvido na linha de ultradireitismo, Álvaro Cunhal foi eleito secretário-
geral do PCP, em Março de 1961, e orientou o partido para uma severa crítica ao
«desvio à direita». Com o regresso de Álvaro Cunhal voltou não só a estratégia de
desmantelamento do regime, através do «levantamento nacional» (Nota 2), como a
afirmação da hegemonia do PCP na luta contra a ditadura, enquanto organizador
autónomo da luta de massas e da mobilização para uma futura insurreição popular.
Por outro lado era derrotada a chamada «Abrilada», liderada pelo ministro da Defesa
Nacional, Júlio Botelho Moniz, que, como se verá, pretendera levar o presidente da
República, Américo Tomás, a demitir Salazar. Este assumiu então a pasta da Defesa
Nacional e, num importante discurso, afirmou que «andar rapidamente e em força» para
Angola era o objectivo que iria pôr à prova a capacidade de decisão do governo
português. Na véspera das eleições de deputados para a Assembleia Nacional, em que os
candidatos da oposição em oito círculos do continente e no Funchal anunciaram a
desistência, ocorreram confrontos com a polícia em Almada e em Lisboa, sendo morto
Cândido Capilé (Nota 3).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 856/60, Arnato David Brás, Joaquim Fino Henriques, Custódio
Henriques, Joaquim Domingos da Cruz, António Camilo, António Catarino e Joaquim
Castanha, fls. 72, 111, 131, 178, 194, 211, 222, 228, 285, 326, 340, 345, 392, 411, 422,
522 e 523, ibidem, pr. 43 GT, João Camilo Pereira da Rosa, fl. 91; ibidem, pr. 861/60.
Processo do CL do Couço.
Nota 2 - Carlos A. Cunha, «PCP», Dicionário de História de Portugal, vol. 8, pp. 25-29.
Nota 3 - Arquivo do Tribunal Boa Hora, pr. 92/62, 2.º Juízo, caixa 703, Octávio Pato e
Albina Fernandes, vol. 1, Informações de Novembro 1961.

168

Em 10 de Dezembro, ocorreu a operação Vagô, organizada por Henrique Galvão: tratou-


se da tomada, em pleno voo, do avião da TAP Mouzinho de Albuquerque, que fazia a
linha Casablanca-Lisboa, por um comando onde se incluíam Hermínio da Palma Inácio
e Camilo Mortágua. No dia 18, a União Indiana ocupou Goa, Damão e Diu, quase sem
resistência, embora Salazar tenha dado ordens para que esta se fizesse até ao último
homem. Dez dias depois, Humberto Delgado entrou clandestinamente Portugal,
passando por Lisboa e dirigindo-se a Beja para comandar uma revolta militar que
deveria eclodir no regimento de Infantaria 3 nesta rida de, mas foi derrotada à nascença.
Entretanto, na Avenida Elias Garcia, em Lisboa — zona fatal para d funcionários do
PCP, muitos dos quais foram presos nas Avenidas Novas -, a brigada de José Gonçalves
conseguiu capturar o funcionário do PCP Ilídio Esteves, em 6 de Fevereiro de 1961. No
mesmo dia, foi detida Maria Fernanda Paiva Tomás «Maria» (ou «Maia», ou
«Marques», ou «Ana»), recentemente cooptada para o CC do PCP, que vivia na
ilegalidade desde 1952 e actuara no Porto, controlando interinamente o sector
intelectual até final de 1958. Fernanda Paiva Tomás foi uma das primeiras mulheres a
ser torturada pela PIDE segundo o padrão da tortura aplicado aos presos do sexo
masculino (Nota 1).
Por seu lado, Fernando Gouveia contou que, numa noite de Setembro de 1961,
regressava ele da Feira Popular com a família pela Avenida de São João de Deus,
quando tentou distrair a sua filha de um jovem par que se beijava, e reparou num
indivíduo que subia a avenida, «ora encoberto pelo par amoroso ora descoberto, dadas
as deambulações dos jovens dentro do próprio passeio». Mas a certa altura o indivíduo
atravessou a rua, chamando a atenção de Gouveia, que reconheceu Fernando António
Piteira Santos. «Discretamente», Gouveia enviou a família para casa e interpelo* teira
Santos, que emudeceu e foi enviado para a sede da PIDE (Nota 2).
Em 4 de Dezembro de 1961, um grupo de comunistas — Francisco Miguel, José Magro,
Guilherme da Costa Carvalho, António Gervásio, Domingos Abrantes, Rolando Verdial
e Ilídio Esteves — conseguiram evadir-se da cadeia de Caxias, utilizando o Chrysler
blindado de Salazar. Esta vitória do PCP foi, no entanto, obscurecida pela prisão, no dia
15, dos dirigentes do partido, Pires Jorge, Octávio Pato, Américo de Sousa, Júlio Silva
Martins e da sua companheira Natália David Campos. Estas prisões deveram-se, em
parte, a Lázaro do Carmo Viegas, um informador da polícia, ligado, no PCP, a Francisco
Canais Rocha. Numa ocasião, Viegas transportou Canais Rocha, na sua viatura Fiat para
um encontro na Avenida da das Descobertas, em Belém, com Octávio Pato.
Este conduzia um automóvel Taunus, cuja matrícula ficou na posse da PIDE, dado que o
encontro foi presenciado pelo chefe de briga Gonçalves e pelo subinspector Baptista da
Silva.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 18 429 Cl (2) SC, Fernanda Paiva Tomás; pr. 25 GT, Fernando
Tomás; pr. cr. 281/50.
Nota 2 - Fernando Gouveia, Memórias de Um Inspector da PIDE, pp. 385-387.

Francisco Canais Rocha apanhou, depois, no apeadeiro de Braço de Prata, o comboio


para o Porto, sendo seguido por esses dois elementos da PIDE, que, no entanto, lhe
perderam o rasto. O próprio Canais Rocha confirmou esses factos, em 5 de Maio de
1975, afirmando que Carmo Viegas («Madeira») lhe tinha sido apresentado pelo
dirigente comunista Joaquim Gomes e transportava habitualmente dirigentes do PCP no
seu carro.
Através do mesmo informador, José Gonçalves apurou que o indivíduo em ligação com
Canais Rocha era provavelmente um elemento importante do PCP c foi indagar a quem
pertencia o Taunus, verificando que o seu dono morava perto da Rua de São Bento,
onde montou vigilância (Nota 1). Na sequência dessa localização, foram detidos alguns
dos principais dirigentes do PCP no que foi considerado um dos maiores «desastres» da
vida desse partido: Octávio Pato, ao volante de um Anglia, na auto-estrada Lisboa-
Sintra, companheira Albina Fernandes, na casa ilegal de ambos, e Júlio da Silva
Martins, bem como Natália David Campos, noutra «instalação» em Linda-a-Velha. Na
casa ilegal destes dois últimos, a PIDE apanhou inúmeros passaportes, cujos detentores
interrogou, acusando os dois de serem quadros técnicos do aparelho de falsificação de
documentos do PCP. Depois de assaltada a casa de Júlio Martins, o subinspector
Baptista da Silva manteve lá agentes, que detiveram, em 30 de Dezembro, quando aí se
dirigiam, Américo Gonçalves de Sousa e Carlos Campos Costa. Manuel Lavado
esclareceu que nessas capturas trabalharam duas brigadas da PIDE, chefiadas pelo
inspector Baptista da Silva, com os chefes de brigada e agentes Ferreira Beto e Inácio
Ribeiro Ferreira, reforçadas com pessoal da Investigação, chefiado pelo inspector
Gouveia (Nota 2).
No mesmo dia 15 de Dezembro de 1961, em que foram detidos Júlio Silva Martins e
Natália David Campos, foi detido Joaquim Pires Jorge («Gomes»), do Secretariado do
CC do PCP, numa padaria em Algés, pouco depois de se ter apeado de um automóvel de
marca Taunus. A PIDE concluiu, assim, que não era Pato que conduzia o Taunus, que
tinha sido duas vezes por agentes na Rua Castilho, mas sim Pires Jorge. A este a PIDE
apreendeu um bilhete de identidade falso, em nome de José Faria Rodrigues, com
impressões digitais de José Dias Coelho, que, segundo a PIDE, tinha sido o falsificador
dos documentos. O ano de 1961 continuaria a ser trágico para o PCP, com o assassinato,
a 19 de Dezembro, de José Dias Coelho, na Rua da Creche, em Alcântara/Lisboa, por
uma brigada da PIDE comandada por José Gonçalves, como se verá.
Entre outra documentação, foi apreendida a Pires Jorge uma agenda de bolso com
actividades partidárias, um papel onde estava escrito «reunião do dia 15», dia em que
foi preso, e a habitual lista distribuída pelo PCP aos seus funcionários contendo
matrículas e marcas de automóveis da PIDE. Nos interrogatórios, Pires Jorge não
prestou qualquer declaração, mas a PIDE sabia, através de outro preso, integrado no CL
do Estoril (Nota 3), que «Gomes» se tinha instalado, com Georgette Ferreira, na
Vivenda Montalvinho, em São João do Estoril, alugada por Octávio Pato.

Nota 1 - Arquivo Histórico Militar, Manuel da Silva Clara, 4.° TMT, proc. 3, pr. 1656,
1." Secção, do Serviço de Justiça do Serviço de Coordenação de Extinção da
PIDE/DGS, relativo a apenso ao processo, sem número de folha e fl. 25.
Nota 2 - Ibidem, Manuel Lavado, chefe de brigada, 4.a Juízo do TMT, proc. 85/79, Auto
474 de 20/6/79, fl. 25.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 1083/61 e pr. 58 GT, vol. 1, Joaquim Pires Jorge.

170

VI.5. A ENTRADA EM CENA DAS JUNTAS PATRIÓTICAS E OS «DESASTRES» DE 1962 E 1963

Entretanto, em final de Abril de 1962, a PIDE detectara e prendera elementos das juntas
de acção patriótica (JAP) — núcleos unitários criados em 1959 pelo PCP — e membros
da direcção do organismo de estudantes universitários do PCP de Coimbra. O primeiro a
ser detido, nesta cidade, havia sido o funcionário do PCP Eduardo Viana, transferido no
mesma dia para Lisboa, que teria estado na origem das prisões. Depois, foram
referenciados como responsáveis pelo sector académico de Coimbra das referidas JAP
os professores Orlando de Carvalho e Joaquim Namorado (Nota 1), enquanto o médico
de Coimbra Manuel Lousã Henriques foi detido, acusado de pertencer ao organismo de
direcção dos intelectuais daquela cidade.
O facto de as prisões em massa terem principiado em Coimbra no da 27 de Abril, treze
dias depois da prisão de Viana e dois dias após a vigilância policial já ali estar
concentrada, podia ser indicativo de que aquele funcionário devia «ter começado logo a
falar», devido à «maneira pormenorizada como a PIDE se referira às organizações que
ele controlava exibindo um grande conhecimento sobre elas». Estes dados vinham num
relatório enviado ao CC onde se referia a preocupação nítida de a polícia «esconder o
nome do traidor o que aliás e[ra] ainda mais claro se considerarmos que a PIDE estava
(não sabemos se está ainda) a justificar as prisões em massa em Coimbra pelos dados
apreendidos em casa de Lindolfo» (Nota 2).
Ainda segundo esse relatório, ao ser interrogado, este último tinha ouvido de um agente
a seguinte frase: «Quando você souber o que se passou com uma pessoa que conhece
bem vai dizer que isso é traição, mas não é, ele já não podia mais.» Quanto ao agente
Aguiar, afirmara-lhe que o «outro que o meteu cá é que teve juízo». Seja como for,
através das detenções dos membros da direcção do organismo de estudantes
universitários do PCP Mário Aires Marques da Rocha Pereira, Adalcina Maria Casimiro
Silva e Francisco José de Sá Lopes, bem como de documentos apreendidos, a PIDE
ficou a saber que um «Frederico», de Cantanhede, estudante Direito em Coimbra, fazia
também parte da direcção estudantil comunista, juntamente com J. A. da Silva Marques
e Germano Ferreira da Costa, ambos fugidos (Nota 3).
Este último tinha conseguido escapar, quando a PIDE detectara um encontro em que ele
se deveria reunir com João Honrado e Augusto Lindolfo, os quais foram presos, em 25
de Abril. No dia seguinte a essas duas detenções, o agente Abílio Pires prendeu, numa
casa no Porto, Evelina Ferreira, natural de Santiago do Cacém, companheira de
Lindolfo e irmã de outras duas funcionárias do PCP.

Nota 1 - Ibidem, pr. 310 GT, Manuel Lousã Henriques.


Nota 2 - No arquivo de Blanqui Teixeira, a PIDE apreendeu, em 1963, um relatório
sobre «Alguns aspectos da traição de Viana».
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 9079 SC, pasta 15/1 «Elementos do PCP de Tortozendo», pasta
15/2, «Estudantes», Resumo dos autos, fls. 14, 18, 23, 28 e 52.

171

Em Junho, Evelina Ferreira reconheceu as fotografias de José Carlos, com o qual tinha
vivido numa casa em Setúbal, de António Dias Lourenço, Rogério de Carvalho e
Joaquim Gomes dos Santos.
Evelina Ferreira, segundo a PIDE, resolveu pôr a claro toda a actividade por si
desenvolvida durante sete anos em que viveu na clandestinidade, fornecendo deste
modo à polícia documentos preciosos, pelo que foi libertada (Nota 1). No resumo dos
autos do processo, a PIDE concluiu que Lindolfo e Honrado, cuja mãe também foi
interrogada, ao visitar o filho, eram funcionários do PCP e controlavam a zona a norte
do rio Mondego e a organização de Coimbra, nomeadamente os sectores estudantil e
intelectual. Honrado foi condenado a cinco anos e meio de prisão maior, enquanto
Lindolfo sentenciado em três anos (Nota 2).
No Porto e em Lisboa, a PIDE deteve ainda o advogado Armando Bacelar, o economista
Ernesto Lindim Ramos e o pintor Nikias Skapinakis, de pertencerem às JAP (Nota 3).
No Norte, numa ponte entre Santo Tirso e Famalicão, a PIDE prendeu, em 28 de Abril,
Joaquim Araújo, quando este se dirigia para um encontro com Domingos do Carmo
(Nota 4). Joaquim Araújo conseguiria fugir da prisão da PIDE do Porto, juntamente com
J. ª da Silva Marques, também detido, mas em 2 de Maio, nas traseiras de Espinho,
denunciado por um jovem que se deveria encontrar com ele nesse dia e havia já sido
preso, ao distribuir manifestos apelando para uma manifestação no 1.° de Maio (Nota
5).
Ainda em 24 de Maio de 1962, foram presos num encontro junto à Igreja de São
Domingos de Rana os funcionários clandestinos José Manuel de Oliveira Bernardino e
José Tavares Magro, ambos da direcção do PCP de Lisboa. O primeiro tinha sido visto
pelo agente Pedro Ferreira, em 22 de Maio, a circular numa viatura Fiat 500, pela Praça
Marquês de Pombal, em Lisboa, com quatro pessoas, pelo que a PIDE enviou, a 24,
uma circular telefónica à PSP, instando esta polícia a apreender o automóvel e a prender
os seus ocupantes (Nota 6).
Bernardino estava integrado no CL de Lisboa, sob a orientação de José Magro, que
tinha comandado a agitação operária e estudantil desse ano na capital, com vista a
preparar um «levantamento nacional», programado para 28 de Maio (Nota 7), após ter
orientado «tumultos» em 1 e 8 de Maio de 1962 (Nota 8).

Nota 1 - Ibidem, pr. 1143/62, l.a Divisão, Evelina da Conceição Ferreira, fls. 122, 124,
125, 128,171 e 224.
Nota 2 - Ibidem, pr. 1143/62, l.a Div. Augusto Lindolfo, João António Honrado e
Evelina da Conceição Ferreira, fls. 33, 35, 37, 40, 43, 47, 49, 52, 53, 56, 60, 62, 80, 96,
107, 110, 171,224,226, 233, 249, 298, 311, 312, 315, 325, 328, 333, 340, 347, 397, 419
e 420.
Nota 3 - A0S/CO/IN-14, pasta 15.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 570 GT, Joaquim Araújo, fl. 144, documento encontrado no
arquivo de Blanqui Teixeira, em 1963, da autoria de Jorge Araújo.
Nota 5 - J. A. Silva Marques, Relatos da Clandestinidade: O PCP Visto por dentro, p.
100.
Nota 6 - PIDE/DGS, pr. cr. 1293/62, l.a Div., José Manuel Mendonça de Oliveira
Bernardino,
fl. 11.
Nota 7 - Ibidem, pr. cr. 1293/62, l.a Div., José Manuel Mendonça de Oliveira
Bernardino, fls. 106, 116, 178-179 e 346-369.
Nota 8 - Ibidem, pr. cr. 1067/62, l.a Div., José Tavares Magro, fls. 62 e segs.

172

Ainda nesse mês de Maio, a PIDE deteve, por seu turno, um enfermeiro do Hospital
Júlio de Matos, colocando-o na sala onde estava preso o capitão Varela Gomes, detido
por participação no golpe de Beja. Este ultimo referiu ter sido avisado da função desse
«provocador/informador» pelo servente prisional José Martins, que estranhara «o
tratamento excepcional de que ele passara a beneficiar depois de regressar do primeiro
interrogatório» o que só podia significar que «o preso tinha "rachado"». O certo é que o
«novo recruta da PIDE foi posto em liberdade passados uns oito dias», constando «que
teria sido destacado para Paris para aí tentar infiltrar-se nos meios de emigrantes anti-
fascistas» (Nota 1).
No mesmo ano de 1962, a PIDE atacou, a 13 de Agosto, uma casa do Secretariado e,
uma semana depois, outra instalação clandestina, em Caneças, de Joaquim Gonçalves e
Maria Luísa Silva. Ao analisar esses «desastres», numa reunião realizada em Dezembro,
o CC considerou que os funcionários e dirigente presos tinham cometido graves erros
conspirativos devido à euforia ligada à manifestação do 1.° de Maio. Nomeadamente
José Magro, dirigente de um organismo especial criado para a realização da mesma, foi
criticado por ter revelado liberalismo e ideias erradas sobre a «breve queda do
fascismo» (Nota 2).
O Diário Popular de 26 de Maio de 1963 transmitiu uma nota ofíciosa da PIDE segundo
a qual, após a prisão, em Janeiro, de membros do CL de Lisboa, essa polícia localizara
algumas casas clandestinas, capturando em simultâneo, além de Joaquim Jorge Araújo,
preso, como se viu, no ano anterior, e fugido da delegação da PIDE do Porto, e a sua
mulher, Maria Matilde Cerejeira Nunes Bento, os funcionários do PCP José Carlos, a
sua mulher, Olívia Sobral, Guilherme da Costa Carvalho, Manuel Rodrigues, a sua
mulher, Lucrécia dos Santos, António João da Silva e a sua mulher, Corália dos Santos.
Estes últimos, que eram pais de Adelino Pereira da Silva, preso no ano anterior acusado,
entre outras actividades, de ter falsificado documentos para o PCP, foram detidos a 6 de
Maio, numa casa clandestina em Coimbra, que habitavam juntamente com Blanqui
Teixeira, também capturado. Segundo o resumo do seu processo instruído pela PIDE, o
CC decidira recentemente a transferência do Secretariado para o estrangeiro, algures na
«cortina de ferro», mas Blanqui tinha permanecido no país, como elemento desse órgão
máximo da direcção do PCP (Nota 3).
Fugido de Peniche em 1960, José Carlos foi recapturado em 7 de Maio de 1963,
juntamente com a sua companheira Olívia Sobral e Guilherme da Costa Carvalho, numa
casa da Malveira da Serra, onde foi apreendida muita documentação (Nota 4).

Nota 1 - João Varela Gomes, Tempo de Resistência, pp. 145 e 147.


Nota 2 - Arquivo do Tribunal da Boa Hora no IAN/TT, pr. 92/62, 2.a Juízo, Octávio
Pato e Albina Fernandes, fl. 611.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 1286/63, l.a Div. Blanqui Teixeira, Corália Pereira e António
João da
Silva, fls. 41-73 e 67-71.
Nota 4 - Ibidem, pr. cr. 1290/63, pasta 15/1 «Elementos do PCP de Tortozendo», vol. 1,
fols. 1 segs. e 293, vol. 2, fls. 56, 116, 118, 176 e 193, vol. 3, fls. 33, 105 e 146.

173

Em Agosto de 1963, o director da PIDE enviou a Salazar uma nota oficiosa a informar
que o Secretariado do PCP ordenara uma reorganização dos quadros directivos em
Portugal, enviando para o território nacional dois elementos entrados clandestinamente
no país através do aparelho de fronteiras do PCP, a cargo de Manuel Gonçalo Maia e
Ramiro Moreira da Costa. Estes tinham sido, porém, presos numa casa ilegal, seguindo-
se a esta prisão várias outras detenções de funcionários clandestinos, em cuja captura
tinha perdido a vida o agente da PIDE João Peres Águas (Nota 1). Os detidos eram
Isidro Paula («Quim»), corticeiro da Moita, Carlos Gouveia dos Santos («Valentim»),
polidor, e Carlos Loureiro de Carvalho («Pires»), ex-oficial da Marinha Mercante, desde
1958 funcionário do PCP e locutor da Rádio Praga (Nota 2).

VI.6. O caso Verdial e o desmantelamento do organismo intelectual de Lisboa

As diversas detenções de trabalhadores portuários, estivadores, operários da construção


naval e da Carris, de dirigentes do PCP e o assalto a casas clandestinas em Queluz e no
Barreiro foram atribuídas, por uma circular da Comissão Executiva do CC de Maio de
1963, à detenção e traição de «Augusto» (Pedro Lourenço dos Santos), um funcionário
do CL de Lisboa do PCP que actuava na União da Juventude Portuguesa. Acerca dele, a
PIDE/DGS diria mais tarde que, «dada a franqueza com que descreveu nesta polícia,
todas as actividades subversivas», foi «restituído à liberdade, sem ter sido tomado
qualquer procedimento». No seu processo, um cartão com o seu nome manuscrito
enviado por Henrique Tenreiro a um elemento da PIDE, em 22 de Maio de 1963, dava
conta de que o «homem» já tinha «emprego» no Rio de Janeiro e que, «portanto, o
assunto [estava] solucionado».
«Augusto» era, por seu turno, controlado por Rolando Verdial, que terá talvez sido um
dos elementos que mais prejudicou o PCP, ao denunciar, não só mas também, todo o
sector intelectual de Lisboa, que controlava, e que foi consequentemente desmantelado
(Nota 3). As razões da traição de Verdial prenderam-se certamente com as
circunstâncias da vida dos casais clandestinos. Casado com Maria Ângela Vidal, de
quem teve um filho, Rolando Verdial fora preso pela primeira vez em Maio de 1952 e,
depois, entregue à família pela PIDE, por dar indícios de «alienação mental», embora a
polícia considerasse posteriormente que se havia tratado de simulação.
Verdial tinha ingressado depois na clandestinidade, no Algarve, com a mulher e o filho,
bem como com outro funcionário, Carlos Costa, antes de ser preso em Paderne,
Albufeira, em 24 de Maio de 1953. Segundo o relatório da PIDE, ao ser detido «parecia
estar a sofrer forte crise nervosa». A polícia concluiu que os indícios de desequilíbrio
mental revelados por Verdial poderiam ter sido causados por várias razões: ou por haver
infringido as ordens do PCP, segundo as quais, no momento da captura, deveria ter
ocultado que era comunista; ou em resultado de haver sido «despedido» da «casa do
partido», onde vivia com a mulher e outro funcionário (Nota 4).

Nota 1 - A0S/CO/IN-14, pasta 12, 3/8/1963.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 19432 SR, Dinis Miranda; O Primeiro de Janeiro, 4/8/65.
Nota 3 - AOS/CO/IN-14, pasta 1.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 89/53, vol. 1, Rolando Verdial e outros, fls. 150, 154-163, 172 e
180.

174

Condenado a seis anos de cadeia e medida de segurança, Verdial evadira-se do Aljube


em 1957, mas, novamente recapturado e julgado, em 17 de Dezembro de 1960, fora
condenado a seis anos de prisão maior (Nota 1). Voltara a fugir de Caxias, na evasão
colectiva de 1961, passando a pertencer à troika que controlara o CL de Lisboa, até
voltar a ser preso em 1963 (Nota 2).
O seu pai, Mem Verdial, um oposicionista do Porto, escreveu ao ministro do Interior a
dar conta de ter encontrado o filho em bom estado da saúde, na sua primeira visita na
prisão, em 4 de Março desse ano. No entanto, ao voltar a visitá-lo, em 15 de Maio,
Rolando contara-lhe a sua «dolorosa experiência», levando o pai a dizer-lhe: «Estás
doido!» Na sua petição Mem Verdial perguntava: «Que métodos científicos teriam sido
empregados para que em 54 dias o meu filho ficasse louco?», de tal modo que acabasse
internado no Hospital Júlio de Matos (Nota 3).
Veja-se agora o que se terá passado. No processo de Mário Soares existe uma cópia do
auto de perguntas feitas a Rolando Verdial em 15 de Maio de 1963 pelo inspector-
adjunto Cunha Passo, com o chefe de brigada Adelino Tinoco e o agente António
Capela, em que este relatava toda a sua biografia política. Nesse auto de perguntas
consta a frase, que terá sido pronunciada por Rolando Verdial, de que, após «ter
reconsiderado e ponderado maduramente a sua situação, resolveu esclarecer o melhor
que pode toda a actividade partidária e conspirativa que desenvolveu e... abandonar
definitivamente essas actividades». O facto é que é verdadeiramente impressionante, no
processo-crime n.° 1641/63, de Rolando Verdial, o rol de denúncias que fez à PIDE, à
qual relatou a sua actividade desde 1948, bem como os nomes de cerca de 70 pessoas,
entre militantes, funcionários, médicos e intelectuais do PCP. Em 29 de Maio de 1963, o
juiz António Almeida Moura emitiu o mandato de liberdade condicional para Rolando
Verdial (Nota 4).
Em Junho, o PCP já sabia da traição de Verdial, pois discutiu-a internamente. A PIDE
ficou a saber o que se havia passado numa dessas reuniões ao apreender um relatório a
Joaquim José Dias, onde Verdial era descrito como um poço de defeitos: não só era
conflituoso, carreirista e vaidoso, como se esforçava «por se pôr em destaque
rebaixando os outros» e se gabava de ter dirigido lutas para que nada fizera. Esse
militante analisava, depois, atitudes anteriores, já com os olhos de quem sabia da
traição, mas embora «visse os seus aspectos errados, nunca sonhou que pudesse trair
pois «tivera posições corajosas perante o inimigo», mesmo se algumas velassem mais
anormalidade que coragem» (Nota 5).

Nota 1 - Ibidem, pr. 92 GT, Rolando Verdial, cópia do parecer do processo-crime


728/57, fls. 39, 50, 52, 57 e 87.
Nota 2 - Ibidem, pr. 2069/67, Mário Soares, vol. 2, fls. 61, 70, 72, 76, 80, 82, 92 e 97.
Nota 3 - AOS/CO/1N-13, pasta 17, pedido a Salazar, em 20/6/63, de abertura de um
inquérito sobre o tratamento ministrado a Rolando Verdial, preso pela PIDE.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. dir. 728/57, Rolando Verdial e Ivone Dias Lourenço, fls. 593-
5^ 633.
Nota 5 - Ibidem, pr. 110 GT, Joaquim José Dias, fl. 107.

175

Como provas da traição de Verdial, registe-se que a Comissão de Extinção da ex-


PIDE/DGS descobriu, após 25 de Abril de 1974, uma carta confidencial enviada pela
delegação do Porto ao director da PIDE, em Lisboa, com o seguinte texto:
«Para reembolso desta Delegação do Conselho Administrativo, junto tenho a honra de
enviar a Vexa. um documento de esc. 3000$00, importância entregue a Rolando Verdial,
segundo instruções telefónicas dessa dir. 13 de 1963, assina o inspector António Diogo
Alves.»,

Noutro manuscrito, provavelmente da directoria de Lisboa, consta a seguinte passagem:


«Faz-se um vale branco e envia-se o dinheiro à delegação.» Outro documento ainda é
uma carta de Álvaro Pereira de Carvalho, de Lisboa, ao «caro amigo inspector António
Diogo Alves», datada do Porto, de 20 de Agosto:
«Relativamente ao ofício confidencial dessa delegação, n.° 578/S.a proc. 6 - 3 secção de
13 deste mês, comunico-lhe que nesta data se remeteu pelo vale postal n.º 33066 a
importância de 3000$... para reembolso a esse Conselho Administrativo de igual quantia
entregue a Rolando Verdial. Tomo a liberdade sugerir que, de futuro, e em casos
semelhantes, não se utilizem ofícios numerados e os assuntos sejam postos directamente
ao Exmo. Inspector Superior. Desse modo, evitar-se-ão os registos de entrada nos vários
livros e o consequente conhecimento dos factos aos diversos funcionários pelas mãos de
quem passam» (Nota 1)
A partir da traição de Rolando Verdial, a PIDE desatou os fios da rede do organismo
intelectual de Lisboa, nomeadamente dos núcleos comunistas dos arquitectos,
engenheiros, advogados, médicos, escritores e artistas, prendendo dezenas de pessoas
em Lisboa (Nota 2). O organigrama do sector intentelectual, com os respectivos
militantes, controleiros e dirigentes, que abaixo se apresenta, foi feito com base no que a
PIDE apurou ao prender sucessivos seus membros. No despacho enviado a tribunal, a
PIDE reafirmou a «importância desse sector [dos intelectuais de Lisboa], agora
desmantelado pela primeira vez», vertendo interessantes comentários, reveladores de
que o que mais a revoltava era a origem social elevada dos seus membros:
«O que confrange é verificar-se que indivíduos cultos, bem preparados e instalados,
com enormes responsabilidades pessoais e profissionais, se deixem acorrentar de tal
forma que reneguem a Deus, traiam a pátria, ignorem ou desprezem a família [...]. E são
eles intelectuais, mentores de um povo, condutores de massas, já pela cultura, já pela
posição social, já pelas facilidades de toda a ordem de que vêem rodeados [que] [...]
assim agem e colaboram numa obra corruptora de gerações, revestidos de uma capa de
humanitarismo que os faz aparecer como heróis ou como mártires, aos olhos dos menos
instruídos.» (Nota 3)

Nota 1 - Ibidem, pr. 92 GT, Rolando Verdial, fls. 119-131. «Documentos


comprometedores para o Verdial. Elementos que provam a sua traição».
Nota 1 - Ibidem, pr. 506 GT, Frederico Georges Mirrão, fl. 60; pr. 1596/63, Sector
intelectual de Lisboa.
Nota 3 - Ibidem, fls. 234-251.

176

Refira-se ainda que o desmantelamento do sector intelectual não implicou que a PIDE
prendesse todos os seus elementos, provavelmente porque, ao prender os principais
dirigentes, considerou que os outros ficariam paralisados. Mas o mais certo é que, como
fez frequentemente, tenha deixai ficar em liberdade certas «pontas» que, sob vigilância,
poderiam posteriormente conduzir a outras prisões. Por exemplo, não deixou de manter
sob vigilância uma engenheira química, integrada no organismo dos engenheiros,
mulher do respectivo responsável, que nunca foi detida (Nota 1).

Quadro 18 – Organismo Intelectual de Lisboa [omitido]

O PCP apercebeu-se disso, dado que num documento apreendido provavelmente da


autoria de Pedro Soares, se afirmava que, em vez de prender todo e qualquer elemento
do PC, a PIDE «procurava castrar a combatividade desses elementos, aterrorizá-los e
levar a cabo uma acção destrutiva entre as massas», só reprimindo e prendendo quando
via que isso não resultava (Nota 2). Efectivamente, o próprio Fernando Gouveia
esclareceu mais tarde, que «havia o cuidado e a preocupação de só efectuar capturas de
elementos com responsabilidades nos sectores e nas células», de modo a cortar a ligação
com todos os elementos sob o seu controle, que assim eram forçados a ficar desligados,
dado o desmantelamento».

Nota 1 - Ibidem, pr. 1802 E/GT, Maria Joaquina Gomes Silvério.


Nota 2 - Ibidem, pr. 89 GT, Pedro dos Santos Soares.

177

Acrescentou, assim, que «raramente era efectuada uma prisão de membro de base,
«sendo certo que na polícia ficavam as identidades desses indivíduos não presos, para o
caso de ser restabelecida a ligação anterior». Essa actuação tinha por fim, segundo
Gouveia, quer evitar um número excessivo de prisões, quer «provocar o afastamento
desses indivíduos da reorganização clandestina por saberem que corriam o risco de
serem caso de voltarem à actividade» (Nota 1).
A PIDE prendeu ainda, em 1964, Joaquim José Dias, o «Capador», acusado de ter sido
um dos agitadores da paralisação de trabalho no Couço, em 1958, onde então formara
um CL do PCP (Nota 2), controlado por José Miguel «Lambanas», elemento do CC
assassinado em 1961, mas que antes prestou diversas informações à PIDE. Joaquim José
Dias estava na clandestinidade com a sua mulher, Custódia Marques Dias, fazendo
então parte do organismo regional do Baixo Alentejo (Alcácer do Sal, Grândola e
Santiago do Cacém) (Nota 3).
Joaquim Augusto dos Santos foi, por seu turno, preso em 3 de Abril 1964, em Pinhal
Novo (Palmela), não sem ter resistido à PIDE, que o teve de desarmar. Joaquim Augusto
dos Santos ingressara no PCP em 1958, e na clandestinidade, dois anos depois, com a
sua mulher, Amélia Estêvão («Irene») e a filha. Ascendendo a membro do organismo de
direcção regional do Alentejo, em substituição do seu antigo controleiro, António
Gervásio, frequentara depois um curso em Moscovo. Com a ausência de Gervásio,
então na capital da URSS, a mulher deste, Maria Cabecinha («Lina»), ficara a residir na
casa ilegal habitada por Joaquim Augusto dos Santos e Amélia Estevão (Nota 4). Esta e
Maria Cabecinha foram, por seu turno, presas nessa casa ilegal em 12 de Abril,
recusando-se a prestar declarações (Nota 5). Através destas prisões, a PIDE detectou o
CL de Baleizão, prendendo, entre Abril e Junho de 1964, vários dos seus elementos,
entre os quais a costureira Mariana Janeiro. A PIDE reconheceu que, «se todos os
arguidos souberam merecer» a confiança do PCP, «um existe que a terá, hoje mais que
nunca, já que soube defender intransigentemente a sua posição, cumprindo
escrupulosamente, até ao fim, a "palavra de ordem" que o "partido" impõe a todos os
seus "membros"». Tratava-se de Mariana Janeiro, que, como se verá, foi violentamente
torturada e que, segundo a PIDE, «obstinadamente, se recusou as responder a todas as
perguntas que lhe foram feitas e a assinar os autos respectivos» (Nota 6).

Nota 1 - Arquivo Histórico Militar, proc. 21/80, pasta 67, arquivo 625, proc. 441,
interrogatório a Fernando Gouveia, 9/5/75, fl. 31.
Nota 2 - PIDE/DGS,pr. 856/60.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 110 GT, Joaquim José Dias, fls. 46, 49 e 62.
Nota 4 - Ibidem, cópia do despacho, assinado por José Barreto Sacchetti, em 6/7/1964.
Nota 5 - Ibidem, pr. 514/64.
Nota 6 - Ibidem, pr. cr. 665/64 SC, Mariana Balbina Janeiro, fls. 2, 116, 130, 131, 142,
150, 151 e 154-177.

178

A delegação de Coimbra conseguiu, por seu turno, capturar, em 27 de Maio, nos


caminhos-de-ferro de Aveiro, o membro do CC do PCP, António Pinto Ferreira (o
«Marmelada») (Nota 1). Três dias depois, deteve outro indivíduo, ficando a saber que o
controleiro deste iria comparecer numa reunião no dia 6 de Junho, às 10 horas, num café
situado no largo da feira da freguesia de Palhaça, concelho de Aveiro. Tendo
estabelecido um «plano de acção», no qual se incluiu a presença, no automóvel da
polícia, do outro arguido, para que identificasse o controleiro, a PIDE vedou todas as
saídas do local e colocou agentes com vestuário de trabalho nas tabernas e barbearia.
Enquanto as imediações da freguesia eram vigiadas por duas patrulhas da GNR, uma
brigada da PIDE, chefiada por António Marques de Almeida, entrou no café e prendeu o
funcionário do PCP José Guerreiro Drago, que «resistiu, lutando com denodado furor»
(Nota 2).

VI.7. A QUEDA DO SECTOR ESTUDANTIL DE LISBOA (1964-1965)


Em Lisboa, fora entretanto preso, em Abril, o estudante José Luís Saldanha Sanches,
acusado de resistência a agentes de autoridade e agressão a um guarda da PSP. Segundo
o relatório da 1.a Divisão da PIDE, ele estava com um companheiro, a distribuir
propaganda do PCP para o l.° de Maio, na Travessa de Santa Marta, em Lisboa, quando
os dois foram seguidos e agarrados, na Rua Barata Salgueiro, por guardas da PSP que,
disparando, feriram Saldanha Sanches. Este fora metido num táxi, com um médico que
se prontificou a socorrê-lo, cujo condutor acabaria, aliás por ficar preso durante três
meses (Nota 3).
Além do caso Verdial, que, em 1963-1964, levou ao desmantelamento do sector
intelectual de Lisboa do PCP, ocorreu outro, nesse mesmo período, que originou a
detenção de muitos estudantes da capital. Tratou-se do caso Nuno Álvares Pereira
(«Moreira»), controleiro do sector estudantil do PCP, que denunciou, em final de 1964,
os respectivos elementos, provocando nova hecatombe no PCP. Segundo os autos de
«André», outro estudante do PCP, «Moreira» substituíra em 1961 Luís Rodrigues,
passai a controlar o organismo liceal, constituído por Carlos Myre Dores, Manuel José
Claro e Rui d'Espiney. Ao ser detido, «Moreira» começou por negar fazer parte do PCP
e explicou que as suas actividades apenas eram de natureza académica, devido ao facto
de discordar da proibição do dia do estudante.
Depois, dado que em todos os seus autos de perguntas o arguido apenas afirmava ter
exercido actividade académica, a PIDE concluiu, ao fim de muitas diligências, não
conseguir provas de que tivesse praticado actos contra a segurança do Estado. De facto,
ao terminar o primeiro período da prisão sem culpa formada, a PIDE não pediu a sua
prorrogação e propôs ao invés, a sua libertação. Em 26 de Julho de 1965, a mesma
polícia reafirmou que, não tendo obtido motivo de acusação contra o arguido, o
processo ficava a aguardar melhor prova (Nota 4).

Nota 1 - MAI, arquivo dos funcionários da PIDE/DGS, chefe de brigada António


Marques de Almeida, do Porto.
Nota 2 - Ibidem.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 621/64, l.1 Div. José Luís Saldanha Sanches, fls. 29, 32, 33,37,
42,
48-50, 60, 91-94, 99, 116 e 118. %
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 1705/64, autuação 7/12/64.

179

Fernando Rosas, um dos elementos denunciados pelo «controleiro» do sector estudantil


do PCP, Nuno Alvares Pereira, contou que se apercebeu de que a polícia sabia tudo
quando Sacchetti lhe mostrou um mapa, com os militantes a vermelho, os simpatizantes
a amarelo, e outros a azul. Depois, como não acreditasse que tivesse sido o seu
«controleiro» a denunciar todo o sector estudantil, foi levado por Sacchetti a uma sala
onde estava Nuno Álvares Pereira, «a fazer acessoria à PIDE» (Nota 1). Posteriormente,
Nuno Álvares Pereira, tal como Verdial, foi colocado pela PIDE no estrangeiro, neste
caso, em Angola. Foi este o prémio por ter denunciado inúmeros camaradas seus,
nomeadamente aqueles pelos quais era responsável (Nota 2).
Antes de o PCP se aperceber da sua traição, recebeu uma análise do comportamento
prisional, sem data, apreendida pela PIDE, em que o autor - provavelmente o próprio
«Moreira» — considerava que, segundo tradição conspirativa portuguesa», ele não
havia traído, mas tinha apenas tentado «aldrabar a PIDE». Considerando haver «uma
diferença sensível entre os diversos tipos de erro», o autor do documento dizia que, «no
caso não houve traição», mas «sim, uma redução de campo, consciente e responsável,
depois de ter cometido o erro que a existência do papel apreendido significa[va]».
Queixava-se ainda o autor desse documento de que havia, relativamente a ele, «uma
atmosfera de boato mesmo de gente de esquerda» (Nota 3).
A partir da prisão de «Moreira», cerca de 40 estudantes denunciados foram
sucessivamente detidos, a partir de 21 de Janeiro de 1965, e alvo de grande violência
por parte dessa polícia (Nota 4). O Diário da Manhã divulgou, em 28 de Janeiro, uma
nota da PIDE sobre as prisões no meio estudantil, negando que, como constava, os
estudantes tivessem sido presos por simples suspeita ou recebido maus tratos, como se
dizia de Fernando Baeta Neves (este estudante tinha tentado engolir pedaços de vidro
dos seus óculos) (Nota 5). Salazar foi também directamente informado dessas detenções
pelo director da PIDE (Nota 6).

VI.8 A FPLN e a FAP

Nota 1 - Conversa entre a autora e Fernando Rosas, em 12 de Março de 2003; pr. 311
GT, Guilhermino Abreu parente, fls. 16 e 19.
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 724 GT, Nuno Álvares Pereira, fls. 24, 27, 36-41, 93, 114 e 115.
Nota 3 - Ibidem, fls. 5, 7 e 47.
Nota 4 - Fernando Rosas, «O Estado Novo», História de Portugal, vol. 7, p. 541.
Nota 5 - PIDE/DGS, pr. 2351 E/GT, Maria Adelaide Augusta da Conceição Barroso;
ibidem, pr. 311 GT, Guilhermino Abreu parente, fls. 16 e 19; AOS/CO/IN-14, pasta 1,
fl. 33; PI-DE/DGS, pr. de averiguações 824/65, fl. 23, João Reimão Aires Teixeira
(«Mendes»), Sara Birros Queiras Amâncio («Laura» ou «Luísa») e João Crisóstomo
Teixeira, bem como os estudantes Afonso Pinho Monteiro («Guerreiro»), António
Seixas Nogueira de Lemos («Silva») (Fernando Mendes Rosas («Rui»), que faziam
parte de outro organismo de direcção.
Nota 6 - A0S/CO/IN-14, pasta 1, fl. 33. Salazar também recebeu uma lista com as
sentenças dos estudantes presos, que tinha sido apreendida pela PIDE, no arquivo de
Álvaro Veiga de Oliveira (PIDE/DGS, pr. cr. 2641/65, l.a Div.).

180

Entretanto, com outras forças, o PCP esteve também envolvido na mação, no exterior do
País, da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), na qual se integrariam novos
grupos oposicionistas, entre os quais o Movimento de Acção Revolucionária (MAR) e a
Acção Socialista Portuguesa (ASP) (Nota 1). Segundo a PIDE, tinha ocorrido, em
Dezembro de 1962, em Londres, a I Conferência das Forças Antifascistas, de onde saíra
o embrião da FPLN (Nota 2). Noutra informação da qual a PIDE tirou muitos
exemplares, que também enviou aos serviços secretos de diversos países, dizia-a que os
comunistas tinham, depois, conseguido tomar as rédeas dessa organização, na II
Conferência do FPLN, realizada em Praga. Nesta, Humberto Delgado tinha sido
convidado para presidir à Junta Revolucionária Portuguesa, cargo que deteve entre
Janeiro e Outubro de 1964 (Nota 3).
Ao mesmo tempo, nesse período, devido às críticas do Partido Comunista Chinês à
política de coexistência pacífica preconizada no XX Congresso do PCUS, a nível
internacional, surgiu no PCP uma corrente «pró-chinesa» (Nota 4). A própria PIDE fez o
historial desse processo, ao mencionar o surgimento de graves divergências no CC do
PCP, da parte de Francisco Martins Rodrigues («Serpa» ou «Campos»), que propusera,
contra a posição do Secretariado, o recurso imediato à violência revolucionária. Depois,
em 1963, com a declaração «Defesa da unidade do movimento comunista
internacional», o PCP tinha alinhado com a URSS no diferendo com a Albânia e a
China.
Em Agosto, «Campos» participara na reunião do CC realizada em Moscovo, onde
defendera o PC chinês, mas as suas propostas haviam sido consideradas sectárias,
dogmáticas e terroristas pelo Secretariado. De uma atitude divergente, Martins
Rodrigues passara a outra, de antagonismo inconciliável, e em Janeiro de 1964 fora
expulso do PCP, radicando-se em Paris, onde formara uma nova organização, a Frente
de Acção Popular (FAP), primeiro, e o Comité Marxista-Leninista Português (CMLP) .
A FAP/CMLP seria, como se verá, desmembrada pela PIDE a partir 1965 e 1966, mas
daria, mais tarde, origem a vários grupos reclamando-se do marxismo-leninismo e da
necessidade da reconstrução de um novo partido comunista, uma vez que consideravam
que o PCP havia traído o seu carácter revolucionário.
O GT da PIDE não compreendeu, porém, imediatamente o sentido dessas divergências,
e achou inicialmente que a recém-criada FAP constituía uma «abertura para uma
organização revolucionária de influência nitidamente comunista», que seria a «facção
pró-chinesa do PCP», caso não ocorresse o afastamento de Álvaro Cunhal.
Posteriormente, o mesmo GT elaborou também um relatório sobre a FAP, onde se dizia
que essa organização era «tão boa» como o PCP e que ambas tendiam para o «mesmo»
embora os processos de luta fossem diferentes.

Nota 1 - Sacuntala Miranda, Memórias de Um Peão nos Combates pela Liberdade.


Edições Salamandra, 2003, pp. 137 e 139.
Nota 2 - Manuel Garcia e Lourdes Maurício, O Caso Delgado: Autópsia da «Operação
Outono», pp. 180, 185 e 187; PIDE/DGS, pr. 1353 CI (2), pasta 4, FPLN, fl. 185.
Nota 3 - Avante!, 331 e 338, Janeiro e Fevereiro de 1964.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 9078 SC, «Elementos para a historia do movimento operário e
do PCP».

Por seu lado, «o chamado PCP reconhecia que por si só não tinha força suficiente para
derrubar o regime vigente e procurava o apoio e a ajuda da oposição" composta na sua
maioria pelos denominados burgueses-liberais, tomando a posição de "lobo" disfarçado
de "cordeiro" para os não assustar». Quanto aos «comunistas da tendência do Francisco
Martins Rodrigues», dizia o GT, eram «menos pacientes e sobretudo, menos experientes
e habilidosos», preconizando «o uso da força imediata, a tudo deitando mão para
conseguir um derrubamento rápido, não olhando nem a meios nem a violências».
Em 5 de Outubro desse mesmo ano de 1964, a PIDE avisou o ministério do Interior de
que detectara o rebentamento de um explosivo, no Parque Mayer, em Lisboa, quando
estava a ser montado por um membro da FAP, a fim de ser utilizado contra viaturas da
PSP. O falhanço dessa primeira acção armada da FAP levou à prisão, dias depois, do
elemento que tinha ficado ferido, e, na sequência desta, a detenção de mais 13
elementos dessa organização (Nota 1). Começava aí a actividade da FAP, sobre a qual o
inspector Abílio Pires diria mais tarde que tinha morrido à nascença por «denúncia do
PCP» (Nota 2).

VI.9 O ENDURECIMENTO DAS TORTURAS DA PIDE

Entretanto, em Março de 1964, Álvaro Cunhal apresentara, em reunião do CC do PCP, o


documento Rumo à Vitória («As tarefas do partido na revolução democrática e
nacional»), o qual constituiu uma contribuição para o programa do partido a aprovar em
futuro congresso. O mês de Setembro de 1964 fora entretanto o do inicio da luta armada
de libertação nacional em Moçambique, dirigida pela Frelimo, e o de Outubro, o da
realização em Argel, da terceira conferência da FPLN, onde já não esteve presente
Humberto Delgado.
Consumada a sua ruptura com a Frente Patriótica de Libertação Nacional, Humberto
Delgado anunciou, em 12 de Janeiro de 1965, a formação da Frente Portuguesa de
Libertação Nacional. Como se sabe, Delgado seria atraído por Ernesto Sousa e Castro e
Mário de Carvalho, o primeiro dos quais veio a revelar ser um elemento da PIDE e o
segundo um informador da mesma polícia, a uma armadilha em Badajoz, e viria a ser
assassinado no mês seguinte (Nota 3).
O programa do PCP foi finalmente aprovado, no VI Congresso (IV Ilegal) do PCP,
realizado em Kiev, na URSS, em Setembro de 1965, onde foram confirmados, no
Secretariado, Álvaro Cunhal, Manuel Rodrigues da Silva e Sérgio Vilarigues (Nota 4).
Nesse ano, ocorreram vários outros acontecimentos, entre os quais se contou, em 21 de
Maio, a extinção da Sociedade Portuguesa de Escritores (SPE), cuja sede foi assaltada e
destruída por «desconhecidos», conforme noticiou a imprensa.

Nota 1 - MAI-GM, caixa 264, «Pasta actividades anti-situacionistas, de Outubro a


Dezembro de 1964.
Nota 2 – Bruno de Oliveira Santos, Histórias Secretas da PIDE/DGS, p. 121,
testemunho de Abílio Pires.
Nota 3 – Pedro Ramos de Almeida, op. cit, p. 744, citando Franco Nogueira.
Nota 4 – Carlos ª Cunha, «PCP», Dicionário de História de Portugal, vol. 8, pp. 25-29.

182
Às 10.30 horas de 19 de Dezembro de 1965, foram detidos Rogério Carvalho,
funcionário do PCP, e José Manuel Calhau, numa viatura, na Avenida Engenheiro
Duarte Pacheco, em Lisboa. A Rogério de Carvalho, a PIDE apreendeu uma carta de
condução que pertencia a Pedro Vieira de Almeida, que foi, por seu turno, preso em 7 de
Janeiro de 1966 (Nota 1). No dia seguinte à prisão de Rogério de Carvalho e José
Calhau, foi preso Álvaro Veiga de Oliveira («Lemos»), engenheiro, dirigente do sector
estudantil e militar do PCP. Em autos de perguntas a outros presos, a PIDE ficou a saber
que «Lemos» tinha participado numa reunião de quadros do PCP, em 5 de Dezembro de
1964, no Estoril, presidida por Rogério de Carvalho. Por seu turno, a polícia soube
através de «Moreira» (Nuno Álvares Pereira), que «Lemos» controlava o sector
intelectual, com António da
Graça e Alberto Mendonça Neves.
Esse ano de 1965 foi aquele em que tiveram lugar as torturas mais violentas, em toda a
década de 60. Foi então que Álvaro Veiga de Oliveira, detido em 20 de Dezembro desse
ano, passou 17 dias seguidos na «estátua» e, depois, voltou para mais dois períodos de
dez dias no «sono» espancamentos, acabando por cair inanimado (Nota 2), e que Maria
da Conceição Matos foi sujeita a violências humilhantes. Esta última tinha sido presa
em 21 de Abril de 1965, numa casa ilegal no Montijo, seguindo-se a detenção do seu
companheiro, Domingos Abrantes, quando entrava nessa «instalação» (Nota 3).

VI. 10. O DESMANTELAMENTO DA FAP

Entretanto, a PIDE prendera, em 21 de Outubro de 1965, João Polido Valente e João de


Jesus Martins, em Lisboa, quando se iam encontrar numa casa da Avenida da República,
junto à Rua de Entrecampos, com Mário de Jesus da Silva Mateus, um estivador que
tinha sido membro do PCP e, depois, da FAP, mas era na realidade informador da
polícia (Nota 4). Em 7 de Dezembro, o Diário Popular noticiou, entretanto, que tinha
sido encontrado num pinhal em Belas o cadáver de um indivíduo assassinado e que a
polícia estava à procura de três implicados. Posteriormente, o cadáver foi reconhecido
como sendo de Mário Mateus e, em 24 de Fevereiro do ano seguinte, O Século deu
conta de que o crime de Belas tinha sido «um ajuste de contas entre agentes políticos na
clandestinidade».
A PIDE tinha, sobre o caso Mateus, uma informação, através de um documento
apreendido no arquivo do funcionário do PCP Álvaro Veiga Oliveira («Lemos»),
segundo a qual o «morto de Belas teria sido membro clandestino do P. donde saiu por
ser expulso por questões de dinheiro».

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 2617/65, Rogério de Carvalho, José Manuel dos Santos Calhau
e Pedro César Vieira de Almeida, fls. 41, 70, 172, 189, 192, 195, 201, 238 e 301.
Nota 2 - Ibidem, pr. 3671/59 SR, fl. 61.
Nota 3 - Ibidem, pr. 1112/65, Domingos Abrantes e Maria da Conceição Matos
Abrantes, fls. 1, 14, 80, 106, 153, 155, 159, 184, 319, 323, 328, 361, 372, 374, 382, 392,
411, 432 e 449.
Nota 4 - Arquivo Histórico Militar, José Gonçalves, TMT, 4.a Juízo, proc. 109/76, dos
Serviços de Justiça da SCE da PIDE/DGS, 25/11/76, vol. 1, fl. 132. Depoimento, em 10
de Junho de 1974, do ex-chefe de brigada da DGS Manuel Lavado.

183

Segundo essa informação, após ter denunciado Pulido Valente, aquele tinha sido morto
«pelos FAPs após julgamento sumário» e «antes de lhe esfriarem o céu da boca teria
confessado ter ligações com o chefe de brigada Ferreira Cleto» (Nota 1).
No início de 1966, respectivamente em 30 de Janeiro e 14 de Fevereiro, a PIDE
conseguiu prender os dirigentes da FAP/CMLP Francisco Martins Rodrigues e Rui
d'Espiney. O primeiro («Campos», no CMLP, e «Armando» na FAP), que vivia numa
casa clandestina, foi detido num encontro com Acácio Barata Lima, e o segundo foi
preso juntamente com a sua mulher, Rita d’Espiney. Foram depois detidos José
Carvalho Vilar, João Natividade e o francês Jean Bernard Sanvoisin, acusado de ser
correio da FAP, segundo informação comunicada à PIDE pelas autoridades de Madrid e
Paris. Depois, foram detidos outros elementos da FAP/CMLP, nomeadamente o
advogado de Francisco Martins Rodrigues, Joaquim Monteiro Mathias, acusado de
servir de correio entre aquele e outros elementos dessa organização (Nota 2).
A sentença do «crime de Belas» foi lida em 25 de Novembro de 1966, no tribunal de
Sintra, sendo Martins Rodrigues e Rui d'Espiney condenados, respectivamente, a 15
anos e 14 anos e nove meses de prisão (Nota 3). Dois anos depois, Francisco Martins
Rodrigues e Rui d'Espiney foram novamente julgados, juntamente com João Pulido
Valente, por serem dirigentes a FAP/CMLP. O tribunal plenário, presidido pelo juiz
Morgado Florindo, condenou os réus, em cúmulo jurídico, respectivamente, a penas de
19 e 15 anos de prisão maior e medidas de segurança. Os três só viriam a ser libertados
de Peniche na sequência do golpe militar de 25 de de 1974 (Nota 4).

VI.11. OS ÚLTIMOS DOIS ANOS DE SALAZAR À FRENTE DE PORTUGAL


Na sua habitual repressão a membros do PCP, a PIDE prendeu em 13 de Junho de 1967,
num encontro, na Avenida Rainha D. Amélia, em Lisboa, Manuel Joaquim Colaço e
Graciete Casanova, à qual foram apreendidas duas malas com um revólver e munições
(Nota 5).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. cr. 2641/65, 1.a Div., Álvaro Augusto Veiga de Oliveira
(«Lemos»), fl. 220.
Nota 2 - Ibidem, pr. 47.660 SR, julgamento no Tribunal da Boa Hora de João Joaquim
Marques de Almeida; pr. 1397/67, João Joaquim Marques de Almeida, vol. 1, fls. 35,
82, 83, 105, 134, 161, 177, 182, 183, 200, 208, 246, 255, 259, 260, 273, vol. 6, fl. 61.
Nota 3 - Ibidem, pr. ind. 19217, Francisco Martins Rodrigues e Rui d'Espiney; pr. 38167
SR; ibidem, pr. 38167 SR, José Luís Machado Feronha, Sebastião Martins dos Santos,
João Evaristo de Jesus Martins, Sebastião dos Santos, Vítor Manuel Pinto Catanho da
Silva, João Natividade Figueiredo e Rita Gandra Gonçalves d'Espiney. Fernanda
Ferreira Alves Martins Rodrigues e Ana Rita Gonçalves d'Espiney foram sentenciadas,
em 7 de Março de 1968, a 10 meses e 20 meses de prisão correccional, saindo ambas
em liberdade por o tempo de prisão preventiva ter excedido essas penas.
Nota 4 - Ibidem, pr. 2163 CI (2), Frente de Acção Popular, pasta 1, «notícias
tendenciosas», fls. 15, 19 e 20; ibidem, pr. ind. 19217-SR, Francisco Martins Rodrigues,
José Pires Claro e Mário de Jesus da Silva Mateus, fls. 2, 23-26, 36, 40, 57, 58, 60, 78,
97, 109-110, 137, 161, 342, 365 e 367-372. Nota 5 - Ibidem, pr. 1643/67, vol. 1, fls. 1 e
segs., 53-55, 67-68, 91, 145, 172, 187, 193, 211,
324 e 328.

A partir do dia seguinte, foram ainda detidos Manuel Afilhado Rodrigues, João
Leonardo Tomé,
João Veiga dos Santos, Manuel Grilo Tomé, Maria Emília Miranda de Sousa, Fernando
Miguel Bernardes e Aida Paulo. Em 15 de Junho, fora também detido, na Quinta do
Pombal, Cova da Piedade, Henrique Ricardo da Graça, que, tal como Graciete
Casanova, havia estado na Escola Central de Moscovo. Na sequência desta prisão, a
PIDE deteve mais seis pessoas e apurou informações sobre outros que já estavam a
cumprir pena (Nota 1).
O dia 25 de Novembro de 1967 foi marcado por chuvas diluvianas em Lisboa e
arredores, que causaram centenas de mortos, não sendo divulgada na imprensa a
magnitude do desastre nem o número de vítimas. Muitos estudantes de Lisboa
mobilizaram-se para ajudar as populações, apercebendo-se, nesse contacto, das terríveis
condições em que viviam muitos portugueses. Entretanto, tinha havido no seio do
regime o caso dos ballets roses, conforme noticiou, em Dezembro, o jornal inglês
Sunday Telegraph.
Preso sob a acusação de ter prestado a esse jornal informações sobre o escândalo de
corrupção de menores, Mário Soares seria deportado e sujeito a residência fixa na ilha
de São Tomé, em Fevereiro de 1968. Na sequência de uma queda, Salazar foi operado,
em 7 de Setembro, a um hematoma craniano, mas nove dias depois sofreu nova recaída
devido a um acidente vascular cerebral. No dia 17, após convocar uma reunião do
Conselho de Estado, o presidente da República anunciou que iria nomear novo
Presidente do Conselho de Ministros. Dez dias depois, informou que, atormentado entre
os seus sentimentos afectivos de gratidão», decidira exonerar Salazar e nomear Marcelo
Caetano.

VI.12. A DGS na «Primavera marcelista»


No dia 10 de Outubro, em que Marcelo Caetano esclareceu, num discurso, quais seriam
as principais linhas de actuação do seu governo, morreu no hospital, depois de ter sido
preso pela PIDE, o estudante Daniel Sousa Teixeira. No dia a seguir ao Natal de 1968, o
Decreto-Lei n.° 48794 introduziu alterações na organização dos serviços da PIDE, cujo
quadro, segundo números oficiais, era composto por 3202 funcionários, 1187 quais no
continente e ilhas. Em Lisboa, a PIDE deteve, em 23 de Maio de 1969, três funcionários
do PCP: Ângelo Matos Mendes Veloso, Manuel Pedro e Carlos Cabral de Matos (Nota
2), que se recusaram «a prestar declarações ou esclarecer sequer a sua posição nessa
associação ilícita» (Nota 3). O penúltimo mês do ano de 1969 foi o da «criação»,
através do Decreto-Lei n.º 499401 de 19 de Novembro, da Direcção-Geral de Segurança
(DGS), que substituiu a PIDE.

Nota 1 - Ibidem, pr. 1732/67, fls. 1, 17 e segs., 153- 175 e 183.


Nota 2 - Ibidem, pr. 1050/69, vol. 1, «Actividade JR associação secreta e subversiva que
denominam PCP», Angelo Veloso, Carlos Matos, Manuel Pedro, Carlos Alberto Picado
Horta, Mimi ou Mary Cornélia Cavender e Maria Madalena Ferreira de Oliveira: A
Capital, 24/6/1969. Nota 3 -
Ibidem, pr. 1050/69, vol. 2, fls. 448-485 resumo do despacho, fl. 489.

185

Em 10 de Agosto de 1970, a DGS elaborou um relatório sobre o momento político


interno, em que dava mostra de alguma confusão, com a proliferação de diferentes
grupos políticos que tinham entretanto surgido. Relativamente ao sector estudantil,
dizia-se que tanto o PCP como o CMLP tinham conquistado um grande número de
aderentes no ensino médio, pré-universitário e universitário. Quanto ao «sector
empresarial», a DGS alarmava-se com o facto de as massas trabalhadoras estarem cada
vez mais a sofrer a influência de todos os agrupamentos indicados. Após referir os
católicos progressistas, alguns dos quais estariam a tentar promover um movimento
sindical autónomo, e o Movimento da Oposição Democrática (MOD), a DGS
debruçava-se sobre os «agrupamentos revolucionários»: LUAR, FAP e FPLN (Nota 1).

Nota 1 - Ibidem, pr. 958 CI (1), Maria Eugenia Varela Gomes, fl. 23, «Relatório da
PIDE sobre o Movimento Político».

186

VII. A EXTREMA-ESQUERDA E AS ORGANIZAÇÕES DE LUTA ARMADA

Os últimos quatro anos da ditadura foram particularmente duros no que se relacionou


com a repressão. Mário Soares referiu-se a isso, concluíndo que o «alargamento dos
quadros da polícia e as intervenções brutais» que teve «nos últimos meses, mormente a
repressão dos movimentos académicos», eram bem reveladores de que «a
arbitrariedade» dos poderes da DGS era ilimitada, tal como no tempo de Salazar (Nota
1). É um facto que a repressão endureceu, à medida que surgiram as organizações de
luta armada e de extrema-esquerda e se agudizaram as lutas estudantis e de
trabalhadores.
Em Outubro de 1970, ocorreu um Encontro Nacional de Direcções Sindicais, onde foi
decidida a criação da Intersindical, que recebeu de imediato a adesão de vinte e dois
sindicatos de todo o país. Envolvido nesta acção sindical, o PCP criou entretanto a
Acção Revolucionária Armada (ARA), que realizou as suas primeiras operações no final
de Novembro de 1970, com a colocação de um engenho explosivo no navio Cunene, no
cais de Alcântara, e, depois, de uma carga explosiva no Vera Cruz, paquete utilizado
para transporte de tropas para África (Nota 2). Novas acções da ARA seriam depois
desencadeadas. Em 7 de Novembro de 1971, foi a vez de rebentarem explosivos na base
da NATO da Fonte da Telha, numa operação reivindicada pelas Brigadas
Revolucionárias (BR).
Em 1972, eclodiu, em Coimbra, Porto e Lisboa, a agitação estudantil, enquanto as
autoridades encerravam as instalações das associações de estudantes da Faculdade de
Letras, Direito e Ciências de Lisboa, bem como do IST e do ISCEF, faculdade onde dois
elementos da DGS assassinaram a tiro, a 12 de Outubro, o estudante Ribeiro dos Santos.
Nesse ano, o Decreto-Lei n.° 368/72 reorganizou a DGS, que, entre outras prerrogativas
manteve a instrução preparatória dos processos da sua competência, podendo a
assistência do advogado aos interrogatórios ser interdita quando houvesse
«inconveniente para a investigação ou a natureza do crime o justificasse».
No final do ano, um grupo de católicos realizou, na capela do Rato, uma vigília para
assinalar o dia mundial da paz, tendo a polícia detido 70 pessoas, depois entregues à
DGS e demitidas da função pública.

Nota 1 - Mário Soares, Portugal Amordaçado..., pp. 665-667, nota 9.


Nota 2 - MAI-GM, caixa 413, pasta «Notas Oficiosas», 1970.

187

Por outro lado, internacionalmente, o regime português estava cada vez mais isolado,
devido à Guerra Colonial. Em 1973 foi assassinado, por um grupo de mercenários, em
Conakry, o dirigente do PAIGC Amílcar Cabral, sendo o crime atribuído à DGS. Em
Tete, Moçambique, ocorreu, em 16 de Dezembro o massacre de Wiriyamu, que,
segundo uma versão, terá provocado a morte de quatrocentos civis, pelas Forças
Armadas portuguesas (Nota 1).
Viu-se que, pelo menos, até ao final da década de 60, o PCP foi o adversário da PIDE.
No entanto, a partir do início da década de 70 a situação mudou. O certo é que, nas
vésperas do 25 de Abril, o número de cerca de 3000 militantes indicado pelo PCP não se
distanciava muito do conjunto de elementos de toda a extrema-esquerda nesse período
(Nota 2). O inspector Fernando Gouveia afirmou, aliás, que, antes da queda do regime,
«os grupos radicais praticantes do combate armado ou influentes nas universidades
consumiam mais energia à PIDE/DGS do que a estrutura clandestina comunista, que era
a que "dava menos trabalho"».

VII.1. A LUAR

No início da década de 70, a então DGS ficou também inicialmente confusa com o
surgimento dos diversos agrupamentos de extrema-esquerda e das várias organizações
de luta armada, sem saber, no começo, quem era quem. O único facto que a polícia
conhecia era que a Liga de União e Acção Revolucionária (LUAR) tinha uma origem
diferente de todas as outras organizações, além de ter sido criada anteriormente, por
Hermínio da Palma Inácio, um dos participantes no assalto ao avião da TAP, em
Novembro de 1961. Do núcleo fundador da LUAR faziam também parte Camilo
Mortágua (que já tinha participado no assalto ao paquete Santa Maria e no desvio do
avião da TAP, em 1961), António Barracosa, Luís Benvindo, Júlio Alves, Emídio
Guerreiro, José Lopes Seabra e Fernando Echevarria.
A primeira acção da LUAR foi, em 17 de Maio de 1967, o assalto à Delegação do
Banco de Portugal da Figueira da Foz — operação Mondego - onde foram roubados
cerca de 30 mil contos. Depois da acção, os operacionais da LUAR abandonaram a
zona, num avião que o próprio Palma Inácio pilotou e pousou no Algarve. Enquanto a
PIDE investigava a eventualidade de uma fuga de barco para Marrocos, já o grupo se
encontrava perto de Barcelona, seguindo, depois, para França, onde Palma Inácio foi
preso pelas autoridades francesas. A pretexto de que o assalto ao banco relevava do
direito comum, o governo salazarista pediu a sua extradição, mas a justiça francesa não
aquiesceu e, após cinco meses de detenção na Santé, Palma Inácio foi libertado pelo
tribunal (Nota 3).
A PJ e a PIDE conseguiram prender alguns elementos implicados na operação
Mondego, entre os quais havia uns acusados de pertencerem simultaneamente à FAP e à
LUAR.

Nota 1 - Pedro Ramos de Almeida, Biografia da Ditadura, p. 684, citando Franco


Nogueira,
(FN V. 414).
Nota 2 - João Madeira, «As oposições de esquerda e a extrema-esquerda», A Transição
Falhada: O Marcelismo e o Fim do Estado Novo (1968-1974), 2004.
Nota 3 - «0 aventureiro da liberdade perdida», in Visão, 16/6/94, pp. 40 e 42.

188

No julgamento dos vinte e dois implicados no assalto ao banco da Figueira da Foz, seis
foram absolvidos, oito condenados a penas correccionais e outros oito elementos a
prisão maior. Entre estes, só Ângelo Cardoso, sentenciado a sete anos e três meses de
prisão maior, se encontrava preso. Os outros forma todos julgados à revelia, sendo
Palma Inácio condenado a 16 anos de prisão. (Nota 1)

VII.1.1. O dinheiro do Banco da Figueira da Foz

Num comunicado de Setembro de 1968, a LUAR deu conta do surgimento, no interior


da organização, em Paris, de problemas com Emídio Guerreiro, a propósito do dinheiro
roubado no Banco de Portugal da Figueira da Foz. Dos 29 200 contos então
«recuperados», apenas 4700 contos podiam ser utilizados, dado que a PIDE comunicara
os números das notas a todos os bancos internacionais e nacionais.
Em Paris, após descontarem despesas da organização, os assaltantes haviam depositado,
junto de Emídio Guerreiro, Fernando Echevarria e José Augusto Seabra, cerca de 1955
contos da LUAR, que estes não queriam restituir (Nota 2). Por seu turno, a outra facção,
que se auto-intitulava Conselho Superior da LUAR, constituída por estes três últimos,
divulgou um comunicado a afirmar que, devido à recusa de entrega à LUAR dos fundos
recuperados na operação Mondego, Camilo Mortágua, António Barracosa e Luís
Benvindo tinham violado gravemente a disciplina da LUAR (Nota 3).
Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, Palma Inácio declarou que, dos 29 200 contos
«recolhidos» no assalto ao banco da Figueira da Foz, só tinha conseguido trocar 3300
contos, dos quais parte tinha sido gasto na operação da Covilhã, realizada em 1968, e
cerca de 500 contos, na compra de uma quinta no Alentejo, para servir de apoio às
operações. No entanto, devido a «um erro de uma pessoa que estava encarregada do
caso», a PIDE apreendera material no valor de 1000 contos, bem como 9000 contos,
entregues a essa polícia por «um agente, que de início, se conseguiu infiltrar na
Organização».
Também após 1974, o ex-inspector da PIDE/DGS Abílio Pires, afirmou ter ele próprio
recuperado 11000 contos em Paris, em Maio de 1968, através de um elemento da PIDE
infiltrado na LUAR (Nota 4). Tratava-se de Ernesto Castelo Branco («Canário», na
PIDE), embora se deva dizer que na LUAR não esteve só infiltrado um informador mas
dois, sendo o outro António Moura Diniz. Quanto aos restantes 17000 contos Abílio
Pires disse que 11000 contos tinham sido escondidos pela LUAR numa mina de água,
nos arredores de Guimarães, 3000 contos haviam sido gastos em viagens de Camilo
Mortágua e Palma Inácio e outros 3000 contos estariam depositados numa conta de
Emídio Guerreiro. Sobre este dinheiro, Pires assegurou ter chegado a falar com um
elemento da policia francesa, mas acabara por concluir ser impossível recuperá-lo (Nota
5).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 8259 CI (2), pasta 1, fl. 232.


Nota 2 - Ibidem, pr. 2515 Cl (2), Emídio Guerreiro, fls. 10, 27, 29 e 38; pr. 8259 CI (2),
pasta 1. fl. 15.
Nota 3 – Ibidem, pr. 8259 CI (2), pasta 1.
Nota 4 – Ibidem, pasta 3, fls. 284 e 287.
Nota 5 – Bruno de Oliveira Santos, Histórias Secretas da PIDE/DGS, p. 121,
testemunho de Abílio Pires.

189

VII.1. 2. Recolha de informações sobre a LUAR na Europa

Além de recolher muitas informações através de Ernesto Castelo Branco e de António


Moura Diniz, dos quais se voltará a falar, a PIDE/DGS obteve outras, de informadores
em França e na Bélgica, bem como através dos serviços secretos europeus,
nomeadamente franceses e espanhóis. Por exemplo, em 1968, a PIDE recebeu uma lista
de indivíduos, conhecidos como sendo da LUAR, a viver em Paris, Bruxelas e Lovaina
e, a avaliar pelas fiches de renseignements em língua francesa, essas informações
tinham sido obtidas pelas polícias francesa e/ou belga. No final desse ano, um tribunal
belga julgou três portugueses da LUAR, presos em Bruxelas, Luís Moreno Curado,
Joaquim Palminha da Silva e Luís Benvindo, depois de terem sido expulsos de França,
em 25 de Novembro desse ano (Nota 1).
Por seu turno, o jornal de Bruxelas, o flamengo De Standaard, deu conta, em 24 de
Janeiro de 1969, que dez membros da resistência portuguesa tinham utilizado a Bélgica
«como campo de repouso (base)» e reproduziu uma entrevista com um elemento da
LUAR segundo o qual a PIDE actuava na Bélgica, directamente ou através de espiões
ao seu serviço. O facto de, no dia seguinte, a imprensa de Bruxelas ter noticiado que
dois dos elementos da LUAR detidos tinham sido libertados e não seriam extraditados
para Portugal, embora tivessem de abandonar a Bélgica, enfureceu a PIDE, ao ponto de
retaliar. Efectivamente, como se pode ver através de um despacho manuscrito dessa
polícia, quatro dias depois, a PIDE decidiu passar a negar quaisquer facilidades de
entrada em Portugal a súbditos belgas.
Em 14 de Junho, o MNE transmitiu à PIDE/DGS informações recolhidas pela
embaixada de Portugal na Bélgica, segundo as quais membros da LUAR estariam a
preparar uma operação de grande envergadura no Sudeste de Portugal. Informou ainda o
MNE que determinado «indivíduo ligado ao assalto a sucursal da Figueira da Foz do
Banco de Portugal [...] teria encomendado a um informador da nossa embaixada 300
pistolas de 9 mm ou 7.65 mm, o que parec[ia]e confirmar o propósito de promover
aquela operação». Ao receber esta informação, reveladora do grau de infiltração policial
na Bélgica e na LUAR, bem como da colaboração da Embaixada de Portugal com a
polícia política, esta escreveu à mão, no documento, que estavam em curso diligências
para a localização dos referidos elementos da LUAR.
Em Novembro de 1970, foram apanhados pela Sureté belga, em Bruxelas, 250 quilos de
explosivos e presos dois portugueses e a mulher de um deles. Segundo sugeriu então o
jornal La Belgique, no artigo «Plaque tournante de la police secrète portugaise?», a
polícia secreta belga teria recebido, para essa captura, a colaboração da DGS, cujo
inspector Rosa Casaco tinha sido visto em Bruxelas, além de que os presos tinham sido
interrogados por um elemento que falava muito bem português.

Nota 1 – PIDE/DGS, pr. 8359 CI (2), fl. 411, carta de 5/11/68, com uma lista de
indivíduos conhecidos da LUAR.

190

O próprio Rosa Casaco contou, nas suas memórias, que esteve efectivamente várias
vezes em Bruxelas desde 1963, mas afirmou que, habitualmente, nas suas investigações
efectuadas no estrangeiro, «nunca procurava as autoridades locais, com excepção da
Espanha» (Nota 1).

VII.1.3. Detenção, fuga e nova detenção de Palma Inácio

Após a operação Mondego, a LUAR foi ainda responsável por um roubo de diversas
pistolas e munições, do Quartel-General da 3.a região militar de Évora, em 17 de
Setembro de 1967 —, operação Diana —, da autoria de Barracosa, Benvindo e de
Francisco Seruca Salgado. Ao chegar a França, este foi preso, devido a um pedido de
extradição português, que também não foi levado adiante pelas autoridades francesas.
(Nota 2).
Em 20 de Agosto de 1968, Palma Inácio entrou em Portugal, com cerca de cinquenta
operacionais, para desencadear a operação Hermínios, destinada a ocupar a Covilhã, que
falhou, saldando-se o fracasso na prisão de Palma Inácio e de mais oito militantes (Nota
3). Num comunicado de Setembro, a LUAR informou que um lamentável acidente de
viação, em Trás-os-Montes tinha provocado a prisão de Palma Inácio e dos seus
companheiros, quando estavam a convergir para a Covilhã para tomar a cidade (Nota 4).
Outro dos militantes presos foi Filipe Viegas Aleixo, depois condenado a uma das
maiores penas de prisão impostas pelo Tribunal Plenário: cúmulo jurídico com a pena
de 17 anos, a que tinha sido condenado à revelia pelo assalto ao paquete Santa Maria,
foi condenado a uma pena 19 anos de prisão. Filipe Aleixo tal como Francisco Martins
Rodrigues e Rui d'Espiney, seriam, aliás, os três presos não imediatamente libertados do
Forte de Peniche, no dia 26 de Abril de 1974, por terem sido considerados como
«criminosos comuns» (Nota 5).
Depois de ser preso, em 21 de Agosto de 1968, na falhada operação da Covilhã e de o
seu processo ter sido remetido ao tribunal do Porto, para cuja delegação da PIDE foi
transferido, Palma Inácio conseguiu fugir em 8 de Maio de 1969 (Nota 6). Foi detido na
fronteira luso-espanhola pelas autoridades do país vizinho e enviado para a prisão de
Carabanchel, em Madrid. O próprio Palma Inácio contou depois que na sua detenção
participaram inspectores da PIDE, «entre os quais Rosa Casaco, que comandava o grupo
de polícias portugueses», mas que o seu advogado convenceu os juízes espanhóis de que
os seus crimes eram de natureza política. Por isso, não foi extraditado para Portugal e as
próprias autoridades espanholas disseram para informar onde se encontrava para lhe
«poderem dar proteção, já que a PIDE podia fazer uma tentativa de rapto» (Nota 7).

Nota 1 - António Rosa Casaco, Servi a Pátria e Acreditei no Regime, p. 63.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 2515 CI (2), Emídio Guerreiro, fls. 10, 27, 29 e 38.
Nota 3 - «Quem tira a "prova" às contas da "Operação Mondego"» in O Jornal,
25/7/1975, pp. 10-11.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 8259 CI (2), pasta 3, comunicados da LUAR, fl. 15.
Nota 5 - Ibidem, pr. 1461/68, Comunicados da LUAR, pasta 3, fl. 305.
Nota 6 - Ibidem, pr. 8259 CI (2), pasta 2, comunicados da LUAR, «Comité de soutien à
la LUAR», 1969, fls. 2, 10 e 12.
Nota 7 - A Capital, 25/2/75, pp. 12-13.

191

Ao ser libertado em Espanha, Palma Inácio refugiou-se na Itália, chegando à Suécia em


26 de Janeiro desse ano (Nota 1), não sem antes ter dado uma entrevista à BBC, onde
contou o que havia sofrido às mãos da PIDE e do tribunal plenário, que o tinham,
respectivamente, submetido a 10 dias de tortura de sono e condenado a 15 anos de
prisão e medidas de segurança (Nota 2).
Mesma sorte que Palma Inácio não teve o seu camarada da LUAR, Eduardo Cruzeiro,
preso em Madrid e condenado a um ano e três meses de prisão por uso de passaporte
falso e transporte de armas, que, por ter sido considerado «desertor», e não ter assim
cometido «delito político», foi entregue às autoridades portuguesas, em Janeiro de 1970.
Segundo soube a DGS, em 1973, Palma Inácio comprara armas em Praga, parte das
quais haviam sido apreendidas, ao entrarem em Paris, e incumbira alguém de alugar em
Portugal um monte alentejano, para depositar armamento. Alguns explosivos tinham
sido entregues ao ex-padre Francisco Fanhais, que os dividira em duas encomendas,
entregues em Portugal, respectivamente, a Maria de Fátima Pereira Bastos e a um
pároco de Alhos Vedros. Nesse ano, Palma Inácio entrara de novo em Portugal, para
praticar acções armadas, nomeadamente para libertar alguns presos políticos, mas fora
novamente preso.
Num relatório a DGS deu conta de que a intensa acção policial que levara à prisão de
Palma Inácio e de outros indivíduos se tinha iniciado devido às investigações relativas
ao «grupo de terroristas da LUAR», presos, em 23 de Agosto, no posto fronteiriço
espanhol de Navas Frias, perto do Sabugal, quando queriam entrar no país com
explosivos e material de guerra. Um dos detidos, Joaquim Alberto Simões, contaria
mais tarde que em Ciudad Rodrigo um agente da DGS tentara assistir aos
interrogatórios, permitindo-se «até, tomar a iniciativa» de o interrogar, embora ele se
tivesse recusado «a responder a quaisquer perguntas na sua presença» (Nota 3).
No já referido relatório da DGS, subentende-se também que esta polícia apurou, através
da polícia espanhola, que, após a intercepção e prisão em Espanha dos elementos da
LUAR, esta organização enviara um novo grupo a Portugal, constituído por Hermínio
da Palma Inácio e outros cinco elementos. Material de guerra tinha já sido anteriormente
introduzido, ao país, com a ajuda de Riscado Monteiro, Maria de Fátima Pereira Bastos
e Carlos Alves. A DGS tinha detido estes elementos apreendendo 16 quilos de
explosivos. A este grupo acrescentavam-se ainda três indivíduos detidos, vindos de
Paris, e outros, aliciados em Portugal (Nota 4).

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 8259 Cl (2), pasta 3, fls. 234, 249, 247, 257 e 294.
Nota 2 - Ibidem, pr. 457 GT, Hermínio da Palma Inácio, fls. 45, 50 e segs. e 54.
Nota 3 - A Capital, 16/7/74; PIDE/DGS, pr. 8259 Cl (2), pasta 2, Comunicados da
LUAR, fl. 117. Outros dois elementos, Rafael Galego e Ramiro Raimundo, tinham
conseguido fugir às autoridades espanholas e haviam sido detidos em Portugal, no mês
seguinte.
Nota 4 - PIDE/DGS, pr. 671/73, vol. 4. João Frade, José de Oliveira Silva, José Santos
Lopes, Maria José Campos, Luís Guerra, Abílio Brandão, Nuno Gama Freire e
Henrique Sanchez; ibidem, pr. 8259 CI (2), pasta 1, Comunicados da LUAR, fls. 13-32;
pasta 2, Comunicados da LUAR, fls. 101 e 109.

192

O próprio Palma Inácio revelou as circunstâncias da sua prisão, ao contar que, na


sequência de uma série de prisões em 1972, a DGS tinha descoberto uma herdade da
LUAR, próximo de Évora, onde estava guardadas importantes quantidades de
explosivos. Ao explicar como tudo tinha acontecido, disse que tudo havia sido
«provocado por um contacto mal feito de um dos militantes», que «andava a ser seguido
por a Polícia ter interceptado uma carta enviada da Bélgica».
Numa entrevista dada ao jornal A Capital, o proprietário da mercearia Os Unidos da
Avenida, na Avenida Duque de Ávila, em Lisboa, onde Palma Inácio e os seus
companheiros foram detidos, às 11 horas e 45 minutos, de 22 de Novembro de 1973,
contou que os «fregueses da LUAR» haviam permanecido durante hora e meia numa
mesa, quando entraram os agem da DGS à paisana (Nota 1). Diga-se que esta detenção
teve interferência indirecta com o Movimento dos Capitães, que derrubaria o regime no
ano seguinte.
Dois dias depois da prisão de Palma Inácio, um grupo de 40 oficiais do MFA reuniu-se
numa casa em São Pedro do Estoril, cedida por um indivíduo cuja irmã pertencia à
LUAR e aí tinha escondido explosivos da organização. Presa e torturada, esta nada
revelou, porém, acerca de onde havia escondido explosivos. O coronel Vasco Lourenço,
que contou esse pormenor, do qual só soube vinte anos após 1974, questionou-se sob
que teria acontecido caso ela tivesse indicado a casa onde os militares, que estavam
armados, se reuniram (Nota 2).

Quadro 19 – Acções da Liga de Unidade e Acção Revolucionária (LUAR) [Quadro


omitido]

Depois de ser detido, Palma Inácio foi sujeito a violentos espancamentos e à tortura do
sono, durante 18 dias, às mãos do inspector Silva Carvalho, do chefe de brigada Afonso
Duarte e do agente Domingos Duarte (Nota 3).
Nota 1 - «Eu vi prender Palma Inácio e mais seis», in A Capital, 29/11/73; A Capital,
25/2/75, pp. 12-13 e entrevista com Palma Inácio, por Lourdes Féria (Diário de Lisboa,
2/5/74, pp. 18 e 19).
Nota 2 - 30 Anos do 25 de Abril, coord. de Manuel Barão da Cunha. Um Documento
para melhor compreender a nossa história contemporânea, Lisboa, Casa das Letras,
2005, p. 40.
Nota 3 - Entrevista com Palma Inácio, por Lourdes Féria (Diário de Lisboa, 2/5/74 pp.
18 e 19).

Seguem-se 8 folhas com fotografias e gráficos

193

Após os interrogatórios aos presos, a DGS concluiu que a LUAR se propunha, através
de acções armadas, assaltar agências bancárias e repartições de Finanças, bem como
postos da PSP e GNR, para se apossar de armas e uniformes, desviar um avião
comercial para a Argélia e raptar «altas individualidades portuguesas que nele
viajassem, para pedir resgate», numa chamada operação do século». Mais tarde, Palma
Inácio revelou que nessa operação estava incluída o rapto do director da DGS, com o
«objectivo principal [de] obrigar o major Silva Pais a confessar quem tinha assassinado
o general Humberto Delgado» (Nota 1).

VII.2. A ARA E A CONFUSÃO INICIAL DA DGS

Depois da LUAR, surgiu a organização armada ARA, ficando a DGS inicialmente


confusa quanto à autoria das diversas sabotagens e dos diversos rebentamentos de
explosivos. Num relatório de 1972 sobre os «actos de terrorismo que ultimamente se
vêm verificando no País e no estrangeiro com o
fim de atentar contra a segurança do Estado e das populações», a DGS começou por não
perceber de quem era a autoria de todas as operações, e por achar que a acção da Escola
Técnica se devia a «elementos comunistas da facção terrorista (maoístas)» (Nota 2).
Quando ocorreram as acções no Comiberlant, em 27 de Outubro, em Oeiras, na base
subterrânea da NATO na Fonte da Telha, em 7 de Novembro de 1971, e na bateria de
canhões em Santo António da Charneca, em l2 de Novembro desse ano, a DGS atribuiu-
as ao «MRPP ou outra organização clandestina do género». Ora, como se viu, a do
Comiberlant foi da autoria da ARA e as outras duas operações de outra «organização
clandestina», as Brigadas Revolucionárias. Só depois é que a DGS soube que estas duas
operações, bem como o roubo de explosivos numa pedreira no Algarve e a sabotagem
dos camiões da Berliet, em Lisboa, respectivamente em 11 de Junho e de Julho de 1972,
tinham sido da autoria da chamada «Frente Patriótica de Libertação Nacional», através
das suas «brigadas revolucionárias» (Nota 3).
Raimundo Narciso, um dos operacionais da ARA, contou que começou por «achar
graça» ao «logro» em que a polícia caíra, na «convicção de que a curto prazo, se
desenganaria». Isso aconteceria pouco depois com a operação na base de Tancos, onde,
segundo ele, a ARA revelara possuir «uma capacidade operacional muito grande», que
na altura só o PCP tinha (Nota 4).
Nota 1 - Quem tira a "prova" às contas da "Operação Mondego"?», in O Jornal, 25/7/75,
10-11: PIDE/DGS, pr. 457 GT, Hermínio da Palma Inácio, fls. 11, 16, 34, 37, 38, 45, 50
e segs., 54, 60 e 76; ibidem, pr. 8259 CI (2), Figueira da Foz, pasta 2, LUAR; ibidem,
MC, Manuel Serra, vol. 1, fls. 1 e 2, vol. 4, fl. 2; pr. 3545 CI (2), Manuel Serra e Maria
Amélia de Araújo Alves, fl. 14.
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 119 CI (1).
Nota 3 – M. Campos e L. Pereira, Opressão (Fascismo) e Repressão (PIDE), pp. 122 e
123.
Nota 4 - Raimundo Narciso. Entrevista de José Pedro Castanheira», in Expresso,
18/11/2000, p. 155.

194

Ao descrever a ARA, esse operacional e membro do seu Comando Central, juntamente


com Jaime Serra e Francisco Miguel, esclareceu que essa organização esteve em
actividade entre 1970 a 1972 — «por razões políticas, suspendeu a sua actividade» em
1973 —, tendo desencadeado acções armadas.
Segundo ele, «a ARA era, do ponto de vista da organização, uma entidade auutónoma
mas do ponto de vista político era uma organização do PCP», que decidira a sua criação
em 1964, num período em que - Lembre-se — Francisco Martins Rodrigues e outros
saíram do PCP e criaram a organização pró-chinesa FAP/CMLP, enveredando pela luta
armada. No entanto, a ARA só começara a actuar seis anos depois, devendo-se esse
atraso, segundo Narciso, às «sucessivas ofensivas da PIDE contra o PCP,
desmantelando várias organizações e levando à prisão numerosos quadros — entre os
quais Rogério de Carvalho, o primeiro dirigente da ARÀ, detido em finais de 1965
(Nota 1).
Por outro lado, ainda segundo Narciso, tinha havido um «fraco empenhamento da
direcção do PCP na concretização das chamadas "acções especiais"» armadas, dado que
estas não estavam inscritas na táctica política delineada, sendo aliás um dos motivos do
combate político e ideológico às forças maoístas que a defendiam. A primeira acção, do
«Cunene», fora, aliás, aplaudida pelas organizações maoístas e dissidentes do PCP,
pensandovque era «coisa sua». Chegara mesmo a haver organizações do partido que a
condenaram e militantes presos que a «classificaram como uma acção aventureira».
Segundo relatou Narciso, que nunca foi preso durante os 10 anos passados na
clandestinidade, ele próprio fazia «parte dos que defendiam a utilização de acções
armadas no combate à ditadura, opiniões que acabaram por vencer» (Nota 2).
Saído legalmente do país, em 1965, para Moscovo, fora incumbido de criar, com o seu
controleiro, Rogério de Carvalho, com António Pedro Ferreira e outros, uma
organização que realizasse acções armadas. Depois de uma estadia em Cuba, onde
recebera, juntamente com Rogério Carvalho, treino militar, os dois haviam entrado
clandestinamente em Portugal. Seis meses depois, porém, este último fora detido, sem
prestar quaisquer declarações à polícia sobre a casa de Raimundo Narciso e este só
voltara a ser contactado, por mero acaso, pelo PCP, no Verão de 1966, através de
Ângelo Veloso (Nota 3).
Entretanto, haviam recebido treino militar no estrangeiro mais três grupos, que incluíam
Francisco Miguel, Jaime Serra e «outros operacionais já experimentados, como o Carlos
Coutinho, o Ângelo de Sousa e o António Eusébio». Até chegarem estes elementos,
Raimundo Narciso e Francisco Miguel asseguraram, no interior do país, a direcção da
ARA, que desencadeou então as acções do «assalto ao paiol na serra da Amoreira, a
sabotagem do Comiberlant (o quartel da NATO) e o rebentamento do armamento no
navio Muxima». Entre os 43 elementos da ARA, contaram-se os já referidos dirigentes
do PCP e ainda Joaquim Gomes, que assegurava a ligação entre a direcção do partido e
o seu braço armado (Nota 4).

Nota 1 - Entrevista concedida a João Tunes, inserido no blogue da Internet «Bota


Acima», «Raimundo Narciso. Entrevista de José Pedro Castanheira», in Expresso,
18/11/2000, pp. 150-154.
Nota 2 - Ibidem, p. 155.
Nota 3 - Ibidem, p. 152.
Nota 4 - Ibidem, p. 153, «caixa».

195

VII.2.1. As acções da ARA

Pelo seu lado, Jaime Serra afirmou que a ARA era «constituída por militantes do PCP e
outros revolucionários seus simpatizantes», que, no «plano da direcção, da organização
e da sua acção específica», constituía uma estrutura autónoma e, no plano político,
«actuava em consonância com a política e os objectivos do Partido Comunista
Português». Ao enumerar as principais acções da ARA, Jaime Serra referiu, em 26 de
Outubro de 1970, «a imobilização durante vários dias do navio "Cunene" atracado à
doca de Alcântara e pronto para partir para África com material militar», no casco do
qual foi colocada uma carga explosiva. Essa acção envolveu meios muito rudimentares,
como, por exemplo, a utilização de um pequeno barco a remos, conduzido por Gabriel
Pedro, juntamente com Carlos Coutinho (Nota 1 ).
Com a acção contra as aeronaves militares na Base Aérea de Tancos, de Março de 1971,
a cargo do mesmo Carlos Coutinho, acompanhado de Ângelo de Sousa, ficaram
destruídas cerca de três dezenas de helicópteros e aviões militares. A propósito desta
acção, o general João de Faria Leite Brandão, secretário adjunto da Defesa Nacional,
informou a DGS, em 11 de Março, de que a ARA projectava assaltos a bancos,
nomeadamente à Caixa Geral de Depósitos do Porto, e novas sabotagens, na base de
Monte Real e nas composições da CP que transportavam material de guerra (Nota 2).
No dia seguinte, o Secretariado-Geral da Defesa Nacional (SGDN) insistiu junto da
DGS na tese das ligações da ARA com o estrangeiro, uma vez que, ocorrida na
madrugada de dia 8, a sabotagem em Tancos tinha sido noticiada pela BBC às 23 horas
do dia seguinte. Pediu assim a colaboração «prestimosa» da DGS, «por forma a que
serviços de escuta competentes envid[ass]em todos os esforços no sentido» de serem
identificados os meios de comunicação da ARA (Nota 3).
No resumo dos autos do processo de Daniel Cabrita e outros, a DGS reconheceu não ter
conseguido atingir e penetrar a organização, mas que, esclarecimentos prestados por um
dos arguidos, apurara que «a "ARA" existe porque o "partido" existe». No entanto —
acrescentava a DGS —, o PCP procurava preservar a actividade delituosa dos seus
«quadros legais», sobretudo os que se distinguiam pela qualidade de luta e pelo
intelecto, «compartimentando tanto quanto possível o sector em que milita[va]m»,
visando dificultar o trabalho da polícia (Nota 4).
Em 14 de Abril de 1971, a DGS informou a Presidência do Conselho diversos
ministérios de que a ARA não era uma «organização terrorista mas um grupo de
indivíduos recrutados no seio do PCP», estando fora do propósito atentados que
pudessem provocar vítimas.
Nota 1 - Ibidem, pp. 155 e 156.
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 16.042-SC/ CI (2), fl. 366.
Nota 3 - Ibidem, fl. 364.
Nota 4 - Ibidem, pr. 392/71, vol. 1, fls. 151, 179, 202, 216, 233, 276 e segs. 327, 329,
339, 348, 352, 374, 465 e segs.

196

O PCP, segundo a DGS, apenas optara por essas acções «numa linha de transigência
com os adeptos do Comité Marxista Leninista» (Nota 1). A DGS também enviou, quatro
meses depois, a Clemente Rogeiro, presidente da Comissão Interministerial de Acção
Psicológica, uma fotocópia das declarações de Augusto Lindolfo (Nota 2), funcionário
do PCP detido, segundo o qual a ARA se inseria na política do PCP, num contexto de
conflito sino-soviético e de formação de organizações marxistas-leninistas (Nota 3).
Numa operação da autoria de Carlos Coutinho e Alberto Serra, vários explosivos
haviam entretanto destruído, em 3 de Junho de 1971, a central telefónica e de
telecomunicações de Lisboa, bem como o centro de distribuição de electricidade,
colocara na escuridão, durante 10 horas, a reunião do Conselho Ministerial da NATO.
Em 29 de Setembro, uma nota oficiosa da DGS informava que tinham sido levados a
tribunal cinco processos da ARA, com muitos indivíduos implicados. Os responsáveis
operacionais por todas essas acções eram, segundo a DGS, Raimundo Narciso, do PCP,
(o que era verdade) e outros dois indivíduos, Carlos Antunes, da FPLN ( o que não era
verdade), e o ex-seminarista Joaquim Alberto Lopes Simões da LUAR (o que não era
verdade) (Nota 4).
A confusão parecia, de facto, reinar no seio da DGS, a menos que se tratasse de uma
nota para confundir essas organizações armadas, fingindo que essa polícia sabia menos
do que realmente sabia. Mais tarde, em 26 de Abril de 1973, a imprensa publicou outra
nota da DGS em que esta afirmava ter detido quase todos os elementos da ARA (Nota
5), embora continuassem a monte Jaime Serra, Raimundo Narciso, Francisco Miguel
Duarte e Ângelo Rodrigues de Sousa (Nota 6). Em Maio, a ARA emitiu, porém, um
comunicado onde declarava «que face ao desenvolvimento de um amplo movimento
político cujo êxito se considerava importante para o enfraquecimento e derrota do
regime fascista e colonialista», fazia «uma pausa temporária na sua acção, com vista a
facilitar o máximo aproveitamento da luta popular antifascista».
A última grande acção da ARA, que se desdobrou em várias operações e mobilizou
cerca de duas dezenas de quadros, meios técnicos e materiais elevados, ocorreu,
entretanto, em 9 de Agosto: tratou-se da danificação em Lisboa, Porto e Coimbra, de
vinte torres metálicas das linhas de alta tensão da rede eléctrica nacional (Nota 7).

Nota 1 - Ibidem, fl. 306, informação n.° 119 CI (1).


Nota 2 - Lembre-se, a propósito, que Augusto Lindolfo começou por declarar, no auto
de 7 de Junho de 1971, que não queria esclarecer a sua actividade enquanto funcionário
do PCP e que a mulher não era do Partido, mas depois, a partir do segundo auto, de 22,
disse ter sido controlado por Joaquim Gomes dos Santos, António Santo, e denunciou os
membros do CC e do secretariado, bem como uma enorme lista de 79 membros, com os
seus verdadeiros nomes e pseudónimos, do PCP em várias fábricas dos arredores de
Lisboa.
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 16.042-SC/CI (2), fls. 48-60.
Nota 4 - Ibidem, fls. 48-60, 240, 288, 297-300, 364, 366, 394, 395, 554, 556, 797, 844,
859, 869, 873, 883 e 896.
Nota 5 - Ibidem, pr. 16.042-SC/CI (2), fls. 770, 777 e 780. Manuel Policarpo Guerreiro,
pintor da construção civil, Carlos Coutinho, professor primário e arquivista do jornal O
Século, Anónio Eusébio, estucador da construção civil, na clandestinidade, Manuel dos
Santos Guerreiro, motorista, e dois estudantes de agronomia, Amado de Jesus Ventura
da Silva e Mário Wrem.
Nota 6 - Ibidem, fl. 765.
Nota 7 - Jaime Serra, Eles Têm o Direito de Saber..., pp. 159-166 e 168-170.

197

Raimundo Narciso explicou que a ARA desistiu de levar a cabo outras operações já
programadas: atacar as antenas da rádio Voz da América e uma fila de camiões Berliet
«estacionados para os lados de Cabo Ruivo, e que acabaram por ser alvo das Brigadas
Revolucionárias». (Nota 1)

Quadro 20 - As operações da ARA, segundo a DGS (quadro omitido)

Entre as razões para a paragem da ARA, destacou as de «carácter político», mas


também o facto de haver nove operacionais presos. A sua própria detenção estava
próxima, se não tivesse acontecido o 25 de Abril de 1974, dado que Joaquim Gomes —
o elemento de ligação entre a direcção do PCP e a ARA — usava como ponto de apoio
um elemento, funcionário da empresa J. Pimenta, que mais tarde se soube ser um
infiltrado da PIDE (Nota 2).

WII.3 As BR

Num folheto de contra-informação não assinado, provavelmente da própria PIDE/DGS


ou da LP, afirmava-se que, segundo o PCP, «Piteira» e «Alegre se tinham apoderado
«abusivamente [de] dinheiro e materiais da FPLN», revelando «extrema deslealdade e
desonestidade» e que esse partido desaprovava «tudo o que viesse a ser feito a partir de
então, por essa organização» (Nota 3). Que se tinha passado? Segundo o PCP, tinha
ocorrido um «golpe» na FPLN, ficando, de um lado, Piteira Santos, Manuel Alegre,
Manuel Sertório e Manuel Ruela e outros, e, do outro lado, os representantes do PCP
Pedro Ramos de Almeida e Pedro Soares.

Nota 1 - «Raimundo Narciso. Entrevista de José Pedro Castanheira», in Expresso, p.


156.
Nota 2 – Ibidem, pp. 150, 152 e 153. '
Nota 3 - PIDE/DGS, pr. 984 CI (2), A Voz da Liberdade, fl. 1.

198

Na sua emissão de 5 de Janeiro de 1971 a Rádio Portugal Livre, emissora do PCP, dava
conta da «acção desagregadora de aventureiros de Argel», nomeando sobretudo Piteira
Santos e Manuel Alegre, a voz de locução da Rádio Voz da Liberdade (RVL). A emitir
dessa cidade, a RVL passou a ser então a estação das Brigadas Revolucionárias (BR).
Esses elementos de Alger foram, por seu turno, qualificados de «intrujões» pelo jornal
de exilados portugueses no Brasil Portugal Democrático (n.° 155, Fevereiro de 1971),
por terem dado a entender que teriam sido os autores d acção de sabotagem do navio
Cunene, quando a autoria desta era a ARA.

VII.3.1. As operações das BR

Na terceira semana de Novembro de 1971, a RVL de Alger noticiou porém, o


rebentamento de explosivos nas instalações da NATO, na Caparica, desta vez
reivindicado pela Brigada Revolucionária n.° 2, que também se disse autora das três
explosões no dia 12 nos canhões antiaéreos da bateria em Santo António da Charneca de
Caparica. Embora com certa demora, a DGS percebeu que a autoria das várias
explosões não era a mesma que a das acções da ARA e afirmou, em 15 de Novembro,
que se estava em presença de duas «organizações terroristas», ambas de «inspiração co-
munista e integradas no movimento revolucionário português». Embora já atribuísse à
ARA a primeira operação, no Comiberlant, a DGS ainda não sabia bem então a quem
atribuir as acções na Fonte da Telha e na Charneca de Caparica. No relatório sobre todos
esses rebentamentos, afirmou que as diligências até então efectuadas tinham levado à
detecção de dois indivíduos, que não tinha sido possível deter, provavelmente por terem
«alterado o sistema de actuação para iludir as autoridades» (Nota 2 ).
De qualquer forma, em 8 de Maio de 1972, a DGS já sabia que Carlos Antunes, das BR,
era o autor, na semana anterior (1.° de Maio), das sabotagens ocorridas nos postos de
alta tensão no Alto do Mira/Amadora e próximo da barragem de Castelo de Bode. Em
resposta a uma nota oficiosa do ministro do Interior, que acusara a ARA e as BR de
serem «organizações terroristas», a própria RVL esclareceu, na sua emissão de 19 de
Maio, que se tratava de organizações autónomas.
No dia seguinte, uma nota da DGS (Nota 3) avisou a tutela de que estavam em
preparação «acções de terrorismo a desencadear no país por organizações constituídas
por portugueses residindo no estrangeiro e apoiados em quadros internos», mas —
erroneamente — disse «que existia um entendimento" em nível de "alta direcção"» entre
os vários grupos e os seus quadros, «para uma acção de carácter revolucionário». A
DGS assegurava, porém, ter identificado os mais importantes dirigentes dessas
organizações armadas, embora a «diversidade e escassa interdependência directa das
organizações, no campo da sua estrutura e acção» tivessem tornado «particularmente
difícil a tarefa» da polícia.

Nota 1- Ibidem, pr. 720 Cl (2), Fernando Piteira Santos e Stella Bicker Correia Ribeiro
Piteira Santos, fls. 41, 61, 68, 85 e 288.
Nota 2 - Ibidem, pr. 18327 CI (2), pasta «Diversos», fls. 5 e 34.
Nota 3 - Ibidem, fls. 463-466. •

199
Referindo depois as diversas organizações, seus meios e fins, colocando-as todas no
mesmo saco, o que manifestamente não correspondia à verdade, informou ter
desarticulado em Março a organização O Comunista e haver detido, em 19 de Abril, na
fronteira do Caia, um indivíduo das BR. Além das das BR, a polícia assinalou ainda a
LUAR, que recrutava entre «desertores, aventureiros políticos e ex-padres», e, depois de
estar um tempo paralisada, tinha voltado à actividade, visando a «desorganização social,
o abalo das instituições políticas mediante raptos, atentados, terrorismo anarquista para
desgastar a nação».
A imprensa internacional publicou esse relatório da DGS, em Julho de 1972,
esclarecendo o jornal Il Secolo d’Italia — erradamente — que as «Brigadas
Internacionais» — referia-se às BR — eram de tendência maoísta. Como vê, reinava a
confusão, ainda revelada por outra notícia do jornal alemão Die Welt, segundo a qual a
ARA tinha destruído, num atentado em Lisboa, 13 dos 60 camiões militares para a
Guerra Colonial e tinha reivindicado a autoria, designando-se como «uma fracção da
Brigada Internacional» (!!!).
Mas voltando à actividade das BR, refira-se que, após terem «desviado», em 11 de
Junho de 1972, centenas de quilos de explosivos numa pedreira no Algarve, destruíram
diversos camiões Berliet, orçamentados em 15 000 contos. Foram também as BR que
largaram, no Rossio e em Alcântara, em Lisboa, durante a «campanha eleitoral», dois
porcos fardados de almirante, que traziam um letreiro pendurado com a frase «Américo
Thomaz, presidente ao quilómetro». A DGS informou, internamente, em 15 de Julho,
que entre os indivíduos ligados às BR se contavam Carlos Antunes, na clandestinidade,
Vitor Manuel Dias Ramos, desertor, António Santana Alho, Tomás Melo da Fonseca,
residente em França, José António Silva Calado, estudante de Medicina em Coimbra, e
João Carlos de Oliveira Moreira Freire.
Por volta do mesmo período, uma emissora clandestina em língua portuguesa alertou
para o facto de a DGS pretender infiltrar-se nas BR, aliciando jovens e dizendo-lhes
para contactarem essa organização, através de um determinado apartado em Lisboa.
Lembre-se que, num relatório manuscrito, provavelmente também datado de 1972, da
autoria de um especialista em «contra-espionagem» da DGS, este sugerira novos modos
de actuação contra as organizações revolucionárias armadas, propondo um que passava
pela criação, pela própria DGS, de um grupo que recrutaria membros da FPLN, do PCP
e da LUAR, para acções de provocação.
No último dia do ano de 1972, um grupo de católicos realizou uma vigília na capela do
Rato, a favor da paz e contra a Guerra Colonial, que foi divulgada pelas Comissões de
Trabalhadores Revolucionários (das BR) através de petardos que, ao rebentarem,
espalharam panfletos em Lisboa e Setúbal. Lembre-se que, ao apoiar a divulgação da
vigília, as BR passaram
contar com o apoio de alguns desses elementos católicos ao seu aparelho logístico, e
que muitos destes foram presos, embora os operacionais nunca tivessem sido detectados
pela DGS. A mesma organização desviou dos serviços Cartográficos do Exército cerca
de duzentos mapas de África, que, segundo a FPLN, foram entregues aos movimentos
de libertação africanos.
Em 19 de Março de 1973, o jornal Afrique-Asie incluiu uma entrevista, conduzida por
Aquino de Bragança, com «Chico Manuel» ou «André», pseudónimos de Carlos
Antunes, dirigente das BR, onde este explicou a opção por «núcleos autónomos de
combatentes», além de reivindicar a autoria de várias acções, entre as quais algumas não
referidas pela DGS. Na sua emissão de 22 de Abril de 1973, referindo-se ao comunicado
da DGS publicado no dia 8, a RVL considerou-o uma «confissão pública da ignorância
da PIDE/DGS em relação às Brigadas Revolucionárias» (Nota 1).
Entre as últimas operações atribuídas às BR, a DGS enumerou as ocorridas em Lisboa
em 9 de Março de 1973, nas instalações do Quartel-General, na Rua Rodrigo da
Fonseca, para desorganizar o sistema de abastecimento à Guerra Colonial, nos Serviços
Mecanográficos do Exército, no Quartel da Graça, e contra a repartição distrital de
recrutamento na Avenida de Berna, em que morreram dois operacionais («Ernesto»,
Arlindo Gomes Garrett, e «Luís») (Nota 2). Estas três acções destinavam-se a ocorrer
no mesmo momento, às 3 horas da manha, mas um acidente técnico provocou a
explosão prematura de uma delas e a morte desses dois militantes.
Quadro 21 Operações das Brigadas Revolucionárias
Data Operações
7/8 de Novembro de 1971 Explosão da base da NATO, Fonte da Telha, Setúbal
12 de Novembro de 1971 Explosões na bateria antiaérea em Santo António da
Charneca, Barreiro
1 de Maio de 1972 Tentativa de sabotagem postos alta tensão, em parte do centro e
sul do país: Amadora e perto da barragem Castelo do Bode
11 de junho de 1972 Desvio de explosivos de pedreira, Algarve
25 de junho de 1972 No período eleitoral pata a reeleição de Américo Tomás,
rebentamento de explosivos com panfletos e largada de porcos, no Rossio e em
Alcântara, Lisboa
11 de julho de 1972 Destruição em Cabo Ruivo de 15 viaturas militares Berliet
25 de Setembro de 1972 Sabotagem de instalações electrónicas de Palmela e
Sesimbra da Rádio Marconi
Dezembro Recuperação de mapas militares, num assalto aos Serviços Cartográficos
do Exército, entregues à FRELIMO, ao MPLA e PAIGC
31 de Dezembro de 1972 Rebentamento de petardos, a divulgar a «greve da fome»
de cristãos pela PAZ, na Capela do Rato, Lisboa e margem sul
9 de Março de 1973 Explosivos no Distrito de Recrutamento e Mobilização na
Avenida de Berna, Lisboa
9 de Março de 1973 Explosivos nas instalações do Q.M.G., na Rua Rodrigo da
Fonseca, Lisboa
9 de Março de 1973 Explosivos nos Serviços Mecanográficos, no Quartel da Graça,
Lisboa
6 de Abril de 1973 Explosivos em várias secções dos serviços de recrutamento do
Q.G. da 2a Região Militar, Porto
6 de Abril de 1973 Explosivos na sede do Movimento Nacional Feminino, Porto
29 de Abril de 1973 Distribuição de panfletos em 200 locais de todo o país, feita por
petardos
1 de Maio de 1973 Destruição da Divisão de Contratação Colectiva e Direcção dos
Serviços do Trabalho, do Ministério das Corporações, na Praça de Londres, Lisboa
26 de Outubro de 1973 Destruição de uma das secções do arquivo no Q.G. da
Região Militar do Porto
22 de Fevereiro de 1974 Sabotagem do Q.G. da Guiné, Bissau
9 de Abril de 1974 Sabotagem do navio Niassa, quando ia partir para Bissau

Fonte: PIDE/DGS e Brigadas Revolucionárias, Lisboa, Edições Revolução, s. d., 2.a


ed., pp. 96-98.

Nota: As BR realizaram ainda outras acções, não reivindicadas, de desvio de dinheiro de


bancos, a primeira das quais em Paris, no Banco Franco-Portugais. Seguiram-se, entre
outras, os assaltos, um ao Banco Português do Atlântico de 6 de Novembro de 1972 e
25 de Maio de 1973, à agência do Banco Totta & Açores de Cabo Ruivo e uma tentaria
agência do Banco Nacional Ultramarino, em Lisboa.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 1118/73 CI (2), Partido Revolucionário do Proletariado – PRP,


fls. 21, 26, 42, 75, 106, 146, 147, 151, 154, 170, 198, 202, 249, 437 e 713.
Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 16.042 CI (2), SC fl. 765; pr. 15673 Cl (2), DGS, fl. 28.
Segundo J. Plácido Júnior, no artigo «Meu pai, o "camarada Ernesto"», in Visão,
4/3/1995, «Ernesto» era o serralheiro Arlindo Gomes Garrett.
201

No entanto, depois deste último relatório da DGS ter sido elaborado, continuaram as
operações, que só podiam, a partir de então, ser atribuídas às BR, dado que a ARA tinha
entretanto suspenso as suas acções (Nota 1). Na madrugada de 6 de Abril, foram
destruídas a sede do Movimento Nacional Feminino e as instalações da 2.a repartição do
Quartel-General da 2.a Região Militar, ambas no Porto. Segundo referiam ainda as BR,
com o início das acções armadas do Norte do país, estavam a prestar homenagem à
memória dos camaradas «Ernesto» e «Luís», mortos em 9 de Março. Por seu turno, em
6 de Maio, o Diário de Lisboa divulgou um comunicado das BR a reivindicar a acção
praticada no 4.° piso do Ministério das Corporações, na Praça de Londres em Lisboa,
onde funcionavam a Divisão de Contratação Colectiva e a Direcção dos Serviços do
Trabalho, às 2 horas da madrugada de 1 de Maio.
VII.3.2. O PRP e o desmantelamento do aparelho logístico das BR e da LUAR

Diga-se que, nesse período, além de reivindicar as acções das BR, a RVL transmitia
frases cifradas de instrução para as operações cometidas em Portugal. Em Setembro de
1973, era, porém, outra a notícia transmitida por essa rádio, ao informar que tinha sido
criado o Partido Revolucionário do Proletariado (PRP), a partir da FPLN e de elementos
que tinham participado na CDE, nas eleições de 1969. Numa carta com a data de 15 de
Manuel Alegre e Fernando Piteira Santos descreveram «a manobra» de que a FPLN fora
vítima, quando um autodenominado PRP ocupara as suas instalações e se apropriara dos
seus bens. A DGS foi, aliás, informada dessa dissensão, em 8 de Janeiro de 1974,
através de «David», o seu informador na Bélgica. A RVL passou então a chamar-se
Rádio Voz da Revolução, órgão do PRP que, em Dezembro, anunciou o afastamento
desses dois militantes (Alegre e Piteira), acusados de «manobras frentistas e «social-
democratas e de nada terem a ver com as BR» (Nota 2).
Entretanto, a DGS tinha conseguido desmantelar o aparelho logístico constituído, na sua
maioria, por elementos católicos. Num relatório interno, a DGS afirmou ter detido, por
«ligações com membros da LUAR e das BR», o arquitecto Nuno Teotónio Pereira,
fundador de um de cristãos» que desenvolvia «vasta acção subversiva a nível nacional e
internacional com vista ao fim da chamada guerra colonial», com dinheiro proveniente
de assaltos à mão armada de agências bancárias (Nota 3). Uma das publicações desse
grupo de cristãos, o Boletim Anti Colonial, ia sido editada através de uma máquina IBM
financiada por Luís Moita, através de dinheiro proveniente das BR. Nuno Teotónio
Pereira colaborara, ainda segundo a DGS, com elementos da LUAR no transporte de
explosivos que guardara em seu poder e entregara às BR, que os utilizara em
sabotagens.

Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 393 CI (2), Atentados bombistas; pr. 18327 CI (2), pasta
«Diversos», fls. 55, 178-182, 220, 377, 383, 408, 447, 450, 454 e 463-66.
Nota 2 – Ibidem, pr. 1118/73 CI (2), Partido Revolucionário do Proletariado, fls. 21, 26,
42, 75, 106, 146, 147, 151, 154, 170, 198, 202, 249, 437 e 713.
Nota 3 - «Brigadas Revolucionárias. "Pedro" revela acções armadas antes do 25 de
Abril», entrevista de Fernando Carneiro, in A Capital 20/11/74, pp. 12-13; PIDE/DGS,
pr. 14 CI (1), 20, Posto de Setúbal, fl. 2.

202
A polícia ficou inicialmente confundida, pensando tratatar-se de uma colaboração entre
a LUAR e as BR, mas depois verificou que não só Nuno Teotónio Pereira não pertencia
a nenhuma dessas organizações como a segunda tinha «roubado» à primeira o material
explosivo.
A confusão da DGS relacionou-se com o facto de ter sabido que havia estado à guarda
de Nuno Teotónio Pereira material explosivo da LUAR, depois retirado por elementos
das BR. Lembre-se que uma das envolvidas no processo da LUAR foi Maria de Fátima
da Fonseca Ribeiro Pereira
Bastos, ligada desde Agosto de 1971 ao ex-padre Joaquim Alberto Simões que auxiliara
a sair clandestinamente de Portugal. Fátima Pereira Bastos e outros quatro indivíduos
tinham sido presos, em 12 e 13 de Maio de 1972, acusados de auxiliarem
«conscientemente», segundo a DGS, a saída
ilegal do país de desertores da LUAR.
No entanto, como não se tivesse comprovado que os mesmos pertencessem a essa
organização, haviam sido libertados sob caução e, em 22 de Dezembro de 1972,
absolvidos (Nota 1). Depois, ainda segundo a DGS, num encontro em Espanha, Fátima
Pereira Bastos recebera de Joaquim Alberto dinheiro que depositara na sua conta
bancária e, mais tarde, um carregamento de explosivos e 1800 detonadores,
introduzidos no país em Março de 1972 numa viatura que ela conduzira até uma casa no
Estoril, onde os escondera. Mais tarde, os explosivos haviam mudado de mão, ficando
entregues a outros elementos, através de Nuno Teotónio Pereira (Nota 2).
Acontece que Maria de Fátima Pereira Bastos tinha pedido a este último para guardar
material (explosivos), ao que ele acedera. Entretanto, ela e Osório de Castro são detidos,
como já se viu e, Nuno Teotónio Pereira informa Luís Moita de que tem à sua guarda o
material da LUAR. Este último, que tinha contactos com as BR, informa Carlos
Antunes da existência dos explosivos, os quais vão parar às mãos das BR. Quando
Fátima Bastos é libertada da sua primeira prisão, em 1972, pede o material de volta e
fica perturbada ao saber que outros o tinham ido buscar, ficando Luís Moita de tratar do
assunto (Nota 3).
Luís dos Santos Moita, ex-padre, funcionário do Sindicato dos Electricistas de Lisboa,
acusado de manter ligações com elementos das BR também foi preso, bem como os
seus dois irmãos Manuel e Maria da Conceição. Foram ainda detidos Rui de Lemos
Peixoto, Joaquim Osório de Castro, Maria Luísa Sarsfield Pereira Cabral, Pedro Onofre
e Pereira Neto (Nota 4).

VII.4. A LUTA ANTICOLON1AL

Estes elementos católicos que colaboraram, sabendo-o ou não, com organizações


armadas revelaram, nesse início dos anos 70, uma radicalização assinalável — à
semelhança aliás, como se verá, de muitos jovens, nomeadamente estudantes — devido
à Guerra Colonial.

Nota 1 - Ibidem, pr. 340/72, Maria de Fátima Fonseca Ribeiro Pereira Bastos
Nota 2 - Ibidem, pr. 671/73, vol. 4,
Nota 3 - Ibidem, pr. ind. 3167-E/GT; pr. cr. 544/73.
Nota 4 - Ibidem, pr. 18327 CI (2), pasta «Diversos», fls. 9, 43, 44, 67-68, 98, 118, 126 e
160; pr. 46.239 SR, Delegação do Porto, Luís Moita e outros católicos; pr. 19539 CI (2),
Boletim Anti-Colonial — BAC, fls. 1, 7, 35, 47, 122, 133, 143, 205 e 225.
203

Dado que não há aqui o propósito de analisar a acção da PIDE/DGS nas colónias
africanas nem na Guerra Colonial, só se refere aqui, com alguns exemplos, a
preocupação crescente desta polícia com a oposição à guerra na retaguarda
«metropolitana» bem como casos ligados aos movimentos de libertação que tiveram
repercussão na metrópole.

VII.4.1. Os presos de África

Ainda num período em que não tinha começado a luta armada dos movimentos de
libertação africanos, houve um caso de transferência para a metrópole de alguns
portugueses presos em Angola e Moçambique, entre julho e Agosto de 1959. Tratou-se
do caso de António Matos Veloso,
António Calazans Duarte, José Vieira Meireles, Maria Julieta Gandra, António
Contreiras da Costa, Hélder Ferreira Neto e Manuel dos Santos Júnior. Estes seis
últimos eram acusados de ter formado, em meados de 1959, um grupo para a criação do
Movimento de Libertação Nacional de Angola, segundo os moldes do PCP. Condenados
pelo tribunal militar de Luanda, os detidos recorreram da pena para o Supremo Tribunal,
que aconselhou ao agravamento da pena, sendo Julieta Gandra, Manuel dos Santos
júnior e António Contreiras sentenciados a quatro anos de prisão, José Meireles e Matos
Veloso, a cinco anos, e Calazans Duarte, a cinco anos e meio de prisão maior.
O subdirector interino da delegação de Angola da PIDE, Aníbal de São José Lopes,
propôs porém que Calazans Duarte, Meireles, Gandra e Veloso fossem transferidos,
«como medida preventiva», para a metrópole, os primeiros de Angola e o último de
Moçambique. Um dos argumentos
para a transferência deste último foi o facto de as suas actividades o creditarem «como
"herói" junto dos pretos e mestiços partidários da libertação de Angola» (Nota 1). Em
Novembro de 1960, os quatro presos foram remetidos para Lisboa, sendo enviados para
Caxias. Ao terminar a sua pena, em 30 de Junho de 1964, Julieta Gandra, muito doente,
requereu a liberdade condicional, que só foi concedida em 7 de Julho do ano seguinte,
embora a delegação da PIDE de Luanda tivesse desaconselhado o seu regresso a
Angola, dado que se tratava de «uma médica, que no meio nativo» de Luanda «gozava à
data da sua captura de certo prestígio» (Nota 2).

VII.4.2. O caso Domingos Arouca

Em Maio de 1965, um mês após ter tomado posse do cargo de presidente da Direcção
do Centro Associativo dos Negros de Moçambique, o advogado «negro» Domingos
Arouca foi aí preso, sob a acusação de ser dirigente da Frelimo. É aqui utilizado o
qualificativo «negro» porque esse facto teve grande importância no caso e foi revelador
da componente racista existente quer na DGS quer nos tribunais portugueses.

Nota 1 - Ibidem, pr. 1405/53, Maria Julieta Guimarães Gandra, fls. 1, 87 e 89.
Nota 2 - Ibidem, pr. cr. 715/59 SC, fls. 331 e 336; pr. 744 GT e pr. 899 SR, fls. 23 e 36.

Contra a própria lei prisional, que só permitia a incomunicabilidade durante seis meses,
este moçambicano foi então submetido a isolamento entre Maio de 1965 e Junho de
1968, data em que foi transferido para o forte de Peniche, na metrópole. Dado que o seu
sistema nervoso estava muito debilitado, um médico quis interná-lo imediatamente, mas
o inspector-adjunto da PIDE, Manuel dos Santos Correia, não o permitiu e apenas
depois de um movimento de pressão acabou por baixar ao hospital-prisão de Caxias
(Nota 1).
Em final de Maio de 1972, Domingos Arouca já havia expiado a condenação que lhe
fora imposta pelo Tribunal Militar de Lourenço Marques (quatro anos de prisão mais
três anos de prisão de «medida de segurança») e o seu advogado, Francisco Salgado
Zenha, pediu o habeas corpus, descrevendo ao presidente do Supremo Tribunal de
Justiça todas as ilegalidade cometidas contra o detido. O seu julgamento, apenas
marcado para Julho de 1967 — o que representou uma prisão preventiva de dois anos
— fora adiado sine die, «sem que para tal se tivesse invocado qualquer fundamento —
legal ou ilegal!!!». Por outro lado, havia sido promulgada, em Maio desse ano, por
ocasião da visita do papa Paulo VI a Portugal, uma amnistia que mandava contar por
inteiro todo o tempo de prisão preventiva sofrida, mas esta não lhe foi aplicada, em
consequência de o julgamento se ter iniciado «após a amnistia»! Zenha acrescentou que
até parecia «que o adiamento do julgamento inicialmente marcado se fez de propósito
para o efeito!»
Ao ser finalmente condenado, Arouca não havia sido abrangido por nenhuma das
amnistias entretanto decretadas, por se entender que elas não eram aplicáveis aos
«ultramarinos», não obstante ele ter sido transferido das cadeias «ultramarinas» para as
cadeias «metropolitanas», em Junho de 1968. Ora, segundo Zenha, era «absolutamente
absurdo e kafkiano» que houvesse, «dentro da mesma cadeia, um Código Penal para os
metropolitanos e outro Código Penal para os ultramarinos!». A verdade — sublinhou
Zenha — era que o preso, «negro» — no que tem muita honra — e nativo de
Moçambique (sendo o primeiro licenciado em direito negro moçambicano)», tinha sido
«vítima de uma verdadeira discriminação racial».
Revelador disso mesmo era o facto de que, em consequência de um movimento de
solidariedade dos advogados portugueses em 1970 a favor de três colegas então presos
por motivos políticos, Domingos Arouca, Monteiro Matias e Saul Nunes, estes dois
últimos tinham sido postos em liberdade, mas o primeiro continuara detido. «Aqueles
eram brancos,» o requerente é negro», explicou Zenha. Além de mencionar que
constava ter sido o ministro do Ultramar que opusera o seu veto à libertação, Zenha
perguntou «Continuará ele preso porque é negro?» e requereu que fosse declarada ilegal
a prisão em causa e imediatamente libertado Domingos Arouca (Nota 2).

Nota 1 – Ibidem, pr. 36 GT, fl. 355.


Nota 2 - «Habeas corpus para Domingos Arouca», in Francisco Salgado Zenha, A Prisão
do Doutor Domingos Arouca, pp. 13-20.

205

No entanto, em resposta ao pedido de habeas corpus, o Supremo Tribunal de Justiça


argumentou que Domingos Arouca tinha iniciado em 18 de Junho de 1970 o
cumprimento da medida de segurança («que só terminaria em 18/6/1973») e não
beneficiara dos perdões concedidos pelos decretos-lei n.º 47 702, de 15 de Maio de
1967, e n.° 204/70, de 12 de Maio de 1970. Para o facto de este último perdão não lhe
ter sido aplicado, o Supremo Tribunal alegou que a Portaria n.° 340/70, de 7 de Julho,
que tornara aquele diploma extensivo ao ultramar, excluíra expressamente o detido,
porque, à data da emissão da mesma, já se encontrava no cumprimento da medida de
segurança de internamento, ao abrigo da legislação ultramarina.
Ora, como a lei penal era «de aplicação territorial e, encontrando-se o Domingos
António Mascarenhas Arouca em estabelecimento metropolitano, unicamente por falta
de estabelecimento adequado no Ultramar, havia que aplicar ao caso as leis ultramarinas
e não as metropolitanas». Com isso, considerava o Supremo Tribunal, não se estava a
infringir «o princípio constitucional da igualdade dos cidadãos perante a lei, visto que,
segundo a Constituição», o Estado português constituía um «ordenamento jurídico
plurilegislativo» e o diploma, entretanto promulgado em 1972, que acabava com as
medidas de segurança, ainda não se havia «tornado extensivo ao
Ultramar» (Nota 1). Domingos Arouca apenas foi libertado em 19 de Junho de 1973,
mas ficou ainda sujeito a residência fixa na cidade de Inhambane, até 25 de Abril de
1974.

VII.4.3 O caso Joaquim Pinto de Andrade

Outro caso também ocorrido com um «negro» foi o do padre angolano Joaquim Pinto
de Andrade, secretário do bispo de Luanda, detido em 25 de junho de 1960 pela PIDE2,
que o acusou de pertencer a um movimento independentista. Em resposta a esta polícia,
Pinto de Andrade respondeu que, sem ter dado a sua adesão formal a qualquer
movimento ou partido político, nunca deixara de se interessar, na medida em que lho
permitia a «sua actividade sacerdotal, pelas aspirações e pelos problemas que
preocupações das organizações políticas angolanas», porque «a independência está para
o povo, como a liberdade para o indivíduo» (Nota 3). Num depoimento publicado num
jornal de exilados portugueses no Canadá, o padre Joaquim Pinto de Andrade contou
que, em 1950 (deve ser 1959), durante o chamado «processo dos cinquenta», tinha
organizado um movimento de solidariedade para com os detidos e, mais tarde, devido à
sua actividade nos musseques, havia sido preso pelas autoridades coloniais. Após
semanas de interrogatórios, o próprio delegado da polícia considerara que ele devia ser
libertado, mas como houvesse uma campanha pela sua libertação em Angola, a polícia
achara preferível a sua saída dessa colónia (Nota 4), embarcando-o para São Tomé e
Príncipe em 8 de Novembro de 1960, onde permanecera em residência fixa.

Nota 1 – Idem, Ibidem, pp. 30, 31, 32.


Nota 2 - PIDE/DGS, pr. 83 CI (2), Joaquim Pinto de Andrade, fl. 260, L’Unitá, de
12/2/1971, do correspondente em Argélia.
Nota 3 - Ibidem, fls. 262 e 100, Portugal Democrático, n.° 162, Outubro de 1971.
Nota 4 - Ibidem, fl. 124, «Depoimento do padre angolano Joaquim Pinto de Andrade ao
jornal Jeune Afrique», in Luso-Canadiano, de Montreal, 15/5/1971.

206

Em Angola tinha entretanto começado a luta pela independência e, em 25 de Abril de


1961, Pinto de Andrade fora transferido para Portugal , ficando encarcerado no Aljube
durante quatro meses. Após uma greve da fome em protesto pelas péssimas condições
de prisão, fora depois mantido durante 11 meses em prisão domiciliária, no mosteiro
beneditino de Singeverga, em Roriz/Negrelos (Nota 1).
Novamente detido em 12 de Julho de 1962 pela PIDE, com o argumento de que
quebrara as suas «obrigações», ficara encarcerado no Aljube numa masmorra de um
metro por dois, com luz e ar que passavam apenas por uma pequena fresta, dormindo
numa enxerga de cordas traçadas imunda e mal cheirosa. Ao faltarem três dias para
expirar o prazo máximo autorizado pela lei para a prisão preventiva, em 5 de Janeiro de
1963, fora solto, mas mal pusera um pé fora da prisão havia sido novamente detido. Em
14 de Agosto, depois de 398 dias ininterruptos de prisão, sem nenhuma acusação, fora
«libertado», sendo-lhe fixada residência em Ponte de Sor, vigiado ostensivamente por
agentes.
Preso novamente, entre 24 de Janeiro e 3 de Fevereiro de 1964, nada se provara contra
ele, pelo que os autos ficaram então a aguardar melhor prova. Como a PIDE pretendesse
que ele aceitasse de livre vontade a residência fixa, argumentando que se tratava de uma
decisão conjunta do Ministério do Ultramar e do núncio apostólico, Joaquim Pinto de
Andrade dissera duvidar da existência de tal acordo, e recusara. O certo é que depois o
núncio lhe negaria as «absurdas acusações da polícia». Pinto de Andrade continuara em
residência fixa, no Seminário da Nossa Senhora da Boa Nova, até 1967, ano em que,
por intervenção de Paulo VI, fora autorizado finalmente a deslocar-se, desde que não
saísse de Portugal nem voltasse a Angola. A sua vida prisional, porém, não acabou aí,
como se verá.
Outros padres angolanos estiveram também em regime de residência fixa em Portugal,
desde 1961. Entre eles contaram-se o abade Franklim da Costa, cónego da Catedral de
Luanda, exilado em Braga, o abade Alfredo Osório Gaspar, superior da Missão Pio X
em Angola, anteriormente preso antes de ser colocado em residência vigiada em Viana
do Castelo, bem como os abades Alexandre do Nascimento e José Vicente, exilados em
Lisboa.
Outros três padres angolanos que tinham estado presos em Angola, Gaspar Domingues,
de Muxima, Martinho Samba, antigo vigário de Samba, e Lino de Guimarães, de
Quibala, foram também colocados era residência fixa, respectivamente, em Lisboa e nos
conventos dos Franciscanos de Braga e dos Capuchinhos (Nota 2). Por seu lado, o padre
Manuel Joaquim Mendes das Neves, deão da Catedral de Luanda e vigário-geral da
arquidiocese de Luanda, preso e deportado para Portugal sob a acusação «chefe de
terroristas em Angola», faleceu em 11 de Dezembro no Seminário da Torre, em Soutelo,
Vila Verde. A transladação dos seus restos mortais para Luanda foi impedida, por medo
de que provocasse manifestações antiportuguesas (Nota 3).

Nota 1 - Ibidem, fl. 2.


Nota 2 - Ibidem, fls. 480 e 582.
Nota 3 - Ibidem, fl. 617.

207

No final de Janeiro de 1967, o arcebispo de Luanda, Manuel Nunes Gabriel, escreveu à


PIDE a solicitar a revisão da situação dos padres Joaquim Pinto de Andrade, Alfredo
Osório Gaspar e Martinho Samba, declarando não haver «inconveniente em que um ou
outro regressasse a Angola. Em 1969, os padres Alfredo Osório Gaspar, Vicente José
Rafael e Lino Alves Guimarães puderam regressar a Angola, mas este último foi
assassinado por «desconhecidos», na véspera do Natal desse ano (Nota 2).
Um ano antes, o director da PIDE tinha informado secretamente o MNE que a situação
«dos sacerdotes ultramarinos» havia sido «estabelecida por acordo secreto entre a
Nunciatura em Lisboa e o ministério do Ultramar», servindo aquela polícia «como
órgão de execução das medidas adoptadas nesses acordo». Quanto a Joaquim Pinto de
Andrade, irmão de Mário Pinto de Andrade, dirigente do MPLA, afirmou a PIDE que
tinha ido frequentar, em 1967, a Faculdade de Direito de Lisboa, mas, «merece[ia]
muita vigilância pois contacta[va] bastante com elementos das "esquerdas"» (Nota 3).
Em 7 de Abril de 1970, Joaquim Pinto de Andrade foi preso pela sexta vez, juntamente
com outros acusados de apoio ao movimento de libertação angolano. O julgamento
destes, realizado em Abril de 1971, foi seguido por representantes da Liga dos Direitos
do Homem, da Amnistia Internacional e da Associação Internacional dos Juristas
Democratas (Nota 4). Um desses observadores, Marie Thérèse Cuvelliez, da Federação
da Liga Belga dos Direitos do Homem, deu uma conferência de imprensa em Bruxelas
onde afirmou que o julgamento tinha sido «uma paródia de justiça». No julgamento
foram condenados a penas entre 16 meses e quatro anos de prisão Álvaro Sequeira
Santos, António Garcia Neto, Rui Ramos, António Ferreira Neto, Diana Andringa, Raul
Feio, Fernando Sabrosa e José Coelho da Cruz, enquanto Joaquim Pinto de Andrade foi
sentenciado a três anos de cadeia (Nota 5).

VII.4.4 Os desertores

As diversas organizações da oposição ao regime e à Guerra Colonial tinham estratégias


diferentes no que se relacionava com a mobilização para o serviço militar obrigatório.
Assim, enquanto o PCP deu como palavra de ordem aos seus militantes o cumprimento
do serviço militar e inclusive a ida para as colónias, no sentido de desenvolverem
trabalho político junto dos soldados, os outros grupos, nomeadamente os marxistas-
leninistas, apelaram de uma forma geral à refracção ou, mais propriamente, à deserção.
As Forças Armadas e a PIDE/DGS dividiam os jovens suspeitos em cumprimento do
serviço militar obrigatório entre «politicamente suspeitos» (PS) ou «politicamente
activos» (PA).

Nota 1 - Ibidem, fl. 594.


Nota 2 - Ibidem, fl. 100.
Nota 3 - Ibidem, fl. 458, proc. n.° 2669, 22/U5/68.
Nota 4 - Ibidem, (is. 201, 230, 232, 246, 271 e 355.
Nota 5 - Ibidem, pr. 21/70, DSIC, 2 vols; DL, de 2 de Abril de 1971, fls. 242, 244, 286,
515, 558 e 568.

208

No caso de serem capturados, como refractários ou desertores, ou por desenvolverem


acção política contra guerra, eram punidos com a incorporação na companhia disciplinar
de Penamacor ou com a mobilização para os diversos campos de batalha. Os casos eram
julgados pela instituição militar, embora a partir de 1961 a PIDE tivesse retido alguns
dos «prevaricadores» nas suas prisões, sem os entregar às Forças Armadas.
Com o início da guerra, muitos refractários e desertores saíram clandestinamente do
país, a caminho do exílio, às vezes correndo grandes riscos, como aconteceu em 1963
com três jovens que tentaram fugir de Tavira para o Norte de África num barco a remos
que naufragou. O bote acabou por ser encontrado pelas autoridades espanholas ao largo
da costa de Cádis, mas apenas com dois sobreviventes, Rui Cardoso de Mata e António
Guerreiro, tendo o terceiro, José Pinharanda Rego, morrido. Na sequência das prisões
desses dois jovens, a PIDE deteve os estudantes universitários angolanos Humberto
Traça, Cláudio Sobral, João Nobre e Alberto Rui Pereira, antigo vice-presidente da
direcção da Casa dos Estudantes do Império. Detido durante 23 dias no Aljube, este foi
depois enviado para a colónia disciplinar de Penamacor, de onde conseguiu fugir,
exilando-se em Paris (Nota 1).
Dois anos depois, foi preso o aspirante miliciano Manuel Noel Costa Araújo, que foi
colocado à disposição da PIDE. Numa informação transmitida ao Ministério do
Exército, a PIDE deu conta de que a prisão de Araújo se tinha devido ao facto de manter
contactos com o desertor Manuel da Silva Abreu. A PIDE sabia que tanto Manuel
Araújo como o irmão dele tinham sido aliciados para desertar, com apoio de um
indivíduo de apelido Ferrão e de João Santa Rita, que se encontrava em Angola a prestar
serviço militar. Três dias depois, o Ministério do Exército ordenou a vigilância deste
último e deteve José Noel Araújo, irmão de Manuel, e o alferes miliciano Mário
Domingues Costa. Passados à disponibilidade e entregues à PIDE, o primeiro foi
libertado em 13 de Fevereiro de 1968, tendo o mesmo acontecido ao irmão em 9 de
Maio, por nada se ter provado contra os dois.
Quanto a José Mário Costa, natural de Luanda, foi transferido para a Casa de Reclusão
da Trafaria e entregue à Justiça Militar, sendo julgado em Conselho de Guerra em 26 de
Abril de 1969, por ter ajudado a desertar Manuel Nobre Francisco e haver entregue
munições à Frente da Acção Popular (FAP). Dois meses depois, o Supremo Tribunal
Militar considerou que a pena de Mário Costa devia ser agravada, condenando-o, em
cúmulo jurídico, a nove anos de prisão maior e medidas de segurança (Nota 2). Nesse
ano, foram aliás promulgados dois diplomas, que puniam os que se subtraíssem ao
serviço militar com penas de seis meses a um ano de prestação de serviço militar
efectivo em regime disciplinar (Nota 3) o que não impediu que as refracções e deserções
aumentassem.

Nota 1 - Ibidem, pr. 11.692 CI (2), Alberto Rui Pereira, fls. 33 e 34; pr. 14 CI (1) pasta
20, Posto de Vigilância de Setúbal.
Nota 2 - Ibidem, pr. 2127/67, Mário Domingues Costa e outros, fl. 2.
Nota 3 - Lei n.° 2135, de 11/7/68, Diário do Governo, n.° 163-1 série, art.° 64.

209

Sob vigilância da DGS estiveram também os vários comités de desertores e de


refractários portugueses, criados em vários países da Europa. Por exemplo, na Suécia,
onde viviam cerca de 130 desertores portugueses, havia comités em Estocolmo, Uppsala
e em Malmö (Nota 1). Em França, onde havia portugueses com o estatuto de refugiados
políticos — uma minoria entre os exilados, que na sua maior parte não estavam
legalizados —, havia também vários comités, entre os quais o Comité de Apoio aos
Desertores Portugueses, de Grenoble, que defendia a «deserção com armas» (Nota 2).
Contra esta estratégia estava o Comité de Apoio aos Desertores, Refractários e
Insubmissos Portugueses, com sede em França. Na Holanda havia o Comité Angola e o
Comité de Desertores da Holanda (Nota 3) e na Dinamarca o Comité de Desertores
Portugueses (Nota 4).

VII.5 Outras organizações da extrema-esquerda

Após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), realizado em


1956, houve no seio de muitos partidos comunistas cisões de militantes, dando
posteriormente origem a várias correntes políticas e ideológicas de extrema-esquerda.
Em Portugal, como se viu, o nascimento da extrema-esquerda foi relativamente precoce,
ocorrendo com o aparecimento da Frente de Acção Popular (FAP) e do Comité
Marxista-Leninista Português (CMLP), em 1964. Considerado de «extrema-esquerda»,
foi também criado, na sequência da crise académica de 1962, o Movimento de Acção
Revolucionária (MAR), que teve, porém, pouca duração, extinguindo-se na década de
60.
De «extrema-esquerda» são considerados os agrupamentos e forças políticas que,
seguindo a ideologia marxista, se situavam mais à esquerda que os partidos comunistas,
que criticavam pela sua orientação «revisionista», pacifista, de colaboração de classes e
abandono da via revolucionária para a conquista do poder. Nos anos 60 assistiu-se no
mundo ocidental a uma vaga de contestação da sociedade, para cuja transformação eram
propostas alternativas revolucionárias que defendiam a utilização de meios violentos.
Dessa vaga nasceram os agrupamentos da corrente marxista-leninista, trotskista ou
castrista, influenciada esta pela revolução cubana.
Também em Portugal, as transformações sociais ocorridas na década de 60, associadas à
crescente contestação à Guerra Colonial, provocaram o aparecimento de novas
organizações. A maioria destas reivindicava-se na continuação da FAP/CMLP e
reclamava-se do marxismo-leninismo, disputando o terreno político ao PCP,
nomeadamente no meio estudantil (Nota 5).
Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 11 006 Cl (1), pasta de Julieta Gandra, fl. 106; pr. 15.568 CI
(2), «Desertores portugueses na Suécia».
Nota 2 - Ibidem, pr. 19 181 CI (2), Comité de Apoio aos Desertores Portugueses,
Grenoble.
Nota 3 - Ibidem, pr. 402/73 CI (2), fls. 6, 35 e 37.
Nota 4 - Ibidem, pr. 19 461 CI(2), Comité de Desertores Portugueses na Dinamarca, fl.
42.
Nota 5 - José Manuel Lopes Cordeiro, «Extrema-esquerda», in Dicionário de História
de Portugal, vol. 7, pp. 711-714.

210

Após a desagregação da FAP/CMLP, devido à repressão verificada entre 1965 e 1968, a


direcção do CMLP, no exterior, organizou em Março deste ano a 1ª Conferência.
Segundo a DGS, alguns dos elementos da FAP/CMLP, que não tinham sido presos e se
haviam refugiado em Paris, começaram a desentender-se entre eles quanto à criação do
futuro Partido Comunista Marxista-Leninista, considerada necessária após a traição do
PCP, qualificado de revisionista. Dessa luta interna resultara a realização de uma 2.a
Conferência, em Paris, em Novembro de 1968, onde fora eleita uma nova Comissão
Central, composta, entre outros, por Carlos Janeiro («Mendes») e Heduíno Gomes
(«Vilar»).
Estes expulsaram alguns militantes, enquanto outros saíram, vindo depois a criar outras
organizações. Na sequência destas saídas e expulsões, haviam sido formados os núcleos
«O Comunista», que publicavam, O Comunista, em Paris, a Luta Armada, na Suécia,
Armas do Povo e ainda O Grito do Povo, no Porto.
Diga-se que a DGS estava um pouco confundida, pois os grupos em volta de O
Comunista (criados em 1968, em Paris) e de O Grito do Povo (criados em 1969, no
Porto) haviam tido origem separada. Só se viriam a fundir numa única organização,
chamada Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP-O Grito do
Povo), criada em final de 1972.
Numa nota à imprensa de 1971, a DGS fez o historial dos grupos «marxistas-leninistas»
com origem na FAP/CMLP, não sem deixar de mencionar que, «por mais estranho que
pareça, as referidas organizações, todas de feição comunista, mas em luta aberta umas
contra as outras, nem sempre são dirigidas por operários ou ex-operários». Pelo
contrário, segundo a DGS, eram chefiadas por «intelectuais e estudantes, muitos deles
saídos do que chamam a classe burguesa a que pertencem e que eles próprios
combatem» (Nota 1)
Segundo a nota da DGS, outros militantes, reclamando-se do CMLP, tinham entretanto
formado, ainda em 1969, os Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas
(CCRML), com implantação Instituto Superior Técnico, a Esquerda Proletária, e o
Grupo de Base A Vanguarda, que durou pouco mais de um ano. No Norte do país surgiu
outro comité propondo-se constituir uma «organização da luta armada», a Acção
Revolucionária Comunista (ARCO).
Por seu lado, em Paris, o CMLP do exterior realizou, em Agosto de 1970, uma reunião,
denominada de 5.° Congresso (Reconstitutivo), formando-se em Partido Comunista de
Portugal (Marxista-Leninista ) [PCP (M-L)], só tornado público em Agosto de 1971. A
criação desse partido», cujos órgãos teórico e de massas eram Estrela Vermelha e
Unidade Popular, surpreendeu «um grupo de intelectuais» que foram considerados
«indisciplinados», e criaram o CML de P, em torno do jornal O Bolchevista, dirigido por
António Bento Vintém.
Nota 1 - PIDE/DGS, pr. 16 042-SC/CI (2), fl. 797.

211

Quadro 22 – Organizações de luta armada e de extrema-esquerda [Quadro omitido]

Divergências políticas e organizativas entre vários membros do Comité Central do PCP


(M-L) levaram depois a uma divisão, passando a existir dois PCP (M-L), o de «Vilar»,
no exterior, em torno de A Voz do Trabalhador, e o de «Mendes», no interior, à volta do
órgão A Verdade. Pondo em causa o chamado 5.° Congresso, este último retomaria o
nome de CML P (Nota 1).

Nota 1 - José Manuel Lopes Cordeiro, «MRPP», in Dicionário de História de Portugal,


vol. 8, pp. 559-560.