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VICENTE FIDELES DE ÁVILA

Edições UVA - 2006


Ávila, Vicente Fideles de

Cultura de subdesenvolvimento e desenvolvimento local /


Vicente Fideles de Ávila. -Sobral: Edições UVA, 2005.
115 p.

ISBN 85-87906-44-5

1. Mudanças sociais. II. Título.

CDD 303.4
SUMÁRIO

PREFÁCIO 5

ENCAMINHAMENTO n

1 NOÇÕES DE CULTURA E QUESTÕES SOBRE O


PRESENTE NA EVOLUÇÃO CULTURAL 13

1.1 Esclarecimentos preliminares 13


1.2 Noções sobre cultura do ponto de vista sociológico 15
1.3 Noções sobre cultura no campo antropológico 19
1.4 Noções sobre cultura em prisma mais histórico-
26
filosófico
1.5 Destaque conclusivo dos enfoques nocionais sobre
cultura 33

2 CULTURA DE SUB/DESENVOLVIMENTO 3?

3 NO CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL
SURGIDO, A QUE VEIO O DESENVOLVIMENTO
LOCAL7

4 FALANDO DIDATICAMENTE PARA ALUNOS E


COMUNIDADES SOBRE QUE É
DESENVOLVIMENTO LOCAL ENDÓGENO

4.1 Desenvolvimento Local NÃO E "Desenvolvimento NO


70
Local (DnL)"
4.2 Desenvolvimento Local NÃO É (só) "Desenvolvimento
73
PARA O Local" (DpL)
4.3 Desenvolvimento Local (DL) E [...] 79
4.4 Características do Desenvolvimento Local (DL) gj
4.5 Delineamentos metodológicos do Desenvolvimento
84
Local
4.5.1 Visão Geral ou "Metodologia do Alpinista" 34
4.5.2 Dimensões metodológicas específicas ^
4.6 Finalização por Contextualização gg

5 SOLIDARIEDADE: MEDULA ESPINHAL MOTRIZ


DO DL 101

6 EDUCAÇÃO: SISTEMA RESPIRATÓRTO-


CIRCULATÓRIO DO DL 105

CONCLUSÃO: LANCE MÍNIMO 111

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 113


PREFÁCIO

Esta obra, ainda que cuidadosamente concluída pelo


autor como "lance mínimo", no sentido de que pela juventude
de suas reflexões no País o tema abordado merecesse novos
aprofundamentos, não é um simples ensaio. Vicente Fideles de
Ávila demonstra, no livro em análise, a maturidade de um pen-
sador já um tanto versado sobre o assunto, se considerarmos o
espaço de tempo dedicado a esse tipo de reflexão no meio aca-
dêmico do País e o que se já apresenta disponível para o leitor
brasileiro. Além disso, é preciso lembrar o número nada des-
prezível de outras obras já lançadas pelo mesmo em torno da
idéia de desenvolvimento local, ao longo destes últimos anos.
Melhor esclarecendo, ele já vem refletindo sistematicamente
sobre o assunto desenvolvimento desde os anos em que fazia
seu doutorado na Sorbonne.
Em realidade, os avanços das reflexões colocadas no
livro em tela, sem perigo de errar, distinguem Vicente Fideles
de Ávila em nível nacional, por que não dizer até internacional,
pelo tipo de abordagem feita em relação ao desenvolvimento
local. O pensamento é peculiar, ao refletir esse conceito no
contexto das especificidades de países fora do circuito do cha-
mado "primeiro mundo". O desenvolvimento local é focado,
como o próprio autor afirma, levando-se em conta a relação do
mundo subdesenvolvido com suas próprias chances de se de-
senvolver, de forma efetiva e emancipada. Há extrema clareza
e racionalidade nessa específica proposição de desenvolvimen-
to local, que se volta para o rompimento das amarras, externas
e internas, que prendem os países ao subdesenvolvimento, e-
mergindo como uma nova filosofia de desenvolvimento,
capaz de produzir efeitos de contraponto aos atuais malefícios
da globalização massificadora às ambiências locais.
O leitor terá chances de observar, pela própria obra,
que Vicente Fideles de Ávila, na busca de maior discernimen-
to, não só constrói suas proposições criteriosamente, demons-
trando semelhanças e disparidades em relação às concepções
afins que emergem em outros contextos sócio-culturais e ins-
tâncias de organização, como também as realimenta daquelas
concepções construídas historicamente em diversas áreas do
conhecimento.
Os avanços sobre o significado do conceito de desen-
volvimento local, na ótica do mundo subdesenvolvido, refleti-
dos neste livro, foram sendo tecidos a partir do desdobramento
de noções construídas sobre cultura em geral e, de modo mais
específico, cultura-do-sub/desenvolvimento historicamente
circunstanciada.

6
Nessa textura, Fideles (como o autor é mais conhecido
em nosso meio universitário) desvenda o papel do presente na
cadeia da sucessão histórica da cultura, como momento de di-
namização dessa sucessão. O desenvolvimento, segundo ele,
emerge da continuamente presente modificação da aprendiza-
gem da cultura acumulada, na perspectiva de situações que
favoreçam ações criativas, capazes de romper barreiras e per-
mitir avanços. Essas situações de dinamismo criativo constro-
em-se por movimentos interativos entre mundos interior e exte-
rior ao indivíduo, pelas influências mútuas entre este e a coleti-
vidade, como também desta com o seu mundo exterior.
O autor desvela, nesse processo de construção concei-
tuai, o estigma do subdesenvolvimento imposto por aqueles
que formulam e detêm as regras do jogo do progresso mundial.
Desse modo, os desenvolvimento e subdesenvolvimento seriam
categorias inventadas, dividindo o mundo de forma dicotômica.
Não deixa de aludir-se, nesse processo, também aos explorado-
res que atuam no interior dos chamados países subdesenvolvi-
dos, contribuindo para acirrar as desigualdades socioeconômi-
cas e culturais. Também argumenta sobre como esses explora-
dores, externos e internos, cultivam a "cultura da pobreza" co-
mo forma de garantir sua própria manutenção e alimentar seus
interesses e ambições.

7
É no contexto dessa dicotomia cultural, inventada e a-
limentada pelo capitalismo globalizador como linha conceituai
de demarcação entre o bloco dos ricos e o dos pobres em nível
planetário ou o dos que podem mandar e o dos que devem obe-
decer - científica, técnica e economicamente falando que o
autor consegue discernir as diferentes óticas de desenvolvimen-
to local, vez que emergem nos âmbitos relacionais dos chama-
dos mundos desenvolvidos e subdesenvolvidos.
Discute, ainda, sobre a importância das diversas for-
mas de cooperação e participação solidárias como forças mo-
trizes do dinamismo interno, em processo de desenvolvimento
local. No mesmo sentido, como educador que é, demonstra sua
inquietação com o papel da educação comunitária e escolar,
tanto no processo de informação quanto de formação, ambas
em fecunda intercomplementação e funcionando como instru-
mento de melhoria e refinamento nos prismas individual e co-
letivo.
Um dos avanços do autor, em relação às obras anterio-
res, foi o de apontar os primeiros passos metodológicos para o
desenvolvimento local, delineando as principais dimensões
desse processo, assim como a programação e operacionalização
do que denomina "ciclos de trabalho cooperativo". É interes-
sante verificar o papel atribuído ao agente de desenvolvimento

8
local nesse processo, comparado ao de um pedagogo-sócio-
comunitário que auxilia as comunidades localizadas a encon-
trar e trilhar seus próprios caminhos do desenvolvimento, am-
parados - agentes e comunidades - pela metodologia do "a-
prender a aprender" em conjunto e partilhadamente.
O desenvolvimento local, definido na ótica de Vicente
Fideles de Ávila como capaz de romper as amarras do subde-
senvolvimento, é endógeno, democratizante e democratizador,
integrante e integrador, além de auto-sustentável. Em realidade,
o avanço nesse rumo pode ser praticado por qualquer coletivi-
dade, não importa a que divisão ou categoria inventada perten-
ça no universo sub/desenvolvido. Para o autor, o importante é
que ela consiga se sensibilizar diante dessa nova ótica, demons-
trando capacidade para se mobilizar e se organizar de forma
cooperativa, cultivando a autoconfiança e o poder de discerni-
mento, para ir ao encontro das soluções possíveis. Implica-se,
portanto, em desenvolvimento sociocultural, como ponto de
partida, que respeita e aproveita as peculiaridades e potenciali-
dades locais. Para Fideles, às coletividades localizadas o de-
senvolvimento local pode tanto consistir na transformação do
momento presente em oportunidade de mudança, contrapondo-
se à globalização massificante, como também tornar-se cami-

9
nho para se atingir maior equilíbrio entre os mundos desenvol-
vido e subdesenvolvido. Fica no ar o seu desafio.
Aqueles - como eu - que conhecem e acompanham
com admiração o trabalho de Vicente Fideles de Ávila não vão
se surpreender com a abrangência de visão e a profundidade de
suas reflexões nessa sua nova obra. A precisão conceituai, a
riqueza de análise, amparadas por preciosa capacidade de ex-
ternar idéias com auxílio de metáforas, constituem um de seus
méritos, proporcionando prazer na leitura, reforçada por enca-
deamento esclarecedor dos argumentos apresentados.
Fiz parte daqueles que o incentivaram a editar este li-
vro, em função da contribuição que deve trazer a segmentos
mais amplos da sociedade, pelo privilégio das reflexões nele
colocadas. Em outros termos, não só acredito na notável con-
tribuição que essa obra trará à ciência dedicada ao desenvolvi-
mento, como tenho certeza de que ela deverá servir de ponto
obrigatório de referência nas discussões sobre o desenvolvi-
mento local que ora se fazem no Brasil e no mundo.

Cleonice Alexandre Le Bourlegat


(Coord. do Programa de Pós-Graduação - Mestrado
em Desenvolvimento Local/UCDB)

10
ENCAMINHAMENTO

Em prisma panorâmico, a textura desta abordagem


temática - CULTURA DE SUB/DESENVOLVIMENTO E
DESENVOLVIMENTO LOCAL - se encadeia através dos
seis seguintes e estratégicos desdobramentos básicos, eviden-
temente seqüenciados de acordo com a lógica de exposição e
argumentação aqui adotada: noções de cultura e questões sobre
o presente na evolução cultural; cultura de
sub/desenvolvimento; no contexto histórico-cultural surgido, a
que veio o desenvolvimento locall\ falando didaticamente para
alunos e comunidades sobre que é desenvolvimento local (DL);
solidariedade: medula espinhal motriz do DL; e educação: sis-
tema respiratório-circulatório do DL.

Os enfoques sobre solidariedade e educação, no con-


texto do desenvolvimento local, não se situam como quinto e
sexto enfoques de abordagem porque considerados menos im-
portantes que os quatro que os antecedem. Pelo contrário, isso
se deu em virtude exatamente de ambos permearem, explícita
ou implicitamente, todas as dimensões teórico-metodológicas
do desenvolvimento local, gerador de nova perspectiva cultural
de desenvolvimento, e de que, por isso mesmo, posicioná-los
após o tratamento dessas dimensões os tornaria mais concisa-
mente realçados.

11
1

NOÇÕES DE CULTURA E QUESTÕES SOBRE


O PRESENTE NA EVOLUÇÃO CULTURAL

1.1 Esclarecimentos preliminares

O presente tópico foi pensado e elaborado com estas


duas intenções: primeira, a de enfocar noções gerais e elemen-
tares, porém importantes para se entender a relação entre cultu-
ra e desenvolvimento, apreciando rapidamente as nuances con-
ceituais no tratamento do termo cultura pelos ângulos socioló-
gico, antropológico e filosófico; segunda, a de levantar ques-
tões, no âmbito das noções enfocadas, sobre a importância do
presente, entendido como momento de concreta vivência na
sucessão evolutivo-cultural de qualquer povo configurado co-
mo tal ou, em menor escala, de determinada coletividade hu-
mana com certa regularidade de interação entre seus membros.
Trata-se, pois e tão-somente, de um início de conversa
temática sem a mínima pretensão de esgotar tamanha e com-
plexa discussão em cada abordagem das duas intenções acima.
É de se frisar, nesse sentido, que o próprio Dicionário de Ciên-
cias Sociais, editado pela Fundação Getúlio Vargas (cfr. SIL-
VA, 1987) começa a tratar o significado de cultura com a nota-

13
ção introdutória (p. 384) de que "É difícil estabelecer uma úni-
ca definição deste termo complexo e extremamente importan-
te".
Aliás, convém ressaltar que deliberadamente se optou
pelas abordagens nocionais, abaixo, a partir de dois dicionários
especializados, o Dicionário de sociologia: guia prático de
linguagem sociológica (JOHNSON, Allan G. Trad. Ruy
Jungmann. Rio de Janeiro: Zahar, 1997) - para a área socioló-
gica - e o Dicionário de filosofia (ABBAGNANO, Nicola.
Trad. Alfredo Bosi. 2. ed„ São Paulo: Martins Fontes, 1998) -
no âmbito das noções histórico-filosóficas - e do livro Cultu-
ra'. um conceito antropológico (LARAIA, Roque de Baixos.
15. ed., Rio de Janeiro: Zahar, 2002), para o prisma antropoló-
gico.

Isso, por se entender que o interessado comum por no-


ções desse tipo tende, primeiramente, a buscar panoramas con-
ceituais mais genéricos nessa modalidade de publicação, para
depois se embrenhar em obras e discussões mais detalhadas e
especializadas. Quanto ao livro, já se tornou espécie de clássico
para consulta sobre cultura em antropologia, com mais de 50
mil exemplares espalhados pelo Brasil.

14
1.2 Noções sobre cultura do ponto de vista sociológico

Desse ponto de vista, a primeira impressão que aflora


da explicitação do conceito de cultura diz respeito à indefinição
da função e importância do presente na evolução cultural, a-
pontada em 1.1 como segunda intenção de todo este tópico 1.
Tome-se como referência, neste sentido, o que diz Johnson
(1997, p. 59):

Cultura é o conjunto acumulado de símbolos, i-


déias e produtos materiais associados a um siste-
ma social, seja ele uma sociedade inteira ou uma
família. Juntamente com ESTRUTURA SOCIAL,
POPULAÇÃO e ECOLOGIA, constitui um dos
principais elementos de todos os sistemas sociais
e é conceito fundamental na definição da perspec-
tiva sociológica.

O mesmo autor considera a cultura sob dois aspectos,


os de que, por um lado,

A cultura material inclui tudo o que é feito, mo-


delado ou transformado como parte da vida social
coletiva, da preparação do alimento à produção de
aço e computadores, passando pelo paisagismo
que produz os jardins do campo inglês

e, por outro,

A cultura não-material inclui SÍMBOLOS - de


palavras à notação musical - , bem como as idéias
que modelam e informam a vida de seres huma-
nos em relações recíprocas e os sistemas sociais

15
dos quais participam. As mais importantes dessas
idéias são as ATITUDES, CRENÇAS, VALO-
RES e NORMAS.

Há duas expressões que merecem destaque era relação


à conceituação geral acima, com efeitos extensivos também às
duas subconceituações (cultura material e cultura não-
material). São as de que "Cultura é o conjunto acumulado [.:.]"
e também "[...] é conceito fundamental na definição da pers-
pectiva sociológica":
• A primeira expressão chama a atenção porque passa a
idéia de que a percepção da cultura de cada "[...] soci-
edade inteira ou uma família [...]" se reduz a espécie
de recortes de uma ou outra, em determinadas épocas,
para se identificar e qualificar "[...] o conjunto acumu-
lado [...]", portanto em dimensão de passado, por ela
amalgamado e configurado até as épocas em que os
recortes são ou sejam feitos.
• E a segunda, ao se referir à cultura como "[...] concei-
to fundamental na definição da perspectiva sociológi-
ca", enseja o direcionamento do papel da cultura para
a prospecção do futuro, deixando apenas brechas nas
entrelinhas para se interpretar que, no máximo, a cul-
tura ajuda a melhor conhecer o presente dessa mesma
sociedade ou família.
Portanto, o que parece estranho nessas óticas é que,
em relação a ambas, o ativo e efetivo papel da cultura na dinâ-
mica e permanente construção do presente cultural não mere-
ceu clara explicitação na acima transcrita significação concei-
tuai de cultura. Afinal, na cadeia da sucessão histórica de todos
os fatos, o passado e o futuro não são sempre os elos anteriores
e posteriores aos do presente nessa cadeia? Ou, ainda, se a es-
sência e configuração dos fatos do passado não podem mais ser
modificadas (porque já acontecidas), suas repercussões tanto
no presente - sempre fluindo para futuro - , não podem ser con-
tinuamente corrigidas ou redimensionadas, inclusive no que
concerne às suas influências no permanente surgimento de no-
vos fatos?

Em outros termos, o presente enquanto momento de


dinamização cultural não constitui o fator decisivo da própria
evolução cultural, e em decorrência processualmente lógica, da
geração de "[...] conjuntos acumulados [...]", ou que se acumu-
lem até as dimensões do futuro (aqui entendido como épocas
vindouras em que se fizerem os recortes supramencionados) da
sociedade ou família a que se refere o texto?
Aliás, no que respeita à ativa influência do presente na
história de um povo, o texto desse autor deixa margem a dúvi-
da, como a de contundentemente afirmar, por um lado, que "E

17
importante notar que cultura não se refere ao que pessoas fa-
zem concretamente, mas às idéias que têm em comum sobre o
que fazem e os objetos materiais que usam. [...]". No entanto,
ao descrever em seguida a teoria que o antropólogo Oscar Le-
wis formulou como "Cultura da Pobreza" (a partir de estudos
sobre comunidades de Porto Rico e do México), assim se ex-
pressou (p. 60):

Lewis identificou o que acreditava ser um fator


importante na perpetuação da pobreza. Indepen-
dentemente do que tenha originado padrões de
desigualdade e pobreza na sociedade, argumentou
Lewis, uma vez sejam eles estabelecidos, a vida
de pobreza tende a gerar idéias culturais que pro-
movem comportamentos e pontos de vista que a
perpetuam.

Se assim é (até porque Johnson não contra-argumenta,


só aludindo a possíveis restrições de aplicabilidade da teoria a
outros povos, inclusive observadas pelo próprio Lewis), é de se
realçar que os comportamentos aculturadores, bem como os
geradores ou articuladores culturais em perspectiva de ação -
portanto de dinâmica presente mesmo não se configurando
em essência como cultura, por uma parte são visceralmente
influenciados pela cultura - à exceção dos decorrentes estrita-
mente de impulsos instintivo-biológicos - e, por outra, influem
fundamental e decisivamente no processo evolutivo de geração

18
e acumulação cultural, mesmo que tal processo se configure
como movimento de acomodação, a exemplo daquele perpetu-
ador da "Cultura da Pobreza" teorizada por Lewis.

1.3 Noções sobre cultura no campo antropológico

No campo antropológico, o papel e a importância do


presente na evolução cultural são bem mais explícitos que no
sociológico, da maneira como vista acima, inclusive merecen-
do posição destacada. Aliás, já se aludiu atrás que a forma co-
mo Johnson sumaria a teoria da "Cultura da Pobreza" -
formulada por Oscar Lewis - , ligeiramente vista em parágrafo
anterior, já os pressupõe.
Mas qualquer dúvida possivelmente remanescente, em
relação aos mencionados papel e importância, é peremptoria-
mente desfeita pelo professor de antropologia Roque de Barros
Laraia, em seu livro Cultura: um conceito antropológico,
mencionado no item 1.1, ao informar que (p. 8):

O livro está dividido em duas partes: a primeira,


que se refere ao desenvolvimento do conceito de
cultura a partir das manifestações iluministas até
os autores modernos; a segunda parte procura
demonstrar como a cultura influencia o compor-
tamento social e diversifica enormemente a hu-
manidade, apesar de sua comprovada unidade
biológica.

19
Na primeira parte, conforme anunciado, o professor
Laraia, depois de analisar o dilema da "[...] conciliação da uni-
dade biológica e a diversidade cultural da espécie humana",
percorre a trajetória conceituai de Edward Tylor, considerado o
primeiro a definir cultura do ponto de vista antropológico - em
1871 - (embora o autor considere como precursores John Loc-
ke - cujo Ensaio acerca do entendimento humano, de 1690, é
interpretado por Marvin Harris em 1969 - e Jacques Targot,
que viveu entre 1727 e 1781), até Alfred Kroeber, antropólogo
americano (1876-1960). Este, em 1949, documentou enrique-
cedoras contribuições à definição tyloriana de cultura, extrapo-
lando-a do naturalismo evolucionista influenciado pelo evolu-
cionismo darwiniano, em pleno apogeu à época em que Tylor a
formulou.

Mas, por motivo de restrição ao essencial, dado que -


reiterando - não se pretende aqui esgotar o assunto, apenas a
definição de Tylor e o resumo das contribuições de Kroeber
são a seguir registrados. Em relação a Tylor, diz Laraia (p. 25):

No final do século XVIII e no princípio do se-


guinte, o termo germânico Kultur era utilizado pa-
ra simbolizar todos os aspectos espirituais de uma
comunidade, enquanto a palavra francesa Civili-
zation referia-se principalmente às realizações
materiais de um povo. Ambos os termos foram
sintetizados por Edward Tylor (1832-1917) no

20
vocábulo inglês Culture, que [indicando o come-
ço da definição tyloriana] "tomado em seu sentido
etnográfico é este todo complexo que inclui co-
nhecimentos, crenças, arte, moral, lei, costumes
ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiri-
dos pelo homem como membro de uma socieda-
de". Com esta definição Tylor abrangia em uma
só palavra todas as possibilidades de realização
humana, além de marcar fortemente o caráter de
aprendizado da cultura em oposição à idéia de a-
quisição inata, transmitida por mecanismos bioló-
gicos.

No que respeita às contribuições de Kroeber, Laraia as


organiza nas seguintes oito características descritivas (p. 48-
49):

1. A cultura, mais do que a herança genética, de-


termina o comportamento do homem e justifica as
suas realizações.
2. O homem age de acordo com os seus padrões
culturais. Os seus instintos foram parcialmente
anulados pelo longo processo evolutivo por que
passou [...].
3. A cultura é o meio de adaptação aos diferentes
ambientes ecológicos. Em vez de modificar para
isto o seu aparato biológico, o homem modifica o
seu equipamento superorgânico.
4. Em decorrência da afirmação anterior, o ho-
mem foi capaz de romper as barreiras das diferen-
ças ambientais e transformar toda a terra em seu
habitat.
5. Adquirindo cultura, o homem passou a depen-
der muito mais do aprendizado do que a agir atra-
vés de atitudes geneticamente determinadas.
6. Como já era do conhecimento da humanidade,
desde o Iluminismo, é este processo de aprendi-

21
zagem (socialização ou endoculturação, não im-
porta o termo) que determina o seu comportamen-
to e a sua capacidade artística ou profissional.
7. A cultura é um processo acumulativo, resultan-
te de toda a experiência histórica das gerações an-
teriores. Este processo limita ou estimula a ação
criativa do indivíduo.
8. Os gênios são indivíduos altamente inteligentes
que têm a oportunidade de utilizar o conhecimen-
to existente ao seu dispor, construído pelos parti-
cipantes vivos e mortos de seu sistema cultural, e
criar um novo objeto ou uma nova técnica [...].

A funcionalidade e a importância da cultura no pro-


cesso de vivência e evolução do homem-coletivo e do homem-
indivíduo, expressas pela dinamicidade geradora de mudanças,
que se concretizam em horizontes de sucessivos e reais mo-
mentos temporalmente presentes, embora já essencialmente
impregnadas das características acima, são analiticamente am-
pliadas e densamente reforçadas na segunda parte do livro (p.
65-101), de acordo até com os teores de títulos dos capítulos
que a compõem, ou seja, "1. A cultura condiciona a visão de
mundo do homem"; "2. A cultura interfere no plano biológi-
co"; "3. Os indivíduos participam diferentemente de sua cultu-
ra"; "4. A cultura tem uma lógica própria"; "5. A cultura é di-
nâmica", neste destacando (p. 95-96) que:

No Manifesto sobre aculturação, resultado de um


seminário realizado na Universidade de Stanford,

22
em 1953, os autores afirmam que "qualquer sis-
tema cultural está num contínuo processo de mo-
dificação. Assim sendo, a mudança que é inculca-
da pelo contato não representa um salto de um es-
tado estático para um dinâmico mas, antes, a pas-
sagem de uma espécie de mudança para outra. O
contato, muitas vezes, estimula a mudança mais
brusca, geral e rápida do que as forças internas".

E ao encerrar a referida segunda parte, Laraia (p. 101)


alude à necessidade de entendimento da dinâmica do processo
evolutivo-cultural por esta enfática síntese:

Concluindo, cada sistema cultural está sempre em


mudança. Entender esta dinâmica é importante
para atenuar o choque entre as gerações e evitar
comportamentos preconceituosos. Da mesma
forma que é fundamental para a humanidade a
compreensão das diferenças entre povos de cultu-
ras diferentes, é necessário saber entender as dife-
renças que ocorrem dentro do mesmo sistema. Es-
te é o único procedimento que prepara o homem
para enfrentar serenamente este constante e admi-
rável mundo novo do porvir.

As características conceituais de cultura, enunciadas


na primeira parte do livro e mais abrangentemente analisadas
na segunda, deixam fluir duas conseqüências absolutamente
lógicas:
• Primeira, a de que há intrínseca relação entre cultura e
comportamento humano (explícita ou implicitamente,
cada uma das oito características conceituais elenca-
das toca numa ou mais dimensões dessa relação).

23
• Segunda, a de não haver motivo para dúvida de que os
comportamentos são operações reais que se concreti-
zam em horizontes de sucessivos presentes, ou viven-
ciais momentos temporais de operacionalização, im-
pulsionados e impregnados pela cultura até então a-
cumulada e em evidência explícita ou subliminar nos
momentos em que são concebidos e operacionaliza-
dos.
Esses sucessivos presentes, pela aprendizagem cultu-
ral (via processos de "socialização" ou "endoculturação" da
experiência acumulada) que se modifica por contínua reação
interativo-comportamental com os fatores mesológicos na di-
nâmica existencial interna e externa ao indivíduo e à respectiva
coletividade, não só tornam o todo do homem-coletivo "[...]
capaz de romper as barreiras das diferenças ambientais e trans-
formar toda a terra em seu habitat", como também possibilitam
ao homem-indivíduo, mas sempre como unidade básica societá-
ria e cultural de multiformes conjuntos de homens-coletivos,
por uma parte, limitar - como no caso da "Cultura da Pobreza"
teorizada por Oscar Lewis - ou, por outra, estimular sua "[...]
ação criativa [...]" - para progredir ou se desenvolver com
reflexo imediato na coletividade de sua convivência, pelo me-

24
nos aquela vinculada por língua comum e laços de convivência
local.
Isso, em razão de três lógicas evidentes:
- primeira, a de não existir coletividade sem os indi-
víduos que a componham;
- segunda, a de não haver coletividade sem que a
mesma se delimite e configure em função funda-
mentalmente de língua e convivência espaço-
territorialmente comuns, considerando-se princi-
palmente que do final do século XX para cá esta
modalidade de delimitação (lingüística e de convi-
vência espaço-territorial) vem se tornando cada vez
mais ampliada e ampliável em razão dos canais de
interconexão e aproximação humana por avançados
meios de comunicação, como a Internet e outros
sistemas de redes possibilitados pela teleinformáti-
ca;
- e, terceira, a de haver influências mútuas entre os
indivíduos e coletividade, por eles composta, no
sentido tanto de limitar ou inibir quanto de estimu-
lar, expandir, diversificar ou aperfeiçoar o processo
de ação criativa nas dimensões tanto coletiva quan-
to individual.

25
1.4 Noções sobre cultura em prisma mais histórico-
filosófico

Nesse prisma, Abbagnano (1998, p. 225-229) começa


dizendo que, historicamente, o termo CULTURA - Kultur em
alemão, Culture em francês ou Culture em inglês - compreen-
de duas acepções básicas: a primeira recorrente da Antigüidade
ao Iluminismo, no século XVIII, mas com dois remanejamen-
tos de aspectos, (um no período medieval e outro na Renascen-
ça, como se verá à frente) e a segunda prevalente a partir do
Iluminismo.
Na primeira acepção, a significação de cultura é a da
"[...] formação do homem, sua melhoria e seu refinamento
[...]", inclusive analogicamente interpretada por Francis Bacon,
em seu ensaio de uma "Instauratio Magna" ou compendiação
enciclopédica da nova ciência positiva cujas partes começaram
a ser publicadas em 1605 (THONNARD, p. 452-466), como
"geórgica do espírito", representando figuradamente agricultu-
ra (ou cultivo) do espírito, já que o termo geórgica se refere a
trabalho ou atividade em agricultura.
Para Abbagnano, a formação, enquanto Paidéia' na
acepção clássica grega, compreendia dois grandes campos ope-

1
O autor alemão Werner Jaeger (cf. JAEGER, s/d) escreveu volumoso e
clássico compêndio, de 1343 páginas, intitulado justamente Paidéia: a
formação do homem grego, traduzido e impresso em Portugal, mas tam-
bém distribuído em São Paulo pela Editora Herder.

26
racionais: o da chamada atividade infra-humana, excluindo-se
as parcelas desse campo consideradas utilitárias ou típicas do
trabalho escravo, mesmo que de cunho artístico (artes plásticas,
artesanato, música etc.), em vista de que o escravo era tido
apenas como "instrumento animado" e não ser humano em
plenitude; e o da atividade ultra-humana, mas possível no âm-
bito natural, portanto voltada ao saber propriamente dito - em-
bora ainda relativo - , conforme se ilustra abaixo.
Acrescente-se às notações de Abbagnano, para efeito
de ilustração deste segundo campo de atividade formativa da
cultura, o fato de a própria filosofia expressar bem esse nível
de saber como atividade ultra-humana, enquanto derivada de
fílos+scofós = amigo (ou amante2) + sabedoria, daí resultando
a significação composta: amigo{amante)-da-sabedoria. O fí-
los+scofós (filósofo) antigo entendia e aceitava a possibilidade
de acesso do ser humano à scofía (sabedoria) pela via natural,
mas tão-somente na condição relativa de amigo(amante)-da-
sabedoria, e não na apropriativa universalizante de sábio. Isto,
em razão de se julgar - à época - que a sabedoria (em sentido

2
Boyer (1940, p. 14) entende que o termo grego fílos, que se acopla à pala-
vra scofía para formar o vocábulo filosofia, deriva da raiz do verbo filéin
no sentido de amar. Por outra, e já na condição de derivados, esses dois
termos eram assim constantemente empregados: fílos significando tanto o
substantivo concreto quanto o adjetivo qualificativo amigo e filia desig-
nando o substantivo abstrato amizade.

27
pleno) se alçava a prerrogativa divina ou sobrenatural tanto na
concepção mitológica quanto na dimensão ontológico-
aristotélica do Ato Puro. Daí decorreu o surgimento e a univer-
salização também do termo fílos+scofía (e não apenas scofía)
para designar o saber humana, metódica, rigorosa e sistemati-
camente produzido pela inteligência humana, portanto melho-
rado e refinado conforme acentua o supramencionado primeiro
conceito de cultura.
Quanto às alterações de aspectos no período medieval
e na Renascença, referidas atrás, Abbagnano primeiro delineia
três aspectos, ou espécie de macro-eixos de expressões tenden-
ciais, emergentes da concepção de cultura na época da Paidéia
clássico-grega: o aristocrático em relação às atividades infra-
humanas, o naturalista concernente às atividades ultra-
humanas (aceitação da sabedoria, mesmo que relativa, no
mundo humano natural) e o contemplativo, este referindo-se à
visão conjunta de ambos os campos de atividades.
De acordo com o autor, a alteração que se processou
na Idade Média foi a da supressão do aspecto naturalista, per-
manecendo o aristocrático e o contemplativo, visto nessa épo-
ca cultura ser entendida como sapientia - sabedoria - teologi-
camente dimensionada, em que a importância da Filosofia se
limitava ao plano auxiliar (ancilla = serva que auxilia ou sim-

28
plesmente auxiliar) da Teologia, situação esta de uso corrente
no mundo cristão, através da expressão "Philosophia ancilla
3
Theologiae ".

3
Vez por outra há quem atribua forte peso ideológico à frase latina Philoso-
phia ancilla Theologiae e a traduza por Filosofia escrava da Teologia, não
se dando conta muito bem do sentido historicamente assumido pela Filo-
sofia em relação à Teologia, principalmente em se remontando a essa rela-
ção desde o século IV d. C.
Embora ancilla sempre significasse serva ou mulher serviçal na antigüi-
dade romana, e mesmo tendo em vista que a função serviçal fosse conside-
rada típica de escravos (em vários países do mundo e há pouco menos de
dois séculos atrás), importa observar que a relação entre Filosofia e Teolo-
gia começou a se estabelecer principalmente a partir do século IV d. C.
pela conversão ao cristianismo de intelectuais, dentre eles se destacando
Santo Agostinho (354-430), o mais conhecido teólogo-filósofo cristão an-
tigo. Aliás, nos primeiros decênios do século IV já havia ocorrido a união
estado/cristianismo pela conversão de Constantino, Imperador Romano
Oriental.
Até por volta do século III d. C., os convertidos se constituíam de pessoas
para as quais bastavam as numerosas e variadas expressões do testemunho
cristão: observe-se que normalmente qualquer doutrina religiosa se carac-
teriza como de cunho moral e não filosófico propriamente dito. Mas os
intelectuais neoconvertidos do século IV em diante se esforçaram por en-
contrar alguma forma de explicação ou sustentação racional, mesmo que
apenas aproximativo-comparativa, dos pontos fundamentais da doutrina
cristã. Santo Agostinho, por exemplo, foi buscar explicações para a sobre -
pujança da alma sobre o corpo, do espírito sobre a matéria, e similares, na
famosa teoria de Platão a respeito da relação entre "mundo sensível" e
"mundo das idéias", de certo modo "cristianizando" essas teorias platôni-
cas.
Portanto, vendo as coisas por esse ângulo, a tradução do vocábulo ancilla
pelo termo auxiliar ou serva - que auxilia — parece histórico-
culturalmente mais verdadeira, com a significação de que a Filosofia for-
nece ou cria bases subsidiárias racionais, portanto auxiliares, para se em-
brenhar no horizonte da Teologia (e a em tela aqui é a cristã) que, de fato,
dessas bases se vem valendo sempre, evidentemente que de modo mais
sistemático principalmente a partir do surgimento da instituição universitá-
ria medieval, já difundida na Europa no final do século XII. Entretanto,

29
E na Renascença, outra alteração se processou, em re-
ação ao religiosismo medieval, pela anulação do contemplati-
vo, permanência do aristocrático e ênfase no naturalista.
A segunda acepção de cultura - como dito, irrompida
no Iluminismo do século XVIII - é, para Abbagnano, o reverso
da anterior, isto é, se cultura significava, na primeira, "[...] a
formação do homem, sua melhoria e seu refinamento [...]", na
segunda passou a expressar " [...] o produto dessa formação, ou
seja, o conjunto dos modos de viver e de pensar cultivados,
civilizados, polidos, que também costumam ser indicados pelo
nome de civilização [...]".
Explicando a origem desta acepção no Iluminismo, o
autor é de opinião que tal maneira de conceber cultura já se
fazia presente na seguinte passagem de Kant, do livro Crítica
do Juízo (§ 83), editado em 1790:

Num ser racional, cultura é a capacidade de esco-


lher seus fins em geral (e portanto ser livre). Por
isso, só a Cultura pode ser o fim último que a na-
tureza tem condições de apresentar ao ser huma-
no.

convém notar que se até o século XI os vínculos da Teologia com a Filo-


sofia se estreitavam pela via platônica, sobretudo através de Santo Agosti-
nho, do século XII em diante foi a doutrina aristotélica que entrou no cir-
cuito pela mediação de Santo Tomás de Aquino, até hoje em muita evi-
dência, só que agora com forte espaço de discussão e influência também
de filósofos contemporâneos, a exemplo de Descartes, Kant, Hegel e vá-
rios outros, tanto convergentes quanto divergentes da doutrina cristã.

30
Esta concepção permeou também a obra de Hegel
(1770-1831, inclusive discípulo de Kant), passando do Ilumi-
nismo para o enciclopedismo materialista de D'Alembert
(1717-1783) e Diderot (1713-1784), que o conceberam com
base no materialismo de Locke, Hume e Condillac, ao enciclo-
pedismo naturalista de Rousseau (1712-1778)4 e à expansão
do liberalismo, cujo principal legado, ainda no final do século
XVIII, foi a própria Revolução Francesa.
Com acréscimos de enriquecimento e atualização, a
primeira acepção - a da Pciicléia clássica grega pela qual se
entendia cultura como "[...] formação do homem, sua melhoria
e seu refinamento [...]"- foi retomada por Abbagnano (1998, p.
228) em correção à dicotomização influenciada pelo Enciclo-
pedismo de que as disciplinas de formação humana se dividem
em dois blocos, as de formação geral (expressando a formação
cultural genericamente falando) e as de formação técnica espe-
cífica, sobretudo de cunho naturalista, não consideradas de
formação cultural.
E os acréscimos enriquecedores do autor, em relação à
primeira acepção, são os de que

" Leonel Franca (s.j.) (1967, p. 171) inclui Jéan Jacques Rousseau, assim
como Voltaire (1694-1778), Helvetius (1715-1771), D'Holbach (1723-
1789) - apenas para apontar os mais expressivos no rol dos "Enciclope-
distas" que influenciaram, evidentemente de modo só negativo na visão
jesuítica de Franca, "[...] no último quartel do século XIII [...]".

31
[...] é possível indicar de maneira aproximada as
características de uma Cultura geral que, como a
clássica Paidéia, esteja preocupada com a forma-
ção total e autêntica do homem. Em primeiro lu-
gar, Cultura "aberta", ou seja, não fecha o homem
num âmbito estrito e circunscrito de idéias e cren-
ças. Em segundo lugar, e por conseqüência, uma
Cultura viva e formativa deve estar aberta para o
futuro mas ancorada no passado. Nesse sentido, o
homem culto é aquele que não se desarvora diante
do novo nem foge dele, mas sabe considerá-lo em
seu justo valor, vinculando-o ao passado e eluci-
dando suas semelhanças e disparidades. Em ter-
ceiro lugar, a Cultura se funda na possibilidade de
abstrações operacionais, isto é, na capacidade de
efetuar escolhas ou abstrações que permitam con-
frontos, avaliações globais e, portanto, orienta-
ções de natureza relativamente estável [...].

Ainda bem que Abbagnano se preocupou em elucidar


o que entendia por "homem culto" na segunda característica,
supra:
[...] aquele que não se desarvora diante do novo
nem foge dele, mas sabe considerá-lo em seu jus-
to valor, vinculando-o ao passado e elucidando
suas semelhanças e disparidades.

Aliás, as primeira e terceira características também a-


cima atribuídas à cultura, ou seja, "aberta" e "possibilidades de
abstrações operacionais", ajudam a entender o sentido de "ho-
mem culto" como aquele que é capaz de discernir lições do
passado para influenciar o dimensionamento do presente e

32
ajudar a prospectar rumos culturais para o futuro. Evita-se,
assim, o estreitamento da expressão "homem culto" a equivo-
cadas significações como a de homem erudito (apenas intelec-
tualmente bem informado), de homem socialmente traquejado
ou mesmo de ambas simultaneamente consideradas.
Da mesma forma que retomou a primeira acepção,
Abbagnano também o fez em relação à segunda, só que agora
em prisma conciliatório entre sociólogos, antropólogos e filó-
sofos contemporâneos, ao se pronunciar no sentido de que

[...] a utilidade de um termo como Cultura para


indicar o conjunto dos modos de vida de um gru-
po humano determinado, sem referência ao siste-
ma de valores para os quais estão orientados esses
modos de vida,

imediatamente especificando que "Cultura, em outras palavras,


é um termo com que se pode designar tanto a civilização mais
progressista quanto as formas de vida social mais rústicas e
primitivas." e chegando à conclusão de que, "Nesse significado
neutro, esse termo é empregado por filósofos, sociólogos e
antropólogos contemporâneos".

1.5 Destaque conclusivo dos enfoques nocionais sobre cul-


tura
Concluindo os três enfoques nocionais (o sociológico,
o antropológico e o filosófico) sobre cultura e papel do presen-

33
te (ou conjunto de sucessivos, próximos e concatenados mo-
mentos de vivência real, de um povo ou coletividade, nos quais
de fato a construção do futuro se faz articuladamente com o
passado) em relação a Desenvolvimento Local, o grande desta-
que recai sobre a FORMAÇÃO.
A FORMAÇÃO, ainda que não signifique de per si cul-
tura, porque essencialmente caracterizada - tanto na Paidéia
antiga quanto na atualidade - como performance comporta-
mentalmente operacional para determinadas finalidades coleti-
vamente aceitas dos ser e agir humanos:
- por um lado, é impregnadamente determinada pelo caudal
cultural, que liga o passado ao presente, bem como impulsi-
ona o presente a se projetar para o futuro;
- por outro, constitui-se mecanismo de geração evolutivo-
cultural, e o Desenvolvimento Local se insere neste contexto,
interferindo criativamente no processo presente de prospec-
ção e alicerçamento do futuro de qualquer povo ou coletivi-
dade, tendo em vista que sua dinâmica cultural se encontra
em permanente curso de construção, redimensionamento e
acumulação;
- em suma, todo o arcabouço teórico sobre Desenvolvimento
Local, à frente delineado, implica a acima mencionada fe-
cundidade relacionai entre FORMAÇÃO e CULTURA, as-

34
sim como sua lógica de operacionalidade dela necessaria-
mente decorre, em razão de que a multifuncionalidade da
FORMAÇÃO, enquanto processo catalisador, animador, mo-
dificador, gerador e disseminador de cultura, fica muito clara
se com Lothellier (1974, p. 56) for enfaticamente entendido
(daí o acréscimo do negrito como destaque) que

A formação é pesquisa de forma e não análise


de elementos. Tudo é informe enquanto não é
assumido por nós. Tudo ao nosso redor é "ma-
téria prodigiosamente enorme, imperceptível,
incerta, impessoal". Todavia, esta realidade é a
grande geradora de formas [...] A formação é o
debate sobre as formas, sobre os modos de ex-
pressão [...] A formação é o trabalho sobre as
formas que realizam uma existência e estas
formas de existência, historicamente condicio-
nadas, estão em reforma permanente, sob pena
de não sobreviverem senão deformadas, escle-
rosadas, mortas, ultrapassadas.

35
1

CULTURA DE SUB/DESENVOLVIMENTO

O intuito, aqui, não é o de se estender ao acervo cultu-


ral de toda a história da humanidade, no que concerne a
sub/desenvolvimento, expresso tanto pelas narrativas histórico-
culturais quanto pelos incontáveis patrimônios e sítios arqueo-
lógicos, testemunhos de feitos engenhosos ou da vivência coti-
diana de povos, tribos e clãs, cujo entendimento continua a
desafiar indefinidamente a todos os campos científicos da atua-
lidade.
O fato é que o sub/desenvolvimento humano come-
çou, muito provavelmente, no momento em que o primeiro
indivíduo da espécie afiou a também primeira lança e confec-
cionou um rústico arco que a impulsionasse, reduzida à forma
de flecha, para facilitar e tornar mais eficiente a sua árdua e
arriscada tarefa de subsistência, bem como sua incansável sede
de dominação, aperfeiçoando-a e evoluindo-a até a mais mo-
derna ogiva nuclear, como hipotetiza Ávila (2000, p. 45).
Tudo isso é tremendamente atraente, mas o que real-
mente interessa, neste momento, se limita a saber que cultura a
humanidade já catalisou e amalgamou a respeito da relação

37
SUB/DESENVOLVIMENTO, principalmente em termos de
idéias, crenças, símbolos etc. Esta, sim, embora se constitua
fato historicamente muito recente, já vem deixando marcas
culturais profundas e arraigadas de conceitos e preconceitos
entre hemisférios, povos e pessoas de todo o planeta.
Tanto nas sociedades tidas como mais civilizadas e
poderosas quanto nas comparativamente mais primitivas e sub-
jugadas, ricos e pobres, núcleos e periferias, carentes e opulen-
tos, nobres e plebeus, senhores e proletários, industriais e ope-
rários, livres e escravos compartilhavam espaços territoriais
comuns em hemisférios, países e coletividades menores. Isso,
até que se resolveu inventar as categorias que dividiram o
mundo terrestre em dois blocos assimétricos, o dos países de-
senvolvidos - seleto, poderoso e hegemonicamente dominador
- e o dos países/áreas subdesenvolvidos/as: imenso, carente,
atrasado e sempre confinado ao círculo vicioso da indefinida
dependência e subserviência ao hegemônico bloco dos desen-
volvidos.

Em decorrência, agora se pensa em hemisfério e paí-


ses, e não mais em coletividades menores (regiões ou cantões
dentro de um mesmo país), subdesenvolvidos ou desenvolvi-
dos: por um lado, a pobreza, a discriminação étnico-racial, a
prepotência cultural, e similares, existentes nos países da An-

38
glo-América do Norte, da Europa Ocidental e do Extremo Ori-
ente - naturalmente, os internacionalmente aceitos como de-
senvolvidos - são consideradas apenas ocorrências marginais,
e não subdesenvolvimento propriamente dito, em virtude de a
chancela "desenvolvimento" cobrir cada país como um todo;
por outro, todas as conquistas de progresso (em dimensões
científicas, tecnológicas, sociais, econômicas e culturais, bem
como não mais só em âmbitos de países, mas nos das totalida-
des da América Latina, da África e da Ásia Setentrional -
sobretudo da China-índia ao extremo norte do Oriente Médio),
são no máximo consideradas ilhas-de-desenvolvimento.
E assim mesmo sob suspeita, porque o estigma do
subdesenvolvimento, internacionalmente imposto pelos que
formulam e detêm as regras de jogo do "progresso" mundial às
próprias áreas geofísicas em que tais ilhas se situam, lhes mina
o crédito de originalidade e confiança. Aliás, quando essas
ilhas começam a despertar a atenção internacional, ou são
"compradas" pelas concorrentes desenvolvidas ou simples-
mente "esvaziadas", tanto pela sucção de seus criadores quanto
pela interposição de empecilhos à sua industrialização e co-
mercialização.
Em termos de simbologia cultural, a maneira de se sa-
ber, por exemplo, se uma pessoa com aparência normal é ou

39
não "subdesenvolvida" (hoje e de acordo com os parâmetros
conceituais já universalizados) começa, via de regra, pela per-
gunta sobre sua procedência, quando não pela própria cor da
pele ou sotaque lingüístico. No caso da América Latina e da
África, basta que essa pessoa se identifique como latino-
americana ou africana para que se apresente como subdesen-
volvida. Em se tratando de Ásia, e deixando de lado o Extremo
Oriente - mas incluindo a China - , as expressões simbólicas de
procedência-subdesenvolvida se desdobram nas seguintes mais
representativas: chinês, indiano e árabe, esta cobrindo prati-
camente todo o Oriente Médio. Nesse contexto, até os termos
latino e hispânico, cada um em sua abrangência, já indicam
certa posição de inferioridade no contexto das relações entre
povos latinos e anglo-saxônicos, em geral, até mesmo em di-
mensão de hemisfério norte.

Mas, retomando a questão, atrás, sobre a invenção das


categorias - a do desenvolvimento e a do subdesenvolvimento -
que dividiram o mundo terrestre em dois blocos assimétricos,
convém registrar que tal invenção ocorreu já em pleno século
XX, com precisão de data e ano, de acordo com Esteva (2000,
p. 59): "[...] 20 de janeiro de 1949. Naquele mesmo dia, quan-
do toma posse o Presidente Truman, uma nova era se abria

40
para o mundo - a era do desenvolvimento.", ao pronunciar a
seguinte passagem de seu discurso:

É preciso que nos dediquemos a um programa ou-


sado e moderno que torne nossos avanços cientí-
ficos e nosso progresso industrial disponíveis para
o crescimento e para o progresso das áreas subde-
senvolvidas,

lembrando que (id., p. 60):

Truman não foi o primeiro a usar a palavra. Wil-


fred Benson, antigo membro do Secretariado da
Organização Mundial de Trabalho, foi que prova-
velmente a inventou quando, em 1942, ao escre-
ver suas bases econômicas para a paz, referiu-se
às "áreas subdesenvolvidas". Na época, porém, a
expressão não encontrou eco, nem com o público
nem com os "experts". Dois anos mais tarde, Ro-
senstein-Rodan ainda falava de "áreas economi-
camente atrasadas". Arthur Lewis, também em
1944, referiu-se à distância que existia entre paí-
ses pobres e países ricos. Durante toda essa déca-
da, a expressão apareceu ocasionalmente em li-
vros técnicos, ou em documentos das Nações t i -
nidas. Só se tornou realmente importante, no en-
tanto, quando Truman a introduziu como um sím-
bolo de sua própria política externa. Nesse con-
texto, ela adquiriu uma virulência colonizadora
insuspeita.

Aliás, a dicotomia entre os países socioeconomica-


mente adiantados e atrasados já começava a ser tratada, sobre-
tudo na Europa, sob as denominações "Primeiro Mundo" e

41
"Terceiro Mundo", este compreendido pelas "áreas subdesen-
volvidas" a que se referiu o Presidente Truman. Mas o curioso
é que entre esses dois "mundos" deveria haver o "Segundo",
nunca bem explicitado por todos que por isto se interessavam e
ainda se interessam, como se pode constatar a seguir.
Em abril de 2004, o Prof. Dr. André Joyal - da
Université du Québec à Trois-Rivières/Canadá - ministrou
curso sobre "O Papel das Pequenas e Médias Empresas no De-
senvolvimento Local" na Universidade Católica Dom Bosco,
de Campo Grande-MS, manifestando interesse de ler a versão
preliminar de todo este material, à época já em fase muito adi-
antada de elaboração. Em diálogo, por correspondência eletrô-
nica, só esta passagem foi objeto de questionamento do ilustre
Professor, assim como de resposta ponderativa do autor, nos
seguintes termos:

[Prof. Joyal, e-raail de 02/06/04] - Com relação


às expressões "Primeiro Mundo" e "Terceiro
Mundo", concordo com você, mas tenho que des-
tacar que aqui há um problema lingüístico, porque
em francês nunca dizemos: "le monde premier"
ou "second" ou "troisième". Utilizamos somente a
expressão «tiers-monde». Essa expressão foi utili-
zada pela primeira vez pelo demógrafo Alfred
Sayvy, quando se referiu ao «Tiers-Etat» aludin-
do-se aos "Etats-Généraux" do regime antigo. As-
sim, não há "primeiro" ou "segundo mundo", se-
gundo Sauvy. «Tiers» em Francês, como você sa-

42
be, se refere a um "tiers" ["terceiro"] elemento.
Por exemplo, se eu estou discutindo com a Cleo-
nice [coordenadora do mestrado] e não podemos
chegar a um entendimento, vamos precisar de
uma «tierse-personne» ["terceira-pessoa"] que
poderia ser você. Assim, você seria a «tierse-
personne» sem que Cleonice ou eu sejamos a
"primeira" ou "segunda" pessoa. Dá para enten-
der?

[Autor, e-mail de 05/06/04] - Todavia, a expres-


são "Tiers-Monde", traduzida diretamente para o
português por "Terceiro-Mundo" em toda a litera-
tura que a ela diz respeito, se referia à época e até
agora continua se referindo a realidades dos paí-
ses mais subdesenvolvidos e/ou mais pobres do
planeta, 110 rol dos quais se inclui o Brasil. Portan-
to, implica a sua transposição lógico-lingüistica
também para compreensão em português, cujo
termo "terceiro" pressupõe a ordem hierárquica de
existência e mais intensa qualidade do "segundo"
em relação ao "terceiro" e do "primeiro" em rela-
ção ao "segundo" (tanto em termos de "mais"
quanto de "menos" alguma coisa, ou seja, indi-
cando ordem hierárquica de prioridade ascendente
ou descendente, no sentido — por exemplo - do
"melhor para o pior" (ou vice-versa), do "mais pa-
ra o menos" (ou vice-versa), e assim por diante.
Apesar da "babilônia lingüística", e jamais questi-
onando sua explicação [sobre "tiers" em Francês],
diria que a lógica aí expressa quanto à "tierse-
personne" não requer a hierarquia [descrita no
meu texto], o que pode ocorrer também em portu-
guês, mas subentende a existência dos dois ele-
mentos que a antecedem o "você-Fideles" ["Prof.
Fideles" = nome do autor atualmente mais conhe-
cido no meio universitário] como "tierse-

43
personne": no caso, os dois "elementos" antece-
dentes são o "eu-Joyal" e o "ela-Cleonice" ou vi-
ce-versa, não importando se a nomeação desses
"elementos" seja explícita, implícita ou se um é
ou não "primeiro" ou "segundo".
E mais, se o "Tiers-Monde" se refere ao "elemen-
to" constitutivo da parte mais subdesenvolvida ou
mais pobre do planeta, como dito acima, pressu-
põe-se que os outros dois "elementos subentendi-
dos", que antecedem o "Tiers-Monde", sejam
qualitativamente "diferentes" dele, isto é, mais
desenvolvidos ou mais ricos" que o "Tiers-
Monde": mas quais são eles, mesmo que não se
chegasse ao nível de discussão sobre qual seria o
"primeiro" ou o "segundo"? — Isso foi o que eu
tentei discutir inclusive no contexto próprio dos
Pós-II Guerra Mundial, aí, sim, enfocando mais o
contexto de época do que o da propriedade lin-
güística francesa.

Tais ponderações receberam a seguinte resposta do


Prof. Joyal (também via e-mail no mesmo 05/06/04): "Enten-
do, é bom assim!".
Retomando, pois, a ambigüidade que ronda a signifi-
cação de "Segundo Mundo", cogita-se que tal expressão se
destinasse veladamente aos países do leste europeu, à época
passando a formar o bloco soviético. Tal hipótese é cabível
inclusive em razão de esses países serem excluídos explicita-
mente da conotação "Terceiro-Mundo" até pelo Dictionnaire
Encyclopéclique por Tous - Petit Larousse Illustré, ao especifi-

44
car conceitos inerentes a Tiers, que confere o seguinte signifi-
cado a esta expressão: "Terceiro mundo, conjunto de paises
pouco desenvolvidos economicamente, que não pertencem
nem ao grupo dos Estados industriais da economia liberal e
nem ao grupo dos Estados de tipo socialista" (LIBRAIRIE
LAROUSSE, 1980, p. 1020)
Mas há, ainda, o fato de que no imediato Pós-IF Guer-
ra Mundial o único país em condição de se denominar econo-
micamente "Primeiro Mundo" eram os Estados Unidos, em
vista de que os países europeus - inclusive a Alemanha de um
lado e os Aliados do outro em similares condições (mesmo
que resguardadas as devidas proporções), foram arrasados e
penaram quase duas décadas para se reconstruir. Portanto, não
podiam ser considerados economicamente, naquele momento,
nem de "Primeiro" e nem de "Terceiro Mundo", restando-lhes
provisoriamente disponível também o impreciso espaço-
reserva do "Segundo", pelo seu potencial e capacidade de so-
erguimento, já demonstrados e exercitados ao longo de séculos
e até milênios de história.

Todavia, o rápido e eficiente movimento de reconstru-


ção desses países logo nos dez primeiros anos após a IIa Guerra

1
A frase francesa original é: "Tiers monde, ensemble des pays peu déve-
loppés économiquement, qui n'appartiennent ni au groupe des Etats indus-
trieis d'économie libérale ni au groupe des Etats de type socialiste".

45
Mundial fez com que todos eles de fato se incluíssem na confi-
guração de "Primeiro Mundo", tanto pela performance de re-
cuperação que demonstraram quanto pelo fato do pleno recru-
descimento da "Guerra Fria", cujos países protagonistas-
cabeças eram a Rússia, pelo bloco Soviético no leste europeu, e
os Estados Unidos no lado ocidental.
Embora desde o fim da IP Guerra os Estados Unidos
já contassem com os seus Aliados para a formação do bloco
ocidental, intensificaram a política da rápida incorporação tan-
to dos vencidos (Alemanha, Itália e inclusive Japão) quanto
dos demais em conjunto. Destarte, já no final dos anos 50 não
mais havia países europeus ocidentais em situação de "Segun-
do Mundo", ressalvando-se dúvidas quanto a Portugal e Espa-
nha, que ainda sofriam o peso e as conseqüências socioeconô-
micas das ditaduras Salazar e Franco - mas assim mesmo de
alinhamentos radicalmente anticomunistas assim como aos
países satélites da Rússia na composição da então União Sovié-
tica. Até fora da Europa, nações como Canadá e Austrália nun-
ca se consideraram ou foram de fato consideradas "Segundo
Mundo".

Assim, esse nebuloso espaço do "Segundo Mundo",


talvez melhor entendido como limbo de transição do "Tercei-
ro" para o "Primeiro Mundo", ainda encampava os países

46
desmembrados do bloco socialista soviético, mas também se
estendia a outras denominações (mais nomenclaturas que reais
situações, portanto igualmente ambíguas), como as de pciíses-
em-via-de-clesenvolvimento (sobre a qual se falará um pouco
mais, à frente) e países-emergentes. Esta última ainda hoje é
bastante utilizada em virtude de países como o Brasil, a China,
a índia, o México e similares, por um lado não se verem na
precária e incômoda situação de "Terceiro Mundo" mas, por
outro, estarem certos de que não são "Primeiro", pelas atuais
regras do jogo socioeconômico mundial.
Entretanto, voltando ao discurso de Truman, conforme
Esteva (p. 60), "Ao usar pela primeira vez, em tal contexto, a
palavra 'subdesenvolvido', Truman deu um novo significado
ao desenvolvimento [...]", não tendo - Esteva - a menor dúvida
em afirmar que:

O subdesenvolvimento começou, assim, a 20 de


janeiro de 1949. Naquele dia, dois bilhões de pes-
soas passaram a ser subdesenvolvidas. E m um
sentido muito real, daquele momento em diante,
deixaram de ser o que eram antes, em toda a sua
diversidade, e foram transformados magicamente
em uma imagem inversa da realidade alheia: uma
imagem que os diminui e os envia para o fim da
fila; uma imagem que simplesmente define sua
identidade, uma identidade que é, na realidade, a
maioria heterogênea e diferente, nos termos de
uma minoria homogeneizante e limitada.

47
E mesmo a tentativa de amenizar o enorme fosso dife-
rencial entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos,
no termos acima, pela criação da expressão países-em-via-de-
desenvolvimento, mais ou menos com a mesma significação de
"Segundo Mundo", conforme se viu anteriormente, não surtiu
os efeitos culturais desejados. Como numa disputa em que não
há lugar para meio-vencido-vencedor, também nesse caso o
peso da evidência não recai no meio-termo em-via-de-
desenvolvimento, mas, sim, no dilema ser ou não ser (be or not
to be, plagiando Shakspeare) desenvolvido.

Ademais, a anteriormente mencionada "Cultura da


Pobreza", caracterizada por Oscar Lewis, expressa bem um
tipo fundamental de "[...] imagem inversa da realidade alheia
[...]" acima referida. Todos nós que vivemos o subdesenvolvi-
mento, e não apenas com ele convivemos, jamais poderíamos
contradizer a sua real ocorrência, inclusive da maneira como
sucintamente descrita atrás por Johnson. Entretanto, temos que
ressaltar uma observação extremamente séria, a de que a "Cul-
tura da Pobreza" nem se define e nem se alimenta por si mes-
ma.
Sua definição se faz, como dito supra, pelo contraste
com a "[...] imagem inversa da realidade alheia [...]" - no caso
a dos desenvolvidos - e sua ininterrupta alimentação se proces-

48
sa em duas mãos convergentemente alinhadas, as das instân-
cias externas e internas às "áreas subdesenvolvidas", para dela
- dessa "Cultura" - tirarem incessantes proveitos. Isto, em vir-
tude de que seria incorreto pensar que só os desenvolvidos ex-
ploram os subdesenvolvidos: uma das maiores chagas do sub-
desenvolvimento, assim como de qualquer outra denominação
que se refira principalmente a aberrantes desigualdades socioe-
conômicas e culturais, sempre foi e continuará sendo também a
dos próprios exploradores intramuros, não importa se na con-
dição de exploradores autônomos, na de mediadores da explo-
ração externa ou, ainda, na de ambas essas maneiras de explo-
ração.

O fato é que aos exploradores das "áreas subdesenvol-


vidas", tanto os externos quanto os internos em relação a elas,
não convém a reversão da "Cultura da Pobreza". Pelo contrá-
rio, o que de fato interessa é cultivá-la enquanto eficiente di-
namismo de sustentação e permanente alimentação de seus
próprios interesses e "riquezas". Ávila (2000b, p. 118-119)
ilustra esta situação através da seguinte comparação:

Para compreender isso, basta observar a natureza.


Fique-se debaixo de uma laranjeira cheia de pul-
gões e procure-se verificar com atenção o que se
passa. Os pulgões são, na verdade, um campo de
cultivo de formigas doceiras grandes e miúdas.
Elas os "cultivam" para sugarem as suas secre-

49
ções adocicadas. Portanto, as formigas jamais
"quereriam" que os pulgões se acabassem, como
também jamais "permitiriam" que deixassem de
ser pulgões. O que fazem é alimentá-los sempre
para que excretem também cada vez mais. O que
"interessa" às formigas, em última análise, é a au-
topreservação e o bem-estar delas mesmas e não a
vida e a comodidade dos pulgões.

Trazendo a história das formigas e pulgões à questão


do sub/desenvolvimento, o princípio da estratégia de relacio-
namento do mundo desenvolvido com o subdesenvolvido já
fora embutido implicitamente no próprio discurso do Presiden-
te Truman ao dizer, reiterando:

É preciso que nos dediquemos a um programa ou-


sado e moderno que torne nossos avanços cientí-
ficos e nosso progresso industrial disponíveis para
o crescimento e para o progresso das áreas subde-
senvolvidas.

O que estava explícito era e continua parecendo dese-


jável, inclusive pela elevada dose de solidariedade paternalista
internacionalizante. Mas havia e há outras implicâncias que ele
não disse (porque ainda não sabia ao certo ou, mesmo tendo
noção do que seria, não convinha dizer), quais sejam: EM QUE
CIRCUNSTÂNCIAS, EM TROCA DIRETA OU INDIRETA
DE QUE E A QUE CUSTOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E
CULTURAIS os referidos "avanços" seriam "disponíveis" às

50
"áreas subdesenvolvidas", bem como SE O INTERESSE POR
TÃO GENEROSA DISPONIBILIDADE SE BASEAVA NÃO
APENAS EM METAS DE "CRESCIMENTO" E "PRO-
GRESSO" MAS NA PRÓPRIA EMANCIPAÇÃO DO SUB-
DESENVOLVIMENTO POR ESSAS "ÁREAS".
Essas questões permanecem abertas ainda hoje, afe-
tando até mesmo os investimentos feitos pelos organismos
multilaterais, principalmente quando implicam o entrecruza-
mento desses dois mundos. Por um lado vêm recursos financei-
ros mas, por outro, impõem-se em que e como gastar, aliás,
grandes fatias dos recursos financeiros captados por esse tipo
de financiamento na maioria das vezes sequer chegam aos des-
tinos subdesenvolvidos, restando nas origens em razão de cláu-
sulas vinculatórias referentes, por exemplo, a aquisição de e-
quipamentos (muitos já obsoletos nos respectivos países), mo-
nitoração técnica e assistência tecnológica. Ademais, grossos
subsídios em esferas nacionais e altas taxações era âmbito in-
ternacional recaem exatamente naqueles poucos produtos em
relação aos quais os países subdesenvolvidos já se capacitaram
para competir em certo pé de igualdade no mercado mundial.

Não é por mera coincidência, pois, que a presente ne-


gociação entre países americanos desenvolvidos e subdesen-
volvidos para a formação da Área de Livre Comércio das Amé-

51
ricas (ALCA) vem se desenrolando bem à moda, resguardadas
as proporções, da mencionada história do relacionamento entre
formigas e pulgões.

52
1

NO CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL SURGIDO,


A QUE VEIO O DESENVOLVIMENTO LOCAL ?

A atenção aos toques culturais a respeito de


sub/desenvolvimento, enfocados anteriormente, é imprescindí-
vel para que melhor se captem sutilezas lógicas que já permei-
am ou tenderão a impregnar a caracterização conceituai tam-
bém da expressão Desenvolvimento Local, como se verá na
seqüência.
Pelo viés do socialismo histórico, teoricamente o De-
senvolvimento Local visaria o coletivo local. Entretanto, o pró-
prio socialismo histórico na prática já se curvou à falência em
virtude de por ele, desde sua implantação após a revolução
russo-bolchevista de 1917, se ter procurado rechaçar o capita-
lismo liberal, mas, em verdade, substituindo-o pelo que costu-
mo chamar "capitalismo de estado", o qual acabou arruinando
tanto a economia quanto a cidadania pessoal no âmbito dos
países envolvidos.
Isso significa que, a partir do final da década de 70, o
mundo começou a ficar disponível e sem concorrente para o
capitalismo liberal (à exceção de Cuba, China, Vietnã do Norte

53
e Coréia do Norte), agora começando a se instrumentalizar
científica e tecnologicamente para o fortalecimento do circuito
globalizador de amplitude planetária, evidentemente intentando
tirar, e de fato já tirando, o máximo proveito próprio dessa in-
tensificação globalizadora.
Por outra, coincidência ou não, o Desenvolvimento Lo-
cal começou a se configurar intensa e sistematicamente na Eu-
ropa justo nesse período ou, mais precisamente, ao longo da
década de 80, segundo José Carpio Martin (1999), professor da
Universidade Complutense de Madri:

[...] durante los anos 80, el crecimiento de Ias ex-


periencias de Desarrollo Local está reforzado por
el proceso de descentralización político-
administrativa, Ias políticas de creación de em-
pleo, Ias políticas europeas y el creciente protago-
nismo de Ias sociedades locales en la gestión dei
desarrollo [...] como una estrategia adecuada a Ias
demandas sociales de mayor bienestar social y de
creación de empleo [...]. [Tendo sido entendido
pelo Consejo Econômico y Social-CES da União
Européia, em 1995, segundo o mesmo autor-, co-
mo] el proceso reactivador de la economia y di-
namizador de la sociedad local, mediante el apro-
vechamiento eficiente de los recursos endógenos
existentes en una determinada zona, capaz de es-
timular y diversificar su crecimiento econômico,
crear empleo y mejorar la calidad de vida de la
comunidad local, siendo el resultado de un com-
promiso por el que se entiende el espacio como
lugar de solidaridad activa, lo que implica cam-

54
bios de actitudes y comportamientos de grupos e
indivíduos.

No que respeita à extrapolação do Desenvolvimento


Local para os países iberoamericanos, destaca-se o papel prin-
cipalmente dos geógrafos espanhóis, no dizer do mesmo Prof.
José Carpio Martin (id., 1999), segundo o qual:

Los geógrafos espanoles se han despabilado en


los últimos anos y se han acercado a Ias realida-
des iberoamericanas. Las valoraciones y balances
de esta situación - cambiante felizmente - presen-
tan un avance notable desde comienzos de los
anos noventa bajo formas de convênios institu-
cionalizados entre universidades, el aumento de la
docência geográfica sobre América Latina en la
Licenciatura y los Programas de Doctorado de
Tercer Ciclo.

Em termos de Brasil, terreno favorável a essa modali-


dade de desenvolvimento foi-se preparando desde a "Confe-
rência Mundial Sobre Meio-Ambiente", também conhecida
pela abreviação "ECO-RIO/92", porque realizada na cidade do
Rio de Janeiro em 1992, mas a idéia propriamente dita de De-
senvolvimento Local, da maneira como acima esboçada, de fato
passou a ser disseminada principalmente a partir de 1996, co-
mo descreve Ávila (2003, p. 16):

55
No Brasil, a explicitação desse interesse se iniciou
por volta de 1996 através de um curso na Univer-
sidade de São Paulo—USP, sendo o autor supraci-
tado [Prof. José Carpio Martin] um dos ministran-
tes. A notícia espalhou-se rapidamente, princi-
palmente em alguns estados do Nordeste, chegan-
do imediatamente também à Universidade Católi-
ca Dom Bosco-UCDB, de Campo Grande, Esta-
do de Mato Grosso do Sul, na qual amplo pro-
grama de desenvolvimento local começou a ser
delineado em meados de 1997, mediante convê-
nio com a Universidade Complutense de Madri
(UCM) [também com apoio e ativa participação
pessoal do Prof. José Carpio Martin e de outros
colegas da UCM]. Hoje, a mencionada universi-
dade sul-mato-grossense já conta até com um
Programa de Mestrado em Desenvolvimento Lo-
cal, com área de concentração em Territorialida-
de e Dinâmicas Sócio-Ambientais.

Pois bem, a expressão Desenvolvimento Local, tanto


em nível de idéia quanto no de variadas e por vezes ambíguas
propostas operacionais, vem se espalhando rapidamente conti-
nentes afora, talvez até já beirando as raias do modismo desen-
volvimentista, ou seja, com aparências tecnicamente atrativas
mas de fundo tipicamente político-assistencialista.
Ora, em função disso, pela lógica de submissão ou de-
pendência imposta pelos (países) desenvolvidos às "áreas sub-
desenvolvidas", como visto no item anterior; e diante da crua e
nua realidade de que o capitalismo globalizador, agora tão afi-
ado técnico-cientificamente como nunca dantes e completa-

56
mente sem obstáculos1 para controlar o subdesenvolvimento a
favor dos que dele tiram proveito, faz-se mister a seguinte e
fundamental questão: A QUE, DE FATO, VEIO O DESENVOLVIMEN-

TO LOCAL?

A capital importância da questão se baseia em que o


SIGNIFICADO CONCEITUAL E REAL DO DESENVOLVIMENTO LOCAL
PODE SER ENCARADO PELO MENOS SOB AS TRÊS SEGUINTES ÓTICAS
RELACIONAIS:

- A DA RELAÇÃO DO MUNDO DESENVOLVIDO COM SUAS


PRÓPRIAS PERIFERIAS, CARÊNCIAS E POBREZAS INTERNA
E SOCIECONOMICAMENTE DESEQUILIBRADORAS;

- A DA ATUAL RELAÇÃO DE DEPENDÊNCIA E SUBJUGO DO


MUNDO SUBDENSENVOLVIDO AO MUNDO DESENVOLVIDO

- A DA RELAÇÃO DO MUNDO SUBDESENVOLVIDO COM SUAS


PRÓPRIAS CHANCES DE EFETIVA E EMANCIPADAMENTE
SE DESENVOLVER (TORNANDO-SE CAPAZ DE ROMPER AS
AMARRAS TANTO INTERNAS QUANTO EXTERNAS QUE O
PRENDEM AO SUBDESENVOLVIMENTO), A PARTIR DE
COMUNIDADES-LOCALIDADES CONCRETAS E BEM DEFI-
NIDAS 2 .

' Sobretudo perda da sonhada esperança propalada pelo socialismo histórico


do leste europeu, assim como paulatina abertura da China ao capitalismo
ocidental.
2
A questão da comunidade média ideal, ou stricto sensu, para o Desenvol-
vimento Local foi tratada por Ávila (2000a, p. 70-73) e Ávila et al. (2000,
p. 30-36), configurando-se como aquela espaço-territorialmnte assim co-
mo histórico-identitariamente bem delimitada e com características co-
muns, em que, sociologicamente falando, a performance dos seus "rela-
cionamentos primários" (ou espontâneos) tenda a se equilibrar com a dos

57

X
No caso da primeira ótica, o Desenvolvimento Local
se reduz a canal de extensão das prerrogativas básicas do de-
senvolvimento, já reinante nas zonas desenvolvidas, às zonas
ou bolsões periféricos, carentes ou pobres de determinado país
desenvolvido. Isso se resolve - pelo menos em termos de ame-
nização da injustiça social - por emprego, salário e participati-
vo aproveitamento dos potenciais locais como geradores de
renda e bem-estar social nas comunidades visadas, até porque
outras esferas sobretudo de governo (como as federal ou na-
cional, estaduais ou provinciais e municipais ou comunais)
normalmente já cuidam ou estão aptas a cuidar, quando ainda

também seus "relacionamentos secundários" (ou de controles sociais nor-


mativos ou regulamentares formalmente instituídos).
Entretanto, tem-se ouvido o emprego do termo comunidade em sentido
lato, para significar tocla a população de um país ou de determinada região
dentro do mesmo. De acordo com o(s) autor(es), esse dimensionamento
amplo do vocábulo comunidade se ajusta ao planejamento ou plano a-
brangente de política de desenvolvimento baseada no Desenvolvimento
Local, mas não ao Desenvolvimento Local enquanto processo teórico-
operacional com dimensões próprias, ou seja, destinado diretamente a co-
munidades localizadas, cuja delimitação considere pelo menos as caracte-
rísticas acima.
Portanto, pela multiplicação de iniciativas de Desenvolvimento Local que
respeitem as peculiaridades e aproveitem as potencialidades de cada co-
munidade-localidade, pode-se desencadear excelente e dinâmica política
de desenvolvimento regional ou nacional, e não o inverso, tendo em vista
o Desenvolvimento Local se caracterizar essencialmente - mais à frente
esta questão será retomada - como fluxo que se processa de dentro para
fora e de baixo para cima da respectiva comunidade-localidade, e não o
contrário, isto é, de fora para dentro e de cima para baixo em relação a ela.

58
não existentes, das infra-estruturas físicas, bem como da assis-
tência à educação, à saúde, ao lazer e congêneres.
Em suma, a implementação do Desenvolvimento Lo-
cal, nesse caso, SEQUER PRESSUPÕE ALTERAÇÕES NAS MANEIRAS

DE AS COMUNIDADES - LOCALIDADES ENVOLVIDAS SE RELACIONA-

REM COM OS PARADIGMAS DE DESENVOLVIMENTO EM CURSO: aliás,


mudá-las para que, se são elas que, internacionalmente, man-
têm e alimentam a boa performance do desenvolvimento já em
curso no país desenvolvido?
Visto pela segunda ótica, a da maneira como atual-
mente o mundo desenvolvido vê e trata o mundo subdesenvol-
vido (conforme item 2, anterior), o Desenvolvimento Local,
além de NÃO PRESSUPOR ALTERAÇÕES NAS SUPRAMENCIONADAS

MANEIRAS DE RELACIONAMENTO, trará benefícios - sim - às co-


munidades-localidades em que for implementado, mas apenas
como LENITIVO SOCIECONÔMICO, sem jamais criar perspectivas
de elas e o país que as integre se emanciparem do fatídico mo-
vimento implosivo da "Cultura da Pobreza". E mesmo, que se
intencione o contrário, o Desenvolvimento Local nunca ultra-
passará as fronteiras do assistencialismo.
Por isso, o Desenvolvimento Local tem sido pensado
também nesta ótica (da mesma forma que na primeira) como
coisa só de comunidades periféricas, pobres ou carentes, e não

59
de qualquer comunidade-loealidade (acima caracterizada como
bem definida e com tudo o que abranja de núcleo, periferia,
pobreza e riqueza), que se preste não só a se desenvolver como
também a aprimorar seu processo de desenvolvimento, se já
em andamento: AFINAL DE CONTAS E SOCIOCULTURALMENTE FA-

LANDO, QUANDO E ONDE RIQUEZA SE TORNOU SINÔNIMO DE DESEN-

VOLVIMENTO E RICO DE DESENVOLVIDO?

Se assim fosse, a questão social da pobreza no mundo


estaria em permanente prioridade de solução justamente a par-
tir de todos os ricos do planeta (em termos de hemisférios, con-
tinentes, países, comunidades e pessoas), e não o inverso como
se viu atrás, restando os casos reais de pobreza, carência e mi-
séria sociocultural e material apenas à preguiça, à doença ou
outra anomalia e à falta de iniciativas individuais, visto que
pobreza, carência e miséria também se originam e nutrem des-
ses lados pessoais.
Quanto à terceira ótica, a da relação do mundo subde-
senvolvido com suas próprias chances de se desenvolver efeti-
va e emancipadamente - tornando-se capaz de romper as amar-
ras tanto internas quanto externas que o prendem ao subdesen-
volvimento - , esta, sim, PRESSUPÕE ALTERAÇÕES NAS MANEIRAS

DE AS COMUNIDADES-LOCALIDADES ENVOLVIDAS (E, POR SOMATÓ-

RIA, O PRÓPRIO PAÍS QUE AS INTEGRE) SE RELACIONAREM COM OS

PARADIGMAS DE DESENVOLVIMENTO CAPITALISTA GLOBALIZANTE

EM CURSO, DESPENCADOS EM AVALANCHE PELO MUNDO DESENVOL-

60
VIDO SOBRE O MUNDO SUBDESENVOLVIDO (como visto no anterior
item 2).
Não se trata, em princípio, de alterar ou mudar os pró-
prios paradigmas, porque o mundo subdensenvolvido sequer
tem acesso às suas sistemáticas de geração e controle. O socia-
lismo histórico soviético (embora encarasse o subdesenvolvi-
mento no viés da exploração do trabalho ou mão-de-obra pelo
capital) tentou dinamitar esses paradigmas com ênfase na estra-
tégia marxista da "luta de classes" mas chegou à auto-
implosão, já o vimos. E, por outro viés - o do fechamento cul-
tural também o socialismo maoísta chinês tentou expurgá-
los de seu território, mas hoje a eles progressivamente já co-
meçou a se curvar.
Há, no entanto, uma coisa que pode ser feita gradati-
vamente enquanto Desenvolvimento Local por qualquer povo,
desde que em regime democrático, através de suas comunida-
des concretamente localizadas: sensibilizar-se, mobilizar-se e
organizar-se para a geração gradativamente cooperativa de seu
próprio bem-estar de base, como o desvelamento de auto-
estima, o cultivo da autoconfiança e o tornar-se capaz, compe-
tente e hábil para discernir e buscar tanto suas próprias alterna-
tivas de rumos sócio-pessoais futuros quanto soluções possí-
veis, no seu âmbito ou fora dele, para seus mais imediatos pro-

61
blemas, necessidades e aspirações. E isso sempre a partir da-
quilo que estiver ao seu alcance (principalmente o conhecimen-
to e o aproveitamento de suas reais peculiaridades e potenciali-
dades), bem como do simples para o complexo e do mais para
o menos comunitariamente necessário.
Tais capacidade, competência e habilidades, uma vez
impregnadas na comunidade específica ou no país como um
todo, acabam influindo a favor de mais justa equilibração entre
os atuais mundos subdesenvolvido e desenvolvido, pelo menos
em perspectiva de longo prazo, porque se orientam no sentido
de cada comunidade envolvida começar a romper paulatina-
mente o círculo-vicioso da parasitária dependência assistencia-
lista, que gera e alimenta a "Cultura da Pobreza". Torna-se, em
contrapartida, apta a se interagir e negociar com as instâncias
externas em relação àquilo que lhe convém ou não, indepen-
dentemente da aparência e do marketing em que for embalado.
Afinal, a velha lei do valor baseado na oferta e procu-
ra (cunhada pelo economista escocês Adam Smith em 1776)
ainda comanda o cerne da vitalidade capitalista globalizante. E
isso, aplicado à questão em pauta, significa que quanto maior é
a demanda inclusive por dependência tanto mais cara e preju-
dicial se torna a sua disponibilização, como de fato tem ocorri-
do até agora.

62
Caminhando para o fechamento deste tópico 3, dirá
alguém, e com razão: o Desenvolvimento Local nesta terceira
ótica é tarefa árdua, pacienciosa e implica muita perseverança,
por parte tanto da comunidade mesma quanto dos agentes ex-
ternos, que se disponham a subsidiar e acompanhar o trabalho
comunitário local em verdadeira condição de pedagogos socio-
comunitários.
De fato, a autoformação comunitária para o desenvol-
vimento, naquele sentido enfocado lá no item 1.5, começa -
segundo Esteva (2000, p. 61) - pela seguinte tomada de cons-
ciência:

Para que aqueles que constituem o dois-terços da


população mundial atual possam pensar em de-
senvolvimento - qualquer tipo de desenvolvimen-
t o — é preciso em primeiro lugar que se vejam
como subdesenvolvidos, com o fardo total de co-
notações que o termo carrega.

Aliás, não é à-toa que o livro Formação educacional


em desenvolvimento local: relato de estudo em grupo e aná-
lise de conceitos - sobre a conceituação de Desenvolvimento
Local nesta ótica elaborado conjuntamente com quatro mes-
trandos (cf. ÁVILA et ai., 2000) ao longo de dois anos em re-
gime de grupo-de-estudo, se encerra por conclusão delibera-
damente intitulada: "Se Utopia, Uma Boa Utopia", naturalmen-

63
te entendendo-se utopia (u = não + topós = localizado) não
como sonho ou miragem, mas no sentido etimológico de algo
ousado ainda não topificado, porém topificável se de fato im-
plementado como convém.
Por fim, mais estas cinco observações:

Primeira - Se não se atentar para as óticas de Desen-


volvimento Local acima focadas, MANEIRAS COMPLETAMENTE
DIFERENCIADAS PODERÃO OCORRER EM TERMOS DE CONCEPÇÃO E

DINAMIZAÇÃO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL EM PAÍSES DESENVOLVI-

DOS E EM ÁREAS SUBDESENVOLVIDAS, APESAR DA EXISTÊNCIA DE


PONTOS REAIS OU APENAS APARENTEMENTE COMUNS.

Segunda - Até o presente, tem-se pensado que o De-


senvolvimento Local se alicerça no contrapiso do desenvolvi-
mento econômico como sua base de sustentação e o conceito
do CES-União Européia, referido atrás, enfatiza justamente
isto, ou seja, que o Desenvolvimento Local é "[...] el proceso
reactivador de la economia y dinamizador de la sociedad local,
mediante [...]".
Esse tipo de pensamento não é incompatível com o
que foi analisado a respeito das primeira e segunda óticas, an-
teriormente abordadas, mas sem dúvida não se coaduna com a
terceira, a da relação do mundo subdesenvolvido com suas
próprias chances de desenvolvimento emancipante.

64
Neste caso, tanto o contrapiso quanto também as ver-
dadeiras estacas de fundação do Desenvolvimento Local con-
sistem no desenvolvimento sociocultural, lastreando e dinami-
zando todas as demais performances de desenvolvimento no
âmbito da comunidade-localidade, inclusive e por conseqüên-
cia a econômica.
O DESENVOLVIMENTO SOCIOCULUTURAL SE CARACTERIZA,
POIS, COMO PONTO DE PARTIDA, DE NORTEAMENTO E DE CHEGADA
DO DESENVOLVIMENTO LOCAL, PASSANDO PELAS ROTAS DO DESEN-
VOLVIMENTO ECONÔMICO E MEIO-AMBIENTAL: DAÍ POR QUE IMPLI-
CA PERMANENTE E ATIVA POLÍTICA DE FORMAÇÃO E EDUCAÇÃO CO-
MUNITÁRIO-LOCAL ( c f r . t ó p i c o 6) VISANDO AUTOCONSCIENTIZAÇÃO,
AUTO-SENSIBILIZAÇÃO, AUTO-ESTIMA, AUTOCONFIANÇA, AUTOMO-
BILIZAÇÃO, AUTO-ORGANIZAÇÃO COOPERATIVA E AUTO-
INSTRUMENTALIZAÇÃO TAMBÉM TÉCNICO-CIENTÍFICA PARA A GRA-
DATIVA - PORÉM CONTÍNUA - BUSCA DE RUMOS COMUNITÁRIO-
LOCAIS, DE FORMA QUE A COMUNIDADE-LOCALIDADE SE EVOLUA
PARA A CONDIÇÃO DE SUJEITO DO SEU PRÓPRIO DESENVOLVIMENTO,
A PARTIR DE SUAS CARACTERÍSTICAS, DE SUAS POTENCIALIDADES E
EM RELAÇÃO A SOLUÇÕES PARA PROBLEMAS, NECESSIDADES E API-
RAÇÕES QUE LHE DIGAM RESPEITO MAIS DIRETA E IMEDIATAMENTE.

Terceira - Em termos de Desenvolvimento Local, é


fundamental a orientação por princípios básicos de caracteriza-
ção tanto de sua natureza quanto de sua delimitação conceituai
e metodológica. Mas a tendência cultural de universalização de
pacotes operacionais, no geral ou mesmo no âmbito de um país

65
e ate mesmo de um município, contradiz a própria natureza do
Desenvolvimento Local.
TAL CONTRADIÇÃO OCORRE PELO FATO DE QUE O DESEN-
VOLVIMENTO LOCAL SE CONFIGURA JUSTAMENTE COMO PROCESSO
QUE CONSIDERA, RESPEITA E APROVEITA AS PECULIARIDADES (OU
MODOS DE SER E AGIR), A REALIDADE (ENQUANTO COMPLEXIDADE
DOS CONTEXTOS SOCIAL, CULTURAL E MEIO-AMBIENTAL) E AS PO-
TENCIALIDADES (DAS PESSOAS E DO MEIO) DE CADA COMUNIDADE-
LOCALIDADE, ENTENDENDO-SE INCLUSIVE QUE EM RELAÇÃO A ESSES
ASPECTOS NUNCA UMA COMUNIDADE-LOCALIDADE É TGUAL À OU-
TRA.

Quarta - Voltando ao item 1, no que respeita à impor-


tância do presente na evolução cultural, e face ao que se anali-
sou também nos itens 2 e 3, acredito - personalizando - que o
Desenvolvimento Local pode estar se constituindo um grande e
esperançoso presente de mudança cultural: não apenas uma
estratégia a mais e, sim, uma nova e esperançosa FILOSOFIA DE

DESENVOLVIMENTO SUR"GINDO NO PLANETA. ISSO, em virtude de


que, não importando se a longo prazo, o Desenvolvimento Lo-
cal poderá começar a produzir efeitos de contraponto ou con-
trapé à globalização de massa, sem "luta de classes", sem inva-
sões violentas sob pretexto de "implantação de regime demo-
crático" e não só por macropolíticas de relações e negociações
internacionais.

66
ABAIXO DE TUDO ISSO, ESTARÃO AFLORANDO E EBULINDO
MICRODINÂMICAS - NO NÍVEL DAS PRÓPRIAS COMUNIDADES LOCA-
LIZADAS - DE PROMOÇÃO AUTO-SUSTENTÁVEL DO BEM-ESTAR BÁSI-
CO E DA PAULATINA, PORÉM PROGRESSIVA, AUTO-EMANCIPAÇÃO DO
CIRCÚLO VTCIOSO DA DEPENDÊNCIA ASSISTENCTALISTA EXTERNA.

Quinta - Concebido na perspectiva de processo alicer-


çado no desenvolvimento sociocultural e ao mesmo tempo ge-
rador de mudança cultural de desenvolvimento, o Desenvolvi-
mento Local requer medidas operacionalizadoras de alcance
muito além de programas e projetos ou iniciativas promocio-
nais e imediatistas.
REITERANDO, SUA IMPLEMENTAÇÃO IMPLICA, POIS E TAM-

BÉM, A FORMAÇÃO (no sentido visto em 1.5) INCLUSIVA DE SUCES-


SIVAS GERAÇÕES (cfr. também tópico 6), EM RAZÃO DE QUE MU-
DANÇAS CULTURAIS NÃO SE OPERAM APENAS POR PROGRAMAS, PRO-

JETOS, CAMPANHAS E OUTRAS INICIATIVAS TEMPORÁRIAS OU ATÉ

PERMANENTES MAS SEM PENETRAÇÃO NAS MANEIRAS DE PENSAR E

AGIR DAS PESSOAS, INDIVIDUADAS E EM COMUNIDADE.

67
1

FALANDO DIDATICAMENTE PARA


ALUNOS E COMUNIDADES SOBRE QUE É
DESENVOLVIMENTO LOCAL ENDÓGENO

Personalizando de vez, já fiz várias apresentações so-


bre Desenvolvimento Local a mestrandos, graduandos e comu-
nidades de pelo menos quatro municípios do Estado de Mato
Grosso do Sul. E a primeira pergunta de quem nunca ou pouco
ouviu falar sobre isso é infalivelmente esta: que é Desenvolvi-
mento Local?
Diante dessa pergunta, logo percebi que primeiro pre-
cisava tentar respondê-la para depois contextualizá-la, exata-
mente o inverso do que estou fazendo neste texto. Aliás, ime-
diatamente após respondida, da maneira como se verá na se-
qüência, aí sim, perguntavam se havia algum material escrito
sobre o assunto. Então, sugeria a leitura de pelo menos três dos
meus trabalhos a esse respeito (cfr. ÁVILA, 2000a; ÁVILA et
al. 2000; e mais recentemente ÁVILA, 2003), que de fato já
serviram de base para a formulação das linhas conceituais ge-
rais esboçadas como resposta à própria questão {que é Desen-
volvimento Local?).

69
Antes, porém, de passar a essas linhas, entendo escla-
recedor observar que começar a resposta à questão pelo QUE
NÃO É DESENVOLVIMENTO LOCAL ENDÓGENO para, em seguida, en-
focar QUE É, e não o contrário, tornava muito mais acessível a
compreensão por parte inclusive de pessoas como delegados de
comunidades rurais em geral e de assentamentos, e represen-
tantes de aldeias indígenas. Por tal razão, a ordem de apresen-
tação sobre QUE NÃO É/QUE É DESENVOLVIMENTO LO-
CAL ENDÓGENO, tanto quanto possível didatizada, passou a
ser esta:

4.1 Desenvolvimento Local NÃO É "Desenvolvimento NO


Local (DnL)"

"Desenvolvimento NO Local (DnL)" se refere a um


empreendimento ou iniciativa a que se atribui a qualificação
"de desenvolvimento", por gerar emprego e expectativa de ar-
recadação de impostos e circulação de bens e dinheiro, mas
que, em verdade, tem o local apenas como sede física. Só fica
no local enquanto o lucro compensa. No momento em que a
lucratividade baixa, ou quebra - empresarialmente falando - ou
vai embora, deixando à comunidade-localidade seus destroços-
fantasmas, por vezes muitos e graves problemas ambientais e,
principalmente, enorme frustração na população.

70
O modelo brasileiro de implantação tanto de parques
industriais quanto de indústrias isoladas, a partir da década de
1940, vem fazendo com que até populações dos centros mais
avançados do País, como as principais capitais, hoje paguem
muito caro por esse tipo de "desenvolvimento" em termos de
água, ar, solo e saúde de modo geral.
Esse tipo de "desenvolvimento" deve ser evitado ou
banido? - Não, ele é necessário até para que se criem bases
econômicas para o Desenvolvimento Local propriamente dito,
portanto de caráter ENDÓGENO. Mas a comunidade-localidade
precisa estar bem consciente de que:

- primeiro, ele de fato apenas se situa no local, ou se-


ja, está aqui hoje podendo amanhã deslocar-se para
a índia, China ou qualquer outro país (deixando
seus benéficos e/ou funestos rastros para a localida-
de), como já ocorre muito com empresas dos países
desenvolvidos que migram de um país a outro pelo
baixo custo de matérias-primas e abundância de
mão-de-obra barata;

- segundo, justo por apenas se situar no local, a gera-


ção de benefícios à comunidade-localidade (além do
que se compra, vende ou contrata) se apresenta tão-

71
somente como questão secundária, por vezes até
descartável.

Aliás, é muito comum o equívoco de se pensar que in-


clusive sadias e necessárias iniciativas de desenvolvimento -
em sentido geral - (oferta de energia, telefone, água de boa
qualidade, esgoto, serviços de saúde, escolas, opções culturais,
locais de lazer, asfalto, canalizações etc.) já signifiquem de per
si "Desenvolvimento Local", só porque implementadas ou im-
plementáveis em localidades definidas. São iniciativas que se
caracterizam sempre como DnL, por vezes até como DpL (cf.
4.2) e, dependendo do caso de cada comunidade-localidade,
podem representar indispensáveis condições ou benfeitorias
para o DL (cf. 4.3), mas por si mesmas ainda não se caracteri-
zam como Desenvolvimento Local.
Por que a ressalva, acima, "dependendo de cada co-
munidade-localidade"? Porque se todas ou partes dessas ben-
feitorias forem implantadas e gerarem ônus (impostos, paga-
mentos mensais etc.) que a maioria das pessoas de uma comu-
nidade não tenha como arcar, tudo valorizará nessa localidade,
mas a comunidade mesma terá que se mudar daí, normalmente
se desintegrando (em termos de história, coesão e identidade
local), tendo que procurar localizações quase sempre piores.
Portanto, até no caso da implementação de certas benfeitorias

72
universalmente tidas como básicas ou mesmo necessárias, o
"Desenvolvimento NO Local", por vezes tão aclamado política
e técnico-burocraticamente, pode se transformar em fator mul-
tiplicador justamente de problemas contrários ao autêntico
"Desenvolvimento Local".

4.2 Desenvolvimento Local NÃO É (só) Desenvolvimento


PARA O Local (DgL)

Desenvolvimento PARA O Local (DpL) se refere à i-


déia de "desenvolvimento" que, além de se situar no local co-
mo sede física, gera atividades e efeitos benéficos às comuni-
dades e aos ecossistemas locais, mas à maneira bumerangue:
brota das instâncias promotoras, vai aos locais-comunidades,
mas volta às instâncias promotoras em termos de consecução
mais de suas próprias finalidades institucionais (as das instân-
cias promotoras, evidentemente) que do real, endógeno e per-
manente desenvolvimento das comunidades-localidades visa-
das.
Em esmagadora maioria, os programas, projetos e ati-
vidades desenvolvimentistas realizados ou propostos (com ex-
plícitos ou implícitos objetivos de melhorias de comunidades-
localidades) por organismos internacionais e nacionais, públi-
cos e privados, têm-se conotado como Desenvolvimento PARA

73
O Local (DJJL), bem como os de caráter político-eleitoral, as-
sistencialista, promocionalista e filantrópico, de modo geral,
pensados e postos em prática por entidades/pessoas ora interes-
seiras, ora simplesmente abnegadas e ora até especializadas em
assistência/promoção humano-ambiental. Nem sempre esses
planos, programas, projetos e/ou atividades deixam muitos e
duradouros rastros quando encerrada a atuação das pesso-
as/agências que os idealizam, patrocinam, promovem ou os
operacionalizam.
Importa ressaltar, no entanto, que a idéia de Desenvol-
vimento Local, tal como brevemente historiada no tópico ante-
rior, é muito recente - em esboço da década de 1980 para cá -
e até agora sendo configurada teórico-metodologicamente de
maneira muito simplista e ambígua, relembrando as três óticas
e as cinco observações conclusivas do mencionado tópico, ra-
zão pela qual se procurou delinear os referenciais básicos, tanto
conceituais quanto operacionais, a partir do próximo item 4.3.
Isso quer dizer, em última análise, que a preparação
das agências ou agentes externos às comunidades-localidades
para investimento ou fomento em programas, projetos e inicia-
tivas dessa natureza é apenas iniciante, quando não ainda prati-
camente nula.

74
Mas, por outro lado, é de se frisar também que há, no
momento, clima nacional e internacional bastante favorável ao
Desenvolvimento Local na perspectiva da endogeneização co-
munitário-local de capacidades, competências e habilidades
para que cada comunidade-localidade comece a assumir seu
próprio processo de desenvolvimento. Já é sabido mundialmen-
te que o assistencialismo, ao invés de resolver, agrava cada vez
mais a dependência de pessoas e comunidades das "ajudas"
externas, alimentando inclusive a "Cultura da Pobreza", como
visto anteriormente.
Em maioria, os organismos multilaterais, as institui-
ções governamentais, bem como as entidades filantrópicas e
religiosas, e congêneres, já sabem disso. Mesmo assim, conti-
nuam a fazer DpL até por falta, em muitas situações, de melho-
res propostas das comunidades no sentido de utilização do a-
poio externo exatamente para sua progressiva emancipação,
tanto do assistencialismo, no caso de comunidades carentes,
quanto da capitalista exploração até mesmo em matéria de
know-how, em comunidades de nível socioeconômico mais
elevado.
Aliás, a cultura do assistencialismo socialmente dege-
nerador, grassada mundo afora, se assemelha à do oleiro que,
ao perceber que todos os habitantes de certa região precisavam

75
de potes, reuniu e concentrou seus esforços em sua fabricação.
No entanto, desde a primeira "fornada", verificou que infali-
velmente todos os potes apresentavam trincas aqui e acolá. Ao
perceber que era difícil resolver o problema das trincas no pró-
prio processo de fabricação dos potes, teve e de fato adotou a
seguinte idéia: fabricar também resina especial para vedar trin-
cas de potes. Assim, a população primeiro comprava os potes,
mas dentro em pouco voltava para adquirir também a resina. E
como a resina tinha efeito muito curto, o grande negócio do
fabricante tornou-se a sua produção, embora também precisas-
se continuar fabricando potes trincados. Do contrário, perderia
o que passou a ser o seu grande negócio, o generalizado con-
sumo da resina: afinal, sem potes trincados, ninguém mais iria
precisar de resina. Perpetuou-se, assim, a cultura da produção
de potes trincados e formou-se a da fabricação de resina vedan-
te para potes trincados de fábrica.
Moral da estória: a fabricação de potes trincados ex-
pressa bem a política do Desenvolvimento NO Local (DnL) -
abordada em 4.1 mas sem autêntico e efetivo Desenvolvi-
mento Local, e a da fabricação e consumo da resina vedante
(das trincas desses mesmos potes) traduz bem a cultura do as-
sistencialismo que vem conotando o Desenvolvimento PARA O

76
Local em comunidades-localidades de todos os países do mun-
do, mormente dos que integram as "áreas subdesenvolvidas".
Mas há também algo muito sério e da alçada de cada
comunidade-localidade que opte pelo Desenvolvimento Local,
nos termos dos referenciais delineados a partir do próximo item
4.3. Que não fique à espera de que as agências ou agentes ex-
ternos, até aqui acostumados e acomodados aos DnL e DQL, lhe
venham de uma hora para outra oferecer e "entregar de bande-
ja" programas, projetos ou outras iniciativas "assistencialistas-
não-assistencialistas", visto que tudo aquilo que a própria co-
munidade não projeta e incorpora em seu processo de Desen-
volvimento Local acaba se configurando - mais ou menos cedo
- como assistencialismo, mesmo que originariam ente se tenha
pensado que isso não devesse acontecer, pois o "inferno está
cheio de boas intenções", diz o provérbio popular.
Nessa perspectiva, importa que cada comunidade-
localidade, apoiada e subsidiada por competentes Agentes de
Desenvolvimento Local (cf. 4.5.1-b) se capacite para distinguir
assistência de assistencialismo. De fato, assistências-de múlti-
plos tipos e naturezas são e serão continuamente necessárias ao
longo de todo o processo de implementação do Desenvolvimen-
to Local numa determinada comunidade-localidade. Aliás, um
dos pontos estratégicos da autocapacitação comunitário-local

77
para o Desenvolvimento Local é o da sábia e competente capta-
ção e ampliação das condições de diferentes modalidades de
assistências (em termos de infra-estrutura, saúde, educação,
lazer, esporte etc.) em proveito das prioridades locais.
Mas, no que respeita ao assistencialismo, nova distin-
ção se faz imperativa: a do assistencialismo conversível em
assistência, mediante incorporação das respectivas iniciativas
ao processo de Desenvolvimento Local, e a do assistencialismo
perverso (também caracterizado de duas maneiras, a do assis-
tencialismo demagógico e a do assistencialismo colonizante),
pelo qual a comunidade-localidade se torna objeto de manipu-
lação de agências ou agentes externos.
Quanto à questão do efeito bumerangue referido logo
no primeiro parágrafo deste subitem, ou expectativa de retorno
(em proveito próprio) por parte de entidades e pessoas investi-
doras em programas e projetos comunitário-locais, a lógica
natural é a de que ninguém - entidade ou pessoa - age sem
prever e esperar algum tipo de compensação. Muitas vezes, a
compensação se refere ao abatimento das concernentes despe-
sas nas declarações - de pessoas físicas ou jurídicas - do im-
posto de renda, bem como ao reconhecimento público no seio
da comunidade visada ou, ainda, a de se ver circulando pela
mídia (marketing), e assim por diante.

78
Em decorrência, a idéia geral do retorno por investi-
mento em iniciativas que de fato apoiem ou subsidiem o genuí-
no Desenvolvimento Local não é nenhum mal em si mesma:
pelo contrário, e reiterando, pode e deve ser muito bem apro-
veitada e sempre ampliada pela comunidade-localidade, que,
inclusive, precisa se capacitar para tal, como se disse há pouco.
Mas a idéia de retorno pretendido direta ou camufladamente
através do assistencialismo - demagógico ou colonizante - é
criminosa por sua própria natureza e deve ser evitada a todo
custo.

4.3 Desenvolvimento Local (DL) É [...]

Uma equipe, coordenada pelo autor desta matéria, se


dedicou árdua e sistematicamente ao entendimento do que po-
dia ou devia significar Desenvolvimento Local, de caráter en-
dógeno, publicando os resultados em Ávila et al. (2000), já
mencionado anteriormente. E para se chegar ao "núcleo concei-
tuai" do Desenvolvimento Local, abaixo, a equipe analisou
primeiramente a significação de desenvolvimento e em seguida
a de local (e outros sete dentre os principais conceitos nele a-
brangidos, como os de espaço, território, comunidade, identi-
dade, solidariedade, potencialidade e agente).

79
Feito esse trabalho preparatório, documentado no li-
vro, a equipe se sentiu segura para se posicionar no sentido de
que (destacando a citação em negrito):

[...] o "núcleo conceituai" do desenvolvimento


local consiste no efetivo desabrochamento - a
partir do rompimento de amarras que pren-
dam as pessoas em seus status quo de vida -
das capacidades, competências e habilidades de
uma "comunidade definida" - portanto com
interesses comuns e situada em [...] espaço ter-
ritorialmente delimitado, com identidade social
e histórica - , no sentido de ela mesma - medi-
ante ativa colaboração de agentes externos e
internos - incrementar a cultura da solidarie-
dade em seu meio e se tornar paulatinamente
apta a agenciar (discernindo e assumindo den-
tre rumos alternativos de reorientação do seu
presente e de sua evolução para o futuro aque-
les que se lhe apresentem mais consentâneos) e
gerenciar (diagnosticar, tomar decisões, agir,
avaliar, controlar etc.) o aproveitamento dos
potenciais próprios - ou cabedais de potencia-
lidades peculiares à localidade assim como a
"metabolização" comunitária de insumos e in-
vestimentos públicos e privados externos, vi-
sando à processual busca de soluções para os
problemas, necessidades e aspirações, de toda
ordem e natureza, que mais direta e cotidia-
namente lhe dizem respeito. (Ávila et al., 2000,
p. 68).

Nas apresentações a alunos e comunidades, cada ter-


mo ou expressão desse "núcleo conceituai" tem sido explicado

80
quer pelo que significa em linguagem direta, e passível de
compreensão imediata, quer através de exemplos adequados à
realidade da própria clientela.
Tais explicações não são aqui sistematizadas porque se
encontram distribuídas, explícita ou implicitamente, ao longo
de todo o presente texto, em tópicos e itens que antecedem e
sucedem a este 4.3.

4.4 Características do Desenvolvimento Local (DL):

" E endógeno em dupla acepção:

de INPUT ou de fora-para-dentro: "metabolização" de


capacidades, competências e habilidades de se desen-
volver, com auto-estima e autoconfiança, em âmbito
comunitário e individual;

de OUTPUT ou de dentro para fora: colocação das ca-


pacidades, competências, habilidades de se desenvol-
ver, e conseqüentes auto-estima e auto-confiança "me-
tabolizadas", como equilibradores de seus relaciona-
mentos/interação externos.

Nota: os substantivos endogenia e exogenia jamais são utiliza-


dos no contexto da caracterização do Desenvovimento Local.

• É ao mesmo tempo democratizante e democratizador

81
• É ao mesmo tempo integrante e integrador

• A auto-sustentabilidade do Desenvolvimento Local decorre


fundamentalmente das três características acima, inerentes
à própria essência do Desenvolvimento Local

Portanto, a distinção de nomenclaturas como as do


"Programa DLIS/Comunidade Ativa" brasileiro, intitulado
"Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável", enseja a
idéia de três tipologias de "desenvolvimento" que se interagem
para compor uma espécie de "três-em-um": "Desenvolvimento
Local + Desenvolvimento Integrado + Desenvolvimento Sus-
tentável", formando o "DLIS".
Só que essa acoplagem, ao contrário de reforçar a i-
déia de Desenvolvimento Local - como realmente se intendo-
nou - , de fato a esvazia, pois seria admitir que o Desenvolvi-
mento Local pudesse ser concebido e implementado sem con-
siderar o trabalho integrado e integrante assim como a busca
da auto-sustentabilidade em sua própria razão essencial de ser.
Isso talvez tenha ocorrido e continue ocorrendo pela
equivocação de Desenvolvimento Local com DnL ou Dj)L, tal
como mencionados em 4.1 e 4.2. Usualmente se utilizam as
denominações, em separado, "Desenvolvimento Sustentável",
"Desenvolvimento Integrado" e "Desenvolvimento Local". Só

82
que, no caso das duas primeiras, não parece ilógico o acopla-
mento na forma de "dois-em-um", para se reforçarem mutua-
mente. Todavia, em se tratando realmente de Desenvolvimento
Local (da maneira como vem sendo dimensionado neste texto,
com "núcleo conceituai" em 4.3, portanto - reiterando - dife-
renciadamente de DnL e de DnL), a consideração em separado
dessas duas características (trabalho integrado/integrante e
busca de auto-sustentabilidade), mesmo que para acoplá-las
depois, seria extirpá-las do Desenvolvimento Local, mutilando-
o em termos de duas dentre suas fundamentais razões de ser,
porque já essencialmente inerentes à sua própria natureza e
funcionalidade. Seria como se o DL resultasse desta expressão
matemática simples: DL = DLIS - (/ + S).

• Não se trata de desenvolvimento descentralizado, mas de


desenvolvimento centrado na comunidade, em cada comu-
nidade-localidade

Descentralizadas são ou serão as políticas de desen-


volvimento nos níveis federal, estaduais e mesmo municipais
(em relação a distritos ou bairros, por exemplo) que incluírem
o Desenvolvimento Local como destacada estratégia de dina-
mização capilarizada do desenvolvimento nos respectivos terri-
tórios. Mas o próprio Desenvolvimento Local se constitui pro-

83
cesso - como dito acima - centrado na comunidade, em cada
comunidade-localidade, inclusive respeitando as peculiarida-
des, potencialidades e condições de cada uma, conforme enfá-
ticas reiterações já feitas neste texto.

4.5 Delineamentos Metodológicos do Desenvolvimento Local

4.5.1 Visão Geral ou "Metodologia do Alpinista"

a) "Alpinismo" da comunidade

O alpinista, quando quer realizar uma grande e impor-


tante escalada, se prepara muito bem, ou seja, cuida de seu es-
tado de saúde, testa sua resistência física (ao esforço da subida,
à rarefação do ar, ao estresse prolongado etc.), estuda e testa
seu equipamento, pesquisa e analisa as circunstâncias meteoro-
lógicas, procura prever o que deverá fazer em cada momento
da operação, e assim por diante; normalmente isso é trabalhado
por boa equipe técnico-científica de apoio.
No entanto, quando seu processo de subida começa a
distanciá-lo do solo de partida, seus colegas de apoio logístico,
ao perderem as oportunidades de auxiliá-lo fisicamente, pas-
sam a orientá-lo à distância e apenas por rádio ou equipamento
similar. Desse momento em diante, e embora todos continuem
querendo e precisando ajudá-lo, ele mesmo e mais ninguém no

84
seu lugar irá cravar os grampos no paredão, para dar cada um
de todos os próximos passos: os outros continuarão a lhe dar
dicas e conselhos, mas só ele os poderá cravar e dar os passos.
Em se tratando de alpinista experimentado, cuidará pa-
ra cair somente até o patamar anterior, caso fracasse a fixação
dos grampos - não lhe permitindo o passo seguinte - , e apro-
veitará a experiência ao retomar com mais segurança a seqüên-
cia da escalada. Do contrário, se esborrachará lá em baixo, no
mínimo arriscando a sua vida e as dos companheiros da equipe
técnica.
A dinâmica metodológica do Desenvolvimento Local
tem muito a ver com essa metodologia de alpinista: todo mun-
do de fora pode e deve apoiar a comunidade em sua escalada,
mas sem querer levá-la no "colo" e nem pretender construir ou
contratar guindaste para içá-la lá em cima. Isso, pelo motivo de
que, em relação à própria escalada do processo, quem de fato
tem de encontrar as posições para cravar os "grampos" e dar os
sucessivos passos é a própria comunidade. No futebol, por e-
xemplo, quem joga e de fato ganha jogo são os jogadores: se
não jogarem e ganharem, nenhum treinador e respectiva equipe
técnica, por melhores que sejam, jamais jogarão e ganharão no
lugar deles.

85
b) Agentes de Desenvolvimento Local e "alpinismo" da co-
munidade

Aos Agentes (externos) de Desenvolvimento Local ca-


be o apoio logístico, na condição de autênticos pedagogos de
formação e encaminhamento comunitário, para a acima referi-
da escalada comunitária, ou seja, eles constituem a também
aludida equipe de apoio. Mas, como são e atuam esses autênti-
cos pedagogos de formação e encaminhamento comunitário ?
Entende-se que as respostas às duas partes desta ques-
tão comportam apenas pistas, e não receituário. E a primeira
delas, a de como são os referidos pedagogos, é genericamente
fornecida por Kujawski (1991, 203-204):

O princípio responsável pela crise não está na e-


conomia, mas na vida e na história do homem
brasileiro contemporâneo: está na perplexidade
hamletiana de não saber o que fazer. A desordem
política e a subversão moral não passam de des-
dobramento dessa mesma perplexidade vital: não
saber o que fazer. Eis aí por que vamos tão mal.
Não por culpa da economia, da política ou da mo-
ralidade, e sim porque estamos em crise, perple-
xos e faltos de rumos em nossa vida mesma, em
nossa capacidade de projeção na História. Tão fal-
tos de rumos, que alguns já não querem andar,
desconhecendo a sábia lição do poeta espanhol
Antonio Machado: "Caminhante, não há caminho.
O caminho se faz ao caminhar".

86
No primeiro contato com este texto, pensei aplicar-se
apenas ao caso brasileiro. Todavia, com o passar dos dias, me
convenço cada vez mais de que o mesmo reflete a atual reali-
dade mundial, em dimensões tanto pessoais quanto societárias:

- uns acham que podem e devem estabelecer os caminhos que


os outros têm de trilhar, mas caminhos que sempre conduzem
a interesses ou ambições justamente daqueles que os estabe-
lecem, a exemplo do visto na relação do mundo desenvolvido
com o subdesenvolvido;

- no entanto, há também aqueles que ficam à espera de que


alguém lhes "carregue nas costas" para cruzarem as frontei-
ras do subdesenvolvimento, principalmente das misérias e
penúrias dele decorrentes, aí incluídas a "Cultura da Pobreza"
pessoal e comunitária e as desigualdades sociais, econômicas
e culturais.
Aliás, as populações são permanentemente induzidas a
essas duas perspectivas, em casa, nas escolas, no trabalho, nas
universidades e, principalmente, por campanhas eleitorais e
comerciais de todos os tipos, amplitudes, níveis e naturezas. E
os Agentes de Desenvolvimento Local não fogem a essa regra,
a de se verem tentados a esperar que alguém lhes receite as
regras de como agir para que as reproduzam lá nas comunida-

87
des-localidades, que, por sua vez, se postam à espera de solu-
ções - de fora - prontas para seus males e desejos. Historica-
mente, tanto o tradicional quanto o atual contexto cultural de
"formação" dos agenciadores socioeconômicos têm assim se
caracterizado.
Para romper tal círculo vicioso (dessa cultura de agencia-
mento), a citação de Kujawski sugere:

primeiro, que os Agentes de Desenvolvimento Local procu-


rem se impregnar dos rumos do Desenvolvimento Local, e o
principal deles consiste na auto-emancipação da comunida-
de-localidade para o seu desenvolvimento em permanente
equilibração com os contextos das demais comunidades em
níveis regional, nacional e internacional;

segundo, que, em função desses rumos, auxiliem (sem "car-


regar nas costas" ou guindar) as comunidades-localidades a
encontrar e trilhar os seus rumos de desenvolvimento, de
acordo com as peculiaridades, potencialidades e condições
de cada uma, visto que - rememorando o já dito várias ve-
zes - em relação a estas características todas as comunida-
des-localidades se diferenciam entre elas;

terceiro, que os Agentes de Desenvolvimento Local se aten-


tem à recomendação do poeta espanhol Antonio Machado

88
"Caminhante, não há caminho. O caminho se faz ao cami-
nhar" tanto para a comunidade em que estiverem atuando
quanto para a lúcida prospecção das suas próprias maneiras
de pensar e atuar.

E que, ainda, sequer se insinue uma pergunta como es-


ta: a afirmação de que "[...] não há caminho. O caminho se faz
ao caminhar" significa que o "caminhante" - qualquer "cami-
nhante" ou, no caso, o Agente de Desenvolvimento Local - não
precisa se preparar para "caminhar"?
Em verdade, quem iniciar uma caminhada sem se pre-
parar - previamente e sempre ao longo do trajeto - para saber o
rumo para onde ir e se informar sobre diferentes alternativas de
caminhadas com probalidade e improbabilidade de sucesso,
assim como já realizadas, e bem ou mal sucedidas, já estará
perdido antes mesmo de a haver começado. Ademais, uma coi-
sa é se preparar para aplicar reprodutivamente o que houver
aprendido ou experimentado e outra é se preparar para saber
se orientar, se dosar e se tornar criativamente cooperativo no
curso da caminhada em que "[...] o caminho se faz ao cami-
nhar".
Até aqui, a primeira pista fornecida por Kujawski teve
relação mais direta com o perfil dos Agentes de Desenvolvi-
mento Local, correspondente à primeira parte da questão de

89
introdução desta alínea b. Agora, é hora de se passar ao deline-
amento da pista referente à performance metodológica dos A-
gentes de Desenvolvimento Local, na condição cie autênticos
pedagogos deformação e encaminhamento comunitário.
Pelo que se conhece historicamente, a primeira práxis
metodológica desse tipo de pedagogo consistiu na maiêutica
criada por Sócrates (470 - 399 a.C), mas documentada e difun-
dida por seu discípulo Platão (428 - 348 ou 347 a.C), assim
como através de uma obra de Aristóphanes e outra de Xéno-
phon, em razão de o mestre nada ter deixado escrito para a pos-
teridade.
Sabe-se que a profissão do pai de Sócrates (Sôphro-
nískos) era escultura, portanto ninguém da estirpe nobre, e par-
teira a da mãe, fato este que, ao que tudo indica, influenciou
categoricamente no interesse do filho pelos destinos da polis
(cidade-estado) grega, segundo ele - espelhado por Platão - ,
em profundo momento de crise: primeiro, porque certamente
ainda criança acompanhou a mãe a lares de todas as categorias
sociais de seu tempo, visto que as parteiras eram, e há lugares
em que até hoje o são, requisitadas independentemente de sta-
tus ou condição social de quem delas necessite; segundo, por-
que percebeu que, ao invés de enfiar o conhecimento na cabe-
ça dos seus discípulos, era mais eficaz e prático fazer com que

90
eles mesmos parissem a sua própria sabedoria (o termo mai-
êutica se refere a parto ou ato de parir, podendo ser interpreta-
da como algo semelhante ao processo de indução do parto da
sabedoria ou conhecimento).
Sobre Sócrates e sua maiêutica, assim se refere a Li-
brairie Larousse (1980, p. 501) - com tradução direta do texto
francês - : "Ele era hostil a todo ensinamento dogmático; seu
método consistia em fazer com que seus interlocutores desco-
brissem a verdade, pondo-lhes questões (ironia) e os obrigando
a encontrar, por eles mesmos, suas próprias contradições (dia-
lética)".
Mas quem se interessar por conhecer melhor a manei-
ra como flui a maiêutica socrática não pode deixar de ler a A
República de Platão, prestando atenção às maneiras como Pla-
tão formula as questões (atribuindo-as a Sócrates, e não a ele
próprio, em reverência ao mestre) e como, pelo encaminha-
mento dessas questões, se desvelam as contradições e conclu-
sões nos interlocutores com os quais o mestre - no caso, Platão
- dialoga.
A quem queira saber se existe algo mais recente que
reflita a maiêutica socrática na realidade atual, há a metodolo-
gia do aprender a aprender, ora em muita evidência no Brasil.
Aprendendo a aprender com o professor tornou-se até título

91
de livro (cf. DEMO, 1998) e expressa bem o sentido dessa pos-
tura metodológica: o educando não aprende porque o professor
ou educador lhe ensina, mas, sim e quando, aprende a apren-
der com a ajuda do professor ou educador. Portanto, esse não é
0 pedagogo ensinador, mas se constitui indispensável ajudante
de quem se encontre na posição de aprender a aprender.
Além desse tipo de encaminhamento, os Agentes de
Desenvolvimento Local poderão se inspirar em outras propos-
tas metodológicas como:

• PBL — "Problem-Based Learning" ou Aprendizagem Base-


ada em Problemas1, que consiste, de acordo com Moraes
(1998), nas seguintes "[...] quatro concepções de ensino-
aprendizagem: a aprendizagem auto-dirigida, aprendizagem
baseada em problemas, aprendizagem em pequenos grupos
de tutoria e aprendizagem orientada para a comunidade".

• Prática Reflexiva: a prática reflexiva ou practicum reflexi-


vo é a concepção metodológica sobre ensino-aprendizagem,

1
Também o jornal O Estado de São Paulo, de 18/10/98, caderno A-18,
publicou ampla matéria, intitulada "Universidade inova na formação de
médico", sobre a experiência da FAMEMA, de Marília-SP, que adotou
essa metodologia no Cursò de Medicina.
2
Segundo a Prof Dr3 Selma Garrido Pimenta, Diretora da Faculdade de
Educação da USP, em Aula Magna para o início do segundo semestre leti-
vo - agosto de 2003 — do Programa de Mestrado em Educação da UCDB,
há um grupo de pesquisa (do qual ela participa) trabalhando nessa área da
prática reflexiva, inclusive aperfeiçoando as premissas de Schõn.

92
originalmente defendida por Schõn (1995), pela qual a prá-
tica ilumina processualmente a teoria, ou seja, da reflexão
na prática se evolui para a reflexão sobre a prática, como
também para a reflexão sobre a reflexão, e assim por dian-
te, a exemplo do que ocorre com o aprendizado na área da
educação artística. Trata-se de "[...] movimento crescente
no sentido de uma prática reflexiva, cujas origens remon-
tam a John Dewey, a Montessori, a Tolstoi, a Froebel, a
Pestalozzi, e mesmo ao Emílio de Rousseau, [...]".

Infelizmente, as evoluções metodológico-educacionais


não atingem muito os educadores que atuam como docentes de
nível superior, em razão de só haver cursos de formação de
professores e outros educadores para a educação básica. Daí, a
dificuldade que professores e alunos dos cursos técnicos e tec-
nológicos superiores, de todas as áreas científicas, têm até de
entender o significado geral do termo pedagogo sem restringi-
lo apenas a quem se ocupe da educação de crianças. No entan-
to, já começam a ser criados cursos superiores de formação de
pedagogos inclusive para atuação em vários tipos de segmentos
empresariais.
Acabemos, portanto, com o preconceito de que Peda-
gogia é coisa só de "professorinha que cuida de crianças" e de
que "gente sisuda" (economistas, agrônomos, administradores,

93
engenheiros, médicos, advogados etc.,) não possam atuar como
autênticos pedagogos de formação e encaminhamento comuni-
tário, continuamente conscientes de que seu trabalho é de cu-
nho maiêutico, ou seja, sempre indutor do" parto" comunitário
de conhecimentos e iniciativas, como visto.
Encerrando, mais estas duas informações: primeira,
também o subitem 4.4.7 do livro Formação educacional em
desenvolvimento local: relato de estudo em grupo e análise
de conceitos (cf. ÁVILA et al., 2000, p. 64-67) é dedicado à
conceituação dos Agentes (evidentemente de Desenvolvimento
Local) e, segunda, o tópico 6 (último do presente texto) projeta
esta questão para todo o campo educacional, de forma que os
Agentes de Desenvolvimento Local se insiram, com o passar do
tempo, em contexto mais abrangente e capilarizado de forma-
ção e educação comunitário-local para essa nova perspectiva
de desenvolvimento, a do DL.

4.5.2 Dimensões Metodológicas Específicas

a) Conscientização, mobilização e organização comunitária-


local

Esta dimensão visa a que a comunidade local assuma


o desafio de afirmar-se como capaz, competente e hábil de to-
mar e somar iniciativas, esforços e criatividade para se tornar

94
sujeito-agente de seu próprio desenvolvimento, bem como do
meio-ambiente que lhe serve de contexto de vida, em conso-
nância com sua real situação de características, riquezas e po-
tencialidades explicitas e implícitas. Isso implica:

• Programação de trabalho estrategicamente integrado (en-


volvendo educação, cultura, esporte, turismo, saúde, pro-
moção social, infra-estrutura etc.) para ampla e intensa di-
fusão sobre que é e que representa o Desenvolvimento Lo-
cal em termos de progresso, auto-estima, autoconfiança e
conquista de bem-estar para cada comunidade-localidade.

• No caso de dimensões municipais, envolvimento de toda a


população local em "ciclos de trabalho comunitário-
/v * • 3
cooperativo", quiçá através de comitês comunitários de

3
No Tópico 13 do livro No município sempre a educação básica do Brasil
(cf. ÁVILA, 1999, p. 111-114), referindo-me à gestão integral de educação
no âmbito de município, comentei sobre a forte conveniência da organiza-
ção de comitê municipal, nos seguintes termos: "Sugere-se a organização
de representativo e expressivo comitê municipal que participe ativamente
de todo o processo de gestão integral da educação e, quiçá, até de outros
serviços sociais básicos [...]", de certo modo já atuando no universo do
que hoje chamamos Desenvolvimento Local e até detalhando as funções
desse comitê. Entretanto, e dadas as características de amplitude, plurali-
dade e complexidade de realidades diferenciadas das diversas comunida-
des-localidades que compõem um município, por menor que se configure,
a lógica aconselha, em verdade, a organização e funcionamento de comitês
de fato comunitários-locais, ou seja, por bairro ou outros espaços mais de-
limitados de aglutinação física e cotidiana da população. E que tais comi-
tês não se restrinjam apenas a assessoramentos. pois lhes é vital que se en-
gajem em todo o processo de desenvolvimento de cada comunidade-

95
desenvolvimento, de forma que o desenvolvimento de cada
recanto-localidade da municipalidade considere, respeite,
descubra, aproveite, aperfeiçoe e amplie as respectivas pe-
culiaridades, condições e potencialidades locais, tanto as
explícitas quanto as latentes. Portanto, não se trata de uni-
formizar o processo para todo o município: uma coisa é u-
nificar a política global de desenvolvimento municipal,
bem como o gerenciamento geral de encaminhamento ope-
racional dessa política, e outra é não unificar o DL, visto
que o mesmo tem de se adequar às peculiaridades e ritmos
de cada comunidade-localidade em que for implementado.

Em termos lógicos, à medida que se for concretizando


a dimensão de conscientização, mobilização e organização co-

localidade, ou seja, da fase diagnostica às da programação, execução e rea-


limentação da dinâmica de desenvolvimento da respectiva localidade. E,
pois, lógico e sadio trabalhar no sentido de que cada um desses comitês se
constitua núcleo-reator de desenvolvimento de toda a comunidade a que
se referir, exatamente lá onde a mesma se localize, mas, ao mesmo tempo,
em permanente interação com o comitê ou conselho municipal de desen-
volvimento.
Em outro livrete intitulado Municipalização qualitativa para o desenvol-
vimento (cf. ÁVILA, 1993, p. 40-42), refiro-me a esse comitê municipal,
ou conselho, na verdade entendendo-o como Comitê ou Conselho Munici-
pal de Desenvolvimento Integrado (CMDI), não restrito apenas a funções
normativo-diretivas mas, principalmente, responsável pela coordenação,
supervisão, animação e equilibração de todo o processo de desenvolvi-
mento no município, evidentemente a partir das iniciativas e realizações
passíveis de organização e operacionalização no âmbito de cada comuni-
dade-de-bairro, por exemplo, e - como dito acima — em contínua interação
com os supra-referidos comitês-reatores dessas comunidades-localidades.

96
munitária local, vai-se passando também à programação e ope-
racionalização dos "ciclos de trabalho comunitário-
cooperativo", como sugerido abaixo.

b) Atividades e projetos era domínios específicos

Cada ciclo, acima mencionado, compreende: 1) diag-


nose (do que fazer e respectivas viabilidades); 2) definição (pri-
orização); 3) programação (projeção da ação); 4) ação propri-
amente dita; 5) avaliação; 6) celebração (comemoração de cada
e de todas as conquistas); e 7) abertura de novos ciclos em re-
lação, também, a cada domínio específico (educação, saúde,
habitação, agricultura, cultura, esporte, turismo, infra-estrutura,
pecuária e muitos outros).
Esses ciclos de trabalho cooperativo se organizam e
funcionam: das iniciativas mais simples, mais fáceis e menos
abrangentes para as mais complexas, mais difíceis e de maior
amplitude, tal como se constrói uma casa assentando tijolo por
tijolo e não empilhando todos de uma só vez.
E preciso ressaltar que mesmo seguindo essa lógica
(das/os atividades/projetos mais simples e fáceis para as/os
mais complexas/os e difíceis, iniciando-se pelas condições e
potencialidades disponíveis ou latentes nas próprias comunida-
des-localidades) chegará o momento em que para cada ativida-

97
de/projeto será necessária ou conveniente a ajuda externa em
termos de assistências técnico-científicas especializadas (como
referido em 4.2) tanto para a sua programação-execução quan-
to, em algumas situações, para captação e provimento dos res-
pectivos recursos de toda ordem.
Essa é a hora de os especialistas em domínios especí-
ficos (administradores, economistas, agrônomos, engenheiros,
arquitetos, biólogos, geógrafos, arqueólogos, médicos, farma-
cêuticos, físicos, químicos, advogados e todos os demais) en-
trarem em cena, desde que dispostos a participar do processo
como autêntico Desenvolvimento Local.

c) Sistemáticos acompanhamentos, controle e avaliação

Todas as atividades do processo de Desenvolvimento


Local não só devem orientar-se - mas sem receitualismos -
pelo e para o rumo teórico básico, norteador da totalidade do
processo, como também precisam ser cuidadosamente progra-
madas, ordenadas, acompanhadas e constantemente avaliadas,
de sorte que a reflexão analítico-avaliativo-realimentadora se
faça presente ao longo de todas e quaisquer posturas de plane-
jamento e operacionalização do mesmo.

98
Por ela se aprende e se tira proveito de tudo, não im-
portando se de acertos, erros, falhas, facilidades ou dificulda-
des.
d) Enfatizando a questão da celebração/comemoração

Uma coletividade humana que não celebra/comemora


seus feitos e suas conquistas ainda também não se consolidou
de fato como comunidade: quanto a isso não há exceção em
todos os rincões do planeta.
É pelas respectivas celebrações/comemorações comu-
nitárias que os feitos e conquistas deixam de ser exclusivamen-
te de fulano, beltrano e sicrano, estendendo seus raios e refle-
xos até às mentes e aos corações de todos aqueles que nelas
acabam se sentindo comunitariamente incluídos. Por elas, se
amalgama o orgulho da pertença a esta ou àquela comunidade,
a este ou àquele município, a este ou àquele país.
Nelas, o pronome NOS sobrepuja os demais (eu, tu,
ele, vós, eles), não importa em que tempo ou forma verbal.

4.6 Finalização por Contextualizações

Uma vez percorrida a performance conceituai básica


do Desenvolvimento Local, através dos itens acima - do 4.1 ao
4.5 e seus desdobramentos - , aí normalmente se acrescentam
informações de ordem contextual, como as concernentes à di-

99
mensão histórica e à de que o Desenvolvimento Local poder vir
a se configurar como contraponto ao capitalismo globalizante,
a exemplo do que se mencionou em tópicos anteriores deste
texto.
Convém não se esquecer de que todo esse trajeto de
fala tem sido traduzido em linguagem e exemplificação ao al-
cance médio tanto de alunos quanto de representantes comuni-
tários, ensejando interessada e ativa participação através de
questões e até acalorados debates que o permeiam.

100
1

SOLIDARIEDADE: MEDULA
ESPINHAL MOTRIZ DO DL

De fato, em se retroagindo sobre praticamente tudo o


que anteriormente se comentou a respeito de Desenvolvimento
Local, não restará dúvida de que a medula motriz desse proces-
so repousa tanto na capacidade quanto na real possibilidade de
se chegar a consensos e desenvolver iniciativas solidariamente
cooperativas, que incidam direta e constantemente nas dinâmi-
cas de sensibilização, mobilização, organização, planejamento
e ação conjunta no âmbito da comunidade-localidade a que se
referir.
Medula espinhal e solidariedade saudáveis são neces-
sárias para que se sinta e reaja a reflexos: só que a primeira no
plano individual-pessoal e a segunda no coletivo-comunitário.
Sem envolvimento e cooperação solidária, o Desenvolvimento
Local se reduz a mera nomenclatura, por falta de medula que
energize e dinamize tanto a união quanto a ação cooperativo-
construtiva no âmbito da diversidade de indivíduos que com-
põem cada comunidade-localidade.

101
Falando sobre o significado de solidariedade, Ávila et
al. (2000, p. 42-43) assim se referem à distinção conceituai
entre a solidariedade e a coesão, entendendo que a solidarie-
dade se caracteriza sempre como fenômeno volitivo-emotivo,
portanto conscientemente assumido, e que a coesão se manifes-
ta em duas dimensões bem diferenciadas, isto é, a instintiva ou
coesão gregária, que emerge diretamente do impulso instinti-
vo, e a volitivo-emotiva ou coesão solidária, que flui do estado
de solidariedade'.

A solidariedade representa o estado de ânimo


(impressões, crenças e convicções) que gera voli-
tivos, afetivos e efetivos laços de mobilização e
cooperação (nos âmbitos de uma pessoa para com
outra, de um grupo para com outro, dos membros
de um grupo para com todo o grupo ou de mem-
bros para com membros do mesmo grupo) [...].

A coesão se caracteriza pela real concretização do


estado de mobilização e cooperação de um grupo
de pessoas, pequeno ou grande, podendo configu-
rar-se como:
- coesão gregária, a que se efetiva com base em
impulsos instintivos (ou algo bem próximo de
sentimentos, interesses e finalidades primários-
comuns) de autopreservação e/ou conservação de
todo o grupo ou de parte dele, [...];
- e coesão solidária, resultante de volitivos, afeti-
vos e efetivos laços de mobilização e cooperação,
como se referiu acima, para cuja formação [...]
boa dose de idealismo altruísta se soma a senti-
mentos, interesses e finalidades comuns, confe-

102
rindo à união do grupo significância e relevância
social que transcendem as imputadas aos esforços
e dispêndios individuais implicados.

Portanto, a solidariedade ao ativar a adesão das pesso-


as de determinado grupo a se unirem e agirem em função de
certos referenciais comuns (problemas, necessidades ou aspira-
ções) ultrapassa as fronteiras da coesão gregária e se desem-
boca na coesão comunitária, caracterizando-se como coesão-
solidária, ou volitivo-emotivamente consciente e assumida por
cada um e todos os componentes do grupo nesse estado de au-
tovinculação.

103
1

EDUCAÇÃO: SISTEMA
RESPIRATÓRIO-CIRCULATÓRIO DO DL

Retomando o tópico anterior, o importante em relação


à coesão solidária é que ela pode e deve ser continuamente
educável. Trata-se de educabilidade no sentido de que a comu-
nidade se informe, atualize e impregne, ininterruptamente, do
hábito cultural da incessante pesquisa e discussão de novas
formas {formação, conforme tratada em 1.5) para se unir, coo-
perar e agir em direção à consecução de seus próprios rumos de
desenvolvimento e concernentes meios de viabilização. E é
justamente quanto a essa tarefa, a de permanentemente se edu-
car para o autodesenvolvimento, que toda e qualquer comuni-
dade-localidade mais precisa da ajuda dos Agentes de Desen-
volvimento Local (sobre os quais se discorreu em 4.5.1-b), -
reiterando - enquanto autênticos pedagogos de formação e
encaminhamento comunitário, isto é, fazendo com que a co-
munidade aprenda a caminhar por si mesma - e aqui está o
sentido educacional - para a conquista de seu verdadeiro de-
senvolvimento.

105
Então, formação e educação comunitária local são
dois fenômenos que se interagem e complementam:

Numa visão bem sintética de entrelaçamento en-


tre formação e educação, diria que a primeira se
situa no patamar básico de busca, decifração, dis-
cernimento e incorporação de sentidos e valores
de determinada realidade, e a segunda, a educa-
ção, dá o passo-avante de a pessoa, no caso o e-
ducando, traduzir de fato esses sentidos e valores
em rumos e procedimentos alternativos para o seu
desenvolvimento físico, intelectual, moral e soci-
al. Portanto, formação e educação se complemen-
tam como fenômenos, vez que educação supõe
formação como fundamento e formação precisa
de educação para se concretizar na dinâmica exis-
tencial - individual e coletiva — das pessoas. (Á-
VILA, 2000a, p. 63).

Mas são dois fenômenos que se reforçam mutuamente


também por duas frentes, a da educação comunitária abran-
gente e a da educação escolar, de modo mais específico, am-
bas inseridas no contexto do Desenvolvimento Local e entendi-
das como se segue.
Referindo-se à mencionada primeira frente, Beatty
(1965, p.12) entende que:

[...] a Educação Comunitária tem em vista ajudar


os homens a alcançarem o progresso social e eco-
nômico que lhes permitirá ocupar o seu lugar no
mundo moderno [...] O melhoramento de comu-
nidades depende de uma auto-ajuda que pode in-

106
cluir o desenvolvimento de uma participação
maior e melhor das pessoas nos assuntos comuni-
tários locais, uma revitalização das formas exis-
tentes de governo local, ou a introdução de algu-
ma forma efetiva de administração local nas co-
munidades que não a possuam. [...] O objetivo fi-
nal do moderno trabalho de educação comunitária
é o desenvolvimento de uma comunidade organi-
zada e democrática que se tenha libertado de mui-
tas restrições e costumes tradicionais e esteja inte-
lectualmente preparada para um crescimento con-
tínuo.

Por outra, Demo (1979, p. 12) acha que há casos em


que se torna difícil distinguir educação comunitária de educa-
ção permanente, se concebida como

[...] processo de superação gradativa das limita-


ções do homem pela exploração contínua de suas
virtualidades intrínsecas; como processo de atua-
lização permanente das potencialidades do ho-
mem e processo de maximização da humanidade
do homem.

A educação comunitária, tal como acima caracteriza-


da, é necessária no contexto do Desenvolvimento Local justo
por atingir a comunidade como um todo, mas, por isso mesmo,
sua dinâmica e seus efeitos, embora fundamentais, se tornam
genericamente capilarizados. E é exatamente no processo de
enraizamento comunitário, tanto da conscientização quanto da
exercitação de práticas de interação curricular entre escola e

107
realidade, convergentes para o Desenvolvimento Local, que a
educação escolar pode e deve prestar inestimáveis contribui-
ções, porque: primeiro, a preparação de capital humano, nessa
direção, se iniciará pelas crianças e adolescentes, perpassará os
professores e toda a escola, assim como ecoará primeiramente
nas famílias dos alunos para, em seguida e por disseminação,
alcançar as demais famílias que compõem a base da comuni-
dade; segundo, estará preparando gerações que se sucederão no
processo de implementação e aperfeiçoamento do autodesen-
volvimento de suas comunidades-localidades; e, terceiro, des-
cobrirá que esse será também o melhor caminho para a melho-
ria inclusive da qualidade-quantidade do próprio ensino en-
quanto relação ensino-aprendizagem.
Todo o livro Educação escolar e desenvolvimento lo-
cal: realidade e abstrações no currículo (cf. ÁVILA, 2003)
chama a atenção para a enorme, oportuna e necessária fecundi-
dade que pode existir na relação Educação Escolar x Desen-
volvimento Local. Logo na Apresentação (p. 7) se frisa que:

Direta e incisivamente, dois são os principais ob-


jetivos de todo este trabalho. O primeiro é o de
colocar em evidência a oportunidade e mesmo
necessidade de a relação temática EDUCAÇÃO
ESCOLAR X DESENVOLVIMENTO L O C A L se ali-
mentar e implementar pelo ensino-aprendizagem
dos domínios científicos curriculares a partir de

108
fatos e fenômenos dos meios de vivência das pró-
prias comunidades-localidades, em que as escolas
se inserem, mediante firme e intensa política de
apoio à multiplicação de inovadoras experiências
nesse sentido. E o segundo é o de sugerir manei-
ras ou rumos operacionais para que essa mesma
relação temática se dinamize em perspectiva si-
multaneamente tridimensional, portanto impli-
cando um único processo: a melhoria da qualida-
de/quantidade do ensino, em termos de volume e
significância vivencial; a transformação das ações
docentes e discentes em trabalho prazeroso pelo
conhecimento e aproveitamento das realidades e
potencialidades locais como pontos-de-partida (e
não "pontos-de-chegada") ou "campos-de-
decolagem" para abstrações cada vez mais ampli-
adas e universalizadas de conhecimentos gerais,
científicos e tecnológicos; e o concomitante refle-
xo construtivo dessa dinâmica escolar na melhoria
da qualidade de vida dos próprios alunos, assim
como de suas famílias e comunidades.

Deixando de lado a discussão de como a relação Edu-


cação Escolar x Desenvolvimento Local possa se traduzir em
prática, porque já delineada no próprio livro (cujas idéias-
chave fluíram e amadureceram ao longo das últimas quatro
décadas de preocupação do autor com esta questão), importa
notar que tal relação não é fácil, até pelo fato de a história do
Desenvolvimento Local ser ainda muito incipiente - como já
constantemente reiterado - , mas viável, desejável, oportuna e
necessária sob todos os ângulos apontados na citação. Aliás,

109
este é apenas um dos dois elos relacionais, pois, em verdade, a
extensão completa da relação assim se expressa: Educação
Escolar x Desenvolvimento Local x Educação Comunitária,
dado que o Desenvolvimento Local constitui a área de intersec-
ção referencial para ambas, Educação Escolar e Educação
Comunitária.
Reportando à analogia focada no título deste tópico, a
dupla relação acima mencionada funcionará, se conveniente-
mente dinamizada, como sistema de capilarização, alimentação
e oxigenação da evolução processual do Desenvolvimento Lo-
cal, porque atingirá, conscientizará e orientará adultos e crian-
ças que se sucederão, em termos de gerações, no sentido de que
as respectivas comunidades se tornem paulatina e emancipa-
damente aptas, capazes e competentes de se tornarem sujeito-
agentes de suas próprias trajetórias de desenvolvimento comu-
nitário-local, da maneira como abordado neste trabalho.

110
CONCLUSÃO: LANCE MÍNIMO

Em matéria como esta, sempre resisto à pretensão de


concluir alguma coisa como se tivesse esgotado as questões
analisadas ou fechado a temática abordada. Por isso, a conclu-
são é exatamente a de que o Desenvolvimento Local se consti-
tui idéia teórico-operacional ainda muito recente e ambigua-
mente tratada, mas merecedora de total importância por se a-
presentar como nova e esperançosa maneira, inclusive filosófi-
co-política, de engajamento das populações delimitadas no
nível de comunidades-localidades em autêntico processo de
desenvolvimento de dentro para fora (endógeno) e de baixo
para cima, portanto insercivamente voltado à cidadania auto-
construtiva individual e comunitariamente.
Quanto ao teor geral deste trabalho, prefiro considerá-
lo como lance mínimo para o surgimento de mais, amplas e
aprofundadas análises, discussões e encaminhamentos tanto
teóricos quanto operacionais. No momento, este campo de dis-
cussão está apenas se abrindo e o que se fez atrás foi tentar
mapeá-lo, evoluindo-se de abordagens gerais para enfoques
mais específicos, concernentes a Desenvolvimento Local.
Mas o que de fato se esperou e espera com isso é o
engajamento de mais, muito mais pessoas, entidades, governos

111
e organismos nesta perspectiva de debate visto que, aproprian-
do-me da já citada expressão de Kujawuski, "estamos faltos de
rumos" em relação ao jugo do capitalismo globalizante, à pla-
netária deterioração ambiental, aos desequilíbrios de nossas
relações multilaterais - perpassando do âmbito comunitário ao
horizonte internacional - e, como enfatiza esse autor, "em nos-
sa vida mesma".
Só as tentativas históricas de levar desenvolvimento (de
fora para dentro) aos povos principalmente subdesenvolvidos,
umas bem intencionadas - mas limitadas a assistencialismo
econômico-social - e outras inclusive impregnadas de perver-
sidade colonizante, não têm dado certo até aqui, já o vimos em
análises anteriores. Por que, então, não sensibilizar, mobilizar e
organizar as bases comunitárias desses mesmos povos visando
a que o desenvolvimento, emergindo a partir também delas
mesmas, comece a se fertilizar, no entrecruzamento com ma-
croestratégias confluentes de fora para dentro, e gerar mais ser,
mais ter, assim como, e sobretudo, mais bem-estar por conquis-
tas cooperativo-coparticipativas de todos?

112
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