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1 Sobre Monstros e Lógica

Enquanto escrevo, a Imprensa está fervendo e borbulhando com o surgimento e a


aparição - ou a submersão e o desaparecimento - do Monstro que dizem habitar, por razões
mais conhecidas por ele mesmo, no fundo do Lago Ness. Devo dizer que tal Monstro, seja ele
um habitante do Lago Ness ou não, é um frequentador muito popular da Rua Fleet. Ele é sem
dúvidas um Monstro benevolente; e ajudou muitos jornalistas ruins a posicionar parágrafos
aqui e acolá. Nas grandiosas imagens do Livro de Jó, ele faz as profundezas se agitarem como
um caldeirão, e vem sendo também motivo para que seja colocada muita lenha na fogueira.
Mas tudo isso é uma coincidência casual e até mesmo feliz, e não afeta a questão, por si só, de
um modo ou de outro. O que não quer dizer também que eu esteja, de fato e
primordialmente, preocupado em resolver essa questão de uma forma ou de outra. O que me
interessa realmente é o argumento enquanto argumento; o qual seguiu quase que
exatamente o antigo rastro sinuoso da Grande Serpente do Mar. Eu nem tenho tanto interesse
assim nesses animais lendários; e não entendo por que alguém deveria ter. Eu nem sei e
também não estou interessado em saber se ele é um monstro no lago ou uma serpente no
mar. Mas eu estou muito interessado e um outro monstro, um monstro muito mais
monstruoso, tão fantástico que até poderia ser um monstro fabuloso. Esse monstro é
chamado Homem; e ao invés das corcovas e dos chifres e do rabo contorcido, tão
característicos de tais criaturas, ele tem uma excrescência anormal chamada Cabeça. Dentro
dela, acreditam alguns, reside um princípio misterioso chamado Mente; mas, na verdade,
ultimamente ela vem se tornado quase tão elusiva e evasiva quanto o próprio Monstro do
Lago Ness.

Isso porque a maneira como a maioria dos críticos, especialmente os céticos, escrevem
sobre algo como o monstro do lago é muito semelhante à maneira como escrevem sobre a
serpente do mar. Isto é, é tanto misteriosa quanto mística e irracional. Primeiramente, há um
vago pressuposto, o perfeito oposto da verdade, e que é colocado silenciosamente desde o
início, e deste modo confunde toda a controvérsia; o vago pressuposto de que o assunto é, de
certo modo, um assunto semi-místico. Um artigo, de um jornalista muito competente, na
verdade inicia-se como algo do tipo: “ A respeito dessas histórias de fantasmas e monstros.”
Eu não consigo, por nada desse mundo, compreender que uma serpente do mar seja algo mais
místico do que uma lesma do mar. De um certo modo elas são todas místicas, já que o
mistério do Criador está em todas as Suas criaturas; mas esse tipo de mistério agrega tanto
quanto o menor camarão comido por um viajante em um bucólico cenário à beira mar. Mas a
maior das cobras do mar não é mais sobrenatural do que a menor cobra do mar. Quão largas
tais criaturas podem ser nas profundezas do mar pode ser assunto para uma discussão
científica; mas deve ser uma questão de pura discussão científica. Não há nada
particularmente transcendental sobre sustentar que há no mar peixes maiores do que aqueles
que dali já saíram. Nem há qualquer toque de Crepúsculo Celta, nem nada como o glamour da
feitiçaria e da visão gaélica na proposição de que um animal vivo muito grande, se é que há um
animal vivo assim, possa estar no fundo de um lago escocês tanto quanto em um outro lugar
qualquer. Se há ou não há é simplesmente uma questão de evidência humana; e mesmo os
mais hesitantes admitem que as evidências disso são bem fortes.
É bem aqui que eu noto aquela qualidade da Mente, já que ela se tornou o que hoje se
chama de Mente Moderna. Não digo isso com ar zombeteiro; pois nesse caso estão contidas
algumas mentes modernas que de fato são mentes, e, em sua própria linha, algumas das
nossas melhores mentes. A verdade, eu creio, é essa: que desde o triunfo daquilo que é
chamado racionalismo, temos cultivado com sucesso tudo, menos razão. Muitas mentes
modernas têm sido treinadas para uma apreciação bastante requintada do panorama artístico
ou musical; e podem detectar e até mesmo descrever as linhas tênues dessas coisas, que
teriam sido provavelmente passadas despercebidas por Aristóteles ou pelo Dr. Johnson. Mas
se isso viesse à discussão, para uma discussão clara e conectada, tanto Aristóteles quanto o Dr.
Johnson teriam pensado que haviam entrado em uma escola infantil. O Dr. Johnson
provavelmente teria dito uma escola para idiotas. Mas eu não digo isso; não tenho qualquer
pretensão de emular o Dr. Johnson em seus talentos e virtudes, eu tenho menos necessidade
ainda de emular seus defeitos e seus exageros Os homens com esta desproporção mental não
são tolos; muitos deles são escritores brilhantes e sutis, dentro de linhas literárias nas quais eu
jamais teria a pretensão de me juntar a eles. Mas eles me parecem de certa forma ter
esquecido de começar a formar uma conclusão razoável sobre o que quer que seja. São
mestres na arte de apreciar, descrever e analisar impressões; mas eles não parecem saber
como fazer qualquer dedução. Da mesma forma como um pintor impressionista poderia
pintar uma impressão perfeita do Lago Ness, esse crítico impressionista poderia gravar uma
perfeita impressão do Monstro do Lago Ness. Mas quando lhe é pedido que ele teste sua
impressão em relação à verdade, ele não parece saber qual a técnica adequada para fazer esse
teste. Por exemplo, não há crítico literário melhor ou mais incisivo do que o sr. Robert Lynd,
especialmente quando o crítico literário está realmente criticando literatura. Coloque o sr.
Robert Lynd para escrever sobre o sr. W. B. Yeats, e ele irá avaliar o estilo e a estatura daquele
grande poeta tanto quanto puder, e certamente muito melhor do que eu poderia fazê-lo. Mas
coloque-o para averiguar seas histórias do sr. Yeats sobre magos orientais ou fadas irlandesas
são verdade, e eu respeitosamente duvido que ele seria ao menos a metade de tão científico
quanto eu seria.

Ele escreveu um artigo sobre o Monstro do Lago Ness, em uma edição recente do
Dayly News, que ilustra exatamente essa coisa elusiva sobre a qual eu trato. Foi um artigo
muito bom, mas cheio de hesitações e (com a licença do jargão) de inibições. Ele disse, antes
de mais nada, com um óbvio senso comum, que é muito difícil contradizer a evidência de um
resultado de testemunhas aparentemente normais e respeitáveis e independentes. O mesmo
pode ser dito da Grande Serpente do Mar; o número de pessoas que poderiam jurar tê-la visto
devem, atualmente, somar bem próximo de cem. Até aqui tudo bem. Cabe ao outro lado
refutar essa evidência definitivamente e em detalhes; examinar de maneira cruzada essas
testemunhas; provar uma conspiração muito improvável, ouconstruir alguma teoria para
explicar o número de pessoas que vêm sendo enganadas. Mas o crítico, sentindo que, para
ser justo, ele precisa ver a questão pela perspectiva de quem está do outro lado, relata-o de
um mpdp que é supremamente típica do irracionalismo moderno. Ele diz, nestas palavras ou
palavras para o mesmo efeito:” Mas se eu concordar em acreditar no Monstro doLago Ness,
onde estou eu para marcar o limite? Há tantas outras histórias sobre outros monstros” – e ele
segue em frente derramando as riquezas de sua ampla leitura, apresentando-nos aos mais
fascinantes e agradáveis monstros da mitologia Celta ou Nórdica; e parece tenebrosamente
resignado a ir em frente com isso e engolir um monstro após o outro, até chegar à baleia que
engoliu Jonas ou o dragão que devorou Andrômeda. Qualquer pessoa obcecada pelo mistério
antiquado da Lógica, tão estudado pelos supersticiosos Acadêmicos da Idade Média, ficará
bem inclinado a observar essa afirmação da dificuldade. Ele naturalmente responderá: “Bem,
eu suponho que você irá traçar a linha onde as evidências falharem. Você aceita esse Monstro
porque há vinte pessoas para testemunhar. Você naturalmente irá acreditar menos onde há
menos evidência; e não acreditará em absoluto onde não houver evidência alguma. Não há
qualquer necessidade de distinguir, a priori, entre um Dragão de Sete Cabeças da Pérsia e um
Dragão de Nove Cabeças do Japão.” A verdade é que o crítico é levado ao engano desde o
princípio por aquela ideia vaga de que, ao aceitar qualquer história do tipo, ele está dando um
passo além das fronteiras do mundo do faz-de-conta, onde qualquer evento fantástico pode
acontecer. Essa é uma falácia que diz respeito até mesmo às coisas sobrenaturais. Um homem
pode acreditar em um milagre enquanto não acredita em outro milagre; sabendo que há
milagres verdadeiros e falsos, assim como há notas promissórias verdadeiras e falsas. Mas o
Monstro não é um milagre. Algo dessa ordem poderá acontecer junto à magia em contos de
fada. Mas um homem poderá também dizer que moleiros e gatos e princesas são animais
fabulosos, porque eles surgem lado a lado com duendes e sereias nos contos da carochinha.
2 Sobre o Natal que está chegando.

Estas linhas surgiram pela primeira vez em algum momento da semana de


Natal; e, dessa forma, violando todos os princípios fundamentais da civilização moderna,
desafiando as leis normais e necessárias do Comércio de Natal, das Vendas de Natal, dos
Números de Natal, das Compras de Natal, e mesmo de um monte de votos de Natal; ou em
outras palavras, cometendo o crime de falar sobre o Natal quando estamos tão próximos do
Dia de Natal. Isso devido à curiosa prática em nossos dias de tornar o Natal em uma vasta
antecipação; transformando-o em uma enorme propaganda. A maioria dos jornalistas tem que
escrever seus artigos de Natal em algum momento dos últimos dias de suas férias de verão, e
preparar-se para publicá-los, na mais precoce das hipóteses, em meados do outono. Eles
precisam encher suas imaginações de azevinhos e viscos enquanto contemplam a última rosa
do verão; ou evocar a visão de flocos de neve em uma floresta de folhas caindo. Essa é uma
característica bastante peculiar dos tempos modernos; e tem a ver com outras coisas que são
tipicamente modernas. Talvez esteja misturada com aquele espírito de Profecia, que criou as
Utopias modernas; e até mesmo levou alguns homens a nomearem-se Futuristas, sob a
peculiar premissa de que se possa ser realmente muito apaixonado pelo futuro. Tem a ver com
aquele otimismo romanticamente expressado em algum momento na frase “uma boa época
chegando”; cujos defensores mais simplistas talvez expressem mais comumente na fórmula
“agora não vai demorar muito”; cujos críticos mais sardônicos podem talvez expressar na
fórmula “improvise amanhã, mas nunca improvise hoje”. Ao menos em matéria de previsão
séria de perfeição social, não poderíamos considerar injusto dizer que muitos ainda
concordam que há uma boa época chegando, mas dificilmente concordaríamos que agora,
neste momento particular, não vai demorar muito. Diriam ainda que a Utopia está chegando,
do mesmo modo que alguns homens dizem que o Natal está chegando; especialmente quando
o dizem (com um travo de amargura) entre os meses de março ou abril. Mas, sob toda a
publicidade oficial, é comparativamente raro dizer que o Natal está chegando, no exato
momento em que ele realmente está chegando. Talvez seja ainda mais raro dizer, com
satisfação total e verdadeira, que o Natal chegou.

Isso porque a moda Futurista de nosso tempo levou quase todo mundo a procurar a
felicidade no amanhã ao invés de hoje. Assim, enquanto há um alarde incessante e talvez cada
dia maior sobre a chegada das festividades do Natal, há muito menos barulho do que deveria
haver sobre tornar o Natal em algo realmente festivo. Os homens modernos têm um
sentimento vago de que, quando eles finalmente chegam ao banquete, é necessário abreviá-
lo. Pelos costumes comerciais modernos, as suas preparações têm sido tão demasiadamente
longas quanto a sua prática tem sido mais e mais curta. Isso está, claramente, em franco
contraste com os mais antigos costumes tradicionais, nos dias quando era uma festividade
sagrada para um povo mais simples. Naqueles tempos, a preparação tomou a forma da
estação mais austera do Advento e do jejum da véspera de Natal. Mas quando os homens
passavam ao banquete de Natal, ele durava por um longo período depois do banquete de
Natal. Ele sempre se estendia por um feriado de contínuo regozijo por ao menos doze dias; e
apenas terminava naquele ponto alto que Shakespeare descreveu como a “Noite de Reis”
(“Twelfth Night or What You Will”). Quer dizer, era uma espécie de Saturnalia que acabava em
todo mundo fazendo o que quisesse, e em William Shakespeare escrevendo uma poesia muito
bonita e bastante irrelevante, acerca da história perfeitamente impossível de um irmão e uma
irmã que pareciam exatamente idênticos. Em nossos tempos mais iluminados, as histórias
perfeitamente impossíveis são publicadas em revistas um mês ou dois antes que o Natal tenha
começado efetivamente, e na correria dessa publicação precoce, a bela poesia acaba de um
modo ou de outro sendo deixada de fora.

Seria vão esconder meu próprio preconceito reacionário, o qual me leva ilusoriamente
a pensar que há algo a ser dito em defesa dos costumes antigos. Eu sou tão audacioso quanto
temeroso em suspeitar que seria melhor se as pessoas pudessem curtir o Natal quando ele
chegasse, ao invés de ficarem chateadas com a notícia de que ele estivesse chegando. Eu até
acho que seria melhor ser o menininho levado que acaba doente de tanto comer sobremesas
de Natal, do que ser o menininho mais negativo e niilista , que está de saco cheio de ver
figuras de sobremesas de Natal em periódicos populares ou painéis de rua coloridos, meses
antes de ele comer um único pedaço de sobremesa.

Seja como for, só descobriremos se uma coisa é boa de verdade ao prová-la. E isso
resiste como um símbolo de um monte de coisas cuja maneira de se apreciar tem sido
esquecida por tantas pessoas nos dias de hoje, e bem na hora em que elas na verdade
chegaram ao fim. Muito mais espaço é dado a nome de coisas do que às coisas em si, com
desenhos e planos e anúncios pictóricos de certos objetos; em detrimento dos objetos reais
quando eles são realmente objetivos. O mundo que conhecemos é cheio demais de rumores e
notícias e reputações refletidas, ao invés da apreciação por apetite e experiência verdadeira. A
dificuldade que é sempre apresentada àqueles que restaurariam os homens a uma vida mais
simples na terra, por exemplo, é sempre alguma forma de objeção (verdadeira ou falsa) de que
os homens modernos seriam chatos se eles lidassem com terra de verdade em uma fazenda,
ao invés de paisagens irreais em um filme. Na verdade, a paisagem da fazenda possui cem
coisas interessantes em si que a paisagem do filme não possui. Mas os críticos não conseguem
se convencer de que o homem irá sempre ter um gosto por voltar aos originais, por serem
mais interessantes do que as cópias. É devido a todo o aparente materialismo e mecanismo de
massa de nossa cultura atual que vivemos em um mundo de sombras, muito mais do que
qualquer um de nossos ancestrais. E é assim, no entanto, porque os profetas e progressistas
nos dizem com a boca cheia que esses são eventos futuros que projetam suas sombras antes.
Presume-se que nada é realmente emocionante além da dança das sombras, e que nós
perdemos o verdadeiro significado de substância.

Há outro modo em que a sobremesa de Natal, apesar de muito substancial, é uma


alegoria em si mesma e também um signo. O menininho espera encontrar moedas dentro da
sobremesa, e isso é bastante correto, desde que as moedas sejam secundárias ao pudim.
Agora a mudança do mundo medieval para o mundo moderno pode ser muito bem descrita
sob essa imagem. Essa é toda a diferença entre colocar moedas em uma sobremesa de Natal e
criar uma sobremesa de Natal em meio a moedas. Havia dinheiro nos velhos tempos de Natal
e da Cristandade; havia mercadorias; havia comerciantes. Mas o esquema moral de toda a
velha ordem, seja quais forem seus vícios e doenças, sempre considerou que o dinheiro era
secundário à substância; que o comerciante era secundário ao fabricante ou artesão.
Torrentes de dinheiro vieram a este e aquele homem, da mesma forma como moedinhas de
cinquenta ou vinte-e-cinco centavos são efusivamente recolhidas das sobremesas de Natal.
Mas a ideia comum de possuir algo ou de divertir-se preponderava sobre a ideia acidental de
ganho aventureiro. Com a ascensão dos aventureiros mercadores o mundo inteiro
gradualmente mudou, até que a preponderância fosse no sentido oposto. O mundo foi
dominado por aquilo que o falecido Lord Birkenhead descreveu como “os prêmios cintilantes”,
sem os quais, como ele parecia acreditar, os homens não poderiam ser realmente movidos
para qualquer atividade saudável ou humana. E é verdade que os homens passaram a pensar
demais em prêmios, e muito pouco a respeito de sobremesas. Isto, em conexão com a
sobremesa comum, é uma falácia; em conexão com a sobremesa de Natal é uma blasfêmia.
Pois há verdadeiramente algo de perversidade, sem deixar de estar misturado com
profanidade, na noção de comércio transformando completamente uma tradição com uma
origem tão sagrada. Milhões de homens e mulheres perfeitamente sadios e dignos ainda
celebram o Natal, e o fazem mantendo-o, com toda a sinceridade, tão sagrado quanto feliz.
Mas há alguns, tirando vantagem desses esquemas naturais lúdicos e de busca do prazer, que
o usam para coisas muito distantes da brincadeira e da busca por prazer. Eles traíram o Natal.
Para eles, a substância do Natal, como a substância da sobremesa de Natal, tornou-se uma
gororoba murcha dentro da qual seu próprio tesouro está enterrado; e eles apenas
multiplicaram as moedinhas de níquel por grandes moedas de prata.