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MESA REDONDA III

O crime
A IMPUNIDADE NO BRASIL:
DE QUEM É A CULPA?
COMO COMBATÊ-LA?
(Esboço de um decálogo dos
filtros da impunidade)

R. CEJ, Brasília, n. 15, p. 35-50, set./dez. 2001 35


A IMPUNIDADE NO BRASIL: DE QUEM É A CULPA?*
(ESBOÇO DE UM DECÁLOGO DOS FILTROS DA IMPUNIDADE)
Luiz Flávio Gomes

RESUMO

Apregoa que o fenômeno da criminalidade está vinculado ao da “cifra negra”, “o terreno existente entre a criminalidade real e a registrada oficialmente”.
Afirma que uma das melhores formas de explicar esse fenômeno da criminalidade, bem como o da impunidade e da seletividade do sistema penal, provém da teoria
dos “filtros de Pilgran”, segundo a qual os próprios autores, réus, a polícia, os tribunais, o Ministério Público, mais do que o próprio legislador, atuam como filtros
determinantes na seleção de quais acontecimentos devem ser definidos como crimes, quais pessoas devem ser qualificadas como deliqüentes etc., contribuindo,
todos, para a impunidade.
Com as devidas adaptações à realidade brasileira, vale-se de tal teoria para elaborar um “esboço de um decálogo dos filtros da impunidade no Brasil”.

PALAVRAS-CHAVE
criminalidade; impunidade; teoria dos “filtros de Pilgran”; crime; Justiça Criminal; Direito Penal; pena.

O fenômeno da impunidade está mas de explicar o fenômeno da cifra que não é crime (Lei n. 1.079/50); já
vinculado ao da “cifra negra” negra (e também da impunidade e da houve crime sem pena (Lei n. 8.212/
(“cifra ou zona oscura”, “dark seletividade do sistema penal) provém 91); há pena sem crime (Lei Ambiental,
number”), que é el terreno existente en- de Arno Pilgran, que manifiesta que el art. 40-A) e há pena que não é pena
tre la criminalidad real y la registrada. fenómeno de selección se produce a (pena de multa, depois do trânsito em
Descritivamente: no todo delito cometi- través de un proceso de filtración julgado é mera dívida de valor).
do es perseguido, no todo delito perse- escalonado, ya que más allá del propio O processo inverso ao da cri-
guido es registrado; no todo delito regis- legislador, tanto los autores como las minalização hipertrofiada é o da des-
trado es averiguado por la policía; no víctimas, los testigos, la Policía, los criminalização, que hoje se consegue
todo delito averiguado es denunciado; Fiscales y los Tribunales, operan en no Brasil principalmente por meio de
la denuncia no siempre termina em calidad de “filtros” determinantes en la medidas provisórias (ex.: MP n. 1710,
juicio oral; el juicio oral no siempre ter- elección de cuáles acontecimientos que descriminalizou inúmeros delitos
mina em condena1. deben ser definidos como delitos y de ambientais)7.
Os dados mais relevantes sobre cuáles personas deben ser calificadas 2 – Filtro da notitia criminis: des-
a cifra negra podem ser assim resu- como delincuentes, con todas las crença na Justiça, alto risco da vitimi-
midos: la criminalidad real es mucho consecuencias que ello implica4. zação secundária, falta de expectativas
mayor que la registrada oficialmente; en Valendo-nos da teoria dos “filtros reais, desestímulo, risco de perder dias
el ámbito de la criminalidad menos gra- de Pilgran” e fazendo as devidas adap- de trabalho etc., tudo isso contribui para
ve la cifra oscura es mayor que en el tações à realidade brasileira, elabora- que a vítima não noticie oficialmente o
ámbito de la criminalidad más grave; la mos o seguinte esboço de um de- delito. Desse modo, a própria vítima
magnitud de la cifra oscura varía cálogo dos filtros da impunidade no também contribui para a impunidade.
considerablemente según el tipo de deli- Brasil: No âmbito dos delitos informáticos, por
to; en la delicuencia juvenil es donde se 1 – Filtro da criminalização pri- exemplo, raramente as empresas víti-
da un mayor porcentaje de delicuencia mária: são inúmeras as formas que as- mas procuram os órgãos oficiais para
con una relativamente menor cuota seguram a impunidade nessa fase (da noticiar qualquer crime. Muitos crimes
sancionatoria; la cuota sancionatoria es criminalização primária, que é da res- cometidos dentro de empresas, aliás,
responsable también del fortalecimiento ponsabilidade do legislador): não são levados ao conhecimento da
de carreras criminales; las posibilidades (a) ausência de criminalização polícia. Em suma, poucos são os casos
de quedar en la cifra oscura dependen (ex.: delitos informáticos próprios ou oficialmente noticiados (leia-se: muitos
de la clase social a que pertenezca el puros, que ainda não foram criminali- delitos não conseguem ultrapassar a
delinquente2. zados no nosso país)5; barreira da notícia oficial).
Seja em razão da classe social (b) criminalização dúbia, confu- 3 – Filtro da abertura da inves-
que figura como sujeito ativo, seja em sa ou lacunosa (ex.: Lei n. 9.034/95, que tigação (nem todos os casos noticia-
razão das suas próprias peculiarida- nem sequer definiu o que é crime orga- dos são investigados): são incontáveis
des, parece-nos fundamental distinguir nizado; crime sexual ficto não é crime os fatores que levam à seletividade
(também nessa questão da impunida- hediondo); (discriminatoriedade) e impunidade
de) a macrodelinqüência econômica (c) criminalização excessiva nesta fase: (a) falta de estrutura mate-
(em sentido amplo) das demais formas (quem quer abraçar o mundo não abra- rial (da Polícia e do MP); (b) falta de
delitivas. Os fatores que contribuem ça ninguém: contamos hoje no Brasil estrutura humana; (c) falta de conhe-
para a impunidade na macrodelin- com mais de mil tipos penais; o que cimentos técnicos (sobre contabilida-
qüência econômica, para além dos ge- está programado para entrar no siste- de, operações nas bolsas de valores,
néricos, que veremos em seguida, são ma – input – é muito superior à sua capa- criminalidade informática, lavagem de
muito específicos3. cidade operacional – output –; vivemos capitais etc.) (resumindo até aqui: fal-
No que se relaciona à crimina- um verdadeiro caos normativo-penal6; ta hardware, software e humanware);
lidade em geral, uma das melhores for- a falta de técnica é patente: há crime (d) corrupção generalizada (o que não

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*
Texto com revisão do autor.

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significa que “todos” os policias são 9 – Filtro da prescrição: morosi-
corruptos); (e) ao lado dessa “banda dade da Justiça versus multiplicidade
podre” existe, é verdade, a “banda po- de prescrições (prescrição pela pena
bre” (miserável, paupérrima), que é A população, máxima em abstrato, prescrição retro-
composta dos policiais – totalmente ativa, prescrição intercorrente, prescri-
desestimulados – que vivem do
desesperada, totalmente ção da pretensão executória, pres-
hollerith, sem fazer “bicos”; (f) infiltra- incrédula, sem ter a crição antecipada ou em perspectiva).
ção “criminosa” de policiais no crime
organizado; (g) falta de controle fun-
mínima idéia da Na atualidade, nenhuma pena con-
creta até dois anos se efetiva, desde
cional da polícia (o MP vem sendo quantidade enorme de que a Defesa se valha de todos os re-
omisso no seu dever constitucional de fatores que contribuem cursos cabíveis: apelação, embargos,
controle externo da polícia). recurso especial, recurso extraordiná-
4 – Filtro da investigação (nem para a impunidade e sem rio etc. Nossos Tribunais (de segunda
todos os casos investigados são devi- ter a mínima idéia de instância e superiores) não julgam ne-
damente apurados): a autoria e a ma- nhum caso em menos de quatro anos,
terialidade ficam comprovadas em como combatê-los, pede que é o prazo prescricional da pena
poucos casos: (a) as vítimas e teste- o irracional (pena de até dois anos.
munhas às vezes não colaboram; (b) 10 – Filtro da execução efetiva
falta de recursos técnicos (a pobreza morte), o inconstitucional (nem todos os casos condenados são
das polícias científicas é franciscana); (prisão perpétua), o executados):
(c) morosidade, cartorialização e buro- Quanto à pena de prisão: (a) fil-
cratização do inquérito policial (na re-
absurdo (agravamento de tro dos mandados de prisão não-cum-
forma do CPP são previstas várias me- penas, mais rigor na pridos: seletividade, corrupção (há
didas contra essa burocratização); o
anacronismo do inquérito policial de-
execução) e o aberrante muitos casos de réu foragido na rua tal);
(b) filtro da “indústria das fugas” (o réu
riva, aliás, da sua estrutura totalmente (diminuição da cumpre a pena se não quiser fugir); (c)
cartorializada. É peça altamente buro-
cratizada8; (d) vítimas e testemunhas
maioridade penal). filtro da inexistência de estabeleci-
mentos prisionais (fechado, semi-aber-
são ameaçadas (crime organizado, tor- Percebe a anomia e pede to e aberto).
tura, crimes envolvendo policiais etc.); mais leis! Percebe que o Quanto às penas alternativas:
(e) nos crimes funcionais, as investiga- (a) filtro da inexistência de fiscalização
ções são corporativistas; (f) nos crimes Direito Penal não (a solução está na criação de varas es-
financeiros, a investigação é manipu- funciona, mas crê que o pecializadas e centrais de acompa-
lada (80,5% são arquivados). A investi- nhamento e alternativo cumprimento
gação policial funciona bem nos crimes problema está na pena do art. 48 do CP); (b) há “becos sem
em que o sujeito é preso ainda com o anterior fixada (...). saída” (descumprimento da transação
produto do crime na mão. Nos crimes penal, por exemplo); (c) filtro da (ade-
que envolvem “poderosos” há a cha- quada) individualização da pena (apli-
mada “paralisação prescricional”9. cação de multa a quem não tem a mí-
5 – Filtro da abertura do pro- nima condição de pagar: nem paga-
cesso: (nem todos os casos investi- (mesmo na era digital, a Justiça conti- mento espontâneo, nem pagamento
gados são denunciados): (a) filtro dos nua analógica). em parcelas, nem desconto nos ven-
requisitos formais: CPP, art. 41 (denún- 7 – Filtro da “Justiça territoria- cimentos, nem desconto no salário,
cias genéricas, denúncias ineptas); (b) lizada versus criminalidade globaliza- nem penhora de bens imóveis ou de
filtro do “engavetamento” no Ministé- da”: (a) globalização de vários crimes bens móveis).
rio Público (como denunciou recente- (narcotráfico, tráfico de mulheres, de A população, desesperada, to-
mente o Sen. Pedro Simon); (c) filtro crianças, de órgãos humanos, de ar- talmente incrédula, sem ter a mínima
das imunidades (parlamentares, do mas, de animais e corrupção interna- idéia da quantidade enorme de fato-
Presidente da República etc.); (d) filtro cional); (b) internacionalização do cri- res que contribuem para a impunida-
do art. 366 do Código de Processo Pe- minoso (que se tornou mais poderoso); de e sem ter a mínima idéia de como
nal etc. (c) globalização das vítimas (crimes combatê-los, pede o irracional (pena
6 – Filtro da comprovação legal informáticos, por exemplo); (d) globa- de morte), o inconstitucional (prisão
e judicial do delito (exigida pela pre- lização dos bens jurídicos (meio am- perpétua), o absurdo (agravamento de
sunção de inocência; nem todos os biente, por exemplo); (e) filtro da Jus- penas, mais rigor na execução) e o
casos denunciados são comprovados): tiça territorializada (versus Justiça glo- aberrante (diminuição da maioridade
(a) provas lícitas; (b) provas judicial- balizada, que está nascendo agora penal). Percebe a anomia e pede mais
mente produzidas; (c) vítimas e teste- com o Tratado de Roma, de 1998); (f) leis! Percebe que o Direito Penal não
munhas que têm medo (pouco funcio- filtro da cooperação internacional (in- funciona, mas crê que o problema está
nam os programas de proteção às víti- cipiente, ainda); (g) filtro do desprepa- na pena anterior fixada (que foi insufi-
mas e testemunhas); (d) a “originalida- ro tecnológico da Justiça criminal. ciente). O Poder Político (muitas vezes
de” brasileira que anunciou publica- 8 – Filtro da condenação (nem demagogicamente), por seu turno,
mente a casa de proteção às testemu- todos os casos processados são con- atende (Lei dos Crimes Hediondos, por
nhas no Rio de Janeiro; (e) vítimas e denados): (a) filtro da presunção de exemplo) ou faz gestos de que vai aten-
testemunhas que desaparecem (mo- inocência (que exige provas valida- der a todos ou a alguns desses atávi-
rosidade da Justiça); (f) atraso tecno- mente produzidas); (b) filtro da racio- cos reclamos.
lógico da Justiça; precatórias e roga- nalidade do sistema (é irracional o sis- O problema da criminalidade (e
tórias morosas; videoconferência etc.) tema de quesitação no júri) etc. da sua impunidade) é muito mais com-

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plexo do que o imaginário popular al- ABSTRACT
cança enxergar, é muito mais profundo
do que o simbolismo e a simplicidade
das medidas legais. Até quando per-
durará a ignorância? Quousque tandem The author states that the criminality
abutere patientia nostra? (“Até quando phenomenon is related to the “black cipher”,
– os que detêm o poder – abusarão da which is “the gap existent between real
nossa paciência?”). criminality and the official records”.
He affirms that one of the best manners
to explain the criminality and impunity’s
phenomenon and also the criminal system’s
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS selection is through the “Pilgran’s filters” theory,
which says that plaintiffs, defendants, police,
courts and the Public Prosecution Service,
much more than the legislator, act like
determining filters in selecting which facts should
1 HASSEMER, Winfried; MUÑOZ CONDE,
be defined as crimes, who should be classified
Francisco. Introducción a la criminologia y
as delinquents etc., contributing, all of them, to
al derecho penal. Valencia: Tirant lo blanch,
impunity.
1989. p. 47.
With the proper adaptations to the
2 Idem.
Brazilian reality, the author uses that theory to
3 GOMES, Luiz Flávio. Sobre a impunidade
create a “draft of a impunity filter’s decalogue
da macro-delinqüência econômica desde
in Brazil”.
a perspectiva criminológica da teoria da
aprendizagem. RBCCrim, n. 11, p. 166-ss,
KEYWORDS – Criminality; impunity;
jul./set. 1995.
“Pilgran’s filters” theory; crime; Criminal Justice;
4 Citado por CERVINI, Raúl. Los procesos
Criminal Law; penalty.
de decriminalización. 2. ed. Montevideu:
Editorial Universidad, 1993. p. 139.
5 De todos os Projetos que tramitam no
Congresso Nacional o mais completo a
respeito desse tema é o de autoria do Dep.
Luiz Piauhylino (PSDB-PE) (PL 84/99). Já
foi aprovado em praticamente todas as
Comissões da Câmara dos Deputados e
certamente não tardará muito para ser
aprovado por essa Casa Legislativa.
6 No âmbito dos crimes contra o consumidor,
por exemplo, temos: Lei n. 1.521/51 (Cri-
mes contra a economia popular), Código
Penal, Lei n. 8.137/90 (art. 7º), Código de
Consumidor etc. Em virtude do excesso
de leis, muitas vezes há enorme dificuldade
em se saber qual é o tipo penal adequado
em cada caso concreto.
7 Antigamente quem tinha poder para
“sensibilizar” o legislador, tinha de con-
vencer todo o Congresso Nacional para
aprovar algo em seu benefício. Hoje tudo
ficou simplificado: basta convencer o
assessor do Presidente da República que
redige medidas provisórias. Estas, como
sabemos, podem beneficiar o réu, nunca
pode criar crime ou pena ou mesmo
restringir direitos fundamentais, mas tem
valor para favorecer o acusado.
8 Na Reforma do CPP, dirigida pela Profa.
Ada Pellegrini Grinover (todos os projetos
estão neste momento – setembro de 2001
– em poder do Dep. Ibrahim Abi Ackel,
que é o relator da matéria), há inúmeras
sugestões de simplificação do inquérito
policial: uso de meios eletrônicos para
gravar depoimentos, colheita da prova fora
da unidade policial etc.
9 No caso PC Farias, muitas empresas ou
empresários de grosso calibre (Votorantin,
v.g.) deram-lhe dinheiro e na ocasião foi Luiz Flávio Gomes é Doutor em Direito Penal
instaurado inquérito para apurar a respon- pela Faculdade de Direito da Universidade
sabilidade penal desses “corruptores”: até Complutense de Madri, Mestre em Direito Penal
hoje não se tem notícia de qualquer pela USP, Professor Honorário da Faculdade
evolução. É exemplo típico de “paralisação de Direito da Universidade Católica de Santa
prescricional”. Maria (Arequipa/Peru).

38 R. CEJ, Brasília, n. 15, p. 35-50, set./dez. 2001