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Capa

De Olhos Fixos no Sol

Independentemente da nossa idade, todos nós já experienciámos o medo


da morte...

Irvin D. Yalom

Do autor da Quando Nietzsche Chorou

Tradução de Isabel Stilwell


Badana da capa

"Um dos melhores terapeutas dos Estados Unidos procura ajudar-nos a


vencer o maior desafio da humanidade, apresentando-nos um livro
profundamente útil. Irá ajudar todos os que o lerem."

— Rabbi Harold Kushner, autor de When Bad Things Happen to Good


People

"Yalom é um mestre! O seu trabalho é um maravilhoso exercício de


contador de histórias."

— Laura Miller, New York Times

"Irvin Yalom escreve como um anjo sobre os demónios que nos


perseguem."

— Rollo May, autor de The Meaning of Anxiety e Man’s Search for


Himself
Badana da contracapa

Irvin Yalom nasceu em Washington, D.C., a 13 de Junho de 1931. Os


seus pais imigraram da Rússia pouco depois da Primeira Guerra
Mundial. Quando escolheu estudar medicina, por se sentir mais perto
de Dostoiévski ou Tolstoi, já tinha em mente seguir psiquiatria.
Psicoterapeuta e professor "Emeritus" de psiquiatria na Faculdade de
Medicina da Universidade de Stanford, tem inúmeros títulos na área
académica.
Contracapa

"Irvin Yalom escreveu um livro corajoso e inteligente sobre o mais


temido dos assuntos — a morte. Eu admiro a sua coragem e a sua visão
particular"

— Erica Jong, autora de Fear of Flying

Depois de nos maravilhar com os bestsellers mundiais Quando Nietzsche


Chorou e A Cura de Schopenhauer, Yalom regressa com um livro
inspirador que nos confronta com o maior de todos os desafios: como
vencer o medo da morte.

De Olhos Fixos no Sol não é um livro comum. No seu estilo inimitável,


Yalom faz uma abordagem única e profundamente encorajadora ao tema da
mortalidade. Dando início a uma viagem através dos tempos, começa por
recolher as reflexões de alguns dos maiores pensadores de todos os
tempos: Séneca, Epicuro, ou mesmo Nietzsche, aliando-os a psiquiatras
e psicólogos como Freud, Pinol, Jung, Pavlov, Skinner. Baseando-se na
sua longa experiência como terapeuta, o Doutor Yalom constrói uma
obra que será, sem dúvida, um marco histórico na compreensão de um
dos temas mais importantes para a humanidade. Esta obra ajuda-nos a
reconhecer que o medo da morte está na origem de muitas das
ansiedades mais comuns na nossa sociedade, e que apenas confrontando-
o, poderemos reorganizar as nossas prioridades, comunicar com os que
amamos, atingir a realização pessoal e tirar partido das coisas belas
da vida.

Preenchido com alguns casos reais bastante comoventes — incluindo o


do próprio autor — De Olhos Fixos no Sol oferece métodos específicos
para vencer esse medo e atingir uma vida mais feliz e com maior
significado.
Folha de rosto

De Olhos Fixos no Sol

Irvin D. Yalom

Tradução de Francisco e Isabel Stilwell e revisão de Prof. Nuno


Colaço (Psicólogo Clínico)

SAÍDA DE EMERGÊNCIA
Ficha técnica

SAÍDA DE EMERGÊNCIA

Título: De Olhos Fixos no Sol

Autoria: Irvin D. Yalom

Editor: António Vilaça Pacheco

Esta edição © 2008 Edições Saída de Emergência

Título original Staring at the Sun © 2008 Irvin D. Yalom. Publicado


originalmente em San Francisco por Jossey-Bass, A Wiley Imprint, 2008

Tradução: Francisco e Isabel Stilwell

Revisão: Luís Guimarães e Nuno Colaço

Composição: Saída de Emergência, em caracteres Minion, corpo 12

Design da capa e interiores: Saída de Emergência

Impressão e acabamento: Guide - Artes Gráficas, Lda.

1a edição: Novembro, 2008

ISBN: 978-989-637-082-4

Depósito Legal: 284361/08

Edições Saída de Emergência

Av. da República, 861, Bloco D, 1.º Dt°, 2775-274 Parede, Portugal

Tel e Fax: 214583770

www. saidadeemergencia.com
Nem o Sol nem a Morte podem ser olhados de frente.

François de La Rochefoucauld, máxima 26


Dedicado aos meus mentores, que ripple

através de mim para os meus leitores:

John Whitehorn, Jerome Frank, David

Hamburg e Rollo May


Prefácio e agradecimentos

Este livro não é, nem nunca poderá ser, um conjunto de pensamentos


sobre a morte, porque durante milénios todos os escritores sérios já
abordaram a mortalidade humana.

Em vez disso é um livro profundamente, pessoal, resultado dos meus


confrontos com a morte. Partilho o medo da morte com cada ser humano
e acredito que ela é a sombra da qual nunca nos poderemos separar.
Estas páginas contam o que aprendi sobre como é possível ultrapassar
o terror da morte, a partir das minhas próprias experiências, do
trabalho com os meus pacientes e com os pensamentos daqueles
escritores que complementam o meu trabalho.

Estou grato a muitos que me ajudaram neste percurso. O meu agente,


Sandy Dijkstra, e o meu editor, Alan Rinzler, foram instrumentais no
enfoque que dei a este livro e na forma como o construí. Uma série de
amigos e colegas já leram partes do manuscrito e ofereceram
sugestões: David Spiegel, Herbert Kotz, Jean Rose, Ruthellen
Josselson, Randy Weingarten, Neil Brast, Rick Van Rheenen, Alice Van
Harten, Ro-ger Walsh, Robert Berger e Maureen Lila. Philipp Martial
foi quem me apresentou à máxima de La Rochefoucauld («Nem o Sol nem a
Morte podem olhar-se fixamente»), que inspirou o título deste livro.
Fica aqui, também, a minha gratidão a Van Harvey, Walter Sokel,
Dagfin Follesdal, caros amigos e tutores de História do Pensamento, a
Phoebe Hoss e a Michele Jones, responsáveis por um excelente trabalho
de edição.

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Os meus agradecimentos estendem-se aos meus quatro filhos, Eve, Reid,
Victor e Ben, consultores preciosos, e à minha mulher, Marilyn, que,
como sempre, me obrigou a ser mais exigente comigo mesmo e a escrever
melhor. Mas, antes de mais, estou em dívida para com aqueles que
foram os verdadeiros professores nesta matéria: os meus pacientes,
que teimam em permanecer anónimos (mas eles sabem quem são!).
Honraram-me com os seus medos mais íntimos, deram-me permissão para
usar as suas histórias, sugeriram-me formas de manter as suas
identidades secretas, leram partes do manuscrito, ou mesmo todo,
deram conselhos e sentiram um imenso prazer na certeza de que iriam
exercer o efeito de rippling (Nota 1), passando a sua experiência e
sabedoria aos meus leitores.

Nota 1 - O conceito de rippling é uma criação de Yalom e um dos mais


fundamentais deste livro, mas não existe um sinónimo português que o
explique inteiramente, por isso o tradutor optou por manter a palavra
original. Rippling significa «propagar» ou «provocar ondulação», como
quando uma pedra é atirada à água e provoca círculos concêntricos,
até se perder de vista. Yalom acredita que é essa a nossa
«eternidade», a marca que provocamos nos outros e que eles vão, por
sua vez, passando àqueles com quem interagem, levando a que
continuemos «vivos», enquanto eles também o estiverem. (N. do T.)

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Capítulo 1

• A FERIDA MORTAL •

«A tristeza entra no meu coração. Tenho medo da morte.»

GILGAMESH

O autoconhecimento é um presente supremo, um tesouro tão precioso


como a própria vida. É ele que nos torna humanos. Mas o preço a pagar
é alto: a ferida da mortalidade. A nossa existência será sempre
assombrada pelo conhecimento de que iremos crescer, florescer e,
inevitavelmente, murchar e morrer.

A mortalidade persegue-nos desde o princípio dos tempos. Há quatro


mil anos, Gilgamesh, o herói da Babilónia, reflectia sobre a morte do
seu amigo Enkidu com as palavras da epígrafe que abre este capítulo:

«Escondeste-te na escuridão e não consegues escutar-me. Quando morrer


não ficarei como Enkidu? A tristeza invade o meu coração. Tenho medo
da morte.»

Gilgamesh fala por todos nós. Como ele temia a morte, também nós a
tememos — cada um de nós, homem, mulher e criança. Para alguns, o
medo da morte manifesta-se apenas indirectamente, como uma
intranquilidade generalizada ou disfarçada de um sintoma psicológico
qualquer; outros sentem uma ansiedade, explícita e constante acerca
da morte, bem consciente e que não os deixa nunca; e depois há ainda
aqueles para quem o medo da morte se torna num terror que lhes nega a
felicidade e a realização pessoal.

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Desde sempre, filósofos empenhados e dedicados procuraram revestir a
ferida da mortalidade, para nos ajudarem a criar existências de
harmonia e de paz. Enquanto psicoterapeuta de muitas pessoas que
lutam com a ansiedade de morte, descobri que a sabedoria antiga,
particularmente a dos filósofos gregos, é extremamente relevante nos
dias de hoje.

De facto, no meu trabalho como terapeuta, considero como meus


antepassados intelectuais não tanto os grandes psiquiatras e
psicólogos do final do século XIX e início do século XX, Pinel,
Freud, Jung, Pavlov, Rorschach e Skinner, mas antes os filósofos
clássicos gregos, muito particularmente Epicuro. Quanto mais aprendo
sobre este extraordinário pensador ateniense, mais fortemente o
reconheço como o psicoterapeuta «proto-existencial», fazendo uso das
suas ideias ao longo de todo este livro.

Nasceu em 341 A. E. C. (Nota 2), pouco tempo depois da morte de


Platão, e morreu em 270 A. E. C. Muitas pessoas familiarizaram-se com
o seu nome através da palavra epicurista, que significa uma pessoa
devotada aos prazeres, sobretudo aos gastronómicos. Mas, na
realidade, Epicuro não era defensor de prazeres sensuais ou
refinados, estando mais preocupado em alcançar a tranquilidade
(ataraxia).

Epicuro exercia «filosofia médica» e insistia que da mesma maneira


que um médico trata o corpo, o filósofo deve cuidar da alma. Em sua
opinião, a filosofia tinha um único objectivo: aliviar a miséria
humana. E quanto à raiz dessa tragédia? Epicuro acreditava que se
devia ao nosso omnipresente medo da morte. A visão assustadora da
inevitabilidade da morte, dizia, interfere com a satisfação que
retiramos da vida, não deixando prazer algum intocado. Para aliviar o
medo da morte desenvolveu vários poderosos exercícios mentais, que me
têm ajudado a encarar a ansiedade de morte e que me oferecem
ferramentas para ajudar os meus pacientes. Na discussão que se segue
refiro-me frequentemente a estas ideias preciosas.

A minha experiência pessoal e o meu trabalho clínico têm-me ensinado


que a ansiedade de morte vai e vem ao longo do ciclo da vida. As
crianças desde muito cedo não conseguem ignorar os sinais de
mortalidade que encontram à sua volta — folhas caducas, insectos e
animais de estimação mortos, avós desaparecidos, pais em luto,
hectares e hectares de cemitérios com campas a perder de vista.

Nota 2 - Yalom não utiliza a. C e o d. C para designar o tempo antes


e depois de Cristo, e que era, até há pouco tempo, a única forma de
denominar o tempo no calendário gregoriano. Opta antes por uma
fórmula politicamente correcta e que lhe fará mais sentido, até pelas
suas raízes judaicas: Antes da Época Comum (Before Common Era) ou
Depois da Época Comum (After Common Era). A Época Comum, ou Era
Comum, é esta em que vivemos e a diferença é apenas de nome, já que a
medição do tempo é feita pelo mesmo calendário e corresponde
exactamente à mesma data. {N. do T.)

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As crianças podem observar, questionar-se e, seguindo o exemplo dos
seus pais, simplesmente optar por permanecerem em silêncio. Se
expressam a sua ansiedade abertamente, os pais ficam visivelmente
incomodados e, evidentemente, acorrem a sossegá-los. Por vezes os
adultos tentam encontrar palavras reconfortantes, transferem todo o
assunto para o futuro distante, acalmam a ansiedade das crianças com
histórias que negam morte, como a ressurreição, a vida eterna, o
Paraíso ou a possibilidade do reencontro.

O medo da morte geralmente torna-se subterrâneo entre os seis anos e


a puberdade, a idade que Freud designou como o período da sexualidade
latente. Depois, durante a adolescência, a ansiedade de morte
ressurge em força: os adolescentes sentem-se, muitas vezes,
extremamente preocupados com a morte; alguns consideram mesmo o
suicídio. Mas muitos adolescentes de hoje respondem à ansiedade de
morte tornando-se mestres no assunto, nas suas vidas paralelas ou em
jogos violentos de consola. Outros desafiam a morte com o humor negro
e canções provocadoras, ou vendo filmes de terror com os amigos. No
início da minha adolescência ia duas vezes por semana a um pequeno
cinema situado na esquina da loja do meu pai e, em uníssono com os
meus amigos, gritava durante os filmes de terror e abria a boca,
incrédulo e confuso, perante os filmes que mostravam o horror e as
barbaridades da II Guerra Mundial. Lembro-me de estremecer
silenciosamente com o pensamento da sorte que tivera em ter nascido
em 1931, e não cinco anos antes, como o meu primo Harry, que morreu
no massacre das praias da Normandia.

Alguns adolescentes desafiam a morte colocando-se em grande perigo.


Um dos meus pacientes masculinos — que sofria de múltiplas fobias e
de um sentimento recorrente de que algo catastrófico estava prestes a
acontecer — contou-me como tinha começado a praticar queda-livre com
apenas dezasseis anos, fazendo variadíssimos saltos. Hoje, olhando
para trás, acredito que foi a forma que encontrara para lidar com o
medo persistente da sua própria mortalidade.

À medida que os anos vão passando, os medos da morte por parte dos
adolescentes vão sendo varridos para baixo do tapete, porque a vida
de um jovem adulto obriga-o a duas grandes tarefas, que exigem toda a
sua concentração: iniciar uma carreira e começar a construir família.

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Três décadas mais tarde, quando as crianças partem de casa e os
pontos finais de uma vida profissional pairam no ar, a crise da meia-
idade rebenta com violência e, mais uma vez, a ansiedade de morte
entra em erupção, desta vez com ainda mais força e estrondo.
Atingindo o cume da vida, depara-se-nos o caminho que nos espera e
percebemos que o carreiro já não é a subir, mas antes sempre a
descer. A partir desse momento as preocupações com a morte nunca mais
voltam a andar muito longe do nosso pensamento.

Não é fácil viver cada momento absolutamente consciente da


inevitabilidade da nossa morte. É como tentar olhar para o Sol e
manter os olhos fixos: qualquer de nós só consegue fazê-lo durante
alguns segundos. Ora, porque não podemos existir congelados pelo
medo, criamos estratégias para suavizar o terror da morte.
Projectamo-nos no futuro, através dos nossos filhos; do sonho de
riqueza, fama, sucesso; desenvolvemos compulsivamente rituais de
protecção; ou abraçamos uma crença inexpugnável num salvador supremo.

Algumas pessoas — supremamente confiantes na sua imunidade — vivem


heroicamente, frequentemente sem respeito pelos outros ou até pela
sua própria segurança. Há ainda aqueles que tentam transcender a
dolorosa separação da morte procurando esquecê-la na fusão com uma
pessoa amada, uma causa, a comunidade, um Ser Divino. A ansiedade de
morte é a mãe de todas as religiões que, de um modo ou de outro,
tentam temperar a angústia da nossa finitude. Deus, enquanto uma
formulação transcultural, não só apazigua a dor da mortalidade com a
promessa de uma vida eterna, como suaviza o isolamento, agraciando o
crente com uma presença eterna e sugerindo um plano claro sobre como
dar sentido à vida.

Mas, apesar das mais respeitáveis defesas de que se munem mesmo os


crentes, nunca conseguimos dominar por completo a nossa ansiedade de
morte — ela está sempre lá, disfarçada num canto escuro do nosso
cérebro.

Talvez, como dizia Platão, não sejamos capazes de mentir à parte mais
profunda de nós mesmos.

Tivesse eu sido um cidadão da antiga Atenas, em cerca de 300 A. E. C.


(num tempo apodado de Época de Oiro da Filosofia), acometido de um
ataque de pânico ou de um terrível pesadelo, e para quem me teria
virado na tentativa de limpar a mente das teias do medo?

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É provável que me tivesse dirigido à agora, a praça principal da
antiga Atenas, onde se situavam as mais importantes escolas de
filosofia. Teria passado pela academia fundada por Platão, dirigida
agora pelo seu sobrinho, Speucippus; e também pelo Lyceum, a escola
de Aristóteles, que por sua vez tinha sido aluno de Platão, mas que
fora demasiado rebelde nas suas teorias para ser apontado como seu
sucessor. Passaria, depois, à porta da escola dos estóicos e da
Escola Cínica, ignorando qualquer filósofo itinerante que andasse à
procura de alunos. Finalmente chegaria ao jardim de Epicuro, e
acredito que aí teria encontrado a ajuda que esperava.

E hoje, para onde é que as pessoas com ansiedade de morte, de


intensidade inimaginável, se viram? Algumas procuram o apoio das suas
família e amigos; outras tentam encontrá-lo na sua igreja ou numa
terapia; outros, ainda, têm a possibilidade de consultarem um livro
como este. Já trabalhei com um grande número de pessoas aterrorizadas
pela morte. Acredito que as observações, as reflexões e as
intervenções que desenvolvi ao longo de todos estes anos, como
terapeuta, podem oferecer um auxílio significativo e uma melhor
introspecção àqueles que não conseguem, sozinhos, acalmar a sua
ansiedade de morte.

Neste primeiro capítulo quero enfatizar que o medo da morte cria


problemas que à primeira vista podem não dar a impressão de estarem
directamente relacionados com a mortalidade. A morte tem um braço
longo e o impacto dos seus tentáculos é muitas vezes invisível a olho
nu. Embora o medo da morte possa imobilizar por completo algumas
pessoas, muitas vezes está encoberto, sendo expresso através de
sintomas que aparentemente não lhe estão ligados.

Freud acreditava que muita da psicopatologia resultava da repressão


sexual do indivíduo. A sua visão parece-me demasiado redutora.
Durante o meu trabalho clínico tenho vindo a perceber que as pessoas
podem não só reprimir a sua sexualidade como até a simples noção de
self, do facto de serem criaturas de carne e osso e, sobretudo,
reprimir a consciência da sua natureza finita.

No Capítulo 2 examino como se pode reconhecer a ansiedade da morte


camuflada. Muitas pessoas sofrem de ansiedade, depressão e até de
outros sintomas que, na realidade, são alimentados pelo medo da
morte.

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Neste capítulo, tal como nos que se seguem, ilustrarei o meu
conhecimento com histórias clínicas e técnicas que utilizo na minha
prática, assim como com cenas de filmes e textos literários.

No Capítulo 3 vou mostrar-vos que confrontar a morte não é sinónimo


de entrar em desespero, nem tão-pouco de retirar à vida o seu
sentido. Muito pelo contrário, pode ser uma experiência que nos
desperta para uma existência mais rica e feliz. O núcleo central
deste capítulo prende-se com a defesa de que embora a morte física
nos destrua, a ideia da morte salva-nos.

O Capítulo 4 descreve e discute algumas das sugestões mais poderosas


de filósofos, terapeutas, escritores e artistas sobre como superar o
medo da morte. Mas, como o Capítulo 5 deixa entender, as ideias só
por si geralmente não estão à altura de combaterem o terror que a
morte provoca. É a sinergia criada por essas ideias e as relações
humanas a única que possui o poder de nos ajudar a olhar a morte nos
olhos. Nesse sentido, sugiro muitas estratégias práticas para aplicar
esta sinergia no nosso dia-a-dia.

Este livro apresenta um ponto de vista, baseado nas minhas


observações das pessoas que me procuram em busca de auxílio. Mas,
porque o observador acaba sempre por influenciar o que observa,
utilizo o Capítulo 6 para um «exame do observador», oferecendo ao
leitor uma súmula das minhas experiências pessoais nesta relação com
a morte e das minhas atitudes em relação à mortalidade. Também eu
luto com ela e, tendo trabalhado ao longo de toda a minha carreira
com doentes que sofriam de ansiedade de morte, trata-se de uma
confissão a que não posso fugir. Além de mais, sendo um homem de quem
a morte se aproxima progressivamente, desejo ser honesto e
transparente ao relatar a minha experiência com a ansiedade de morte.

O Capítulo 7 contém instruções para terapeutas. Sobretudo para os que


sintam que estão a evitar trabalhar directamente com a ansiedade de
morte, talvez por não serem capazes de enfrentar a sua própria
ansiedade. Preocupa-me, particularmente, que as escolas profissionais
prestem pouco ou nenhum treino numa abordagem existencial a este
tema: jovens terapeutas já me confessaram que evitam aprofundar
demasiado as questões da morte com os seus clientes, porque sentem
que não saberiam como lidar com as respostas recebidas. Para se ser
capaz de ajudar as pessoas afligidas por esta ansiedade, os
terapeutas precisam de novos conceitos e de um novo tipo de relação
com o paciente.

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Apesar de esse capítulo ser pensado principalmente para
profissionais, tento fugir aos termos demasiado técnicos e espero
sinceramente que a escrita seja suficientemente clara para atrair os
leitores mais curiosos.

Poderão perguntar-me: mas porquê enfrentar um assunto tão assustador?


Porquê olhar fixamente para o Sol? Porque não seguir os conselhos do
venerável reitor da Associação de Psiquiatria Americana, Adolph
Meyer, que há um século acautelava os psiquiatras dizendo-lhes: «Não
cocem onde não há comichão»? Porquê medir forças com o mais escuro,
terrível e imutável aspecto da vida? De facto, nos últimos anos, o
advento das terapias breves, terapias de controlo de sintomas e
tentativas de alterar os padrões do pensamento, só vieram exacerbar
este ponto de vista tão limitado.

A morte realmente faz comichão e é uma comichão bem persistente; está


sempre connosco, a arranhar alguma porta interior, a zumbir
suavemente, quase sem se ouvir, mesmo por baixo da membrana da
consciência. Escondida e mascarada, gotejando uma variedade de
sintomas, é a fonte de muitas das nossas preocupações, stress e
conflitos.

Sinto convictamente — sendo um homem que morrerá, ele próprio, um


dia, num futuro não muito distante e como um psiquiatra que gastou as
últimas décadas a lidar com a ansiedade de morte — que confrontar a
morte permite-nos não abrir uma assustadora caixa de Pandora, mas
recentrar a vida num plano mais rico, que nos permita viver com mais
compaixão.

Por isso é com optimismo que ofereço este livro. Acredito que vos
ajudará a olhar a morte de frente e que, ao fazê-lo, sentirão que não
só dissipam o medo como acrescentam qualidade e força à vossa
existência.

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<Página em branco>
Capítulo 2

• RECONHECER A ANSIEDADE • DE MORTE

Morte é tudo

E não é nada.

As minhocas rastejam para dentro, as minhocas rastejam para fora.

Cada pessoa tem medo da morte à sua maneira. Para alguns, a ansiedade
de morte é a música de fundo da sua existência e todos os
acontecimentos evocam imediatamente a certeza de que aquele momento
nunca mais se repetirá. Até um filme antigo parece uma questão «de
vida ou de morte» para quem não consegue impedir-se de imaginar que
todos aqueles actores, por esta hora, já não passam de pó.

Para outros a ansiedade é intrometida, incontrolável, tendendo a


surgir do nada às três da manhã quando acordam em terror, sentindo o
ar faltar ao encarar o espectro da morte. Estes ficam presos na
certeza de que, também eles, não tardarão a morrer — tal como toda a
gente que os rodeia.

Outros, ainda, são assombrados por uma fantasia específica de morte


iminente: uma arma apontada à cabeça, um pelotão de fuzilamento nazi,
uma locomotiva trovejando na sua direcção, uma queda de um prédio ou
de uma ponte.

Cenários de morte tomam formas imensamente reais. Um imagina-se


trancado num caixão, as narinas cheias de terra, contudo consciente
de estar preso na escuridão para todo o sempre. Outro tem medo de
nunca mais ver, ouvir ou tocar a pessoa amada.

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E não podemos deixar de falar dos que sentem a dor de estarem
soterrados, enquanto todos os seus amigos continuam lá em cima. A
vida prosseguirá como até aí, mas eles ficarão sem a possibilidade de
alguma vez virem a saber o que aconteceu à família, aos amigos, ao
seu mundo.

Cada um de nós experimenta de certa maneira o sabor da morte quando,


todas as noites, escorrega para o adormecimento, ou quando perde a
consciência em consequência de uma anestesia. A morte e o sono,
Thanatos e Hypnos no vocabulário grego, eram gémeos. O escritor
existencialista checo Milan Kundera sugere que também provamos a
morte através do acto de esquecer: «O que mete mais medo na morte não
é perder o futuro mas antes o passado. De facto, o acto de esquecer é
uma forma de morte sempre presente na vida.»

Em muita gente, a ansiedade de morte é expressa e facilmente


reconhecida, por muito desesperante que seja. Noutras é subtil,
dissimulada, e esconde-se atrás dos sintomas mais díspares, sendo
identificável somente se nos decidirmos a explorar o que se passa,
sendo por vezes necessário escavar bem fundo.

• A Ansiedade de Morte Manifesta*

Muitos de nós misturamos a ansiedade de morte com os medos do mal, do


abandono ou da aniquilação. Há quem fique petrificado pela ideia da
eternidade, de ficar morto para todo o sempre; quem seja incapaz de
conceber um estado de «não existência» e se debata com a pergunta de
para onde irão quando morrerem; e, também, os que se focalizam no
sentimento de horror que lhes provoca a ideia de um dia a sua vida e
o seu mundo pessoal se evaporarem para sempre. Deixámos para o final
aqueles que se debatem com a inevitabilidade da morte, como descreve
neste e-mail uma mulher de trinta e dois anos, que sofria frequentes
crises de ansiedade de morte:

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Suponho que os sentimentos mais fortes surgiram da noção de que seria
Eu a morrer, não uma outra entidade do tipo, Eu-Velhinha ou um Eu-
Doente-Terminal-Pronta-Para-Morrer. Julgo que sempre pensei sobre a
morte de raspão, como sendo algo que poderia acontecer, e não que vai
acontecer. Durante as semanas que se seguiam a um ataque de pânico
forte, pensava sobre a morte mais intensamente do que alguma vez o
tinha feito, e já percebi perfeitamente que só há uma certeza: vou
morrer. Sentia que tinha tomado consciência de uma verdade terrível e
que nunca mais poderia voltar atrás.

Algumas pessoas levam os seus medos ainda mais longe, até uma
conclusão insuportável: que o seu mundo, ou qualquer memória dele,
não permanecerá, em lugar algum. As suas ruas, a sua família, os
encontros de pais e filhos, a casa da praia, o liceu, o lugar
preferido para acampar — tudo desaparecerá com a sua morte. Nada é
estável, nada permanece. Que possível significado poderá conter uma
vida em que tudo se perde e nada fica? O e-mail continuava:

Aos poucos fiquei consciente do significado da palavra


insignificância — de como tudo o que fazemos parece condenado ao
esquecimento e de como essa realidade se estenderá ao próprio
planeta. Imaginei a morte dos meus pais, irmãs, namorado e amigos.
Farto-me de pensar sobre como, um dia, será o meu crânio e osso (não
um crânio e ossos imaginários) estarem fora do meu corpo e não
confortavelmente encobertos e escondidos sob a minha pele. E esse
pensamento deixa-me muito desorientada. A ideia de ser uma entidade
separada do meu corpo não cola, por isso nem sequer posso consolar-me
com o conceito de uma alma eterna.

Há vários temas principais no e-mail desta jovem: para ela, a morte


tornou-se um assunto pessoal; já não é algo que poderá acontecer ou
que acontece só aos outros; a inevitabilidade da morte torna toda a
vida sem significado. Ela considera a ideia de uma alma imortal
separada do corpo como altamente improvável e não encontra qualquer
conforto na ideia de uma vida após a morte. Também quer saber se o
«nada» antes do nascimento é o mesmo que sucede à morte (um ponto
importante que reaparecerá na nossa discussão acerca de Epicuro).

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Uma paciente, com episódios de pânico de morte, entregou-me este
poema, na nossa primeira sessão de terapia:

A morte atravessa-me.

A sua presença atormenta-me,

Agarra-me, conduz-me.

Grito em angústia.

Eu continuo.

Todos os dias a aniquilação ameaça-me.

Tento deixar marcas

Que talvez importem;

Envolvendo-me no presente.

Não consigo fazer mais do que isso.

Mas a morte paira pouco abaixo

Daquela fachada protectora

A cujo conforto me agarro,

Como a criança ao seu cobertor.

O cobertor é permeável

Na quietude da noite,

Quando o terror regressa.

Não haverá mais «Eu»

Para respirar na Natureza,

Para endireitar os males,

Para sentir uma doce tristeza.

Perda insuportável, apesar

De ter nascido sem essa consciência.


A morte é tudo

E não é nada.

Esta mulher sentia-se particularmente atormentada pelo pensamento


expresso nas suas últimas duas linhas: A morte é tudo / E não é nada.
Explicava-me que a perspectiva de se transformar num «nada» consumia-
a e tornava-se «em tudo».

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Mas o poema continha duas ideias importantes e reconfortantes:
acreditava que, deixando marcas de si mesma, a sua vida ganharia
sentido e que o máximo que podia fazer era abraçar o momento
presente.

• O Medo de Morrer não é um Substituto • de Outra Coisa

Os psicoterapeutas frequentemente assumem, erradamente, que a


ansiedade de morte manifesta não é uma ansiedade sobre a morte mas,
em lugar disso, uma capa para mascarar algum outro problema. Era o
que acontecia com Jennifer, uma agente imobiliária de vinte e nove
anos, cujos intensos ataques de pânico nocturnos não tinham sido bem
interpretados por terapeutas anteriores. Desde há muitos anos que
Jennifer acordava frequentemente durante a noite, ensopada em suor,
os olhos esbugalhados, tremendo perante a ideia da sua aniquilação.
Via-se a si mesma a desaparecer, mergulhando na escuridão para
sempre, completamente esquecida pelo mundo dos vivos. Dizia a si
mesma que nada realmente importa se no final de contas está tudo
condenado à extinção total.

Tais pensamentos atormentavam-na desde a sua infância mais precoce.


Recordava com vivacidade o seu primeiro episódio de pânico aos cinco
anos. Correndo para o quarto dos pais, tremendo com medo de morrer,
foi sossegada pela mãe, que lhe disse duas coisas que nunca mais
esqueceu:

«Tens uma vida muito longa à tua frente, pelo que não faz sentido
estares a pensar nisso agora.»

«Quando fores muito velhinha e te aproximares da morte, então estarás


em paz ou doente e, de uma maneira ou de outra, a morte até será bem-
vinda.»

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Jennifer tinha confiado nas palavras de conforto da mãe desde esse
dia, e também desenvolvera outras estratégias para atenuar as crises.
Relembrava a si própria que lhe restava a opção de pensar ou não
pensar na morte. Tentava combater os pensamentos negativos com outros
que encontrava ao vasculhar no seu banco de memórias felizes — rindo
com amigos de infância, maravilhando-se com lagos espelhados e com a
forma das nuvens, enquanto fazia escalada com o marido nas Rockies,
beijando as caras sorridentes dos seus filhos.

Apesar de todo esse esforço, o medo da morte continuava a assombrá-la


e a retirar muito do seu prazer em viver. Já consultara vários
terapeutas com muito poucos benefícios. Alguns medicamentos tinham
diminuído a intensidade, mas não a frequência, dos ataques. Os
terapeutas nunca se focavam no seu medo da morte, porque acreditavam
que a morte era um substituto de alguma outra ansiedade. Resolvi não
repetir os erros dos terapeutas anteriores. Acredito que se tenham
confundido com um sonho poderoso e recorrente que antes a visitara,
quando Jennifer tinha cinco anos:

A minha família inteira está na cozinha. Há uma taça de minhocas na


mesa e o meu pai obriga-me a pegar numa mão-cheia delas, esmagá-las,
e depois beber o leite que delas escorre.

Para cada terapeuta que tinha consultado, a imagem de minhocas


esmigalhadas para darem leite sugeria, compreensivelmente, o pénis e
o sémen; e cada um deles colocou a possibilidade de abusos sexuais
por parte do pai. Também me fiz essa pergunta, mas descartei-a depois
de Jennifer me ter explicado como esta linha de pesquisa tinha levado
sempre a terapia na direcção errada. Apesar de o seu pai lhe ter
metido muito medo, e de a ter magoado com as suas agressões verbais,
nem ela nem as suas irmãs tinham memória de algum abuso sexual.

Nenhum dos anteriores terapeutas havia explorado a gravidade e o


significado do seu medo omnipresente da morte. Este erro comum tem
uma tradição venerável, as suas raízes estendendo-se mesmo até à
primeira publicação em psicoterapia: os Estudos sobre Histeria, de
Freud e Breuer, datado de 1895. Uma leitura cuidada desse texto
revela que o medo da morte era constante nas vidas dos pacientes de
Freud.

26
A sua falha na exploração do medo da morte seria incompreensível se
não fossem os seus escritos posteriores, que explicam que a sua
teoria da origem das neuroses baseava-se na suposição de conflito
entre várias forças inconscientes, primitivas e instintivas. A morte
não podia desempenhar papel algum na génese das neuroses, escreveu
Freud, porque não tem representação no inconsciente. Justificava a
conclusão com dois argumentos: primeiro não temos uma experiência
pessoal da morte, e, segundo, não nos é possível contemplar a nossa
«não existência».

Apesar de Freud ter escrito com sabedoria sobre a morte num curto, e
pouco sistematizado, ensaio («A Nossa Atitude Perante a Morte»),
redigido após a I Guerra Mundial, a sua desconsagração da morte nas
palavras de Jay Lifton, na teoria psicanalítica, fez com que gerações
de terapeutas se afastassem dela em direcção ao que acreditavam ser a
sua tradução no inconsciente, particularmente como sinónimo de
abandono e castração. Realmente, podíamos argumentar que a ênfase
psicanalítica no passado é uma forma de fugir ao futuro e ao
confronto com a morte.

Desde o princípio do meu trabalho com Jennifer que embarquei numa


exploração explícita dos seus medos da morte. Não houve qualquer
resistência: estava cheia de vontade de trabalhar e escolhera
consultar-me porque tinha lido o meu texto Psicoterapia Existencial
(Existential Psycotherapy) e queria confrontar os factos existenciais
da vida. As nossas sessões de terapia concentravam-se nas suas ideias
da morte, memórias e fantasias. Pedi-lhe que tomasse nota dos seus
sonhos e dos seus pensamentos durante um episódio de pânico de morte.

Não tive de esperar muito. Poucas semanas depois teve uma crise
grave, após ter visto um filme sobre o período nazi. Estava
profundamente abalada pela imprevisibilidade da vida retratada no
filme. Reféns inocentes eram arbitrariamente escolhidos e mortos. O
perigo estava em todo o lado, ninguém se sentia seguro. Chocou-a a
identificação que fez com a sua casa de infância: perigo resultante
dos episódios imprevisíveis de violência do pai, o sentimento de não
ter um sítio onde se esconder e a busca incessante de um refúgio, que
só encontrava na invisibilidade — ou seja, tentando que não a vissem,
dizendo e perguntando o mínimo possível.

Decidiu, como lhe sugeri, revisitar a casa onde passara a sua


infância e meditou nas campas dos seus pais.

27
Pedir a um paciente para meditar junto de uma campa pode parecer
radical, mas em 1895 Freud afirma ter dado essa exacta instrução a um
dos seus doentes. Quando Jennifer estava em pé, a olhar de cima a
campa do pai, teve acerca dele um pensamento estranho: «Deve ter
tanto frio no túmulo...», disse para si mesma.

Discutimos esse pensamento na sessão seguinte. Era como se a sua


visão infantil da morte, com todas as componentes irracionais (por
exemplo, que os mortos ainda conseguem sentir frio), ainda estivesse
presente na sua imaginação, lado a lado com a racionalidade adulta.

Enquanto conduzia para casa, depois dessa sessão, veio-lhe


subitamente à cabeça uma música muito na moda quando era criança, e
começou a cantá-la, surpreendida por se lembrar perfeitamente da
letra.

Já alguma vez pensaste, quando um carro funerário passa por ti,

Que poderás ser o próximo a morrer?

Embrulham-te num grande lençol branco,

E enterram-te lá em baixo a cerca de dois metros de profundidade

Metem-te dentro de uma grande caixa preta,

Tapam-na com pedras e terra,

E tudo corre bem durante uma semana,

Mas depois o caixão começa a escorrer!

As minhocas rastejam para dentro e rastejam para fora,

As minhocas jogam às cartas no teu focinho.

Comem-te os olhos, comem-te o nariz

Comem a geleia por entre os teus dedos dos pés.

Uma enorme minhoca com olhos esbugalhados

Rasteja para dentro do teu estômago e sai-te pelos olhos,

O teu estômago fica de um verde viscoso

E o pus escorre como se fosse chantili,

Que espalhas numa fatia de pão,

E é isso que comes quando estás morto.


Enquanto cantava, as memórias começaram a gotejar lentamente,
recordações das suas irmãs (Jennifer era a mais nova) a gozarem com
ela, sem dó nem piedade, cantando esta canção repetidamente, sem
parecerem minimamente perturbadas com o seu sofrimento, óbvio e
palpável.

28
Relembrar a canção foi uma epifania para Jennifer, levando-a a
compreender que o sonho recorrente que tinha com o leite das minhocas
não era sobre sexo mas antes sobre a morte, minhocas de campas, o
perigo e a falta de segurança que tinha experimentado em criança.
Esse insight — de que mantinha, em animação suspensa, uma visão
infantil da morte — abriu novos caminhos para a sua terapia.

• Ansiedade de morte Encoberta •

Pode ser necessário um verdadeiro detective para desmascarar a


ansiedade de morte, mas muitas vezes qualquer pessoa, seja em terapia
ou não, consegue descobri-la olhando com cuidado para dentro de si.
Pensamentos de morte podem infiltrar-se e permear os seus sonhos, por
muito bem escondidos que estejam do seu consciente. Cada pesadelo é
um sonho em que a ansiedade de morte escapou do seu curral e ameaça o
sonhador.

Os pesadelos despertam quem dorme e retratam a vida do sonhador como


se estivesse em risco iminente: correndo com todas as forças para
fugir de um assassino, caindo de um lugar altíssimo, escondendo-se de
uma ameaça mortal, mesmo a morrer ou já morto.

A morte surge muitas vezes nos sonhos de forma simbólica. Por


exemplo, um homem de meia-idade com problemas gástricos e
preocupações hipocondríacas sobre a possibilidade de ter um cancro no
estômago sonhou que estava sentado num avião com a sua família em
viagem para um resort exótico nas Caraíbas. Depois, na imagem
seguinte, viu-se deitado no chão, dobrado com dores de estômago.
Acordou aterrorizado e compreendeu instantaneamente o significado do
sonho: tinha morrido com um cancro no estômago e a vida continuara
sem ele.

Finalmente, há certas situações da vida que quase sempre evocam a


ansiedade de morte.

29
Por exemplo: uma doença séria, a morte de uma pessoa próxima ou uma
imensa ameaça irreversível à nossa segurança mais básica como ser
violado, um divórcio, ser despedido ou assaltado. Uma reflexão séria
sobre um evento como estes geralmente resultará na capacidade de
trazer à luz do dia os medos da morte escondidos.

• Ansiedade «Por Nada» é Ansiedade pela morte •

Há anos, o psicólogo Rollo May deixou cair, na forma de um comentário


brilhante, que a ansiedade sobre nada procura desesperadamente
tornar-se numa ansiedade sobre algo. Por outras palavras, a ansiedade
sobre nada rapidamente se amarra a um objecto tangível. A história de
Susan ilustra a utilidade deste conceito quando um indivíduo reage
com uma ansiedade altíssima e desproporcionada a um acontecimento.

A Susan, uma excelente e eficiente contabilista de meia-idade,


consultou-me em tempos porque tinha conflitos constantes com o
patrão. Encontrámo-nos durante alguns meses, e efectivamente ela
deixou o emprego e formou uma empresa extremamente competitiva, que
rapidamente evoluiu para um projecto de sucesso.

Vários anos mais tarde, quando de repente me telefonou a pedir uma


consulta com urgência, quase não consegui reconhecer-lhe a voz.
Habitualmente cheia de vitalidade e autoconfiança, Susan parecia-me
terrivelmente preocupada. Recebi-a nessa mesma tarde e fiquei
alarmado com a sua aparência: geralmente calma e vestida com estilo,
estava desarranjada e agitada, a cara afogueada, os olhos encarnados
de tanto chorar e com uma grande ligadura no pescoço.

Hesitando a cada palavra, contou-me a sua história: o seu filho


George, um jovem responsável e com um bom emprego, estava na prisão
por posse de droga. A polícia tinha-o mandado parar por uma pequena
infracção, mas encontrara cocaína no seu carro.

30
O teste de uso de estupefacientes revelou-se positivo e, como já
estava num programa de recuperação por duas infracções semelhantes,
foi condenado a um mês de prisão e a mais doze meses num programa de
reabilitação.

Susan não parava de chorar havia quatro dias. Não conseguia dormir ou
comer e nem sequer tinha sido capaz de ir trabalhar (pela primeira
vez em vinte anos!). Durante a noite era atormentada por visões
horrendas do seu filho: bebendo de uma garrafa embrulhada num saco de
papel, imundo e com os dentes podres, morrendo na sarjeta. «O George
vai morrer na cadeia», disse-me, e continuou a descrever-me os
esforços que tinha feito para puxar todo e qualquer cordelinho de que
se lembrava, a fim de tentar tirar o filho da cadeia, e de como isso
a tinha deixado desesperada e exausta. Sentia-se oprimida quando via
fotografias dele em bebé, angélico, com cabelos loiros aos caracóis e
os olhos cheios de vida, que prometiam um futuro sorridente.

Susan considerava-se uma pessoa de enormes recursos. Era uma «self-


made woman» que tinha atingido o sucesso, apesar de ser filha de pais
dissolutos e pouco afectuosos. Naquela situação, contudo, sentia-se
totalmente sem saída.

«Porque me fez ele isto?», perguntava ela. «É rebeldia, está


deliberadamente a tentar sabotar os planos que tinha para ele. Que
mais pode ser? Não lhe dei tudo — a melhor educação, lições de ténis,
piano, cavalo? É assim que me paga? A vergonha de tudo isto — imagine
se os meus amigos descobrem!» Susan ardia de inveja quando pensava no
sucesso dos filhos dos seus amigos.

A primeira coisa que fiz foi relembrá-la de coisas que parecia já ter
esquecido: a visão do filho na sarjeta era irracional. Era ver
catástrofes onde não existiam. Assinalei o facto de que, apesar de
tudo, o filho estava a fazer bons progressos: participava num
programa muito bom de reabilitação, em terapia privada com um óptimo
conselheiro. A recuperação de uma dependência raramente é um processo
simples: recaídas, frequentemente várias recaídas, são inevitáveis e,
claro, ela sabia isso. Susan tinha recentemente voltado de uma semana
inteira de terapia familiar no centro de recuperação do filho. Além
disso, o seu marido não partilhava a intensidade dessas preocupações.

Sabia perfeitamente que a pergunta «porque me fez o George isto?» era


irracional e foi a primeira a acenar que sim com a cabeça quando lhe
disse que era urgente obrigar-se a abandonar esse cenário dramático.

31
A recaída de George nada tinha a ver com ela.

Evidentemente que qualquer mãe estaria seriamente perturbada e triste


com o retorno da droga à vida do filho e pelo facto de estar preso,
mas a reacção de Susan parecia mesmo assim excessiva. Comecei a
suspeitar de que muita da sua ansiedade tinha sido transferida de uma
outra fonte.

Estava particularmente surpreendido com o seu profundo sentimento de


impotência. Susan sempre se tinha visto como uma mulher com enormes
recursos e agora essa visão tinha sido estilhaçada — nada havia que
pudesse fazer pelo filho (excepto criar espaço entre a sua vida e a
dele).

Mas porque era George o centro da sua vida? Sim, claro que era seu
filho, mas o problema não se ficava por aí. George ocupava demasiado
espaço dentro dela. Era como se toda a sua vida dependesse do sucesso
dele. Argumentei que para muitos pais as crianças representam com
frequência um projecto de imortalidade. A ideia interessou-a.
Reconheceu que alimentara a esperança de se conseguir prolongar no
futuro através de George, mas agora tinha a certeza de que era
importante abandonar essa ideia.

«Ele não é suficientemente resistente para essa missão», disse ela.

«Há alguma criança que o seja?», perguntei.

«Além disso, o George nunca se candidatou a essa responsabilidade e é


por isso que o comportamento dele, e a recaída, nada têm a ver
consigo!»

Quando, para o final da sessão, quis saber o que era a ligadura no


pescoço, disse-me que tinha acabado de fazer uma cirurgia plástica
para esticar a pele. Enquanto continuava a fazer-lhe perguntas sobre
a operação, começou a ficar impaciente e esforçou-se para reconduzir
a conversa para George — a razão que a tinha levado a marcar uma
consulta.

Mas eu persisti.

«Conte-me mais sobre a decisão de se submeter a uma plástica.»

«Bem, detesto o que o envelhecimento tem feito ao meu corpo — ao meu


peito, à minha cara e especialmente ao meu pescoço, que estava com a
pele toda descaída. A cirurgia foi o meu presente de anos para mim
própria.»

32
«Quantos anos fez?»

«Um aniversário com um A grande. O número seis-zero. A semana


passada.»

Susan contou-me como era ter sessenta anos e tomar consciência de que
o tempo estava a acabar (eu falei sobre ter setenta!). E depois
resumi:

«A ansiedade que sente é consequência do facto de parte de si saber


perfeitamente que as recaídas ocorrem em quase todos os tratamentos
para a toxicodependência. Mas acho que alguma da sua ansiedade vem de
outro lado e foi deslocada para o George.»

Incentivado pelos acenos constantes de Susan, continuei: «Acredito


que a sua ansiedade é sobre si e não sobre o George. Está relacionada
com o facto de ter acabado de fazer sessenta anos, com a tomada de
consciência do seu processo de envelhecimento e sobre a morte.
Parece-me que, a um nível mais profundo, deve estar a colocar algumas
questões pertinentes: o que fará com o tempo que lhe resta de vida? O
que dará sentido à sua vida, especialmente agora que percebeu que o
George não se vai encarregar disso?»

O comportamento de Susan foi mudando gradualmente, da impaciência até


ao interesse intenso. «Não tenho pensado muito sobre o envelhecimento
e o facto de o tempo estar a acabar. E nunca tinha surgido nas nossas
sessões anteriores. Mas estou a perceber o que está a dizer.»

No final da hora ela olhou para mim e disse-me: «Ainda nem comecei a
perceber como as suas ideias podem ajudar-me, mas digo-lhe isto:
captou a minha atenção nestes últimos quinze minutos. Este foi o
período mais longo de tempo, nos últimos quatro dias, em que o George
não dominou por completo o meu pensamento.»

Marcámos outra sessão para a semana seguinte, bem cedo pela manhã.
Ela sabia, pelo trabalho que já tínhamos feito juntos, que as minhas
manhãs estavam reservadas para escrever e comentou que eu estava a
quebrar a minha rotina. Respondi-lhe que já andava tudo às avessas,
porque ia viajar a maior parte da semana seguinte, para estar no
casamento do meu filho.

Querendo contribuir com qualquer coisa que pudesse ser-lhe útil, à


saída acrescentei: «É o segundo casamento do meu filho, Susan, e
recordo-me de ter passado um período bastante negro aquando do seu
divórcio — é horrível sentirmo-nos impotentes como pais.

33
Por isso sei, por experiência própria, o quão mal se tem sentido. O
desejo de ajudar os nossos filhos está integrado nos nossos circuitos
internos mais básicos.»

Nas duas semanas seguintes demos muito menos importância ao George e


muito mais à sua própria vida. A ansiedade sobre o filho diminuiu
drasticamente. O terapeuta dele sugerira (e eu concordei) que seria
melhor para os dois se suspendessem o contacto durante algumas
semanas. Ela queria saber mais sobre o medo da morte e como a maioria
das pessoas lidava com ele, e eu partilhei com Susan muitos dos meus
pensamentos sobre a ansiedade de morte descritos nestas páginas. Na
quarta semana deu-me conta de ter voltado a sentir-se mais ela e
marcámos uma consulta de seguimento para umas quantas semanas mais
tarde.

Nessa sessão final, quando lhe perguntei o que a tinha ajudado mais
no nosso trabalho em conjunto, Susan fez questão de distinguir entre
as ideias que eu lhe tinha sugerido e a importância da relação de
significado que tinha comigo.

«A coisa mais valiosa», disse ela, «foi o que me contou sobre o seu
filho. Fiquei muito tocada por me ter tentado ajudar dessa maneira.
As outras coisas em que nos tínhamos centrado — a maneira como
desloquei os meus medos sobre a minha própria vida e morte para o
George — captaram definitivamente a minha atenção. Acredito que
acertou na mouche... Mas algumas ideias — por exemplo, aquelas que
adaptou de Epicuro — eram muito... hã... intelectuais e não consigo
dizer-lhe o quanto realmente me ajudaram. Contudo, não há dúvida de
que algo aconteceu nos nossos encontros que foi muito eficaz.»

A dicotomia que fez entre as ideias e conexões é o ponto fulcral (ver


Capítulo 5). Por muito que as ideias ajudem, o que lhes optimiza a
força e vitalidade é a conectividade íntima que se cria com a outra
pessoa.

Mais tarde nessa sessão, Susan fez uma declaração surpreendente sobre
as mudanças significativas que ia fazer na sua vida.

«Um dos meus maiores problemas é que estou demasiado enclausurada no


meu trabalho. Sou contabilista oficial há demasiados anos, na verdade
a maior parte da minha vida adulta, e estive a pensar como isso não
encaixa lá muito bem comigo.

34
Sou uma extrovertida numa profissão introvertida. Adoro falar com
pessoas, estabelecer ligações. E ser contabilista é demasiado
monástico. Preciso de mudar de emprego e nas últimas semanas o meu
marido e eu temos conversado muito a sério sobre o nosso futuro.
Ainda tenho tempo para outra carreira. Detestaria ficar velhinha e
olhar para trás aperceber-me de que nem sequer cheguei a tentar fazer
outra coisa.»

Acabou por me contar que ela e o marido tinham no passado e falado a


brincar sobre o sonho conjunto de comprarem um pequeno hotel perto de
Nappa Valley. Agora, subitamente, começaram a falar a sério e tinham
passado o último fim-de-semana a procurar uma casa com terreno para
adquirirem.

Mais ou menos seis meses mais tarde recebi um recado de Susan escrito
na parte de trás de uma fotografia de uma pousada encantadora em
Nappa Valley, convidando-me para que os fosse visitar. «A primeira
noite é por conta da casa!», dizia.

A história de Susan ilustra vários pontos. Primeiro, a sua ansiedade


desproporcionada. Claro que estava perturbada por o filho estar
preso. Que pais não estariam? Mas Susan reagia catastroficamente.
Ainda por cima, o filho já tinha problemas de dependência há vários
anos e já sofrera outras recaídas. Eu fiz uma suposição fundamentada
quando observei a ligadura no pescoço, a prova da sua cirurgia
plástica. Contudo, o risco de errar era pequeno visto que não há quem
com a sua idade não se preocupe com o envelhecimento. A sua cirurgia
e o «marco» dos seus sessenta anos tinham acordado muitas das
ansiedades de morte que estavam mascaradas e deslocadas para o filho.
Na nossa terapia ajudei-a a tornar consciente a verdadeira origem da
ansiedade e procurei ajudar a confrontá-la.

Susan sofreu um abanão à medida que foi percebendo o que realmente se


passava dentro de si: que o seu corpo estava a ficar velho, que o seu
filho representava o seu projecto de imortalidade e que tinha um
poder muito limitado, tanto para o ajudar como para impedir o
envelhecimento. No final de contas, a súbita consciência de que se
limitava a acumular uma montanha de arrependimentos e amarguras
levou-a a fazer mudanças radicais.

Este é o primeiro de vários exemplos que vou apresentar para


demonstrar que podemos fazer mais do que apenas reduzir a ansiedade
de morte.

35
A consciência da morte pode servir como uma experiência que desperta,
ser um catalisador importante para provocar alterações essenciais na
nossa maneira de viver.
Capítulo 3

• A EXPERIÊNCIA • DO DESPERTAR

Uma das personagens mais conhecidas da literatura é Ebenezer Scrooge,


o ambicioso, solitário e mal encarado velho de Um Conto de Natal, de
Charles Dickens. Apesar do seu passado negro, algo acontece a
Ebenezer Scrooge no final da história — uma extraordinária
transformação: a sua gélida fisionomia derrete-se e Scrooge torna-se
caloroso, generoso e ávido por ajudar os seus sócios e trabalhadores.

O que aconteceu? O que terá inflamado a transformação de Scrooge? Não


foi a sua consciência, nem o contágio da alegria natalícia. O
velhinho foi sujeito a uma forma de terapia existencial de choque ou,
como farei referência neste livro, a uma experiência do despertar. O
Fantasma do Futuro (o Espírito do Natal que Ainda Está para Vir...)
visita Scrooge e assusta-o, mostrando-lhe uma visão do seu futuro.
Scrooge observa o seu corpo abandonado, vê estranhos a leiloar os
seus pertences (até o pijama e os lençóis da cama) e escuta membros
da comunidade a discutirem a sua morte com toda a leviandade. Como se
não chegasse, o Fantasma do Futuro escolta ainda Scrooge ao
cemitério, onde este contempla a sua lápide, passa os dedos pelas
letras do seu nome e nesse momento experiencia uma transformação. Na
cena seguinte, o velhinho é já uma pessoa nova e compassiva.

37
Outros exemplos de experiências do despertar — um confronto com a
morte que enriquece a vida — abundam na grande literatura e no
cinema. Pierre, o protagonista do épico de Tolstoi, Guerra e Paz,
enfrenta uma morte por fuzilamento, acabando por ser poupado no
último momento, mas apenas depois de ter visto vários dos seus homens
serem assassinados à sua frente. Sendo uma alma perdida antes deste
acontecimento, Pierre muda completamente e passa a viver com
propósito e entusiasmo durante o resto do livro (na vida real, também
Dostoievski foi perdoado no último momento, e a sua vida, em
consequência, sofreu transformações similares).

Muito antes de Tolstoi, pensadores bem mais antigos, aliás desde o


começo da palavra escrita, têm-nos relembrado a interdependência
entre a vida e a morte. Os estóicos (por exemplo Crisipo, Zeno,
Cícero e Marco Aurélio) ensinaram-nos que aprender a viver bem é
aprender a morrer bem e que, reciprocamente, aprender a morrer bem é
aprender a viver bem. Cícero disse que «filosofar é preparar-nos para
a morte». Santo Agostinho escreveu: «É somente em face da morte que o
ser do homem nasce.» Muitos monges dos tempos medievais guardavam uma
caveira humana nas suas celas, para facilitar a concentração do
pensamento na mortalidade e nas lições que dela advêm para a conduta
no seu dia-a-dia. Montaigne, por seu lado, sugere que um escritório
deve estar sempre localizado num sítio de onde se tenha vista para um
cemitério, de modo a desafiar o intelecto. Desta maneira e de muitas
outras, grandes professores ao longo dos séculos foram recordando
que, apesar de fisicamente a morte nos destruir, a ideia da morte
salva-nos.

Vamos examinar esta ideia mais de perto. Salva-nos? Do quê? E como


pode a ideia da morte salvar-nos?

38
• A Diferença Entre «Como as Coisas São» • e «As Coisas São»

Um dilema expresso por Heidegger, o filósofo alemão do século XX,


clarifica este paradoxo. Heidegger propôs dois modos de existência: o
modo comum e o modo ontológico (de onto, «existência», com o sufixo
logoi, «conhecimento»). No seu modo comum estamos completamente
absorvidos pelo que nos rodeia e ficamos maravilhados pela forma como
as coisas são no mundo; ao passo que, no modo ontológico, colocamos
todo o enfoque e admiração no «ser» em si mesmo e maravilhamo-nos que
as coisas sejam e no facto de sermos.

Há uma diferença crucial entre como as coisas são e que as coisas


sejam. Quando absorvidos no modo comum, viramo-nos em direcção a
distracções evanescentes como a aparência física, estilo, posses ou
prestígio. No modo ontológico, por contraste, não se está somente
mais consciente da existência da mortalidade e das outras
características imutáveis da vida, como também mais ansioso e mais
disponível para enveredar por mudanças significativas. Somos
estimulados a lidar com a responsabilidade humana fundamental de
construir uma vida de empenhamento autêntico, de conexões, cheia de
significado e auto-realização.

Muitos relatos de mudanças dramáticas e duradouras, catalisadas por


um confronto com a morte, reforçam este ponto de vista. Enquanto
trabalhava intensamente, ao longo de um período de dez anos, com
doentes que enfrentavam a morte provocada pelo cancro, descobri que
muitos deles, em vez de sucumbirem ao terrível desespero, agarravam a
oportunidade, sofrendo uma transformação positiva e profunda.
Reorganizavam as suas prioridades, banalizando o trivial da vida.
Assumiam o poder que detinham de não fazerem as coisas que não tinham
vontade de fazer. Comunicavam mais intensamente com aqueles que
amavam e davam muito mais valor aos pormenores do dia-a-dia — as
mudanças das estações do ano, a beleza da Natureza, o último Natal ou
a passagem de ano.

Muitos deles deram-me conta de como o seu medo dos outros tinha
diminuído, de como sentiam mais vontade de correr riscos e de se
preocuparem muito menos com a rejeição.

39
Um dos meus pacientes comentou, com ironia, que «o cancro cura a
psiconeurose», enquanto outro confessou-me: «Que pena ter tido de
esperar até o meu corpo estar despedaçado pelo cancro para aprender a
viver...!»

• Despertar no Fim da Vida: • Ivan Ilych, de Tolstoi

Em A Morte de Ivan Ilych, de Tolstoi, o protagonista — um homem de


meia-idade, um arrogante burocrata, completamente egocêntrico —
descobre que sofre de uma doença fatal no estômago e está a morrer,
com dores insuportáveis. À medida que a morte se aproxima, Ivan Ilych
entende que durante toda a sua vida tem-se defendido da ideia de
morte, usando como escudo as suas preocupações com o prestígio, a
aparência e o dinheiro. Fica então furioso com toda a gente à sua
volta, que insiste em perpetuar a negação e a falsidade, oferecendo-
lhe esperanças vãs de cura.

Depois, após um diálogo espantoso com o lado mais profundo de si


mesmo, desperta num momento de grande clarividência para o facto de
que está a morrer mal porque viveu mal. Toda a sua vida tem sido um
erro. Ao esconder-se da morte escondeu-se também da vida. Compara a
sua existência à experiência que frequentemente tinha quando viajava
de comboio e tinha a impressão de que estava a andar para a frente,
quando na realidade recuava. Resumindo, toma consciência de ser.

Mesmo à velocidade a que a morte se aproxima, Ivan Ilych percebe que


ainda há tempo. Percebe que não é só ele que vai morrer, mas que,
como ele, também todos os outros seres vivos terão o mesmo final.
Descobre a compaixão — um sentimento que nunca experimentara antes.
Sente carinho pelos outros: para com o seu jovem filho que lhe beija
a mão; para com o criado que cuida dele com toda a naturalidade e
atenção; e até, pela primeira vez, para com sua jovem mulher. Sente
pena deles, pelo sofrimento que lhes tem infligido, e por fim morre,
mas, em lugar de sufocado pela agonia, com a alegria de uma intensa
compaixão.

40
A história de Tolstoi não é apenas uma obra-prima literária, como
também uma poderosa lição, de leitura obrigatória, para aqueles que
procuram aprender as melhores formas de oferecer conforto a quem está
às portas da morte.

Se esta consciência de ser leva a mudanças pessoais tão importantes,


então como será que se muda do modo do dia-a-dia, ou modo comum, para
um modo de estar mais estimulante da transformação? Não basta desejar
que assim seja, nem sequer sofrer em silêncio, cerrando os dentes com
mais força. Habitualmente é necessária uma experiência dramática ou
irreversível para despertar uma pessoa e levá-la a saltar para fora
do modo comum, aterrando no modo ontológico. É a isto que chamo a
experiência do despertar.

Mas onde estão as experiências do despertar, no nosso dia-a-dia, para


aqueles que não enfrentam um cancro terminal, um esquadrão de
fuzilamento ou uma visita do Fantasma do Futuro? Pelo que me diz a
experiência, os maiores catalisadores são os eventos mais dramáticos:

Sofrimento da perda de alguém amado

Doenças que ameaçam a vida.

O fim de uma relação íntima.

Algum marco importante, como um aniversário (os cinquenta, sessenta,


setenta e por diante).

Catástrofes traumáticos, como um incêndio, uma violação, um assalto.

Os filhos a sair de casa (o ninho vazio).

Perder o emprego ou uma mudança de carreira.

A reforma.

Mudar para uma casa de repouso.

Sonhos poderosos, que trazem mensagens da parte mais profunda do


nosso Eu, também podem servir como experiências do despertar.

Cada uma das próximas histórias, colhidas a partir da minha prática


clínica, ilustram diferentes formas de «despertar».

41
Todas as técnicas que utilizo com os meus pacientes são acessíveis a
qualquer um: pode modificar cada uma delas e usá-las não só para se
conhecer melhor a si mesmo como para prestar ajuda às pessoas de quem
gosta.

• Dor como Experiência do Despertar •

Dor e perda podem despertar-nos, tornando-nos mais conscientes da


nossa existência — como aconteceu com Alice, uma viúva recente que se
viu obrigada a lidar com a dor do luto e com o trauma de uma mudança
para um lar; com Júlia, cujo sofrimento, devido à morte de uma amiga,
trouxe à superfície a sua própria ansiedade de morte; ou com James,
que enterrou a dor da morte do seu irmão durante anos.

Transitoriedade para sempre: Alice

Fui o terapeuta de Alice durante muito tempo. Quanto tempo? Agarrem-


se às cadeiras os leitores mais jovens, que só ouviram falar do
modelo de terapia breve. Trabalhei com ela durante trinta anos!

Não foram trinta anos consecutivos (embora queira deixar expresso que
algumas pessoas precisam mesmo desse apoio constante). A Alice — que,
em parceria com o seu marido, Albert, era proprietária de uma loja de
instrumentos musicais — telefonou-me pela primeira vez aos cinquenta
anos, devido a um conflito crescente com o filho, a que se somavam
confrontos com alguns amigos e clientes. A partir daí encontrámo-nos
em terapia individual durante dois anos e depois em terapia de grupo
durante outros três. Apesar de ter melhorado consideravelmente,
voltou a estar comigo várias vezes nos vinte e cinco anos seguintes
para lidar com situações de crise pontuais. A minha última sessão com
ela aconteceu quando a visitei em casa, já acamada, pouco tempo antes
da sua morte, tinha ela oitenta e quatro anos.

42
Alice ensinou-me muito, especialmente sobre as fases de maior stresse
por que todos passamos na segunda metade da vida.

Este último episódio ocorreu durante a última fase da terapia, que se


iniciou quando Alice tinha setenta e cinco anos e que se prolongou
pelos quatro anos seguintes. Telefonou a pedir-me ajuda quando o
marido foi diagnosticado com a doença de Alzheimer. Precisava de
apoio — há poucas coisas mais terríveis do que testemunhar a gradual
e cruel deterioração da mente de um parceiro de toda a vida.

Alice sofreu enquanto o seu marido passava por todas as etapas:


primeiro a perda radical de memória a curto prazo, com chaves e malas
perdidas; depois, o esquecimento de onde tinha deixado o carro,
obrigando-a a procurar o veículo pela cidade inteira; depois a fase
em que deixou de saber quem era e onde vivia, chegando a ser preciso
a polícia escoltá-lo a casa; de seguida, a deterioração da sua
higiene pessoal, com uma passagem drástica à alienação do mundo e da
mulher, acompanhada por uma ausência total de empatia. O horror final
chegou quando o seu marido de mais de cinquenta anos deixou de a
reconhecer.

Após a morte de Albert virámos as nossas atenções para o luto e


particularmente para a tensão que Alice sentia entre a dor e o alívio
— a dor por ter perdido Albert, que conhecia e amava desde que eram
adolescentes, e alivio por se ter libertado do trabalho, duríssimo e
a tempo inteiro, que implicava tomar conta do estranho em que Albert
se tinha tornado.

Dias depois do funeral, quando os seus amigos e familiares já tinham


voltado às suas vidas preenchidas e Alice teve de enfrentar uma casa
vazia, um novo medo surgiu: começou a ficar aterrorizada com a ideia
de que alguém poderia assaltar a casa durante a noite e fazer-lhe
mal. Exteriormente nada tinha mudado — o seu bairro de classe média
era tão estável e seguro como sempre fora. Tinha vizinhos que eram
muito mais do que simples conhecidos, um deles até era polícia.
Talvez Alice se tenha sentido desprotegida pela ausência do marido.
Apesar de racionalmente saber perfeitamente que ele estava há anos
fisicamente incapaz de a defender, a verdade é que a sua simples
presença continuava a dar-lhe um sentimento de protecção. Mas, certo
dia, foi um sonho que veio permitir-lhe compreender a origem do seu
terror.

43
Estou sentada à beira de uma piscina com as pernas dentro de água e
começo a sentir-me esquisita, porque há folhas grandes que vêm na
minha direcção por baixo da água. Consigo senti-las a roçar nas
minhas pernas — ugh-hh... só pensar nelas me arrepia. São pretas,
grandes e ovais. Tento mover os meus pés para criar ondas que as
empurrem para trás, mas estão presos por sacos de areia. Ou talvez
sejam sacos de cal.

«Foi aí que entrei em pânico. Acordei aos gritos. Durante horas


procurei não adormecer para não voltar ao sonho», contou-me ela. Uma
das associações iluminou o seu significado. «Sacos de cal? O que será
que significarão?», perguntei.

«Enterro», respondeu-me. «Não era cal que lançavam para dentro das
valas comuns no Iraque? E também em Londres, durante a peste negra?»

Tornava-se claro que o estranho que receava que lhe entrasse em casa
era a morte. A sua morte. A ausência do marido tinha-a deixado
exposta à sua própria morte.

«Se ele pode morrer», disse-me ela, «então eu também posso. Também eu
vou partir.»

Vários meses após a morte do marido, Alice decidiu mudar-se daquela


que era a sua casa há mais de quarenta anos, para um lar que oferecia
ajuda médica e a assistência de que necessitava para manter sob
vigilância a sua hipertensão grave e a perda progressiva da visão,
provocada por uma degeneração macular.

Tomada a decisão, ficou progressivamente preocupada com o destino que


ia dar aos seus bens. Não existia mais nada na sua mente. Mudar-se de
uma casa grande e cheia de mobília, para não falar na colecção de
instrumentos antigos, para um pequeno apartamento obrigava-a a
desfazer-se de grande parte das suas coisas. O seu único filho, um
viajante que trabalhava na Dinamarca e vivia num apartamento
minúsculo, não tinha espaço para as coisas da mãe. De todas as
escolhas penosas que teve de fazer, a mais difícil foi decidir que
destino dar aos instrumentos musicais que ela e Albert haviam
coleccionado juntos. Frequentemente, na quietude e solidão do seu
dia-a-dia, conseguia ouvir uns acordes-fantasmas do seu avô a tocar
Paolo Testore num violoncelo de 1751, ou do marido a dedilhar a harpa
inglesa, datada de 1775, que adorava.

44
Havia ainda a concertina e o gira-discos que os seus pais lhes tinham
oferecido como presente de casamento.

Cada item em sua casa era um poço de memórias, cuja propriedade lhe
estava agora entregue. Confidenciou-me que a angustiava a certeza de
que todas aquelas coisas iam ser dispersas por estranhos que nunca
conheceriam a sua verdadeira história, para não falar no facto de ser
impossível que gostassem delas tanto como ela. Estava também
consciente de que eventualmente a sua própria morte iria finalmente
apagar todas as memórias fabulosas associadas à harpa, ao violoncelo,
às flautas, aos assobios e a tudo o resto. O seu passado desvanecer-
se-ia.

O dia da mudança de Alice aproximava-se de forma cada vez mais


ameaçadora. Peça a peça, a mobília e os bens que não podia guardar
desapareceram — vendidos ou oferecidos a amigos ou a estranhos.
Enquanto a casa ficava cada vez mais vazia, o pânico provocado pela
mudança aumentava.

Particularmente chocante foi o seu último dia em casa. Como os novos


donos propunham levar a cabo remodelações profundas, tinham insistido
em que o espaço ficasse totalmente vazio. Enquanto Alice olhava para
as estantes a serem arrancadas da parede, sentiu um choque: a tinta
escondida pelo armário era de um azul berrante. Azul!! De repente
Alice lembrou-se claramente daquele exacto tom de azul: quarenta anos
antes, quando se tinha mudado para aquela casa, as paredes eram
azuis. Pela primeira vez em todo esse tempo voltou a recordar-se da
fisionomia da mulher que lhe tinha vendido a moradia, a cara
angustiada da viúva triste que, como ela, também sofria por deixar o
sítio onde habitara durante anos. Agora era Alice a viúva, também
triste, a sentir exactamente o mesmo desespero, e pela mesma razão.

A vida é como uma procissão que vai passando, indiferente a quem olha
de fora, disse a si mesma. Claro que soubera sempre que tudo era
efémero. Não tinha ela participado numa semana de meditação, onde a
palavra na língua pali para transiência era anicca, cantada
interminavelmente? Mas nisto, como em todas as coisas, há uma enorme
diferença entre teoria e experiência própria.

Agora Alice dava-se conta de que a sua vida também era transitória e
a passagem por aquela casa igual à de tantas outras pessoas, antes e
depois dela.

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A casa também era transiente e um dia desapareceria para dar lugar a
outra casa ou, quem sabe, a um prédio de vários andares. O processo
de abdicar das suas posses e de se mudar funcionou como uma
experiência do despertar para Alice, que se camuflara com aquela
ilusão quente e confortável de uma vida ricamente mobilada e
atapetada. Aprendera, à sua custa, que essa realidade almofadada
tinha-a protegido da rudeza da existência.

Na sessão seguinte li-lhe alto uma passagem relevante de Anna


Karenina, de Tolstoi, em que o marido de Anna, Alexey Alexandrovitch,
toma consciência de que a sua mulher, Anna, vai mesmo deixá-lo:
«Alexey experimenta agora um sentimento parecido com o de um homem
que, enquanto atravessa calmamente uma ponte, de repente percebe que
está partida e que por baixo dos seus pés só existe um abismo. Esse
abismo é a vida real e a ponte a vida artificial em que Alexey
Alexandrovitch se fechara.»

Alice também olhou o nada, lá em baixo, de cima de um andaime


instável. A citação do Tolstoi ajudou-a, em parte porque afinal
aquilo que sentia já tinha nome e daí retirava algum conforto e
também porque suscitava implicações na nossa relação — afinal, a
minha dedicação levara-me a perder tempo à procura da citação que
poderia aliviar a sua dor, e ainda por cima continha, e ela sabia-o,
um dos meus excertos favoritos de Tolstoi.

A história de Alice introduz várias ideias que voltarão a surgir


noutras partes do livro. A morte do marido provocou o aparecimento da
sua própria ansiedade de morte. Primeiro foi exteriorizada sob a
forma do medo de um assaltante; depois tornou-se num pesadelo; e
finalmente, mais abertamente, no trabalho do luto com a consciência
de que «se ele pode morrer, eu também posso». Todas estas
experiências, a que se somou o facto de perder muitas das suas
preciosas memórias e magníficos bens, levaram-na a mergulhar no modo
ontológico, que acabou por a conduzir a mudanças pessoais
significativas.

Os pais de Alice há muito tinham morrido e o desaparecimento do seu


parceiro obrigou-a a este confronto com a sua própria fragilidade.
Agora já não havia alguém entre ela e a campa. Mas esta experiência
não é, de modo algum, fora do comum. Como enfatizarei várias vezes
nestas páginas, um sintoma habitual do luto, mas que frequentemente
passa despercebido, é o do confronto do sobrevivente com a sua
própria morte.

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Um final inesperado. Quando chegou ao momento de partir
definitivamente, preparei-me: estava preocupado com a possibilidade
de Alice poder ser profunda e irreversivelmente conquistada pelo
desespero. Contudo, dois dias após a mudança entrou no meu
consultório com um ar muito mais leve, quase alegre, sentou-se e
deixou-me estupefacto com a sua primeira frase.

«Estou feliz!», disse ela.

Conhecia-a há anos e Alice nunca tinha começado uma sessão dessa


maneira. Quais seriam as razões daquela euforia? (ensino sempre aos
meus alunos que compreender os factores que fazem com que o cliente
se sinta melhor é tão importante como entender aqueles que os fazem
sentir-se pior.)

A sua felicidade residia no passado distante. Alice crescera num


orfanato e sempre partilhara um quarto com outras crianças; depois
casara novíssima, mudara-se para casa do marido e durante toda a sua
vida tinha desejado um quarto só para si. Quando adolescente fora
profundamente tocada por Um Quarto só Nosso, de Virgínia Woolf. O que
agora a deixava feliz, confessou-me, é que finalmente, aos oitenta
anos, recebia um quarto só para si.

Mais do que isso, também sentia que lhe tinha sido dada uma
inesperada oportunidade de repetir uma etapa da sua vida — de
solteira, de viver sozinha, só ela — e, desta vez, acertar em tudo:
podia permitir-se, finalmente, a ser livre e autónoma. Só alguém que
a conhecesse intimamente, e conhecesse bem o seu passado e as suas
frustrações infantis, pode compreender este final, em que o
inconsciente histórico-pessoal vence as preocupações existenciais.

Outro factor importante para a sua recuperação foi exactamente esse


sentimento de libertação. Deixar para trás toda a mobília, embora
representasse uma grande perda, era igualmente um imenso alívio. As
suas muitas posses eram preciosas, mas a verdade é que arrastavam
consigo o peso de tantas e tantas memórias, pelo que deixá-las era
como sair de um casulo; livre dos fantasmas e dos destroços do
passado, tinha agora um quarto novo, uma nova pele, uma oportunidade
de outro começo. Aos oitenta anos possuía uma nova vida pela frente.

47
Ansiedade de morte disfarçada: Júlia

Júlia é uma terapeuta inglesa de quarenta e nove anos, que agora vive
em Massachusetts, que me solicitou uma consulta enquanto esteve duas
semanas na Califórnia. Procurava ajuda para resolver um problema que,
até ali, tinha resistido a prévias terapias.

Após a morte de uma amiga muito próxima, que já acontecera dois anos
antes, Júlia continuava incapaz de superar a sua perda, tendo
desenvolvido uma série de sintomas que interferiam seriamente na sua
felicidade. Tornara-se gravemente hipocondríaca: qualquer dor no
corpo deixava-a nervosa e precipitava-se imediatamente a ligar para o
médico. Mais do que isso, sentia-se demasiado receosa para continuar
muitas das actividades que até aí fazia alegremente — patinagem no
gelo, esqui, mergulho — ou, na realidade, qualquer coisa que lhe
parecesse acarretar o mais ligeiro risco. Até se sentia
desconfortável a conduzir e recorria a um Valium antes de se meter
num avião. Parecia óbvio que a morte da sua amiga tinha despoletado a
sua ansiedade de morte.

Investigando o historial das suas ideias acerca da morte, e


aprofundando com ela, de um modo muito directo, as suas convicções
sobre a vida, percebi que, como para muito de nós, Júlia encontrara a
morte pela primeira vez, ainda enquanto criança, quando descobriu
pássaros e insectos mortos, mas sobretudo com o enterro dos avós. Não
tinha memória da primeira vez que tomara consciência da
inevitabilidade da sua própria morte, mas lembrava-se de que durante
a adolescência se tinha permitido, por uma ou duas vezes, pensar
sobre ela: «Era como ter um alçapão que podia abrir-se de repente por
baixo dos meus pés, deixando-me cair para sempre na escuridão. Acho
que decidi nunca mais lá voltar.»

«Júlia», disse-lhe, «deixe-me colocar-lhe uma pergunta muito simples:


porque a morte é tão aterrorizadora? O que especificamente a assusta
na morte?»

Júlia respondeu de chofre:

«Por tudo o que não terei feito!»

«Como assim?»

«Para que entenda vou precisar de contar-lhe um pouco mais sobre a


minha história como artista. A minha primeira identidade era a de
artista. Toda a gente, todos os meus professores, dizia-me que
possuía um enorme talento.

48
Mas apesar de me ter tornado bastante conhecida durante a juventude,
quando decidi seguir psicologia pus a arte de lado.»

Corrigiu-se imediatamente: «Não, não é bem assim. Não parei


completamente. Frequentemente começo a desenhar ou a pintar, mas
nunca acabo. Começo e depois arrumo numa gaveta, que aliás, tal como
o meu armário, está cheia de trabalhos por terminar.»

«Mas porquê? Se ama a pintura e começa os projectos, o que a impede


de os acabar?»

«Dinheiro. Sou uma pessoa muito ocupada e tenho um trabalho muito


preenchido com a prática terapêutica.»

«Quanto ganha? De quanto precisa para viver bem?»

«Pois, a maior parte das pessoas consideraria que é bastante, mais do


que suficiente. Vejo doentes pelo menos quarenta horas por semana, às
vezes mais. Mas tenho de pagar as propinas exorbitantes das escolas
privadas dos meus dois filhos.»

«E o seu marido? Disse-me que também era terapeuta. Trabalha tanto e


ganha tanto como a Júlia?»

«Vê a mesma quantidade de doentes, às vezes mais, e ganha mais —


muitas das suas horas são empregues em testes neuropsicológicos, que
são caros.»

«Dá-me ideia de que, entre os dois, têm mais dinheiro do que


precisam. Contudo, diz-me que é o dinheiro que a impede de prosseguir
a sua arte?»

«Bem, é o dinheiro, mas de uma maneira estranha. O meu marido e eu


fomos sempre muito competitivos, constantemente a comparar quem
conseguia fazer mais dinheiro. Não é abertamente, nem é bem uma
corrida, mas sei que temos essa guerra sempre presente.»

«Bem, deixe-me colocar-lhe uma outra pergunta. Vamos supor que uma
cliente entra no seu consultório e lhe diz que era a feliz detentora
de um enorme talento e que precisava de se exprimir criativamente,
mas que não podia fazê-lo porque estava a competir com o marido, para
ver quem ganha mais dinheiro — dinheiro de que nenhum precisa. O que
lhe diria?»

Ainda consigo ouvir a resposta de Júlia, com o seu sotaque britânico,


que lhe saiu de imediato: «Dizia-lhe que estava a viver uma vida
completamente absurda!»

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A resposta estava dada. Na terapia, Júlia procurava ajuda para
encontrar uma forma de ter uma vida menos absurda. Explorámos a razão
de ser da competitividade na sua relação matrimonial e o significado
de todos os quadros meio acabados, fechados nas suas gavetas e
armários. Considerámos, por exemplo, se ao procurar um destino
alternativo estava a tentar combater a ideia de um caminho directo do
nascimento até à morte. Ou se, pelo contrário, retirava benefícios
secundários do facto de não terminar os trabalhos artísticos, porque
assim não era obrigada a testar os limites do seu talento. Talvez
estivesse a querer alimentar a ilusão de que podia ter feito grandes
coisas se o tivesse desejado, que poderia ser uma artista de renome,
se assim o quisesse. Talvez nenhuma das suas peças chegasse ao nível
que exigia de si própria, e assim evitava ter de concluir isso
mesmo...

Júlia ficou especialmente pensativa com esta última sugestão.


Interiormente estava insatisfeita consigo própria e regia-se por uma
máxima que tinha lido no quadro da escola, quando tinha apenas oito
anos, mas que memorizara como regra de vida:

Bom, melhor, excelente

Nunca, nunca desistas

Até o bom se tornar melhor

E o melhor, excelente.

A história de Júlia é outro exemplo da forma como a ansiedade de


morte se manifesta disfarçadamente. Júlia chegou à terapia com uma
vasta lista de sintomas que eram apenas um disfarce para a ansiedade
de morte. Além disso, como no caso de Alice, os sintomas surgiram
depois da morte de alguém chegado, um evento que serviu como uma
experiência do despertar. A terapia progrediu rapidamente: em apenas
algumas sessões, a sua tristeza e o seu comportamento medroso foram
resolvidos e começou a lutar abertamente contra os impulsos que a
levavam a uma existência indesejada.

«O que realmente lhe causa medo na morte?» é uma pergunta que faço
frequentemente aos meus clientes, provocando respostas variadas que
geralmente aceleram o trabalho da terapia. A resposta da Júlia, «
Todas as coisas que não terei feito», aponta para um tema de grande
importância para muitos que ponderam ou enfrentam a morte: a
correlação positiva entre o medo de morrer e a sensação de uma vida
não vivida.
50
Por outras palavras, quanto menos vivida é uma vida, maior a
ansiedade de morte. Quanto mais alguém sente que falha os seus
sonhos, mais medo terá da morte. Nietzsche expressava esta ideia em
dois pequenos epigramas: «Realize a sua vida» e «Morra na Altura
Certa» — tal como Zorba, o Grego quando dizia «À morte, não deixem
mais do que um castelo queimado» e Sartre, na sua autobiografia: «Ia
silenciosamente para o meu fim... certo de que a última batida do meu
coração estaria inscrita na última página do meu trabalho, e que a
morte só estaria a levar com ela um homem morto.»

A sombra da morte de um irmão: James

James, que aos quarenta e seis anos trabalhava num escritório de


advocacia como auxiliar, chegou à terapia por inúmeras razões:
detestava o seu trabalho, sentia-se irrequieto, sem estabilidade,
bebia excessivamente e não tinha qualquer ligação íntima, à parte uma
turbulenta relação com a mulher. Na nossa primeira sessão não
consegui discernir, entre uma pletora de problemas — interpessoais,
ocupacionais, maritais e de dependência alcoólica —, qualquer
preocupação com questões existenciais como a mortalidade.

Contudo, pouco depois, questões mais profundas começaram a surgir.


Primeiro notei que, sempre que tentava explorar o seu isolamento em
relação aos outros, acabávamos no mesmo ponto: a morte do seu irmão
Eduardo. Ele tinha morrido num acidente de automóvel, aos dezoito
anos, e nessa altura James acabara de completar dezasseis. Dois anos
mais tarde James deixou o México, onde a família vivia, para
frequentar uma universidade nos Estados Unidos e desde então visitava
a sua terra de origem apenas uma vez por ano: apanhava um avião para
Oaxaca, em Novembro, em memória do seu irmão, para ali celebrar o Dia
dos Defuntos, o Dia de los Muertos.

Um outro pormenor chamou a minha atenção, porque se repetia em todas


as sessões: o tema da nossa origem e do nosso fim. James era fanático

pela escatologia, que se preocupa com o fim do mundo, e o seu livro


favorito, que praticamente memorizara, era o Livro da Revelação.

51
A origem do mundo também o fascinava, particularmente os textos da
antiga Suméria, que do seu ponto de vista diziam que a Humanidade
tinha origem nos extraterrestres.

Eu sentia as maiores dificuldades em lidar com estes assuntos. Antes


de mais, não conseguia ter acesso ao sofrimento que James sentia pelo
seu irmão — a sua resposta emocional à morte de Eduardo estava
envolta em amnésia. O enterro? James só se lembrava de uma coisa: era
a única pessoa que não chorava. Reagiu à morte como se estivesse a
ler a notícia no jornal e tudo se passasse com uma outra família que
não a dele. Mesmo na missa dos defuntos tinha a impressão de que o
seu corpo estava presente, mas não a sua mente nem o seu espírito.

Ansiedade de morte? Não era assunto para James, que dizia que não
achava a morte ameaçadora. De facto, considerava-a um evento positivo
e encarava-o com prazer, sabendo que o levaria a reunir-se com a sua
família.

Explorei as suas crenças paranormais de vários ângulos, tentando


sempre não revelar o meu extremo cepticismo ou acordar as suas
defesas. A minha estratégia era evitar o conteúdo (por exemplo, os
argumentos a favor ou contra os relatos de extraterrestres, ou de
OVNI) e concentrar-me em apenas duas coisas: o significado
psicológico daquele seu interesse e a sua epistemologia — ou seja, a
descoberta de como ele sabia o que sabia (que fontes usava e o que
constituía, para ele, «provas suficientes»).

Pensava alto porque é que James, apesar de uma educação excelente,


numa universidade reputada, optava por ignorar os métodos de
investigação académicos nesta matéria. Que compensação recebia ao
abraçar o esoterismo e essas crenças sobrenaturais? Ideias que, a meu
ver, só lhe faziam mal, porque aumentavam o seu isolamento, já que
ainda por cima não tinha a coragem de partilhá-las com os seus
amigos, com receio de que pudessem rotulá-lo de bizarro.

Todos os meus esforços tiveram pouco ou nenhum efeito e a terapia


rapidamente estagnou. James estava irrequieto durante as nossas
sessões e impaciente com a terapia, iniciando habitualmente cada uma
com comentários irónicos do género: «Quanto tempo mais é que esta
terapia vai durar, doutor?» ou «Será que este vai ser um daqueles
casos que mantêm a caixa registadora a tilintar?»

52
Mas, finalmente, numa das sessões contou-me um sonho poderoso que
mudou tudo. Apesar de já o ter sonhado vários dias antes da sessão,
mantinha-se presente na sua cabeça com uma lucidez sobrenatural:

Estou num funeral. Alguém está deitado na mesa. O padre fala sobre
técnicas de embalsamamento. As pessoas passam em fila pelo corpo, eu
estou aí e sei que o corpo foi muito retocado. Avanço. O meu olhar
vai primeiro para os pés, depois para as pernas, e os meus olhos
seguem o corpo inteiro. A mão direita está ligada. De repente reparo
na cara e compreendo que é o meu irmão, o Eduardo. Engasgo-me e
começo a chorar. Os meus sentimentos estão divididos: primeiro
tristeza e depois consolo, porque a cara dele está perfeita e tem um
bronzeado fantástico. «O Eduardo está com boa cara», penso. E, quando
chego ao nível dos seus ouvidos, debruço-me e murmuro: «Estás com bom
aspecto, Eduardo.» Depois volto para o meu lugar ao lado da minha
irmã, viro-me para ela e digo-lhe: «Ele está bonito!» No fim do sonho
sento-me sozinho no quarto do Eduardo e começo a ler o seu livro
sobre avistamentos de OVNI em Roswell.

Apesar de James não fazer qualquer associação espontânea pedi-lhe


para fazer associações livres com as imagens. «Olhe para a imagem que
persiste na sua mente e tente pensar alto. Descreva os pensamentos
que flutuam na sua cabeça. Tente não omitir ou censurar nada, até
coisas que podem parecer tontas ou irrelevantes», insisti com
entusiasmo.

«Vejo um tórax com tubos a entrar e a sair. Vejo um corpo deitado


numa poça de um líquido amarelo — provavelmente líquido de
embalsamar. Não vejo mais nada.»

«Quando o Eduardo morreu de facto, chegou a ver o seu corpo no


funeral?», perguntei.

«Não me lembro, mas acho que foi de caixão fechado porque o Eduardo
estava muito mutilado pelo acidente.»

«James, percebo na sua cara tanta tristeza, tantas expressões


diferentes quando pensa sobre este sonho...»

«É uma experiência estranha. Por um lado sinto que não quero ir mais
longe e a minha concentração parece fugir. Mas, por outro, sou
atraído pelo sonho. Tem muito poder sobre mim.»

53
Senti que o sonho era tão importante que pressionei-o ainda mais.

«O que pensa sobre o facto de ter dito "O Eduardo está bonito"?
Repetiu isto três vezes.»

«Bem, ele realmente estava bonito. Bronzeado, saudável.»

«Mas, James, ele estava morto. O que quererá dizer se uma pessoa que
está morta tem um ar saudável?»

«Não sei. O que acha?»

«Eu acho», respondi-lhe, «que o facto de ele estar bonito e com um ar


saudável era um reflexo do quanto queria que ele ainda estivesse
vivo.»

«Os meus neurónios dizem-me que tem razão. Mas as palavras são só
palavras. Posso pensá-lo, mas nada sinto.»

«Perder um irmão assim, aos dezasseis anos, mutilado num acidente,


acho que foi o suficiente para o marcar para a vida. Talvez seja
tempo de começar a sentir simpatia por aquele rapazinho de dezasseis
anos.»

James abanou a cabeça devagarinho.

«Parece-me angustiado, James. Está a pensar em quê?»

«Estou a lembrar-me do telefonema, quando ligaram para contar à minha


mãe o que tinha acontecido ao Eduardo. Escutei por um momento,
sabendo que algo não estava nada bem, mas continuei a andar até ao
quarto e fechei a porta. Acho que não queria ouvir nada daquilo.»

«Não escutar e não ouvir é o que tem feito com a sua dor. A sua
negação, beber, essa irrequietude — já nada disso funciona como
analgésico. A dor esta lá; quando lhe dá com a porta na cara ela vai
bater na seguinte e volta a tentar entrar — desta vez entrou num
sonho.»

Enquanto James abanava a cabeça, acrescentei: «E o fim do sonho,


aquele livro sobre OVNI e Roswell?»

James expirou ruidosamente e fixou os olhos no tecto. «Eu sabia. Eu


sabia que ia-me fazer essa pergunta!»

«É o seu sonho, James! Você é que o criou, foi você que pôs Roswell e
os Ovni dentro dele. Que ligação têm com a morte? O que lhe vem à
cabeça?»

«É difícil admitir-lhe isto, mas descobri mesmo esse livro na


prateleira do meu irmão e li-o depois do funeral. Não consigo
explicar bem, mas é algo assim: se pudesse descobrir exactamente de
onde viemos — e talvez seja dos extraterrestres e dos OVNI —, então
viveria uma vida melhor. Saberia porque fomos postos nesta Terra.»

54
Tinha a impressão de que estava a tentar manter o seu irmão vivo, ao
habitar o seu sistema de crenças, mas duvidei que esse pensamento lhe
fosse útil, por isso calei-me.

Este sonho e a nossa conversa à volta dele assinalaram uma mudança na


terapia. James começou a encarar a vida e a terapia muito mais
seriamente e a nossa aliança terapêutica ganhou em força. Não ouvi
mais queixas sobre a máquina registadora, nem mais perguntas sobre
quanto tempo ia demorar a terapia ou se já estava curado. James sabia
agora que a morte tinha marcado profundamente a sua juventude, que o
seu sofrimento pelo irmão tinha influenciado muitas das suas decisões
importantes, e até que a sua dor intensa o desencorajara de se
examinar a si mesmo e à sua própria mortalidade.

Apesar de nunca ter perdido o seu interesse pelo paranormal,


transformou-se imenso: de um dia para o outro deixou completamente de
beber (sem qualquer programa de reabilitação), melhorou
extraordinariamente a sua relação com a mulher, despediu-se do
emprego e fundou uma empresa de treino de cães-guias para cegos — uma
profissão que lhe oferecia sentido para a vida, dando-lhe a certeza
de ser útil aos outros.

• Uma Opção de Fundo • como Experiência do Despertar

Decisões muito importantes têm frequentemente raízes profundas. Cada


escolha envolve uma renúncia e cada renúncia torna-nos mais cientes
das limitações e da temporalidade.

Preso e imóvel: Pat

Pat, uma corretora de valores, divorciada há quatro anos, procurou


terapia porque tinha dificuldade em estabelecer uma nova relação.

55
Já a tinha visto cinco anos antes, durante apenas uns meses, quando
decidira terminar o seu casamento. Agora contactava-me de novo porque
conhecera, finalmente, um homem muito atraente, Sam, que pela
primeira vez a interessava, mas que desencadeava nela uma tempestade
de ansiedade.

Pat disse-me que se sentia apanhada num paradoxo: amava Sam, mas a
ideia de continuar a namorar com ele era insuportável. A gota final
que a levou a telefonar-me foi um convite para uma festa onde iriam
estar muitos dos seus amigos e amigas mais chegados e ainda gente do
emprego. Deveria ela ou não levar Sam como acompanhante oficial? O
dilema agigantava-se de tal forma que, a certa altura, estava
obcecada pelo assunto e não conseguia pensar em mais nada.

Mas porquê tanto tumulto? Na nossa primeira sessão, após ter tentado,
sem sucesso, ajudá-la a analisar comigo o significado do seu
desconforto, procurei uma abordagem indirecta e sugeri uma fantasia
guiada.

«Pat, experimente isto, acho que a vai ajudar. Quero que feche os
olhos e imagine o Sam a chegar à festa. Entra na sala de mão dada com
ele. Muitos dos seus amigos olham para si, acenam e começam a andar
na sua direcção.» Parei por segundos e retomei o meu monólogo:
«Consegue ver tudo isto dentro da sua cabeça?»

Ela acenou que sim.

«Agora continue a olhar para a cena e deixe os seus sentimentos


emergir. Mergulhe dentro de si e conte-me tudo o que sente. Tente
soltar-se. Diga tudo o que lhe vem à cabeça.»

«Ui, a festa. Não gosto.» A sua expressão contorceu-se. «Largo a mão


do Sam. Não quero ser vista com ele.»

«Continue. Por que não?»

«Não sei porquê! Ele é mais velho do que eu, mas só dois anos. E é
incrivelmente bonito. Trabalha como relações públicas e sabe
perfeitamente como agir socialmente. Mas eu ou, melhor, nós seríamos
imediatamente rotulados como casal. Um casal mais velho. Estaria
presa. Limitada. Era como se dissesse que não a todos os outros
homens. "Comprometida" e "apanhada" — e abriu os olhos de repente — é
espantoso, nunca tinha pensado que uma coisa implicava a outra. Como
quando andamos na universidade e usamos o pin da faculdade de um
rapaz.

56
No fundo estamos a dizer ao mundo que estamos presos, que estamos
alfinetados ao crachat, mas também àquela pessoa.»

«Que maneira tão inteligente de ilustrar o seu dilema, Pat. Mais


sentimentos?»

Pat fechou de novo os olhos e voltou a entrar na sua fantasia: «Toda


a confusão ligada ao meu casamento começa a aparecer. Sinto-me
culpada por ter estragado o meu casamento. Sei, até porque então
falámos sobre isso, que não o destruí — trabalhámos muito nessa culpa
— mas parece-me que o raio dessa ideia está de novo a rastejar para
dentro de mim. O meu casamento falhado foi o meu primeiro grande
fracasso na vida — até aí estava sempre tudo a "subir"... Mas,
pronto, sei perfeitamente que o casamento acabou. Acabou já há anos.
Mas o que começo a perceber é que é só no momento de escolher
realmente outro homem que o meu divórcio se torna real. Significa que
não posso mesmo voltar atrás — nunca. Pertence ao passado. É
irreversível... um tempo que se esfumou. Sim, sabia tudo isto mas não
era um saber como o que agora sinto, não era saber como sei agora.»

A história de Pat revela bem a relação entre a liberdade e a


mortalidade. Decisões difíceis têm, muitas vezes, raízes compridas
que chegam ao «canteiro» das nossas preocupações existenciais e à
responsabilidade pessoal que temos em tudo o que nos acontece. Vamos
examinar por que razão a decisão de Pat lhe provocava tanta agonia.

Logo à partida porque implicava renúncia. Cada sim envolve um não.


Uma vez que fosse «colada» a Sam, outras possibilidades — um homem
mais jovem, talvez melhor — estão excluídas. Como ela dizia, não só
ia estar presa ao Sam como ao chão, agarrada. Estaria a recusar
outras oportunidades. O estreitamento de possibilidades tem um lado
negro: quanto mais opções se fecham, mais a vida parece pequena,
curta e sem vitalidade.

Heidegger uma vez definiu a morte como sendo «a impossibilidade de


mais possibilidades». Por isso a ansiedade de Pat — ostensivamente
acerca de uma coisa superficial, sobre a decisão de levar, ou não, um
homem a uma festa — ia beber o seu poder ao poço sem fundo da sua
ansiedade de morte. Serviu como uma experiência do despertar: o facto
de nos termos concentrado no sentido profundo da sua decisão tornou
incrivelmente mais eficiente o nosso trabalho.

57
A análise da responsabilidade e da culpa pelo seu casamento levou-a a
incorporar a consciência de que era impossível voltar à juventude.
Pat referiu que a sua vida parecia, até àquele momento, estar sempre
a subir, mas entendia agora que o divórcio era realmente
irreversível. Ao fim de um tempo conseguiu deixar para trás o que
estava para trás, aceitou aquilo que eventualmente tivera de perder
para chegar até ali e foi capaz de assumir um compromisso com Sam.

A ilusão de Pat de que estamos sempre a crescer, a progredir e a


mover-nos numa direcção ascendente é muito comum. Tem sido
extremamente reforçada pelo conceito ocidental de progresso,
fundamentado no Iluminismo e intensificado pelo imperativo americano
que ordena que estejamos sempre a «subir na vida». Claro que o
progresso é uma mera construção — há outras maneiras de
conceptualizar a História. Na antiga Grécia, os Gregos não
subscreviam a ideia de progresso; pelo contrário, olhavam para o
passado em direcção à Idade de Ouro, que parecia brilhar ainda com
mais luz à medida que os séculos passavam. A súbita tomada de
consciência de que o progresso é apenas um mito pode fazer-nos dar um
salto no lugar, como aconteceu com a Pat, mas de facto obriga a dar a
volta às nossas ideias e crenças.

• Os Marcos da Vida • como Experiência do Despertar

Outras instâncias do despertar — simultaneamente mais habituais e


mais subtis — estão associadas a marcos da vida como reuniões de
antigos alunos de escola ou da universidade, aniversários, planos
para uma nova casa, escrever um testamento e aniversários com mais
dígitos, tal como os cinquenta e os sessenta.

58
Reuniões de antigos alunos

Os reencontros com antigos colegas, particularmente depois de vinte e


cinco anos, são experiências potencialmente ricas. Nada torna o ciclo
de vida mais palpável do que ver os nossos amigos já crescidos e até
envelhecidos. Confrontar a lista daqueles que já morreram é então uma
experiência ainda mais poderosa, que nos faz assentar os pés bem na
terra e que pode servir como uma daquelas chamadas do serviço de
despertar. Nalguns encontros até fornecem fotografias das nossas
caras enquanto jovens, para se pendurar ao peito, e os participantes
circulam em redor de uma sala a comparar as fotos e as caras,
tentando encontrar o jovem, de olhos inocentes, na máscara de rugas
que têm agora à sua frente. E quem consegue resistir a pensar: «Tão
velhos, estão todos tão velhos! O que estou eu a fazer neste grupo?
Como será que lhes pareço a eles?» Para mim, estes encontros
funcionam como se finalmente estivesse a saber o final de histórias
que comecei a ler há trinta, quarenta e até cinquenta anos. Quem
andou connosco na escola partilha uma história comum, um sentido de
intimidade profunda. Conheceram-nos quando éramos jovem, miúdos
mesmo, antes de termos desenvolvido a nossa personalidade adulta.
Talvez seja esta a razão pela qual os encontros originam um número
surpreendente de novos casamentos. Velhos colegas sentem-se seguros
um com o outro, velhos amores são alimentados, todos são membros de
uma peça que se iniciou há muito, muito tempo, num pano de fundo de
esperança ilimitada. Encorajo os meus pacientes a irem a estas
confraternizações e a manterem um diário do que sentem nesses
momentos.

Fazer um testamento

Redigir um testamento obriga, evidentemente, a pensar na morte, a


fazer uma avaliação do que se foi, à medida que se discute ou pondera
como distribuir o dinheiro e os bens que se adquiriu ao longo de uma
vida. Este processo de resumir a nossa existência levanta uma série
de questões. Quem amo? Quem não amo? Quem vai sentir a minha falta?
Com quem deveria ser generoso? Neste exercício de rebobinar o filme
de uma vida é necessário passar à prática.

59
Num sistema como o norte-americano, pelo menos, é preciso tratar dos
detalhes do enterro, confrontar e resolver problemas e negócios que
não podem ficar pendentes.

Um dos meus clientes, que sofria de uma doença fatal, quando soube
que ia morrer começou a pôr os seus assuntos em ordem e deu por si
dias inteiros a ler os seus e-mails e a apagar todas as mensagens que
podiam perturbar a sua família. Enquanto apagava os e-mails de amores
passados sentiu-se de súbito terrivelmente angustiado. A destruição
final de todas as fotografias e lembranças, de experiências
passionais, inevitavelmente evoca uma ansiedade existencial.

Dias de aniversário e outras celebrações

Festas de aniversário e datas importantes podem funcionar como


experiências do despertar. Apesar de geralmente celebrarmos dias de
aniversário com presentes, bolos, cartões e festas, o que representa
realmente esta celebração? Talvez seja uma tentativa de dissipar a
tristeza que nos provoca a inexorável corrida do tempo. Os terapeutas
fazem bem em anotarem os dias de aniversário dos seus pacientes —
especialmente aqueles que se revestem de maior peso, que já contam
várias décadas — e em não terem medo de perguntar que sentimentos
evocam.

Fazer Cinquenta: Will

Qualquer terapeuta que já tenha alguma maturidade será sensível às


questões da mortalidade e ficará impressionado pela sua ubiquidade.
Quando comecei a escrever este capítulo, nesse exacto dia, um
paciente deixou-me cair no colo um exemplo fantástico daquilo que
pretendia dizer, sem que eu tivesse sequer puxado o assunto.

Era a minha quarta consulta com Will, um advogado de quarenta e nove


anos, inteligentíssimo, que procurava um apoio terapêutico porque
subitamente tinha perdido a sua paixão pelo trabalho e sentia-se
incrivelmente abatido por não ter dado o melhor uso aos seus
consideráveis talentos intelectuais (tinha-se licenciado com louvor,
numa das mais prestigiadas universidades do país).

Will começou a sessão por comentar que alguns dos seus colegas
criticavam-no abertamente por considerarem que aceitava demasiados
casos pro bono e por ter poucos clientes que pagassem mesmo a sério.
60
Depois de quinze minutos a descrever a sua situação laboral começou a
discorrer sobre a profissional, e a sensação que vinha de trás, de
não conseguir sentir-se enquadrado em alguma das empresas para que
tinha trabalhado. Parecia-me informação relevante para o compreender,
por isso ouvi com atenção, tomei mentalmente nota de tudo, mas nesta
parte da sessão mantive-me em silêncio — para lá de um pequeno
comentário sobre como achava fantástica a compaixão que revelava ao
descrever os seus casos pro bono.

Depois de um breve silêncio, Will comentou: «Por sinal, hoje faço


cinquenta anos.»

«E...? Como é que isso o faz sentir?»

«Bem, a minha mulher está a dar imensa importância ao caso. Está a


organizar um jantar logo a noite com alguns amigos. Mas a ideia não
foi minha. Não queria. Não gosto que andem à minha volta a dar-me
muita importância.»

«Então porquê? Qual é a parte de ser mimado de que não gosta?»

«Qualquer tipo de elogio incomoda-me. De certa forma dou cabo dos


elogios que me fazem, porque tenho uma voz cá dentro que me diz
"Dizem isso, porque não me conhecem realmente" ou "Se eles
soubessem!"»

«Se eles realmente o conhecessem», perguntei, «conseguiriam ver... o


quê?».

«Até eu não sei. E não é só a receber elogios que me sinto pouco à


vontade. A oferecê-los passa-se a mesma coisa. Não compreendo nada
disto e não sei como explicar-lhe melhor, excepto dizendo-lhe que
sinto que, debaixo da superfície, há um patamar obscuro dentro de
mim, ao qual não consigo aceder.»

«Will, sente que há momentos em que há coisas que irrompem desse


patamar escondido, como lhe chama?»

«Sim, há uma coisa. A morte. Quando leio algum livro sobre a morte,
especialmente a morte de uma criança, engasgo-me!»

«Já alguma coisa surgiu desse nível mais obscuro de si durante as


nossas sessões?»

«Acho que não. Porquê? Está a pensar nalguma coisa?»

61
«Estou a pensar numa vez, na nossa primeira ou segunda sessão, quando
subitamente uma emoção forte pareceu tomar conta de si e lágrimas
vieram-lhe aos olhos. Comentou nessa ocasião que era uma coisa rara
verter uma lágrima que fosse. Não consigo lembrar-me muito bem do
contexto. Lembra-se?»

«Estou em branco. De facto, não me lembro mesmo nada desse


incidente.»

«Julgo que tinha alguma coisa a ver com o seu pai. Bem, deixe-me
confirmar.» Levantei-me e caminhei para o meu computador, fiz uma
busca com a palavra «lágrimas» no seu ficheiro e depois de um minuto
sentei-me outra vez no meu lugar. Era, de facto, sobre o seu pai.
Estava a dizer, com tristeza, que se arrependia de nunca ter
realmente falado pessoalmente com ele, quando subitamente vieram as
lágrimas.

«Ah, sim, lembro-me e... oh, meu Deus, acabei de me recordar de que
ainda ontem sonhei com ele. Não tinha qualquer memória do sonho até
este preciso instante. Se, no início da sessão, me tivesse perguntado
se a noite passada tinha sonhado, ter-lhe-ia dito que não. Bem, no
meu sonho conversava com o meu pai e com o meu tio. O meu pai morreu
há mais de doze anos e o meu tio uns quantos anos mais cedo. Enquanto
estávamos a ter uma conversa agradável sobre qualquer coisa, não sei
o quê mas era agradável, conseguia ouvir-me a dizer: "Eles estão
mortos, eles estão mortos, mas não te preocupes, isto faz tudo
sentido, isto é normal num sonho."

«Parece-me que a voz de fundo estava a tentar manter o sonho ligeiro,


para que pudesse continuar a dormir. Sonha com o seu pai
frequentemente?»

«Nunca, que me lembre.»

«Estamos quase sem tempo, Will, mas permita-me voltar àquele assunto
de que falámos, sobre dar e receber elogios. Acontece-lhe aqui, nesta
sala, entre nós? Quando descreveu os trabalhos pro bono elogiei-o
pela sua compaixão. Não me respondeu. Tenho curiosidade em saber como
se sentiu quando realcei uma coisa positiva em si. E acredita que vai
ter dificuldade em, alguma vez, ser capaz de me dizer alguma coisa
agradável?» (raramente deixo passar uma hora sem fazer um inquérito
sobre o aqui e agora, deste género.)

62
«Não tenho a certeza. Vou ter de pensar sobre isso», disse Will,
enquanto se preparava para levantar-se.

Acrescentei: «Só mais uma última coisa, Will. Diga-me que outros
sentimentos lhe causaram a nossa sessão e o meu trabalho de hoje.»

«Foi uma boa sessão», respondeu. «Fiquei impressionado por se ter


lembrado das lágrimas nos meu olhos. Mas tenho de admitir que comecei
a sentir-me mesmo muito incomodado, agora para o fim, quando me
perguntou como reagiria aos seus elogios, e vice-versa.»

«Bem, estou convencido de que esse desconforto será fundamental para


guiar-nos na direcção de um trabalho mais promissor.»

Note-se que, nesta hora de terapia com Will, o tópico da morte


apareceu inesperada e espontaneamente, quando lhe perguntei sobre o
seu «patamar obscuro». É raro, muito raro, levantar-me para ir
consultar apontamentos no computador a meio de uma sessão, mas ele
estava tão cerebral que eu queria muito perseguir a única
demonstração de sentimentos que tivera durante as nossas sessões.

Consideremos todas as questões existenciais para as quais poderia


ter-me voltado. Primeiro havia o facto de fazer cinquenta anos. Estes
aniversários habitualmente têm muitas ramificações internas. Em
seguida, quando o questionei sobre o seu patamar escondido,
respondeu-me — e para minha surpresa —, sem qualquer pressão da minha
parte — que se engasgava quando lia sobre a morte, especialmente a
morte de uma criança. E depois a lembrança súbita, novamente
totalmente inesperada, do sonho em que conversava com o pai e com o
tio já mortos.

Quando, nas sessões seguintes, trabalhámos juntos sobre o seu sonho,


Will começou a identificar o seu medo escondido e a tristeza que a
morte lhe provocava — a morte do pai, a morte de crianças pequenas,
e, por trás disso, a sua própria morte. Concluímos que ele isolava-se
dos seus sentimentos porque temia que eles o paralisassem. Vez atrás
de vez, começou a chorar durante as sessões e procurei ajudá-lo a
falar abertamente sobre o seu lado escuro e dos medos que até então
se tinham mantido impronunciáveis.

63
• Sonhos Como Experiências do Despertar •

Se escutarmos as mensagens transmitidas por sonhos poderosos é


possível que eles nos despertem. Considere este sonho inesquecível
que me foi contado por uma jovem viúva, submergida pelo desgosto. É
um exemplo lúcido de como perder uma pessoa amada pode confrontar o
enlutado com a sua própria mortalidade:

Estou na varanda de uma frágil casinha de Verão e vejo uma enorme e


ameaçadora besta, de boca aberta, esperando a apenas alguns metros da
porta da entrada. Estou aterrorizada. Sinto um imenso medo de que
algo posso acontecer à minha filha. Decido tentar satisfazer a besta
com um sacrifício e atiro-lhe, pela porta fora, um brinquedo de lã
encarnada. A besta devora o isco mas não se mexe. Os olhos queimam.
Estão fixados em mim. Sou eu a sua presa.

Esta jovem viúva entendia claramente o seu sonho. Num primeiro


momento pensou que a morte (a besta ameaçadora), que já lhe tinha
levado o marido, voltara agora para vir buscar a filha. Mas quase
imediatamente entendeu que quem estava em perigo era ela. Era a
próxima na fila e a besta tinha vindo para a comer. Tentou aplacar e
distrair a besta com um sacrifício, um animal de peluche encarnado.
Sabia, sem que eu tivesse de perguntar, o significado daquele
símbolo: o marido tinha morrido vestido com um pijama encarnado às
risquinhas. Mas a besta era implacável: ela era a sua presa. A força
deste sonho conduziu-nos a um enorme progresso na nossa terapia: ela
conseguiu distanciar-se da perda terrível que tinha sofrido, em
direcção a uma maior consciência de como a vida era finita e por isso
mesmo tinha de ser vivida o mais plenamente possível.

A experiência do despertar está longe de ser um conceito raro ou


exótico; é, antes, o pão com manteiga do trabalho clínico. Por saber
que assim é emprego muito do meu tempo a ensinar os terapeutas a
identificarem e a utilizarem de forma terapêutica as experiências do
despertar — como na história do Mark, onde um sonho abriu a porta à
mudança.

64
Um sonho de dor como experiência do despertar: Mark

Mark, um psicoterapeuta de quarenta anos, procurou-me porque sofria


de ansiedade crónica e episódios de pânico de morte intermitentes.
Percebi logo na primeira sessão que ele estava agitado e irrequieto.
Tudo começara, seis anos antes, com a morte da sua irmã mais velha,
Janet, que sempre agira como sua mãe de verdade, substituindo a sua
mãe biológica, que lutava com um cancro nos ossos, que acabou por
matá-la depois de diversas recorrências e muitas cirurgias que a
desfiguraram e quando Mark não tinha mais de quinze anos.

O peso fora excessivo para Janet, que, com pouco mais de vinte anos,
se tornou numa alcoólica crónica, acabando por morrer de cirrose.
Apesar da sua devoção fraterna — fizera viagens sem conta através do
país para lhe dar apoio nas fases mais difíceis — não conseguia
afastar a ideia de que poderia ter feito mais, que era ele de alguma
maneira o responsável pelo seu alcoolismo e pela sua morte. O seu
sentimento de culpa era tenaz e eu encontrei grandes dificuldades em
ajudá-lo a ultrapassá-lo.

Como tenho dito, uma potencial experiência do despertar encontra-se


em quase todos os caminhos do sofrimento e faz amiúde a sua primeira
aparição sob a forma de um sonho. Num dos frequentes pesadelos do
Mark, ele descreveu-me uma imagem de sangue a jorrar da mão da sua
irmã — uma imagem que relembrava uma memória antiga. Quando tinha uns
cinco anos, Janet estava em casa do vizinho onde entalou o dedo numa
ventoinha eléctrica. Lembrava-se de vê-la a correr pela rua fora aos
gritos. Havia sangue, tanto sangue vermelho e tanto terror, tanto
dela como dele.

Recordava-se do pensamento que teve (ou deve ter tido) em criança: se


a sua protectora, Janet — tão grande, tão capaz, tão forte — era na
verdade frágil e tão facilmente derrotada, então ele realmente tinha
razões para ter medo. Como poderia ela protegê-lo se nem conseguia
defender-se a si mesma? Sendo assim, pairando no seu inconsciente,
deve ter estado presente a equação: Se a minha irmã tem de morrer,
então também eu.

Enquanto discutíamos os seus medos da morte mais abertamente, Mark


começou a ficar muito agitado. Andava de um lado para o outro na
minha sala enquanto falávamos.

65
No seu dia-a-dia, Mark estava sempre em movimento, marcando uma
viagem a seguir a outra, visitando sítios novos sempre que podia.
Mais do que uma vez passara-lhe pela cabeça a ideia de que não criava
raízes em lado algum, porque isso deixava-o com a sensação de ser um
alvo fácil para o Homem da Foice: sentia que a vida, ou melhor toda a
sua vida, não passava de um marcar passo à espera do dia fatal.

Gradualmente, e depois de um ano de trabalho duro, Mark teve um


sonho, um daqueles iluminados, que o ajudou a conseguir deixar partir
a culpa que sentia pela morte da sua irmã:

Os meus tios velhinhos vão visitar a Janet, que está a sete metros de
distância. (Nesse momento Mark pediu-me papel e caneta e desenhou um
quadrado de sete por sete, o cenário geográfico do seu sonho.) Vão
atravessar o rio para chegarem até ela. Eu sabia que também iria ter
de visitá-la, mas tinha imensas coisas para acabar e decidi ficar em
casa, dessa vez. Enquanto se preparam para partir, penso num pequeno
presente para levarem a Janet. Vou dizer-lhes adeus à porta e, quando
já estão a afastar-se, lembro-me de que me esqueci de escrever um
cartão para acompanhar o presente e corro atrás deles. Recordo-me do
aspecto do cartão — muito formal e distante —, assinado «para a
Janet, do seu irmão». De alguma forma misteriosa, consigo ver a Janet
em pé, do outro lado do rio, possivelmente a acenar. Mas não me
provocou uma grande emoção.

As imagens deste sonho são excepcionalmente transparentes. Os tios


velhinhos morrem (ou seja, atravessam o rio) e vão visitar Janet a
sete quadrados de distância (neste ponto da terapia, a Janet já
estava morta havia sete anos). Mark decide ficar em casa, apesar de
saber que iria ter de atravessar o rio noutro dia. Tinha coisas para
fazer e sabia que, para ficar do lado da vida, não tinha outro
remédio senão largar a irmã (como indiciado pelo cartão formal que
acompanhava o presente e pela sua falta de emoção ao vê-la acenar do
outro lado do quadrado).

O sonho veio anunciar uma mudança: a obsessão de Mark com o passado


desvaneceu-se e gradualmente aprendeu a viver melhor no presente.

Muitos sonhos abriram já portas a muitos dos meus pacientes, como por
exemplo a Ray, um cirurgião quase reformado, e a Keaven, que chegara
a um ponto em que o nosso trabalho não rendia e preparava-se para
abandonar a terapia.

66
O cirurgião quase reformado: Ray

Ray, um cirurgião de sessenta e oito anos, solicitou uma terapia para


tentar tratar a ansiedade que crescia à medida que a data da sua
reforma se aproximava. Na segunda sessão de terapia relatou este
pequeno fragmento de sonho:

Vou a um encontro da minha turma de escola, talvez do sexto ano.


Entro no edifício e vejo a fotografia da turma afixada na entrada.
Observei-a com cuidado durante muito tempo e vi todas as caras dos
meus colegas, mas eu não estava lá. Não conseguia encontrar-me a mim
próprio.

«Qual era a sensação do sonho?», perguntei-lhe (é sempre a minha


primeira pergunta, porque é particularmente útil encontrar as emoções
associadas ao sonho inteiro ou a partes dele). «É difícil de dizer»,
respondeu-me. «O sonho era pesado ou lúcido — decididamente, alegre
não era.»

«Fale sobre as suas associações ao sonho. Ainda consegue vê-lo na sua


cabeça?» (quanto mais frescos são, mais provável é que as associações
dos pacientes nos forneçam informação útil.)

Ele abanou a cabeça. «Bem, a fotografia é a coisa principal. Isso


vejo claramente — não consigo ver bem muitas das caras, mas sei que
não estou lá. Não consigo encontrar-me.»

«O que acha disso?»

«Não tenho a certeza, mas há duas possibilidades. Primeiro, o meu


sentimento de nunca ter feito bem parte daquela turma — ou de
qualquer turma. Nunca fui popular. Era sempre o estranho. Excepto na
sala de operações.» Fez uma pausa.

«E a segunda hipótese?», incitei.

«Bem, a óbvia», a voz dele tornou-se sombria, «a turma esta lá toda e


falto eu — provavelmente sugerindo ou prevendo a minha morte.»

Assim, pelo sonho, material muito rico emergiu e ofereceu pistas


possíveis.

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Poderia ter explorado o seu sentimento de não-pertença, o facto de
não se sentir «popular», a falta de amigos, o facto de não se sentir
em casa em lado algum excepto na sala de operações. Ou poderia ter-me
concentrado na frase «Não consigo encontrar-me» e colocar o enfoque
no seu sentimento de estar fora de contacto consigo mesmo. O sonho
marcou o rumo da terapia no ano que se lhe seguiu, durante o qual
trabalhámos juntos estes temas.

Mas, mais do que para tudo o resto, a minha atenção foi


redireccionada para um detalhe: a sua ausência na fotografia de
turma. O seu comentário sobre a morte parecia o assunto mais
relevante; feitas as contas, era um homem de sessenta e oito anos
cuja reforma iminente tinha sido o motivo da sua procura de apoio.
Qualquer pessoa que esteja a considerar a reforma tem preocupações
furtivas com a morte, não sendo pouco frequente fazerem-se sentir nos
seus sonhos.

• O Fim da Terapia • como Uma Experiência do Despertar~

Um sonho sobre o fim da terapia: Kevan

Na sua sessão final, Kevan, um engenheiro de quarenta anos, cujos


episódios de pânico de morte periódicos tinham praticamente
desaparecido durante os catorze meses de terapia, teve este sonho:

Estou a ser perseguido num edifício comprido. Não sei por quem. Estou
assustado e corro pelas escadas abaixo até à zona da cave. Num sítio
vejo areia a cair do tecto, a escorrer como se estivesse numa
ampulheta. Está escuro; vou mais longe sem conseguir encontrar
qualquer saída e depois subitamente, no fim do corredor da cave, vejo
um armazém enorme com as portas ligeiramente abertas. Embora sinta
medo, atravesso as portas.

Quais os sentimentos neste sonho negro? «Medo e peso», respondeu


Kevan.

68
Pedi-lhe que fizesse associações, mas poucas surgiram; o sonho
parecia-lhe vazio. A partir da minha perspectiva existencial, diria
que o facto de estar a acabar a terapia e a dizer-me adeus podia
muito bem ter evocado dentro dele pensamentos de perda e de morte.
Duas imagens particulares do sonho chamaram a minha atenção: a areia
a cair como se estivesse numa ampulheta e as portas do armazém. Em
vez de o pôr a par destas minhas deduções, tentei picar Kevan para
ser ele a associar estas imagens.

«O que lhe traz à mente a ampulheta?»

«Pensamentos sobre o tempo. O tempo está a acabar. A vida está


semiacabada.»

«E o armazém?»

«Corpos armazenados. Uma morgue.»

«É a nossa última sessão, Kevan. O nosso tempo aqui está a acabar.»

«Sim, também estava a pensar nisso.»

«E a morgue e os corpos armazenados? Já não fala sobre a morte há


várias semanas. Contudo, foi por isso que originalmente veio ver-me.
Parece que o fim da nossa terapia faz emergir em si assuntos
passados.»

«Acho que sim — agora pergunto-me se estamos mesmo preparados para


parar.»

Terapeutas experientes sabem que não devem levar estas perguntas


demasiado a sério, ao ponto de prolongarem a terapia. Pacientes que
têm tido um percurso significativo na terapia, geralmente ao
aproximarem-se do fim da mesma são tomados por sentimentos
contraditórios e frequentemente sofrem uma recrudescência dos seus
sintomas originais. Alguém referiu-se à psicoterapia como
cicloterapia: uma pessoa trabalha as mesmas questões, uma e outra
vez, a cada uma assegurando com mais certeza a mudança pessoal.
Sugeri a Kevan que terminássemos o nosso trabalho como planeado, mas
que marcássemos uma sessão de seguimento para dali a dois meses.
Nesse encontro, Kevan sentia-se óptimo e a meio do processo de
transferir o que tinha ganho na terapia para a sua vida no exterior.

69
As experiências do despertar vão da experiência do leito de morte de
Ivan Ilych às de quase morte de muitos dos doentes de cancro,
passando por confrontações mais subtis que fazem parte do nosso dia-
a-dia (tal como aniversários, desgostos de amor, encontros, sonhos, o
ninho vazio), em que o indivíduo é obrigado a ir mais fundo nos seus
pensamentos sobre a existência. A consciência do despertar pode
muitas vezes ser facilitada pela ajuda de alguém — um amigo ou
terapeuta — com maior sensibilidade para estes assuntos (obtida, é
essa a minha esperança, nestas páginas).

Mantenha presente o propósito destas incursões: um confronto com a


morte produz ansiedade, mas também tem o potencial de enriquecer
muitíssimo a vida. As experiências do despertar podem ser poderosas
mas efémeras. Nos próximos capítulos vamos discutir como podemos
tornar estas experiências mais duradouras.

70
Capítulo 4

• O PODER DAS IDEIAS •

As ideias têm poder. O insight de muitos dos grandes pensadores e


escritores, ao longo dos séculos, ajuda-nos a domar pensamentos
destrutivos associados à morte e a descobrir caminhos importantes à
medida que vamos atravessando a nossa existência. Neste capítulo,
debato aquelas que têm provado ser mais úteis na minha terapia com
pacientes assombrados pela ansiedade de morte.

• Epicuro e a Sua Sabedoria Eterna •

Epicuro acreditava que a verdadeira missão da filosofia era aliviar a


infelicidade humana. E a causa-raiz desta angústia? Ele estava
perfeitamente seguro de qual era a resposta certa para essa pergunta:
o nosso omnipresente medo da morte.

A ideia da morte inevitável, assustadora para qualquer de nós,


insistia Epicuro, interfere com a capacidade de gozar a vida e não
deixa qualquer prazer incólume.

71
Porque nenhuma actividade pode satisfazer a nossa ânsia de vida
eterna, todas elas são intrinsecamente incapazes de nos satisfazerem
completamente. Escreveu que muitas pessoas vão mesmo criando um ódio
à vida até, ironicamente, ao ponto do suicídio; outros envolvem-se
freneticamente em actividades sem objectivo, que não têm outro
propósito a não ser evitar a dor inerente à condição humana.

Epicuro lidava com esta ânsia sem fim de preenchermos o nosso


quotidiano com actividades novas encorajando-nos a que, em lugar
disso, optássemos por guardar e evocar as memórias profundas de
experiências positivas. Sugere que, se formos capazes de aprender a
recorrer a essa base de dados repetidamente, não teremos então
qualquer necessidade de embarcarmos na busca incessante de situações
hedonistas.

Diz a lenda que seguiu os seus próprios conselhos e, no leito de


morte (de complicações subsequentes a cálculos renais), Epicuro
conservou a equanimidade, apesar das dores terríveis, usando este
mesmo exercício, ou seja recordando as conversas agradáveis com o seu
círculo de amigos e estudantes, que lhe haviam dado tanto prazer.

Faz parte do génio deste filósofo ter antecipado a visão


contemporânea do inconsciente: enfatizava ele que, na maioria dos
casos, as preocupações com a morte não são conscientes mas devem ser
inferidas a partir de manifestações secundárias; por exemplo, uma
religiosidade excessiva, a necessidade imparável de acumulação de
riqueza, a procura cega de poder e privilégios, tudo coisas que
oferecem uma versão falsificada de imortalidade.

Como procurava Epicuro aliviar a ansiedade de morte? Formulou uma


série de argumentos bem construídos, que os seus alunos memorizavam
como um catecismo. Muitos deles têm sido debatidos ao longo dos
últimos dois mil e trezentos anos e ainda hoje ajudam-nos a
ultrapassar o medo da morte. Neste capítulo discutirei três dos seus
mais conhecidos temas, que descobri serem extremamente valiosos na
minha tentativa de aliviar a ansiedade de morte, tanto nos meus
pacientes como em mim próprio.

1. A mortalidade da alma

2. O derradeiro «nada» da morte

3. O argumento da simetria

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A mortalidade da alma

Epicuro ensinou-nos que a alma é mortal e que perece com o corpo, uma
conclusão diametralmente oposta à de Sócrates, que cem anos mais
cedo, e pouco antes de ser executado, tinha encontrado conforto na
sua crença na imortalidade da alma e na expectativa de que ela, da
sua morte em diante, gozaria a companhia eterna de pensadores como
ele, que partilhavam consigo a procura da sabedoria. Grande parte
desta filosofia — inteiramente descrita no diálogo platónico, o Fédon
— foi adoptada e preservada pelos neoplatónicos e em última instância
acabaria por exercer uma influência considerável na estrutura cristã
da vida eterna.

Epicuro era veemente na sua condenação dos líderes religiosos seus


contemporâneos que, numa tentativa de reforçarem o próprio poder,
aumentavam a ansiedade de morte dos discípulos, ameaçando-os com
castigos que os esperavam depois da morte, caso não cumprissem
determinadas regras e leis. (Nos séculos que se haviam de seguir, a
iconografia religiosa da cristandade medieval ilustrava os castigos
do Inferno — como nas cenas do Juízo Final, pintados por Hieronymus
Bosch, no século XV — adicionando uma dimensão visual sangrenta à
ansiedade de morte.)

Se somos mortais e a alma não sobrevive, insistia Epicuro, então nada


temos a temer numa vida eterna. Não haverá consciência, nem tão-pouco
remorsos pela vida perdida, nada a temer dos deuses. Epicuro não
negava a existência de deuses (o argumento teria sido tremendamente
perigoso, tendo em conta que Sócrates fora sentenciado à morte por
heresia, menos de um século antes), mas defendia que os deuses não
prestavam qualquer atenção à Humanidade e só nos eram úteis como
modelos de tranquilidade e felicidade, sentimentos a que devíamos
aspirar.

O derradeiro nada da morte

No seu segundo argumento, Epicuro defende que a morte nada nos é, já


que a alma mortal dispersa-se quando morremos. O que se desfaz não
compreende e qualquer coisa que não é compreendida nada nos diz.

73
Por outras palavras: onde eu estou, a morte não está; onde a morte
está, eu não estou. Daí que Epicuro não hesitasse em dizer: «Porquê
temer a morte quando nunca teremos consciência dela?»

A posição de Epicuro é a derradeira expressão do dito satírico de


Woody Allen: «Não tenho medo da morte, só não quero estar por perto
quando acontecer.» Epicuro diz-nos que de facto não estaremos lá, que
não saberemos o que aconteceu, porque a morte e o «eu» não podem
coexistir. Porque estamos mortos, não sabemos que estamos mortos, e,
nesse caso, de que temos receio?

O argumento da simetria

O terceiro argumento de Epicuro defende que o nosso estado de «não-


existência» após a morte é o mesmo em que nos encontrávamos antes de
nascermos. Apesar dos inúmeros debates filosóficos sobre este
argumento ancestral, acredito que ainda retém o poder de providenciar
conforto a quem se encontra às portas da morte.

Dos muitos que retomaram com convicção este argumento ao longo dos
séculos, nenhum o fez de forma mais bela do que Vladimir Nabokov, o
grande escritor russo, na sua autobiografia Speak Memory, que começa
assim: «O berço balança sobre o abismo e o senso comum diz-nos que a
nossa existência é apenas uma breve fenda de luz entre duas
eternidades de escuridão. Apesar de as duas serem gémeas idênticas, o
Homem, em regra, observa o abismo pré-natal com mais serenidade do
que aquele de que se aproxima (a cerca de 4500 batidas cardíacas por
hora).»

Pessoalmente tenho, em diversas ocasiões, encontrado muito conforto


nesta ideia de que os dois estados de «não-existência» — o tempo
antes do nosso nascimento e aquele após a nossa morte — são idênticos
e que de facto receamos tanto o segundo poço de escuridão e
preocupamo-nos tão pouco com o primeiro.

Um e-mail de um leitor contém sentimentos relevantes para esta


discussão:

Por esta altura já me sinto mais ou menos confortável com a ideia do


esquecimento. Parece-me ser a única conclusão lógica.

74
Desde criança pequena que penso que a seguir à morte a única
sequência lógica seria voltarmos ao estado antes do nascimento.
Ideias de vida eterna pareciam-me incongruentes e confusas, se
comparadas com a simplicidade dessa conclusão. Não conseguia
consolar-me com a ideia de uma vida eterna, porque a ideia da
existência sem fim, agradável ou desagradável, é para mim muito mais
aterradora do que a de uma existência finita.

Geralmente falo nas teorias de Epicuro muito cedo no meu trabalho com
pacientes que sofrem com o terror da morte. Servem, simultaneamente,
para os iniciar no trabalho ideacional da terapia e para demonstrar a
minha vontade de me relacionar com ele ou ela — nomeadamente dar-lhes
sinal de que estou disposto a entrar na sua câmara secreta de medo e
que tenho algumas armas que podem facilitar a viagem. Embora certos
pacientes considerem as ideias de Epicuro como irrelevantes ou pouco
substanciais, muitos encontram nelas conforto e ajuda — talvez porque
lhes relembrem a universalidade das suas preocupações e que grandes
almas, como Epicuro, debatiam-se com as mesmas questões.

• RIPPLING •

De todas as ideias que emergiram dos meus anos de treino a


contrariar, em cada uma das pessoas que me procuram, a ansiedade de
morte e a preocupação com a transiência da vida, o conceito de
rippling foi de todas a que detém, só por si, mais poder.

O rippling refere-se ao facto de que cada um de nós cria —


frequentemente sem intenção ou consciência de o ter feito — círculos
concêntricos de influência que poderão tocar os outros durante anos,
ou até gerações. Ou seja, o efeito que exercemos em alguém é por sua
vez passado a outras pessoas, à semelhança das pequenas ondas
concêntricas que criamos quando atiramos uma pedra a um lago, que se
vão alargando, alargando até se perderem de vista, mas que na
realidade continuam a um nível infinitesimal.

75
A esperança de que poderemos deixar algo de nós, mesmo para lá
daquilo de que nos damos conta, constitui uma resposta poderosa
àqueles que afirmam que a nossa finitude é sinónimo de uma vida sem
sentido, ou insignificante.

O rippling não quer necessariamente dizer que deixamos gravado um


nome ou uma imagem. Muitos de nós já nos demos conta da futilidade
dessa estratégia há muito tempo, provavelmente ainda no liceu, quando
líamos estrofes de um poema de Shelley sobre uma enorme estátua com
milhares de anos de existência, agora estilhaçada numa terra tornada
árida:

O meu nome é Ozymandias, rei de todos os reis

Olhai para as minhas obras, ó poderosos, e desesperem.

Tentativas de preservar uma identidade pessoal são sempre fúteis. A


efemeridade é para sempre. O rippling, tal como eu o uso, refere-se
em lugar disso a deixar algo da sua experiência de vida; algum traço,
uma frase cheia de sabedoria, liderança, virtude, conforto que passa
para outros, conhecidos ou desconhecidos. A história de Bárbara deixa
tudo isto mais claro.

«Procurem-na entre os seus amigos»: Bárbara

A Bárbara, que tinha sido amaldiçoada pela ansiedade de morte já há


alguns anos, deu conta de dois eventos que marcadamente reduziram a
sua ansiedade.

O primeiro ocorreu num reencontro da sua turma, quando, pela primeira


vez em trinta anos, viu Allison, uma amiga mais nova que na
adolescência lhe tinha sido muito próxima, e que, no hall do hotel,
correu para ela, encheu-a de beijos e abraços, agradecendo-lhe todos
os conselhos e pistas que lhe tinha dado em miúda.

Para dizer a verdade, havia muito que Bárbara tinha intuído o


conceito geral do rippling. Sendo professora, tomara sempre como
certo que influenciava os seus alunos das maneiras mais diversas,
muitas vezes sem sequer dar por isso. Mas o reencontro com a sua
amiga de infância tornou o rippling muito mais palpável.

76
Ficou contente, e um tanto ou quanto surpresa, ao perceber que tantos
dos seus conselhos e sugestões tinham persistido na memória de uma
adolescente, mas nada se comparou ao choque por que passou no dia
seguinte, quando conheceu a filha de treze anos de Allison, que
estava visivelmente entusiasmada por finalmente conhecer a lendária
amiga da mãe.

Enquanto, na viagem de avião de regresso, reflectia sobre o encontro,


Bárbara teve uma revelação que lhe permitiu uma nova forma de encarar
a morte. Talvez a morte não fosse bem a aniquilação total. Talvez não
fosse tão essencial que a sua pessoa, ou mesmo memórias da sua
pessoa, sobrevivesse. Talvez o fundamental fosse que os círculos
concêntricos que fora capaz de criar, o seu rippling, persistisse
através de ondas que propagavam uma ideia ou um gesto que ajudariam
outros a atingir a alegria e a virtude na vida; ondas que a encheriam
de orgulho e funcionariam como escudo contra a imoralidade, o horror
e a violência que monopolizam os meios de comunicação social e o
mundo exterior.

Estes pensamentos foram reforçados pelo segundo evento, dois meses


mais tarde, quando a mãe morreu e Bárbara fez um pequeno discurso no
serviço fúnebre. Uma das frases preferidas da sua mãe veio-lhe
subitamente à cabeça: Procurem-na entre os seus amigos.

Esta frase tinha poder: sabia que a gentileza, carinho e amor pela
vida, tão característicos da sua mãe, viviam dentro dela, a sua filha
única. Enquanto falava e observava as pessoas presentes conseguia
sentir, quase fisicamente, como facetas e gestos da mãe tinham
inundado as suas amigas e amigos, que por sua vez passariam essa onda
aos seus filhos e aos filhos dos seus filhos.

Desde a infância, nada aterrorizava Bárbara mais do que o pensamento


do nada, do vazio. As teses de Epicuro que lhe ofereci não surtiram
efeito. Não se sentia, por exemplo, minimamente aliviada quando lhe
dizia que nunca iria experimentar o horror do nada, porque não teria
consciência dele depois da morte. Mas já a ideia de rippling — de uma
existência contínua através dos actos de ajuda, de carinho e de amor
que passava a outros — foi capaz de atenuar grande parte do seu medo.

«Procurem-na entre os seus amigos» — que conforto, que poderosa


armação, dentro da qual se pode construir um sentido para a vida,
reside neste conceito.

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Como abordarei mais profundamente no Capítulo 5, acredito que a
mensagem secular de Everyman, o drama religioso medieval, é de que as
boas acções acompanham-nos até à morte e serão herdadas pelas
gerações que se seguem, num fabuloso exemplo daquilo que é o
rippling.

Bárbara voltou ao cemitério um ano mais tarde, para a exumação, e


sentiu uma variante do rippling. Em lugar de se sentir deprimida pela
visão das campas da mãe e do pai, situadas entre as de muitos
parentes, sentiu um alívio imenso e uma paz de espírito que não
experimentava há muito. Porquê? Tinha dificuldade em encontrar as
palavras certas para responder à pergunta, mas o mais próximo que
conseguiu para traduzir esse sentimento foi dizer-me que «se eles
conseguiram passar por isto, então eu também consigo». Até na morte
os seus antepassados foram capazes de lhe passarem um «recado»
importante.

Outros exemplos de rippling

Os exemplos de rippling são inúmeros e bem conhecidos. Quem não


sentiu borboletas no estômago quando soube que tinha sido, directa ou
indirectamente, importante para outrem? No Capítulo 6 abordo como os
meus próprios mentores tiveram um efeito de riplling em mim, e,
através destas páginas, em si. Na verdade, o meu desejo de prestar
auxílio aos outros é aquilo que me mantém aqui a pisar as teclas
deste computador, muito para lá da idade da reforma.

Em «The Gift of Therapy», descrevo um incidente em que uma paciente


que perdeu o cabelo em consequência da radioterapia se sentira
extremamente desconfortável com a sua aparência e tinha medo que
alguém pudesse vê-la sem a peruca. Quando se arriscou, tirando a
cabeleira no meu consultório, reagi passando suavemente os meus dedos
pelas suas últimas madeixas de cabelo. Anos mais tarde encontrei-a de
novo durante um pequeno período de terapia e ela confidenciou-me que
recentemente relera a passagem em que nesse livro eu falava dela,
sentindo uma grande alegria por ter registado aquele episódio e o ter
transmitido a outros terapeutas e pacientes. Dava-lhe prazer, disse-
me, saber que a sua experiência poderia, de alguma maneira,
beneficiar outras pessoas, até aqueles que não conhecia.

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O rippling é primo de muitas estratégias que partilham a vontade, que
parte do fundo do coração de cada um de nós, de nos projectarmos no
futuro. A forma mais evidente da manifestação desse desejo é o
impulso de transmitirmos os nossos genes, tendo filhos, ou através da
doação de órgãos, de forma a que o nosso coração continue a bater,
mesmo no peito de outra pessoa, e a nossa córnea permita a visão a um
cego. Há aproximadamente vinte anos tive de receber um transplante da
córnea nos dois olhos e, apesar de não saber a identidade do dador
morto, frequentemente sinto uma onda de gratidão por aquele
desconhecido.

Outros efeitos do rippling incluem:

Uma ascensão à notoriedade máxima, através de conquistas políticas,


artísticas ou financeiras.

Deixar o nosso nome num edifício, instituto, fundação ou bolsas de


estudo.

Fazer uma descoberta científica, sobre a qual outros cientistas podem


construir novos caminhos. Reencontrarmo-nos com a Natureza através
das nossas moléculas dispersas, que podem servir de tijolos para a
construção de uma nova vida.

Talvez me tenha concentrado tanto no rippling porque, neste lugar


privilegiado onde me situo como terapeuta, tenho direito a uma visão
invulgar da forma suave, gentil, inatingível mesmo, como estas
transmissões ocorrem de um indivíduo para outro.

O realizador japonês Akira Kurosawa retrata com uma força imensa o


efeito de rippling no seu filme épico, datado de 1952, Ikiru, que
continua a ser exibido por todo o mundo. Conta a história de
Watanabe, um servil burocrata japonês que descobre ter um cancro no
estômago e apenas mais alguns meses de vida. O cancro serve como uma
experiência do despertar para este homem, que até aí vivera uma
existência tão limitada que os seus empregados o alcunharam de «A
Múmia».

Depois de conhecer o diagnóstico, falta ao trabalho pela primeira vez


em trinta anos, levanta uma grande quantia de dinheiro da sua conta
bancária e tenta comprar o regresso à vida em vibrantes clubes
nocturnos japoneses. No final desta fúria gastadora encontra por
acaso uma ex-trabalhadora, que se tinha despedido da sua agência
porque sentia que era um beco sem saída.

79
Ela queria viver! Fascinado pela sua vitalidade e energia persegue-a
e implora-lhe que o ensine como se faz, mas ela limita-se a informá-
lo de que detestava o seu antigo trabalho porque não passava de uma
burocracia sem sentido. No seu novo emprego, em que fabrica bonecas
numa fábrica de brinquedos, sente-se estimulada pela certeza de que o
que faz traz felicidade a muitas crianças. Quando lhe dá conta do seu
cancro e da proximidade da sua morte ela fica aterrorizada e foge,
deixando-lhe apenas um comentário, lançado por cima do ombro:
«Constrói alguma coisa.»

Watanabe regressa, transformado, ao seu emprego, recusa-se a obedecer


aos rituais burocráticos que ele próprio criou, quebra todas as
regras e dedica o pouco tempo que lhe sobra à construção de um parque
infantil, onde os miúdos poderão divertir-se durante gerações. Na
última cena, Watanabe, já às portas da morte, está sentado num
baloiço do parque. Apesar dos flocos gelados de neve, sente-se
absolutamente sereno e aproxima-se da morte com uma recém-encontrada
serenidade.

O fenómeno do rippling, de criar alguma coisa que será transmitida


aos vindouros, e que contribui para melhorar a vida de outros,
transforma o seu terror numa satisfação profunda. O filme enfatiza
também que é o parque infantil por si, e não a eternização do seu
nome, aquilo que importa. De facto, após o funeral, os burocratas
municipais, já bêbedos, começam uma longa discussão irónica sobre se,
de facto, Watanabe deveria receber um louvor que fosse pela
construção daquele parque.

Rippling e Transiência

Muita gente diz que raramente pensa na sua própria morte, mas que, no
entanto, está obcecada com a ideia e o terror da transiência. Cada
momento agradável é corroído pelo pensamento de que tudo o que
vivemos é fugidio e acabará brevemente. Um passeio agradável com um
amigo é destruído pela certeza de que tudo está destinado a
desaparecer — o amigo morrerá, a floresta vai ser destruída para
construírem por cima. Qual é o objectivo de nos envolvermos seja no
que for, se, mais dia menos dia, tudo se transforma em pó?

80
Freud expressava maravilhosamente este argumento (e o contra-
argumento) num pequeno ensaio («On Transience»), em que relata um
passeio de Verão com dois amigos, um poeta e um colega psicanalista.
O poeta lamentava o facto de toda a beleza estar destinada a
desvanecer-se até ao nada e o que amamos despido de valor pela
evidência de que desaparecerá definitivamente. Freud contestou a
conclusão tristonha do poeta e negou vigorosamente que a transiência
retire valor ou significado seja ao que for.

«Pelo contrário», exclamava ele, «não tira valor, aumenta-o! O facto


de haver limitações às possibilidades de um prazer faz aumentar o
valor desse prazer.» Depois ofereceu um poderoso contra-argumento à
ideia de que a falta de sentido é inerente à transiência.

Era incompreensível, declarei, que a verificação da transiência da


beleza devesse interferir com a nossa alegria ao usufruí-la. Quanto à
beleza da Natureza, de cada vez que é destruída pelo Inverno regressa
novamente no ano seguinte, fazendo com que, se for correlacionada com
a nossa longevidade, possa ser considerada como eterna. A beleza da
forma humana e do rosto desaparece para sempre no curso das nossas
vidas, mas a sua evanescência só lhe empresta um novo atractivo. Uma
flor que abre só por uma noite não nos parece menos bonita por esse
facto. Nem consigo entender porque a beleza de uma obra de arte ou de
uma conquista intelectual deva perder o seu valor em consequência das
suas limitações temporais. Poderá realmente chegar um tempo em que as
estátuas e os quadros que admiramos hoje se desfaçam em pó, ou nos
suceda uma raça de homens que já não compreenda as obras dos nossos
poetas e pensadores, ou poderá até surgir uma época geológica em que
a vida na Terra cesse; mas sendo o valor de toda esta beleza e
perfeição determinado apenas pelo sentido que assume para as nossas
próprias vidas emocionais, não tem necessidade de nos sobreviver e é,
por isso, independente de uma duração absoluta.

Deste modo, Freud tenta apaziguar o terror da morte afastando a


estética e os valores humanos do alcance da morte, dizendo que o
facto de algo ser passageiro não tem qualquer relevância naquilo que
é vitalmente importante para a vida emocional de alguém.

Muitas tradições procuram ganhar poder a partir desta transiência da


vida «stressando» a importância de viver o momento, colocando todo o
enfoque na experiência imediata.

81
A prática budista, por exemplo, inclui uma série de meditações sobre
anicca (impermanência), em que nos concentramos na dissecação e
desaparecimento das folhas de uma árvore, e depois na transitoriedade
dessa mesma árvore e, bem vistas as coisas, do nosso próprio corpo.
Poderíamos pensar nesta prática como um «descondicionamento», ou como
uma terapia de confronto, em que uma pessoa se habitua ao medo
através de um esforço constante de nele mergulhar. Talvez a leitura
deste livro tenha um efeito similar para alguns leitores.

O rippling modera a dor do transiência, ao relembrar que há sempre


alguma coisa de cada um de nós que perdura, mesmo que nos passe
despercebida.

• Pensamentos Poderosos Para Ajudar • a Ultrapassar a Ansiedade de


morte

Uma citação bem aplicada, ou um aforismo de um filósofo ou outro


pensador, pode frequentemente ajudar-nos a reflectir de forma útil
sobre a nossa própria ansiedade de morte e a nossa realização
pessoal. Seja pela inteligência das ideias expressas, da retórica, do
som das palavras, ou pela forma como os pensamentos estão
entrelaçados de energia cinética, a verdade é que há pensamentos tão
poderosos que são capazes de provocar um solavanco na existência de
um leitor solitário ou de um paciente, levando-os a saltar fora de
uma rotina e de um modo de ser familiar, mas estático. Talvez, como
já sugeri, seja reconfortante saber que gigantes do pensamento também
lutaram com as mesmas angústias e preocupações, tendo sido capazes de
as vencer. Ou talvez os seus pensamentos memoráveis demonstrem que o
desespero pode ser transformado em arte.

82
Nietzsche, o maior aforista de sempre, deixou-nos a descrição mais
pertinente da força que podem assumir os pensamentos poderosos: «Um
bom aforismo resiste ao tempo e não apodrece com o passar dos
milénios, servindo em qualquer momento de alimento; sendo assim é o
grande paradoxo da literatura o que permanece quando tudo muda, a
comida que se considera ser sempre preciosa, como o sal, e nunca
perde o seu sabor original.»

Alguns destes aforismos referem-se explicitamente à ansiedade de


morte; outros encorajam-nos a olhar mais fundo e a resistir a sermos
consumidos e desgastados por preocupações triviais.

«Tudo desaparece: alternativas excluem.»

No belíssimo livro de John Gardner, Grendel, o monstro atormentado da


lenda de Beowulf procura um homem sábio para aprender com ele a
compreender os mistérios da vida. O homem sábio diz-lhe: «O maior mal
é que o Tempo está perpetuamente a correr e, para nos mantermos à
tona, precisamos de ser capazes de fazer opções.» Sintetiza uma vida
inteira de meditação em quatro palavras inspiradas, que resultam em
duas proposições pertinentes:

«Tudo desaparece: alternativas excluem.»

Como já falei muito sobre o «tudo desaparece», deixem-me agora virar


a agulha para as implicações da segunda proposição.

«Alternativas excluem» é a causa que explica porque tantas pessoas se


sentem enlouquecer com a necessidade de escolher. Para cada sim tem
de haver um não e cada escolha positiva significa que temos de
renunciar a outras. Muitos de nós procuramos evitar pensar no
assunto, tapando os ouvidos com as mãos, fugindo de aprender os
limites, as dores e as perdas que viver implica.

Por exemplo, renunciar era um problema imenso para Les, um médico de


trinta e sete anos, que durante anos se debateu com a agonia de não
saber com qual de várias mulheres disponíveis queria mesmo casar.
Quando finalmente optou por uma e se mudou para casa dela, a quase
200 km do sítio onde vivia até aí, abriu um segundo consultório na
nova comunidade. Mas manteve o antigo aberto um dia e meio por semana
e passava uma noite todas as semanas a visitar as antigas namoradas.

Na terapia colocamos o enfoque na sua resistência a dizer não a


outras alternativas.

83
Quando insisti que me explicasse o que significava para ele ser capaz
de dizer «não» — entendendo por isso fechar o consultório antigo e
acabar com as deslealdades —, Les começou gradualmente a aperceber-se
da imagem grandiosa que tinha de si próprio. Fora sempre o
multifacetado da família, o menino de oiro — músico, atleta, vencedor
de um prémio nacional pelo seu desempenho nas ciências. Sabia que
poderia ter obtido sucesso em qualquer profissão que escolhesse e
via-se a si mesmo como alguém dispensado das limitações dos outros,
alguém que não deveria ter de abdicar. «Alternativas excluem» poderia
aplicar-se aos outros, mas nunca a ele. O seu mito pessoal era de que
a vida consistia numa eterna espiral ascendente, que traria consigo
um futuro ainda mais promissor, e resistia a tudo o que pudesse
ameaçar esse mito.

À primeira vista parecia que a terapia de Les precisava de se


concentrar em temas como a luxúria, a fidelidade e a indecisão, mas
depressa compreendi que o seu verdadeiro fito deveria ser uma
exploração mais profunda das questões existenciais: a sua crença de
que estava destinado a um percurso de grandeza, mantendo-se
simultaneamente livre dos obstáculos impostos a todos os outros
mortais, até o maior de todos, a morte. Les (como Pat, no primeiro
capítulo) sentia-se perigosamente ameaçado por tudo o que insinuasse
qualquer necessidade de renúncia: estava desesperadamente a procurar
fugir à regra de que as alternativas se excluem, e o facto de lhe ter
chamado a atenção para esta sua tentativa tornou-nos mais perspicazes
e acelerou o nosso trabalho terapêutico. Assim que conseguiu aceitar
a renúncia, e abrir mão da frenética tentativa de se agarrar a tudo o
que alguma vez tinha possuído, pudemos trabalhar no presente, na
forma como vivia o seu dia-a-dia, sobretudo a relação com a mulher e
os filhos.

A convicção de que a vida é uma espiral ascendente surge


frequentemente em psicoterapia. Tratei uma mulher de cinquenta anos
cujo marido de setenta, um eminente cientista, se tornou demente em
consequência de um derrame cerebral. O que a perturbava, acima de
tudo, era ver o marido sentado à frente da televisão sem fazer nada.
Por muito que se esforçasse não conseguia impedir-se de ter
diariamente de se envolver com ele na mesma discussão fastidiosa:
insistia para que fizesse qualquer coisa mais estimulante para a
mente, que lesse um livro, jogasse xadrez, aperfeiçoasse o seu
espanhol ou que fizesse, nem que fosse, as palavras, cruzadas do
jornal.

84
A demência do marido tinha completamente estilhaçado a sua visão da
vida como uma escada que levava a mais conhecimento, sabedoria,
descobertas e reconhecimento; a alternativa era difícil de suportar —
assumir que cada um de nós é finito e destinado a atravessar o
desfiladeiro da infância até à maturidade, seguindo daí para o
derradeiro declínio.

«Quando estamos cansados somos atacados por ideias que ultrapassámos


há muito tempo.»

Esta frase de Nietzsche jogou um papel fundamental no meu trabalho


com Kate, uma médica divorciada que já tinha feito terapia comigo
anteriormente. Desta vez consultou-me, com sessenta e oito anos,
porque sentia uma ansiedade insuportável e crónica face à perspectiva
da reforma, do envelhecimento, da inevitabilidade da morte.

No decurso da terapia houve uma noite em que acordou às quatro da


manhã e quando ia a entrar na casa de banho escorregou, caiu e sofreu
um corte profundo na cabeça. Apesar de sangrar fortemente não chamou
os vizinhos, os filhos ou sequer o 112. Nos últimos tempos o seu
cabelo tinha ficado tão ralo que começara a usar uma cabeleira e não
queria enfrentar fosse quem fosse sem ela muito menos aparecer como
uma velhinha careca à frente dos seus colegas de hospital.

Optou, em lugar disso, por deitar mão a uma toalha, embrulhando nela
um saco de gelo, servir-se de uma taça de gelado de café e deitar-se
de novo na cama, aplicando pressão na cabeça com a botija improvisada
para impedir a perda de mais sangue, comendo o gelado e chorando pela
mãe (já falecida há vinte anos), consumida por um sentimento de
completo abandono. Quando a manhã finalmente chegou ligou ao filho,
que a levou ao consultório privado de um colega em quem confiava. Ele
suturou a ferida e proibiu-a de usar a peruca durante uma semana.

Quando vi a Kate, três dias mais tarde, a cabeça estava enrolada numa
écharpe e ela dilacerada por uma onda de vergonha. Envergonhada pela
cabeleira, pelo divórcio, pelo seu estatuto de mulher sozinha numa
cultura de casais. Envergonhada, também, por ter tido uma mãe
grosseira e psicótica (que lhe dava sempre gelado de café quando ela
estava infeliz), pela pobreza que enfrentou durante toda a sua
infância e, ainda, pelo pai irresponsável que abandonara a família
quando ela era pequena.

85
Sentia-se derrotada. Kate tinha a certeza de que não fizera quaisquer
progressos naqueles dois anos de terapia, nem tão-pouco nas terapias
prévias.

Não querendo ser vista sem a cabeleira, passou a semana inteira


dentro de casa (à excepção da nossa sessão), embrenhada numa
gigantesca operação de limpeza. Enquanto arrumava os armários
descobriu umas notas feitas durante a nossa terapia passada e ficou
chocada por descobrir que havíamos discutido exactamente os mesmos
assuntos vinte anos antes. Não só trabalháramos para aliviar a
vergonha, como batalhámos, longa e arduamente, para a libertar da sua
mãe intrusiva e perturbada, que então ainda estava viva.

Com os apontamentos na mão e a cabeça tapada com um elaborado


turbante turco, chegou à sessão seguinte altamente desencorajada pela
incapacidade que parecia ter de progredir e superar os seus
problemas.

«Vim vê-lo, nesta última fase, por causa das minhas questões sobre o
envelhecimento e os meus medos da morte, pelo que aqui estou outra
vez, no exacto mesmo ponto, depois destes anos todos: cheia de
vergonha, com saudades da minha mãe maluca e a consolar-me com o seu
gelado de café.»

«Kate, imagino como deve sentir-se com este regresso de problemas tão
antigos. Mas deixe-me dizer-lhe algo que possivelmente vai ajudá-la,
uma frase que Nietzsche disse há mais de um século:

«Quando estamos cansados somos atacados por ideias que já


ultrapassámos há muito tempo.»

Kate, que geralmente nunca permitia um momento de silêncio e


costumava falar a alta velocidade, ficou subitamente silenciosa.

Repeti a frase de Nietzsche. Kate abanou a cabeça ligeiramente e na


sessão que lhe sucedeu voltámos a trabalhar nas suas preocupações
sobre o envelhecimento e os seus receios acerca do futuro.

O aforismo continha um dado novo: eu próprio já a tinha assegurado de


que ela estava simplesmente a sofrer uma regressão em resposta ao
trauma, contudo a fraseologia elegante e a consciência de que a sua
experiência era partilhada até por grandes pensadores como Nietzsche
ajudou-a a entender que esse seu estado mental era apenas temporário.

86
Auxiliou-a a sentir, no mais íntimo de si, que, se já fora capaz de
conquistar por uma vez os seus demónios internos, seria capaz de o
tornar a fazer.

Boas ideias, até ideias poderosas, raramente bastam quando aplicadas


numa só dose: são necessárias «vacinações» repetidas.

Viver uma vida igual, outra e outra vez, por toda a eternidade

No Assim Falava Zaratustra, Nietzsche retratou um profeta


envelhecido, muito sábio, que decidiu descer do topo da montanha e
partilhar o que aprendera com os demais.

De todas as ideias que pregava, havia uma que considerava ser a sua
«ideia mais potente» — a ideia do eterno retorno. Zaratustra propõe
um desafio: e se pudesse viver uma existência igualzinha à que viveu,
uma e outra vez, por toda a eternidade, de que forma isso mudaria a
sua vida neste momento? As arrepiantes palavras que se seguem são a
sua primeira descrição do eterno retorno. Já as li inúmeras vezes a
diferentes pacientes. Tente agora lê-las alto para si mesmo.

E se, algum dia ou noite, um demónio fosse atrás de si até à sua


solidão mais solitária e lhe dissesse: «Esta vida, como agora a vive
e a tem vivido, vai ter de a viver mais uma vez e inúmeras outras; e
nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada alegria, cada
pensamento e cada suspiro, do mais pequenino pormenor aos momentos
mais grandiosos, terão de regressar a si na exacta mesma sucessão e
sequência — até esta aranha e este luar entre as árvores, e mesmo
este preciso segundo e até mesmo eu. A eterna ampulheta da existência
é novamente virada ao contrário, uma e outra vez, e você com ela, sua
partícula de poeira!»

Não se atiraria para o chão a ranger os dentes e a amaldiçoar o


demónio que falasse assim? Ou já alguma vez experimentou um momento
tão fabuloso que o teria levado a responder: «Quem fala assim é um
deus, porque nunca ouvi nada tão divino.» Se este pensamento tomasse
conta de si nunca mais seria quem é, ou talvez o oprimisse de tal
forma que acabaria esmagado por ele.

87
A mera sugestão de que possa ser obrigado a voltar a viver tudo, da
exacta mesma maneira, por toda a eternidade pode ser assustadora, um
tipo de petite terapie de existencial choque. Muitas vezes serve como
exercício de raciocínio que nos deixa mais sóbrios, levando-nos a
pensar duas vezes sobre a forma como realmente vivemos. Tal como o
Fantasma do Natal que Ainda Está para Vir, aumenta a percepção de que
esta vida, a sua única vida, deve ser plenamente vivida, acumulando o
mínimo de arrependimentos possível. Nietzsche serve assim como guia,
levando-nos para longe das preocupações fúteis e ao encontro de uma
existência cheia de vitalidade.

Nenhuma mudança positiva pode ocorrer enquanto se agarrar ao


pensamento de que a razão pela qual não vive como quer é exterior a
si mesmo. Enquanto depositar a responsabilidade inteiramente nos
outros que o injustiçam — um marido que não a merece, um exigente e
pouco simpático patrão, genes de fraca qualidade, compulsões
irresistíveis —, a sua situação vai manter-se num impasse. Você e só
você é responsável pelo ponto em que se encontra a sua vida, pelas
traves-mestras que a sustentam, dependendo inteiramente de si mudar
aquilo que não o faz feliz. Mesmo que seja obrigado a enfrentar
obstáculos exteriores, por vezes incrivelmente dolorosos, ainda assim
tem a liberdade de optar pela forma como vai assumir e lidar com
essas dificuldades.

Uma das frases preferidas de Nietzsche é amor fati (ame o seu


destino), ou, por outras palavras, crie um destino que seja capaz de
amar.

A princípio, Nietzsche avançou com a ideia da repetição eterna como


uma proposta séria. Se o tempo fosse infinito, raciocinava, e a
matéria finita, então todas as combinações importantes teriam de
repetir-se aleatoriamente, à semelhança de um hipotético exército de
macacos copistas que por acaso, durante o decurso de um bilião de
anos, produziria o Hamlet de Shakespeare. É aqui que o raciocínio
matemático falha e tem sido pesadamente criticado pelos defensores da
lógica. Há alguns anos, quando visitei Pforta, a escola onde
Nietzsche foi educado desde os catorze anos até aos vinte, foi-me
permitido espreitar as suas classificações académicas, que mostravam
que tinha notas muito altas a Grego, Latim e Estudos Clássicos
(apesar de não ser, como o arquivista idoso que me serviu de guia fez
questão de apontar, o melhor aluno da sua turma nesta matéria), mas
notas particularmente fracas a Matemática.

88
Em última instância, Nietzsche, talvez ciente de que este tipo de
especulação não era o seu forte, empenhou-se exclusivamente no eterno
retorno apenas como um exercício do pensamento.

Se o leitor fizer esta experiência e descobrir que a ideia o


horroriza, magoa e é mesmo insuportável, saiba que há uma explicação
óbvia para que se sinta assim: não acredita que viveu a sua vida
plenamente. Se assim for, se fosse a si continuaria o exercício
colocando questões como «Porque sente que não viveu como queria?» ou
«Que arrependimentos o assombram?»

O meu propósito não é afogar alguém num mar de lamentações pelo


passado, mas apenas conduzir o seu olhar em direcção ao futuro e ao
encontro desta pergunta que tem o potencial de mudar a existência: O
que pode fazer agora para que daqui a um ou a cinco anos não olhe
para trás com horror para os novos arrependimentos que acumulou? Dito
de outra maneira: consegue encontrar uma maneira de viver que não
implique continuar a acumular «lamentos»?

A experiência de pensamento de Nietzsche providencia uma ferramenta


eficaz para o clínico que pretenda ajudar aqueles cuja ansiedade de
morte advém do sentimento de não ter vivido a sua vida como ela
deveria ter sido vivida. Dorothy oferece-nos um magnífico exemplo
clínico:

A Fatia dos dez Por Cento: Dorothy. Dorothy, uma bibliotecária de


quarenta anos, sentia-se armadilhada pela vida. Afogava-se em
lamentos por uma miríade de razões, como a sua incapacidade de
perdoar ao marido por ter tido um caso extra conjugal, que a levara a
terminar o casamento; pelo seu falhanço em se reconciliar com o pai
antes da morte deste; por se ter deixado apanhar por um trabalho de
que não gostava, numa localidade que odiava.

Um dia encontrou um anúncio de emprego em Portland, no Oregon, que


considerava ser um sítio mais agradável para viver, e, durante um
curto período, considerou seriamente candidatar-se. Contudo, a sua
excitação foi rapidamente engolida por um tsunami de pensamentos
negativos: era velha de mais para mudar, os seus filhos iam detestar
deixar os amigos, não conhecida absolutamente ninguém em Portland, o
salário era mais baixo e não tinha a certeza de vir a gostar dos seus
novos colegas.

89
«Durante um tempo ainda tive esperança», disse-me ela, «mas, como vê,
estou mais presa do que antes.»

«A mim parece-me», respondi-lhe, «que está presa, mas é a carcereira


dessa mesma prisão. Entendo como todas essas circunstâncias podem
tornar mais complicado mudar a sua vida, mas perguntou-me se explicam
tudo. Vamos supor que todas essas razões, que estão fora do seu
controlo e pertencem à vida real — os seus filhos, a sua idade, o
dinheiro, os colegas desagradáveis — justificam, digamos, cerca de
noventa por cento da sua inércia; mesmo assim pergunto-me se não
haverá uma fatia que lhe pertence a si — mesmo que sejam só os
restantes dez porcento...?»

Ela acenou o seu acordo.

«Bem, são esses dez por cento que queremos analisar aqui, na nossa
terapia, porque é essa a parte, a única parte, que pode mudar.» Por
essa altura descrevi-lhe a experiência de pensamento de Nietzsche e
li-lhe a passagem do eterno retorno. De seguida pedi a Dorothy para
se projectar no futuro de acordo com o que tinha ouvido. Acabei
fazendo esta sugestão: «Vamos fingir que passou um ano e estamos a
reencontrar-nos neste consultório, pode ser?»

Dorothy acenou levemente, «Ok, mas acho que sei onde isto vai levar-
nos.»

«Mesmo assim vamos tentar. Já passou um ano.» Comecei eu o jogo:


«Então, Dorothy, vamos lá examinar o ano que passou. Diga-me, que
novos arrependimentos tem? Ou, na linguagem da experiência de
pensamento de Nietzsche, estaria disposta a viver estes últimos 365
dias vezes sem conta, para toda a eternidade?»

«Não, não queria viver presa nessa armadilha para sempre, de maneira
alguma — três filhos, pouco dinheiro, péssimo trabalho, ainda presa a
tudo.»

«Vamos agora olhar para a sua quota-parte de responsabilidade, para


os seus dez por cento, na maneira como as coisas correram neste
período de tempo. Do que se arrepende nestes últimos doze meses?

O que poderia ter feito de forma diferente?»

«Bem, a porta da cela abriu-se, só um nadinha, uma vez, com aquela


possibilidade de emprego em Portland.»

«E se tivesse de viver o ano novamente...?»

90
«Sim, sim, percebo aonde quer chegar. Provavelmente vou passar este
próximo ano a lamentar-me por nem sequer ter tentado ir à entrevista
para o tal emprego.»

«Certo. É exactamente por isso que lhe digo que é a prisioneira e a


carcereira.»

Dorothy foi realmente tentar a candidatura, chegou a ser


entrevistada, visitou a comunidade e finalmente ofereceram-lhe o
lugar, mas acabou por rejeitar a oferta depois de ter ido ver as
escolas, analisado o clima, os custos imobiliários e do dia-a-dia.
Contudo, o processo abriu-lhe os olhos (e a porta da cela). Sentia-se
mais confiante em si mesma, pelo simples facto de ter sido capaz de
seriamente considerar uma mudança; quatro meses mais tarde foi a uma
outra entrevista e aceitou um trabalho melhor, mas mais perto de
casa.

Nietzsche quis enunciar duas ideias de «granito», que fossem


suficientemente fortes para resistir à erosão do tempo: «Torna-te
naquilo que és» e «Aquilo que não me mata deixa-me mais forte.» Foi
exactamente isso que aconteceu e ambas entraram no vernáculo da
terapia. Examinaremos uma de cada vez.

«Torna-te naquilo que és»

O conceito da primeira frase à prova do tempo — «Torna-te naquilo que


és» — já era familiar a Aristóteles e foi passada por Spinoza,
Leibniz, Goethe, Nietzsche, Ibsen, Karen Horney, Abraham Maslow e
pelo espírito humanista dos anos sessenta, até aos nossos actuais
conceitos de auto-realização.

O conceito de nos tornarmos «no que somos» está fortemente ligado a


outras asserções de Nietzsche: «Preenche a tua vida» e «Morre na
altura certa». Em todas estas variantes, Nietzsche exortava-nos a
evitar uma vida não vivida. Dizia-nos: preencha-se, realize o seu
potencial, viva ousadamente e completamente. Então, e só então, morra
sem arrependimento.

91
Por exemplo, Jennie, uma secretária de um escritório de advogados com
trinta e um anos, consultou-me devido a uma severa ansiedade de
morte.

Depois de quatro sessões teve um sonho:

Estou em Washington, onde nasci, caminho na cidade com a minha avó


agora morta. Depois chegamos a um bairro lindíssimo, com casas que
eram autênticas mansões. A mansão a que fomos era enorme e toda
branca. Uma velha amiga do liceu vivia lá com a família. Estava
contente por voltar a vê-la e ela mostrou-me a sua casa. Fiquei
impressionada — era linda e cheia de quartos. Tinha trinta e um
quartos, todos mobilados. Então disse-lhe: «A minha casa tem cinco
quartos e só dois têm mobília.» Acordei muito ansiosa e furiosa com o
meu marido.

A sua intuição sobre o sonho era de que os trinta e um quartos


representavam os seus trinta e um anos e todas as diferentes áreas de
si própria que precisava de explorar. O facto de a sua casa ter
apenas cinco quartos e só dois deles serem mobilados reforçou a
convicção de que não estava a viver plenamente. A presença da avó,
que morrera havia três meses, tingia o sonho com medo.

A verdade é que aquele sonho acelerou dramaticamente o nosso


trabalho. Perguntei-lhe acerca da raiva que sentira em relação ao
marido, e, com muito embaraço, revelou-me que ele agredia-a
frequentemente. Ela estava perfeitamente consciente de que tinha de
fazer algo para mudar a sua vida, ainda que aterrorizada com o medo
de abandonar o casamento: possuía pouca experiência com homens e
estava certa de que não conseguiria encontrar outro. A sua auto-
estima estava tão em baixo que durante vários anos aturou os abusos
do marido, em lugar de arriscar tudo e confrontá-lo com a exigência
de grandes mudanças. Naquele dia, depois da nossa sessão, não voltou
para casa, procurando refúgio em casa dos pais, com quem ficou
durante várias semanas. Fez um ultimato ao marido: só punha a
hipótese de ficar com ele se aceitasse uma terapia familiar. Ele
aceitou e um ano de terapia de casal e individual resultou numa
grande melhoria da relação.

92
«Aquilo que não me mata torna-me mais forte.»

A segunda frase à prova do tempo, da autoria de Nietzsche, tem sido


usada, por vezes até abusada, por muitos escritores contemporâneos.
Foi, por exemplo, um dos temas favoritos de Hemingway (no livro Adeus
às Armas escreveu «tornamo-nos mais fortes nos locais mais
devastados»). Apesar de tudo, o conceito consegue de forma vigorosa
relembrar que as experiências dolorosas podem deixar-nos mais fortes
e mais capazes de nos adaptarmos à adversidade. Este aforismo está
relacionado, de forma muito próxima, com a ideia de Nietzsche de que
uma árvore, ao suportar as tempestades e enterrar as suas raízes mais
profundamente na terra, cresce mais alta e mais forte.

Outra variante deste tema foi-me dada por uma das minhas pacientes,
uma mulher toda despachada e inteligente, administradora de uma
grande empresa. Em criança fora vítima de uma guerra verbal, cruel e
continuada, por parte do pai. Numa das sessões descreveu-me um sonho
que tivera acordada, aliás uma novidade original para a terapia
futurista.

«No meu sonho diurno estava a consultar uma terapeuta que tinha uns
aparelhos de alta tecnologia que apagavam completamente as memórias.
Talvez tenha roubado a ideia do filme de Jim Carey, Eternal Sunshine
of the Spotless Mind. Seja como for, imaginei que, certo dia, o
terapeuta me perguntava se desejava que eliminasse completamente
todas as memórias da existência do meu pai. Só ficava a saber que
nunca tinha tido pai em casa. A princípio parecia-me uma sugestão
fantástica, mas depois, quando me pus a pensar melhor sobre o
assunto, percebi que era uma escolha difícil.»

«Porquê uma escolha difícil?»

«De facto, num primeiro momento, aparentemente não havia qualquer


razão para hesitar: o meu pai era um monstro e aterrorizara-me, a mim
e às minhas irmãs, durante toda a nossa infância. Mas, depois, decidi
deixar a minha memória exactamente como estava. Apesar dos abusos
horríveis que sofri, tenho tido mais sucesso na minha vida do que
alguma vez imaginei. De alguma maneira desenvolvi uma grande
resiliência e um enorme desembaraço. E isso aconteceu apesar do meu
pai? Ou devido a ele?»

93
Esta fantasia foi a primeira etapa de uma grande mudança na forma
como encarava o seu passado. Não era tanto uma questão de perdoar o
pai, mas antes uma forma de fazer as pazes com o facto de não poder
alterar o que estava para trás. Ficou um pouco abalada com o meu
comentário de que, mais cedo ou mais tarde, teria de perder a
esperança de vir a ter um passado melhor. Fora moldada e endurecida
pela adversidade que enfrentara em casa, mas a verdade é que
aprendera a lidar com a realidade, criando estratégias engenhosas que
lhe foram muito úteis ao longo de toda a vida.

«Alguns recusam o empréstimo da vida para evitarem ter de pagar a


dívida à morte.»

A Bernice chegou à terapia com um problema que a embaraçava. Apesar


de ela e o seu marido, Steve, terem tido um casamento maravilhoso
durante mais de vinte anos, sentia-se inexplicavelmente irritada com
ele. Tinha a sensação de que estava retrair-se de tal forma que até
já fantasiava uma separação.

Questionei-me sobre o timing desta reacção e perguntei-lhe se se


recordava de quando começara a mudar os seus sentimentos pelo Steve.
Bernice foi absolutamente precisa na resposta: as coisas começaram a
correr mal no dia em que ele fizera setenta anos, quando subitamente
se reformara do seu emprego de corretor e começara a trabalhar por
conta própria a partir de casa.

Estava confusa com a raiva que sentia contra ele. Embora me


garantisse que Steve não mudara em nada, confessava que agora
encontrava mil defeitos para o criticar: o seu desmazelo, o excesso
de tempo frente à televisão, a falta de atenção para com a sua
própria aparência, o facto de não praticar exercício físico.

Apesar de Steve ser vinte e cinco anos mais velho do que ela, a
verdade é que sempre fora vinte e cinco anos mais velho! Tinha sido o
momento da reforma a levá-la a tomar consciência de que agora já era
um homem de idade.

Várias pistas surgiram desta nossa discussão. Primeiro, no fundo,


desejava distanciar-se de Steve para evitar o contágio, ou, como me
dizia, para evitar um «fast-forward» (uma acelera a toda a
velocidade) ao encontro da sua própria velhice.

94
Segundo, nunca fora capaz de apagar a dor da morte da sua mãe quando
ela era apenas uma criança de dez anos; não queria voltar a enfrentar
essa perda, que certamente ocorreria quando Steve morresse.

Parecia-me que Bernice tentava proteger-se a si mesma da dor de


perder Steve, procurando desligar-se dele por antecipação. Disse-lhe
que nem a sua raiva nem o seu afastamento me pareciam formas eficazes
de evitar fins tristes ou perdas dolorosas. Consegui tornar o seu
comportamento cristalino, citando-lhe Otto Rank, um colega de Freud,
que afirmou: «Alguns recusam o empréstimo da vida para evitarem ter
de pagar a dívida da morte.» Esta dinâmica não é invulgar. Tenho a
certeza de que muitos de nós já conhecemos pessoas que se anestesiam,
e evitam tirar partido do dia-a-dia, por medo do que vem a seguir, de
virem a perder demasiado.

À medida que avançávamos comentei: «É como ir num cruzeiro e recusar-


se a fazer amizades, ou participar nas actividades mais
interessantes, de forma a evitar a dor do inevitável fim do passeio.»

«Apanhou-me, é exactamente isso», respondeu-me.

«Ou não desfrutar o pôr-do-sol porque...»

«Sim, sim, sim, já percebi aonde quer chegar», interrompeu-me a rir.

Quando nos preparávamos para começar a pensar em como íamos lidar com
a necessidade de aprender a enfrentar a mudança, vários outros temas
surgiram. Temia reabrir a ferida que tinha sofrido aos dez anos,
quando a mãe morrera. Depois de várias sessões conseguiu perceber a
ineficácia da sua estratégia inconsciente. Antes de mais, já não era
uma criança sem defesas nem recursos. Não só era impossível evitar o
desgosto quando Steve morresse, já que se continuasse assim era mais
do que certo que esse sofrimento seria amplificado pela culpa de o
ter abandonado exactamente quando ele mais precisava dela.

Otto Rank defendeu uma dialéctica muito útil, a existência de duas


polaridades mantidas em tensão, um pólo de «ansiedade primai», ou da
vida, e outro de «ansiedade de morte», que o terapeuta pode utilizar
em benefício do paciente. Na tese de Rank, qualquer pessoa em
desenvolvimento anseia pela singularidade, crescimento e
possibilidade de atingir todo o seu potencial.

95
Mas este anseio tem um custo! Ao emergir, expandir-se e sobressair da
natureza dá de caras com a «ansiedade Primai», uma solidão
assustadora, um sentimento de vulnerabilidade, de falta de pertença,
de ligação com um todo maior do que ela. Quando esta ansiedade se
torna insuportável, o que fazemos? Tomamos a outra direcção:
recuamos; fugimos da separação e encontramos conforto na fusão —
fundimo-nos com o outro, desistindo de nós mesmos, em favor dele.

Contudo, apesar do calor e conforto que nos dá, a solução da fusão é


instável: após algum tempo voltamos a recusar perdermos o nosso
«self» e somos invadidos por um sentimento de estagnação. Desse modo,
a fusão dá origem à «ansiedade de morte.» E é de um destes pólos para
o outro — da ansiedade de vida para a ansiedade de morte, da
individuação para a fusão e vice-versa — que corremos durante toda a
nossa existência. Esta formulação acabou por ser a espinha dorsal do
extraordinário livro de Ernest Becker, The Denial of Death.

Alguns meses depois de Bernice ter terminado a terapia teve um


pesadelo curioso, e altamente inquietante, que a levou a marcar uma
nova consulta para o discutirmos. No e-mail que me enviou descrevia o
sonho:

Estou aterrorizada por um crocodilo que me persegue. Embora consiga


saltar a cinco metros de altura para iludi-lo, ele não me larga. Não
importa onde me tente esconder porque ele encontra-me sempre. Acordei
a tremer e encharcada em suor.

Na nossa sessão, Bernice debatia-se com o significado do sonho. Não


tinha dúvidas de que o crocodilo representava a morte a persegui-la.
Também percebia que não havia fuga possível. Mas porquê agora? A
resposta tornou-se clara quando explorámos os acontecimentos do dia
anterior ao pesadelo. Nessa noite, o seu marido, Steve, por pouco não
tivera um acidente de viação e, após o susto, discutiram um com o
outro furiosamente porque Bernice insistia que Steve deveria deixar
de conduzir à noite, porque a sua visão nocturna estava afectada.

Mas porquê um crocodilo? De onde teria surgido? Quando começou a


pensar nisso recordou-se de que antes de se deitar vira um programa
de televisão sobre a morte do Steve Irwin, o «homem-crocodilo» da
Austrália, que morrera vítima de uma raia numa das suas expedições
submarinas.

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Enquanto continuávamos a falar ela deu um salto, como se tivesse tido
uma súbita inspiração: é que de repente tomou consciência de que o
nome Steve Irwin era a combinação do nome do seu marido e do meu nome
próprio — os dois homens de idade que ela mais temia perder.

• Os Três Ensaios de Schopenhauer: o Que Um Homem é, o Que Um Homem


Tem, o Que Um Homem Representa

Quem, entre nós, não conheceu alguém (talvez até nós mesmos) tão
empenhado nas aparências, tão desejoso de acumular riqueza, tão
preocupado com as opiniões que os outros têm sobre si ao ponto de
perder toda a noção do «self»? Uma pessoa assim, quando lhe colocam
uma questão, procura a resposta fora e nunca dentro de si; ou seja,
ele ou ela buscam, nas expressões faciais de quem os rodeia, decifrar
a resposta que desejam ou esperam.

Para esses descobri a utilidade de resumir três ensaios escritos por


Schopenhauer (para qualquer pessoa interessada em filosofia vale a
pena uma leitura integral, porque são escritos numa linguagem clara e
acessível). Basicamente enfatizam que apenas o que uma pessoa é
conta; nem dinheiro, nem bens materiais, nem estatuto social, nem
sequer uma boa imagem, resultam em felicidade. Embora estes
pensamentos se refiram explicitamente a questões existenciais,
ajudam-nos a passar da superficialidade a problemas mais profundos.

1. O que temos. Bens materiais são uma ilusão. Schopenhauer


argumenta, com elegância, que a acumulação de riqueza e de bens
materiais é infinita e insatisfatória; quanto mais possuímos, mais
desejamos.

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A riqueza é como a água do mar: quanto mais bebemos, mais sede
sentimos. No final, não somos nós que temos os bens, mas os bens que
nos têm a nós.

2. O que representamos aos olhos dos outros. A fama é tão evanescente


como os bens materiais. Schopenhauer escreve: «Metade das nossas
preocupações e ansiedades nasce do valor que damos às opiniões dos
outros... Temos de ser capazes de extrair esse espinho da nossa
pele.» Tão poderoso é o desejo de causar uma boa impressão que alguns
condenados à morte já foram para a cadeira eléctrica mais preocupados
com a forma como vão vestidos, e as últimas palavras que vão
proferir, do que com qualquer outra coisa. A opinião dos outros não
passa de uma ilusão, já que se pode alterar a qualquer momento. As
opiniões são voláteis e tornam-nos escravos do que outros pensam ou,
pior, do que achamos que pensam — porque nunca poderemos
verdadeiramente saber o que lhes vai na cabeça.

3. O que somos. Somente o que somos é fundamental. Uma consciência em


ordem, diz Schopenhauer, vale muito mais do que uma boa imagem. O
nosso objectivo primeiro deveria ser a saúde e a riqueza intelectual,
que nos conduz a um manancial sem fim de ideias criativas, a uma vida
independente e moral. A equanimidade interior nasce do facto de
sabermos que não são as coisas em si que nos perturbam, mas a
interpretação que lhes damos.

Esta última ideia — de que a qualidade da nossa vida é determinada


pela forma como interpretamos as nossas experiências, e não pelas
experiências em si — é uma doutrina terapêutica importante que nos
chega da antiguidade. Um ponto fulcral entre os estóicos passou por
Zeno, Séneca, Marco Aurélio, Spinoza, Schopenhauer e Nietzsche, para
se tornar num conceito fundamental, tanto na terapia dinâmica como na
terapia cognitivo-comportamental.

Ideias como as leis de Epicuro, o rippling, a importância de uma vida


plena e a ênfase na autenticidade, que nos chegam através dos
aforismos que cito, são importantes no combate à ansiedade de morte.

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Mas o poder de todas estas ideias é imensamente potenciado por um
outro componente — conexões íntimas com os outros — que vou explorar
no próximo capítulo.

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<Página em branco>
Capítulo 5

• SUPERAR O TERROR DA MORTE ATRAVÉS DAS RELAÇÕES

Quando finalmente percebemos que vamos morrer, e entendemos que tudo


e todos morrem como nós, sentimos um ardor intenso, uma percepção que
ameaça partir-nos o coração, de como cada momento, e cada ser, é
frágil e precioso. Daqui pode nascer uma profunda, clara e ilimitada
compaixão para com aqueles que nos rodeiam.

Sogyal Rinpoche, The Tibetan Book of Living and Dying

Morte é destino. O nosso desejo de sobreviver e o nosso terror da


aniquilação estarão sempre presentes. É instintivo — está imbuído no
nosso protoplasma — e tem um efeito gigantesco na forma como vivemos.

Ao longo dos séculos, nós, humanos, desenvolvemos um imenso leque de


fórmulas — algumas conscientes, outras inconscientes, talvez tantas
quantas as pessoas que pisam o planeta — para aliviar o medo da
morte. Alguns métodos funcionam, outros são pouco seguros e ainda
menos eficazes. De entre aquelas pessoas que se permitem olhar a
morte de frente, e integrar a sua sombra no mais íntimo de si, a
jovem mulher que me escreveu este e-mail é um óptimo exemplo:

Perdi o meu amado pai há já dois anos e desde então tenho


experimentado um crescimento interior absolutamente imprevisível. Até
então questionava muitas vezes a minha capacidade para confrontar a
finitude e era assombrada pela ideia de que também morreria um dia.

101
Contudo, encontrei agora nessas ansiedades e medos uma paixão pela
vida que me era desconhecida. Às vezes sinto-me distante dos que me
rodeiam, porque me preocupo muito menos do que eles com
trivialidades, eventos sociais, modas. Apesar disso julgo que atingi
um grande equilíbrio e consigo aceitar as diferenças porque acredito
ter interiorizado o que é realmente importante e aquilo que não é.
Acho que vou ter de aprender a lidar com o strain que me provoca
seguir caminhos que não são aqueles que os outros esperam que
prossiga. É maravilhoso saber que este meu entusiasmo pela vida é
mais do que um disfarce para os meus medos da morte. Tenho a certeza
de que resulta da prontidão com que agora aceito a minha condição de
mortal. Suspeito de que ganhei alguma confiança na minha capacidade
de «apanhar» o que se passa em meu redor.

Aqueles que não «apanham» a mensagem, geralmente lidam com a


mortalidade através da negação, diversão ou deslocando os seus
receios para outro alvo. Já vimos os vários exemplos de pessoas que
não conseguiram lidar bem com estes sentimentos em capítulos
anteriores: Júlia, que era tão cronicamente amedrontada que se
recusava a participar em qualquer actividade que envolvesse um risco,
mesmo se diminuto, e Susan, que projectava a ansiedade de morte em
preocupações triviais (ver Capítulo 3); outros eram atormentados por
pesadelos, ou diminuíam-se a si próprios «recusando o empréstimo da
vida para evitarem ter de pagar a dívida à morte». Há, ainda, aqueles
que compulsivamente procuram novidade, sexo, riqueza ilimitada ou
poder.

Adultos torturados pela ansiedade de morte não são exemplares únicos


que contraíram uma doença exótica, mas homens e mulheres cujas
famílias e cultura falharam no tricotar de uma manta protectora que
os ajudasse a resistirem ao frio gélido da mortalidade. Podem ter
dado de caras com a morte demasiado cedo na vida; podem não ter tido
nunca a experiência, em casa, de um núcleo de amor, carinho e
segurança; podem ter sido indivíduos solitários que nunca partilharam
as suas preocupações mais íntimas; ou talvez tenham sido seres
hipersensíveis, com uma autoconsciência muito particular que os foi
levando a recusar o conforto dos mitos religiosos, que negam a morte,
professados pela sua cultura.

Cada época histórica desenvolve os seus próprios métodos para lidar


com a finitude.

102
Certas culturas — por exemplo no antigo Egipto — eram claramente
organizadas em redor da rejeição assumida da morte e da promessa de
uma vida posterior. Os túmulos dos mortos — pelo menos os de classe
alta (que são aqueles que sobreviveram ao tempo) — eram atolados com
artefactos do dia-a-dia, que proporcionariam mais conforto na tal
vida posterior.

Para citar um exemplo, o Museu de Arte de Brooklyn mostra-nos


estátuas funerárias de hipopótamos sepultados com os mortos, para que
estes pudessem brincar com eles na vida seguinte. Porém, não fossem
os animais assustar os pobres mortos, faziam-lhes as pernas
pequeninas, de modo a torná-los lentos e inofensivos.

Na Europa, e na cultura ocidental mais recente, a morte era mais


visível em consequência da alta taxa de mortalidade infantil e das
mulheres que faleciam no parto. Os mortos não eram sequestrados numa
cama de hospital como o são hoje; a maior parte das pessoas morria em
casa, com os membros da família presentes nos momentos finais. Não
havia família que não fosse tocada por uma morte fora de tempo e as
sepulturas eram localizadas no cemitério mais próximo de casa e
visitadas frequentemente. Porque o Cristianismo prometia uma vida
eterna e os padres tinham as chaves da entrada e saída nesse mundo, a
maioria das pessoas virava-se para a consolação religiosa, que
geralmente continha a promessa de uma vida pós-morte. Ainda hoje,
muitas pessoas retiram conforto dessas crenças. Na minha discussão
sobre a consolação religiosa, no Capítulo 6, tentarei distinguir
entre consolo em face do carácter final da morte e a consolação
através da sua negação.

Para mim, tanto pessoalmente como na minha prática psicoterapêutica,


a abordagem que confirmei como mais eficiente no combate à ansiedade
de morte é a abordagem existencial. Ao longo destes anos fui
coleccionando um grande número de ideias, a que chamo poderosas, e
que possuem, só por si, um valor intrínseco, mas neste capítulo quero
discutir uma componente adicional, absolutamente necessária para que
essas mesmas ideias sejam realmente motor de transformação: a
conectividade humana. É na sinergia entre ideias e relações íntimas
com os demais que se consegue diminuir, de forma mais eficaz, a
ansiedade de morte, produzindo uma experiência do despertar capaz de
levar a uma mudança pessoal.

103
• Conectividade Humana •

Todos os seres humanos estão programados para se conectarem uns aos


outros. Estudemos a sociedade humana, seja de que ângulo for —
olhando-a de um ponto de vista histórico, global ou através da
biografia de um único dos seus indivíduos —, e somos obrigados a ver
o ser humano no seu contexto interpessoal. Há dados bem
fundamentados, recolhidos tanto em estudos acerca de comunidades
humanas primitivas como em sociedades contemporâneas, que
testemunham, de forma efectiva, a nossa necessidade de pertença:
vivemos sempre em grupos com intensas e persistentes ligações entre
os seus membros. Tudo isto se confirma, já que uma série de trabalhos
recentes na área da psicologia positiva enfatiza que os
relacionamentos íntimos são uma condição sine qua non da felicidade.

Contudo, morrer é solitário, o acontecimento mais solitário da vida.


A morte não só nos separa dos outros como também nos expõe a uma
segunda, ainda mais terrível, forma de solidão: a separação do mundo
em si.

Dois tipos de solidão

Existem dois tipos de solidão: a quotidiana e a existencial. A


primeira é interpessoal, a dor de nos sentirmos isolados de quem nos
rodeia. Esta solidão — frequentemente ligada ao receio da intimidade
ou a sentimentos de rejeição, vergonha ou de não se ser amado — é-nos
familiar a todos. De facto, a maior parte do trabalho da psicoterapia
é direccionada para ajudar os pacientes a aprenderem a formar
relações mais íntimas, sustentadas e duradouras com os outros.

A solidão potencia a angústia de morrer. Demasiadas vezes, a nossa


cultura cria cortinas de silêncio e isolamento em redor dos que
morrem. Na sua presença, os familiares e amigos geralmente ficam mais
distantes porque não sabem o que dizer. Temem perturbar a pessoa.

104
Evitam também aproximar-se demasiado, por medo de confrontarem os
seus medos pessoais acerca da sua própria morte. Mesmo os deuses
gregos fugiam de medo quando o momento da morte humana se aproximava.

Este isolamento do dia-a-dia funciona de duas formas: não só os que


estão bem tendem a evitar os que morrem, como os que estão a morrer
muitas vezes contribuem para o seu próprio isolamento. Adoptam o
silêncio de modo a não arrastarem os seus amados para o seu mundo
deprimido e macabro. Mesmo alguém que não esteja fisicamente doente,
mas que sofra de crises de ansiedade de morte, tenderá a comportar-se
da mesma forma. Claro que tal isolamento torna o medo ainda mais
forte e real. Como William James escreveu há um século, «não poderia
ser inventado um castigo mais diabólico, mesmo que tal coisa fosse
fisicamente possível, do que ser lançado para o seio de uma sociedade
e permanecer absolutamente invisível aos olhos de todos».

A segunda forma de solidão, a solidão existencial, é mais profunda e


advém do desfiladeiro intransponível entre o indivíduo e as outras
pessoas. Esta fenda é consequência não só de cada um de nós ter
chegado absolutamente sozinho a este mundo, e de ter de sair dele
igualmente sozinho, como também do facto de habitarmos um mundo
interior que só nós conhecemos em absoluto.

No século XVIII, Immanuel Kant estilhaçou a suposição habitual, e de


senso comum, de que vivemos num mundo cuja construção já está
terminada, partilhada por todos. Hoje sabemos que, em consequência do
nosso aparato neurológico, cada pessoa desempenha um papel
substancial na criação da sua própria realidade. Por outras palavras,
faz parte do nosso sistema operativo um grande número de categorias
mentais (por exemplo quantidade, qualidade, causa e efeito), que
entram em jogo quando confrontamos uma nova informação sensorial, que
nos permitem automaticamente e inconscientemente constituir o mundo
de uma forma única.

Sendo assim, o isolamento existencial refere-se ao medo que cada um


tem de perder não só a sua vida biológica como também o seu mundo
rico e maravilhoso, que não existe igual na cabeça de mais ninguém.
As minhas memórias mais pungentes — enterrar a cara no casaco fofo da
minha mãe, que tinha sempre um ligeiro cheiro a cânfora; a troca de
olhares (cheios de excitantes possibilidades) com as raparigas da
minha escola primária, no Dia dos Namorados; jogar xadrez com o meu
pai e pinochle com os meus tios, em cima de uma mesa com um tampo de
cabedal encarnado e as pernas torneadas; construir uma banca de fogo-
de-artifício com o meu primo, quando tinha vinte anos —, todas estas
memórias, e muitas outras, mais numerosas do que as estrelas no céu,
são minhas e só minhas e só eu posso aceder-lhes.

105
Todas, e cada uma delas, são apenas uma imagem-fantasma que se
esfumará para sempre com a minha morte.

Cada um de nós experiência o isolamento interpessoal (o sentimento


quotidiano de solidão) de forma diversa, ao longo das diferentes
fases do nosso ciclo de vida. Mas o isolamento existencial, menos
comum nos primeiros anos, é habitualmente sentido com mais
intensidade à medida que vamos envelhecendo, e está,
consequentemente, mais próximo da morte. Nesses momentos tomamos
consciência de que o nosso mundo irá desaparecer e de que ninguém
poderá acompanhar-nos nessa viagem indesejada. Como aquele velho hino
negro nos relembra: «Você tem de atravessar sozinho esse vale
sombrio.»

Tanto a História como a Mitologia estão repletas de tentativas de


mitigar a solidão da morte. Pense nos pactos de suicídio, nos
monarcas que em muitas culturas ordenavam que os seus escravos fossem
enterrados vivos ao seu lado, ou a prática indiana do sati, que
requer que a viúva seja imolada na pira funerária do marido. Pense no
reencontro celestial e na ressurreição. Pense na absoluta certeza de
Sócrates de que a eternidade seria empregue a conversar com outros
grandes filósofos. Pense, ainda, na cultura popular chinesa — para
citar um exemplo recente, acontecido nos vales áridos do planalto de
Loess —, em que pais de filhos que morreram solteiros compram uma
mulher, também morta (vendida por aqueles que desenterram campas ou
encontram corpos), para sepultarem depois os dois juntos, como se
formassem um casal.

Lágrimas e Suspiros: o poder da empatia

A empatia é a ferramenta mais poderosa que possuímos para nos


conectarmos com os outros.

106
É a cola da conectividade humana e permite-nos sentir, a um nível
profundo, o que a outra pessoa sente em determinado momento.

Em lado nenhum estão esta solidão da morte e a necessidade de


conectividade humana representadas de forma mais bela do que na obra-
prima de Ingmar Bergman, Lágrimas e Suspiros. No filme, Agnes, uma
mulher às portas da morte, inundada pelo terror e pelas dores,
suplica por contacto humano. As suas duas irmãs estão profundamente
afectadas pelo sofrimento e morte iminente de Agnes. Uma delas
desperta para o facto de que a sua própria vida tem sido «tecida de
mentiras». Mas, nem uma nem a outra consegue encontrar coragem para
tocar em Agnes. São as duas desprovidas da capacidade de intimidade
com outro ser humano, até com elas próprias, e ambas afastam-se em
pânico da irmã que morre. Só Anna, a empregada da casa, está disposta
a abraçar Agnes, pele contra a pele.

Pouco tempo depois da morte de Agnes, o seu espírito solitário


regressa e suplica, na voz assustadora de uma criança, pelo toque das
suas irmãs, que lhe permitirá partir verdadeiramente. As irmãs tentam
aproximar-se, mas, aterrorizadas pela pele mosqueada e pelo medo de
morrerem também, fogem para longe do quarto. Mais uma vez é o abraço
de Anna que lhe permite completar a viagem da partida.

O leitor não poderá conectar-se ou dar seja o que for de importante


aos que morrem, à semelhança do que Anna faz, a menos que esteja
disposto a enfrentar os seus próprios medos, equivalentes aos de quem
morre, juntando-se-lhes num território partilhado. Ser capaz de fazer
este sacrifício pelo outro é a essência de um acto de verdadeira
compaixão e que traduz empatia. Esta disponibilidade para
experimentar a nossa própria dor, em sintonia com a de alguém, tem
feito parte da tradição curativa, tanto secular como religiosa, ao
longo dos séculos.

Mas não é fácil conseguir dar este passo. Como as irmãs de Agnes, a
família ou os amigos mais chegados de um moribundo podem estar
desejosos de ajudar, mas serem incapazes de o fazer; podem sentir,
por exemplo, que estão a intrometer-se na vida do doente ou temer que
o seu gesto só acrescente mais preocupação a quem sofre, por lhe
lembrar coisas tristes, melancólicas, ou alertá-lo para o facto de
que o seu fim se aproxima. Muitas vezes acaba por ser quem está a
enfrentar a morte que tem de abrir a discussão, falando dos medos e
dos receios que sente.

107
Se o leitor está a morrer ou armadilhado num imenso pânico acerca da
morte, e os seus amigos e familiares tornaram-se distantes e parecem
fingir que não vêem o que se passa, sugiro que se agarre ao «aqui e
agora» (que será discutido a fundo no Capítulo 7) e procure ser o
mais directo possível, dizendo, por exemplo: «Noto que não me
responde quando lhe falo dos meus medos. Mas ajudava-me imenso se
fosse capaz de fazê-lo. Será que é pedir de mais, custa-lhe mesmo
muito?»

Quem sofre de ansiedade de morte, tome ela a forma que tomar, tem
hoje em dia muito mais oportunidades de falar com quem o entenda,
mesmo que não encontre esse apoio entre os mais próximos. Com a maior
abertura da medicina e dos media a estes temas, a somar à existência
de grupos de apoio, quem enfrenta a morte tem agora novos recursos
para apaziguar a dor do isolamento. A maioria dos bons serviços de
oncologia já disponibiliza grupos de apoio. Contudo, há apenas trinta
e cinco anos, o grupo que formei para doentes terminais de cancro
foi, tanto quanto sei, o primeiro do género no mundo.

Além disso, o uso de todo o tipo de comunidades de ajuda na Internet


continua a crescer exponencialmente: um estudo recente dá conta de
que, num único ano, quinze milhões de pessoas procuraram apoio junto
de um grupo online. Pelo meu lado, peço sempre, a alguém que sofra de
uma doença que lhe ameace a vida, que aproveite o imenso auxílio que
podem prestar os agrupamentos compostos por pessoas que sofrem da
mesma doença. Esses grupos, sejam de auto-ajuda ou liderados por
profissionais, são de fácil acesso.

Os mais eficientes são habitualmente os liderados por profissionais.


A investigação demonstra que grupos conduzidos por um líder, em que
as pessoas são afligidas pelo mesmo tipo de problema, contribuem para
melhorar significativamente a qualidade de vida dos participantes. Ao
trocarem entre si empatia, os seus membros vêem melhorar a imagem de
si mesmos e o seu sentimento de eficácia. Contudo, investigações
recentes também atestam a eficácia da auto-ajuda e dos grupos online,
por isso, se não puder integrar um grupo liderado por profissionais,
procure um destes.

108
• O Poder da Presença •

Não há maior serviço que possamos prestar a quem enfrenta a morte (e


a partir daqui tanto falo de pessoas que sofram de uma doença fatal
como de gente fisicamente saudável, mas que experiência o terror da
morte) do que oferecer-lhe a nossa simples presença.

A história que conto a seguir, que descreve a minha tentativa de


suavizar o pânico face à morte de uma mulher, talvez possa inspirar
amigos e familiares de alguém nesta situação e que procura formas
eficazes de consolo.

Estendendo a mão aos amigos: Alice

Alice, a viúva cuja história contei no Capítulo 3, a senhora


perturbada por ter de vender a casa e a sua colecção de instrumentos
musicais após a morte do marido, preparava-se, finalmente, para se
mudar para o lar escolhido. Poucos dias antes desse dia tive de me
ausentar, mas, sabendo que esta seria uma altura complicada para ela,
dei-lhe o meu número de telemóvel para o caso de uma emergência.
Quando os homens das mudanças começaram a esvaziar a sua casa Alice
experienciou um pânico paralisante, absolutamente incapacitante, que
nem os amigos, o médico ou a massagista conseguiam aliviar. Ligou-me
e tivemos uma conversa de vinte minutos ao telefone:

«Não consigo ficar quieta», começou ela. «Estou tão irrequieta que
sinto que vou explodir. Não sou capaz de encontrar o menor alívio em
nada.»

«Olhe directamente para o centro do seu pânico e diga-me o que vê.»

«Becos sem saída. Fins. É isso. O fim da minha casa, de todas as


minhas coisas, das minhas memórias, das minhas ligações com o
passado. O fim de tudo. O fim de mim mesma — sim, é esse o cerne da
questão. Quer saber o que temo? É simples: não haver mais eu!»

«Já discutimos isso nas nossas sessões, Alice, por isso sei que estou
a repetir-me, mas quero relembrá-la de que a venda da sua casa e a
mudança para um lar é um trauma extraordinário, e claro que vai
sentir-se, a princípio, terrivelmente deslocada e em estado de
choque.

109
Se estivesse no seu lugar estaria exactamente assim; qualquer pessoa
estaria, mas lembre-se das nossas conversas sobre como daqui a três
semanas tudo vai parecer-lhe...»

«Irv», interrompeu-me ela, «isso não me ajuda nada, esta dor é


demasiado crua. Demasiado. Isto é a morte a cercar-me. Morte por todo
o lado. Quero gritar!»

«Tenha calma e fique aqui comigo, Alice. Fique aqui comigo — vou
fazer-lhe a mesma pergunta simplista que já fiz anteriormente: o que
a assusta tanto na morte? Vamos concentrar-nos nisso.»

«Já demos a volta a esse assunto!» A voz de Alice chegava-me irritada


e impaciente.

«Não o suficiente. Continue, Alice. Faça-me a vontade, se faz favor.


Vá lá, vamos trabalhar.»

«Bem, não são as dores. Confio no meu oncologista; ele vai estar lá
quando eu precisar de morfina ou de alguma coisa do género. E não tem
nada a ver com a vida eterna — sabe que já larguei isso tudo há mais
de meio século.»

«Então não é o acto de morrer e não é o medo da vida eterna.


Continue. O que tem a morte que a aterroriza?»

«Não é que me sinta inacabada; sei que tive uma vida preenchida. Fiz
o que queria fazer. Já discutimos isso também.»

«Continue, Alice, por favor.»

«É o que acabei de dizer: não haver mais eu. Não quero abandonar esta
vida... Já sei, digo-lhe o que é: quero assistir ao final das
histórias. Quero estar cá para ver o que acontece ao meu filho — será
que afinal decide ter filhos e um dia terei um neto? É doloroso
aceitar que nunca vou poder sabê-lo.»

«Mas não saberá que não está cá. Não saberá que não saberá. Diz que
acredita (como eu acredito) que a morte é o fim da consciência.»

«Eu sei, eu sei, já mo disse tantas vezes que conheço a missa de cor,
o estado de não existência não é assustador porque não saberemos que
não existimos, etc... etc. E isso significa que não terei consciência
de que estarei a perder coisas importantes. Também me lembro do que
me disse sobre o estado de não-existência — que é idêntico àquele em
que estava quando ainda não era nascida.

110
Naquela altura pareceu ajudar-me, mas agora não ajuda nada — este
sentimento é demasiado forte, Irv — ideias, por melhores que sejam,
não o apaziguam, nem sequer lhe tocam.»

«Ainda não apaziguam, mas isso só quer dizer que temos de continuar a
tentar, continuar a tentar perceber. Vamos consegui-lo juntos.
Estarei nessa descoberta consigo e vou ajudá-la a ir o mais fundo
dentro de si que conseguirmos.»

«É um medo aterrador. Há algo ameaçador que não consigo encontrar, a


que não sou capaz sequer de dar nome.»

«Alice, no fundo de todos os nossos sentimentos sobre a morte há um


medo biológico que está imbuído em nós, que faz parte da nossa
estrutura. Sei que este medo é irracional, também já o senti. Não
contém palavras. Todos os seres vivos querem persistir em ser —
Spinoza disse-o há 350 anos. Só temos de tomar consciência de que é
assim mesmo, não nos espantarmos com isso. De tempos a tempos, esse
medo estrutural apodera-se de nós. Acontece-nos a todos.»

Depois de mais ou menos vinte minutos de conversa, Alice já me


parecia mais calma e terminámos o telefonema. Contudo, algumas horas
mais tarde deixou-me uma breve mensagem a dizer que a nossa sessão
telefónica tinha sido como uma estalada na cara, acusando-me de ser
frio e pouco empático. Depois, quase em nota de rodapé, acrescentou
que, todavia, de forma inexplicável, sentia-se melhor. No dia
seguinte deixou-me outra mensagem a comunicar que o seu pânico tinha
desaparecido completamente e reafirmou que tal acontecera por razões
que desconhecia.

Olhando para este caso mais de perto: porque terá a conversa ajudado
Alice? Foi a força das ideias que apresentei? Muito provavelmente
não. Alice ignorou os meus argumentos de Epicuro, ou seja que sem
consciência não teria noção de que nunca viria a conhecer o final das
histórias dos que lhe eram próximos, por isso não poderia sofrer com
essa falta, e que após a sua morte estaria na mesma situação em que
esteve antes de nascer. Nem, tão-pouco, prestou atenção a qualquer
das minhas outras sugestões, nem mesmo a que sugeria que se
projectasse três semanas para a frente, a fim de conseguir ganhar
alguma perspectiva sobre a sua vida actual. Por outras palavras, não
tiveram qualquer impacto. Estava demasiado dominada pelo pânico para
as absorver.

111
Como ela própria o disse, «sei que está a tentar, mas estas ideias
não atingem o meu medo; nem sequer tocam ao de leve no que lá está —
neste peso de angústia que sinto no peito».

Suspeito de que as ideias, em si, não tiveram grande papel neste


caso. Mas vamos examinar a conversa que tive com a Alice, do ponto de
vista do relacionamento. Primeiramente falei com ela durante as
minhas férias, mostrando a minha total disposição de honrar o meu
compromisso de me envolver, de não a abandonar. Disse-lhe, de forma
directa e clara, que íamos, eu e a Alice, continuar a trabalhar
juntos. Não fugi da sua ansiedade. Continuei a inquiri-la sobre os
seus sentimentos acerca da morte. Reconheci a minha própria
ansiedade. Assegurei-a de que estávamos no mesmo barco, que ela e eu
e todos os seres humanos têm ligações cerebrais preparadas para nos
provocarem ansiedade perante a morte.

Em segundo lugar, por trás da oferta explícita de presença, havia uma


forte mensagem implícita:

«Não importa quanto terror possa sentir, porque nunca irei afastar-me
ou ignorá-la.» Estava simplesmente a fazer o mesmo que a empregada
doméstica, Anna, em Lágrimas e Suspiros. Abracei-a, permaneci com
ela.

Embora me sentisse completamente envolvido com Alice, assegurei-me de


que o seu terror estava contido. Não permiti que me contagiasse.
Mantive um tom sereno e prático, enquanto a incitava a juntar-se a
mim na dissecação e análise do seu pânico. Apesar de no dia seguinte
ela ter-me criticado por ter sido frio e pouco empático, a verdade é
que a minha segurança ajudou a estabilizá-la, acalmando o seu terror.

A lição aqui é simples: a conectividade é prioritária. Seja o leitor


membro da família, um amigo/a ou terapeuta, salte para dentro da
situação. Aproxime-se da maneira que lhe pareça mais apropriada. Fale
do coração. Revele os seus próprios medos. Improvise. Segure
fisicamente a pessoa que sofre, de maneira que lhe possa trazer maior
conforto.

Uma vez, há várias décadas, quando me despedia de uma paciente que


estava muito próxima da morte, ela pediu que me deitasse ao seu lado
na cama, por um bocadinho. Fiz como me pediu e acredito que lhe
ofereci conforto.

A presença é o maior presente que se pode dar a qualquer pessoa que


enfrente a morte (ou a alguém fisicamente saudável mas num episódio
de pânico face à morte).

112
• Auto-Revelação •

Uma grande parte da aprendizagem de um terapeuta, como discutirei no


Capítulo 8, centra-se na importância da conectividade. Uma grande
parte desse treino deveria, na minha opinião, centrar-se na vontade e
capacidade do terapeuta para trabalhar e aumentar a força da conexão,
através da sua própria transparência.

Porque muitos terapeutas têm sido educados em tradições que enfatizam


a importância da neutralidade e da opacidade, por vezes encontra-se
mais apoio entre amigos que estejam dispostos a revelarem-se um ao
outro do que recorrendo a um profissional.

Em relações próximas, quanto mais uma pessoa dá conta dos seus


pensamentos e sentimentos íntimos, mais fácil se torna a quem a ouve
falar também de si mesmo. A auto-revelação representa um papel
crucial no desenvolvimento da intimidade. Habitualmente as relações
vão-se construindo na base de um processo de auto-revelação
recíproca. Uma pessoa toma a iniciativa e confidencia alguma
informação íntima, colocando-se assim em risco; o outro preenche o
espaço que os divide, retribuindo com algo similar; juntos,
aprofundam a relação através de uma espiral de auto-revelação. Se a
pessoa em risco é deixada de mãos a abanar sem reciprocidade, aí a
amizade geralmente conhece um impasse.

Quanto mais formos realmente genuínos, quanto mais capazes de nos


partilharmos totalmente, mais sustentável e profunda será a amizade.
Na presença de tal intimidade, todas as palavras, todos as formas de
conforto e todas as ideias assumem um maior peso e significado.

Os amigos necessitam de se recordarem mutuamente (e a si mesmos) que


também eles experimentam o medo da morte. Nas minhas conversas com a
Alice incluo-me sempre nas discussões sobre a inevitabilidade da
morte.

113
Tal revelação não é de alto risco, é apenas tornar explícito o que
está implícito. No final de contas, somos todos criaturas assustadas
com o pensamento de «não haver mais eu.» Todos nós enfrentamos o
sentimento de sermos pequenos e insignificantes quando comparados com
a extensão infinita do Universo (por vezes referida como «a
experiência do tremendum»). Cada um de nós é apenas uma partícula, um
grão de areia, na vastidão do Universo. Como Pascal afirmou no século
XVIII, «o eterno silêncio dos espaços infinitos aterroriza-me»

A necessidade de intimidade para encarar a morte é pungentemente


descrita numa peça de teatro chamada Let Me Down Easy (pousa-me
devagarinho), de Anna Deavere Smith. Nesta peça, uma das personagens
retratadas é uma mulher maravilhosa que cuidava de crianças africanas
atingidas pela SIDA. No abrigo onde vivia podia contar com pouca ou
nenhuma ajuda. Morriam crianças todos os dias. Quando questionada
sobre como aliviava o terror dos pequeninos perante a morte,
respondeu com apenas duas frases: «Nunca os deixo morrer, nem
sozinhos, nem no escuro e digo-lhes constantemente — Vais estar para
sempre comigo, aqui no meu coração.»

Até para aqueles que sofrem de um bloqueio enraizado que os impede de


se abrirem aos outros — aqueles que evitam amizades profundas —, a
ideia da morte pode ser uma experiência de despertar, catalisando uma
mudança enorme no seu desejo de intimidade e na sua disponibilidade
para fazerem o esforço necessário para obtê-la. Muita gente que
trabalha e convive com moribundos descobre que aqueles que até aí
eram pessoas distantes tornam-se incrível e subitamente acessíveis a
relacionamentos profundos.

• O Rippling em Acção

Como já expliquei no capítulo anterior, a crença de que uma pessoa


pode persistir, não na sua pele habitual mas através de gestos e
valores que se propagam continuamente ao longo de gerações e
gerações, pode servir como uma consolação fortíssima para quem se
sente ansioso com a sua mortalidade.

114
Aliviar a solidão da morte

Apesar de Everyman, a peça medieval com uma lição de moral,


dramatizar a solidão do nosso encontro com a morte, também pode ser
interpretada como um símbolo do poder do rippling. Uma peça teatral
que maravilha multidões há séculos, Everyman, era habitualmente
representada no pátio das igrejas perante centenas de paroquianos. A
peça conta a história alegórica de Everyman, que é visitado pelo anjo
da morte que o informa de que está a chegar a sua hora.

Everyman implora um adiamento. «Nada feito!», responde o anjo da


morte. Depois, outro apelo: «Será que posso convidar alguém para me
acompanhar nesta viagem desesperadamente só?» O anjo sorri e
prontamente concorda:

«Claro que sim — se conseguir encontrar um voluntário.»

O resto da peça consiste na tentativa que Everyman enceta de tentar


recrutar uma única pessoa que seja disposta a fazer-lhe companhia.
Cada amigo e conhecido recusa; o seu primo, por exemplo, diz que não
pode ir porque sente uma cãibra no dedo do pé. Até figuras
metafóricas (Bens Materiais, Beleza, Força, Sabedoria) rejeitam o seu
convite. Finalmente, quanto se resigna ao seu destino solitário,
descobre um companheiro, as Boas Acções, que está disponível e
disposto a seguir com ele, mesmo para a morte.

A descoberta de Everyman, de que há um companheiro, as Boas Acções,


que lhe quer fazer companhia representa, evidentemente, a lição
cristã a retirar desta parábola: nada do que recebemos nesta vida
pode seguir connosco; só nos é permitido levar aquilo que demos! Uma
interpretação secular deste drama sugere que o rippling — ou seja, a
consciência das nossas boas acções, da sua influência virtuosa nos
outros que persiste para lá de nós mesmos — pode suavizar a dor e a
solidão da viagem final.

115
O papel da gratidão

O rippling, como tantos dos conceitos que considero úteis, assume um


poder muito mais vasto no contexto de uma relação íntima, na qual
podemos descobrir, em primeira mão, como a nossa existência
beneficiou outra pessoa.

Os amigos podem agradecer o que ele/ela fizeram por si, e declarar-


lhe como esses gestos foram para si importantes. Mas o fundamental
aqui não é um mero agradecimento. A mensagem verdadeiramente eficaz,
a transmitir a quem se quer dar conforto, é antes qualquer coisa como
«Há uma parte de ti que tomei para mim! O que me deste mudou-me,
enriqueceu-me, pelo que vou encarregar-me de passar o que recebi de
ti aos que me rodeiam.»

Vezes de mais, a gratidão pela forma como alguém ressoou através de


nós, é expressa fora de tempo, não quando aquela pessoa ainda está
viva e poderia beneficiar desse conforto mas apenas como um elogio
póstumo. Quantas vezes já desejaram (ou ouviu desejar) que a pessoa
que está morta estivesse presente para ouvir aquelas expressões de
gratidão que lhe fazem? Quantos de nós já quisemos ser como Scrooge,
tendo a oportunidade de assistir ao nosso próprio funeral, escutando
a homília proferida em nossa homenagem? Eu já.

Uma técnica para ultrapassar este «demasiado pouco, demasiado tarde»


em relação ao rippling, é aquilo a que chamo «visita de gratidão,»
uma maneira fantástica de aumentar a percepção do rippling, enquanto
aquele de quem gostamos ainda está vivo. A primeira vez que entrei em
contacto com este exercício foi num workshop conduzido por Martin
Seligman, um dos líderes do movimento da psicologia positiva.
Seligman solicitou a uma assistência que participasse num exercício
que, se bem me lembro, era aproximadamente assim:

Pense em alguém que ainda esteja vivo e para com quem sente uma
enorme gratidão, que nunca chegou a expressar-lhe. Tire dez minutos e
escreva-lhe uma carta a dizer como lhe está grato. Forme um par com o
seu parceiro do lado, aqui nesta sala, e leiam a carta do outro. O
passo final é que faça, obviamente, uma visita pessoal a essa pessoa,
num futuro próximo, e lhe leia a carta de viva voz.

Após as cartas terem sido lidas aos pares, vários voluntários foram
seleccionados de entre o público para lerem as suas cartas à frente
de todos.

116
Sem excepção, cada uma das pessoas engasgou-se, comovida, durante a
leitura. Contaram-me que tais demonstrações de emoção ocorrem
invariavelmente neste exercício: muito poucos participantes conseguem
terminar a leitura sem serem arrastados por uma profunda corrente
emocional.

Eu próprio fiz o exercício. Escrevi ao David Hamburg, que tinha sido


um extraordinário presidente do Departamento de Psiquiatria durante
os meus dez anos na universidade de Stanford. Na vez seguinte em que
visitei Nova Iorque, onde ele agora vive, passámos a tarde juntos e
foi um momento cheio de emoção. Senti-me muito bem ao expressar a
minha gratidão e julgo que ele se sentiu muito bem por a ouvir
expressa de forma tão explícita; contou-me, nesse dia, como tinha
inchado de prazer ao ler a minha carta.

À medida que envelheço penso mais e mais sobre o rippling. Como pater
familias, pago sempre a conta quando vamos todos jantar fora. Os meus
quatro filhos agradecem sempre imenso (depois de um vago gesto de
resistência) e digo-lhes sempre: «Agradeçam ao vosso avô Ben Yalom.
Sou apenas um barquinho que transporta a sua generosidade. Era sempre
ele que me pagava a conta.» (E eu, a propósito, também só protestava
o mínimo indispensável para não passar por mal-educado!)

Rippling e Modelos

No primeiro grupo que liderei, para pacientes com cancro terminal,


senti muitas vezes que o desânimo dos seus membros era contagioso.
Tantos de entre eles estavam desesperados; tantos esperavam a morte
dia após dia, já sem esperança, tentando apenas escutar os seus
passos a aproximar-se; tantos se sentiam amargurados por a sua vida
ter sido preenchida pelo vazio e perdido todo o seu significado.

Foi então, num belo dia, que uma das participantes iniciou o nosso
encontro com este anúncio público: «Decidi que, apesar de tudo, há
algo que ainda posso oferecer. Posso oferecer um exemplo de como
morrer. Posso ser um modelo para os meus filhos e amigos, enfrentando
o que me espera com coragem e dignidade.»

117
Foi uma revelação que lhe levantou o moral, a ela, a mim e a todos os
outros elementos do grupo. Tinha encontrado um sentido para a vida,
uma forma de a encher de significado até ao fim.

O fenómeno de rippling era evidente na atitude dos membros deste


grupo para com os estudantes que, como parte da sua aprendizagem,
vinham observá-los. É vital para a educação de um terapeuta de grupo
que observe clínicos experientes a lidar com esta dinâmica conjunta,
e eu tinha sempre estudantes a cumprirem esta tarefa, por vezes
através de um televisor, mas mais habitualmente de um espelho
unidireccional que só reflecte a imagem de um dos lados. Apesar de
ser obrigatório que os participantes autorizem esta observação, é
vulgar resmungarem contra a observação a que são sujeitos, e por
vezes expressam abertamente o seu ressentimento para com os intrusos.

Contudo, não é isto que acontecia com os meus grupos de doentes


oncológicos, que acolhiam alegremente os observadores. Sentiam que
por estarem em confronto directo com a morte haviam-se tornado mais
sábios e com muito mais para oferecer aos alunos, lamentando apenas,
como já mencionei previamente, o facto de só então terem aprendido a
viver.

• Descobrir A Própria Sabedoria •

Sócrates acreditava que a melhor forma de aprendizagem para um


professor/a — e, deixem-me acrescentar, um amigo — é fazer perguntas
que ajudem o aluno a procurar a resposta dentro de si mesmo, na sua
própria sabedoria. Os amigos fazem instintivamente qualquer coisa do
género e os terapeutas também. A história que se segue ilustra um
utensílio simples para mergulharmos mais fundo em nós mesmos e
ajudarmos os outros a fazê-lo, com a vantagem de que é acessível a
qualquer de nós.

118
Se vamos morrer, então porquê viver, ou como viver?:

Jill

Uma e outra vez as pessoas perguntam: mas afinal qual é o propósito


da vida se está tudo destinado a desaparecer? Apesar de muitos
procurarem a resposta fora de si próprios, seria mais inteligente
optarem pelo método de Sócrates, virando o olhar para dentro.

Jill, uma paciente que há muito era assombrada pela ansiedade de


morte, equacionava habitualmente o fim de tudo com a sua ausência de
significado. Quando lhe pedi um historial do desenvolvimento deste
pensamento, ela recordava vivamente a primeira vez que pensara nisto.
Fechando os olhos, descreveu-me uma memória de quando tinha nove
anos, sentada à frente de sua casa a lamentar a morte do cão da
família.

«Foi nesse momento e nessa altura,» disse-me, «que assumi que se


tínhamos todos de morrer, nada era importante — as minhas lições de
piano, o facto de fazer a minha cama, as estrelas douradas que
recebia na escola por ser uma óptima aluna. Para que servem as
estrelas douradas se todas as estrelas douradas vão desaparecer?»

«Jill», comentei, «a Jill tem uma filha com mais ou menos nove anos,
não tem? Imagine que ela lhe perguntava: Se vamos morrer, então
porque e como devíamos viver? O que é que lhe respondia?»

Sem hesitação, Jill disse-me logo «Falava-lhe sobre as muitas


alegrias de viver, da beleza da floresta, no prazer de estar com os
amigos e a família, na satisfação de espalhar amor e de, no final,
ter a certeza de deixar o mundo melhor do que era quando aqui
chegámos.»

Mal acabou de proferir, de um fôlego, esta declaração de princípios,


inclinou-se para trás na cadeira e abriu os olhos, impressionada com
as suas próprias palavras, como se dizendo: «De onde veio tudo isto?»

«Grande resposta, Jill. Tem tanta sabedoria dentro de si!... Não é a


primeira vez que consegue chegar a uma grande verdade, exactamente
quando se imagina a aconselhar a sua filha sobre a vida. Agora
precisa de aprender a ser a sua própria mãe.»

A tarefa, repare-se bem, não é oferecer respostas, mas encontrar uma


maneira de ajudar os outros a descobrirem as suas próprias.

O mesmo princípio funcionou no tratamento da Júlia, a psicoterapeuta


e pintora, cuja ansiedade de morte surgia do facto de não se ter
inteiramente realizado, por desprezar a sua faceta artística, a fim
de competir economicamente com o marido (ver Capítulo 3).
119
Apliquei a mesma estratégia no nosso trabalho quando lhe pedi que
adoptasse uma perspectiva diferente, sugerindo-lhe que imaginasse
como responderia a um cliente se ele se comportasse como ela.

O comentário instantâneo de Júlia — «Dir-lhe-ia que tem vivido uma


vida absurda!» — revelava que ela precisava apenas de um
empurrãozinho para descobrir a sua própria sabedoria. Os terapeutas
têm sempre trabalhado a partir da convicção de que a verdade que uma
pessoa descobre por si mesma tem muito mais poder do que a verdade
que lhe é dada.

• Realizar a Sua Vida •

A ansiedade de morte é, para muitas pessoas, alimentada, como no caso


da Júlia, pela desilusão de nunca terem desenvolvido o seu potencial.
Muitas pessoas desesperam porque os seus sonhos não chegaram a
acontecer e desesperam ainda mais por não terem tido a força de os
tornar reais. Focalizaram-se nesta profunda insatisfação é muitas
vezes o ponto de partida para superar a ansiedade de morte, como
aconteceu no caso de Jack.

Ansiedade de morte e a vida não vivida: Jack

Jack, um alto e bem vestido advogado de sessenta anos, veio ao meu


consultório porque se sentia muito em baixo. Contou-me, num tom
apático e monocórdico, que não conseguia afastar pensamentos
obsessivos sobre a morte, que não conseguia dormir e que o seu
desempenho profissional conhecia um momento dramático, o que, além de
mais, afectava o rendimento que habitualmente auferia.

120
Despendia várias horas por semana a consultar compulsivamente as
tabelas de risco das seguradoras e a calcular os meses e dias que
hipoteticamente lhe restavam de vida. Duas ou três vezes por semana
acordava com pesadelos

O seu rendimento tinha baixado porque já não conseguia lidar com


testamentos e contratos de arrendamento que constituíam o cerne da
sua actividade como advogado: estava tão fixado pelo seu próprio
testamento, e a sua morte, que o pânico que daqui resultava já o
tinha forçado, por várias vezes, a terminar uma consulta a meio. Em
encontros com os clientes sentia-se terrivelmente embaraçado por
gaguejar, por vezes até se engasgava, ao dizer palavras como
«falecimento», «cônjuge sobrevivo» ou «subsídios para o funeral».

Durante a nossa primeira sessão, Jack parecia-me muito distante e


cauteloso. Pus em prática muitas das ideias que descrevi neste livro,
na tentativa de me aproximar dele e de lhe oferecer conforto, mas sem
sucesso. A certa altura, um pormenor estranho captou a minha atenção:
três dos sonhos que me descreveu envolviam cigarros. Por exemplo, num
deles caminhava através de uma passagem subterrânea cheia de
cigarros. Quando lhe perguntei se fumava, contou-me que já não o
fazia há vinte e cinco anos. Pedi-lhe para procurar fazer associações
com os cigarros, mas não ofereceu qualquer pista até que, mesmo no
final da terceira sessão, subitamente me contou, numa voz trémula,
que a mulher fumava marijuana diariamente, desde o dia em que tinham
casado, já há quarenta anos. Aí deixou cair a cabeça nas mãos, ficou
silencioso, e, quando o seu relógio marcava o fim dos nossos
cinquenta minutos, disparou porta fora sem sequer me dizer adeus.

Na sessão seguinte apareceu com ar enfiado e confessou-se muito


envergonhado. Custava-lhe imenso admitir que ele, um homem bem-
educado, inteligente, um profissional respeitado, fosse estúpido
suficientemente para ficar preso numa relação de quarenta anos com
uma viciada, que demonstrava uma debilidade cognitiva real e que não
tinha qualquer cuidado com o seu aspecto físico, de tal forma que,
para ser sincero, era obrigado a admitir que tinha vergonha de ser
visto com ela em público.

Jack estava genuinamente abalado, mas no final dessa sessão confessou


que se sentia aliviado. Ao longo de todos esses anos nunca fora capaz
de revelar este segredo a ninguém; de certa forma, nem sequer
admitira para si mesmo que aquela era a realidade, pura e dura.

121
Em sessões futuras reconheceu que se conformara com uma relação tão
ingrata porque, no fundo, acreditava que não merecia mais do que
aquilo, percebendo também as longas ramificações do seu casamento. A
vergonha e a necessidade de esconder a mulher tinham-no levado a
evitar qualquer vida social. Decidiu não ter filhos: estava certo de
que a mulher não seria capaz de deixar a dependência da cannabis
durante os nove meses da gravidez ou, para ser sincero, de ser um
exemplo responsável para os seus filhos. Tão convencido estava de que
seria considerado um tonto, por permanecer com ela, que nunca
confiara o segredo a ninguém, nem à sua própria irmã.

Agora com sessenta anos sentia-se firmemente convencido de que estava


demasiado velho, demasiado gasto e sozinho para tomar a iniciativa de
deixar a mulher. Disse-me, preto no branco, que nem sequer admitia
qualquer discussão sobre a necessidade de pôr um fim àquela relação -
discutir o seu casamento estava fora de questão. Apesar da adição,
garantia-me que a amava genuinamente, precisava dela e levava os seus
votos maritais muito a sério. Sabia, além de mais, que ela não podia
viver sem ele.

Tomei consciência de que a sua ansiedade de morte estava relacionada


com o facto de sentir que só vivera parcialmente e que reprimira
durante tanto tempo os seus sonhos de felicidade e realização
pessoal. O seu terror e os seus pesadelos derramavam do seu
reconhecimento de que o tempo era escasso e a vida escorregava-lhe
por entre os dedos.

Fiquei parcialmente surpreendido pelo seu isolamento. A necessidade


de segredo obstruíra qualquer ligação mais íntima, além daquela
relação perturbada e ambivalente com a mulher. Abordei o seu problema
de intimidade focando-me na nossa relação e comecei por deixar claro
que nunca o consideraria um tolo. Muito pelo contrário, sentia-me
honrado por ter partilhado tanto comigo e garanti-lhe que entendia
como era complicado o dilema moral que o seu casamento representava.

Após apenas algumas sessões, a ansiedade de morte do Jack decresceu


de forma visível.

122
Foi substituída por outras preocupações, principalmente pela sua
relação com a mulher e a forma como a vergonha impedia outras
conexões internas. No nosso trabalho conjunto sobre com podia quebrar
aquele segredo, e abrir o seu leque de relacionamentos sociais que
durante todos esses anos evitara, sugeri-lhe a possibilidade de uma
terapia de grupo. Recusou imediatamente: parecia-lhe demasiado
ameaçadora; na prática rejeitou a ideia de qualquer terapia mais
ambiciosa, confessando que temia que perturbasse a relação com a
mulher. Como alternativa identificou duas pessoas, a sua irmã e um
homem que, a certa altura, tinha sido um amigo mais chegado, com quem
iria partilhar aquilo que até então escondera de todos.

Considerei importante focar-me a questão da sua auto-realizacão.


Quais eram as partes de si que estavam reprimidas e ainda podiam ser
concretizadas? Quais os seus sonhos diurnos? Enquanto criança, o que
imaginara fazer com a sua vida? Que coisas no seu passado lhe davam
um prazer profundo?

Jack chegou à sessão seguinte com uma grande pasta cheia daquilo a
que ele chamava os seus «rabiscos» — décadas de poesia,
frequentemente sobre a morte, muito daquilo escrito às quatro da
manhã, quando era acordado por um pesadelo. Perguntei-lhe se me
poderia ler alguns e ele seleccionou três dos seus favoritos.

«É espantosa a forma como conseguiu tornar o seu desespero em algo


tão bonito», disse-lhe quando acabou de os ler.

Depois de doze sessões, Jack deu-me conta de que tinha atingido os


seus objectivos: o terror da morte tinha claramente diminuído; os
pesadelos transformaram-se em sonhos com apenas pequenos momentos de
irritação e frustração. O facto de se revelar ao terapeuta deu-lhe
coragem para confiar nos outros e restabeleceu uma amizade próxima
com a irmã e o seu velho amigo. Três meses mais tarde enviou-me um e-
mail a dizer que estava óptimo, que se tinha inscrito num seminário
de escrita online, e que se associara a um grupo de poesia.

O meu trabalho com o Jack demonstrou como uma vida reprimida pode
expressar-se sob a forma de terror face à morte. Claro que estava
aterrorizado: tinha muito a temer do fim da sua existência porque não
vivera a vida que desejava e que lhe era possível. Legiões de
escritores e artistas já expressaram este sentimento numa
multiplicidade de línguas, desde Nietzsche, quando apelava a «morrer
na altura certa», até ao poeta americano John Greenleaf Whittier,
quando dizia: «De todas as palavras tristes, venham da língua ou da
caneta, as mais tristes são estas: «Poderia ter sido!»»

123
As nossas sessões foram também salpicadas com tentativas de o ajudar
a encontrar e revitalizar partes esquecidas de si mesmo, desde o seu
talento para poesia até ao seu anseio por uma rede social mais
próxima. Os terapeutas percebem que geralmente, é, melhor ajudar um
cliente a remover os obstáculos à sua auto-realização do que apostar
em sugestões, encorajamentos ou exortações.

Também tentei reduzir o isolamento de Jack, fugindo a apontar-lhe as


oportunidades disponíveis que teoricamente não aproveitava, optando
antes por focar-me na barreira que o impedia, de facto, de construir
amizades: a vergonha que sentia e a crença de que os outros o
ridicularizariam. E, claro, o salto para a intimidade que foi capaz
de dar, no seio da nossa relação terapêutica, representou um passo de
gigante: o isolamento só existe no isolamento, uma vez partilhado
evapora-se.

O valor do arrependimento

O arrependimento, muito injustamente, tem má fama. Apesar de


geralmente ser conotado com uma tristeza irremediável, pode ser usado
de uma forma construtiva. De facto, de todas os métodos que uso para
me ajudar, a mim mesmo e aos outros, a examinar o grau de auto-
realização atingido, a do arrependimento — tanto de onde vem como a
forma de o evitar — é das mais valiosas.

Bem utilizado, o arrependimento constitui uma ferramenta que pode


ajudar o leitor a tomar atitudes que vão prevenir que se vá
acumulando. Podemos analisá-lo, olhando tanto para o passado como
para o futuro. Se virar o seu olhar em direcção ao que já aconteceu,
experiência arrependimento por tudo o que não realizou. Se olhar para
o futuro sabe bem quais são os caminhos que vão levá-lo a somar
arrependimento, ou a viver relativamente livre dele.

Muitas vezes aconselho-me a mim próprio, e aos meus pacientes,


imaginando o que será a vida daqui a um, dois ou cinco anos,
procurando perceber que novos arrependimentos se terão acumulado
nesse período.

124
Depois faço uma pergunta que tem uma enorme eficácia terapêutica:
«Como pode viver sem acumular novos arrependimentos? O que tem de
mudar na sua vida para que isso aconteça?»

• ACORDAR •

Nalguma altura da vida — por vezes na juventude, outras bem mais


tarde —, cada um de nós acorda para a sua mortalidade. Há tantos
propulsionadores: um olhar no espelho que reflecte o seu queixo
duplo, cabelo cinzento, ombros descaídos; a marcha imparável de dias
de aniversário, especialmente aqueles que celebram décadas redondas —
cinquenta, sessenta, setenta; o reencontro com um amigo que há muito
não via e o choque de perceber como envelheceu; ver fotografias de si
próprio e daqueles que há muito já partiram, mas que povoavam a sua
infância; um encontro com a senhora D. Morte num sonho.

O que sente quando tem tais experiências? O que faz com elas? Atira-
se para alguma actividade frenética para tentar queimar a ansiedade e
evitar o assunto? Tenta remover as rugas com cirurgia plástica ou
pinta o cabelo? Decide ficar nos trinta e nove durante mais alguns
anos? Distrai-se rapidamente com o trabalho ou com a rotina do dia-a-
dia? Esquece todas essas experiências? Ignora o seu sonho?

Faço-lhe um apelo: não se distraia. Em lugar disso, sinta esse


acordar. Tire proveito da experiência. Encontre tempo para uma pausa
enquanto olha para uma fotografia de si mais novo. Deixe que esse
momento pungente o envolva e permita-lhe que se demore um pouco
dentro de si; saboreie a sua doçura, assim como a amargura que lhe
provoca.

Mantenha presente as vantagens de permanecer bem consciente da morte,


de abraçar contra si a sua sombra. Tal consciência pode iluminar a
escuridão com a sua faísca de vida e potenciar a sua vida, enquanto
ainda a tem. A forma de dar valor à vida, de sentir compaixão pelos
outros, a maneira de amar seja o que for com maior profundidade
implica estar ciente de que estas experiências estão destinadas a
desaparecer.

125
Muitas vezes tenho sido agradavelmente surpreendido ao ver um
paciente ser capaz de modificar positivamente a sua existência, já
muito tarde na vida, até já muito próximo da morte. Nunca é tarde de
mais. Nunca se é demasiado velho.

126
Capítulo 6

• CONSCIÊNCIA DA MORTE •

Uma recordação

À medida que me aproximo do fim viajo num círculo que se torna mais e
mais próximo do princípio de tudo. Parece-me ser uma preparação para
suavizar o caminho. O meu coração é agora tocado por memórias que há
muito jaziam adormecidas. Charles Dickens, Um Conto de Duas Cidades

Nietzsche, certa vez, comentou que se alguém quer compreender o


trabalho de um filósofo tem de antes de mais, ler a sua
autobiografia. É exactamente o que acontece com os psiquiatras. Sabe-
se que em muitas áreas, desde a Física Quântica à Economia,
Psicologia e Sociologia, o observador influencia o que observa. Já
apresentei os meus comentários sobre os meus pacientes, sobre as suas
vidas e os seus pensamentos, e agora chegou a hora de reverter o
processo e de revelar as minhas convicções pessoais sobre a morte — a
sua origem e como afectaram a minha vida.

• Enfrentar a Morte •

Daquilo que me lembro, o meu primeiro encontro com a morte foi quando
tinha cinco ou seis anos e Stripy, uma das gatas que o meu pai
acolhia na sua mercearia, foi atropelada por um carro. Enquanto
olhava para ela estendida no passeio, um fio de sangue a escorrer-lhe
da boca, peguei num pequeno pedaço do meu hambúrguer e tentei dar-
lho, mas ela não fez caso: só tinha apetite para a morte.

127
Sem poder fazer algo pela Stripy, recordo-me de que senti uma
impotência paralisante. Não me lembro, no entanto, de ter chegado à
conclusão óbvia de que, se todos os seres vivos morrem, então também
eu estaria destinado a morrer. Apesar de tudo, os detalhes da morte
da minha gata persistem com uma nitidez invulgar.

A minha primeira experiência com uma morte humana aconteceu na


segunda ou terceira classe, com a morte de um colega chamado L. C.
Não consigo lembrar-me sequer do que representavam as iniciais;
talvez nunca tenha sabido o seu verdadeiro nome, nem tão-pouco tenho
a certeza se éramos, ou não, bons amigos ou se brincávamos juntos.
Tudo o que me resta são algumas lasquinhas de memória. O L. C. era
albino, com olhos vermelhos, e a mãe empacotava-lhe o parco almoço,
constituído por sanduíches com picles. Parecia-me estranho — nunca
antes tinha visto picles entre duas fatias de pão.

Depois houve um dia em que o L. C. deixou de ir às aulas e uma semana


depois a professora contou-nos que tinha morrido. E foi tudo. Sem
mais palavras ou detalhes. Nunca mais se mencionou o seu nome ou,
melhor, as suas iniciais. Como um corpo embalado a escorregar do
convés para o mar negro, desapareceu silenciosamente. Mas quão claro
ele permanece na minha cabeça. Quase setenta anos passaram e continuo
a sentir que me basta esticar o braço e passar os meus dedos pelo seu
cabelo eriçado com o susto de ver a morte, branco-fantasma. Como se o
tivesse visto ontem, a sua imagem permanece no meu cérebro e vejo a
sua pele branca, aqueles olhos esbugalhados, abertos de espanto.
Talvez não passe tudo de uma reconstrução; talvez simplesmente
imagine o quanto dar de caras com a morte deve tê-lo espantado, uma
visita tão inesperada e num ponto precoce sa sua jornada de vida.

A «D. Morte» é um termo que uso desde jovem adolescente. Encontrei-o


num poema de E. E. Cummings acerca de Buffalo Bill, e foi tal o
impacto que teve em mim que o memorizei instantaneamente.

128
O defunto de

Buffalo Bill

Que costumava

montar um garanhão

prateado-suave-como-água

e quebrar umdoistrêsquatrocinco tiposcomumestalar dos dedos

Jesus

Se era um homem lindo

E o que quero saber é

como gosta do seu menino de olhos azuis

D. Morte

O desaparecimento de L. C. não me provocou grandes sobressaltos, pelo


menos tanto quanto me lembre. Freud escreveu sobre a nossa capacidade
de varrer da memória as emoções desagradáveis. No meu caso faz todo o
sentido e clarifica o paradoxo de conservar imagens vivas, mas
desprovidas de emoção. Acredito que é razoável inferir que a morte do
meu colega provocou-me emoções muito fortes: não é, certamente, por
acaso que me lembro tão bem do L. C, até porque não tenho qualquer
imagem, nem sequer uma vaga ideia, de outro colega desses tempos.
Talvez, então, a força da sua imagem seja tudo o que sobrou da minha
avassaladora tomada de consciência de que eu, os meus professores, os
meus colegas e todos nós iríamos, mais cedo ou mais tarde,
desaparecer como o L. C.

Julgo que o poema de E. E. Cummings se gravou de forma tão permanente


na minha mente porque durante toda a minha adolescência a D. Morte
visitou um outro rapaz, que eu conhecia bem. Allen Marinoff era um
«rapaz de olho azul» que sofria de uma malformação cardíaca e que
estava sempre com um ar aflito. Lembro-me da sua cara pontiaguda e
melancólica, as suas melenas de cabelo castanho-claro, que lançava
para trás quando lhe caíam sobre a testa, a sua pasta da escola muito
maltratada, tão grande e pesada para o seu frágil corpo. Uma noite,
quando fiquei a dormir em sua casa, tentei — não muito, penso eu—
perguntar-lhe de que sofria realmente. «O que está a acontecer-te,
Allen? O que significa ter um buraco no coração?» Foi tudo demasiado
horrível. Como ficar de olhos fixos no Sol. Não consigo lembrar-me
das suas respostas. Não me lembro do que pensei ou senti. Mas sem
dúvida nenhuma existiam forças a rugir dentro de mim, como móveis
pesados arrastados de um lado para o outro, que provocaram esta
memória tão selectiva.

129
Allen tinha quinze anos quando morreu.

Ao contrário de muitas crianças, não fui exposto a mortes e funerais;


na cultura dos meus pais os jovens eram excluídos de tais eventos.
Mas algo importante aconteceu quando eu tinha nove ou dez anos. Uma
tarde o telefone tocou, o meu pai atendeu e quase imediatamente
começou a gemer e a chorar. Fiquei assustadíssimo. O seu irmão, o meu
tio Meyer, havia morrido. Não sendo capaz de aguentar o choro do meu
pai, corri para fora e fui dando voltas e voltas ao quarteirão.

O meu pai era tímido, um homem gentil e suave, e esta chocante e


singular perda de controlo assinalava que qualquer coisa de enorme,
impressionante e monstruosa andava por aí. A minha irmã, sete anos
mais velha, estava em casa na mesma altura, mas não se recorda de
nada disto, apesar de se lembrar de coisas de que não me lembro. Tal
é a capacidade de reprimirmos ideias e sentimentos, esse processo
primorosamente selectivo que — ao determinar do que uma pessoa se
esquece e daquilo de que se lembra — é instrumental na construção do
nosso mundo pessoal, único, que não pertence a mais ninguém.

O meu pai quase morreu de uma trombose quando tinha apenas quarenta e
seis anos. Aconteceu a meio da noite. Eu tinha, então, catorze anos,
estava aterrorizado e a minha mãe tão perturbada que procurava alguma
explicação para o sucedido, um bode expiatório para culpar por esse
golpe do destino. Eu era o alvo disponível e ela acusou-me de, com as
minhas desobediências, o meu desrespeito, o meu comportamento
agitado, ser o grande responsável por aquela catástrofe. Por mais do
que uma vez nessa tarde, enquanto o meu pai se torcia com dores, ela
gritou-me: «Tu mataste o teu pai!»

Doze anos mais tarde, quando estava deitado no divã analítico, a


minha descrição deste acontecimento resultou numa, pouco comum,
explosão momentânea de carinho por parte de Olive Smith, a minha
psicanalista freudiana ultra-ortodoxa, que estalava a língua,
enquanto se inclinava para mim e dizia: «Que horror. Que terrível
deve ter sido tudo isso para si.» Das suas muitas interpretações
profundas, densas e cuidadosamente formuladas, quase não me lembro de
alguma, mas recordo comovidamente aquela aproximação carinhosa — que
guardo como uma relíquia, tantos anos volvidos. Naquela noite, a
minha mãe, o meu pai e eu esperámos desesperadamente pela chegada do
Dr. Manchester.

130
Finalmente escutei o seu carro na rua, a esmagar as folhas outonais
espalhadas na estrada, e voei pelas escadas abaixo, três degraus de
cada vez, para lhe abrir a porta. A visão familiar e abençoada do seu
rosto grande, redondo e alegre dissolveu o meu pânico. Passou-me a
mão pela cabeça, despenteou o meu cabelo, assegurou a minha mãe de
que tudo iria correr bem, deu uma injecção ao meu pai (provavelmente
morfina), levou-lhe o estetoscópio ao peito e deixou-me escutar o seu
coração enquanto dizia: «Estás a ver? Está a bater tão certinho como
um relógio. O teu pai vai ficar bom.»

Foi um momento que mudou a minha vida de muitas maneiras, mas mais do
que tudo recordo-me do alívio inefável à chegada do Dr. Manchester a
nossa casa. Foi nesse mesmo instante que decidi ser como ele, tornar-
me médico e dar aos outros o mesmo conforto que ele me tinha dado a
mim.

O meu pai sobreviveu àquela noite, mas vinte anos mais tarde morreu
subitamente à frente da família inteira. Eu estava de visita à minha
irmã em Washington, com a minha mulher e as três crianças. A minha
mãe e o meu pai tinham feito questão em juntar-se a nós; o meu pai
sentou-se à mesa para jantar, queixou-se de uma dor de cabeça e
subitamente caiu.

O meu cunhado, também médico, ficou em choque. Mais tarde


confidenciou-me que em trinta anos como clínico nunca antes tinha
testemunhado o instante da morte. Sem perder a calma bati no peito do
meu pai (as técnicas de ressuscitação cardíacas eram coisa do futuro)
e, não obtendo qualquer reacção, estendi a mão para dentro da mala do
meu cunhado, tirei uma seringa, rasguei a camisa do meu pai e
injectei adrenalina directamente no coração. Sem qualquer efeito.

Mais tarde lamentar-me-ia por ter feito um acto tão desnecessário.


Quando revivi a cena percebi que me lembrava o suficiente do que
tinha aprendido sobre neurologia para ter tido a obrigação de
perceber logo que o problema não era o seu coração mas o seu cérebro.
Reparara como os seus olhos subitamente tinham dado um solavanco para
a direita e deveria ter entendido que nenhum estímulo ao coração
poderia salvá-lo. Sofreu uma hemorragia cerebral gigantesca no lado
direito. Os olhos viram sempre para o lugar do derrame.

131
No funeral do meu pai já não estava tão sereno. Contaram-me que,
quando chegou a hora de atirar a primeira pá de terra para cima do
caixão, quase desmaiei e garantem-me que teria caído para dentro da
campa aberta se não fosse um dos meus familiares a agarrar-me tempo.

A minha mãe viveu muitos mais anos, morrendo aos noventa e três.
Recordo-me de dois eventos memoráveis aquando do seu funeral. O
primeiro na cozinha. Na noite antes do seu enterro senti-me
subitamente compelido a fazer o kitchel da minha mãe (sobremesa
tradicional judaica feita com ovos e açúcar). Suspeito de que estava
a precisar de me distrair. Além disso, cozinhar kitchel com a minha
mãe era uma memória alegre e penso que queria mais um bocadinho dela.
Fiz a massa, deixei-a a descansar durante a noite e de manhã cedo,
tendi-a, adicionei canela, geleia de ananás e uvas secas, e pu-la no
forno para servir à minha família e amigos quando, depois da
cerimónia, nos voltássemos a reunir em casa.

Mas a tarte foi um total fracasso! Nunca tal me tinha acontecido.


Esqueci-me de juntar o açúcar! Talvez fosse uma mensagem simbólica de
mim para mim, um sinal de que tinha colocado demasiada ênfase na
severidade da minha mãe. É como se o meu inconsciente me abanasse:
«Estás a ver, já te esqueceste das partes boas — do seu carinho, da
sua constante e silenciosa devoção.»

O segundo episódio foi um sonho poderoso, logo na noite seguinte ao


funeral. A minha mãe já morreu há quinze anos, mas a imagem deste
sonho desafia os estragos do tempo e ainda brilha na minha mente.

Oiço a minha mãe a gritar o meu nome. Corro no caminho para a minha
casa de infância, abro a porta e, ali à minha frente, sentados nas
escadas, fila após fila, estão todos os membros da minha família
(todos os mortos — a minha mãe, a última, vivera mais do que qualquer
pessoa da sua comunidade). Enquanto olho para aquelas caras tão
amadas vejo a minha tia Minnie sentada ao centro. Está a vibrar como
uma abelha, movendo-se tão rapidamente que as suas feições se
desfocam.

A tia Minnie morrera alguns meses antes da minha mãe. A sua morte foi
absolutamente horrível para mim: um imenso derrame cerebral
paralisou-a e, apesar de absolutamente consciente, era incapaz de
mover o mais pequeno músculo do corpo, à excepção dos olhos
(conhecida como síndrome de «locked-in»).

132
Permaneceu assim até morrer, dois meses mais tarde.

Mas ali estava ela no sonho — mesmo no centro, a mover-se


freneticamente. Julgo que era um sonho que desafiava a morte: ali,
nas escadas, sem sombra de paralisa, a tia Minnie movia-se de novo,
rapidamente de mais até para os meus olhos. De facto, todo o sonho
tentava desfazer a morte. A minha mãe não estava morta; estava viva e
a chamar por mim, como fazia sempre. Depois vi todos os familiares
mortos, sentados nas escadas a sorrir, como se a provar-me que ainda
estavam vivos.

Julgo que havia ali também outra mensagem: «Lembra-te de mim» era o
que dizia. A minha mãe chamou o meu nome para me dizer «Lembra-te de
mim, lembra-te de todos nós, não nos deixes perecer.» É o que tenho
feito.

A frase «Lembra-te de mim» mexe sempre comigo. No meu livro Quando


Nietzsche chorou, retrato Nietzsche a vaguear no cemitério, olhando
para as campas, as lápides dispersas, compondo alguns versos que
terminam assim:

até pedra ser colocada sobre pedra

e apesar de ninguém conseguir escutar

e de ninguém ver

cada um soluça suavemente: lembra-te de mim, lembra-te de mim.

Escrevi estas linhas para Nietzsche num piscar de olhos e estava


encantado com a oportunidade de publicar o meu primeiro verso.
Aproximadamente um ano mais tarde fiz uma estranha descoberta. A
universidade de Stanford transferia o seu Departamento de Psiquiatria
para um novo edifício e, durante a mudança, a minha secretária
encontrou por trás de umas gavetas de arquivo um volumoso envelope
ainda fechado amarelecido pelo tempo, que tinha desaparecido para
longe da nossa vista há décadas. Dentro do envelope estava um pacote
perdido com poemas que eu tinha escrito ao longo de vários anos da
minha adolescência e início de vida adulta. Por entre os versos
estavam as frases, idênticas, palavra por palavra, que acreditara ter
composto propositadamente para o romance. Na verdade escrevera
exactamente o mesmo, muitos anos antes, aquando da morte do pai da
minha noiva.

133
Plagiara-me a mim próprio.

Enquanto escrevia este capítulo, os meus pensamentos fugiram para a


minha mãe e, para meu espanto, fui visitado por outro sonho
perturbador.

Um amigo visita-me e eu mostro-lhe o meu jardim, levando-o, depois,


ao meu escritório. Quando entro reparo imediatamente que o meu
computador tinha desaparecido, talvez tivesse sido roubado. Não só
isso como a minha enorme mesa de trabalho, habitualmente desarrumada,
estava agora completamente vazia.

Era um pesadelo e acordei em pânico. Dizia a mim próprio: «Acalma-te,


acalma-te, de que tens medo?» Eu sabia, mesmo durante o meu sonho,
que o meu terror não fazia sentido: afinal era só um computador
desaparecido e guardo sempre num sítio seguro um backup de tudo o que
lá tenho.

Na manhã seguinte, enquanto me questionava sobre o terror sentido


durante o meu sonho, recebi um telefonema da minha irmã, a quem tinha
enviado uma cópia da primeira parte deste memoir. Confessava-me que
fora abalada pelas minhas memórias e descreveu-me algumas das suas,
incluindo uma de que me tinha esquecido. A nossa mãe tinha estado
internada no hospital, em consequência de uma operação à anca, e a
minha irmã e eu fomos ao apartamento dela para tratar de alguma da
sua papelada, quando recebemos uma mensagem urgente do hospital a
pedir para lá irmos imediatamente. Apressámo-nos a chegar e entrámos
a correr no seu quarto, encontrando apenas um colchão vazio: tinha
morrido e o seu corpo fora removido. Qualquer evidência da sua
presença naquele quarto tinha sido apagada.

Enquanto escutava a minha irmã, o significado do meu sonho


materializou-se. Percebi a origem do terror no meu sonho: não era o
computador desaparecido que importava, o importante era que a minha
mesa, como a cama da minha mãe, tinha sido completamente esvaziada,
obliterada. O sonho era uma previsão da minha própria morte.

134
• Os Meus Frente a Frente Com a Morte •

Tive uma experiência de proximidade com a morte aos catorze anos.


Jogara num torneio de xadrez no velho Hotel Gordon, em Washington, e
estava na esquina de Sétima Avenida à espera do autocarro que me
levaria a casa. Enquanto estudava os meus apontamentos do jogo, uma
página fugiu-me da mão para a rua e instintivamente debrucei-me para
apanhá-la. Um estranho puxou-me para trás, no exacto momento em que
um táxi passava a alta velocidade, falhando a minha cabeça por
centímetros. Fiquei profundamente abalado por este incidente e voltei
a passar o filme mental do episódio vezes sem fim. Até hoje, quando o
recordo, o meu coração acelera.

Há alguns anos senti uma forte dor na anca e consultei um cirurgião


ortopédico, que me mandou fazer uma radiografia. Enquanto
examinávamos o exame em conjunto, ele foi insensível o suficiente
para me apontar um pequeno ponto na película e comentar, de uma
maneira displicente, ao estilo médico para médico, que poderia
tratar-se de uma metástase — por outras palavras, uma sentença de
morte. Solicitou que fizesse uma ressonância magnética que, porque
era sexta-feira, só poderia ser realizada dali a três dias. Durante
esses agonizantes três dias, a consciência da morte tomou o meu
cérebro por completo. De todas as mais variadas estratégias que
procurei, para tentar dar a mim mesmo alguma paz de espírito, a mais
eficiente acabou por ser — estranhamente — ler o meu próprio romance,
que acabara de completar.

Julius, o protagonista da Cura de Schopenhauer, é um psiquiatra a


quem é diagnosticado um melanoma maligno, já espalhado por todo o
corpo. Redigi várias páginas a descrever a sua batalha para aceitar a
morte e viver o tempo que lhe restava de uma forma que lhe fizesse
sentido. Nada o sossegava, até abrir o Assim Falava Zaratustra, de
Nietzsche, e ter sido conquistado pela experiência de pensamento do
eterno retorno (ver Capítulo 5, para saber como utilizo esta ideia em
terapia).

Julius pondera o desafio de Nietzsche. Estaria disposto a repetir a


sua vida da mesma forma como a tinha vivido, vezes sem conta? Julius
conclui que sim, que estava certo de que vivera plenamente, e a
partir dessa certeza tomou consciência de que afinal sabia
exactamente como queria passar o seu último ano: «Viveria como tinha
vivido o ano anterior e o ano antes desse.

135
Gostava imenso de ser terapeuta, adorava criar ligações com as
pessoas, ajudando-as a acordarem em si aquilo que de melhor tinham...
Talvez necessitasse do aplauso, da validação e da gratidão daqueles
que ajudava. Mesmo assim, mesmo se alguns motivos obscuros jogassem a
sua parte na sua paixão pela terapia, a verdade é que estava feliz
com o seu emprego. Que Deus o abençoasse!»

Ler as minhas próprias palavras dava-me o conforto que procurava.


Completa a tua vida. Realiza todo o teu potencial. Agora compreendia
mais claramente os conselhos de Nietzsche. A minha própria
personagem, Julius, indicara-me o caminho — uma potente e invulgar
instância em que a vida imita a ficção.

• A Concretização do Meu Potencial •

Considero-me como um over-achiever, aquele que superou todos os seus


objectivos. Fui professor de Psiquiatria na Universidade de Stanford
durante décadas e, em geral, tenho sido tratado com muito respeito
pelos meus colegas e estudantes. Como escritor sei que me falta uma
escrita mais poética e imagística, como a de escritores
contemporâneos como Roth, Bellow, Ozick, McEwan, Banville, Mitchell e
inúmeros outros cujos trabalhos leio com grande admiração, mas dei
uso aos talentos que possuo. Tenho jeito para contador de histórias,
tendo escrito tanto ficção como não-ficção; consegui mais leitores e
reconhecimento do que alguma vez sonhei ser possível.

Muitas vezes no passado, ao preparar uma palestra, imaginava que


alguma éminence grise, quem sabe um psicanalista sénior, poderia
levantar-se e declarar que os meus comentários não haviam passado de
um chorrilho de asneiras. Mas esse medo já desapareceu; por um lado
já ganhei mais confiança em mim, por outro nunca há alguém mais velho
do que eu entre o público!

136
Durante décadas tenho recebido muitos elogios dos meus leitores e
estudantes. Por vezes aceito-os e sinto-me contente e inebriado por
eles. Outras, quando completamente absorto naquilo que estou a
escrever naquele momento, os louvores não penetram a mais do que um
milímetro de profundidade. Por vezes fico espantado por me atribuírem
muito mais sabedoria do que aquela que possuo, e lembro a mim mesmo
que nada daquilo é para ser levado muito a sério. Toda a gente
precisa de acreditar que existem por aí homens e mulheres que são
verdadeiramente sábios/as. Procurei-os quando era mais novo e agora,
sendo eu velho e distinto, tornei-me o recipiente mais adequado para
o desejo de outros.

Acredito que a necessidade que temos de mentores reflecte claramente


a nossa vulnerabilidade e a nossa ânsia por um ser superior ou
supremo. Muita gente, entre a qual me incluo, não só adora os nossos
mestres como frequentemente lhes assacamos mais atributos do que o
que eles realmente têm ou merecem. Há alguns anos, numa cerimónia de
homenagem a um professor de Psiquiatria, escutei o elogio de um dos
meus antigos alunos, a quem chamarei James, agora o bem sucedido
director de um Departamento de Psiquiatria numa universidade na costa
este. Conhecia bem ambos os homens e chocou-me que, ao longo do seu
discurso, James estivesse a atribuir um grande número das suas
próprias ideias criativas ao seu professor falecido.

Naquela tarde disse isso mesmo a James, que sorriu envergonhado,


respondendo: «Ah, Irv, sempre a ensinar-me!» Concordou comigo, mas
confessou que não entendia bem as suas motivações mais profundas.
Faz-me lembrar aqueles escritores da Antiguidade, que atribuíam de
tal forma as suas obras aos mestres que os académicos de hoje têm
grandes dificuldades em determinar a verdadeira autoria de muitos
escritos. Por exemplo, Tomás de Aquino atribuiu a maioria dos seus
pensamentos ao seu mestre intelectual, Aristóteles.

Quando o Dalai Lama veio falar à Universidade de Stanford, em 2005,


prestaram-lhe as maiores homenagens. Cada palavra sua era idealizada.
No final da conferência, uma grande parte dos meus colegas —
professores ilustres, reitores, cientistas prestigiadíssimos —
apressou-se a formar uma fila como meninos de escola para que ele os
«condecorasse», passando-lhes pela cabeça um terço de oração, para
lhe fazerem uma vénia e o tratarem por «sua santidade».

137
Cada um de nós tem um impulso poderoso que o leva a reverenciar um
grande homem ou uma grande mulher e a proferir palavras emocionadas
como «sua santidade.» Talvez fosse a isto que Erich Fromm, em O Medo
à Liberdade, se referia quando falava na «luxúria pela submissão». É
desta matéria que emergem as religiões.

Em suma, sinto que na minha vida e profissão preenchi-me e realizei o


meu potencial. Ter consciência disto não é só uma fonte de
satisfação, é a estrutura que nos protege contra o efémero e a
iminência da morte. De facto, em larga medida, o meu trabalho como
terapeuta tem constituído sempre uma forma de lidar com estas
angústias. Sinto-me abençoado por ser terapeuta: observar os outros a
abrirem-se à vida é extraordinariamente gratificante. A terapia
oferece-me oportunidades para excellence para o rippling. Em cada
hora de trabalho consigo transmitir partes de mim mesmo, bocadinhos
do que tenho aprendido acerca da vida.

Como um à parte: questiono-me frequentemente sobre quanto tempo é que


isto continuará a ser verdade para a nossa profissão. No meu
consultório já trabalhei com vários psicoterapeutas que, tendo
acabado de se licenciar com um currículo que consiste quase
inteiramente numa aprendizagem da terapia cognitivo-comportamental,
sentem-se desesperados perante a ideia de trabalharem mecanicamente
com pacientes apenas nessa base. E também me pergunto onde é que
terapeutas treinados para tratarem os seus doentes deste modo
impessoal encontrarão apoio quando forem eles próprios a necessitar
de ajuda. Aposto que não recorrerão a colegas da mesma escola.

A possibilidade de oferecer ajuda a outros através de uma técnica


terapêutica intensa, com todo o enfoque colocado em temas
interpessoais e existenciais, assumindo sempre a presença de um
inconsciente (apesar da minha visão do conteúdo do inconsciente
divergir muito dos pontos de vista analíticos tradicionais), é-me
preciosa e o desejo de a manter viva, e de a passar aos outros,
providencia significado e encoraja-me a continuar a trabalhar e a
escrever nesta idade avançada, apesar de, como dizia Bertrand Russel,
«algum dia o sistema solar se desmoronar em ruínas». Não posso
discutir a afirmação de Russell, contudo não me parece que esta
perspectiva cósmica seja relevante: é apenas o mundo humano, o mundo
das conexões humanas, que me importa.

138
Não teria qualquer tristeza, nem sentiria sofrimento algum, perante a
possibilidade de deixar um mundo vazio, um mundo onde não houvesse
uma única mente subjectiva consciente da sua existência. O conceito
de rippling, de passar testemunho do que foi importante na nossa
vida, implica conectarmo-nos aos outros, estarmos conscientes de quem
somos; sem isso, o rippling é uma impossibilidade.

• A Morte e os Meus Mentores •

Há cerca de trinta anos comecei a escrever um manual sobre


psicoterapia existencial. Em preparação para essa tarefa trabalhei,
durante muitos anos, com pacientes que enfrentavam a morte provocada
por doenças terminais. Muitos deles tornaram-se sábios através do seu
sofrimento, serviram como meus professores e tiveram uma influência
duradoura na minha vida e no meu trabalho.

Além destes tive três mentores extraordinários: Jerome Frank, John


Whitehorn e Rollo May. Com cada um destes homens vivi um encontro
memorável próximo do momento da sua morte.

Jerome Frank

Jerome Frank foi um dos meus professores na Johns Hopkins, um


pioneiro da terapia de grupo e o meu guia nessa área. Além disso
manteve-se sempre como um modelo de integridade pessoal e
intelectual. Após ter terminado o meu treino supervisonado por ele,
continuámos a falar com regularidade e fui-o visitando na casa de
repouso em Baltimore em que o internaram, porque a sua saúde física e
mental deteriorava-se rapidamente.

139
Jerry sofria de demência progressiva. Da última vez que o visitei,
apenas alguns meses antes da sua morte, que aconteceu aos noventa e
cinco anos, Jerry não me reconheceu. Falei com ele durante um grande
bocado, relembrando as memórias que possuía dele e de todos os
colegas com quem tínhamos trabalhado. A verdade é que, aos poucos,
começou a recordar-se de quem eu era e, abanando a cabeça com
tristeza, pediu-me desculpa pela sua memória já tão fraca.

«Desculpe-me, Irv, mas isto da memória já passou muito para lá do meu


controlo. A cada manhã que passa a minha memória, a ardósia inteira,
é completamente apagada.» Para tornar a sua ideia ainda mais clara,
passou a mão pela testa como se estivesse a apagar o quadro de lousa
de uma escola.

«Deve ser tão horrível para si, Jerry», disse-lhe. «Lembro-me do


orgulho que tinha na sua extraordinária memória.»

«Sabe, não é assim tão mau», respondeu-me. «Acordo, tomo o pequeno-


almoço aqui nesta ala, com todos estes pacientes e com o pessoal, que
a cada manhã me parecem estranhos, mas vão ficando mais familiares à
medida que o dia passa. Vejo televisão e depois peço a alguém que
empurre a minha cadeira de rodas até à janela e olho lá para fora.
Aprecio tudo o que vejo. Para muitas coisas olho como se fosse a
primeira vez. Gosto de olhar e ver. Não é assim tão mau, Irv.»

Esse foi o meu último encontro com Jerry Frank: numa cadeira de
rodas, o pescoço tão dobrado que tinha de se esforçar para conseguir
virar os olhos para mim. Sofria de uma demência devastadora, mas
apesar disso ainda estava a dar-me uma lição, a tentar ensinar-me
que, mesmo quando perdemos tudo, mantém-se o prazer de existir.

Estimo aquela oferta, dada num gesto final cheio de generosidade, por
um mestre extraordinário.

John Whitehorn

John Whitehorn, uma figura proeminente da Psiquiatria e presidente do


Departamento de Psiquiatria no Johns Hopkins ao longo de três
décadas, teve um papel fundamental na minha formação. Um homem
excêntrico, mas muito educado, cuja brilhante cabeça era adornada por
um cabelo meticulosamente penteado, do qual sobressaía uma madeixa
cinzenta.

140
Usava óculos com aros dourados e nem uma ruga lhe maculava nem a cara
nem o seu fato castanho, que vestia todos os dias do ano. (Nós, os
estudantes, suspeitávamos de que deveria ter dois ou três idênticos
no armário.)

Quando o Dr. Whitehorn proferia uma conferência não tinha qualquer


expressão corporal: só os seus lábios mexiam. Tudo o resto — mãos,
bochechas, sobrancelhas — permanecia incrivelmente imóvel. Nunca ouvi
alguém, nem os seus colegas, chamá-lo pelo seu primeiro nome. Todos
os alunos temiam a sua festa anual, na qual servia um copo minúsculo
de sherry e nem uma dentada de algo que se comesse.

Durante o meu terceiro ano de internato em psiquiatria, cinco


seniores e eu passávamos cada tarde de quinta-feira a fazer rondas
com o Dr. Whitehorn. Antes disso convidava-nos para um almoço no seu
escritório, forrado com painéis de carvalho. A comida era simples,
mas servida com elegância: toalha de linho, tabuleiros de prata
cintilantes e porcelana chinesa. A conversa ao almoço era longa e
descontraída. Todos tínhamos compromissos assumidos e pacientes
desesperados pela nossa atenção, mas não havia maneira de apressar o
Dr. Whitehorn. Por fim, até eu, o mais frenético do grupo, aprendi a
desacelerar e a deixar o tempo à espera.

Nessas duas horas era-nos dada a oportunidade de lhe perguntarmos o


que nos viesse à cabeça. Lembro-me de o questionar sobre assuntos
como a origem da paranóia, a responsabilidade do psiquiatra para com
os suicidas, a incompatibilidade entre a mudança terapêutica e o
determinismo. Apesar de responder integralmente a estas questões,
claramente preferia outros temas, tais como a estratégia militar dos
generais de Alexandre, o Grande, a precisão dos arqueiros persas, os
erros crassos da estratégia da batalha de Gettysburg e, acima de
tudo, a sua Tabela Periódica melhorada (a sua formação de origem era
como químico).

Depois do almoço sentávamo-nos em círculo a observar o Dr. Whitehorn


a dar consultas aos quatro ou cinco pacientes do seu serviço. Era
impossível prever quanto tempo iria durar cada um destes encontros.
Alguns demoravam quinze minutos, outros duas ou três horas. O seu
ritmo era de quem possuía todo o tempo do mundo.

141
Nada o interessava mais do que a profissão e os passatempos dos seus
doentes. De uma vez estaria a persuadir um professor de História a
discutir em profundidade a derrota da armada espanhola, na semana
seguinte encorajava um agricultor da América do Sul a falar, durante
uma hora, sobre árvores do café

— como se o seu propósito supremo fosse compreender a relação entre a


altitude e a qualidade do grão. Tão subtilmente passava para o
domínio pessoal que eu ficava sempre desconcertado, quando um
desconfiado e paranóide paciente começava subitamente a falar
abertamente sobre si próprio e o seu mundo psicótico.

Permitindo que um paciente lhe ensinasse algo, o Dr. Whitehorn


relacionava-se com a pessoa e não com a patologia desse paciente. A
sua estratégia melhorava invariavelmente tanto a auto-estima dos
doentes como o seu desejo de se auto-revelarem.

Um entrevistador perspicaz, podia dizer-se, contudo perspicaz é que


ele não era. Não havia qualquer duplicidade: o Dr. Whitehorn queria
genuinamente ser ensinado. Era um coleccionador de informação e tinha
desta maneira, e ao longo de vários anos, acumulado uma incrível
quantidade de factos e curiosidades.

«Tanto vocês como os vossos pacientes acabam por ganhar», dizia ele,
«se os deixarem ensinar-vos o suficiente sobre as suas vidas e
interesses; não só se edificam como acabarão por saber tudo do que
precisam sobre as suas doenças.»

O Dr. Whitehorn teve uma influência decisiva na minha formação

— e na minha vida. Vários anos mais tarde vim a saber que a sua carta
de recomendação, tão lisonjeadora, facilitou a minha nomeação para a
universidade de Stanford. Depois de iniciar aí a minha carreira não
tive qualquer contacto com ele durante vários anos, excepto algumas
sessões com um dos seus primos, que ele me enviou para tratamento.

Até que, certa manhã, fui surpreendido por um telefonema da sua filha
(que nunca tinha conhecido), dando conta de que Whitehorn sofrera uma
trombose, estava perto da morte e tinha explicitamente solicitado que
eu o visitasse. Voei imediatamente para Baltimore a partir da
Califórnia, o caminho todo a ponderar a pergunta «Porquê eu?» e fui
directamente para o hospital onde o haviam internado.

Estava hemiplégico, paralisado de um lado do corpo, e tinha uma


afasia expressiva que afectava grandemente a sua capacidade de falar.

142
Como foi chocante ver uma das pessoas que maior poder tinha de
exprimir as suas ideias que alguma vez conhecera a babar-se e a
tentar encontrar as palavras certas. Por fim conseguiu murmurar:
«Tenho... tenho... tenho medo, imenso medo.» Eu também tinha medo,
demasiado medo, medo provocado pela visão de uma estátua grandiosa
caída e em ruínas.

Mas por que razão quereria ele ver-me a mim? Tinha ensinado duas
gerações de psiquiatras, a maioria dos quais estava colocada em
lugares importantes em universidades de topo. Porquê escolher-me a
mim, um agitado e pouco confiante filho de um merceeiro imigrante? Em
que poderia ajudá-lo?

Acabei por não fazer grande coisa. Comportei-me com o nervosismo de


qualquer outra visita, procurando desesperadamente encontrar palavras
de conforto, até que ele adormeceu vinte minutos depois. Mais tarde
vim a saber que morrera apenas dois dias após a minha visita.

A pergunta «Porquê eu?» esteve comigo durante anos. Talvez fosse um


substituto do filho, que eu sabia que havia perdido durante a
terrível batalha de Bulge, durante a II Guerra Mundial.

Recordo-me da cerimónia em sua homenagem destinada a marcar a sua


passagem à reforma, que coincidiu com o meu último ano de internato.
No final do jantar, depois de todos os brindes e discursos, o Dr.
Whitehorn levantou-se e deu início ao seu discurso de despedida de
forma majestosa.

«Já ouvi dizer», começou ele, «que se pode julgar uma pessoa pelos
seus amigos. Se isso for verdade» — e nesse momento parou e olhou
intensamente para quem o escutava —, «então, realmente devo ser uma
óptima pessoa.»

Houve ocasiões, não as suficientes, em que tenho sido capaz de


aplicar este raciocínio a mim próprio. «Se ele pensava tão bem de
mim, realmente devo ser boa pessoa.»

Muito mais tarde, depois de ter conseguido ganhar alguma distância em


relação a tudo aquilo, e de ter aprendido muito mais sobre como é
morrer, vim a acreditar que o Dr. Whitehorn teve uma morte solitária
— a sua morte não foi rodeada de amigos próximos e da família. O
facto de me ter estendido a mão a mim, um estudante que já não via há
mais de dez anos, e com quem nunca tinha partilhado o que se possa
considerar um momento íntimo, indicia não tanto que eu tivesse alguma
qualidade especial mas a sua trágica falta de ligação às pessoas de
quem gostava e que gostavam dele.

143
Olhando para trás, frequentemente desejei ter tido uma segunda
oportunidade. Sabia que lhe dera certamente alguma coisa pelo simples
facto de me dispor a sobrevoar o país inteiro para responder ao seu
apelo, mas, oh, como desejava ter feito mais!... Devia ter-lhe
tocado, dar-lhe a mão, abraçá-lo ou beijá-lo na testa. Mas ele era
sempre tão rígido, colocava tanta distância entre si e os outros que
sinceramente duvido que alguém ousasse segurá-los nos braços, nem
naquele momento nem durante décadas. Nunca tivera o menor contacto
físico com ele, nem sequer sei se nos cumprimentávamos de aperto de
mão, mas também nunca vi alguém ter para com ele gestos físicos. Mas
como gostaria de ter sido capaz de lhe dizer, pelo menos, quanto
significava para mim; o quanto as suas ideias se tinham propagado em
mim; como pensava tantas vezes naqueles momentos em que falava com os
seus doentes, com todos os seus maneirismos tão típicos. De alguma
forma, o seu pedido para o visitar quando estava acamado e a morrer
foi o presente final de um verdadeiro mentor — apesar de saber
perfeitamente que, na situação in extremis em que se encontrava, nada
poderia ter estado mais longe da sua mente.

Rollo May

Rollo May era importante para mim como escritor, como terapeuta e,
mais tarde, como amigo. Durante o meu treino como psiquiatra sentia-
me confuso e insatisfeito com os modelos teóricos correntes. Parecia-
me que as formulações tanto do modelo biologicista como do modelo
psicanalítico esqueciam muita da essência humana. Quando foi
publicado o livro de Rollo May, Existence, estava eu no segundo ano
de internato, devorei cada uma das páginas sentindo que uma visão
nova e fantástica se abrira diante de mim. Decidi-me logo por uma
formação em Filosofia, inscrevendo-me numa licenciatura sobre a
História da Filosofia Ocidental. Desde então, tenho continuado a ler
e a assistir a cursos de Filosofia, descobrindo nessa área mais
sabedoria e ajuda para o meu trabalho do que na literatura
profissional do meu próprio ramo.

144
Fiquei muito grato a Rollo May pelo seu livro e por me ter indicado o
caminho para uma abordagem mais equilibrada dos problemas humanos
(refiro-me, especialmente, aos seus três primeiros ensaios; os mais
tardios eram traduções de analistas europeus, que achei menos
interessantes). Muitos anos depois, quando comecei a sofrer de
ansiedade de morte durante o meu trabalho com doentes oncológicos,
decidi fazer uma terapia com ele.

Rollo May vivia e trabalhava em Tiburon, a uns oitenta minutos de


carro do meu consultório em Stanford, mas senti sempre que valia a
pena o tempo da viagem que fiz todas as semanas durante três anos —
excepto nos três meses de Verão, em que ia de férias para New
Hampshire. Procurei dar um uso construtivo ao tempo que passava
nestes percursos, gravando as nossas sessões e ouvindo a sessão
prévia enquanto seguia para a próxima — uma técnica que passei a
sugerir aos meus pacientes que têm de fazer percursos longos até ao
meu consultório.

Falámos muito sobre a morte e a ansiedade que o meu trabalho com


tantos pacientes terminais provocou em mim. Era o isolamento que
acompanhava a morte o que mais me assustava; a certa altura, quando
comecei a experimentar uma grande ansiedade nocturna na véspera das
conferências que tinha de fazer, sobretudo se me obrigavam a dormir
fora de casa, decidi alugar um quarto num pequeno hotel não muito
longe do seu consultório, realizando uma sessão com ele antes e
depois dessas noites.

Como era previsível, tinha muita ansiedade flutuante, que me


assombrava nessas alturas, causando sonhos assustadores, que incluíam
imagens de perseguições e uma aterradora mão de bruxa que entrava
pela janela. Apesar de termos procurado ir mais fundo na exploração
do significado dessa ansiedade, fico com a sensação de que ambos
conspirámos para nunca sermos obrigados a olhar fixamente o Sol:
evitámos um confronto total com o espectro da morte, como, neste
livro, sugiro que se faça.

Tudo somado, contudo, Rollo foi um excelente terapeuta; e depois de


decidirmos terminar a relação terapêutica estendeu-me a mão, em sinal
de amizade. Sei que tinha boa opinião do meu livro Existential
Psychotherapy, que levou dez anos a escrever e que eu tinha acabado
de completar, e negociámos com relativa facilidade a transição
complexa e delicada de uma relação de terapeuta-paciente para um
relacionamento de amizade.

145
Houve mesmo uma ocasião em que os nossos papéis se inverteram. Depois
de Rollo ter sofrido uma série de pequenas tromboses, que o deixavam
confuso e em pânico, era ele que se virava para mim em busca de
apoio.

Uma noite a sua mulher, Georgia May, também ela uma amiga chegada,
telefonou-me a dizer que Rollo estava próximo da morte e pediu-nos,
tanto a mim como à minha mulher, que fôssemos imediatamente para lá.
Nessa noite permanecemos os três juntos, fazendo turnos ao lado da
cama de Rollo, que tinha perdido a consciência e respirava com
dificuldade, em consequência de um edema pulmonar avançado. Por fim,
quando me calhava ficar junto dele, Rollo inspirou uma última vez e
morreu. Georgia e eu lavámos o seu corpo e preparámo-lo para a
empresa funerária, que chegaria logo pela manhã, a fim de o levar
para ser cremado.

Na noite seguinte fui para a cama muito perturbado pela morte de


Rollo e pela ideia da sua cremação, e tive este sonho cheio de força:

Estou a caminhar com a minha irmã e os meus pais num centro comercial
e decidimos subir ao segundo andar. Dou por mim num elevador, mas
estou sozinho — a minha família desapareceu. É uma longa, longa
viagem de elevador. Quando saio, por fim, estou numa praia tropical.
Mas não consigo encontrar a minha família, apesar de a procurar e
voltar procurar. Mesmo tratando-se de um cenário deslumbrante — para
mim as praias tropicais são o equivalente ao Paraíso —, começo a
sentir um imenso terror. A seguir visto o pijama, que tem estampada
na frente a cara do urso Smokey. Aquela cara na T-shirt começa a
ficar mais clara e depois brilhante. Segundos depois a cara passa a
ser o foco de todo o sonho, como se toda a sua energia fosse
transferida para aquela pequena e adorável face de Smokey, o Urso.

O sonho acordou-me, não tanto pelo terror mas por causa do emblema
brilhante no pijama. Foi como se alguém tivesse repentinamente ligado
holofotes no meu quarto.

146
No início do sonho sentira-me calmo, quase feliz, mas assim que perdi
a minha família fui dominado por um pressentimento terrível e fiquei
verdadeiramente assustado. A seguir a isso, o sonho inteiro foi
consumido pela cara flamejante de Smokey.

Tenho quase a certeza de que a cremação do Rollo estava por trás da


imagem em chamas do urso Smokey. A morte de Rollo confrontou-me com a
minha própria morte, retratada no sonho pelo meu isolamento da minha
família e pela viagem interminável de elevador para o andar superior.
Estou chocado com a credulidade do meu inconsciente. Sinto-me
envergonhado por alguma parte de mim ter acreditado na versão de
Hollywood da imortalidade, retratada pela viagem de elevador e pela
versão cinematográfica do Paraíso celestial, repleto de praias
tropicais (contudo, aquele cenário, porque implicava solidão, estava
longe de ser inteiramente paradisíaco).

O sonho parece representar um esforço heróico de diminuição do


terror. Fiquei abalado pelo medo que a morte de Rollo me provocou e
pela sua cremação iminente, e no sonho batalhava contra esse pânico,
na tentativa de o desarmar, procurando suavizar a experiência. A
morte está benignamente disfarçada com uma viagem de elevador para um
andar superior, que é uma praia tropical. Até a fogosa cremação é
modificada para algo mais amigável, fazendo a sua aparição no pijama,
pronto para o repouso da morte, com uma adorável imagem do
aconchegante urso.

O sonho parece ir directamente ao encontro da crença de Freud de que


os sonhos são os guardiães do sono. O meu sonho trabalhou arduamente
para que eu continuasse a dormir, tentando evitar que o sonho se
tornasse num pesadelo. Como uma barragem, conteve a maré de terror
mas por fim rachou, permitindo que as emoções escapassem através da
brecha. A imagem do urso eventualmente sobreaqueceu e explodiu em
brasas tão incandescentes que me acordaram.

147
• Confronto Pessoal Com a Morte •

Poucos dos meus leitores não terão, por esta altura, vontade de saber
se, afinal, não escrevo este livro, aos setenta e cinco anos, para
lidar com as minhas próprias ansiedades da morte. Sinto a necessidade
de ser mais transparente. Coloco, muitas vezes, esta questão aos meus
pacientes: «Qual é o aspecto na morte que mais o assusta?» Neste
momento faço a mesma pergunta a mim mesmo.

A primeira coisa em que penso é na angústia de abandonar a minha


mulher, a minha alma gémea desde que ambos tínhamos quinze anos. Uma
imagem toma conta de mim: vejo-a a entrar no carro e a conduzir
sozinha. Deixem-me explicar que todas as quintas-feiras vou até São
Francisco dar consultas e ela apanha o comboio na sexta-feira para
passar o fim-de-semana comigo. Depois conduzimos juntos até Paio
Alto, onde a deixo para que apanhe o seu carro, que ficou no parque
de estacionamento da estação. Fico sempre à espera, olhando-a pelo
retrovisor, de forma a certificar-me de que consegue pôr o carro a
trabalhar, e só então vou embora. A imagem dela a entrar no carro
sozinha após a minha morte, sem que os meus olhos a vejam, sem a
minha presença protectora, inunda-me com um sofrimento dificilmente
traduzível por palavras.

Claro que o leitor poderá dizer que sofro pela dor dela. Mas, e a
minha dor? A minha resposta é que não haverá mais «eu» para a sentir.
Estou de acordo com a conclusão de Epicuro: «Onde a morte está, eu
não estou.» Não serei «eu» e por isso não poderei sentir terror,
tristeza, dor ou privação. A minha consciência estará extinta, o
interruptor desligado e as luzes apagadas.

Também encontro conforto no argumento da simetria exposto por


Epicuro: depois da morte estarei no mesmo estado de inexistência como
antes de nascer.

Rippling

Mas não posso negar que escrever este livro sobre a morte tem para
mim um grande valor pessoal.

148
Acredito que até contribui para uma dessensibilização: suponho que
somos capazes de nos habituar a qualquer coisa, até à morte. Contudo,
o meu propósito de raiz ao escrever este livro não é aliviar a minha
própria ansiedade de morte, pois acredito sinceramente que o escrevo
antes de mais como professor. Já aprendi muito sobre como superar
esta ansiedade e desejo transmitir as minhas descobertas aos outros
enquanto ainda estou vivo, ainda intelectualmente intacto.

Dessa forma, a iniciativa de passar a papel a minha experiência está


intimamente associada ao rippling. Sinto uma enorme satisfação em
poder passar algo de mim próprio aos outros, desta e de novas
gerações. Mas, como já referi ao longo deste livro, não espero que
seja o meu «eu», a minha imagem, a minha persona, a persistir, mas
antes alguma ideia, algum detalhe que oriente e conforte. Talvez um
pensamento generoso, um gesto de carinho ou uma citação sábia sobre a
forma mais construtiva de lidar com este terror viva para lá de mim e
chegue, de maneiras sempre imprevisíveis, a pessoas que nem sequer
virei a conhecer.

Recentemente, um jovem consultou-me porque tinha problemas no seu


casamento, mas também marcara o encontro para satisfazer a sua
curiosidade. Vinte anos antes, a sua mãe (de quem já não conseguia
lembrar-me) fizera terapia comigo durante algumas sessões e falara-
lhe acerca de mim, contando-lhe como o nosso trabalho terapêutico
modificara a sua vida. Todos os terapeutas (e professores) que
conheço têm histórias similares, que, afinal, limitam-se a atestar o
efeito do rippling a longo prazo.

Já há muito que abri mão do desejo, da esperança, de que eu próprio,


a minha imagem, persistia de alguma forma tangível. E tenho plena
consciência de que chegará um dia em que a última pessoa viva que me
conheceu morrerá. Há décadas li o livro de Alan Sharp, A Green Tree
in Gedde, uma descrição de um cemitério no campo com duas secções: a
dos «mortos lembrados» e a dos «verdadeiramente mortos». As dos
mortos lembrados estavam cuidadas e cheias de flores, enquanto as
campas dos verdadeiramente mortos tinham sido esquecidas: as ervas
daninhas cobriam as lápides entortadas e desgastadas pelo tempo.
Estes «realmente mortos» eram os desconhecidos, aqueles que já
ninguém vivo conhecera ou amara. Uma pessoa idosa — cada pessoa idosa
— é o último repositório da imagem de muitas outras.

149
Quando os muito velhos morrem, cada um leva consiga uma multitude de
pessoas que vão com eles para o túmulo.

Conexões e transiência

As conexões íntimas ajudam-me a ultrapassar o medo da morte. Dou o


maior valor ao relacionamento que mantenho com a minha família — a
minha mulher, quatro filhos, os meus netos, a minha irmã — e à rede
de amigos próximos que se estende ao longo de décadas. Sou tenaz na
minha tentativa de manter e cultivar as velhas amizades; não se fazem
novas amizades antigas!

A oportunidade única de estabelecer conexões fortes é o que torna a


terapia tão gratificante para o terapeuta. Tento relacionar-me
intimamente e autenticamente com cada um dos pacientes que vejo, a
cada hora de trabalho. Há pouco tempo comentei com um amigo próximo,
colega e também terapeuta, que, apesar de já ter setenta e cinco
anos, a possibilidade de me reformar não me passa pela cabeça. «Este
trabalho dá-me tanta satisfação que o faria de graça. Considero-o um
enorme privilégio», disse-lhe.

Ao que ele me respondeu, no mesmo instante: «Às vezes até penso que
pagaria para poder fazê-lo.»

Mas até que ponto podemos servir-nos destas ligações para enfrentar a
ansiedade, o seu potencial não terá limites? No fim de contas, pode o
leitor perguntar, se nascemos sozinhos e temos de morrer sozinhos,
que valor fundamental podem ter estas conexões? De cada vez que me
proponho meditar sobre esta questão vem-me sempre à memória o
comentário que uma mulher às portas da morte fez, numa sessão de
terapia de grupo: «Está uma noite escura, de um negrume total. Estou
sozinha no meu barco, que flutua numa pequena baía. Vejo as luzes de
muitos outros barcos. Sei que não os apanho, não posso partilhar a
viagem com eles, mas como é reconfortante ver todas essas outras
luzinhas, iguais à minha, a flutuarem nas mesmas águas...»

Concordo com ela — conexões próximas e profundas apaziguam a dor do


transiência. Muitos filósofos expressaram outras teorias com o mesmo
objectivo.

150
Schopenhauer e Bergson, por exemplo, consideram que os seres humanos
são manifestações de uma força de vida que nos engloba a todos (o
«desejo», o «elã vital»), na qual somos reabsorvidos depois da morte.
Quem acredita na reencarnação reivindicaria que uma parte da essência
de um ser humano — o espírito, alma, ou a chama divina — persiste
sempre e renasce noutro ser. Os materialistas provavelmente diriam
que depois da morte o nosso DNA, as nossas moléculas orgânicas, ou
até os nossos átomos de carbono, são dispersados pelo cosmos, até
serem chamados a fazerem parte de uma outra forma de vida.

Para mim estes modelos de persistência contribuem muito pouco para


aliviar a dor da transiência: o destino das minhas moléculas, não
sendo acompanhado pela minha consciência pessoal, dá-me apenas uma
sombra de consolo.

Para mim, a transiência é como música de fundo: sempre presente,


raramente percebida, até algum evento marcante fazer-nos tomar
consciência dela. Penso num incidente recente num encontro de grupo.

Antes de mais, alguma informação sobre o encontro: faço parte de um


grupo de apoio terapêutico sem líder, com dez outros terapeutas, há
mais de quinze anos. Ora, há vários meses que o grupo se centra no
Jeff, um psiquiatra que está a morrer com um cancro incurável. Desde
que tomou conhecimento do diagnóstico, Jeff tinha-se transformado
implicitamente no nosso guia, ensinando-nos a enfrentar a morte de
uma maneira directa, generosa e corajosa. Mas nos últimos dois
encontros Jeff dava mostras de uma crescente fragilidade.

Nesse dia, em que voltámos a juntar-nos, dei por mim a mergulhar numa
elaborada fantasia sobre a importância da transiência, que
imediatamente após a reunião tentei guardar na forma de apontamentos.
(Apesar de nos regermos por uma regra de confidencialidade, o grupo e
Jeff deram-me uma dispensa especial para este efeito.)

Jeff falou dos dias que aí vêm, de como o seu estado se agravará ao
ponto de não poder voltar a encontrar-se com o grupo ou a participar
nele, mesmo que passássemos a reunir-nos em sua casa. Era essa a
forma que encontrava de começar a despedir-se de nós? Estaria a
evitar confrontar-se com a dor que a tristeza desse momento lhe
provocava, afastando-se de nós? Jeff referiu-se ao facto de a nossa
cultura ocidental encarar os que morrem como lixo, ou algo «sujo», e
como, em consequência desta visão, as pessoas se afastam
instintivamente daqueles cuja morte está iminente.

151
«Mas sentes que isso tem acontecido aqui?», perguntei-lhe. Ele olhou
em redor e fez que não com a cabeça: «Não, aqui não. Aqui é
diferente; cada um de vocês tem-se mantido perto de mim, não me
abandonaram.»

Alguns dos nossos colegas interrompem, para lhe dizer que sentiam
necessidade de que se estabelecesse fronteiras entre a ajuda que
podíamos realmente dar, e que ele desejava, e aquilo que já poderia
ser interpretado como invasivo da sua privacidade, uma intromissão
que poderia desagradar-lhe. Confessam que temem estar a pedir-lhe que
dê demasiado de si. Jeff responde que se considera professor do
grupo. Está a ensinar-nos a como morrer. Sinto que tem toda a razão.
Pela minha parte nunca me esquecerei dele, ou das suas lições. Mas
está cada vez mais fraco.

A terapia convencional, que lhe tinha sido útil no passado, agora já


não é relevante, afirma. Só sente vontade de conversar sobre temas
espirituais — área em que os terapeutas não se aventuram.

«O que queres dizer com espirituais?», perguntámos-lhe.

Depois de uma longa pausa, respondeu: «Saber mais sobre o que é a


morte. Como se enfrenta e o que acontece nesse momento. Sobre isto
não há terapeuta algum que fale. Se estou a meditar sobre a minha
respiração, e a minha respiração desacelera e pára, então o que
acontece à minha mente? E a seguir a isso? Haverá alguma forma de
consciência mesmo depois de o corpo desaparecer? A verdade é que
ninguém conhece realmente as respostas a estas questões. Haverá
problema em pedirá minha família que permita que o meu corpo fique
deitado durante três dias (apesar dos líquidos e do cheiro)? Três
dias, na visão budista, é o tempo necessário para o espírito
conseguir libertar-se. E as minhas cinzas? Será que este nosso grupo
gostaria de espalhar algumas das minhas cinzas na cerimónia fúnebre,
talvez no meio de uma floresta maravilhosa?»

Mais tarde, quando Jeff nos confidenciou que se sentia mais vivo,
mais verdadeiro do que em qualquer outro lugar, ou com qualquer
outras pessoas, mais ele mesmo, quando participava nos encontros
deste nosso grupo, as lágrimas correram-me pela cara.

Subitamente — enquanto outro membro falava sobre um pesadelo em que


era enterrado vivo num caixão, estando ainda consciente —, uma
memória que há muito se escondera voltou a surgir. Durante o meu
primeiro ano em Medicina escrevi uma pequena história inspirada em H.
P. Lovecraft sobre esse mesmo tema: a consciência continuada num
homem enterrado.
152
Nessa altura enviei o conto para uma revista de ficção científica na
esperança de a ver publicada; foi rejeitada e guardei-a algures
(nunca a encontrei), não mais voltando apensar nela, de tal maneira
me vi consumido pelos calhamaços que era obrigado a estudar. Esqueci-
a durante quarenta e oito anos, até àquele mesmo momento. Mas aquela
recordação ensinou-me algo sobre mim próprio: já então, muito antes
de me ter apercebido conscientemente disso, procurava lidar com a
ansiedade de morte.

Que encontro extraordinário, pensei. Algures ao longo da existência


da Humanidade, terá algum outro grupo tido tais debates? Em que nada
se escondia e tudo era permitido perguntar ou contar? As questões
mais profundas, mais complicadas, mais negras e difíceis sobre a
condição humana colocadas sem uma hesitação no olhar, nem sequer um
pestanejar? Fez-me lembrar uma jovem doente que tinha visto nesse
mesmo dia e que passara a sessão a queixar-se da insensibilidade dos
homens. Olhei em redor para este grupo constituído apenas por
elementos do sexo masculino. Cada um destes homens, que me eram tão
queridos, tinha sido tão sensível, tão carinhoso, tão
extraordinariamente presente... Como desejava que ela visse este
grupo. Quem me dera que todos pudessem vê-lo!

Foi então que a ideia da transiência, que pairava suavemente sem que
me apercebesse dela, se tornou evidente. Percebi, com um baque do
coração, que aquele encontro inesperado era tão efémero como este
nosso amigo que morria. E tão efémero como todos nós que caminhávamos
ao encontro da morte, que nos esperava um pouco mais à frente, mas na
mesma estrada. E qual o destino dessa reunião tão perfeita, tão
magnífica, tão magistral? Desaparecerá. Todos nós, os nossos corpos,
as nossas memórias desse encontro, estas notas que escrevo, o
sofrimento de Jeffe o que ele nos ensinou, o facto de não o termos
abandonado, tudo isto se evaporará, deixando nada excepto átomos de
carbono navegando na escuridão.

Uma onda de tristeza tomou conta de mim. Tinha de haver uma forma de
salvar alguma coisa. Se ao menos houvesse uma filmagem deste grupo
que pudesse ter sido passada num canal universal, a que assistissem
todos os seres vivos, o mundo seria diferente. Sim. Talvez esse fosse
o segredo: salvar, preservar, combater o esquecimento. Não sou
viciado na preservação? Não é por isso que escrevo livros? Porque
tomo estes apontamentos? Não é num esforço fútil? Pensei num poema de
Dylan Thomas que dizia que, embora os amantes morram, o amor
sobrevive.

153
Senti-me tocado por ele quando o li pela primeira vez, mas agora
pergunto-me: sobrevive onde? Como um ideal platónico? As árvores que
tombam são ouvidas quando não há alguém para as escutar?

Pensamentos de rippling e de conectividade acabaram por vir em meu


auxílio, trazendo-me alívio e esperança. Toda a gente neste grupo
será influenciada, talvez para sempre, pelo que testemunhamos hoje,
todos estão conectados; cada um de nós passará esta experiência de
vida a outros, de forma explícita ou implícita, e as pessoas, tocadas
pela história, transmiti-la-ão, por sua vez, a outros. Não podemos
não transmitir uma lição tão poderosa. Estes círculos de sabedoria,
compaixão e virtude propagar-se-ão, até... até... até...

A coda. Duas semanas mais tarde, quando nos encontrámos em casa de


Jeff, agora às portas da morte, mais uma vez lhe pedi autorização
para publicar estes meus apontamentos e também lhe perguntei se
preferia que usasse um pseudónimo, ou se queria que mantivesse a sua
identidade. Jeff pediu-me que usasse o seu nome verdadeiro, e gosto
de pensar que a ideia de fazer rippling através deste documento lhe
deu uma sensação de conforto.

• Religião e fé •

Não sou um ex-algo, não abandonei alguma religião, não acreditei e


deixei de acreditar. Desde que me lembro, nunca tive qualquer crença
religiosa. Recordo-me de ir à sinagoga nos dias de festa com o meu
pai e de ler a tradução inglesa das orações, um interminável canto de
louvor à glória e ao poder de Deus. Sentia-me totalmente
desconcertado pelo facto de a congregação prestar homenagem a uma
divindade tão cruel, vaidosa, vingativa, ciumenta e sedenta de
elogios. Olhava cautelosamente para as caras dos meus familiares
adultos, com as cabeças a abanar e a salmodiar, na esperança de os
ver sorrir para mim. Mas só continuavam a rezar. Espreitei o meu tio
Sam, sempre um brincalhão, um coração de ouro, na certeza de que pelo
menos ele me piscaria o olho e me sussurraria pelo canto da boca
qualquer coisa como «Não leves isto muito a sério, miúdo», mas nem
ele.

154
Não me piscou o olho nem sorriu: olhava directamente em frente e
continuava absolutamente concentrado nos cânticos.

Já em adulto estive presente no funeral católico de um amigo e


escutei o padre a proclamar que, um dia, estaríamos todos juntos no
Paraíso para um jubiloso encontro. Mais uma vez, olhei em redor para
as caras das pessoas ao meu lado e nada vi, a não ser uma crença
fervorosa. Senti-me cercado por ilusão. Muito do meu cepticismo
poderá ser uma consequência das rudimentares teorias pedagógicas dos
meus primeiros professores de religião; talvez se, numa tenra idade,
tivesse encontrado um professor bom, sensível e intelectualmente
exigente ficasse por ele marcado e não conseguisse imaginar um mundo
sem Deus.

Neste livro sobre o medo da morte tenho evitado grandes discursos


sobre o papel da consolação religiosa neste fenómeno, porque me sinto
manietado por um dilema pessoal. Por um lado, e porque acredito que
muitas das ideias expressas nestas páginas têm valor até para
leitores com fortes crenças religiosas, evitei uma linguagem que
pudesse levá-las a virar-lhes as costas. Respeito pessoas com fé,
mesmo não partilhando a sua religião. Por outro, o meu trabalho está
enraizado numa visão secular e existencial do mundo que rejeita
crenças sobrenaturais. A forma como entendo a vida parte do princípio
de que ela (incluindo a vida humana) surgiu de acontecimentos
aleatórios; que somos criaturas finitas; e que, por muito que
desejássemos que assim não fosse, não podemos contar com alguém mais
que não nós próprios, para nos proteger, avaliar o nosso
comportamento e dar sentido à nossa existência. Não temos qualquer
destino predestinado e cabe-nos escolher como viver da forma mais
completa, mais feliz e o mais realizada possível.

Por muito fria e limitada que esta minha visão do mundo possa parecer
aos olhos de alguns, não a considero como tal. Se, como pensava
Aristóteles, a premissa que nos define como seres humanos é a nossa
mente racional, então devemos aperfeiçoar esta capacidade. Daí que
concepções religiosas ortodoxas, fundamentadas em ideias irracionais,
tais como milagres, sempre me deixaram perplexo. Confesso-me
pessoalmente incapaz de acreditar em algo que desafie as leis da
Natureza.

Faça esta experiência de pensamento.

155
Olhe fixamente para o Sol; encare, sem pestanejar, o lugar que ocupa
no Universo; tente viver sem as baias protectoras que muitas
religiões oferecem — querendo com isto referir-me a alguma forma de
continuação da vida, imortalidade ou reencarnação, todas negando a
morte como ponto final. Julgo que podemos viver bem sem essas
bengalas, e concordo com Thomas Hardy, que diz que «se existe algum
caminho que nos leve ao melhor, exige que encaremos de frente o
pior».

Não duvido de que as crenças religiosas sirvam para que muitas


pessoas temperem com elas o medo da morte. Contudo, parecem exigir
uma pergunta — dá-me a impressão de que são apenas formas de
contornar o assunto: a morte não é final, a morte é negada, a morte
perde sentido.

Como desenvolvo, então, o meu trabalho terapêutico com os crentes?


Deixem-me responder à questão da minha maneira favorita — através de
uma história.

«Porque me envia Deus estas visões?»: Tim

Há já alguns anos recebi um telefonema do Tim, que me solicitou uma


única consulta para o ajudar a lidar com aquilo que me explicou ser
«a pergunta mais importante da existência — ou da minha existência».
De seguida acrescentou: «Deixe-me repetir: apenas uma única consulta.
Sou um homem religioso.»

Uma semana mais tarde entrou no meu consultório, com calças


jardineiras manchadas de tinta, à moda dos artistas holandeses, e de
portfólio de desenhos na mão. Era baixo, redondo, orelhas grandes, o
cabelo rapado mas já com muitas brancas e um enorme sorriso que
deixava à vista os seus dentes, como se fossem uma vedação branca de
madeira, mas onde faltavam algumas ripas. Usava óculos com lentes tão
grossas que faziam lembrar o fundo de uma garrafa de Coca-Cola.
Trazia consigo um pequeno gravador e pediu se poderia gravar a nossa
sessão.

Concordei e a conversa começou, dando-me, logo nos primeiros minutos,


os detalhes mais importantes da sua biografia. Fizera sessenta e seis
anos e estava divorciado; a sua profissão fora, durante vinte anos,
construtor civil, mas reformara-se havia quatro, para se poder
dedicar totalmente à sua arte. Feita esta introdução, e sem que eu
lhe tivesse dado o menor incentivo para tal, foi directo ao assunto.

156
«Telefonei-lhe porque li o seu livro Existential Psychotherapy e o
senhor pareceu-me um homem sábio.»

«E porque será», perguntei-lhe, «que só quer ver este homem sábio uma
única vez?»

«Porque só tenho uma pergunta a fazer e confio que seja sábio o


suficiente para lhe dar resposta numa só sessão.»

Surpreendido com a sua resposta-relâmpago, olhei-o interessado. Ele


desviou os olhos e espreitou pela janela, subitamente irrequieto;
levantou-se e sentou-se duas vezes, segurando o seu portfólio ainda
com mais força.

«É essa a única razão?»

«Estava mesmo a ver que iria perguntar-me isso. Acontece-me muitas


vezes saber de antemão o que as pessoas vão dizer. Mas, voltando à
sua pergunta do motivo para uma única visita. Dei-lhe a resposta
principal, mas existem outras. Três, para ser mais exacto. Uma, as
minhas economias dão para viver mas não para aventuras. Duas, o seu
livro é sábio mas fica bem patente que não é crente e eu não estou
aqui para defender a minha fé. Terceira, é um psiquiatra e todos os
psiquiatras que já conheci até hoje tentaram receitar-me
comprimidos.»

«Gosto da sua franqueza e da forma clara como diz o que pensa, Tim.
Procuro também fazer sempre o mesmo. Darei o meu melhor para o ajudar
nesta sessão. Diga-me lá então qual é a sua pergunta.»

«Já fui muitas coisas além de construtor civil.» Tim falava depressa,
como se tivesse ensaiado tudo aquilo. «Já fui poeta. E músico —
quando era mais novo toquei piano e harpa e já compus alguma música
clássica e uma ópera, que foi representada por um grupo amador local.
Mas nos últimos anos tenho-me dedicado à pintura, a nada mais do que
à pintura. Isto aqui», e acenou em direcção ao portfólio, ainda
firmemente seguro por baixo do seu braço, «é o trabalho que fiz,
apenas neste último mês.»

«E a pergunta...?»

«Todas as minhas pinturas e desenhos são simples cópias das visões


que Deus me envia. Agora, quase todas as noites, entre o adormecer e
o acordar, recebo uma visão oferecida por Deus e passo o resto do
dia, ou dias, apenas a passar à tela o que vi. O que quero perguntar-
lhe é porque me dá Deus estas visões. Quer ver?»

157
Abriu o portfólio cuidadosamente, obviamente hesitante sobre se devia
ou não mostrar-me o seu trabalho, optando por puxar para fora um
desenho enorme. «Aqui está um exemplo da semana passada», disse.

Era um desenho extraordinário feito a tinta-da-china, com detalhes


meticulosos, retratando um homem nu, deitado de barriga para baixo e
abraçando a terra, possivelmente até a copular com a terra, enquanto
os arbustos e os ramos das árvores circundantes se dobravam em sua
direcção, parecendo acariciá-lo. Um grande número de animais

— girafas, texugos, camelos, tigres — rodeavam-no, todos com as


cabeças dobradas, como se estivessem a prestar-lhe homenagem. Em
rodapé tinha escrito «Amando a Mãe-Terra».

Depois deste vieram os outros. Tim tirava-os a toda a velocidade da


pasta, um após o outro. Eu estava hipnotizado pelos seus bizarros,
destorcidos, notáveis desenhos e acrílicos, que transbordavam com
símbolos de arquétipos, iconografia cristã e várias mandalas, com
cores flamejantes.

De repente olhei para o relógio e tive de me obrigar a deixar de


olhá-los.

«Tim, a nossa hora está a acabar e quero responder-lhe à pergunta.


Tenho duas observações a fazer sobre si. A primeira é de que é
extraordinariamente criativo e já deu muitas provas disso ao longo da
sua vida

— a sua música, a ópera, a poesia, e agora a sua arte extraordinária.


A segunda observação é que a sua auto-estima é muito baixa: não
acredito que reconheça e aprecie os seus talentos. Está a acompanhar
o meu raciocínio?

«Acho que sim», disse Tim, com um ar envergonhado, acrescentando, sem


olhar para mim: «Não é a primeira vez que me dizem isso.»

«Julgo que o que está a acontecer é que estas ideias e estes desenhos
maravilhosos emergem do seu próprio poço de criatividade, mas depois
a sua auto-estima, estando tão deprimida, não o deixa acreditar em si
mesmo, não o deixa acreditar que é capaz de tais criações, daí que se
sinta obrigado a atribuir automaticamente o mérito do que faz a outra
pessoa, neste caso a Deus. O que pretendo dizer é que, mesmo que a
sua criatividade possa ter-lhe sido dada por Deus, estou convencido
de que é o Tim, e apenas o Tim, que cria as visões e os desenhos.»

Tim concordava com a cabeça, enquanto escutava atentamente.

158
Apontou para o gravador e disse-me: «Quero lembrar-me disto e ouvirei
muitas vezes esta cassete. Acho que me deu aquilo de que eu
precisava.»

Quando trabalho com alguém que professa uma religião, sigo o preceito
que está no topo da minha hierarquia pessoal de valores: cuidar dos
meus pacientes. Não deixo que algo interfira com isso. Nem sequer
consigo imaginar-me a minar qualquer sistema de crença que esteja a
prestar um bom serviço àquela pessoa, mesmo que seja um sistema que
possa parecer-me inteiramente desprovido de sentido. Por isso, quando
um crente procura a minha ajuda nunca confronto o núcleo central da
sua fé, geralmente algo que lhe foi imbuído desde o nascimento. Pelo
contrário, procuro até formas de apoiar as suas convicções.

Certa vez trabalhei com um padre que me revelou que lhe


proporcionavam imenso conforto as conversas que tinha com Jesus,
antes da primeira missa da manhã. À época em que me procurou estava
tão atormentado por tarefas administrativas e por um conflito com
colegas da mesma diocese que se viu obrigado a cortar no tempo
dedicado a esses «encontros», acabando mesmo por lhes pôr fim.
Comecei a explorar com ele a razão pela qual se tinha privado de uma
coisa que lhe dava tanto conforto e o ajudava a definir a sua vida.
Trabalhámos em conjunto contra a sua resistência. Nunca me ocorreu
questionar as suas práticas ou instalar dúvidas de qualquer género.

Contudo, recordo-me de uma excepção chocante, um episódio em que


perdi algum do meu profissionalismo terapêutico.

Como pode viver sem sentido?: o rabino ortodoxo

Há vários anos, um jovem rabino ortodoxo que visitava os EUA


telefonou-me para solicitar uma consulta. Disse-me que estava em
formação para terapeuta existencial, mas sentia alguma dissonância
entre a sua formação religiosa e as minhas formulações psicológicas.
Concordei em vê-lo e uma semana mais tarde entrou no meu consultório
um jovem bonito com olhos penetrantes, uma longa barba, patilhas, um
yarmulke e, estranhamente, a completar o conjunto, sapatos de ténis.

159
Durante trinta minutos falámos sobre generalidades e acerca do seu
desejo de se tornar terapeuta. Depois passámos ao conflito que ele
dizia sentir entre as suas crenças religiosas e as opiniões expressas
no meu manual Existential Psychotherapy.

A princípio com uma atitude deferente, gradualmente o seu


comportamento foi-se modificando e pôs-se a expressar as suas crenças
com tanta intensidade e zelo que comecei a suspeitar de que o
verdadeiro propósito da sua visita era converter-me à vida religiosa
(não seria a primeira vez que seria visitado por um missionário).
Enquanto a sua voz subia de tom e as palavras se tornavam mais duras,
lamentavelmente eu também me impacientei, tornando-me muito mais
bruto e directo do que é meu hábito.

Interrompi-o para declarar, com toda a franqueza: «Acho que a sua


preocupação em relação ao diferendo entre as suas crenças e as teses
expostas no meu livro é real, rabino. Há, de facto, uma divergência
fundamental entre as nossas opiniões. O rabino acredita num Deus
feito à sua medida, omnipresente, omnisciente, que olha por si
protegendo-o, providenciando-lhe um projecto de vida pré-definido.
Ora, essa visão é incompatível com o núcleo essencial da minha visão
existencialista da Humanidade como livre e mortal, em que somos
lançados sozinhos e aleatoriamente para um Universo que nem dá pela
nossa presença.»

«Na sua opinião», continuei, «a morte não é o fim. Diz-me que a morte
é apenas uma noite entre dois dias e que a alma é imortal. Por isso,
sim, parece-me complicado que se possa tornar num terapeuta
existencial, já que os nossos pontos de vista são diametralmente
opostos.»

«Mas como consegue o senhor viver apenas com essas crenças? Sem
sentido para a vida?», respondeu-me ele, com genuína preocupação
estampada na cara. Depois esticou o dedo na minha direcção, abanou-o
e insistiu: «Pense bem. Como pode viver sem acreditar em algo maior
do que o Homem? Digo-lhe que não é possível. É como viver no escuro.
Como um animal. Que significado poderia haver na existência, se tudo
estivesse destinado a desaparecer? A minha religião dá-me sentido,
sabedoria, moral, uma vida com conforto divino, com regras de vida.»

160
«Não considero que tudo isso constitua uma resposta racional, rabino.
Esses benefícios — significado, sabedoria, moralidade, uma vida
preenchida — não são dependentes de se acreditar, ou não, em Deus. E,
sim, é evidente que as crenças religiosas fazem-no sentir-se bem,
seguro, virtuoso — é exactamente para isso que as religiões foram
inventadas. Pergunta como posso eu viver. Acredito que vivo bem, sou
guiado por doutrinas criadas por seres humanos. Acredito no juramento
hipocrático, que fiz como médico, e dedico-me a ajudar os outros a
encontrarem a cura e a crescerem como pessoas. Vivo uma vida com
moral. Sinto compaixão pelos que me rodeiam. Existo no seio de uma
relação de amor com a minha família e amigos. Não preciso que a
religião me ofereça uma bússola para descobrir o caminho.»

«Como pode dizer essas coisas?», protestou. «Tenho muita pena de si.
Há alturas em que sinto isso mesmo, que sem o meu Deus os meus
rituais diários, as minhas crenças, não conseguiria viver.»

«E há alturas», respondi eu, perdendo totalmente a paciência, «em que


penso que se tivesse de dedicar a minha vida inteira a crenças
fantasiosas, e devotar todo o meu tempo a obedecer a 613 regras
diárias e a glorificar um Deus que se alimenta de lisonja humana,
consideraria seriamente enforcar-me!»

Nesse momento, o rabino estendeu a mão para o seu yarmulk e eu


pensei: oh não, ele vai atirá-lo fora. Fui demasiado longe, longe de
mais! Por impulso acabei por dizer mais do que pretendia. Nunca, mas
nunca mesmo, foi meu desejo minar a fé de alguém.

Mas não, o rabino queria apenas coçar a cabeça e expressar a confusão


que lhe fazia a profunda fenda ideológica que nos separava e o facto
de me ter afastado daquela maneira da minha herança cultural.
Acabámos a nossa sessão amigavelmente e separámo-nos; ele seguiu para
norte e eu para sul. Nunca cheguei a saber se continuou a estudar
psicoterapia existencial.

161
• Sobre Escrever Um Livro Acerca da Morte •

Uma palavra final acerca de estar a escrever sobre a morte. É


natural, para uma pessoa treinada a analisar e a reflectir sobre
tudo, que aos setenta e cinco anos nos questionemos sobre a morte e o
a transiência. A informação colhida todos os dias é demasiadamente
poderosa para ser ignorada: a minha geração está a acabar, os meus
amigos e colegas ficam doentes e morrem, os meus olhos já não têm a
qualidade que tinham e percebo cada vez mais vezes sinais de alerta
emitidos pelos vários postos somáticos do meu corpo — joelhos,
ombros, costas, pescoço.

Na minha juventude ouvia os amigos dos meus pais comentarem como


todos os Yalom eram carinhosos — e como todos morriam cedo. Acreditei
no cenário de uma morte precoce durante muito tempo. Contudo, aqui
estou eu aos setenta e cinco. Já vivi muitos mais anos do que o meu
pai e sei que este tempo é um tempo emprestado...

Não está o acto criativo sempre interligado a preocupações de


finitude? Rollo May acreditava que sim, sendo ele próprio um óptimo
escritor e pintor, cujo maravilhoso quadro cubista do monte St.
Michel está pendurado no meu consultório. Persuadido de que criar
permite-nos ultrapassar o nosso medo da morte, Rollo continuou a
escrever mesmo até ao fim. Faulkner expressava a mesma ideia: «O
objectivo de cada artista é travar o movimento, que é a vida, por
modos artificiais que permitam guardá-la fixa e imutável, para que
daqui a cem anos, quando um estranho olhar a obra, se comova
novamente.» E Paul Theroux comentava que a morte era tão dolorosa de
contemplar que nos levava a «amar a vida e a valorizá-la com tanta
paixão que ela se tornava na grande causa de toda a alegria e de toda
a arte».

O acto de escrever, em si, produz em quem escreve um sentimento de


renovação. Amo o acto de criar, desde o primeiro cintilar de uma vaga
ideia até ao manuscrito completo. Considero a mera mecânica de
escrever uma fonte de prazer. Adoro a verdadeira carpintaria que o
processo da escrita exige: encontrar a palavra certa, lixá-la, polir
uma frase mais áspera, ao ritmo do tique taque das linhas, à cadência
dos parágrafos.

Alguns pensam que este meu mergulho na morte deve ser deprimente.

162
Quando faço conferências sobre o assunto há sempre um colega que
insinua que certamente passo por uma fase cinzenta, para que estas
questões ocupem tanto do meu tempo. Se assim fosse, como lhes
explico, seria impossível que conseguisse fazer o meu trabalho. E lá
tento de novo explicar que enfrentar a morte é a única forma de
dissipar a amargura.

Por vezes sou capaz de descrever melhor o meu estado interior usando
a metáfora da técnica do «ecrã dividido». Esta técnica de terapia
hipnótica ajuda os pacientes a desintoxicarem-se de alguma memória
dolorosa que os assombre. Processa-se da seguinte forma: o terapeuta
pede aos pacientes hipnotizados que fechem os olhos e que dividam a
sua visão em duas, como se fosse um ecrã partido em duas partes
horizontais: numa metade, o paciente coloca a imagem traumática; na
outra metade, algo maravilhoso e feliz, uma imagem que lhe dê prazer
e tranquilidade (um passeio na floresta, uma praia tropical, etc). A
presença continuada da cena tranquila dilui e tempera a imagem
perturbadora.

Metade do meu ecrã é sóbrio e está sempre consciente de como tudo é


transiente. A outra metade, contudo, perturba-a, passando uma cena
completamente diferente, um cenário que descrevo com mais facilidade
se utilizar a metáfora sugerida por um biólogo evolutivo chamado
Richard Dawkins, que nos pede que imaginemos um foco de luz, do
tamanho de um fio de laser, que se mexe inexoravelmente ao longo da
imensa régua do tempo. Tudo o que o foco de luz deixou de iluminar
passa para a escuridão do passado; tudo o que se encontra em frente
da luz está também escondido na negritude do que ainda está por
nascer. Apenas o que é iluminado pelo holofote vive. Esta imagem
dissipa a tristeza e evoca em mim o pensamento de como tenho a sorte
imensa de estar aqui, vivo, a deleitar-me no prazer de meramente
existir! E como seria tragicamente disparatado reduzir o meu breve
tempo de exposição à luz adoptando esquemas que negam a vida e que
proclamam que a verdadeira vida deve ser encontrada noutro sítio, na
escuridão anónima que me sucede.

Escrever este livro tem sido uma viagem, uma pungente viagem ao
passado, até à minha infância e aos meus pais. Acontecimentos de há
muito puxam por mim. Fiquei surpreendido por verificar que a morte
sempre me fez sombra, e também espantado pela persistência e clareza
de tantas memórias associadas a ela.

163
A comprovação da natureza caprichosa da memória também foi um choque
— por exemplo, que eu e a minha irmã, vivendo na mesma casa,
relembremos acontecimentos tão diferentes.

À medida que envelheço dou pelo passado cada vez mais presente em mim
— como Dickens descreve de forma tão bela na citação que abre este
capítulo. Talvez esteja simplesmente a seguir os seus conselhos: a
completar o círculo, afagando os cantos mais ásperos da minha
história pessoal, abraçando tudo o que me fez como sou e tudo aquilo
em me que tornei. Quando visito locais que foram importantes na minha
infância, ou quando vou a reuniões de escola ou de curso, fico muito
mais emocionado do que costumava acontecer. Talvez sinta alegria por
descobrir que as coisas ainda lá estão e que ainda existe um «lá»,
que o passado não desaparece verdadeiramente, que posso revisitá-lo
sempre que o deseje. Se, como Kundera diz, o terror face à morte tem
a sua razão de ser no medo que nos provoca o pensamento de que o
nosso passado vai esfumar-se, então voltar a experimentar o passado é
fundamental, exercendo um efeito tranquilizante. A transiência é
obrigada a parar — mesmo se apenas durante um bocadinho.

164
Capítulo 7

• ABORDAR A ANSIEDADE • DA MORTE

Conselhos para terapeutas

Sou um ser humano, e nada humano me é estranho.

Terêncio

Apesar de este capítulo ser dirigido a terapeutas, tentei evitar usar


jargão profissional e é minha esperança que qualquer leitor consiga
apreciar e compreender estas palavras. Por isso, mesmo que não seja
terapeuta, por favor continue a ler.

A minha abordagem da psicoterapia não é convencional. Poucas


formações terapêuticas enfatizam (ou mencionam sequer) uma abordagem
existencial nos seus currículos; consequentemente, muitos terapeutas
poderão considerar estranhos os meus comentários e histórias
clínicas. Para explicar a minha abordagem tenho, antes de mais, de
clarificar o significado que para mim tem o termo existencial, sobre
o qual subsistem muitas confusões.

• O Que Significa Existencial? •

Para muitas pessoas com formação em Filosofia, o termo existencial


evoca um pastiche de significados: o existencialismo cristão de
Kierkegaard enfatiza a liberdade e escolha; o determinismo
iconoclasta de Nietzsche; o enfoque na temporalidade e na
autenticidade de Heidegger; o sentido do absurdo de Camus; a ênfase
de Jean-Paul Sartre no compromisso em face da absoluta gratuitidade.

165
Contudo, no trabalho clínico uso a palavra «existencial» de maneira
directa para me referir simplesmente a existência. Apesar de os
pensadores existenciais adoptarem perspectivas diversas, partilham a
mesma premissa: nós, humanos, somos a única criatura para quem a
nossa própria existência é o problema. Por isso, a existência é o meu
conceito-chave. Poderia empregar os termos «terapia da existência» ou
«terapia focalizada na existência». É apenas porque estas expressões
me parecem enfadonhas que prefiro a versão mais suave «psicoterapia
existencial» .

A abordagem existencial é uma de muitas abordagens psicoterapêuticas,


todas com a mesma raison d' être - lidar com o desespero humano. A
posição da terapia existencial afirma que o que nos faz sofrer advém
não só do nosso substrato biológico genético (um modelo
psicofarmacológico), não só da nossa luta contra os nossos desejos
instintivos reprimidos (uma posição Freudiana), não só dos adultos
interiorizados significativos que podem ser negligentes, frios ou
neuróticos (uma posição de relações de objecto), não só de formas de
pensamento desordenadas (uma posição cognitivo-comportamental), não
só de pedaços soltos de memórias traumáticas esquecidas ou de crises
actuais que envolvem a carreira e o relacionamento com aqueles que
amamos, mas também - mas também - do confronto com a nossa
existência.

A pedra angular da posição da terapia existencial postula, então, que


além das outras fontes de desespero sofremos o confronto inevitável
com a condição humana - os «pressupostos» da existência.

O que são mais precisamente estes «pressupostos»?

A resposta está no interior de cada um de nós e podemos ter-lhe fácil


acesso. Disponibilize algum tempo e medite sobre a sua própria
existência. Elimine as distracções, esqueça todas as teorias e
crenças que conhece e pense na sua «situação» no mundo. A seu tempo
irá inevitavelmente chegar às estruturas profundas da existência ou,
usando o termo muito apropriado do teólogo Paul Tillich, às
preocupações últimas.

166
Em minha opinião existem quatro preocupações supremas que são
particularmente relevantes para a prática da terapia: morte,
isolamento, busca de significado e liberdade. Estas quatro
preocupações constituem a espinha dorsal do meu manual de 1980,
Existential Psychotherapy, no qual discuto, em detalhe, as
implicações fenomenológicas e terapêuticas de cada uma destas
preocupações.

Apesar de no trabalho clínico diário as quatro estarem ligadas entre


si, o medo da morte é a mais proeminente e perturbadora de todas.

Contudo, à medida que a terapia progride, as preocupações sobre o


significado da vida, a solidão e a liberdade vão igualmente
emergindo. Os terapeutas com uma orientação existencialista podem, no
entanto, reportar a uma hierarquia diferente: Carl Jung e Viktor
Frankl, por exemplo, chamam a atenção para a quantidade de doentes
que recorrem à terapia, porque deixaram de sentir que a vida tinha
qualquer significado.

A minha visão existencialista, aquela em que baseio o meu trabalho


clínico, abraça a racionalidade, abstém-se de crenças sobrenaturais e
pressupõe que a vida em geral, e particularmente a nossa vida humana,
nasceu de eventos aleatórios; que, apesar de desejarmos negar a
finitude do nosso ser, somos na realidade criaturas finitas; lançados
sozinhos para a existência sem uma estrutura de vida ou um destino
predestinado; que cada um tem de decidir como viver da forma mais
inteira, feliz, ética e preenchida possível.

Existe uma terapia existencial? Apesar de falar repetidamente e com


total à vontade sobre psicoterapia existencial (e até escrevi um
manual bem longo com esse título), nunca considerei que se tratasse
de uma escola ideológica independente. É antes minha convicção e
esperança que um terapeuta bem treinado, que tenha conhecimento de, e
prática com, várias abordagens terapêuticas, deveria igualmente
receber formação e ser sensibilizado para as preocupações
existenciais.

Embora a minha intenção neste capítulo seja aumentar a sensibilidade


dos terapeutas para estes temas vitais e encorajar a sua vontade de
os aprofundar, acredito que esta sensibilização raramente é
suficiente para um resultado final positivo: em quase todos os
percursos terapêuticos será necessário recorrer a capacidades
terapêuticas que nascem de outras orientações.

167
• Distinguir o Conteúdo do Processo •

Por vezes, quando estou a dar uma palestra sobre a necessidade de


nunca esquecermos a condição humana em terapia, um terapeuta em
formação diz (e deve dizê-lo) qualquer coisa como «Estas ideias sobre
o nosso lugar na existência soam-me verdadeiras, mas parecem-me tão
vagas e tão insubstanciais... O que faz um terapeuta existencial, de
facto, numa sessão de terapia?» Ou um aluno pode perguntar: «Se eu
fosse uma mosca pousada na parede do seu consultório, o que veria
durante as suas horas de terapia?»

Respondo, antes de mais, oferecendo um conselho sobre como observar e


compreender sessões de psicoterapia — um conselho que todos os
terapeutas aprendem muito cedo e que continuará a provar-se valioso
ao longo das décadas em que exercerem a profissão. O conselho é
enganadoramente simples: distinga entre o conteúdo e o processo
(neste contexto uso «processo» referindo-me à natureza da relação
terapêutica).

O significado do conteúdo é óbvio: refere-se apenas aos tópicos e


assuntos discutidos. Haverá alturas em que eu e o paciente passamos
grande parte do tempo a discutir as ideias expressas neste livro, mas
muitas vezes durante semanas a fio não haverá conteúdo existencial
específico, porque o paciente quer discutir comigo preocupações como
relacionamentos, amor, sexo, escolhas de carreira, problemas com os
filhos ou dinheiro. Por outras palavras, o conteúdo existencial
poderá ser relevante para alguns (mas não todos) dos pacientes, em
algumas (mas não em todas) sessões de terapia. E é assim que deve
ser. O terapeuta realmente capaz nunca deverá forçar qualquer área de
conteúdo: a terapia não deve ser teórico-dirigida, mas antes relação-
dirigida.

Tudo se torna completamente diferente quando se examina uma sessão


não pelo ponto de vista do conteúdo mas pelo do «relacionamento»
(frequentemente referido na literatura profissional como «processo»).
O terapeuta que é sensível às questões existenciais relaciona-se de
uma maneira diferente com o seu paciente do que aquele que não o seja
— uma diferença que é evidente em toda e qualquer sessão.

168
Até agora, neste livro, tenho falado muito sobre conteúdo
existencial; a maior parte dos casos que descrevi concentra-se na
forma como as ideias podem ter poder de mudança (por exemplo, os
princípios de Epicuro, o rippling, a auto-realização). Mas, regra
geral as ideias, só por si, não chegam: é a sinergia das «ideias-
mais-relacionamento» que cria o verdadeiro poder terapêutico. Neste
capítulo irei oferecer um grande número de sugestões que acredito
poderem-no ajudar, enquanto terapeuta, a aumentar o significado e a
eficácia da relação terapêutica, que por sua vez reforçará a sua
capacidade de ajudar o paciente a confrontar e a superar o terror
face à morte.

A ideia de que a textura do relacionamento é crucial para a mudança


terapêutica não tem nada de novo. Já há um século que professores e
psicoterapeutas clínicos entenderam que não são nem as teorias nem as
ideias que desempenham o papel principal na cura, mas a relação. Os
primeiros analistas sabiam que era essencial criar uma aliança
terapêutica sólida, por isso mesmo analisavam detalhadamente a
interacção entre o terapeuta e o paciente.

Se aceitarmos a premissa (e toda a investigação que a suporta) de que


o relacionamento terapêutico é instrumental na psicoterapia, a
próxima pergunta óbvia é: que tipo de relacionamento se revela mais
eficiente? Há mais de sessenta anos, Cari Rogers, um pioneiro da
investigação psicoterapêutica, demonstrou que o aumento da eficácia
terapêutica estava associado a uma tríade de atitudes por parte do
terapeuta: autenticidade, empatia e um olhar incondicionalmente
positivo.

Estas características são importantes em todas as formas de terapia e


subscrevo-as convictamente. Acredito, contudo, que trabalhando com a
ansiedade de morte ou com qualquer questão existencial, o conceito de
autenticidade assume um significado diferente e mais profundo, capaz
de provocar mudanças radicais na natureza do relacionamento
terapêutico.

169
• O Poder das Ligações • na Superação da Ansiedade de morte

Quando mantenho o meu olhar focado nos factores existenciais da vida


não distingo uma fronteira clara entre os meus pacientes, os
afligidos e eu próprio, o curandeiro. Os métodos tradicionais de
descrição do papel a desempenhar por cada um, e os diagnósticos
baseados na categorização, impedem, em lugar de facilitar, a terapia.
Porque acredito que o antídoto de muita angústia é apenas
conectividade íntima, é que eu tento viver a hora com o meu paciente
sem erguer barreiras artificiais e desnecessárias. No processo da
terapia sou um perito experiente, mas não um guia infalível. Já fiz
essa viagem anteriormente — a minha própria viagem de exploração e
todas aquelas em que servi de guia a muitos outros.

No meu trabalho com pacientes, acima de tudo esforço-me por conseguir


criar, entre nós, uma ligação. Para atingir esse fim ajo sempre de
boa-fé: sem uniformes ou vestimentas; sem desfile de diplomas,
credenciais profissionais ou prémios; sem qualquer pretensão de
sabedoria que não possuo; sem negar que os dilemas existenciais
também me afectam; recusar responder a perguntas; sem me esconder
atrás do meu papel e, por último, sem ocultar a minha própria
vulnerabilidade e humanidade.

Cães selvagens a ladrar na cave: Mark

Começarei por descrever uma sessão de terapia que ilustra como a


sensibilidade existencial pode influenciar de diversas maneiras o
relacionamento terapêutico, levando, inclusivamente, a um maior
enfoque no momento presente, tornando possível uma maior auto-
revelação por parte do próprio terapeuta. Esta sessão ocorreu no
segundo ano em que Mark fazia terapia comigo. Ele próprio um
psicoterapeuta de quarenta anos, procurou-me porque sofria de uma
ansiedade de morte persistente e sentia que nunca fora capaz de
superar a morte da irmã (o Mark é brevemente mencionado no Capítulo
3).

170
Nos meses que antecederam esta sessão a que me refiro, a sua
preocupação com a morte tinha sido substituída por um novo problema:
uma atracção sexual por uma das suas pacientes, Ruth.

Nesse dia iniciei a sessão de uma forma pouco comum, dizendo ao Mark
que naquela manhã tinha-o referenciado a um homem de trinta anos, que
acreditava poder beneficiar em fazer terapia de grupo com ele. Disse-
lhe: «Se ele o contactar por favor telefone-me, que aí dou-lhe mais
detalhes sobre o caso.»

Mark disse que sim com a cabeça, pelo que continuei:

«Então, por onde começamos hoje?»

«Sempre as mesmas velhas coisas. Como de costume, enquanto conduzia


para cá pensei imenso na Ruth. É difícil tirá-la da cabeça. Ontem à
noite fui jantar com uns amigos que andaram comigo no liceu; eles
estavam a relembrar as nossas experiências com raparigas daquela
época, quando comecei outra vez com obsessões sobre a Ruth — e a
desejá-la intensamente.»

«Consegue descrever a sua obsessão? Conte-me exactamente o que passa


pela sua cabeça.»

«Bem, é aquela sensação de nós dois, os olhos a verem estrelas; é


estúpido, é de criança. Sinto-me um idiota — bolas, já sou crescido.
Tenho quarenta anos. Sou psicólogo. Ela é minha paciente e sei que
não passará daqui.»

«Fiquemo-nos agora por essa sensação de «os olhos a verem estrelas»,


disse-lhe. «Deixe-se envolver nesse sentimento. Diga-me o que lhe vem
à cabeça.»

Ele fechou os olhos. «Leveza, sinto-me a voar... não penso na pobre


da minha irmã que morreu... Subitamente estou noutra cena: sentado ao
colo da minha mãe, ela abraça-me. Devo ter uns cinco ou seis anos —
foi antes de ela ter cancro.»

«Portanto», arrisquei, «quando essa sensação de paixão se instala a


morte desaparece e com ela todos os pensamentos sobre a morte da sua
irmã, e é de novo uma criança aconchegada pela sua mãe, pela sua mãe
saudável, antes de adoecer.»

«Bem, sim, nunca tinha pensado nisso assim.»

«Mark, pergunto-me se a felicidade desse sentimento de "estrelas" não


está relacionado com o de fusão, o sentimento do "eu" solitário a
dissolver-se num "nós".

171
Parece-me que existe outro factor importante, que é o sexo — a força
que é tão vital que pode, pelo menos temporariamente, afastar a morte
de dentro da sua cabeça. Por isso estou aqui a pôr a hipótese de que
a paixão cega pela Ruth é uma forma de combater a ansiedade de morte
de duas maneiras poderosas. Não admira que se agarre a essa paixão
tão vorazmente.»

«Sinto que acerta em cheio quando se refere ao poder que o sexo tem
de, temporariamente, afastar de mim o medo da morte. Tive uma semana
bastante boa, mas apesar disso constantemente ensombrada por
pensamentos de morte. No domingo levei a minha filha a dar uma volta
de mota até La Honda e depois a ver o mar a Santa Cruz — estava um
dia glorioso, mas o pensamento da morte continuava a assombrar-me.
"Quantas mais vezes vais poder fazer isto?", perguntava
incessantemente a mim mesmo. Tudo passa — estou a ficar mais velho, a
minha filha está a crescer a olhos vistos...»

Insisti: «Vamos continuar a analisar e a dissecar esses pensamentos


sobre a morte. Sei que o pensamento da morte parece devastador, mas
fixe os olhos nesse pensamento, no medo da morte, e diga-me: o que
mais o assusta no que vê?»

«A dor de morrer, suponho. A minha mãe teve imensas dores, sofreu


imenso — mas não, não é a coisa principal. É mais o medo de como a
minha filha irá ser capaz de lidar com a minha morte. Quando penso
nisso caem-me invariavelmente as lágrimas pela cara.»

«Acredito que o Mark foi demasiadamente exposto à morte, de uma


maneira demasiado abrupta, demasiado cedo. A sua mãe ficou cancerosa
quando ainda era criança e viu-a morrer lentamente durante dez anos,
dez anos da sua infância. Ainda por cima sem pai para o amparar. Mas
a sua filha teve, felizmente, uma infância diferente, saudável, com
uma mãe e um pai que a levam a dar passeios de mota em domingos
maravilhosos para ver o oceano, um pai que está sempre presente. Acho
que está a colocar nela a sua dor, a sua própria experiência — Quero
dizer, está a projectar nela os seus medos e o seu estado mental.»

O Mark acenou afirmativamente com a cabeça e ficou em silêncio. Ao


fim de um pouco disse-me: «Deixe-me fazer-lhe uma pergunta: como lida
com isso? O medo da morte não o afecta?»

172
«Também tenho as minhas batalhas das três da manhã com a ansiedade
acerca da morte, mas agora são muito menos frequentes e, à medida que
envelheço, sou capaz de olhar directamente para a morte e ganho com
isso: sinto-me mais vivo, com mais energia, agarro-me à vida com
outra força; a morte faz com que viva mais intensamente cada momento
dando valor e apreciando a simples consciência de estar vivo.»

«Mas, e os seus filhos? Não se preocupa como irão reagir à sua


morte?»

«Não me preocupo muito... Sinto que o trabalho dos pais é ajudar os


filhos a tornarem-se autónomos, a voarem para longe deles, a
abraçarem os desafios que a vida lhes apresenta. Os meus filhos estão
bem — vão sofrer, farão o seu luto mas continuarão com as suas vidas.
Tal como acontecerá com a sua filha.»

«Tem razão. O meu lado racional sabe que ela vai ficar bem.
Recentemente tive a ideia de que talvez conseguisse ser para ela um
modelo de como enfrentar a morte.»

«Que ideia maravilhosa, Mark. Que belíssimo presente para a sua


filha.»

Depois de uma breve pausa prossegui: «Deixe-me perguntar-lhe algo


sobre o aqui e agora. Sobre você e eu, hoje. Esta sessão tem sido
diferente — mais do que nas outras sessões, o Mark tem-me feito
muitas perguntas. Pela minha parte procurei responder-lhes. Como é
que isso o tem feito sentir-se?»

«É bom. Muito bom. Cada vez que o Irv partilha assim comigo começo a
perceber de que preciso ser mais aberto na minha própria prática
terapêutica.»

«Há outra coisa que queria perguntar-lhe. No começo desta sessão


disse-me que "como de costume" começou a pensar na Ruth enquanto
vinha a caminho para cá. Porquê a caminho daqui?»

Mark ficou silencioso, enquanto abanava a cabeça levemente.

«Talvez seja uma procura de alívio do trabalho duro que imagina ter
de enfrentar aqui?», arrisquei.

«Não, não é isso. Aqui está o que julgo ser.» Mark parou, como se em
busca de coragem. «É para me distrair de outra pergunta. E é esta a
pergunta: o que acha de mim, como me julga, enquanto terapeuta, por
causa deste episódio todo com a Ruth?»

«Consigo empatizar consigo, Mark.

173
Já fui sexualmente atraído por pacientes, tal como qualquer um dos
terapeutas que conheço. Agora, não há dúvida de que, como você
próprio o disse, passou os limites e foi demasiado para si, mas o
sexo tem maneiras de derrotar o racional. Sei que a sua integridade é
tanta que nunca passará ao acto. Penso que de alguma estranha forma
talvez tenha sido mesmo o nosso trabalho a encorajá-lo a sentir tudo
isso tão intensamente. O que quero dizer é que baixou as defesas
porque sabia que me tinha aqui, todas as semanas, como rede de
segurança.»

«Mas, não me considera incompetente?»

«O que acha de hoje lhe ter referenciado um dos meus pacientes?»

«É verdade, ainda tenho de digerir essa notícia. Sei que é uma


mensagem muito forte e sinto-me tão tocado por me ter dado esse
presente que nem consigo encontrar as palavras para lhe agradecer.»

«Mas, mesmo assim», continuou Mark, «ainda há uma pequena voz na


minha cabeça que me diz que o Irv deve achar que eu não presto.»

«Não, não acho. Chegou a hora de carregar no delete para apagar esse
pensamento. Já não temos tempo hoje, mas há mais uma coisa que quero
dizer-lhe: esta viagem em que tem estado, esta experiência com a
Ruth, não é toda má. Acredito mesmo que vai aprender e crescer por
causa do que aconteceu. Permita-me adaptar umas palavras de Nietzsche
e dizer-lhe isto: «Para te tornares sábio tens de aprender a escutar
os cães selvagens que ladram na tua cave.»

Essa frase acertou em cheio — Mark murmurava as palavras para si


mesmo. Deixou o consultório com lágrimas nos olhos.

Para lá das questões da conectividade, esta sessão ilustra vários


outros temas existenciais que irei agora abordar: êxtase no amor,
sexo e morte, dissecar o medo da morte, o acto terapêutico e a
palavra terapêutica, usar o «aqui e agora» na terapia, a máxima de
Terêncio e a auto-revelação do terapeuta.

Êxtase no Amor. O mecanismo que Mark descreveu no início da sessão —


o sentimento de «ver estrelas» e a alegria ilimitada que irradiava da
sua paixão, em conjunto com a sua memória de uma alegria similar
quando estava ao colo da sua mãe, nos bons tempos, antes de o cancro
se ter declarado — está frequentemente presente nos envolvimentos
amorosos.

174
Na mente do amante obcecado, outras preocupações são afastadas do
palco: a amada/amado — cada palavra sua, cada maneirismo seu, até os
seus pontos fracos — exige toda a sua atenção. Desse modo, quando
Mark estava quentinho ao colo da sua mãe, a dor do isolamento
evaporava-se porque ele já não era um «eu» solitário. O meu
comentário — «O solitário «eu» dissolve-se no «nós»» — clarifica a
maneira como a sua obsessão acalmava a dor. Não sei se a frase é
original ou se a li há eons, mas tenho-a considerado útil no trabalho
com muitos pacientes enfeitiçados pelo amor.

Sexo e Morte. No que diz respeito à questão do sexo e da morte, não


só esta paixão fusional acalmou a ansiedade existencial de Mark como
entrou em jogo também outro anestesiante, o poder da sexualidade. O
sexo, a força vital da vida, frequentemente contraria os pensamentos
da morte. Já encontrei muitos exemplos deste mecanismo: um paciente
com uma trombose grave tinha um desejo sexual tão forte que, na
ambulância que o transportava para uma urgência hospitalar, tentou
apalpar uma enfermeira; ou a viúva que se sentiu possuída por
impulsos sexuais enquanto conduzia até ao funeral do seu marido; ou o
viúvo velhinho, aterrorizado com a perspectiva da morte, que se
tornou tão viciado na actividade sexual que teve sucessivas relações
com as senhoras da sua casa de repouso e criou tantos conflitos na
comunidade que a gerência exigiu que fosse a um psiquiatra. Outra
mulher de idade avançada, depois de a sua irmã gémea ter morrido com
um ataque de coração, tinha tantos orgasmos múltiplos quando usava um
vibrador que temeu ter, também ela, um ataque de coração.
Extremamente preocupada com a ideia de que as suas filhas pudessem
descobrir o aparelho junto do seu corpo, decidiu deitá-lo fora.

Dissecando o Medo da Morte. Para abordar o medo da morte de Mark,


perguntei-lhe — como perguntei a muitos outros doentes — o que, em
particular, o assustava mais nessa ideia. A resposta de Mark foi
diferente da de muitos outros, nomeadamente dos que referiram «todas
as coisas que não fariam», ou que lamentavam não poderem ver «o fim
da história», ou ainda daqueles que não suportavam a ideia de «não
haver mais eu».

175
Mark contou que o que o fazia ficar ansioso era não saber como a sua
filha lidaria com a sua morte e a vida sem ele. Abordei este medo,
ajudando-o a dar-se conta da sua irracionalidade e de que forma
estava a projectar as suas próprias ansiedades e experiências na
filha (que teve, ao contrário de Mark, um pai e uma mãe sempre
presentes e extremamente afectuosos). Dei o meu apoio entusiástico à
sua ideia de dar um presente à filha — um exemplo de como se pode
enfrentar a morte com tranquilidade. (No Capítulo 5 falei de um grupo
em que vários pacientes terminais tomaram uma resolução similar.)

O Acto Terapêutico e a Palavra Terapêutica.

Comecei aquela sessão de terapia anunciando ao Mark que lhe tinha


referenciado um novo paciente para o seu grupo de terapia. Quase
todos os professores de psicoterapia são altamente críticos do
estabelecimento de um relacionamento dual — , qualquer tipo de
relação secundária com um paciente de psicoterapia. Referenciar um
paciente a Mark comportava, de facto, alguns potenciais perigos: por
exemplo, que a sua ânsia de me agradar o impedisse de se entregar
inteiramente a esse paciente; o risco de ter conduzido a um
relacionamento a três — o Mark, o paciente e eu, sendo que eu
pairaria como um fantasma que influenciaria as palavras e os
sentimentos de Mark.

As relações duais são, de facto, geralmente pouco aconselhadas no


processo terapêutico, mas neste caso considerei o risco baixo e o
potencial de retorno alto. Antes de se tornar meu paciente tinha
supervisionado o seu trabalho com grupos terapêuticos e considerava-o
um terapeuta de grupo competente. Ainda por cima desempenhara
consistentemente um bom trabalho com os doentes que lhe enviei, nos
anos que precederam o início da sua terapia comigo.

Quando, já mesmo no final da sessão, falou derrogativamente sobre si


próprio, persistindo em acreditar que eu o tinha em fraca conta,
respondi-lhe de forma excessivamente forte: relembrei-lhe que acabara
de lhe enviar um paciente.

Este meu gesto teve um poder infinitamente mais poderoso do que


quaisquer palavras que lhe pudesse ter dito. O acto terapêutico é
muito mais eficaz do que a palavra terapêutica.

176
O Uso do aqui e Agora na Terapia. Repare bem nos dois momentos ao
longo desta sessão em que me desloquei para o «aqui e agora». O Mark
iniciou a nossa sessão dizendo que, «como de costume», a caminho do
meu consultório, tinha mergulhado em fantasias sobre a sua paciente,
Ruth. O comentário tinha óbvias implicações para a nossa relação.
Guardei-o e, mais à frente na sessão, questionei-o sobre porque
ficava obcecado com Ruth quando se deslocava para a terapia.

Mais tarde, Mark colocou-me várias perguntas sobre a minha ansiedade


de morte, sobre os meus filhos, e eu respondi a cada pergunta, mas
tive o cuidado de me manter um passo à frente, explorando os
sentimentos que lhe provocava o facto de me fazer perguntas e de eu
lhes responder. A terapia é sempre uma sequência alternada entre a
interacção e a reflexão sobre essa interacção (terei mais a dizer
sobre este conceito quando voltar a discutir o «aqui e agora», à
frente neste capítulo). Por fim, a sessão com Mark ilustra a sinergia
entre ideias e relacionamento: ambos os factores entraram em jogo
nesta sessão, como em muitas outras sessões de terapia.

A Máxima de Terence e a Auto-revelação do Terapeuta. Terence, o autor


romano de peças de teatro do século n, oferece-nos um aforismo
extraordinariamente importante para o trabalho interno do terapeuta:
Eu sou humano, e nada humano me é estranho. Por isso, no final da
sessão, quando Mark foi finalmente capaz de fazer uma pergunta que há
muito reprimia — «Como me julga enquanto terapeuta, em consequência
de toda esta história com a Ruth?» —, escolhi responder-lhe que
conseguia sentir empatia por ele, porque também eu, a dada altura, já
me sentira atraído sexualmente por algumas pacientes. Acrescentei que
isso era igualmente verdadeiro para todos os terapeutas que alguma
vez conheci.

O Mark colocou-me um pergunta embaraçosa, mas, quando confrontado com


ela, segui a máxima de Terence e vasculhei na minha própria mente em
busca de memórias similares, e depois partilhei-as. Não importa o
quão brutal, cruel, proibido ou estranha seja a experiência de um
paciente, porque invariavelmente o terapeuta pode encontrar em si
próprio alguma afinidade, se estiver disposto a entrar na sua própria
escuridão.

177
Terapeutas em fase inicial fariam bem em usar o axioma de Terêncio
como mantra, já que os ajudará a criar empatia com os seus pacientes,
localizando as suas próprias experiências internas. Este aforismo é
particularmente apropriado para trabalhar com pacientes com ansiedade
de morte. Se o terapeuta está realmente disposto a estar «presente»
na realidade do paciente, então tem de se abrir à sua própria
ansiedade de morte. Não pretendo dar a impressão de que tudo isto
seja fácil: é uma tarefa complicada e não há um programa de treino
que prepare terapeutas para este tipo de trabalho.

Durante os dez anos seguintes encontrei-me com o Mark outras duas


vezes, para uma curta terapia, porque ele experimentara de novo
sentimentos de ansiedade de morte. A primeira vez quando morreu um
seu amigo muito próximo e na seguinte quando o próprio Mark teve de
se sujeitar a uma cirurgia para retirar um tumor benigno. De cada uma
das vezes reagiu rapidamente com apenas algumas sessões. A certa
altura sentia-se suficientemente seguro para atender no seu
consultório doentes com ansiedade de morte, habitualmente pessoas em
quimioterapia.

O momento certo e a experiência do despertar: Patrick

Até aqui, e por razões pedagógicas, tenho discutido ideias e


relacionamentos como entidades separadas, mas chegou a hora de as
juntar. Antes de mais queria lembrar um axioma fundamental: as ideias
só serão eficazes quando a aliança terapêutica for forte. O meu
trabalho com Patrick, um piloto da aviação de cinquenta e cinco anos,
ilustra um erro de timing. Tentei forçar ideias antes de ter
construído com ele uma aliança terapêutica sólida.

Apesar de as suas viagens internacionais tornarem a marcação de


consultas terrivelmente difícil, eu tinha estado com o Patrick várias
vezes durante um período de dois anos, mas sempre de uma forma muito
intermitente. Quando foi seleccionado para um trabalho de seis meses
nos escritórios da companhia aérea, concordámos que era importante
tentar aproveitar este seu tempo em terra para nos vermos
semanalmente.

178
Como muitos pilotos, Patrick estava traumatizado pelo caos instalado
na indústria aeronáutica. A companhia tinha-lhe reduzido o salário
para metade, retirando a pensão de reforma para a qual trabalhava há
mais de trinta anos, e era pressionado a voar tantas horas que o jet
lag, somado à ruptura do ritmo circadiano, estava a ter sobre si um
efeito debilitador: sofria agora de perturbação severa do sono, uma
condição exacerbada por um incessante e incurável zumbido no ouvido,
consequência também da sua profissão. A companhia aérea não só
recusava assumir qualquer responsabilidade por estes problemas como
ainda, de acordo com Patrick, procurava pressionar os pilotos a
voarem ainda mais horas.

Porque procurava terapia? Apesar de ainda adorar voar, sabia que a


sua saúde exigia uma nova carreira. Para mais estava infeliz com a
relação mortiça que mantinha com a sua namorada, Marie, com a qual,
nos últimos três anos, se sentia mais acomodado do que outra coisa.
Patrick queria melhorar a sua relação amorosa ou encontrar coragem
para acabar com ela e sair de casa.

A terapia progredia lentamente. Batalhei, sem sucesso, para


estabelecer uma aliança terapêutica forte, mas Patrick era um
comandante de aviões, estava acostumado a ser ele a dirigir as
operações e, com o seu passado militar de «top gun» e de «ás dos
ares», revelava a sua vulnerabilidade com imensa dificuldade. Ainda
por cima tinha razões para ser cauteloso, porque qualquer diagnóstico
de uma doença do foro mental poderia ser utilizada para impedi-lo de
voar ou até custar-lhe o seu certificado de piloto, ou seja, o
emprego. Com todos estes obstáculos, Patrick mantinha-se distante nas
nossas sessões. Eu não conseguia chegar até ele. Sabia que não tinha
vontade de se encontrar comigo e que não pensava na terapia no
período entre os nossos encontros.

E eu próprio, apesar de me preocupar com Patrick, confesso que tinha


a nítida sensação de nunca ter conseguido criar uma ponte entre nós.
Raramente sentia prazer em vê-lo e as nossas sessões deixavam-me
frustrado e com a impressão de não ser suficientemente habilitado
para ajudá-lo.

Um dia, durante o terceiro mês de terapia, Patrick sofreu uma dor


aguda no abdómen; foi imediatamente a uma urgência hospitalar, onde
um cirurgião apalpou uma massa abdominal e, visivelmente preocupado,
mandou-o fazer imediatamente um TAC.

179
Nas poucas horas em que se viu obrigado a esperar pelo resultado,
Patrick sentiu-se completamente em pânico, aterrorizado com a ideia
de que poderia ter um cancro. Nessas horas, contemplando a
possibilidade da sua morte, decidiu que havia várias coisas que, se
sobrevivesse, mudaria imediatamente na sua vida. Por fim descobriu
que se tratava de um quisto benigno, cirurgicamente removido.

Apesar de tudo ter acabado bem, aquelas quatro horas em que «viu» a
morte influenciaram-no de uma forma notável. Na nossa sessão seguinte
estava aberto à mudança, coisa que nunca tinha acontecido até aí.
Falou, por exemplo, em como, ao pensar que morreria em breve, se
sentira horrorizado com a ideia de tudo o que não tinha feito, que
não realizara. Agora sabia — sabia realmente — que o seu trabalho lhe
era fisicamente prejudicial e conseguiu a coragem necessária para
abandoná-lo, apesar de ter consciência de que abdicava daquilo que há
tantos anos dava sentido à sua vida. Considerou, no entanto, que
tinha imensa sorte, porque recebeu imediatamente um convite para
trabalhar com o irmão na sua empresa de retalho.

Patrick também resolveu reparar uma desavença que tinha com o pai e
que provocara um afastamento entre eles, que surgira de uma discussão
tonta havia já muitos anos, mas que tinha continuado a contaminar as
suas interacções com a família inteira. Além disso, a sua espera pelo
resultado do TAC tinha igualmente feito crescer a determinação em
mudar a sua relação com Marie. Das duas, uma: ou fazia um verdadeiro
esforço para se relacionar com ela de uma maneira mais afectiva e
autêntica ou deixá-la-ia, partindo para procurar uma companheira mais
compatível.

Nas semanas seguintes, a terapia tomou um novo fôlego. Patrick estava


mais aberto em si mesmo e até mais aberto comigo. Realizou muitas das
suas resoluções: restabeleceu a ligação com o pai e a família e até
foi a um jantar de Acção de Graças, o primeiro em que participava na
última década. Deixou de voar e aceitou, apesar de lhe pagarem um
salário muito mais baixo, o lugar de gerente de um dos franchisings
do irmão. Contudo, adiou o momento de enfrentar a relação com Marie.
De repente senti que retrocedera e o trabalho nas nossas sessões
voltou à sua natureza superficial.

180
Com apenas três sessões pela frente, antes de ser obrigado a mudar
para a cidade onde ia começar o novo emprego, tentei catalisar a
terapia e conseguir que voltasse ao estado mental que se sucedera ao
seu confronto com a morte. Para tentar fazê-lo enviei-lhe um e-mail,
em anexo com as minhas extensas notas terapêuticas da sessão pós-
urgência hospitalar, em que se tinha revelado mais aberto e resoluto.

Já tinha utilizado esta técnica anteriormente e com bons resultados:


ajuda o paciente a voltar a mergulhar num estado mental anterior.
Ainda por cima, durante décadas enviei sumários escritos dos
encontros aos meus pacientes de terapia de grupo, por isso sabia que
funcionava. Mas, para minha surpresa, a abordagem explodiu-me nas
mãos. O Patrick respondeu-me muito zangado: interpretou os meus
motivos como punitivos e apenas via criticismo no meu acto. Julgou
que o recriminava por não ter feito qualquer mudança no seu
relacionamento amoroso. Olhando para trás percebo agora que, de
facto, nunca estabelecera uma aliança terapêutica suficientemente
forte com ele. Por isso prestem atenção: numa relação onde não exista
confiança, ou, pior ainda, numa relação em que o paciente entra em
competição com o terapeuta, mesmo as melhores intenções e os esforços
terapêuticos mais bem fundamentados podem falhar, porque o paciente
sente-se derrotado pelas observações, reagindo à defesa e encontrando
uma maneira de o derrotar a si.

• Trabalhando o «Aqui e Agora» •

Já ouvi perguntar variadíssimas vezes: «Mas uma pessoa necessita de


um terapeuta, se tiver bons amigos?» Amigos íntimos são essenciais
para uma vida feliz. Além disso, se uma pessoa está rodeada de amigos
ou, para ser mais preciso, se tem capacidade para formar relações
íntimas e duradouras, então é menos provável que venha a precisar de
terapia. Qual é, então, a diferença entre um bom amigo e um
terapeuta? Bons amigos (ou a sua cabeleireira, massagista, barbeiro,
ou personal trainer) podem dar-lhe apoio e empatia.

181
Bons amigos podem dar amor e serem os melhores confidentes, alguém
com quem se pode contar a qualquer hora. Mas existe uma diferença
substancial: é provável que só um terapeuta seja capaz de o
confrontar no «aqui e agora».

As interacções que classifico como «aqui e agora», ou seja o


comentário do comportamento imediato do outro, só muito raramente
ocorrem na vida social. Se acontecem são um sinal de uma enorme
intimidade ou de um conflito iminente (por exemplo, «Não gosto da
maneira como estás a olhar para mim»), ou ainda de uma relação pais-
filhos («Pára de revirar os olhos quando estou a falar contigo!»).

Na hora de terapia, o «aqui e agora» é um enfoque no que está a


acontecer naquele momento entre o terapeuta e o paciente. Não é um
enfoque no passado histórico do paciente (o «lá fora e naquela
altura») nem na sua vida exterior (o «lá fora e agora»).

E porque é o «aqui e agora» tão importante? O catecismo fundamental


do treino em psicoterapia diz que a situação terapêutica é um
microcosmo social; ou seja, mais tarde ou mais cedo, os pacientes vão
exibir na terapia o mesmo comportamento que têm na sua vida exterior.
Alguém que seja tímido, ou arrogante, ou medroso, um sedutor ou um
caprichoso, mais cedo ou mais tarde vai comportar-se dessa forma com
o terapeuta durante a sessão de terapia. Nessa altura, o/a terapeuta
pode focar-se no papel desempenhado pelo paciente na criação dos
problemas que têm surgido na relação terapêutica.

Este é o primeiro passo para ajudá-lo a assumir a responsabilidade


pela sua própria vida. Por fim, o paciente é receptivo à conclusão
fundamental: se é responsável por aquilo que lhe correu mal na vida,
então ele, e só ele, poderá alterá-lo.

Ainda por cima — e isto é crucial —, a informação recolhida pelo


terapeuta no «aqui e agora» é extremamente precisa. Apesar de os
pacientes falarem bastante sobre as suas interacções com os outros —
amados, amigos, chefes, professores, pais —, você, o terapeuta,
limita-se a «ver» esses outros, e as interacções do seu doente com
eles, através dos olhos do seu paciente. Esses relatos de
acontecimentos exteriores são informação indirecta, frequentemente
alterada e muito pouco fiável.

Quantas vezes já ouvi um doente meu descrever outra pessoa — uma


esposa ou esposo, por exemplo — para concluir, quando conheço a
pessoa em questão, que não pode ser a mesma: será esta adorável e
vibrante pessoa a mesma criatura irritante, mortiça e desinteressada
acerca de quem tenho ouvido falar todos estes meses?

182
Um terapeuta começa a conhecer uma pessoa de forma mais íntima e
integral através da observação do seu comportamento nas sessões de
terapia. Esta é de longe a informação mais fiável: o terapeuta tem
experiência directa do paciente e de como ela ou ele interage
consigo, consequentemente como será muito provável que interaja com
as outras pessoas.

O uso apropriado do «aqui e agora» durante a terapia cria um


laboratório seguro, uma arena confortável onde os pacientes podem
atrever-se a arriscar, a revelarem o seu lado mais obscuro e o mais
radioso, escutar e aceitar o feedback do terapeuta e — mais
importante do que tudo isso — ensaiar mudanças. Quanto mais se
focalizar no «aqui e agora» (e tenho o cuidado de o fazer em todas as
sessões), mais forte e poderoso, mais íntimo e seguro ficará o vosso
relacionamento.

A boa terapia tem uma cadência marcante. Os pacientes revelam


sentimentos que tinham previamente negado ou reprimido. O terapeuta
compreende e aceita estes sentimentos escondidos e dolorosos.
Reforçado por esta aceitação, o paciente sente-se seguro e confiante,
conseguindo correr riscos ainda maiores. A intimidade e a
conectividade semeada pelo «aqui e agora» mantêm os pacientes
empenhados no processo de terapia; fornece-lhes uma referência
interna à qual podem recorrer e tentar recriar no seu mundo social.

Claro, uma boa relação com o terapeuta não é o objectivo último da


terapia. Pacientes e terapeuta raramente formam uma duradoura e
verdadeira amizade. Mas os laços do paciente com o terapeuta servem
de ensaio-geral para os relacionamentos sociais no mundo real.

Concordo com Frieda Fromm-Reichman quando diz que um terapeuta deve


esforçar-se por tornar cada sessão memorável. A chave para criar essa
tal sessão é ser capaz de usar o poder do «aqui e agora». Já discuti
longamente noutra parte do livro o que é necessário para usar esta
técnica, por isso limitar-me-ei a abordar apenas alguns passos
fundamentais. Apesar de nem todos os exemplos se centrarem
explicitamente na ansiedade de morte, prestarão um bom serviço aos
terapeutas, permitindo que aumentem a conectividade com os pacientes
que atendem, inclusivamente com aqueles que lutam com este medo
avassalador.

183
O desenvolvimento da sensibilidade para o «aqui e agora»

Não foi difícil concentrar-me no aqui-e-agora na minha sessão com o


Mark. Primeiro limitei-me a perguntar-lhe porque pensava ele na Ruth
a caminho da sessão, e mais tarde reflecti com ele a sua mudança de
comportamento (fez-me várias perguntas de carácter pessoal). Mas,
muitas vezes o terapeuta precisará de procurar transições mais
subtis.

Depois de anos de experiência estabeleci normas orientadoras para o


meu trabalho terapêutico, mantendo-me alerta para desvios a essas
mesmas normas. Imagine algo aparentemente trivial e irrelevante como
o estacionamento do automóvel do paciente. Já há quinze anos que o
meu consultório se situa numa pequena casa a duzentos metros daquela
onde vivo. Apesar de haver imenso espaço para estacionar na rua,
ocasionalmente reparo que um paciente estaciona, por rotina, bem
longe da minha porta.

Considero útil, na altura certa, confrontá-lo com esse facto e


perguntar-lhe a sua razão para tal. Um deles respondeu-me que não
queria que o seu carro fosse visto próximo do meu consultório porque
temia que alguém, possivelmente uma visita minha, pudesse reconhecer
o seu veículo e perceber que ele «consultava a psiquiatria». Uma
outra cliente afirmou que não desejava intrometer-se na minha
privacidade. Outro, ainda, confessou ter vergonha de que eu visse o
seu caríssimo e luxuoso Maserati. Cada uma destas razões era
claramente relevante para o relacionamento terapêutico.

Mudando do Material externo para o material Interno

Os terapeutas mais experientes estão sempre atentos a qualquer uma


oportunidade para pôr em prática o «aqui e agora» durante a sessão.
Navegar da vida exterior ou do passado distante para aqui-e-agora
aumenta o nível de envolvimento e eficácia do trabalho desenvolvido.
Uma sessão com Ellen, uma mulher de quarenta anos que iniciara a
terapia havia já um ano, em consequência de sucessivos episódios de
pânico face à morte, ilustra uma dessas estratégias de navegação.

184
A Mulher Que Não Se Queixava: Ellen. A Ellen começou a nossa sessão
dizendo-me que quase telefonara a cancelar o nosso encontro porque
sentia-se doente.

«E agora como se sente?», perguntei.

Ela encolheu os ombros. «Estou melhor», respondeu.

«Conte-me lá o que lhe acontece em casa quando está doente»,


perguntei.

«O meu marido não é um grande enfermeiro. Para dizer a verdade, acho


que geralmente nem repara que não estou bem.»

«Diz-lhe que não se sente bem? De que forma lhe conta como se sente?»

«Nunca fui do género de mulher de andar por aí a queixar-me. Mas não


me importava, de facto, se fizesse alguma coisa por mim quando estou
doente.»

«Então quer que tomem conta de si, mas deseja que tal aconteça sem
ter de pedir essa ajuda, sem sinalizar que precisa dela, é isso?»

Ela concordou com a cabeça.

Naquele momento eu tinha várias opções. Poderia, por exemplo, ter


explorado a falta de carinho do marido ou investigado melhor o seu
passado clínico. Mas escolhi mudar a terapia para o aqui-e-agora.

«Então diga-me, Ellen, como funciona comigo esse seu sentimento? Não
se queixa aqui no consultório, mesmo sendo eu o seu zelador
oficial...»

«Já lhe disse que quase não vim hoje porque estava doente.»

«Sim, mas quando lhe perguntei como se sentia encolheu os ombros, sem
qualquer comentário ou explicação. Tenho curiosidade em saber como
seria se realmente se queixasse e fosse capaz de me dizer, com
franqueza, o que pretende de mim.»

«Isso seria o mesmo que choramingar, implorar», respondeu-me


instantaneamente.

«Implorar? E, contudo, paga-me para tomar conta de si? Conte-me mais


sobre esse "implorar". O que evoca esse "implorar" em si?»

«Eu tinha quatro irmãos e a regra número um lá de casa era "não te


queixes". Ainda consigo ouvir a voz do meu padrasto: "Cresce, não
podes choramingar a vida toda." Não consigo sequer começar a contar-
lhe quantas vezes o ouvi dizer isto. A minha mãe reforçou este
protesto do meu padrasto.
185
Sentia que tinha muita sorte por ter conseguido casar novamente e não
queria que o incomodássemos. Nós éramos os apêndices que ele
dispensava e, acredite, o meu padrasto era mau e áspero. A última
coisa que eu queria era chamar a atenção, desejava passar o mais
despercebida possível.»

«Portanto, a Ellen vem a este consultório para receber ajuda mas


silencia as suas queixas. Esta conversa recorda-me aquela vez, já há
alguns meses, quando tinha um problema no pescoço e apareceu aqui com
um colar cervical, mas nunca me explicou porquê. Lembro-me de ter
perguntado se teria dores ou não, mas como nunca se queixava... A
sério, diga-me: caso se queixasse a mim de alguma coisa, o que acha
que eu sentiria ou diria?»

A Ellen alisou a sua camisa com um padrão de flores — estava sempre


imaculadamente vestida e impecavelmente arranjada — e, fechando os
olhos, inspirou profundamente e disse: «Tive um sonho há três ou
quatro semanas que nunca lhe contei. Estava na sua casa de banho e
não conseguia fazer parar o sangue menstrual. Não era capaz de me
limpar. Já tinha chegado aos meus collants e tinha passado para os
ténis. O Irv estava no consultório, mesmo ao lado, mas não perguntou
o que estava a acontecer, ou porque me demorava. Depois ouvi outras
vozes no consultório. Talvez o seu próximo cliente, algum amigo ou a
sua mulher.»

O sonho retratava as suas preocupações sobre as suas partes


embaraçosas, sujas, escondidas, que acabariam um dia por se revelar
na terapia. Mas ela via-me como indiferente: não perguntava como se
sentia, estava demasiado ocupado com outro cliente ou amigos e não me
dispunha, nem era capaz, a ajudá-la.

Depois de Ellen ter tido a coragem de me contar este sonho entrámos


numa nova fase muito mais construtiva da terapia, em que explorou os
seus sentimentos de desconfiança e medo dos homens e o seu receio de
proximidade comigo.

Este caso ilustra um princípio importante da navegação do aqui-e-


agora: quando um paciente fala sobre um assunto da sua vida, procure
o seu equivalente no aqui-e-agora, de maneira a trazer o problema
para o relacionamento terapêutico. Quando Ellen trouxe para a sessão
o facto de estar doente e a falta de carinho e de cuidados que o
marido lhe dava, eu coloquei imediatamente o enfoque no carinho e
cuidado que esperava receber na nossa terapia.

186
Verificar frequentemente o aqui-e-agora

Faço questão de verificar o aqui-e-agora pelo menos uma vez por


sessão. Por vezes digo simplesmente «Estamos a chegar ao fim da nossa
hora e gostava de parar um bocadinho e pensar como tudo isto correu
hoje entre nós. Acha que conseguimos aproximar-nos?» ou «Sentiu que
nos mantivemos demasiado distantes?». Por vezes nada disto surte
qualquer resultado, mas mesmo assim o convite está feito e cumpre-se
a norma estabelecida de que examinamos em cada sessão tudo o que
aconteceu entre nós.

Mas muitas vezes este inquérito dá frutos, especialmente se lhe


adicionar algumas observações como, por exemplo, «Notei que parecemos
presos num círculo vicioso, em volta dos mesmos temas da semana
passada. Também ficou com essa sensação?» ou «Reparei que não tem
mencionado a sua ansiedade de morte nestas últimas semanas. Porque
acha que isso aconteceu? Será possível que pense que tenha medo de me
assustar ou sobrecarregar?», ou ainda «Tive a sensação de que
estávamos muito próximos no início da sessão, mas que nos afastámos
nestes últimos vinte minutos. Concorda? Também é essa a sua
observação?»

Hoje o ensino da psicoterapia está muitas vezes direccionado para uma


terapia breve e estruturada, por isso pode acontecer que muitos
jovens terapeutas considerem o meu enfoque no relacionamento do aqui-
e-agora como irrelevante ou demasiado minucioso, senão bizarro.
«Porquê tão auto-referencial?», questionam frequentemente. «Porquê
fazer corresponder tudo ao relacionamento irreal com o terapeuta?»
«No fim de contas, não estamos a preparar o paciente para uma vida em
terapia. O mundo real é duro e os pacientes vão ter de enfrentar
competição, luta, dificuldades.» E a resposta é, claro, como o caso
de Patrick sugere, que a aliança terapêutica positiva é um pré-
requisito para a eficácia de qualquer terapia. Não é o fim, mas um
meio para atingir um objectivo. Uma enorme mudança interna pode
ocorrer quando os pacientes estabelecem uma relação genuína e de
confiança com o terapeuta, revelando tudo e sendo mesmo assim aceites
e apoiados. Tais pacientes experimentam partes novas de si próprios,
partes previamente negadas ou distorcidas. Começam a dar valor a si
mesmos e às suas próprias percepções, em lugar de sobrevalorizarem a
perspectiva dos outros.

187
Os pacientes transformam a imagem positiva que o terapeuta tem deles
no seu autoconceito. Mais do que isso, desenvolvem um novo padrão
interno para a qualidade exigível de um relacionamento genuíno. A
intimidade com o terapeuta serve de ponto de referência interno.
Sabendo que têm a capacidade de formar relações, desenvolvem a
confiança e a vontade de formar relacionamentos similares no futuro.

Aprender a usar os seus próprios sentimentos aqui-e-agora

A ferramenta mais valiosa de um terapeuta é a sua própria reacção ao


paciente. Caso se sinta intimidado, zangado, seduzido, confundido,
enfeitiçado ou com uma miríade de outros sentimentos, devia levar
essas suas reacções muito a sério. Constituem informação importante e
é fundamental que procure uma maneira de lhe dar bom uso na terapia.

Mas primeiro, como sugiro aos estudantes, tem de determinar a fonte


desses sentimentos. Em que medida é que as suas idiossincrasias ou
ideias neuróticas estão a formatar os seus sentimentos? Por outras
palavras, é um observador apurado? Os seus sentimentos dão-lhe
informação acerca do paciente ou sobre si mesmo? Claro que aqui já
estamos a entrar no domínio da transferência e contratransferência.

Quando um paciente responde de alguma maneira irracional ou


inapropriada ao terapeuta, consideramos que se trata de
transferência. Um exemplo claro da distorção envolvida na
transferência é o paciente que — aparentemente sem qualquer
fundamento — não confia num terapeuta que habitualmente merece a
confiança dos seus outros pacientes; além disso, o paciente reage por
norma rejeitando os homens que ocupem lugares de autoridade ou que
sejam especialistas em qualquer área. (O termo transferência refere-
se, claro, à teoria freudiana de que os sentimentos importantes
acerca dos adultos, experimentados na primeira infância, são
«transferidos», ou direccionados, para outra pessoa.)

O contrário também pode acontecer: os terapeutas podem formar imagens


deturpadas dos seus clientes — o terapeuta vê o cliente de modo
distorcido, de uma maneira muito diferente daquela como ele é visto
pelos outros, incluindo outros terapeutas. Este fenómeno é referido
como contratransferência.

188
É preciso saber distinguir bem um conceito do outro. O paciente tem
tendência para uma grande deturpação interpessoal? Ou será o
terapeuta uma pessoa zangada, defensiva e confusa (ou está apenas a
passar por um dia mau), que vê os pacientes por lentes desfocadas?
Claro que não é um fenómeno de tudo ou nada — elementos de
transferência e contratransferência podem coexistir.

Nunca me canso de dizer aos jovens terapeutas que a sua ferramenta


mais vital são eles próprios, e que, consequentemente, o instrumento
tem de estar primorosamente afinado. Os terapeutas necessitam de ter
um grande autoconhecimento, de confiar nas suas observações e
obrigatoriamente relacionarem-se com os seus clientes de uma maneira
atenciosa e profissional. É precisamente por esta razão que a terapia
pessoal está (ou deveria estar) na base de todos os programas de
ensino terapêutico. Não só acredito que os terapeutas deveriam ter
anos de terapia pessoal (incluindo terapia de grupo) enquanto se
formam, como ainda voltar à terapia à medida que vão evoluindo na
vida; à medida que se sentir mais confiante em si mesmo enquanto
terapeuta, e quanto mais acreditar nas suas observações e na sua
objectividade, mais livre se sentirá para usar, com segurança, os
sentimentos que os seus doentes lhe suscitam.

«Estou Muito Desapontada Consigo»: Naomi. Uma sessão com a Naomi, —


uma professora de inglês reformada, com sessenta e oito anos e a
sofrer de uma enorme ansiedade de morte, além de hipertensão grave e
de muitas outras queixas somáticas, — ilustra bem as implicações de
revelar o que sente no aqui-e-agora. Um dia entrou no meu consultório
com o seu sorriso habitual, sentou-se e, com o queixo erguido bem
alto, olhou fixamente para mim e, sem qualquer hesitação na voz,
lançou-se numa diatribe surpreendente:

«Estou muito desapontada com a maneira como reagiu na nossa última


sessão. Extremamente desapontada, mesmo. Não esteve presente comigo,
não me deu aquilo de que eu precisava, não teve qualquer
sensibilidade para como uma mulher da minha idade se sente por ter
problemas intestinais tão debilitantes ou como deveria embaraçar-me
falar-lhe nisso. Deixei a consulta a pensar num incidente que
aconteceu há já alguns anos.

189
Fui ao meu dermatologista porque tinha uma lesão péssima na vagina e
ele convidou todos os seus estudantes de Medicina para me observarem.
Foi um horror! Pois, se quer saber, foi assim que me senti na última
sessão. Você falhou e não conseguiu corresponder aos meus padrões de
exigência.»

Fiquei em estado de choque. Enquanto ponderava qual a melhor forma de


lhe responder, revi rapidamente a última sessão na minha mente
(tinha, evidentemente, lido os meus apontamentos antes de Naomi
chegar). A minha recordação da consulta era completamente diferente,
pensara mesmo que tinha sido uma sessão excelente e que tinha feito
bom trabalho. Naomi fizera revelações importantes sobre o desânimo
que sentia com o seu corpo envelhecido e os complicados problemas
gastrointestinais como gases, prisão de ventre, hemorróidas, e acerca
da dificuldade de dar a si mesma um clister e das suas memórias de
clisteres na infância. Estas coisas não eram matéria fácil de abordar
e eu disse-lhe que admirava a sua disponibilidade para as trazer à
superfície. Porque estava convencido de que algum dos seus novos
medicamentos para a arritmia teriam causado esses sintomas, fui
buscar o meu Simposium durante a sessão e passei em revista os
efeitos secundários daqueles remédios. Recordo-me de ter sentido
empatia por ela, só lhe faltava mais um sofrimento, a somar a uma
longa lista de problemas de saúde.

Então, o que fazer? Confrontá-la numa análise da sessão prévia? Olhar


para as expectativas idealizadas que ela tinha de mim? Analisar as
nossas perspectivas tão diferentes da última sessão? Mas havia algo
mais importante — os meus próprios sentimentos. Senti uma onda de
irritação para com Naomi: ali estava ela, pensei, sentada no seu
trono, a julgar-me, com zero de consideração sobre o efeito da sua
sentença sobre os meus sentimentos.

Ainda por cima, não era a primeira vez. Nos nossos três anos de
terapia tinha começado sessões desta forma várias vezes, mas nenhuma
me tinha irritado tanto como aquela. Talvez fosse porque na última
semana tinha tirado tempo entre sessões para investigar os seus
problemas e até falara com um amigo, um gastrenterologista, sobre os
seus sintomas — mas ainda não tivera sequer a oportunidade de lhe
falar disso.

Decidi que era importante dizer a Naomi como me sentia. Para já,
estava consciente de que iria aperceber-se dos meus sentimentos: era
extraordinariamente perspicaz.

190
Além disso não tinha dúvida de que, se eu estava irritado com ela,
outras pessoas na sua vida também estariam. Mas porque pode ser
devastador para um paciente perceber que o terapeuta está zangado com
ele, tentei ser cuidadoso.

«Naomi, sinto-me surpreendido e perturbado pelo seu comentário. Diz


estas coisas tão... tão... hã... imperiosamente. Julguei que tinha
trabalhado duramente a semana passada para lhe dar tudo aquilo que
era capaz de lhe dar. Mais do que isso, não é a primeira vez que
começou uma sessão de uma maneira bastante crítica. E outro dado,
para adicionarmos a tudo isto, é que já iniciou outras sessões de
maneira completamente contrária... Quero dizer: expressou gratidão
por uma sessão que considerou incrível, o que às vezes me deixava
baralhado, já que não me lembrava dela como tendo sido assim tão
extraordinária.»

Naomi pareceu-me confundida. Os seus olhos estavam muito abertos.


«Está a dizer que eu não deveria partilhar consigo os meus
sentimentos?»

«Não, de todo. Nenhum de nós deveria censurar-se. Devemos ambos falar


do que sentimos e depois analisar esses sentimentos. Contudo, estou
particularmente perturbado pela forma como me falou. Há formas
diferentes que poderia ter usado para dizer a mesma coisa. Poderia,
por exemplo, ter referido que não tínhamos sido capazes de acompanhar
o passo um do outro, na semana passada, ou que se sentia distante,
ou...». «Olhe», a sua voz era estridente, «senti-me chateada por o
meu corpo estar a decompor-se bocadinho a bocadinho. Tenho dois
stents nas minhas artérias coronárias, tenho um pacemaker, uma anca
artificial e a outra mata-me de dores, os medicamentos estão a
inchar-me como um porco e os gases tornam a ida à rua humilhante. E
agora tenho de andar em biquinhos dos pés aqui?»

«Entendo os seus sentimentos sobre o que está a acontecer ao seu


corpo. Sinto realmente a sua dor e disse-lhe isso mesmo na semana
passada.»

«E o que quer dizer com "imperiosamente"?

«A maneira como olhou para mim e me falou, como se estivesse a ler


uma condenação. Parece-me que não estava minimamente preocupada com a
forma como as suas palavras poderiam fazer-me sentir.»

A sua face esmoreceu. «Quanto à minha linguagem, à maneira como me


comporto e à forma como falei consigo» — e aqui ela praticamente
rosnou —, «bem, só sei que estava a pedi-las. Estava a pedi-las.»

191
«Diz tudo isso com muita emoção na voz, Naomi», respondi.

«Estou muito melindrada pelas suas críticas. Sempre me senti tão


livre aqui — este era o único sítio em que podia falar livremente.
Agora está a dizer-me que se me sentir zangada deveria controlar-me.
Isso chateia-me. Essa não é a maneira como a nossa terapia tem
decorrido, como deveria correr.»

«Nunca disse que queria que se amordaçasse. Mas certamente que quer
perceber o impacte das suas palavras em mim. Não deseja, acho eu, que
eu me amordace. No final de contas, as suas palavras têm
consequências.»

«O que está a tentar dizer-me?»

«Bem, as suas palavras no início da sessão fizeram-me afastar de si.


É isso que pretende?»

«Explique mais. Está a falar aos soluços...»

«Aqui tem o dilema: sei que quer que me sinta próximo e íntimo de si
— já o referiu por diversas vezes. Contudo, as suas palavras deixam-
me reticente, fazem-me sentir que preciso de ter cuidado ao
aproximar-me demasiado de si, pois posso ser mordido.»

«Agora vai tudo ser diferente neste consultório», disse Naomi,


cabisbaixa, «nunca mais será a mesma coisa.»

«Quer dizer que os sentimentos que tenho agora, neste momento, são
irrevogáveis? Trancados em cimento? Lembra-se, no ano passado, quando
a sua amiga Marjorie estava zangada consigo e como entrou em pânico
quando pensou que ela nunca mais lhe falaria? Bem, como já viu, os
sentimentos podem mudar. Falaram sobre isso e retomaram a vossa
amizade. De facto, acredito que ficaram ainda mais próximas. Lembre-
se, também, de que a situação neste consultório é ainda mais propícia
a trabalhar esses obstáculos porque, ao contrário de qualquer outro
sítio, temos regras especiais — que são continuar a comunicar,
aconteça o que acontecer.»

«Mas Naomi», continuei, «estou a afastar-me da sua raiva. Quando


disse "Estava a pedi-las", isso foi muito intenso, veio de bem
fundo.»

«Estranho-me a mim própria», respondeu, «também eu estou espantada


pela forma veemente como essa frase me saiu, como se apoderou de mim.

192
A raiva — não... mais do que raiva, fúria — explodiu.»

«Só aqui comigo? Ou lá fora, também?»

«Não, não é só aqui consigo. Está a transbordar por todos os lados.


Ontem, a minha sobrinha estava a levar-me ao médico e havia uma
carrinha de um jardineiro a empatar o caminho. Fiquei tão zangada com
o condutor que senti que queria bater-lhe. Fui à procura dele mas não
consegui encontrá-lo. Depois zanguei-me com a minha sobrinha por não
ter ultrapassado a carrinha — mesmo se tal significasse passar por
cima do passeio. Ela disse que não havia espaço suficiente. Insisti e
entrámos numa discussão tal que saímos do carro, ela mediu a
distância com os seus passos e mostrou-me que não havia espaço
suficiente por causa dos carros estacionados do outro lado. Ainda por
cima, o passeio era alto de mais. Ela não parava de dizer "Tenha
calma, tia Naomi, é o jardineiro que está a tentar fazer o seu
trabalho. Provavelmente também não gosta de deixar o carro assim."
Mas eu não conseguia controlar-me. Estava furiosa com o condutor e
não parava de dizer a mim própria: "Como é que ele pode fazer isto?
Que gente sem nível."

«E, claro, a minha sobrinha tinha razão. O condutor voltou


apressadamente com dois ajudantes e empurraram a carrinha para fora
da estrada, para podermos passar, e senti-me humilhada — uma velhinha
raivosa. Raiva por todo o lado como quando reajo com os empregados
por não me trazerem o ice tea suficientemente depressa, com o
arrumador por ser tão lento, com o homem dos bilhetes de cinema por
se atrapalhar com os trocos; bolas, eu teria vendido um carro naquele
período de tempo.»

A nossa hora tinha acabado. «Desculpe acabar agora, Naomi.


Sentimentos fortes hoje. Sei que não tem sido confortável para si,
mas é trabalho importante. Vamos continuar para a semana. Temos de
juntar as cabeças para descobrirmos de onde vem tanta raiva.»

Naomi concordou, mas telefonou-me no dia seguinte para me dizer que


se sentia demasiado frágil para conseguir esperar uma semana inteira,
por isso marcámos a sessão para o dia seguinte.

Dessa vez ela começou de uma forma estranha: «Talvez conheça o poema
do Dylan Thomas, "Do Not Go Gentle."

Antes de poder responder-lhe, ela recitou os primeiros versos:

193
Não entres tão depressa nessa noite escura,

A velhice dever arder e enfurecer-se ao cair do dia;

Raiva, raiva contra o esmorecer da luz.

Apesar de os homens sábios saberem que não há outro caminho,

Porque das suas palavras não saem relâmpagos, mesmo assim não

entram depressa nessa noite escura.

«Podia continuar», disse Naomi, «conheço o poema de cor, mas...», e


fez uma pausa.

Oh, continue, se faz favor continue, pensei para mim próprio. Tinha
recitado aqueles versos maravilhosamente e há poucas coisas de que
gosto mais do que ouvir ler poemas em voz alta. Que estranho,
pagarem-me para ter direito a este bónus.

«Estes versos contêm a resposta à sua — à nossa — pergunta acerca da


minha raiva», disse-me Naomi. «Ontem à noite, quando estava a pensar
sobre a nossa sessão, este poema surgiu-me na mente. É engraçado,
ensinei-o aos meus alunos do décimo primeiro ano durante anos, mas
nunca realmente pensara sobre o significado das palavras — ou pelo
menos nunca as tinha aplicado a mim mesma.»

«Acho que estou a perceber aonde quer chegar», disse, «mas preferia
ouvi-lo da sua boca.»

«Penso — não, não, tenho a certeza absoluta — que a minha raiva diz
respeito a como me sinto agora na vida: uma mulher a perder
capacidades e a aproximar-se da morte, que não está longe. Está-me
tudo a ser tirado — a minha anca, o meu funcionamento intestinal, a
minha libido, o meu poder, a minha capacidade de ouvir e ver. Estou
fraca, indefesa e estou à espera da morte. Por isso sigo as
instruções de Dylan Thomas: não me deixo ir gentilmente, estou
enfurecida e raivosa ao cair do meu dia. As minhas palavras patéticas
e impotentes, percebo-o agora perfeitamente, não produzem relâmpagos.
Não quero morrer. E julgo que penso que a raiva vai ajudar-me. Mas
talvez a única verdadeira função da raiva seja inspirar grandes
poemas.»

Nas sessões subsequentes concentrámo-nos no terror por trás da raiva.


A estratégia da Naomi (e de Dylan Thomas) para diminuir a ansiedade
de morte ajudava-a a contrariar a sua sensação de decrepitude, de
perda de controlo. Contudo, o nosso trabalho rapidamente ricocheteou,
porque rompeu o sentimento de ligação com o seu círculo vital de
apoio interno.
194
A terapia verdadeiramente eficaz tem de atender não só aos sintomas
visíveis (neste caso, raiva), como também ao terror escondido da
morte, de onde surgem os sintomas.

Arrisquei quando descrevi o comportamento de Naomi como «imperioso» e


a relembrei das consequências das suas palavras, mas tinha uma grande
margem de manobra porque tínhamos estabelecido uma ligação próxima e
de confiança ao longo de um largo período de tempo. Mas porque
ninguém gosta de ouvir comentários negativos, especialmente de um
terapeuta, tive o cuidado de tomar várias precauções a fim de
assegurar-me da sua aceitação. Usei linguagem que não ia ofendê-la:
dizendo, por exemplo, que me sentia «afastado» implicava o meu desejo
de estar próximo, e quem pode ficar ofendido com isso?

Ainda por cima (e isto é importante), não fui globalmente crítico:


fiz questão de só comentar partes do seu comportamento. Afirmei,
efectivamente, que quando ela se comportava de tal e tal maneira
fazia sentir-me de uma maneira assim e assim. Rapidamente acrescentei
que isto era contrário aos seus interesses, porque ela claramente não
queria que me sentisse distanciado, perturbado ou com medo dela.

Note a ênfase que coloquei na empatia neste tratamento de Naomi. É


vital para a conectividade e eficácia do relacionamento terapêutico.
Na minha discussão prévia, sobre as teorias de Carl Rogers sobre a
eficácia do comportamento do terapeuta, coloquei toda a ênfase no
papel da precisão empática do terapeuta (acompanhada de alta
consideração e genuinidade). Mas trabalhar na empatia é
bidireccional: não tem apenas de experimentar o mundo do paciente,
como também é necessário ajudar o paciente a desenvolver a sua
própria empatia pelos outros.

Uma abordagem que funciona é aquela em que se pergunta «Como acha que
o seu comentário me faz sentir?» Deste modo tive o cuidado de deixar
Naomi compreender que os seus comentários tinham consequências. A
primeira resposta, que nasceu da sua raiva, foi «Estava a pedi-las»;
mas mais tarde, quando se lembrou do que tinha dito, ficou perturbada
com a intensidade e virulência da sua afirmação. Incomodada por me
ter provocado sentimentos negativos, temia ter colocado em risco o
espaço de segurança e apoio da nossa terapia.

195
• AUTO-REVELAÇÂO DO TERAPEUTA •

Os terapeutas devem revelar-se — como tentei fazer com Naomi. A auto-


revelação do terapeuta é uma área complexa e contestada. Poucas
sugestões que faço aos terapeutas provocam-lhes tanta inquietação
como a minha insistência para que revelem mais de si próprios. Ficam
a ranger os dentes. Evoca o espectro de um paciente a invadir as suas
vidas pessoais. Discutirei todas estas objecções em detalhe, mas
deixem-me começar por declarar que não quero com isso dizer que os
terapeutas deviam revelar-se indiscriminadamente; para começar, só
deveriam revelar-se quando a revelação tiver valor para o paciente.

Tomem em conta que a auto-revelação do terapeuta não é


unidimensional. A discussão de Naomi centra-se na revelação do
terapeuta, no aqui-e-agora. Mas existem duas outras categorias de
auto-revelação do terapeuta: revelação sobre o mecanismo da terapia e
a revelação sobre a vida pessoal do terapeuta, passada ou presente.

Revelação sobre o mecanismo da terapia

Será que devíamos ser transparentes e abertos sobre a maneira como a


terapia funciona e ajuda? O Grande Inquisidor, de Dostoievsky,
acredita que aquilo que a Humanidade realmente deseja é «magia,
mistério e autoridade». Realmente, os primeiros curandeiros e figuras
religiosas forneciam estas comodidades inefáveis em grande
abundância. Os xamãs eram mestres da magia e do mistério. Gerações
pretéritas de médicos vestiam-se com casacos brancos compridos e
agiam de forma altiva, pasmando os doentes com receitas escritas em
latim. Mais recentemente, os terapeutas têm mantido a sua reserva, as
suas interpretações sonantes e profundas, os seus diplomas e
fotografias de professores e gurus a forrar as paredes dos
consultórios para ficarem afastados e acima dos seus clientes.

Mesmo hoje alguns terapeutas fornecem aos pacientes apenas uma visão
muito geral de como a terapia funciona, porque aceitam a crença de
Freud de que a ambiguidade e a opacidade do terapeuta encorajam a
transferência.

196
Freud considerava a transferência importante porque uma análise do
fenómeno fornece informação valiosa acerca do mundo interno do
paciente e das suas experiências na primeira infância.

Acredito, contudo, que um terapeuta tem tudo a ganhar, e nada a


perder, por ser completamente transparente sobre o processo da
terapia. Investigação consideravelmente persuasiva, quer a nível
individual quer de terapia de grupo, tem documentado que os
terapeutas que sistematicamente e cuidadosamente preparam os
pacientes para a terapia têm melhores resultados. Quanto à
transferência, acredito que é um organismo forte e que crescerá de
forma robusta, mesmo à luz do dia.

Pessoalmente sou absolutamente claro sobre o mecanismo da terapia.


Explico ao paciente o funcionamento da terapia, o meu papel nesse
processo e, mais importante ainda, o que podem fazer para facilitar a
sua própria terapia. Se me parecer indicado, não tenho qualquer
hesitação em sugerir algumas obras sobre terapia.

Faço questão de clarificar o enfoque no aqui-e-agora e, mesmo na


primeira sessão, pergunto ao paciente como acha que estamos a lidar
com tudo. Faço perguntas como «Que expectativas tem em relação a
mim?», «Como preencho, ou não, essas expectativas?», «Parecemos estar
no caminho certo?» ou «Tem sentimentos sobre mim que devíamos
explorar?»

A seguir a tais perguntas geralmente digo algo como: «Vai ver que
faço isto muitas vezes. Faço perguntas tão aqui-e-agora porque
acredito que ao explorarmos a relação vamos encontrar informação
importante e precisa. Pode falar-me de problemas que surgem com os
seus amigos, o seu chefe ou o seu esposo/a, mas há sempre uma
limitação: não os conheço e não consegue evitar dar-me informação que
reflecte a sua própria subjectividade. Todos o fazemos, não podemos
evitá-lo. Mas o que acontece aqui no consultório é fiável porque
ambos experimentamos os mesmos acontecimentos e podemos trabalhar
imediatamente sobre o que acontece.» Todos os pacientes têm
compreendido e aceitado esta explicação.

197
Revelação sobre a vida pessoal do terapeuta

Os terapeutas temem que, abrindo uma frincha da sua vida pessoal, os


pacientes vão querer implacavelmente pedir mais. «É feliz?», «Como
vai o seu casamento? A sua vida social? A sua vida sexual?»

Isto é, pelo que tenho vivido, um falso medo. Apesar de encorajar os


pacientes a fazerem perguntas, nenhum paciente alguma vez insistiu em
saber detalhes íntimos da minha vida pessoal. Se isso acontecesse,
responderia colocando o enfoque no processo; ou seja, questioná-lo-ia
acerca das motivações que o levavam a pressionar-me ou embaraçar-me.
Mais uma vez insisto com os terapeutas: revelem-se quando trouxer
benefícios para a terapia, não devido à pressão exercida pelo
paciente ou em consequência das suas próprias necessidades ou regras.

Por muito que tal revelação possa contribuir para a eficácia é um


acto complexo, como vemos nesta narrativa de uma sessão com James, o
homem de quarenta e seis anos descrito no Capítulo 3, que tinha
dezasseis anos quando o seu irmão morreu num acidente de automóvel.

James Faz Uma Pergunta Difícil. Apesar de dois dos meus valores
fundamentais como terapeuta serem a tolerância e a aceitação
incondicional, ainda tenho os meus preconceitos. A minha bête noire
são as crenças bizarras: terapia de aura; gurus semideificados,
curadores com as mãos; profetas; declarações de cura de vários
nutricionistas; aroma-terapia, homeopatia e ideias absurdas sobre
coisas como viagens astrais, poderes curativos de cristais, milagres
religiosos, anjos, feng-shui, canais de energia, levitação por
meditação, psicocinese, poltergeists, terapia de vidas passadas, OVNI
e extraterrestres que inspiraram as primeiras civilizações,
desenharam padrões em campos de trigo e construíram as pirâmides do
Egipto.

Mesmo assim, sempre acreditei que conseguia pôr de lado qualquer


preconceito e trabalhar com qualquer pessoa, não obstante o seu
sistema de crenças. Mas no dia em que o James, com o sua fervorosa
paixão pelo paranormal, entrou no meu consultório, sabia que a minha
neutralidade terapêutica ia ser severamente testada.

198
Apesar de James não ter procurado terapia por causa das suas crenças
paranormais, algumas questões envolvendo-as surgiram em quase todas
as sessões. Considere o nosso trabalho neste sonho:

Estou a voar pelo ar. Visito o meu pai na Cidade do México, pairo por
cima da cidade e olho pela janela do quarto dele. Vejo-o a chorar e
sei sem perguntar que ele está a chorar por causa de mim, por me ter
abandonado quando era criança. A seguir encontro-me no cemitério de
Guadalajara, onde o meu irmão está enterrado. Por alguma razão
telefono para o meu próprio telemóvel e oiço a minha mensagem, «Sou o
James G... Estou a sofrer. Ajudem-me, por favor.»

Quando discutíamos este sonho, o James falava amarguradamente do seu


pai, que tinha abandonado a família quando ele era criança. Não tinha
a certeza se o pai estava vivo; a última vez que ouvira falar nele
tinham-lhe dito que estava algures na Cidade do México. James não se
lembrava de alguma vez ter recebido um presente ou palavra de carinho
do pai.

«Então», disse eu, depois de termos discutido o sonho durante alguns


minutos, «o sonho parece estar a expressar o seu desejo de algo do
seu pai, algum sinal de que ele pensa em si, que tem remorsos por não
ter sido um melhor pai.»

«E naquela mensagem no telemóvel a pedir ajuda?», continuei, «o que


me chama a atenção é a sua dificuldade em pedir ajuda; ainda a semana
passada comentou que sou a única pessoa a quem pediu explicitamente
apoio. Mas no seu sonho está mais receptivo. Por isso, estará o sonho
a retratar uma mudança? Está a dizer algo sobre nós os dois? Talvez
algum paralelo entre o que recebe, o que quer de mim e o que esperava
do seu pai?»

«E depois, no sonho, visita a campa do seu irmão. O que pensa disso?


Estará a pedir ajuda para lidar com a morte do seu irmão?»

James concordou que a minha preocupação para com ele tinha incendiado
a sua consciência e vontade pelo que nunca recebera do seu pai. E
também concordou que mudara desde que tinha começado a terapia:
estava mais disposto a partilhar os seus problemas com a mulher e a
mãe.

Depois acrescentou: «Está a sugerir uma interpretação do sonho. Não


estou a dizer que não tenha um fundo de verdade; não estou a dizer
que não é uma análise útil, mas tenho uma explicação alternativa que
é muito mais real para mim.

199
Acredito que aquilo a que chama um sonho não o é realmente. É uma
memória, um registo da minha viagem astral de ontem à noite a casa do
meu pai e à campa do meu irmão.»

Tive cuidado para não revirar os olhos ao céu ou deixar cair a minha
cabeça sobre as mãos. Questionei-me se também diria que telefonar
para o seu próprio telemóvel era igualmente uma memória, mas tinha a
certeza de que apanhá-lo numa contradição, ou expor as diferenças das
nossas crenças, seria contraproducente. Em lugar disso, tendo-me
disciplinado ao longo dos nossos meses de terapia para suprimir o meu
cepticismo, tentei entrar no mundo dele e imaginar como seria viver
num mundo com espíritos voadores e viagens astrais; e também tentei
uma exploração gentil das origens psicológicas e históricas das suas
crenças.

Mais à frente nessa sessão partilhou comigo a sua vergonha por beber
tanto e pela sua preguiça, dizendo que se sentirá mortificado quando
se reencontrar com os seus avós e irmão no Céu.

Minutos mais tarde acenou com a cabeça. «Vi-o franzir o sobrolho


quando falei sobre o reencontro com os meus avós.»

«Não me apercebi disso, James.»

«Eu vi! E acho que fez o mesmo quando lhe falei sobre a minha viagem
astral. Diga-me a verdade, Irv: qual foi a sua verdadeira reacção ao
que acabei de lhe dizer sobre o Céu?»

Poderia ter evitado a questão, como nós, terapeutas, fazemos


frequentemente, reflectindo no processo que o levou a fazer-me aquela
pergunta, mas decidi que o melhor caminho era ser completamente
honesto. Ele tinha, sem dúvida, recolhido já muitos indícios do meu
cepticismo; negar isso seria antiterapêutico, questionando a sua
(acertada) visão da realidade.

«James, vou contar-lhe o que posso sobre o que estava a passar-se


comigo. Quando falou sobre como o seu avô e irmão sabiam tudo sobre a
sua vida actual fiquei perplexo. Essas não são as minhas crenças. Mas
o que tentei fazer enquanto falava foi procurar, com toda a minha
força, mergulhar na sua experiência, para imaginar como seria viver
num mundo de espíritos, um mundo em que os seus parentes mortos sabem
tudo sobre a sua vida e os seus pensamentos.»

«Não acredita na vida depois da morte?»

200
«Não. Mas também sinto que nunca podemos ter a certeza de tais
coisas. Imagino que lhe oferece grande conforto, e sou completamente
a favor de qualquer coisa que lhe proporcione paz de espírito,
satisfação na vida e que o encoraje a seguir uma vida de virtude.
Mas, pessoalmente, não acho a ideia de um reencontro no Céu credível.
Considero que surge de um desejo.»

«Então, em que religião acredita?»

«Não acredito em qualquer religião e em deus algum. Tenho uma visão


completamente secular da vida.»

«Mas como é possível viver assim? Sem regras morais!... Como pode a
vida ser tolerável ou ter qualquer significado sem a ideia de
melhorar o nosso estatuto na próxima vida?»

Comecei a ficar irrequieto sobre aonde a discussão nos levaria e se


estaria a servir os melhores interesses do James. Apesar de tudo
optei por continuar a ser completamente honesto.

«O meu verdadeiro interesse é nesta vida e em melhorá-la, para mim e


para outros. Deixe-me explicar-lhe como consigo encontrar sentido
nela sem religião. Não sinto que a religião seja a fonte de
significado e moralidade. Não me parece que haja uma conexão directa,
ou pelo menos uma conexão exclusiva, entre religião, sentido e
moralidade. Julgo que vivo um vida que é virtuosa e que me realiza.
Dedico-me completamente a ajudar os outros, como a si, por exemplo, a
conseguirem ter uma vida mais satisfatória. Diria que encontro o meu
sentido para a vida neste mundo humano que temos aqui e agora. Acho
que o meu sentido vem de ajudar os outros a encontrarem o seu
sentido. Acredito que a preocupação com a próxima vida pode
comprometer a total entrega a esta vida.»

James parecia tão interessado que continuei durante alguns minutos a


descrever algumas das minhas leituras recentes de Epicuro e de
Nietzsche, que enfatizam esta mesma questão. Mencionei como Nietzsche
tanto admirava Cristo, mas sentia que Paulo, e mais tarde os líderes
cristãos, tinha diluído a sua verdadeira mensagem, sugando o
verdadeiro sentido a esta nossa vida. De facto, apontei, Nietzsche
sentia muita hostilidade contra Sócrates e Platão pelo desprezo que
dedicavam ao corpo, a sua ênfase na imortalidade da alma e a sua
concentração na preparação para a próxima vida. Estas mesmas crenças
eram acarinhadas pelos neoplatónicos e eventualmente permitiram o
surgimento da escatologia cristã primitiva.

201
Parei e olhei para o James, esperando que me respondesse
desafiadoramente. Subitamente, e para minha grande surpresa, começou
a chorar. Fui-lhe passando kleenex após kleenex e esperei que os seus
soluços cessassem.

«Tente continuar a falar comigo, James. O que dizem as lágrimas?»

«Dizem que esperei tanto por esta conversa... Esperei tanto tempo
para ter uma conversa intelectualmente séria sobre coisas profundas.
Tudo à minha volta, toda a nossa cultura — televisão, videojogos,
pornografia — é tão embrutecedor... Tudo o que faço no trabalho —
toda a minúcia de contratos, processos, até mediação de divórcios —
resume-se a dinheiro, é tudo lixo, é tudo sobre nada, tudo
insignificante.»

O James foi, desta forma, influenciado não pelo conteúdo mas pelo
nosso processo — ou seja, por o ter levado a sério. Considerou a
expressão das minhas crenças e ideias como um presente e a nossa
vasta diferença ideológica provou ser completamente inconsequente.
Concordámos em discordar; ele trouxe-me um livro sobre OVNI, e eu,
pelo meu lado, ofereci-lhe um outro do céptico contemporâneo Richard
Dawkins. O nosso relacionamento, a minha preocupação e o facto de lhe
dar o que o pai não lhe dera provou ser o facto crucial da nossa
terapia. Como indiquei no Capítulo 3, James melhorou muito e de
muitas maneiras, mas acabou a terapia mantendo as suas crenças
paranormais inamovíveis.

Empurrado até ao limite da auto-revelação

Amélia tem cinquenta e um anos. É uma mulher negra de grande porte,


altamente inteligente, tímida, que trabalha como enfermeira num
hospital público. Trinta e cinco anos antes de a conhecer Amélia
tinha sido, por dois longos anos, uma sem-abrigo viciada em heroína
que se prostituía para sustentar a sua dependência. Acredito que
qualquer pessoa que a visse nessa época — mentalmente alterada,
escanzelada, desmoralizada, mais uma do enorme exército de
prostitutas aditas à heroína — diria que estava condenada. Mas, com a
ajuda de uma desintoxicação forçada durante seis meses na prisão — a
somar ao apoio dado pelos Narcóticos Anónimos, uma extraordinária
coragem e uma vontade de viver feroz —, Amélia deu um novo rumo à sua
vida e à sua identidade.

202
Mudou-se para a costa oeste e iniciou uma carreira como cantora em
clubes nocturnos. Tinha talento suficiente para sobreviver assim.
Acabou o liceu e mais tarde a Escola de Enfermagem. Durante os
últimos vinte e cinco anos, Amélia tem-se dedicado inteiramente ao
seu trabalho em hospícios e centros de acolhimento para os pobres e
sem-abrigo.

No decorrer da nossa primeira sessão fiquei a saber que sofria de


insónias severas. Geralmente era acordada por um pesadelo, do qual
pouco conseguia lembrar-se, excepto pequenos bocados envolvendo
perseguições e correrias para salvar a própria pele. Depois ficava
tão ansiosa com a ideia da morte que raramente voltava a adormecer.
Quando as suas insónias se agravaram, de tal forma que temia mesmo
deitar-se, decidiu procurar apoio. Tendo recentemente lido uma
história que escrevi, «Em Busca do Sonhador», Amélia pensou que eu
poderia ajudá-la.

Nesse primeiro encontro, mal se tinha sentado na cadeira do meu


consultório disse-me que esperava não adormecer porque estava muito
exausta, já que estivera acordada uma grande parte da noite a
recuperar de um pesadelo. Geralmente, disse-me, não conseguia
lembrar-se dos sonhos, mas este tinha-lhe ficado na cabeça.

Estou deitada a olhar para as minhas cortinas. São de pregas


encarnadas e a luz exterior atravessa-as. Estranhamente, as cortinas
estão ligadas à música. O que quero dizer é que olho para elas e ouço
bocados de uma velha canção da Roberta Flack, «Killing me Softly»,
como se escorressem das tiras de luz. Cantava muitas vezes esta
canção em clubes em Oakland, quando andava na universidade. No sonho
comecei a ficar com medo por a luz ser substituída por música.
Depois, repentinamente, a música cessou e percebi que o autor da
música vinha buscar-me. Acordei muito assustada, por volta das quatro
horas da manhã. Não consegui dormir mais nessa noite.

Não foram só os seus pesadelos e insónias que a trouxeram para a


terapia. Ela tinha um segundo problema: ambicionava uma relação com
um homem e, embora tivesse iniciado vários relacionamentos, nenhum
chegara realmente a levantar voo.

Durante as primeiras sessões explorei o seu historial, os seus medos


da morte e as fugas da morte que experimentara, na vida real, nos
anos em que se prostituíra, mas senti uma resistência enorme.

203
Parecia não ter uma ansiedade consciente acerca da morte; pelo
contrário, escolhera trabalhar em hospícios, onde a encontrava todos
os dias.

Durante os primeiros três meses de terapia, o mero processo de falar


comigo e de partilhar, pela primeira vez, detalhes da sua vida nas
ruas parecia confortá-la e o seu sono melhorou. Sabia que continuava
a ter sonhos, mas era incapaz de se lembrar de mais do que de
pequenos fragmentos.

O seu receio quanto à intimidade ficou imediatamente evidente na


nossa relação terapêutica. Raramente me encarava, e eu sentia que
existia uma enorme cratera entre nós. No princípio deste capítulo
discuti a importância das opções dos meus pacientes acerca de onde
estacionar o carro. De todos eles, a Amélia era a que estacionava
mais longe.

Mantendo clara a lição que aprendi com o Patrick (discutida neste


capítulo), de que as ideias perdem eficácia na ausência de uma
ligação íntima e de confiança, resolvi concentrar-me, durante os
meses que se seguiram, no problema que ela sentia perante a
intimidade, focando-me particularmente no seu relacionamento comigo.
Nada parecia mudar significativamente, tudo continuava bastante
gelado, até à memorável sessão que descrevo a seguir.

Quando entrava no meu consultório, Amélia recebeu um telefonema e


perguntou-me se não havia problema em atender. Seguiu-se uma breve
conversa ao telemóvel sobre um encontro a acontecer mais tarde nesse
dia, usando uma linguagem tão formal e fria que pensei que estava a
falar com um chefe. Assim que desligou o telefone perguntei o que se
passava, e foi então que fiquei a saber que não, não era o seu chefe,
mas um namorado recente com quem combinara jantar.

«Tem de haver diferença entre falar com um namorado e um chefe, nem


que seja pela utilização de um termo carinhoso como "querido" ou
"amor", disse-lhe.

Ela olhou para mim como se eu pertencesse a um universo paralelo e


imediatamente mudou de assunto, contando-me tudo sobre a reunião de
grupo dos Narcóticos Anónimos em que tinha participado no dia
anterior (apesar de já estar em abstinência há mais de trinta anos,
ainda ia periodicamente às reuniões). O encontro era numa região da
cidade muito parecida com o bairro de Harlem, que Amélia tinha
frequentado durante a sua vida como dependente de heroína e
prostituta.

204
Quando caminhava para o encontro, por entre as ruas de um bairro
infestado de droga, ela, como sempre, experimentou um sentimento
estranho de nostalgia, dando por si à procura de entradas e becos que
poderiam constituir bons locais para passar a noite.

«Não é que quisesse voltar para aquilo, Dr. Yalom.»

«Ainda me chama Dr. Yalom e eu chamo-lhe Amélia, não me parece


certo», interrompi.

«Como já lhe disse, dê-me tempo. Tenho de o conhecer melhor. Mas,


como dizia, quando vou àqueles... hã... sítios pobres da cidade tenho
ondas de sentimentos que não são completamente negativas. É difícil
descrevê-los, mas... não sei... é como se... tivesse saudades de
casa.»

«Saudades de casa? O que acha disso, Amélia?»

«Eu própria não sei bem. Conto-lhe o que ouço sempre "Eu consegui."
Ouço sempre "eu consegui."

«Parece-me que está a dizer a si própria que atravessou o Inferno e


que conseguiu voltar, sobreviveu.»

«Sim. Algo desse género. Mas é mais do que isso. Pode ter
dificuldades em acreditar, mas a minha vida antes, quando estava na
rua, era tão mais simples e fácil... Não havia preocupações com
orçamentos e reuniões, nem necessidade de treinar enfermeiras novas
já cansadas ao fim de uma semana. Não havia chatices com carros,
mobília, impostos. Nem preocupações sobre o que a lei diz que posso,
ou não posso, fazer pelas pessoas. Sem ter de bajular médicos. Quando
estava nas ruas de Harlem só tinha de pensar numa única coisa. Apenas
uma coisa — como conseguir a próxima dose de heroína. E, claro,
quando chegaria o próximo cliente para pagar a droga. A vida era
simples, sobrevivência dia a dia, minuto a minuto.»

«Um fenómeno de memória selectiva é o que está aqui a acontecer,


Amélia. E a sujidade, as noites geladas ao relento, as garrafas
partidas, os homens que não lhe pagavam, os brutos que a violavam, o
cheiro da urina e das cervejas entornadas? A morte a pairar por todo
o lado — os corpos de pessoas mortas que viu, e você própria a ser
quase assassinada? Não guarda todas estas coisas na memória?»

«Claro, claro, eu sei. Tem razão. Esqueço-me dessas coisas. Esquecia-


me delas quando aconteciam. Quase morta por um tarado e minutos
depois já estava na rua outra vez.»

«Se bem me lembro, viu uma amiga ser atirada do telhado de um


edifício e esteve muito perto de ser morta três vezes — lembro-me
daquela história aterradora que me contou sobre como foi perseguida
por um maníaco com uma faca, e de como teve de tirar os sapatos e
correr meia hora descalça.
205
Contudo, voltava sempre ao trabalho. É como se a heroína lhe
esvaziasse a mente de todos os seus pensamentos. Até do medo da
morte.»

«Certo. Como lhe disse, só pensava numa coisa — o próximo pacote de


heroína. Não pensava na morte. Não tinha medo dela.»

«Mas agora a morte voltou para assombrar os seus sonhos.»

«Sim, é estranho. Como também é estranho estas... estas saudades de


casa.»

«Será que o orgulho faz parte disso?», perguntei. «Porque tem de se


sentir orgulhosa por ter conseguido saltar dali para fora.»

«Algum. Mas não o suficiente, desconfio. Não tenho tempo livre para
pensar. A minha mente está cheia até cima com números e trabalho e,
às vezes, com o Hal (o namorado). E com a preocupação de sobreviver,
acho eu. Com o esforço de continuar limpa de drogas.»

«Vir até cá ajuda-a a ficar viva? A afastá-la das drogas?»

«A minha vida toda, o meu trabalho nos grupos, a minha terapia, tudo
ajuda.»

«Essa não foi a minha pergunta, Amélia. Perguntei-lhe se eu a ajudo a


manter-se afastada das drogas.»

«Já disse. Já disse que ajudava. Tudo ajuda.»

«Essa frase "tudo ajuda" — consegue ver como dilui as coisas?


Tirando-nos algo? Mantendo-nos afastados? Você evita-me. Importa-se
de tentar falar mais sobre sentimentos que possa ter sobre mim — até
este ponto, nesta sessão ou na sessão da semana passada, ou talvez
pensamentos sobre mim durante a semana?»

«Oh, não, lá está com isso outra vez!»

«Confie em mim, Amélia, é importante.»

«Está a dizer-me que todos os pacientes pensam sobre os seus


terapeutas?»

«Sim, exactamente. É essa a minha experiência. Sei que tinha mesmo


muitos pensamentos sobre o meu próprio terapeuta.»

A Amélia tinha estado semideitada na sua cadeira, fazendo-se passar


por mais pequena do que realmente era, como sempre fazia quando a
discussão era acerca de nós, mas agora tinha-se endireitado.

206
Fora finalmente capaz de captar totalmente a sua atenção.

«A sua terapia? Quando? Que pensamentos tinha?»

«Era paciente de um homem bom, psicólogo, há mais ou menos quinze


anos, Rollo May. Ansiava pelas nossas sessões. Apreciava a sua
gentileza, a atenção que mostrava para com tudo. Gostava da maneira
como ele se vestia, com camisas de golas cortadas e um colar indiano
turquesa. Ficava feliz quando me dizia que tínhamos uma relação
especial pelo facto de possuirmos os mesmos interesses profissionais.
Adorei que tivesse lido o rascunho de um dos meus livros e feito
vários elogios.»

Silêncio. Amélia mantinha-se imóvel a olhar pela janela.

«E a Amélia?», perguntei-lhe. «É a sua vez.»

«Bem, suponho que também gosto da sua gentileza.» Ao dizer isto


contorceu-se e olhou para o outro lado.

«Continue. Diga mais.»

«Mas é embaraçoso!...»

«Eu sei. Mas o embaraço significa que estamos a dizer algo importante
um ao outro. Acho mesmo que o embaraço é o nosso objectivo, a mina
que precisamos de explorar — temos de trabalhar exactamente através
dele. Por isso vamos saltar mesmo para o meio do seu embaraço. Tente
continuar.»

«Bem, gostei da vez em que me ajudou a vestir o casaco no final de


uma sessão. Também gostei da sua gargalhada, daquela vez em que
endireitei o canto do seu tapete que estava virado. Não percebo como
isso não o incomoda. Podia mandar decorar o seu consultório. Essa sua
mesa está sempre desarrumada... Ok, ok, vou continuar. Lembro-me
daquela vez em que o dentista me deu um frasco com cinquenta Vicodins
e de como se esforçou para que eu lho entregasse. Quer dizer, o
dentista manda-me o frasco para o colo — acha que vou oferecer-lho?
Lembro-me de que no final da sessão, quando não me largava a mão,
tentei fugir do consultório. Uma coisa lhe digo, estou grata por não
ter posto a terapia em causa, como teria acontecido se me tivesse
feito um ultimato, do estilo: "Dê-me o frasco de Vicodins ou
acabaram-se os nossos encontros!" Outros terapeutas tê-lo-iam feito.
Mas digo-lhe uma coisa: se o fizessem deixava-os. Tal como o deixaria
a si também.»

«Gosto que diga essas coisas, Amélia. Estou comovido.

207
Fico tocado por estar a ser capaz de fazê-lo. Como foram estes
últimos minutos

para si?»

«Embaraçosos!»

«Porquê?»

«Porque agora posso ser ridicularizada.»

«Já alguma vez aconteceu algo assim?»

A Amélia revelou então alguns incidentes ocorridos na sua infância e


começo de adolescência, em que fora alvo de troça. Não me pareciam
assim tão graves e questionei-me, em voz alta, se a origem da sua
vergonha não seria os seus negros dias de heroína. Ela discordou,
como já tinha feito em outras ocasiões, e garantiu-me que os
problemas com o embaraço eram muito anteriores ao seu uso de drogas.
Depois, pensativa, olhou directamente para mim e disse: «Tenho uma
pergunta para si.»

Captou a minha atenção. Nunca tinha dito algo desse género. Não sabia
o que esperar. Aguardei ansiosamente. Adoro momentos destes.

«Não sei se vai estar disposto a encarar isto, mas aqui vai. Está
preparado?»

Fiz um sinal afirmativo com a cabeça.

«Receber-me-ia como membro da sua família? Quero dizer, você sabe o


que quero dizer. Hipoteticamente.»

Fiquei pensativo. Queria ser honesto e genuíno. Olhei para ela: a sua
cabeça altiva, os seus grande olhos fixos em mim, que agora não me
evitavam como de costume. A sua pele castanha e brilhante parecia que
tinha acabado de ser lavada. Examinei os meus sentimentos
cuidadosamente e disse-lhe:

«A resposta é sim, Amélia. Considero-a uma pessoa corajosa. Uma


pessoa maravilhosa. Estou cheio de admiração pelo que conseguiu
superar e pelo que tem feito da sua vida desde então. Por isso, sim,
recebê-la-ia como membro da minha família.»

Os olhos da Amélia encheram-se de lágrimas. Agarrou num kleenex e


virou a cara para se recompor. Depois de alguns segundos, disse:
«Tinha de dizer isso, claro, é o seu trabalho.»

«Vê como me empurra para longe, Amélia? Estávamos demasiado perto


para seu conforto, hein?»

O nosso tempo chegara ao fim. Estava a chover com intensidade e


Amélia dirigiu-se para a cadeira onde tinha deixado o casaco.
208
Eu agarrei-o e ajudei-a a vesti-lo. Ela encolheu-se e parecia
desconfortável.

«Está a ver?», comentou zangada. «Está a ver? É exactamente isso que


queria dizer. Está a gozar comigo.»

«Amélia, nada está mais longe do meu pensamento. Mas é bom que tenha
dito isso. É bom expressar tudo. Gosto da sua honestidade.»

Quando estava à porta olhou para mim e disse-me: «Quero um abraço.»

Extraordinário. Gostei que tivesse feito aquele pedido e abracei-a,


sentindo o seu calor e o seu corpo.

Enquanto descia as escadinhas que saem do meu consultório, disse-lhe:


«Fez um bom trabalho hoje.»

Conseguia ouvir os seus passos enquanto se afastava de mim pelo


caminho de gravilha e, depois, sem se virar, exclamando por cima do
ombro: «Você também fez um bom trabalho.»

Por entre as questões levantadas na nossa sessão estava a estranha


nostalgia que Amélia sentia perante a sua antiga vida de
toxicodependente. A sua explicação, de que talvez estivesse a desejar
uma vida de simplicidade, recordou-me a primeira frase deste livro e
a ideia de Heidegger de que, quando alguém está consumido pelo seu
dia-a-dia, vira-se para longe das preocupações profundas e de auto-
análise incisiva.

A minha transição para o aqui-e-agora mudou radicalmente o foco da


nossa sessão. Amélia recusava-se a partilhar os seus sentimentos
sobre mim e até se esquivava às minhas perguntas, tais como: «Vir
ver-me ajuda-a a permanecer viva? A ficar afastada das drogas?»
Decidi arriscar e falar-lhe acerca dos meus sentimentos de há vários
anos, sobre a minha relação com o meu terapeuta.

A minha exposição como modelo, o meu exemplo, ajudou-a a correr


alguns riscos e a conquistar terreno novo. Arranjou coragem para
fazer uma pergunta surpreendente, uma pergunta em que já pensava há
muito: «Receber-me-ia como membro da sua família?» Como é óbvio, tive
de considerar esta pergunta com a maior seriedade. Tinha um grande
respeito por ela, não só por ter conseguido sair do enorme buraco que
é a adição à heroína como pela maneira como tinha vivido desde então
— uma vida dedicada a ajudar e a confortar os outros. Respondi
honestamente.

209
A minha resposta não teve qualquer repercussão negativa. Tinha
seguido as minhas próprias directrizes (e os meus limites) sobre a
revelação pessoal. Conhecia extremamente bem a Amélia e estava
absolutamente convencido de que a minha revelação não a afastaria de
mim, antes pelo contrário, ajudá-la-ia a revelar-se.

Esta foi uma das muitas sessões dedicadas à forma como Amélia evitava
a intimidade. Foi uma sessão memorável, da qual voltámos a falar
inúmeras vezes. No nosso trabalho subsequente, Amélia partilhou muito
mais os seus medos sombrios. Passou a conseguir recordar-se de mais
sonhos e a aceder a memórias do horror vivido durante os anos
passados na rua. Tudo isto, a princípio, aumentou a sua ansiedade — a
ansiedade que a heroína costumava dissolver — mas, posteriormente,
permitiu-lhe ultrapassar todas as barreiras resultantes do facto de
ter estado desligada de si mesma. Quando chegámos ao fim das nossas
sessões já tinha passado um ano inteiro sem pesadelos ou episódios de
pânico nocturnas; e, três anos mais tarde, tive o prazer de estar
presente no seu casamento.

A auto-revelação como modelagem

O conhecimento do grau de profundidade com que se deve dar a auto-


revelação do terapeuta, assim como a ocasião exacta para o fazer,
chega-nos através da experiência. Há que manter presente que o
objectivo da revelação é sempre facilitar o trabalho terapêutico. Uma
auto-revelação feita demasiado cedo no decurso de uma terapia traz
consigo o risco de desanimar ou assustar um paciente que precise de
mais tempo para se certificar de que a situação terapêutica é segura.
Contrariamente, a auto-revelação do terapeuta feita com cuidado pode
constituir um real modelo para os clientes. A revelação pelo
terapeuta induz o paciente a revelar-se também.

Um exemplo da revelação do terapeuta apareceu numa edição recente do


jornal de psicoterapia. O autor do artigo descreve um evento ocorrido
vinte e cinco anos antes. Numa terapia de grupo em que tinha estado
presente, notara que o líder do grupo (Hugh Mullen, um terapeuta
bastante conhecido) não só estava descontraidamente inclinado para
trás na cadeira como tinha os olhos fechados.

210
O autor do artigo tinha então perguntado ao senhor: «Porque está tão
descontraído hoje, Hugh?»

«Porque estou sentado ao lado de uma mulher», respondera o outro de


imediato.

Naquela altura, o autor desta descrição considerou a resposta do


terapeuta totalmente bizarra, questionando-se inclusivamente se não
estaria no grupo errado. Contudo, foi gradualmente percebendo que
este terapeuta, que não temia ser honesto acerca dos seus sentimentos
e fantasias, funcionava de uma forma maravilhosamente libertadora
para os membros do grupo.

Aquele simples comentário tinha um enorme poder de influência e


exerceu tal impacte na carreira deste sujeito como terapeuta que
ainda agora, anos e anos mais tarde, sente-se tão grato ao ponto de
escrever um artigo a fim de partilhar o impacte duradouro do
"therapist modeling".

• Sonhos: A Via Régia Para o Aqui-e-Agora •

Os sonhos são extremamente valiosos e é uma pena que muitos


terapeutas, especialmente no início das suas carreiras, se mantenham
afastados deles. Uma das razões pela qual isso acontece é que os
jovens terapeutas raramente recebem qualquer tipo de preparação para
lidarem com os sonhos. De facto, muitos programas de Psicologia
Clínica, Psiquiatria e aconselhamento, não fazem qualquer referência
à sua importância no processo de terapia. Sozinhos, os terapeutas
sentem-se incomodados pela natureza misteriosa dos sonhos, pela
complexa literatura acerca do seu simbolismo e sua interpretação, bem
como pela exaustiva tarefa de analisar e interpretar todos os seus
aspectos. Na sua maioria, apenas os terapeutas que se submeteram a
uma intensa terapia pessoal conseguem atribuir aos sonhos a sua
verdadeira importância.

Tento incentivar e ajudar os jovens terapeutas que pretendem


trabalhar com sonhos, recomendando-lhes que não se preocupem com a
interpretação.

211
Um sonho totalmente compreendido? Esqueçam! Não existe. O sonho de
Irma, descrito na obra-prima de Freud, A Interpretação dos Sonhos, de
1900, o sonho que Freud mais intensamente tentou interpretar, tem
sido uma fonte de constante controvérsia ao longo deste último
século, e ainda hoje muitos célebres clínicos estão a lançar
diferentes interpretações quanto ao seu significado.

Pense de modo pragmático sobre os sonhos, é o que digo aos alunos.


Pense nos sonhos apenas como uma importante fonte de informação sobre
pessoas desaparecidas, lugares e experiências de vida do paciente.
Além disso, a ansiedade de morte infiltra-se em muitos sonhos.
Enquanto a maior parte deles tenta manter o sonhador a dormir, os
pesadelos são sonhos em que a ansiedade de morte está a nu e que,
tendo conseguido fugir da «prisão», aterroriza e acorda o sonhador.
Outros sonhos, como já discuti no terceiro capítulo, anunciam uma
experiência do despertar; tais sonhos parecem trazer mensagens das
partes mais profundas do ser, que estão em contacto com os factos
existenciais da vida.

Geralmente, os sonhos que trazem mais frutos ao processo terapêutico


são os pesadelos, sonhos recorrentes ou poderosos — sonhos lúcidos
que ficam na memória. Quando um paciente expõe vários sonhos na mesma
sessão, vulgarmente, chego à conclusão de que o mais recente ou o
mais vívido é aquele que oferece as associações mais relevantes.
Dentro de nós trabalha uma força, forte e inconsciente, que, através
das formas mais engenhosas, tenta ocultar as mensagens presentes no
sonho. Os sonhos não só contêm símbolos obscuros e outros complexos
mecanismos de disfarce, como são etéreos: esquecemo-nos deles e,
mesmo se formos capazes de os escrever num papel, não é invulgar
esquecermo-nos de o levarmos para a sessão de terapia seguinte.

Os sonhos com representações de imagens do inconsciente são tão


abundantes que Freud dava-lhes o nome de via regia — a estrada real —
para o inconsciente. Mas mais relevante para estas páginas é o facto
de os sonhos serem também a via régia para a compreensão do
relacionamento paciente-terapeuta. Presto particular atenção aos
sonhos que contêm representações da terapia ou do terapeuta.

212
Geralmente, à medida que a terapia progride, os sonhos que lhe dizem
respeito tornam-se mais comuns.

A retenção deste tipo de sonho na mente é feita, praticamente na


totalidade, de forma visual; a mente, de alguma forma, atribui
imagens visuais a conceitos abstractos. É por isso que a terapia é
frequentemente retratada visualmente na forma de uma viagem, ou
trabalho de reparação na casa de alguém, ou uma jornada de descoberta
em que cada um encontra quartos inutilizados e previamente
desconhecidos na sua própria casa. Por exemplo, o sonho da Ellen (já
descrito anteriormente neste capítulo) representava a sua vergonha
através do sangue menstrual que lhe manchava a roupa na minha casa de
banho; de forma semelhante, a sua desconfiança na minha fiabilidade
estava presente na forma como eu a ignorava, não indo em seu auxílio
e mantendo-me ocupado a conversar com outros. O caso seguinte ilustra
uma questão importante para terapeutas que tratam pacientes com
ansiedade relativamente à morte: a mortalidade do terapeuta.

Um sonho sobre a vulnerabilidade do terapeuta: Joan

Aos cinquenta anos, Joan recorreu à terapia pois sentia um


persistente medo da morte e sofria de constantes ataques de pânico
nocturnos. Já há várias semanas que trabalhava sobre estas questões,
quando este sonho interrompeu o seu sono.

Estou numa sessão com o meu terapeuta (tenho a certeza de que é o


Irv, apesar de ele não se parecer exactamente consigo) e brinco com
umas bolachas num grande prato. Pego nalgumas bolachas e mordisco um
canto de cada uma delas, depois parto-as em migalhas e misturo-as com
o meu dedo. De repente, o terapeuta pega no prato e engole tudo de
uma só vez. Uns minutos mais tarde cai da cadeira, doente. Piora
muito e começa a ficar com um aspecto assustador, enquanto lhe
crescem umas unhas verdes, compridíssimas. Os olhos parecem-se com os
de um peixe e as pernas desaparecem. O Larry [o seu marido] entra e
ajuda a confortá-lo. Ele tem muito mais jeito para isso do que eu.
Estou em estado de choque. Acordo com o coração aos saltos e passo as
horas seguintes obcecada com a morte.

213
«O que lhe sugere este sonho, Joan?»

«Bem, os olhos macabros e as pernas mexem com as minhas memórias.


Lembra-se de eu, há uns meses, ter ido visitar a minha mãe quando ela
teve um enfarte? Esteve em coma durante uma semana e depois, pouco
tempo antes de morrer, os seus olhos ficaram parcialmente abertos e
tinham um aspecto macabro. E o meu pai, há vinte anos, teve um
enfarte muito grave e perdeu a mobilidade das pernas. Passou os seus
últimos meses numa cadeira de rodas.»

«Diz que ficou algumas horas obcecada com a morte, já depois de ter
acordado. Conte-me tudo aquilo de que se lembra desses momentos.»

«São as mesmas coisas de que lhe falei: o terror de ir para uma


escuridão eterna e depois uma grande tristeza por não poder voltar a
estar com a minha família. Foi isso que me assustou ontem à noite,
acho eu. Antes de adormecer estive a olhar para fotografias da minha
família e percebi que o meu pai, por mais horrível que tenha sido
para a minha mãe e para todos nós, também teve uma existência. Foi
quase como se tivesse tomado consciência disso pela primeira vez.
Talvez o facto de olhar para as fotografias me tenha feito perceber
que, apesar de tudo, ele deixou algumas marcas de si, coisas boas
até. Sim, a ideia de deixar marcas ajuda. É reconfortante vestir o
velho roupão da minha mãe, que ainda uso, e sinto-me bem quando vejo
a minha filha a guiar o velho Buick que pertencia também a ela.»

E continuou: «Embora as suas reflexões acerca de todos aqueles


grandes pensadores que se debruçavam igualmente sobre a morte me
ajudem a perceber algumas coisas, às vezes não são suficientes para
acalmar o terror. O mistério é demasiadamente aterrorizador — a morte
é uma incógnita tão grande, uma escuridão indecifrável...!»

«Mesmo assim, experimenta o sabor da morte todas as noites enquanto


dorme. Sabia que na mitologia grega Hipnos e Tanatos, o Sono e a
Morte, são irmãos gémeos?»

«Talvez seja por isso que resisto tanto a adormecer. É tão bárbaro,
tão incrivelmente injusto que eu tenha de morrer...»

«Todos as pessoas sentem o mesmo. Eu também o sinto. Mas faz parte da


existência. É assim nos humanos. E é assim com todas as coisas que
vivem — e com tudo e todos que já viveram.»

214
«Mesmo assim é injusto.»

«Somos todos — eu, você — parte da Natureza em toda a sua


indiferença, um lugar onde não há sentido de justiça ou injustiça.»

«Eu sei, eu sei tudo isso. Só que entro neste estado mental infantil,
em que estou a descobrir pela primeira vez essa verdade. De cada vez
parece ser a primeira. Sabe que não consigo falar assim com mais
ninguém? Acho que a sua disponibilidade para ficar aqui ao meu lado,
enquanto exploramos estas questões, tem-me ajudado de formas que
ainda nem partilhei consigo. Não lhe contei, por exemplo, que estou a
fazer progressos óptimos no meu emprego.»

«Isso é muito bom de ouvir, Joan. Vamos continuar a trabalhar.


Voltemos ao sonho: eu não fiquei consigo, comecei a desaparecer. Que
hipóteses associa às bolachas e ao que elas fizeram aos meus olhos e
pernas?»

«Bem, só as mordisquei e depois mexi e brinquei com as migalhas. Mas


você pega nelas e engole-as todas e veja o que lhe acontece...! Acho
que o sonho reflecte a minha preocupação em ser um peso excessivo
para si, de exigir-lhe de mais. Eu mordisco este tema assustador, mas
o Irv mergulha de cabeça — e não apenas comigo, mas com os seus
outros pacientes também. Suponho que me preocupo com a sua morte, que
desapareça como os meus pais, como toda a gente.»

«Bem, isso vai acontecer algum dia e sei que se preocupa com a minha
velhice, com a minha morte em si e também com os efeitos que as suas
conversas sobre a morte podem ter sobre mim. Mas estou determinado a
manter-me nesse assunto consigo enquanto me for fisicamente possível.
A Joan não me puxa para baixo, muito pelo contrário, valorizo a
confiança que demonstra para comigo ao revelar-me os seus pensamentos
mais profundos; e, afinal, ainda tenho as minhas pernas e os meus
olhos estão bem!»

A preocupação da Joan de arrastar o terapeuta para o seu desespero


tem alguma validade: terapeutas que ainda não enfrentaram a sua
própria mortalidade poderão, realmente, ser invadidos pela ansiedade
face às suas próprias mortes.

215
O pesadelo da viúva: Carol

Os pacientes não só se preocupam com o perigo de sobrecarregarem o


terapeuta como ainda, de forma idêntica ao que acontece no sonho de
Carol, se confrontam com a realidade da existência de certos limites
quanto ao que um terapeuta pode efectivamente fazer para ajudar.

Trabalhava com Carol, uma viúva de sessenta anos que cuidava da mãe
velhinha desde que o seu marido morrera, quatro anos antes. Durante a
nossa terapia a sua mãe também morreu e, sentindo-se demasiado só
para viver sozinha, Carol decidiu mudar-se para a casa dos seus filho
e neto, que viviam noutra região do país. Numa das nossas últimas
sessões, descreveu-me este sonho:

Há quatro pessoas — eu, um guarda, uma mulher presidiária e você — e


estamos a viajar para um lugar seguro. Depois estamos na sala de
estar da casa do meu filho — é segura e tem grades nas janelas. Você
sai da sala só por um momento, talvez para ir à casa de banho, e,
subitamente, um tiro de caçadeira faz explodir a janela e mata a
presidiária. O Irv volta para a sala, vê-a deitada no chão e tenta
ajudá-la. Mas ela morre tão rapidamente que você nem tem tempo de
fazer algo por ela ou de dizer-lhe alguma coisa.

«Sentimentos nesse sonho, Carol?»

«Foi um pesadelo. Acordei assustada, com o coração a bater com tanta


força que abanava a cama. Não consegui adormecer durante um bom
bocado.»

«O que lhe vem à cabeça sobre o sonho?»

«A forte protecção — tanta quanto possível. Você estava lá e havia um


guarda e grades nas janelas. Contudo, apesar de toda esta protecção,
não se conseguiu proteger a vida da presidiária.»

Na nossa discussão sobre o sonho ela sentia que aspecto central, a


mensagem vital, era que a sua morte, como a da presidiária, não podia
ser prevenida. Sabia que no seu sonho era ambas as pessoas, ela
própria e a presidiária. Duplicarmo-nos é um fenómeno muito comum nos
sonhos; de facto, o grande fundador da terapia Gestalt, Fritz Perls,
considerava que qualquer indivíduo ou objecto físico presente num
sonho representava algum aspecto do sonhador.

216
Mais do que qualquer outra coisa, o sonho da Carol implodiu com o
mito de que eu, de alguma maneira, teria sempre o poder de protegê-
la. Existiam muitos aspectos intrigantes no seu sonho (por exemplo,
as suas questões em redor da sua auto-imagem foram retratadas através
da sua duplicação na presidiária, ou a ideia de que a vida com o seu
filho evocava a imagem de um quarto com grades), mas, dado o fim
iminente da nossa terapia, optei por focar-me na nossa relação, em
especial nos limites daquilo que podia oferecer-lhe. A Carol percebeu
que o sonho dizia-lhe que, mesmo que escolhesse não se mudar para
casa do filho, preferindo ficar ligada a mim, eu não seria capaz de a
proteger da morte.

As nossas últimas três sessões, dedicadas às implicações deste novo


insight, não só lhe tornaram mais fácil a decisão de terminar o
tratamento que fazia comigo como também serviram de experiência do
despertar. Mais do que nunca, compreendeu os limites daquilo que
poderia receber dos outros.

Embora as conexões possam suavizar a dor, não conseguem apagar os


aspectos mais dolorosos da condição humana. Joan ganhou força com
este insight, força que poderia levar consigo para qualquer lado onde
escolhesse viver.

Diga-me que a vida não é só lixo!: Phil

Por último, o exemplo de um sonho que ilumina aspectos do


relacionamento terapeuta-paciente.

O Irv é um paciente, gravemente doente, internado no hospital, e eu


sou o seu médico. Mas em vez de tomar conta de si só lhe pergunto,
insistentemente, se teve uma vida feliz. Queria que me dissesse que a
vida não é só lixo.

Quando questionei Phil, um homem de oitenta anos aterrorizado com a


ideia da morte, acerca das suas ideias sobre o sonho, comentou
imediatamente que se tinha sentido como se estivesse a sugar todo o
meu sangue, exigindo demasiado de mim. O sonho retrata esta
preocupação através de uma narrativa em que, mesmo apesar de ser eu o
doente e ele o médico, as suas necessidades sobrepõem-se a tudo o
resto e ele persiste em pedir-me algo.

217
Desesperado porque está doente e os seus amigos mortos ou
debilitados, quer que seja eu a dar-lhe esperança, dizendo-lhe que a
vida não é assim tão má.

Incitado pelo sonho, perguntou-me explicitamente: «Sou um peso para


si?»

«Todos nós nos sentimos, às vezes, um peso», respondi-lhe, «e a sua


confrontação com a minhoca no núcleo (um termo para a morte que ele
próprio tinha previamente usado) é uma tarefa dura e pesada para si,
mas instrutiva para mim. Anseio pelas nossas sessões e o meu ganho é
a enorme satisfação que me dá poder ajudá-lo a recuperar o seu
próprio entusiasmo, a restabelecer a conexão com a sabedoria que
adquiriu com a sua experiência de vida.»

Comecei este livro com a verificação de que a ansiedade de morte


raramente é tida em conta no decurso de uma psicoterapia. Os
terapeutas evitam o tema por um grande número de razões: negam a
presença ou a relevância da ansiedade de morte; acreditam que a
ansiedade de morte é, de facto, ansiedade motivada por outra coisa
qualquer; temem acordar os seus próprios medos; ou a simples ideia da
mortalidade deixa-os demasiado perplexos, ou mesmo desesperados.

Espero que tenha sido capaz de transmitir nestas páginas a


necessidade de se confrontarem e explorarem todos os medos, até os
mais escuros e escondidos. Mas precisamos de novas ferramentas —
ideias diferentes e um tipo de relacionamento terapeuta-paciente
diferenciado. Sugiro que atendamos às teorias dos grandes pensadores
que já enfrentaram com honra a morte e que criemos um relacionamento
terapêutico baseado nos factores existenciais da vida. Todos estamos
destinados a experimentar tanto a euforia da vida como o receio da
morte.

A autenticidade, tão importante para uma terapia eficaz, toma uma


dimensão nova quando o terapeuta lida honestamente com as questões
existenciais.

218
Temos de abandonar os vestígios que ainda restam de um modelo médico
que postula que tais pacientes sofrem de uma qualquer estranha
aflição e necessitam de um clínico distante, imaculado e à prova de
todo o envolvimento. Todos enfrentamos o mesmo terror, a ferida da
mortalidade, a minhoca que habita no coração da existência.

219
<Página em branco>
Notas Finais

A máxima de La Rochefoucauld, «Nem o Sol, nem a Morte podem ser


olhados de frente», citada na página do título, reflecte a crença
popular de que fixar os olhos quer no Sol quer na morte é fatal. Não
recomendaria a ninguém olhar fixamente para o Sol, mas olhar de
frente para a morte é uma questão completamente diferente. Propor um
olhar profundo e resoluto sobre a morte é exactamente a mensagem
deste livro.

A História está cheia de exemplos das mais variadas formas como


negamos a morte. Sócrates, por exemplo, esse campeão tenaz da vida
analisada à lupa, foi de encontro à sua própria morte, afirmando-se
grato por estar livre da «loucura do corpo» e dizendo-se certo de que
iria passar a eternidade em conversas filosóficas com outros sábios
que partilhavam os seus interesses.

A psicoterapia contemporânea, tão dedicada à auto-análise crítica,


tão insistente em mergulhar no mais fundo dos pensamentos, também
fugiu a examinar o medo da morte, o factor supremo e penetrante que
está por trás de tão grande parte da nossa vida emocional.

Nas minhas interacções com amigos e colegas, durante os últimos dois


anos, senti esta fuga em primeira mão. Geralmente, quando me encontro
totalmente imerso na escrita, costumo ter grandes conversas sociais
sobre o trabalho.

221
Não foi o caso com este livro. Os meus amigos muitas vezes
questionam-me sobre o que andava a fazer. Respondi que escrevo sobre
como ultrapassar o terror da morte. Fim da conversa. Salvo raríssimas
excepções, ninguém volta a fazer-me uma pergunta e minutos depois já
mudámos de assunto.

Acho que devíamos enfrentar a morte como nos confrontamos com outros
medos. Devíamos contemplar o nosso fim, familiarizar-nos com ele,
dissecá-lo, analisá-lo, racionalizá-lo e eliminar as terríveis
distorções criadas na infância relativamente à morte.

É preciso deixarmos de acreditar que a morte é demasiadamente


dolorosa para ser tolerada, que os pensamentos irão destruir-nos, que
a transiência e o efémero têm de ser negados para que a verdade não
tire o significado à vida. Estas negações pagam um preço — reduzindo
a nossa vida interior, desfocando a nossa visão e colocando
obstáculos à nossa racionalidade. Por fim, a autodesilusão apanha-
nos.

A ansiedade vai sempre acompanhar o nosso confronto com a morte.


Sinto-a agora enquanto escrevo estas palavras; é o preço que temos de
pagar pela nossa autoconsciência. Foi por isso mesmo que usei
deliberadamente a palavra «terror» no subtítulo (em vez de
«ansiedade»), para deixar claro, desde o princípio, que o terror da
morte pode ser reduzido a uma ansiedade diária controlável. Olhar
directamente para a morte, com a ajuda de um livro ou de um terapeuta
que nos oriente, não só alivia o terror como torna a vida mais
comovente, mais preciosa, mais vital. Esta aproximação à morte leva-
nos a aprender muito mais sobre a própria vida. Com essa mesma
finalidade, procurei focalizar-me em dois pontos: como diminuir o
terror da morte e como identificar e usar as experiências do
despertar.

Não quero que este seja um livro sombrio. Muito pelo contrário: é
minha esperança que, compreendendo, verdadeiramente compreendendo, a
nossa condição humana — a nossa finitude, o nosso breve tempo na luz
—, todos sejamos capazes não só de saborear a preciosidade de cada
momento e o prazer puro de ser como ainda de vermos crescer a
compaixão por nós próprios e por todos os outro seres humanos.

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UM GUIA PARA O LEITOR

DO LIVRO

DE OLHOS FIXOS NO SOL


<Página em branco>
UM GUIA PARA O LEITOR DO LIVRO

De Olhos Fixos no Sol

Irvin Yalom confessou que escreveu De Olhos Fixos no Sol como um


ensaio profundamente pessoal, resultado do seu próprio confronto com
a morte. «Partilho o medo da morte com todos os seres humanos: é a
sombra da qual nunca nos separamos.»

Também já confrontou a morte? Partilha com o autor este medo ou sente


que a sombra da morte já ensombra a sua vida? Concorda ou discorda
que para a maioria de nós, senão para todos, essa sombra é muito
real?

Depois de ter lido De Olhos Fixos no Sol, talvez queira colocar estas
questões, seja num grupo de outros leitores ou apenas a si próprio.
Esperamos que as próximas perguntas, quer colocadas em grupo quer
individualmente, o entusiasmem para uma discussão acerca das
problemáticas levantadas no livro do Dr. Yalom.

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O Título e o Subtítulo do Livro

Concorda que o confronto com a morte se assemelha a olhar para o Sol


— algo doloroso, difícil, mas necessário, se quisermos viver como
indivíduos totalmente conscientes da verdadeira natureza da nossa
condição humana, da nossa mortalidade, do nosso breve período na luz?

Concorda com a distinção feita pelo Dr. Yalom neste subtítulo, entre
a possibilidade de ultrapassar o terror da morte mas nunca o medo?
Compreende-a? Por que razão nos concentramos apenas no terror? É
verdade que ninguém é capaz de ultrapassar o medo da morte?

Capítulo 1

O dicionário Webster diz que um epicurista é alguém que se devotou à


luxúria da vida e ao prazer. O Dr. Yalom convenceu-o de que o
filósofo grego Epicuro tem algo de valioso para nos ensinar a todos?
Se sim, o quê?

Já alguma criança, entre os seis anos e a puberdade, lhe falou do seu


receio em relação à morte? Acha que elas se sentem minimamente
curiosas acerca do tema?

Considera que os adolescentes, no seu mundo, experimentam um


reaparecimento ou até uma «erupção» da obsessão e ansiedade de morte?
Se sim, como expressam esse sentimento?

Provavelmente sabe que Sigmund Freud acreditava que muitos dos nossos
problemas mentais eram resultado de uma repressão da sexualidade.
Irvin Yalom, pelo contrário, diz que muita da nossa ansiedade e
psicopatologia pode ter origem na ansiedade de morte. Concorda?
Aplica-se ao seu caso?

226
Capítulo 2

Qual é o seu maior medo associado à morte? É capaz de o verbalizar?


Consegue visualizá-lo?

Já alguma vez sentiu ansiedade ou receios que, a seu ver, têm origem
no medo da morte?

Capítulo 3

Já teve alguma vez uma «experiência do despertar», como uma doença


grave, um divórcio, uma perda de emprego, uma reforma, a morte de um
ente querido, um sonho poderoso?

Como o influenciou, ou não, este tipo de experiência, ou não, no


passado? Acha que este tipo de despertar teve o poder de o levar a
valorizar mais a sua vida ou de sentir a morte de uma forma
diferente?

Capítulo 4

Quem acha que tem influenciado, no decorrer da sua vida, com o


fenómeno de rippling.7. Quem acha que pode vir a influenciar, pelo
mesmo processo, no futuro?

Existe algum aforismo, ideia ou ditado — como, por exemplo, «O que


não mata engorda» ou «Torna-te naquilo que és» — que tenha repetido a
si próprio em momentos de stress ou quando sentia medo da morte?

227
Capítulo 5

Acredita que uma relação de intimidade pode ajudá-lo a lidar com o


medo da morte? Teve alguma experiência deste género?

Já alguma vez sentiu a solidão de estar isolado das outras pessoas?


Já alguma vez sentiu o que o Dr. Yalom chama de solidão existencial,
quando toma consciência de que ninguém no mundo pode perceber o que é
ser você mesmo, e compreende que a morte representa também o fim do
mundo que construiu ao longo da sua vida?

O Dr. Yalom cita o filme Wild Strawberries de Ingmar Bergman, como um


grande exemplo de como funciona a empatia. Há algum filme, em
particular, que demonstre a empatia humana como a conhece ou gostaria
que fosse?

Consegue visualizar a sua vida daqui a cinco ou dez anos e imaginar


arrependimentos que possa vir a sentir se continuar a fazer o que faz
agora? Consegue imaginar-se a viver de forma a assegurar-se de que
não se arrependerá de praticamente nada, quando daqui a um ou cinco
anos olhar para trás?

Capítulo 6

É capaz de recordar a sua primeira experiência perante a morte


humana? Quem foi realmente a primeira pessoa próxima de si que morreu
e que tipo de experiência lhe provocou essa morte?

Já presenciou muitos enterros? Pense nalguns que lhe tenham ficado na


memória.

Já alguma vez se sentiu muito próximo da morte? Qual foi a sua


reacção? Como recorda esse momento?

Sente que realizou os seus sonhos de infância? Cumpriu o seu


potencial?

228
Como reage quando o Dr. Yalom afirma que o seu trabalho e crenças
pessoais estão enraizados numa visão do mundo secular e existencial
que rejeita crenças sobrenaturais?

A religião ou a fé fazem parte da maneira como lida com a morte? Como


se sente relativamente ao facto de o Dr. Yalom não acreditar na vida
depois da morte e de afirmar que a mente (e tudo o que lhe está
associado) morre quando o cérebro deixa de funcionar?

Capítulo 7

Faz, ou alguma vez fez psicoterapia?

O seu terapeuta partilha alguma coisa acerca de si mesmo/a consigo? O


que sente em relação a isso? Desejava que ele se revelasse mais?

Em algum momento sentiu que, durante a terapia, teve de lidar com


problemas que numa reflexão mais profunda revelaram ser relacionados
com a ansiedade de morte?

O que lhe diz a sugestão do Dr. Yalom de que «para nos tornarmos
sábios temos de aprender a ouvir os cães selvagens que ladram na
cave»?

229
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Sobre o Autor

Irvin D. Yalom é professor emérito de Psiquiatria na Faculdade de


Medicina da Universidade de Stanford. É autor do manual The Theory
and Practice of Psychotherapy, que vendeu 700 mil exemplares em
dezoito línguas, e já conta com cinco edições, tendo escrito
igualmente Existential Psychotherapy, um compêndio destinado a um
curso que não existia à época. O Dr. Yalom escreveu diversos livros
destinados ao público não especializado, incluindo uma colecção de
contos sobre a terapia, Loves Executioner, que foi considerada best
seller pelo New York Times; os romances, Quando Nietzsche Chorou,
editado em Portugal pela editora Saída de Emergência, também ele um
best seller nos Estados Unidos, Israel, Grécia, Turquia, Argentina,
Brasil e Alemanha (onde vendeu mais de um milhão de exemplares), A
Cura por Schopenhauer e Mentiras no Divã, igualmente editados em
português pela mesma editora. Pode ler ainda Momma and the Meaning of
Life, uma colecção de contos reais e fictícios sobre terapia, e The
Gilt of Therapy. O Dr. Yalom, agora com setenta e dois anos, continua
a prática clínica em part-time em Palo Alto e São Francisco, na
Califórnia, e prepara já um novo livro sobre Espinosa.

FIM