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Na poesia anterior à lírica moderna, a apreensão, tanto da forma quanto do conteúdo, por parte

do leitor, era mais facilitada em detrimento da lírica ter, por motivos temáticos, características
universais. O poeta (sob o seu eu lírico), então, expressava-se linguisticamente através de
descrições das coisas e dos homens, refletindo acerca desses elementos através de um caráter
eminentemente íntimo, mas, ainda assim, universalizante.
A dissonância da lírica moderna é a compreensão desorientada proposta pelo autor ao leitor (o
inquietar mais importante do que o compreender). A dissonância advém da aguda complexidade
dos poemas da lírica moderna, os quais tendem a operar na transformação do real, tanto em
nível de representação do mundo como em nível de uso da língua.
A anormalidade da lírica moderna diz respeito às composições deslocadas da realidade e
autônomas em seus significados, ou seja, a anormalidade da lírica moderna prescreve seus
efeitos na união do irreal com elementos logicamente limitados.
As categorias negativas da lírica é um conceito relativo à contraposição da tradição literária
ocidental com a inauguração do tratamento de assuntos e de temas considerados, até, então,
como antipoempaticos. Se até o início do século XIX esperava-se da arte poética uma
uniformidade idealizante dos assuntos e das situações costumeiras da vida, na poesia moderna
do século XIX, dá-se a ruptura com a tradição literária, desse modo, a linguagem poética
adquire uma liberdade de dizer sem limites e de considerar um jogo inconsciente de ideias
acidentais, embora propositais.
Reconhecidamente, são marcas da lírica moderna o estranhamento, a desorientação, a
dissolução do que é corrente, a incoerência, a fragmentação, o uso de imagens cortantes e
destrutivas. Todas essas marcas vão ao encontro do que se buscava estilisticamente: o real
transformado não pela percepção, mas o real transformado pela criação fantasiosa.
Rousseau fundamenta a incomunicabilidade e a singularidade o eu, sendo esse entendido como
uma grandeza incompreendida, o qual tem capacidade de apreender a sua anormalidade como
proveniente de uma relação profunda com o mundo. Desse fundamento de Rousseau é que se
reflete acerca da única condição possível ao ser humano, que é a de imaginar. A imaginação
criativa do ser humano proporciona-lhe a particularização de seu tempo interior, insurgindo-lhe
a incompreensão de seu papel social e o entendimento de sua vocação como aquela que somente
ocorre com a fantasia.
Diderot lega à fantasia a capacidade autônoma de constatação das grandezas espirituais.
Segundo ele, o gênio (aquele que fantasia) tem direito à selvageria, pois é capaz de produzir
muito mais do que de descobrir. O gênio lança-se ao selvagem, e desse modo, se
autocompreende. Diderot fundamenta a ampliação do conceito de beleza, ao afirmar que essa
também se verifica na desordem, no caos, na perplexidade, e pode, ou melhor, e deve ser
esteticamente representável.
Os sintomas mais importantes da lírica moderna que já aparecem nas teorias do Romantismo
são: o encaixe do não habitual às ideias, valores e representações formais, o sujeito lírico como
uma disposição neutra, que é total em si e por essa razão tem a liberdade de recriar a linguagem
e o mundo que o cerca, segundo conceitos abstratos.
O sintoma mais marcado é o do mistério, isto é, o poeta fragmenta o conhecido,
desautomatizando-o, em seguida fabula esse mesmo mundo, porém não o propõe ao leitor, mas
confronta-o com sua nova feição.
Baudelaire é reconhecido como o poeta da Modernidade por justificar a beleza presente também
na decadência do homem que vive nas metrópoles, entretanto, não tratando dessa beleza como
um reconhecimento proveniente do caos urbano, mas evidente enquanto mistério. Pode-se ter
Baudelaire como um poeta da Modernidade pelo fato de que o mesmo conscientiza seu trabalho
artístico como elaboração criativa de certa origem espiritual, de que dá clareza às trivialidades
do cotidiano, embora as obscurecendo, no sentido de não completá-la em sua totalidade, e sim
em sugeri-las.
Baudelaire teve consciência da Modernidade de sua época, justamente por tematizar em seus
poemas a vida cotidiana da urbe, contudo não desenvolvendo nessas temáticas simplesmente a
realidade, mas tateando a realidade através da fantasia.
Foi com Baudelaire que começou a se delinear o conceito da lírica moderna de
despersonalização. A lírica dos séculos anteriores, e principalmente a lírica dos românticos
destinava ao poeta um exacerbado meneio sensível, no sentido de atribuir aos poemas uma
direção única advinda do coração (uma subjetividade idealizante). De maneira simplista, o poeta
deveria, em seus poemas, derramar-se emocionalmente.
Edgar Alan Poe foi quem separou a lírica do coração. Para Baudelaire, o poema é uma
formulação concebida pela capacidade de sentir da fantasia e não como a capacidade de sentir
do coração. A capacidade de sentir do coração pode ser definida como a excitação entusiástica e
ampla a que se dispõe a alma, enquanto que a capacidade de sentir da fantasia é uma elaboração
guiada pelo intelecto, sobremaneira.
Como a poesia separou-se do coração, a forma separou-se do conteúdo, e assim, os recursos
linguísticos utilizados nos poemas receberam maior atenção, ou seja, as rimas, os números de
sílabas dos versos, a construção das estrofes são pressupostos para a indicação do conteúdo dos
poemas. Se no que concerne ao conteúdo é o desconhecido absoluto a que o homem moderno é
confrontado, os instrumentos da linguagem refletirão esse mesmo desconhecido absoluto no que
tange à maneira de arranjar a forma.
Baudelaire condensa, em seus poemas, o estado de espírito de uma época, quando do uso do
negativo como algo que fascina e como algo que pode ser matéria estimulante a ser apreendida
poeticamente. O novo mistério existe, então, para desagradar o leitor e para desagregar a
segurança do mesmo em relação ao mundo, refletindo dessa maneira o progresso técnico e
caótico da Modernidade.