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ENTREVISTAS

Ricardo Silva – A mais completa e rigorosa


informação sobre as aranhas de Portugal está na
Internet
por Ana Paula Gomes
2008-10-08
Nem sempre foi tão interessado por aranhas como hoje. Ricardo Silva chegou
à Universidade de Évora para estudar engenharia agrícola mas saiu de lá
biólogo com um interesse inequívoco por aranhas e pela sua taxonomia.
Tentou fazer da vocação profissão num país que ainda não dá emprego à
maioria dos seus biólogos, mas teve de deixar a identificação de aranhas para
segundo plano. Continua no entanto a dedicar-lhes todas as horas diárias que
consegue subtrair à empresa de aplicações na Internet que entretanto criou.
Quanto às aranhas de Portugal, quis trazê-las para o ciberespaço.
Em aranhas.info está muito do conhecimento que Ricardo Silva e alguns outros
especialistas têm produzido nos últimos anos.
Quando começou a ter este interesse pelas aranhas? Na infância? Na
adolescência?

Eu interessava-me por tudo o que era vivo: bichos, plantas, sempre foi um gosto que
tive, desde pequeno, e gostava de andar pelo campo. Das aranhas em particular eu
até tinha medo, para ser sincero, era um bicho que não me atraía muito e que não me
agradava em particular. Mas depois quando comecei a conhecer melhor e vi que era
uma área que estava muito mal estudada - lembro-me que na altura ainda tentei
comprar uns livros em Portugal e não consegui, tentei encomendar nas principais
livrarias e não me conseguiram arranjar e o meu primeiro livro teve de vir de Madrid,
através de uma pessoa conhecida, percebi que havia aqui muito para fazer e fui-me
interessando cada vez mais e depois foi o efeito bola de neve: vamos trabalhando,
depois começa-nos a chegar cada vez mais informação e acabamos por ficar
especialistas numa área, mas apenas porque não havia quase nada feito, foi muito
fácil porque não havia quase nada feito.

Recorda-se de qual foi o momento chave, em que passou do medo ao


interesse, ao fascínio?

Lembro, lembro, foi quando andava com os meus colegas a ver bichos no campo e
começámos a perceber que havia uma infinidade de espécies diferentes e cada uma
com as suas particularidades. Havia aranhas de todas as cores e feitios e tive aquela
curiosidade de tentar perceber o que é que elas faziam, não é? Perceber como é que
aqueles bichos funcionavam e porque é que eram tão diferentes. A partir daí passou a
ser mais um fascínio, uma curiosidade, do que medo.

Porque será que temos tanto medo, quando a maior parte das aranhas nem
são perigosas? Tem alguma explicação para isto?

Yllenus salsicola - espécie que habita as dunas na região mediterrânica. Os grandes olhos são
característicos da família a que pertence (salticídeos). É uma das muitas exclusividades do
aranhas.info. Foto: Jorge Almeida.

Eu tenho uma teoria pessoal. Em primeiro lugar há o desconhecimento: é um bicho


estranho, não se percebe onde está a boca, onde estão os olhos, tem muitas patas, as
pessoas não conseguem identificar características familiares que encontram nos
outros animais e isso faz alguma confusão, acho que a maior parte das pessoas que
tem pouco contacto com estes bichos não faz ideia de como é que eles comem, de
como eles vêem, ouvem, e isso faz confusão e a primeira reacção é logo de repulsa,
aquilo causa algum desconforto. Depois há muito alarmismo, mesmo em canais de
televisão conceituados passa muita informação alarmista e não muito fiável, já vi
programas em que aquilo não corresponde muito à verdade e são muito alarmistas.
Quanto ao veneno, eu acho que há uma parte que nos está gravada geneticamente
porque mesmo sem saber muito de aranhas as pessoas desenvolvem medos que não
têm qualquer explicação, como no meu caso, eu não tinha nenhuma razão para ter
medo mas era um bicho que me causava medo. Nós em Portugal temos, por exemplo,
escorpiões que provocam mais problemas, há mais pessoas mordidas por escorpiões
do que por aranhas e esse não parece despertar tanto medo. A uma aranha, por muito
pequena que seja, as pessoas reagem logo com medo, às vezes chega a ser com
pânico.

Mas temos aranhas venenosas em Portugal?

Fêmea de Latrodectus tredecimguttatus - a "nossa" viúva-negra. Não sendo uma espécie comum,
está distribuida por todo o País. Foto: Ricardo Silva

Temos. Aliás, as nossas aranhas quase todas têm veneno, mas que sejam perigosas
para o homem talvez tenhamos apenas uma espécie, a viúva negra, que pode ser
potencialmente perigosa, embora não se conheçam casos de picada, portanto não se
sabe que efeitos tem, não há registo de nenhum caso, não há estudos feitos sobre
isso e a informação que se tem é apenas da viúva negra americana, da australiana e
da viúva negra da América do Sul. Da nossa, propriamente dita, não há nada feito mas
sim, é potencialmente perigosa.
Quanto às outras cerca de mil espécies, pouco se sabe, se temos ou não aranhas
perigosas para o ser humano, mas as probabilidades indicam que não porque quando
as pessoas vivem em sítios onde existem espécies perigosas, normalmente essas
espécies são bem conhecidas e bem estudadas. Em Portugal não há registos de
acidentes com aranhas.

Este trabalho de identificação de aranhas que começou na Universidade tem


tido resultados assinaláveis.

Macho de Latrodectus tredecimguttatus. O macho da viúva-negra é inconfundível com o padrão


dorsal do abdómen laranja vivo. Foto de Jorge Almeida

Quando fui para Universidade de Évora, para estudar engenharia agrícola, tive o
primeiro contacto com biologia, comecei a perceber melhor do que gostava, mudei
para biologia e comecei a dedicar-me à taxonomia que era uma coisa que fazia mais
falta. Na altura conheciam-se perto de 500 espécies, agora são quase mil aranhas
conhecidas em Portugal e ainda há muito para fazer, continuam a ser descobertas
todos os anos novas espécies, novos géneros, novas famílias. Já lá vão cerca de 10
anos e tenho continuado a trabalhar na área da taxonomia, faço identificação para
vários projectos de biodiversidade, comprei o equipamento todo e montei o meu
próprio laboratório em Montemor-o-Novo para poder trabalhar com várias
universidades em simultâneo. Basicamente qualquer pessoa que precise, nos seus
projectos, nas mais variadas áreas, de identificar aranhas, envia-me o material, eu
identifico e devolvo os resultados. Vou recolhendo informação assim. Foi a minha
profissão durante alguns anos, agora não é bem um hobby, mas já não é a minha
ocupação a tempo inteiro, porque entretanto montei uma empresa que faz aplicações
para Internet e no último ano tenho-me dedicado mais à empresa do que à
aracnologia.

Por ser difícil sobreviver à custa dessa actividade?

Eu precisava de estabilidade, a identificação de aranhas não me dava essa


estabilidade, nunca me faltou trabalho, mas mesmo assim eu precisava de um
trabalho regular. Principalmente pela regularidade, não tanto pelos valores.

Quase quinhentas espécies em 10 anos é muito.

Em comparação com a Europa estávamos muito atrasados, tinha havido pouco


trabalho com aranhas cá, houve dois ou três grandes autores, mas já desde os anos
40 do séc. XX que pouco se fez. Agora surgiu esta nova vaga, com a Universidade de
Évora a contribuir para este relançamento e já temos 4 ou 5 pessoas a trabalhar nesta
área.

Em relação às questões da nossa fauna, da preservação da biodiversidade,


Portugal ainda não oferece um terreno de trabalho muito sólido?

Nada, nada sólido. Aliás esse é o principal entrave às pessoas que querem trabalhar
com biologia em Portugal. Não há empregos, ninguém tem uma garantia de trabalho, é
tudo a recibos verdes, trabalhos de 3 ou 4 meses já se consideram bons. É uma
grande insegurança, depois as pessoas chegam a determinada idade querem mais
estabilidade, vão à procura de outras coisas, ou vão para o estrangeiro ou mudam de
área.

E no entanto somos um dos países da Europa com mais área protegida...


E muita biodiversidade. É muito contraditório. Aliás a maior parte dos estudos que são
feitos, pelos menos no que diz respeito à aracnologia, são feitos por estrangeiros,
vindos do norte da Europa, principalmente, onde já está tudo muito mais estudado, e
aqui têm um campo onde podem estudar à vontade, fazer publicações, evoluir nas
suas carreiras, e vêm para Portugal explorar o que nós não conseguimos.

"Nós temos a mais pequena aranha da Europa e a maior também."

Com estes trabalho que vocês têm vindo a fazer já existe agora um
conhecimento maior sobre quais as aranhas que existem em Portugal. Há
também um melhor conhecimento sobre os seus comportamentos?

Fêmea de Eresus sp. - é uma nova espécie para a ciência e conhecida apenas do litoral sul de
Portugal. Ainda não tem nome e é um endemismo do sul de Portugal. Foto de Jorge Almeida

Sim, claro, mas são estudos muito morosos e são muitas espécies, é um grupo muito
grande, nem se sabia que era assim tão grande e temos muitas espécies endémicas,
que só ocorrem cá em Portugal e não ocorrem em nenhum outro sítio do mundo,
portanto nem sequer podemos obter informação vinda de outros sítios.
Nós temos, só a título de curiosidade, a mais pequena aranha da Europa e a maior
também. E a mais pequena aranha da Europa - tem meio milímetro – não se conhece
de mais sítio nenhum, só de uma gruta na Arrábida. Temos outras, por ex. em grutas
no Algarve, que só existem naquele sítio, temos endémicas do Algarve, endémicas do
litoral, são aranhas sobre as quais não é possível obter nenhuma informação, só
fazendo estudos muito rigorosos com elas.
E depois são aranhas que não são muito comuns. Pode ser muito difícil encontrar
informação e é muito difícil arranjar financiamento para fazer esse tipo de trabalho.
Não havendo nenhuma razão concreta para se estudar um destes animais, é difícil
encontrar financiamento.

Como foi descoberta esta aranha tão pequena?

Foi descoberta por um grupo de espeleologistas que estavam a trabalhar em conjunto


com um dos nossos especialistas, o Pedro Cardoso, que agora está a tentar descobrir
qual a espécie e se pode dar-lhe nome como espécie nova ou não, mas tudo aponta
para que seja mesmo uma espécie nova que não existe em mais lado nenhum.

E a maior aranha de Portugal?

Essa foi um caso mais curioso, era uma aranha que se pensava vir do norte de África
e que teria uma população residual no sul de Espanha e por essa razão ela foi incluída
na directiva Habitats, foi a primeira e única aranha a ser incluída – porque se pensava
que estava associada a um habitat de montado – mas depois com mais estudos veio a
descobrir-se que era uma espécie relativamente comum no sul de Espanha e que
provavelmente estaria em expansão. Era conhecida até à fronteira, da fronteira não
passava. Isto acontecia porque não havia ninguém à procura dela no lado de cá e
acabou por ser encontrada. Talvez até seja uma espécie comum em Portugal, não se
sabe.

Que tipo de estudos ou projectos precisa de recorrer a identificação de


aranhas?

Macho subadulto de Micrommata ligurina. Um exemplo de camuflagem: a sua cor varia ao longo da
vida de castanho amarelado a verde vivo, as cores das ervas rasteiras onde vive. Foto de Jorge
Almeida
Por exemplo houve um projecto desenvolvido pelo Instituto Superior de Agronomia,
ISA, em que eles analisavam vários grupos de animais e tentavam perceber o impacto
de várias práticas agrícolas na biodiversidade. Então eles comparavam campos com
culturas semelhantes mas com práticas agrícolas diferentes e comparavam vários
grupos de animais para ver qual o impacto de determinadas práticas agrícolas sobre a
biodiversidade. Nesse aspecto as aranhas, embora não sejam um grupo fácil de
utilizar, estão a ganhar terreno por várias razões: por um lado é muito barato, o que é
necessário é montar algumas armadilhas no campo, haver alguém que as recolha e
depois um especialista para as identificar. Em termos de material é mesmo muito
simples, não requer, como outros grupos, grandes investimentos em armadilhas,
telemetria etc., bastam uns copos de plástico, um bocadinho de conservante e uma
lupa binocular para identificar e conseguem-se ter resultados que depois de triados
podem ser bastante interessantes e bastante fiáveis, porque nós temos espécies de
aranhas que estão muito ligadas quer a outras espécies de animais quer a
determinadas espécies de plantas e conseguimos saber, por exemplo, que existindo
determinado grupo de aranhas num local esse local é mais húmido, mais seco, se tem
muitas pedras, muita cobertura vegetal, porque a aranha para existir num determinado
local precisa de certas condições e conseguimos ter quase uma fotografia do local
através das aranhas que aí vivem.

"(...) não consegui, até hoje, encontrar nenhuma forma de


financiamento para o aranhas.info."

Tudo isto é muito interessante mas dificilmente chega ao conhecimento do


público. O site aranhas.info é uma boa forma de divulgação?
Scytodes velutina, uma aranha-cuspideira. É um exemplo de uma das nossas espécies com apenas
seis olhos. Esta aranha cospe jactos de seda pegajosa para capturar as presas à distância. Foto de
Jorge Almeida

É até com alguma pena que falo do aranhas.info, porque gostava de desenvolvê-lo
mais. Eu tenho muita informação guardada por compilar, tenho muitas publicações
guardadas que gostava de disponibilizar na Internet, dados de distribuição, alguns
apontamentos feitos por mim, tenho até preparada uma ferramenta de identificação
que permitiria, às pessoas que acedem ao site, tentar identificar as espécies que
encontram, mas para desenvolver todo o site como queria teria de gastar muito tempo.
Só que não consegui, até hoje, encontrar nenhuma forma de financiamento para o
aranhas.info. A ideia sempre foi ter um sítio na Internet onde as pessoas pudessem
encontrar informação fiável, onde as pessoas chegassem e pudessem ter a certeza de
encontrar informação válida, sem mitos nem sensacionalismo. Numa fase de grande
entusiasmo, comecei a listar todas as aranhas que existem em Portugal e actualmente
o aranhas.info, posso dizê-lo com toda a certeza, é o site mais completo que existe
sobre o assunto, tem efectivamente todas as espécies conhecidas em Portugal e toda
a informação que eu consegui compilar e disponibilizar, está lá toda. Gostava de
conseguir ter alguns apoios para ir mais longe, mas é complicado.

Tem procurado esses apoios?

Ricardo Silva e alunos de mini curso de aracnologia na Universidade de Évora

Tenho, mas até agora não consegui. Um site sobre aranhas em Portugal e em
português....ainda por cima não fiz o site em inglês, embora haja muita gente a pedir.
Eu fiz o site em português para as pessoas de cá terem acesso, tenho fotografias,
tenho informação sobre a biologia, os tamanhos, as épocas, os venenos,
comportamentos mais variados, habitats...Tenho uma parte mais científica também,
com as sinonímias, as estruturas genitais, é mesmo muita, muita informação Por trás
do aranhas.info está também uma base de dados que é a minha base de dados
pessoal, que eu uso para guardar os meus apontamentos e os meus dados, tenho
dados de distribuição e, por exemplo, no aranhas.info podemos ver mesmo os sítios
onde foram colectadas determinadas espécies. Na ficha de cada espécie existe um
mapa com bolinhas, que correspondem a quadrículas UTM de 10 por 10km e em cima
das bolinhas pode ter a mais variada informação; neste momento está a retribuir
informação sobre a localidade mas tenho informação sobre os autores, sobre as datas
em que foram recolhidas, tudo. Por trás daquele site está uma grande base de dados.

O site tem muitas visitas? Há muita gente a procurar este tipo de informação?
Fêmea de Cyrba algerina, espécies mediterrânica presente em Portugal. É muito frequente por
baixo de pedras em locais quentes. Foto de Jorge Almeida

Sim, tem tido sempre muitas visitas, há muitas do Brasil, mas mesmo de Portugal
também tem bastantes. Muitas pessoas procuram informação específica sobre alguma
aranha que encontraram, por ex. em casa, e querem saber se é perigosa, se devem
matar, o site tem um e-mail e eu tento responder a todos os pedidos de contacto. As
pessoas enviam fotografias, podem enviar exemplares, as próprias aranhas, eu
identifico, tento explicar, há pessoas que têm medo, que encontram aranhas em casa
e querem saber o que devem fazer. E há também alguma procura de informação por
parte de escolas.
O site tem muitas fotografias também, até porque muita gente vai colaborando. O
aranhas.info tem uma grande colecção de imagens – já tem mais de 300 fotografias,
graças aos colaboradores, e por isso também conseguimos ter ali fotografias que não
existem em mais sítio nenhum na Internet.

E a imagem é importante neste caso, não é?

Penso que sim. Até há pouco tempo a esmagadora maioria das espécies não se
poderiam identificar por fotografia, apenas analisando as estruturas copulatórias, mas
isto era muito devido também a não se conhecer suficientemente as espécies, porque
a maior parte dos exemplares era recolhida em armadilhas e conservada em álcool e o
álcool tira todas as cores e todas as formas particulares e não se conheciam muitas
das espécies vivas. Assim, tendo um registo fotográfico, já se vai conseguindo
identificar algumas devido a determinadas características que já se conseguem
distinguir a olho nu. Já se conseguem pelo menos identificar famílias e géneros, já é
alguma coisa.
"Em Portugal ainda não damos muita atenção a estes animais."

Acalenta o sonho de um dia se poder dedicar ao estudo das aranhas a 100%?

Macho de Eresus cinnaberinus - é uma espécie protegida em alguns países da Europa mas pouco
se sabe dos seus hábitos em Portugal. Considerada ameaçada a nível global, é possível que ainda
seja abundante em Portugal. Foto de Ricardo Silva

Eu tenho um defeito, gosto muito de observar e apontar, mas não tenho tendência
para publicar, para deixar registo, também não quis seguir a via académica e por isso
não sei como vai evoluir esta minha actividade. Há, em projectos relacionados com a
biodiversidade e agricultura biológica, um interesse crescente. Estamos um pouco
atrasados em relação ao resto da Europa, mas acho que na agricultura biológica as
aranhas vão ter alguma importância. Elas têm um estatuto particular, são reguladoras,
têm um papel regulador nos ecossistemas e se conseguirmos preservar uma boa
população de aranhas residentes estamos a evitar que se instalem algumas pragas.
Elas não servem para combater, para isso há outros organismos, mas servem para
regular, para evitar que algumas pragas se instalem. Em Portugal ainda não damos
muita atenção a estes animais. Nem mesmo aos insectos, portanto as aranhas ainda
virão depois...

E o Ricardo só se interessa pelas aranhas que vivem em Portugal ou também


gosta de conhecer as aranhas do resto do mundo?

Só mesmo por curiosidade. Aqui tem havido sempre tanta coisa nova para ver e
descobrir, nem conseguimos abarcar tudo, mas sempre que posso gosto de conhecer
espécies que não ocorrem em Portugal, tenho até algumas aranhas, vivas, de outro
sítios, que me foram oferecidas.
Tem uma colecção de aranhas vivas em casa?

Não! Em termos de colecção, tenho de facto, mas mortas. É uma colecção de


referência, aliás é assim que tiramos dúvidas, quando surgem, para saber de que
espécie se trata, uma forma é comparar com outras que já foram recolhidas. Tenho
largas centenas, mais de um milhar talvez.
Aranhas vivas, tenho umas cinco ou seis, mais por brincadeira, pessoas que me vão
oferecendo.

Nos últimos tempos, em termos de animais de estimação, tem havido uma


procura crescente de exóticos. Acha que as aranhas continuam a ganhar terreno
nesta área?

Sim, sim, mais uma vez é um interesse importado, inicialmente mais para ter um
animal perigoso, um predador que se pode ter em casa facilmente, mas acho que já
vai existindo mais sensibilidade, mais pessoas que têm mesmo um interesse por esta
ou aquela espécie de aranhas e tentam tê-las em casa, criá-las, cruzá-las com outras
da mesma espécie de pessoas conhecidas. Elas chegam a viver 10, 20 anos, é um
animal de estimação para durar. Eu tenho lá uma que já tem quase dez anos. Era de
um amigo meu, ela cresceu muito e ele entretanto precisou de mudar de casa e de dar
alguns animais que tinha e quis entregá-la a alguém de confiança e comigo está há
uns quatro anos.

Como é que se trata bem um bicho destes?

Eu acho que é muito fácil, primeiro é preciso ver que espécie é e depois tentar
perceber em que habitat vive essa espécie e tentar proporcionar-lhe as condições que
elas escolhem na natureza. Se estiverem bem tratadas são animais muito calmos,
nota-se rapidamente se se sentem bem. Há pessoas que têm estes bichos e gostam é
que elas sejam agressivas e comam muito, mas isso é mau sinal, porque geralmente
estes bichos, quando são agressivos, como qualquer outro animal, é porque alguma
coisa não está bem. As minhas são muito calmas, tenho lá uma que supostamente é
de uma espécie muito agressiva, pelo menos é a informação que corre na Internet,
mas a minha não é nada agressiva.

Qual é a espécie?

É a Poecilotheria regalis, conhecida como Ornada indiana, não é mesmo nada


agressiva, é uma aranha que precisa de algum espaço, humidade, temperatura e
abrigo – precisa de se esconder, caça durante a noite. Claro que se uma pessoa tiver
um animal destes e não lhe der o abrigo necessário ela torna-se agressiva, não tem
onde se esconder, não se sente protegida.

Portanto é preciso conhecer bem os hábitos e necessidades de cada espécie?

Grammostola rosea vista de costas. Foto de Ricardo Silva

Eu acho que é essencial, para qualquer animal que se queira ter em casa. A partir do
momento em que decidimos ter um animal em casa temos a obrigação moral de tentar
perceber do que é que ele precisa e as aranhas não são excepção, é preciso perceber
o que é que as deixa confortáveis e elas precisam de pouca coisa, mesmo muito
pouca.
Em termos de alimento hoje em dia há muita oferta, até se consegue encontrar
alimento vivo nas lojas, grilos, baratas, gafanhotos que já vêm preparados, e elas não
comem muito, a minha Grammostola rosea chegou a estar um ano e dois meses sem
comer.
Uma aranha que esteja em período de actividade come uma vez por semana, mas não
é um animal que queira ter muita atenção elas nem gostam de muita atenção.

Há espécies mais apropriadas para ter em casa do que outras?

A pessoa que vai ter um animal em casa tem de pensar no tempo e disponibilidade
que vai ter. Imagine que eu estou pouco em casa, vou querer uma aranha que
requeira poucos cuidados, não coma muito e não seja muito sensível, por exemplo. Se
eu morar num sítio muito quente e tiver uma aranha que precisa de humidade, se
calhar vou ter que ter sempre o terrário húmido, aí se calhar era mais indicada uma
espécie de zonas mais quentes ou desérticas, que requerem menos cuidados.
Portanto, sim, há espécies mais fáceis para iniciados, por exemplo esta Grammostola
rosea de que lhe falei é uma aranha que se adapta muito facilmente a qualquer tipo de
condições, ela passa muito tempo sem comer e sem beber água, é portanto mais fácil
do que ter outra mais exigente ou com um ciclo mais rápido.

A moda das tarântulas já passou?

Eu acho que está a crescer. As tarântulas, que são estas aranhas grandes, aliás o
nome nem é muito correcto, em termos rigorosos estas aranhas são os migalomorfos,
tarântula seria um outro tipo de aranha vinda de Itália, mas agora o termo já se
instalou, principalmente devido à influência americana, acho que estão cada vez mais
na moda, pelo menos eu vou conhecendo cada vez mais pessoas que já não têm só
uma por brincadeira, mas têm várias e arranjam casais e criam e elas têm
descendência. Eu acho que as pessoas já não querem estas aranhas só pela graça de
ter um predador, mas depois começam a conhecer o animal, as suas características,
os seus ciclos, aquilo de que se alimenta e começam a desenvolver alguma simpatia e
vão querendo saber mais e depois vão tendo cada vez mais cuidados e passa daquela
admiração pelo animal terrível, para o gosto como se tem por qualquer outros animal.
É claro que não se pode esperar uma grande interacção como com outros animais, até
porque gostam de estar sozinhos. O ponto de vista de que eu gosto mais é o seguinte:
ao ter um animal em casa devemos proporcionar-lhe as condições o mais próximas
possível das da natureza e depois as pessoas têm oportunidade de observar como o
animal se comporta no seu habitat natural. Porque se a pessoa tiver um terrário e se
conseguir dar as condições ideais àquele animal, tem ali uma oportunidade única de
ver de perto como é a vida dele, como faz a toca, como acasala, como põe os ovos,
como se alimenta.

Para terminar, uma pergunta de leigo: todas as aranhas têm 8 olhos?

Não. A maioria tem oito, mas há aranhas com seis e algumas nem têm olhos: há
cavernícolas que não têm olhos, nós temos cá em Portugal algumas dessas.