Você está na página 1de 18

DE GAIOLAS ABERTAS E VISIBILIDADES CONSEGUIDAS:

REFLEXÕES EM TORNO DAS QUESTÕES DE GÊNERO E SEXUALIDADES NA

LITERATURA PORTUGUESA PÓS-1974

Prof. Dr. Jorge Vicente Valentim (UFSCar)

Não é casual a costumeira ausência de Portugal nas obras de referência sobre


a história e a cultura gay lésbica. Continua a ser excepcional a participação
de autores portugueses nelas. A interrogação acerca do que não é feito e do
muito que está por fazer no nosso país foi inclusivamente explicitada num
muito recente dicionário editado em Espanha. Pense-se apenas nos estudos
críticos que deveria merecer o manancial da poesia e da ficção portuguesa,
pelo menos desde a época das vanguardas literárias do início do século XX.
Por outro lado, uma história GLQ [Gay Lésbica Queer] portuguesa muito
terá a revelar e a re-contar, a ajuízar pela riquíssima literatura portuguesa.
[ANTÓNIO FERNANDO CASCAIS. “Um nome que seja seu: dos estudos
gays e lésbicos à teoria queer.”]

Na mais recente republicação da carta de Oscar Wilde a Lord Alfred Douglas, De

profundis (1897), em Portugal, Miguel Vale de Almeida, no seu excelente prefácio,

chama a atenção para a atualidade do texto do romancista inglês, sublinhando que

aquele “amor que não se atreve a dizer o nome” (WILDE, 2011, p. 13), ou seja, a

expressão afetiva entre duas pessoas do mesmo sexo, ganhou contornos de visibilidade

a ponto de, atualmente, ser possível falar não apenas das proibições sobre tais

manifestações, mas também da ousadia que afrontou corajosamente códigos reguladores

em nome de uma evidenciação incontestável daquele “sagrado direito à diferença”

(MELO, 1982, p. 58) e da liberdade de expressão.

No que se refere especificamente à ficção portuguesa contemporânea, foco de

minhas atenções e investigações nos últimos 10 anos, sobretudo aquela produzida a

partir da Revolução dos Cravos (de 25 de Abril de 1974), observa-se um nítido

investimento por parte de certos escritores sobre a criação de personagens homossexuais

e situações em sintonia com a perspectiva homoerótica. Se, por um lado, alguns


mostram-se envolvidos diretamente com a questão dos direitos da comunidade LGBT,

como é o caso sintomático de Guilherme de Melo, por exemplo, e sobretudo no que diz

respeito a uma representação da condição homossexual, valendo-se de uma perspectiva

endógena do tema, como são os casos de Al Berto, Frederico Lourenço, Mário Cláudio

e João Miguel Fernandes Jorge; por outro, não se poderá negar que há também todo um

elenco de escritores preocupados em refletir sobre as novas subjetividades sexuais,

ainda que lançando mão de um repertório imaginário na concepção de uma visão

exógena à questão da homossexualidade, como bem atestam alguns títulos de Jorge de

Sena, Rosa Lobato de Faria, José Emilio-Nelson e Daniel Sampaio. Isto sem esquecer

alguns nomes já consagrados da literatura portuguesa contemporânea, cujas obras abrem

um interessante espaço de diálogo sobre as masculinidades e suas reverberações na

construção de certas personagens, como são os casos de Agustina Bessa-Luis (A roda

da noite, 2006) e António Lobo Antunes (O que farei quando tudo arde?, 2001).

Por isso, é preciso já frisar o fato de que há, sim, uma produção significativa na

ficção portuguesa contemporânea voltada não só para as questões de gênero, mas

também para o homoerotismo, a homoafetividade e a homotextualidade. Termos

diferentes, mas que, no final das contas, apontam para um vértice comum: a expressão

do amor, do desejo, dos anseios, dos sonhos e das expectativas afetivas entre pessoas do

mesmo sexo. É certo que há uma corrente crítica de esquerda que apela para uma atitude

“fracturante” dos escritores homossexuais e daqueles que se interessam pela temática,

no sentido de posicionarem como indivíduos preocupados com a pauta das questões

pós-Stonewall. A este grupo, Eduardo Pitta (2003) considerou como os mentores de

uma literatura gay. Aos outros que se debruçavam sobre a condição homossexual sem

este comprometimento explícito, ficava a curiosidade de falar sobre a

homossexualidade, sem um lastro ideológico que o identificasse como um militante:


Entendendo ambas como subgéneros da literatura tout court, a questão é
susceptível de ser equacionada do seguinte modo: enquanto a primeira (a
literatura dita homossexual) reflecte sensibilidades e experiências isentas de
sentido político pré-determinado, a segunda (a literatura dita gay) não
dispensa nunca o lastro ideológico. O homossexual coexiste. O gay impõe
direitos de cidadania. Em rigor, literatura homossexual é um pleonasmo.
(PITTA, 2003, p. 28-29).

Apesar de respeitar o excelente trabalho produzido pelo crítico, no tocante a esta

distinção, permito-me dele divergir. Uma das razões é de ordem essencial à própria

compreensão da matéria literária. Se ambas fazem parte de “subgéneros da literatura”,

como ele próprio sublinha, será possível pensar em alguma expressão literária que

dispense “o lastro ideológico”? Existirá, nesse sentido, uma literatura isenta de um

pendor desta natureza? Por este viés, como então pensar a “literatura homossexual”

como aquela que representa o homossexual “sem um sentido político pré-determinado”?

Será o homossexual uma espécie de ser ideologicamente alienado e o gay um agente

responsável em reunir obras sob o signo da imposição de “direitos de cidadania”? Será

esta assertiva uma condição sine qua non para se considerar um texto literário? Acredito

que, apesar das iniciativas bem intencionadas do crítico, a separação, a distinção e a

hierarquização entre as duas categorias não parecem favorecer um esclarecimento

suficiente para a sua definição.

Apesar de entendermos que a utilização da expressão gay funciona como uma

forma de caracterizar uma certa produção literária, visivelmente ligada a uma parcela

significativa de posicionamentos políticos de resistência, ainda assim, isto não exclui de

forma alguma a interrogação se tais prerrogativas seriam uma exclusividade sua. No

meu entender, mais importante que lançar mão destas categorias, partindo de princípios

político-ideológicos para tentar defini-las, é compreender que se trata de duas naturezas

diferentes de expressão literária e perceber que, como bem pontuou José Carlos

Barcellos, “essa distinção se baseia propriamente em características intrínsecas às

obras e às experiências que nelas se configuram.” (2002, p. 54; grifos meus). Ou seja,
faz-se necessário pensar a literatura, seja ela “gay”, seja “homossexual”, a partir de

especificidades textuais e das matérias nelas efabuladas.

Ao se tentar impor uma definição diferenciadora, a crítica não estaria, de certo

modo, contribuindo para o estatuto condicional desta literatura como algo “diferente,

exótico e, portanto, fora dos padrões” (Ibidem), ditos “normais”? Se não há uma

perspectivação visível de consolidação de um código heteronormativo (ou seja, a

literatura de perspectiva heterossexual não precisa se afirmar enquanto tal), em virtude

de que este seria a padronização aceita, por que, então, gastar o tempo procurando

desenhar, definir e impor diferenças e modelos padronizados a um gênero literário que

pode ser percebido, definido e entendido a partir de sua feitura textual?

Por isso, para tentar evitar entrar num campo de batalha, envolvendo posições

políticas categóricas e, por vezes, pouco esclarecedoras, acreditamos que a expressão

“literatura homoerótica”, possibilita, num sentido mais amplo, o trânsito salutar entre

obras que tanto representam o homossexual, usando ou não formas de mascarar uma

identidade gay, quanto aquelas que se valem de uma perspectiva explícita de

identificação com a matéria narrada. Em defesa do aspecto aqui apontado, recorro a

João Silvério Trevisan, reconhecido ficcionista, ensaísta e investigador brasileiro, que,

num lúcido ensaio, chama a atenção para o fato de que, apesar de tais discussões serem

importantes para alavancar uma visibilidade a esta produção literária, elas reforçam a

opinião de que tais gestos peremptórios em busca de uma definição precisa dos termos

em pauta não podem ser colocados como a sua preocupação primeira, já que isto apenas

reforçaria a própria condição marginal dos seus autores e das obras em questão. Nas

suas palavras, isto equivaleria a tentar imprimir uma espécie de genética de escrita ao

texto homoerótico, sendo, portanto, tão inexequível quanto se “procurar definir o que

seria uma literatura masculina, branca e heterossexual” (TREVISAN, 2002, p. 164), até
porque – e nunca é demais relembrar – estes três pontos são os levados em conta pelo

pensamento hegemônico. Em outras palavras, é possível pensar a identidade

homossexual e, por conseguinte, a literatura homoerótica, enquanto espaço circunscrito

de reflexões, a partir das idéias produzidas tanto por autores homossexuais, quanto por

escritores movidos por uma sensibilidade aproximativa (a quem o ensaísta brasileiro

designa como “simpatizantes”, na citação anterior) e não menos importante.

No seu incontornável ensaio Pedaço de mim, João Silvério Trevisan afirma que a

viabilidade de se tocar neste tema reside exatamente na capacidade de se “falar de uma

literatura homoerótica enquanto nascida do ponto de vista da temática homossexual. Ou,

mais precisamente, uma literatura de temática homoerótica” (TREVISAN, 2002, p.

165). E, vale destacar, que essa abordagem temática permite tanto a livre expressão de

uma perspectiva diretamente ligada à identidade gay, quanto a aproximação do universo

homossexual, sem que o seu autor pertença a este núcleo. Desta forma, a idéia de que

“quem for homossexual tende a escrever de um jeito parecido” (Ibidem, p. 164) não é

capaz de sustentar-se como uma das premissas caracterizadoras desta literatura. Afinal,

sendo ela produto discursivo de sensibilidades atentas ao universo efabulado, sua

condição primeira é de ser arte, matéria literária, sujeita, portanto, não só a diferentes

perspectivas na sua criação, mas também a distintas subjetividades, que encontram

múltiplos recursos na sua realização.

Ora, diante do exposto, a provocação de António Fernando Cascais, em perceber

todas estas nuances, ou seja, os diferentes e múltiplos matizes das subjetividades

sexuais, incluindo ai a dicção e a representação de personagens homossexuais, acaba

por levar o leitor a uma constatação inegável: como digerir o fato de que os estudos

literários portugueses não possuem, ainda, uma linha consolidada de pesquisa neste

campo específico? Mesmo que alguns nomes surjam esporadicamente (Ana Luiza
Amaral, António Fernando Cascais, Cecília Barreira, Miguel Vale de Almeida e Natália

Correia), fato é que, se no Brasil, nomes como os de José Carlos Barcellos, Mário Cesar

Lugarinho, Horácio Costa, José Luis Fouraux, Paulo César Garcia, Emerson da Cruz

Inácio, Flávio Camargo, Richard Miskolci, Simone Caputo Gomes, António de Pádua

Dias da Silva, Leonardo Mendes, Fábio Camargo, Lucia Facco e Renata Pimentel, por

exemplo, confirmam a estabilização destes estudos no cenário acadêmico, em Portugal,

infelizmente, este cenário não constitui ainda um terreno presente e fértil em termos de

discussões e debates na área da crítica literária.

Talvez, por isso, aquela reedição da carta de Oscar Wilde, traduzida por Miguel

Vale de Almeida (2011), tenha um significado expressivo, posto que convoca uma

reflexão sobre estes caminhos críticos em solo lusitano. Afinal, será possível pensar o

século XX e atravessar já as primeiras décadas do século XXI, mantendo os olhos

vendados diante de uma questão que se quer premente e emergente nos mais diferentes

campos de saberes e atuação?

Atendendo, portanto, àquela provocação de António Fernando Cascais, trago à

cena um rico elenco de textos e autores contextualizados a partir da Revolução dos

Cravos, evento que demarcou o fim da ditadura salazarista e das investidas censoriais do

Estado Novo em Portugal, para constatar que tanto homo quanto heterossexuais

(homens e mulheres) escreveram (e escrevem) sobre o tema, motivados por diferentes

objetivos e, como era de se esperar, com resultados muito distintos uns dos outros. Fato

é que verbalizar as afetividades homoeróticas tornou-se uma tônica fundamental de

desafio e ousadia a todo um código moral que ainda procurava manter sob o manto do

silêncio as falas daquele amor que ousa dizer o seu nome. Na investigação, realizada na

Universidade do Porto em 2013, tomei conhecimento de alguns procedimentos de

escrita que procuram afirmar a diferença, sem perder de vista a exploração a novos
meios de transmissão e de materialização do literário, a preocupação com a elaboração

estética do mesmo e a atenção pontual com a riqueza de expressões discursivas que o

tema poderia abarcar.

De 1974 a 1984, no período de uma década, compreendendo da Revolução dos

Cravos até a morte de António Variações, artista que colocou em suas canções o

universo e a condição gay em Portugal, algumas incidências ocorrem ainda em caráter

experimental e, em alguns casos, de maneira isolada, mas não menos contundente. São

os casos, por exemplo, dos romances Sinais de fogo (1979), de Jorge de Sena; A sombra

dos dias (1981) e Ainda havia sol (1984), de Guilherme de Melo; das peças em um ato

de Os marginais e a Revolução (1979), de Bernardo Santareno; da obra poética À

procura do vento num jardim d’Agosto (1974-1975), a primeira escrita integralmente

em língua portuguesa por Alberto Pidwell Tavares, que passaria agora a assinar como Al

Berto; e Demasiadamente belos para quem só não queria estar só, de Sergio Milliet N.

da Costa e Silva, ambas publicadas em 1977.

Além destes, no campo do ensaísmo, é preciso sublinhar o dossier “Ser

(homo)sexual”, da revista Raiz e Utopia (1981), organizado por Regina Louro; a obra

Ser homossexual em Portugal (1982), de Guilherme de Melo; e a incisivo e cirúrgica

análise de Natália Correia, em “Homossexualidade, mito e magna mater”, publicado em

1982, no Jornal de Letras, Artes e Idéias:

Observa-se que quanto mais nos aproximamos das disposições nativas da


humanidade mais naturalmente a homossexualidade se manifesta sem as
máscaras e os inerentes dramas de consciência que a moral redutora do
natural ao convencional lhe infligem. [...]
Esta sacralização da homossexualidade masculina nos ritos agrários torna
saliente a efeminização como cláusula de uma relação mais profunda do
homem com o sagrado da natureza miticamente configurada na Mãe Terra,
ou Grande Mãe, ou Mãe primordial detentora do poder criador da natureza.
É neste quadro mítico-matrista que a homossexualidade tem um estatuto que
não só a inscreve como comportamento natural nas sociedades primitivas,
como sacerdotalmente, a privilegia (CORREIA, 1982, p. 9).
Este foi, talvez, o primeiro texto a abordar de maneira científica e abertamente

direta, revestida de todo um repertório crítico-metodológico, a questão da

homossexualidade, no cenário português, de autoria de uma personalidade canônica dos

meios literários e acadêmicos. Reportando-se aos mitos e aos ritos dos povos antigos,

Natália Correia procura mostrar que a homossexualidade, que o amor expresso

livremente entre pessoas do mesmo sexo, não pode ser uma categoria entendida

exclusivamente a partir de binarismos e essencialismos paradoxais. Antes, deve e

precisa ser compreendida na sua dimensão subjetiva e cultural, retirando dela qualquer

lastro de lugar-comum imposto pela visão de mundo patriarcal e moralizante e toda e

qualquer ressonância da tríade maldita que, durante séculos, sobre ela se impôs: a de

pecado, de crime e de doença.

A partir de 1984, como era de se esperar, num momento em que a censura oficial

salazarista deixou de exercer o seu fisco cultural, os textos literários produzidos

procuram caminhos próprios e uma autonomização de suas práticas textuais. Ao longo

destas últimas décadas, observa-se uma confluência de diferentes apostas, consolidadas

em obras que passeiam pelos campos da autobiografia, do auto-retrato 1, do diário, do

romance biográfico, epistolográfico, policial, de formação e de costumes, da ficção

científica, da metaficção historiográfica, enfim, de todo um repertório genológico que

engloba tanto os escritores homossexuais, preocupados em demarcar, reivindicar e

consolidar a ficção, enquanto espaço de realização e representação das subjetividades


1
Termo empregado e definido por Michel Beaujour (1980) como um compósito alternativo ao de
autobiografia, no sentido de que o “auto-retrato” teria a seu favor uma dimensão que ultrapassa os
recursos descritivos da primeira pessoa e assenta num naquilo que vai chamar de “percurso
enciclopédico”: “L’autoportrait se conçoit comme le microcosme, écrit à la première personne,
d’un parcours encyclopédique, et comme l’inscription de l’attention portée par JE aux choses rencontrées
au long de ce parcours. (...) il faut voir dans l’autoportrait un miroir du JE répondant en abyme aux grands
miroirs enclyclopédiques du monde” (BEAUJOUR, 1980, p. 30). Conforme assinalado por Maria David
Neves Dias de Castro (2005), este conceito torna-se altamente operacional para a leitura de textos cujas
fronteiras entre o autobiográfico e o ficcional movimentem-se de forma tão flexível e maleável,
permitindo uma atenção maior a aspectos não só da descrição característica da primeira pessoa
autobiográfica, mas também ao processo de escrita e aos instrumentos utilizados na sua realização, como
é o caso, por exemplo, da obra de Al Berto.
sexuais agenciadas e afirmadas nas últimas décadas do século XX e nas primeiras do

XXI, quanto os heterossexuais, que, sem negar a presença e a contribuição cultural

daqueles no cenário português contemporâneo, propõem uma construção do universo

destas personagens, seja no seu sentido testemunhal, seja no seu sentido puramente

efabulatório.

Neste contexto, é preciso ressaltar que, em alguns casos, a experiência de escrita

não se realiza de maneira esteticamente uniforme na sua qualidade, como ocorre, por

exemplo, na 1ª. Antologia de Literatura Homoerótica Portuguesa, organizada pela

revista Korpus e pela Opus Gay e publicada em 2001, a partir dos autores participantes

no concurso promovido pelas duas instituições, com o objetivo de suprir uma lacuna

perceptível no contexto português, qual seja, a não existência de uma “cultura gay

portuguesa” e a “carência de exemplos e modelos em que as lésbicas e os gays se

possam vislumbrar” (SERZEDELO, 2001, p. 7). No entanto, a proposta de dar

visibilidade a esses escritores, que ensaiam um possível modelo em que os seus pares

poderiam se apoiar, precisa ser lida com uma certa generosidade em virtude de que os

exemplos recolhidos, eleitos e elencados na seleção funcionam muito mais como

matrizes ideológicas diante de uma necessidade de visualização das “minorias sexuais”

(Ibidem) e de construção de seu “suporte intelectual e cultural dentro da lusofonia”

(Ibidem), do que propriamente como padrões de um elaborado tecido estético-literário.

Aliás, como era de se esperar de uma obra que se propõe reunir textos provenientes de

um concurso, há uma oscilação nos gêneros utilizados, além dos discursos e dos

resultados finais planejados. Os próprios prefaciadores (Carlos Mendes de Sousa,

Guilherme de Melo e Teresa Cláudia Tavares) têm consciência desta expositiva

diferença e alertam os seus leitores para o fato de que o valor da obra reside muito mais

“na coragem de terem sido escritos, na capacidade que demonstram de auto-


conhecimento e auto-aceitação revelada por quem os escreve” (SOUSA, MELO e

TAVARES, 2001, p. 15). Ou seja, ainda que, esteticamente falando, nem todos se

destaquem por uma qualidade na elaboração textual, eles ganham uma dimensão de

relevância no contexto português pós-25 de Abril e no despertar do século XXI por pôr

a nu “a existência do afecto homoerótico” (Ibidem).

O que me parece importante frisar nesta coletânea é a visibilidade que o

concurso e a Antologia promoveram, num momento em que as subjetividades sexuais

necessitam de parâmetros e pontos de referência no contexto de uma cultura gay em

Portugal. Outrossim, a generosidade na leitura destes textos também deve contemplar o

fato de que, a par das desigualdades criacionais, eles propiciam uma reflexão sensível

sobre o universo homossexual, além de darem vasão a uma expressão própria e

autônoma dos seus autores. Ao contrário, portanto, do que pensa Eduardo Pitta (2003), o

homoerótico – termo escolhido para figurar no título da antologia, em detrimento de

literatura gay, por exemplo – tem, sim, a capacidade de vislumbrar os anseios mais

imediatos dos seus agentes, e não diminui o impacto de sua presença no cenário

português, marcado por lacunas perceptíveis na consolidação de uma cultura gay.

Por outro lado, se os 50 autores da 1ª. Antologia de Literatura Homoerótica

Portuguesa ainda permanecem no anonimato, outros fora dela, que já possuíam o

reconhecimento no meio literário, aproveitam a sua inserção para interrogar sobre o

modo de ser e estar no mundo do sujeito homossexual. Há-de se observar dentro do

contexto pós-1974, a adoção de duas posturas diferentes, mas, nem por isso,

hierarquizantes entre si, posto que elas revelam a riqueza e a multiplicidade que as

subjetividades sexuais requerem para sua compreensão. Deste modo, a perspectiva

endógena ao tema, quando o(a) autor(a) opta em assumir a sua homossexualidade, ora

de maneira visível e aberta, ora de forma mais indireta e sugestiva, não exerce uma
superioridade ao ponto de vista exógeno, quando o(a) escritor(a) efabula um universo

com o qual simpatiza ou com ele tem laços de afinidade, optando por uma abordagem

mais pontual e até mesmo testemunhal.

Neste sentido, a incidência de certos temas na criação das tramas ficcionais

homoeróticas torna-se visível, no entanto, interessante observar que tal encontro de

tratamentos temáticos não chega a acarretar uma guetização de afinidades, antes,

desvirtua-se de lugares-comuns e põe em evidência aquele “sagrado direito à diferença”

(MELO, 1982, p. 58), seja ela da perspectiva sexual, seja ela da ordem da criação

estética. Em virtude dos diversos e mais distintos nomes que se debruçaram sobre o

homoerotismo na ficção portuguesa pós-1974, proponho uma espécie de roteiro sobre

os caminhos escolhidos pelos seus autores sem seguir uma ordem hierárquica de

importância, evitando-se, portanto, qualquer resvalo em esquematismos redutores. Os

temas apresentados figuram em estilos, em épocas e em construções completamente

diferentes.

Um dos temas mais frequentes, de modo geral, nas literaturas que sobre a

homossexualidade se debruçaram reside na percepção das diferenças e as consequências

afetivas, sociais, econômicas e políticas, advindas dos tempos da AIDS. Lida por Susan

Sontag, no seu incontornável ensaio Aids e suas metáforas (1988/1989), como uma

doença munida de uma força muito maior que a do câncer, capaz “de estigmatizar, de

gerar identidades deterioradas” e “que representa uma censura genérica à vida e à

esperança” (SONTAG, 2007, p. 89 e 96), a SIDA, como é chamada em Portugal, só

veio a se tornar um caso de debate publico e de preocupação efetiva no território

lusitano, nos finais dos anos de 1980 e início dos anos de 1990.

Com as visões preocupadas da mídia e das autoridades, a população mantem, no

entanto, uma visão embotada da doença, considerando-a uma herança maldita deixada
exclusivamente pelo e para os homossexuais. Vale destacar, neste sentido, o papel que

alguns escritores tiveram para desobstruir esta concepção e revelar as nuances deste

mal. Observa-se, assim, não apenas um esforço conjunto de combate à doença, mas

também uma representação sensível de sujeitos homossexuais num grau de aproximação

muito forte da realidade que marcou o universo LGBT, a partir dos anos de 1980, sem

deixar de sublinhar a idéia de que qualquer indivíduo (seja homem ou mulher) com vida

sexualmente ativa encontra-se dentro do chamado “grupo de risco”. Destaco, neste

cenário, os romances Como um rio sem pontes (1992), de Guilherme de Melo; Que

sinos dobram por aqueles que morrem como gado? (1995), de Rui Nunes; Já não gosto

de chocolates (1999), de Álamo Oliveira; e O suave e o negro (2012), de Manuel

Monteiro.

Ora, se a doença passa a ser vista como este “‘outro’ alienígena” (SONTAG,

2007, p. 85), não podemos desconsiderar exatamente o espaço atacado por ela. Mas, ao

contrário das imagens de degradação e de vitimização como efeitos consequentes de sua

entrada, o corpo começa a ser contemplado, não como manifestação epidêmica daqueles

que ousam dizer o nome do seu amor, mas como instrumento de exacerbação da

sexualidade e da condição homossexual, bem como a relação das gerações mais novas

com o corpo homoerótico e com a descoberta das subjetividades sexuais. São os casos,

por exemplo, de Lunário (1988), de Al Berto; O que houver de morrer (1989), de

Guilherme de Melo; e dos contos “Marlyn” e “Kalahari” (Persona, 2000), de Eduardo

Pitta; e Vagabundos de nós (2003), de Daniel Sampaio.

Assim, da doença aos corpos por ela atacados, mas que resistem de todas as

formas às suas investidas externas, na concepção de António Fernando Cascais, o

cenário cultural português passa a vivenciar uma experiência singular, qual seja, “ a

partir de meados da década de noventa, regista-se simultaneamente um claro declínio da


literatura acerca da Sida, um crescendo de literatura gay e lésbica e o surgimento dos

primeiros textos que se afirmam queer” (CASCAIS, 2004, p. 45).

Tal cenário parece, realmente, confirmar-se, sobretudo, no cenário da ficção

portuguesa, onde temas como a crueldade, a perversidade e a violência, antes

exclusivamente ligados ao universo homossexual, passam, agora, a serem articulados

paralelamente com personagens heterossexuais, transexuais e travestis, com o objetivo

de mostrar que tais incidências não são exclusivas dos modos de ser e de estar no

mundo dos homossexuais, mas fazem parte do comportamento humano no seu sentido

universal, e como tal precisam ser encarados. Neste caso, “O monstro verde” (O homem

que odiava chuva e outras estórias perversas, 1999), de Guilherme de Melo;

Ursamaior (2000), de Mário Cláudio; Que farei quando tudo arde? (2001), de António

Lobo Antunes, constituem casos sintomáticos deste novo cenário insurgente na

literatura portuguesa pós-974.

Outro aspecto temático que merece destaque é a revisão de tabus considerados

inatingíveis e de momentos da história, onde o arquétipo do homem marialvista

português poderia obnubilar qualquer possibilidade de se pensar a inserção da

personagem homossexual em grupos homossociáiveis extremamente rígidos e fechados,

tais como as forças armadas, incluindo a sua atuação em tempos de guerra colonial, e o

corpo eclesiástico de religiosos católicos. Os romances Até hoje (Memória de cão)

(1985) e Murmúrios com vinha de missa (2013), de Alámo Oliveira, respectivamente,

investem nas relações homossexuais entre dois soldados do exército português, em

tempos de Guerra Colonial, na Guiné-Bissau e entre um padre e seu aluno em terras

açorianas.

A singularidade destes dois textos de Álamo Oliveira incide sobre a ousadia e a

coragem em expor duas situações constantemente revisitadas pela mídia atual e de


conhecimento público no tocante à sua não isenção diante da presença de agentes

homossexuais dentro dos seus respectivos campos de atuação: as Forças Armadas e a

Igreja. Se estes foram considerados, durante séculos de sua existência, dois espaços

imunes à “contaminação” dos “invertidos”, o olhar cirúrgico e incisivo do ficcionista

português revela que, em se tratando de sexualidades, qualquer afirmação categórica é

mera fantasia. Afinal, como bem observa Camões, ninguém está protegido das

transformações salutares da movência temporal: “Mudam-se os tempos, mudam-se as

vontades” (CAMÕES, 1988, p. 102).

O que se depreende destas novas incursões da ficção portuguesa contemporânea

é um contínuo repensar sobre as novas configurações das masculinidades, enquanto

categoria de gênero, e as suas repercussões na efabulação das trajetórias das

personagens. Longe de querer imputar sobre elas a velha e ultrapassada noção de algo

inerente exclusivamente ao biológico e ao imutável, títulos como No verão é melhor um

conto triste (2000), de João Miguel Fernandes Jorge; e O filho de mil homens (2011), de

Valter Hugo Mae, revelam uma dimensão outra destes novos “barões assinalados”

(CAMÕES, 1978, p. 59) com nuances menos rígidas e mais subjetivas nas suas

orientações sexuais.

E para provar tal perspectiva, a revisitação e a efabulação/criação de figuras

históricas (ou pretensamente referenciais) a partir de um viés distanciado dos lugares-

comuns por onde as leituras sobre estas pairavam, num movimento de contra-corrente

de certas visões crítico-biográficas, sem perder de vista a elaboração estética na

construção ficcional das tramas e das trajetórias, passam, agora, a configurar as novas

possibilidades que a literatura portuguesa pode ofertar. São os casos de Henriqueta

Emília da Conceição (teatro, 1997); “António Nobre e Alberto de Oliveira” (Triunfo do


amor português, 2004) e Retrato de Rapaz (2013), de Mário Claudio; e “O retrato de

Camões” (A formosa pintura do mundo, 2005), de Frederico Lourenço.

Ou seja, nesta recriação de sujeitos históricos referenciais, a ficção portuguesa

começa a despontar um cenário rico por onde temas ligados à homossexualidade e à

questão de gênero passam a circular de forma mais frequente e pontual. Na verdade, tais

recursos estruturais não são desconhecidos dentro do campo da criação literária, muito

pelo contrário, agora, porém, conjugados a esta nova visibilidade, são eles que

respaldam esta ficção homoerótica como incontestável objeto artístico,

independentemente da orientação sexual de quem a produz.

Nesta gama de apostas genológicas, ainda é preciso frisar outras ocorrências,

como, por exemplo, a reescrita de gêneros textuais, alguns vigentes na pós-

modernidade, outros não totalmente absorvidos pela tradição crítica, tais como os

romances policiais e os de ficção científica, e suas respectivas relativizações das

fronteiras tipológicas na criação ficcional; a adoção de uma perspectiva de

aprendizagem e formação do sujeito homossexual, ressoando em narrativas que

reconfiguram o modelo de Bildungsroman; e a aposta em textos infanto-juvenis, como

uma forma de consciencializar as novas gerações para a sensibilidade e o respeito à

diferença, a solidariedade entre os seres humanos, independentemente da orientação

sexual, e a convivência social pacífica, sadia e humana. Fazem parte deste elenco, as

obras: A sombra dos dias (1981) e Ainda havia sol (1984), de Guilherme de Melo; Olga

e Cláudio (1984), de Mário Cláudio; EuroNovela (1997), de Miguel Vale de Almeida;

PraiaLisboa (2010), de Henrique Levy; Teodorico e as mães cegonhas (2011), de Ana

Zanatti; Como tu (2012), de Ana Luisa Amaral; Ensaio sobre a angústia (2012) de

Joaquim Almeida Lima; O poeta da lua (2013), de António Casado; e O chalet das

cotovias (2013), de Carlos Ademar.


Já encaminhando para minha conclusão, não poderia encerrar este mapeamento

sem destacar a escrita de autoria feminina e as suas apostas sem qualquer tipo de

hierarquização entre as representações dos múltiplos universos homoeróticos

(masculinos e femininos), além da constante presença de personagens travestis e

transexuais. Aqui, parece-me, que textos como Os sinais do medo (2003) e Agradece o

beijo (2005), de Ana Zanatti; Alice e o abismo (2005), de Leonor Campos; A alma

trocada (2007), de Rosa Lobato de Faria; Trans Iberic Love (2013), de Raquel Freire; e

Ara (2014), de Ana Luisa Amaral, oferecem um campo fértil de reflexão, afinal,

somente homens homossexuais poderão escrever sobre o tema? Não poderão as

mulheres, também, interrogar sobre estas novas ocorrências homoafetivas, seja pelo viés

do homoerotismo masculino, seja pelo do lesbianismo, ou, ainda, do travestismo e do

transexualismo?

Certamente, como o predisse José Marmelo e Silva, “cada geração ensaia

efectivamente uma nova experiência” (1972, p. 68), e com as notas aqui apontadas,

vislumbra-se não apenas o homoerotismo com diferentes matizes e subjetividades, mas

também as múltiplas e multifacetadas expressões de sexualidades e gêneros, não

restando, dúvidas, portanto, que se trata de uma realidade presente e visível no contexto

português pós-25 de Abril. Enquanto tal, urge não relegá-la a um espaço marginal e

deslocado, mas considerá-la como um dos pontos centrais de reflexão e questionamento.

E, nos muitos casos que a ficção portuguesa póis-1974 pode nos oferecer, encontramos

um passo decisivo e importante para a confirmação daquelas propostas culturais

interpretativas de Eduardo Lourenço, quando sublinha a literatura como uma forma de

interpretar e compreender Portugal. No seminal ensaio, afirma o pensador: “Chegou o

tempo de existirmos e nos vermos tais como somos.” (1991, p. 118).


Que seja este, portanto, o tempo para nos darmos a conhecer, para existirmos e

para que nós e também os outros nos vejam e nos respeitem tal como somos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALMEIDA, Miguel Vale de. « Prefácio ». In : WILDE, Oscar. De profundis. Trad.: Rita

Correia. Lisboa : Nova Delphi, 2011, p. 9-20.


BEAUJOUR, Michel. Miroirs d’Encre. Rhétorique de l’autoportrait. Paris: Seuil, 1980.

CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. Edição organizada por António José Saraiva. Porto:

Figueirinhas; Rio de Janeiro: Livraria Padrão, 1978.

__________. Poesia Lírica. Selecção e introdução por Isabel Pascoal. Lisboa: Ulisséia,

1988.

CASCAIS, António Fernando. “Um nome que seja seu: dos estudos gays e lésbicos à

teoria queer”. In: CASCAIS, António Fernando (org.). Indisciplinar a teoria. Estudos

Gays, lésbicos e queer. Lisboa: Fenda, 2004, p. 21-90.

LOURENÇO, Eduardo. “Da literatura como interpretação de Portugal”. In: O labirinto

da saudade: psicanálise mítica do destino português. Lisboa: Dom Quixote, 1991, p.

79-118.

MARMELO E SILVA, José. Sedução. 4ª. edição. Lisboa: Editora Ulisséia, 1972.

MELO, Guilherme de. Ser homossexual em Portugal. Lisboa: Relógio d’Água, 1982.

PITTA, Eduardo. Fractura. A condição homossexual na literatura portuguesa

contemporânea. Coimbra: Angelus Novus, 2003.

SERZEDELO, António. “As razões da Opus Gay”. In: 1ª. Antologia de Literatura

Portuguesa Homoerótica. Lisboa: Revista Korpus, Opus Gay, 2001, p. 7.

SONTAG, Susan. Doença como metáfora / Aids e suas metáforas. Trad.: Rubens

Figueiredo e Paulo Henrique Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SOUSA, Carlos Mendes de; MELO, Guilherme de; TAVARES, Teresa Cláudia.

“Prefácio”. In: 1ª. Antologia de literatura homoerótica portuguesa. 50 autores. Lisboa:

Korpus, OpusGay, 2001, p. 15.