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Dinâmicas Territoriais: experiências de monitorização e avaliação ao nível


local em Portugal

Conference Paper · May 2017

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2 authors:

Antonio Ribeiro Amado Cristina Cavaco


New University of Lisbon University of Lisbon
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NoVOID - Ruins and vacant lands in the Portuguese cities: exploring hidden life in urban derelicts and alternative planning proposals for the perforated city View project

Regeneration of informal settlements View project

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IV SEMINÁRIO INTERNACIONAL · ACADEMIA DE ESCOLAS
DE ARQUITECTUR A E URBANISMO DE LÍNGUA PORTUGUESA · AEAULP

II. Desafios à Cidade.


Facetas de uma urbanização
em ritmo acelerado
T Í T ULO: A Língua que Habitamos
EDIÇ ÃO: Academia de Escolas de Arquitetura e Urbanismo de Língua Portuguesa
DESIGN GR Á F ICO: Elisabete Rolo
PAGINAÇ ÃO: Joana Silva | Mariana Torpes Fernandes
FOTOGR A F I A DE C A PA: Fernando Guerra
Abril de 2017
I V S E M I N Á R I O I N TE RNA C IO NA L A C A DE MIA DE E S COLAS
D E A R Q U I TE C TU RA E U RB A NIS MO DE LÍNGU A P O RT UGUESA · AEAULP
COOR DENAÇ ÃO GER A L COMISSÃO CIEN T ÍFIC A

Conceição Trigueiros Alberto Reaes Pinto


DIRETORA DA AEAULP · ACADEMIA DE ESCOLAS UL · LISBOA, PORTUGAL
DE ARQUITETURA E URBANISMO DE LÍNGUA PORTUGUESA

Álvaro Barbosa
FACULDADE DE INDÚSTRIAS CRIATIVAS DA USJ, MACAU

COMISSÃO ORGA NIZ A DOR A


Ana Claudia Scaglione Veiga de Castro
FAU · USP, BRASIL

Conceição Trigueiros
DIRETORA DA AEAULP · ACADEMIA DE ESCOLAS
Ana Tostões
IST · UL, PORTUGAL
DE ARQUITETURA E URBANISMO DE LÍNGUA PORTUGUESA

Flávio Carsalade Ana Vaz Milheiro


ISCTE, PORTUGAL
EA-UFMG · ESCOLA DE ARQUITETURA
DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, BRASIL
Andrea Franco
EA · UFMG, BRASIL

Angélica Tanus Benatti Alvim


COMISSÃO E X ECU T I VA FAU · MACKENZIE, BRASIL

Arlete Soares de Olivera | Luis Miguel Ginja Anna Paula Canez


[COORDENAÇÃO] UNIRITTER, BRASIL
IEDS · EA · UFMG, BRASIL | AEAULP [RESPECTIVAMENTE]

António Gameiro
Alexandra Miranda Luís UNIVERSIDADE AGOSTINHO NETO, ANGOLA
CIAUD · FA · UL, PORTUGAL

António Morais
Danielle Barroso Caldeira FA · UL, PORTUGAL
IEDS · EA · UFMG, BRASIL

Bianca Araújo
Filipa Nogueira Pires UFRN, BRASIL
CIAUD · FA · UL, PORTUGAL

Carlos Dias Coelho


Elisabete Rolo [DESIGN GRÁFICO] FA · UL, PORTUGAL
FA · UL, PORTUGAL

Carlos Eduardo Comas


AEAULP

Carlos Guimarães
FA · UP, PORTUGAL

Carlos Trindade
UEM, BRASIL

Celma Chaves Pont Vidal


UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ, BRASIL

Conceição Trigueiros
FA · UL, PORTUGAL
Eduardo Jorge Cabral Santos Fernandes Joubert José Lancha
EA · UM, PORTUGAL IAU · USP, BRASIL

Eunice Helena Abascal Juliana Nery


FAU · MACKENZIE, BRASIL FAU · UFB, BRASIL

Fabiola do Valle Zonno Leonardo Barci Castriota


FAU · UFRJ, BRASIL AEAULP

Fernando Betim Luis Laje


PUC · RIO, BRASIL UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE, MOÇAMBIQUE

Fernando Guillermo Vázquez Ramos Maria Fernanda Derntl


USJT, BRASIL FAU · UNB, BRASIL

Fernando Moreira da Silva Maria Manuel Oliveira


AEAULP, PORTUGAL EA · UM, PORTUGAL

Flávio Carsalade Maria José de Azevedo Marcondes


EA · UFMG, BRASIL UNICAMP, BRASIL

Francisco Oliveira Marianna Ramos Boghosian Al Assal


FA · UL, PORTUGAL ECSP, BRASIL

Frederico Tofani Mário Saleiro Filho


EAD · UFMG, BRASIL DAU · IT · UFRRJ, BRASIL

Gerônimo Leitão Marta Silveira Peixoto


EAU · UFF, BRASIL FAU · UFRGS, BRASIL

Grete Soares Pflueger Michel Toussaint


FAU MARANHÃO, BRASIL AEAULP, PORTUGAL

Helder Casal Ribeiro Miguel Amado


FAUP, PORTUGAL INSTITUTO SUPERIOR TÉCNICO, PORTUGAL

Italo Itamar Caixeiro Stephan Renato Anelli


UFV, BRASIL AEAULP

João Paulo Coelho Renato Cesar de Souza


EA · UM, PORTUGAL EA · UFMG, BRASIL

José Alberto Tostes Rui Duarte


FAU · UFPA, BRASIL AEAULP, PORTUGAL

José Pinto Duarte Sidney Tamai


AEAULP, PORTUGAL FAAC · UNESP, BRASIL

José Luis Saldanha Siva Alves Bianchi


ISCTE, PORTUGAL UFRRJ, BRASIL

Jorge Figueira Teresa Fonseca


FCT · UC, PORTUGAL FAUP, PORTUGAL
Apresentação

O momento cultural em que vivemos é marcado por uma sobrevalorização


da nossa dimensão individual e por um apagamento insistente da nossa
dimensão coletiva.
À resistência contemporânea ao reconhecimento de nós próprios,
para além da dimensão individual, corresponde também uma resistên-
cia ao reconhecimento de outros tempos na construção da contempo-
raneidade e, mesmo no ocaso do espirito moderno e num momento em
que a moral mais difusa levanta inúmeros obstáculos à transformação
do mundo pela obra do Homem, a dimensão da novidade continua a
fazer esquecer quanto dessa novidade é feita de continuidade e a forma
como o nosso tempo, o instante de oportunidade das nossas vidas, não é
mais que uma estreita junta entre passado e futuro, havendo a possibili-
dade de preencher coerentemente esse efêmero hiato.
A ideia de continuidade, no espaço e no tempo, entre a nossa existên-
cia individual e a experiência coletiva, está diretamente ligada à ideia de
identidade, de patrimônio genético, de um viver comum que, de alguma
forma, formatou de maneira identitária um modo de viver, um modo de
mudar o Mundo, de o descrever, e esses modos permitem um sentido de
território independente do sentido de posse, e estabelecido sobretudo
pela ideia de comunidade, de partilha de experiências comuns e da exis-
tência de instrumentos para descrever e processar essas experiências.
À ideia de reconhecimento, está ligada a estranha sensação que senti-
mos, quando damos a volta ao Mundo e num lugar onde nunca tínha-
mos estado antes, subitamente reconhecermos, numa esquina de uma
rua, num fragmento de uma conversa, num cheiro, num olhar ou num
gesto, os lugares da nossa infância, os almoços de domingo e as pedras
da casa em que nascemos.
Habitamos espaços e paisagens, mas habitamos também a nossa língua,
o universo em que se constroem e viajam as nossas ideias e significados,
a narrativa das nossas experiências, a comunicação do que aprendemos,
a quem queremos ensinar, estabelecendo a construção coerente da Cultura.

Conceição Trigueiros
II. Desafios à Cidade.
Facetas de uma urbanização
em ritmo acelerado.

A Cidade Ideal na Habitação Econômica Brasileira ................................. 17


M A R I A LUIZ A A DA MS S A N V I T TO

A cidade planejada de Sinop


e o desdobramento do seu plano inicial
a partir da Rodovia BR 163 como elemento estruturador .................. 28
GISELE C A R IGNA NI

A Força do Discurso na Produção de Subjetividade de um Lugar:


O caso do Pelourinho na cidade de Salvados – BA ................................... 39
YA R A COELHO NE V ES

A forma flexível como estratégia projetual ..................................................... 53


BRU NO MELO BR AG A

R IC A R DO A LE X A NDR E PA I VA

A linguagem da produção social da saúde e sua espacialidade:


desafios da hierarquização e organização territorial urbana
dos equipamentos de saúde no Brasil. ............................................................... 65
JAQUELINE DE LIM A PIR ES

LUCI A NO MU NIZ A BR EU

R EGINA CÉLI A LOPES A R AUJO

A ocupação de espaços verdes públicos no setor sudoeste


do município de Campinas ........................................................................................... 75
C A ROLINA GUIDA C A R DOSO DO C A R MO

SIDNE Y PIOCHI BER NA R DINI

A paisagem de encostas no planejamento urbano:


o caso do Morro da Cruz, Florianópolis/SC ................................................... 86
SONI A ROHLING SOA R ES

SONI A A FONSO

A participação no planejamento urbano como mecanismo


de construção da cidadania ....................................................................................... 100
V Í TOR DOMÍCIO DE MENESES

DA NIEL R IBEIRO C A R DOSO


A permanência de Vilas Operárias:
os casos das vilas do Jardim Botânico e do Meio da Serra ................ 111
CL AUDIO A N TONIO S. LIM A C A R LOS

Análise da vegetação das praças do Bairro da Tijuca,


Rio de Janeiro ......................................................................................................................... 121
M A ÍR A R IBEIRO C A MPOS

S Y L M A R A SCHEIDEGGER

V IRGÍNI A M. N. DE VA SCONCELLOS

Arquitetura e o conceito de lar:


estudo na Vila da Barca, Belém, PA. .................................................................... 133
LET ÍCI A R IBEIRO V ICEN T E

A NA K L ÁUDI A DE A L MEIDA V I A NA PER DIG ÃO

Arquitetura moderna X urbanização e especulação imobiliária:


o caso do bairro da Prata em Campina Grande – Pb. .......................... 146
INGR ID MIK A ELL A DE OLI V EIR A LIM A

Arranjos institucionais metropolitanos:


planejar a terra para preservar a água ............................................................. 159
TÂ NI A R IBEIRO SOA R ES

PROF. DR. SIDNE Y PIOCHI BER NA R DINI

As origens da crise das cidades no Brasil:


apontamentos sobre planejamento urbano e políticas
habitacionais no brasil entre 1889 e 2016 ....................................................... 168
R A FA EL L A R A M A ZONI A NDR A DE

GER M A NA DE C A MPOS GONÇ A LV ES

As raízes dos conjuntos IAPI no panorama atual de habitação social:


Estudos de Caso do Conjunto Realengo (RJ)
e Conjunto Habitacional Heliópolis (SP). ..................................................... 178
IZ A DOR A C A RVA LHO L A NER

F ELIPE CL ÁUDIO R IBEIRO DA SILVA

BEN N Y SCH VA SBERG

RODR IGO S A N TOS DE FA R I A

A Trajetória do Canteiro de Obras


pelo Olhar Arquitetônico no Século XX ......................................................... 190
HELOIS A N U NES E SILVA

Barra da Tijuca e o real legado olímpico: convergências


e divergências entre o marketing urbano
e as intervenções urbanas .............................................................................................. 202
MELISS A R A MOS DE OLI V EIR A

R A FA EL A LV ES COR R A DI
Cadê a indústria que estava aqui? ........................................................................ 214
M A N UEL A C ATA F ES TA

Come on baby light my fire,


or how OMA’s generic can still be iconic ........................................................ 223
RODR IGO TAVA R ES

Conquistar a calçada: Bairro de Boa Esperança


– Seropédica, bairro caminhável? ........................................................................ 232
SI VA BI A NCHI

Conservação integrada e planejamento estratégico


na manutenção da paisagem cultural:
o caso de Areias no Vale do Paraíba paulista ............................................. 245
DA NIEL V ILHENA

Copacabana reinventada por Oscar Niemeyer:


outras modernidades ..................................................................................................... 256

Bruno Tropia Caldas ........................................................................................................ 256

Crescimento Populacional e Econômico


na Região Perimetropolitana:
cenários especulativos e (des)equilíbrio socioambiental
na Baixada de Sepetiba ................................................................................................................. 268
DENISE DE A LC A N TA R A

PAULO A N TONIO DOS S A N TOS J U NIOR

Crescimento urbano na contramão da preservação das áreas verdes:


Estudo de caso Altiplano Cabo Branco ..................................................................... 281
SÔNI A M ATOS

DAYSE LUCK W Ü

A L A NA M A LUF

PL ÁUCIO ROQUE

“Da Adversidade Vivemos”:


Autoconstrução como linguagem habitacional
na favela carioca de Manguinhos. ...................................................................... 294
A NDR É LUIZ C A RVA LHO C A R DOSO

GUS TAVO TAVA R ES

Desenvolvimento Informal.
A importância dos assentamentos informais na evolução
de cidades em países em desenvolvimento ................................................ 306
J. M A R R A NA

F. SER DOUR A
Dinâmicas Territoriais:
experiências de monitorização e avaliação
ao nível local em Portugal .......................................................................................... 322
A N TÓNIO R IBEIRO A M A DO

CR IS T INA C AVACO

Do Lixo ao Luxo:
O Parque e Instituto Sitiê na Favela do Vidigal ........................................ 336
CL AUDI A SELDIN

Expansão e contenção da cidade,


o caso de Belém do Pará .............................................................................................. 346
JAYA NA M A R INHO MOTA DE S A N TA NA

JOSÉ J ÚLIO F ER R EIR A LIM A

Globalização e Urbanização.
Entre a hegemonia global e a identidade cultural. ....................................... 358
FA BR ÍCIO DE F R A NCISCO LINA R DI

M A NOEL LEMES DA SILVA NETO

Habitar na informalidade.
O território do Chabá em Angola ........................................................................ 368
M A RG A R IDA LOURO

C ATA R INA NÓBR EG A

“Inovações Urbanas” – Arquitetura + Urbanismo + Design


como alternativa para cidades melhores ...................................................... 380
A NA BE AT R IZ DA ROCH A

PAULO R EIS

Movimentos sociais urbanos de supervivência: articulação


e resistência no Festival Baixo Centro – SP .................................................. 393
BI A NC A JO SILVA

SILV I A A. MIK A MI G. PINA

O papel da mulher na arquitetura brasileira contemporânea ... 404


F ER NA NDA A R AÚJO F ÉLI X DA SILVA

MORG A NA M A R I A PI T TA DUA RT E C AVA LC A N T E

O papel dos espaços livres urbanos


na conformação e definição de dentralidades no município
do Rio de Janeiro ................................................................................................................. 413
V ER A R EGINA TÂ NG A R I

Os Coletivos, corpo a corpo com a cidade ..................................................... 427


ENEIDA DE A L MEIDA

M A R I A C A ROLINA M A ZI V IERO
O Urbanismo Colaborativo como caminho
de solução aos desafios da cidade ........................................................................ 439
IZ A DOR A C A RVA LHO L A NER

Paralelo entre Brasil e Portugal


– Duas formas de intervir em antigos
espaços industriais .......................................................................................................... 448
A NDR ESS A K LEIN F ER R EIR A

Passagens e permanências em um terminal intermodal:


estudando uma máquina urbana de transportes .................................. 459
LUCI A NO A BBA MON T E DA SILVA

A NGÉLIC A TA N US BENAT T I A LV IM

Patrimônio industrial e cidade na contemporaneidade.


O caso do Pátio Ferroviário das Cinco Pontas
– “Cais José Estelita” em Recife. Pernambuco. Brasil .......................... 473
PÉR ICLES SILVA

A LCILI A A FONSO

Planejamento ambiental e Infraestrutura verde: Aplicabilidade


dos conceitos para elaboração de um parque linear na ressaca
Lagoa dos Índios. ............................................................................................................... 485
C A MIL A PER NA MBUCO COS TA

JOSÉ M A RCELO M A RT INS MEDEIROS

Prácticas arquitectónicas resilientes e incremental housing


em assentamentos informais – o papel de ONGs no Brasil. ......... 499
A. N U NO M A RT INS

A LINE ROCH A

Projeto e Ato no Fundão do Jardim Ângela:


por uma relação urbano x rural x ambiental na metrópole ........... 513
A N TONIO FA BI A NO J U NIOR

V ER A S A N TA NA LUZ

Provocações da Virada Paradigmática.Desafios Emergentes às


Teorias do Planejamento e ao Papel do Planejador .............................. 528
A LE X A NDR E F ER NA NDES A LESSIO A LV ES

Urbanização econômica: o caso de Arapiraca – AL ............................... 540


L A INI DE SOUZ A S A N TOS
A Cidade Ideal na Habitação Econômica Brasileira
M A R I A LUIZ A A DA MS SA N V IT TO
Faculdade de Arquitetura. Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Brasil

Resumo
O trabalho tem como hipótese central o pressuposto de que falta de qua-
lidade arquitetônica no período de atuação do Banco Nacional de Habi-
tação no Brasil (1964-1986) não se deve somente a restrições financeiras
ou normativas do Banco. Considera-se a possível influência da ideologia
da cidade moderna, formulados no IV Congresso Internacional
de Arquitetura Moderna, sob o tema da Cidade Funcional, posterior-
mente documentados na Carta de Atenas.
Sugere-se que conjuntos habitacionais do período BNH apresentam
problemas que podem estar ligados à obediência irrestrita ou entendi-
mento equivocado de paradigmas que teriam impedido aos arquitetos,
mediante uma nova demanda, procurar soluções alternativas às pres-
crições normativas da Carta de Atenas. Desta forma, os projetos sofre-
ram adaptações pela imposição de redução orçamentária, banalizando
e abastardando soluções modernas e consagradas, que talvez deman-
dassem transformações paradigmáticas não efetivadas.

Palavras-Chave
Habitação coletiva; Habitação Econômica; Habitação Social; Habitação
Moderna; Cidade Moderna

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 17
Introdução
O desenvolvimento das iniciativas oficiais no provimento de habita-
ções para a população de baixa renda no Brasil pode ser dividido em
três fases, de acordo com os órgãos financiadores. A primeira, o perí-
odo pré-BNH, marcou o início da intervenção estatal com a experiência
dos Institutos de Aposentadoria e Pensões - IAPs; da Fundação da Casa
Popular - FCP, primeira iniciativa de âmbito nacional para população de
baixa renda; e o Departamento de Habitação Popular - DHP, órgão da
Prefeitura do então Distrito Federal do Rio de Janeiro. A segunda fase
se definiu com a implantação do Banco Nacional de Habitação – o BNH,
uma das primeiras ações do regime militar recém instalado em 1964; e
a terceira, o período pós-BNH, teve início com a extinção do banco em
1986, desarticulando o programa habitacional no país.
Durante o seu período de atuação, entre 1964 e 1986, o BNH conce-
deu financiamentos habitacionais em escala sem precedentes no Brasil.
As iniciativas em habitação social, fomentadas pelos IAPs, FCP ou
DHP eram designadas como conjuntos residenciais. Promovida pelo
BNH, esta produção assumiu a designação de conjuntos habitacionais
e, ao longo do tempo, passou a trazer em si uma acepção negativa:
o chamado padrão BNH. Os conjuntos habitacionais ocuparam vazios
urbanos e expandiram a periferia das grandes e médias cidades. Tais
conjuntos eram formados por pequenas casas em lotes privatizados,
ou por blocos de apartamentos implantados numa área coletivizada,
em sua maioria sem elevador ou pilotis. Esta produção gerou críti-
cas que muitas vezes confundiram o BNH, como agente financeiro,
com os conjuntos habitacionais por ele financiados. Eram apontados
problemas como qualidade da execução, falta de infra-estrutura e afas-
tamento em relação aos centros urbanos.
Neste panorama, arquitetura moderna brasileira e habitação econô-
mica, o trabalho se restringe à habitação multifamiliar, por ser a tipolo-
gia que mais se aproximou ao ideal da cultura arquitetônica moderna.
O edifício em altura correspondeu a uma nova forma de morar, proposta
pelo movimento moderno, numa representatividade da vanguarda
arquitetônica.

18 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A atribuição do BNH
O Presidente João Goulart foi deposto em 31 de março de 1964, substitu-
ído por uma junta militar que conferiu ao Congresso Nacional a atribui-
ção de eleger o novo mandatário. Desta forma, o Marechal Humberto
de Alencar Castelo Branco foi conduzido à Presidência da República,
iniciando um longo período de regime militar no Brasil.
Em menos de trinta dias de governo Castelo Branco encaminhou
ao Congresso Nacional o Plano Nacional de Habitação – PNH. Atra-
vés da Lei Federal nº 4.380, de 21 de agosto de 1964, foi criado o Banco
Nacional de Habitação, como centralizador das operações financeiras
do Plano Nacional de Habitação.
Ao BNH foram atribuídas tarefas como: orientar, disciplinar e con-
trolar o Sistema Financeiro da Habitação; incentivar a formação de
poupanças e sua canalização para o Sistema Financeiro da Habitação.
A Lei Federal que criou o BNH previa o caráter social da instituição
determinando limites de recursos a serem destinados para habitação
de baixa renda.
O equívoco sobre os encargos do BNH, atribuindo-lhe a responsabili-
dade sobre a qualidade arquitetônica dos conjuntos por ele financiados,
está disseminado nas publicações contemporâneas ao seu período de
existência. O papel do Banco, como agente financeiro, foi muitas vezes
sobreposto ao compromisso com a excelência do projeto arquitetônico.
A dimensão dos conjuntos habitacionais do BNH, muitas vezes che-
gando a mais de mil unidades habitacionais, sem a infra-estrutura ade-
quada, em localização periférica, repetindo o mesmo modelo de edifi-
cação, independentemente da localização, são questões que incidiram
na qualidade das habitações.
No que diz respeito à crítica aos projetos financiados pelo BNH, mais
especificamente sobre a gradativa diminuição da qualidade arquitetô-
nica, como a monotonia, falta de identidade, ausência de configuração
espacial ou definição de uso dos espaços abertos foram encontrados
alguns artigos em revistas contemporâneas ao Banco. Alguns ensaios
atribuem a falta de qualidade dos conjuntos habitacionais do período
à ocorrência de equívocos na abordagem do problema, a escolha da
localização, às formas de financiamento, questões sociológicas ou até
mesmo falta da participação dos usuários no processo.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 19
A arquitetura e o BNH
Criado em 1964 e extinto em 1986, o BNH teve na década de 70 o período
de atividade mais intensa. Os anos 70 correspondem no Brasil ao predo-
mínio na Escola Paulista, com a variante do Brutalismo como tendência
ainda moderna, e a forte influência da concretização da cidade moderna
em Brasília. O caráter protagonista do movimento moderno não admi-
tia a diversidade de estilos. Seus preceitos eram dogmas e entre eles
estava a idealização do homem-tipo, desconsiderando diferenças cul-
turais. Desta forma, todas as pessoas teriam as mesmas necessidades,
adaptadando-se a esse “maravilhoso mundo” que a nova arquitetura
anunciava. Era a promessa de uma vida melhor, num mundo mais orga-
nizado, onde cada função teria seu espaço segregado como propagava
a ideologia da cidade moderna. Tudo muito ordenado, onde a falta
de diversidade não seria incômodo, pois todos seriam iguais. Numa ati-
tude determinista, ao homem-tipo corresponderia uma unidade-habita-
cional-tipo repetida à exaustão.
Um dos primeiros artigos que tratou dos conjuntos habitacionais
do BNH sob o ponto de vista da arquitetura foi O Espaço da Arbitrarie-
dade, de Carlos Eduardo Dias Comas. Neste texto Comas destaca duas
fórmulas de projeto usadas simultaneamente ou não: casas unifamilia-
res isoladas em quarteirões estreitos e compridos compostos por lotes
privatizados; e blocos repetitivos, usualmente sem elevador, de quatro
pavimentos e com solo coletivizado.
Estabelecendo um paralelo, Comas compara a segunda solução com
as superquadras residenciais de Brasília. Neste confronto os conjun-
tos formados pela reprodução de blocos-modelo são vistos como uma
versão redutora do precedente, numa versão abastardada da solução
de Brasília. A área de pilotis no térreo foi ocupada por apartamentos sem
privacidade, gerada pelo caráter coletivo dos espaços abertos e o estacio-
namento em subsolo eliminado. A redução orçamentária, tanto na exe-
cução como na manutenção, transformou os jardins coletivos em áreas
residuais sem tratamento e, pior do que isto, muitas vezes sem controle.

20 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 01 | Núcleo Habitacional Ponta da Praia, Santos – SP, 1967, Arq. Oswaldo Corrêa
Gonçalves, Paulo Buccolo Ballario e José Wagner Leite Ferreira. Revista Projeto e
Construção, n. 7, p. 40-42

O que Comas questiona é se seriam o elevador, os estacionamentos em


subsolo, os pilotis e o jardim indispensáveis ou prioritários para qualifi-
car a moradia. Argumenta que apartamentos térreos não são inabitá-
veis, envolvem apenas uma questão de privacidade a resolver, citando
como exemplo a privatização dos espaços abertos adjacentes.
Levanta ainda a hipótese de desconsideração com soluções que pode-
riam contrariar normativas modernistas.

Pressupostos
O debate sobre a habitação esteve associado à arquitetura moderna
desde as especulações do período entreguerras europeu através dos
CIAMs. O caráter messiânico do movimento moderno fez com que
o projeto para habitação coletiva em grande escala fosse um dos prin-
cipais temas das discussões, senão o predileto, em torno da arquitetura
e do urbanismo.
No Brasil, a partir da segunda metade da década de 30 do século
passado, a ligação entre a arquitetura moderna e a então chamada
habitação popular marcou presença na produção dos IAPs, FCP e DHP
pelo caráter investigativo em expressivo número de conjuntos habita-
cionais. Se naquele período a investigação arquitetônica de um grupo
significativo de profissionais desta área, comprometidos com a doutrina

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 21
moderna, esteve próxima das realizações habitacionais para a popula-
ção de baixa renda, na produção do BNH isto se perdeu. A produção
da habitação econômica se afastou do debate e da investigação arquite-
tônica, fazendo com que a diversidade tipológica, presente nos projetos
de conjuntos habitacionais dos IAPs, FCP ou DHP, sofresse importante
restrição nas iniciativas financiadas pelo BNH.
A ausência do caráter investigativo revelado pela pouca diversi-
dade tipológica desta produção sugere algumas indagações em relação
aos fatores ou os agentes responsáveis. Um delas seria quanto ao tipo
de envolvimento dos arquitetos no tema da habitação econômica. Pela
leitura de artigos e editoriais de revistas da época como a Acrópole,
a Arquitetura e a Habitat é possível perceber o posicionamento dos
arquitetos, até 1964, na luta pela implantação de uma política habita-
cional. Com a criação do BNH, nesta data, houve um momento inicial
de regozijo pela iniciativa governamental. Este entusiasmo logo deu
lugar a um sentimento de marginalização, quando a classe profissional
se deu conta de que as diretrizes do Banco já estavam completamente
estabelecidas sem sua participação. Ao conhecer a política habitacional
delineada na constituição do Banco surgiram as discordâncias. A partir
de então, o esforço na luta pela criação de um programa habitacional
brasileiro, por parte dos arquitetos, se transformou em combate pela
sua reformulação.
Outro fato a considerar foi a ascendência dos conceitos de planeja-
mento e reforma urbana, sobrepondo-se ao desenho da cidade a par-
tir do início dos anos 70. As inovações trazidas pelo conjunto de idéias
de controle sobre as cidades, vistos como possíveis agentes promoto-
res de uma nova ordem social pelos ditames do movimento moderno,
podem ter tido alguma influência na preponderância destes princípios
em detrimento de potencialidades do desenho urbano e da arquitetura
como edificação configuradora do espaço urbano.
Existem críticas aos conjuntos habitacionais do BNH pela sua uni-
formidade, monotonia, repetição de um modelo de edificação que não
teriam levado em conta as peculiaridades geográficas, sociais, físicas
e urbanísticas atribuindo a esta produção a alcunha de padrão BNH.
A expressão padrão estaria aqui ligada ao conjunto de características

22 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
presentes numa série de objetos repetidos que o consagram um modelo.
Desta forma, o padrão BNH resumiria uma série de deficiências presen-
tes repetidamente nos conjuntos habitacionais promovidos pelo BNH.

Conclusão
A partir destas considerações não parece infundado levantar a hipótese
de que conceitos, idealizações ou estabelecimento de padrões e mode-
los, presentes na doutrina moderna, possam ter influenciado fortemente
a monotonia gerada pela repetição de elementos, presente nos conjuntos
habitacionais financiados pelo BNH.
Outra questão importante a considerar seria a crença no caráter mes-
siânico da arquitetura que vigorou no período. O movimento moderno
atribuiu à arquitetura o papel de agente de transformação social, tra-
zendo uma mensagem promissora. A adaptação dos usuários à nova
arquitetura seria um processo espontâneo uma vez que, aos olhos
modernistas, oferecia a melhor forma de morar. Tal convicção trazia
a certeza de que habitantes de favelas e barracos ao rés-do-chão se
transformariam em moradores de conjuntos habitacionais em altura
de forma natural. Era o poder da nova arquitetura não só em ordenar
a cidade como determinar o comportamento das pessoas.
A verdade é que os bons presságios não se confirmaram. Banalizado,
distorcido, aplicado de forma redutiva ou adaptada, a presença do ideal
da cidade moderna é perceptível nos conjuntos BNH.
Já em 1983, na primeira publicação de seu artigo O espaço da arbitra-
riedade, sem estender sua crítica a todas as versões de cidade moderna,
Comas compara os conjuntos BNH às superquadras de Brasília no que
diz respeito à segregação funcional, apontando ainda a aleatoriedade da
implantação como um ponto em comum. Estendendo suas observações,
chama atenção para a eliminação dos pilotis com o térreo ocupado por
apartamentos, e a falta do cuidadoso tratamento dos espaços abertos.
Comas credita estas subtrações às limitações de orçamento, desta-
cando a economia como requerimento fundamental na habitação eco-
nômica. Frente aos problemas surgidos como a falta de privacidade, des-
taca a possibilidade da privatização dos espaços abertos adjacentes aos
apartamentos, que ofereceriam oportunidades como acesso e contato

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 23
direto ao exterior a partir das unidades habitacionais. Soluções alterna-
tivas que confrontariam, no entanto, as prescrições normativas moder-
nistas como conclui o autor.
Outro fato a considerar foi a industrialização chegando à construção.
A partir do início dos anos 60, quando o foco de atenção da arquite-
tura brasileira se desloca da Escola Carioca para a produção paulista,
o tema da industrialização da construção se tornou recorrente, sempre
presente como pano de fundo e, mesmo que pouco adotada. O Conjunto
Habitacional Zezinho Magalhães Prado, projetado por Vilanova Artigas,
Paulo Mendes da Rocha e Fabio Penteado, na segunda metade dos anos
60, foi concebido para uma execução em pré-moldados.

Fig. 02 | Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado, Guarulhos – SP, 1967


FERRAZ, 1997, p. 146

Pela contemporaneidade de pensamentos e fatos como estes, é possível


compreender o fascínio pela pré-fabricação dos anos 70. A repetição
de elementos em larga escala, somada ao conceito de homem-tipo,
amparada pelo ideal moderno de redução e reprodução de tipos pode ter
assumido a categoria de um paradigma. Neste quadro parece plausível
conduzir a hipótese de que a padronização, necessária para a construção
industrializada, tenha permeado a reprodução de formas arquitetônicas
nos projetos de conjuntos habitacionais financiados pelo BNH.
Por fim, é importante considerar a perda do status da arquitetura
como atividade cultural e o desmantelamento do debate arquitetônico
a partir dos anos 60 no Brasil. Por um período que abrange os primeiros
dez anos do BNH, a arquitetura deixou de existir como atividade cultu-
ral. Os debates políticos e sociais, mais próximos ao período histórico
que o país vivia, sobrepuseram-se à crítica arquitetônica.

24 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig, 03 | Sistema construtivo pré-moldado previsto para o Conjunto Habitacional
Zezinho Magalhães Prado. Revista Acrópole, n. 372, p. 34

Em relação à produção financiada pelo BNH não foi diferente. Enquanto


as condições de financiamento foram amplamente discutidas, o debate
a respeito das questões arquitetônicas ficou restrito ao campo do dimen-
sionamento e da qualidade da execução. Num momento histórico, onde
questões sociais e políticas eram preponderantes, um viés sócio-polí-
tico, alheio ao campo disciplinar da arquitetura, pode ter protagonizado
o debate entre os arquitetos como resposta ao problema da habitação
social. Centrados nestas preocupações, a investigação de soluções arqui-
tetônicas para a habitação social ficou ausente.
A doutrina da Carta de Atenas previa o uso coletivo do solo vincu-
lado à adoção de pilotis no pavimento térreo, como uma interface entre
o espaço público e privado. Enquanto a premissa do uso de pilotis
no térreo permite o solo coletivo e indiferenciado, a ocupação deste
pavimento é incompatível com a condição de coletividade no espaço
aberto circundante, quando existe o requisito da privacidade. No caso
dos conjuntos financiados pelo BNH, o paradigma arquitetônico do
solo coletivo preponderou em projetos onde a restrição orçamentária
determinou a ocupação do térreo com apartamentos, desconsiderando
a necessidade de privatização das áreas abertas adjacentes às unidades
junto ao solo.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 25
Fig. 04 | Conjunto Habitacional Felizardo Furtado, Porto Alegre – RS, 1973,
Arq. Elvan Silva. BNH, projetos sociais, 1979, p. 217

Na proposição da Carta de Atenas o bairro foi substituído pelo zonea-


mento monofuncional, as circulações segregadas entre pedestres e auto-
móveis, e a superquadra indivisa de dimensões avantajadas tomou
o lugar do quarteirão parcelado. O lote privado foi trocado pelo solo
coletivo, sobre o qual as edificações deveriam ser implantadas livre-
mente em relação à trama viária. Estava desfeita a configuração dos
espaços abertos da cidade tradicional pela rejeição ao alinhamento das
edificações, em favor do paradigma de edifícios isolados e com maior
altura, implantados em amplas áreas verdes do solo indiferenciado.
Os conjuntos habitacionais do período BNH apresentam problemas
que podem estar ligados à obediência irrestrita ou entendimento equi-
vocado de paradigmas que teriam impedido aos arquitetos, mediante
uma nova demanda, procurar soluções alternativas às prescrições nor-
mativas da Carta de Atenas. A relação investigativa entre arquitetura
e habitação social, própria do movimento moderno, onde este tema era
um dos principais objetos de projeto e que, de certa forma, perdurou

26 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
no período pré-BNH, foi aos poucos se desfazendo durante a atuação
do Banco. Desta forma, os projetos sofreram adaptações pela imposição
de redução orçamentária, banalizando e abastardando soluções moder-
nas e consagradas, que talvez demandassem transformações paradig-
máticas não efetivadas.

Bibliografia
ACROPOLE, São Paulo, n. 372, abril 1970, p. 32-37;
BNH: projetos sociais. Rio de Janeiro: Portinho Cavalcanti, 1979;
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São Paulo, Perspectiva, 2010;
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Inquilinato e difusão da casa própria, São Paulo, Estação Liberdade, FAPESP,
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Moderna Brasileira entre 1964 e 1986, Tese de Doutorado, PROPAR/UFRGS, 2010,

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 27
A cidade planejada de Sinop e o desdobramento
do seu plano inicial a partir da Rodovia BR 163
como elemento estruturador
GISELE C A R IGNA NI
UNEMAT, Universidade do Estado de Mato Grosso

Resumo
Esta pesquisa destinou-se a investigar a criação de Sinop, uma nova
cidade implantada no interior do estado de Mato Grosso entre os anos
1970 e 1980, analisando a rodovia federal BR 163 (Cuiabá – Santarém)
como elemento estruturador e condicionador de suas, implantação,
desenho e expansão. O levantameto histórico revelou a inserção
de complexos rodoviários no interior do estado de Mato Grosso como
subsídio para a expansão urbana e fortalecimento de um “modelo” de
cidade que se multiplica e garante a manutenção da ocupação e desen-
volvimento deste. Diante desta problemática ficou evidenciada a influ-
ência da rodovia no surgimento e configuração do desenho dessas cida-
des. Dotadas de perfil econômico voltado ao agronegócio, tem a BR 163
como condição essencial para escoamento da produção, que juntamente
com a retenção venal de imóveis centrais, conduziu ao desdobramento
de sua expansão a partir do projeto original de forma dispersa, fomen-
tado pelo binômio espaço- tempo.

Palavras-Chave
Cidades novas de Mato Grosso; BR 163; Dispersão Urbana

28 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Contextualização histórico teórica
A partir de 1950 se processa um ritmo acelerado da urbanização como
uma das características dos países subdesenvolvidos com aumento con-
siderável da população nas cidades. De forma geral, os primeiros anos
do século XX constituem uma fase importante do desenvolvimento
da forma urbana brasileira, pois é quando se apresentam modelos
de novas cidades e alternativas para suas áreas de entorno, sendo que
muitos destes inspiraram a construção de novas capitais de estados
e demais experiências de núcleos urbanos.
Dentre a contextualização histórica urbana na qual o Brasil aí se
insere, paralelamente movimentos rurais de reivindicações por reforma
agrária se aceleram no sul do país e motivam a nova inserção pelo norte
do país, em vias de acesso e criação dos núcleos urbanos.
A estruturação de uma cidade acontece em função de diversos con-
dicionantes, sendo o histórico o que oferece uma grande contribuição,
pois contextualiza a configuração física no decorrer de sua existência.
A narrativa histórica pode se processar em diversos níveis, alguns mais
facilmente observáveis outros menos. O desconhecimento ou não com-
preensão desses momentos deixa incógnitos os desdobramentos pelos
quais a cidade se configura, estrutura e reestrutura.
Diante das diversas formas de se compreender o espaço urbano,
ele passa a ser conceituado a partir da relação com a sua estruturação
através de deslocamentos e ainda, que é este que se apresenta como
condição decisiva na sua configuração. O controle do tempo de deslo-
camento passa a ser a força mais poderosa que atua sobre a produção
desse espaço.
A partir dos anos 1930 o governo Vargas, durante o Estado Novo
(1937-1945), pretendeu construir um Estado capaz de criar uma nova
sociedade e ampliar o sentimento de nacionalidade para o Brasil. Neste
processo, a Marcha para o Oeste foi um programa lançado e objetivado
a atrair para as regiões como Goiás e Mato Grosso, não apenas colonos
envolvidos com projetos estatais, mas também capitais que pudessem
povoar e desenvolver economicamente a região, acreditando no poten-
cial regional de exploração de recursos. Faziam parte dessa política
algumas medidas elementares para a ocupação do território: construção

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 29
de estradas, saneamento, educação e transportes, que se transforma-
riam em atrativos de pessoas de regiões consolidadas e desenvolvidas
de diversas partes do país.
Na sequencia desse processo, o Estatuto da Terra assinado em 30
de novembro de 1964 pelo Presidente da República teve como finali-
dade a desapropriação de terras para fins de reforma agrária, localiza-
das numa faixa de dez quilômetros ao longo das rodovias, ferrovias e
açudes construídos pela União. Como substitutivos da reforma agrária,
o Governo Federal lançou vários programas especiais de desenvolvi-
mento regional. Entre eles, o Programa de Integração Nacional - PIN
em 1970. Este programa, implementado pelo governo militar se propõe
também a resgatar a questão fundiária constatada a necessidade de
regularização de terras devolutas que já apresentavam formas diversas
de ocupaçãoe apropriação irregulares.
Esta questão se aprofunda quando é adotado como referência o con-
texto mundial. Grandes potências se encontravam em plena produção
industrial, motivados principalmente pela recuperação de pós-guerras,
na conquista de mercados consumidores e matérias primas, algumas
das quais em abundância em solos brasileiros. Daí surge o lema “inte-
grar para não entregar” fortalecido pelo programa do governo militar
que enfrenta, entre outras questões territoriais, a demanda ainda por
reforma agrária.
A política desenvolvimentista, iniciada por Vargas, foi ampliada
por Juscelino Kubitschek e, a partir de 1964, pelos governos militares,
criando as condições de infraestrutura básica, principalmente de trans-
porte, a exemplo da abertura das Rodovias BR-163 e 364. Foram estas
rodovias que possibilitaram a continuidade do processo de ocupação
das terras e a expansão da agricultura em Mato Grosso, estreitando
as relações deste Estado com os demais Estados da Federação. Esta pro-
posta incluiu a criação de novas cidades requeridas pelo crescimento
populacional e da produção em gerale o crescimento da produçãoagro-
pecuária e extrativista. Associada a esta condição, também é adotado
um conjunto de políticas baseadas principalmente no crédito subsi-
diado para a agricultura, numa política fundamentada nos princípios
da modernização agrícola, voltada para a exportação, e da colonização

30 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
e ocupação do espaço regional. Estas medidas foram elaboradas com
o objetivo de mudar o processo de produçãono campo brasileiro, consi-
derado como arcaico, e entrando num processo de modernização.
Assim, o Decreto-Lei nº 1.164/71, passa a estipular uma faixa de 100
km às margens das rodovias federais na Amazônia Legal e o governo
dá início ao processo de colonização com ênfase à colonização oficial,
mesmo tendo aberto espaço para a colonização particular, já prevista
no estatuto da terra. Em 1976 o próprio Governo anunciava o insucesso
da colonização oficial e repassava a tarefa de colonizar, às empresas par-
ticulares, diminuindo a colonização oficial.
As inúmeras decisões governamentais, a criação de órgãos regula-
dores da questão fundiária, agem como coadjuvantes e beneficiam
empresas cadastradas, as que se apresentam como detentora de notó-
rio conhecimento na experiência com colonização e identificadas como
familiarizadas de políticos locais. Esta constatação fica na aprovação
do projeto da Gleba Celeste em que a empresa declara sua experiência
a partir da colonização do norte do Paraná. Este histórico de origem vai
se refletir no desdobramento do desenho das cidades, quando verifica-
dos que se configuraram em função da questão territorial e econômica,
mais do que em relação aos princípios urbanísticos que vigoram e vigo-
raram nas referências de seus projetos.

Os projetos privados – a construção de Sinop


As empresas Colonizadoras privadas conseguiram grandes áreas devo-
lutas, dividindo-as em milhares de lotes, revendidos depois principal-
mente para colonos do Sul do Brasil.
A Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná (SINOP) foi a colo-
nizadora responsável pelo projeto da Gleba Celeste, que ocupou uma
área de 301.774 mil hectares, divididos em lotes de diferentes tamanhos.
Foram instalados quatro núcleos urbanos e de apoio dentro da área
de colonização: Vera, Santa Carmem, Cláudia e Sinop, figura 1, esta que
hoje é sede do município do mesmo nome e a principal cidade do projeto.
O projeto da cidade de Sinop, assim como o planejamento regional de
ocupação do norte mato-grossense, foi elaborado em 1972 com aprova-
ção do INCRA, em consonância com a política federal para a ocupação
do território amazônico e a integração nacional.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 31
Fig. 1 | Projeto cidades Cláudia, Vera e Sinop (projeto original). Fonte:carignani 2016

A estrada de acesso à Gleba Celeste é a Cuiabá Santarém - BR 163, que


corta a Gleba no sentido norte e sul. Para as estradas de penetração
e vicinais o critério adotado no traçado das estradas foi o de servir todos
os lotes rurais, de modo que sua locação obedeceu à imposição do lotea-
mento, em servir todos os lotes de uma estrada.
Sinop se configura como Rurópolis, classificação estabelecida pelo
INCRA aos novos assentamentos, um pequeno pólo de desenvolvi-
mento, um núcleo urbano-rural diversificado nas atividades públicas
e privadas, possuindo comércio, indústria, serviços sociais, culturais,
religiosos, médico-odontológicos e administrativos, não apenas de inte-
resse local, mas sobretudo para servir à sua área de influência.
Os custos das colonizações foram amplamente financiados pela
SUDAM, Banco do Brasil e Pró-Terra, os financiamentos governamen-

32 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
tais ao Grupo Sinop abrangeram todas as etapas do projeto de coloniza-
ção, desde a implantação até a venda das terras.
O histórico da formação da cidade de Sinop aponta várias dificul-
dades enfrentadas pelos migrantes em processo de adaptação e reter-
ritorialização. A diversidade que se apresenta se manifesta em relação
ao clima, vegetação nativa, solos diferenciados do local de origem,
necessitando de correção, aliada ao insucesso da cultura cafeeira, tra-
dição do produtor migrante. Somado a esse contexto físico cultural,
existia ainda a questão econômica, caracterizada pela escassez de recur-
sos que levara a alguns casos de desistência. Contudo, logo procurou-
-se diversificar a produção agrícola, para minimizar os problemas de
abastecimento da cidade, decorrentes, principalmente, da distância dos
grandes centros e da precariedade da BR-163, ainda não pavimentada
na época. Apenas alguns obtiveram êxito com esta cultura.
A Colonizadora além da venda de terras possuía uma agroindústria
e uma Cooperativa de produtores que se articulavam no sentido de diri-
gir a produção e a circulação dos produtos. A empresa se encarregava
de orientar a produção agrícola através de técnicos, seus contra-
tados diretos, ou da cooperativa, ou ainda, de outras instituições,
tais como EMATER.
A partir da abertura de um loteamento de terras, era destinava uma
área para a construção da escola e da igreja. Neste contexto, a igreja
e a escola se tornavam um ambiente de encontro dos colonos para todos
os eventos sociais. Durante a implantação de Sinop, houve o cuidado
em oferecer aos moradores, dentro das possibilidades, a infraestru-
tura social básica, através da prioridade na construção da escola e da
igreja, que promovia a condição das relações e manutenções da cultura
de origem. Tratou-se de uma estratégia para manutenção da população
no local, dificuldade encontrada em outras cidades.
O período de 1989-92 foi considerado como marco impulsionador
para o desenvolvimento de Sinop. É o período no qual grandes transfor-
mações espaciais tornam-se perceptíveis no cenário urbano. É consta-
tada a substituição de diversas casas de madeira propostas pela Coloni-
zadora Sinop, por alvenaria. A partir do momento que Sinop passa a ser
o principal pólo de desenvolvimento da região norte, ocorre o processo

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 33
de supervalorização dos lotes urbanos e, conseqüentemente, a presença
de vazios urbanos em área valorizada motivando a especulação imobili-
ária e consequentemente também a dispersão urbana.
O enfoque econômico liderou a urbanização na revelação do pró-
prio desenho original de Sinop que adota um de seus lados, identificado
no projeto à leste da rodovia, para reserva imobiliária da cidade, pela-
retenção venal da própria colonizadora. Atualmente tem pequena parte
ocupada pela sessão da colonizadora, para uso institucional, universida-
des, que direcionam a expansão de crescimento da cidade e valorização
imobiliária do entorno.
A empresa colonizadora produziu um projeto urbano já com área
de reserva imobiliária para uso próprio, áreas que atualmente ficam
enquadradas com a nominação do plano diretor como Zona Residen-
cial de Expansão (ZRE),Zona Especial de Desenvolvimento Econômico
e Cultural (ZEDEC), Zona Especial de Interesse Urbano (ZEIU).
Esta área ocupa quase que na totalidade, o lado leste do perímetro
urbano. Recentemente foram edificadas na ZEIU, duas universidades,
pública e privada e um centro de eventos. Naturalmente estes equipa-
mentos se caracterizam em polos geradores de adensamento decorrente
da necessidade que os equipamentos exigem, como habitação, comércio
e serviços. Define-se assim, novo eixo de expansão e adensamento para
uma área oficialmente destinada à expansão urbana, de propriedade
da Colonizadora Sinop, valorizadas a partir dessas instalações. Estas
áreas estão identificadas a leste do projeto original fig. 2, onde clara,
são as áreas de retenção venal co suas inervenções recentes em escuro.
Alguns loteamentos já estão se estruturando nas áreas adjacentes des-
sas novas intervenções, diante da demanda dos equipamentos. Isso evi-
dencia um desenvolvimento desarticulado através da retenção venal,
provocando alta nos preços dos lotes urbanos, garantindo assim, maio-
res lucros para os agentes promotores do espaço urbano. Além disso,
induz a expansão urbana para áreas perféricas e distantes, de valores
menores e desprovidos de infraestrutura, numa configuração dispera
do tecido urbano.
Essa é uma tendência global contemporânea ao uso do modelo
moderno dominante de expansão urbana, horizontal, dispersa e linear
de baixa densidade, articulada ao transporte individual e baseado em

34 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
centralidades, limites difusos e na elevada pressão do mercado imo-
biliário. Esse modelo gera deseconomias pela inviabilidade financeira
na dotação de infraestrutura, pelos custos sociais em diluir os serviços
e a infraestrutura em áreas pouco densase pelos impactos ambientais,
causados essencialmente pela demanda de transporte que percorre lon-
gas distâncias entre o centro e a periferia.
Alguns casos recorrentes que se evidenciam na produção de desenho
de cidades novas, se enquadram no que se denomina “urbanismo aca-
dêmico” vigente nas escolas de engenharia e pouco sensível ao ideário
racionalista que já se manifestava no Brasil. E isto é verificado no dese-
nho de Sinop, Claudia, Vera, Maringá, cujos profissionais responsáveis
pelos desenhos têm formação na região sul do Brasil.
No período pós-Brasília, momento em que Sinop foi planejada, houve
uma série de alterações que refletiram no campo profissional do urba-
nismo, no qual se articula uma postura racionalista e a noção de “cidade
funcional” prevalecendo as decisões técnicas, com ênfase no sistema
viário e no tráfego.

Fig. 2 | Sinop desenho original e desdobramento de ocuoação

Aproximando os diversos conceitos e referenciais históricos e metodoló-


gicos à realidade dessas cidades, fica constatado que elas têm uma con-
duta própria que contraria outras experiências vividas em diversas

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 35
outras versões de cidades que já foram estudadas. Associa-se o projeto
estruturado e embasado em teorias consagradas do urbanismo local
ou mundial e se implanta num lugar desprovido de qualquer referência
anterior. Como exemplo, o projeto original de Sinop, de autoria do enge-
nheiro Roberto Brandão, que faz forte alusão ao projeto de Ildefonso
Cerdà para Barcelona, figura 1. Brandão concebe quadras cujos centros
contemplam amplos espaços de uso coletivo recortado por eixos viários.
Esse projeto foi revisto e redesenhado pelo arquiteto Alfredo Clodoaldo
de Oliveira Neto, com uma nova proposta que identifica traços de sua
formação acadêmica, referências tradicionais de cidades coloniais,
e a exclusão dos espaços públicos do interior das quadras, favorecendo
maior adensamento urbano, em consequência, maior lucro na comer-
cialização dos lotes. Mas o que predomina é a presença da memória
colonialcorrespondente aos modelos de origem de grande parte dos
colonos recém-ingressados no novo território mato-grossense.

Conclusão
O resultado ainda se constrói, como se constrói a cada dia a história
das cidades, se configurando em seus tecidos, através de agentes locais,
agentes externos que se aproximam e se apropriam com suas experiên-
cias deslocadas, e outras com adaptações locais a partir das historias
vividas. Convivem variáveis que envolvem o que se tem com o que
se pretendeu e o que se fez. Assim, por mais que se tenha programado
o desenho e funções de desdobramentos da cidade, ela surpreende.
Muitas dessas cidades novas são modelos ou aplicação de saberes técni-
cos que circulam a partir do deslocamento dos profissionais, engenhei-
ros e arquitetos, desconectados com a realidade local.
Sinop, conquistou um nível bastante expressivo na produção agro
industrial, desenvolveu um potencial produtivo, prioritariamente
em grãos, que reduz no transporte da produção seu maior desafio.
Assim, ficam equacionadas as variáveis espaço, tempo, fluxos e rede.
Os fluxos passam a constituir unidades de trabalho juntamente com
as empresas em forma física e influenciam decisões na cidade contem-
porânea. As alterações no território se estabelecem por meio de uma
rede de fluxos, alterando a condição de fixação. Esta forma se apresenta
como descontinuidade e dispersão territorial.

36 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Assim, através de uma postura materialista de interpretação, seria
de se esperar que essa produção capitalista, de forma internacionali-
zada, aliada a outros fatores intraurbanos estaria determinando novos
padrões de organização territorial. Esta sequencia acaba prejudicada por
uma ausência de homogeneidade e continuidade das vias de comunica-
ção nas diversas modalidades. A sua descontinuidade, ou sua dispersão,
gera os espaços residuais ou se expande em alguns sentidos espaciais
e faz emergir numa organização, até então não apresentada, da fluidez
e rede de fluxos nesse território.A descontinuidade das vias de comuni-
cação tanto das vias férreas, quando estas são o eixo principal de esco-
amento de produção ou transporte, como as estradas de rodagem são
muito desiguais, quantitativa e qualitativamente; regiões inteiras não
estão adequadamente ligadas à rede de transporte as ligações transver-
sais não são satisfatórias.
Finalizando, as expectativas políticas governamentais que tiveram
início a partir dos anos 1950 se veem quase que totalmente conquis-
tadas. Mato Grosso passou a ser um grande produtor e exportador
de grãos, houve uma urbanização significativa no interior do Estado.
Distâncias relativas entre os locais de produção e os grandes merca-
dos,tem provocado a desarticulação de antigos centros de produção
e a ascensão de novos centros. Ajustado a este contexto, o lucro deve
estar associado ao aperfeiçoamento do transporte e da comunicação
para que se efetivem de forma favorável as redes e fluxos e a composi-
ção tempo e espaço.Assim, o modo de produção apoiado no capitalismo
além de se projetar nos campos pela produção agrícola, determina tam-
bém novas configurações de relação entre cidades, catalisando aindao
processo de ocupação urbano de dispersão.

Bibliografia
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CARIGNANI,G.- A BR 163 como elemento estruturador de novas cidades no inte-

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38 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A Força do Discurso na Produção de Subjetividade
de um Lugar: O caso do Pelourinho na cidade
de Salvados – BA
YA R A COELHO NE V ES
Universidade Federal da Bahia, Brasil.

Resumo
O presente trabalho traz uma discussão sobre o Programa de Revitaliza-
ção do Centro Histórico de Salvador, buscando refletir como os discur-
sos e suas lacunas podem influenciar na produção do espaço e na luta
por território. Para construir tal reflexão, foi realizada revisão bibliográ-
fica, análise do projeto implementado na área e visitas a campo,
momento em que ocorreram diálogos com moradores. Sabe-se que as
cidades se configuram como espaço de disputa de poderes por diversos
seguimentos que buscam estabelecer seus interesses. Por conta disso, é
cada vez mais comum encontrarmos intervenções urbanas visando o
enobrecimento de certas áreas. Ao mesmo tempo, organizações e agen-
ciamentos coletivos vem se estabelecendo como resistência aos proces-
sos impostos pelas forças dominantes (principalmente Estado e inicia-
tiva privada). Acredito que é necessário atentar-se para a forma como
vem sendo produzidas nossas cidades para caminharmos em direção a
espaços de uso mais democrático.

Palavras-Chave
Produção de Espaço; Resistência; Cidade; Discurso.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 39
Introdução
Nos últimos anos, as reflexões relacionadas às cidades vêm ganhando
um espaço de discussão cada vez maior, tanto nas escolas de Arquite-
tura e Urbanismo, quanto no cotidiano das pessoas. Essa preocupação
se positivou em um cenário de crescente inchaço populacional que teve
início no século XX e se consolidou na virada para o século XXI.
Com esse crescimento excessivo do numero de habitantes, as cidades
passaram a enfrentar diversos problemas e o espaço urbano se transfor-
mou em um território de disputa entre vários agentes. O tensionamento
de interesses entre poder público, iniciativa privada e as diversas cate-
gorias de habitantes das cidades configura o que Milton Santos define
como território usado, o campo de forças “de dialéticas e contradições
entre o vertical e o horizontal, entre o Estado e o mercado, entre o uso
econômico e o uso social dos recursos.”1
Quando aproximamos nosso olhar dos centros históricos, é comum
observar que processos de embelezamento e enobrecimento urbano
regem as intervenções realizadas visando, principalmente, a fomenta-
ção do turismo. Como afirma Maricato2 , a forma como são realizados
os investimentos resultam na valorização imobiliária que, por sua vez,
acarreta desapropriações e a expulsão de moradores, reafirmando a
segregação social e expandindo as fronteiras periféricas.
As forças de resistência para essas transformações surgem a partir
da organização dos moradores na formação dos movimentos populares
e agenciamentos coletivos, que lutam pelo seu direito ao uso da cidade.
É neste contexto de produção do espaço urbano que se desenvolve este
artigo tendo como estudo de caso o Pelourinho, na cidade de Salvador
- BA. Pretende-se abordar a área relativa à Sétima Etapa do Programa
de Revitalização do Centro Histórico de Salvador sob uma ótica mais
próxima da atuação dos moradores e de sua organização de resistência
mostrando como os discursos que permeiam o processo influenciam na
produção de subjetividade do lugar. Para construir tal reflexão, foi rea-
lizada revisão bibliográfica, análise do projeto implementado na área e
visitas a campo, momento em que ocorreram diálogos com moradores.

1
SANTOS, M. O Território e o Saber Local: algumas categorias de análise.
Cadernos do IPPUR, Rio de Janeiro, Ano XIII, N. 2, 1999, p.19.
2
MARICATO, Ermínia. Para entender a crise urbana. Cadernos do Núcleo de
Análises Urbanas da Universidade Federal do Rio Grande. Rio Grande, v. 8, n. 1, 2015.

40 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
As disputas pelo espaço do pelourinho:
A luta na sétima etapa e a formação dos discursos
A área do Pelourinho foi tombada, pelo Instituto do Patrimônio Histó-
rico e Artístico Nacional - IPHAN, como um conjunto urbano em 1959 e
declarado Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO, em 1985 3. No
final dos anos 1980, os edifícios dessa área apresentavam-se num pro-
cesso de deterioração muito substancial o que, na década de 1990, esti-
mulou o Governo do Estado da Bahia a dar início a um Programa de
Recuperação do Centro Histórico de Salvador, incluindo prioritaria-
mente a criação de um polo de atração turística e de atividades de lazer
e diversão. Alguns casarões históricos passaram por obras de restauro e
foram introduzidos novos usos a partir da retirada das famílias que ali
residiam, através de desapropriações e pagamento de indenizações.4
Diante disso, após as primeiras fases de execução do Programa, a
população residente caiu de 1674 famílias, que moravam nesse centro
histórico antes do início das intervenções, para apenas 103.5 A remoção
dessa população, paralelamente à sua transformação em um centro vol-
tado para o turismo, fez com que houvesse modificações na dinâmica do
local, como afirma Márcia Sant’anna,
[...] Porém, o que se observa a partir da análise do processo de inter-
venção iniciado em 1991, é que o aspecto particular da área, apesar
de utilizado como justificativa para a implantação do projeto, não
foi respeitado durante os longos anos de execução das obras, com a
substituição das características particulares por elementos da cul-
tura de massa, voltada para atender a um turismo de alta renda, o que
acarretou ainda em problemas relacionados à perda das atividades
cotidianas da área e à expulsão da população residente.6

3
BONDUKI, Nabil. Intervenções urbanas na recuperação de centros históricos.
Brasília, DF: IPHAN/Programa Monumenta, 2010. p. 326
4
BRAGA, Paula M.; JÚNIOR, Wilson R. dos S. Programa de Recuperação do Centro
Histórico de Salvador: políticas públicas e participação social. Revista de
pesquisa em arquitetura e urbanismo, São Paulo, v. 10, nº 2, p. 23-34, 2009
5
IBIDEM, 2009. p.28.
6
SANT’ANNA, M. 2009. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/ read/
arquitextos/ 09.107/59> Acesso em: 29/01/2017

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 41
A substituição dos usos residenciais e de comércio de subsistência por
comércios e serviços de alto padrão criou um grande cenário que já não
abrigava mais as importantes manifestações cotidianas características
da área. Neste sentido, o Pelourinho passou a ser um espaço ocupado,
em grande parte, por pessoas com pouco ou nenhum vínculo afetivo:
[...] a população local de baixa renda, transferida para outras áreas, foi
substituída pelo visitante sazonal de alta renda, gerando a mudança
do quadro populacional e de renda. Com a saída da população, houve
uma mudança das características culturais da área, comprometen-
do-se seu caráter singular, um dos itens a justificar o tombamento, já
que o visitante não tem raízes ou ligação cultural e afetiva com a área.
O turismo foi colocado acima das questões sociais e a função social,
essencial ao patrimônio cultural, foi aos poucos se perdendo.7

De início, a área recebeu muitos turistas, mas pouco depois esse público
começou a diminuir8. Portanto, foi observada a necessidade de uma
mudança no Programa de Revitalização a fim de preservar as caracterís-
ticas cotidianas daquela área. Paralelamente a este processo, cresceu na
região um movimento liderado pela Associação de Moradores e Amigos
do Centro Histórico de Salvador - AMACH, em busca do direito das
famílias residentes ali permanecerem.
A AMACH foi fundada em 03 de Julho de 2002 pelas 103 famílias que
resistiram ao processo de remoção com o objetivo de “denunciar, de forma
organizada e coletiva, o processo de exclusão social e expulsão dos mora-
dores tradicionais do Pelourinho”9. Segundo informações contidas no
site da Associação de Moradores, a luta não é apenas pela preservação do
patrimônio material da região, mas também em prol da qualidade de vida
da população residente e a garantia de permanência no “seu território”. O
Ministério Público passou a intervir em defesa dos interesses dos morado-
res cobrando uma participação mais efetiva do governo nas negociações.10

7
SANT’ANNA, 2009. Disponível em: http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/
arquitextos/ 09.107/59> Acesso em: 29/01/2017
8
SANT’ANNA, op. cit.
9
Disponível em <http://www.amach.com.br/p/instituicao-fundada-em-03-de-julho-
de.html> Acesso em: 25/01/2016.
10
BONDUK, op. cit., p.342-343.

42 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Em consequência, Ministério Público e governo do estado da Bahia
assinaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que previa a
permanência das famílias moradoras cadastradas pela associação de
moradores, num complexo arranjo de fontes de recursos de diversas
origens, capaz de viabilizar um novo desenho social, institucional e
financeiro para o projeto.11

Este Termo de Ajuste de Conduta estabelece diretrizes para a continuidade


do Projeto de Reabilitação do Centro Histórico e, em sua primeira cláusula,
consta a permanência das 103 famílias cadastradas pela AMACH12.
De acordo com informações colhidas no site da Associação, em 2006
foi dada a ordem de início das obras de recuperação de 103 Unidades
Habitacionais e 13 pontos comerciais destinados às famílias.
Apoio-me no pensamento de Márcia Sant’anna quando ela afirma que “A
participação da AMACH foi decisiva, em última instância, para a entrega,
em outubro de 2007, do primeiro imóvel recuperado para habitação de inte-
resse social”13, para evidenciar que a atuação da comunidade foi de grande
importância para a consolidação das habitações na sétima etapa.
Além da AMACH, ao longo dos anos, outros diversos movimentos
sociais também surgiram na área buscando fortalecer a luta por mora-
dia e o combate à gentrificação. A exemplo destes estão o “Aqui podia
morar gente” e “O centro antigo sangra”.
Ambos marcam as fachadas frontais de edificações abandonadas com
o nome do movimento (figuras 1, 2, e 3) como forma de protesto, evi-
denciando a existência de lugares que poderiam abrigar pessoas que, ao
mesmo tempo, dariam uso aos casarões.
Apesar de toda importância da atuação dos moradores e dos movi-
mentos sociais para a consolidação de todo esse processo, poucas foram
as fontes em que consegui encontrar informações, expressões e falas
deles, tanto durante o processo quanto atualmente, demonstrando uma
lacuna na história do lugar.

11
IBIDEM, p.343.
12
IBIDEM, p.343.
13
SANT’ANNA, op. cit.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 43
Fig. 01 | Inscrição em parede de sobrado
abandonado na Rua das Portas do
Carmo, Pelourinho, Salvador. Foto: Yara
Neves, Salvador, abril/2016.

Fig. 02 | Inscrição em parede de sobrado


abandonado na Rua das Portas do
Carmo, Pelourinho, Salvador. Foto: Yara
Neves, Salvador, abril/2016

Fig. 03 | Inscrição em parede de sobrado


abandonado na Rua da Praça da Sé,
Pelourinho, Salvador. Foto: Yara Neves,
outubro/2016, Salvador.

44 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
As lacunas
O fato de essas lacunas estarem relacionadas ao ponto de vista dos mora-
dores tem um significado forte. Em algumas de suas obras, Foucault fala
sobre procedimentos de exclusão que consideram o lugar de fala de deter-
minados grupos e retira de outros. Um desses procedimentos de exclusão
é o que ele chama de vontade de verdade. Ele afirma que, no século XIX,
insurgiu uma “vontade de verdade” que, apoiada em um suporte institu-
cional e reconduzida pela forma de aplicação do saber em uma sociedade,
tende a exercer uma pressão sobre discursos14.
Ele afirma que o discurso serve ao poder e produz as verdades do
mundo,
graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de
poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral”
de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcio-
nar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem
distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se
sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valo-
rizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o
encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.15

Outra forma de exclusão do discurso mencionada por ele é a rejeição.


Ele apresenta a figura do louco como o detentor de um discurso que não
é considerado verdade, não possui importância e, portanto, não é levado
em consideração.
Esse controle exercido sobre o discurso é uma forma de se construir a
história, escolher os fatos contados e eleger o que não será dito (lacunas)
e isso é feito sem que quem está conhecendo tal história perceba facil-
mente. Paul Veyne destaca que
as lacunas da história se fecham espontaneamente a nossos olhos e
que só as discernimos com esforço, tanto são vagas as nossas idéias
sobre o que devemos, a priori, esperar encontrar na história, como a
abordamos desprovidos de um questionário elaborado.16

14
FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 5ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 1999, p.11.
15
IDEM. A Microfísica do Poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio
de Janeiro. Edições Graal. 1979 p.10
16
VEYNE, Paul. Como se Escreve a História. 4ª ed. Brasília: Editora UnB, 1998, p.12.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 45
Essa forma de abordagem histórica dos lugares, que seleciona os discur-
sos, reflete diretamente na produção do espaço e no entendimento dele,
pois acaba consolidando processos a partir, somente, de alguns pontos
de vista, anulando a importância da atuação de outros agenciamentos
que os produzem. Por isso, Jacques Le Goff atesta que é preciso “questio-
nar a documentação histórica sobre as lacunas, interrogar-se sobre os
esquecimentos, os hiatos, os espaços brancos da história”17. No caso do
Pelourinho, é necessário atentar-se para a posição dos moradores e
movimentos sociais que atuaram no processo e que são responsáveis
pela construção do lugar ainda hoje.

Praticando o território
Foram realizadas algumas visitas de observação no Pelourinho buscando
conhecer a sua dinâmica e das pessoas que nele circulam. Logo no início
da área, após a praça da Sé, encontra-se o largo do Terreiro de Jesus. Nele
é possível reconhecer um comércio claramente mais direcionado ao
turismo com lojas de artesanatos, joias, restaurantes e barraquinhas de
acarajé das baianas instalado nos térreos dos casarões históricos.
As ruas mais próximas ao Terreiro também possuem estas característi-
cas, assim como aquelas que levam até o Largo do Pelourinho. Neste trajeto
é possível perceber que grande parte das edificações não aparentam estar
comprometidas e até passaram por manutenção recente em sua pintura.
Este trajeto é o que os moradores e comerciantes se referem como
o “circuito turístico” e descrevem como sendo aquele “seguro” para os
turistas caminharem.
Todavia, ao adentrar em outras ruas, fora deste chamado “circuito
turístico”, é que se começa a conhecer o “Pelourinho de seus habitantes”.
As fachadas dos casarões revelam condições bem mais precárias, há a
presença de ruinas e edificações escoradas devido ao risco de desaba-
mento e, a princípio, pode-se imaginar que estas áreas estão abando-
nadas, mas é preciso atentar-se um pouco mais aos detalhes: as roupas
penduradas nas janelas e guarda-corpos, os rostos que, lá de dentro,

LE GOFF, J. Prefácio. In: BLOCH, M. Apologia da História ou O Ofício de


17

Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed, 2001. p. 110

46 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
direcionam seus olhares para a rua, a mobília, a música e o cheiro das
refeições que povoam os interiores não deixam dúvidas: ali mora gente.
Claramente menos movimentadas, essas ruas, que estão espalhadas
entre o Terreiro de Jesus e a Baixa dos Sapateiros, abrigam, além das
moradias, um comércio de subsistência, que inclui pequenas farmácias,
bares e mercearias, lojas de utilidades e roupas, dinâmica bem seme-
lhante com a de outros bairros simples da cidade.
Todavia, a reação dos moradores ao se deparar com a presença de des-
conhecidos, que não fazem parte da comunidade, merece muita atenção
e reflexão.
Em uma das visitas mais recentes que realizei (30/01/2017), escolhi
como trajeto a área que possui algumas edificações que foram contem-
pladas na sétima etapa do Programa de Revitalização do Centro Histó-
rico. Farei uma breve narração dessa experiência para, a seguir, expor
algumas das reflexões que me foram suscitadas.
Por mais que evitasse tirar fotografias, olhar mapas ou qualquer outra
atitude que chamasse atenção, percebia, em cada lugar que passava, que
olhares desconfiados se direcionavam para mim e, já nas últimas ruas
que percorrera, fui abordada por um morador.
Sua primeira manifestação foi me alertar para o perigo que eu estava
correndo naquele lugar e, logo depois, me aconselhou a não entrar na rua
a qual já me direcionava. Observei a movimentação da rua e questionei o
porquê desses alertas se o lugar parecia tão tranquilo. Segundo ele, essa
área representava sim um perigo e levantou questões relacionadas à vio-
lência urbana, o que o fez reforçar seu conselho para que eu voltasse ao
“circuito turístico”18. Quis saber se ele era morador daquela rua, ele con-
firmou dizendo que morava e trabalhava ali. Então, perguntei se ainda
havia muitos moradores após as ultimas intervenções, o que ele confir-
mou rapidamente destacando que as obras que aconteceram os prejudica-
ram substancialmente. Durante toda esta conversa, suas respostas foram
curtas e apressadas, era nítido que sua maior preocupação era que eu não
entrasse em sua rua. Percebendo a inquietação do homem com minha
presença, encerrei o diálogo e segui na direção que ele havia me indicado.

18
Percebi um uso recorrente dessa expressão por parte dos moradores se referindo ao
trajeto do Terreiro de Jesus ao Largo do Pelourinho.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 47
Ao chegar no Terreiro de Jesus, fui abordada por outro morador que
estava trabalhando como vendedor ambulante e me viu subindo uma
rua não pertencente ao já citado circuito turístico.
Primeiramente, ele questionou-me se eu estava precisando de alguma
ajuda e respondi que não. Em seguida, ele me ofereceu o produto que
estava vendendo, eu agradeci e, novamente, respondi em negativa. Foi
então que ele me pediu licença e me alertou sobre o local por onde eu
havia passado, dizendo ser perigoso para turistas. Expliquei que não era
turista, que residia em Salvador e estava naquela rua para a realização
de um trabalho. Ele ressaltou que nada disso importava, a área era peri-
gosa para mim e que eu deveria me encaminhar ao serviço de informa-
ção para turistas, que fica no Terreiro e me informar sobre quais ruas eu
poderia passar sem me expor. Perguntei, também, se ele era morador
dali e ele respondeu rapidamente que sim, morava e trabalhava ali e
recolocou a questão do perigo daquelas ruas.
Buscando refletir sobre a preocupação dos moradores em relação
a minha presença nas ruas externas ao “circuito turístico”, primeira-
mente, pude relacionar os alertas dos dois moradores, com quem me
deparei mais diretamente, a episódios de violência urbana. O centro
antigo de Salvador tem um histórico de ser um lugar marginalizado,
com ocorrência frequente de assaltos e furtos. Esse estereótipo é refor-
çado pela mídia, que acaba colocando toda a população residente como
responsável pela “desordem” do lugar. Esse tipo de caracterização ali-
menta a ideia do poder público de eliminar esses moradores da área,
com suas intervenções de embelezamento do espaço, e “escondê-los”
nas áreas mais afastadas da cidade.
Tendo sido explicitada esta observação, levanto o questionamento: a
circulação de um forasteiro na parte ocupada por moradores do centro
histórico é perigosa pra quem?
Circular pelas ruas residenciais não me pareceu, a princípio, mais
perigoso ou inseguro do que em outras ruas da cidade. Todavia, qual-
quer tipo de afetação sofrida por um forasteiro nessa área significa que
os olhares se voltarão para lá de maneira negativa. Um acontecimento
como este reforçaria o estereótipo do lugar, causando julgamento e
podendo significar para eles novos enfrentamentos para o seu território.

48 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A cidade é um território de desigualdades e as ações aplicadas por parte
da polícia e do Estado em locais com indivíduos das mais baixas camadas
sociais se configuram, no geral, como abusivamente opressivas. Já foi res-
saltado anteriormente o poder que uma fala possui. E é se baseando em
um discurso de ordem e segurança que essas medidas violentas são toma-
das contra uma população estereotipada como “problema urbano”.
É interessante perceber que os próprios habitantes se apropriam
desta fala enunciada pelo poder público e reforçada pela mídia, para
manter os forasteiros afastados das ruas de suas residências. Diante
disso, aponto que o alerta de “perigo” poderia significar, na verdade,
uma forma de defesa da população. A maneira como encontraram para
proteger seu território dos visitantes que poderiam facilitar a ocorrência
de eventos em que a força de opressão atue sobre eles ameaçando a sua
dinâmica cotidiana no local em que reside.

Conclusão
Frente a todas essas questões levantadas podemos observar que o dis-
curso exerce uma grande influencia na formação de subjetividade rela-
cionada a compreensão de um lugar. A existência das lacunas anula a
produção do espaço de certo grupo de pessoas fazendo com que se
enfraqueçam como agentes produtores e, assim, seja mais fácil que
outros grupos com mais poder se efetivem.
O discurso pode, também, ser utilizado para criar estereótipos dos
lugares, influenciando na sua dinâmica e nas pessoas que o ocupam/
utilizam, como neste caso, em que o lugar sofre com um pré-julgamento
acerca da violência urbana e, ao mesmo tempo, sua população se apro-
pria da mesma fala como forma de resistência do território, como expli-
cado no final do capítulo anterior.
Concluo este artigo com um convite a arquitetos e urbanistas, que
são, pela natureza da profissão, pensadores e modificadores dos espaços
das cidades, a refletir sobre para onde está direcionado o olhar de seus
projetos e propostas? Que tipo de cidade você está produzindo? Seus
discursos e intervenções estão criando lacunas? Acredito que, ao nos
atentarmos para estes questionamentos, estaremos mais próximos de
colaborar para a efetivação de cidades mais democráticas.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 49
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A forma flexível como estratégia projetual
BRUNO MELO BR AGA
R IC A R DO A LEX A NDR E PA I VA

Universidade Federal do Ceará

Resumo
Este trabalho tem como objetivo realizar uma reflexão teórica sobre a
flexibilidade na arquitetura, enfatizando como as categorias de análise
dos espaços flexíveis, qual seja, o uso e a tecnologia, se expressam na
forma dos edifícios. Ao se levar a discussão sobre a forma arquitetônica
neste sentido, o atributo da flexibilidade como estratégia projetual mos-
tra-se um caminho possível para se evitar a obsolescência das edifica-
ções. O trabalho se vale de um referencial teórico sobre o tema para
propor uma metodologia de análise baseada nos parâmetros propostos
por Leupen (2006), que define um sistema de cinco camadas: estrutura,
pele, cenário, serviços e acessos. A partir destes, serão analisadas duas
edificações contemporâneas para atestar tais conceitos, uma em Portu-
gal, outra no Brasil. Por fim, espera-se contribuir para a reflexão e utili-
zação da abordagem proposta como estratégia projetual na concepção
de formas mais flexíveis e adequadas à condição contemporânea.

Palavras-Chave
Flexibilidade na arquitetura; Arquitetura contemporânea;
Teoria do projeto.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 53
Introdução
Em um cenário em que a transitoriedade ganha cada vez mais força em
várias esferas da existência material, os espaços construídos podem pas-
sar por várias mudanças em um curto período de tempo. Torna-se
patente, neste caso, refletir de que maneira a arquitetura pode respon-
der a tais mudanças, evitando a obsolescência das edificações. Ao se
levar a discussão sobre a forma arquitetônica neste sentido, o atributo
da flexibilidade como estratégia projetual mostra-se um caminho possí-
vel para se alcançar tal intuito, uma vez que os estudos sobre a flexibili-
dade na arquitetura abordam as práticas projetuais que potencializam,
por intermédio de espaços flexíveis, o uso das construções, com reper-
cussões importantes na forma do edifício, considerada aqui menos como
figura e mais como a lógica do objeto (KAPP, 2003).
Embora muitos dos estudos sobre o tema foquem nas partes cam-
biáveis dos espaços, é importante atentar para abordagens que valori-
zam os elementos que são permanentes e duráveis, ambas as direções
podendo contribuir para a consecução de formas arquitetônicas abertas.
Assim, o uso e a tecnologia se colocam como duas importantes cate-
gorias que servem de ponto de partida para o estudo da flexibilidade
nas edificações. O primeiro se aplica mais ao modo como o edifício é
usado e ocupado ao longo do tempo, geralmente referente à flexibilidade
expressa na planta, e o segundo lida com as questões construtivas e de
serviços, e como estas afetam o potencial de flexibilidade do edifício.
Assim, o objetivo deste trabalho é propor uma reflexão teórica e concei-
tual sobre a flexibilidade na arquitetura, enfatizando como as categorias
de análise dos espaços flexíveis, qual sejam o uso e a tecnologia, se expres-
sam na forma, se valendo da análise de dois edifícios contemporâneos
emblemáticos, um construído no Brasil e outro em Portugal, para validar
as proposições. A abordagem metodológica de análise será baseada nos
parâmetros propostos por Leupen (2006), que define um sistema de cinco
camadas, cada qual composta por um ou mais elementos arquitetônicos:
estrutura, pele, cenário, serviços, e acessos. Por fim, espera-se que, a par-
tir dos exemplares analisados, seja possível contribuir para a reflexão e
utilização da abordagem proposta como estratégia projetual na concep-
ção de formas mais flexíveis e adequadas à condição contemporânea.

54 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Flexibilidade na arquitetura
A flexibilidade é um conceito que abrange uma diversidade de interpre-
tações e que tem sido explorado em distintos campos do conhecimento.
Em arquitetura, o estudo sobre conceitos e parâmetros de flexibilidade
tem gerado cada vez mais interesse e são vários os autores que tem abor-
dado este tema dentro da disciplina.
Como afirma Jorge (2012), as definições de espaços flexíveis em arqui-
tetura remetem à natureza do espaço arquitetônico, principalmente no
que se refere a aspectos relacionados ao uso e à construção, abordando
conceitos como adaptabilidade, participação, polivalência, evolução,
multifuncionalidade, dentre outros.
Resumindo estes conceitos, segundo Leupen (2006), é possível che-
gar a três formas de se trabalhar a flexibilidade nas edificações: atra-
vés de alterações internas (alterability), de ampliações (extendability)
ou polivalência (polyvalence), que permite que o espaço seja usado de
diversas maneiras sem alterações físicas.
A flexibilidade tornou-se um tema na arquitetura ocidental no início
do século XX, quando os arquitetos, imbuídos dos efeitos das transforma-
ções sociais da modernidade na produção, uso e apropriação da arquite-
tura, depararam-se com as demandas da construção de conjuntos habita-
cionais em massa. Foram justamente as questões em torno da habitação
mínima que estimularam o pensamento sobre flexibilidade nos anos 1920
e 1930. Nos anos 1960 e 1970 novas visões sobre o tema emergiram, em
especial na Holanda, onde surgiram vários estudos acerca de espaços
mutáveis, partes móveis e variações de layout interno (LEUPEN, 2006).
Vale destacar, ainda, que esta revisão surge como uma crítica à produção
do período de reconstrução pós-guerra, nos anos 1940 e 1950.
A abordagem aqui adotada parte da análise das partes que são perma-
nentes e duráveis, e não das mutáveis, como discute Bernard Leupen em
“Frame and Generic Space”. Leupen interpreta que o que é permanente,
ou seja, as partes que podem durar gerações, que ele chama de frame,
compõem a estrutura a partir da qual as mudanças podem acontecer
(LEUPEN, 2006). Visão similar teve Roberto Tibau (1972), ao afirmar
que o problema básico da flexibilidade na arquitetura não consiste na
resolução do que é transitório, e sim em fixar o seu conjunto invariável.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 55
É possível, então, inferir que os estudos sobre a flexibilidade na arqui-
tetura abordam as práticas projetuais que potencializam, por intermédio
de espaços flexíveis, o uso das construções. Tais ações visam, também, a
permanência destes edifícios, o que se verifica ou por intermédio de solu-
ções mais abertas, considerando o edifício como algo capaz de crescer e se
reconfigurar ao longo do tempo, ou de estratégias de projeto relacionadas
à transformação (MACIEL, 2015). Em consonância com Schneider e Till
(2005a), é possível determinar o grau de flexibilidade das edificações de
duas maneiras: na capacidade da própria construção se adaptar a diversos
usos sociais e na possibilidade de promover diferentes arranjos físicos.
Em síntese, o uso e a tecnologia se colocam como as duas importantes
categorias que servem de ponto de partida para o estudo da flexibilidade
nas edificações. O primeiro se aplica mais ao modo como o edifício é
usado e ocupado ao longo do tempo, geralmente referente à flexibilidade
visível em planta, e o segundo lida com as questões construtivas e de
serviços, e a forma como estas afetam o potencial de flexibilidade do
edifício. Estas duas categorias podem, então, se subdividirem em técni-
cas soft (suaves), em que o usuário adapta o espaço de acordo com suas
necessidades, ou hard (duras), em que os espaços determinam como
podem ser utilizados e adaptados. (SCHNEIDER; TILL, 2005b).
A abordagem metodológica de análise das edificações do presente
trabalho será baseada nos parâmetros propostos por Leupen (2006),
quando ele define um sistema de cinco camadas, cada qual composta
por um ou mais elementos arquitetônicos (figura 01). Assim, neste
estudo as edificações serão divididas nas seguintes camadas:
– a estrutura (colunas, vigas, paredes estruturais, treliças e lajes estru-
turais) é a parte que suporta as cargas do edifício;
– a pele (revestimento de fachada, base e coberta) separa o interior do
exterior;
– o cenário (revestimentos internos, portas e paredes internas, pisos e
tetos) ordena e limita os espaços;
– os serviços (canos, cabos, aparelhos e equipamentos especiais) regu-
lam o suprimento e distribuição de água, energia, informação e ar,
além de incluir as peças e espaços destinados a estes;
– e os acessos (escadas, corredores, elevadores e galerias) cuidam da
acessibilidade do espaço e/ou dos ambientes individuais.

56 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 01 | Esquema da metodologia adotada. Fonte: Elaborado pelo autor a partir de
Leupen (2006) e Schneider e Till (2005 a)

A discussão supracitada será a premissa para o estudo da flexibilidade,


que, apesar da sua abrangência e possibilidades de aplicação, inclusive
no que se refere à escala urbana, ficará restrita à análise do edifício indi-
vidual. Na sequência, a análise destacará como tais princípios se inse-
rem de maneira mais específica nos estudos de caso selecionados no
Brasil e em Portugal.
As experimentações de aplicação de princípios de flexibilidade na arqui-
tetura têm início na primeira metade do século XX com os primeiros arqui-
tetos modernos. Estas experiências intensificam-se no último quarto do
século XX e início do século XXI. Seja em edifícios públicos ou privados,
de pequena ou grande escala, habitacionais ou institucionais, em qualquer
destes casos é possível perceber a aplicação dos conceitos aqui discutidos,
uma vez que as mudanças, sejam elas de uso ou tecnologia, acontecem de
maneira cada vez mais rápida. Com afirma Bauman (2011), na atualidade a
duração perde seu valor e a transitoriedade é cada vez mais valorizada. A
tecnologia, em especial, tem um desenvolvimento intenso e traz grandes
impactos significativos para noção de espaço e de tempo.
Assim, torna-se patente refletir de que forma a arquitetura pode
responder a estas mudanças, evitando a obsolescência das edificações.
Scheinder e Till (2005a) sugerem que se comece evitando atitudes que
levem à inflexibilidade a partir de três pontos: da construção, evitando
elementos portantes como divisões internas estruturais e cobertas que
impeçam ampliações futuras; das tecnologias, reduzindo serviços não

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 57
acessíveis e não adaptáveis; e do uso do espaço, eliminando o funciona-
lismo rígido e ambientes que só possam ser usados de uma forma. Neste
sentido, se aproxima ao conceito de polivalência de Hertzberger (1999),
quando ele afirma que a única abordagem construtiva capaz de gerar
uma forma sujeita à mudança, uma forma polivalente, capaz de se ade-
quar a diversos usos sem que ela própria mude, é uma abordagem que
considere a própria mudança como fator permanente.

Análise dos edifícios


Colocada a base teórica e esquema metodológico de aproximação de
análise, torna-se fundamental aplicá-los na leitura crítica de obras cons-
truídas. Para isto, foram escolhidas duas edificações contemporâneas,
baseadas em alguns pressupostos: obras construídas nos últimos dez
anos configurando o recorte temporal; já no que se refere ao recorte
espacial, foi selecionada uma obra no contexto brasileiro e outra no por-
tuguês, alinhando-se à temática do Seminário; os dois países possuem
uma cultura arquitetônica contemporânea fortemente enraizada na tra-
dição moderna; por fim, as obras obtiveram reconhecimento em pre-
miações internacionais, participação em mostras e bienais, ratificando a
relevância dos exemplares selecionados.
No que se refere à relação com o tema da flexibilidade, a escolha foi guiada
por que ambos são de uso administrativo, tipologia em que a flexibilidade
comparece de maneira evidente, apresentando, pelas demandas que lhe são
impostas, avanços na solução dos arranjos espaciais que visam este fim.
Assim, nestes o princípio da flexibilidade é concebido de maneira
mais clara e didática, pois exige, em sua essência, atributos de adaptabi-
lidade. Como afirma Duarte (19-?) sobre as edificações coletivas de cará-
ter administrativo, sejam comerciais ou de serviços, a função genérica
pode permanecer a mesma, mas sempre há modificações e variações de
área, além da necessidade de maleabilidade uma vez que não se conhece
os futuros ocupantes, apenas sua função genérica e não as particulari-
dades de como será utilizada futuramente.
Observa-se, portanto, que estes edifícios são submetidos a alterações
constantes tanto no que se refere ao uso, uma vez que as mudanças de
layout e redistribuição de setores são quase cotidianas, quanto à tec-

58 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
nologia, uma vez que estão sempre se adequando a exigências legais e
atualizando aspectos técnicos para seu funcionamento.
Dentro do panorama citado anteriormente, um exemplo da produção
brasileira contemporânea que se utiliza da flexibilidade como princípio
projetual de forma bastante didática é a sede do SEBRAE Nacional, em
Brasília, de autoria dos arquitetos Álvaro Puntoni, João Sodré e Jonathan
Davies, do escritório Grupo SP, em parceria com Luciano Margotto1. O
projeto, realizado através de concurso público em 2008 e cuja obra foi
finalizada em 2010, divide o programa em três setores: nos pavimen-
tos inferiores, ficam garagem e atividades administrativas de serviços;
na base, dividida em dois “térreos” pelo aproveitamento da topografia,
situam-se as funções coletivas que recebem público externo; e nos pavi-
mentos superiores estão as funções administrativas (figuras 02 e 03).

Fig. 02 | Edifício Sede SEBRAE Nacional, em Brasília. Fonte: Nelson Kon

1
A Sede do SEBRAE Nacional foi reconhecida em diversas premiações, dentre as
quais: VIII BIAU – Bienal Iberoamericana de Arquitetura, WORLD ARCHITECTURE
COMMUNITY AWARDS 10th CYCLE, XIII BIENAL INTERNACIONAL DE
ARQUITETURA DE BUENOS AIRES (BA11), PRÊMIO APCA e IV PRÊMIO
ARQUITETURA & CONSTRUÇÃO “O Melhor da Arquitetura”.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 59
Fig. 03 | Corte longitudinal - Edifício Sede SEBRAE Nacional, em Brasília. Fonte:
http://www.gruposp.arq.br/?p=33

Já no contexto português, o edifício escolhido foi a nova Sede Corporativa


da EDP2, em Lisboa, de autoria do escritório local Aires Mateus, liderado
pelos irmãos Francisco e Manuel Aires Mateus. Projetado em 2008, a edi-
ficação teve sua construção finalizada em 2015, e é composta por um
grande embasamento no térreo, sobre o qual se elevam em cantos opostos
duas torres de sete pavimentos, que envolvem uma grande praça central,
além de um subsolo distribuído em seis níveis. Esse ordenamento geral
das funções, como se pode perceber, segue a mesma lógica do edifício do
SEBRAE. Como os próprios arquitetos colocam, o edifício foi desenhado a
partir dos elementos verticais, e pode ser resumido em modulação, estru-
tura, infraestrutura e proteção solar (figura 04).
No que se refere à flexibilidade de uso, já se percebe nos dois edifícios
o modo como a distribuição do programa é explorada para gerar espa-
ços flexíveis. A começar pelo átrio de chegada, espécie de pátio central
de dimensões amplas e sem uso pré-definido, um espaço polivalente
que atua muito mais como mediador entre o edifício e a cidade do que
propriamente para abrigar uma função. Através da distribuição que se
verifica a partir deste nível, os fluxos se dividem entre os ambientes mais
específicos e coletivos do programa, como estacionamentos e auditó-
rio, localizados nos subsolos, onde encontram-se vagas para veículos e
partes mais públicas do programa, como auditório, e os pavimentos de
escritórios, localizados acima deste nível térreo, que se apresentam mais
genéricos e flexíveis e compõem o corpo mais visível dos edifícios.

2
Selecionado para a X BIAU, em 2016.

60 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 04 | Edifício Sede Corporativa EDP, em Lisboa. Fonte: Juan Rodrigues

Os edifícios possuem duas lâminas onde se delimitam a parte mais


mutável e genérica do programa, na qual se busca a máxima flexibili-
dade dos espaços, com pavimentos completamente livres, visíveis tanto
na disposição em planta como também com relação a instalações pre-
diais e de infraestrutura, confirmando que a flexibilidade se baseia tam-
bém na tecnologia.
No caso do edifício do SEBRAE, utilizam-se estratégias como piso ele-
vado, forro e ausência de pilares internos, permitindo mudanças de layout
sem interferência na estrutura geral do edifício. Todos estes setores estão
conectados por um esqueleto periférico duplo formado por duas torres de
circulação vertical, infraestruturas e apoios diversos, onde se concentram
serviços e acessos (figura 05). A partir daí, todos os elementos infraestru-
turais se distribuem para o restante do conjunto através de lajes com ins-
talações e shafts. Neste caso, a flexibilidade é potencializada pela conexão
entre as duas lâminas, realizada por meio de circulações, repercutindo
positivamente na definição de um pátio interno.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 61
Fig. 05 | Planta
nível +1070,05 da
Sede SEBRAE
Nacional, em
Brasília. Fonte:
http://www.
gruposp.arq.
br/?p=33

No caso da Sede da EDP, a estratégia é um pouco distinta, uma vez que os


acessos ficam distribuídos em meio às próprias lâminas, cada qual com
dois pontos de acessos e serviços, dividindo o restante do pavimento tipo
em três espaços predominantemente abertos (figura 06). Esta estratégia
fragmenta mais o pavimento como um todo, mas possibilita que os pró-
prios núcleos rígidos atuem como divisores de funções e dos espaços.
Assim, de acordo com a classificação de Leupen, é possível perceber
como a estratégia nos dois projetos é de fixar sua estrutura, acessos e ser-
viços, criando possibilidades de distribuições de cenários internos das
mais variadas maneiras em grandes pavimentos livres, contribuindo para
a flexibilidade. A pele também surge como elemento independente, que se
descola do uso interior e confere um caráter mais genérico aos edifícios.
Mas isso ocorre de maneiras distintas nos dois projetos. Se no do SEBRAE
a pele possibilita a intervenção do usuário através dos painéis móveis, no
edifício português o elemento é fixo, e a flexibilidade dos espaços é indi-
cada através da variação do perfil metálico, que, independente dos usos
internos, veda todo o edifício gerando um aspecto final mais genérico,
portanto flexível, que parece muito mais interessado em explorar luz e
sombra do que estabelecer uma relação com os elementos internos.

62 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 06 | Planta
nível +0,00 da
Sede Corporativa
EDP, em Lisboa.
Fonte: X BIAU

Considerações Finais
A arquitetura moderna contribuiu sobremaneira para potencializar os atri-
butos de flexibilidade na produção da arquitetura em consonância com os
usos e as tecnologias suscitadas pela modernidade. O cenário contemporâ-
neo, com o advento de novos usos e tecnologias sob a égide da informação
e da computação, continua condicionando e demandando edifícios flexí-
veis, premissa que mais do que nunca precisa ser prevista no projeto.
Os dois exemplos apresentados, marcados pela racionalidade, coe-
rência construtiva, apuro tecnológico, simplicidade e austeridade da
forma, demonstram um enraizamento em princípios modernos que,
sem dúvida, não se esgotaram e possuem validade na atualidade, pro-
movendo um sentido de continuidade, ao mesmo tempo em que incor-
poram e retificam aspectos do funcionalismo estrito.
Ainda que os edifícios enfatizem a pele como um elemento impor-
tante na consecução da forma, não o fazem como um aplique decorativo
ou um “verniz estetizante”, atitude frequente na produção da arquite-
tura desde o pós-modernismo, que busca conferir primazia à imagem
em detrimento de outros aspectos importantes do edifício. Embora
pareça contraditório, a versatilidade e independência do invólucro em
relação à função presentes nos exemplares é justamente o que torna a
forma flexível, promovendo a permanência do edifício e evitando a sua
obsolescência, a despeito das inúmeras transformações que o espaço
possa vir a ser submetido.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 63
Como resultado deste trabalho, espera-se não apenas propor uma
metodologia de análise capaz de identificar os atributos de flexibilidade
na compreensão e concepção da forma na arquitetura atual, como tam-
bém recomendar este caminho como uma possibilidade viável e ade-
quada de se pensar a condição contemporânea da arquitetura.

Bibliografia
BAUMAN, Zygmunt, Bauman sobre Bauman: diálogos com Keith Tester, Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2011.
DUARTE, Hélio de Queiroz, Espaços flexíveis: uma consequência em arqui-
tetura, [S.l. : S.N.], 19-?;
HERTZBERGER, Herman, Lições de Arquitetura, São Paulo, Martins Fontes, 1999;
JORGE, Liziane de Oliveira, Estratégias de flexibilidade na arquitetura resi-
dencial multifamiliar, 2012. 511 pp. Tese (Doutorado) – Universidade de São
Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, 2012;
KAPP, Silke, Forma na Arquitetura: um palimpsesto, Interpretar Arquitetura,
Belo Horizonte, v. 3, n.6, p. 3, 2003;
LEUPEN, Bernard, Frame and generic space. A study into the changeable
dwelling procceding from the permanent, Rotterdam, 010 Publishers, 2006;
MACIEL, Carlos Alberto, Arquitetura como infraestrutura, 2015, 378 pp. Tese
(Doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Arquitetura,
Belo Horizonte, 2015;
SCHNEIDER, Tatjana; TILL, Jeremy, Flexible housing: opportunities and lim-
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______, Flexible housing: the means to the end, Architectural Research
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end. Acesso em: 02 set. 2016;
TIBAU, Roberto, Arquitetura e flexibilidade: sobre os valores formais de
uma organização espacial passível de imprevisíveis modificações de
programa, 1972, Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) - Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1972.

64 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A linguagem da produção social da saúde
e sua espacialidade: desafios da hierarquização
e organização territorial urbana
dos equipamentos de saúde no Brasil.
JAQUELINE DE LIM A PIR ES
LUCI A NO MUNIZ A BR EU
R EGINA CÉLI A LOPES A R AUJO

DAU/IT – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ, Brasil

Resumo
No setor de saúde os territórios estruturam-se por meio de redes de ser-
viços ofertadas pelo Estado. Sua organização no espaço geográfico é
orientada por instrumentos normativos que asseguram princípios do
Sistema Único de Saúde. O setor padece de problemas como as desigual-
dades e iniquidades causadas pela fragmentação do Sistema. O traba-
lho, numa perspectiva histórica, pontua questões da organização
territorial urbana dos serviços de saúde no Brasil, notadamente, aquelas
relacionadas à espacialização das Redes de Atenção à Saúde. O objetivo
é compreender a evolução da territorialização da saúde, a partir do
modelo vigente. A metodologia utilizada é baseada na revisão dos nor-
mativos e numa análise teórico-crítica sobre a influência da territoriali-
dade na definição dos limites e configurações das regiões de saúde. Os
resultados indicam avanços na construção das Redes, mas há questões
teórico-metodológicas que precisam ser equacionadas, referente à
modelagem destas numa ótica multidisciplinar relacionada aos aspec-
tos físico-territoriais.

Palavras-Chave
Territorialização, normativos SUS, descentralização, regionalização,
redes de saúde

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 65
Introdução
No setor de saúde os territórios estruturam-se por meio de horizontali-
dades e verticalidades constituindo redes de serviços ofertadas pelo
Estado aos cidadãos. Sua organização e operacionalização no espaço
geográfico são orientados por instrumentos normativos, que asseguram
princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS).
O presente trabalho se debruça, numa perspectiva histórica, em
pontuar as principais questões enfrentadas na organização territorial
urbana dos serviços de saúde no Brasil, frente aos desafios impostos
pelos normativos, notadamente, aquelas relacionadas à espacialização
da Rede de Atenção à Saúde, RAS. O objetivo é descrever o processo de
territorialização das RASs procurando-se compreender a evolução de
sua estruturação, padrões de organização dos territórios de saúde e dos
seus equipamentos assistenciais, com base nos fundamentos instituti-
vos do SUS de universalidade, integralidade, equidade, descentraliza-
ção, regionalização e hierarquia.
O diálogo entre o urbano e a saúde, sob o viés espacial e multies-
calar, se intensifica na medida em que ocorre a necessidade de lidar
com questões relacionadas às grandes extensões territoriais, ao grande
contingente populacional e às profundas desigualdades regionais.
Neste contexto, a realização de análises pode direcionar esforços para
o enfrentamento dos desafios relacionados ao tema, na experiência
brasileira. A metodologia utilizada é baseada na revisão dos principais
documentos normativos que envolvem questões de espacialidade dos
serviços de saúde e numa análise teórico-crítica, à luz de um enfoque
histórico-social, sobre o modo como vem se dando a racionalidade de
apropriação dos territórios pelas RASs.

As Redes de Saúde e os Territórios


A RAS se constitui em serviços que se estruturam numa rede de pontos
de atenção composta por equipamentos de assistência à saúde de dife-
rentes densidades tecnológicas. O SUS vem gradativamente se ade-
quando para funcionar com esse padrão organizativo de serviços.
Embora as redes de serviços de saúde já estivessem previstas na
Constituição, desde 1988, sua efetivação só se deu com a Portaria nº

66 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
4.279/2010, vindo estabelecer as diretrizes de estruturação do SUS em
rede, com o objetivo de assegurar ao usuário do SUS o conjunto de ações
e serviços que necessita.
O cenário nacional de saúde da época, da referida portaria, e que
perdura até os dias atuais, é um perfil epidemiológico caracterizado por
uma tripla carga de doenças, decorrente de transformações socioeconô-
micas e de estilo de vida que vem impactando diretamente no quadro
de saúde da população brasileira. Uma das consequências principais é a
ascensão das doenças crônicas, que passaram a assumir papel de desta-
que junto às prioridades da agenda de saúde, somando-se a convivência
com problemas não superados, doenças infecciosas e carenciais, e as
geradas por causas externas (VILAÇA, 2011).
Nesta conjuntura, a RAS surgiu como possibilidade de reestrutura-
ção dos serviços e processos de saúde, buscando-se compatibilização
entre as diretrizes do SUS e o perfil epidemiológico da população brasi-
leira, com vista à superação de um sistema fragmentado e voltado priori-
tariamente para o enfrentamento de condições agudas (VILAÇA, 2011).
Para adequar o funcionamento dos serviços do SUS em redes foi neces-
sária a estruturação de territórios em regiões de saúde. A integração das
redes nos territórios deve se dar por meio do estabelecimento de relações
de horizontalidade e verticalidade com base nos fundamentos: econo-
mia de escala, integralidade da atenção e equidade na acessibilidade para
todos os cidadãos aos pontos de saúde (GONDIN, MONKEN, 2008).
A horizontalidade das redes se dá pela organização poliárquica dos
pontos de atenção à saúde para uma região, em que as referências e
contrarreferências conformam-se às necessidades de cada usuário, de
acordo com o nível de atenção e as densidades tecnológicas exigidos.
Portanto, não há uma hierarquia para os fluxos entre os diferentes pon-
tos de atenção. Para auxiliar esse processo, Linhas de Cuidado foram
definidas, a partir de diretrizes clínicas, com orientações dos fluxos para
uma dada região de saúde em resposta às demandas epidemiológicas de
maior relevância (VILAÇA, 2011).
A verticalidade refere-se à definição dos níveis de atenção,
fundamentais para o uso racional dos recursos, estes estruturam-se por
meio de arranjos produtivos segundo as densidades tecnológicas sin-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 67
gulares, variando do nível de menor densidade (Atenção Primária), ao
de densidade tecnológica intermediária, (Atenção Secundária), até o de
maior densidade tecnológica (Atenção Terciária) (BRASIL, 2010).
Considerando-se que os serviços de saúde são dispostos em redes
através de pontos de atenção e que estes são formados por equipamen-
tos de diferentes níveis de densidade tecnológica, ao se fazer o plane-
jamento para uma determinada região é importante se pensar numa
composição híbrida que combine a concentração de certos serviços com
a dispersão de outros. Então nesta lógica e com base nos fundamentos
de organização de redes citados, serviços de atenção primária à saúde
que hoje representam a porta de entrada, onde se dá o primeiro contato
do usuário com o SUS, devem ter pequena área de abrangência e, por
isso, serem dispersos e numerosos se situando próximos à população,
com capacidade de absorver a adesão e acompanhamento de saúde de
todos. Ao contrário, serviços que dependem de tecnologias mais com-
plexas e de recursos mais especializados, como, por exemplo, unidades
de diagnóstico e hospitalares, devem ser mais concentrados e com maior
área de abrangência, considerando-se que devido aos altos custos e aos
recursos mais escassos que esses equipamentos devem ser locados den-
tro de critérios de economia de escala (BRASIL, 2008; 2012).
A implantação das RASs no contexto do SUS vem ocorrendo num pro-
cesso de territorialização da saúde que evolui gradativamente pelos ins-
trumentos normalizadores de descentralização e regionalização da saúde
A “territorialização da saúde” neste trabalho é entendida como o
processo histórico de apropriação do espaço pelos serviços de saúde na
conformação de territórios. Onde, os territórios de saúde são recortes do
espaço urbano definidos segundo a lógica das relações entre ambiente,
condições de vida, situação de saúde e acesso às ações e serviços de
saúde (GONDIN e MONKEN, 2008).
Verifica-se que a organização dos serviços de saúde e a definição de seus
territórios encontra-se em permanente movimento de construção, con-
forme é demonstrado no estudo dos instrumentos normalizadores do SUS.

68 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Instrumentos Normativos do SUS na Territorialização
Urbana das Redes de Saúde no Brasil
Para uma melhor compreensão dos desafios e dificuldades do processo
de territorialização urbana das RASs, buscou-se entender a formação
dos territórios de saúde através do estudo dos documentos normativos.
A criação do SUS, alicerçada em bases teóricas sólidas da Reforma
Sanitária, foi homologada pela Constituição Federal de 1988 e regula-
mentada pelas leis nº 8.080/90 e nº 8.142/90, sendo que, para sua imple-
mentação foram publicadas normativas, instituídas por meio de porta-
rias ministeriais. Essas últimas definiram as responsabilidades de cada
esfera de governo, estratégias e movimentos para dar operacionalidade
ao Sistema e instrumentos de avaliação do desempenho do SUS.
Dentre as normativas, foram publicadas três principais Normas Ope-
racionais Básicas (NOBs)1. Estas visaram à reordenação dos modelos de
atenção e de gestão da saúde, definindo os papéis das esferas e os seus
instrumentos de gestão; os critérios e fluxos de financiamento; o acom-
panhamento, controle e avaliação do SUS; participação e controle social.
Pode-se citar como aspectos importantes para o início da territoria-
lização da saúde a autonomia parcial que os municípios passaram a ter
sobre a formação do seu sistema de saúde através da transferência de
recursos de forma regular e automática, e assumindo unidades de saúde
do estado que passaram para a gestão do municipal.
Outra questão de grande relevância da municipalização foi a coleta
de dados para o estudo da demanda, por parte dos gestores, sendo
levado em consideração: características geográficas, fluxo de demanda,
perfil epidemiológico e a oferta de serviços.
A instituição das Comissões Intergestores Bipartite, CIB, (de âmbito
estadual) e Tripartite, CIT, (nacional), também deve ser registrada como
importante decisão para a gestão do SUS.
Da mesma forma, foi marcante neste período a consolidação do Pro-
grama de Saúde da Família (PSF), que mediante o estabelecimento de
incentivos financeiros, o Piso da Atenção Básica (PAB), favoreceu a expan-
são da oferta de serviços nesse nível de atenção nos territórios urbanos.

1
A NOB/91/MS (BRASIL, 1991), a NOB/93/MS (BRASIL, 1993) e a NOB 96/MS
(BRASIL, 1996).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 69
A generalizada adesão dos municípios, à Gestão Plena da Atenção Básica,
preenchendo minimamente aos requisitos necessários, gerou grande difi-
culdade por parte desses para lidar com os novos sistemas de gestão, prin-
cipalmente os municípios menores e mais carentes que são em grande
número no país. Tal fato associado a heterogeneidade das realidades muni-
cipais contribuiu para dificultar a articulação estado-municípios no que
tange à responsabilidade dos estados pelo planejamento da oferta do apoio
logístico e pela programação pactuada das referências intermunicipais.
Então, a limitação institucional na oferta de serviços pelos nume-
rosos municípios de baixa população, as diferentes realidades loco-re-
gionais não contempladas nas diretrizes constantes nos normativos de
saúde e a falta de articulação das esferas de gestão entre as múltiplas
escalas de planejamento exigido pelos sistemas de saúde nacionais, fez
com que se gerasse um sistema fragmentado, distante da formação de
redes regionalizadas e dos demais princípios institutivos do SUS
Em 2001, buscando dar continuidade ao processo de implantação do
SUS e a superação de problemas identificados na integração das redes de
saúde, ocorreu a publicação da Norma Operacional da Assistência à Saúde
(NOAS) (BRASIL,2001), tendo como eixo norteador a regionalização. O foco
foi o aumento da equidade de acesso, através da organização de sistemas de
saúde funcionais que envolvessem todos os níveis de atenção, não neces-
sariamente confinados aos territórios urbanos municipais e, portanto, sob
responsabilidade coordenadora das Secretarias Estaduais de Saúde (SES).
Dentre os objetivos traçados para se estruturar as redes regionaliza-
das foi instituída como estratégia territorial a obrigatoriedade por parte
de cada uma das SESs a coordenação de um Plano Diretor de Regiona-
lização (PDR). A NOAS representou uma forte retomada do poder do
estado, na responsabilidade de reorganizar as redes com maior capaci-
dade de dar respostas aos problemas de saúde em sua área geográfica.
A elaboração do PDR deveria subdividir o espaço geográfico do estado
em Regiões de Saúde com enfoque territorial-populacional, não neces-
sariamente restrito à abrangência municipal, mas que garantisse níveis
adequados de resolução dos problemas de saúde da população. As ins-
tâncias regionais deveriam ser áreas de referência para o planejamento,
mas não se constituir em uma unidade administrativa, sendo esta fun-
ção apenas dos órgãos gestores estaduais e municipais (BRASIL, 2001).

70 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Numa perspectiva de territorialização, a NOAS estabeleceu critérios
para a divisão dos estados em territórios de saúde. Foram propostas
divisões em níveis escalares, correlacionando o nível de atenção a ser
prestado com a área de abrangência e a população adscrita para cada
nível e, portanto, estabelecendo uma hierarquia de abrangência terri-
torial com base na densidade tecnológica. Dentro destes critérios ficou
assegurada a indivisibilidade dos territórios municipais.
Segundo Vilaça (2011) essa norma apresentava pontos de fragilidade
na sua concepção teórica, na qual o foco era a gestão da oferta ao invés
da demanda e a hierarquização dos níveis da rede do sistema que gerou
extrema burocratização.
O Pacto pela Saúde (BRASIL, 2006) foi uma normativa do SUS esta-
belecida através de consenso entre os três entes federativos, incorporava
três componentes: o Pacto pela Vida, o Pacto em Defesa do SUS e o Pacto
de Gestão do SUS.
Como uma política para resolução dos desafios e dificuldades do SUS
na qualificação da gestão pública e na busca de maior eficiência e quali-
dade, a implementação do Pacto pela Saúde se deu pela adesão de Muni-
cípios, Estados e União ao Termo de Compromisso de Gestão (TCG).
O TCG estabelece metas e compromissos para cada ente da federação,
sendo renovado anualmente (CONASS, 2016).
No componente Pacto de Gestão a regionalização foi o eixo norteador,
responsável por orientar o processo de identificação e construção de Regi-
ões de Saúde em que os principais instrumentos de planejamento foram: o
Plano Diretor de Regionalização (PDR), o Plano Diretor de Investimento
(PDI) e a Programação Pactuada e Integrada da Atenção à Saúde (PPI).
Para o recorte dos territórios de saúde, delimitados pelo PDR, ficou
definido dois níveis escalares de abrangência: Regiões de Saúde, onde
deve estar garantido o desenvolvimento da atenção básica da assistên-
cia, parte da média complexidade, e as ações básicas de vigilância em
saúde; e Macrorregiões de Saúde, responsável pela oferta de ações e
demais serviços de média e alta complexidade.
Outro avanço significativo da territorialização da saúde, a partir
de 2006, se deu pela flexibilização das configurações que as regiões de
saúde poderiam assumir, considerando-se as características de sua base
geográfica. Tal fato permitiu um enquadramento mais adequado às con-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 71
dicionantes sociais e físico-territoriais de cada realidade local, definindo
diferentes modos de abrangências e delimitações aos serviços de saúde.
As novas possibilidades de regiões propostas foram: Regiões de Saúde
Intramunicipais, organizam-se dentro de um mesmo município de
grande extensão territorial e densidade populacional; Regiões de Saúde
Intraestaduais, compostas por municípios territorialmente contíguos
e pertencentes a um mesmo estado; Regiões de Saúde Interestaduais,
compostas por municípios territorialmente contíguos, mas pertencen-
tes a estados diferentes (dois ou mais) – situação comum a áreas limítro-
fes entre territórios estaduais; Regiões de Saúde Fronteiriças, compostas
por municípios territorialmente contíguos e pertencentes a um ou mais
estado e um ou mais país(es) vizinho(s).
O Decreto nº. 7.508 (BRASIL, 2011) foi proposto como instrumento de
regulamentação de alguns aspectos da Lei n. 8.080/1990, entre eles: a orga-
nização do SUS, o planejamento da saúde, a assistência à saúde e a articu-
lação interfederativa. Este documento atualmente consiste no dispositivo
legal que está sendo observado pelos gestores na organização do SUS
Dentre os principais aspectos do Decreto que merecem destaque neste
trabalho, para a consolidação da territorialização da saúde são: a defini-
ção de requisitos mínimos de oferta de serviços para a instituição de uma
Região de Saúde, a regulamentação do Contrato Organizativo de Ação
Pública em Saúde (COAP), a criação da Comissão Intergestores Regional
(CIR) e a disponibilização pelo Ministério da Saúde de Mapas de Saúde.
Nesse contexto, dois instrumentos fundamentais para a concretização
deste cenário foram disponibilizados: o COAP e o Mapa de Saúde. O primeiro
é um documento jurídico que obriga os gestores a cumprir os compromissos
assumidos, num prazo estipulado. O segundo, o Mapa de Saúde é a descrição
geográfica da distribuição de recursos humanos, de ações e serviços de saúde
ofertados pelo SUS e pela iniciativa privada. A ferramenta dispõe de um
banco de dados com informações que possibilitam gerar diagnósticos para
avaliação de desempenhos e tomadas de decisão sobre novas estratégias.

Considerações Finais
Este trabalho procurou explorar os elos entre a questão da organização ter-
ritorial urbana dos equipamentos saúde no Brasil e os instrumentos norma-
tivos do SUS, com foco no processo de territorialização da saúde. O estudo

72 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
com base nessa perspectiva histórica demonstrou, nestes quase 30 anos de
SUS, que a territorialização pode ser dividida em dois momentos, em perí-
odos de tempo quase iguais: o primeiro que recebeu mais ênfase na descen-
tralização e o segundo que desencadeou a regionalização da saúde.
No primeiro, foi demonstrado que a definição de territórios de saúde
orientada pela alocação de serviços em áreas geográficas estipuladas por
determinantes político-administrativas, criaram delimitações artificiais
que, conforme ocorreu na Municipalização da Saúde, durante as NOBs,
e no estabelecimento dos Módulos Assistenciais e das Microrregiões e
Regiões, conformados na NOAS, gerou a fragmentação da atenção e da
gestão do sistema de saúde, e a baixa qualidade dos serviços pela inade-
quação às realidades sanitárias.
Embora, os resultados obtidos tenham se mantido distantes de
alcançar alguns princípios dos SUS como integralidade dos serviços e
equidade da acessibilidade, pode-se dizer que houve avanços na des-
centralização e o início da regionalização da saúde. Observou-se que a
territorialização nesse período teve progressos pelo aumento da oferta
de serviços de saúde e pelo aprofundamento de informações relativas às
condições de vida e saúde da população.
Na segunda metade da vida do SUS, pode-se atribuir o aumento da
importância dada à territorialização aos esforços dos gestores para a
implementação das RASs, regionalizadas e integradas.
Obviamente, com o avanço das tecnologias de informação, principal-
mente as relacionadas a sistemas geográficos, a amplitude da visão sobre a
territorialização das redes de saúde, e a criação foros permanentes de coo-
peração, negociação e articulação entre os gestores, novas questões pre-
cisam ser colocadas para a continuação e aprofundamento desse estudo.
Para a modelagem das RASs, precisam ser desenvolvidas ferramentas
de auxílio ao planejamento para: hierarquização e definição de abran-
gências dos níveis de atenção conforme as características dos territórios,
localização e distribuição dos equipamentos de saúde, e articulação dos
territórios de saúde com os demais territórios componentes do espaço
geográfico. Ressalta-se que para trabalhar as questões da territorializa-
ção da saúde é fundamental uma visão multidisciplinar e multiescalar
que agregue reflexões e conhecimentos também sobre o espaço constru-
ído, o lugar, a paisagem, a cidade, o espaço urbano e regional.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 73
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74 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A ocupação de espaços verdes públicos no setor
sudoeste do município de Campinas
C A ROLINA GUIDA C A R DOSO DO C A R MO
SIDNE Y PIOCHI BER NA R DINI

Faculdade de Enenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, UNICAMP, Brasil.

Resumo
A urbanização de Campinas resultou em um tecido urbano disperso,
com regiões segregadas socioeconomicamente. Na região sudoeste
há concentração de famílias de baixa renda, forçadas a morar em ocupa-
ções ilegais e de baixa qualidade urbanística. Buscou-se compreender
e analisar aqui como se deu a destinação real das áreas verdes implanta-
das nos loteamentos nesta região, considerando estas características
principais. Foram identificados os espaços destinados em projeto para
áreas públicas recreacionais em aproximadamente 40 loteamentos
e, com a metodologia de fotointerpretação permitiu observar que de 157
polígonos destinados às áreas verdes, aproximadamente 20% encon-
tram-se ocupados com construções privadas. Foi possível observar tam-
bém um percentual de 15% de espaços originalmente recreacionais,
mas que encontram-se com edificações comunitárias providas pela
municipalidade. Observa-se um a reprodução da cidade ilegal em Cam-
pinas, ocasionando uma distorção da destinação inicial dos espaços
para a integração social, assim como uma desconsideração da importân-
cia desses espaços por parte da municipalidade.

Palavras-Chave
Campinas, Ocupações, Áreas Verdes, Segregação Urbana,
Gestão Municipal

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 75
Introdução
Nas cidades da América latina, na maior parte do século XX, o padrão
de segregação é visível a partir da concentração de edificações e clas-
ses sociais mais baixas nas periferias dos municípios (Sabatini, 2006).
Segundo o autor, é visível também que as classes sociais mais abastadas
financeiramente também abandonaram o centro e buscaram se concen-
trar em regiões distintas.
Tal realidade é observada no município de Campinas, onde o pro-
cesso de urbanização que se deu nos últimos 40 anos resultou em um
tecido urbano disperso, no qual a estrutura urbana se estabeleceu a par-
tir de malhas rodoviárias voltadas para o uso do automóvel particular.
A região nordeste do município, onde a terra passou a ter um alto valor
agregado com a implantação de universidades, condomínios de luxo
e shoppings-centers, recebeu uma população com alto poder aquisitivo,
ao contrário da região sudoeste, cuja dinâmica de expansão urbana foi
caracterizada pela implantação de loteamentos populares e núcleos
habitacionais de baixa renda.
Sabatini e Cáceres (2004) afirmam que o mercado imobiliário
é o grande centro de gravidade nessa evolução segregacional. Segundo
os autores, a segregação residencial “consiste em relação espacial:
a da separação ou proximidade territorial entre pessoas ou famílias
que pertencem ao mesmo grupo social, seja qual for a definição deste”.
Ainda segundo os autores, a segregação residencial apresenta
três dimensões principais: a) a tendência de certos grupos sociais em
concentrar-se em algumas áreas da cidade; b) a conformação das áreas
com alto grau de homogeneidade social; e c) a percepção subjetiva que
se forma sobre o que é segregação “objetiva” (as duas primeiras dimen-
sões), tanto para os que pertencem a bairros ou grupos segregados,
como para os que estão fora deles (Sabatini, Cáceres, 2004).

Visando solucionar a demanda dos trabalhadores que não conseguem


se inserir no mercado formal de terra, por conta dos altos valores agre-
gados à mesma, ditados principalmente pelo mercado imobiliário,
o estado tenta solucionar a problemática através de programas habita-
cionais populares, de forma que essas pessoas consigam acessar à habi-

76 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
tação própria (Abreu, 1986, p. 63-64), entretanto, os terrenos situados
nas periferias baratas passam a ser os principais locais para a instalação
desses conjuntos habitacionais. Mesmo com tamanho incentivo,
nem todos têm acesso aos loteamentos, por total (ou quase total) falta
de recursos. A essas pessoas resta a alternativa da invasão de terrenos
públicos e privados, dando origem às favelas. Também em relação
às favelas, o Estado se verá forçado a eventualmente reconhecer sua
existência, embora, nesse caso, tal reconhecimento possa significar a
adoção de medidas destinadas à sua erradicação (...). Os contingen-
tes populacionais erradicados não terão alternativa senão residir nas
periferias urbanas, em loteamentos ou em conjuntos habitacionais
construídos pela iniciativa privada ou pelo próprio Estado (Abreu,
1986, p. 64).

Na década de 1950, o crescimento urbano brasileiro era, supostamente,


controlado pelas autoridades públicas (Baeninger, 1996, p. 59) de forma
que justificavam um controle na influência mercadológica para com
os valores da terra. Entretanto, a partir da década de 1960 e, principal-
mente, nos anos 1970, a ocupação do solo passou a fazer parte integral
do interesse privado, acentuando assim, a forte especulação imobiliária
no município (Baeninger, 1996, p. 59-60).
Depois dos 70, Campinas recebe grandes investimentos governamen-
tais, tornando-se um dos maiores eixos de expansão industrial no
interior do estado, em grande parte devido à desconcentração veri-
ficada a partir da Região Metropolitana de São Paulo, o que elevou
enormemente seu ritmo de crescimento populacional, assim como o
da região como um todo. (Cunha, Jakob, Jiménez, Trad, 2006, p. 340)

Segundo Baeninger (1996), nos anos 70 houve a intensificação do pro-


cesso de ocupação do solo como ferramenta para a especulação imobili-
ária, agravando a situação do município que, com o grande volume
migratório dirigido para Campinas, tinha dificuldades para ofertar
moradia para os que a precisava (p. 59-60) De acordo com relatório
da Prefeitura municipal de Campinas, datado de 1991, o processo de
favelamento acentuou-se

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tanto pelo nível de urbanização experimentado pela cidade, em
função de seu crescimento industrial, como pelas características
diversas, que estiveram aliadas ao crescimento sócio-econômico do
município, repercutindo padrões que são gerais para o país como
um todo, destacando-se o comprometimento geral do nível de vida
da população pelo modelo econômico que deprimiu o emprego e a
renda; a especulação com a terra que elevou seu preço imprimindo ao
crescimento urbano a marca da expansão da periferia da cidade e da
proliferação dos núcleos de favela (p. 218)

É possível espacializar essa segregação no município, havendo uma con-


centração das menores rendas, em sua grande maioria, na região sudo-
este (Campinas, 1991) e, em oposição, uma concentração das classes
de mais alta renda, na região nordeste da cidade. Observando essas regi-
ões como espaços bem distintos e deliberadamente planejados para pro-
mover a segregação, é possível encontrar, na região sudoeste, uma con-
centração de famílias que não têm condições de se beneficiar dos
financiamentos públicos para adquirir moradia, assim como se inserir
no mercado formal de trabalho, forçando-os a morar em ocupações
informais. De acordo com Smolka (2002), a vivência da irregularidade
são características dos assentamentos pobres nas cidades latinas, sendo
esse um fator de identidade negativa e um primeiro degrau na constru-
ção dos estigmas terriroriais.
Maricato (2011) afirma que, diferente das ocupações em áreas livres
em regiões valorizadas, onde o poder da polícia municipal é exercido
e a liberação da área é garantida, a irregularidade habitacional, repre-
sentada pelas favelas e loteamentos ilegais, surge nas terras vazias e
desprezadas pelo mercado imobiliário privado (p. 83). Dessa forma,
é comum encontrar tais modalidades em áreas públicas e áreas ambien-
talmente frágeis.
Muitas destas ocupações, assim, ocorrem nos espaços públicos ver-
des, obrigatoriamente destinados nos projetos de loteamentos já implan-
tados, regidos pela Lei Federal 6766/79, gerando assim, uma perda da
qualidade ambiental e das condições de socialização da população.

78 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
No Brasil, a regulamentação do processo de expansão urbana, base-
ada no parcelamento do solo – que se constitui em processos de subdi-
visão de uma gleba em parcelas de terra, afim da abertura de novos lote-
amentos, muitas vezes, habitacionais, é feita pela Lei Federal 6766/79,
que dispõe sobre o parcelamento do solo. Um dos dispositivos mais
importantes desta lei é a exigência para que, nos processos de parcela-
mento do solo, sejam destinadas áreas ao sistema de circulação, espaços
livres de uso público (áreas verdes, praças) e áreas institucionais para
a implantação futura de equipamentos urbanos e comunitários
(como escolas e postos de saúde) (Brasil, 1979). Entretanto, a importân-
cia desses espaços livres de uso público e as transformações dos usos
que deles têm sido feitas, em consonância às novas formas de produção
do espaço urbano, com desvios quanto entendimento, interpretação
e aplicação desta legislação:
A Lei Federal nº 6.766/79 do parcelamento do solo refere-se aos espa-
ços livres, às vias de circulação, praças e espaços livres como domínio
público, são considerados então os espaços abertos públicos ou desti-
nados a integrar o patrimônio público nos loteamentos. A área verde
pode ser considerada como tipo de espaço livre, mas é tratada neste
caso em separado (...). O problema é que nem sempre fica claro de
quem é a obrigação de cuidar e manter esses espaços, causando muitas
vezes desconforto para a população adjacente (Lima, Amorim, 2006).

Muitas das leis municipais preveem que, dentre os espaços públicos doa-
dos, no mínimo 10% sejam destinados para espaços verdes (áreas ver-
des), mas não exigem do empreendedor a implantação de equipamentos
recreacionais, supondo que os mesmos serão implantados pela munici-
palidade de acordo com a demanda dos usuários (Lima, Amorim, 2006).
Observa-se, além disso, uma omissão da gestão pública, uma vez que
muitas destas áreas, anos após a implantação, permanecem abandona-
das, abrindo frente para utilizações indevidas dos seus espaços.
No Brasil, os casos mais emblemáticos são as ocupações populacionais
para moradia que aí ocorrem, gerando assim, uma perda da qualidade
ambiental e das condições de socialização da população, além
do aumento não planejado da população moradora.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 79
Este artigo busca identificar e analisar como se deu a destinação
real das áreas verdes implantadas nos loteamentos na região sudoeste
de Campinas, buscando discutir a eficácia das exigências estabeleci-
das em lei com as resultantes efetivas dessa urbanização, considerando
a distância entre o planejamento adotado, a partir das vias legais
e a gestão dos espaços verdes, realizada pela municipalidade.

Metodologia
A partir dos estudos de expansão do município é possível designar dois
grandes setores municipais onde as diferenças urbanísticas e socioe-
conômicas são muito visíveis. O trabalho apresentado é parte da pes-
quisa de mestrado intitulada “O Espaço Público Livre no Contexto da
Urbanização Contemporânea: Uma Análise sobre Campinas”, que busca
estabelecer a relação entre os espaços verdes de regiões com caráter
socioeconômico distintos neste município, mais especificamente entre
as regiões norte/ nordeste e a região sudoeste. O recorte temporal
da pesquisa é, prioritariamente, a partir da década de 1970, período esse
de maior expansão urbana espraiada e consolidação dos espaços desti-
nados para cada classe social. Para esse trabalho, foram selecionados 38
loteamentos aprovados e implantados na região sudoeste e identificados
os espaços que, em projeto, foram determinados como públicos recrea-
cionais (praças e sistemas de lazer). A verificação foi realizada, inicial-
mente, a partir de fotointerpretação de imagens de satélite, comparando
os polígonos definidos em projeto com a situação real interpretada
por fotointerpretação.
A partir da caracterização inicial das suas áreas públicas destinadas,
os seus espaços verdes foram classificados em três grupos: (1) áreas ver-
des edificadas, transformadas em equipamentos institucionais públicos,
definidos como equipamentos de educação, cultura e saúde, para outros
usos diferentes daqueles voltados à recreação, como escolas, unidades
de saúde e centros comunitários, e que, portanto, perderam sua carac-
terística de espaço verde público; (2) áreas verdes ocupadas para fim
de moradias e/ou comércio da população habitante na região, (3) áreas
verdes contendo intervenções do Poder Público, com tratamento paisa-
gístico e/ou implantação de equipamentos de recreação, como quadras

80 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
e parques infantis (playgrounds) e, por fim, (4) áreas verdes sem nenhum
tipo de intervenção do Poder Público (espaços destinados à recreação
porém sem manutenção e/ou instalação de equipamentos).

Resultados
Foram selecionados 38 loteamentos na região sudoeste de Campinas,
localizados conforme figura 1.

Fig. 1 | Localização dos loteamentos objetos de estudo em Campinas

A partir de análise das plantas dos loteamentos e de foto aérea datada


de abril/2016, foi demarcada, em quadro comparativo, a quantidade
de polígonos de áreas verdes em cada loteamento, assim como sua clas-
sificação, conforme explicitado acima.

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82 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Tabela 1 | Análise das áreas verdes dos loteamentos estudados

Observou-se, em um resultado quantitativo, que de 157 polígonos desti-


nados às áreas verdes, aproximadamente 56% estão sem uso ou abando-
nadas, sem nenhuma intervenção do Poder Público ou qualquer outra
utilização por particulares, caracterizados em sua grande maioria,
por espaços com vegetação de grande porte e baixo nível de qualidade
espacial. Além disso, a ocupação dos espaços recreacionais com cons-
truções para fins habitacionais e/ou comerciais são percebidas em apro-
ximadamente 20% dos espaços. Também foi possível observar um per-
centual de 15% de espaços originalmente recreacionais, mas que,
atualmente, encontram-se com edificações de uso comunitário providas
pela municipalidade, como escolas e creches.
Assim, é possível constatar deste quadro acima que a maioria
das áreas verdes destes loteamentos foi classificada no grupo 4 e 2 –
áreas verdes sem intervenção do poder público e áreas verdes com
ocupações para fins habitacionais e/ou comerciais, respectivamente, o
que demonstra, de um lado, a carência e déficit habitacional presente
no município de Campinas, além de uma necessidade de ampliar a dis-
cussão entre a relação de proposição de espaços recreacionais versus
a oferta de moradia, mensurando as necessidades consideradas priori-
tárias pelos moradores da região. Entretanto, também é possível obser-
var uma grande quantidade de espaços que foram destinados para áreas
recreacionais, mas que, atualmente, ou se encontram abandonados
(classificação 4) ou com equipamentos comunitários instalados (clas-
sificação 1), mostrando-se resultado de uma omissão do Poder Público
em garantir a eficácia e oferta de espaços para interações sociais, afirma-
ção essa corroborada pelo baixo número de espaços com equipamentos
recreacionais instalados (menos de 10%).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 83
Conclusões
O estudo aqui apresentado é um resultado parcial de um projeto de
mestrado com um recorte mais amplo e uma metodologia mais com-
plexa que busca estabelecer um comparativo real entre as áreas verdes
das regiões de mais segregadas de Campinas, entretanto, é possível
observar fatos referentes à região sudoeste, onde há uma concentração
maior de terras mais baratas e, consequentemente, famílias com menor
renda familiar e relacioná-los à falta de manutenção dos espaços recre-
acionais aqui descritos.
Entender a pouca e/ou nenhuma influência política das cama-
das mais baixas da sociedade é essencial para compreender o recorte
geográfico do estudo e seus, muitas vezes já esperados, resultados.
Morar em um bairro periférico de baixa renda, conforme Negri (2008),
é mais do que apenas ser segregado, mas significa também ter oportuni-
dades desiguais em diversos níveis, como social, econômico e cultural.
Entende-se, por isso, que um morador de um bairro pobre periférico
tem mínimas condições de melhorar socioeconomicamente, inclusive
de se inserir na formalidade do mercado imobiliário.
Conclui-se que a reprodução da cidade ilegal em Campinas é vista
sem maiores dificuldades, inclusive na apropriação de espaços públicos
de loteamentos já objetivados para famílias de baixa renda, ocasionando
uma distorção da destinação inicial dos espaços para a integração social.
Também conclui-se que, se a própria gestão municipal ocupa espaços
recreacionais com equipamentos sem corresponder-lhes a função pre-
destinada, os próprios gestores desconsideram os espaços recreacionais
implantados como essenciais para a qualidade de vida e para a inser-
ção desses pessoas em uma comunidade mais igualitária em qualidade
espacial e social. Reforçamos, por fim, o que Maricato (2011) afirma, uma
vez que em áreas ricas, as ocupações de espaços urbanos são passageiras
e discutidas, enquanto que a reprodução da pobreza, através das ocupa-
ções dentro dos conjuntos habitacionais e abandono dos espaços públi-
cos nas regiões mais precárias, se vê real e incontestável.

84 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 85
A paisagem de encostas no planejamento urbano:
o caso do Morro da Cruz, Florianópolis/SC
SONI A ROHLING SOA R ES
Doutoranda PósARQ/CTC/UFSC/BR

SONI A A FONSO
Professora PósARQ/CTC/UFSC/BR

Resumo
O Morro da Cruz, região central da cidade de Florianópolis/SC, apre-
senta problemas ambientais urbanos gerados pelo crescimento popula-
cional vertiginoso e pela ocupação de áreas com suporte físico impro-
prio para a urbanização. Essa fragilidade do meio físico acarreta
problemas de deslizamento de terra constantes que são agravados pela
ocupação irregular do solo. Entre os anos de 2009 e 2016 a paisagem do
Morro da Cruz tem sofrido alterações significativas decorrentes das
intervenções urbanas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Apesar de importantes para atender os interesses de parte da população
moradora, essas intervenções colidem frontalmente com o uso do solo
proposto pelo Programa do Parque Natural do Morro da Cruz –
PANAMC, que tem, entre os seus objetivos, o papel de valorizar a paisa-
gem das encostas do morro. Buscando uma solução para o problema da
minimização da importância da paisagem, foram estudados os planos
urbanos vigentes em Belo Horizonte; São Paulo e Rio de Janeiro, consi-
derados bons exemplos de qualidade urbana aliada à valorização da pai-
sagem. O objetivo central desse estudo foi identificar as diretrizes
ambientais presentes e para fazer um estudo comparativo entre eles e
com a situação de Florianópolis, visando obter subsídios para novas
ações de planejamento urbano.

Palavras-chave
Paisagem, Encostas, Planejamento Urbano.

86 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. Introdução
O Morro da Cruz, região central da cidade de Florianópolis/SC, apresenta
problemas ambientais urbanos gerados pelo crescimento populacional ver-
tiginoso e pela ocupação de áreas com suporte físico improprio para a urba-
nização. Essa fragilidade do meio físico acarreta problemas de deslizamento
de terra constantes que são agravados pela ocupação irregular do solo. Entre
os anos de 2009 e 2016 a paisagem do Morro da Cruz em Florianópolis/SC
tem sofrido alterações significativas decorrentes da das intervenções urba-
nas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Intervenções tais
como a execução de obras de contenção e pavimentação, os serviços de abas-
tecimento de água e energia elétrica, a coleta de resíduos, o encaminha-
mento para a regularização fundiária de algumas comunidades, obras de
habitação social e de equipamentos públicos de saúde e educação ocasiona-
ram impactos ambientais urbanos sobre as encostas concorrendo frontal-
mente com a paisagem natural do Morro da Cruz. A falta de uma visão inte-
gradora da paisagem do Morro da Cruz tem contribuído para o desmonte
afrontoso dos seus atributos naturais e da beleza cênica singular do maciço
rochoso. Os marcos regulatórios federais do Sistema Nacional de Unidades
de Conservação da Natureza (SNUC) - Lei 9.985/2000 e da carta geotécnica
da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil através da Lei federal
12.608/2012 visam a estabelecer os limites do uso e ocupação do solo das
encostas, um pelo viés da preservação e outro pela aptidão à urbanização.
Na Lei Federal 9.985/2000 as unidades de conservação ambiental categori-
zadas como (APA) Áreas de Proteção Ambiental são areas que possuem um
certo grau de ocupação humana mas têm os objetivos básicos de proteger a
diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sus-
tentabilidade do uso dos recursos naturais. A proteção da paisagem urbana
depende do grau de integração da paisagem de encostas nos planos urbanos.
Nos municípios de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro, considerados
bons exemplos de qualidade urbana aliada à valorização da paisagem encon-
tramos critérios ambientais presentes nos planos diretores. Identificamos
nas APAs do Parque Nacional da Tijuca no Rio, do Parque da Serra do Curral
em Belo Horizonte e da Serra Cantareira em São Paulo alguns parques e
praças onde pode haver uma convivência harmônica entre ocupação e uso
do solo e conservação do ambiente natural. Buscamos identificar aspectos

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 87
que orientam a proteção da paisagem urbana nas encostas nos planos urba-
nos vigentes dessas três cidades, estabelecendo uma comparação com Flo-
rianópolis. O conceito de Área de Proteção Ambiental APA e os exemplos
significativos estudados podem auxiliar a repensar essa paisagem.
O disciplinamento do uso e ocupação do solo em função da preserva-
ção da paisagem urbana e da sua qualificação é o que justifica este estudo.
O objetivo deste trabalho é estabelecer uma comparação entre os pla-
nos urbanos vigentes de Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro nos
aspectos ambientais presentes e compara-los ao de Florianópolis.
Para fazer uma reflexão sobre a influência da legislação urbanística
em seus aspectos ambientais na conformação das encostas, apresenta-
mos o método desta investigação:

a) Estudar os planos urbanos vigentes em Belo Horizonte, São Paulo,


Rio de Janeiro.
b) Identificar os critérios referentes a paisagem e encostas presentes nos
planos urbanos estudados.
c) Realizar um estudo comparativo entre os municípios e com a situa-
ção de Florianópolis, visando obter subsídios para novas ações de pla-
nejamento urbano.

Tomamos os marcos regulatórios da Política Nacional de Proteção e


Defesa Civil - Lei federal 12.608/2012 e do Sistema Nacional de Unidades
de Conservação da Natureza (SNUC) - Lei Federal 9985/2000 por enten-
der que, de certa maneira, promovem a integração da paisagem no pla-
nejamento urbano, de modo particular, nas encostas.

1.1 A utilização da cartografia geotécnica nos instrumentos


de planejamento e gestão
Segundo Bitar (2015) as cartas geotécnicas devem ser utilizadas na for-
mulação de instrumentos de planejamento e gestão tais como na atuali-
zação do Plano Diretor do município e da correspondente Lei de Uso e
Ocupação do Solo. Podem também ser aplicadas a outros instrumentos
de planejamento e gestão territorial e ambiental (por exemplo, na defi-
nição das unidades de conservação estabelecida pelo SNUC) exigidos
por lei, em âmbito local ou interface regional.

88 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O Estatuto da Cidade (Lei Federal 10.257/2001) requer atualmente que
o Plano Diretor contenha o mapeamento das áreas suscetíveis, ou seja,
que inclua em seus dispositivos os resultados da carta de suscetibilidade;
exige também que as cartas geotécnicas precedentes sejam consideradas
na identificação e o mapeamento de áreas de risco. As diretrizes da carta
geotécnica de aptidão à urbanização, de acordo com as distintas susceti-
bilidades incidentes e as respectivas recomendações ao uso e ocupação do
solo devem ser aplicadas na caracterização do mapeamento das areas de
risco para fins de gerenciamento. A carta geotécnica de aptidão à urbani-
zação deve ser utilizada para evitar que a ocupação urbana se estabeleça
sobre áreas de suscetibilidade a processos adversos do meio físico.

1.2 O Sistema Nacional de Unidades de Conservação


da Natureza (SNUC)
O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) -
Lei Federal 9985/2000 estabelece critérios e normas para a criação,
implantação e gestão das áreas protegidas. Define categorias de unidades
de conservação criando diretrizes comuns para a criação, gestão e manejo
das mesmas. Para toda unidade de conservação deve ser elaborado um
plano de manejo que engloba toda a área de unidade, sua zona de amorte-
cimento e os corredores ecológicos. A área de proteção ambiental (APA) é
uma dessas categorias. O objetivo primordial de uma APA é a conservação
de processos naturais e da biodiversidade, orientando o desenvolvimento,
adequando as várias atividades humanas às características ambientais da
área. A aplicação desse conceito na orientação do desenvolvimento urbano
pode promover a integração da paisagem das encostas no planejamento
qualificando as condições de vida nas cidades.

1.3 Política Nacional de Proteção e Defesa Civil –


Lei federal 12.608/2012
O disciplinamento restritivo do uso e ocupação do solo na Lei Federal
12.608/2012 estabelece que os municípios com áreas suscetíveis à ocorrên-
cia de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou processos
geológicos ou hidrológicos correlatos devem elaborar carta geotécnica de
aptidão à urbanização e aplicar conceitos dela oriundos para estabelecer

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 89
diretrizes urbanísticas voltadas para a segurança dos parcelamentos do
solo. A carta geotécnica de aptidão à urbanização tem por objetivo a pre-
venção de desastres naturais e visa disciplinar o uso e a ocupação do solo.

2. Exemplos significativos da integração entre paisagem de


encostas e planejamento urbano
Foram selecionados três municípios: Belo Horizonte, São Paulo e Rio de
Janeiro onde foram observados esforços no intuito de integrar a paisa-
gem de encostas ao planejamento urbano. Através do exame dos planos
diretores vigentes buscamos identificar a aplicação ou o respeito às leis
de âmbito federal do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da
Natureza (SNUC) - Lei Federal 9985/2000 Política Nacional de Proteção
e Defesa Civil - Lei federal 12.608/2012.
Observamos nos municípios selecionados alguns locais onde fica
evidente esse esforço de integração da paisagem de encostas ao planeja-
mento urbano, como por exemplo em Belo Horizonte: 1) Praça do Papa:
Localizada no sopé da serra do curral, bairro mangabeiras, junto ao par-
que municipal e ao palácio mangabeiras, residência oficial do governo do
estado. O segundo local observado; 2 Parque Mangabeiras: parque pro-
jetado pelo paisagista Roberto Burle Marx, conserva em sua área de 2,4
milhões de m2, 59 nascentes que integram a Bacia do Rio São Francisco.

Figura 1 | Praça do Papa e Parque municipal das Mangabeiras – Belo Horizonte/MG.


Elaborado pela autora*: 2017.

90 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Em São os locais: 3) Parque Pinheirinho D´agua no bairro do Jaraguá; 4
e a Praça-Por do-Sol localizada no Alto de Pinheiros, Zona Oeste, que foi
projetada pela arquiteta Miranda Martinelli Magnoli e pela paisagista
Rosa Kliass; localizada em uma zona de uso exclusivamente residencial
de habitações unifamiliares, com densidade demográfica baixa, caracte-
rizada pela intensa arborização), já implantados pela Cia. City: Jardim
América e Pacaembú.

Figura 2 | Parque Pinheirinho Dágua – São Paulo/SP. Elaborado pela autora*: 2016.

Figura 3 | Praça por do sol – São Paulo/SP. Elaborado pela autora*: 2016.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 91
No Rio de Janeiro, os três exemplos localizados no parque nacional da
Tijuca, 5 o Parque Guinle está localizado no bairro das Laranjeiras, e foi
concebido na década de 1920 como os jardins da residência de Eduardo
Guinle; 6 Parque Lage está localizado no bairro do jardim botânico,
abriga uma Escola de Artes Visuais e; 7 Parque Dois Irmãos localizado
entre o bairro do Leblon e o Morro do Vidigal. Projetado pelo arquiteto
Fernando Chacel, entre o bairro do Leblon e o Morro do Vidigal.

Figura 4 | Parques Guinle e Lage – Rio de Janeiro/RJ. Elaborado pela autora*: 2016.

Figura 5 | Parque Natural municipal do Penhasco Dois Irmãos – Rio de Janeiro/RJ.


Elaborado pela autora*: 2016.

92 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
2.1 A paisagem e as encostas nos municípios de Belo Horizonte,
São Paulo, Rio de Janeiro – aspectos relevantes
Reconhecemos a relevância do esforço nos municípios selecionados na
tentativa de adequação dos marcos regulatórios federais à esfera local. Na
esfera local, em Belo Horizonte, o Plano diretor vigente (1996) aborda a
paisagem no desenvolvimento urbano como uma das diretrizes de prote-
ção da memória e do patrimônio cultural, no qual fica evidente uma visão
de conjunto. A única referência às encostas está relacionada à promoção
da estabilização naquelas que apresentem riscos de deslizamento.
São Paulo, por sua vez, através das administrações regionais nos
bairros, denominadas subprefeituras, implementa as ações de desen-
volvimento urbano. Os planos regionais são discutidos como desdobra-
mento do plano diretor estratégico. Na subprefeitura de Pinheiros, por
exemplo, onde está localizado um dos exemplos significativos a Praça
Pôr-do-sol, por exemplo, existe preocupação com a atuação do mercado
imobiliário na construção de novos edifícios que comprometeriam os
ângulos de visão do entorno a partir da praça.
Ruas de alta declividade e estreitas não comportam prédios altos, por
exemplo, na Vila Madalena são consideradas como patrimônio cultural
da cidade.
Os órgãos municipais responsáveis pela implementação das ações
de meio ambiente nas cidades selecionadas são: a Fundação Municipal
do Meio ambiente em Belo Horizonte, a Secretaria do Verde e do Meio
Ambiente em São Paulo, a Fundação Parques e Jardins no Rio de Janeiro
e a Fundação Municipal do Meio Ambiente – FLORAM em Florianópolis.

3. Critérios para o estabelecimento de diretrizes


A partir da seleção dos aspectos relevantes sobre paisagem e encostas
constantes nos planos urbanos selecionados de Belo Horizonte, São
Paulo e Rio.

Quadro 01 | [PÁGINA SEGUINTE] Síntese dos critérios encontrados nos planos


urbanos vigentes de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 93
Critérios Belo Horizonte São Paulo Rio de Janeiro

Fundação Fundação
a) Órgão municipal Secretaria do verde
municipal do parques
de meio ambiente e do meio ambiente
meio ambiente e jardins

Proporção de
b) Aplicação de Transferência do
área verde por
instrumentos do Potencial
munícipe de 12
estatuto da cidade Construtivo
m2
Sistema de areas
protegidas, areas
verdes e espaços
livres.
Bacia
Planos de Bairro que
c) estabelecimento hidrográfica
Relacionam as
de Unidades de como
unidades de
planejamento unidade
paisagem em que se
territorial
ambientam, os
equipamentos,
políticas e projetos
nos setores urbanos
em que se inserem.

impacto urbanístico
em relação à
d) mobilidade sobrecarga da
infraestrutura
instalada

Funções Espaços livres Código


e) turismo recreativas voltados à ambiental
e de turismo convivência e lazer municipal

Proteção Territórios de Política de


f) Patrimônio
da memoria Interesse da Cultura patrimônio
cultural
e da Paisagem - TICP cultural

regulacao do
Área de Política
g) Uso e ocupação parcelamento, uso e
diretrizes municipal
do solo ocupação do solo e
especiais de paisagem
da paisagem urbana

94 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Plano de
Ordenamento e
Plano de
h) Planos municipais Proteção à Paisagem. Plano de
recuperação,
de preservação e manejo de
preservação,
recuperação do Plano municipal de aguas
conservação,
ambiente natural areas protegidas e pluviais
ocupação e uso
areas verdes e
espaços livres
Sistema de
i) Articulação
planejamento
institucional entre Politica e sistemas
e gestão
planejamento e urbanos e ambientais
ambiental
gestão ambiental

Desobstrução
Desenvolvimento Sítios de
visual dos
j) Visibilidade de social e do sistema interesse
elementos
conjunto de equipamentos paisagístico e
naturais da
urbanos e sociais ambiental
paisagem

Articulação das
instituições
publicas
k) Gestão municipal municipais de
compartilhada meio ambiente,
politica urbana
e patrimônio
cultural.

Cronograma e
montante de
l) fundos municipais investimentos
prioritários para
meio ambiente

bem ambiental e
elemento
p) Fruição e
de bem-estar e
apropriação
conforto individual e
social
s) Plataformas
Portal PBH Gestão urbana Lab Rio
digitais

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 95
Comissão de
t) Comissões e proteção à paisagem
conselhos urbana
municipais Conselho Municipal
de Política Urbana

q) articulação
programas
com os
urbanísticos
municípios
de interesse
da Região
comum
Metropolitana
planos setoriais de
o) Planos regionais questões físico-
territoriais;

Regulação
alteração de
p) cartografia urbana por meio
zoneamento nos
geotécnica de projetos
planos regionais
geotécnicos

Elaborado pela autora*: 2017.

Verificamos sucintamente a aplicação dos marcos regulatórios federais


do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC)
- Lei 9.985/2000 e da Política Nacional de Proteção e Defesa Civil - Lei
12.608/2012 nos planos diretores vigentes nos municípios selecionados.
No intuito de discutir instrumentos que promovam a integração da pai-
sagem de encostas no planejamento urbano de Florianópolis.

4. A integração da paisagem de encostas no planejamento


urbano de Florianópolis
Reconhecida nacional e internacionalmente pela beleza cênica de sua
paisagem litorânea e pela qualidade de vida de seus moradores. Em uma
paisagem predominantemente de planícies, a ocorrência de morros
ganha destaque.
No município de Florianópolis, são duas: 1) Baleia Franca se estende
do Sul da Ilha de Santa Catarina até o litoral Sul do Estado. 2) Anhato-
mirim, abrange a ilha e seu acervo de fortalezas tombado desde 1938,
pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. A falta de uma

96 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
visão integradora da paisagem do Morro da Cruz tem contribuído para
o desmonte afrontoso dos seus atributos naturais e da beleza cênica sin-
gular do maciço rochoso. O conceito de APA e os exemplos significativos
estudados podem auxiliar a repensar essa paisagem.
Em termos paisagísticos o Morro da Cruz possui: uma RPPN Reserva
particular do patrimônio natural, a mata do hospital de Caridade,
alguns espaços livres públicos tais como o mirante do Morro da Cruz; e
o Parque Natural Municipal do Morro da Cruz (PANAMC) com outros
mirantes menores; além de quatro praças públicas de pequeno porte.
O morro da Cruz possui ainda algumas sedes de emissoras de rádio e
televisão, tem 285 metros de altitude; possui 65.000 hab. (15% dos habi-
tantes do município), 40% deles com renda menor que 3 salários míni-
mos. Com área total de 7 km2, 16 comunidades – núcleos de pobreza, 7
bairros; espaços livres públicos: o mirante do Morro da Cruz; ruas em
zigue-zague; escadarias; hospital baia sul. Edificações escalonadas no
Morro do Mocotó na porção voltada para o centro histórico; edifícios
em altura, hotel quinta da bica d´agua; penhasco de granito cinza. As
intervenções do PAC são basicamente grandes muros de contenção em
pedra argamassada; belvederes, novas ruas e avenidas, além de grandes
equipamentos públicos urbanos.

Figura 6 | Maciço do Morro da Cruz – Florianópolis/SC. Elaborado pela autora*: 2017.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 97
As intervenções de mobilidade, habitação social, redução de risco de
deslizamento, inserção de equipamentos públicos e urbanização de
assentamentos precários concorrem frontalmente com a paisagem
natural da unidade de conservação do PANAMC.
Florianopolis apresenta aspectos relativos a paisagem e encostas no
plano diretor vigente (2014) nos seguintes critérios: índices urbanísticos
compatíveis com a paisagem natural e cultural da cidade, princípios da
política de desenvolvimento municipal: preservação do meio ambiente,
da paisagem e do patrimônio cultural; conformação da paisagem na
estrutura da mobilidade urbana, potencialização da paisagem natural e
da paisagem urbana histórica; política de ocupação concentrada do solo
em ambientes urbanizáveis; interferência mínima na percepção visual
da paisagem, nos marcos referenciais, mirantes e belvederes; visibili-
dade do conjunto de paisagem; oportunidades urbanísticas compatíveis
com a conservação da paisagem; geoprocessamento.

5. Conclusão
A paisagem deveria ser entendida como protagonista no planejamento
urbano das encostas. Com base na observação dos planos urbanos
vigentes e nos critérios identificados, podemos verificar que a paisagem
de encostas na legislação urbanística brasileira é abordada de forma
generalista e difusa. Apresenta preocupação com a proteção ambiental
sem dispor de ações, medidas e instrumentos necessários para tanto. A
proteção ambiental não é prioritária nos programas setoriais e na dota-
ção de investimentos; muitas vezes, é considerada no bojo das questões
do patrimônio cultural, indistintamente, o pode levar a generalizações.
O cumprimento do Estatuto da Cidade no que diz respeito ao EIA/
RIMA podem colaborar na previsão de questões físico-territoriais sobre
a paisagem natural e sobre a infraestrutura urbana existente, bem como
outros instrumentos como a transferência de potencial construtivo. .
As restrições ao uso do solo, advindas da aplicação da carta geotéc-
nica precisa ser incorporada ao plano vigente no tocante à urbanização
de assentamentos tanto quanto para os novos parcelamentos.
Nos municípios analisados, os grandes esforços empreendidos não têm
sido capazes de assegurar a proteção da paisagem nas encostas completa-

98 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mente, entretanto os critérios identificados nos planos urbanos existentes
podem auxiliar Florianópolis na fundamentação de uma revisão do pla-
nejamento vigente. Por exemplo, questões de viabilidade do conjunto no
sopé dos morros, para que sejam mantidos os ângulos de visão dos marcos
referenciais e as vistas panorâmicas a partir dos mirantes, devem ser con-
siderados. O conceito de APA e os exemplos significativos podem auxiliar
a repensar essa paisagem como uma questão urbana em Florianópolis.

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 99
A participação no planejamento urbano como
mecanismo de construção da cidadania
V ÍTOR DOMÍCIO DE MENESES
DA NIEL R IBEIRO C A R DOSO

Universidade Federal do Ceará

Resumo
A partir do entendimento da cidade enquanto “produto de muitos cons-
trutores”, temos que o território urbano é constituído e modificado a
todo instante por diversos atores sociais. Observar a cidade através dos
seus elementos “móveis” (as pessoas e subjetividades) e “imóveis”
(espaço físico e ambiente construído) revela a complexa rede de relações
existentes. A partir do conhecimento de que diversos planos de cidades
brasileiras ainda são realizados sem a participação adequada dos cida-
dãos, este trabalho investiga a relação entre os conceitos de participação
e cidadania em busca de aproximar os cidadãos dos processos de plane-
jamento para retomar a noção de cidade enquanto espaço coletivo. Para
isto, foi realizado um levantamento bibliográfico e um debate teórico no
intuito de construir a relação entre os dois conceitos abordados.

Palavras-Chave
Cidade; Participação; Planejamento urbano; Cidadania.

100 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. Introdução
Tal como um palimpsesto que teve suas superfícies modificadas ao
longo do tempo para ser reutilizado, o espaço urbano é construído dia-
riamente por intervenções de atores diversos. O escritor frances Georges
Perec fez uma experiência em Paris no ano de 19741 na qual passou três
dias instalado em uma praça da cidade observando os elementos urba-
nos e suas relações. O autor registrou tudo o que viu em um caderno,
originando um texto de escrita livre e poética que, através da descrição
dos fatos observados, caracteriza a interação de inúmeros atores na
cidade e a sua consequente complexidade. Christopher Alexander inter-
preta o tecido urbano como produto das relações existentes quando des-
creve a cidade como uma “estrutura abstrata”, composta de “partes fixas”
e “partes móveis” (ALEXANDER, 2008), argumento também presente
no pensamento de Lynch:
“Os elementos móveis de uma cidade, especialmente as pessoas e
suas atividades, são tão importantes como as suas partes físicas e
imóveis. Nao somos apenas observadores deste espetáculo, mas sim
uma parte ativa dele, participando com os outros num mesmo palco.”
(LYNCH, 2003. p. 11)

Lynch argumenta que a cidade é “produto de muitos construtores” que


constantemente influenciam na estrutura urbana por razões diversas.
As experiências vividas no espaço urbano vão, aos poucos, dotando-o de
significado, estreitando a relação pessoa-ambiente e produzindo memó-
rias (Lynch, 2003; Tuan, 1987). Esta relação com os lugares contribui
para o desenvolvimento da cidadania, uma vez que é construído um sen-
timento de pertencimento à cidade. No entanto, com a criação e valori-
zação dos espaços privados, a violência urbana, a segregação sócio-espa-
cial e a estigmatização do espaço público como “espaço sem dono”,
contrói-se um contexto no qual o planejamento da cidade ocorre sepa-
rado dos cidadãos.

1
Experiência registrada no livro “Tentativa de esgotamento de um local parisiense”
(PEREC, 2016).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 101
A partir deste contexto, este trabalho questiona: Como retomar a
noção de cidade enquanto espaço de todos, ou seja, fruto de uma cons-
trução coletiva? Neste ponto, como debate central deste trabalho, inse-
re-se a discussão que relaciona a participação nos processos de planeja-
mento urbano e a construção da cidadania.
Mesmo com a exigência legal da elaboração de planos diretores de
forma participativa, o que é verificado em muitos dos processos de pla-
nejamento de cidades brasileiras é a elaboração de planos ainda com
características tecnocráticas, perpetuando um cenário de desigualdade
socioeconômica, segregação espacial e supressão do direito à cidade.
Neste contexto, buscando a construção de cidades mais democráticas,
construidas com a participação ativa dos seus cidadãos, este trabalho
promove um debate teórico sobre participação e cidadania com o obje-
tivo de desenvolver uma relação entre os dois conceitos.
Para desenvolver este tema, foi realizado um levantamento biblio-
gráfico do conceito de cidadania (SILVA, 2006; STRECK et. all. 2008;
NUNES, 2006; FREIRE, 1981) e participação (ALEXANDER, 1998;
ARNSTEIN, 1969; BORDENAVE, 1983; PEREIRA, 2015; SOUZA, 2006;
VILLAÇA, 2005). A partir do levantamento, foi realizado um debate teó-
rico no intuito de definir a relação entre os dois conceitos abordados.

2. A participação no planejamento urbano


Partindo do entendimento da complexidade da cidade, dada a escala
geográfica e a quantidade de relações existentes, o planejamento urbano
é, certamente, tarefa essencial para alcançar o desenvolvimento dese-
jado. Para Souza, a complexidade do planejamento urbano refere-se ao
envolvimento de “todo um coletivo social, prenhe de conflitos e contra-
dições e uma ponderável dimensão de imprevisibilidade.” (SOUZA,
2000). A palavra planejamento refere-se sempre ao futuro, principal-
mente referindo-se a previsão de fenômenos e ações. Nas palavras de
Souza, planejar é “simular os desdobramentos de um processo, com o
objetivo de melhor se precaver contra prováveis problemas ou, inversa-
mente, com o fito de melhor tirar partido de prováveis benefícios.”
(SOUZA, 2006. p.149).

102 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Um dos motes do planejamento da cidade é a reflexão sobre as carac-
terísticas da cidade ideal. Para que esta reflexão produza uma cidade
mais justa e democrática, ela deve ser realizada de forma conjunta, atra-
vés de um debate que inclua os diversos setores sociais e que discuta a
gama de conflitos e impasses existentes. Segundo Christopher Alexan-
der, o processo de crescimento urbano deve ser orgânico, ou seja, capaz
de se adaptar às modificações provenientes da natureza e às dinâmicas
sociais, e isto só é possível através da participação:
“...somente as próprias pessoas que formam a comunidade são capa-
zes de dirigir um processo de crescimento orgânico. Elas conhecem
como ninguém suas próprias necessidades e sabem perfeitamente se
os edifícios, a relação entre edifícios e espaços públicos, são adequa-
dos ou não.” (ALEXANDER, 1998. p.30).2

Considerando que a sociedade está organizada a partir de agrupamen-


tos com as mais diversas finalidades, a participação constitui-se como
uma característica inata do ser humano, uma necessidade de sentir-se
parte, de atuar de forma coletiva na construção de um objetivo comum
(BORDENAVE, 1983). Este debate ganha maior destaque na conjuntura
política brasileira, caracterizada por uma grave crise de representativi-
dade que possui sérias consequências para a cidade. A realização de pro-
cessos de planejamento urbano sem a participação dos habitantes da
cidade enfraquece as dimensões democráticas e fortalece o contexto de
segregação sócioespacial presente na sociedade contemporânea.
Um argumento que soma-se a estas ideias é a produção de informa-
ções proveniente dos processos de planejamento participativo, muito
mais próximas da realidade dos cidadãos já que são dados relativos
às vivências e a percepção urbana. Lucrécia Ferrara argumenta que o
acesso a um fenômeno se dá exclusivamente por suas representações:
“...o pensamento se constrói na construção da linguagem. Nosso
exercício de conhecimento está ligado às linguagens de que dispo-

2
“...unicamente la própria gente que forma parte de uma comunidade es capaz de
dirigir um processo de crescimento orgânico. Ellos conocen como nadie sus propias
necessidades y saben perfectamente si los edifícios, los enlaces ente edifícios y espacios
públicos, sirven o no sirven.” (Tradução livre dos autores, ALEXANDER, 1998. p. 30).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 103
mos para o exercício do jogo reflexivo da razão, ou seja, linguagem
é outro nome para a mediação indispensável ao conhecimento do
mundo.” (FERRARA, 2003 apud FIRMINO E DUARTE, 2008).

Participar dos processos de planejamento da cidade é, portanto, auxiliar


na construção de uma representação do território mais fiel à realidade
existente, com seus problemas e potencialidades. O processo participa-
tivo produz informações para uma representação do espaço urbano mais
democrática, tanto no que diz respeito aos planos elaborados quanto ao
conjunto de ações que serão executadas posteriormente, reforçando a
cidadania e a percepção da cidade enquanto espaço coletivo.
O debate em torno da participação nos processos de planejamento
urbano acentuou-se principalmente após a Constituição de 19883 e do
Estatuto da Cidade4 , quando houve a exigência da elaboração de planos
diretores de forma participativa, conforme argumenta Pereira sobre a
definição do Plano Diretor após o Estatuto da Cidade:
“...o Plano está agora vinculado à definição da função social da cidade
e da propriedade e ao plano de desenvolvimento urbano municipal;
no que diz respeito ao seu sentido, destaca-se a obrigatoriedade de
que o Plano seja elaborado de forma participativa, expressando o que
poderia ser considerado um pacto sócio espacial envolvendo todos os
agentes presentes na cidade.” (PEREIRA, 2015. p.9).

No entanto, apesar de o plano representar um “pacto sócio espacial”, os


processos participativos ocorridos nas grandes cidades brasileiras nem
sempre atendem de forma satisfatória as necessidades da população. De
acordo com Villaça, os processos ditos “participativos” referem-se tão
somente às populações excluídas socioeconomicamente, já que as clas-
ses dominantes sempre participaram das grandes decisões da cidade.
Portanto, a utilização do termo “participação” deve descrever um pro-
cesso democrático e inclusivo, condição oposta à que é observada, mui-

3
Constituição Federal de 1988, artigos 182 e 183 que tratam da política urbana.
4
O Estatuto da Cidade, Lei 10.257 de 10 de julho de 2001 que regulamenta os artigos
182 e 183 da CF/1988, exige que municípios com mais de vinte mil habitantes elaborem
Planos Diretores Participativos.

104 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
tas vezes, nas cidades brasileiras (Villaça, 2005). O autor aponta, por-
tanto, a participação como um “conjunto de pressões que a população
exerce sobre o poder político, por ocasião da tomada de importantes
decisões de interesse coletivo” (Villaça, 2005. p. 50). Souza reforça este
argumento quando defende a participação popular como mecanismo de
controle social no contexto brasileiro:
“...um aspecto que parece decisivo, no sentido de viabilizar tanto a
elaboração quanto a implementação de instrumentos e planos, em
uma sociedade tão heterônoma quanto a brasileira, onde há leis que
‘pegam’ e outras que não ‘pegam’, é a pressão popular e a capacidade
de a sociedade civil de monitorar e fiscalizar o cumprimento das leis.”
(SOUZA, 2003. p.321)

A partir da observação de processos “participativos”, Arnstein propôs


uma classificação referente a participação popular chamada de “escada
da participação” (ARNSTEIN, 1969). A autora faz uma crítica ao rótulo
de “participativo” dado aos processos capitaneados pelas gestões, defen-
dendo que estes processos nem sempre ocorriam a partir de uma parti-
cipação verdadeira.
Segundo Souza, existem três tipos de obstáculos à participação
popular. O primeiro deles é a cooptação que transforma o processo
participativo em “um instrumento de domesticação da sociedade civil
por parte das forças políticas à frente do aparelho de Estado.” (SOUZA,
2006. p. 410). O segundo é definido como a problemática da implemen-
tação, que reúne todas as dificuldades logísticas enfrentadas para a rea-
lização de um processo como esse, tais como incompetências gerenciais,
conflitos políticos e ideológicos, pressão de grupos sociais influentes,
etc. (SOUZA, 2006. p. 410). E o último aspecto é a problemática da desi-
gualdade, referente as dificuldades enfrentadas pelas populações de
baixa renda para participar voluntariamente de reuniões e assembleias
promovidas em prol de questões coletivas. Essas dificuldades vão desde
aspectos financeiros até problemas de disponibilidade de horários. O
autor cita ainda dificuldades ligadas a autoconfiança dos cidadãos
envolvidos, que nem sempre acreditam no potencial de sua participação
no processo (SOUZA, 2006. p. 411).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 105
Com o estabelecimento de canais de participação, os cidadãos detém
mais informações sobre a atuação do Estado e passam a ter mais auto-
nomia, condição importante para o controle social. Souza define como
ponto principal do pensamento autonomista a ideia de que “o usuário de
um produto, e não o expert que o concebeu ou produziu, é o melhor e o
mais legítimo juiz de suas qualidades.” (Souza, 2003. p. 180). Para Kapp,
os processos que produzem a genuína autonomia popular são aqueles
que, além de não ampliarem a dependência dos cidadãos em relação aos
representantes do Estado, promovem a emancipação popular através da
ampliação do poder político espacial dos cidadãos. Através de uma crí-
tica ao termo “participação”, Kapp define que:
“Autonomia é, assim, bem mais do que participação popular. Enquanto
essa última sugere moradores convidados num processo cuja estrutura
foi definida pelos profissionais ou pelo Estado, autonomia implica pro-
cessos orquestrados pelos moradores, nos quais os profissionais e o
Estado seriam os (eventuais) convidados.” (Kapp et. all, 2012).

Neste sentido, a autora estabelece uma diferenciação entre os dois con-


ceitos (autonomia e participação) baseada na análise de processos ditos
“participativos” cujas metodologias dão somente papéis de “convidados”
aos cidadãos. No entanto, admite-se neste trabalho que um processo só
é participativo quando proporciona a autonomia popular e permite a
criação de instrumentos de controle social e atuação direta dos cidadãos
nos processos decisórios.

3. Cidadania: Pertencer a uma cidade


O conceito de cidadania é, muitas vezes, confundido com o de democra-
cia, referindo-se ao direito de votar e ser votado. Porém, ser cidadão é
muito mais do que pertencer a um sistema político democrático. Silva
(2006) define cidadania como atrelada a noção de participação social e
política em um Estado, mas alerta para o fato de que a cidadania é “uma
ação política construída paulatinamente por homens e mulheres para a
transformação de uma realidade específica, pela ampliação de direitos e
deveres comuns” (SILVA, 2006. p 47).

106 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Segundo Silva (2006), no contexto clássico, o conceito de cidadania
estava atrelado ao de cidade: “para os romanos, por exemplo, a cida-
dania era antes de tudo a condição de quem pertencia a uma cidade e
sobre ela tinha direitos.” (SILVA, 2006. p. 48). Na atualidade, a cidadania
está muito mais ligada a nação e tem significado de inclusão total, com
direitos políticos, sociais e civis para todos (SILVA, 2006. p. 49). Porém,
a cidadania plena é alcançada quando, de fato, todos tem liberdade para
exercer os seus direitos e consciência para cumprir os deveres.
Mesmo que atualmente a cidadania esteja muito mais ligada à nação,
a escala da cidade tem papel primordial na construção da relação de pro-
ximidade entre o habitante e o espaço, pois é nesta escala que ocorrem a
maioria dos debates sobre questões coletivas. Essa proximidade, através
da apropriação dos espaços e do sentimento de pertencimento (CAVAL-
CANTE; ELIAS, 2011), contribui para que o indivíduo encare a si mesmo
como parte da cidade e como agente atuante no território. O processo
de apropriação dos espaços está intimamente ligado as experiencias
dos cidadãos no espaço, e através de ações de planejamento e posterior
intervenção na cidade, os usuários constróem significados para os luga-
res, como descreve Moranta & Pol:
“Através da ação sobre o entorno, as pessoas, os grupos e as comunidades
transformam o espaço, deixando nele sua ‘identidade’, quer dizer, sinais
e marcas carregados simbolicamente. Mediante a ação, a pessoa incor-
pora o entorno nos seus processos cognitivos e afetivos de maneira ativa
e atualizada. As ações dotam o espaço de significado individual e social,
através dos processos de interação.” (MORANTA & POL, 2005)5

A cidadania pode ser compreendida, neste sentido, como a condição de


quem pertence a uma cidade. Entretanto, o conceito de pertencer, tal
como está sendo proposto neste trabalho, não indica posse ou privação

5
“A través de la acción sobre el entorno, las personas, los grupos y las colectividades
transformam el espacio, dejando en él su ‘huella’, es decir, señales y marcas cargadas
simbólicamente. Mediante la acción, la persona incorpora el entorno en sus procesos
cognitivos y afectivos de manera activa e actualizada. Las acciones dotam el espacio de
significado individual y social, a través de los processos de interacción. (Tradução livre
dos autores, MORANTA & POL, 2005)

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 107
da liberdade, mas uma condição ligada ao sentimento de pertencimento
e apropriação do espaço (CAVALCANTE; ELIAS, 2011). É cidadão aquele
que sente-se parte integrante e ativa da cidade e que, por causa disto,
possui direitos e deveres em relação a este território, sendo co-responsá-
vel pela sua construção.
Débora Nunes, em seu trabalho intitulado “A pedagogia da participa-
ção”, desenvolve uma pesquisa com a hipótese de que a participação dos
habitantes em decisões de urbanismo pode levar a um aprendizado de
cidadania. Um dos pressupostos que justifica este argumento é a “visão
de conjunto” própria do urbanismo, que pode auxiliar os moradores a
desenvolver uma visão do todo, comprenedendo as problemáticas urba-
nas sob a perspectiva dos interesses coletivos. Para a autora:
“Cidadania é um conceito de mão dupla: de uma parte, é a condição
concreta do indivíduo cujos direitos políticos, civis e sociais são res-
peitados; de outra, é o engajamento do indivíduo na luta pela pre-
servação dos seus direitos e pela ampliação desses mesmos direitos
numa dimensão coletiva.” (NUNES, 2006. p.11)

A autora destaca o caráter didático da participação quando defende que


a aprendizagem da cidadania é um “processo de mudança de mentali-
dade e de atitude que possibilita um maior engajamento em torno das
questões coletivas” (NUNES, 2006. p. 11-12).
Para Paulo Freire, o conceito de cidadania está relacionado à com-
preensão da realidade para atuar nela de forma consciente em prol da
emancipação. Este conceito refere-se, sobretudo, ao conhecimento de
direitos e deveres fundamentais do cidadão, objetivando uma maior
justiça social e qualidade de vida. Para o autor, a cidadania refere-se
sempre ao coletivo, quando defende que “assim como ninguém libera
ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comu-
nhão.” (FREIRE, 1981. p. 27).

4. Conclusão
Cidadania e participação possuem profunda ligação através do conceito
de coletividade. A participação popular no planejamento urbano res-
ponde a uma demanda coletiva pela inclusão das necessidades dos habi-

108 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
tantes nos planos elaborados para a cidade. E a cidadania é uma condi-
ção do indivíduo enquanto ator no processo coletivo de construção e
intervenção no território urbano. Alem disso, os dois conceitos compar-
tilham do mesmo arcabouço de objetivos que envolve autonomia, eman-
cipação popular, justiça social e democracia.
Após a formação do quadro teórico, pode-se dizer que os processos parti-
cipativos são consequência da atuação dos cidadãos. Ou seja, habitantes que
podem exercer sua cidadania com liberdade, exigem e atuam em processos
participativos de planejamento da cidade através da participação cidadã.
Além da interação entre os habitantes e os espaços físicos (relação
humano-ambiental), é importante considerar que a cidadania ocorre
a partir da participação (e apropriação) dos habitantes nos processos
de planejamento urbano. Este processo, que culmina na construção
de bases sociais cidadãs, é híbrido, composto tanto pela subjetividade
dos indivíduos (apropriação do espaço, sentimento de pertencimento,
construção de significados e memórias relativos aos espaços) quanto
por ações transformadoras em busca da autonomia popular refletidas
no planejamento e nas intervenções urbanas.

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110 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A permanência de Vilas Operárias:
os casos das vilas do Jardim Botânico
e do Meio da Serra
CL AUDIO A N TONIO S. LIM A C A R LOS
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - UFRRJ

Resumo
Este trabalho propõe algumas reflexões a partir da permanência de duas
vilas operárias tombadas, construídas no início do século XX, localiza-
das no Meio da Serra – distrito de Petrópolis/RJ – e no bairro do Jardim
Botânico, no Rio de Janeiro. Avaliam-se comparativamente os respecti-
vos contextos espaciais e sócio-econômicos originais com os atuais que
destacam, dentre outros, o desaparecimento das respectivas fábricas
que as originaram: Fábrica Cometa de Tecidos, demolida nos anos 1950
(Meio da Serra, Petrópolis/RJ) e Fábrica de Tecidos Carioca, demolida
em 1962, (bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro).
Em face do exposto, o trabalho foi estruturado em três etapas, sendo a
primeira destinada a uma breve análise dos diferentes contextos sociais
e econômicos estabelecidos no Brasil, do século XIX ao início do XX,
que viabilizaram o surgimento e o declínio das fábricas de tecido. Em
seguida, são apresentadas as características tipológicas das fábricas de
tecidos de algodão e suas vilas operárias. Finalmente, são apresentados
os casos das vilas operárias do Jardim Botânico e do Meio da Serra.

Palavras-Chave
Vilas operárias, arquitetura industrial, patrimônio cultural

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 111
1. Introdução
O artigo intenciona apresentar algumas reflexões acerca da permanên-
cia das vilas operárias construídas, a partir do último quartel do século
XIX, no Rio de Janeiro, a partir da análise comparativa entre os contex-
tos sócio-econômicos originais e os atuais.
Analisam-se os casos das vilas operárias da Fábrica de Tecidos Carioca,
no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro (demolida em 1962) e da
Fábrica Cometa de Tecidos, no Meio da Serra, distrito de Petrópolis – RJ
(demolida nos anos 1960). Ambas são protegidas pelo tombamento muni-
cipal e federal, respectivamente. Nesses conjuntos, ainda é possível obser-
var a permanência de muitas características físicas originais, bem como
a presença de ex-operários e descendentes, o que as transforma em rico
objeto de análises e reflexões, com vistas a um melhor entendimento do
seu papel atual e da sua importância documental.
Em face do exposto, o trabalho foi estruturado em três etapas, sendo
a primeira dedicada a uma breve análise dos diferentes contextos socio-
econômicos estabelecidos no Brasil, do século XIX ao XX, que origina-
ram o surgimento e o declínio das fábricas de tecido. Em seguida, são
apresentadas as características tipológicas das fábricas de tecidos de
algodão e suas vilas operárias. Finalmente, são apresentados os casos
das vilas operárias da Gávea e do Meio da Serra.

2. O Brasil no século XIX


Apesar das mudanças estruturais que a chegada da Família Real (1808) gerou,
a escravidão perdurou até 1888, a despeito das pressões políticas externas.
No cenário socioeconômico brasileiro, da segunda metade do século
XIX, observou-se uma grande resistência das classes sociais hegemôni-
cas de origem agrária no tocante às novas modalidades de exploração
da mão de obra. Essa postura, dentre outros fatores, decretou um atraso
do desenvolvimento econômico brasileiro, principalmente com relação
à industrialização que já contava com muitos entusiastas, dentre eles, o
Barão de Mauá que estabeleceu o “primeiro surto” de industrialização
no Brasil. (ALENCAR, 1979, p. 56)
A partir dos anos 1870, observam-se modificações no contexto pro-
dutivo brasileiro, quando a indústria têxtil foi consolidada, especial-

112 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mente em Minas Gerais e Rio de Janeiro, sede da Companhia América
Fabril (CAF), conglomerado de várias fábricas têxteis fundado em 1878 e
extinta em 1962. (WEID e BASTOS, 1986, p.31).
Nos anos 1880, o cenário socioeconômico carioca registrou impor-
tante mudança, caracterizada pelo declínio do plantio do café e na con-
seqüente perda de importância do Porto na função da sua exportação. O
quadro viabilizou a função de “receptor e distribuidor de matéria prima
e maquinário para a indústria de artigos importados, consumidos na
Capital e províncias vizinhas alcançadas pelas ferrovias”, em fase de
gradual implantação. (LEOPOLDI, 1986, p.56) Dentre os materiais que
passaram a ser importados estão, dentre outros, as estruturas pré-fabri-
cadas em ferro, aplicadas na construção das primeiras fábricas, estações
ferroviárias, mobiliário urbano etc. (SILVA, 1986, p.28).
O Rio passou a desempenhar o papel de centro financeiro de comér-
cio e indústria, registrando os impactos provenientes da política eco-
nômica empreendida em fins do Império, o Encilhamento. A especu-
lação financeira gerada provocou, dentre outros, a expansão de vários
empreendimentos e atividades comerciais, especialmente a construção
de estabelecimentos industriais, como por exemplo, as fábricas de teci-
dos de algodão. (LEOPOLDI 1986, p. 57)
Verificou-se, até o início do século XX, o ápice de um processo que
introduziu a indústria no país que, segundo Alencar (1979, p.160) não
representava um efetivo processo de industrialização, mas apenas “(...)
mais um surto industrial, isto é, o surgimento de indústrias que têm seu
desenvolvimento ameaçado quando cessam as condições que propicia-
ram seu surgimento.” Essa visão é compartilhada por Abreu (1987, p.53-
54) quando afirma que o Rio de Janeiro, na segunda metade do século
XIX passou por “diversos surtos de industrialização” que, no entanto,
se identificavam muito pouco com o processo de acumulação capita-
lista típico que era extremamente dependente do comportamento do
setor agrário – exportador, do qual provinha grande parte do seu capital,
a atividade industrial sofria revezes consideráveis, que dificultavam a
reprodução do capital.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 113
3. Características Tipológicas das Fábricas e o contexto urbano
A arquitetura possuía forte influência inglesa e aparência externa robusta
em função das espessas paredes de pedras ou fiadas múltiplas de tijolos
maciços aparentes, revestidas por granito. Contrapondo o exterior, os
interiores, guardavam esbeltas estruturas de ferro moduladas que ven-
ciam grandes vãos estruturais, gerando amplos espaços apropriados à cir-
culação de operários e a disposição de maquinário de grande porte.
Os projetos arquitetônicos estabeleciam também uma rígida hierar-
quização tipológica que determinava uma escala que ia das residências
menores e mais simples (operários menos qualificados e solteiros), até
as mais amplas e confortáveis (chefes, engenheiros, diretores). Estes
atendiam aos requisitos higienistas voltados a equacionar os proble-
mas de insalubridade no contexto habitacional do país, denunciados
por Everardo Backheuser, em seu artigo “Onde Moram os Pobres, de
1905, publicado na Revista Renascença; e no relatório sobre as habita-
ções populares, apresentado ao Ministro da Justiça e Negócios Inte-
riores, J.J. Seabra (1906). (MATTOS, 1976, p. 45-48) Dentre as soluções
estavam a obrigatória adoção de parâmetros de iluminação, ventilação,
a impermeabilidade de materiais (azulejos, ladrilhos hidráulicos etc.),
isolamento dos pisos dos terrenos (porões não habitáveis), entre outros.
Em função da escala, extensão e dependência de recursos naturais,
especialmente a água, utilizada em abundância no processo de confec-
ção, as primeiras fábricas de tecido foram implantadas em áreas rurais
distantes dos centros urbanos, próximas às nascentes ou cursos d água.
O fato acarretava a substituição das atividades rurais pelas industriais
ou, em alguns casos, a pacífica convivência entre as duas.
Os conjuntos fabris contribuíram para a expansão das cidades gerando
núcleos urbanos que, posteriormente, originaram novos bairros, em função
da sua configuração programática que além da fábrica, passou a contar, obri-
gatoriamente, no Brasil, a partir de 1878, com infra-estrutura capaz de suprir
as necessidades básicas dos operários e de suas famílias: casas salubres, esco-
las, creches, igrejas, lazer, comércio de apoio, enfermarias etc. Esse modelo,
em muito inspirado nas propostas desenvolvidas pelos socialistas utópicos
(Fourier, Owen), só se tornou obrigatório a partir do insucesso das primeiras
experiências fabris ocorridas no país, com mão de obra escrava ou semi-es-
crava, em meados do XIX, na Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

114 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Blay (1985, p.30-31) observa que inicialmente os “(...) imigrantes
estrangeiros, atraídos para o trabalho, vão sendo logo desencorajados
pela instabilidade do mercado, pelos baixos salários e pelas péssimas
condições de moradia.” O quadro atrapalhou inicialmente, as tentati-
vas de expandir o setor industrial que teve de procurar soluções viáveis
de fixação da mão-de-obra através da garantia de habitação salubre. A
habitação era uma peça fundamental na estratégia de atração e retenção
da mão-de-obra, garantindo a sua reprodução. (BLAY, 1985, p.30-31)
Observou-se, a partir de 1878, o aumento das fábricas, especialmente de
tecidos, com apoio e incentivo do Império, mais tarde da República, dota-
das destes itens de conforto para o operário, cujos custos de construção e
manutenção inicialmente recaíam totalmente sobre o empreendedor.
A partir do século XX, o “conforto” passou a ter um custo para o
operário, o aluguel, que era pago ao dono da fábrica ou a construto-
res que auferiam renda por meio da concessão do serviço. A estratégia
possibilitava ao Capital a prática conhecida como “salário não pago”, ou
seja, parte do salário mensal do operário retornava, ao dono da própria
fábrica, sob forma de aluguel.
As vilas operárias garantiram a reprodução da mão-de-obra e cons-
tituíram um quadro de total dependência e controle cotidiano de suas
atividades, por parte do empreendedor, ajudados pelo isolamento das
suas localizações. Lobo e Stots (1985, p. 61-85) observam que nos anos
1870, o setor de ponta da indústria de tecidos já construía vilas operá-
rias contíguas às fábricas, isolando os operários e submetendo-os a um
regime rígido de disciplina. A fábrica absorvia toda a mão-de-obra da
família, sendo “controlada na escola da vila, no tipo de leitura, de visitas,
horário de dormir e acordar e no consumo.” A estratégia estabelecia a
dependência do trabalho na fábrica por gerações.

3.1 O século XX
A partir de diversos fatores econômicos, observou-se o encerramento e
a transferência das atividades de várias fábricas de tecido de algodão. O
processo é explicado, em parte, pela consolidação e valorização imobili-
ária das extensas áreas por elas ocupadas que se integraram às cidades.
O fato ocasionou a transferência das atividades de muitas fábricas para

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 115
áreas mais distantes, bem como a transformação da atividade industrial
em imobiliária, gerando condomínios residenciais de classe média.
Houve casos em que as vilas operárias e demais elementos se perderam,
remanescendo íntegra apenas a fábrica que se manteve funcionando até
a sua desativação, como é o caso da Fábrica Bangu.1
No entanto, o caso que mais chama a atenção, tendo em vista todas as
características dos conjuntos fabris, já abordadas, é a permanência da vila,
de ex-operários e descendentes, sem a presença física da fábrica e suas ativi-
dades originais. São os casos das vilas da Gávea e do Meio da Serra.
Observa-se que a sua permanência, muitas das vezes, se deu em fun-
ção de disputas jurídicas (pleito de usucapião) ou até mesmo de desor-
ganização administrativa das massas falidas das antigas fábricas que,
muitas vezes, continuaram a cobrar aluguéis pelas casas. Observa-se
que o controle, outrora exercido pela fábrica, do espaço físico e das ati-
vidades cotidianas, deu lugar à organização comunitária e formas livres
de apropriação dos espaços que, invariavelmente, se traduziram em des-
caracterizações da arquitetura originai.

4. A Vila Operária da Gávea 2


O bairro da Gávea é, atualmente, um valorizado bairro residencial da
zona sul carioca, mas, originalmente, abrigou os operários da Fábrica de
Tecidos Carioca em vila que pertencia à CAF, localizada nas ruas Mestre
Joviniano, Alberto Ribeiro, Abreu Fialho, Caminhoá, Estella, Fernando
Magalhães e Pacheco Leão. A vila possuía 132 com tipologias hierarqui-
zadas em suas características arquitetônicas que vão das mais simples
(operários solteiros), até as mais elaboradas (engenheiros, diretores),
além de escola e clube de operários.
Com a demolição da fábrica (1962), surgiu um movimento social urbano
organizado em prol da permanência dos seus moradores originais cujas
reivindicações resultaram na publicação de lei federal que desapropriou

1
A fábrica perdeu sua vila operária, cujas unidades foram vendidas quando ainda
estava em plena atividade, nos anos 1970. In Inventário de tombamento municipal,
Departamento Geral de Patrimônio Cultural (DGPC), Secretaria Municipal de Cultura
do Rio de Janeiro (1989).
2
A vila foi primeiramente estudada pelo autor na ocasião da elaboração do inventário
de tombamento (1987). Mais tarde foi tema de monografia de especialização (1990).

116 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
para fins de utilidade pública, toda a vila operária da Fábrica Carioca,
revalidada dois anos depois por outra, que estipulou uma quantia para a
desapropriação do conjunto. (LIMA CARLOS, 1990, p.51)
Desse ponto, iniciou-se uma batalha judicial que foi vencida pela
CAF (1987) que teve a posse das casas restabelecida. No mesmo ano, os
ex-operários solicitaram à prefeitura o tombamento do conjunto, que
ocorreu no mesmo ano. (LIMA CARLOS, 1989, p.56) A proteção afastou
às intenções de demolição e venda da área para empreendedores imobili-
ários. Restou à CAF vender as casas, por preços acessíveis à grande parte
dos moradores, em face da depreciação decorrente do tombamento. Os
moradores que não conseguiram comprar suas residências impetraram
ações de usucapião, para permanecerem no local.
Atualmente, ainda remanescem alguns descendentes de ex-operá-
rios, no entanto, há um claro processo local de gentrificação. Obser-
vam-se ocupações não residenciais (galerias de arte, ateliês de artistas
plásticos e estúdio de musical), bem como a gradual substituição de
moradores tradicionais por outros com maior padrão socioeconômico.3

Fig. 01 | Vista de um dos conjuntos de casas da Vila da Gávea (Rua Abreu Fialho.
Fonte: Autor, jul/1990

3
O Globo Revista, ano 5, nº 245, de 05/04/2009, Se Essa Rua Fosse Minha, p. 24.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 117
5. A Vila Operária da Fábrica Cometa4
Fundada por Cavaliere Pareto (1903), tinha duas sedes: uma no Meio e
outra no Alto da Serra da Estrela, localidades da cidade Petrópolis. Os
operários, em grande parte, eram de origem italiana e ocupavam a vila
operária do Meio da Serra é composta por 109 unidades hierarquizadas
em suas tipologias arquitetônicas (das mais simples – térrea de porta e
janela – às mais complexas), além de escola, igreja, mercado e estação de
trem. Em 1957, as atividades da fábrica do Meio da Serra se encerraram,
restando a vila e os ex-operários, muitos ainda atuantes na unidade pro-
dutiva do Alto da Serra. Segundo o Sr. Célio Roberto Gastaldo (1946),
ex-operário ainda residente na vila, o prédio da Fábrica Cometa ficou
desocupado por uns dez anos.5 Com o agravamento da crise financeira
da outra filial, a edificação foi sendo gradualmente demolida e seus
equipamentos vendidos como sucata.
Em 1996, Portaria/IPHAN nº 213 estabeleceu o tombamento federal de
diversos bens culturais em Petrópolis, dentre eles, o Conjunto Arquitetô-
nico remanescente da antiga Fábrica Cometa, situada no Meio da Serra.
Gastaldo observa que outrora havia uma comunidade no local, mas
atualmente a maioria dos habitantes da vila não possui nenhuma relação
com a fábrica. Ele estima que atualmente, haja cerca de 20 famílias de
ex-operários da fábrica. Muitos se aproveitaram da indefinição da situa-
ção jurídica de propriedade da vila e invadiram algumas casas. Segundo
ele, a indevida apropriação promove a descaracterização da sua arquite-
tura. Há também muitas novas edificações, construídas de forma irregu-
lar que contribuem para a descaracterização da paisagem local. O fato
originou a demanda do IPHAN por um Plano Diretor de Conservação que
propõe diretrizes de proteção da ambiência e da arquitetura da vila.

4
O autor atuou como consultor do Plano Diretor de Conservação da vila da Fábrica
Cometa, tombada em nível federal (1996), elaborado por equipe da Ingenium
Arquitetura e Construção, coordenada pelo arquiteto Luciano Jardim.
5
Depoimento colhido em 07/07/2016.

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Fig. 02 | Vista de um dos conjuntos de casas da Vila do Meio da Serra. Fonte: Autor,
21/05/2016

Conclusão
O caso das vilas abordadas apesar de semelhantes apresentam particu-
laridades. A vila da Gávea revelou forte resistência de ex-operários ao
iminente processo de expulsão, justificada pela criação de laços afetivos
entre operários e a vila, construídos através de gerações, por um lugar
originalmente criado apenas para atrair, fixar e reproduzir a mão-de-o-
bra. O apreço dos ex-operários pelo lugar, não se transmitiu aos seus
descendentes que também sucumbiram às pressões econômicas decor-
rentes da nobre localização.
No caso de Petrópolis não há, até o momento, um claro processo de
expulsão, tampouco pressões econômicas advindas da valorização do
solo, apesar da indefinição da situação fundiária. No entanto, observa-
-se a mesma construção de laços afetivos que desaparecem, gradativa-
mente, com a morte dos ex-operários. Nota-se, nos dois casos, extrema
morosidade da justiça, má administração das fábricas e apropriações
danosas à integridade das características tipológicas originais.
Observa-se que a permanência dessas vilas destacou a sua importância
social no cumprimento, de forma não ortodoxa, do direito básico de acesso
a habitação, por outro lado, também evidenciou a necessidade de conservá-
-los como elementos ainda vivos da memória industrial brasileira.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 119
Bibliografia
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LIMA CARLOS, C.A.S. Chácara do Algodão: permanência e contradição, Rio de
Janeiro: Núcleo de Pesquisa e Pós-Graduação do Instituto Metodista Benett,
monografia de curso lato senso, 1990.
LOBO, E. M. L., STOTS, E. N. Flutuações cíclicas da economia, condições de vida
e movimento operário – 1880 a 1930, in Revista do Rio de Janeiro, vol. 1, nº 3,
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MATTOS, R. C. Pelos pobres! As campanhas pela construção de habitações
populares e o discurso sobre favelas na Primeira República. Niterói, Tese de
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indústria têxtil. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa/Confederação
Nacional da Indústria, 1986.

120 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Análise da vegetação das praças
do Bairro da Tijuca, Rio de Janeiro
M A ÍR A R IBEIRO C A MPOS
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Faculdade de Arquitetura

e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, PROARQ/FAU/UFRJ,

Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

S Y LM A R A SCHEIDEGGER
Aluna de graduação da Escola de Belas Artes – EBA/FAU/UFRJ.

V IRGÍNI A M. N. DE VA SCONCELLOS
Professora Doutora do PROARQ/FAU/UFRJ.

Resumo
Este artigo objetiva analisar a vegetação das praças do Bairro da Tijuca, Rio
de Janeiro, verificando os percentuais de sombreamento. O estudo integra
a Pesquisa “A vegetação no conforto ambiental”, que busca resgatar a fun-
ção da vegetação como elemento indutor da qualidade e da sustentabili-
dade ambiental. A metodologia utilizada abrangeu observações diretas não
participativas e levantamentos físicos de campo. Os resultados indicaram a
existência de 671 indivíduos arbóreos nas 20 praças mapeadas e demonstra-
ram uma grande variedade de espécies, entre nativas e exóticas, com desta-
que para diferentes palmeiras, como: Veitchia merrillii (Palmeira Veithia),
Syagrus romanzoffiana (Jerivá) e Dypsis decaryi (Palmeira Triângulo), que
contemplaram 18,8% dos indivíduos levantados, seguidas pela Licania
tomentosa (Oiti), com 8% e Delonix regia (Flamboyant), com 7,6%. A espé-
cie arbustiva mais encontrada foi: Agave americana (Agave – 30%) e Ixora
chinensis (Ixora – 25%), enquanto a forração mais comum foi a Arachis
repens (Grama-amendoim), em 25% das praças. Para dar suporte ao estudo,
verificou-se, também, os revestimentos de pisos mais frequentes: concreto
e terra batida. Quanto ao sombreamento, observou-se que 11 praças pos-
suem mais de 50% da sua área sombreada por árvores, o que representa um
bom índice para locais de uso público em clima quente e úmido.

Palavras-Chave
Arborização urbana; Praças; Tijuca; conforto térmico urbano;
sustentabilidade ambiental

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 121
1. Introdução
O uso da vegetação (árvores, arbustos e forrações) no espaço urbano
pode apresentar múltiplas funções, atuando no controle da qualidade
do ar, na minimização dos efeitos negativos do clima, na promoção
da biodiversidade e na valorização paisagística, contribuindo com seus
papéis ecológicos, ambientais, sociais e psicológicos (Mascaró e Mas-
caró, 2010; Santos, 2016).
A importância da sua inserção em espaços livres de uso público (pra-
ças, parques, ruas, calçadas etc.) localizados em clima tropical quente
e úmido, além dos benefícios citados, está diretamente relacionada
à melhoria da qualidade ambiental não só desses espaços, mas também
das cidades, com consequências para a saúde física e mental dos seus
habitantes (Bartholomei, 2003).
Diversos estudos corroboram esta questão, demonstrando que
a inserção da vegetação no espaço urbano pode influenciar na inter-
ceptação da radiação solar, entre 60 e 90% (Lamberts et al., 1997), na
diminuição da temperatura e no aumento da umidade relativa do ar
(Martini, 2013), na criação de microclimas (Vasconcellos, 2006) e nas
sensações de conforto do entorno imediato (Bartholomei, 2003).
Contudo, na contramão dos estudos realizados, a configuração
da paisagem heterogênea da cidade tem se caracterizado pelo aden-
samento populacional e construtivo, pelo uso de materiais de revesti-
mento que aumentam a impermeabilização do solo e pela diminuição
das áreas verdes, gerando uma alteração do balanço hídrico e térmico
da superfície urbana e favorecendo o surgimento de fenômenos climáti-
cos, como as ilhas e as ondas de calor, potencializados por diversos fato-
res, entre eles, a perda ou redução da vegetação nesses locais (Lucena,
2012; Vasconcellos, 2006).
A vegetação é, portanto, um elemento importante para o conforto
ambiental das cidades, sendo fundamental para o controle bioclimático
dos espaços urbanos e para a minimização dos efeitos de alteração no
clima provocado pela urbanização (Labaki et al., 2011; Vasconcellos, 2006).
Nesse contexto, o inventário da vegetação urbana visa à organização
de um banco de dados que possibilite a criação de diretrizes para o plane-
jamento, preservação, manejo e a sua expansão nas cidades. Nas praças,

122 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
que são espaços urbanos essenciais de trocas de relações sociais, culturais
e econômicas, o mapeamento da vegetação pode contribuir também para
o planejamento e melhoria da habitabilidade térmica desses espaços.
O mapeamento da vegetação urbana também pode extrapolar esses
limites e demonstrar o impacto ambiental e financeiro das espécies,
gerando dados sobre a captação da água de chuva, conservação de ener-
gia e remoção de poluentes do ar. Como exemplo desta colaboração,
tem-se o diagnóstico da arborização das ruas de Nova York, que rea-
lizou um levantamento onde é possível verificar também a localização
dos indivíduos arbóreos, fotos, detalhes da espécie e diâmetro de tronco
(New York City street tree map, 2017) auxiliando o Poder Público no
reconhecimento da arborização e no planejamento que vise à qualidade
e sustentabilidade urbana.
O Rio de Janeiro, localizado na Região Sudeste do Brasil, não possui
um inventário tão detalhado. Dispõe apenas de um diagnóstico geral
e diretrizes para políticas públicas de gestão da arborização pública, por
meio do Plano Diretor de Arborização Urbana (PCRJ, 2015), que apre-
sentou a análise quanti-qualitativa da arborização dos passeios públi-
cos, as suas espécies, remoções, plantios compensatórios, manutenção,
manejo, proteção e o déficit arbóreo dos bairros da Cidade.
O plano também relacionou o número de plantios de espécies com
as áreas estimuladas pelo vetor de crescimento da Cidade, para a Zona
Oeste, indicando que nessas áreas o número de plantio de árvores é mais
alto. Em contraponto, as áreas urbanas mais consolidadas são caracte-
rizadas pela carência da arborização e pela limitação da sua expansão,
devido a diversos fatores, como o calçamento estreito ou a baixa contri-
buição de medidas compensatórias (PCRJ, 2015).
O Bairro da Tijuca, localizado na Zona Norte do Rio de Janeiro,
se insere na segunda categoria citada, onde a malha urbana densa
e os espaços livres de edificação consolidados são grandes desafios para a
inserção da vegetação urbana. Em relação ao déficit e o grau de arborização,
segundo a PCRJ, o bairro é classificado como “muito deficiente” (PCRJ, 2015,
p.178), mesmo aparecendo em 17º lugar como o mais arborizado da Cidade.
Portanto, este trabalho tem como objetivo mapear a vegetação nas
praças do Bairro da Tijuca, identificando as diferentes espécies dos indi-

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víduos arbóreos, forrações, arbustos e revestimentos de piso existente,
analisando também a área total de sombreamento, para verificar os per-
centuais ideais de sombreamento visando ao conforto térmico ambiental.
Pretende-se contribuir para o planejamento da arborização do bairro,
visando à ampliação das suas áreas verdes, além de fornecer subsídios
para os estudos da influência da especificação de indivíduos arbóreos
localizados em clima tropical úmido no conforto de espaços externos,
se expressando na melhoria da qualidade ambiental.
O estudo integra a Pesquisa “A vegetação no conforto ambiental”,
desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Uni-
versidade Federal do Rio de Janeiro (PROARQ/UFRJ), que tem o propó-
sito de resgatar a função da vegetação como elemento indutor da quali-
dade e da sustentabilidade ambiental, pela identificação das principais
características das espécies vegetais, sua relação com o clima tropical
úmido e o conforto do ambiente construído.

2. A área de estudo
O estudo foi realizado na Tijuca, bairro tradicional de classe média
da Cidade do Rio de Janeiro, que possui área aproximada de 1.006,56 ha
e um total de 163.805 mil habitantes (IPP, 2010).
De acordo com dados da Prefeitura (SMU, 2011), o uso do solo
na região é distribuído da seguinte forma: 67,3% são compostos
por áreas urbanizadas e antropizadas, 21,1% de Mata Atlântica e 11,6%
de outros usos, o que demonstra um percentual elevado de urbanização.
O bairro está inserido em uma das capitais mais quentes do País,
que devido a sua forma geográfica e localização próxima ao Trópico de
Capricórnio, pode apresentar diversos microclimas, influenciados tam-
bém pela proximidade com o oceano e a presença de massa vegetal.
Segundo Lucena, (2012), o clima da cidade é do tipo quente e úmido,
configurado por médias mensais acima de 22ºC e índice pluviométrico
entre 1500 e 2000 mm anuais, com no máximo três meses secos.

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Fig. 01 | Mapa do Brasil, à esquerda, indicando o Estado do Rio de Janeiro,
e Mapa da cidade do Rio de Janeiro, à direita, destacando o bairro da Tijuca.
Fonte: Alterado de https://pt.wikipedia.org.

Fig. 02 | Localização das vinte praças no Bairro da Tijuca.


Fonte: Google Maps alterado pelas Autoras, 2017.

Podem-se destacar como duas características marcantes locais o posi-


cionamento próximo ao Maciço da Tijuca, que se comporta como uma
barreira física dos ventos que vem do mar, e o Parque Nacional da Tijuca,
que contempla um trecho do bairro e contem as funções de “manuten-

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ção de mananciais hídricos; controle da erosão; amenização de enchen-
tes; atenuação das variações térmicas; regulação climática local; redu-
ção das poluições atmosférica e sonora e manutenção da estética
da paisagem natural local” (Parque Nacional da Tijuca, 2016).
Em relação aos espaços de uso público de lazer, o bairro contempla
20 praças (Fig. 2), que se configuram como importantes locais que propi-
ciam o convívio social, a recreação e a contemplação, sendo fundamen-
tais para a vida urbana e para o desenvolvimento das relações sociais,
em diferentes escalas de abrangência.
Os locais mapeados se distinguem em relação a diversos elementos,
como a localização, o tamanho, o formato, a função, os usos, os equipamen-
tos, o mobiliário urbano, o grau de sombreamento, os tipos de revestimento
de solo e a vegetação, sendo o último o foco principal deste trabalho.

3. Materiais e métodos
O método utilizado abrangeu observações diretas não participativas
e levantamentos bibliográficos (mapa da Geo Rio online e Google Maps)
e físicos de campo, de caráter quantitativo, por meio de vistas ao local,
croquis e desenhos, além de registros fotográficos.
Os dados foram anotados em uma planilha específica contendo infor-
mações como: logradouro, área aproximada, tipo de revestimento de
solo, localização geral das árvores (com imagens e croquis das folhas,
frutos, troncos e flores) e indicação das espécies.
Após a coleta das informações, a segunda etapa contemplou a análise
dos dados, a confecção de planilhas indicando a porcentagem das espécies e
o cálculo da taxa de sombreamento da arborização das praças, por meio da
porcentagem de sombra da massa arbórea incidente no plano horizontal.

4. Resultados e discussões
O inventário da vegetação urbana das vinte praças da Tijuca indicou a
existência de 671 indivíduos arbóreos, distribuídos em 43 espécies iden-
tificadas1. Em relação à vegetação arbustiva, trepadeira e de forração,
foram encontradas 58 espécies.

1
Destacamos que não foi possível identificar 124 indivíduos arbóreos, que serão
enviados, posteriormente, para a identificação no Instituto de Biologia da UFRJ.

126 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
As árvores mais encontradas foram as da família Arecaceae (18,8%),
distribuídas em diferentes espécies de palmeiras, como a Veitchia merrillii
(Palmeira Veithia), Syagrus romanzoffiana (Jerivá) e Dypsis decaryi (Pal-
meira Triângulo). Em segundo lugar, aparece a Licania tomentosa (Oiti),
com 8% das espécies, seguida pela Delonix regia (Flamboyant), com 7,6%.

Fig. 03 | Principais indivíduos arbóreos identificados nas praças da Tijuca (em %).
Fonte: Autoras, 2017.

Em relação às espécies mais vistas nas praças, as palmeiras aparecem em


primeiro lugar (11 praças), seguidas pela Pachira aquatica (Munguba,
em 10 praças) e Ficus benjamina (8 praças). Das espécies arbóreas identifi-
cadas, 70,7% são classificadas como exóticas, enquanto apenas 29,3% são
nativas. Segundo Kanashiro (2003) o uso indiscriminado de plantas exó-
ticas para fins paisagísticos pode se tornar uma ameaça à biodiversidade.
As espécies encontradas nas praças coincidem com alguns dos indiví-
duos mais representativos da arborização da Cidade, identificados pelo
Plano Diretor de Arborização Urbana (PCRJ, 2015), que apontou como
espécies principais as exóticas Terminalia catappa, Licania tomentosa e

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 127
Pachira aquatica, além da nativa Handroanthus impetiginosus.
Também foi verificado que 65% das praças possuem alguma árvore
frutífera. Destas, as que mais apareceram no mapeamento foram a Mal-
pighia emarginata (Acerola), presente em 27,3% das praças e Mangifera
indica (Mangueira - 25%). Destaca-se que a maioria das frutíferas encon-
tradas são classificadas como espécimes jovens e foram, em sua maioria,
plantadas e mantidas pelos próprios moradores dos entornos das praças.
Em relação às demais espécies, a forração mais comum encontrada
foi a Arachis repens (Grama-amendoim), em 25% das praças, enquanto
entre as arbustivas destacam-se: Agave americana (Agave – 30%) e Ixora
chinensis (Ixora – 25%). Ressalta-se que as espécies mais encontradas
são de fácil manutenção e adaptadas ao clima local.
Quanto aos revestimentos, o concreto é o mais presente na maioria
das praças (85%), seguido pela terra batida (70%) e piso intertravado
vermelho (25%). A grama aparece sempre em canteiros e está presente
em 25% das praças estudadas. Estes fatos demonstram um grau elevado
de impermeabilidade nesses espaços.
A Tabela 1 demonstra um quadro resumo das principais informações
levantadas:

Tabela 01 | [PÁGINA SEGUINTE] Quadro resumo das vegetações,


materiais de revestimentos de piso e taxa de sombreamento das praças da Tijuca.
Fonte: Autoras, 2017.
Observa-se na Figura 4 uma grande amplitude de variação relativa ao

128 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 129
sombreamento propiciado pela arborização. Enquanto foi verificada uma
taxa de 95% em três praças do bairro (Tabatinga, São Charbel e Irmãos
Gonçalves Xavier), a Praça Varnhagen apresentou apenas 5% de sombra.
Nota-se, ainda, a baixa taxa de sombreamento propiciada pelas palmeiras
nos locais onde essas espécies se destacam na vegetação, principalmente
na última praça citada, que passou por uma recente intervenção física.

Fig. 04 | Taxa de sombreamento das praças pela massa arbórea. Fonte: Autoras, 2017.

Vasconcellos (2006) sugere um percentual de sombreamento para pra-


ças localizadas em clima quente e úmido de, no mínimo, 50% de todas
as áreas de uso. Nas praças da Tijuca, verificou-se que nove das praças
analisadas apresentaram índices menores que o indicado. Dessa forma,
sugere-se a ampliação da arborização nesses locais, de modo a buscar a
qualidade e o conforto térmico ambiental.

4. Considerações finais
Este trabalho realizou o mapeamento da vegetação das 20 praças exis-
tentes no Bairro da Tijuca, levantando também a taxa de sombreamento
propiciada pelos indivíduos arbóreos locais e os tipos de cobertura do
piso, demonstrando os percentuais das principais espécies encontradas.

130 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A análise da vegetação aponta algumas questões que necessitam ser
avaliadas pelo poder Público, na busca da sustentabilidade e qualidade
ambiental do bairro: o uso excessivo de palmeiras e de espécies exóticas,
a impermeabilização do solo urbano, a contribuição da população no
plantio de árvores frutíferas e a baixa quantidade de árvores e de som-
breamento em nove praças, principalmente na Praça Varnhagen, que foi
reformada no ano de 2016 e que, ainda assim, apresentou a menor taxa
de sombreamento.
Assim, o estudo pretende dar continuidade ao banco de informações
sobre a vegetação urbana, suprindo esta demanda tão significativa para
a Cidade, estudantes e pesquisadores. Ele visa, também, à colaboração
para a identificação dos percentuais de sombreamento e a influência da
vegetação, sobretudo arbórea e de forração, para o conforto térmico e
para a sustentabilidade ambiental.

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Agradecimentos
Agradecemos ao CNPQ e à CAPES pelo apoio à pesquisa.

132 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Arquitetura e o conceito de lar:
estudo na Vila da Barca, Belém, PA.
LET ÍCI A R IBEIRO V ICEN T E
Brasil. Universidade Federal do Pará. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

A NA K L ÁUDI A DE A LMEIDA V I A NA PER DIGÃO


Brasil. Universidade Federal do Pará. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo.

Resumo
Discute-se o projeto de arquitetura em habitação social partindo
do conceito de lar. A pesquisa é realizada na Vila da Barca (VB),
em Belém (PA), considerando-se dois momentos de ocupação do territó-
rio. No primeiro temos a Comunidade VB, localizada às margens da Baía
do Guajará, na qual a maioria das casas é em palafita, possuindo ele-
mentos da tradição amazônica ribeirinha. O segundo consiste no Pro-
jeto VB, destinado ao remanejamento de famílias. A pesquisa, desenvol-
vida por equipe multidisciplinar dentre 2013-1016, conta com a aplicação
de instrumental de pesquisa para os moradores reassentados no Projeto
VB. Os resultados demonstram melhorias nos aspectos construtivos
e no quesito saneamento. Contudo, a habitação informal deve ser consi-
derada por conter parâmetros importantes na avaliação habitacional
formal. Conclui-se que o conceito de lar relaciona-se com a espaciali-
dade construída e referências socialmente produzidas, demonstrando
importância para a arquitetura. O vínculo à família também aparece nas
respostas dos moradores.

Palavras-Chave
Lar, Projeto de Arquitetura, Habitação Social, Amazônia.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 133
Introdução
Tradicionalmente os projetos de arquitetura ligam-se mais às aparên-
cias. Malard (2006) define “as aparências” como os aspectos visuais
da arquitetura partindo da sua forma, plasticidade e volumetria.
A Arquitetura, então, passa a ser percebida principalmente a partir
de dimensões funcionais e construtivas, em detrimento da sua dimen-
são simbólica (AGUIAR, 2010; MALARD, 2006; RIBEIRO, 2003). Os sím-
bolos, neste contexto, são a capacidade de agregar e identificar um fato.
Eles são relacionados com imagens, valores, um modo de viver de um
indivíduo ou determinada cultura (RIBEIRO, 2003).
Assim surge uma dicotomia dentro da arquitetura. Primeiramente
temos a aparência, configurando-se a partir de uma ordem geométrica,
demonstrando-se através de plantas, cortes e fachadas. Posteriormente
apresenta-se a essência, dentro da dimensão simbólica, que vai além
de parâmetros de forma e tamanho. É marcada pela presença do usu-
ário, especialmente sua vivência espacial (AGUIAR, 2010; MALARD,
2006; PERDIGÃO & BRUNA, 2009).
Dentro da relação entre aparência e essência na arquitetura, apresen-
tam-se dois conceitos que são norteadores neste artigo. São eles a casa
e o lar. Os mesmo serão discutidos através de relações familiares, cons-
trutivas e espaciais, visando compreender um pouco mais as condições
dos moradores no remanejamento habitacional, bem como seu vínculo
com seu novo local de moradia.
Esses conceitos serão trabalhados na Vila da Barca (VB), em Belém,
Pará, Brasil. A mesma localiza-se no bairro do Telégrafo, nas proximi-
dades do centro da cidade (o qual possui locais de importância para
os moradores, como o mercado do Ver-o-Peso) e situa-se em uma
“área de baixada” (abaixo da cota de 4m). A área atualmente divide-
-se em duas partes. A primeira é a Comunidade VB (Fig.01), localizada
às margens da Baía do Guajará, na qual a maioria das casas é em pala-
fita1, sendo considerada uma comunidade tradicional e possuindo ele-

1
Palafitas são habitações próximas a rios e igarapés, erguidas sobre pilotis de madeira
em áreas alagadiças e, normalmente, sem infraestrutura básica (MACIEL, 2016, p.262).
“A palafita é o modelo de edificação que traduz o padrão tradicional, respeitando
as massas d’água, o ciclo das marés, o modo típico da morada amazônica. A rede
hidrográfica na Amazônia é um poderoso condicionante para a ocupação do território”
(PONTE, 2007 Apud PERDIGÃO, 2016).

134 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mentos da tradição amazônica ribeirinha. A segunda é o Projeto VB
(Fig.02), destinado ao remanejamento dos moradores e constituindo-se
de sobrados (MENEZES, 2015).
O trabalho objetiva discutir fundamentos do projeto de arquitetura
em habitação social produzida na Amazônia partindo-se do conceito
de lar, com a identificação de elementos físico-espaciais e simbólicos.
Foi realizada pesquisa bibliográfica e documental para caracterização
da área de estudo no âmbito dos assentamentos precários e processo
de remanejamento na cidade de Belém (PA). Realizaram-se também
entrevistas com moradores reassentados, nas quais se observou a partir
da fala dos moradores como ocorre na vivência o que é conceituado no
referencial teórico acerca do conceito de lar dos mesmos espaços habita-
cionais, usando como indicadores de qualidade habitacional par apoiar
o projeto de arquitetura.

Fig. 01 | Vila da Barca em palafitas, décadas de 1970. Foto: Josimar Gonçalves.


Arquivo: jornal O Liberal.

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Fig. 02 | O Projeto Vila da Barca. Disponível em: <http://www.skyscrapercity.com/
sho-wthread.php?p=106433235>. Acesso em 18 jan. 2017.

Estudo na Vila da Barca


Contexto histórico
A comunidade VB é considerada um símbolo de resistência dentro
da orla (intensamente privatizada) da cidade de Belém, pois lutou contra
a pressão de empresas que controlam o acesso fluvial da cidade.
O local ficou conhecido como “comunidade flutuante“ e foi ocupado
com a maior parte em áreas alagadiças, constituindo-se de palafitas,
e uma pequena parte em “terra firme”, com habitações em alvenaria
(MENEZES, PERDIGÃO & FELISBINO, 2012). Neste ponto, a ocupação
da orla demonstra a realidade amazônica partindo “do espaço habitacio-
nal produzido, sem arquitetos” (PERDIGÃO, 2015, p. 47). A área, atual-
mente passa por um processo de reurbanização, com remanejamentos
de moradores, configurando o Projeto VB.
O Projeto VB foi aprovado em 2003, iniciando suas obras em 2006 2 . O
mesmo previu 634 unidades habitacionais divididas em três etapas. Foi
entregue a primeira etapa, com 136 unidades, e 12 unidades da segunda,

2
O projeto, que tinha por objetivo o remanejamento de moradores residentes em
palafitas na Comunidade VB, foi elaborado pelo Ministério das Cidades, em parceria
com a Prefeitura Municipal de Belém e com a Caixa Econômica Federal e incluído no
programa “Palafita Zero” (Souza, 2011).

136 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
que previa 92. Na terceira etapa deverão ser construídas mais 406 uni-
dades, além da ampliação/duplicação da estação de tratamento esgoto
(ete) da primeira etapa, e a construção de uma segunda ete. Estão pre-
vistas também a construção de outros equipamentos urbanos como
museu e feira livre, assim como a manutenção de espaços já existentes
como igrejas, associações comunitárias e unidade básica de saúde.
As habitações entregues são em tipologia de sobrado, apresentando três
tipos de plantas. As mesmas possuem uma área aproximada de 65m², sendo
constituídas de sala, dois dormitórios, banheiro, cozinha e área de serviço,
podendo contar com varandas ou pátios de acesso (MENEZES, 2015).

Construção do sentido de lar


Dentre os moradores já remanejados, um importante aspecto a ser
observado é como se dá a adaptação ao novo local de moradia, visto que
as tipologias habitacionais de origem e de destino possuem grandes
divergências. Surge então a investigação do conceito de lar buscando
verificar os vínculos familiares, construtivos e espaciais presentes
na identificação do morador com a sua nova casa. A identificação, neste
caso, vai além de uma simples orientação espacial, orientar-se neste
âmbito é saber onde se está, identificar-se, então, é como se está (NOR-
BERG-SCHULZ, 2006). Estes dois conceitos serão trabalhados dentro
das definições de casa e lar.
A casa deve ser entendida como construção de um espaço físico,
sendo definida pelo minidicionário LUFT (2009, p.151) como uma “cons-
trução para morar; residência; familiar; lar”. A casa é a separação entre
o que é público e o privativo, possuindo a mesma, valor econômico
(MIGUEL, 2002, on-line). Ela é um espaço reservado que abriga huma-
nos e, por conseguinte, suas atividades, sendo associada a aspectos de
orientação (NORBERG-SCHULZ, 2006), tendo o seu morador a capa-
cidade de guiar-se dentro dela e de perceber a articulação de suas par-
tes. Entretanto, a casa pode superar seus elementos físicos e adentrar
uma dimensão simbólica, “Projeta-se a casa, constrói-se a casa. Os seus
moradores podem fazer dela um lar” (MIGUEL, 2002, on-line).
A configuração de lar é definida pelo minidicionário LUFT (2009, p. 416)
como “casa de habitação familiar; família; pátria; terra natal”. O conceito de

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 137
lar é muito associado à família, e aspectos da vivência cotidiana. A palavra
lar deriva de lareira, possuindo o fogo que reúne as pessoas ao seu redor. O
lar associa memórias, experiências, sonhos, expectativas, e passa a refletir
seus próprios habitantes (MIGUEL, 2002, on-line). O lar possui aspectos
da identificação, o “sentir-se em casa” (NORBERG-SCHULZ, 2006, p.456),
onde as estruturas espaciais passam a ser dotadas de significados.

Discussão dos resultados


Através das entrevistas observou-se a partir da fala dos moradores como
ocorre na vivência o que é conceituado na teoria acerca do conceito
de lar. As entrevistas realizaram-se com moradores participantes
da associação de idosos da VB. As mesmas aconteceram nas casas
(de destino) e tiveram uma duração média de 7 minutos cada. As per-
guntas foram semiestruturadas e divididas a principio em quatro assun-
tos (adaptação, modificações realizadas na casa de destino, sentido
de lar e bem estar). Posteriormente sintetizou-se em dois tópicos, sendo
eles adaptação e sentido de lar. Os moradores tiveram ampla liberdade
na forma de responder e perguntas complementares foram feitas para
melhor entendimento de acordo com a resposta morador. Por este fato
as perguntas diferiram de acordo com o rumo da conversa.
No primeiro tópico, adaptação (Quadro 1), questionou-se acerca
das diferenças entre casa de origem e a casa de destino. Perguntou-se sobre o
processo de adaptação, e a partir do direcionamento que os próprios morado-
res davam às falas surgiram tópicos como a história do morador, o que o fez
chegar à VB, comparação entre o que é/era melhor/pior nas casas (de origem
e de destino), o que mais gosta(va) nas casas (de origem e de destino).
A partir das respostas obtidas nota-se o destaque no processo
de adaptação dado ao aspecto construtivo, visto que dentre os 6 moradores
entrevistados 5 possuíam a casa de origem completamente em madeira. O
morador 1 afirma ter possuído dificuldades de adaptar-se à casa de alve-
naria. Para alguns moradores, entretanto, a passagem para alvenaria foi
um aspecto positivo, especialmente os que moravam em condições mais
precárias, como é o caso do morador 6, que possuía uma casa de palha e
madeira e afirma ter perdido muitas coisas pelos alagamentos, além de ter
a necessidade constante de repor os materiais da casa.

138 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Questões de saneamento também foram presentes nas falas obti-
das. O morador 1 (Quadro 1) afirma que quando morava na palafita era
bom pois na época a contaminação do rio era menor que atualmente.
Na Comunidade VB o saneamento é precário, não possuindo em certos
pontos rede de distribuição de água, ou coleta de esgoto.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 139
O morador 5 (Quadro 1) relata as dificuldades de executar tarefas domés-
ticas básicas, como lavar a roupa, e afirma que “Água não tinha.[...]. A gente
pegava uns tambor assim de doze litro e enchia de água. Botava pedra um
pouco pra sentar a água da maré, pra poder lavar as nossas roupas.” Esses
problemas poderiam ser minimizados com um olhar mais atento das par-
tes públicas com a área, além de medidas educativas com os próprios
moradores, explicando a forma correta de descarte do lixo e etc.
O outro aspecto que demonstrou relevância na adaptação foi a questão
espacial. O morador 3 (Quadro 1) fala da quantidade de cômodos da casa de
origem, relatando serem 3 quartos em cima e três embaixo. O mesmo tam-
bém destaca a área de serviço da casa de destino como um espaço muito
pequeno e inadequado para atividades simples como estender a roupa.
Nas palafitas, a relação espacial dos moradores tem a presença mar-
cante de dois elementos, que são destaque nas modificações (realizadas
pós-reassentamento) e podem buscar reaver essa ambiência perdida.
São eles o pátio e o quintal (Fig.03). Modificações como essa poderiam
ser evitadas com uma preocupação projetual maior, visando manter na
casa de destino as relações espaciais básicas presentes na casa de ori-
gem. Percebe-se que em função de uma aparência a ser demonstrada em
questões de saneamento e construtivas, perde-se a essência das relações
espaciais e simbólicas presentes na palafita.

Fig. 03 | Relação de continuidade na palafita com seu entorno e no interior da casa.


Fonte: MENEZES, 2015 (Desenho: Danielli Felisbino).

No segundo tópico (Quadro 2) foi demandado acerca do sentido lar,


visando compreender de que forma é construído o vínculo do morador
com a casa após o remanejamento, visto que muitos aspectos espaciais
são perdidos ou alterados, podendo comprometer a identificação

140 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
do morador. As duas perguntas feitas aos moradores foram se a casa
(de destino) era um lar para eles, e o que era um lar. Foi observada certa
dificuldade de entendimento do conceito lar, e quando necessário com-
plementou-se perguntando se o morador se sentia bem ali.
As respostas acerca do sentido de lar diferiram bastante dentre os
moradores. Isso demonstra que o processo de vinculação com a casa é
algo particular, variando de acordo tanto com as vivências e memórias
dos ambientes já habitados quanto às expectativas que são construídas
para a nova moradia (ELALI & MEDEIROS, 2011).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 141
O morador 1 afirmou se sentir bem na nova casa, apesar dos aspectos
térmicos. Em seguida disse “É bom, não é como lá na maré, mas eu tô
ainda perto do rio aqui, muito bom, perto do rio.”. Vale ressaltar esse tre-
cho visto que a proximidade dos moradores com o rio na comunidade é
muito forte, e é associada também à saúde e bem estar.
O morador 2 respondeu dizendo que não considera a casa atual um lar.
Ao ser questionado sobre o que seria um lar para ele, o mesmo respondeu
não saber, mas disse que a sua casa de origem era, destacando a madeira,
o conforto térmico e a sensação da paz. Mesmo o morador não possuindo
uma definição formal acerca do significado do termo lar, o mesmo con-
segue entender o que sente no que diz respeito ao local. O ponto de vista
desse morador é resultando da própria vivência, do saber empírico, de
uma experiência topológica que subentende vínculos (AGUIAR, 2010).
O morador 3 diz que considera a casa de destino um lar, mas ao jus-
tificar o que seria um lar para ele, destaca pontos da casa de origem,
sendo incongruente no discurso. Para ele o lar comporta aspectos espa-
ciais. Ele relata o número de cômodos e também o conforto térmico que
possuía na casa de origem, além de também falar sobre a configuração
familiar que era diferente na época, havendo diminuído.
O morador 4 considera a casa de destino um lar, associando esse con-
ceito a um sentido de casa própria, ao aspecto construtivo e ao sanea-
mento. Vale destacar que ideia de lar associado ao título da propriedade
foi amplamente difundida especialmente em programas habitacionais.
É notório que o fato de a casa pertencer a pessoa não faz com que haja
uma identificação imediata ou sensação de pertencimento. Entretanto,
entre as famílias que se mudam de locais ocupados informalmente para
uma habitação regularizada foi criado um imaginário que relaciona a
ideia de lar à de posse da casa (CAMPOS, MACEDO & ELALI, 2013).
O morador 5 afirma possuir oito filhos, sendo sete deles nascidos
na casa de destino. Neste caso, entende-se que houve a construção de
um vínculo familiar intenso com o novo local de moradia, visto que o
aumento da família, a reunião de novas memórias, a passagem para um
novo cotidiano auxiliou no processo de identificação (MIGUEL, 2002).
O morador encerra a fala sobre esse tópico utilizando um clichê de “lar
doce lar”, associado à paz.

142 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O morador 6 considera a casa de destino um lar, destacando princi-
palmente elementos familiares quando afirma “Um lar é a gente viver
feliz, com a família da gente”. A partir desta narrativa, o mesmo desen-
volve a sua percepção a partir de estar em paz e com uma boa vizi-
nhança. Nessa fala percebemos o lar como algo que reúne elementos
e integrantes, mantendo-os conectados por relações que independem
aspectos físicos. Neste ponto o lar alcança termos da essência.
O sentir-se bem está relacionado com valores implícitos à arquitetura.
O espaço e o projeto são pensados em termos quantitativos e numéri-
cos, devendo também o mesmo utilizar referências imateriais, para que
quando construído possa fazer “visível a invisibilidade de sua dimensão
simbólica” (RIBEIRO, 2003, p.70), já que a percepção espacial estabelecida
pelo habitante levará em consideração aspectos afetivos, experiências
corporais e os próprios condicionantes espaciais, climáticos e etc.

Conclusão
No processo de remanejamento os principais aspectos levados em con-
sideração no ponto de vista técnico, tradicionalmente, visam melhorar à
materialidade do espaço com a modificação dos sistemas construtivos,
priorizando também o saneamento. Estes elementos oportunizam uma
melhora de requisitos da aparência, e tornam-se o foco do projeto formal
de moradias de interesse social. Entretanto, para a concepção de proje-
tos habitacionais, a vivência dos usuários aprimora a atenção profissio-
nal do arquiteto ao levar em consideração relações de tradição presente
na construção informal e na peculiaridade de seus modos de vida,
abrangendo termos da essência e da própria vivência cotidiana das famí-
lias afetadas pelo remanejamento.
A adaptação (Quadro 1) demonstra como é o processo de transição pelo
qual os moradores passaram à condição de remanejados, destacando-se
melhorias técnico-construtivas (madeira para alvenaria e implementação
de saneamento básico), mas também perdas simbólico-espaciais (relação
com o rio, exclusão de elementos significativos como o quintal). Os mora-
dores tentam cada um a sua maneira adaptarem-se aos condicionantes
espaciais presentes na nova moradia, moldando-a a partir da imagem
construída de lar mediante experiências prévias (RIBEIRO, 2003).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 143
De maneira geral conclui-se que os moradores constroem a rela-
ção de lar com a casa de destino, especialmente quando vinculada ao
núcleo familiar. Entretanto, no quesito espacial, destaca-se a perda de
ambientes como o quintal, os quais faziam parte das relações cotidianas
ribeirinhas presentes na Comunidade VB, além da ruptura com alguns
elementos simbólicos como a proximidade com o rio.

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 145
Arquitetura moderna X urbanização e especulação
imobiliária: o caso do bairro da Prata em Campina
Grande – Pb.
INGR ID MIK A ELL A DE OLI V EIR A LIM A
Graduanda do curso de Arquitetura e Urbanismo

DÉBOR A H DUA RT E DE A R AÚJO


Graduanda do curso de Arquitetura e Urbanismo

JULI A R IBEIRO M A R A NH ÃO LEIT E


Graduanda do curso de Arquitetura e Urbanismo

A LCÍLI A A FONSO DE A LBUQUERQUE E MELO


Professora Doutora no curso de Arquitetura e Urbanismo

Universidade Federal de Campina Grande. Brasil.

Resumo
O artigo tem como objeto de estudo, entender os efeitos da especulação
imobiliária sobre a caracterização e descaracterização de residências
modernas projetadas pelo arquiteto autodidata Geraldino Duda, em mea-
dos de 1960, localizadas no bairro da Prata, na cidade de Campina Grande,
Paraíba. Essa investigação é decorrente de estudos realizados pelo grupo
de pesquisa Arquitetura e Lugar, cadastrado no Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), vinculado ao curso de
arquitetura e urbanismo da Universidade Federal de Campina Grande
(UFCG) voltado a pesquisas histórica e arquitetônica. Diante da qualidade
do acervo arquitetônico modernista e sua importância para a cidade pro-
põem-se uma crítica a forma como vem sido tratada pelas gestões admi-
nistrativas municipais. Como metodologia optou-se por trabalhar com
uma linha de pesquisa arquitetônica e urbanística proposta por Serra
(2006) que propõe o diálogo entre processo e sistemas.

Palavras-Chave
Arquitetura moderna, urbanização, especulação imobiliária, Geraldino
Duda, Campina Grande.

146 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
Esse texto tratará sobre as mudanças realizadas em residências moder-
nas diante da especulação imobiliária como efeito do desenvolvimento
urbano da cidade de Campina Grande- agreste do estado da Paraíba,
nordeste brasileiro-, tomando como estudo de caso, residências demoli-
das, descaracterizadas e conservadas, porém em eminência de desca-
racterização, situadas no bairro da Prata, localizado ao lado da área cen-
tral urbana. Portanto, é um texto que dialogará com o eixo temático 2,
desse evento, voltado para as discussões sobre os “Desafios à Cidade.
Facetas de uma urbanização em ritmo acelerado”.
A pesquisa vem sendo realizada pelo grupo de pesquisa Arquitetura
e Lugar, do programa de pós-graduação em história da UFCG/ Universi-
dade Federal de Campina Grande, integrada com o curso de arquitetura
e urbanismo da mesma instituição, e está inserida na linha de pesquisa
voltada para história e cidade. Possui como objeto de estudo, as residên-
cias e construções do arquiteto autodidata Geraldino Duda na cidade de
Campina Grande durante o período de 1960-1980.
O objetivo da pesquisa que está em desenvolvimento é ressaltar a
qualidade do acervo arquitetônico moderno que teve ascensão durante
a década de 1960 com o período de industrialização na cidade. Possui
como objetivos específicos, observar o estado de conservação em que se
encontra o acervo reminiscente, bem como, analisar que medidas vêm
sendo tomadas pelos órgãos competentes para inserir o mesmo no pla-
nejamento urbano local.
O arquiteto Geraldino Duda que nasceu na cidade de Campina Grande,
no dia 6 de março de 1935. Graduado em engenharia civil pela Univer-
sidade Federal da Paraíba- campus Campina Grande, considerado um
arquiteto autodidata e licenciado pelo CREA- Geraldino atuou projetando
na cidade de Campina Grande mais de 300 obras. Conhecido por seus
amigos como “pai da arquitetura moderna” seus volumes puros e soluções
de conforto ambiental reforçam o caráter modernista de suas obras.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 147
Contexto
Campina Grande está localizada no nordeste brasileiro, na região do
Agreste Paraibano, no planalto da Borborema a 550m acima do nível do
mar, no ponto de latitude 7º13’11’’ sul e de longitude 35º52’31’’ a oeste;
situada no centro da Paraíba (Figura 1). Possui uma população em torno
de 400 mil habitantes. O clima característico é o tropical semiárido, e
apresenta temperaturas mais amenas devido a sua altitude. O Instituto
Nacional de Meteorologia registra a média de temperatura mais alta em
torno de 29,9°C e a mais baixa de 17,8°C.

Fig. 1 | Mapa de localização do bairro Prata. Campina Grande. PB. Nordeste


brasileiro. Fonte: Montagem de mapas editados pela autora Julia Leite.

Conforme foi citado anteriormente, será tomada como estudo de caso, a


área onde foi implantado o bairro da Prata, que está localizado na zona
oeste da cidade, possuindo uma área de 0,77 km², população total de
3.884 habitantes e densidade demográfica de 561,00 hab/ km², (IBGE,
2000). Seus bairros vizinhos são: Palmeira e Monte Santo ao norte, São
José ao sul, Centro a leste, e Bela Vista a oeste. Durante a década de 1960
houve na cidade uma ascensão da industrialização, com o excedente
financeiro resultante desse processo houve grande investimento infra

148 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
estrutural e arquitetônico na cidade, em especial no bairro da Prata que
conta com um rico acervo moderno, composto por escolas, clubes, resi-
dências, diferenciando o bairro estudado entre os demais bairros da
cidade, com quadras grandes e ruas largas, sendo atualmente, todas as
principais vias asfaltadas.

Metodologia
O projeto trabalhará com uma linha metodológica, que está voltada
para um trabalho teórico de pesquisa arquitetônica e histórica, através
da coleta de dados primários e secundários, baseando-se principal-
mente, no que propõe Serra (2006), quando caracteriza processos e sis-
temas na elaboração de pesquisas científicas em Arquitetura e Urba-
nismo. Por processo, se entende “o modo como se sucedem os estados
diferentes do sistema no tempo” e por sistemas “um conjunto de objetos
entendidos como uma totalidade de eventos, pessoas ou ideias que inte-
ragem uns com os outros”. (SERRA, 2006, p.70 e 72)
Os procedimentos metodológicos realizados neste primeiro momento são
de caráter mais analítico e descritivo. Registros fotográficos e visitas in loco.

Pesquisa e dados coletados


Após visitas feitas ao Arquivo Público Municipal, realizados pelos inte-
grantes do grupo de pesquisa Arquitetura e Lugar, foi coletado o mate-
rial de projetos de 46 residências da década de 1960 e 27 da década de
1970. A fim de organizar a grande quantidade de dados coletados, as
residências foram divididas em três grupos: não identificadas (por falta
de informações na planta de localização), existentes e demolidas. Assim
foi constatado que no total (décadas de 1960 e 1970), 59 residências ainda
existem, 15 residências não foram identificadas e 14 residências foram
demolidas. Além disso, foram levantados quais os usos atuais dentre as
residências ainda existentes. Foram constados os usos: residencial, ser-
viço, comercial, institucional e ainda aquelas que estão sem uso por se
encontrarem para alugar ou á venda. As quantidades podem ser vistas
na figura 2 abaixo:

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 149
Fig. 2 | Gráfico numérico apontando os usos atuais das edificações existentes. Fonte:
acervo do grupo de pesquisa Arquitetura e Lugar.

O caso do Bairro Prata


Na década de 60, a cidade recebeu incentivos fiscais da SUDENE, que
instalou no local, onze novas indústrias, e aprovou incentivos para a
ampliação de dez, e reformulação de cinco. Gerando novas oportunida-
des de emprego e renda, somando-se uma nova política de industrializa-
ção regional com uma política municipal, ocorreu o surgimento de
novos bairros, e uma construção de uma arquitetura que adotou uma
linguagem moderna, atraindo profissionais de mais distintas cidades do
país, principalmente, de Recife, Pernambuco, que construíram no local,
novas paisagens urbanas modernas. Então, pode-se constatar a relação
entre o processo de urbanização do bairro, atrelado ao incremento eco-
nômico que houve na cidade, acarretou a construção de um bairro
moderno, limpo, e organizado. Os empresários, os técnicos mais quali-
ficados, as pessoas com uma renda maior, passaram a ocupar a área.
Geraldino Duda tinha como visão trazer uma nova identidade para a
cidade, sua intenção era propor uma arquitetura de qualidade moderna.
Através de pesquisas realizadas sobre a modernidade arquitetônica na
cidade (Afonso e Meneses, 2015), constatou-se que ali, foram projeta-
das e construídas as mais ricas residências locais. Enquanto a área cen-
tral, localizada ao lado, se voltava para o desenvolvimento comercial, o
bairro da Prata ganha um perfil residencial de alta renda.
Em pesquisa realizada sobre o bairro da Prata, APOLINÁRIO (2011)
escreveu que:

150 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
“À medida que esse processo de urbanização vem crescendo no
bairro, os elementos espaciais vão se moldando as novas funções,
que surgem a partir de um processo de acumulação e concentração
do capital, gerando uma dinâmica econômica que rege a mudança
da sociedade de acordo com o modo de produção capitalista. Sendo
assim, o bairro passa por uma transformação bastante visível em sua
paisagem, na medida em que é visto como um espaço urbano com um
grande potencial imobiliário, tomando como princípio não só o fato
do bairro ser considerado classe média alta, desde sua formação, mas
também sua acessibilidade e localização na cidade.”

No referido bairro encontram-se 11 residências modernas projetadas por


Geraldino Duda, entre os anos de 1960-1970, através de dados averigua-
dos por pesquisadores do grupo Arquitetura e Lugar. Entretanto, anali-
sou-se que boa parte desse conjunto de residências que constituem um
importante patrimônio arquitetônico para a cidade estão sofrendo com
o processo de especulação imobiliária, uma vez que são bem localizados
os proprietários receberam e recebem constantes ofertas de compras,
feitas essas negociações as residências que resultam de todo um pro-
cesso histórico da cidade tem sido por vezes destruídas ou totalmente
descaracterizadas.
Ao longo dos anos o bairro em questão transformou-se de uma área
residecial para um polo de sáude da cidade de Campina Grande, obser-
vou-se então que esse processo de destruição, descaracterização e de
propostas de compra feitas as residências ainda conservadas, são em
sua grande maioria realizados por clinicas médicas. Analisou-se então
a situação atual de residências modernas advindas desse processo de
industrialização, buscando englobar obras em diferentes status quanto
à conservação.
O bairro que foi palco para a construção de obras modernas, oriundas
dos investimentos no setor industrial em Campina Grande, mas devido
a não estar inserido no perímetro do centro histórico, não está protegido
das transformações urbanas contemporâneas, considerando que não faz
parte da Zonas Especiais de Interesse Cultural – ZEIC.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 151
Demolição
Como se pode perceber o bairro atrai a atenção para implantação de
serviços e comércios, para o mesmo, não se encontra sem proteção legal,
pois espaço se encontra fora do perímetro urbano tombado pelo IPHAEP,
então o bairro dificilmente conseguirá preservar sua arquitetura, pro-
duzida no apogeu do período de industrialização que houve em Cam-
pina Grande. As residências projetadas por Geraldino Duda nos anos 60,
concentradas no bairro, já foram quase em sua totalidade demolidas ou
transformadas para os novos usos.
Trazendo como referência do que foi citado acima, será mostrada a
seguir uma residência que está localizada entre uma via arterial muito
importante na cidade e um via local de grande fluxo no bairro, disposta
no encontro entre as duas vias, viu-se a fragilidade e a residência foi
demolida e construído um edifício de 3 (três) pavimentos, sendo um
subsolo, térreo e um primeiro andar. Sem considerar a arquitetura já
existente, a nova edificação se impôs, desconsiderando recuos mínimos
por se tratar de um ponto comercial que busca apropriar-se ao máximo
da área do terreno. A residência foi construída em 1981 e era entitulada
por Hamilton Sobral Cordeiro de Morais, os revestimentos eram tijo-
los cerâmicos, material de concreto e com uma varanda em balanço. O
edifício altual possui pequenas esquadrias, uma vitrine para expor seus
produtos e seu revestimento é cerâmico.

152 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 3 | Edifício atual após demolição e residência projetada por Geraldino Duda.
Fonte: Montagem editada pela autora Ingrid Oliveira.

Descaracterização e novas utilizações dos espaços


A individualização de uma área, ou seja, a memória da cidade contemporâ-
nea e o seu patrimônio estão totalmente conectados ao avanço de processos
econômicos, bem como a questões das práticas de gestão para preservar e
conservar o patrimônio arquitetônico. Assim, é importante ressaltar a pos-
tura do poder público diante desta realidade, em que este contribui ao
bairro da Prata em termos de investimentos imobiliários, na pavimentação
de vias, na infraestrutura, sem, no entanto, resolver questões dramáticas
como a desconfiguração e destruição do acervo arquitetônico moderno na
cidade que são parte da identidade histórica campinense.
Com o crescimento da cidade, consequentemente também do bairro,
a região recebeu ao longo do tempo uma nova identidade: Polo de saúde
de Campina Grande. Através de estudos por meio dos integrantes do
grupo de pesquisa Arquitetura e Lugar, percebeu-se a recorrência de
edificações modernas descaracterizadas e demolidas projetadas por
Geraldino Duda no bairro da Prata, para a construção principalmente
do setor de saúde, dado o forte incentivo à especulação imobiliária da

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 153
região. Assim, muitas casas são destruídas para que haja o levantamento
de uma obra com um novo uso na área, outras muitas é utilizado a
estrutura e modificada para adaptar-se à utilização do espaço. Uma das
melhores maneiras de se conservar - manutenção do estado físico edi-
fico, subtraindo-lhe do desgaste natural da ação do tempo - e preservar
- manutenção de suas características formais/estilísticas - um imóvel é
mantê-lo no uso que ele foi construído, embora seja esta também uma
das formas mais paradoxais e difíceis de sua preservação (Choay, 2001),
sabendo que o meio onde ele está inserido tem forte influência sobre sua
preservação e conservação.
Um dos casos observados encontra-se na Rua Rodrigues Alves, uma
via coletora do bairro da Prata, bem localizado na cidade, que têm função
de integrar bairros circunvizinhos. Originalmente, em 1963, o arquiteto
Geraldino Duda projetou uma casa unifamiliar em um terreno de 290 m²
em que a obra tem princípios pautados no modernismo, pelos quais defen-
dem a ideia da utilização de formas simples e desprovidas de ornamenta-
ção, valorizando o uso de materiais na sua essência. Nota-se ao observar
a Figura 4, elementos marcantes como a inclinação das vigas estruturais
para composição da fachada, bem como o uso de cheios e vazios tomando
partido da topografia, a utilização de materiais como o vidro para a rela-
ção entre interior e exterior, uso de materiais na sua forma autêntica.

Fig. 4 | Residência projetada por Geraldino Duda e edifício atual após


descaracterização. Fonte: Montagem editada pela autora Déborah Duarte.

154 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Por ele está em um bairro de Polo de Saúde, sendo comprovado através
do entorno possuir predominância de edificações cuja função é saúde e
em maioria privada, o terreno foi bastante especulado para que se tor-
nasse um edifício de serviço deste setor. “Especulação imobiliária é a
compra ou aquisição de bens imóveis com a finalidade de vendê-los ou
alugá-los posteriormente, na expectativa de que seu valor de mercado
aumente durante o lapso de tempo decorrido”, afirmou Renato Saboya.
Depois da aquisição do terreno para o uso de serviço de saúde, houve
no ano de 2001 a primeira reforma da residência e foram feitas adapta-
ções do espaço para execução de uma clínica médica especializada em
otorrino. Porém, é possível perceber traços na fachada que permanecem
preservados, principalmente estruturalmente. A arquiteta responsável
pela reforma, foi entrevistada pelo grupo de pesquisa Arquitetura e
Lugar e relatou que: “o nosso projeto visava dar uma nova identidade e
trazer praticidade ao lugar” “tentamos preservar ao máximo elementos
estruturais tanto no interior, quanto no exterior”. Os grandes empreen-
dimentos, principalmente os voltados para o setor de saúde, simples-
mente representaram a descaracterização de edificações existentes e
sua substituição por clínicas médicas, principalmente. A maioria delas,
no entanto, se instalou em antigas residências, reformando-as, onde na
maioria dos casos se contrapõem à arquitetura moderna ou pré-mo-
derna predominante na área, em nome da atualização estética, especial-
mente das fachadas. Consequentemente, o acervo moderno da cidade
vai perdendo força e identidade arquitetônica vai ganhando formas cada
vez mais capitalistas.

Eminência de venda
Apesar da forte tendência de destruição e descaracterização do patrimô-
nio residencial moderno evidenciada no bairro da Prata, ainda é possí-
vel encontrar um bom número de residências com pequenas alterações
e outras muito bem conservadas do período que data esse processo de
crescimento econômico. Essas muitas vezes, como analisado em pesqui-
sas de campo, são propriedades oriundas de herença, é observado então
o desinteresse das próximas gerações em manter o uso residencial nes-
tas edificações, acarrentando então com o passar dos anos a venda das

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 155
referidas propriedades para clínicas médicas que procuram apropiar-se
dessas construções como anexos ou estacionamentos, sem preocupar-se
com a preservação do patrimônio.

Fig. 5 | Residência projetada por Geraldino Duda e localização. Fonte: Montagem


editada pela autora Julia Leite.

Tomou-se como exemplificação desse processo de propostas de compra


a situação de uma residência do arquiteto Geraldino Duda localizada na
rua João Machado, Prata, Campina Grande – PB (Figura 3). O projeto e
edificação da casa datam de 1962, apesar de modificações no muro da
residência, modifcação quase totalitária nas obras existentes do referido
arquiteto, a obra encontra-se extremamente bem conservada, desde a
estrutura aos revestimentos que compõe a fachada e a ambientação
interna, os elementos permanecem tal qual o original. Apesar do bom
estado de conservação e do atual uso ser residencial propostas de com-
pra foram levadas aos propietários, partindo de uma grande clínica
médica próxima a residência.
Casos como o da residência analisada são cada vez mais frequentes
devido a localização estratégica na qual essas edificações estão situadas,
a especualção imbiliária tem um papel decisivo em todo um processo,
um vez que os lotes em si tem um alto valor de mercado, esse não agre-

156 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
gado pela história e valor arquitetônico das obras ainda existentes, mas
endossado pela potencialidade comercial do espaço após a destruição
desse patrimônio. Na grande maioria das vezes é observada a descarac-
terização total ou destruição desse patrimônio moderno com a compra
das residências, diante dessa tendência é com urgência que procura-se
uma ação da adiministração munincipal em prol de reter esse processo
destrtutivo através da conservação obrigatória por lei dessas edifica-
ções, dando as devidas proporções a funcionalidade.

Conclusão
É possível concluir que há o processo de despersonalização da identi-
dade do bairro pela perca do acervo arquitetônico moderno, dando-se
por causa da forte especulação imobiliária no Polo de saúde da área da
Prata. Isto deixa evidente o despreparo teórico e técnico do Poder
Público, dos empreendedores da área, bem como dos profissionais que
operam intervenções projetuais em construções com cunho histórico.
Sendo percebida a forte recorrência da destruição e descaracterização
principalmente de residências modernas através de pesquisas do grupo
Arquitetura e Lugar, levando em considerações àquelas que foram iden-
tificadas. Assim, é reforçada a real existência de “Desafios à Cidade.
Facetas de uma urbanização em ritmo acelerado” (eixo temático 2), que
o bairro encontra-se. Por fim, nota-se a necessidade da intensificação do
trabalho realizado com a intenção de advertir aos responsáveis dessas
mudanças a cidade, através do reforço a esta área de conhecimento no
curso de formação a profissionais de Arquitetura e Urbanismo. Bem
como através de possíveis tombamentos pelo Poder Público visto a
necessidade de preservação das construções modernas, em que nela
encontram-se as do Arquiteto autodidata Geraldino Duda, e seu valor
histórico no patrimônio Campinense.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 157
Bibliografia
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Etsab/ UPC. 2017.
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Acervo do Grupo de Pesquisa Arquitetura e Lugar;
Acervo público Municipal de Campina Grande – Paraíba.

158 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Arranjos institucionais metropolitanos:
planejar a terra para preservar a água
TÂ NI A R IBEIRO SOA R ES
Estudante de Mestrado do Programa Arquitetura Tecnologia e Cidade da Faculdade

de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas

(FEC-Unicamp)

PROF. DR. SIDNE Y PIOCHI BER NA R DINI


Docente no Departamento de Arquitetura e Construção da Faculdade de Engenharia Civil,

Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Campinas (FEC – UNICAMP).

Lidera o Grupo de Pesquisa TERRAPLANO (Território, Urbanização e Planejamento)

que desenvolve pesquisas na área de dinâmicas de urbanização, planejamento e regulação

do espaço urbano.

Resumo
O trabalho apresenta os resultados parciais da pesquisa de mestrado
“Desenvolvimento urbano, gestão do uso do solo e preservação da água: as
interfaces entre as políticas urbana, regional e de recursos hídricos na
sub-bacia Juqueri-Cantareira da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê”, que
investiga como políticas ambientais na esfera metropolitana interferi-
ram nas políticas de uso e ocupação do solo nos municípios que inte-
gram a sub-bacia Juqueri-Cantareira, no âmbito da Bacia Hidrográfica
do Alto Tietê, um dos sistemas de abastecimento de água mais fragiliza-
dos durante a recente crise hídrica da Região Metropolitana de São
Paulo. Por meio da análise dos planos diretores dos municípios que com-
põem a sub-bacia, a pesquisa demonstra como a pouca efetividade das
políticas urbans locais dificultam o cumprimento das diretrizes ambi-
entais para proteção de mananciais.

Palavras-Chave
Urbanização, planejamento urbano, ordenamento territorial, uso e
ocupação do solo,recursos hídricos,

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 159
Introdução
Entre os meses de março de 2014 e agosto de 2015, os habitantes da
Região Metropolitana de São Paulo viveram um dos mais severos perío-
dos de racionamento de água dos últimos 80 anos. A razão para os reser-
vatórios em baixa capacidade e as torneiras secas parecia ser a estiagem,
também uma das mais longas dos últimos 50 anos, mas as circunstân-
cias climáticas eram apenas um dos vários fatores que agravaram a crise
hídrica na região, demonstrando tanto a fragilidade do sistema de
gerenciamento dos recursos hídricos como das políticas urbanas locais
(MARENGO, 2015) e suscitando questões sobre o papel do planejamento
do uso do solo na redução da vulnerabilidade do sistema de abasteci-
mento, no controle de inundações e na redução da poluição dos corpos
d’água. O tema é abordado na pesquisa intitulada “Desenvolvimento
urbano, gestão do uso do solo e preservação da água: as interfaces entre as
políticas urbana, regional e de recursos hídricos na sub-bacia Juqueri-
-Cantareira da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê”, que investiga de que
maneira as políticas de caráter ambiental na esfera metropolitana do
Estado de São Paulo interferiram nas políticas de uso e ocupação do solo
nos municípios que integram a sub-bacia Juqueri-Cantareira, no âmbito
da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê.
A área de estudo delimitada, a sub-bacia Juqueri-Cantareira, está
localizada na região norte da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê (Figura
1), é drenada pelo Rio Juqueri e compreende cinco municípios, Cajamar,
Caieiras, Francisco Morato, Franco da Rocha e Mairiporã. A região conta
com diversas Áreas de Proteção Permanente (APPs) formadas por nas-
centes, remanescentes de Mata Atlântica, cristas de morro etc, impor-
tantes para a preservação de mananciais. O uso e ocupação do solo na
sub-bacia é bastante diversificado, incluindo atividades de extração
mineral e indústrias químicas, o que promove uma série de impactos
sobre os recursos hídricos da região, de modo que a realização de ações
de monitoramento, controle e preservação dos corpos d’água é fator
essencial para a recuperação e manutenção da qualidade ambiental da
sub-bacia. Também são notados os efeitos da urbanização mal plane-
jada, como ocupações em áreas de proteção ambiental, sejam da popu-
lação de baixa ou de alta renda.

160 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 01 | A sub-bacia Juqueri-Cantareira, área delimitada para a pesquisa Fonte:Emplasa

Embora exista um arcabouço legal formado pela Lei Estadual 7.663/91,


que instituiu a Política Estadual de Recursos Hídricos no Estado de São
Paulo e criou o Sistema Integrado de Gerenciamento de Recursos Hídri-
cos; a Lei Estadual 9866/1997, que estabelece diretrizes e normas para
proteção e recuperação das bacias hidrográficas de mananciais de inte-
resse regional, e uma complexa estrutura institucional formada pelo
Conselho Estadual de Recursos Hídricos, os Comitês de Bacias, que reú-
nem representantes dos governos estaduais, municipais e da sociedade
civil; a Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (EMPLASA)
para elaborar e implantar políticas públicas e projetos integrados de
desenvolvimento urbano e regional, e ainda as autoridades municipais,
que detêm a competência para a elaboração das políticas urbanas locais,
parece haver uma dificuldade de articulação entre os instrumentos
locais de regulação do uso do solo (Planos Diretores Municipais, Leis de
Uso e Ocupação do Solo etc) e de gestão Ambiental e de Recursos Hídri-
cos Metropolitanos.
Para melhor compreender essa complexidade institucional e investi-
gar as interfaces entre as diferentes esferas, a pesquisa está realizando o
levantamento e análise da legislação vigente e das políticas públicas nas

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 161
esferas estadual, responsável pelos assuntos metropolitanos e pela ges-
tão ambiental e de recursos hídricos, e municipal, principal responsável
pela criação e aplicação de instrumentos de regulação do uso e ocupação
do solo. A escala da sub-bacia permite identificar como os municípios
exercem suas competências na elaboração das políticas territoriais e de
saneamento, incluindo distribuição e tratamento de água, coleta e tra-
tamento de esgotos, coleta e destinação de resíduos sólidos, bem como
drenagem urbana, visando a preservação de recursos hídricos.

2. Impactos da urbanização sobre os recursos hídricos


Estudos geoambientais apontam que o crescimento acelerado das áreas
urbanas afeta o ciclo hidrológico da água, tanto pelo aumento da densi-
dade populacional como pelo aumento da densidade de construções e da
cobertura asfáltica, o que causa mudanças significativas nas propriedades
físicas da superfície do solo e na drenagem de águas. O crescimento da
densidade populacional, além de aumentar a demanda de água, aumenta
o volume de águas residuárias que, não sendo devidamente tratadas, dete-
rioram os rios a jusante da área urbana e a água de escoamento pluvial,
comprometendo a qualidade da água dos rios e represas urbanas recepto-
res dessas águas. Já a impermeabilização do solo é um dos fatores mais
problemáticos em relação aos impactos e consequências da urbanização
por provocar alterações no sistema de drenagem, fazendo crescer a velo-
cidade e o volume de escoamento direto das águas pluviais, causando
enchentes e diminuindo a recarga das águas subterrâneas, além de causar
poluição (TUCCI, 2008). Esse impacto sobre a drenagem compromete
todo o contexto urbano não só no que se refere à mobilidade, como à
moradia, ao saneamento e à economia das cidades.
No entanto, não se pode cair no equívoco de entender a urbaniza-
ção como simples força oposta ao meio natural. Para Martins (2006),
essa noção dicotômica urbano versus natural pode ser problemática
pois “tende a reforçar e a justificar tomadas de decisão com relação a
instrumentos e formas de controle que muitas vezes levam a consequ-
ências radicalmente opostas às intenções desejadas”, como é o caso das
históricas ocupações de moradias subnormais em áreas de mananciais
ou encostas na Grande São Paulo. A falta de acesso à terra urbanizada

162 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
e legal levou a um ciclo vicioso dessas ocupações. Conforme aponta
Maricato (2003), a ausência do Estado nestas situações demonstra um
sintoma da sua ineficiência, de um lado, e, de outro, da sua tolerância, o
que está longe de significar uma política de respeito a estes moradores,
já que estas ocupações não só comprometem os recursos naturais fun-
damentais, como é o caso da água nas áreas de mananciais, por exem-
plo, como também impedem o acesso desta população à infraestrutura
mínima de qualidade.
Neste contexto de urbanização tratada quase que exclusivamente
como promotora de crescimento econômico e mantenedora do sistema de
produção capitalista (HARVEY, 2005 ), mais atividades que aumentam o
consumo de água, mais impermeabilização do solo e mais poluição tor-
nam recomposição dos níveis dos mananciais mais difícil, o que acarreta
no distanciamento cada vez maior das captações em outras bacias da cha-
mada Macrometrópole Paulista, promovendo a mercatilização da água,
encarecendo o acesso a esse recurso essencial para a população.

2.1. Planos diretores: cada um por si contra o problema de todos


Na primeira etapa da pesquisa, foram estudados os Planos Diretores dos
cinco municípios da sub-bacia e realizada uma análise sobre o atendi-
mento às principais diretrizes das políticas estaduais de proteção de
mananciais e de recursos hídricos. A figura 2 a seguir demonstra se os
municípios atendem ou não a essas exigências e destaca suas estratégias:

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 163
Fig. 2 | Quadro de análise dos planos diretores. Fonte: Elaboração própria

Nesta análise, fica explicitado que os poderes locais adotam algumas


estratégias territoriais diferentes, mesmo tendo um conjunto comum de
diretrizes ditadas pela legislação federal e estadual de conservação
ambiental e de recursos hídricos a cumprir. Para a diretriz “limites a
expansão para áreas rurais”, por exemplo, apenas os municípios de Caja-
mar e Franco da Rocha adotam medidas claras de delimitação das des-
sas áreas. Caieiras usa o termo “ocupação equilibrada”, sem definir em
seu texto o que vem a ser esse conceito. Francisco Morato não menciona
zonas rurais ou urbanas de caráter rural, apenas “Zonas de Condomí-

164 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
nios de Chácaras” e só delimita como “Zona de Interesse Ambiental” a
porção do Parque Estadual Juqueri-Cantareira a leste do município e
trechos da APA Cajamar ao norte. Mairiporã, embora conte com a maior
parte de seu território inserido na área de mananciais, em seu plano
vigente transformou áreas de proteção ambiental anteriormente delimi-
tadas em atendimento à legislação estadual em áreas urbanas classifica-
das como “Zonas de Uso Sustentável”, com lotes mínimos de 20 mil
metros quadrados, para facilitar a ocupação por loteamentos de baixa
densidade destinados à população de alta renda, ou como “Zonas de
Ocupação Dirigida” (ZODs), definidas no texto da lei como “porções do
território municipal destinadas a atrair investimentos hoteleiros de alto
padrão e atividades voltadas ao atendimento do setor turístico, agricul-
tura sustentável, lazer, residencial, e à preservação e recuperação do
meio ambiente”. É importante ressaltar que além das áreas de proteção
ambiental constituídas pelas áreas de preservação de mananciais, maci-
ços de vegetação nativa, cristas de morro etc., as áreas rurais são ainda
importantes para o equilíbrio socioambiental, especialmente quando
destinadas à produção da agricultura familiar e orgânica associada ao
reflorestamento com espécies nativas, contribuindo para a biodiversi-
dade e para o recarregamento dos corpos d´água (TUCCI, 2000).
A questão da moradia também parece ser deixada de lado ou aguardar
as ações das outras esferas governamentais, como foi o caso do Programa
Minha Casa Minha Vida. No plano diretor de Caieiras, por exemplo, o
poder local admite haver uma precariedade habitacional, compromete-se
em criar um órgão específico para criar os programas que atendam essa
necessidade, mas por questões políticas internas, tal órgão não foi criado,
ainda que passados quatro anos da revisão do instrumento.

Conclusão
Em todos os municípios, esta primeira fase de investigação revelou uma
incongruência entre as diretrizes de ocupação territorial e sua efetiva-
ção em programas e projetos locais.. De forma geral é possível perceber
que faltam os programas e projetos necessários para transformar o dis-
curso dos planos diretores em ações efetivas. Esta lacuna entre a cidade
desejada pelos planos diretores e a realidade vem sendo investigada no

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 165
decorrer na pesquisa, mas alguns autores indicam algumas pistas, como
o grande número de responsabilidades dadas aos municípios, sem que
estes sejam dotados dos recursos financeiros e institucionais necessários
para sua plena atuação, o que revelaria um problema de articulação
entre as esferas de governança.
Ao se encarar a precariedade habitacional e ambiental como ques-
tões metropolitanas (MARTINS, 2006), uma vez que ao menos todos os
municípios pertencentes à sub-bacia em estudo apresentam a questão
como uma das fundamentais para o desenvolvimento urbano, os con-
flitos e problemas existentes nesse tecido talvez só possam ser equacio-
nados e solucionados por meio da colaboração e de pactos interinstitu-
cionais. Esta fase da pesquisa revela também que tanto as altas quanto
as baixas densidades de ocupação podem acarretar em pressões sobre
os recursos hídricos caso determinadas diretrizes de planejamento
não sejam seguidas. As baixas densidades, ao promover o aumento a
mancha urbana, podem aumentar a impermeabilização e poluição das
águas pluviais drenadas para os corpos d’água; as altas densidades tra-
zem a pressão sobre o consumo de água e sobre os demais sistemas
urbanos. Dessa forma, se faz necessária uma mudança de paradigma
no planejamento urbano: privilegiar o pensamento sistêmico, com os
planos de cada município considerando ações integradas para chegar às
soluções necessárias para os principais problemas urbanos que impac-
tam os recursos hídricos. O direito a um meio ambiente equilibrado,
como estabelece a Constituição Federal, sobretudo o direito ao acesso à
água de qualidade para todos, só pode ser garantido por meio de ações
integradoras. Alguns programas recentemente lançados pelo governo
do estado para aproximar os municípios e integrar as ações de planeja-
mento ambiental e de recursos hídricos parecem adotar esse princípio e
serão objeto da próxima etapa de investigação.

166 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Bibliografia
HARVEY, David. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005.
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UFRGS, ABRH, 2000.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 167
As origens da crise das cidades no Brasil:
apontamentos sobre planejamento urbano
e políticas habitacionais no brasil
entre 1889 e 2016
R A FA EL L A R A M A ZONI A NDR A DE
Mestrando em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro,

bacharel em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro (2016) e em Geografia

pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (2017) – Brasil.

GER M A NA DE C A MPOS GONÇ A LV ES


Graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Fumec – Brasil.

Resumo
As cidades brasileiras refletem um cenário de crise, fruto de um processo
de urbanização rápido, intenso e predatório. Problemas como poluição,
carências habitacionais, assentamentos precários, irregularidade fundiá-
ria, trânsito caótico, violência e carências na acessibilidade impõem-se
como desafios à gestão pública brasileira. Este trabalho propõe-se a uma
exploração bibliográfica para compreender as dinâmicas do planejamento
urbano no Brasil entre 1889 e 2016. Para tanto, esse ínterim da história do
Brasil será dividido em seis períodos: (i) República Velha (1889-1930); (ii)
Era Vargas (1930-1945); (iii) Quarta República (1946-1964); (iv) Regime
Militar (1964-1985); (v) transição, redemocratização e estabilização eco-
nômica (1985-2002) e (vi) atualidade (2003-atual). Enfim, a pesquisa per-
mite afirmar que o Estado brasileiro vem se mostrando incapaz de agir de
maneira adequada e tempestiva nesse setor. Os avanços observados em
alguns períodos são seguidos de grandes retrocessos e descontinuidades,
em um intenso movimento pendular.

Palavras-Chave
Planejamento urbano; Política urbana; Políticas habitacionais.

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Introdução
As cidades expressam hoje um cenário de crise. No Brasil, as cidades já
surgem como reflexo de conflitos. Como disse Faoro (2001), as urbes sur-
giriam sob a égide do pelourinho – e o instrumento de tortura lembraria
a todos que havia um poder, e que ele estaria pronto a intervir em caso
de recalcitrâncias.
Como mostram vários autores acerca do urbano no Brasil, a produção
do seu espaço deu-se na forma de um processo rápido, intenso e preda-
tório (Brasil & Carneiro, 2014). Ao passo em que o Brasil tornou-se um
país majoritariamente urbano, esses problemas se amplificaram, porque
os grandes movimentos populacionais em direção aos centros urbanos
encontraram cidades incapazes de prover adequadas condições de vida
(Maricato, 2003). Isso amplificou problemas como poluição ambiental,
carências habitacionais, precariedade de assentamentos, irregulari-
dade fundiária, trânsito caótico, violência e carências na acessibilidade
(Mazoni Andrade, 2016).
Diante desses problemas recorrentes e que são grandes desafios
impostos à gestão pública brasileira neste início do século XXI, exigem-
-se do Estado grandes intervenções. Historicamente, contudo, o Estado
brasileiro vem se mostrando incapaz de agir correta e tempestivamente
nessa seara (Maricato, 2003; 2013).
Diante disso, este trabalho propõe-se a uma exploração bibliográ-
fica para compreender as dinâmicas do planejamento urbano no Brasil
desde suas origens. A principal justificativa para tal empreendimento é
a procura por subsídios para se pensar proposições de melhoria à atua-
ção do Estado no tema.

Histórico das políticas habitacionais no Brasil


República Velha (1889-1930)
As iniciativas de planejamento urbano eram restritas durante a Repú-
blica Velha – período contabilizado entre a proclamação da República,
em 1889, e a Revolução de 1930. Nessa época, o planejamento urbano no
Brasil era voltado para o embelezamento e para melhorias voltados para
áreas nobres das cidades (Brasil & Carneiro, 2009; Maricato, 2003).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 169
Fazem parte desse momento cenas de conflitos relacionados a inter-
venções de cunho sanitarista, como a revolta desencadeada a partir da
vacinação compulsória contra varíola. Como afirmam Brasil e Carneiro
(2009), essas ações mostravam-se alijadas de premissas como inclusão
social, cidadania e direito à cidade.

Era Vargas (1930-1945)


As ações do Estado brasileiro passaram por diversas fases, iniciando-se
com o intervencionismo populista da Era Vargas – que foi marcante para
as políticas habitacionais, dado o reconhecimento da importância da
habitação para a reprodução da força de trabalho e para a consequente
concretização de modus operandi industrial (Bonduki, 1994).
Refletindo a preocupação que Henry Ford preconizava em suas rela-
ções de trabalho, a provisão de habitação para os operários era compreen-
dida nesse período como base para o desenvolvimento e fortalecimento
“de uma sociedade de cunho urbano-industrial, capitalista”, como disse
Bonduki (1994, p. 711). A produção das cidades no Brasil à época ficou mar-
cada, como observa-se no Rio de Janeiro, pela construção dos chamados
Parques Proletários, que seriam residência temporária aos trabalhadores
retirados das favelas da cidade (Gomes, 2009); e em Nova Lima, pelos bon-
serás – residências pequenas, com apenas uma janela na frente, que se
espalham no centro da cidade (Mazoni Andrade, 2014).
Nesse período, então, a ação do Estado brasileiro buscava melhorias
nas condições de vida dos trabalhadores urbanos, encampando inter-
venções relacionadas a previdência e assistência social, educação, ali-
mentação e habitação (Brasil & Carneiro, 2009). Dentre as ações relacio-
nadas a esse último setor, além das iniciativas de provisão de unidades
habitacionais subsidiadas, o congelamento dos aluguéis e a regulamen-
tação das relações de inquilinato fizeram parte da gramática varguista
nas intervenções no setor de habitação (Bonduki, 1994).

Quarta República (1946-1964)


Quando Vargas deixa o cargo de presidente, suas iniciativas no setor de
habitação – que já não eram grandes – são descontinuadas (Bonduki,
1994). Na sequência, observa-se o início de um segundo ciclo econô-

170 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mico, ancorado na modernização produtiva e na substituição de impor-
tações. O Estado assume progressivamente a função de assegurar condi-
ções para a industrialização – seja a partir da provisão pública de
infraestruturas, equipamentos e serviços urbanos, que impactariam
positivamente a produtividade e a acumulação de capital (Brasil & Car-
neiro, 2009).
A despeito da existência de inversões públicas em infraestrutura
urbana, não se observaram grandes alterações no que tange à política
habitacional nesse período. Refletindo a ausência de investimento esta-
tal em habitação, crescem nesse período as iniciativas do setor privado
– e as políticas de governo acabavam por privilegiar os interesses dos
empresários. Para aqueles que não podiam acessar o mercado imobiliá-
rio, restava a informalidade – e o que se observa a partir desse momento
é a intensificação do processo de favelização e ampliação da percepção
de problemas urbanos (Bernardes, 1986).

Regime militar (1964-1985)


Quando da emergência do intervencionismo do governo militar, a carac-
terística mais marcante das iniciativas de planejamento urbano foi, con-
forme discute Cardoso (1999), a exacerbação da centralização. Cumpre
lembrar também a forte centralização de recursos promovida pelo regime
militar no governo central. Ou seja, nesse cenário era impossível às unida-
des subnacionais financiar políticas públicas mais dispendiosas.
Durante as décadas de 1960 e 1970, outros países no mundo já dis-
cutiam formas de participação popular no planejamento. No Brasil,
todavia, a ditadura militar impunha limites aos direitos políticos, res-
tringindo fortemente quaisquer tentativas de participação popular em
qualquer área da esfera política. Conforme mostram Brasil e Carneiro
(2009), sobre esse período, observa-se o ápice do crescimento urbano no
Brasil, e o agravamento das deficiências nas cidades.
Além disso, a partir da ascensão dos militares ao poder é extinta a
Fundação da Casa Popular, criada em 1946, e é criado o Banco Nacional
da Habitação (BNH), em 1964. Isso se daria porque o modelo era consi-
derado pelos burocratas do regime como “verdadeiras doações”, vindo a
chocar-se com as diretrizes em voga (Fagnani, 1997).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 171
Fagnani (1997) afirma que houve limitado caráter redistributivo da
política de habitação nessa fase, somado a uma grande privatização –
vista a importância dos representantes dos interesses da indústria, da
construção civil e do sistema financeiro na formulação e na implemen-
tação dessa política nesse período.
A partir da década de 1970, algumas iniciativas podem ser lidas,
como afirmam Brasil e Carneiro (2009, p. 17), “como ensaios na dire-
ção de uma política urbana de cunho compreensivo”, como a criação
de uma comissão e um conselho na área de política urbana e desen-
volvimento urbano. “Entretanto”, destacam os mesmos autores, “esva-
ziados de poder efetivo, tais órgãos não lograram assumir o papel de
coordenação das políticas urbanas federais, pensado para eles” (Brasil
& Carneiro, 2009, p. 17). Durante essa década, então, o esgotamento do
ciclo de expansão da economia brasileiro, conhecido como “milagre eco-
nômico”, em consonância àquilo que dizem vários dos pensadores do
espaço urbano brasileiro, Brasil e Carneiro (2009, p. 17) destacam que
“o aprofundamento das desigualdades sociais desvela a cidade como um
lugar privilegiado e objeto dos conflitos sociais”.

Transição, redemocratização e estabilização (1985-2002)


Tensões entre o Estado e a sociedade no Brasil levaram à redemocratiza-
ção em meados da década de 1980 (Brasil & Carneiro, 2009). O período
subsequente é caracterizado pelas tentativas de estabilização macroeco-
nômica nos tempos de crise, pela promulgação da Constituição de 1988
e por certo hiato pensamento urbano brasileiro (Monte-Mór, 2008): “Os
anos 1980 marcam-se pela crise fiscal do Estado e assistem ao esvazia-
mento do planejamento e da política urbana no país, bem como à revi-
sita crítica de suas práticas” (Brasil & Carneiro, 2009, p. 19).
Logo em 1985, instituiu-se um grupo de trabalho para discutir pro-
postas de reformulação no Sistema Financeiro da Habitação, que propôs
que os programas de moradia popular fossem separados daqueles que
eram voltados a estratos de maior renda. O BNH seria, então, desmem-
brado, havendo estruturas específicas para gestão e financiamento de
políticas habitacionais para cada recorte de renda (Fagnani, 1997).

172 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Depois disso, em novembro de 1986, o BNH foi extinto. Há, a partir
disso, o que Fagnani (1997) chama de precipitação do esvaziamento da
estratégia de reforma: “Após a extinção do BNH, os paradoxos da polí-
tica habitacional acentuaram-se, pela sobreposição da crise institucio-
nal à crise financeira crônica, herdada do autoritarismo” (Fagnani, 1997,
p. 222). Nesse mesmo período, observa-se o que Arretche (1996, apud
Fagnani, 1997) chama de “via-crúcis” dos programas habitacionais para
população de baixa renda – com descontinuidades e paralisia decisória.
A convocação da Assembleia Constituinte deu-se em meio de afirma-
ção da atuação e do papel da sociedade civil, a construir e definir agen-
das e marcos das políticas sociais (Brasil & Carneiro, 2009, p. 20): “No
âmbito mais geral, cabe sublinhar a mobilização em torno das propostas
de descentralização [...] e de municipalização, bem como de reconheci-
mento e ampliação dos direitos sociais e de democratização das relações
entre Estado e sociedade”. Nesse contexto, emendas populares poderiam
ser apresentadas à Assembleia Constituinte. O movimento de reforma
urbana no Brasil, em sua atuação, conseguiu o apoio de cento e trinta
mil eleitores a mais que o necessário para apresentar uma emenda.
Dessa maneira, o texto constitucional contém apenas dois artigos
oriundos daquela emenda relacionada à reforma urbana; os artigos 182
e 183. A avaliação que Souza (2010) faz acerca do texto constitucional
aponta para a diluição e as modificações que a emenda popular sofreu:
uma “derrota estratégica”. Na opinião do geógrafo, algumas discussões
ficam inconclusas – como a questão da “função social da propriedade” –, e
engendra-se certo legalismo e “tecnocratismo de esquerda” (Souza, 2010).
A despeito dos avanços trazidos pela Constituição de 1988 – sintetiza-
dos na mobilização popular que culmina na promulgação da “Constituição
Cidadã”, na inovação no tratamento da propriedade, com a noção de “fun-
ção social da propriedade”, e com sua preocupação com os direitos sociais
(Monte-Mór, 2008) –, o governo de Fernando Collor foi marcado por grande
embate entre os poderes Executivo e Legislativo (Fagnani, 1997). Isso jus-
tifica a demora na aprovação dos textos de várias leis complementares,
incluindo aquela que viria a ser chamada, anos mais tarde, de Estatuto da
Cidade, regulando o capítulo da Constituição que trata de política urbana.
Além disso, no governo Collor, a área de habitação foi caracterizada por

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 173
uma forte centralização do processo decisório no Ministério da Ação Social
e na Caixa Econômica Federal. Os recursos eram concedidos aos municí-
pios de maneira pulverizada, com base em relações clientelistas. Por fim,
“Outro traço da política habitacional implementada no governo Collor é a
ausência de mecanismos de acompanhamento e controle da execução física
e financeira dos projetos” (Fagnani, 1997, p. 231).
Durante o governo de FHC – sobretudo em seu primeiro mandato
–, os gastos com a área de habitação observaram o maior crescimento
relativo de gastos no período (Castro & Cardoso JR, 2005). Ainda, no
segundo mandato de Cardoso foi, enfim, publicado o Estatuto da Cidade,
4paradigmático no tratamento do direito urbano (Maricato, 2003).

Atualidade (2003-2016)
Durante o governo Lula, foram criados conselhos e fundos relacionados
ao urbano e o Ministério das Cidades – que apresentou, originalmente,
“uma composição heterogênea de expertises, que aponta para uma
expressiva inclusão da sociedade civil em sintonia com as plataformas
de reforma urbana” (Brasil & Carneiro, 2009, p. 27). Além disso, durante
o último mandato desse presidente foi promulgada a Lei Federal nº
11.977, de 2009, que institui o programa “Minha Casa, Minha Vida”
(MCMV) e que lança bases para o processo de regularização fundiária
em área urbana (Mazoni Andrade, 2016). Brasil e Carneiro (2009, p. 26)
avaliam que “podem-se sinalizar inflexões na atuação do poder execu-
tivo federal a partir do governo Lula”. Para eles, o mandato de Lula
caracterizou-se por uma redefinição do papel do Estado, “mais atuante
no campo das políticas urbanas, reintegradas à agenda governamental”.
Sob o governo de Rousseff, leis importantes para a temática do urbano
foram promulgadas, e o programa MCMV ganha maior destaque. Já no
governo Temer, observam-se três questões principais: a necessidade de
empreender esforços no sentido de manter o aporte de recursos do MCMV
em meio ao imperativo de contrair os gastos públicos, com discussões
acerca de uma possível reformulação – que mudaria, além do nome, o públi-
co-alvo dos financiamentos (Portal Brasil, 2016); a proposta de criação de
um subsídio para reformas e o posicionamento favorável à criação de um
programa nacional de regularização fundiária (Folha de São Paulo, 2016).

174 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Conclusão
As grandes desigualdades e a concentração de terras somam-se nas
cidades, o que incorre em grandes carências habitacionais. Esse desafio
imposto à gestão pública brasileira exige-se do Estado uma ação de pla-
nejamento e intervenção. Pode-se afirmar que o Estado brasileiro vem se
mostrando incapaz de agir de maneira adequada e tempestiva nesse
setor. Os avanços observados em alguns períodos são seguidos de gran-
des retrocessos e descontinuidades.
Observa-se, de modo geral, que a incapacidade do Estado brasileiro
em prover soluções para os problemas urbanos – dentre os quais arro-
la-se o problema da habitação – reflete incapacidades na burocracia nos
governos locais. Obedecendo o intuito dos legisladores constituintes, as
soluções para os problemas de âmbito local são competência dos muni-
cípios, mas as gestões municipais carecem de qualificação e inteligên-
cia aplicada ao planejamento. Como mostra Mazoni Andrade (2016), o
movimento municipalista brasileiro vem apontando histórica e sistema-
ticamente para as questões da ausência de autonomia e das desigualda-
des nas receitas entre os níveis de governo.
Nesse sentido, a exploração trazida por esse trabalho pode apresentar
grandes contribuições para as tomadas de decisão na gestão local, apon-
tando para avanços e retrocessos nas políticas de habitação. Sobretudo
em um contexto de incertezas e crise, faz-se mister aprender com os
erros do passado.

Bibliografia
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 177
As raízes dos conjuntos IAPI no panorama atual
de habitação social:
Estudos de Caso do Conjunto Realengo (RJ)
e Conjunto Habitacional Heliópolis (SP).
IZ A DOR A C A RVA LHO L A NER
Mestranda, Universidade de Brasília.

FELIPE CL ÁUDIO R IBEIRO DA SILVA


Mestrando, Universidade de Brasília.

BENN Y SCH VA SBERG


Professor Doutor, Universidade de Brasília.

RODR IGO SA N TOS DE FA R I A


Professor Doutor, Universidade de Brasília.

Resumo
O artigo busca traçar os parâmetros que definem a qualidade de mora-
dia em propostas públicas de habitação social em diferentes períodos
históricos. Os estudos de caso escolhidos correspondem ao Conjunto
Residencial de Realengo, de 1938, e o Conjunto Habitacional Heliópolis,
de 2014. Fazem parte, respectivamente, do período onde a habitação
social começa a ser entendida como um problema de Estado
(1930 a 1964), e o período atual, posterior à definição da função social da
propriedade, caracterizado pela produção massiva de habitação social
financiada pelo poder público, através do Programa Minha Casa Minha
vida (2009). Ao traçar um paralelo entre os dois estudos, intenciona-se
verificar se existem fatores comuns que os definem como boas políticas
de habitação social, a fim de entender se existe um resgate das políticas
habitacionais pré-BNH na produção atual, tal como afirma Bonduki.

Palavras-Chave
Habitação, Urbanização, Realengo, Heliópolis, PMCMV.

178 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. Introdução
1.1 A origem da habitação social como um problema de Estado.
Até 1930, a habitação popular era construída pela iniciativa privada,
configurando os cortiços. Tais habitações foram vistas pelos sanitaristas
como uma ameaça à saúde pública, consideradas focos de propagação
de doenças epidêmicas. Ainda assim, por estarem implantados nas áreas
centrais dos principais núcleos urbanos, os cortiços possuíam a vanta-
josa proximidade com as principais atividades e serviços. Desta forma,
a remoção destes pela reforma higienista, possuiu, na verdade, uma
expressa intenção de segregação e exclusão social, bem como a negação
do direito à cidade pela população de menor renda, gerando o processo
de periferização que ainda ocorre atualmente. Pode ser entendida como
uma forma de controle e dominação da população mais necessitada,
expulsando-a para áreas distantes e isoladas, dando lugar à valorização
imobiliária das áreas mais próximas do centro.
Semelhante processo ainda ocorre atualmente, com a produção mas-
siva de habitações sociais por programas como o Minha Casa Minha
Vida. Mesmo depois do reconhecimento da função social da proprie-
dade pelo Estatuto da Cidade em 2001, as áreas destinadas a uso de
interesse social estão cada vez mais periféricas e desvalorizadas. Boa
parte dos assentamentos produzidos pelo Programa não contam com a
infraestrutura urbana necessária a uma qualidade mínima de moradia.
São casas térreas “plantadas” em glebas que desconsideram a inserção
urbana, o provimento de serviços e equipamentos comunitários, esque-
cendo-se que o espaço público é uma extensão da moradia. São habita-
ções padronizadas para a produção em massa que não correspondem,
muitas vezes, ao perfil da família que deverão abrigar.

1.2 A produção habitacional pré-BNH (1930/1964) e a produção


atual do Programa Minha Casa Minha Vida Entidades
A historiografia da habitação social conta, porém, com exceções.
Durante o período anterior à criação do Banco Nacional de Habitação,
em 1964, tem-se a produção de conjuntos habitacionais por órgãos como
o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários, a fim de aten-
der a demanda específica dos operários, sobretudo aos de renda mais

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 179
baixa. Alguns desses conjuntos apresentam-se, até hoje, como exemplos
de elevado nível de qualidade de vida, boas condições de moradia
e inserção urbana, bem como o uso de tecnologias construtivas inova-
doras à época. Parte dessa produção buscou suprir a demanda habitacio-
nal, principalmente dos grandes núcleos urbanos, em uma produção
massiva de moradias sem, contudo, perder a qualidade, priorizando
a oferta de equipamentos públicos e serviços sociais básicos à comuni-
dade, entendendo que o contexto urbano, a infraestrutura e o espaço
coletivo fazem parte da moradia individual.
Ainda que a construção da habitação social atualmente corresponda
a reprodução de moradias considere as necessidades de infraestrutura
e sociabilidade, assim como o IAPI no período pré-BNH, o Programa
Minha Casa Minha Vida Entidades possibilitou bons resultados na pro-
dução habitacional. Alguns conjuntos apresentam certo resgate dos
preceitos inseridos pelo IAPI, priorizando os equipamentos públicos
e espaços comunitários com inserção de áreas verdes, além da hetero-
geneidade nas tipologias habitacionais, buscando soluções construtivas
que propiciem a autogestão. Pode-se acrescentar a introdução da par-
ticipação popular como instrumento de política habitacional que não
existia na primeira metade do século XX, possibilitando uma maior
apropriação da cidade por seus moradores.

2.Estudos de Caso
2.1. Conjunto Residencial Realengo, 1938 (RJ)
O Conjunto Residencial Realengo é uma das obras pioneiras da produ-
ção IAPI, sendo, portanto, campo experimental para diversas tipologias
aplicadas em obras posteriores, ou abandonadas por completo.
Construído em duas etapas, entre 1938 e 1943, o projeto do conjunto tem
como autoria o Arquiteto Carlos Frederico Ferreira, que buscou integrar
economia e qualidade de moradia em soluções construtivas de tecnolo-
gia inovadora, possibilitando uma construção em série.
A crescente demanda habitacional, decorrente da urbanização ace-
lerada, e a remoção dos cortiços, levaram a periferização das cidades.
Para tanto, os conjuntos residenciais construídos pelo IAPI iniciaram
uma expansão espraiada dos núcleos urbanos. Realengo foi o primeiro

180 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
conjunto a iniciar a ocupação de vazios do subúrbio carioca, asseme-
lhando-se ao subúrbio jardim, valorizando áreasW verdes e espaços
públicos.
O conjunto foi implantado junto à Estrada de Ferro Central do Brasil,
margeando a Avenida Brasil. Sua localização facilitou o transporte pela
cidade, compensando o distanciamento da região central. A presença
da ferrovia favorecia a implantação de infraestrutura urbana, possibili-
tando a oferta de serviços básicos às moradias. Houve uma preocupação
em dispor de áreas verdes públicas incorporadas às edificações.
Analisando as diferentes edificações construídas, percebe-se uma
intenção de integração entre espaço público e privado. O uso de alpen-
dres e varandas serve como um ambiente de transição, transformando
o espaço público em uma extensão da moradia. Semelhante ideia é ado-
tada com o uso do térreo livre nos sobrados, aproximando-se do uso
dos pilotis na arquitetura moderna.
A partir da concepção de diversas tipologias habitacionais tornou-se
possível abrigar perfis familiares diferentes, ampliando o nível de diver-
sidade social. O Conjunto de Realengo serviu como campo de experi-
mentação para diversas tipologias habitacionais que, segundo Bonduki,
garantiam múltiplas soluções arquitetônicas reproduzíveis em diferen-
tes contextos urbanos. A modernização do processo construtivo contri-
buiu para o barateamento e rapidez na produção em massa de moradias,
sem perda significativa de qualidade. (BONDUKI, 2014. P. 3)
A construção das moradias em si introduziu uma mescla da arqui-
tetura tradicional com elementos da arquitetura modernista ainda
incipiente, mas que ganhava força principalmente no contexto carioca.
O uso da telha colonial em telhados com uma ou duas águas aproximou-
-se da realidade cultural dos moradores, de uma habitação mais simples
e vernácula. Simultaneamente, foram utilizados elementos para a intro-
dução de conceitos modernistas, como o térreo livre em pilotis e a meca-
nização da construção habitacional com o uso de pré-fabricados, flexibi-
lizando a distribuição de ambientes com divisórias no lugar de paredes
de alvenaria. É possível perceber, portanto, a intenção da formação
de identidade para um “homem novo”, característica dos preceitos
modernos, mas sem perder as raízes tradicionais, mantendo o sentido
de pertencimento, para que os trabalhadores possam enxergar a casa
como lar. Para Bonduki,

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 181
Realengo revela a relação que contrapõe e entrelaça conceitos funda-
dores da arquitetura moderna Brasileira com a produção em grande
escala e a racionalização do processo construtivo. A capacidade que
Ferreira teve de combinar a diversidade e a singularidade de tipos
habitacionais com a busca de padronização e reprodutividade fazem
deste projeto uma das principais referências de habitação social pro-
duzidas no país. (BONDUKI, 2014. P. 11).

As tipologias habitacionais abrangem tanto a residência unifamiliar


quanto a habitação coletiva. Quanto à primeira, corresponderam a casas
térreas geminadas de dois ou três quartos, organizadas em fileiras.
No interior da parede compartilhada foram alocadas as instalações
hidráulicas, configurando o layout a partir desse fator. O acesso às casas
está conectado diretamente à rua, a partir de um alpendre. Foram cons-
truídos, ainda, sobrados de dois pavimentos com térreo livre, ocupado
apenas pelo acesso à circulação vertical, possibilitando uma área de con-
vívio embaixo das residências, permeabilidade de acesso e ventilação
do térreo, aumentando o conforto térmico.

Fig. 01 | Casas geminadas em fileiras. Fonte: BONDUKI, 2014.

182 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 02 | Sobrados com térreo livre. Fonte: BONDUKI, 2014.

As habitações coletivas correspondem a diversos tipos de edifícios, todos


em até 3 pavimentos e circulação por escadas e corredores longitudinais.
O bloco principal é composto por térreo comercial e dois pavimentos
residenciais. Possui varandas intercaladas, configurando uma intermi-
tência de vazios e cheios na fachada. O acesso às moradias se dá por um
corredor, desembocando em pequenos halls, distribuídos a cada dois
apartamentos. As diferentes soluções arquitetônicas adotadas possuem
em comum a valorização da horizontalidade e continuidade visual.
Segundo Bonduki, o Bloco Principal foi a alternativa mais reproduzida
pelo IAPI em seus conjuntos, de 1940 até a criação do BNH, em 1964.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 183
Fig. 03 | Bloco Coletivo. Fonte: BONDUKI, 2014.

Bonduki evidencia as moradias como sendo células individuais,


que abrigariam apenas os ambientes privados. Tudo o que diz respeito
ao coletivo, aos ambientes de sociabilidade e lazer, estão situados
no espaço público, como equipamento de vida coletiva. É possível perce-
ber a estreita relação entre a casa individual e o espaço coletivo, enten-
dendo os espaços comunitários como uma continuidade da habitação.
Tais equipamentos foram distribuídos ao longo da ocupação para favo-
recer pequenas distâncias, localizando-se sempre nas vizinhanças
das habitações.
Percebe-se, com a análise, a preocupação do IAPI em construir habi-
tações integradas ao ambiente urbano, ainda que nas áreas suburbanas;
O Instituto, diferentemente de grande parte da produção de habitação
social na atualidade, trazia como premissa básica a inserção urbana
e o suprimento de serviços e equipamentos necessários a uma boa
qualidade de vida, preocupando-se não só em construir casas, mas em
ofertar espaços públicos e comunitários inerentes à vida coletiva, bem
como assistência básica aos operários, sobretudo aos de menor renda.
No caso de Realengo, as moradias integravam-se com o todo, possibili-
tando não só uma vida individual digna, mas uma vida coletiva.

184 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
2.2. Conjunto Habitacional Heliópolis (SP)
Construído em 2014 através do Programa Minha Casa Minha Vida Enti-
dades, pelo escritório Biselli e Katchborian Arquitetos Associados,
o conjunto habitacional Heliópolis trata-se de uma intervenção
na maior favela de São Paulo/SP. Participa do Programa de Reurbaniza-
ção de Favelas do Município, por meio da Secretaria de Habitação
do estado. Localizado entre as avenidas Comandante Taylor e Juntas
Provisórias, foram construídas 420 unidades de habitação de 50 m²
cada, totalizando 31.000 m² de área construída.

Fig. 04 | Vista de pássaro. Fonte:http://www.galeriadaarquitetura.com.br

As famílias, removidas de diferentes favelas, foram encaminhadas


a um alojamento provisório, situado no mesmo local onde ingressaram
posteriormente como proprietários. Os moradores ficaram no terreno
até 2008, ano em que ergueu-se o canteiro de obras do projeto. As famí-
lias foram novamente realocadas, contando agora com o auxílio de alu-
guel dado pela prefeitura.
O projeto levou em consideração várias condicionantes imprescindí-
veis ao conforto dos usuários, como estudos de ventilação, iluminação,
análise da inserção, entre outros. Na escala da cidade, o conjunto asse-
melha-se a uma quadra urbana com espaços comunitários internos for-
mados por um pátio, além da alocação de comércios e serviços no térreo.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 185
Fig. 05 | Pátio interno. Fonte:http://www.archdaily.com.br/br/01-16929/his-
conjunto-heliopolis-gleba-g-biselli-mais-katchborian-arquitetos

Segundo os autores do projeto, a relação entre espaço/cidade baseou-se


no modelo de "quadra europeia", articulada entre os tecidos formal
e informal da cidade. O acesso à edificação dá-se através de pórticos,
criando certa conexão e permeabilidade visual. O desnível natural
do terreno foi aproveitado, permitindo a construção de 8 pavimentos
sem elevadores, com acessos, pelo desnível do terreno, ao 3º e 4º andar.
Construiu-se um conjunto de passarelas para conectar os blocos, permi-
tindo maior aproveitamento construtivo, e tornando possível a circula-
ção por escadas. Tal estratégia é adotada para diminuir os custos com
a circulação, visto que o elevador seria uma solução mais onerosa,
impossibilitando atender a faixa de 0 a 3 salários mínimos.
O sistema construtivo escolhido foi a alvenaria com blocos de con-
creto, além de outras soluções arquitetônicas visando a racionalidade
sem prejudicar a expressividade da forma arquitetônica. Contudo,
a construção dos pórticos de acesso representou uma estrutura sem
modulação ou repetição, demandando uma estrutura mista de concreto
armado e estrutura metálica.

186 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 06 | Corte transversal.
Fonte:http://www.archdaily.com.br/br/01-16929/his-conjunto-heliopolis-gleba-g-
biselli-mais-katchborian-arquitetos

A configuração das unidades habitacionais produz um estudo volumé-


trico ritmado, que traz a ilusão de um conjunto unificado, formado por
vários edifícios independentes, reforçada pelo uso das cores individuais.
As passarelas em treliças metálicas se apoiam em caixas que saem
das estruturas dos edifícios, servindo como proteção em casos de incên-
dio, já que a estrutura metálica das passarelas se torna mais vulnerável
em fenômenos desta natureza.
Quanto ao interior da habitação, prevaleceu o cuidado com a dis-
posição dos ambientes, oferecendo flexibilidade aos moradores,
onde as famílias variam entre 05 e 11 pessoas. Há também unidades
adaptadas às pessoas com deficiências, no pavimento térreo, com acesso
direto à rua.
O projeto paisagístico previu a integração das duas áreas do conjunto,
lado A e o lado B, através de pórticos, permitindo a permeabilidade
visual e de ventilação, além da combinação entre pisos e vegetações e a
locação de equipamentos de ginástica e de recreação, configurando aos
pátios internos, além da iluminação natural, um caráter de espaço de
lazer e sociabilidade.
As salas comerciais são utilizadas pelos próprios moradores, com
prioridade dada aos que já possuíam a atividade comercial como fonte
de renda. Percebe-se, pela proximidade da área em relação ao centro,
bem como o provimento de infraestrutura urbana e serviços, além
da flexibilidade de tipologias habitacionais, que o Poder Público con-
figurou um novo jeito de morar em Heliópolis, priorizando melhores
condições de vida.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 187
3. Conclusão
No que se refere à inserção urbana, evidencia-se, em ambos os casos,
expressa preocupação em suprir as necessidades básicas relativas
a infraestrutura urbana, transporte, equipamentos comunitários e ser-
viços sociais. Em Realengo, o Instituto IAPI priorizou a oferta de tais
aspectos para compensar a localização distante do centro do Rio de
Janeiro. Além disso, contava com assistência social e médica para dar
suporte às famílias de operários, sobretudo aos de menor renda, inten-
tando tornar o planejamento familiar uma prática mais comum entre os
moradores.
O Conjunto Habitacional de Heliópolis demonstra ser uma exceção
positiva na produção atual, na medida em que optou por não remover
a população de sua localidade próxima ao centro, buscando, assim,
a reurbanização. Enquanto se realizava a requalificação de uma das
glebas, a população era transferida provisoriamente para outra área,
para que retornasse ao seu local de origem assim que finalizadas as
obras. Heliópolis introduz, portanto, uma solução diferenciada: Man-
ter habitações de interesse social para a população de renda mais baixa
(0 a 3 salários mínimos) em locais privilegiados, negando o processo
de segregação sócio espacial comumente utilizado para excluir e isolar
os pobres em áreas distantes do centro.
Outro fator comum entre os dois casos é a diversidade de tipologias
habitacionais e o uso de sistemas construtivos que possibilitem maior
flexibilidade quanto a distribuição interna de ambientes, adaptando-se
melhor aos diversos tipos de configurações familiares.
O último aspecto a ser ressaltado é a questão da relação entre
o espaço público e o privado. Em realengo, o espaço público funciona
como extensão da moradia, abrigando as áreas comunitárias como jar-
dins e praças, utilizando-se ainda de alpendres e varandas como espaços
de transição. Em Heliópolis a relação se dá principalmente pela adapta-
ção das edificações ao desnível do terreno, acomodando-as de forma a
delimitar pátios internos que localizam os espaços comunitários. Além
disso, foram construídas passarelas metálicas interligando os blocos
e aumentando o acesso aos espaços públicos.

188 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Experiências como o Conjunto Habitacional Heliópolis e o Con-
junto Realengo, mostram que a habitação popular pode ser feita com
qualidade, através de projetos voltados para as necessidades específicas
da comunidade local, de modo a superar a lógica baseada na repetição
de tipologias pré-estabelecidas que ainda predomina nas políticas habi-
tacionais brasileiras. Os exemplos também mostram que a atribuição
dessa qualidade nem sempre está relacionada diretamente ao período
histórico em que está inserida. Ainda que as necessidades e possibilida-
des de atuação do poder público dentro da questão habitacional mudem
com o tempo, é possível encontrar fatores essenciais para a construção
de exemplos positivos, que perpassam toda a historiografia da habitação
social e perduram até os dias atuais.

4. Bibliografia
BONDUKI, Nabil. Os pioneiros da habitação social: Cem anos de política
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DENALDI, Rosana. FILHO, Fernando. Plano Diretor, Zonas Especiais
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 189
A Trajetória do Canteiro de Obras
pelo Olhar Arquitetônico no Século XX
HELOISA NUNES E SILVA
Doutoranda em Arquitetura e Urbanismo no PosARQ/ UFSC

e Docente EBTT no IFSC, Brasil.

Resumo
Ao se relacionar a trajetória do espaço do canteiro de obras com as formas
de intervenção habitacional do século XX em alguns países da Europa e
da América do Sul, identificam-se que, à sua época, as mudanças na socie-
dade e na política habitacional ocasionaram (re)organizações urbanas, as
quais também influenciaram diretamente na forma como se estruturava
o espaço de produção do edifício. Realizou-se uma pesquisa documental
comparativa entre projetos de habitação selecionados pelo seu caráter de
relevância do contexto de projeto da edificação e em distintos períodos
urbanos de cidade, possibilitando contextualizar seus reflexos sobre a
organização espacial do canteiro de obras. Construíram-se cinco panora-
mas da evolução espacial do canteiro de obras, estruturado por critérios
pré-definidos. As transformações no modo de organizar as habitações nas
cidades ao longo do século XX influenciaram o aspecto organizacional da
cadeia produtiva da construção civil.

Palavras-Chave
Intervenção urbana; projeto de habitação; canteiro de obras.

190 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. Intervenções Habitacionais Referenciais na Pesquisa
As pesquisas de Zapatel (2013: 13) acerca das intervenções urbanas e de
habitação nas cidades do século XX apontam “estratégias de projeto e os
processos de revitalização urbana que, tanto em soluções de integração
à morfologia existente como de inovação tipológica, exemplificam for-
mas de (re)constituição urbana”, diante de demandas de crescimento
habitacional nas cidades. O autor relacionou alguns projetos de habita-
ção na Europa, devido à relevância da proposta conceitual à época, e
realizou estudos sobre o processo de projetar a edificação de modo a
estabelecer uma linha norteadora sobre o processo de projeto de habita-
ção no século XX, em que a sua leitura permite estabelecer uma lógica
de projeto baseada na continuidade de experiências habitacionais e na
diferenciação do conjunto pelas estratégias inovadoras a seu tempo.
Deste modo, os projetos analisados por Zapatel são a base para este
artigo, conforme Fig.01.

2. Método de pesquisa
Este trabalho está estruturado em pesquisa documental e de imagens
para cada um dos recortes históricos, em seguida realiza-se uma análise
baseada em multicritérios (instruções normativas, organização espa-
cial, relações de vizinhança, impactos urbanos e identidade social do
homem), resultando num quadro histórico do processo de organização
do espaço do canteiro de obras em meio às diferentes formas de inter-
venção habitacional do século XX. O critério de escolha dos projetos
destacados em cada recorte histórico é devido à peculiaridade de tipolo-
gia e da morfologia do projeto e a sua contribuição na cultura de projeto
em arquitetura e urbanismo, conforme discute Zapatel (2013). A pes-
quisa inicia-se no período pós-1°guerra mundial em Viena/Aústria nas
habitações coletivas dos Hofs nos anos de 1920. Após, segue para o
modelo habitacional do Siedlung em Frankfurt/Alemanha nos anos de
1930, depois para o modelo da cidade planejada em Brasília/Brasil nos
anos de 1950, em seguida para o conjunto habitacional na cidade histó-
rica de Évora/Portugal nos anos de 1970, depois se estuda a intervenção
urbana no bairro de Gràcia em Barcelona/ Espanha nos anos de 1980.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 191
Fig.01 | Quadro comparative sobre os contextos político e social à época da
intervenção habitacional analisada. Fonte: Autora.

3. O Canteiro de Obras pelo Olhar Arquitetônico


3.1 Olhar Arquitetônico
O “olhar arquitetônico” sobre o canteiro de obras já é tratado por Sérgio
Ferro desde a década de 1970 no seu livro O Canteiro e o Desenho, cuja
crítica aborda, entre outros aspectos, as condições de trabalho dos ope-
rários da construção civil nos canteiros e as relacionas com a atuação
dos profissionais arquitetos e engenheiros, emergindo temas de irracio-
nalidade do projeto, relações de dominação na produção.
Assim, como em outros espaços de trabalho, deve-se considerar a habi-
tabilidade do ambiente, cujo termo abrange além da unidade física da edi-
ficação as faces coletivas e privadas, psicológicas, sociais e culturais do

192 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
indivíduo que utiliza aquele espaço (De Sousa Araújo e Jacyntho, 2014).
Ademais, outros aspectos interferem na qualidade do ambiente construído,
tais como área edificada, divisões internas, instalações, infraestrutura de
abastecimento de água, esgoto, drenagem, sistema viário (Bonduki, 2002).

3.2 Canteiro de Obras


A norma brasileira ABNT NBR 12.284 (1991) define canteiro de obras
como “áreas destinadas à execução e apoio dos trabalhos da indústria da
construção, dividindo-se em áreas operacionais e áreas de vivência”.
No Brasil, o espaço do canteiro de obras pode ser planejado jun-
tamente ao documento existente no Programa de Condições e Meio
Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção – PCMAT da Norma
Regulamentadora 18, publicado pela Portaria 3.214 do Ministério do
Trabalho Emprego, integrando, assim, um documento único contendo
o projeto evolutivo do canteiro de obras, sintetizando três perspectivas
necessárias: 1) segurança do trabalho, 2) logística de produção da cons-
trução civil e 3) urbanidade e habitabilidade (Silva, 2014).

4. Histórico na Organização do Espaço do Canteiro de Obras


4.1 Década de 1920: Canteiro de Obras Marginalizado
A intervenção analisada foi o Karl Marx-Hof, de Karl Ehn, em Viena/
Áustria, com 1.328 unidades habitacionais e localizado periferia da
cidade (Zapatel, 2013).
A época, não havia registro oficial sobre uma instrução normativa
aplicada ao canteiro de obras.
Pode-se verificar nas imagens da construção do Hof uma organiza-
ção espacial do canteiro de obras com a indefinição de espaço entre área
pública(vias, passeio) x privada(local da obra em si), há o trânsito irres-
trito de pessoas dentro do espaço de produção do edifício, há construção
aleatória das instalações de apoio à obra (sanitários, refeitório, escritório,
central de produção, etc) e sem um padrão orientativo ou definição de
condições mínimas de salubridade, a técnica construtiva era artesanal e
de fácil manuseio (madeira, blocos cerâmicos, roldanas). Ver Fig.02.
As relações de vizinhança do canteiro de obras são diretas com as
áreas circunvizinhas à obra, sem elemento construtivo como barreira
de demarcação do espaço privado; as condições sanitárias precárias das
cidades são replicadas no espaço do canteiro de obras.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 193
Os impactos urbanos do canteiro de obras sobre a cidade/bairro
remetem ao público operariado das obras que intensifica a circulação de
veículos (caminhão, ônibus, carros, moto, bicicleta) nas ruas próximas,
condições ambientais são alteradas pelo ruído e poeiras das atividades
da construção civil, alterações de trajeto de vias ou passeios públicos
para servirem de apoio às atividades da obra (carga e descarga).

Fig.02 | Construção do Karl Marx-Hof em Viena entre os anos de 1926 a 1933. Fonte:
http://www.porr.at/index.php?id=623&L=1

4.2 Décadas de 1930/1940: Pré-Organização Espacial do Canteiro


de Obras
O modelo do Siedlung, de Ernst-May, em Frankfurt/Alemanha, com
unidades habitacionais padronizadas e com pátio verde(quintal ou jar-
dim) anexo à edificação, permite sintetizar a condição do espaço da obra
neste período, o qual ainda mantém-se sem registro oficial de instrução
normativa aplicada ao canteiro de obras (Zapatel, 2013).
Com o fato da crescente industrialização dos componentes e da racio-
nalização do processo de projeto e da construção, observa-se que há
alterações na organização espacial do canteiro de obras, em que há uma
pré-organização do espaço da obra em local de produção in loco de com-
ponentes(blocos), em local de armazenamento e em local de instalação
de equipamentos de obra. Ainda mantém-se a indefinição de espaços
públicos x privado (canteiro de obras), bem como o trânsito irrestrito
de pessoas dentro do espaço de produção do edifício. Há, ainda, a cons-
trução aleatória das instalações de apoio à obra (sanitários, refeitório,
escritório, central de produções, etc), sem um padrão orientativo ou
definição de condições mínimas de salubridade. A técnica construtiva
encontrava-se em transição da artesanal e de fácil manuseio (madeira,

194 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
blocos, roldanas) para a industrialização de componentes e uso de
maquinários de grande porte (ex.: gruas). Ver Fig.03.
Sobre as relações de vizinhança do canteiro de obras, mantém-se a
relação direta com as áreas circunvizinhas à obra, sem elemento cons-
trutivo como barreira de demarcação do espaço privado; as aplicações de
soluções sanitárias nas intervenções habitacionais emergem pensamentos
semelhantes para as condições sanitárias no espaço do canteiro de obras
(higiene, esgoto), porém ainda se mantém algumas soluções sanitárias pre-
cárias no espaço do canteiro de obras (ex.:esgoto sem destinação adequada).
Os impactos urbanos do canteiro de obras na cidade/bairro ainda
são do público operariado das obras intensifica a circulação de veículos
(caminhão, ônibus, carros, moto, bicicleta) nas ruas próximas, das con-
dições ambientais alteradas pelo ruído e poeiras das atividades da cons-
trução civil, das alterações de trajeto de vias ou passeios públicos para
servirem de apoio às atividades da obra (carga e descarga). Verifica-se a
crescente especialização das tarefas em obra, resultado da organização
da área de produção e da industrialização do processo construtivo.

Fig. 03 | Construção das Siedlungs na Alemanha com os componentes


industrializados no canteiro de obras. Fonte: http://www.industrializedarchitecture.
com/gropius-siedlung-torten.html

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 195
4.3 Décadas de 1950/1960: Fragmentação no Espaço
do Canteiro de Obras
A construção da nova capital do Brasil em Brasília/ DF, permite expan-
dir a relação de importância do espaço de produção do edifício para a
estruturação das cidades (Zapatel, 2013).
No período da obra da capital também se encontrava sem registro
oficial de instrução normativa aplicada ao canteiro de obras. Havia a
regulação do contrato de trabalho regido pela Consolidação das Leis
Trabalhista (CLT) de 1943. Ver Fig.04.
Na organização espacial do canteiro de obras, a empresa construtora
o fragmenta em local para construção de Brasília e outro local para abri-
gar os operários fora do espaço de construção da obra em si, ha uma
pré-organização do espaço da obra em local de produção in loco de
componentes, em local de armazenamento, em local de instalação de
equipamentos de obra e em setor administrativo, além do espaço para
abrigar os trabalhadores. Mantém-se a indefinição de espaços públicos
x privado ( canteiro de obras) e há o trânsito irrestrito de pessoal den-
tro do espaço de produção do edifício. Ainda há construção aleatória
das instalações de apoio à obra (sanitários, refeitório, escritório, central
de produções, etc), sem um padrão orientativo ou definição de condi-
ções mínimas de salubridade. A técnica construtiva estava em transição
da artesanal e de fácil manuseio (madeira, blocos cerâmicos, roldanas)
para a industrialização de componentes e uso de maquinários de grande
porte (ex.:guindaste).
Sobre as relações de vizinhança do canteiro de obras, neste objeto
de estudo, a peculiaridade é que a vizinhança do canteiro de obras é o
cerrado - a natureza intocada do interior do Brasil, em que a tamanha
extração de madeiras para a obra gerou polêmicas ambientais. A imensa
oferta de mão obra, adulta e infantil, foi absorvida em várias tarefas da
obra, de modo informal e formal, com jornadas intensas e excessivas e
com muitos acidentes de trabalho.
Quanto aos impactos urbanos do canteiro de obras, o aspecto de
interiorização no território emerge a ausência de infraestrutura de
saúde, indústrias, comércio, lazer, sistemas de transporte. A partir
dessa lacuna, os próprios operários e familiares iniciaram suas ativida-

196 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
des produtivas para suprir essa demanda local. Assim, dando início a
centralidades e pontos de referência naquele arranjo urbano secundário
à obra de Brasília. Destes arranjos, constituíram-se vila de operários e
sua crescente organização urbana, de caráter informal, rumou para a
organização de cidades, conhecidas como cidades satélites de Brasília.

Fig.04 | Construção de Brasília no Brasil e os candangos(trabalhadores da obra)


adultos e crianças. Fonte: Foto: Arquivo Público do DF

4.4 Década de 1970: Demanda por Requisitos para Qualificar as


Condições de Trabalho em Canteiros de Obras
O projeto do conjunto habitacional da Quinta da Malagueira, de Álvaro
Siza, em Évora/Portugal é cenário para a abordagem das novas diretrizes
para a qualidade do trabalho no espaço de produção da obra (Zapatel, 2013).
Há registos oficiais sobre a organização espacial do canteiro de obras,
devido a crescente política de demanda por higiene, saúde e segurança
do trabalho por parte governamental e de sindicatos da categoria
(Decreto-lei n.º 41.820/1958; Decreto nº 46427/1965). Ver Fig.05.
A organização espacial do canteiro de obras ainda é inicial de modo
a prever local de produção in loco de componentes, em local de arma-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 197
zenamento, em local de instalação de equipamentos de obra e setor
administrativo. Em alguns casos, ainda mantém-se a indefinição de
espaços públicos x privado ( canteiro de obras), há o trânsito irrestrito
de pessoal dentro do espaço de produção do edifício. A construção das
instalações de apoio à obra (sanitários, refeitório, escritório, central de
produções, etc) segue um padrão orientativo de condições mínimas de
salubridade. A técnica construtiva em transição da artesanal e de fácil
manuseio (madeira, blocos cerâmicos, roldanas) para a industrialização
de componentes e uso de maquinários de grande porte (ex.:guindaste)

Fig.05 | Construção das unidades habitacionais da Malagueira em, Évora no final


dos anos de 1970. Fonte: http://socks-studio.com/2016/05/13/quinta-da-malagueira-
in-evora-by-alvaro-siza-1977-1998

4.5 Década de 1980: Normatização de Requisitos


para o Canteiro de Obras
As intervenções habitacionais no bairro de Grácia da cidade de Barce-
lona/Espanha, em meio ao contexto do grande centro urbano, necessi-
tou de ordenação nas questões de execução de obras civis (Zapatel, 2011).
Assim, o Real Decreto 555/1986 de 21 de fevereiro, tratou sobre a
inclusão obrigatória de um estudo de Segurança e Saúde no Trabalho,
em projetos de construção e obras públicas. A partir dele, a organização

198 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
espacial do canteiro de obras também deve orientar-se pelo ambiente
de trabalho seguro nas obras de construções civis. Desenvolve-se um
Estudo Documentado sobre o espaço da obra e elaborado pela empresa
construtora, considerando: a) relatório descritivo e os procedimentos
técnicos a utilizar, considerando risco relativo de acidentes de trabalho
e doenças e especificação de medidas preventivas; b) condições espe-
ciais da legislação aplicáveis às características do trabalho; c) plane-
jamento da execução das medidas preventivas ; d) acompanhamento
contínuo da implantação dos elementos de segurança e saúde no tra-
balho; e) orçamento, que quantifica a despesas totais previstas para a
implementação e execução do estudo Saúde e Segurança.
Deste modo, verifica-se que o resultado da aplicação do Real Decreto
é a definição clara entre espaço público e privado em obra, acentua o
controle produtivo e operacional em obra, possibilita um padrão de
organização no arranjo físico do canteiro de obras, associando o Real
Decreto e a logística de produtividade da empresa( espaços de apoio e
de produção), e a aplicação de diferentes tecnologias construtivas nos
ambientes do canteiro de obras (ex.: conteiner.), no intuito de racionali-
zar custos e com foco na sustentabilidade dos componentes.
As relações de vizinhança do canteiro de obras eram realizadas em
meio à malha urbana já constituída e em plena atividade, logo era neces-
sário seguir as orientações normativas (sobre horário de trabalho, carga
e descarga, circulação de veículos pesados, controle de resíduos, ruí-
dos,etc). Ainda, a relação de vizinhança era próxima com alguns mora-
dos vizinhos ao terreno da intervenção, havendo um constante olhar de
vigília e acompanhamento sobre a obra. Ver Fig.06.
Pode-se verificar que os impactos urbanos do canteiro de obras a
época eram: público operariado das obras intensifica a circulação de
veículos (caminhão, ônibus, carros, moto, bicicleta) nas ruas próximas,
as condições ambientais alteradas pelo ruído e poeiras das atividades
da construção civil, além de alterações de trajeto de vias ou passeios
públicos para servirem de apoio às atividades da obra (carga e descarga).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 199
Fig. 06 | Área de intervenção nos bairros em Barcelona para a do quarteirão do
centro urbano. Fonte: Foto de Horacio Capel.

Conclusão
As transformações no modo de organizar as habitações nas cidades ao
longo do século XX influenciaram o aspecto organizacional da cadeia pro-
dutiva da construção civil, especialmente na espacialização do canteiro
de obras ao enfatizar a organização de funções, as etapas de implantação
e relevância de planejamento prévio desse processo de produção da obra.

Fig.07 | Esquema evolutivo da organização espacial do canteiro de obras no século


XX a partir de obras selecionadas. Fonte: Autora.

200 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O canteiro de obras saiu da informalidade das decisões aleatórias de
campo para se instrumentalizar e se oficializar como uma etapa de pro-
jeto da edificação, elaborado pelos profissionais da área da construção
civil, tendo reconhecimento técnico e normativo, fato que refletiu em
uma nova tarefa remunerada.
Os reflexos sentidos na organização espacial do canteiro de obras se
materializam em questões como a habitabilidade do espaço construído,
a segurança do trabalho e a manutenção da urbanidade da cidade.
O canteiro de obras se origina do porte da obra a ser executada,
podendo assumir proporções até cidade, embora sua legislação especí-
fica limitar-se ao setor da indústria da construção civil.

Bibliografia
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS(1991). NBR- 12284: Áreas
de Vivência em Canteiros de Obras.
BONDUKI, N. G.(2002) Tendências e perspectivas na avaliação de políticas e
programas sociais – uma metodologia para avaliar programas de habi-
tação. IEE/PUC-SP.
DE SOUSA ARAÚJO, R.; JACYNTHO, T. I. (2014) Aspectos de qualidade e habi-
tabilidade na comunidade Tamarindo. PerspectivasOnLine, v. 4, n. 16.
SILVA, H. N.(2014) Habitação em áreas de vivência e adequação de áreas de
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ZAPATEL, J. A.   (2011) Barcelona: transformações urbanísticas (1979-1992).
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CAPEL, Horacio. El debate sobre la construcción de la ciudad y el llamado
“Modelo Barcelona”. Scripta Nova. Revista Electrónica de Geografía y Ciencias
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núm. 233. <http://www.ub.es/geocrit/sn/sn-233.htm>. (Consulta: 14/02/2017).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 201
Barra da Tijuca e o real legado olímpico:
convergências e divergências entre o marketing
urbano e as intervenções urbanas
MELISSA R A MOS DE OLI V EIR A
R A FA EL A LV ES COR R A DI

Escola de Ciências Exatas, Arquitetura e Design, Universidade Anhembi Morumbi, Brasil.

Resumo
O artigo analisa as principais intervenções urbanas implementadas na
região da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro, associadas ao processo de
planejamento dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016, de modo a
identificar quais foram os legados gerados e para quais parcelas da
população esses projetos foram dirigidos. Utilizou-se como metodologia
a análise de dados oficiais publicados pelo governo nas três instâncias,
além das publicações nas redes sociais, para contrapor os diversos atores
sociais. A pesquisa de caráter exploratório demonstra que o material
divulgado pelo governo responde a parte dos questionamentos da popu-
lação referentes aos gastos públicos com o megaevento, pelo menos
aqueles que são claramente um benefício para a população ou parte
dela. Enquanto isso, as informações referentes aos legados que serão pri-
vatizados ou que irão garantir lucro para empresas privadas, através de
contratos de concessão, são omitidas em seu discurso.

Palavras-Chave
Marketing urbano; planejamento estratégico; jogos olímpicos; Rio de
Janeiro; Barra da Tijuca.

202 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
A cidade do Rio de Janeiro recepcionou inúmeros eventos internacionais
nos últimos dez anos, dentre os quais cita-se os Jogos Pan-americanos em
2007, os Jogos Militares Mundiais em 2011, a Copa das Confederações em
2013, a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos em
2016. Os exemplos mencionados correspondem apenas aos eventos de
cunho esportivo. Todavia, destacam-se ainda congressos, conferências e
eventos de outras áreas, como o Rock in Rio e o Rio+20. Nesse contexto, o
Rio de Janeiro se consolida como um dos principais palcos brasileiro dos
eventos internacionais. Esse destaque gerou grandes mudanças urbanísti-
cas e arquitetônicas na cidade do Rio de Janeiro, a fim de atender às neces-
sidades dos Megaeventos, sobretudo as demandas dos Jogos Olímpicos e
Paraolímpicos - os requisitos de uma cidade olímpica.
A transposição do planejamento estratégico do mundo das empresas
para o universo urbano (público), transformou a cidade em sujeito econô-
mico cuja nova natureza mercantil instaurou a apropriação de instrumen-
tos do poder público por grupos empresariais (HARVEY, 1996). A cidade
- objeto do planejamento - passou a ser sujeito das estratégias competiti-
vas do mercado, consolidando-se como uma empresa. E as intervenções
urbanas se consolidaram a partir da parceria público-privada.
Nesse contexto, destacou-se a cidade de Barcelona (Espanha), sede do
evento em 1992, que soube utilizar o evento como um ponto de transfor-
mação física e econômica (SANCHEZ, 2004). De tal forma que a cidade
aproveitou deste legado olímpico mesmo atualmente, mais de vinte anos
depois de sediar o evento. Por outro lado, temos cidades como Atenas
(Grécia), sede das olimpíadas de 2004, que se endividam com os projetos
olímpicos e levarão anos para pagar por eles.
Seja como for, independente do sucesso econômico ou não, existem,
em todos os casos, pontos nos quais o município sai prejudicado ao
sediar os Jogos Olímpicos. Por conseguinte, são geradas inúmeras dis-
cussões quanto a real vantagem de sediar este tipo de evento.
No caso de Barcelona, os estudos de Fernanda Sanchez (2004) apon-
tam que, apesar da cidade ter se tornado um modelo de sucesso econô-
mico ao sediar o evento, as transformações urbanas na capital catalã não
atenderam às necessidades de todas as camadas sociais, pelo contrário,

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 203
afirmam que os projetos olímpicos privilegiaram uma elite financeira-
mente influente. Consequentemente, marginalizou, ainda mais, os mora-
dores sem recursos e aumentou as desigualdades sociais no território.
O presente trabalho volta-se à compreensão das recentes transfor-
mações urbanas na cidade do Rio de Janeiro, particularmente aqueles
referentes aos Jogos Olímpicos de 2016. As principais alterações estraté-
gicas implementadas com o intuito de transformar o Rio de Janeiro em
uma cidade olímpica aconteceram fundamentalmente em quatro áreas
da cidade - Deodoro, Porto, Copacabana e Barra da Tijuca. Dentre as
mencionadas, a Barra – objeto de estudo desse artigo - foi a região que
recebeu a maior parte das instalações olímpicas.
Como percurso metodológico, analisou-se os projetos arquitetôni-
cos, urbanísticos e infra estruturais implantados na capital por meio das
estratégias de planejamento urbano utilizadas pelo governo carioca. O
objetivo foi identificar os projetos olímpicos e as regiões impactadas por
eles, pesquisar e avaliar os investimentos, o marketing por trás do dis-
curso do governo e os reais impactos de cada um desses projetos. A pes-
quisa de campo pautou-se nos materiais divulgados pelo Governo Muni-
cipal, para a região da Barra da Tijuca. Assim, nossa análise restringiu-se
aos seguintes projetos, o Parque Olímpico, a Vila dos Atletas, o Centro de
Convenções Riocentro, o Campo Olímpico de Golfe, o Parque dos Atletas,
a Ampliação do Sistema de Saneamento da Barra e as linhas de BRT.

1. Projetos Olímpicos na Barra da Tijuca


A Barra da Tijuca foi a região que recebeu a maior parte das instalações
olímpicas da cidade do Rio de Janeiro, tais como o Parque Olímpico, a Vila
dos Atletas, além de intervenções que contemplam as linhas de BRT Trans-
carioca, Transoeste e Transolímpica, os terminais de BRT Centro Olímpico,
Recreio e Alvorada, o CER e as redes de coleta e tratamento de esgoto.
Dessas obras, algumas trouxeram benefícios à população local,
enquanto outras foram foco de exploração da iniciativa privada. Os pro-
jetos mais relevantes aos moradores foram as linhas e terminais de BRT,
além do Parque dos Atletas. Os projetos explorados pelas empresas do
setor privado foram o Centro de Convenções Riocentro, a Vila dos Atletas,
a Vila da Mídia 3, o Campo Olímpico de Golfe e parte do Parque Olímpico.

204 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O Parque Olímpico ocupou uma área de 1,18 milhão de m² e contou
com nove arenas esportivas - o Velódromo Olímpico, o Centro Olímpico
de Tênis, o Centro Olímpico de Esportes Aquáticos, a Arena Olímpica
do Rio, o Parque Aquático Maria Lenk, a Arena do Futuro e as Arenas
Cariocas 1, 2 e 3. Além disso, o parque agregou um Hotel, o Centro Inter-
nacional de Transmissão e o Centro Principal de Mídia. O Centro de
Convenções do Riocentro abrigou diversas modalidades Olímpicas e
Paraolímpicas nos Pavilhões 2, 3, 4 e 6.
O investimento realizado na construção do Parque Olím-
pico e na reforma e ampliação do centro de convenções somaram
R$3.010.700.000,00, dos quais, R$1.201.200.000,00 foram financiados pelo
Governo Federal, R$587.500.000,00 pelo Município e R$1.222.000.000,00
pela iniciativa privada (CIDADEOLIMPICA; APO, 2016).
A Vila dos Atletas foi edificada para hospedar os atletas durante o
evento. Após o término da competição a proposta era comercializar a vila
como condomínio residencial e seus lucros seriam dirigidos ao consór-
cio Ilha Pura. Na Vila dos Atletas foram construídos 3.604 apartamen-
tos, distribuídos em 31 prédios. O empreendimento teve um custo de
R$2.909.500.000,00 e foi financiado totalmente pela iniciativa privada,
através de parceria público-privado (CIDADEOLIMPICA; APO, 2016).
O Campo Olímpico de Golfe foi implantado em um terreno privado
com 1,2 milhão de metros quadrados em área de proteção ambiental.
Mesmo após inúmeros questionamentos do Ministério Público quanto
aos aspectos ambientais do projeto, a construção do campo se manteve.
Assim como a parceria entre a prefeitura e iniciativa privada, acordo por
meio do qual a empresa se responsabilizou em financiar a construção da
arena (R$60.000.000,00).
Desde sua inauguração em 2012, o Parque dos Atletas atendeu à popu-
lação da região com diversas opções para o lazer e a prática de esportes.
Durante os Jogos Olímpicos, o parque foi utilizado como treinamento
e lazer dos atletas. O espaço possui 150 mil m² com capacidade para
85 mil espectadores. O parque foi financiado pelo Governo Municipal
(R$40.300.000,00).
No Plano Estratégico da Prefeitura do Rio de Janeiro 2013-2016 (CON-
SELHO DA CIDADE), o Governo apresentou algumas soluções para os

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 205
problemas infra estruturais da cidade, entre elas um plano para sanar o
extremo déficit no sistema de coleta e tratamento de esgoto. O projeto
incluía construção de rede de tratamento de esgotos, rede coletora de
esgoto, rede para drenagem pluvial e pavimentação de vias. O investi-
mento previsto para a região da Barra era de R$600.000.000,00. Con-
tudo, nos documentos e orçamentos apresentados pelo Governo Muni-
cipal a região recebeu apenas R$131.080.000,00, cerca de 20% do valor
estimado (APO, 2015b).
O BRT é um sistema de tráfego de ônibus através de vias estritamente
reservadas para o mesmo, que facilita o deslocamento e, consequente-
mente, acelera as viagens dos passageiros. Ao todo, foram projetados
cerca de 150 km de vias e 12 terminais de ônibus, divididos em 4 projetos
- a Transoeste, a Transcarioca, a Transolímpica e a Transbrasil (CIDA-
DEOLIMPICA).
A Transoeste possui 60 km de extensão e atende a região da Barra da
Tijuca, Santa Cruz e Campo Grande. A linha possui integração com a
linha 4 do metrô e atende a 216 mil passageiros diariamente. Seu custo
foi de R$114.430.000,00 financiados pelo Governo Municipal (APO,
2015a; APO, 2016). A Transcarioca possui 39 km de extensão, os quais
ligam a Barra da Tijuca à Ilha do Governador, estima-se que a linha
atenda a 234 mil passageiros por dia. O custo da obra não foi divulgado
oficialmente pelo governo carioca, mas em seu Plano Estratégico 2013-
2016 consta uma estimativa de R$1.709.100.000,00.
A Transolímpica possui 26 km de extensão, os quais conectam a região
de Deodoro à Barra da Tijuca. As estimativas apontam que a Transolím-
pica atende a 70 mil passageiros por dia. Seus custos foram divididos
entre a iniciativa privada (R$ 479.240.000,00) e o Governo Municipal
(R$1.801.220.000,00) (APO, 2015a; APO, 2016; BOECKE, 2016). A Trans-
brasil não foi concluída - sua inauguração foi adiada para o final de 2017.
As obras haviam sido paralisadas durante as Olimpíadas e deveriam ter
sido retomadas em setembro, mas elas permanecem paralisadas. A linha
ligaria a região de Deodoro ao Aeroporto Santos Dumont, percorrendo
um total de 32 km. Com a conclusão do projeto, estima-se o benefício a
1 milhão de passageiros diariamente e seu custo, também estimado, é de
aproximadamente R$1.200.000.000,00 (RIOONWATCH).

206 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Os investimentos demonstram a participação da iniciativa privada
no custeio da organização do evento, em parceira com o Governo nas
três escalas. E ressaltam o contexto do planejamento estratégico onde as
cidades necessitam competir pelo investimento de capital e pela atração
de novos negócios (SANCHEZ, 2004).

2. Marketing urbano
O marketing urbano é um instrumento de gestão administrativa muni-
cipal, o qual se utiliza de estratégias para destacar a sua “marca” em
relação à de seus “concorrentes”, tendo em vista as cidades como territó-
rios que competem entre si por moradores, turistas e empresas, ou seja,
uma competição entre cidades pela atração de recursos. É nesse quadro
que são inseridos os megaeventos.
Convém enfatizar a necessidade de realizar estas atuações [de marke-
ting] mediante produtos como, por exemplo: programa de constru-
ção de hotéis, campanhas promocionais mediante ofertas turísticas
integradas, projetos culturais, venda de imagem de cidade segura e/
ou atrativa, campanhas específicas de atração de investidores e con-
gressistas etc. (BORJA & CASTELLS apud VAINER, 2000a, p. 81).

Inseridos no contexto do planejamento estratégico, os eventos internacio-


nais têm o intuito de alavancar o desenvolvimento das transformações
físicas e econômicas no município, através do destaque na mídia global
por traz desses eventos. Visto isso, percebe-se que os meios de comunica-
ção também são um ponto importante para o marketing urbano.
(...) Os meios técnicos adotados são, contudo, diversos: cartilhas
escolares, vídeos promocionais, folders e releases publicitários, pro-
gramas e projetos institucionais de valorização da identidade da
cidade, artigos em periódicos nacionais e internacionais, páginas da
web, programas de rádio, matérias da imprensa local, material publi-
citário e novelas em televisão (Sanchez, 2004, p. 89).

Ressalta-se, ainda, o emprego das redes sociais entre as mídias de divul-


gação. A utilização em larga escala dos meios de comunicação serve,
portanto, para consolidar as novas simbologias construídas sobre as

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 207
mudanças arquitetônicas e urbanísticas da cidade, transformando-as
em uma comunicação simbólica da síntese local. Assim, foi possível per-
ceber, no decorrer dos últimos cinco anos, que o governo do Rio de
Janeiro publicou uma abundante quantidade de matérias no site CIDA-
DEOLÍMPICA e outras fontes oficiais, voltadas a criar e solidificar a ima-
gem do desenvolvimento do município em decorrência dos Jogos Olím-
picos de 2016.
Essa excessiva profusão de publicações tiveram como objetivo incor-
porar a imagem síntese em todas as camadas da sociedade, sejam elas do
mercado interno, nacional ou mesmo internacional.
Tanto o marketing urbano quanto o legado dos projetos olímpicos da
Barra da Tijuca foram totalmente direcionados à utilização das arenas
ao final do evento. O material apresenta os benefícios que as arenas,
sobretudo as do Parque Olímpico, poderão gerar à população e princi-
palmente aos atletas cariocas. Após a conclusão dos jogos, as Arenas 1,
2, o Velódromo, o Parque Aquático Maria Lenk e nove das dezesseis qua-
dras de tênis farão parte do Centro Olímpico de Treinamento (COT). A
Arena 3, será utilizada como um Ginásio Experimental Olímpico (GEO).
O Centro Olímpico de Esportes Aquáticos será desmontado e as estru-
turas formarão dois estádios aquáticos em outras localidades da cidade.
As estruturas da Arena do Futuro serão utilizadas para a construção de
quatro escolas municipais (CIDADEOLIMPICA; APO, 2016).
O marketing focou ainda nas propagandas do BRT, as quais afirmam
que as linhas do sistema agilizaram o deslocamento na urbe e também
apresentam o Rio de Janeiro como uma cidade mais integrada. Contudo,
as arenas e os BRTs não foram as únicas obras realizadas na Barra, então
por que as outras não foram oficialmente divulgadas pelo governo?
Onde estão as informações sobre a Vila dos Atletas, o Parque dos Atle-
tas, o Campo Olímpico de Golfe e o Riocentro? E quanto aos 1,18 milhões
de metros quadrados do Parque Olímpico? E suas outras instalações - o
IBC, o MPC e o Hotel?
A pesquisa de campo demonstrou que na área do Parque Olímpico,
a Prefeitura transferiu os direitos de uso e exploração de 75% da área
total do parque à iniciativa privada. Os direitos sobre o Riocentro e a
Arena Olímpica (Arena HSBC) também foram passadas à iniciativa pri-

208 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
vada por um período de 30 anos. Os apartamentos da Vila serão comer-
cializados e os direitos de exploração são das empresas financiadoras
(CIDADEOLIMPICA; APO, 2016).
A empresa que financiou a construção do Campo de Golfe recebeu em
troca os direitos para a construção de 23 prédios no entorno do campo,
mesmo sendo área de proteção ambiental. Quanto ao Campo de Golfe,
este foi aberto ao público, mediante pagamento de taxa e a administra-
ção do empreendimento é realizada pela mesma empresa financiadora.
Conclui-se que a estratégia de marketing urbano referente ao legado
dos projetos olímpicos na Barra da Tijuca teve o intuito de criar e divul-
gar novos “brands” e simbologias que vinculem o município ás imagens
de “cidade global”, sobretudo as que criam o “patriotismo de massas”, de
maneira a minimizar os questionamentos e insatisfações das massas.
Verificou-se ainda que os materiais de marketing urbano liberados
pelo governo respondem apenas a parte dos questionamentos referentes
aos gastos públicos com o megaevento, pelo menos aqueles que são cla-
ramente um benefício para a população ou parte dela. Enquanto isso, as
informações referentes aos legados que foram privatizados ou que irão
garantir lucro para empresas privadas, foram omitidas em seu discurso.
Desta forma, o governo espera que a população se concentre nas
informações passadas e se esqueça de questionar quanto às informações
que não foram divulgadas.
Ficou evidente também que estas não foram as únicas informa-
ções omitidas na capital carioca. Os prejuízos gerados pelo evento não
foram comentados em qualquer discurso ou material apresentado pelo
governo. Todas as adversidades sofridas pelos moradores do Rio de
Janeiro, em decorrência das alterações estratégicas nos últimos anos,
principalmente as remoções forçadas, foram, mais uma vez, suprimidas
do discurso governamental.
Durante todo este processo de transformações que a urbe carioca pas-
sou nos últimos anos, cerca de 77mil pessoas foram desapropriadas para
instalação dos projetos olímpicos (RIOONWATCH), a saúde teve a sua
maior crise em anos, a educação teve seus investimentos cortados e alunos
inconformados protestaram, funcionários públicos e aposentados deixa-
ram de receber seus salários, todas estas são leituras negativas à imagem
da cidade, as quais foram sumariamente escondidas da mídia nacional.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 209
Baseado em todas estas informações, suscitou-se as seguintes ques-
tões: qual ou quais serão os reais legados do evento Olímpico para o Rio de
Janeiro? E quais parcelas da população foram efetivamente beneficiadas?

3. Real Legado Olímpico


O maior legado para a Barra da Tijuca refere-se ao quesito de mobilidade
urbana. A região foi o ponto focal da implantação de todo o sistema de
BRT - as três linhas do sistema atravessam o distrito, além das reformas e
ampliações no sistema rodoviário e a nova linha de metrô, as quais facili-
taram e agilizaram o acesso a Barra da Tijuca, anteriormente uma das
regiões que mais sofriam com problemas de tráfego no Rio de Janeiro.
Desde sua inauguração em 2012, o Parque dos Atletas atendeu à popu-
lação da região com diversas opções para o lazer, prática de esportes e
eventos. Contudo, o parque foi fechado no final de 2015 para receber estru-
turas temporárias dos Jogos Olímpicos e até o momento a desmontagem
das estruturas permanecem inacabadas e o parque permanece fechado.
Apesar da Barra da Tijuca ser uma região consolidada há algumas
décadas, o distrito sempre careceu de infraestrutura urbana, princi-
palmente o que se refere ao tratamento de água potável e esgoto para
suportar a demanda populacional. Sendo assim, a ampliação da rede de
saneamento era indispensável à região, afinal, a densidade populacional
continua a aumentar. Contudo, o investimento em infraestrutura mal
chegou a 20% do proposto no Plano Estratégico da Prefeitura do Rio de
Janeiro, ou seja, a infraestrutura ainda permanece insuficiente para a
demanda local.
Como previsto, algumas arenas do Parque Olímpico, apesar de aban-
donadas atualmente, serão utilizadas futuramente pelos atletas de alta
performance como novos locais de treinamento e sedes para campeona-
tos. Enquanto outras serão desmontadas e utilizadas para construção de
escolas e piscinas públicas.
Por outro lado, o Centro de Convenções Riocentro, a Vila dos Atletas,
o Campo Olímpico de Golfe e parte do Parque Olímpico são projetos
que irão beneficiar o setor privado, ou seja, o legado destes projetos será
explorado pelas empresas que ajudaram a financiá-los. Até o presente
momento nenhuma das propostas destas empresas trouxeram benefí-
cios relevantes para a população local.

210 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A análise do real legado dos projetos olímpicos na Barra da Tijuca
demonstrou que eles podem ser divididos em três categorias de acordo
com a parcela da população que foi beneficiada. A primeira contem-
pla os projetos que beneficiaram a população em geral, ou pelo menos
aquela parcela que frequenta a região. A segunda abrange os esportis-
tas, os quais foram favorecidos com novos centros de treinamento. Por
fim, têm-se as empresas do setor privado, as quais financiaram parte do
evento e, portanto, possuem os direitos de uso/exploração dos lucros de
parte destas instalações.

Conclusão
Nos últimos anos, a Barra da Tijuca tornou-se um dos principais bairros
do Rio de Janeiro, porém a falta de infraestrutura urbana, sobretudo
saneamento, tornou-se um problema evidente com a elevada densidade
populacional que aumenta gradativamente a cada ano. Apesar do inves-
timento, os dados não atingiram a meta de 20% do proposto no Plano
Estratégico 2013-2016.
A pesquisa evidenciou que o real legado olímpico na Barra da Tijuca
é diferente do anunciado pelo Governo em seus materiais de marketing.
Enquanto as rasas informações divulgadas no material de marketing dos
projetos na Barra têm o intuito de diminuir e apagar possíveis leituras e
questionamentos negativos com relação ao megaevento, as informações
quanto aos projetos que beneficiavam o setor privado ou que prejudica-
vam outras parcelas da população foram omitidas pelo governo.
Verificou-se que as melhorias em mobilidade urbana, apesar de
questionáveis quanto ao trajeto, aos custos, as regiões beneficiadas e a
especulação imobiliária, constituem o maior legado olímpico para o Rio
de Janeiro. Da mesma forma, houve legado na área de cultura, lazer e
requalificação urbana, apesar destes terem sidos menos significativos
para a região. Por outro lado, a maior parte do legado olímpico está
reservada ao setor privado e o futuro da Barra da Tijuca depende das
empresas que ajudaram a financiar o evento.
Enfim, enquanto o governo alega que as Olimpíadas deixarão um legado
positivo para o Rio de Janeiro, considera-se que a realização dos Jogos
Olímpicos de 2016 gerou grandes custos ao Rio de Janeiro e a nação. Os

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 211
altos custos do evento agravaram a economia brasileira já instável e
ainda potencializou a valorização fundiária direcionando os lucros do
megaevento às empresas que ajudaram a financiá-lo. Enquanto o povo
paga por estes “rombos” nos cofres públicos, com a falta de investimen-
tos na saúde e na educação, com a falência do Estado, com os atrasos nos
salários e aposentadorias e principalmente com as remoções forçadas,
uma pequena parcela da população, uma parcela financeiramente está-
vel poderá usufruir integralmente destes ambientes renovados pelas
transformações e o setor privado comemora com a expectativa de lucro
com o (seu) legado olímpico.

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 213
Cadê a indústria que estava aqui?
M A NUEL A C ATA FESTA
Doutoranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

Resumo
Que tipo de cidade o paulistano encontra quando olha pela janela de seu
apartamento e lança os olhos para a massa de edificações que se estende
até a linha do horizonte? São Paulo, a terra das oportunidades, o berço
da industrialização do país, a cidade que acolheu levas de imigrantes
do país e do mundo, chega ao século XXI à procura de uma nova identi-
dade. Nas últimas décadas, São Paulo viu boa parte de suas indústrias
migrar rumo a outras áreas mais atraentes do país e do interior
do Estado. Com seu alto custo de vida, trânsito congestionado, crimina-
lidade fora do controle, poderes públicos hostis aos negócios e todos
os demais problemas que desestimulam a produção, São Paulo e sua
região metropolitana foram, pouco a pouco, deixando de fazer sentido
para o investimento industrial - historicamente, o cerne do desenvolvi-
mento paulistano. Mas, se o esvaziamento industrial de São Paulo
parece ser inevitável, como a cidade irá sobreviver no futuro?

Palavras-Chave
Indústria; Planejamento Urbano; São Paulo.

214 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Que tipo de cidade o paulistano encontra quando olha pela janela de seu
apartamento? Lá do alto, o paulistano enxerga a cidade que, sozinha,
responde pelo maior PIB municipal do país. Ali está uma das cidades
com a renda per capita mais elevada do Brasil: cerca de 1.500 reais men-
sais, contra 1.000 reais da média nacional. Em 2011 seu PIB per capita foi
de R$ 39,7 mil, segundo dados do IBGE. É a décima segunda maior aglo-
meração urbana do planeta, com aproximadamente 20 milhões de habi-
tantes em sua área metropolitana. Visto de baixo e de perto, no entanto,
esse colosso exibe, cada vez mais, realidades que colocam um ponto
de interrogação sobre seu futuro.
São Paulo, a terra das oportunidades, o berço da industrialização
do país, a cidade que acolheu levas de imigrantes do país e do mundo,
chega ao século XXI à procura de uma nova identidade. Nas últimas
décadas, São Paulo viu boa parte de suas indústrias migrar rumo
a outras áreas mais atraentes do país e do interior do Estado. Com seu
alto custo de vida, trânsito congestionado, criminalidade fora do con-
trole, poderes públicos hostis aos negócios e todos os demais problemas
que desestimulam a produção, São Paulo e sua região metropolitana
foram, pouco a pouco, deixando de fazer sentido para o investimento
industrial. A partir da abertura econômica, no início da década de 1990,
as ineficiências de São Paulo ficaram expostas, no momento em que
o país acordou para o mundo da competição globalizada.
Nenhuma cidade brasileira sofreu tanto como a capital paulista
os efeitos daquilo que os economistas chamam de reestruturação pro-
dutiva - mudanças que vem sacudindo o modo de operar das empresas
brasileiras diante do avanço da tecnologia e da busca da sobrevivência
nesse novo ambiente de competição. Um bom retrato do esvaziamento
industrial vivido pela capital paulista pode ser visto desde a Barra
Funda, na Zona Oeste da cidade, passando pelo centro e pelos anti-
gos bairros industriais da Mooca, Brás, Belém e Ipiranga, em direção
à região do ABC Paulista. Ao longo desse corredor, o que se tem hoje
é uma área necrosada. Ali, no lugar das antigas chaminés, estão fábricas
e galpões industriais caindo aos pedaços.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 215
As dores provocadas pela perda de indústrias de São Paulo,
com as atuais levas recordes de desempregados nas ruas, são apenas um
dos desafios à frente dessa cidade em transição da era industrial para
algo que ainda não se sabe direito o que é. Vários outros problemas,
como a deterioração social, a degradação do espaço urbano e a violência
crescente, estão aí há algum tempo, sem que as autoridades encarrega-
das de pensar estrategicamente a cidade consigam produzir o menor
sinal de que tenham alguma consciência real da situação - e muito
menos alguma ideia ou plano a respeito.
E a indústria? Foi-se o tempo. Os paulistanos viram as maiores
montadoras de carros do mundo anunciar, uma após a outra, planos
de investir bilhões de dólares na construção de novas fábricas no Bra-
sil. Várias cidades foram contempladas, mas São Paulo nada levou.
Diante da nova lógica econômica, que impõe às empresas o desafio de
ser cada vez mais eficientes, elas vão se instalar no local que lhes oferece
os menores custos de produção e as maiores possibilidades de eficiência.
O que é melhor: construir uma fábrica no ABC paulista ou levá-la
para cidades do interior paulista e de outros estados, onde a qualidade
de vida é melhor, o custo do terreno é, significativamente, mais baixo,
o trânsito é humano e a mão-de-obra é mais barata? Nessas cidades,
hoje em dia, há condições iguais ou melhores que em São Paulo em
itens-chave que até alguns anos atrás davam vantagem competitiva
à capital paulista: comunicações, energia, qualidade da mão-de-obra,
capacidade de atrair talento gerencial. Não é por outro motivo que
a vizinha Campinas, a 100 quilômetros da capital, está simplesmente
desbancando São Paulo da posição de maior polo industrial do Estado.
Hoje, cidades como Campinas e Sorocaba apresentam os pré-re-
quisitos necessários para oferecer às indústrias que ali se instalam, a
capacidade de produzir um produto de boa qualidade e preço adequado.
As cidades do interior de São Paulo são servidas por uma malha rodo-
viária superior a de qualquer outro estado brasileiro. Têm facilidade
de acesso a portos e uma rede de telecomunicações em expansão. Dis-
põem de escolas técnicas e centros de treinamento de mão-de-obra
e possuem excelentes universidades.

216 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Tudo isso acaba se refletindo numa realidade nova: São Paulo vem
perdendo moradores para outras cidades do país. Se nos anos 1970,
a cada dez habitantes da região metropolitana, seis eram imigrantes
do restante do país ou exterior, hoje essa razão é de três forasteiros para
cada dez moradores. Na verdade, a taxa de crescimento demográfico
vem caindo ao longo dos anos na capital paulista - despencou de 1,16%
na década de 1980 para apenas 0,76% na primeira década do século XXI.
São Paulo, em suma, parou de crescer, e sua população parece destinada
a estabilizar-se em torno dos 10 milhões de habitantes. Dados como
esses ajudam a compor o quadro do esvaziamento industrial da cidade.
Mas, se o esvaziamento industrial de São Paulo parece ser inevitável,
como a cidade irá sobreviver no futuro? Não é preciso ter bola de cristal
para perceber que a saída não inclui uma retomada da industrializa-
ção - pelo menos não da indústria pesada, que durante tanto tempo foi
a alma econômica da capital. Pelos investimentos que a cidade conti-
nua atraindo, vê-se claramente que a vocação de São Paulo mudou para
a área de prestação de serviços. Em 2016, esse setor, junto com o comér-
cio, foi responsável por 60,2% dos empregos existentes na cidade.
Já a indústria, reduziu sua participação para 18,6%, no mesmo ano,
segundo dados do IBGE.
Falta agora, para São Paulo, mapear e definir uma estratégia para
consolidar esse seu novo perfil. É justamente na intermediação finan-
ceira, nos serviços de consultoria, pesquisa, planejamento, marketing,
engenharia ou assistência legal, nas áreas de importação e exportação,
na produção e oferta de bens culturais, na construção civil, nas via-
gens de negócios, na promoção de feiras, seminários e conferências,
no comércio diferenciado, entre as diversas atividades que compõem
o perfil econômico das metrópoles modernas, que a capital paulista deve
focar a atenção para poder reencontrar o seu eixo.
Pense em Nova York, Londres ou Paris. Não existem, em nenhum
país desenvolvido, cidades do porte da capital paulista que continuem
a ser centros preponderantemente industriais. Se perderam a força de
suas chaminés, as metrópoles passaram a ser os pontos nodais da econo-
mia global. São centros de poder político, sedes de corporações transna-
cionais e de grandes empresas de comunicações, além de circuitos para

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 217
a difusão de cultura. Hoje, elas sobrevivem, e muito bem, dos serviços
que prestam às suas populações e aos milhões de turistas que atraem
a cada ano. É ali que estão os bancos, os advogados, os consultores,
os técnicos em informática, os designers, os teatros, os bons hospitais
e os melhores restaurantes. Enfim, tudo aquilo que permite às cidades
atender bem à sua população e prover o bom funcionamento das gran-
des empresas ali instaladas.
O que torna uma cidade global? A influência que essas cidades exer-
cem nos centros urbanos do próprio país e também em regiões de outros
países do mesmo e de outros continentes. Para ser eficientes, essas cida-
des globais têm de investir pesadamente em serviços de infraestrutura.
É preciso ter, por exemplo, um sistema de transporte público que torne
o trânsito viável e permita ligações razoavelmente rápidas entre seus
aeroportos e regiões centrais. Para facilitar a troca de informações com
o resto do mundo, é igualmente indispensável investir em itens como
centrais de telefonia móvel celular, cabeamento de fibras ópticas e ante-
nas para transmissão de dados via satélite. A qualidade de vida é funda-
mental. Segurança, ruas limpas e oportunidades para o lazer e o entre-
tenimento são traços comuns das cidades desenvolvidas.
Para se firmar de verdade como uma cidade de nível mundial,
São Paulo vai ter de percorrer um longo caminho. A consultoria A.T.Ke-
arney divulgou o ranking das cidades mais globalizadas do mundo.
A pesquisa leva em consideração cinco critérios, com pesos diferentes:
atividade empresarial (30%), capital humano (30%), fluxo de infor-
mações (15%), experiência cultural (15%) e influência política (10%).
São Paulo ocupa a 34º posição, perdendo inclusive, na América Latina,
para a capital portenha, que ocupa a 21º posição.
São Paulo é, sem dúvida, uma cidade ineficiente em muitos aspec-
tos, a começar pelo trânsito insano. Quarenta anos depois do início das
obras, São Paulo continua a ter a menor extensão de linhas de metrô
entre os grandes centros urbanos do mundo. São apenas 68 quilôme-
tros, contra 225 quilômetros, por exemplo, na Cidade do México, cujo
metrô data da mesma época. Em 1980, havia em São Paulo um carro
para cada grupo de cinco pessoas. Trinta e cinco anos mais tarde, já
são 2,2 habitantes para cada veículo, ocupando a 4º posição no ranking
das cidades brasileiras mais motorizadas.

218 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A capital paulista possui, porém, muitos dos atributos que distin-
guem uma cidade global de uma metrópole qualquer. A favor de São
Paulo contam vários pontos, entre os quais, a grandiosidade de sua eco-
nomia. Sua bolsa de valores é a maior da América Latina - movimenta
por ano cerca de 30% do PIB do país. São Paulo, o maior centro varejista
e atacadista do país, também acumula excelência nas áreas hospita-
lar, de publicidade e de design. O preparo técnico e intelectual de seus
moradores constitui outro trunfo valioso, numa época em que o capital
humano passou a ser decisivo para o sucesso de qualquer empresa.
Nenhuma região retrata melhor a metamorfose por que vem pas-
sando São Paulo do que uma extensa área situada na Zona Sul, junto
a uma das margens do Rio Pinheiros. Ali, onde até alguns anos atrás
havia terrenos vazios e galpões industriais desativados, surgem hotéis,
centros de convenção, supermercados e shopping centers. Prédios
comerciais de vidro e aço sucedem-se pelas avenidas Luiz Carlos Berrini
e das Nações Unidas (a Marginal do Rio Pinheiros) e por outras partes
da cidade, como a Avenida Faria Lima. Aqui e ali nas margens do Rio
Pinheiros ainda se veem algumas indústrias incrustadas em áreas
de grande valor imobiliário. Mais cedo ou mais tarde, porém, a tendên-
cia é mudarem-se para outras regiões menos valorizadas do interior
e de outras partes do país.
Qual a agenda básica para que São Paulo tenha chances reais como
uma metrópole pós-industrial? É preciso, em primeiro lugar, tratar
melhor seus habitantes e usuários eventuais. Para que São Paulo venha
a ser uma cidade mais atraente, capaz de convencer os homens e mulhe-
res de negócios que ali desembarcam a prolongarem sua estada até
o final da semana, é preciso devolver à população as ruas e praças
da cidade. Investimentos no metrô e em obras viárias estratégicas são
essenciais. Um passo importante para desafogar o trânsito de São Paulo
é o Rodoanel Metropolitano de São Paulo. Trata-se de um projeto, em
execução, que tem por objetivo tornar o trânsito da cidade de São Paulo
mais ágil, eliminando o tráfego pesado de cargas de passagem e fazendo
a ligação de todas as rodovias ao porto de Santos, por fora da mancha
urbana. Quando totalmente pronta, a rodovia que contorna a Região
Metropolitana num distanciamento de 20 a 30 Km do centro do municí-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 219
pio de São Paulo, terá uma extensão total de aproximadamente 180 km
e deixará a cidade mais livre para os transportes coletivo e individual.
Nova York é o um ótimo exemplo de uma cidade que conseguiu dar
a volta por cima, depois de passar anos a fio mergulhada no abandono
provocado pela perda de suas indústrias, degradação de seus espaços
públicos e grandes níveis de violência. Há cerca de 30 anos, a prefei-
tura estava falida, e a violência urbana afugentava os turistas e os negó-
cios. Em 2015, a cidade de Nova York recebeu o recorde de 58,3 milhões
de visitantes, o 6º ano consecutivo de recorde no turismo. Milagre?
Claro que não. A mudança só foi possível graças a uma ação conjunta
das autoridades locais com uma população inteiramente engajada
na tarefa de reconstruir a cidade. A política de tolerância zero contra
grandes crimes e pequenos delitos faz de Nova York hoje uma das cida-
des mais seguras dos Estados Unidos.
Assim como fez Nova York, São Paulo tem todas as condições
de investir na criação de indústrias limpas agrupadas em polos de alta
tecnologia, que vão ocupar o lugar de suas antigas chaminés. Se hoje
a mão-de-obra cara de seus trabalhadores constitui uma desvantagem,
no futuro pode ser uma vantagem. Afinal, é preciso haver gente qua-
lificada para lidar com as novas tecnologias que distinguem hoje uma
economia de primeira classe daquela mais atrasada. Mas, para que
São Paulo trilhe o mesmo caminho de Nova York, é preciso primeiro
criar uma consciência de que a real mina de ouro da cidade - onde se
produzirão riquezas, empregos, impostos, oportunidades, renda, con-
sumo - estará na excelência da estrutura de serviços que se conseguir
montar para ela. E isso somente pode ser feito criando e desenvolvendo
em São Paulo as condições para que os investimentos na sociedade
de serviços venham, se multipliquem e permaneçam na cidade.
São Paulo, infelizmente, corre o risco de perder tudo o que já foi cons-
truído se continuar crescendo aos trancos e barrancos, sem nenhuma
visão estratégica sobre seu futuro.

220 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
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222 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Come on baby light my fire, or how OMA’s
generic can still be iconic
RODR IGO TAVA R ES
Universidade de Coimbra, Portugal

Resumo
Esse artigo lida com a condição contemporânea de nossas cidades na era
global, trazendo à discussão a questão da arquitetura icônica no traba-
lho de Rem Koolhaas/OMA. Seguido por um crescente comportamento
de replicação por parte de práticas arquitetônicas desconhecidas, nossas
cidades tornaram-se o playground para a corrida ao Grande e à altura na
arquitetura. É inevitável ligar a crise financeira às falhas da condição
icônica na arquitetura, e esse é o questionamento da confrontação do
OMA: o fim do ¥€$ regime. O que aqui é argumentado é que a aborda-
gem projetual do OMA através da Simplicidade apenas reforça as condi-
ções icônicas da arquitetura na cidade contemporânea. Se nossa pers-
pectiva é a cidade metropolitana, o que é genérico como edifício e é
agora percebido como delirante como um objeto; é delirante, logo, gené-
rico em seu contexto urbano. Então, a estratégia subversiva do OMA
pode posteriormente se transformar em uma condição semelhante que
temos hoje: condição icônica 2.0

Palavras-Chave
Office for Metropolitan Architecture, arquitetura genérica, arquitetura
icônica, Rem Koolhaas, cidade contemporânea.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 223
Delirious [NY] Koolhaas
Pode-se afirmar que o trabalho arquitetônico de Rem Koolhaas, desde o
final dos anos oitenta, tem sido bastante influenciado pela sua produção
teórica desenvolvida no manifesto Delirious New York (Foster, 2002).
Essa noção se dá através do senso de complexidade nos seus projetos
arquitetônicos, em termos de espacialidades, tipologias e materiais.
Edificações como o Netherlands Dance Theatre, em Haia, o Kunsthal,
em Roterdã, ambos nos Países Baixos, refletem com facilidade a abor-
dagem dos conceitos de Lobotomia1, Cisma 2 , e a Cultura de Congestão3.
Além disso, desde então, e também depois da publicação do livro S, M,
L, XL - “um relatório extenso e incendiário da incorporação da cultura
de congestão mais a estatística, que aparentemente é imaginada como
sexy, no envolvimento teórico e prático do Koolhaas na arquitetura con-
temporânea” (Figueira, 2014a, 82) - Rem Koolhaas introduziu e revisitou
as ideias de Complexidade e de Grandeza - como se pode conferir na
Casa da Música, no Porto - extraídas da análise da cidade Nova York e
desenvolvidas como mais aptas para a cidade contemporânea, sob uma
condição metropolitana e de grandes fluxos.
Se após a fusão entre a mentalidade corporativa e o mercado de cul-
tura, potencializada durante os anos Reagan-Thatcher, a busca por um

1
Lobotomia é aqui compreendido como um fenômeno resultante da imprevisibilidade
programática, ou de uso, do interior dos edifícios em Nova York, descrito por Rem
Koolhaas, que relacionou essa transformação urbana com a operação neurocirúrgica.
Está expresso de forma bastante clara o posicionamento do Koolhaas em relação a esse
fenômeno: Nova York expõe-se como uma modernidade em transição; é pós-moderna.
2
Cisma, mais precisamente o cisma vertical, é a estratégia mais forte de articulação
e reorganização da edificação após os resultados da Lobotomia; explorando
sistematicamente “a desconexão deliberada entre os andares”. Essa desconexão, entre
interior e exterior, abre possibilidades para novas conexões experimentais no interior.
O seu foco é desenvolver o potencial cultural do arranha-céu, a cultura da congestão
entra em questão como agente central da instabilidade absorvida, e da atenção na
especificidade individual; novamente um reflexo de uma modernidade transitória;
pós-moderna.
3
Cultura de Congestão é resultado de um planejamento metafórico, de uma
visualização quase-utópica de um futuro planejado, distante das normatizações
tradicionais. É também um fenômeno sociocultural que se manifesta materialmente
no arranha-céu, e na capacidade deste de organizar uma diversidade de situações e
atrair usuários nesse conglomerado de funções e programas; “uma cidade dentro de
uma outra cidade. ”

224 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
lugar no buzz e a competição ganharam importância; pode-se afirmar
que a arquitetura respondeu a esse contexto sem nenhuma resistência
(Foster, 2002). A subjetivação da mercadoria através de produtos arqui-
tetônicos cada vez mais suscetíveis à flexibilidade pós-fordista, impul-
sionou a projetação contemporânea a assumir o papel de vingança capi-
talista ao pós-modernismo.
Essa sensibilidade pode ser atribuída ao trabalho do Koolhaas a
partir do momento no qual ele tomou uma posição estratégica entre o
modernismo europeu e o americano, como forma de deslocar-se de um
historicismo reacionário e ao mesmo tempo de um populismo comer-
cial; um dilema do fim dos anos setenta, “pós-modernismo triunfante
[…] liberdade do contexto [ou] historicismo em aumento […] contexto é
tudo” (Koolhaas, 1995, 518).
Com a constante contestação interna da nossa cidade paradoxal, a
fluidez baudelairiana justaposta ao caos rígido metropolitano direcio-
nou a arquitetura citadina a um modelo manhattanista de dissociação e
instabilidade. Uma receita para fugir do que veio a ser o comum do pro-
jeto arquitetônico pós-moderno. O manhattanismo foi a resposta dada
pelo Koolhaas a um pós-modernismo quase já petrificado.

Figura 01 | Casa da Música, no Porto. Fonte: Arquivo pessoal

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 225
Iconicidade, Simplicidade, Genérico
Após o onze de setembro os valores de congestão, atenção e receptivi-
dade, e espacialidades delirantes foram suspensas. O discurso pelo
manhattanismo tomou outro rumo, e o ego urbanístico, juntamente
com a cultura de diversidade do Koolhaas quase desapareceram no ar,
sob grande pressão. Agora mais do que nunca essas premissas necessita-
ram de defensores para delirar (Foster, 2002).
Apesar da premissa do trabalho arquitetônico produzido por Koolhaas
até 2006 foi muito inspirado pela complexidade da cidade contemporânea,
por outro lado ajudou a sucatar o espaço urbano metropolitano e levou
Rem Koolhaas/OMA à análise precoce, por parte do AMO/Rem Koolhaas,
sobre a produção arquitetônica do star-system, no qual ele participa e ao
mesmo tempo ataca com criticismo pesado. “Profundamente crítico da
arquitetura icônica” (Figueira, 2014a, 82), Koolhaas põe-se em um distan-
ciamento crítico e na posição de autocrítica, no deserto de ossos/junk.
Seguido por um comportamento crescente de cópia por parte de práti-
cas arquitetônicas pouco conhecidas, nossas cidades tornaram-se o play-
ground para a corrida à condição da grandeza e da altura na arquitetura.
Nesse cenário, o OMA questiona abertamente até quando essa condi-
ção vai impulsionar a prática arquitetônica. Se a Cidade Genérica ocorre
desde a expansão veloz das cidades chinesas e influenciam o resto do
mundo, uma abordagem genérica no projeto arquitetônico no OMA ini-
ciou-se desde o manifesto Simplicity. Ademais, é inevitável ligar a crise
da bolsa de valores com as falhas da condição icônica na arquitetura, e
esse é um dos principais questionamentos na confrontação do mani-
festo do OMA: o fim do ¥€$ regime.
A vocação por uma arquitetura genérica na qual performance e fun-
cionalidade assumem os papéis principais no projeto, um novo tipo de
simplicidade na qual elementos podem ser previsíveis e objetividade tem
mais importância que assinatura. Pode-se afirmar que na obra do Koo-
lhaas se sente “profundamente o ‘waning of affect4’ [no qual] qualquer
transcendência é substituída pela articulação de códigos [e] pela vertigem
das estatísticas” inata do OMA (Figueira, 2014ª, 85).

4
Conceito de Frederic Jameson em uma tradução, influenciada por um neo-Marxismo,
do pós-modernismo; em seu livro Postmodernism or, The Cultural Logic of Late
Capitalism, numa comparação específica entre as obras A Pair of Boots de Van Gogh, e
Diamond Dust Shoes de Andy Warhol.

226 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A intenção de usar expressivamente apenas ângulos a noventa graus
tem, desde então, guiado o trabalho arquitetônico do OMA. Essa pos-
tura projetual expressa, pois, uma certa emergência por um novo tipo de
planura e ausência de profundidade, culminando numa superficialidade
pós-modernista (Figueira 2014a). Projetos como para as Scott Towers,
em Singapura, ou o 111 First St., em Jersey City, são exemplos assertivos
dessa nova estética e estratégia ideológica por trás dos projetos recente
do OMA. A lista de exemplos continua ao longo do tempo e com isso a
atenção na arquitetura parece ser mais expressiva do que antes.
Na perspectiva do objeto arquitetônico a noção do genérico e da sim-
plicidade alcança seu ponto mais alto. Os projetos são sobretudo a acu-
mulação de elementos recombinados em edifícios diferentes. As estra-
tégias de colagem e o uso sem culpa de qualquer conceito e elemento de
arquitetura como um elemento em uma abordagem enciclopédica-siste-
mática projetual promoveu ainda mais as ideias do manifesto Simplicity
e criou uma nova presença do OMA no debate internacional e na prática
da arquitetura, diferenciando-se, em uma maneira subversiva, da prá-
tica arquitetônica do star-system.

Ainda delirante, logo genérico


O que é aqui argumentado é que a abordagem do Koolhaas/OMA através
da simplicidade apenas reforça as condições icônicas da arquitetura na
cidade contemporânea. Se o foco do objeto arquitetônico é colocado de
lado e o debate urbano é reintroduzido nas condições arquitetura recente,
pode-se argumentar que os exemplares do OMA de edifícios genéricos
são sobretudo ainda expressivamente agressivos em termos de forma, se
for tomado em consideração seus contexto do ambiente construído.
Por exemplo, o edifício Timmerhuis, em Roterdã, tem um apelo
icônico na pluralidade da arquitetura de Roterdã. Não apenas o Tim-
merhuis, mas o De Rotterdam, Norra Tornen, Torre Bicentenario, SSI
Towers, ou ainda o The Interlace, participam da corrida do Grande e da
altura em arquitetura. Em outras palavras, o manifesto Simplicity pode
ser percebido como uma inflexão na recente produção arquitetônica
do OMA que é mais atenta à situação econômica global do mercado de
construção, mas ao mesmo tempo é uma abordagem estética subversiva
na condição icônica da arquitetura.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 227
Figura 02 | Timmerhuis em contexto imediato. Fonte: Arquivo pessoal

Se primeiramente a arquitetura estava sob um impulso delirante de


complexidade que levou a acumular e criar um Junkspace, onde o que
era delirante é genérico e o genérico pode ser o novo delirante. Aparen-
temente, o impulso genérico em projeto arquitetônico não pode garantir
a exceção do aspecto de lixo pois, se nosso ponto de vista é o panorama
geral da cidade metropolitana, o que é genérico como edifício e é agora
percebido como delirante como um objeto; é completamente delirante,
portanto genérico em seu contexto urbano.

A diferença aqui em questão é, desde que os projetos recentes do OMA


tem premissas semelhantes de décadas anteriores, sua estratégia de sub-
versão pode posteriormente se transformar em uma condição semelhante
que temos hoje. Nesse sentido, teríamos uma condição icônica 2.0. O

228 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
questionamento pode ainda permanecer: estará ainda o OMA a produzir
arquitetura com o mesmo efeito Guggenheim por apenas trocar sua abor-
dagem para um resultado semiótico diferente, ou eles podem desconectar
eficazmente seus projetos dessa condição pós-moderna?

Conclusão
É possível distinguir uma grande diversidade no trabalho arquitetônico
do OMA especialmente depois da investigação teórica guiada por Rem
Koolhaas/AMO na Bienal de Arquitetura de Veneza em 2010 e 2014.
Questões sobre preservação e os elementos da arquitetura tornaram-se
centrais nos projetos e edifícios mais recentes.
Embora isso possa ser verdade, o trabalho arquitetônico do Rem Koo-
lhaas nesse sentido pode estar a alcançar novos níveis de modernidade,
mas ao mesmo tempo a expressar a produção mais latente de imagens
na arquitetura de hoje. Novamente, Rem Koolhaas coloca-se em uma
posição intermediária entre polos contraditórios, manobrando “em um
espaço que é muito extensivo, mas tenso: um imagina um lugar entre os
empresários de Nova York e os Construtivistas Russos como os polos de
uma excitante avant la lettre guerra fria” (Figueira, 2014a, 78).
Por exemplo, o Fondazione Prada, em Milão e o Il Fondaco dei Tedes-
chi, em Veneza, e o projeto para o KaDeWe, em Berlim, refletem uma
abordagem diferente que tem mostrado um trabalho arquitetônico mais
coerente, encarando a condição atual da cidade depois da construção
demasiada dos anos noventa e início dos anos dois mil.
Contudo, vale a pena dar uma atenção melhor ao trabalho do Rem Koo-
lhaas/OMA para compreender nossa condição geral da arquitetura na era
global, especialmente depois da crise financeira e de suas inflexões únicas
em sua prática. À primeira vista, sem dúvida, a diversidade da arquite-
tura do OMA tem sido mais complexa e refinada do que nunca depois
do envolvimento político do Koolhaas nas questões de preservação e da
arquitetura fora do sistema dominante de celebridades na arquitetura.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 229
Figura 03 | Fondazione Prada em Milão. Fonte: Arquivo pessoal

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 231
Conquistar a calçada: Bairro de Boa Esperança
– Seropédica, bairro caminhável?
SI VA BI A NCHI
DSc. Arquiteto

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ, Brasil

Resumo
Caminhar é um ato que vem desde a antiguidade e um dos meios
de transporte mais eficientes, se praticado em condições físicas e psico-
lógicas adequadas. Este trabalho apresenta parte da pesquisa sobre
a caminhabilidade no Bairro de Boa Esperança, em Seropédica, municí-
pio do Rio de Janeiro. O bairro tem um tecido urbano complexo, congre-
gando várias tipologias edilícias, pois foi formado, ao longo dos anos,
sem grande ordenamento. A problemática da mobilidade urbana foca
na locomoção diária de muitas pessoas, apontando para obstáculos que
precisam ser transpostos no deslocamento a pé. A discussão é relevante,
face ao aumento do número de veículos que disputam espaço com
pedestres ou mesmo tornam as cidades locais não transitáveis a pé.
Assim, estas apresentam-se como contrárias ao conceito de cidade sus-
tentável, onde o percurso a pé ou de bicicleta torna-se uma questão
de qualidade do habitar.

Palavras-Chave
Calçadas; mobilidade urbana; observação incorporada.

232 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
O andar é um ato que permite ao homem grande liberdade no ir e vir
e a calçada é a parte da via destinada a circulação de pedestres e quando
possível, à implantação de mobiliário, sinalização, vegetação e outros
(ABNT, 2004; CTB, 2015). O objetivo principal desta pesquisa1 é analisar
o espaço público conhecido como calçada, no bairro de Boa Esperança,
em Seropédica, RJ, tendo como estudo de caso a Rua José Túnula, local
de grande movimento de pessoas.
As calçadas possuem a função de assegurar aos cidadãos o direito
de transitar livremente, com conforto, autonomia e principalmente
segurança. É a porta de entrada das casas, onde ocorrem os encontros
com conhecidos e mesmo com desconhecidos, e por isso deve ser garan-
tido a todos circular em condições físicas e psicológicas adequadas.
Surge daí o termo “walkability” ou caminhabilidade que significa
o quanto uma área é apropriada e agradável para se caminhar.
O conceito então, está relacionado à qualidade de do espaço público
destinado á caminhada, para proporcionar a todos os grupos (portado-
res ou não portadores de deficiência) boas condições de acesso a todos
os locais da cidade (LINS, 2014).
A cidade contemporânea vem sofrendo cada vez mais com conges-
tionamentos frequentes, apesar do elevado custo dos combustíveis.
Este e outros fatores têm contribuído para que pessoas optem, cada
vez mais, pelo deslocamento a pé quando as distâncias são menores.
É importante pontuar que, ao sair de casa, todos os indivíduos usam
a calçada, seja para pegar condução, ir à padaria ou a qualquer outro
lugar. Assim, é imprescindível uma maior valorização e melhoria
das calçadas.
A partir do momento em que as pessoas optam pelo deslocamento
a pé, as pernas se tornam o veículo e as calçadas a estrada. Partindo
desse pensamento é vital que “as estradas” sigam devidamente as nor-
mas de projeto, estejam com bom estado de conservação e sejam confor-
táveis proporcionando assim a segurança de seus “passageiros”.

1
Este trabalho é parte do projeto de pesquisa PROIC da Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro e contou com a participação dos alunos Clara A. Rezende e Livia
Hygino.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 233
A importância das calçadas extrapola as questões discutidas acima,
pois de acordo com Jane Jacobs (2000), as calçadas desempenham tam-
bém papel fundamental para a manutenção de baixos índices de vio-
lência nas cidades. Se dizemos que uma cidade é insegura, estamos nos
referindo às calçadas. Jacobs (2000) elabora três condições para segu-
rança nas cidades, e uma delas é que nos passeios haja usuários transi-
tando constantemente. Ruas com maior movimentação de pessoas ten-
dem a ser mais seguras, pois as próprias pessoas acabam exercendo uma
vigilância natural, sendo consideradas os “olhos da rua”.
Neste sentido, a prefeitura de Seropédica elaborou um guia para pro-
jetos de espaços públicos em 2012, que não leva em conta a realidade
do município uma ves que dificilmente será aplicada. A pesquisa, ori-
gem deste artigo, compara o ambiente idealizado no projeto da pre-
feitura com o ambiente construído, e no decorrer do trabalho, foram
percebidas as dificuldades na realização de projetos em área já consoli-
dadas. Os estudos que respaldam este artigo inserem-se na perspectiva
do olhar ao habitante da cidade, nas narrativas que a relação pessoa-am-
biente vai edificando cotidianamente.

Caminhabilidade
A calçada ideal deve promover: acessibilidade (assegurando a mobili-
dade a todos os seus usuários), largura adequada (atendendo às dimen-
sões mínimas da faixa livre), fluidez (permitindo que os pedestres
andem com velocidade constante), continuidade (deve possuir piso
liso, horizontal e antiderrapante livre de obstáculos), segurança (asse-
gurar que os pedestres não tenham risco de quedas), espaço de sociali-
zação (deve oferecer espaços de encontros entre os pedestres), desenho
da paisagem (deve propiciar o conforto visual do usuário) (SMPDS –
Seropédica, 2012).
Com objetivo de se promover acessibilidade e segurança nas calça-
das, é necessário observar aspectos como: os tipos de pisos (devem ser
regulares, firmes, estáveis e antiderrapantes), as texturas (utilizadas em
conjunto com diferentes cores oferecem maior segurança e diferencia-
ção dos espaços, promovendo orientação espacial), área de implantação
de equipamentos e mobiliários urbanos, guias rebaixadas para pedes-
tres, guias rebaixadas para veículos, sinalização e comunicação (SMPDS
– Seropédica, 2012, pág.10).

234 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Incorporar estes conceitos à pesquisa é de importância ímpar, visto
que nos leva a uma reflexão sobre a necessidade das calçadas não serem
apenas um local onde se exerça o direito de ir e vir, é importante que elas
se tornem também um espaço de socialização, do encontro, onde as pes-
soas além de caminhar, também se sintam bem em estar. É necessário
que se lancem medidas para que a experiência do percurso seja sempre
agradável, ainda que as ruas não sejam amplas e arborizadas.
Tendo como referência o Projeto Calçada Acessível elaborado pela
Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento Sustentá-
vel (SMPDC) de Seropédica que incorpora a norma brasileira de aces-
sibilidade (NBR 9050) retirou-se alguns valores como base de análise.
O guia menciona que é fundamental a criação de espaços que atendam
a diversidade humana (figuras 01 e 02)

Figura 01 | Espaços necessários para circulação horizontal. Fonte: SMPDS

Figura 02 | Espaços necessários para circulação horizontal. Fonte: SMPDS

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 235
Essas medidas devem compor a parte livre da calçada, composta
por três faixas de utilização: a faixa livre (destinada exclusivamente
à circulação de pedestres), a faixa de serviço (destinada á colocação
de equipamentos urbanos) e a faixa de acesso (em frente ao imóvel)
(SMPDS – Seropédica, 2012:4), que somadas devem possuir uma largura
mínima de 2 metros.
Relacionando essas medidas as medidas obtidas no levantamento
de campo, foi possível perceber, que muitos trechos das calçadas em
estudo não dispõem das medidas mínimas para o atendimento univer-
sal, uma vez que existem, comprovadamente, muitos trechos com tama-
nhos bem abaixo do valor recomendável. Foi visto que, com as largu-
ras existentes atualmente, torna-se inviável a existência das três faixas
de utilização sugeridas pela Prefeitura em diversos trechos.

Seropédica – Bairro Boa Esperança


O município de Seropédica pertence a microrregião de Itaguaí e a Meso-
região Metropolitana do Rio de Janeiro. A Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro (UFRRJ) teve seu campus transferido para este muni-
cípio em 1948, às margens da antiga rodovia Rio-São Paulo (BR-465),
quando se inicia o desenvolvimento urbano de Seropédica. Universi-
dade determinou, durante muitas décadas, o desenvolvimento econô-
mico da região, estimulou o comércio, a construção de moradias
e a prestação de serviços para atender aos professores, técnicos adminis-
trativos e estudantes. Neste momento, Seropédica tornou-se um polo
de atração, ou mesmo cidade dormitório, para empresas que desejam
operar na área do porto de Itaguaí. A UFRRJ, a Pesagro e a Embrapa
continuam exercendo forte influência na economia local.
Como estudo de caso, foi escolhida toda a faixa da Rua José Túnula,
no Bairro de Boa Esperança sendo conhecida como Rua do Grêmio
(figura 03). Alguns fatores motivaram o estudo específico desta rua,
como o fato dela abrigar muitos alunos da UFRRJ e concentrar grande
quantidade de pessoas, atraídas por estabelecimentos comerciais
e alguns institucionais (nos quais predominam as igrejas protestantes),
além da Praça José Araújo Cabral.

236 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Apesar do grande movimento, a rua carece de calçamento adequado,
possuindo muitos desníveis ao longo do passeio, dificultando o per-
curso até mesmo de pessoas que não possuem mobilidade reduzida.
Alguns pedestres acabam transitando pela própria caixa de rolamento,
seja por se deparar com calçadas muito estreitas, desniveladas, com
arborização inadequada ou ainda, por carros estacionados ilegalmente.
Desta forma os pedestres ficam vulneráveis a diversos tipos de aciden-
tes. Com este estudo busca-se entender melhor a dinâmica da rua, para
que, com isso, possam ser propostas futuras soluções que melhorem
a qualidade de vida dos pedestres no espaço público.

Figura 03 | Mapas com delimitação e localização das áreas de estudo


Fonte: Desenho de Clara A. Rezende e Livia Hygino

Levantamento Espacial
Foi elaborado um levantamento espacial da área, traduzido em uma
série de diagramas, tendo como base a planta da prefeitura para o local.
Foi levado em consideração nesses mapas, além da área foco, uma área
de entorno e uma área de referência, cruciais para o melhor entendi-
mento da rua, uma vez que ela sofre influência direta das proximidades.
O uso predominante do solo é de residência unifamiliar, seguida
do uso comercial. Alguns desses estabelecimentos comerciais utilizam
o térreo das residências, surgindo o uso misto. Os lotes de uso institu-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 237
cional são a Secretaria Municipal de Seropédica e a Escola Municipal
Valtair Gabi. Existe uma elevada quantidade de lotes de uso religioso,
sendo todas da religião Protestante.
Quanto ao gabarito, as edificações residenciais têm, em quase sua
totalidade, entre 1 e 2 pavimentos, as que possuem mais pavimentos são
as igrejas, estabelecimentos mistos e comerciais.

Entrevistas - Resultados
Para melhor entendimento do uso das calçadas, foram feitas entrevistas
com moradores e/ou pessoas que a utilizam com frequência. Os estabe-
lecimentos mais procurados são: a farmácia, a academia, o pet shop,
o hortifrúti, o mercado, o restaurante, a bicicletaria, a ótica, as igrejas
e o bar do Mazinho. Também é colocado como fator de atração na rua as
repúblicas universitárias, que realizam festa para um público jovem
e principalmente universitários.
O principal problema apontado pelos respondentes é a falta de infra-
estrutura. Dizem se incomodar com a ausência de arborização, as cal-
çadas em desníveis, o pouco espaço (calçadas estreitas) e com pavimen-
tação irregular, a falta de equipamentos urbanos, a forte concentração
de pessoas na via carroçável (devido aos obstáculos que dificultam
a caminhada pela calçada), os buracos no asfalto e nas calçadas, a falta
de organização no trânsito, os carros estacionados indevidamente
e ainda, a iluminação precária ou insuficiente.
A maior parte dos entrevistados respondeu que se sentem seguros
apenas durante o dia. A noite quando o movimento é menor e a ilumina-
ção precária, o sentimento de insegurança e impotência perante amea-
ças externas aumenta. Alguns, entretanto, relataram que náo se sentem
seguros em momento algum.

As Calçadas: uma visão geral


Em Seropédica, não há padronização, por parte da prefeitura, da pavi-
mentação das calçadas, apesar do guia, ficando a cargo do morador
tanto a execução quanto a manutenção das calçadas na frente do lote.
Assim, elas não possuem fluidez, ficando cada uma conforme o gosto

238 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
do proprietário do lote o que as torna diferentes tanto em largura como
em material de acabamento. Esta falta de padronização e a má conserva-
ção são fatores que influenciam o transeunte de forma direta, por não
formarem um conjunto harmônico, agradável ao pedestre.
A ausência do pensar a calçada como um elemento urbano único,
com características uniformes e de acordo com a legislação de acessibi-
lidade as transformam em armadilhas para o pedestre.
Como a responsabilidade das calçadas não é assumida pelo poder
público ficando a cargo da população, dificilmente serão adotadas for-
mas adequadas de planejamento e execução. O morador desconhece
o que é determinado na cartilha, e muitas vezes também não dispõe
de capital para reformá-las.
Durante o trabalho de campo foi possível vivenciar os inúmeros pro-
blemas de infraestrutura urbana descritos pelos entrevistados e que
deixam os pedestres expostos a um perigo diário. Foi constatado que
as calçadas se encontram extremamente degradadas, com desníveis
e buracos que não permite a fluidez desejada. São encontrados também
vários obstáculos, inclusive com equipamento público. A maioria dos
trechos também não possue largura adequada, são irregulares e até
mesmo inexistentes.
Muitas calçadas encontram-se cobertas por entulho ou materiais
de construção obrigando as pessoas a se desviarem constantemente.
Outras são arborizadas de forma inadequada, com árvores que ocu-
pam todo o passeio e “expulsam” o transeunte para a via de veículos.
Em outras situações são os carros, estacionados ilegalmente, que impe-
dem o deslocamento seguro.
A própria caixa de rolamento se encontra danificada, com mui-
tos buracos ao longo de toda sua faixa. Isto faz com que os motoristas
tenham que se desviar, andando em “ziguezague”, colocando em perigo
os pedestres que caminham pela via. Também não há ciclovia, embora
muitas pessoas utilizem a bicicleta como seu meio de transporte, e aca-
bem fazenda da calçada seu local de circulação.
A falta de mobiliário urbano também é um problema recorrente.
Existem poucas lixeiras, a sinalização é insuficiente e a iluminação
pública precária, deixando os moradores inseguros ao transitar durante
a noite, quando o movimento é menor.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 239
As guias rebaixadas para pedestres só são encontradas na Praça José
Araújo Cabral. Assim, pode-se dizer que a rua não promove nenhuma
acessibilidade e nem mesmo segurança aos passantes, pois eles estão
expostos a riscos de quedas e atropelamentos diariamente. A experiên-
cia do percurso na rua não é nem um pouco agradável, pois não propicia
conforto visual ao usuário, nem mesmo o conforto físico.
É importante ressaltar que todas essas circunstâncias presenciadas
nas calçadas da Rua José Túnula são consideradas, pelo Guia de Aces-
sibilidade de Seropédica, situações erradas e que devem ser evitadas.

Levantamento Físico
Durante o desenrolar da pesquisa foram realizados levantamento nas
calçadas da Rua José Tunula para verificar as reais medidas da calçada
em estudo, compará-las às medidas que constam na planta cadastral
obtida nos órgãos reguladores, confrontando-os. As alunas Clara A.
Rezende e Livia Hygino subdividiram a calçada em 4 trechos para
melhor representação gráfica.

trecho 01
Nota-se neste trecho (figura 04) a presença de calçadas bem estreitas,
com alguns segmentos inferiores a 1 m de largura e bastante irregulares.

Trecho 02
Nesta área (figura 05) os segmentos da calçada se apresentam com lar-
guras superiores ao trecho 1, com medidas entre 1,67 m a 3,97 m.

Trecho 03
Neste trecho não foi possível averiguar as medidas da planta cadastral,
pois o desenho fornecido pela Prefeitura encontra-se errado (o limite do
lote está ultrapassando a linha da calçada). Seus tamanhos reais variam
entre 1,20 m a 2,65 m.

Trecho 04
No lado esquerdo da rua as medidas fornecidas pela prefeitura não pude-
ram ser apuradas devido ao mesmo problema do trecho 03. As calçadas
continuam bem irregulares, e com dimensões entre 1,25 m a 2,32 m.

240 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Figura 04 | Levantamento de medidas trecho 1
Fonte: Desenho de Clara A. Rezende e Livia Hygino

Figura 05 | Levantamento de medidas trecho 2


Fonte: Desenho de Clara A. Rezende e Livia Hygino

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 241
Figura 06 | Levantamento de medidas trecho 4
Fonte: Desenho de Clara A. Rezende e Livia Hygino

Levantamento de materiais e texturas


Ainda de acordo com o Projeto Calçada Acessível, os pisos das calçadas
e passeios devem ser regulares, firmes, estáveis e antiderrapantes sob
qualquer condição climática, além de serem resistentes. É desejável
a utilização de diferentes tipos de cores, texturas e sinalizações com
propósito de gerar maior autonomia e segurança ao deficiente visual
e pessoas com visão reduzida; além de promover harmonia com
o ambiente. A cartilha sugere diversas opções de materiais assim como
suas formas de execução. Os materiais recomendados são: o ladrilho
hidráulico, o piso intertravado, o concreto convencional moldado
in loco, o concreto estampado e as placas pré-moldadas de concreto.
Ao caminhar pela rua, percebe-se que os materiais existentes
nos passeios são contrários ao que é especificado na cartilha. Predo-
minam materiais como o concreto convencional em péssimo estado
de conservação. Também estão presentes, com menos frequência, pedra
como paralelepípedo e/ou pedra portuguesa e ardósia, materiais não
recomendados por causarem trepidações e, sendo mal colocadas, estão

242 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
sujeitas a soltarem dificultando o ir e vir de quem se desloca em cadeira
de rodas, com carrinhos de bebe ou mesmo o caminhante. Revesti-
mentos cerâmicos lisos também são encontrados e, da mesma maneira,
não são indicados.

Considerações Finais
As calçadas da Rua José Túnula, no Bairro de Boa Esperança, possuem
baixos índices de caminhabilidade (walkability). Esta situação acontece
por: desde a falta de interesse do poder público até a falta de respeito
do povo perante o espaço coletivo. Todas as partes envolvidas têm sua
parcela de culpa na situação precária do local.
Apesar do Município possuir um Guia de Calçada Acessível, de nada
adianta o material ter sido elaborado e não ser aplicado. Durante a pes-
quisa esse guia serviu de base e foi sendo destrinchado aos poucos e foi
percebido que o espaço construído e o espaço proposto pela cartilha,
são antagônicos. Não há espaço suficiente para serem adotadas todas
as recomendações do guia.
Ter uma cartilha dessas é um pontapé inicial, porém ainda há um
longo caminho a ser percorrido. Talvez o Guia de Calçada Acessível
possua ares utópicos para uma cidade que ainda carece de problemas
tão básicos. Esmiuçar esse material fornecido pela Prefeitura e começar
a pensar o que de fato pode ter aplicação real na cidade e o que é inviá-
vel, quiçá possa ser um bom primeiro passo a se tomar.
Apesar das dificuldades em modificar um ambiente já construído
e consolidado, é possível sim reconstruir o espaço público de maneira
planejada. Ainda que muitas vezes não possa ser construído o ideal,
o desafio da arquitetura e do urbanismo é construir, dentro das possibi-
lidades apresentadas, um ambiente que possa atender da melhor forma
possível a todos os grupos da sociedade, desde pessoas com condições
motoras plenas, até crianças, gestantes, cadeirantes, idosos e pessoas
com alguma deficiência. Afinal o arquiteto e urbanista é o profissional
competente para desvendar um constante quebra cabeça.
Tornar o espaço público um ambiente agradável e salubre para
todas as idades e para todos os grupos é um dever da Prefeitura. Cami-
nhar em segurança e com autonomia dentro do espaço público, é um
direito de todos.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 243
Referências Bibliográficas
ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas – NBR 9050 de 2004.
BIANCHI, Siva Alves. A ambiência das calçadas em Botafogo-Rj.
São Paulo, 2015.
CTB – Código Brasieliro de Trânsito. Governo Federal do Brasil, 2015.
JACOBS, Jane. Morte e vida das cidades. Martins Fontes, 2000.
LINS, Alane N. J. Mandel Lins. Walkability no município do Recife. Soluções
para efetivar a adequação das calçadas à norma técnica. Instituto de Pós
Graduação – IPOG, Recife, 2014.
SECRETARIA MUNICIPAL DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO SUS-
TENTÁVEL. Projeto Calçada Acessível: Guia para projetos de espaços
públicos. Seropédica,2012.
URBE.ME. A cidade sustentável passa pelo conceito de walkability. Dispo-
nível em: <. http://urbe.me/lab/?p=119 >. Acesso em: 08 de junho. 2016.

Sites
http://portal.detran.ce.gov.br/index.php/glossario
http://www.inmet.gov.br/

244 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Conservação integrada e planejamento
estratégico na manutenção da paisagem cultural:
o caso de Areias no Vale do Paraíba paulista
DA NIEL V ILHENA
Escola de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal Fluminense (UFF)

Resumo
Com o processo acelerado de expansão urbana nas cidades brasileiras,
sem uma discussão consistente sobre o planejamento urbano em sítios
históricos, diversas paisagens culturais vem sofrendo um processo de
descaracterização e ruptura com os seus componentes formadores. Este
processo pode ser percebido nas cidades do Vale do Rio Paraíba do Sul
no estado de São Paulo, onde a falta de atividade econômica e a falta de
recursos da municipalidade criam um ambiente de risco à manutenção
da paisagem cultural, relacionada em grande parte à expansão da cul-
tura do Café no território paulista.
Portanto, a questão que se coloca é como lidar com a dinâmica de trans-
formações das cidades, sem que se estabeleçam conflitos sociais, impe-
dindo a destruição das heranças do passado e dos sistemas ecológicos.
Com o objetivo de preservar o ambiente cultural, os órgãos de patrimô-
nio tem atuado com o acompanhamento dos bens de valor cultural.
Entretanto, a adoção de procedimentos jurídicos e administrativos, den-
tre os quais o tombamento, não são suficientes para a manutenção efe-
tiva dos sítios históricos brasileiros Em respostas a essas questões, pro-
põe-se a adoção de um modelo de planejamento urbano e territorial,
apoiado no conceito de conservação integrada apresentado pela declara-
ção de Amsterdã de 1975.

Palavras-Chave
Paisagem Cultural; conservação integrada; planejamento estratégico;
patrimônio; preservação
Cidade e Patrimônio
Os primeiros trabalhos que retratam a cidade em sua estrutura espacial e
histórica começaram a ser produzidos na segunda metade do século XIX,
num movimento impulsionado fortemente pelo processo de intensas
transformações do território devido às grandes reformas urbanas nas
principais cidades europeias. Desta forma, as cidades “pré-industriais”
tornaram-se objetos de estudos e aprofundamento teórico, por contraste
aos novos modelos de planejamento propostos pela cidade industrial.
A partir da obra do italiano Gustavo Giovannoni a preservação das cida-
des históricas adquiriu maior consistência prática e conceitual, por meio de
uma atribuição simultânea do valor de uso e do valor museal aos conjun-
tos urbanos antigos. Desta forma, foi utilizado pela primeira vez o termo
“patrimônio urbano”, que não deveria ser objeto de uma disciplina autô-
noma, mas parte da teoria e dos conceitos discutidos dentro do urbanismo.
Estes conceitos apresentados por Giovannoni basearam-se,
segundo Choay (2001), na constatação de que as cidades industriais
têm como característica atender à vocação para o movimento e para
a comunicação por todos os meios. Diante deste movimento e trân-
sito ininterrupto, Giovannoni percebe a possibilidade de um esgota-
mento do modelo de cidade densa e centralizada, dando origem a uma
nova forma de agregação urbana, dispersa pelo território. Este pro-
cesso marcaria o fim do desenvolvimento urbano, que ele chamou de
“antiurbanização”.
Baseando-se no raciocínio da dualidade do comportamento
humano, descrito por Ildefons Cerdá como uma das diretrizes do pro-
cesso de urbanização: “O homem repousa, o homem se move” (CERDÁ
apud CHOAY, opus cit., p. 196). Desta forma, a cidade do movimento,
não atenderia às necessidades humanas, por não oferecerem pouso
seguro. Subsiste a necessidade de morar, de se reunir, de estabelecer
uma vida cotidiana na escala humana. Portanto, torna-se necessário
o estabelecimento de núcleos de convivência adequados à vida coti-
diana, que estavam presentes nas cidades da era pré-industrial.
Com a condição de que recebam o tratamento conveniente, isto é,
desde que neles não se implantem atividades incompatíveis com sua
morfologia, essas malhas urbanas antigas ganham dois novos privi-

246 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
légios: elas são, da mesma forma que os monumentos históricos, por-
tadoras de valores artísticos e históricos, bem como de valor pedagó-
gico e de estímulo [...] (CHOAY, 2001, p. 198)

Dentro deste contexto, Giovannoni inicia um conceito de conservação e


de restauração do patrimônio urbano, que segundo Choay (2001) pode
ser descrito por três princípios básicos:
a. Todo fragmento urbano antigo deve estar relacionado e integrado ao
planejamento urbano e territorial, em níveis local e regional, de
forma a relacioná-lo às demandas da vida presente. Desta forma, legi-
tima-se o seu valor de uso, do ponto de vista técnico e humano, com
a manutenção do caráter social da população;
b. O conceito de monumento histórico não deve estar restrito a edifí-
cios isolados, sem que se considere o contexto em que se insere, numa
dialética entre a “arquitetura maior” e o seu entorno. Isolar ou desta-
car um monumento ou edifício histórico equivale à “mutilá-lo”.
c. Os conjuntos urbanos antigos requerem a adoção de medidas e pro-
cedimentos de conservação e de restauração de forma análoga aos
que foram definidos por Camillo Boito para os monumentos arquite-
tônicos. Desta forma, seriam aceitáveis intervenções limitadas, a fim
de restituir ao conjunto suas características principais.

O Plano de Gestão Integrada


Como resposta às demandas do crescimento e das transformações urba-
nas, garantindo a manutenção das heranças do passado, apresenta-se o
planejamento estratégico, seguindo as diretrizes da conservação inte-
grada. BUARQUE (apud ZANCHETI, 2012, p. 93) define o planejamento
como “a ferramenta de trabalho utilizada para tomar decisões e organi-
zar as ações de forma lógica e racional, de modo a garantir a realização
dos objetivos de uma sociedade, com menores custos e prazos possíveis”.
O planejamento enquanto política pública, inserido num regime demo-
crático, deve seguir princípios gerais que o viabilizem e o legitimem,
dentre os quais a participação popular, o compromisso com as decisões
estabelecidas, a responsabilidade entre os agentes envolvidos e a inte-
gração entre as decisões tomadas e sua execução.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 247
Em se tratando do planejamento de sítios históricos, aos desafios
comuns é acrescida a gestão do patrimônio cultural, adequando-os,
quando possível, às necessidades atuais. Neste contexto, pretende-se
que o planejamento das cidades relacione os princípios do planeja-
mento estratégico, do desenvolvimento sustentável e da preservação do
patrimônio cultural, buscando alternativas viáveis e assertivas, mini-
mizando perdas sociais e das heranças do passado. Entretanto, é neces-
sária a implementação de ferramentas e instrumentos integrados ao pla-
nejamento urbano local, dentre as quais destaca-se o Plano de Gestão de
Sítios Históricos.
De acordo com PONTUAL (apud ZANCHETI, 2012, p. 97) o plano de
gestão consiste:
(...) num conjunto de ações e recursos técnicos, institucionais e finan-
ceiros, logicamente ordenados, objetivando uma mudança nos procedi-
mentos políticos, institucionais e administrativos, relativos a um con-
junto social, segundo um marco temporal e uma unidade territorial.

Seus principais objetivos são a manutenção da especificidade, da diver-


sidade e da autenticidade das tipologias arquitetônicas e da morfologia
urbana, e a preservação da ambiência e da paisagem cultural, numa
perspectiva de integrá-los às demandas contemporâneas de novos usos,
funções e atividades. Num contexto mais abrangente, visa, ainda, a
manutenção de práticas tradicionais, dos modos de fazer, dos ritos e fes-
tividades e expressões diversas que compõem o patrimônio imaterial
local. Deste modo, é possível prolongar a vida útil dos bens culturais,
valorizando suas características artísticas e históricas, mantendo sua
integridade e significância.
Uma vez que o Plano de Gestão se insere num contexto de trans-
formações urbanas, tendo como pressuposto o respeito às comunidades
locais e suas memórias, além do desenvolvimento sustentável, deve-se
buscar medidas viáveis, que possam ser implementadas ao longo do
tempo. Portanto, é necessária a montagem de uma estrutura organiza-
cional, que defina os parâmetros de negociação e de tomada de decisões;
a estruturação de uma equipe técnica multidisciplinar; a apresentação
de um plano de trabalho e a mobilização e a sensibilização dos agentes
envolvidos no planejamento.

248 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O estudo de caso: Areias, no Vale do Paraíba paulista
Areias é um município localizado no leste do estado de São Paulo, na
região administrativa do Vale do Paraíba e Litoral Norte, próximo à divisa
com os estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Assim como outros
municípios da região, possui um conjunto urbano e arquitetônico relacio-
nado ao ciclo do café, mas que tem sua origem da definição dos caminhos
por onde se escoava a produção aurífera da região de Minas Gerais.

O contexto histórico:
A cidade de Areias, assim como diversas cidades da região, teve seu iní-
cio no século XVIII, a partir do trajeto da Estrada Nova da Piedade, que
ligava o Rio de Janeiro à Estrada Velha, que levava a Vila Rica (Ouro
Preto). Com o esgotamento da exploração de metais e pedras preciosas
na região de Minas Gerais, as populações que trabalharam nos garimpos
e nas jazidas começaram a se espalhar pelo território da colônia em
busca de outras atividades econômicas, fixando-se nos antigos pontos
de parada das tropas que transportavam o ouro.
Em 1748 foi estabelecido o povoado batizado de Santana da Paraíba
Nova, formado por alguns casebres e pequenos armazéns comerciais à beira
da estrada. À medida que o núcleo urbano se desenvolvia, o povoado foi
elevado a freguesia, em 1784, com o mesmo nome e, anos mais tarde, ficou
conhecida como Santana das Areias. Por meio do Alvará de 28 de novembro
de 1816, foi criada a Vila de São Miguel das Areias, sendo a única localidade
paulista a ser elevada à condição de vila pelo príncipe regente D. João.
No início do século XIX, foi inserido o cultivo do café no Vale do
Paraíba Fluminense, expandindo-se em direção a São Paulo. Com o
desenvolvimento das lavouras, o Vale do Paraíba tornou-se a maior zona
de produção de café do mundo, tornando-se uma das regiões mais pros-
peras do país durante a primeira metade do século XIX. Os maiores pro-
dutores formaram a elite do Império, influenciando diretamente a vida
política do país. Durante a década de 1880, com o avanço da produção
de café pra o oeste paulista, facilitado pela construção da ferrovia San-
tos-Jundiaí, marcou o início do declínio da economia do café na região
do Vale do Paraíba. O enfraquecimento econômico da região foi apro-
fundado com o fim do sistema escravocrata em 1888. Areias e as outras

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 249
cidades da região mergulharam num estado de estagnação econômica,
que culminou com a emigração de parte da população para regiões de
cultivo mais prósperas.
Apesar da ausência de uma atividade econômica expressiva, até a
década de 1940 a cidade de Areias apresentava algum dinamismo devido
à sua posição estratégica entre as duas maiores cidades do país: Rio de
Janeiro e São Paulo. Areias situa-se no caminho da antiga rodovia Rio-
-São Paulo (atual Rodovia dos Tropeiros), que ligava as duas metrópoles.
Entretanto, com a construção da Rodovia Presidente Dutra (BR 116) em
1951, Areias foi retirada do eixo de circulação entre Rio de Janeiro e São
Paulo, entrando definitivamente no quadro de estagnação econômica
existente até os dias atuais.

Características da malha Urbana:


A malha urbana de Areias refletiu o processo de formação da cidade,
iniciada como pouso para as tropas que transportavam mercadorias
pelo Brasil colônia. Deste modo, a malha urbana desenvolveu-se ao
longo da estrada que constitui-se como eixo estruturador da rede. O
núcleo mais antigo da cidade apresenta uma conformação de ruas e qua-
dras que apresentam um traçado quase regular, com alguns desvios que
adequavam a malha ao relevo local.
O loteamento é característico do período colonial: lotes longos, com
uma testada estreita, onde os edifícios são implantados no alinhamento
das vias públicas e as paredes laterais sobre os limites do terreno. O
resultado é um conjunto de ruas de aspecto uniforme, com residências
de um ou dois pavimentos. Desta forma, existe uma relação de depen-
dência formal entre a rua e os edifícios. Como descreve REIS FILHO
(2014, p. 22) sobre o modelo de cidades coloniais: “A rua existia sempre
como um traço de união entre conjuntos de prédios e por eles era defi-
nida espacialmente”.
Desta forma, os edifícios, em geral não apresentam afastamentos
frontais ou laterais, à exceção dos mais recentes, construídos a partir
da década de 1940. Assim sendo, a “textura” urbana de Areias é bem
definida, com edifícios gabarito reduzido, sendo a Igreja Matriz o único
edifício com mais de 3 pavimentos. Existem alguns conjuntos de edifí-

250 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
cios com dois pavimentos, que se concentram ao longo da Rodovia dos
Tropeiros, em especial próximos à Igreja Matriz. Os demais edifícios da
malha original são térreos, com alguns poucos edifícios isolados com
dois pavimentos.

Valor arquitetônico e significância cultural do conjunto


urbano de Areias
Num quadro geral, o conjunto urbano de Areias apresenta alguns ele-
mentos representativos para a construção histórica da região. Ao longo
de seu processo de formação urbana, foram impressas as marcas dos
momentos econômicos e sociais por qual a região passou, mostrando de
maneira muito objetiva as marcas do passado. Desta forma a ambiência
cultural de Areias, formada por sua paisagem natural, pelo traçado
urbano, por seu conjunto arquitetônico, e pela dinâmica social e cultu-
ral de seus moradores, constitui-se como um testemunho vivo dos
modos de vida do períodos colonial e imperial, diretamente relaciona-
dos com o ciclo do café.
Do ponto de vista arquitetônico, Areias constitui-se num inventá-
rio de manifestações da cultura popular por meio dos seus edifícios.
Num contexto de valorização de edifícios monumentais, relacionados à
uma arquitetura erudita, a compreensão da cultura nacional e regional
encontra-se incompleta ou míope. Desta forma os saberes e modos de
fazer populares revelam-se com grande relevância na cultura brasileira,
com destaque para os modos de construir e habitar. Assim os edifícios
de Areias, com suas implantações, volumetrias, ritmos e técnicas cons-
trutivas, constituem-se numa marca da cultura brasileira, que devem
ser reconhecidos e valorizados.

Significância Cultural:
Define-se o conceito de Significância Cultural como o processo de vali-
dação de um objeto pela sociedade como elemento de construção de sua
memória e identidade coletiva. Uma vez reconhecidos estes significados
como representativos para a memória cultural da comunidade estabele-
ce-se um vínculo afetivo e simbólico entre os cidadão e os objetos.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 251
No caso de Areias, estes objetos são os edifícios e o espaço urbano da
cidade. Apesar das enormes dificuldades, é perceptível o esmero e a preo-
cupação na manutenção e conservação da maioria dos edifícios da cidade.
Apesar de não haver um conhecimento conceitual e técnico sobre os meios
de preservação e restauração, nota-se que a maior parte dos edifícios apre-
senta boas condições de conservação. Portanto, é possível afirmar que o
conjunto arquitetônico de Areias possui significados culturais para seus
moradores, ainda que este processo não seja claramente percebido.

Valores dos bens patrimoniais:


Uma vez que o conceito de valor é extremamente complexo, apresentando
diversos contextos e aspectos relevantes, torna-se impossível, neste traba-
lho, realizar uma atribuição de valor completa a este conjunto. Desta
forma, pretende-se comentar alguns pontos relevantes ao patrimônio cul-
tural, sem contudo atribuir valor ao conjunto. Nestes termos, indica-se
alguns prováveis valores para o conjunto urbano da cidade de Areias:
a. Valor histórico: refere-se ao percurso do tempo, com a revelação dos
modos de vida e as expressões das gerações passadas, relacionadas com
a evolução das atividades humanas. Areias apresenta este valor devido às
marcas das estruturas econômicas e culturais dos períodos colonial e
imperial, revelando os hábitos e costumes das sociedades destas épocas.
b. Valor cultural: está relacionado com o valor histórico, uma vez que a
história é culturalmente construída. Por meio do conhecimento do
passado é possível estabelecer uma identidade social, que se relaciona
com o presente e com o futuro. Desta forma os meios de se habitar e
construir o espaço caracteriza uma manifestação cultural em si, que
deve ser reconhecida e valorizada. Portanto as características constru-
tivas, espaciais, morfológicas e estilísticas dos edifícios de Areia repre-
sentam uma manifestação de valor cultural de sua comunidade. A esse
respeito, pode se apresentar como exemplo a pintura marcante dos
conjuntos arquitetônicos, ou ainda as molduras das janelas, caracterís-
ticas da região, e que se manifestam em edifícios de diversas épocas.
c. Valor simbólico: “pressupõe uma competência imaginária que se
exprime por uma capacidade de ver as coisas tais como elas não são”
(ZANCHETI, 2012, p. 48) Desta forma, os objetos são revestidos de sig-

252 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
nificados imateriais que os qualificam e caracterizam dentro do con-
texto cultural local. Deste ponto de vista, pode-se apontar em especial
as Igrejas, que transcendem o seu valor material e utilitário para reves-
tirem-se de um valor simbólico relacionado à religiosidade e à fé. Mais
do que marcos visuais e pontos de construção da paisagem, as igrejas
de Areias têm profunda relação com os hábitos e festividades religiosas
da cidade, estabelecendo vínculos de afetividade com os moradores.
d. Valor de uso: relaciona-se com o atendimento do patrimônio à
demandas práticas no presente. No caso de Areias, a cidade perma-
nece viva, com suas casa sendo habitadas, o comércio em funciona-
mento e seus templos abrigando os ritos religiosos, ainda que tenham
sido feitas alterações ou adaptações para o atendimento das ativida-
des contemporâneas.

O Plano de Gestão do Sítio Histórico de Areias


Considerando-se o plano de gestão como um “conjunto de ações e recur-
sos técnicos, institucionais e financeiros logicamente ordenados”
visando a conservação urbana numa visão de planejamento estratégico
do território. Assim, compreende-se o plano como um instrumento
urbanístico, que não deve ser desenvolvido de forma independente das
iniciativas de planejamento local, mas no cerne das discussões sobre o
desenvolvimento econômico e territorial da cidade.
Desta forma, o plano de conservação integrada do sítio histórico e
dos bens de interesse cultural no município de Areias, tem como prin-
cipais diretrizes:
a. O Plano de gestão do sítio histórico de Areias deve estar integrado ao
processo de planejamento urbano da cidade, trazendo ao poder
público municipal a responsabilidade de coordenação dos diferentes
agentes interessados na preservação do patrimônio cultural;
b. Perceber o patrimônio histórico de Areias como um conjunto, onde a
malha urbana, os edifícios históricos, a paisagem natural e as dinâ-
micas sociais cotidianas são partes fundamentais na criação de uma
ambiência a ser preservada;
c. Reconhecimento e valorização de edifícios de diversas épocas e esti-
los como objetos de preservação, na construção de uma trajetória de
ocupação e de construção urbana;

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 253
d. Observação das dinâmicas sócio econômicas do município, buscando
alternativas para viabilizar o plano de Gestão;
e. Participação da população local no sentido de reconhecer e valorizar
as memórias coletivas, suas demandas e os meios integração dos
entes particulares na conservação do patrimônio cultural.

Conclusão
O Brasil possui uma grande diversidade de conjuntos urbanos e arquite-
tônicos de interesse histórico e cultural, representativos para a constru-
ção da identidade cultural do país. Tendo em vista o grande desafio que
representa a sua manutenção e preservação, é necessária uma discussão
mais profunda sobre as políticas e instrumentos de proteção do patrimô-
nio cultural vigentes no país, a fim de torná-las mais efetivas e eficientes.
Com a constante evolução das abordagens relacionadas à própria
noção de historicidade, é possível perceber um avanço nas políticas de
preservação vigentes no país, ao longo de quase um século de construção
teórica e conceitual. Entretanto, este processo de aprimoramento deve
ser contínuo, sempre observando as possíveis transformações urbanas e
sociais, originadas pelo modo de vida contemporâneo.
Desta forma, a aplicação do planejamento estratégico e da conser-
vação integrada, apresentados pela Declaração de Amsterdã represen-
tam um avanço nas políticas preservacionistas, uma vez que integram
os núcleos históricos ao contexto político-administrativo das cidades,
facilitando sua proteção. Portanto, percebe-se uma tendência crescente
de descentralização das políticas de preservação, sob a responsabilida-
des dos governos regionais, por meio da valorização das culturas locais.
Neste contexto, o Plano de Gestão de Sítios Históricos apresenta-se
com um instrumento de planejamento viável, onde é são mobilizados
os diferentes entes relacionados à preservação do patrimônio cultural,
articulando-os dentro de uma metodologia única de trabalho. Com a
utilização de recursos tecnológicos disponíveis de geoprocessamento
e de produção de imagens, é possível refinar os instrumentos de aná-
lise, ampliando o seu alcance e precisão. Desta forma, identifica-se de
maneira mais objetiva e real as características dos bens culturais, per-
cebendo suas principais potencialidades e fragilidades do ponto de vista

254 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
técnico, histórico, social, ambiental e econômico. Assim, é possível esta-
belecer metas e objetivos claros, a serem realizados em prazos estabe-
lecidos, tendo total conhecimento e controle dos recursos disponíveis
para o planejamento.
Entretanto, percebe-se que é através da valorização e do fortaleci-
mento das culturas locais que se efetiva de maneira mais satisfatória a
preservação do patrimônio cultural, por meio da iniciativa popular. A
preservação do patrimônio, em todos os seus aspectos, deve ser compre-
endida como um processo de construção cultural, se deve ter em vista o
bem estar social, as práticas cidadãs e a valorização do direitos às cida-
des na construção do processo democrático.

Bibliografia:
CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. Tradução de Luciano Vieira
Machado. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
MIRANDA, Marcos P. de Souza. Lei do tombamento comentada: Doutrina,
jurisprudência e normas. Belo Horizonte: Del Rey,2014.
LACERDA, Norma; ZANCHETI, Sílvio Mendes (Org). Plano de Gestão da Con-
servação Urbana: Conceitos e Métodos. Olinda: CECI, 2012.
CURY, Isabelle (org.). Cartas Patrimoniais. Rio de Janeiro: IPHAN, 2000.
ZANCHETI, Sílvio Mendes; FURTADO, Ricardo Cavalcanti; PONTUAL, Virgí-
nia et al. Piranhas: Proposta de tombamento e plano de gestão. Recife:
Dantas da Silva Editor/ CHESF, 2003.
TIRAPELI, Percival. Arquitetura e urbanismo no Vale do Paraíba: do colo-
nial ao eclético. São Paulo: Editora Unesp/ Edições SESC, 2014.
NASCIMENTO, Guido Gilberto. Areias: Berço do café no Vale do paraíba
paulista. Lorena: [s.n.],2004.
REIS FILHO, Nestor Goulart. O quadro da arquitetura no Brasil. São Paulo:
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STEIN, S. J. Grandeza e decadência do café no Vale do Paraíba. São Paulo:
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INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (Brasil). Enciclo-
pédia dos municípios brasileiros. Rio de Janeiro: 1957. v. 28.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 255
Copacabana reinventada por Oscar Niemeyer:
outras modernidades
BRUNO T ROPI A C A LDA S
Doutorando e Mestre em Ciências em Arquitetura pelo Programa
de Pós-Graduação em Arquitetura da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor do Curso de Arquitetura
e Urbanismo da UNESA/Petrópolis.

Resumo
“Alta muralha desafiando o mar” – assim nos fora apresentada a Copaca-
bana de 1960 em crônica escrita por Rubem Braga (1913-1990). Das casas
de pescadores às torres geminadas fazendo sombra na praia, o icônico
bairro envelhecera precocemente na paisagem carioca, guardando em
seu alto índice demográfico, um ecletismo tardio, edifícios art déco,
construções protomodernas, arquiteturas modernas e pós-modernas
além de seus últimos casarões. Nesta configuração edificada, Oscar Nie-
meyer (1907-2012) exercitara em croquis alguns planos de remodelação
urbana para o bairro, que intimamente conhecera desde os veraneios da
infância até a plenitude vivida na cobertura do Edifício Ypiranga. Para
uma das propostas, inicialmente limitada ao quadrilátero conformado
pela Avenida Atlântica a leste, a Avenida Nossa Senhora de Copacabana
a oeste, além da Rua Francisco Sá ao sul e a Rua Souza Lima ao norte –
logo prolongada por todo arco à beira mar, propondo a demolição suces-
siva de quadra por quadra, ignorando o acumulo histórico-arquitetô-
nico, por vezes patrimonial. O artigo que ora se apresenta, intitulado
“Copacabana reinventada por Oscar Niemeyer: outras modernidades”
subtrai-se da tese em desenvolvimento “Hoje, o passado de Amanhã – A
arquitetura de Oscar Niemeyer em Sítios Históricos”.

Palavras-Chave
Oscar Niemeyer; Copacabana; Rio de Janeiro; Intervenções urbanas;
Patrimônio.

256 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
O escritor Rubem Braga (1913-1990) apresenta em famosa crônica “Ai de ti,
Copacabana!” um novo-velho bairro carioca já consumido em sua morfo-
logia urbana, vendo-o amuralhado diante do mar – assim alarmando:
Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar
qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão. E os escu-
ros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua
face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas
qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus mor-
ros; e todas as muralhas ruirão. (BRAGA: 1960 apud http://contobra-
sileiro.com.br – Acesso em janeiro de 2016).

A “Alta muralha desafiando o mar” (Ibid), constante na paisagem copa-


cabanense ressurge com cientificismo em “Os mundos de Copacabana”
através da publicação organizada pelo antropólogo Gilberto Cardoso
Alves Velho (1945-2012) intitulada “Antropologia Urbana: Cultura e
Sociedade no Brasil e em Portugal”, cujo olhar nos alcança à 1892 na
origem de Copacabana após abertura do chamado Túnel Velho “[...]
ligando-a a Botafogo nos albores da República.” (VELHO: 2012, p.11.)
através da seguinte atmosfera:
Anteriormente, sua ocupação era rarefeita, com população de pesca-
dores, algumas chácaras, casario esparso, uns poucos caminhos e ruas
precárias. Seu desenvolvimento foi, no entanto, rápido com a expan-
são da capital republicana. Novas ruas, obras públicas, ampliação das
linhas de bonde estimularam o crescimento demográfico com a multi-
plicação de áreas residenciais e de estabelecimentos comerciais. (Ibid).

Este rápido desenvolvimento atrelado a expansão urbana da então capi-


tal expusera-se vertiginosamente na primeira metade do século 20, con-
soante a Velho:
Já na década de 20, diversos edifícios foram erguidos ao lado do
casario [...]. Mas foi o surto imobiliário, ocorrido no Rio de Janeiro
a partir dos anos 40, que alterou drasticamente o panorama local.
Copacabana passou a ser um bairro de prédios, com o quase total
desaparecimento de outros tipos de habitação. Já em 1969, 98,8% das
moradias eram apartamentos (Ibid, p.12.)

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 257
Conforme se vê, os dados numéricos do antropólogo encontram a cidade
amuralhada do cronista numa pessimista realidade. Dando enfoque nas
transformações demográficas e urbano-arquitetônicas ocorridas no
bairro, as casas de pescadores, “[...] algumas chácaras, casario esparso
[...]” (Ibid, p.11) do final dos oitocentos deram lugar aos palacetes e casas
de veraneio do começo do século 20, guarnecidas pelo lendário Hotel
Copacabana Palace.
Já nas décadas de 1930 e 1940, logo então miscigenando o perfil social
dos moradores de Copacabana (dos empregados domésticos e pesca-
dores aos profissionais liberais, funcionários públicos, comerciantes e
empresários) surge para cumprir a tarefa demográfica, o edifício alto
e, consequentemente, o chamado edifício de apartamentos, acentuan-
do-os, em especial, através da arquitetura art déco – esta, ainda hoje,
preservada em mais de uma dúzia de exemplares: da Praça do Lido aos
sobreviventes da Avenida Atlântica.
O período seguinte, “[...] que vai do término da Segunda Grande
Guerra até o final dos anos 60 é de grande crescimento demográfico,
acompanhando o desenvolvimento físico-espacial” (Ibid, p.13.) – assim
acrescentado por Velho:
Sua população1 [do bairro] salta de meros 18 mil em 1920 para mais
de 160 mil em 1960, chegando perto de 250 mil em 1970. No governo
Juscelino Kubitschek (1956-61), período de acelerado crescimento e
desenvolvimento econômico nacionais, aparecem, em maior número,
prédios com pequenas unidades habitacionais. São apartamentos
de sala e quarto separados ou conjugados com áreas variando entre
cerca de 30 a 60 metros quadrados. Assim, temos um novo perfil de
edifício de apartamentos, com muitas dezenas e mesmo mais de uma
centena de residências, contrastando de modo vigoroso com a antiga
ocupação de casas e mesmo prédios com seis, oito ou dez unidades.
Aumentam, progressivamente, a altura e o número de apartamentos
nas construções. (Ibid. p.13).

1
Segundo Gilberto Velho, “[...] a população desce cerca de 250 mil habitantes em 1970
para 214 mil em 1980 e 170 mil em 1991, com projeção de 160 mil para 2000.” (VELHO:
2009, p.15.). Segundo o Censo 2010, Copacabana alcançara 146.392 mil habitantes.

258 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Desta maneira, já na segunda metade do século 20, Copacabana além do
expressivo contingente humano, exibia também um interessante acervo
arquitetônico; exemplificado por um lado, através dos edifícios protomo-
dernos oriundos, em sua maioria, através da especulação imobiliária e, por
outro lado, através de já clássicos destaques do construir e habitar moderno
– corroborando com o ensaio de Lucio Costa para o jornal Correio da Manhã
de 1951, intitulado: “Muita construção, alguma arquitetura e um milagre”.
Dentre anônimas construções apontaram também representan-
tes do modernismo carioca guarnecidos desde a década de 1970 pelo
super-graphics de autoria de Roberto Burle Marx (1909-1994) através do
seu Mar largo de pedras portuguesas – destacando: Álvaro Vital Brazil
(1909-1997); Firmino Saldanha (1906-1985); Francisco Bolonha (1923-
2006); Jacques Pilon (1905-1962); MMM Roberto; 2 Paulo Casé (1931); Sér-
gio Bernardes (1919-2002) e, dentre outros, Oscar Niemeyer (1907-2012).
Neste cenário, resumo do Brasil, a figuração de Niemeyer confundi-
ra-se com mutações da própria Copacabana, para o arquiteto, compa-
nheira desde os veraneios da infância.

A Copacabana de Oscar
Através do livro Crônicas editado pela Editora Revan em 2008 – por-
tanto, ainda no espírito das comemorações do centenário de Oscar Nie-
meyer, o arquiteto apresenta “Rio de Janeiro”, dividindo conosco um
sonho que tivera sobre (e em) Copacabana:
Hoje tive um sonho inesperado, tão lógico e fiel arquitetonicamente
que só um arquiteto poderia sonhar assim. Sonhei que o Rio se trans-
formara por completo: não era mais a Avenida Atlântica com seus
prédios de apartamentos a separar, como uma muralha, a cidade do
mar. Ao contrário, diante de mim, uma grande área arborizada a se
prolongar até a praia. Um ambiente fantástico como aquele que os
portugueses encontraram quando chegaram ao Brasil pela primeira
vez. Ainda em sonho, resolvi descer à rua para ver o que se passava.
(NIEMEYER: 2008, p.71.).

2
Com variações na formação dos projetos, através dos irmãos cariocas:
Marcelo (1908 - 1964), Milton (1914-1953) e Maurício Roberto (1921-1996).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 259
No começo deste sonho, o arquiteto parece situar-nos na geografia
carioca quando diz “resolvi descer à rua” (Ibid) remetendo-nos, talvez, a
cobertura nº.1001 do Edifício Ypiranga situada na Avenida Atlântica,
local em que trabalhou desde meados da década de 1950 até seu desapa-
recimento. Assim, Oscar nos insere em seu imaginário através de uma
janela-vitrine sobre as curvas e contracurvas do streamline modern da
década de 1930. E assim prossegue seu conto a partir desde possível
ponto de vista, agora ao rés-do-chão:
Por um dos caminhos de saibro penetrei nesse ambiente extraor-
dinário que me levaria até o mar. E entre árvores frondosas e altas
palmeiras, cercadas de uma vegetação exuberante, fui caminhando
devagar. Já não ouvia o barulho dos carros que antes nos incomo-
dava, substituído agora pelo canto dos pássaros, que à minha volta
voavam tranquilamente. Às vezes, era entre palmeiras imperiais3 que
eu andava; outras, protegido pelas enormes áreas de sombra que as
árvores maiores espalhavam pelo terreno. E foi a parar de vez em
quando diante de tanta beleza que cheguei à praia afinal. E de longe
fiquei a olhar a cidade agora tão diferente: as grandes áreas de aparta-
mentos que, urbanisticamente desorganizadas, escondiam parte das
montanhas do Rio, não mais se avistavam. Agora eram extensos blo-
cos, tão leves e bonitos que nas encostas pareciam pousar docemente.
Mas o sonho terminara. (Ibid.).

De volta à realidade, Oscar reocupara seu habitual ponto de vista nos


explicando seu também olhar de urbanista:
Curioso, fui até a janela, e senti que a realidade impunha mais uma
vez. Eram os altos edifícios de Copacabana, a rua cheia de carros,
e esse ambiente hostil e desumano das grandes cidades modernas.
É evidente que o Rio de Janeiro tão bonito, com suas montanhas a
marcarem o céu com as curvas mais inesperadas, ainda resiste a esse
crescimento urbano que ocorreu sem um plano geral definido, a se

3
Neste momento, Oscar Niemeyer comete um deslize histórico, visto que a espécie
de Palmeira Imperial (Roystonea oleracea – Palmae – ou Oreodoxa oleracea), também
chamada Palmeira-real é natural das Antilhas; tendo sido implantada no Brasil em
1809, com o primeiro exemplar, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

260 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
estender pelas praias, a atingir as encostas, em outra preocupação
que não a da especulação imobiliária, que o regime capitalista favo-
rece. Quando vejo uma foto do Rio antigo, agrada-me sentir que, na
simplicidade da sua arquitetura, ainda havia uma boa relação entre
os volumes e espaços vazios. Mas depois, com a construção de novos
prédios mais altos, aquele equilíbrio desapareceu – o espaço entre os
prédios perdeu a antiga escala e o novo urbanismo se desmereceu. É
claro que não pretendo cair no pessimismo, que desagrada aos cario-
cas e a mim próprio, orgulhosos desta cidade magnífica, para nós a
mais bela do mundo. (Ibid.).

A partir do sonho-oscárico4 logo nos transportamos ao arquiteto através


de uma reportagem de 1953 publicada pela Revista Manchete intitulada:
“Niemeyer destrói e reconstrói o Rio”. Nesta edição, Oscar apontara solu-
ções para o Rio de Janeiro que, segundo ele vinha “[...] sendo mutilado
sistematicamente pela nossa triste e consistente imprevidência.” (NIE-
MEYER apud MENDES: 1953, p.31.) – prosseguindo: “Esta cidade de extre-
mos, onde sobra gente e falta tudo, poderia ser uma terra incomparavel-
mente acolhedora, mais bela e mais confortável [...]” (ibid) logo expondo
soluções ao lado de croquis: “Suas praias [...] não ficariam confinadas
entre o mar e uma dura muralha de concreto. Ao contrário, elas se prolon-
gariam em parques e jardins, cuja beleza os grandes blocos de habitação
coletiva acentuariam com contraste geométrico de sua linha.” (Ibid.).
Compreendendo a totalidade urbana, Oscar também enfatizara seu
bairro dizendo “[...] não é exagero afirmar, hoje em dia, por exemplo,
que Copacabana está praticamente inabitável, por sua falta de conforto
e por seu excesso de população” (NIEMEYER op.cit. p.33.), explicitando
sua solução por meio de um croqui de uma possível reinvenção de Copa-
cabana, vendo-se então isolados edifícios sobre pilotis agora envolvidos
por espaços de apoio e lazer ao longo da orla.

4
Muitas vezes utilizada oscárica – “Esta expressão é de Darcy Ribeiro. Parecia uma
brincadeira, mas depois descobri [Ítalo Campofiorito] que ica é um sufixo tupi, e quando
Darcy usa oscárico no lugar de oscariano, por exemplo, ele está querendo usar a língua
do índio brasileiro.” (CAMPOFIORITO: 2012, p.27).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 261
Fig.01 |

Fig. 02 |

Anos depois, através de ensaio escrito pelo arquiteto Alberto Costa


Lopes vê-se em “Maravilhas urbanísticas para uma cidade maravilhosa”
vê-se um croqui apresentando torres cilíndricas monumentais sobre a
areia e ilhas artificiais com a legenda referindo-se a Oscar Niemeyer:
“Eis a Copacabana que imagino.” (LOPES: 1989, p.180.). Conquanto, tal
bibliografia perdera-se, ficando apenas o utópico desenho para a espe-
rança dos pesquisadores.

262 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig.03 |

Não obstante, na mesma Copacabana, o mesmo arquiteto realizara


diversos projetos5 e obras 6 – encontrando-se seguro inclusive, em uma
arquitetura da década de 1930, de onde dizia: “A gente se sente num
navio” (NIEMEYER apud CORRÊA: 1996, p.13.). Entretanto, nenhum
apego (individual ou coletivo) impediu-lhe de providenciar na segunda
metade do século 20, uma nova reinterpretação das propostas já avulta-
das nos anos anteriores.
Através de “Rio. Textos e croquis” escrito por Niemeyer em Paris, em
agosto de 1980, logo se vê na apresentação chamada “Esperança”, feita
pelo poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), assim dizendo:
“Oscar, recapitula a cidade de sua infância” (DRUMMOND apud NIE-
MEYER: 2008, p.5.) enquanto o arquiteto “[...] aponta caminhos, traz
soluções, olhar fugaz e alerta no futuro. [...].” (Ibid) em um “[...] Rio
novo-antigo de amanhã.” (ibid.).
Dentre muitos conflitos de sua cidade natal, o arquiteto dedicara-
-se novamente a Copacabana. Através do quadrilátero formado pela Av.
Atlântica, a leste; Av. Nossa Senhora de Copacabana, a oeste; além da
Rua Francisco Sá, ao sul e Rua Souza Lima, ao norte, Oscar Niemeyer
elucidara seu plano urbano:

5
À exemplo da ampliação imaginada para o Hotel Copacabana Palace (2001), ou mesmo,
o não concretizado hospital para o bairro (1966).
6
À exemplo da Unidade de Serviço do Comércio em Copacabana – SESC (1982)

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 263
Como a praia de Copacabana seria diferente! Minha idéia – que tive o
cuidado de testar com a colaboração de alguns estudantes de arquite-
tura, o que exigiria execução parcial, quadra por quadra sucessivamente.
Para [?] escolhemos a quadra situada entre as ruas Francisco Sá e Souza
Lima. Uma quadra como todas as outras, com blocos de apartamentos
na periferia, construídos junto às calçadas com pátios de serviço interno
e, como muitas, sem garagem. (NIEMEYER: 2008, pp.67, 70).

Na proposta de uma nova Copacabana, o urbanista Niemeyer expusera-se


radical, mas, sobretudo modernista – especialmente, quando vinculamo-
-lo aos preceitos estético-urbanos da Carta de Atenas de 1933, traduzidos
em especial, por meio dos edifícios altos erigidos em grandes distâncias
uns dos outros e, sobretudo, livres e acima de superfícies verdes.
Fiel a este pensamento moderno, Niemeyer em diversos momentos
de evidente papel de planejador urbano, demonstrara (embora sem a
aparente substituição de preexistências) estudos igualmente audaciosos
através dos seguintes projetos: cidade de Negev, em Israel (1964); cidade
de Argel, na Argélia (1968) e o Centro de Ócio e Congressos em Abu-
-Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos (1981). Já no Brasil, o destaque para
o Parque Tietê em São Paulo capital (1986).
Retomando o caso carioca, Oscar deparara-se com o horror vacui
de Copacabana, logo providenciando uma homeopática transformação
urbanística que se iniciaria na quadra desta e, seqüencialmente, expan-
dindo-se por toda a orla, assim dizendo:
Na solução que imaginei, essa quadra se transformaria num grande
jardim; no subsolo, garagem para 1000 carros; no térreo, 5 torres com
18 andares de apartamentos. Dessas torres, 3 compreendereriam os
35.000m2 correspondentes aos apartamentos atuais, ficando as 2 tor-
res restantes, algumas lojas, clube, etc, para facilitar o empreendi-
mento. Da av. Copacabana, passando entre as torres e os jardins, a
vista se estenderia até a av. Atlântica, como o calçadão ampliado, uma
vez que as vias mestras permitiriam transformar as pistas existentes
numa rua de passeio. O tráfego, que hoje separa Copacabana da praia,
passaria para as vias mestras, junto aos novos morros, e o bairro de
Copacabana estaria reintegrado na praia, livre dos acidentes e da

264 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
poluição. Construída a primeira quadra, a solução prosseguiria por
toda a praia, com suas torres elegantes, seus jardins tropicais, clubes,
restaurantes, etc. (NIEMEYER: 2008, pp.69-72).

De fato, apoiando-nos nos poucos croquis existentes vemos que, para o


quadrilátero inicial, o ex-nihilo e a tabula rasa substituíram a morfologia
tradicional.
Se buscarmos na historiografia urbana da Era Moderna semelhan-
tes casos de substituições de morfologia urbana, logo nos recordare-
mos das exemplificações parisienses aplicadas pelo Barão Haussmann
entre 1853-1870 até a proposta modernista de Le Corbusier através do
Plan Voisin entre 1922-1925. No Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro,
nos relembraremos das transfigurações agenciadas pelo então prefeito
Pereira Passos no curto intervalo de 1902-1906, logo alcançando a “[...]
bela fantasia [...]” (NIEMEYER: 2008, p.24) à bordo de avião, diante do
projeto realizado por Le Corbusier em 1929 através de “[...] uma imensa
auto-estrada que ligaria, a meia-altura, os dedos dos promontórios aber-
tos sobre o mar [...]” (LE CORBUSIER: 2004, p.235.).
No corolário de Oscar, Copacabana, anos após do edifício-estrada
do mestre suíço, ganharia vias mestras acolhidas nos morros da cidade
– reverberando Le Corbusier na “[...] já prevista idéia de que o sistema
viário deveria ficar junto aos morros, não cortando a ligação da cidade
com o mar.” (NIEMEYER. op.cit.) e ainda, não tão distante da proposta
do arquiteto Sérgio Bernardes (1919-2002) intitulada Anéis de Equilíbrio
por meio da famosa cota 100 para a história do urbanismo carioca.
Na paisagem desejada por Niemeyer, do Forte de Copacabana ao Forte
do Leme, toda uma trajetória de especulação imobiliária vivida na Avenida
Atlântica e entremeios do bairro, vanesceria. Inicialmente na quadra expe-
rimental, desapareceriam icônicos edifícios: do então remanescente Con-
sulado da Áustria ao luxuoso Ed. Costa Martins e a lendária Galeria Alaska.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 265
Fig.04. |

Continuamente, no périplo da Av. Atlântica, importantes testemunhos


arquitetônicos também desapareceriam: algumas pioneiras e ainda insis-
tentes casas; os últimos destaques ecléticos; os exemplares art déco; logo
atingindo os protomodernos; modernos – incluindo aqui o “[...] Hotel
Othon – quebrando a linha horizontal dos edifícios. Um crime urbanís-
tico tão grande que a meu ver justifica implosão imediata.” (NIEMEYER:
2008, pp. 42-45); somados aos edifícios pós-modernos e, finalmente, pro-
jetos de sua autoria acaso tivessem sido erigidos até a presente proposta.

Fig.05. |

À guisa de conclusão
Alcançado com expressividade na trajetória niemeyeriana, o presente
estudo – raro caso de demolição de preexistências com substituição –
iniciado em uma quadra experimental se alargaria por toda a extensão7
de 4,15 quilômetros do panorama de uma das mais famosas praias do
planeta, o que certamente amalgamaria o pequeno passado da cultura
arquitetônica brasileira (de demolições e substituições) através de seu
maior arquiteto.

7
Abrangendo aproximadamente 46 quarteirões. Copacabana possui 101 quarteirões, 79
ruas, seis avenidas, sete travessas, quadro ladeiras e duas favelas (Pavão-Pavãozinho,
Cabritos/Tabajaras) em uma área de 7,84Km 2.

266 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Bibliografia
BRAGA, Rubem, Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro, Editora Record, 2004.
CORBUSIER, Le. Precisões sobre um estado presente da arquitetura e do
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 267
Crescimento Populacional e Econômico
na Região Perimetropolitana:
cenários especulativos e (des)equilíbrio
socioambiental na Baixada de Sepetiba
DENISE DE A LC A N TA R A
PAULO A N TONIO DOS SA N TOS JUNIOR

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Brasil

Resumo
Este trabalho apresenta pesquisa sobre os desígnios de Seropédica na
Região Metropolitana do Rio de Janeiro, cuja localização estratégica
próxima a centros consumidores e produtores, favorece seu crescimento
econômico e urbano pelos extensos espaços livres em território plano,
antropizado e predominantemente rural. Fragmentado por eixos viários
logísticos, abrange recursos hídricos, minerais e ambientais ameaçados.
Apesar da intensificação das atividades industriais e logísticas, a mão de
obra local não qualificada e não aproveitada, tende, à geração de bolsões
de miséria e comprometimento ambiental pela ausência de planeja-
mento e carências infraestruturais em vários níveis. Metodologica-
mente, a investigação abrangente, multitemática e transescalar produz
mapeamentos de aspectos geobiofísicos, situação fundiária, categoriza-
ção dos espaços livres, visando contribuir com a discussão da temática
da expansão urbana e periurbana na escala municipal, com vistas à pro-
posição de diretrizes de uso e ocupação do território, sob a premissa do
planejamento urbano justo, equitativo e equilibrado.

Palavras-Chave
Espaços livres; expansão perimetropolitana; desenvolvimento
sustentável; Seropédica.

268 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
Temos percebido, seja a olhos nus, seja sob as lentes de estudos acadê-
mico e científicos, o quanto a expansão da segunda maior metrópole
brasileira, o Rio de Janeiro, se deve à infraestrutura viária e à concentra-
ção industrial ao longo dos eixos viários abertos ao longo do século XX.
Municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ) cresce-
ram e se adensaram de forma desordenada, sem limites, sem qualidade
ambiental, sem infraestrutura, sem empregos suficientes, sendo carac-
terizadas como cidades-dormitório, cuja população passa a maior parte
de seu tempo livre no movimento pendular de casa para o trabalho
(ABREU, 2013; OJIMA et al, 2007). No município de Seropédica, entre-
tanto, este padrão de crescimento e ocupação ainda pode ser revertido.
A aceleração do processo de urbanização tem gerado impactos socio-
ambientais em Seropédica e vem sendo intensificado pelo potencial que
a região tem de se tornar um polo logístico-industrial devido à sua pro-
ximidade com o Porto de Itaguaí (GEDUR, 2015).
Este trabalho apresenta de forma concisa a investigação que vem
sendo desenvolvida sobre as transformações na morfologia da paisagem
e dos espaços livres do município com aplicação de instrumentos e fer-
ramentas de análise tipomorfológica e cartografia social, além de levan-
tamentos e mapeamentos diagnósticos nas escalas macro, ou metropo-
litana, meso, ou municipal, e micro, com foco na principal centralidade
urbana de Seropédica, conhecida como Km-49, ou simplesmente Nove.
São aplicados os conceitos de espaços livres de edificações (MAG-
NOLI, 2006), sistema de espaços livres (Tangari et al, 2009), bem como
de urbanização dispersa (ou urban sprawl), com base em Herzog (2015).
Busca-se aqui contribuir com a ampliação da discussão sobre a temá-
tica da expansão urbana, a partir de um olhar voltado à sustentabilidade
e justiça socioambiental, visando uma atuação mais proativa entre a
academia e a realidade socioeconômica de um território ameaçado pela
explosão demográfica e ocupação desordenada.

O crescimento pode ser controlado?


Localizado na porção oeste da RMRJ, Micro-Região de Itaguaí, Seropé-
dica Seropédica faz divisa político-administrativa com os municípios do

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 269
Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Queimados, Japeri, Paracambi e Itaguaí,
sendo limitado em grande extensão a norte e leste pelo Rio Guandu. Sua
área territorial de 283,766 km², em 2016, sofreu redução, com a perda da
fração de Piranema, disputada pelo município de Itaguaí. A população
estimada é de 83667 habitantes (IBGE, 2016), e densidade demográfica
de 275,53hab/km², sendo 82% de sua população urbana.
A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) localizada no
município exerce, desde meados do século XX, grande influência sobre
a urbanização da região. A transferência em 1948 do Centro Nacional
de Ensino e Pesquisas Agronômicas – CNEPA para as proximidades da
antiga rodovia Rio-São Paulo (BR-465), foi fator determinante para o
processo de urbanização do então distrito de Itaguaí, do qual Seropé-
dica se emancipou apenas em 1995. Outras importantes instituições que
impactaram na formação econômica da região foram a Pesagro-RJ (1976)
e a Embrapa Agrobiologia (1993), localizadas junto à universidade e às
margens da BR-465. Da mesma forma, a Floresta Nacional Mário Xavier
(FLONA), criada por decreto em 1985, abrigava, ainda como Horto Flo-
restal de Seropédica, o principal núcleo populacional da região. Final-
mente, as vias que atravessam o município e dão acesso às instituições
federais mencionadas, foram fundamentais para o início do processo de
urbanização do território seropediquence.
A abertura em 2014 do Arco Metropolitano do Rio de Janeiro repre-
sentou o último e principal impulso na expansão da RMRJ e consequen-
temente nos territórios que atravessa. Nesse sentido, na última década,
a ocupação industrial vem se localizando junto às rodovias, principal-
mente à Rodovia Presidente Dutra (BR-116) e o Arco, que interliga o
Porto de Itaguaí ao complexo inacabado do COMPERJ-PETROBRÁS, em
Itaboraí (ALCANTARA e SCHUELER, 2015). O território é fragmentado
pela existência das rodovias, ferrovias e pelas grandes áreas institucio-
nais. O Arco representa mais um elemento de ruptura socioespacial.
Com predomínio de espaços livres de edificações (MAGNOLI, 2005)
ocupados principalmente por atividades agropastoris, a estrutura fun-
diária não é formalizada em cerca de 80% do território, sendo confi-
gurada por terras foreiras ou pertencentes à União, e fazem parte da
Fazenda Nacional Santa Cruz (SANTOS, 2016). O município apresenta

270 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
sete núcleos urbanos dispersos e fragmentados pelo território, algumas
vezes com pouca conectividade, sendo o principal o núcleo formado
pelos bairros de Boa Esperança e Fazenda Caxias, divididos pela BR-465
e conhecido popularmente como Km-49. Pode-se observar grandes por-
ções do território destinados à exploração mineral, principalmente areia
e brita, tornando Seropédica é o maior fornecedor de matéria bruta para
a construção civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ).
Tendo como suporte físico a Bacia Sedimentar de Sepetiba, uma
região de planície sedimentar, marcada pelo assim chamado Mar de
Morros (GASPARINI et al, 2013), Seropédica está localizado na Região
Hidrográfica 8. As bacias contribuintes à Baía de Sepetiba tem entre seus
principais rios: Piraquê, Lajes, Guandu, Guandu-Mirim e da Guarda,
sendo que 67,3% do município de Seropédica situa-se na sub-bacia do
Rio da Guarda. O tipo de solo de Seropédica (planossolo) está “associado
à antigas áreas de floresta tropical sub-caducifólia e ao relevo plano ou
suavemente ondulado das Planícies Litorâneas e Colinas costeiras da
Região dos Lagos e da Baixada Fluminense” (COSTA et al, 2013, p. 6341).
O município é de baixa amplitude de altitude (0-196m), principal-
mente na parte sul, tendo um aumento a partir das regiões central e
norte. Em seu limite oeste inicia-se a Serra das Araras, grande contri-
buinte ao sistema hídrico da região. A maior parte do município tem
altura de até 25 metros acima do nível do mar (81,97% do território), e
as demais partes se dividem em 25-80m (9,35% do território), 50-100m
(5,80%), 100-150m (2,48%) e 150-200m (0,41%). O relevo predominante
é, portanto, a planície com poucos morros e colinas, o que favorece sua
ocupação e expansão urbana. “A topografia típica de baixada é constitu-
ída por areais e pântanos, fundindo-se ao território de Itaguaí, similar,
onde surgem brejais e mangues estendendo-se até a Baía de Sepetiba”
(ALCANTARA e SCHUELER, 2015, p. 113).
Mais de 85% do território do município ainda constitui-se de espaços
livres de edificações e a ocupação urbana surge rarefeita e concentrada
em poucos núcleos fragmentados, descontínuos, com baixa densidade
construtiva. Os núcleos urbanizados ocorrem principalmente nas par-
tes planas e são conectados pelas rodovias que atravessam o território.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 271
Fig. 01 |
Base cartográfica
produzida pelo
GEDUR com a
síntese dos
aspectos
morfológicos de
Seropédica. Fonte:
Acervo GEDUR

A forma dinâmica como se dão os fatores biofísicos e socioeconômicos do


território determinam as transformações da cobertura e uso da terra.
Podendo haver efeitos positivos ou negativos na relação homem-natu-
reza. A fragmentação da paisagem é um efeito antrópico negativo por iso-
lar ecossistemas antes integrados, como florestas, por exemplo. Este é o
caso da paisagem de Seropédica e das proximidades do KM-49, que cujos
problemas ambientais são resultantes da ocupação urbana desordenada e
da fragmentação da paisagem natural. A floresta antes localizada nas pla-
nícies foi sendo substituída por pastagens e plantação de cana desde o
século XVI, demandando a drenagem e canalização dos corpos hídricos,
o que permitiu a ocupação das áreas normalmente inundável (COSTA,
SILVA e SOUZA, 2013). O pouco restante são áreas naturais fragmentadas

272 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
que precisam ser reconectadas por meio de florestas secundárias. Ainda
que não mantenham as características de floresta natural, oferecem maior
oportunidade de ocupação por espécies que a utilizem como recursos.
Sendo assim, as florestas em regeneração no município devem ser consi-
deradas áreas de preservação (COSTA et al, 2013). A conexão entre os frag-
mentos é relevante para se assegurar os recursos bióticos naturais por
proporcionarem o aumento do tamanho das populações.
No que diz respeito às proximidades do KM-49, a unidade de conser-
vação Floresta Nacional Mário Xavier (FLONA) foi
“criada pelo Decreto 93.369 de 1986. Este fragmento florestal abriga
um pequeno (495,99ha), porém importante exemplar de bioma de
Mata Atlântica, caracterizado como Floresta Ombrófila Densa das
Terras Baixas (…). A floresta nacional é um fragmento do bioma de
mata atlântica existente, porém desconectado de outros biomas simi-
lares” (GEDUR, 2015).

Fig. 02 | Características territoriais do Km-49 e entorno. Note-se a instalação de


novos empreendimentos logísticos ao longo da Via Dutra e a proximidade com a
Flona, abaixo à direita. Fonte: Foto por Francisco Tardiolli; Acervo GEDUR.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 273
Em 1945, havia cerca de 50 famílias que habitavam no Horto Florestal de
Seropédica (hoje FLONA), todos funcionários do local, que configura-
vam a população do distrito, então pertencente ao município de Itaguaí.
Não havia comércio, serviço ou escolas próximas. Hoje, a Flona, tornada
Unidade de Conservação de uso sustentável (Decreto nº 93.369 -
08/10/1986) se destaca em meio à vastidão plana do município como
uma das poucas áreas densamente florestadas. Podem ser identificadas
ao menos duas ameaças a esta floresta devido aos investimentos em
infraestrutura feitos no município e à sua proximidade ao KM-49: (1) a
divisão de seu território feita pelo Arco Metropolitano que compromete
a unidade florestal e o fluxo da fauna por seu território, bem como ame-
aça a permanência de uma espécie de anfíbio raro que tem a região
como habitat: o Physalaemus soaresi; (2) A possibilidade de expansão
desordenada da área ado KM-49 sobre a FLONA. De modo geral “as
taxas anuais de mortalidade de árvores, dano às árvores e formação de
clareira aumentam nitidamente até 100m da borda da floresta” (COSTA
et al, 2013, p. 6344) e neste caso parte da borda está em contato com uma
região em processo de urbanização.
O município de Seropédica já passou por diferentes ciclos agrícolas
bem como a atividade pecuária, restringindo a floresta primária a frag-
mentos isolados que continuam ameaçados com intenso desmatamento,
apesar do amparo legal. Algumas áreas foram exploradas também para
extração de areia, na região do Aquífero Piranema, inclusive às margens
do Rio Guandu causando um aumento da sedimentação do leito do Rio
(COSTA et al, 2013). Nas regiões mais impermeáveis, a água acumula
sedimentos suspensos. A extração de minerais ocupa aproximadamente
6,30% do território do município, enquanto a pastagem ocupa cerca de
43,40%, e está em contato com todas as classes de uso do solo, sendo,
então o elemento definidor e articulador da paisagem municipal. “Ape-
nas 10,4% da paisagem preserva características naturais e não foi ainda
convertido em outro uso”(COSTA et al, 2013, p. 6343).

274 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 03 | Extração de gnaisse para produção de brita ao longo do Arco Metropolitano.
Fonte: Acervo GEDUR.

“A região [de Seropédica] classifica-se como de clima tropical quente


(temperatura média superior a 18ºC), sub-quente (entre18º e 15ºC) e
subtipo úmido (1 a 3 meses secos)” (ALCANTARA e SCHUELER, 2015,
p. 113). O conhecimento do regime de precipitação e a caracterização
dos seus padrões espaciais e temporais são importantes no contexto
deste trabalho por influenciarem diferentes atividades antrópicas,
como a indústria, a agricultura, comércio e planejamento urbano.

No caso da RMRJ, a inibição ou produção de chuva é um fator afetado


pelos principais sistemas meteorológicos que atuam na região. Alguns
eventos climáticos influenciam os sistemas meteorológicos, formando
barreiras para que o ar não se desloque do mesmo modo nas partes bai-
xas da atmosfera, sendo assim, estas áreas têm um diferente padrão de
circulação e de condições de tempo local (OLIVEIRA JR. et al, 2014). As
chuvas são concentradas entre os meses de novembro e março. “A preci-
pitação pluviométrica média anual atinge 1.224,9 mm, com os maiores
valores ocorrendo no período de novembro a abril (meses mais quentes),

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 275
com médias mensais variando entre 109,2 mm (abril) e 196,1 mm
(janeiro). Nos demais meses, o índice médio varia entre 30,7 mm e 93,6
mm (outubro)” (Alcantara e Schueler, 2015, p. 113),
A relação entre o fator clima e as problemáticas urbanas de adaptação
são exemplificadas nas enchentes e alagamentos ocorridos na região,
demonstrando o despreparo urbano para um processo de regime de
chuvas que é natural. No caso do principal centro urbano (o Km-49)
parte deste problema se dá pela impermeabilização dos solos e outra
parcela se relaciona com a canalização dos rios dentro desta área.

Fig. 04 | Aspectos urbanísticos do Km-49. Fonte: Acervo GEDUR.

Em relação às áreas de preservação permanentes (APPs) Seropédica apre-


senta seis classes, relacionadas à rede hidrográfica que ocupa 15,01% do
território municipal (ou seja, 40,02km²). São elas: a APP de lagos urbanos
(0,10km²-0,04%); lagos rurais (0,18km²-0,07%); nascentes (0,80km²-
0,30%); cursos d’água maior (3,00km²-1,13%); cursos d’água menor
(16,66km²-6,25%); e o Rio Guandu (19,28km²-7,23%), que se destaca por
ser considerado Área de Preservação Ambiental (APA Guandu - Decreto
40.6270/07). Estas áreas correspondem não apenas à superfície ocupada
por água, mas também ao respectivo entorno conforme as determinações
legais para cada categoria. Os poucos lagos existentes em área urbana
estão localizados dentro do campus da UFRRJ (GASPARINI et al, 2013).

276 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Muitos conflitos relacionados ao uso e ocupação do solo podem ser
encontrados quando relacionados à APPs hídricas. 5,01% das áreas de
mineração estão em APP; e o mesmo ocorre para áreas destinadas à pas-
tagem tendo estas 21,19% de suas áreas em APP; o solo classificado como
solo exposto tem 65,30% de suas terras em APP (GASPARINI et al, 2013).
O Aquífero Piranema, localizado na região hidrográfica do Guandu,
é um importante recurso hídrico para o município e toda a RMRJ que
vem sendo ameaçado pelas atividades de extração mineral, com risco de
contaminação de suas águas e pela instalação recente do Centro de Tra-
tamento de Resíduos Santa Rosa, na porção do território perdida para Ita-
guaí. O Rio Guandu, que demarca grande parte do perímetro municipal é
responsável pelo abastecimento de 80% da população fluminense (cerca
de 9 milhões de habitantes). A urbanização e a atividade de mineração
dentro de sua faixa de 500 metros causam danos ao ambiente local e ao
seu devido funcionamento (ALCANTARA e SCHUELER, 2015, p. 115).
Um dos problemas relacionados à urbanização do KM-49 são os já
citados alagamentos e enchentes que tem relação não apenas com o
regime de chuvas e a impermeabilidade do solo, mas também com a
dinâmica de drenagem que os rios realizavam na região e que foram
modificadas ao serem canalizados e dragados. Considerando este um
solo areal e pantanoso o processo natural seria a rápida absorção da água
da chuva pelo raso solo arenoso, interrompida pela camada espessa de
solo argiloso, de baixa permeabilidade, o que geraria um efeito de trans-
bordamento (ALCANTARA e SCHUELER, 2015, p. 113), contudo, com a
extensão plana o espraiamento das águas pelos rios e córregos da região
a drenariam (ALCANTARA, 2014, p. 7), processo interrompido pelo
adensamento construtivo e impermeabilização da camada superficial
do solo com asfalto e pavimentações as mais diversas.
O crescimento previsto de Seropédica para os próximos 25 anos (SAN-
TOS, 2016) é da ordem de 250%, passando de cerca de 80 mil habitantes
em 2010 a 280 mil em 2040. A estrutura político-administrativa munici-
pal não vem se preparando adequadamente para a expansão industrial,
logística e urbana vislumbrada para as próximas décadas, focando ape-
nas no crescimento econômico a despeito dos conflitos e ameaças socio-
ambientais presentes (ALCANTARA, 2016). Novos empreendimentos

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 277
logísticos, indústrias, condomínios residenciais de baixa e média renda
se instalam de forma dispersa e sem restrições construtivas e urba-
nísticas, em função da falta de planejamento e controle da expansão.
Adicionalmente, a infraestrutura urbana é precária, o saneamento e
tratamento de esgotos inexistente, sendo o esgoto despejado in natura
diretamente sobre os corpos hídricos cada vez mais poluídos e a quali-
dade ambiental e urbana sofrem com edificações desprovidas de quali-
dade construtiva e de conforto, que se espalham de forma desordenada
e desconectada do suporte biofísico.
A implementação de normas urbanísticas e padrões construtivos faz-
-se urgente e necessária para se evitar o adensamento e a reprodução
das cidades-dormitório tão concretas da Região Metropolitana. Acredi-
tamos que ainda há tempo para a reversão dessa tendência de espraia-
mento urbano, desqualificado e não sustentável (HERZOG, 2015).

Conclusão
O estudo demonstra que o município de Seropédica, com foco no núcleo
urbano conhecido como KM-49, sofrem problemas ambientais relacio-
nados ao seu processo de urbanização desordenado e em franca expan-
são, decorrentes dos investimentos que vem recebendo por sua proximi-
dade ao Porto de Itaguaí. O planejamento inadequado e insuficiente e a
gestão municipal, historicamente atrelada ao crescimento econômico,
não dão conta de controlar a ocupação por usos logísticos, industriais e,
consequentemente, o espraiamento da ocupação urbana e o cresci-
mento demográfico em uma região frágil ambiental e socialmente. As
áreas de mineração representam uma ameaça à parte à estrutura hídrica,
sensível e fragilizada, mas de grande relevância regional, além, de serem
geradoras de emprego e renda.
A importância de se observar os aspectos geobiofísicos do território
e seu entorno foi constatada ao se abordar problemas como enchentes
e alagamentos que afetam os núcleos urbanos, bem como, problemas
ambientais como contaminação de córregos, ameaçãs à Flona e possi-
bilidade de expansão urbana em direção ao KM-49, que demonstram o
impacto da urbanização sobre o ambiente natural. As propostas para o
enfrentamento de alguns destes problemas identificados vem sendo estu-

278 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
dadas pela universidade, cuja sede se situa em Seropética, e seus grupos
de pesquisa, contudo, dado o cenário ambiental, a demanda se apresenta
grande e complexa. Uma atuação conjunta interinstitucional (academia e
poder público), bem como ações participativas e inclusão social são consi-
deradas, nesse sentido, essenciais para este enfrentamento.
Espera-se que o trabalho seja relevante na discussão sobre o processo
de urbanização do município de Seropédica, que reflete a realidade
socioambiental de outros municípios vizinhos e seus centros urbanos
que têm passado por processos similares. Que esta breve contribuição
seja ainda profícua no sentido de se reverter a expansão urbana nos mol-
des em que hoje ocorre em diversos municípios da RMRJ, e que dire-
cione a um planejamento equilibrado e socialmente justo.

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280 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Crescimento urbano na contramão
da preservação das áreas verdes:
Estudo de caso Altiplano Cabo Branco
SÔNI A M ATOS
DAYSE LUCK W Ü
A L A NA M A LUF
PL ÁUCIO ROQUE

UNIPÊ, Brasil

Resumo
O artigo discute as relações entre planejamento urbano e meio ambiente
tomando como estudo de caso a realidade do fragmento urbano situado
entre a falésia costeira Cabo Branco e a área de preservação permanente
do vale dos rios Timbó e Jaguaribe localizados na cidade de João Pessoa,
Paraíba, que compreende o bairro Altiplano Cabo Branco.
O estudo de caso contribui para uma discussão partindo da análise
histórica do desenvolvimento do bairro citado, baseando-se nas mudan-
ças ocorridas nos zoneamentos urbanos, decretos municipais e estadu-
ais. Através da superposição de imagens da área (anos 1978 e 2016) e o
estudo das mudanças no zoneamento, observou-se a diminuição do per-
centual das áreas de proteção ambiental. O Poder Público, atendendo a
pressão do mercado imobiliário, modifica a legislação aplicável à área de
estudo, diminui o percentual de áreas de proteção ambiental, e conse-
quentemente dos fragmentos de mata atlântica e das áreas permeáveis,
comprometendo o caráter ímpar da paisagem do tabuleiro, a função
sócio-ambiental da várzea e os padrões bioclimáticos do bairro.

Palavras-Chave
Planejamento urbano; Meio ambiente; Preservação ambiental;
Mercado imobiliário.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 281
1. Introdução
Na contemporaneidade, o planejamento urbano apresenta-se como um
campo disciplinar a partir de olhares múltiplos acerca da complexidade
da vida nas cidades. Embora, ao longo da história, observemos que o
homem, ao localizar-se em um território, organizou seu modo de vida
segundo condicionantes ambientais, topográficos, geomorfológicos,
bem como, a partir de condicionantes sociais, culturais e simbólicos, o
que já se constituía como um planejamento e organização de um modo
de vida nas cidades, o planejamento urbano enquanto disciplina siste-
matizada como uma área do saber é muito recente. Sobre o planeja-
mento urbano Duarte aponta:
‘’(...) podemos definir planejamento como o conjunto de medidas
tomadas para que sejam atingidos os objetivos desejados, tendo em
vista os recursos disponíveis e os fatores externos que podem influir
nesse processo. Nesse sentido, podemos dizer que o planejamento
reconhece, localiza as tendências ou as propensões naturais (locais
e regionais) para o desenvolvimento, bem como “estabelece as regras
de ocupação de solo, define as principais estratégias e políticas do
município e explicita as restrições, as proibições e as limitações que
deverão ser observadas para manter e aumentar a qualidade de vida
para seus munícipes” (DUARTE, 2007 , pág. 22)

Segundo a citação de Duarte, o autor parte do conceito de planejamento


de maneira mais abrangente para só então enfatizar o que vem a ser o
planejamento urbano propriamente dito, observando principalmente
que o mesmo estabelece as limitações para o uso e ocupação do solo,
assim como, determina políticas públicas que visem principalmente à
qualidade de vida dos que habitam as cidades.
É neste sentido, que podemos enxergar o planejamento urbano como
um operador do direito à cidade segundo expressão cunhada por Lefe-
bvre. Para Lefebvre “o direito à cidade não pode ser concebido como um
simples direito de visita ou de retorno às cidades tradicionais. Só pode ser
formulado como direito à vida urbana, transformada, renovada” (LEFE-
BVRE, 2001, pág. 116 e 117). Ou seja, o direito à cidade diz respeito ao
direito a vida urbana, o que enseja um trabalho de qualificação do
espaço da cidade, transformando-o em espaço urbanizado.

282 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
No Brasil, planejamento urbano ganhou destacada atenção a partir
da Constituição Federal de 1988 com os artigos 182 e 183 do capítulo da
política urbana onde ressalta-se o papel da municipalidade na gestão
do seu território e a função social da propriedade. Dois conceitos que
ganham espacial destaque no presente artigo. O primeiro por legar ao
ente federativo, o município, a função de gerir e ordenar o seu territó-
rio, o que já deveria pressupor a base de um planejamento urbano. E
o segundo, por colocar em destaque a questão da coletividade. Ressal-
tados pelo Estatuto das Cidades, Lei 10.257/ 2001, que regulamenta os
artigos 182 e 183 da política urbana no país, tais princípios, se norteados
pelos instrumentos urbanísticos de que trata o Estatuto, deveriam cor-
roborar para o sentido de direito à cidade e para o planejamento urbano
a partir de políticas públicas na área.
Todavia, o que se assiste no Brasil, vai na contramão do arcabouço legal
mencionado. E esse cenário agrava-se quando se trata da questão ambien-
tal e o meio urbano. Segundo o Estatuto da Cidade: “Parágrafo único. Para
todos os efeitos, esta Lei, denominada Estatuto da Cidade, estabelece nor-
mas de ordem pública e interesse social que regulam o uso da propriedade
urbana em prol do bem coletivo, da segurança e do bem-estar dos cidadãos,
bem como do equilíbrio ambiental” (Lei 10.257/ 2001). A crise urbana por
que passam as cidades brasileiras face a um planejamento urbano voltado
para um mercado imobiliário que visa o lucro pautando-se por uma lógica
de especulação tem tornado a qualidade de vida em nossas cidades cada
vez mais excludente. É neste sentido, que vemos áreas ambientalmente
frágeis em meio urbano se voltarem para a o mercado imobiliário e em
última instância para a especulação imobiliária.
Se queremos garantir a melhora da qualidade de vida nas nossas cida-
des, precisamos planejar a ocupação do território dentro de uma ética
ecológica. Segundo Ab’Sáber, 1996: “não há como aceitar a ideia sim-
plista de que a determinados espaços ecológicos devem corresponder
espaços econômicos, numa sobreposição plena e totalmente ajustável”.
Este trabalho aprofunda a análise do processo de ocupação do Alti-
plano Cabo Branco, e apresenta dados sobre as mudanças na legislação
aplicável ao uso do solo na área, que diminui do percentual de áreas
de proteção ambiental, e consequentemente dos fragmentos de mata

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 283
atlântica e das áreas permeáveis, desconsiderando a fragilidade ambien-
tal do tabuleiro costeiro e a importância da várzea do rio Timbó, como
reservatório natural, reduzindo o impacto das cheias.

2. Metodologia
Através da análise e formação da linha do tempo do Plano Diretor,
decretos municipais e estaduais, referentes à área de estudo, foi possível
sintetizar a evolução dos interesses propostos para a região do Altiplano
Cabo Branco. Consequentemente, perceber como as áreas verdes foram
tomando papel coadjuvante no local que primeiramente eram tratadas
como protagonistas.
Outra forma de estudar o bairro foi através de mapas de zoneamento
da cidade, publicados em 1992 e 2012, juntamente com ortofotocartas
de 1978 e as imagens via satélites disponibilizadas pelo Google Earth de
2016. A partir disso, foi identificada a evolução do bairro com foco nos
fragmentos da mata atlântica (1978) e delimitação das zonas especiais
de preservação nos respectivos zoneamentos citados anteriormente,
além do crescimento de áreas com maior índice de ocupação, conse-
quentemente, maiores pavimentações externas aos lotes, e grandes edi-
ficações verticais, modificando o perfil do solo e região, antes conhecido
por grandes porções de massa vegetativa.
A captação desses dados foi conseguida com o auxílio do software
AutoDesk AutoCad onde foram feitas manchas delimitadas pelos volu-
mes identificados nas ortofotocartas e nos zoneamentos posteriores.
Após a identificação das áreas, estudo de manchas, foi feito sobreposi-
ção dos dados e de mapas para identificação das mudanças ambientais
ocorridas de forma quantitativa e qualitativa.
O uso desta metodologia possibilitou evidenciar o interesse público
e privado na região em maximizar a potencialidade da construção civil,
juntamente com a especulação imobiliária que viu possibilidades na
área que durante muitos anos foi tratada como preservada, contudo,
representava uma oportunidade para o mercado. Foi possível identificar
nos decretos a sensível evolução do interesse especulativo na área, pres-
sionando assim os poderes públicos.

284 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
3. Apresentação do estudo de caso
A área em estudo (Fig. 02) abrange os bairros do Altiplano Cabo Branco
e Portal do Sol, localizada na Zona Leste da Cidade de João Pessoa, cujos
bairros limites são: a Leste, o Cabo Branco; a Oeste, o Castelo Branco; ao
Norte, os bairros de Miramar e Cabo Branco; e ao Sul, o bairro dos Ban-
cários e a Sudeste Ponta do Seixas.

Fig. 01 | Localização da área de estudo na escala macro (Brasil), meso (Paraíba),


e micro (João Pessoa), sinalizando a área dos bairros em estudo, como limitados acima.

Fig. 02 | Localização ampliada da área de estudo, que abrange os bairros Altiplano


Cabo Branco e Portal do Sol. Fonte: Base de mapas em formato .PDF da Diretoria
de Geoprocessamento da PMJP – Prefeitura Municipal de João Pessoa. Disponível
em: <http://geo.joaopessoa.pb.gov.br/digeoc/mapas/MAPA%20JOAO%20
PESSOA%20A3.pdf>. Edição: Grupo de pesquisa.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 285
Registrado como um dos 64 bairros listados pelo IBGE no censo de 2010,
o bairro possui 5.233 habitantes, distribuídos em 1.448 domicílios, o que
corresponde a 0,72% da população da cidade de João Pessoa. (IBGE 2010,
acesso 10/09/16).
O Altiplano é parte significativa de um dos mais expressivos cená-
rios paisagísticos e turísticos da cidade de João Pessoa. Está localizado
sobre o tabuleiro costeiro, que é margeado ao leste pela falésia do Cabo
Branco, e ao oeste pelo vale do rio Timbó. É ainda recoberto por frag-
mentos de Mata Atlântica, perfeitamente visível a partir da orla por trás
dos prédios de baixo gabarito do Cabo Branco.
O sítio em que o bairro está inserido pode ser categorizado como
tabuleiro costeiro (Fig. 03), por conter características geográficas como,
platô com bordas de falésia formadas por escarpas sedimentadas de lati-
tude entre 15 e 40m.
As escarpas sedimentares são formadas por movimentação da crosta
terrestre, esta formação conhecida como falésia pode ser categorizada
em dois tipos, falésia viva/ativa e Falésia Morta/Inativa. Esta subdivi-
são é dada pelo contato com o mar ou não. No caso da falésia ativa, a
ruptura territorial é dada pela maré e outras intempéries como vento e
chuva, sendo o caso da Ponta do Seixas. Já na falésia inativa não há este
tipo de contato direto com a água.
Para este segundo caso, a cobertura vegetal é de suma importância,
pois é esta que reduz o impacto da chuva diretamente no solo, evitando
erosões. Carvalho cita como este solo apresenta fragilidade diante das
ações do homem.
‘’O recuo rápido destas falésias é favorecido tanto pelos sedimentos
argilo-arenoso pouco consistente como pela interferência antrópica.
Os desmatamentos e obras de construção (estradas, canais pluviais,
residências, etc.), efetuados nessas áreas pouco estáveis contribuem
fortemente para acelerar os processos erosivos’’. (Fernandes, apud
CARVALHO, 1982, p.28).

286 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig 03 | Estudo topográfico dos bairros Altiplano/Tabuleiro Costeiro e Portal do Sol,
revelando a grande declividade presente na área. Fonte: Andreína Fernandes.
Edição: Grupo de pesquisa

Considerando a importância turística, ecológica e paisagística do Alti-


plano o Governador Tarcísio Burity, em 1982, através do Decreto Estadual
Nº 9482, determinou o seu tombamento e a criação do Parque Estadual do
Cabo Branco; deixando a proteção do bem tombado sob a responsabili-
dade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado - IPHAEP.
Este Decreto foi revogado em 1986 pelo então Governador Wilson Braga
– Decreto Nº 11.204/1986, entretanto, apesar de revogada a criação do Par-
que, permaneceram algumas restrições de uso e ocupação definidas pelo
Código de Urbanismo de João Pessoa – Lei Nº 2102/1975.
Em 1992 foi promulgado o Plano Diretor de João Pessoa – Lei Comple-
mentar 03/1992 - o qual estabelece em seu artigo 26 as restrições para
ocupação da área de estudo. O inciso I do citado artigo contempla a
delimitação precisa e as formas de viabilizar a implantação do Parque
Estadual do Cabo Branco - Zona Especial de Preservação - e o inciso
II estabelece uma Densidade Bruta de até 50 hab./ha, e limitação na
altura das edificações de modo a preservar paisagisticamente a falésia e
a Ponta do Cabo Branco.
No ano de 2005, é editado o Decreto Municipal N.º 5.363, que deli-
mita o Parque do Cabo Branco, como Zona de Preservação Ambiental e
de Proteção Paisagística, e estabelece instruções normativas de zone-
amento urbano e ambiental para o Altiplano, com definição dos indi-
cadores urbanísticos de uso e ocupação do solo. O parágrafo único do

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 287
artigo 3º do Decreto estabelece normativas construtivas de respeito à
paisagem natural, referindo-se assim ao gabarito das construções, a
permeabilidade do solo e preservação das espécies nativas.
Contudo, em 2007, é criada pelo Decreto Nº 5.844 uma Zona Adensá-
vel Prioritária no Altiplano do Cabo Branco, revogando assim outras dis-
posições. O decreto abrange as Subzonas B e C do Cabo Branco do Setor
Residencial Especial (SER), e parcialmente a Zona Residencial 3 (ZR3).
Em 2010 é novamente alterado o zoneamento de uma parcela do Alti-
plano. O Decreto Municipal Nº 7.073 vai de encontro ao zoneamento
estabelecido no Plano Diretor de 2009 e transforma uma Zona Especial
de Preservação dos Grandes Verdes - ZEP2, em Zona Axial, desconside-
rando a fragilidade ambiental da bacia dos rios Jaguaribe e Timbó.
Este trabalho, diante das diversas modificações ocorridas na legis-
lação urbanística e patrimonial aplicável ao uso e ocupação do solo da
área de estudo, ao longo destes 38 anos, pretende levantar a evolução do
percentual de áreas verdes definidas para o objeto de estudo no espaço
temporal relativo as ortofotocartas da Prefeitura Municipal de João Pes-
soa de 1978 as imagens via satélites disponibilizadas pelo Google Earth
de 2016, além dos Planos Diretores de 1992 e 2012.

4. Resultados e Discussões
Segundo o Plano Municipal de Conservação e Recuperação de Mata
Atlântica, 2010 o Altiplano vivencia, atualmente, uma urbanização ace-
lerada, que exerce forte pressão sobre os recursos naturais, como a vege-
tação, o solo e os recursos hídricos.
Até meados da década de 90, a legislação urbanística, ambiental e
patrimonial procurava conciliar os usos permitidos com a conservação
da vegetação nativa ali presente. A criação do Parque do Cabo Branco
e desenvolvimento do projeto pelo renomado Paisagista Roberto Burle
Marx, enfatiza a prioridade ambiental do lugar ao propor áreas verdes de
contemplação e lazer, com foco na permeabilidade do solo e recupera-
ção da cobertura vegetal nativa de mata atlântica. Apesar da revogação
do Decreto do Parque em 1986, resta a legislação urbanística que res-
tringe o adensamento da área.

288 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Em 2005, o Decreto Municipal N. º 5.363, estabelece uma mudança
no zoneamento do Bairro do Altiplano, flexibilizando as taxas de ocu-
pação e índices de aproveitamento, favorecendo o avanço da especula-
ção imobiliária. Aliado a isso, temos o Decreto Municipal Nº 5.844/2007
que altera o Plano Diretor de 1992, o qual considerava o Altiplano como
Zona de Restrições Adicionais em virtude de seu caráter paisagístico e
ambiental, passando a ser Zona de Adensamento Prioritário, formen-
tando o mercado imobiliário com a instalação de condomínios verticias,
comercializados sob a propaganda de exaltação da vista provilegiada, ao
meio ambeinte e à qualidade de vida.
O processamento dos dados das ortofotocartas de 1978, identifica signi-
ficativ maciços de vegetação remanescentes no tabuleiro costeiro, e na pla-
nície aluvial do rio Timbó em direção ao sentido sul, ilustrados na Fig. 04.
Analisando os dados obtidos e sobreposto os mapas de zoneamento do
Planos Diretores de 1992 e 2012, observa-se uma significativa diminuição
das áreas verdes na poligonal estudada. A tabela 01 apresenta os percen-
tuais, em 1978 tinha-se 43,50% de cobertura densa, em 1992 as áreas ver-
des passam a constituir 33,75%, e em 2012 apenas como 25,80%, ou seja
uma diminuição equivalente a 43,50% do estoque de áreas verdes.

ESTOQUE DE ÁREAS VERDES

%, ha Sem Cobertura Área


Ano %, ha Frag, Mata Atlântica**
Vegetal * Total

1978 43,50% 34,40 ha 56,50% 44,70 ha

79,10
1992 33,75% 26,70 ha 66,25% 52,39 ha
ha

2012 25,80% 20,41 ha 74,20% 58,60 ha

*Vias, Edificações, Lotes e demais áreas.


**Várzea do Rio Timbó

Tabela 01 | Estoque de áreas verdes. Fonte e Edição: Grupo de pesquisa

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 289
Fig. 04 | Fotomontagem das ortofotocartas de 1978 com manchas das matas
remanescentes e maciços verdes. Fonte: Ortofotocartas da PMJP – Prefeitura
Municipal de João Pessoa. Edição: Grupo de pesquisa.

Na Fig. 05, produzida à partir da análise da base de dados de1992, é pos-


sível observar a designação da área ao longo do Rio Timbó como ZEP2,
prevalecendo a vegetação como prioridade na área. Surge o Setor de
Amenização Ambiental - SAA delimitado na borda da falésia e em parte
do antigo limite do Parque do Cabo Branco.
A Fig. 06 destaca os limites da ZEP2, da SAA e do Parque do Cabo Branco
em 2012, e fazendo uma analogia com o mapa de 1992, é possível verifi-
car que o novo Plano desconsidera a variável ambiental. Parte da antiga
ZEP do Rio Timbó e fragmentos localizados ao sul da mesma, bem como
o Parque Estadual do Cabo Branco passam a ser SAA. A Zona Especial de
Preservação dos Grandes Verdes tem redução de 48%, a SAA aumenta seu
percentual em 45% e o Parque Cabo Branco teve sua área reduzida em 21%.

Fig. 05 | [PÁGINA SEGUINTE] Mapa com as SAA, ZEP 2 e Parque Estadual de Cabo
Branco de João Pessoa, 1992. Fonte: Base de mapa em formato .DWG da Diretoria de
Geoprocessamento da PMJP – Prefeitura Municipal de João Pessoa e Mapa do
Macrozoneamento de 1992 disponibilizado pela PMJP – Prefeitura Municipal de João
Pessoa. Disponível em: <http://geo.joaopessoa.pb.gov.br/digeoc/htmls/cad.html>
Edição: Grupo de pesquisa.

290 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig. 06 | Mapa com as SAA, ZEP 2 e Parque Estadual de Cabo Branco de João Pessoa,
2012. Fonte: Base de mapas em formato .DWG e Mapa de Macrozoneamento de 2012
da Diretoria de Geoprocessamento da PMJP – Prefeitura Municipal de João Pessoa.
Disponível em: < http://geo.joaopessoa.pb.gov.br/digeoc/htmls/ > Edição: Grupo de
pesquisa.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 291
ÁREAS SEGUNDO MACROZONEAMENTO/TEMPO

Ano ZEP 2* SAA** Parque do Cabo Branco

1992 126ha 68ha 71ha

2012 65ha 122ha 56ha

Diferença(%) -48% 79% -21%

*Zona Especial de Preservação 2


**Setor de Amenização Ambiental

Tabela 02 | Comparação das áreas dos respectivos Macrozoneamentos, em um


espaço de 20 anos. Fonte e Edição: Grupo de pesquisa

Conclusão
As figuras 4, 5 e 6 e as tabelas 1 e 2, comprovam o processo acelerado de
ocupação do tabuleiro costeiro do Altiplano no intervalo de 38 anos.
Este crescimento – incentivado pela mudança no zoneamento, que
amplia as áreas construídas e a taxa de verticalização – desconsidera a
integração entre estruturas antrópicas e estruturas ecossistêmicas,
acentuando os impactos negativos sobre o bairro.
Ao diminuir o percentual da Zona Especial de Preservação – ZEP,
e em substituição aumentar o percentual do Setor de Amenização
Ambiental – SAA, que tem como indicadores urbanísticos uma taxa de
ocupação de 40% e lote mínimo de 1250 m, quando na ZEP estes índi-
ces são de 10% e 10.000 m, respectivamente, a Prefeitura Municipal de
João Pessoa desconsidera a Constituição do Estado da Paraíba e o Plano
Diretor de João Pessoa, as quais destacam o valor paisagístico, turístico
e cultural do Altiplano.
A redução de 48% das áreas verdes/fragmentos de mata na poligo-
nal de estudo contribui fortemente para acelerar os processos erosivos,
inclusive o da falésia do Cabo Branco.
Há de se entender o funcionamento dos sistemas urbanos, a tarefa do
urbanismo consiste em desenvolver novas formas de mediação entre as qua-
lidades da experiência urbana e as possibilidades dos elementos naturais.

292 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Bibliografia
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 293
“Da Adversidade Vivemos”:
Autoconstrução como linguagem habitacional
na favela carioca de Manguinhos.
A NDR É LUIZ C A RVA LHO C A R DOSO
Arquiteto e Urbanista. Professor Adjunto do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da

Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, DAU/ESDI/

UERJ. Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Augusto Motta.

GUSTAVO TAVA R ES
Aluno da Faculdade de Engenharia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, FEN/

UERJ. Bolsista do Projeto de Extensão: Laboratório Socioambiental de Engenharia Civil,

Arquitetura e Urbanismo, LSECAU/ESDI/SR3/UERJ.

Resumo
O objetivo deste artigo é analisar tipologias e soluções construtivas pre-
sentes nas autoconstruções do complexo de favelas em Manguinhos,
localizado no Rio de Janeiro. Busca-se compreender as fragilidades
desse processo histórico de autoconstrução que advêm das adversidades
geradas pela exclusão sócio-espacial, e trazer para o debate a autocons-
trução nas favelas, como uma faceta do crescimento desordenado das
cidades e sua disparidades socioeconómicas.
Como metodologia, utilizamos a observação em visitas a campo, bem
como entrevistas com moradores e trabalhadores que participaram das
construções na região.
Com os resultados obtidos, pudemos perceber que tanto a ausência de
conhecimento técnico quanto a reelaboração de aspectos construtivos
definem a característica do lugar. Apontamos que, por um lado, a ausên-
cia de amparo técnico de profissionais na construção pode ser responsá-
vel por problemas estruturais, arquitetônicos e urbanísticos. Por outro
lado, valorizamos as soluções construtivas encontradas para dar conta de
problemas específicos, que buscam driblar adversidades vivenciadas.

Palavras-Chave
Autoconstrução; Assentamentos informais; Arquitetura Vernacular;
Favela de Manguinhos – RJ.

294 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
Parafraseando o célebre artista plástico Hélio Oiticica, colocada em um
dos seus trabalhos sobre uma favela carioca, podemos dizer que, no con-
texto amplo das favelas, “Da adversidade Vivemos”. Buscamos como
hipótese nesse artigo a compreensão da ideia de autoconstrução como
um caminho para lidar com essa adversidade gerada pelas desigualda-
des sociais, apresentando-se como uma importante faceta do processo
de urbanização em ritmo acelerado.
Este artigo é parte dos projetos que vêm sendo desenvolvidos, na Favela
de Manguinhos, pelo projeto de extensão: Laboratório Socioambiental de
Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo – LSECAU/FEN e ESDI/UERJ.
A autoconstrução, segundo Nascimento (2011), é “a provisão de mora-
dia onde a família, de posse de um lote urbano, obtido no mercado for-
mal ou informal, decide e constrói por conta própria a sua casa, utili-
zando seus próprios recursos e, em vários casos, mão-de-obra familiar,
de amigos ou ainda contratada”. Logo, na autoconstrução, as decisões
a respeito da moradia são tomadas de maneira isolada, sem o auxílio
de quem detém o conhecimento técnico na área, sejam engenheiros
civís ou arquitetos, ainda que muitos profissionais da construção civil se
encontrem, justamente, entre os moradores da favela.
Tais construções desafiam regras e normas, escapam de sistemas de
legalização urbana, edificam estruturas no tortuoso desenho das encos-
tas ou em áreas que necessitam criar limites ténues entre esgotos, enca-
namentos de água, condutores de eletricidade etc.

Por que a autoconstrução é o modo de construção possível?


Condicionantes históricos e sociais
A autoconstrução que se engendra nas favelas das grandes metrópoles
brasileiras está intimamente ligada ao processo de urbanização em
ritmo acelerado que ocorreu principalmente após a década de 1950.
Após a Segunda Guerra Mundial, o Brasil passa a ser alvo de investimen-
tos do grande capital internacional. É quando começa a chamada
segunda etapa da industrialização do país. Esse processo faz acentuar o
movimento migratório do campo para a cidade, na medida em que novas
indústrias necessitam de mão de obra. Assim, essa aceleração do pro-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 295
cesso de industrialização incrementa o fluxo migratório, contribuindo
para aumentar a proletariazação do espaço.
Segundo Maricato (1982), “a formação da periferia urbana antecede
o advento da nova fase de industrialização no país, porém com esta seu
crescimento, sua reprodução, se farão em escalas e velocidades nunca
antes constatadas”.
O Estado brasileiro, dutante a segunda metade do século XX, esboçou
algumas tentativas com o intuito de mitigar o acelerado crescimento
do déficit habitacional no país. Uma das investidas de maior peso foi o
Banco Nacional de Habitação (BNH), que teve sua fundação em 1964,
no início do governo militar. A função inicial era “estimular a constru-
ção de habitações de interesse social e o financiamento da aquisição da
casa própria, especialmente pelas classes da população de menor renda”
(Brasil, 1964). Em 1969, porém, o BNH reorientaria o modelo de finan-
ciamento, focando em mercados com maior poder aquisitivo (famílias
com renda a partir de cinco salários mínimos), deixando de fora a par-
cela da população que efetivamente estava economicamente alijada do
mercado imobiliário formal.
O Estado, por conseguinte, preferiu concentrar investimentos em seto-
res economicamente mais dinâmicos, onde a reprodução do capital se faz
de uma forma mais rápida e segura, deixando de lado áreas como a intraes-
trutura da periferia urbana e as habitações do proletariado. Uma vez que a
política habitacional do Estado é centralizadora, tal parcela da população,
que possuía renda inferior àquela que permitiria a compra, é excluída.
Se a habitação é uma mercadoria e se o Estado não financia suficien-
temente sua aquisição pela parcela mais pobre da população, só resta a
esta a autoconstrução como ferramenta para obtenção da moradia.

Aspectos construtivos em Manguinhos.


O processo de urbanização/suburbanização de Manguinhos
Manguinhos se situa na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. O nome
da região deriva da palavra mangue, uma vez que é uma região original-
mente constituída por manguesais.
O processo de urbanização, em Manguinhos, teve seu início com a
construção da ferrovia na década de 80 do século XIX. A nova via cons-

296 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
truída atraiu indústrias para a região, o que caracterizou-a na época
como um bairro industrial. Foi apenas entre o início do século XX até
o fim da década de 40 que tem início um lento processo de ocupação
residencial no bairro na região de Parque Oswaldo Cruz, o que ocorreu
sem a participação do Estado.
A partir da década de 50, com as políticas oficiais de remoção do
Estado, famílias foram realocadas de outras regiões da cidade para Man-
guinhos. Casas populares foram construídas numa região de Mangui-
nhos nomeada CHP2 (Centro de Habitação Provisório 2), no Parque João
Goulart e na Vila Turismo.
Nas décadas seguintes, anos 60 e 70, com o rápido desenvolvimento
econômico ocorrido no Brasil, as áreas ao longo da recém construída
Avenida Brasil foram se desenvolvendo, atraindo migrantes que, em
muitos casos, trabalhavam na construção civil. A edificação de conjun-
tos habitacionais não acompanhou o rápico afluxo de pessoas, que aca-
baram por se estabelecer na região, autoconstruindo suas moradias, tor-
nando hegemônicos os usos de cimento e tijolos nas autoconstruções.
Já na década de 80/90, o Estado inicia a construção de conjuntos
habitacionais em Manguinhos (Conjunto Habitacional Nelson Man-
dela, Conjunto Habitacional Samora Machel, Mandela de Pedra) e mais
recentemente, na década de 2000, são construídos os conjuntos Vitória
de Manguinhos ou CONAB, Nova Era ou Embratel.
Inicialmente, as casas em Manguinhos foram construídas em
madeira. A estrutura do telhado era feita também em madeira, não havia
laje e a cobertura era feita com telhas de barro. Durante nossas visitas
a campo, encontramos ainda uma habitação construída nesses moldes,
já muito deteriorada (fig. 01). Outra casa de maneira havia sofrido um
incêndio e foi destruída poucos meses antes.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 297
Fig. 1 | Casa de
madeira
remanescente em
Manguinhos.
(Foto: André
Cardoso e Gustavo
Tavares, 02/2017)

O Estado e o legitimação da autoconstrução


No governo Carlos Lacerda, em 1960, teve início a operação Mutirão. Pela
primeira vez, a participação dos moradores foi encorajada na construção
de suas próprias habitações. O governo forneceu ajuda com engenheiros e
materiais de construção que sobravam de outras construções, como o
bloco cerâmico e o cimento. Esse programa, depois de pressões de setores
imobiliários na zona sul, foi extinto, um ano e meio após sua criação.
No governo Leonel Brizola, em 1983, merece destaque o programa
“Cada Família, Um Lote (CFUL)” e, a nível municipal, o “Projeto Muti-
rão”. Nesse programa, era pago um salário mínimo mensal pela auto-
construção de sua própria casa. Era o estado reconhecendo a autocons-
trução como uma forma legítima de se construir.
Com a promulgação da nova constituição, em 1988, direitos como o
usucapião foram garantidos. Assim, ao ocupar a terra por mais de cinco
anos ininterruptamente, ocorre a aquisição da propriedade pela família.
Com a propriedade assegurada, a família poderia construir com mais
segurança, investindo na habitação e utilizando materiais com maior
durabilidade, como o cimento e alvenaria. (OSBORN, 2013)

Modos de Contrução em Manguinhos


Apesar de atualmente utilizar materiais de construção presentes também
nas construções “oficiais”, percebemos que o modo de utilização desses
materiais é diferente na autoconstrução na favela de Manguinhos.

298 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A alvenaria de blocos cerâmicos com função de vedação, por exem-
plo, é levantada antes dos pilares de concreto armado, deixando o
espaço para onde este será concretado. As fôrmas do pilar são consti-
tuídas por duas placas de madeira e pelos próprios tijolos da parece.
Ripas de madeira são amarrados nos próprios tijolos de maneira a fixar
as placas. Os pilares de concreto armado, dessa forma, acabam tendo
sempre a espessura dos tijolos, isto é, em torno de 9 a 11 centímetros.
Essa estratégia faz com que se aproveite o prumo da parede de tijolos
para a concretagem do pilar e gera economia de placas de madeira, uma
vez que os tijolos já servem como parte da forma.

Fig. 02 | Fôrmas
de madeira presa à
alvenaria de
tijolos. (Foto:
André Cardoso e
Gustavo Tavares,
02/2017)

A mesma estratégia é usada para a concretagem das vigas. Onde não há


paredes, porém, e não há tijolos para servir de fôrma, uma placa de
madeira é utilizada para o fundo da fôrma.
As casas autoconstruídas em Manguinhos são erguidas, normal-
mente, pelos próprios trabalhadores da construção civil (pedreiros), que
podem ou não fazer parte da família. Justamente por fazerem parte da
mão de obra da construção civil, ocorre que as novas construções em
Manguinhos sofrem a incorporação de materiais e técnicas construtivas

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 299
mais recentes. Um exemplo é a utilização de lajes pré-moldadas (vigo-
tas e tavelas em EPS). As tavelas são colocadas entre as vigotas e têm
a função de diminuir o peso do concreto e o volume próprio da laje,
diminuindo o custo final. O conjunto serve também como base para o
concreto de capeamento, aplicado posteriormente por cima. Outra van-
tagem é a aplicação ser relativamente simples. Podemos ver na fig. 02
a laje pré-moldada já com o concreto de capeamento servindo de base
para a alvenaria do segundo pavimento.
Devido à ocupação intensa do território e à necessidade de apro-
veitamento máximo do espaço, o cálculo das escadas (dimensões dos
espelhos e pisos) não tem como base a fórmula de Blondel (duas vezes
a altura do espelho somado à dimensão do piso deve ser igual a 63 a 65
centímetros). Muitas vezes não há outra alternativa, senão construir a
escada em um exíguo espaço na sala, ou mesmo na rua. Disso resulta
que, frequentemente, o espelho apresenta uma dimensão maior que
a do piso. Apesar de não atender às normas e não oferecer conforto e
segurança, as escadas construídas são as escadas possíveis, uma vez que
compatíveis com os espaços e com os recursos disponíveis.

Fig. 03 | Escadas
íngremes que
vencem a altura
de um pavimento
em pequenos
espaços
horizontais. (Foto:
André Cardoso e
Gustavo Tavares,
02/2017).

300 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Outra característica marcante das construções é a presença de balanços
sempre que a habitação possui mais de um pavimento. Em cada novo
pavimento construído, há um novo balanço (de 50 centímetros em média),
avançando mais a construção em direção à rua ou ao beco. Devido ao
caráter estreito dos becos, há alguns pontos em Manguinhos onde cons-
truções (de lados opostos) chegam a se encostar, normalmente na altura
do terceiro pavimento (fig. 04). Usualmente, nesses pontos onde constru-
ções de lados opostos da via se encontram, a fachada de pelo menos uma
das habitações encontra-se fora do prumo, pendendo para a rua.

Fig. 04 | Balanços
que se tocam na
Rua São José,
Favela de
Manguinhos no
Rio de Janeiro.
(Foto: André
Cardoso e Gustavo
Tavares, 02/2017).

Um problema muito frequente em Manguinhos são as constantes


enchentes. Várias obras foram feitas na região, inclusive obras de drena-
gem, com vistas a sanar a questão, porém sem sucesso. Recentemente,
entre 2008 e 2010, foram realizadas obras do Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC-Manguinhos) que, ao invés de mitigar as enchentes,
aumentaram, devido principalmente à construção de um pontilhão que
bloqueia a vazão do rio Faria Timbó, retendo detritos, quando o rio tem
seu volume aumentado. Por conviverem com o problema das enchentes
há longo tempo, os moradores desenvolveram algumas estratégias para

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 301
lidar com a questão. Uma delas é a construção do pavimento térreo das
casas num nível acima de onde a enchente costuma atingir, possuindo
escadas para o seu acesso. Outra estratégia usada é a utilização de “com-
portas” de metal nas portas de modo a dificultar a entrada de água.

Fig. 05 |
Pavimento térreo
de uma casa sendo
construída em
Manguinhos
ainda sem as
escadas para o
acesso. (Foto:
André Cardoso e
Gustavo Tavares,
02/2017).

Análise de uma habitação em Manguinhos


Procederemos agora ao exame de uma planta de um pavimento de uma
habitação localizada na rua São José, em Manguinhos (fig. 06).
Podemos perceber uma solução encontrada para o aproveitamento
máximo do espaço: uma escada com 40cm de largula foi construída no cor-
redor de 88cm. Com espaço muito fora dos parâmetros ergonómicos míni-
mos necessários e sem nenhuma barreira de segurança, como corrimão,
ela serve como único acesso ao terraço, ocupando o menor espaço possível.
Um detalhe comum das casas da favela de Manguinhos é a presença
de janelas nos quartos ventilando para o interior da casa, ficando apenas
a fachada com janelas ventilando para fora. Ao contrário da janela da
fachada, as outras janelas acabam por não ter ou ter pouca função de
iluminação e ventilação. Tal fato se dá por conta de alguns fatores. Há
a preocupação com a segurança, uma vez que tiroteios são frequentes e

302 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
paredes em alvenaria sem abertura acabam sendo utilizados como pro-
teção. Outro ponto apontado é a preocupação com a entrada de veto-
res transmissores de doenças, como ratos. E, por fim, há o fato de as
casas serem coladas umas às outras, por vezes, inclusive, por todos os
lados com exceção da fachada, deixando poucas opções para o morador
abrir alguma janela para fora. Esse é o caso da habitação representada
na planta em questão (fig.06). Ela, contudo, apresenta uma solução para
a iluminação e ventilação dos quartos: um prisma, que possui 8,47m² de
área (3,94m x 2,15m), sendo maior que os quartos que são ventilados por
ele (5,85m² e 7,01m²), o que é incomum, dado a necessidade de aprovei-
tamento máximo do espaço.
Um detalhe dessa habitação em especial é a completa separação
entre o pavimento térreo e o segundo pavimento (fig. 06), que tem
acesso direto à rua através de uma escada. Isso reflete a alta ocupação
do espaço, que força a verticalização das construções. É uma forma que
algumas famílias têm de construir habitações para seus filhos que cons-
tituem outras famílias, ou mesmo pode se constituir também como uma
estratégia para complementar a renda, construindo um segundo pavi-
mento em cima de suas casas para alugar ou mesmo vender.

Fig. 06 | Planta do
2º pavimento de
uma habitação em
Manguinhos.
(Fonte: acervo
André Cardoso,
2005).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 303
Conclusão
O estado, historicamente, direcionou recursos insuficientes à urbaniza-
ção e ao assentamento residencial popular no Brasil. Disso resulta que
os espaços periféricos das grandes cidades brasileiras, e, no caso em
questão, do Rio de Janeiro, sejam produzidos através da prática de sub-
sistência, a qual engloba a autoconstrução.
A autoconstrução, por sua vez, produz um modo de habitação que,
por vezes, proporciona iluminação e ventilação precárias, cômodos com
áreas pequenas, circulações estreitas, etc, aspectos que acabam por
gerar uma habitação com muitos problemas.
Soma-se a isso o alto número de pessoas por habitação. É comum
mais de uma família habitando uma casa, ou mesmo, várias pessoas dor-
mirem em um mesmo cómodo, com áreas mínimas e servindo para as
múltiplas atividades de uma casa.
A precariedade da drenagem e da rede de esgotos em Manguinhos,
especificamente, piora ainda mais as condições de moradia, particular-
mente em dias chuvosos, produzindo uma série de doenças.
Não podemos aqui, contudo, demonizar a autoconstrução, uma vez
que ela se apresenta como a única solução possível para famílias, parti-
cularmente da classe trabalhadora.
Por isso, apesar das muitas problemáticas visualizadas e indicadas
pela autoconstrução, procuramos, neste artigo, ressaltar algumas estra-
tégias empregadas pelos moradores ou profissionais da construção civil
contratados, seja para diminuir os custos da obra, seja para driblar os
problemas relativos ao espaço ou à drenagem.
Com isso, por outro lado, não queremos naturalizar ou desculpar
a ausência do Estado em cumprir seu papel constitucional de propor-
cionar moradia digna a seus cidadãos. Moradia num sentido ampliado,
compreendendo como nos apontara Raquel Rounik 1 que vivemos no
Brasil um déficit de cidade. Cabe ao Estado, ao menos, proporcionar a
infraestrutura urbana adequada, bem como o fornecimento de apoio
técnico especializado para a construção, de modo a proporcionar o
mínimo de conforto ambiental às novas habitações ou evitar possíveis
danos estruturais com a construção de novos pavimentos, por exemplo.

1
Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/node/10961/ Acesso em fev.2017.

304 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Ao contrário dos apartamentos em conjuntos habitacionais construídos
pelo Estado, as autoconstruções possuem uma possibilidade plástica mais
individualizada e cheia de camadas de investimentos afetivos e financeiros.
Ao analisar os processos construtivos característicos e usados na
Favela de Manguinhos, pudemos constatar as adaptabilidades constru-
tivas que marcam as habitações. Tanto a ausência de conhecimento téc-
nico, em alguns caso, quanto a necessidade de se configurar condições
para uso habitacional de uma região sem infraestrutura urbana propi-
ciam a qualificação dessas construções, como arquiteturas da adversi-
dade. Percebemos, conforme já apontara em seus estudos Carlos Nel-
son Ferreira dos Santos (1981), a importância de uma troca efetiva entre
saber local e técnicos profissionais na construção de espaços urbanos/
habitacionais menos desiguais.

Bibliografia
ALMEIDA, Wanderly J.M. de e CHAURTARD. FGTS, uma política de bem
estar social. José Luiz. Coleção Relatórios de Pesquisa IPEA, vol. 30, 1976.
Rio de Janeiro, IPEA/INPES.
BRASIL, LEI 4.380/64, 1964.
FATHY, Hassan. Construindo com o povo: Arquitetura para os pobres. São
Paulo: USP, 1980.
LTM/FIOCRUZ. Laboratório Territorial de Manguinhos / Fundação Oswaldo
Cruz. História do Bairro de Manguinhos. Disponível em: <http://www.
conhecendomanguinhos.fiocruz.br/?q=historias_manguinhos>
MARICATO, E., Autoconstrução, a arquitetura possível. In A produção capi-
talista da casa (e da cidade) no Brasil Industrial. 2ª edição. Editora Alfa-O-
mega, São Paulo, 1982.
NASCIMENTO, Denise Morado. A autoconstrução na produção do espaço
urbano, in MENDONÇA, Jupira Gomes de e COSTA, Heloísa Soares de
Moura (org) Estado e capital imobiliário: convergências atuais na produção
do espaço urbano brasileiro. Editora C/arte, 2011.
OSBORN, Catherine. A história das urbanizações das favelas, Parte I: 1897-
1988. Rio on Watch, 2013. Disponível em: <http://rioonwatch.org.br/?p=4676>.
Consultado em 01/2017.
SANTOS, Carlos Nelson Ferreira. Movimentos Urbanos no Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro: ZAHAR Editores, 1981.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 305
Desenvolvimento Informal. A importância
dos assentamentos informais na evolução
de cidades em países em desenvolvimento
J. M A R R A NA
Doutorando, investigador colaborador no CIAUD.

F. SER DOUR A
Professor Auxiliar, investigador efetivo no CIAUD.

Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitetura,

Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design

Resumo
Este trabalho proporciona uma revisão crítica quanto aos significados
de assentamentos “formais e informais”, bem como quanto ao papel que
esses territórios detêm na forma como as cidades de países em desenvol-
vimento lidam com o rápido crescimento da população urbana. Para
ilustrar essa avaliação, apresenta-se como caso de estudo a realidade de
um assentamento informal em Díli, Timor-Leste. Resultados iniciais
sugerem que as diferenças entre “formalidade” e “informalidade” resi-
dem em quatro características-chave: Dimensão, Recursos, Determina-
ção e Reconhecimento. É defendido que a coexistência entre a cidade
formal e informal é possível e necessária, pois os assentamentos infor-
mais são territórios de oportunidade que proporcionam habitação de
baixo custo e acesso a trabalho a migrantes, proporcionando às cidades
uma força de trabalho jovem e resiliente. O caso de estudo corrobora as
conclusões, estabelecendo uma correlação forte entre os movimentos
rural-urbano e o crescimento da “informalidade” na área analisada.

Palavras-Chave
Países em Desenvolvimento; Cidade; Assentamento Informal;
Evolução; Díli.

306 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
A expansão de aglomerados clandestinos figura como um dos maiores
desafios das cidades em países em desenvolvimento. O crescimento des-
ses assentamentos advém do acelerado e continuo crescimento popula-
cional motivado por intensas deslocações do campo para a cidade. Consi-
derando que o mercado imobiliário formal nos países em desenvolvimento
apenas disponibiliza 20% da oferta de habitação (Davis, 2007), não sur-
preende que aproximadamente um bilião de pessoas atualmente residam
em assentamentos informais, devendo esse número duplicar até 2030
(UN-Habitat, 2013; Neuwirth, 2006; Davis, 2007).
O objetivo deste trabalho é de proporcionar uma revisão crítica quanto
aos significados e contributo dos assentamentos informais no desenvolvi-
mento das cidades, em países em desenvolvimento. Explora-se também a
relação simbiótica entre os conceitos de “formalidade” e “informalidade”,
relacionando-os com evolução espacial destes aglomerados clandestinos.
Para tal, recorre-se à apresentação de uma extensa revisão literária
investigando jornais e revistas especializadas, atas de conferências e
livros de autores acreditados. Para atestar os resultados e o argumento, é
apresentado como caso de estudo um assentamento informal localizado
em Díli, capital de Timor-Leste.
Os resultados preliminares sugerem que as definições referentes à
“cidade informal” realçam os seus aspetos negativos, nomeadamente as
dificuldades e privações da população que nelas residem, ignorando qua-
lidades como resiliência, criatividade e diversidade. Os resultados sugerem
ainda que as principais diferenças entre “formalidade e informalidade”
consistem de quatro características-chave: Dimensão, que representa a
extensão dos problemas existentes; Recursos, que representam a disponibi-
lidade de meios para resolverem esses problemas; Determinação, caracte-
riza o interesse social e político em abordar esta problemática; e Reconhe-
cimento, que expressa a aceitação das sociedades quanto à informalidade.
É defendido que a coexistência entre a “cidade informal e formal” é
possível e necessária, pois estes aglomerados clandestinos são territó-
rios de oportunidade para populações migrantes, proporcionando-lhes
alojamento económico e acesso ao mercado de trabalho, e proporcionam
a cidade formal com uma força de trabalho jovem, criativa e resiliente.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 307
O caso de estudo confirma as descobertas, estabelecendo uma relação
entre as deslocações do campo para a cidade, de uma população predomi-
nantemente jovem, e o crescimento de habitações clandestinas, na área
de estudo durante um período de oito anos (aproximadamente 382%).

Enquadramento Teórico
Kostof (2009) considera que existem dois tipos de cidade. O primeiro é
a cidade planeada e desenhada cujo desenvolvimento é supervisionado
por autoridades competentes, que podemos entender como “cidade for-
mal”. O outro tipo é a cidade espontânea, caracterizada pela ausência de
desenho e inexistência de regras e regulamentos (Kostof, 2009) e que
poderemos entender como a “cidade informal”.
A existência de assentamentos informais nas cidades tem aumentado
nas últimas décadas nos países em desenvolvimento, resultado do seu
acentuado crescimento populacional, das assimetrias económicas mun-
diais e de migrações do campo para a cidade. As cidades surgem como
territórios “novos” e estimulantes, terras de oportunidade com melhor
remuneração, educação, acesso a cuidados de saúde, e maiores oportu-
nidades de envolvimento cívico e social (Nações Unidas, 2014).
Em 2012, aproximadamente um bilião de pessoas residia em aglome-
rados clandestinos existentes nas cidades de países em desenvolvimento
(UN-Habitat, 2013), um valor que deverá duplicar até 2030 (UN-Habitat,
2013; Neuwirth, 2006; Davis, 2007).
Serão estas “cidades informais” tão diferentes das “cidades formais”?
O que as distingue? Tais questões serão abordadas neste capítulo com o
intuito de proporcionar uma revisão crítica quanto às particularidades e
significados dos assentamentos informais e de explorar a relação simbi-
ótica entre os conceitos de “formalidade” e “informalidade”. Os parâme-
tros e padrões de desenvolvimento territorial associados à evolução dos
assentamentos informais serão igualmente analisados, proporcionando
uma análise crítica quanto à complexidade e significado destas áreas
urbanas, e uma reflexão sobre a evolução e importância destes aglome-
rados clandestinos nas urbes de países em desenvolvimento.

308 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Formalidade e Informalidade
Serdoura e Marrana (2015) referem que “formalidade” pode ser enten-
dida como um conceito oficial e necessário, que cumpre com uma suces-
são de convenções, costumes, normas e regulamentos instituídos, de
natureza pública e oficial, sendo por tal reconhecidos. O conceito de
“informalidade” pode ser entendido como o oposto desta definição.
Para aplicar estes conceitos a uma organização social e espacial, tor-
na-se necessário selecionar expressões que as referenciem adequada-
mente aos conceitos discutidos.
Quanto ao conceito de “formalidade”, considera-se que a expressão
mais adequada é “cidade” pois a maioria das definições conhecidas asso-
ciam esta expressão a ordem, desenho, planeamento e governança. O
conceito de “informalidade” é mais complexo sendo-lhe associadas inú-
meras expressões e descrições que possibilitam uma diversidade de inter-
pretações. Tal advém da relatividade do conceito que é difícil de definir
recorrendo apenas a um único parâmetro. Apesar da variedade e particu-
laridade de expressões existentes, considera-se a expressão “bairro-da-la-
ta”1 como a mais adequada para representar o conceito de “informalidade”
dado ser insistentemente mencionada por nações e organizações mun-
diais2 quando abordam esta temática. Tendo selecionado “cidade” e “bair-
ro-da-lata” como expressões associadas aos conceitos de “formalidade” e
“informalidade”, vejamos como diferentes autores as entendem.
Mumford (1937), descreve “cidade” como uma organização institucio-
nal, espacial, económica e social, símbolo do trabalho e determinação da
humanidade. As Nações Unidas (2007) consideram que as cidades são
áreas densamente construídas e povoadas. Kostof (2009) define igual-
mente “cidade” como uma organização institucional, espacial, económica
e social, incluindo características importantes como história, património,
identidade, criatividade, cultura e supremacia na sua definição.
Relativamente a “bairro-da-lata”, para a Cities Alliance (1999) estas
são áreas urbanas negligenciadas e segregadas, densamente construí-
das e povoadas, que proporcionam habitação precária a uma população

1
Tradução livre de “Slum(s)”.
2
Banco Mundial, Nações Unidas, Organização para Agricultura e Alimentação.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 309
predominantemente jovem. As Nações Unidas (2007) descrevem “bair-
ro-da-lata” como “um grupo de indivíduos vivendo sob o mesmo teto em
uma área urbana que não tem (...) condições” 3. Kostof (2009) considera
que tais aglomerados são áreas clandestinas e não planeadas, construí-
das em zonas perigosas, localizadas na periferia das cidades.
Verifica-se que as definições de “cidade” centram-se sobretudo nos
aspetos positivos, enaltecendo as suas qualidades e menosprezando os
seus problemas e privações. As definições de “bairro-da-lata”, pelo con-
trário, destacam os aspetos negativos, as suas dificuldades e problemas,
desconsiderando os seus aspetos positivos como a diversidade, resiliên-
cia e criatividade. Como características comuns ambas as expressões são
descritas como sendo áreas urbanas densamente construídas e povoadas.

Parâmetros de Evolução
De acordo com Galster et al. (2001), definimos, mapeamos e medimos as
configurações espaciais e estrutura das cidades ao longo do tempo, com
a intenção de determinar as causas e consequências do seu desenvolvi-
mento. A evolução da ocupação do solo, da densidade e da fragmentação
pode ser explicada por variações demográficas, disponibilidade de solo
para construção, e pela área de construção das habitações (Brueckner,
1987; Angel, 2012).
Cidades com níveis mais elevados de desigualdade provavelmente
ocuparão mais solo e terão densidades mais reduzidas, uma condição
usualmente verificada em áreas urbanas ocupadas por assentamentos
informais (Angel, 2012 apud Wheaton, 1976).
Angel (2012) identificou atributos referentes às cidades que propor-
cionam uma perspetiva relativamente abrangente sobre como estas se
expandiram e ocuparam o território ao longo do tempo. Um desses atri-
butos é a ocupação do solo, que determina o índice de construção/ocupa-
ção num determinado território. O atributo referente a densidade popula-
cional resulta da relação entre a população existente e uma determinada
área. A fragmentação ou dispersão territorial decorre da relação entre a

3
Tradução livre de “a group of individuals living under the same roof in an urban area
who lacks (…) conditions”

310 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
estrutura espacial e a quantidade de espaços abertos, fragmentados por
expansão não-contígua. Uma vez que tais atributos medem diferentes
singularidades, a correlação entre eles é tipicamente fraca (Angel, 2012).
Uma cidade, como um organismo vivo, está em constante estado de evo-
lução, impondo mudanças frequentes no seu tecido urbano (Lamas, 2000).
Lynch (2010) entende que tais mudanças são parte ativa do desenvolvimento
da forma urbana e que, quando apressado pode causar perturbações origi-
nando instalações e instituições incapazes de responder adequadamente às
necessidades dos cidadãos, contribuindo assim para um possível estado de
regressão. A forma da cidade deve ser entendida com um processo nego-
ciado e mutável (Kostof, 2009), no qual o tempo é uma característica chave
na compreensão do desenvolvimento das urbes. Esta evolução é geralmente
alcançada pela expansão ou ajuste do seu tecido urbano (Lamas, 2000).
Coelho et al. (2014) considera que a evolução de um dado território decorre
da existência e humanização de uma ocupação anterior, considerando que é
o movimento verificado pela ocupação urbana, sua ordem e forma, que se
pretende estudar. Para tal, três procedimentos devem ser considerados.
O primeiro, o processo de adição, representa a combinação de novos ele-
mentos com o tecido existente, podendo-se considerar as seguintes variá-
veis: a adição básica, na qual um elemento urbano individual prevalece sobre
o conjunto; a adição por extensão, que consiste na reprodução do tecido
urbano existente; e a adição por justaposição, que envolve a implementa-
ção de um novo desenho, que apesar de distinto se relaciona com o tecido
preexistente. O segundo procedimento refere-se ao processo de sobrepo-
sição, resultante da intervenção de uma autoridade coletiva robusta, e que
geralmente ocorre quando há uma intenção forte de reestruturar o tecido
urbano existente. Por último, o processo de sedimentação, corresponde ao
resultado de movimentos entre parcelas e elementos adicionais existentes
no espaço público. A tensão entre estes dois elementos reconfigura lenta-
mente o tecido urbano durante um período de tempo extenso.

Resultados
Os resultados preliminares sugerem que os conceitos de “formalidade” e
“informalidade” são essencialmente opostos, tendo em comum um redu-
zido número de características. No entanto, esta análise é mais complexa,
uma vez que estes conceitos possuem mais semelhanças do que antecipado.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 311
Embora não sendo identificado como uma semelhança entre concei-
tos, os residentes em “bairros-da-lata” têm direta e indiretamente con-
tribuído para uma melhoria na cultura à escala mundial (UN-Habitat,
2003). Fome, pobreza, crime e exclusão social, são estigmas também
presentes na “cidade formal”. A existência de uma economia paralela
é outra preocupação partilhada por ambos os conceitos. A degrada-
ção ambiental verificada nas cidades, causada por emissões de CO2, é
comparável aos desafios da cidade informal relativamente à ausência
de saneamento e recolha de lixo. Também no planeamento existem
semelhanças conhecidas, dado que nem todos os assentamentos de
génese informal se mantiveram assim. Inicialmente construído como
um bairro clandestino, Pampa de Comas, localizado na cidade de Lima,
no Peru, é atualmente um “bairro formal”.
Quanto à evolução espacial dos assentamentos informais, esta é
essencialmente impulsionada pelo crescimento da população, resultado
de deslocações do campo para a cidade e pela crescente ocupação do
solo decorrente desse crescimento, originando uma redução na área de
construção das habitações. A maioria destes ocupantes ilegais constrói
as suas residências na periferia das cidades, em colinas instáveis, junto a
rios e lagos, em aterros sanitários, e/ou em áreas ambientalmente sensí-
veis e protegidas simplesmente porque não dispõem de outro sítio para
viver. A expansão territorial destes assentamentos resulta sobretudo de
processos de adição, seja por extensão e/ou justaposição do seu tecido
urbano, um método igualmente verificado nas áreas urbanas formais.
Considerando estas explicações, é possível argumentar que as prin-
cipais diferenças entre “formalidade e informalidade” consistem em
quatro características-chave: Dimensão, que representa a extensão dos
problemas sociais, económicos, ambientais e territoriais existentes e que
se fazem sentir de forma bastante mais intensa nas “cidades informais”;
Recursos, que representam a disponibilidade de meios para resolverem
tais problemas; Determinação, caracteriza o interesse social e político em
abordar esta problemática; e Reconhecimento, que expressa a aceitação
das sociedades relativamente ao conceito de informalidade, não como
algo a declinar, mas a enfrentar como um novo desafio urbano, tendo em
vista a construção de cidades mais inclusivas, criativas e resilientes.

312 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Caso de Estudo
Localizada no subdistrito de Dom Aleixo, 8 km a oeste do centro de Díli,
Tasitolu é uma área predominantemente residencial com comércio (oficinas,
mercearias e cafés), serviços e equipamentos religiosos e de educação. A área,
maioritariamente plana, é confrontada a norte pelo mar de Sava e a este, sul
e oeste por colinas bastante íngremes. Tasitolu é conhecida pela sua fauna e
flora (pastagens, lagos de água salgada e avifauna existente), seus monumen-
tos, mas também pelas inúmeras casas ilegalmente construídas.
A intenção do caso de estudo é demonstrar a relação entre movimen-
tos rural-urbano existentes e a construção de habitações informais den-
tro da área de estudo, com o intuito de compreender o impacto que tais
migrações detiveram na evolução do território. Para tal, procedeu-se a
uma análise cuidada de informação disponibilizada (documental, grá-
fica e entrevistas) e de informação recolhida (revisão literária).
A análise incide sobre uma área com aproximadamente 620,0ha, na
qual foram identificados diferentes usos do solo (fig.1).

Fig.01 | Área de estudo (2014).


Fonte: Gustavo da Cunha, Profico Ambiente e Profico (Adaptado).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 313
O solo ocupado com construção (áreas construídas) tem uma área de
aproximadamente 133,2ha, sendo o território remanescente ocupado por
áreas florestais e agrícolas, matagal e prados, lagos e margens e áreas
recreativas e de equipamentos (fig.2). Através da análise de quatro ima-
gens de satélite provenientes do Google Earth, com intervalos de dois e
três anos, durante um período de oito anos, foi possível identificar as
áreas construídas e determinar a sua área de ocupação. Através da utili-
zação de um levantamento aerofotogramétrico (datado de Agosto de
2014) em conjunto com dados demográficos 4 , e recurso a programas de
desenho assistido por computador (CAD e SIG), foi também possível
determinar o índice de ocupação do solo e a densidade populacional,
tendo ainda sido analisadas a taxa de crescimento populacional e a área
média por habitação. Para a finalidade do estudo, tais parâmetros foram
determinados recorrendo quer ao solo ocupado com construção quer à
área total de estudo.

Fig.02| Classes de uso do solo identificadas.


Fonte: Gustavo da Cunha, Profico Ambiente e Profico (Adaptado).

4
Total da população (determinada de acordo com dimensão do agregado familiar);
Total de residências; Total de área construída (pavimento, coberturas e terraços);
Idade média; Taxa de crescimento; Distribuição por grupo de idades; Distribuição por
distrito e local de nascimento; Distribuição por distrito e motivos para migração.

314 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Em Setembro de 2006, existiam aproximadamente 1.064 residências na
área analisada e que ocupavam aproximadamente 87.500,0m2 de área de
solo, o que se traduz em uma área média por habitação de 82,2m2. Consi-
derando a dimensão do agregado familiar em Díli5, foi possível determi-
nar que aproximadamente 6.873 pessoas viviam na área. O índice de ocu-
pação do solo era de 6,6% em relação às áreas construídas e de 1,4% em
relação à área total de estudo. A densidade populacional era de 52 habi-
tantes/ha nas áreas construídas e de 11 habitantes/ha na área total de
estudo. Percebe-se também que apenas as áreas a norte dos lagos e junto
da estrada principal estavam ocupadas com novas construções (fig.3).
Entre Setembro de 2006 e Julho de 2009, 430 novas habitações foram
construídas, ocupando uma área aproximada de 28.000,0m2 (área
média por habitação de 65,1m2) e 2.778 novos residentes foram identifi-
cados (aproximadamente 40% de crescimento). O índice de ocupação do
solo aumentou para 8,7% nas áreas construídas e para 1,9% na área total
de estudo. A densidade populacional cresceu para 85 habitantes/ha nas
áreas construídas e para 16 habitantes/ha na área total de estudo. Estas
novas residências foram construídas a norte dos lagos, junto da estrada
principal, e também a sul dos lagos, próximo das colinas (fig.4).
Entre Julho de 2009 e Outubro de 2011, 960 novas residências foram
construídas, ocupando uma área aproximada de 50.843,0m 2 (área média
por habitação de 53,0m2) e 6.201 novos residentes foram identificados
(aproximadamente 64% de crescimento populacional). O índice de ocu-
pação do solo aumentou para os 12,5% nas áreas construídas e para os
2,7% na área total de estudo. A densidade populacional cresceu para 119
habitantes/ha nas áreas construídas e de 26 habitantes/ha na área total
de estudo. Além das áreas a norte do lago e da estrada principal, durante
este período foi possível identificar uma maior ocupação do solo a sul
dos lagos e nas colinas (fig.5).

5
6.46 Residentes / habitação.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 315
Fig.03 | Evolução Urbana – Anterior a Setembro 2006.
Fonte: Gustavo da Cunha, Profico Ambiente e Profico (Adaptado).

Fig.04 | Evolução Urbana – Setembro 2006 / Julho 2009.


Fonte: Gustavo da Cunha, Profico Ambiente e Profico (Adaptado).

316 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Fig.05 | Evolução Urbana – Julho 2009 / Outubro 2011.
Fonte: Gustavo da Cunha, Profico Ambiente e Profico (Adaptado).

Por último, entre Outubro de 2011 e Maio de 2014, 1.613 novas residências
foram construídas, com uma área de ocupação aproximada de 64.264,0m2
(área média por habitação de 39,8m2) e 10.420 novos residentes foram iden-
tificados (acima de 65% de crescimento populacional). O índice de ocupa-
ção do solo aumentou para 17,3% nas áreas construídas e 3,7% na área total
de estudo. A densidade populacional cresceu para 197 habitantes/ha nas
áreas construídas e para os 42 habitantes/ha na área total de estudo.
Neste período os terrenos que confrontam os lagos a sul foram predo-
minantemente ocupados pelas novas habitações (fig.6).
Durante esses oito anos, verifica-se que o tecido urbano evoluiu quase
exclusivamente quer pela adição de novos elementos quer pela implemen-
tação de novos traçados ligados ao tecido urbano existente (justaposição).
Além disso, identifica-se nos assentamentos a norte da estrada prin-
cipal perto do mar de Sava, uma pequena evolução por adição através da
reprodução do tecido envolvente. A maioria das habitações clandestinas
foi construída junto das margens dos lagos e nas colinas, com o objetivo
de “desaparecer” da vista do público e de evitar ou reduzir a probabili-
dade de ações despejo por parte das autoridades locais.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 317
Em Maio de 2014, existiam 4.067 habitações na área de estudo que
serviam de residência a 26.272 pessoas. Um crescimento de aproxima-
damente 382% em oito anos. Durante este período, a área de ocupação
do solo aumentou de 87.500,0m2 para 230.607,0m2, um crescimento de
mais de 260%. De facto, entre Outubro de 2011 e Maio de 2014, foram
construídas mais habitações e mais pessoas se fixaram neste território
do que nos dois primeiros períodos identificados.

Fig.06 | Evolução Urbana – Outubro 2011 / Maio 2014.


Fonte: Gustavo da Cunha, Profico Ambiente e Profico (Adaptado).

Conclusão
Actualmente, os ocupantes ilegais são possivelmente os maiores cons-
trutores de habitação em todo o mundo e estão assim a criar as cidades
do “futuro” (Neuwirth, 2006). Constroem as suas casas clandestina-
mente, em aglomerados informais, simplesmente porque não têm con-
dições para pagar uma habitação oficial. Os assentamentos informais
proporcionam habitação de baixo custo a todos os segmentos da popu-
lação, de operários a administrativos (Angel, 2012). Para os seus ocupan-
tes, esses não são apenas territórios onde temporariamente residem na
clandestinidade. Para esses habitantes, na sua maioria imigrantes

318 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
rurais, estas são habitações permanentes, representativas da sua pro-
gressão social e da melhoria das suas condições de vida.
Ao longo de oito anos, Tasitolu tem sido progressivamente ocupada
com novas construções de carácter ilegal, maioritariamente construídas
em terrenos do estado, resultado de intensos fluxos migratórios do inte-
rior rural para a cidade de Díli. Trata-se de uma população jovem6 que se
desloca para a cidade na procura de melhor educação (30%), melhores
oportunidades de emprego (21%), ou simplesmente acompanhou a famí-
lia (32%). Considerando uma taxa média anual de 2,8% 7 de crescimento
populacional, para o período estudado, verifica-se que a população total
na área de intervenção seria apenas de 8.600 habitantes distribuídos por
1.331 residências, ou seja, um terço do valor verificado. Quanto à área
média de ocupação das habitações, verifica-se que em oito anos este
valor decresceu de 82,2m2 para 39,8 m2 por residência.
Para reduzir a probabilidade imediata ou futura de despejo por parte
das autoridades, a maioria destas habitações ocuparam terrenos conside-
rados desadequados para construção. Muitas destas construções clandes-
tinas já detêm registo de propriedade, proporcionando-lhes a segurança
e confiança necessárias para melhorarem as condições de habitabilidade
das suas habitações e consequentemente a sua qualidade de vida.
Estes resultados corroboram o argumento de que a evolução territorial
dos assentamentos informais é maioritariamente impulsionada pelo cres-
cimento populacional, resultante da vinda de população do campo para a
cidade em busca de melhores condições de vida e oportunidades de trabalho.
Podemos ainda concluir que tal evolução é também impulsionada
por uma maior ocupação do solo, decorrente da crescente construção de
novas unidades habitacionais, de menor dimensão e ajustadas à malha
urbana existente.
É defendido que a coexistência entre a cidade formal e informal é pos-
sível e mesmo necessária, pois estes aglomerados clandestinos são terri-
tórios de oportunidade para populações migrantes, disponibilizando alo-

6
A idade média da população em Timor-Leste é de 18,3 anos. Em Díli,
aproximadamente 73% da população tem menos de 30 anos e 45% dos residentes
nasceram noutro distrito ou país.
7
Relação entre a taxa de crescimento da população em 2004 (3.2%) e 2010 (2.4%).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 319
jamento económico e acesso ao mercado de trabalho, e proporcionando
a cidade formal com uma força de trabalho jovem, produtiva e resiliente.
Esta relação simbiótica, que perdura no tempo, tem contribuído de
forma activa e positiva para a construção de cidades mais inclusivas e
criativas, em particular em países em desenvolvimento.

Agradecimentos
Os autores agradecem às empresas Gustavo da Cunha, Profico Ambiente
e Profico a informação cedida para a elaboração deste trabalho.

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320 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 321
Dinâmicas Territoriais:
experiências de monitorização e avaliação
ao nível local em Portugal
A N TÓNIO R IBEIRO A M A DO
CIAUD – Centro de investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design.

Faculty of Architecture. University of Lisbon, Portugal; GEOTPU. Lab – Research Group

in Spatial and Urban Planning. Instituto Superior Técnico. Lisboa, Portugal

CR IST INA C AVACO


CIAUD – Centro de investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design.

Faculty of Architecture. University of Lisbon, Portugal

Resumo
A investigação analisa, no âmbito do sistema de planeamento territorial
Português, experiências de monitorização e avaliação realizadas à escala
local focando-se na figura do Relatório de Estado do Ordenamento do
Território (REOT).
A falta de informação e a inconsistência de mecanismos de avaliação
regular e sistemática tem inviabilizado uma tomada de decisão infor-
mada, oportuna e sustentada nas reais dinâmicas territoriais e tendên-
cias socioeconómicas, em prejuízo da eficiência e eficácia do processo de
planeamento Português.
Este panorama leva a que seja premente o desenvolvimento de uma
ferramenta de acompanhamento ativa da dinâmica urbanística. Este
acompanhamento deve ser feito em termos estratégico-operativos, com
base na capacidade de resposta real dos municípios e perspetivando a
criação de um sistema de observação harmonizado a nível nacional.
Procura-se dar um passo metodológico no acompanhamento, recolha
e processamento de informação de âmbito local de forma agregável e
harmonizável, reforçando a territorialização destas políticas, ao encon-
tro das orientações Europeias também veiculadas no Portugal_2020.
A investigação torna claro que o acompanhamento sistemático das
dinâmicas territoriais potencia a realização de ajustes de trajetórias e a
avaliação dos desvios ao modelo previsto. Em paralelo, garante a recolha
de informação necessária, legitima opções de planeamento e disponibi-
liza bases para participação pública.

322 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Palavras-Chave
Dinâmicas Territoriais; Monitorização e Avaliação; Ordenamento do
Território; Aprendizagem; Inovação Institucional; Portugal.

Introdução e Enquadramento
A crescente incerteza inerente ao processo de ordenamento do território
(OT), em parte introduzida pela aceleração da vida moderna e pelo
desenvolvimento tecnológico, exige práticas de planeamento reativas,
com flexibilidade e capacidade de adaptação à volatilidade das conjun-
turas socioeconómicas e aos seus reflexos, cada vez mais imprevisíveis,
nas dinâmicas do território.
Por este motivo, o OT tem vindo a fortalecer, por um lado a sua vertente
estratégica orientada para o desenvolvimento territorial (Hall & Tewdwr-
-Jones, 2010), em detrimento de uma vertente mais reguladora ligada sobre-
tudo à programação do uso do solo (Albrechts, 2004; Ferrão, 2011), e, por
outro lado, uma componente de acompanhamento (Prada & Pereira, 2010),
designadamente através do reforço de ações e instrumentos de monitoriza-
ção e avaliação da implementação de planos e políticas (Ferrão & Mourato,
2010; Oliveira & Pinho, 2010), capazes de medir o pulsar do território e suas
dinâmicas (Linderberg & Dubois, 2014) e, assim, ajustar as medidas de polí-
tica e as opções de planeamento a essa realidade.
O território revela-se um organismo heterogéneo, instável e em cons-
tante mutação (Partidário, 1999). Exige, por isso, um questionar e refle-
xões permanentes sobre a complexidade das mudanças que vão ocor-
rendo e o seu impacto no território (Prada & Pereira, 2010).
As dinâmicas territoriais tornam-se, assim, objeto primordial de aná-
lise, refletindo a transformação do território, não o entendendo como
um simples recetáculo mas também como elemento gerador e transfor-
mador da realidade existente (Azaïs, 2000).
Centrando-se no instrumento previsto no quadro legislativo portu-
guês – o relatório de estado de ordenamento do território (REOT) -, a
investigação analisa experiências de monitorização e de avaliação ao
nível local, enquadradas no Sistema de Gestão Territorial Português
(SGTP), identificando os seus fatores críticos de sucesso e insucesso.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 323
Atualmente, várias autarquias desenvolvem ações de monitorização
e avaliação na esfera do OT, fazendo-o no quadro da obrigação prevista
na lei (Ferrão & Mourato, 2010). Porém, estas ações são conduzidas, na
sua maioria, sem uma base metodológica que perspetive a agregação
da informação a uma escala superior, comprometendo leituras globais e
avaliações à escala regional e nacional.
Neste contexto, os casos de estudo analisados procuram a identifi-
cação de elementos e procedimentos de monitorização e avaliação que
se possam considerar transversais. São focados vários aspetos entre os
quais o âmbito, incidência, momento, indicadores, participação pública,
resultados, comunicação de resultados, entre outros.
Este artigo estrutura-se em 4 partes. A primeira descreve resumi-
damente a metodologia adotada na análise dos casos de estudo. Na
segunda, são apresentados os casos de estudo identificando para cada
um, algumas das suas principais características.
As terceira e quarta partes, referem-se à apresentação dos resultados
das análises efetuadas, da discussão que estes geram e as conclusões que
são possíveis retirar desta análise.

Metodologia de Investigação
O processo de investigação inicia-se com uma análise relativa ao estado
do conhecimento e com a análise do caso de estudo, seguindo-se a res-
petiva discussão e conclusão.
A análise do caso de estudo estrutura-se segundo duas dimensões – o
REOT como um elemento individual; e o REOT como parte de um conjunto.
Os casos selecionados são analisados, numa primeira instância, enquanto
entidades individuais, analisando-se o seu âmbito, incidência, momento,
estrutura, indicadores, resultados, comunicação de resultados, entre outros.
Esta análise dá origem a um conjunto de dados que são posterior-
mente colocados numa matriz para que possam ser cruzados, permi-
tindo a análise dos casos de estudo enquanto parte de um conjunto.
Aqui, é possível a identificação dos elementos de monitorização/avalia-
ção agregáveis ou comuns aos REOT analisados, contribuindo para a
definição de um conjunto de indicadores locais, para a monitorização
uniformizada das dinâmicas territoriais a nível nacional.

324 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Caso de Estudo
Atendendo ao carácter transversal da política e ao facto de estar fora das
competências formais da União Europeia, a avaliação em OT tem tido
uma aplicação tardia e algo errática em Portugal, ainda que consagrada
no respetivo quadro legal desde há praticamente duas décadas (1998)
(Ferrão & Mourato, 2010).
No âmbito local, este processo tem estado intimamente relacionado
com o grau de implementação e execução instrumentos de gestão ter-
ritorial municipais (Prada, 2008), centrando-se na elaboração de um
REOT, por parte das Câmaras Municipais, que reflete o desenvolvi-
mento territorial em diversos momentos e exprime o balanço entre a
execução dos instrumentos de gestão territorial (IGT) e os seus níveis de
coordenação interna e externa.
Existem várias experiências de produção de REOT municipais em
Portugal. Estas experiências não são homogéneas em termos de pro-
cesso e conteúdos. Focam vários aspetos e apresentam objetivos distin-
tos, não sendo possível balizar de forma restrita e uniforme todas as
matérias de análise e os componentes apresentados.
A produção de REOT nesta escala tem vindo a aumentar de forma
significativa devido ao reforço do seu papel na recente revisão do qua-
dro legal e regulamentar. Porém, estes ainda não cobrem na íntegra o
território nacional.
Foram analisados os seguintes REOT:
REOT Aguiar da Beira: trata-se de um documento intitulado de REOT
(2014) informando, através de uma manobra jurídica, que o REOT de
Aguiar da Beira apenas será realizado em 2019 (Aguiar da Beira, 2014).
Revela que ainda se verificam administrações locais que não consideram
relevante e de interesse municipal o REOT e que justificam a sua elabo-
ração e existência não devido às qualidades que este pode introduzir no
processo de OT, mas sim por se tratar de uma imposição legal.

REOT Almada: não dispõe de um documento intitulado REOT, sendo o


acompanhamento do desenvolvimento territorial feito através de um
relatório de avaliação da execução do PDM e de identificação de fatores
de evolução (Almada, 2008). É um relatório completo e com facilidade

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 325
de leitura e interpretação, com uma análise detalhada e com fontes de
informação diversas, muitas delas de produção local nos vários departa-
mentos de especialidade. Analisa a evolução e dinamismo dos indicado-
res utilizados. Porém, em certos aspetos, carece de uma base territorial
para a sua apresentação e futura agregação. Como resultado, são defini-
dos critérios de sustentabilidade e objetivos de desenvolvimento, ainda
que sem qualquer tipo de indicadores associados, na perspetiva de
monitorização e acompanhamento desse desenvolvimento.

REOT Amadora: elaborado em 2007 e 2014, muito conectado com a


monitorização da vigência do PDM e com a realização dos seus objetivos
(Amadora, 2007, 2014). Estabelece, no final de cada eixo de análise, um
quadro de referência e uma matriz SWOT que suporta a adaptação da
estratégia de desenvolvimento municipal e fundamenta a revisão dos
IGT. O relatório de 2014 é complementado por um documento extra,
sumário executivo, com vista a facilitar a leitura de conclusões da aná-
lise e utilização dos resultados (Amadora, 2014).

REOT Alfândega da Fé: não dispõe de um documento intitulado REOT,


mas de um relatório de avaliação do PDM e da evolução das condições
municipais (Alfândega da Fé, 2008). Estabelece uma análise das dinâmi-
cas territoriais através da evolução dos indicadores de caracterização do
concelho. Introduz uma reflexão relativa aos hábitos de planeamento do
município e ao historial do processo de planeamento por parte da admi-
nistração local. Identifica situações em que um acompanhamento mais
próximo do OT poderia ter beneficiado a intervenção territorial, e tam-
bém as limitações do corpo técnico, de articulações existentes na estru-
tura orgânica e seu funcionamento.

REOT Covilhã: não dispõe de um documento intitulado REOT. Dispõe


do relatório de avaliação do PDM, marcado pela escassez de dados e
informação de base territorial atualizada e cobrindo todo o município.
Partilha muita da informação constante no relatório de caracterização,
não sendo clara a leitura dos efeitos da implementação das políticas
públicas e das dinâmicas resultantes, devido à informação existente.
REOT Lourinhã: elaborado em 2011, direcionado para a análise da dinâ-

326 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mica urbanística e do respetivo grau de concretização, focando aspetos
como a consolidação do espaço urbano e urbanizável. O estado do terri-
tório é analisado em cinco sectores: mobilidade; infraestrutura; povoa-
mento e coesão urbana; áreas sensíveis, condicionantes e riscos; ativida-
des económicas (Lourinhã, 2011).

REOT Moita: elaborado em 2013, é o 1º REOT do município e organiza-se


por períodos. A década de revisão do 1º PDM (2000-2010) e o primeiro bié-
nio de implementação do 2º PDM (2010-2012). Analisa as várias dinâmicas
territoriais, porém um pouco incoerente no ponto de vista conclusivo e na
orientação estratégica. Se, por um lado, se descreve as implicações do
abrandamento da economia no território, exigindo o repensar do modelo
de desenvolvimento em certos sectores, por outro lado, considera-se que a
Carta Estratégica Moita (2010) continuará a assumir-se como o documento
de referência estratégica para as próximas décadas (Moita, 2013).

REOT Oeiras: não dispõe de um documento intitulado REOT, surgindo


na forma de relatório de avaliação do PDM. É um documento complexo
e detalhado, com informação atualizada e oriunda de fontes diferentes,
tendo alimentado e sido alimentado pelo departamento de SIG munici-
pal. Analisa os PMOT e o desenvolvimento territorial do município, ter-
minando com conclusões e orientações para o processo de monitoriza-
ção (Oeiras, 2012).

REOT Sertã: não dispõe de um documento intitulado REOT, surgindo


na forma de relatório de avaliação do PDM, e marcado pela escassez de
dados e informação de base territorial atualizados. Em muitos dos aspe-
tos analisados nota-se uma clara dependência e recurso aos dados dis-
ponibilizados pelo INE para suprir a falta de informação que poderia ser
produzida a nível municipal.

REOT Setúbal: elaborado em 2004, no âmbito da revisão do PDM, e


organizado por seis sectores: população, habitação e aspetos sociais;
acessibilidades e comunicações; saneamento e ambiente; atividades eco-
nómica; urbanismo; servidões e restrições de utilidade pública (Setúbal,
2004). Define um conjunto de indicadores que permite analisar algumas

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 327
de dinâmicas resultantes do desenvolvimento territorial, nomeada-
mente ao nível da dinâmica demográfica e urbanística (Lopes, 2011).

De entre os vários casos de estudo, foram selecionados os REOT de Alca-


nena, Alfandega da Fé, Almada, Alter do chão e Amadora para a criação
de uma matriz que possibilitou a análise à definição e indicadores, fon-
tes de informação e datas de referência (recolha de dados).
Esta matriz organiza os vários indicadores presentes nos 5 REOT
analisados e identifica para cada indicador:
• categoria atribuída no REOT;
• se trabalha com informação de base territorial;
• se é apresentado no REOT numa base territorial e espacializado;
• unidade/s com que é trabalhado;
• detalhe e abrangência da informação;
• âmbito da recolha;
• intervalo/periodicidade de recolha;
• fonte/s utilizadas;
• data da fonte (divulgação);
• data dos dados utilizados;
• municípios que utilizam o indicador nos seus REOT.

Análise de Resultados
Os REOT analisados são bons exemplos de práticas de monitorização
em ordenamento território à escala local, embora se verifiquem pouco
uniformizados, o que compromete uma leitura e comparação a escalas
superiores. Os relatórios são bastante diversos na sua estrutura e orga-
nização, bem como na definição de indicadores, fontes e regularidade na
recolha de informação, o que dificulta a identificação de elementos e
procedimentos de monitorização e avaliação que se possam considerar
como transversais.
No entanto, ao nível do seu âmbito, incidência e momento de elabora-
ção verifica-se a predominância de ações de avaliação ex-post apoiadas
nos processos de revisão do PDM, ou seja, num momento pós-vigência
do PMOT e focado na avaliação da sua execução, mais do que assumindo
uma postura de monitorização assídua e permanente das dinâmicas do
território e de avaliação do ordenamento e desenvolvimento territorial.

328 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Relativamente aos indicadores, fontes e datas de referência, verifi-
cou-se através da matriz elaborada com base nos 5 REOT selecionados
que estes são por norma definidos a nível municipal e, na sua maioria,
sem a perspetiva de uma possível agregação a escalas superiores, em
parte devido à inexistência de um suporte metodológico disponibilizado
às autarquias para a recolha e tratamento deste tipo de informação.
De entre estes 5 REOT identificaram-se 291 indicadores do ordena-
mento território distintos, dos quais 67% (194 ind.) são de base terri-
torial. Destes indicadores de base territorial apenas 30% (58 ind.) são
espacializados no seu suporte de apresentação, o que significa 20% do
total de 291 indicadores.
A escala de detalhe predominante nos indicadores utilizados é o nível
municipal, sendo de referir que cerca de 17% (48 ind.) são apurados ao nível
da freguesia e 1% (4 ind.) ao nível do bairro, o que significa que existe a pos-
sibilidade de trabalhar certas matérias a uma escala mais pormenorizada.
Relativamente à periodicidade de recolha, 31% (90 uni.) são de reco-
lha única, sendo que os restantes 69% (201 ind.) correspondem a dois ou
mais momentos de recolha.
No que diz respeito às fontes de informação, é dado especial desta-
que ao Instituto Nacional de Estatística (INE) e à informação produ-
zida pelas autarquias (nos vários departamentos), sendo de referir que
também se identificou o recurso a fontes privadas e a estudos público
setoriais, por norma desenvolvidos a escalas superiores.
O facto das fontes de informação serem distintas e não se encontrarem
articuladas entre si contribui para a abundância de indicadores distintos
que, embora incidindo sobre questões ou aspetos idênticos, não são pas-
síveis de agregação. No fundo, verificam-se indicadores semelhantes que,
se fossem recolhidos e tratados segundo um procedimento harmonizado,
reduziam a extensa e diversificada panóplia de indicadores que emergem
dos vários REOT; ainda que, no fundo, tendam a convergir nalgumas das
leituras que promovem ou que deles subjazem. A título de exemplo, à
exceção dos indicadores disponibilizados pelo INE, apenas foi identifi-
cado um indicador comum aos 5 REOT analisados na matriz - Alvarás de
licença ou de autorização (emissão) – por norma produzido anualmente
por parte das autarquias, uma vez que são elas a entidade emissora.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 329
Com a produção de indicadores “semelhantes”, em certos casos, a infor-
mação existe, apenas não permite a agregação para uma leitura de conjunto.
Em relação às categorias que organizam as várias baterias de indica-
dores, estas encontram-se relacionadas com o modelo de ordenamento
desenvolvido em cada município e respetivos eixos estratégicos. No
entanto, identificam-se categorias comuns aos casos estudados: mobi-
lidade; infraestrutura; coesão urbana; áreas de condicionantes e riscos;
atividades económicas.
Relativamente às datas de referência, estas variam de município para
município no que diz respeito à informação detalhada produzida a nível
local. No entanto, a forte dependência na informação produzida pelo
INE a nível nacional e por outras entidades a nível regional (por exem-
plo as Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional e o Anu-
ário Estatístico da Região de Lisboa), leva a que a quase totalidade dos
indicadores demográficos se concentrem nas datas de divulgação destes
estudos alargados, nomeadamente os censos (2001, 2011).
Ao nível da participação pública e comunicação de resultados, estes
relatórios e o seu processo de elaboração não integra, por norma, proces-
sos de participação pública no decorrer da sua formulação, sendo sujeitos
a consulta pública e devida divulgação pós-aprovação pelo poder local.

Discussão e Conclusões
O território é uma entidade global de usufruto comunitário e com espe-
cificidades próprias. Nesse sentido, é essencial a regulação e o acompa-
nhamento da sua intervenção (Ferrão & Mourato, 2010; Lopes, 2011) e
avaliação do seu desenvolvimento (Oliveira, 2011) por forma a garantir a
sua diferenciação de forma equilibrada e sustentável (Batista e Silva,
Landeiro, Gonçalves, Soares, & Cambra, 2009).
O REOT procura contribuir para o acompanhamento do desenvolvi-
mento territorial, espelhando o estado do sistema real e possibilitando
a identificação de eventuais desvios ou problemas diretamente relacio-
nados com a operacionalização das políticas públicas e também, funda-
mentar eventuais alterações ou revisões (Amado & Cavaco, 2015).
O REOT assume uma relação estreita com os PDM (Prada, 2008) e com
os seus relatórios de caracterização, avaliação da execução e de fundamen-

330 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
tação, sendo ambos obrigatórios no âmbito do processo de alteração ou
revisão do PDM (Amadora, 2007; Ferrão & Mourato, 2010; Prada, 2008). O
REOT é ainda muito embrionário no SGTP (Alfândega da Fé, 2008), tendo
surgido tarde quando comparando com os seus parceiros europeus, e as
poucas experiências existentes denotam uma notória falta de uniformi-
zação entre relatórios, em especial no que diz respeito à sua estruturação
sectorial e seleção de indicadores, fontes e datas de referência (Lopes, 2011).
Embora se verifiquem melhorias processuais e evoluções qualitativas na
sua elaboração, particularmente quando analisados relatórios do mesmo
município (Amadora, 2007, 2014), ainda residem dúvidas quanto à verda-
deira eficácia dos REOT no acompanhamento das dinâmicas territoriais.
Os REOT que têm vindo a ser produzidos têm dificuldade em acompa-
nhar de forma regular a complexidade e ritmo de desenvolvimento terri-
torial, nomeadamente na alimentação do processo de tomada de decisão
em tempo oportuno. Isto porque as experiências existentes, embora para
lá caminhem, ainda não representam uma monitorização assídua e per-
manente (on-going) do OT e das suas dinâmicas, capaz de produzir um
REOT de 4 em 4 anos que suporte e legitime as opções de planeamento.
Esta ausência de práticas de acompanhamento regular reflete-se, em
especial, no grande intervalo de tempo entre as recolhas de dados e no
reduzido número de relatórios produzidos (Alfândega da Fé, 2008).
Os relatórios correntes apresentam-se muito extensos e particular-
mente abrangentes e alongados ao nível dos dados estatísticos apresenta-
dos, o que dificulta uma leitura clara e direta do estado do território. Neste
aspeto, é de referir o segundo REOT do município da Amadora (Amadora,
2014), que se faz acompanhar de um sumário executivo que transmite as
principais conclusões do relatório nos vários sectores analisados.
Ainda relativamente aos dados estatísticos disponíveis e utilizados,
estes espelham a falta de acompanhamento regular existente, apresen-
tando intervalos de tempo grandes entre as recolhas de dados e compro-
metendo a fiabilidade dos resultados e a leitura das dinâmicas territoriais.
Para além da lógica integração de momentos de participação pública
efetiva na elaboração dos REOT (Batista e Silva et al., 2009), o processo
de acompanhamento das dinâmicas territoriais beneficiava significati-
vamente com a definição de um conjunto de orientações metodológicas
para a sua elaboração (Prada, 2008).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 331
Estas orientações suportariam a recolha, tratamento e disponibili-
zação da informação necessária para avaliar o desenvolvimento territo-
rial e monitorizar as suas dinâmicas. Neste cenário de uniformização,
é possível a comparação entre territórios e a visualização alargada das
dinâmicas através da agregação dos dados fornecidos pela escala local,
enriquecendo todo o processo, incluindo em escalas superiores.
No fundo, representa a procura por práticas de trabalho mais eficazes
e eficientes, assentes na lógica da cooperação e partilha de informação,
tanto ao nível técnico como ao nível da tomada de decisão, exprimindo
coordenação intersectorial e multi-escala na programação e gestão da
intervenção territorial (Prada, 2008).
Atualmente vive-se um ambiente institucional favorável com a von-
tade de conhecer melhor a cidade e as suas dinâmicas, sendo tema
nacional a descentralização de poderes da administração, pretendendo
dotar as autarquias de meios para serem elas a contribuir para o desen-
volvimento do país e das regiões a partir do nível local, designadamente
em matéria de OT. Esta temática, para além de revelar um compromisso
institucional nas matérias de monitorização, reforça o entendimento de
que o território necessita de ser acompanhado de perto, com o detalhe,
conhecimento e familiarização que só a escala local possui (Beas, 2011).
No entanto, a escala local também apresenta as suas debilidades no
que respeita à eficiência e eficácia nas matérias do OT e que têm que ser
superadas. Estas debilidades relacionam-se com o facto de frequente-
mente apresentar práticas autorreguladas, não enquadrar devidamente
políticas de hierarquia superior, ser praticada de forma pontual e ao ritmo
dos ciclos políticos, sob a pressão dos atos eleitorais e não incorporando
noções de flexibilidade e margem negocial (Alfândega da Fé, 2008).
Concluindo, a investigação permite entender a importância e mais-
-valia das práticas de acompanhamento nos processos de OT, em espe-
cial no que diz respeito à monitorização das dinâmicas territoriais.
Reflete como estes processos são levados a cabo nos casos de estudo
analisados, revisitando quais os seus elementos e procedimentos chave
para o sucesso ou insucesso dos processos de monitorização e avaliação.
A constituição da matriz de análise onde se identifica os elementos e
procedimentos comuns, contribuí para a criação de uma base metodológica
para a realização destas práticas de forma uniformizada a nível nacional.

332 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Neste sentido, a investigação representa um contributo para o conhe-
cimento das práticas correntes ao nível das ações de monitorização e
avaliação de âmbito local e enquadradas no quadro do SGTP, numa pers-
petiva de harmonização e agregação de dados territoriais.

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 335
Do Lixo ao Luxo:
O Parque e Instituto Sitiê na Favela do Vidigal
CL AUDI A SELDIN
Arquiteta e Urbanista, Mestre e Doutora em Urbanismo

Bolsista de Pós-Doutorado, PROURB/FAU-UFRJ; FAPERJ/CAPES , Brasil

Resumo
O Rio de Janeiro possui uma série de regiões socialmente marginaliza-
das e carentes de espaços culturais e de lazer. Apesar das fortes desi-
gualdades, muitos dos seus vazios urbanos vêm sendo planejados em
consonância com a tendência global de projetos espetaculares em áreas
estratégicas. Enquanto isso, nos locais relegados pelo poder público
e pelo capital privado, novas formas de pensar o espaço urbano vêm
surgindo. Elas são improvisadas e inusitadas, e vão de encontro com
as reais demandas da população local, funcionando como alternativas
aos empreendimentos que buscam apenas novas imagens urbanas.
Um exemplo consiste no Parque Sitiê, na favela do Vidigal. Esta antiga
área de despejo de lixo e entulho, foi transformada em um espaço
público de qualidade através de um projeto paisagístico pensado e cons-
truído pelos próprios moradores. A história deste estudo de caso aponta
para a definição de um novo conceito de parque urbano – baseado no
envolvimento comunitário e na autoconstrução – uma noção que passou
a ser adotada como modelo pela Prefeitura local. Para compreender
o caso do Sitiê, teorizamos sobre novos tipos de apropriações espaciais
em locais anteriormente projetados para outras funções, apoiando-nos
nos conceitos de “espaços soltos” (loose spaces) e de “usos temporários”.

Palavras-Chave
Espaços “Soltos”; Favela; Parque Urbano; Usos Temporários;
Vazios Urbanos.

336 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução:
Os Espaços Insólitos Cariocas e Seus Usos Temporários1
O Rio de Janeiro é uma cidade marcada, simultaneamente, pela plura-
lidade cultural e pelas desigualdades sociais, econômicas e territoriais.
Estas implicam um grande desequilíbrio no acesso e na distribuição
dos equipamentos culturais, dos serviços públicos e das infraestrutu-
ras urbanas pela cidade (VAZ, 2014). Nas favelas e periferias – recortes
historicamente desprivilegiados – os investimentos em projetos
de urbanização são menores e as carências multiplicam-se. Como con-
sequência, seus habitantes são obrigados a se utilizar da criatividade
e da improvisação para criar espaços alternativos, capazes de suprir
suas necessidades.
Consideramos aqui que investigar as diferentes formas através das quais
a população se apropria dos espaços improvisadamente é uma tarefa
essencial para o campo do Urbanismo contemporâneo que se delineia.
Focaremos, mais especificamente, na capacidade de transformação dos
usos de um local, originalmente concebido com outra função e frequen-
temente escondido, vazio ou desapercebido em meio à paisagem urbana.
A estes recortes não planejados ou não projetados, modificados pelo uso
temporário e pela força de vontade criativa da população, nos referimos
como “espaços insólitos”. Além de inusitados, eles representam opções
mais acessíveis aos habitantes das regiões marginalizadas, distantes
física e simbolicamente dos espaços de lazer e equipamentos culturais
tradicionais (museus, bibliotecas, centros culturais e semelhantes), con-
centrados nas zonas mais nobres da cidade. Estes “espaços insólitos”
despertam locais normalmente esquecidos ou desapercebidos na paisa-
gem: vazios urbanos, recortes adjacentes ao traçado viário, estruturas
obsoletas, abandonadas ou desocupadas; porém o fazem através
de apropriações informais.
No Rio de Janeiro, a ocupação formal dos espaços residuais vem
seguindo a tendência global contemporânea de projetos pontuais

1
Este artigo é uma adaptação do trabalho apresentado no XVII ENANPUR em São Paulo
em 2017. A autora agradece à prof. Lilian Fessler Vaz e ao GPCHU pelas contribuições
(especialmente aos alunos de Iniciação Científica Pedro Vitor Ribeiro Costa e Victória
Helena Michelini Junqueira), bem como à FAPERJ/CAPES pelo apoio à pesquisa.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 337
que visam revitalizar áreas degradadas com potencial estratégico.
Trata-se da tentativa de repaginação da imagem da cidade, com uma
aposta na cultura e no lazer como principais instrumentos remodelado-
res do espaço urbano. Muitos são os casos recentes de grandes investi-
mentos em equipamentos culturais projetados por arquitetos de renome
visando à requalificação urbana carioca. Centros históricos, edifícios
obsoletos da zona portuária e estruturas industriais decadentes vêm
sendo reabilitadas, tornando-se, por vezes, âncoras da tentativa de recu-
peração econômica. Através de projetos espetaculares, a cidade se joga
na corrida global pela atração de capital e turistas culturais (SELDIN,
2017). Um exemplo recente deste tipo de projeto é a operação urbana
Porto Maravilha, que propunha revitalizar a Zona Portuária local atra-
vés da revitalização de vastos galpões e de uma série de intervenções que
incluíram a construção de grandes equipamentos culturais: o Museu
de Arte do Rio de Janeiro (MAR), o Museu do Amanhã (do arquiteto
de “grife” espanhol Santiago Calatrava), além do novo aquário AquaRio,
todos justificados no âmbito dos Jogos Olímpicos de 2016.
Se em uma parte da cidade o poder público incentiva os projetos
seguindo um modelo de planejamento cultural estratégico, na outra –
a marginalizada –, os usos incomuns e surpreendentes são cada vez
mais pulsantes. Nas favelas cariocas – onde a noção de “planejamento”
adquire outros significados, as casas, lajes, bares e barrancos vão sendo
construídos de acordo com a ocasião. E, seguindo a mesma lógica,
os coletivos socioculturais também atuam de acordo com as possibi-
lidades, agarrando as oportunidades que se apresentam. A utilização
de paredes e empenas para a projeção de filmes, a construção de galerias
de grafite a céu aberto, as peças teatrais em lajes e as rodas de capoeira
nas ruas são alguns exemplos que provam o fortalecimento de indiví-
duos e grupos que assumem para si a responsabilidade de transformar
o cotidiano de onde vivem e também de reconfigurar o espaço urbano
simbolicamente. Falamos especialmente do espaço público, que adquire
novos sentidos através de outros usos, quase sempre temporários.
Trata-se de atividades efêmeras, não necessariamente fixas a um local,
movendo-se no espaço ou existindo durante um tempo limitado.
Estes usos temporários de arte e lazer propiciam novas trocas e relações

338 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
entre as pessoas e os lugares, independente da presença de edificações
para abrigar as atividades culturais e promover a sociabilidade (SELDIN
& VAZ, 2017).
Aos usos temporários soma-se a característica de “soltura” de certos
espaços, que se transformam em reais locais de trocas. O conceito de “sol-
tura” foi inicialmente proferido por Franck & Stevens (2007) em sua obra
sobre “espaços soltos” ou “frouxos” (loose spaces, no original em inglês).
Os “espaços soltos” abrigam atividades não planejadas e espontâneas,
não havendo a necessidade de um uso fixo ou pré-determinado (p. 02).
A existência de “espaços soltos” é possível através da atividade
direta das pessoas – da ação humana –, bem como de sua sensibilidade
para percebê-los e apreender o seu potencial e sua flexibilidade, enxer-
gando novas possibilidades para seu aproveitamento. Para Franck
& Stevens a “soltura” é mais clara em se tratando dos espaços públicos e
abertos (em oposição aos fechados e privados). Isso porque, no espaço
público, a acessibilidade é comparativamente maior e há uma liber-
dade relativa para se exercer uma variedade de atividades. Estes seriam
os “espaços de respiração da cidade” (ibidem, p. 03), de exploração
e descoberta, de encontro com o inesperado, com o não regulado, com
o espontâneo e com o risco.
Por seu caráter, a “soltura” associa-se naturalmente às atividades de arte,
cultura, lazer, entretenimento, bem como de expressão da cidadania. O
“espaço solto” convida a diversidade e a multiplicidade dos atores urbanos,
constituindo, assim, uma esfera para além do ambiente controlado e homo-
gêneo de lazer e consumo das cidades contemporâneas, ou seja, para além
dos grandes equipamentos culturais espetaculares, onde tudo que pode
acontecer é pré-definido e previsível. A soltura nutre autenticidade urbana
e permite que certas identidades e culturas floresçam (ibidem, p. 20-21).
Sob esta perspectiva, podemos afirmar que o estudo de caso sobre
o qual nos debruçaremos constitui um exemplo de “espaço solto” por
excelência, transformando a comunidade local física e simbolicamente.
Trata-se do Parque e Instituto Sitiê na favela do Vidigal.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 339
O Parque e Instituto Sitiê
Situado na Zona Sul carioca, entre os bairros nobres do Leblon e São
Conrado, o morro do Vidigal conta com cerca de 25 mil habitantes e uma
das mais belas vistas do litoral da cidade. Em seu coração, totalizando
8.500 m2, encontra-se o Parque Sitiê 2 – um novo espaço público constru-
ído pela comunidade local em meio à Mata Atlântica.

Fig. 01 | Exemplo de casas autoconstruídas situadas na encosta da favela do Vidigal.


Fonte: Arquivo Pessoal (2016).

O caráter de soltura do Sitiê deve-se ao fato do local constituir uma


enorme área de depósito de lixo e entulho até o início dos anos 2000.
Segundo seu fundador, Mauro Quintanilha, aquela parte da favela
sofreu com uma série de ocupações habitacionais irregulares durante
a década de 1980. Sem a infraestrutura adequada, a área passou a acu-
mular restos de material de construção e dejetos. A depredação abriu
espaço para que os moradores jogassem ali também seu lixo doméstico,
contribuindo para o sucateamento da encosta. Em 2003, a Prefeitura
do Rio demoliu a maior parte das construções porque “ultrapassavam

2
O nome Sitiê consiste em uma combinação do apelido da área conhecida pelos
moradores antigos como “sítio” e o sufixo “tiê” - uma alusão ao pássaro Tiê-Sangue
[Ramphocelus bresilius] – ave símbolo da Mata Atlântica brasileira.

340 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
a faixa vermelha da Mata Atlântica”.3 O entulho resultante das demoli-
ções nunca foi removido, levando a um quadro ainda mais expressivo
de degradação, agora somada ao relativo abandono do local, que chegou
a acumular aproximadamente 16 toneladas de entulho.
Indignado com a destruição do local onde habitava, os moradores
Quintanilha e Paulo Cesar de Almeida decidiram iniciar um processo
de limpeza da área em 2005, com o objetivo de transformá-la em um
espaço público digno para a comunidade do Vidigal, que carece de espa-
ços livres de qualidade dentro da favela.
Inicialmente, as tentativas de limpeza foram frustradas, pois
os demais moradores continuavam identificando a área como obsoleta
e sem uso útil. Houve, então, o entendimento de que comunidade pre-
cisaria participar ativamente na construção daquele local para consi-
dera-lo com um espaço de valor simbólico, o que levou a um trabalho
de conscientização dos moradores sobre a importância da natureza
e dos valores ligados à sustentabilidade.
O respeito ao espaço veio através de um projeto de horta urbana
acompanhada da realização de oficinas abertas aos moradores. Os pro-
dutos colhidos passaram a ser distribuídos para a comunidade, estabe-
lecendo uma relação de troca funcional e afetiva entre ela e o espaço.
Logo, formou-se um grupo responsável por tomar conta do local, que
tomou para si a iniciativa de realizar um reflorestamento parcial.
Em 2012, o Sitiê – agora conformado como parque, recebeu o título
de primeira agrofloresta do mundo.
Neste ano, a realização da Rio+20 – conferência das Nações Unidas
sobre desenvolvimento sustentável, fez com que as atenções se voltas-
sem para esta iniciativa com tanto potencial, aumentando a visibilidade
do Sitiê. A partir deste momento, o arquiteto Pedro Henrique de Cristo
conheceu a proposta e juntou-se à mesma, relocando-se para o Vidigal
e inaugurando ali seu escritório, intitulado arquitetura +D. Ele seria
uma peça determinante para concretização do Instituto Sitiê, oficiali-
zando o status do parque e viabilizando parcerias entre a comunidade
e instituições públicas e privadas. A aliança com o arquiteto possibilitou

3
Em entrevista pessoal realizada em novembro de 2016 no parque. Dados também
retirados do website oficial do Sitiê, disponível em: <http://www.parquesitie.org/
historia>. Acesso em: 10 out. 2016.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 341
uma nova etapa na história do coletivo, que passou a focar na amplia-
ção do parque através de áreas projetadas em parceria entre o escritório
e os moradores envolvidos.
Neste sentido, o Sitiê se transformou em uma espécie de laboratório
para o desenho urbano experimental: em sua paisagem de encosta, des-
tacam-se escadas de acesso feitas de pneus preenchidos com entulho,
uma praça (denominada como “ágora digital”) com patamares em pneus
voltados para a vista do mar e um guarda-corpo feito a partir de aros
de bicicletas. Para reter e incentivar a permanência das pessoas, o
coletivo trabalha na agradabilidade do local, focando em um design
de mobiliário urbano criativo e também em artifícios como acesso
à internet sem fio grátis.

Fig. 02 | Guarda-corpo projetado para o Sitiê – um dos exemplos de design


de mobiliário urbano premiado do Parque. Fonte: Arquivo Pessoal (2016).

O resultado do envolvimento emocional e da criatividade destas pessoas


foi a transformação deste “espaço solto”, escondido em meio ao verde
e às casas, em um local de convivência e de respiro para a população
local, bem como em um novo ponto turístico carioca. Só que, diferente-
mente da maioria das atrações turísticas do Rio de Janeiro, esta situa-se
em uma favela – local normalmente mal visto, marcado pela violência
e pelas carências; agora reconhecido pela potencialidade e por fugir
do senso comum.

342 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Concomitante ao seu crescimento, novas atividades de caráter cultu-
ral passaram a ser ali realizadas, como debates, shows musicais, eventos
religiosos, oficinas de pintura e de educação ambiental, artística e tec-
nológica, rodas de samba e bossa nova. Os planos para o parque incluem
o desenvolvimento de um “caminho das artes” a ser construído na trilha
e de soluções projetuais para a captação das águas pluviais na favela,
geralmente desperdiçadas com intensidade e rapidez.
Nos apoiando aqui nas noções de estratégia e tática propostas por
Michel de Certeau (1994) para afirmar que este espaço “solto” marcado
por usos temporários e variados, consiste em um rebatimento da tática
do homem comum/ordinário – no caso, do habitante da favela –, que, face
aos problemas da vida cotidiana, encontra como solução a reapropriação
dos objetos e dos espaços de acordo com as possibilidades que estes
oferecem, subvertendo referências e normas impostas.
Em 2016, o Parque Sitiê foi reconhecido oficialmente pela Fundação Par-
ques e Jardins e pela Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura através da
assinatura de um contrato que incorporava a sua área uma trilha de cami-
nhada. Com isso, a área total do parque foi ampliada de 1.500 metros qua-
drados em 2013 para os atuais 8.500 em 2016. Mais do que isso, o Sitiê é atu-
almente reconhecido por ter auxiliado na construção de um novo conceito.

Fig. 03 | Vista parcial do Parque Sitiê no alto do morro do Vidigal com o litoral
carioca ao fundo. Fonte: Arquivo Pessoal (2016).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 343
Considerações Finais
O diferencial deste parque urbano em uma favela carioca se deve ao fato
de constituir uma iniciativa “de baixo para cima” (bottom-up), partindo
das mãos da própria comunidade, que se mantêm liderando e partici-
pando ativamente do seu desenvolvimento. Além disso, esse caso reflete
a aliança da comunidade com o arquiteto profissional e a associação
bem-sucedida da experiência prática do “fazer” com a teoria da arquite-
tura, do urbanismo e do paisagismo.
Apesar da história de sucesso do Sitiê, não podemos deixar de men-
cionar que a mesma pode vir a contribuir para um já crescente quadro
de gentrificação da favela do Vidigal. Isso porque a nova fama do parque
vem intensificando o turismo cultural por parte de visitantes de fora
da comunidade. Este fato, somado ao aumento do número de albergues
e do interesse imobiliário no local em função da sua localização pri-
vilegiada, vem acarretando a expulsão de alguns moradores da região
por não conseguirem mais arcar com o aumento do custo de vida ali.
Ressaltamos, portanto, que o futuro crescimento do parque deverá levar
em conta este fenômeno e considerar que o conceito de sustentabilidade
implica também na redução da probabilidade de gentrificação e na pro-
teção dos interesses da comunidade local.
Se incorporar esta consciência, o caso do Vidigal servirá como um
ótimo exemplo para atestar a importância dos “espaços soltos” e dos
usos temporários para as cidades contemporâneas. Através da real cria-
tividade e da participação, iniciativas deste tipo ajudam no despertar
das potencialidades de locais ‘dormentes’, degradados, vazios, escondi-
dos e periféricos. Dessa forma, surgem também novas formas de pensar
as regiões marginalizadas, levando a uma fruição mais plena e iguali-
tária da cidade, contribuindo para o exercício do direito à participação
e do direito à cidade, permitindo que um local se transforme da imagem
do ‘lixo’ à personificação do ‘luxo’ ambiental.
de parque urbano. Calcado no envolvimento comunitário, ele passou
a ser adotado como modelo pela Prefeitura do Rio, que enfrenta uma
enorme crise financeira e não possui recursos próprios para investir
e criar novos espaços públicos. A municipalidade depende e aposta,
agora, em iniciativas para espaços públicos que sejam autoconstruídos.

344 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 345
Expansão e contenção da cidade,
o caso de Belém do Pará
JAYA NA M A R INHO MOTA DE SA N TA NA
JOSÉ JÚLIO FER R EIR A LIM A

Universidade Federal do Pará (BRA)

Resumo
Este artigo busca relacionar as modificações nos limites físicos
na expansão da cidade de Belém do Pará e a crise econômica iniciada em
2014 no Brasil. Sugere-se que a aumento da malha urbana, seguida por
contenção é parte da crise cíclica do capitalismo. Situa-se o estudo nos
acontecimentos ocorridos a partir da crise econômica para mostrar que
a urbanização acelerada nas cidades capitalistas envolve períodos
de expansão, alternados por outros de contenção do perímetro urbano,
segundo ciclos de produção de renda fundiária urbana ligados a crises
do capitalismo. É aplicada a análise de David Harvey sobre os efeitos das
crises cíclicas do capitalismo para a ocupação urbana. Como resultados
preliminares do estudo que compõe uma dissertação de mestrado em
andamento, o estudo associa a oferta de infraestrutura resultante
da alternância de expansão e contenção com as condições sociais exis-
tentes, quando podem ser geradas oportunidades para o desenvolvi-
mento, caso se dê atenção aos assentamentos informais existentes, pos-
sibilitando que seus habitantes se apropriem da condição de cidadãos.

Palavras-Chave
Expansão urbana, contenção urbana, crise financeira econômica,
cidades amazônicas, Belém do Pará.

346 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
O processo de urbanização em ritmo acelerado é uma realidade mun-
dialmente inconteste nas nações capitalistas. A urbanização acelerada
envolve períodos de expansão, alternados por outros de contenção
do perímetro urbano, segundo ciclos de produção de renda fundiária
urbana ligados a crises do capitalismo. Este artigo busca relacionar
as modificações da expansão da cidade de Belém do Pará e a crise econô-
mica brasileira de 2014. Sugere-se que o aumento da malha urbana,
seguida por contenção, pode ser associado a crises cíclicas capitalistas.
E mais, em contextos de economia precária, o crescimento infraestrutu-
ral parece frear quando há desaceleração da economia, embora continue
tendo capacidade de fomentar a produção, segundo Harvey (2011)
a infraestrutura continua a crescer justamente para aquecer a economia.
Sugere-se que a expansão urbana, nos moldes em que vem ocorrendo
em Belém, não alcança o desenvolvimento econômico almejado, em vir-
tude de o crescimento linear da malha urbana criar um passivo infra-
estrutural em termos de área, muito maior do que o espaço que passa
a ser coberto linearmente pela expansão urbana. O que se identifica,
portanto, é a existência de ciclos. Conforme Becker (2013) estabelece, as
cidades amazônicas crescem intimamente ligadas aos “surtos econômi-
cos”. As modificações macroeconômicas nacionais, portanto, são reba-
tidas localmente através de mudanças do ambiente urbano construído.
O artigo é dividido em três partes. Após esta introdução, há uma
contextualização sobre a expansão urbana de Belém do Pará, quando
é mostrado como se configura o aumento de sua ocupação em direção
à periferia, bem como as circunstâncias em que os aspectos em que
ocorre criação de renda fundiária e infraestrutura, num ciclo de alter-
nância que associa expansão e contenção de sua malha urbana. A seguir,
o artigo explora a análise de David Harvey e as decorrências para
o entendimento do que vem ocorrendo em Belém do Pará.

A expansão urbana de Belém do Pará


O problema da urbanização acelerada, evidenciado a partir dos anos 80,
em contextos como de Belém (Figura 1), não guarda relações com ques-
tões unicamente contemporâneas, mas com características historica-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 347
mente reconhecidas. A existência de Belém, em sua gênese, está asso-
ciada ao processo de ocupação da região. A Amazônia sofreu dominação
francesa, portuguesa, espanhola e holandesa, durante o período colo-
nial. O território pertencente atualmente ao estado do Pará foi apro-
priado por portugueses, interessados pela exploração de recursos natu-
rais, colonização e o comércio. O modelo de colonização português
resultou em miscigenação e no estabelecimento de assentamentos urba-
nizados e edificações de características lusitanas em várias partes
do estado (BECKER, 2013: 29).

Figura 1 | Mapa de localização da Região Metropolitana Ampliada de Belém. Fonte:


Google Earth, acessado em 01/03/2017

O Programa de Integração Nacional implantado em 1970, visando ocu-


par definitivamente a Amazônia, utilizou a implantação de diversos
núcleos urbanos como estratégia explícita (BECKER, 2013: 33) - o que
incentivou forte migração para Belém. Os incentivos fiscais de crédito
entre 1970 e 1990 induziram a formação de fronteira urbana antes
mesmo da região se tornar fronteira agrícola. O processo de urbaniza-
ção acelerada tornou-se, portanto, solução, no âmbito de planejamento
regional, para promoção da ocupação e exploração da Amazônia, cha-
mada por Becker (2013:34) de “floresta urbanizada”. A partir daí, a suces-
são de crises econômicas e políticas sujeitaram a região a ciclos econô-
micos, perceptivelmente, rebatidos nas cidades.

348 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
A expansão do perímetro urbano de Belém em direção à sua perife-
ria, apresenta-se intimamente ligada à exploração de renda fundiária ao
longo do eixo viário de ligação entre a Primeira Légua Patrimonial1 de
Belém e o distrito periférico de Icoaraci. Os terrenos lindeiros ao eixo viá-
rio de expansão tornaram-se frente de valorização imobiliária desde 2005.
Grande reserva de terrenos no território intermediário entre o centro e o
distrito tornou-se o foco do mercado imobiliário e de programas governa-
mentais voltados à implantação de infra-estrutura e estímulo à produção
habitacional, esta área passou a ser chamada “Nova Belém” (Figura 2).
Antes da crise econômica de 2014, a financeirização da economia teria
contribuído para aquecer o mercado imobiliário em Belém, o que levou à
expansão da malha urbana. Com a crise, o mercado "esfria", sobram uni-
dades e ocorre contenção do tecido urbano. Além disso, é constatada uma
relação de causalidade entre esse processo e discrepâncias entre provisão
de infraestrutura pelo Estado e dificuldade de contingentes populacionais
empobrecidos se estabelecerem nas áreas mais rentáveis.

Figura 2 | Mapa da Área de Expansão de Belém, entorno da Rod. Augusto Montenegro.


Fonte: GUIMARÃES

1
A primeira porção de terra doada pela Coroa Portuguesa para formação do município
de Belém no século XVIII, hoje corresponde ao centro principal da cidade, onde estão
concentrados centro histórico e grande parte da infraestrutura e serviços (DUARTE,1987).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 349
Calcula-se que na área de expansão de Belém serão construídas
mais de 10.000 habitações, incluindo aproximadamente 2.500 unidades
do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e empreendimentos
de médio e alto padrão, entre apartamentos e unidades horizontais, com
destaque para os fomentados através do Programa Minha Casa Minha
Vida (PMCMV). Grandes equipamentos foram implantados, tais como
shopping center, faculdades, supermercados e outros serviços, incenti-
vados pela perspectiva de ampliação da demanda por bens e serviços
e pela ampliação da população residente de diferentes faixas de ren-
das, distribuída em condomínios exclusivos, conjuntos habitacionais
e “assentamentos informais” em terrenos públicos e privados (CAR-
DOSO, 2007).

Fig 03 | Área de Expansão entorno da Rod. Augusto Montenegro. De cima para baixo
e da esquerda para direita, anos de: 2000, 2005, 2009 e 2015. Fonte: Google Earth,
acessado em 01/03/2017.

350 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Atraídos pela acessibilidade facilitada, novos e numerosos assentamen-
tos informais espontâneos surgem entre os empreendimentos imobiliá-
rios. A população assentada nesses bolsões “hiperurbanizados”2 conti-
nua a ter dificuldade de acesso às oportunidades da cidade.
Com a justificativa de resolver o problema, se inicia outra rodada
de investimento em aumento de perímetro urbano construído, cada vez
mais distante do centro urbano. Para o capitalismo, a expansão e a con-
tenção urbana são vistas como expressão dos processos econômicos pró-
prios das crises econômicas à que estão sujeitas cidade e região.

Consequências das crises do capitalismo para a expansão


e contenção urbana
Em contextos de economia precária, como a brasileira, pode-se esperar
por duas tendências em momentos de crise, como a que vinha se estabe-
lecendo desde 2008 - a primeira seria a tendência de o Estado diminuir
os investimentos em infraestrutura, criando certa resistência ao cresci-
mento urbano, já a segunda, seria segundo Harvey (2013), uma tendên-
cia ratificadora do crescimento urbano. Esta última marcada pela ação
dos investidores de capital fictício que tendem a transformá-lo em capi-
tal material, comprando imóveis, influenciados pela segurança desse
tipo de investimento e pelo poder de barganha fomentado pela crise –
projetando novos vetores de crescimento urbano.
A importância dos momentos de crise para o planejamento urbano
em contextos de dependência econômica, se deve, justamente, à duas
tendências do processo de aumento de perímetro urbano construído
se apresentarem simultaneamente, porém, em sentidos opostos.
De maneira contrária, em momentos de crescimento econômico,
as ondas de investimentos públicos e privados se afinam, se sincronizam,
provocando considerável crescimento de área urbana construída, poten-
cializando as dificuldades de controle para os planejadores urbanos.

2
Entende-se “hiperurbanização” como concentração urbana de pessoas em um
nível superior ao que o mercado de trabalho tem condições de absorver (CASTELLS,
1972/2000).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 351
O crescimento econômico brasileiro das últimas décadas impulsio-
nou o aumento físico do perímetro urbano de Belém, seguido de conten-
ção urbana, como expressão da crise instalada na economia brasileira
a partir de 2014. Isto se deve, em parte, à financeirização do mercado
imobiliário3. Por volta de 2008, quando foi anunciado o PMCMV, houve
estímulo à indústria da construção civil, mediante criação, no país,
de condições para a financeirização do mercado imobiliário, em função
de facilidades criadas pela desregulamentação necessária ao alinha-
mento do Brasil às nações dominantes.
É importante destacar que, a preferência dos investidores de capi-
tal pela expansão urbana através do aumento do perímetro urbano ao
invés do adensamento do centro urbano, ocorre em virtude do interesse
na apropriação de renda diferencial, particularmente no momento em
que terras rurais se transformam em urbanas. Isto porque, “a acumula-
ção do capital sobre a terra por meio da atividade imobiliária aumenta
à medida que a terra é adquirida com quase nenhum custo” (HARVEY,
2011: 146). Entende-se por renda diferencial a renda gerada pela valo-
rização fundiária, atualmente ostensivamente manipulada, e não pela
produção das edificações em si. (FIX, 2007:155).
A expansão urbana também pode ser vista a partir da teoria
da “cidade como máquina de crescimento” (LOGAN e MOLOTCH,
1987), na qual o crescimento do perímetro urbano construído é visto
como uma fábrica de capital, ao invés de ser vista como condição sine
qua non da sociedade urbana em si. Segundo Villaça (1998), a malha
viária cresce em direção aos empreendimentos de médio e alto padrão.
Ou seja, em momentos de crescimento econômico, o sistema viário
urbano alcança os imóveis arrematados pelos agentes imobiliários
na crise anterior, gerando, entre os novos empreendimentos, bolsões

3
Particularmente, no Brasil, a sanção da lei 10.931 de 2004 - que dispõe sobre
o patrimônio de afetação de incorporações imobiliárias, Letra de Crédito Imobiliário,
Cédula de Crédito Imobiliário e Cédula de Crédito Bancário foram mudanças que
criaram maior sensação de segurança aos investidores internacionais, estimulando
a entrada de capital no país. Segundo Ventura Neto, a abertura de capital na Bolsa
de Valores através das OPA´s (Oferta Pública de Ações), “passa a simbolizar a principal
conexão entre o capital financeiro internacional e o capital financeiro no Brasil”
(2012, p.124).

352 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
de vazio urbano, que passam a ser ocupados por assentamentos infor-
mais espontâneos dotados de precária infraestrutura. Ou seja, no Bra-
sil, embora haja sincronia nas ações dos agentes púbicos e privados,
nos períodos de crescimento econômico, a velocidade em que as cida-
des se expandem é muito superior à capacidade do Estado de prover
aos cidadãos os direitos que lhes deveriam ser resguardados, principal-
mente pelas crises fazerem parte do próprio capitalismo.
A financeirização do mercado imobiliário brasileiro e a consequente
junção de capital de empresas locais e empresas de capital aberto, pos-
sibilitaram alcançar nível de capital condizente com o porte dos empre-
endimentos nos extensos terrenos disponíveis na Nova Belém. A produ-
ção de habitações desvinculada da demanda efetiva local ilustra o fato
de que, no capitalismo, a produção existe pela necessidade de se investir
capital excedente e não em virtude de demanda latente (Harvey, 2013).
Além disso, a falta de preocupação com a capacidade de absorção dos
produtos lançados pelo mercado, remete-nos à hipóstese de que com-
pra, inadimplência e perda do imóvel seriam, de certa forma, deseja-
das, quiçá fomentadas, pelos grandes detentores de capital. De acordo
com Harvey (2011), a crise imobiliária estadunidense não aconteceu des-
pretensiosamente, teria possibilitado rápida e histórica concentração
de renda aos grandes capitalistas, que se valeram da inadimplência
dos proprietários de imóveis hipotecados.
Por outro lado, as infraestruturas urbanas são vistas como compo-
nentes fundamentais nos pacotes de estímulos dos governos para levan-
tar a economia (HARVEY, 2011:149). Também por este motivo, o Governo
Federal brasileiro teria, desde 2003, com a criação do Ministério das
Cidades, viabilizado investimentos em projetos relativos à moradia
e infraestrutura urbana. Especificamente, a partir de 2005, mudanças
concretas na área do financiamento habitacional, tanto no subsistema
de habitação de mercado como no de interesse social, possibilitaram
o início efetivo da diminuição do histórico déficit habitacional brasi-
leiro. Já a infraestrutura urbana começa a ser contemplada de maneira
substancial a partir do ano de 2007, quando da implementação do Pro-
grama de Aceleração do Crescimento (PAC).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 353
Tais políticas públicas, atreladas ao aumento da entrada de volume
de capital internacional no país, aqueceram consideravelmente o mer-
cado imobiliário brasileiro, o que provocou acirramento nas disputas
por terrenos, e reforçou o crescimento de seus valores, distanciando,
cada vez mais, os novos empreendimentos do centro urbano. Sobre esta
questão, Harvey assevera:
Uma fonte cada vez mais liberal de crédito para futuros proprietários,
acoplada a uma fonte igualmente liberal de crédito para os promoto-
res imobiliários, leva a um crescimento maciço em habitação e desen-
volvimento urbano. (2011: 98)

O que deixa dúvidas sobre até que ponto seja interessante, economica-
mente, a imposição de políticas públicas que aumentem a oferta de cré-
dito e estimulem a entrada de capital externo, simultaneamente, já que
estas políticas reforçam o problema do espraiamento e da criação
de passivo infraestrutural, indo de encontro à precariedade econômica
do país, quando comparada a países dominantes, nos quais novas áreas
de expansão são rapidamente cobertas por infraestrutura adequada,
seja pela iniciativa pública, privada ou pela parceria entre ambas.
O descompasso dos investimentos públicos e privados, nos períodos
de crise econômica, cria certa vantagem temporal de ação para os plane-
jadores urbanos. A diminuição de pressão dos agentes imobiliários para
que o Estado, nestes períodos, invista na malha urbana, faz com que
seja possível que a iniciativa pública dê particular atenção ao combate
do processo de expansão fragmentada das cidades, através de ações pon-
tuais nos assentamentos informais “hiperurbanizados”.
Voltando à questão da “hiperurbanização”, os bolsões criados se
tornam entraves ao desenvolvimento local (CASTELLS, 1972/2000).
No entanto, isso não ocorre em função da alta densidade demográfica
em si, já que, segundo Jacobs (2001), quanto maior a densidade demo-
gráfica, maior a capacidade de existir diferenciações que gerem desen-
volvimento. Para ela, o desenvolvimento econômico apresenta o mesmo
padrão que o de qualquer outro desenvolvimento, ou seja, “diferencia-
ções emergindo de generalidades” (2001: 24). Sendo assim, entende-se
que a alta densidade seja uma característica interessante a ser mantida

354 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
nos bolsões “hiperurbanizados”. Consequentemente, presume-se que
a questão a ser tratada seja a incapacidade de o mercado de trabalho
absorver o “exército de reserva de mão-de-obra” urbano.
Com a justificativa de gerar empregos e desencadear desenvolvi-
mento econômico, a gestão pública, em contextos capitalistas, permite
e contribui para expansão do perímetro urbano, visando facilitar inves-
timento e acúmulo de capital aos agentes imobiliários. Segundo Harvey,
“uma proporção significativa da força de trabalho total global é empre-
gada na construção e manutenção do ambiente edificado” (2011:137).
Pergunta-se, portanto, por que motivo esse “exército de reserva de mão-
-de-obra” que compõe os bolsões “hiperurbanizados” da cidade, conti-
nua a ser tão grande, mesmo com a aceitação da política do crescimento
urbano como acelerador da economia?
De acordo com Jacobs, a relação entre expansão e desenvolvimento
econômico não é tão simples e direta, muito embora seja correto afir-
mar que “estão fortemente entrelaçados. Eles viabilizam um ao outro.
Mas o problema é saber como” (JACOBS, 2001: 54).
É fácil perceber, que a perpetuação desse círculo vicioso levará a
realidade física urbana para situações cada vez mais difíceis de serem
contornadas. O que parece bastante paradoxal é que, justamente a polí-
tica de investir em infraestrutura como meio de acelerar a economia,
gera um grande passivo infraestrutural, que dificulta a qualificação da
mão-de-obra e consequentemente trava o desenvolvimento econômico.
Isto porque, conforme sustenta Villaça (1998), a infraestrutura só é rea-
lizada até onde interessa aos investidores imobiliários.
Sendo assim, entende-se o momento de crise econômica e financeira
em que se vive hoje - quando o capital diminui as pressões no Estado
– como oportunidade de investimento em políticas públicas pontuais
suprindo as necessidades de infraestrutura dos cidadãos moradores
dos bolsões “hiperurbanizados” num processo de contenção urbana.

Considerações finais
A crise financeira iniciada em 2014 teria ocasionado em Belém a conten-
ção de crescimento de infraestrutura, grande taxa de vacância e um
estoque de imóveis novos inédito. Pela análise aqui feita, trata-se

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 355
de situação cíclica. Expansão e contenção ocorrem em função
do aumento e diminuição da oferta de crédito imobiliário no Brasil.
O que não impede o oportunismo por parte de detentores de grandes
parcelas de capital em se apropriarem de terra a baixos preços, princi-
palmente quando são capazes de fabricar uma crise, seguida por uma
grande taxa de vacância. Além disso, é importante lembrar que, outro
motivo que faz com que altas taxas de vacância e de inadimplência
sejam interessantes aos investidores é o fato de que a grande apropriação
de renda acontece no momento em que a incorporação é realizada -
quando são beneficiados pela cobiçada renda diferencial.
Por outro lado, em meio à atual crise econômica, à expansão com
bolsões “hiperurbanizados”, com segregação e segmentação nas cida-
des, e política vigente no Brasil, torna-se necessidade premente utilizar
as consequências conjunturais desta crise da maneira eficaz, criando
políticas públicas coerentes com a atual realidade socioeconômica
urbana. A tarefa de identificar de que maneira as tendências de expan-
são e contenção do perímetro urbano construído seguirão adiante,
é necessária à tomada de decisão e ações públicas que gerem desenvol-
vimento e justiça social.
A crise econômica-financeira mundial e a crise política nacional exis-
tentes podem ser vistas como conjuntura positiva pelos planejadores,
já que inibe a expansão de perímetro urbano construído devido à queda
da entrada de capital financeiro internacional – grande catalisador no
processo de espraiamento. A desaceleração da expansão do períme-
tro urbano construído não só diminui a aceleração do crescimento do
passivo infraestrutural, como possibilita trabalhar com a variável den-
sidade - potencial geradora de desenvolvimento, em escala de tempo
maior, já que as mudanças estruturais na malha urbana são efetivadas
mais lentamente. Ou seja, entende-se que o momento possa ser visto
como uma oportunidade à geração de desenvolvimento, caso se dê par-
ticular atenção aos assentamentos informais existentes. O provimento
de infraestrutura aos assentados destas regiões, hoje habitantes de uma
“não cidade”, permitirá aos mesmos apropriarem-se de uma condição
mínima de cidadania, contribuindo para que “diversidades emerjam
de generalidades”.

356 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 357
Globalização e Urbanização.
Entre a hegemonia global e a identidade cultural.
FA BR ÍCIO DE FR A NCISCO LINA R DI
M A NOEL LEMES DA SILVA NETO

Pontifícia Universidade Católica de Campinas – CEATEC, POSURB. BRASIL

Resumo
O artigo visa discutir o processo de urbanização relacionando seu está-
gio atual à “aceleração contemporânea” (Santos, 2013). Toma-se como
ponto de partida o fato de que a globalização constitui um paradigma
para a compreensão dos diferentes aspectos da realidade contemporâ-
nea e a noção de que a “aceleração contemporânea” é o principal motor
da esfera cultural da contemporaneidade, através do qual toda lógica
cultural da pós-modernidade se estabelece e se reproduz. A partir da
definição de conceitos fundamentais de contemporaneidade, pós-mo-
dernidade e as implicações destes fenômenos no espaço construído, pre-
tende-se apresentar elementos que refletem o modo de organização
espacial promovido em nome da reprodução do sistema cultural que,
modificando equilíbrios preexistentes, procuram impor a globalização
como princípio unificador dos lugares, independentemente das lógicas
territoriais pré-existentes. Essa lógica de produção do espaço se apre-
senta como hegemônica e, por meio dela, pode-se admitir que os lugares
tendem a ser cada vez mais alienantes. Como exemplificação no campo
concreto, o artigo apresenta evidências desse processo no território bra-
sileiro, particularmente em função dos Jogos Olímpicos do Rio de
Janeiro de 2016. O exemplo denuncia a produção espacial alinhada com
interesses hegemônicos e negando as realidades do território brasileiro.

Palavras-Chave
Globalização; Urbanização; Identidade Cultural; Pós-modernidade.

358 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Introdução
Compreendendo a contemporaneidade como um período histórico de
“acelerações” que impedem a lógica da sucessão dos tempos, o trabalho
discute relações entre processos - globalização e urbanização e dinâmicas
– a hegemonia global e a identidade cultural. A abordagem compreende
três elementos de análise: 1) Condições históricas da contemporaneidade
sob a ótica de dois autores, Milton Santos e Fredric Jameson; 2) Globaliza-
ção e urbanização, como contexto; 3) Conclusivamente, reflexões a res-
peito dos lugares da globalização. No caso brasileiro, o tema remete às
condições em que constituíram as olimpíadas no Rio de Janeiro de 2016.

Algumas condições históricas da contemporaneidade


Tomando por referência a obra de Milton Santos, que se desdobrou
sobre a geografia e globalização para compreender a lógica do espaço
contemporâneo, deve-se considerar que o fenômeno da globalização é,
de início, “o ápice do processo de internacionalização do mundo capita-
lista” (SANTOS, 2011, p. 23). E, como desdobramento desta questão, é
necessário considerar dois elementos fundamentais apontados pelo
geógrafo: “o estado das técnicas e o estado da política”.
Ao estado das técnicas, atribui-se os avanços da ciência e, principal-
mente, das técnicas de informação e comunicação nas últimas décadas
que possibilitou, entre outras singularidades do nosso tempo, a difusão
de uma técnica única em todo o mundo. “É a partir da unicidade das
técnicas da qual o computador é uma peça central, que surge a pos-
sibilidade de existir uma finança universal, principal responsável pela
imposição a todo o globo de uma mais-valia mundial” (p. 27).
Consequentemente, a unicidade técnica presente no espaço requer
a unicidade do tempo no mundo, sem a qual a unicidade das técnicas
perderia sua eficácia1.

1
“Em nossa época, o que é representativo do sistema de técnicas atual é a chegada da
técnica da informação, por meio da cibernética, da informática, da eletrônica. Ela vai
permitir duas grandes coisas: a primeira é que as diversas técnicas existentes passam
a se comunicar entre elas. A técnica da informação assegura esse comércio, que
antes não era possível. Por outro lado, ela tem um papel determinante sobre o uso do
tempo, permitindo, em todos os lugares, a convergência dos momentos, assegurando
a simultaneidade das ações e, por conseguinte, acelerando o processo histórico”
(SANTOS, 2011, p. 24-25).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 359
Sob essas condições históricas, considere-se também, o estado da
política. Isto é, “o resultado das ações que asseguram a emergência de
um mercado dito global, responsável pelo essencial dos processos polí-
ticos atualmente eficazes” (p. 23-24).
Do ponto de vista dessa teoria social crítica, o modo como as relações
econômico-financeiras, políticas e culturais constituem-se atualmente
no mundo conformam uma espécie de “globaritarismo” cuja perversi-
dade sistêmica fundamenta-se na tirania da informação e do dinheiro2 .
Contudo, para o geógrafo, o modo como as coisas se apresentam
como perversidade, não pode ser entendido como a única forma de
ser das coisas. Isto é, a relação entre o estado das técnicas e o estado
da política permite imaginar relações diferentes da atual. Haveria, em
princípio, a possibilidade de encarar a globalização também como possi-
bilidade de outros modos de ser da sociedade, a partir de outras políticas
fundadas por meio do domínio das técnicas por agentes que não sejam
os hegemônicos; a globalização pode instaurar outro paradigma para a
compreensão dos diferentes aspectos da realidade contemporânea.
Sob outro ponto de vista, o fenômeno da globalização está relacio-
nado, também, com a ideia de hegemonia cultural que se estabelece prin-
cipalmente a partir da década de 1970. Fredric Jameson, teórico e crítico
cultural americano, expôs o pós-modernismo como a lógica cultural do

2
Duas citações de Milton Santos reforçam a ideia: “Entre os fatores constitutivos da
globalização, em seu caráter perverso atual, encontram-se a forma como a informação
é oferecida à humanidade e a emergência do dinheiro em estado puro como motor da
vida econômica e social. São duas violências centrais, alicerces do sistema ideológico
que justifica as ações hegemônicas e leva ao império das fabulações, a percepções
fragmentadas e ao discurso único do mundo, base dos novos totalitarismos –
isto é, dos globaritarismos – a que estamos assistindo” (SANTOS, 2011, p. 38). E:
“Consideramos, em primeiro lugar, a emergência de uma dupla tirania, a do dinheiro
e a da informação, intimamente relacionadas. Ambas, juntas, fornecem as bases do
sistema ideológico que legitima as ações mais características da época e, ao mesmo
tempo, buscam conformar segundo um novo ethos as relações sociais e interpessoais,
influenciando o caráter das pessoas. A competitividade, sugerida pela produção e pelo
consumo, é a fonte de novos totalitarismos, mais facilmente aceitos graças à confusão
dos espíritos que se instala. Tem as mesmas origens a produção, na base mesma da
vida social, de uma violência estrutural, facilmente visível nas formas de agir dos
Estados, das empresas e dos indivíduos. A perversidade sistêmica é um dos seus
corolários” (SANTOS, 2011, p. 37).

360 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
capitalismo tardio, que pode ser compreendido como um termo correlato
à globalização. Para ele, o pós-modernismo, como oposição e superação
dos valores do modernismo, está ligado com a transformação do mundo
real (moderno) em representações simbólicas (pós-moderno), ou melhor,
no descolamento da realidade por meio da supervalorização da dimen-
são simbólica de grande parte da esfera social. Em uma análise sobre a
perda de conteúdo na cultura pós-moderna, Jameson afirma que “um sig-
nificante que perdeu seu significado se transforma com isso em imagem”
(JAMESON, 1985, p. 23)3. O pós-moderno produz culturalmente um alto
grau de fantasia apresentado à sociedade como delírio. Oferece uma expe-
rimentação fenomenológica descolada da realidade concreta.
Entre as características culturais desse período, Jameson utiliza dois
conceitos chave: Pastiche e Esquizofrenia. Pastiche no sentido de revelar
a transformação da realidade em imagem sem referente. “No mundo em
que a inovação estilística não é mais possível, tudo o que restou é imitar
estilos mortos, falar através de máscaras e com as vozes dos estilos do
museu imaginário” (p. 19-20). E ainda, “isto significa que uma de suas
mensagens essenciais implicará na falência da estética e da arte, a falência
do novo, o encarceramento no passado” (p. 19-20). Esquizofrenia como
sendo a fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos. “O
mundo surge ante o esquizofrênico com alta intensidade, contendo uma
misteriosa sobrecarga afetiva, resplandecendo de energia alucinatória” (p.
23). “O esquizofrênico não consegue [...] reconhecer sua identidade pes-
soal no referido sentido, visto que o sentimento de identidade depende de
nossa sensação da persistência do ‘eu’ e de ‘mim’ através do tempo” (p. 12).

3
Impossível deixar de notar a semelhança desta afirmação com as características da
“sociedade do espetáculo” apresentadas por Guy Debord em 1967: “Toda a vida das
sociedades nas quais reinam as modernas condições de reprodução se apresenta como
uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-
se uma representação” (DEBORD, 1997, p. 13); “O espetáculo não é um conjunto de
imagens, mas uma reação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD,
1997, p. 14); “O espetáculo domina os homens vivos quando a economia já os dominou
totalmente. Ele nada mais é que a economia desenvolvendo-se por si mesma. É o
reflexo fiel da produção das coisas, e a objetivação infiel dos produtores” (DEBORD,
1997, p. 17-18); “O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna
imagem” (DEBORD, 1997, p. 25).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 361
Em Milton Santos, as ideias sobre os efeitos da nova lógica cultural
na dimensão social traduz-se por intermédio das variáveis introduzidas
pela “aceleração contemporânea4”.
[A aceleração contemporânea] não é uma criação exclusiva da veloci-
dade, mas de outra vertigem, trazida com o império da imagem e a
forma como ela é engendrada, através da engenharia das comunica-
ções, ao serviço da mídia – um arranjo deliberadamente destinado a
impedir que se imponham a ideia de duração e a lógica da sucessão. [...]
Este tempo de paradoxos altera a percepção da História e desorienta os
espíritos, abrindo terreno para o reino da metáfora que hoje se valem
os discursos recentes sobre o Tempo e o Espaço. (SANTOS, 2013, p. 28).

Para ele, a aceleração contemporânea é decorrente de vários processos


inéditos e recentes da humanidade. A evolução das potências e dos ren-
dimentos, o uso de novos materiais, novas formas de energia, a expan-
são demográfica, a explosão do consumo, a explosão urbana, o cresci-
mento exponencial de objetos e do arsenal de palavras, “mas, sobretudo,
causa próxima ou remota de tudo isso, a evolução do conhecimento,
maravilha do nosso tempo que ilumina ou ensombrece todas as facetas
do acontecer” (p. 28). Por isso é “um resultado também da banalização
da invenção, do perecimento prematuros dos engenhos e de sua suces-
são alucinante. [...] Daí a sensação de um presente que foge” (p. 28).
A aceleração contemporânea em muito se aproxima da imposição do
pós-modernismo como lógica cultural. A associação de contextos narra-
tivos relativamente opostos converge para tantas outras imagens cons-
truídas por teóricos que igualmente se dispuseram descrever e analisar o
mundo contemporâneo (SOJA, 1993; HARVEY, 1993). E não só. A pós-mo-
dernidade para Jameson é, sobretudo, cultural. Assim sendo, é possível tra-
çar paralelos entre a concepção esquizofrênica da relação temporal descrita
por Jameson e a noção de “aceleração contemporânea” de Milton Santos.

4
Importante lembrar que Milton Santos afirma que “acelerações são momentos
culminantes na História, como se abrigassem forças concentradas, explodindo para
criarem o novo” (p. 27). E que, houve, no passado, outros momentos de aceleração
“vivemos plenamente a época dos signos, após havermos vivido o tempo dos deuses, o
tempo do corpo e o tempo das máquinas” (p. 27-28).

362 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Pode-se imaginar que eles se debruçam sobre as consequências das práticas
sociais hegemoneizantes, aquelas que impossibilitam o amadurecimento
das ideias. Segundo a lógica dominante, não há tempo a perder. Todas as
decisões precisam ser tomadas em curto prazo de tempo. É assim que a
prática das decisões cotidianas do tempo social fica comprometida. Não há
tempo para refleti-las. Devem ser tomadas cada vez mais rapidamente.
Tanto a descrição da aceleração contemporânea quanto a intenção
deliberada de descolamento espaço-temporal como descrita por Jame-
son são ações cada vez mais comumente praticadas no campo da cultura
com o objetivo de impedir a reflexão subjetiva sobre o próprio ser. No
momento em que o ser humano não se reconhece como sujeito e não
reconhece o mundo em que vive, isto é, perde a habilidade de refletir
sobre quem “sou” e quem “sou-no-mundo”, se instaura o eterno sentido
da realidade fugaz, do eterno presente.
É com tal ponto de inflexão que a cultura foi transformada “de esti-
mulante em tranquilizante; de arsenal de uma revolução moderna em
repositório para a conservação do produtor. Cultura tornou-se o nome
de funções atribuídas a estabilizadores, homeostatos ou giroscópios”
(BAUMAN, 2009, p. 15). Pode-se dizer que a criação da sociedade de
consumo, o monopólio das mídias, o poder sobre o capital flutuante,
são partes da conjuntura que promove a própria aceleração contempo-
rânea segundo seus interesses. Esses elementos inculcam à grande parte
da população uma profunda alienação da realidade do sistema político
econômico capitalista global. Tal alienação estabelece condições pelas
quais o sujeito não reconhece o todo e tampouco se reconhece na parte,
ou, mais especificamente, não é capaz de discernir qual a sua posição no
contexto dos fatos totais.

A Globalização e a Urbanização
Se, por um lado, o fenômeno da globalização possibilita a aproximação
entre os povos pela ampliação das relações entre nações ao redor do
globo e a difusão de seus valores culturais, por outro, tem acelerado um
processo hegemônico de urbanização que busca a reprodução de capi-
tais promovendo lugares descompromissados e descomprometidos com
a identidade cultural de onde são implantados.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 363
Na construção do espaço, esse processo implica a imposição de terri-
torialidades construídas com caráter heterônomo à cultura local, além
da negação dos traços culturais historicamente construídos. O resultado
é a produção do espaço voltado à reprodução de capitais, aos projetos
hegemoneizantes do “ente mercado” (TORRES, 2005), e limpo de traços
culturais identitários. Impõe-se a linguagem genérica (KOOLHAAS,
2010) aplicada às cidades.
A produção do espaço direcionada ao consumo e, portanto, ao con-
sumidor como ator principal, resulta no surgimento e aumento de espa-
ços genéricos, desprovidos de traços culturais, emblemáticos. E o mais
grave. Tal metodologia de produção do espaço está vinculada com uma
intenção deliberada de naturalização, isto é, passar a ideia de que não
há alternativas além da proposta de reprodução do próprio sistema
alienante. A lógica de produção do espaço, de maneira paralela à cul-
tura pós-moderna, proíbe que o sujeito, a partir da restrição do enten-
dimento sobre o mundo, possa vislumbrar outros caminhos que não o
imposto pelo sistema dominante. Em outras palavras insere o sujeito em
um círculo vicioso no qual o único caminho é aceitar o aprofundamento
das condições do próprio sistema.

Concluindo: lugares da globalização, olimpíadas


no Rio de Janeiro
Em sentido largo, o contexto socioespacial de boa parte das interven-
ções que caracterizam o impacto da “cultura pós-moderna” e da “acera-
ção contemporânea” no Brasil está emblematicamente representada nas
obras que apresentam as cidades brasileiras nas vitrines do mundo.
No Brasil contemporâneo, o processo associado à busca de exposição
global é cada vez mais evidente. Não é de surpreender que a única alter-
nativa apontada pela classe política para a superação das tantas crises
(política, ética, moral) seja a ampliação da situação que, em primeiro
lugar, fez surgir a própria crise. Efetivamente, de todas a serem supera-
das no Brasil “a única crise que os responsáveis desejam afastar é a crise
financeira e não qualquer outra. Aí está, na verdade, uma causa para
mais aprofundamento da crise real – econômica, social, política, moral
– que caracteriza o nosso tempo” (SANTOS, 2011, p.36). A mercantiliza-

364 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
ção financeira das cidades está muito presente no discurso hegemônico
e a decorrência disso é a naturalização do fato de que só o crescimento
econômico pode melhorar a qualidade de vida da coletividade. Entre-
tanto, o resultado prático revela a produção do espaço segundo a lógica
neoliberal no qual “Em lugar do cidadão formou-se um consumidor, que
aceita ser chamado de usuário”. (SANTOS, 2012, p. 25).
Como exemplo metafórico da perversidade da imagem e da aliena-
ção, o filme “Brazil” de Terry Gilliam, gravado na década de 1980, des-
creve um mundo perversamente transformado pelas forças alienantes de
um sistema totalitário. Em uma das cenas o protagonista percorre uma
estrada cujo fechamento lateral é feito por uma contínua parede de peças
publicitárias que vendem a ideia de um mundo maravilhoso. Atrás destes
painéis informativos o mundo aparece altamente modificado pela ação
do homem e muito aquém do mundo maravilhoso estampado nas ima-
gens (BRAZIL, 1985, 1h:33min:30seg.). Esta cena ilustra, como metáfora,
o mundo atual, no qual os meios de comunicação não têm compromisso
com a realidade, mas sim com a ilusão de um mundo melhor do que o real
e, como decorrência, com a desarticulação do sentimento sobre o real.
Interessante notar que o método absurdo demonstrado no filme de
Gilliam tem sido usado ipsis litteris em algumas situações em cidades
contemporâneas. Na ocasião das Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016
uma barreira visual revestida de peças ilustrativas foi implantada entre
o complexo da Maré e os limites de uma importante via de automóveis
que liga o Aeroporto Internacional do Galeão e as praias da zona sul da
cidade (Fig. 2). A proposta apresentada pelo poder público era implantar
uma barreira acústica, mas a evidência mostra que o intuito maior era
o de esconder a realidade do entorno, uma vez que o complexo da Maré
é uma das regiões mais pobres do Rio de Janeiro. A realidade pobre da
Maré não era compatível com a imagem de “cidade maravilhosa” que
estava sendo vendida pelos organizadores do evento olímpico (HARRIS,
2016; MERGUIZO; CONDE, 2016).
Esta lamentável intenção hegemônica de restringir a capacidade de
ver o mundo concreto e de ver-se no mundo, conduz as pessoas à con-
fusão de realidade inserindo a ideia de que o mundo como se apresenta
é natural, “natureza que nenhuma faculdade humana pode questionar

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 365
ou reformar” (BAUMAN, 2015, p. 38). Milton Santos remete-se à fabu-
lações do sistema ideológico do fenômeno da globalização, do qual há
três fábulas principais naturalizadas, porém que não passam de mitos
criados com o objetivo de impor o pensamento único.
1. A comunicação se tornou possível à escala do planeta.
2. Mito do espaço-tempo contraído, graças, outra vez, aos prodígios da
velocidade.
3. Mito de uma humanidade desterritorializadas / a existência de uma
cidadania universal.

Sobre essas naturalizações ou fabulações, Bauman não deixa de advertir


que, embora pareçam ser inquestionáveis e que não necessitem de aná-
lise e comprovação, “sob exame apenas pouco mais rigoroso, todos esses
supostos ‘imperativos’ revelarão nada mais que aspectos diversos do sta-
tus quo – das coisas como de fato se apresentam, mas de modo nenhum
como elas devem ser naquele momento” (BAUMAN, ibid., p. 39, grifo do
autor). Por isso não deixa de advertir quanto a capacidade humana de
transformação da realidade valendo-se da potência reflexiva do existen-
cialismo de Sartre. “Somos, por assim dizer, condenados a sermos livres”
(1943, apud BAUMAN, 2015, p. 33).
Sobre a articulação indissociável entre sistema técnico e sistema político
pensado por Milton Santos, nada impede imaginar a possibilidade vindoura
de uma “outra” globalização, a partir de mudanças do sistema político.

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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 367
Habitar na informalidade.
O território do Chabá em Angola
M A RGA R IDA LOURO
CIAUD, Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design

C ATA R INA NÓBR EGA

Faculdade de Arquitetura, Universidade de Lisboa, Portugal

Resumo
Habitar a informalidade – o território do Chabá em Angola, assume-se
como parte de uma investigação mais vasta enquadrada pelo panorama
do crescimento populacional mundial e pelas dinâmicas de grande assi-
metria entre os territórios subdesenvolvidos versus desenvolvidos. Efe-
tivamente perante um crescimento que ultrapassa já os sete mil milhões
de pessoas, verifica-se que essa densificação se regista sobretudo nas
zonas urbanas dos países subdesenvolvidos, de forma desregulada e
informal em detrimento das zonas rurais e dos países desenvolvidos
onde pelo contrário o envelhecimento populacional é bastante expres-
sivo. Neste contexto, Angola e em particular a sua capital, Luanda, des-
taca-se como um dos contextos em que esse fenómeno de aumento
populacional é acelerado e consequente descontrolado e de difícil ges-
tão. O bairro do Chabá elege-se como campo privilegiado nessa reflexão
no sentido de enquadrar formas de dar resposta a este panorama e oti-
mizar soluções de qualificação e relações entre a cidade formal e infor-
mal, integrando as populações existentes e as que diariamente chegam
a esses polos. Neste sentido, este contributo, estabelece-se para além de
uma abordagem crítica e reflexiva sobre o contexto em estudo, com
ações práticas de projeto que propondo estratégias de intervenção abar-
cam diversas escalas de soluções desde a casa ao território.

Palavras-Chave
Luanda, Chabá, sobrepovoamento, musseque, habitação informal

368 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. O Crescimento Populacional Mundial - enquadramento
da problemática

Fig. 01 | Gráficos sobre o crescimento populacional mundial e o enquadramento de


Luanda, fonte: NÓBREGA, Catarina, 2016.

Atualmente mais de metade da população mundial (cerca de 54%) vive


em áreas urbanas. Ao longo das últimas seis décadas o processo de urba-
nização tem sido extremamente rápido, sendo necessárias também rápi-
das soluções e adaptações desses territórios face ao cada vez maior
número de pessoas que os ocupam.
De acordo com os estudos feitos pelas Nações Unidas em 2050, a popu-
lação mundial será 34% rural e 66% urbana, sendo que este valor ocorrerá
de forma acentuada nas zonas urbanas dos países menos desenvolvidos.
Este grande aumento nas áreas urbanas acontece devido ao fenó-
meno da globalização, interpretado como um processo de integração e
interação de pessoas, empresas, culturas e governos de várias nações, e
que, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), acontece devido
a quatro princípios básicos: o comércio e as transações financeiras, os

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 369
movimentos de capital e de investimento, a migração e o movimento de
pessoas e a disseminação do conhecimento. Este processo arrecada por
um lado os defensores, que consideram que a globalização ajuda a que os
países em vias de desenvolvimento consigam crescer economicamente,
aumentando assim os seus estilos de vida, e os opositores, que afirmam
que o facto de o mercado ter passado a ser livre beneficiou as grandes
empresas em detrimento das pequenas estruturas.
Em termos de reflexão e ação crítica, há que entender a cidade como o
local onde várias pessoas interagem, encontrando satisfação dos bens e
necessidades essenciais, onde as ambições e aspirações se realizam, mas
também como lugar de desigualdade, exclusão e privação.
E se de facto a globalização trouxe consigo várias consequências posi-
tivas, trouxe também muitas aportações negativas, muitas delas direta-
mente relacionadas com as disfunções urbanas e com as desigualdades
socio-espaciais, acompanhadas pela pobreza, por vezes extrema, e pela
insegurança cada vez mais grave e com inerentes riscos sociais.
Neste contexto enquadram-se as Megacidades, áreas urbanas que
apresentam um valor de mais de dez milhões de habitantes, e que, no
caso dos países em desenvolvimento, manifestam uma extensão urbana
descontrolada, pois o crescimento populacional não é diretamente pro-
porcional à respetiva necessidade de novas habitações e infraestruturas.
Segundo estudos das Nações Unidas em 2050 haverá um aumento
de 2.5 mil milhões de pessoas a viver em áreas urbanas, sendo que por
volta de 90% desse aumento acontecerá na África e na Ásia. Nestas cida-
des com elevado número de habitantes, coexistem diferentes grupos
de várias etnias, culturas e extratos sociais que apresentam distintos
estilos de vida. Existindo esta enorme variedade de tipos de habitantes,
estas cidades são foco de problemas de risco global, pois, normalmente,
abrangem também casos de pobreza extrema, o que provoca desigual-
dades sociais. Estes habitantes menos favorecidos representam a popu-
lação que vive nas periferias, na correspondente cidade informal, sem
ordem e regras e geralmente sem os bens e serviços essenciais básicos.
É, por isso, emergente pensar em novas relações entre a cidade cen-
tral e a sua periferia, muitas vezes em direta correspondência entre a
cidade formal e informal, através de novas maneiras de organização e

370 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
articulação num sentido equilibrado e integrado. Numa estratégia que
de certo modo integre a informalidade, e que combata a formação de
guetos de descriminação e de intolerância social.

2. A Condição do Urbano – formal versus informal

Fig. 02 | Cidades formais versus cidades informais: Mumbai/India, Rio de Janeiro/


Brasil, Makati/Filipinas, GangnamGu/Coreia do sul, fonte: NÓBREGA, Catarina, 2016.

O facto do crescimento urbano acontecer com grande rapidez e de forma


descontrolada, a pobreza, a falta de habitações de carácter social, o limi-
tado acesso a terrenos e a consequente exclusão e descriminação dos
mais desfavorecidos, levam a que estes tenham que recorrer à autocons-
trução, utilizando de forma ilegal os terrenos livres que vão encon-
trando, formando assim os assentamentos informais, muitas vezes em
zonas centrais e em coexistência com a cidade formal.
Estas zonas são assim geralmente caracterizadas pela falta de ser-
viços essenciais, como sanitário básico e água potável; por habitações
precárias e inadequadas, construídas com materiais de pouca duração e
de fraca qualidade; pelo sobrepovoamento, pois estas áreas estão asso-
ciadas a uma grande ocupação e a um elevado número de habitantes a
viver na mesma habitação; por condições de vida insalubres e localiza-
ções perigosas, que acontecem devido à falta de serviços básicos como

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 371
serviço de esgotos, serviço de recolha de lixo, etc; pela insegurança na
posse dos terrenos, dado que normalmente os terrenos são ocupados
de forma ilegal sem que as pessoas tenham um registo do mesmo, ou
seja, sem que o possuam; pela pobreza e a consequente exclusão social,
fazendo com que estes espaços sejam caracterizados como locais des-
protegidos e inseguros.
Os assentamentos informais que se encontram no centro das cidades,
normalmente costumam-se localizar nas zonas antigas da cidade ou
junto às zonas industriais. Aqui os habitantes encontram-se mais perto
das oportunidades de emprego que a cidade oferece, embora continuem
a viver em habitações precárias correndo, mais facilmente, o risco de
ficarem desalojados, visto que se encontram em terrenos privados que
tendem a ter maior valor e interesse económico. Nestes contextos con-
figuram-se cidades fragmentadas, numa condição urbana em desconti-
nuidade com o restante território, onde cada parte se define como autó-
noma e sem qualquer articulação com o conjunto.

3. Luanda – entre a cidade desejada e a cidade habitada

Fig. 03 | Município de Luanda – enquadramento e localização do bairro do Chabá,


fonte: NÓBREGA, Catarina, 2016.

372 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Na sua formação histórica, Luanda desenvolveu-se entre uma zona
baixa de orla costeira e uma zona de planalto mais elevado. No séc. XIX
a cidade alta definia-se entre a Fortaleza de S. Miguel e o Hospital Josina
Machel, concentrando nesse eixo o poder político, militar e religioso. A
cidade baixa ocupava a zona dos Coqueiros e a Baía, concentrando ativi-
dades ligadas ao comércio. Durante a época colonial foram surgindo as
primeiras áreas precárias ocupadas por diferentes etnias.
No séc. XX, mais precisamente em 1922, é rasgada a rua Brito Godins
(Avenida Lenine), que fazia a ligação do Largo do Kinaxixe à Maianga, pas-
sando a simbolizar a fronteira entre a cidade e toda a habitação precária
que começava a envolver os limites da cidade. Na generalidade, os bairros
periféricos eram considerados musseques, independentemente do tipo de
construção. Em comum tinham a falta de condições de habitabilidade, a
pobreza da sua população, a construção em solos completamente inapro-
priados e a carência de infraestruturas. Com o aumento de riqueza e con-
sequente aumento da imigração a partir do séc. XX, a cidade altera-se e é
entre 1925 e 1965 que o crescimento urbano alcança maior proporção.
O crescimento não planeado do séc. XX aumentou os problemas de
falta de condições e sustentabilidade nos bairros periféricos, fora do con-
trolo público e marcados pela heterogeneidade dos seus grupos sociais.
Atualmente, a população total de Luanda deverá rondar os 6 milhões
de habitantes numa área urbana dimensionada para uma população de
cerca de 800 mil habitantes, sendo que cerca de 3/4 vive em musseques.
Contribuíram para este facto o crescimento populacional sem medidas
de acompanhamento, a destruição pela guerra de 30% do parque habi-
tacional de Angola e o êxodo rural desenfreado em função da capital.

4. O Bairro do Chabá – um centro periférico


O bairro do Chabá integra-se no distrito urbano de Maianga, um dos
seis distritos do Município de Luanda. Apresenta uma área de 180 mil
metros quadrados e é limitado a norte pelo Rio Seco, a este pela Avenida
Revolução de Outubro, pela Rua Comandante Arguelles a sul e pela Rua
dos Heróis a oeste. Podemos afirmar que este bairro acaba por ser uma
ilha, rodeada por vias rápidas com papel importante para a cidade, pois
são estas que fazem a ligação da Luanda central com a sua periferia.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 373
Embora antigamente tenha sido um jardim, este território acabou por
ser invadido por construções informais de forma caótica dando origem
ao atual musseque. Este apresenta uma densidade baixa, com habitações
e comércio informal assim como alguns serviços e equipamentos de
saúde e educação. Podemos considerar que este é um musseque de tran-
sição, pois localiza-se perto do centro de Luanda, ou seja, encontra-se
dentro da cidade formal, ficando perto dos postos de trabalhos urbanos,
e de serviços e equipamentos, como mercados, centros de saúde e polí-
cia, e que, neste momento, já não se consegue expandir mais. O facto de
a sua localização ser central faz com que o valor do solo cresça cada vez
mais. Analisando os seus bairros envolventes, percebemos que a cidade
formal se aproxima cada vez mais desta área, estando, então, este terri-
tório envolvido pelos dois tipos de cidade: a formal, com o Bairro
Maianga a norte e o Bairro Azul a oeste; e a informal, com o Bairro
Catambor a este, e o Bairro do Prenda a sul.

Fig. 04 | Bairro do Chabá: imagens de caracterização, fonte: NÓBREGA, Catarina, 2016.

O bairro do Chabá é assim maioritariamente habitado por uma popula-


ção de classe social média baixa e classe social muito baixa. Os seus
habitantes vêm de várias áreas da Angola rural e, também, de outros
países africanos. É caraterizado por habitações de pequena escala, rudi-
mentares onde uma das características principais das habitações deste

374 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
bairro é a existência de um espaço dedicado ao comércio. Esta é a prin-
cipal, se não mesmo a única, atividade e modo de sustento da maioria
das famílias que aqui vivem. É um território de enclave, desqualificado
e pressionado que urge reflexão e intervenção.

5. Estratégias de Habitabilidade – uma metodologia


de intervenção
O Projeto Urbano
A lógica do projeto urbano no sentido de construir uma estratégia de
habitabilidade e reconversão do lugar, articulou-se entre a preexistência
da malha, das ruas, dos caminhos e as tipologias das casas existentes. A
procura estabeleceu-se no sentido de encontrar uma génese na preexis-
tência, uma espécie de ADN urbano que conduzisse a abordagem de
reorganização territorial nas suas diversas escalas.
De facto, a ideia e organização, das habitações no quarteirão surge a
partir da análise dos kraals, assentamentos informais das tribos africa-
nas, normalmente de forma circular, que eram caracterizados por um
terreno cercado com várias cubatas de diferentes áreas sociais, sendo o
centro o espaço sagrado, uma espécie de zona de encontro e de desen-
volvimento de atividades religiosas, muitas vezes definido por um jango,
uma cubata apenas com cobertura. Um conjunto de vários kralls dava
origem ao quilombo, ou seja, a uma aldeia.
Esta lógica inspirou toda a estratégia de habitabilidade urbana.
Assim na conjunção dos vários tipos de quarteirões pretendeu-se man-
ter a ideia de este ser um bairro predominantemente pedonal, que qua-
lifica o espaço público e a vida em comunidade. Neste sentido as vias
pedonais são claramente de carácter residencial e pretendem interligar
os habitantes de cada quarteirão da zona habitacional, fazendo com que
a tradição do encontro na rua pela comunidade continue. Para além des-
sas ruas pedonais, também se pensou no espaço central que surgia nos
kraals e que aqui surge no centro de cada quarteirão como um espaço de
encontro para os seus habitantes.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 375
Fig. 05 | Bairro do Chabá: proposta do modelo urbano – premissas de composição e
organização de tipologias habitacionais, fonte: NÓBREGA, Catarina, 2016.

376 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O Projeto Habitacional
No sentido de enquadrar os modos de habitar e a organização do espaço
das casas destas populações, para além do estudo da história do país e da
habitação informal procedeu-se à análise de exemplos de habitações exis-
tentes. Desta leitura dos musseques, verificou-se a importância do quintal
na organização da tipologia da casa, normalmente associado a uma cozi-
nha exterior e alguns anexos, muitas vezes independentes da casa princi-
pal. Outro aspeto observado foi a coexistência na casa de espaços para
comércio, para exploração própria ou para alugar, sendo que esta é uma
característica fundamental a ter em conta pois muitas vezes são estas
áreas de negócio que mantém o sustento da família. Outro aspeto rele-
vante foi o tratamento da entrada na casa, geralmente feita pelo quintal
que por sua vez distribui por todos os outros compartimentos.
Estas premissas associadas às condicionantes de ocupação (estrutu-
ras familiares), lógicas de crescimento e agrupamento, técnicas cons-
trutivas disponíveis, clima, etc..., acabaram por conduzir à construção
de um modelo habitacional flexível, organizado em três tipologias dife-
rentes de dois, três e cinco quartos e adaptados a agregados familiares
variados entre as quatro e as dez pessoas.

Fig. 06 | Bairro do Chabá: proposta do modelo habitacional, fonte: NÓBREGA,


Catarina, 2016.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 377
As propostas tipológicas foram definidas a partir de uma malha
compositiva, alicerçada na lógica modular construtiva, que interre-
lacionando diversas escalas, desde a casa, aos quarteirões define uma
estratégia flexível e sustentável de habitar o bairro. A sua repetição ao
longo do território, utilizando materiais e sistemas construtivos de fácil
aplicação, faz com que praticamente não seja necessária mão-de-obra
especializada, mantendo, desta forma, a tradição da autoconstrução.
Este aspeto resgatou o imaginário da habitabilidade informal e as pre-
missas de ocupação espontânea, reinventadas segundo novas lógicas de
qualificação e articulação urbanas.

Conclusão – sobre o habitar na informalidade


O acelerado crescimento urbano da cidade de Luanda de forma desregu-
lada levanta a urgência de refletir sobre como resolver esta problemática
dos musseques. De facto, as respostas imediatas tomadas em algumas
medidas pelo governo angolano estabelecem-se pela recolocação destas
populações em bairros noutras zonas, geralmente afastadas do centro e em
estruturas edificadas desajustadas dos hábitos da população existente.
O desenvolvimento do projeto urbano do Bairro do Chabá, perseguiu
assim a unificação da cidade formal que o envolve, com as caracterís-
ticas e lógicas de organização encontradas neste território informal.
Houve, portanto, a preocupação de manter a memória do lugar e fazer
com que os moradores se sentissem familiarizados com os locais requa-
lificados no novo bairro. O desenho das habitações estabeleceu-se tendo
a cultura e tradição como aspetos dominantes. Teve-se o cuidado de
desenhar um projeto para a população em questão, para as suas neces-
sidades, com proposta formal e construtiva simples. Um projeto de fácil
construção, com recurso a materiais de fácil montagem, baseado na sus-
tentabilidade económica e ecológica.
Assim, incidiu-se, principalmente, sobre a relação que a população
mantém com o espaço exterior, onde se realizam a maior parte das
suas atividades quotidianas, sendo em contrapartida o espaço interior
de dimensões mais contidas e de menor uso. A evolução da proposta
ponderou essas dinâmicas, propondo em todas as tipologias um espaço
exterior de quintal e a organização dos restantes compartimentos

378 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
segundo as lógicas de organização estudadas, de modo a serem aceites
e corresponderem de forma integrada às necessidades dos habitantes.
De uma forma geral, o projeto pretendeu dar a entender que existe a
possibilidade de unificar a cidade formal com a cidade informal, man-
tendo características das duas e correspondendo às necessidades dos
habitantes dos musseques, redesenhando novas formas de habitar na
informalidade.

Bibliografia
AAVV, The Challenge of Slums – Global Report on Human Settlements 2003,
New York – London, United Nations Settlements Program (UN-HABITAT) –
Earthscan Publications Ltd., 2003.
AMARAL, Ilídio do, “Luanda e os seus “muceques”: Problemas de Geografia
Urbana”, Finisterra (Revista Portuguesa de Geografia), vol. XVIII. N.º 36, Lis-
boa, Centro de Estudos Geográficos da Universidade, 1983, pp. 293-325.
CAÇOILA, Sandra; LOURO, Margarida: “A cidade Informal no Pensamento
Contemporâneo”, ARTiTEXTOS 05 – Urbanismo, Arquitectura, Design e
Moda, Lisboa, CEFA – Centro Editorial da Faculdade de Arquitectura, dezem-
bro 2007, pp. 015-020.
LOURO, Margarida; OLIVEIRA, Francisco, Casas para um Planeta Pequeno –
Projecto Angola Habitar XXI, Lisboa, Edições Pixelprint, 2009.
NÓBREGA, Catarina, Casas para um Planeta Pequeno – A problemática da
habitação informal em Luanda: Proposta de tipologias para o território
do Chabá, Projeto para a obtenção do grau de mestre em arquitetura, Lisboa,
Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, abril 2016.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 379
“Inovações Urbanas” –
Arquitetura + Urbanismo + Design
como alternativa para cidades melhores
A NA BE AT R IZ DA ROCH A
Departamento de Arquitetura e Urbanismo. Escola Superior de Desenho Industrial.

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (DAU/ESDI/UERJ)

PAULO R EIS
Programa de Mestrado Profissional em Gestão da Economia Criativa,

Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-Rio) e Agência UFRJ de Inovação

Resumo
O relatório da ONU, “Perspectivas Globais de Urbanização” (2013) prevê
que, em 2050, 6 bilhões de pessoas morarão em cidades. Este movimento
migratório para os centros urbanos é significativo e cidades, de todos os
portes, sofrem com o aumento de suas populações – o que significa um
maior impacto nas demandas por serviços básicos como saneamento,
transporte, luz e água, coleta de resíduos, provisão de moradia e na
oferta de vagas em escolas, hospitais, creches, dentre outros.
Neste cenário fica clara a necessidade de permanentes ajustes nas
estruturas que moldam e administram estes centros urbanos – uma vez
que o modelo atual de urbanização, que cria enclaves socioeconômicos
e estimula o aumento das desigualdades sociais, além de promover um
sistema de especulação imobiliária e fundiária, é insustentável. Por-
tanto, é fundamental propor equipamentos, formas, processos, siste-
mas, constructos e organismos que, mesmo oriundos de uma estrutura
urbana consolidada, se configuram como “inovações urbanas”.
O intuito aqui é explorar como a Arquitetura, o Urbanismo e o
Design se tornam instrumentais na proposição de “inovações urbanas”,
i.e. alternativas mais sustentáveis, solidárias, colaborativas e partici-
pativas, sobretudo as que consideram a elaboração de espaços urbanos
mais inclusivos e de políticas urbanas mais justas e equilibradas.

Palavras-Chave
Arquitetura; urbanismo; design; inovação; cidades.

380 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. Introdução
O relatório da ONU, “Perspectivas Globais de Urbanização” (2013) 1 prevê
que, em 2050, 6 bilhões dos 9.6 bilhões de habitantes do mundo morarão
em cidades. Este movimento migratório para os grandes centros urbanos
é significativo e cidades, de todos os portes, sofrem com o aumento de
suas populações – o que significa um maior impacto nas demandas por
serviços básicos como saneamento, transporte, moradia, luz e água, coleta
de resíduos, etc... e na oferta de vagas em escolas, hospitais, creches, den-
tre outros. Nesse cenário fica clara a necessidade de permanentes ajustes
nas estruturas que moldam e administram estes centros urbanos – uma
vez que o modelo atual de urbanização, que cria enclaves socioeconômi-
cos e estimula o aumento das desigualdades sociais, além de promover
um sistema de especulação imobiliária e fundiária, é insustentável 2. Por-
tanto, é fundamental propor equipamentos, formas, sistemas, construc-
tos e organismos que, mesmo oriundos de uma estrutura urbana consoli-
dada, se configuram como “inovações” urbanas.
Estas inovações urbanas têm uma importância significativa para
comunidades, bairros e cidades. São produtos, processos, serviços,
negócios e intervenções com potencial transformador; são escaláveis,
reproduzíveis, financeiramente autossustentáveis e com capacidade
para promover impactos construtivos e positivos nas comunidades, no
crescimento econômico local e no desenvolvimento global.
“Quando as organizações inovam, elas não só processam informa-
ções, de fora para dentro, com o intuito de resolver os problemas exis-
tentes e se adaptar ao ambiente em transformação. Elas criam novos
conhecimentos e informações, de dentro para fora, a fim de redefinir
tanto os problemas quanto as soluções e, nesse processo, recriar seu
meio.” (NONAKA & TAKEUCHI, 1997, p 61)
Neste sentido, a inovação urbana busca, de forma efetiva, contribuir
com a transformação dos espaços, das pessoas, das instituições, das

1
ONU, 2013 at https://nacoesunidas.org/cidades-terao-mais-de-6-bilhoes-de-
habitantes-em-2050-destaca-novo-relatorio-da-onu/
2
ONU, 2015 at https://nacoesunidas.org/atual-modelo-de-urbanizacao-e
insustentavel-onu-habitat-relatorio/

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 381
políticas e estruturas de uma cidade/sociedade 3. Podem, da mesma
forma transformadora, sugerir/propor interações coletivas, institucio-
nais e parcerias público-privadas – ora elaborando políticas públicas,
ora estruturando práticas de intervenção com potencial de criar situa-
ções de serviços integrados e inteligentes.
Para Villa e Mitchell (2010)4 e Cisco Consulting Thought Leadership
(2013)5 a essência da inovação urbana pode ter orientações e complexi-
dades variáveis como: 1) demonstrar como uma arquitetura empresarial
urbana pode permitir a criação de serviços integrados de cidadania e de
soluções socioeconômicas relativas à segurança, atitudes “verdes”, ener-
gia, construção, transporte; 2) desenvolver subsídios que possam impul-
sionar o papel das redes no provimento de serviços que visam a melho-
ria da qualidade de vida, desenvolvimento econômico e sustentabilidade
ambiental e; 3) estabelecer alianças fortes, compartilhar insights e inspi-
rar a “inovação” entre os diversos setores (governamental, político, socie-
dade civil, empresariado, etc..) presentes em comunidades urbanas.
De forma mais pragmática, sob a perspectiva do World Economic
Forum (2015)6, alguns dos princípios que norteiam o conceito de “ino-
vação urbana” incluem:
• fazer uso de recursos existentes subutilizados;
• partilhar o espaço público-privado;
• ativar a economia circular;
• oferecer oportunidades de reutilização e reciclagem;
• plantar e promover formas de tornar os espaços mais verdes;
• desenvolver estratégias de mobilização de indivíduos;promover solu-
ções e práticas focadas no usuário/cidadão de todas as idades, com
modos de vida e habilidades diversas

3
UNHABITAT, 2016 at http://wcr.unhabitat.org/
4
VILLA.& MITCHELL, 2010 at http://www.cisco.com/c/dam/en_us/about/ac79/docs/
innov/Connecting_Cities_Sustainability_Through_Innovation_IBSG_1021FINAL.pdf
5
CISCO, march 2013 at http://www.cisco.com/c/en/us/about/consulting-thought-
leadership/what-we-do/industry-practices/public-sector/our-practice/urban-
innovation.html
6
CANN, 2015 at https://www.weforum.org/agenda/2015/10/top-10-urban-innovations-
of-2015/; GLOBAL AGENDA COUNCIL ON THE FUTURE OF CITIES, October 2015 at
http://www3.weforum.org/docs/Top_10_Emerging_Urban_Innovations_
report_2010_20.10.pdf

382 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
De acordo com a premissas defendidas pelo Urban Innovation World
Economic Forum e pelo Cisco Urban Innovation, diversas ações inova-
doras focadas em  mobilidade, energia, abrigo, segurança e eficiência
vêm buscando melhorar a vida nas cidades. Dentre elas:
• Agricultura vertical e pomares urbanos (Berlin, Alemanha);
• Central de operações – monitoramento e controle inteligente (Rio de
Janeiro, Brasil);
• Ciclovias integrando a cidade (Bristol, Reino Unido);
• Compartilhamento de cuidados e plantio de árvores (Melbourne,
Austrália);
• Compartilhamento de veículos e bicicletas (Paris, França);
• Edifícios de uso misto e adaptáveis (Copenhagen, Dinamarca);
• Infraestrutura e equipamentos para integração social (Medellín,
Colômbia);
• Integração ampla dos serviços de transportes; Sinalização expandida
e inteligente (Londres, Reino Unido);
• Plataformas sensíveis de integração urbana (Chicago, Estados Unidos);
• Postes luminosos informacionais e inteligentes (Barcelona, Espanha);
• Provisão de serviços variados por meio de smartphones (várias cidades)
• Repaginação e reutilização de prédios; Sistemas de co-geração e com-
partilhamento de calor e frio (Sydney, Austrália);
• Reprogramação inteligente de equipamentos públicos (Miami, Esta-
dos Unidos);
• Sistema de comunicação e guia da cidade (Baltimore, Estados Unidos);
• Sistemas de sensores de segurança no trânsito – vias e automóveis
(Tóquio, Japão);
• Sistemas integrados e inteligentes de distribuição de água (Queens-
land, Austrália);
• Terminais de informação e comunicação telefônica; Iniciativas de
dados abertos (Nova Iorque, Estados Unidos);

Muitas destas ações indicam uma inter-relação entre soluções/inova-


ções tecnológicas e a adoção e/ou adaptação de políticas públicas – cujo
impacto, a curto, médio e/ou longo prazo nos modos de vida e no uso do
espaço citadino são visíveis. Entretanto, estas inter-relações podem

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 383
também ocorrer em níveis interpessoais, com o ativismo e a mobiliza-
ção da sociedade civil buscando promover ações que tenham um
impacto mais imediato, na esfera micro, e que possam melhorar o dia-a-
-dia das pessoas. Estas ações, nas esferas micro (relações interpessoais)
ou macro (políticas públicas), não são excludentes – ao contrário, estas
ações deveriam ser propostas simultaneamente, de forma complemen-
tar e interligada, no que se chama de políticas de “baixo para cima” (bot-
tom up), configurando uma tentativa de equalizar os anseios e reivindi-
cações dos cidadãos e as aspirações e “legados” dos políticos.
Neste sentido, é importante analisar como estas duas vertentes (i.e.
ações baseadas em relações interpessoais e impostas por políticas públi-
cas) podem fazer parte de um processo de transformações físicas e sim-
bólicas do espaço urbano, onde as inovações não sejam vistas como algo
difícil, caro, muito “tecnológico” e, de certa forma, excludente. O intuito é
investigar como Arquitetura, Urbanismo e Design, como instrumentos de
transformações físicas e simbólicas do espaço e da vida cotidiana, podem
ser aliados nesta busca por inovações urbanas que, por sua vez, possam
promover uma maior interação entre as pessoas e também proporcionar
alternativas para implementação de políticas públicas mais inclusivas.

2. Transformações ou Inovações Urbanas?


Considerando os aspectos acima, quais seriam as diferenças e similitu-
des entre transformações e inovações urbanas?
Inovações urbanas não implicam, necessariamente, em profundas
transformações urbanas – ainda que muitas destas inovações causem
um grande impacto no tecido urbano e na vida citadina. Os centros de
operação integrados que monitoram o trânsito e os serviços públicos
emergenciais (polícia, bombeiro, ambulância etc..), como a Central de
Operações no Rio de Janeiro, os sistemas de CCTV vistos em Londres e
Paris, ou a reprogramação inteligente e automatização de equipamen-
tos públicos, como observados em Miami, por exemplo, são inovações
tecnológicas que causam um grande impacto na vida das pessoas sem,
contudo, causar um grande impacto na conformação física do espaço
urbano. Por outro lado, transformações urbanas não necessitam, obri-
gatoriamente, adotar práticas inovadoras que tenham um caráter muito

384 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
“tecnológico” – ainda que muitas destas ações inovadoras tenham, sim,
um componente tecnológico bastante forte. Os sistemas de comparti-
lhamento de bicicletas, existente em cidades como Paris, Londres e o
Rio de Janeiro, ou mesmo o ativismo “verde”, como a implementação de
hortas e/ou pomares urbanos verticais, vistos em Berlin, ou o comparti-
lhamento de cuidados e plantio de árvores, como visto em Melbourne,
são exemplos de práticas “inovadoras” que promovem uma grande
transformação física nos espaços urbanos e, consequentemente, na vida
das pessoas.
E quais seriam as áreas de interseção entre estas práticas de inter-
venção urbana?
Tendo como base trabalhos desenvolvidos anteriormente, que discu-
tiam a implementação de politicas públicas de regeneração urbana que
visam a transformação de áreas degradadas (centrais e/ou históricas)
das cidades 7, iniciamos uma nova fase de pesquisa, que tem como obje-
tivo investigar como e/ou se estas políticas “regeneradoras”, de caráter
notoriamente impositivo (i.e. top down), poderiam ser melhor formula-
das se levassem em consideração ações e/ou ideias oriundas dos grupos
sociais (i.e. bottom up) que sofrem (direta ou indiretamente) os impac-
tos destas intervenções urbanas. Como dito acima, o foco da pesquisa
é estudar como a Arquitetura, o Urbanismo e o Design podem ser pla-
taformas criativas e/ou interativas nesta busca de soluções alternativas
e de inovações urbanas que contribuam para a elaboração de politicas
públicas mais inclusivas e participativas.
Um dos processos de revitalização urbana mais comentados foi o de
Barcelona, que sofreu uma série de transformações físicas no seu tecido
urbano por causa das Olimpíadas de 1992. O “modelo Barcelona” – i.e.
que visa seguir uma lógica de mercado, promovendo lugares espetacu-
lares, de grande apelo estético e com ampla projeção na mídia –, forte-
mente dependente de grandes incentivos fiscais, verbas governamentais
e de parcerias público-privadas, se consolidaria como parte substancial
de políticas públicas urbanas ditas “regeneradoras”. Segundo Harvey

7
DA ROCHA; REIS, 2015, pp 285-295; DA ROCHA; REIS, 2012 at http://www.ppgau.
ufba.br/urbicentros/2012/?page_id=159

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 385
(1989), um dos principais aspectos deste fenômeno é a (re)invenção das
cidades através do (re)desenho de suas áreas vazias, onde novas arquite-
turas (espetaculares) e a ressignificação de espaços públicos degradados
visam alterar a imagem do lugar – algo que Vaz (2004) define como “cul-
turalização” do planejamento e da cidade.
Entretanto, com a crise mundial em 2008, esta “fórmula” sofreria
mudanças significativas, pois subsídios (sobretudo financeiros) para
sustentar esta constante oferta/consumo de produtos arquitetônicos/
culturais tornaram-se mais escassos. Ou seja: depender apenas de
cultura e da constante produção/consumo de produtos culturais, ou
criar (novos) equipamentos culturais espetaculares cuja principal fun-
ção é incluir cidades no panorama (cultural/turístico) internacional
não garante a sobrevida destas políticas regeneradoras. Mesmo consi-
derando os processos de gentrificação, de especulação imobiliária e o
aumento na atividade turística, tais políticas tiveram que se ajustar à
nova realidade. Assim, um novo “modelo” de regeneração urbana surge,
fortemente calcado na promoção e realização de mega-eventos – a dis-
puta é para sediar estes eventos e com isso “reinventar” as cidades de
acordo com exigências especificas.

3. A construção de “novas” identidades para cidades


A “turistificação” de lugares de interesse histórico e a “culturalização”
das políticas públicas são dois fatores bastante relevantes no processo de
transformação de sítios urbanos localizados em áreas (centrais) degra-
dadas. Este processo conta ainda com intervenções físicas importantes,
como melhorias na infraestrutura e no transporte público; criação de
áreas de comércio com lojas e serviços; reordenação do espaço urbano e,
claro, a transformação física de edifícios históricos. Entretanto, a ressig-
nificação dos espaços não se dá apenas por processos de transformação
física; há de se promover uma completa reestruturação da identidade do
lugar – algo que não se consegue sem grandes investimentos, grandes
projetos/eventos, campanhas de marketing incisivas, a apropriação de
elementos característicos do lugar e, eventualmente, a ação de atores
sociais (locais ou não) e o movimento de inserção da chamada “classe
criativa” (outro nome dado aos “gentrificadores”).

386 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Embora historicamente exista uma forte presença de atores criati-
vos nos processos de gentrificação, é importante mencionar que um
movimento no sentido oposto vem ocorrendo, com a inserção de novos
atores e da cena artística das periferias nos processos produtivos/cria-
tivos das cidades. Mesmo que ainda de forma pontual, esta inserção
vem oferecendo um estímulo à manutenção social, cultural e geográfica
desses grupos menos favorecidos, dando-lhes maior visibilidade. Por
outro lado, é possível verificar com um olhar sistêmico que, à medida
em que uma determinada cadeia produtiva cresce e ganha sofisticação,
as demais categorias de atores envolvidos são, igualmente, alavancados
economicamente, dando início a um processo com enorme potencial de
regeneração de localidades de menor interesse/viabilidade comercial. 8
Similarmente, a revitalização de uma região não é feita apenas de
grandes gestos arquitetônicos e urbanísticos. Segundo Jacobs (2014),
deve-se olhar mais para a “vida real” nas cidades, para suas particulari-
dades, ao invés de apenas reproduzir “fórmulas de sucesso” prontas; há
de se olhar também para os “fracassos” para entender as dinâmicas de
um lugar. Um dos exemplos de regeneração urbana que tenta contraba-
lançar estas visões aparentemente contraditórias foi o Porto Maravilha
– uma das intervenções programadas para as Olimpíadas Rio-2016, que
apresenta propostas para resgatar e valorizar a história e a diversidade
cultural da/na Zona Portuária do Rio de Janeiro. 9
Ritos, tradições, culturas e histórias foram incorporados ao projeto
por serem parte do grande patrimônio material e imaterial a ser preser-
vado e explorado (i.e. consumido), sobretudo por turistas – mesmo que
seja algo completamente independente e distante da proposta inicial de
transformação física da região. Entretanto, no caso especifico da Zona
Portuária do Rio de Janeiro, estas transformações físicas e simbólicas
contaram, também, com a implementação de inovações urbanas signi-
ficativas, que foram adotadas como parte das políticas públicas de res-
significação do espaço.

8
REIS FILHO, 2014
9
DA ROCHA; REIS, 2016 at https://enanparq2016.files.wordpress.com/2016/09/s09-
06-rocha-a-b-reis-p.pdf

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 387
Fig. 01 | “nova” Praça Mauá – Museu do Amanhã (ao fundo) e VLT. Foto: os autores

Fig. 02 e 03 | pintura mural “inclusiva” – mural “Etnias”, de Toz (à esquerda) e


imagem de moradores do Morro da Providência, de JR (à direita). Fotos: os autores

Um dos exemplos mais notórios foi a completa reestruturação da Praça


Mauá, que conta com novos espaços públicos, dois museus-ícones (Museu
do Amanhã e Museu de Arte do Rio), além de equipamentos urbanos
como o VLT (Veículo Leve sob Trilhos). Por outro lado, a participação de

388 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
ativistas sociais e empreendedores culturais promovendo atividades de
conscientização ambiental, cívica, urbana, etc... reforça a efervescência
característica da área. Estas manifestações mais “espontâneas” coexistem
com formas mais “oficiais” de ocupação do espaço urbano.
As imagens demostram diferentes vertentes de uma mesma iniciativa
(transformação/inovação urbana). Por um lado, há uma intervenção
estrutural de grande porte, que conta com a implementação de grandes
gestos arquitetônicos e urbanísticos e com a mudança física do espaço.
Por outro, existem as iniciativas mais sutis, ainda que bastante signifi-
cativas. Enquanto o mural “Etnias”, do artista Toz, foi comissionado pela
Prefeitura do Rio de Janeiro para cobrir as paredes de armazéns abando-
nados no Boulevard Olímpico e fazer parte do “espetáculo” do Porto
Maravilha, o artista JR optou por fazer grandes painéis nas escadarias e
casas do Morro da Providência retratando pessoas da comunidade local.
O mural “Etnias” foi resultado de um processo de transformação física
do espaço imposto por políticas públicas de regeneração urbana (top
down); o mural do artista JR foi resultado de um ativismo social (botton
up) que pretendia dar mais visibilidade àquela comunidade. Ainda que a
transformação urbana seja, em ambos os casos, algo perceptível, pois as
intervenções artísticas contribuíram para uma requalificação e ressigni-
ficação de espaços públicos, a inovação urbana, que pode ser traduzida
no envolvimento de uma comunidade na elaboração e posterior adoção
do mural como o “retrato” de sua realidade, é verificada apenas no exem-
plo do Morro da Providência.
Evidentemente que nenhuma destas “inovações” têm um teor tecno-
lógico muito evidente. Mas se consideramos que elas podem fazer parte
de roteiros turísticos (digitais) das cidades, ou se aliarem à ações de
compartilhamento do espaço público, ou servirem como “equipamen-
tos” para integração social, ações como estas podem promover melho-
rias (ainda que apenas simbólicas) na vida das pessoas.

Conclusão
Cidades pensadas apenas como uma empresa, produto, “marca” (brand)
ou como negócio passam a ter os mesmos atributos e as mesmas carac-
terísticas e necessidades de planejamento, investimento e sistematiza-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 389
ção funcional que organizações industriais e comerciais. Se processos
de regeneração urbana funcionam apenas como um “dispositivo de
marketing” para a cidade, a paisagem urbana “(...) funciona como um
trunfo no concurso mundial por status, investimentos estrangeiros,
megaeventos e dólares de turistas” (SCOTT, 2012, p. 32). Por outro lado,
a espetacularização ao extremo tende a não dar muito espaço para o
significado, uma vez que, com a tendência à mercantilização dos espa-
ços da cidade, ações transformadoras e/ou inovadoras tendem, também,
a ter um caráter cada vez mais espetacular e efêmero. Entretanto, há
outros condicionantes:
“O movimento da Economia Colaborativa, no entanto, vem signifi-
cando novas forças de pressão na composição sistêmica das cidades.
Se por um lado há espetacularização de tudo – vida pessoal, espaços
físicos, mundo do trabalho, da informação, do comércio, do lazer, ...
– os novos atores, impulsionados pela ética e pela construção de um
mundo menos desigual, vêm forçando o foco das atenções em novas
direções: Os princípios agora valorizados são os do desenvolvimento
sustentável e do urbanismo ecológico, centrados em modos de ativi-
dade e transporte sóbrios, numa arquitetura e disposições internas que
correspondam às novas normas de economia de energia, na prioridade
dada à qualidade ambiental.” (LIPOVETSKY & SERROY, 2015, p. 339).

Por outro lado:


“Uma vez que um verdadeiro engajamento subjetivo é requerido dos
atores humanos, as finalidades econômicas devem remeter ao político,
no sentido amplo, ou seja, à ética e à vida da cidade. Devem fazer eco,
igualmente, as significações culturais. (...) A empresa não é só consumi-
dora e produtora de bens e de serviços, como quer o enfoque econômico
clássico. Não se contenta em aplicar, elaborar, distribuir savoir-faire e
conhecimento, como mostra a nova abordagem cognitiva das organiza-
ções. Deve-se reconhecer, além disso, que a empresa, com outras insti-
tuições, acolhe e constrói subjetividades.” (LÉVY, 1998, p.21)

Neste sentido, processos de transformação urbana e de reinvenção de


identidades das cidades, tão representativos de economias neoliberais,

390 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
poderiam se utilizar de ideias, conceitos e/ou subsídios “inovadores”,
conectando, de forma consistente e integrada, elementos essenciais:
Arquitetura + Urbanismo + Design + Cidades. A inter-relação entre
estes elementos, com projetos mediados por arquitetos, urbanistas e
designers que dominem técnicas e metodologias participativas e inclu-
sivas, guiados por lógicas menos “autorais” e mais holísticas, contrário
ao “modelo Barcelona”, podem ajudar na adoção de alternativas mais
sustentáveis, solidárias, participativas e na elaboração de sistemas, pla-
nos e políticas urbanas mais flexíveis, ajustáveis, justas e equilibradas.

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392 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Movimentos sociais urbanos de supervivência:
articulação e resistência no Festival Baixo
Centro – SP
BI A NC A JO SILVA
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Tecnologia na Universidade

Estadual de Campinas – UNICAMP.

SILV I A A. MIK A MI G. PINA


Professora Associada Livre Docente na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP.

Resumo
Este trabalho apresenta e analisa as estratégias de organização da pri-
meira edição do Festival Baixo Centro de 2012 na cidade de São Paulo, o
qual realizou eventos que incentivaram a ocupação consciente do espaço
público, por meio de articulação colaborativa e autônoma em rede. Nas
últimas décadas, a região central de São Paulo tornou-se palco de inú-
meras ações descontínuas de investimento, favoráveis ao reajuste dos
modos de renda fundiária conforme exigências de mercado. Foi elabo-
rado um protocolo de análise qualitativa e entrevistas com organizado-
res do Festival. Os resultados preliminares direcionam para uma relação
de intercessão do Festival com a precursora trajetória de disputa pela
região protagonizada por movimentos de moradia. O avanço da tecnolo-
gia da comunicação em rede, também possibilitou articulações de vasta
mobilização. Ficou evidente uma resistência cidadã não apenas por dire-
tos básicos, mas também pela habitabilidade da cidade e pela capaci-
dade de intervir na esfera de decisões políticas.

Palavras-Chave
Espaço Público; Política Urbana; Movimentos sociais urbanos;
Articulação em rede.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 393
Introdução
Recentemente, a arquitetura e o urbanismo têm sido diversas vezes con-
vertidos em instrumentos do dinâmico desenvolvimento capitalista nas
cidades, nem sempre no sentido mais democrático. Mesmo em situações
onde a principal argumentação é beneficiar a produção de habitação de
interesse social. Por exemplo, percebe-se que na prática existe grande des-
vio de prioridades para favorecer o capital especulativo por meio de gran-
des obras rodoviárias e de infraestrutura (CASTRO e PINA, 2016). Con-
tudo, na mesma medida que as recorrentes parcerias público-privadas
avançam com o propósito de adquirir ou readquirir regiões de potencial
exploração imobiliária, depara-se com novas formas de resistência articu-
lada pelos movimentos sociais urbanos. Tais movimentos voltam-se aos
direitos básicos da população como habitação, educação e saúde, ou seja,
de sobrevivência e também ao direito de apropriação do espaço e da vida
urbana, de supervivência. Contribuem ainda para a discussão acerca da
reestruturação das formas de operação dos movimentos sociais urbanos
contemporâneos, para que (co)respondam cada vez mais à necessidade de
expansão do seu alcance de mobilização e para que ampliem sua capaci-
dade de intervir na esfera das decisões sobre políticas públicas. Este tra-
balho apresenta e analisa as estratégias de organização da primeira edi-
ção do Festival Baixo Centro de 2012 na cidade de São Paulo, o qual
realizou eventos que incentivaram a ocupação consciente do espaço
público, por meio de articulação colaborativa e autônoma em rede. Foi
elaborado um protocolo de análise qualitativa direcionado aos aspectos
históricos, sociais, políticos, técnicos, econômicos, morfológicos e psico-
lógicos, que estruturaram as entrevistas com organizadores da primeira
edição do Festival Baixo Centro. Os resultados preliminares direcionam
para uma relação de intercessão do Festival com a precursora trajetória de
disputa pela região, protagonizada por movimentos de moradia. Um
melhor entendimento das estratégias de operação destes novos processos
de articulação instiga hipóteses sobre o futuro dos espaços públicos, res-
saltando novas abordagens para a elaboração de políticas públicas urba-
nas mais participativas e que impõem outros posicionamentos dos profis-
sionais de arquitetura e urbanismo.

394 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Os agentes produtores do espaço público
No último século, a cidade desenvolveu-se de maneira capitalista, estru-
turada prioritariamente pelas dinâmicas comerciais de oferta varejista e
serviços básicos (VILLAÇA, 2012). Em diversas situações, pode-se obser-
var a arquitetura e o urbanismo operando na estruturação da matriz
fundiária num processo de construção especulativo, alheio à necessi-
dade de expansão urbana (GOTTDIENER, 1996). As administrações
municipais mundo afora têm enfrentado enormes demandas ditadas
internacionalmente (BASSANI,2010), com impasses políticos de forma-
ção de corpo técnico burocrático capacitado ou perene, por exemplo, se
tornando muito deficitárias. Grandes projetos urbanos necessitam cada
vez mais do capital privado para serem viabilizados, seja por agentes do
setor imobiliário, seja por meio de capital flutuante internacional.
Porém, a forma como operam as parcerias público-privado hoje, con-
tribui para o fortalecimento dessa lógica de desenvolvimento urbano
que restringe e concentra as oportunidades em parcelas específicas do
território e da sociedade, além de drenar os recursos disponíveis de
maneira seletiva. As regiões centrais das cidades, em sua maioria, foram
as que mais assistiram seu declínio enquanto centralidade, causado por
um abandono histórico das elites locais (VILLAÇA, 2012) e pela ausência
do Estado, muitas vezes conivente e facilitador dos interesses privados.
Ocupada predominantemente por classes populares ao longo da
segunda metade do século XX, a região central de São Paulo se manteve
como principal núcleo de comércio varejista e de serviços públicos da
cidade, assim como o maior núcleo de oferta de infraestrutura pública
de mobilidade urbana e equipamentos. Nos últimos vinte anos, a região
tornou-se palco de inúmeras ações adversas e descontínuas de investi-
mento como a Operação Urbana Centro, o projeto Nova Luz e a reforma
de pelo menos dez importantes equipamentos culturais. Tais ações são
consonantes com a perspectiva da cidade empreendimento que pre-
tende valer-se da oferta de infraestrutura e das dinâmicas econômicas
presentes no centro para, mais uma vez, direcionar recursos públicos
para alavancar interesses privados (NAKANO, MALTA CAMPOS, ROL-
NIK, 2004; BONDUKI, 2000). Essa política de construção de imagens e
a apropriação cultural de regiões de interesse histórico, segundo Har-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 395
vey (1992), busca rentabilidade econômica a partir da comercialização e
especulação dos espaços públicos e expulsão das classes de baixa renda,
propondo que sejam na realidade convertidos a estimuladores de con-
sumo das classes de mais alta renda.
Os movimentos sociais se inserem nesse contexto de disputa pelo
território como organização representativa e ativadora de reivindi-
cações da população. Segundo Gohn (2011), são fontes de inovação e
matrizes geradoras de saberes. Desde a década de 1990, há uma con-
flituosa trajetória de disputa pelo território no centro da cidade de São
Paulo, protagonizada por movimentos de moradia e diversas mobiliza-
ções urbanas, ora mais, ora menos intensas. Percebe-se que a resistência
pelo morar reage e luta também pela habitabilidade da região como um
todo. Decorrente destas iniciativas surgiram alguns espaços de lazer
improvisados pelo centro, bem como festas espontâneas e a presença de
estabelecimentos comerciais fora do horário comercial, atípicos ante-
riormente. Neste contexto houve maior abertura para os movimentos
de transformação espacial, de supervivência, que lutam pelo direito de
apropriação do espaço e da vida urbana.

Articulação e resistência no Festival Baixo Centro


Uma dessas iniciativas foi o Festival Baixo Centro, que começou em um
encontro interdisciplinar de pequena escala composto por jornalistas,
produtores culturais, designers, profissionais autônomos e pessoas inte-
ressadas em ativismo cultural que se utilizavam de um espaço para
tanto. Este espaço era a Casa da Cultura Digital que, segundo depoi-
mento em entrevista com Lucas Pretti1, era a potência de criação em
rede que muitas pessoas buscavam para suas vidas em um momento de
fechamento político da cidade de São Paulo2 .

1
Profissional atuante na Casa da Cultura Digital e participante do processo de
organização do Festival Baixo Centro. Dados obtidos em entrevista realizada em 20 de
dezembro de 2016.
2
Estava em vigência o mandato de Gilberto Kassab, entre os anos de 2009 a 2012. A gestão
representou um momento de grande repressão de movimentos sociais, em especial os
movimentos de moradia, muito presentes na região central da cidade de São Paulo.

396 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Em 2011, surgiu a primeira plataforma online de crowdfunding do
Brasil, o Catarse, que buscou a Casa da Cultura Digital para realizar o
primeiro projeto. O grupo teve, assim, a oportunidade de estar próximo
a uma inovação tecnológica, desenvolvendo assim a ideia do Ônibus
Hacker. A iniciativa pretendia, com a autonomia e a mobilidade de estar
sobre rodas, descobrir uma nova forma de fazer política viajando pela
cidade e identificando demandas da população, levando conhecimento
e tecnologia para escolas, bibliotecas públicas e associações de bairro
com oficinas e debates de construção social 3.
Esta primeira ação bem-sucedida abriu precedente para que outras ini-
ciativas de maior alcance surgissem. Assim, a Casa da Cultura articulou-
-se a outros diversos produtores culturais da região central da cidade para
organizar um festival público de rua, a princípio com duração de um mês
e realização de cerca de dez atividades. Ainda que não completamente
determinada a estrutura do evento, a estrutura organizacional já estava
bem definida: seria aberta, horizontal, autônoma e autogerida. O objetivo
era empoderar os cidadãos e desbravar o centro da cidade, como potência
de ocupação ativa das ruas e denunciar a especulação imobiliária por trás
de grandes planos e obras públicas que estavam sendo realizados.
Naquele momento foi criado o Carrinho Multimídia, que assim como
o Ônibus Hacker, era móvel e levava equipamentos, projeções, música e
a conscientização sobre o direito de se ocupar as ruas. O Carrinho pas-
sou por diversas partes da cidade, apresentando-se por meio de panfle-
tagem e anúncios sonoros sobre a ideia de construção do Festival Baixo
Centro. A militância foi efetiva a ponto de, quando o projeto foi ao ar
pelo Catarse4 , tivesse grande repercussão. Simultaneamente, foi feita
uma chamada aberta online para quem quisesse intervir no festival e a
ideia de serem realizados dez eventos se viabilizou. As reuniões abertas
multiplicavam participantes a cada semana, transformando-se de um

3
O projeto foi aprovado na plataforma em 20 de julho de 2011 com uma verba de 58 mil
reais, angariados de forma colaborativa por 436 apoiadores. Informações disponíveis
em: < https://goo.gl/wLCpkv>. Acessado em 18 de fevereiro de 2016.
4
O projeto foi aprovado na plataforma em 10 de março de 2012 com uma verba de
17 mil reais, angariados de forma colaborativa por 269 apoiadores. Informações
disponíveis em: < https://goo.gl/UGGY4T>. Acessado em 20 de fevereiro de 2016.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 397
grupo pequeno de produtores culturais a um grande grupo de ativistas
do direito à cidade, um movimento social urbano de fato.
É importante ressaltar a potência de mobilização favorecida pela
rede. O dinâmico avanço da tecnologia da comunicação propicia hoje o
diálogo da diversidade de interesses, que parte de um sujeito identitário
único à defesa de um sujeito plural. As redes, por serem multiformes,
possibilitam a articulação entre organizações menos articuladas ou com
menor poder. E oferecem, acima de tudo, a transposição de fronteiras:
territoriais, articulando as ações de diversas localidades; temporais,
lutando pela indivisibilidade de direitos humanos de diversas gerações
históricas; e sociais em seu sentido amplo, compreendendo o pluralismo
de concepções de mundo dentro de limites éticos, o respeito às dife-
renças e a radicalização da democracia através do aprofundamento da
autonomia da sociedade civil organizada (SCHERER-WARREN, 2005).
A chamada aberta resultou em mais de cem propostas e, por con-
senso do grupo e dos inscritos, uma curadoria que selecionasse as pro-
postas não era a essência do festival, mas sim o oposto, e criou-se uma
cuidadoria: “vou cuidar do seu projeto para que ele aconteça como você
acredita que deva ser” (PRETTI, 2016). Todas as propostas, com exceção
das de cunho publicitários, o grupo concordando ou não, foram acei-
tas e realizadas. Ao longo do processo, o sistema organizacional foi se
adequando às necessidades de gestão do evento. A simples atribuição
de tarefas a determinados grupos (como comunicação, programação,
financeiro e etc.), não teve êxito e logo perdeu-se o controle pelo prin-
cípio da autogestão horizontal, que entrou em conflito com a dimensão
do evento. Adiante, portanto, “distribuiu-se na rede a feitura da coisa,
virou orgânico” (PRETTI, 2016) e lideranças naturais aconteceram.
A ação de abertura do festival foi elaborada estrategicamente para ser
um chamariz midiático, que apelasse para a veia artística, pois assim seria
possível dar credibilidade para a intervenção e para o festival como um
todo, a partir de uma perspectiva estética. Pretti (2016) declarou ainda
que “se fosse uma ocupação comum de ruas como uma manifestação, tal-
vez atraísse forças policiais combativas. Mas como eram artistas e aí entra
a questão do privilégio, a estética pesa de uma forma totalmente dife-
rente”. A ação mobilizou 12 pessoas que, dispostas nas quatro esquinas de

398 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
um cruzamento de ruas, fizeram uma ação coordenada de despejar 200
litros de tintas coloridas sobre o asfalto. No dia seguinte, o evento estam-
pou a capa de um importante veículo jornalístico da cidade5.
Ainda que as tintas não interferissem no aspecto funcional das vias,
como relatado na matéria, a subprefeitura alegou que não havia sido
consultada sobre a intervenção e realizou a limpeza da coloração no
mesmo dia (VECCHI, 2012). Para os organizadores do Festival, a posi-
ção do poder público era se colocar a favor de uma ordem arbitrária
e protocolar, ou seja, de proibição do colorido em favor do cinza, sem
argumentação. A partir deste momento, a relação do movimento com a
prefeitura foi de enfrentamento. Não foi pedida uma única autorização
para a ocupação das ruas ou pela realização dos eventos.
Segundo Sansão (2013), a urbanidade contemporânea global é híbrida
e nova, tida como um território imprevisível onde não cabem mais as
regras rígidas da modernidade sólida; e clama pela adoção de novos ins-
trumentos para o manejo dos espaços urbanos. De forma análoga, Borja
(2013), aponta a importância de serem definidos critérios que abranjam
relações múltiplas entre os elementos do desenho urbano e a esponta-
neidade da apropriação. Muitas vezes os projetos não conseguem dar
reposta às necessidades urbanas, porque não é possível considerá-los
um produto acabado, que não se altera com impasses políticos, com o
tempo da cidade ou com o tempo dos seus usuários.
Para se articular em defesa de uma possível repressão, foi elaborada e
distribuída aos participantes, oficiantes e artistas uma cartilha com dis-
cursos e orientações de argumentação. Nenhuma lei prevê a proibição do
uso dos espaços públicos da forma como ocorreram no Festival, segundo
Carrapatoso6 (2017), “sempre fomos na brecha do que não está claro. E
não haviam responsáveis”. Uma das intervenções, por exemplo, aconteceu
com dez metros de grama sintética colocados em cima de um viaduto.
Neste caso, não havia exatamente a quem punir pelas ações, os responsá-

5
A matéria online está disponível na íntegra em: <https://goo.gl/5yckCo> e <https://
goo.gl/YGG1Mx>. Acesso em: 23 de fevereiro de 2017.
6
Profissional atuante na Casa da Cultura Digital e participante do processo de
organização do Festival Baixo Centro. Dados obtidos em entrevista realizada em 30 de
janeiro de 2017.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 399
veis eram as pessoas que organizaram, mas também as pessoas que se uti-
lizavam da intervenção naquele momento. Além das ações acontecerem
de forma simultânea e pulverizadas pela região, sempre com a presença
de muitas pessoas. Caso fossem buscar o espaço físico dos organizadores,
a Casa da Cultura Digital não respondia juridicamente pelo evento, a sede
do movimento era o Carrinho Multimídia, móvel, sem dono e anônimo.
O movimento conseguiu inovar em vários aspectos digitais, o que
contribuiu para sua grande repercussão. Por exemplo, a estreia na plata-
forma de financiamento coletivo, a elaboração das centrais multimídia
móveis, o desenvolvimento de uma plataforma própria que propiciou a
chamada dos projetos e, posteriormente, um plug-in com um mapa inte-
rativo que mostrava a localização em tempo real de cada intervenção.
Segundo os organizadores do Festival, esse ineditismo foi propiciado
justamente pela abertura da gestão do evento a diversas e variadas pes-
soas, que contribuíam de forma espontânea, com o seu melhor. E repre-
sentaram, desde 2011, a abertura de um circuito de ações independentes
na região central e em outras partes da cidade de São Paulo.
Por que órgãos institucionalizados de cultura nem sempre inovam
em seus projetos? Por que muitas vezes existem tantos impasses
burocráticos que a pessoa não consegue desenvolver sua criatividade
(...) quando você rompe com as estruturas rígidas, abre precedentes
para processos artísticos naturais (PRETTI, 2016).

Movimentos sociais urbanos como do Festival Baixo centro apontam


que, ainda que efêmeras, a presença da arquitetura e o urbanismo são
catalizadores para proporcionar momentos plurais e privilegiados dos
indivíduos na cidade. São capazes de reinventar novos sentidos ao
espaço e suscitar novas percepções às pessoas (SANSÃO, 2013). O aban-
dono de certas regiões da cidade em prol de interesses econômicos ou,
em contrapartida, os momentos livres de articulação da sociedade civil
e movimentos sociais urbanos são intrínsecos à conexão entre as carac-
terísticas do espaço e as relações sociais presentes. É na dimensão do
tempo cotidiano e das relações imbricadas, onde despontam os enfren-
tamentos das convenções, os desmembramentos das hierarquias, as
nuanças da heterogeneidade social e política. Segundo Santos (1994), a

400 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
experiência cultural urbana é socialmente situada, mas é no espaço em
que é possível vivê-la, empregando o tempo e o espaço para tecer novas
territorialidades de apropriação.

Conclusão
O processo de construção das cidades ainda é pautado por projetos de
larga escala, sem consulta pública ou participação popular em seu projeto
e implementação. Tampouco são construídos mecanismos legais que pre-
servem o direito à ocupação das cidades. Para além da crítica do momento
político de abertura neoliberal que as cidades contemporâneas enfren-
tam, é importante encará-lo como uma pressão real, que deve ser condu-
zida conscientemente. Dialogar sobre qual parte da produção social das
cidades caberia ao mercado imobiliário pode indicar hipóteses de que
forma poderiam ser direcionados interesses em beneficio coletivo.
Nesse sentido, a articulação em rede, cada vez mais utilizada pelos
movimentos sociais urbanos, fogem do espectro da vigília e do controle
social da rua. Movimentos como o do Festival Baixo Centro abrem novas
perspectivas que transpõem barreiras territoriais e de alcance, sendo
capazes de vasta mobilização. A proposta do Festival era justamente
se extinguir, de maneira que as pessoas compreendessem o sentido da
ação, de que é possível usufruir do direito à cidade ocupando a rua.
As propostas para o desenho urbano da cidade e a estruturação da
viabilidade de projetos dessa categoria realizados pela Arquitetura e
Urbanismo também são muito abrangentes. O espaço que os cidadãos se
utilizam para realizar suas ações cotidianas, tendo em vista que as reivin-
dicações pela vida urbana e cidade são cada vez mais plurais e instáveis,
deve ser projetado de forma a atentar-se às reais demandas, ou ainda, tra-
balhar em conjunto com a população. Para a arquitetura e urbanismo,
neste sentido, interessa a continuidade de estudos sobre a articulação e
mobilização dos movimentos sociais urbanos, não só na cidade de São
Paulo, como em outras regiões do país, para propiciar a transversalidade
de lutas e ações contemporâneas e desenvolver novas hipóteses de criação
de espaços que aproximem as pessoas de uma memória coletiva de grande
escala de cidade, como um lugar de reconhecimento acima de tudo.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 401
Bibliografia
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402 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 403
O papel da mulher na arquitetura brasileira
contemporânea
FER NA NDA A R AÚJO FÉLI X DA SILVA
Mestranda

MORGA NA M A R I A PIT TA DUA RT E C AVA LC A N T E


Orientadora1

DEHA – PPGAU – UFAL – Universidade Federal de Alagoas

Resumo
As questões de gênero ainda estão presentes em diversas áreas da socie-
dade. Na arquitetura brasileira atual, as mulheres vivenciam constante-
mente essa diferenciação ao serem contratadas para executar projetos ou
coordenar obras. No âmbito acadêmico, ouve-se poucos nomes femininos
de destaque na história da arquitetura. Por muitos anos a arquitetura fez
parte apenas do universo masculino. Sob uma perspectiva feminista, este
trabalho procura desenvolver uma análise, tendo como objetivo principal
abordar duas problemáticas teóricas: de um lado busca-se fazer um breve
histórico sobre o lugar que a mulher ocupava na sociedade e consequen-
temente, volta-se o olhar ao papel da mulher na arquitetura brasileira
contemporânea, apontando nomes de referência no Brasil e em Alagoas.
Se na primeira análise encontrou-se apenas aspectos negativos para a dis-
cussão de gênero, na segunda etapa essa categoria de mulheres nos brinda
com determinado fulgor e potencial emancipatório.

Palavras-Chave
Arquitetura, gênero, arquitetas, esfera pública, esfera privada.

1
Este artigo é parte dos resultados da dissertação de mestrado em desenvolvimento
no DEHA – Dinâmicas do Espaço Habitado, do Programa de Pós-graduação de
Arquitetura e Urbanismo da UFAL _ Universidade Federal de Alagoas, sob orientação
da professora Dra. Morgana Maria Pitta Duarte Cavalcante.

404 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1. O lugar da mulher na sociedade
Algumas questões se impõem, de antemão, ao estudo aqui proposto: até
que ponto as questões de gênero ainda estão presentes nas segregações
espaciais arquitetônicas? Será que a contemporaneidade ainda induz o
lugar que a mulher deve ocupar/habitar/trabalhar? A clivagem espacial
é o tema que vai atravessar os diversos aspectos da segregação social
bem como essas relações se dão no espaço habitado.
Este artigo surgiu através da pesquisa para a dissertação em anda-
mento que aborda justamente o papel da mulher na arquitetura alago-
ana contemporânea e insere-se neste campo de debate com a finalidade
de elucidar a questão de gênero na arquitetura atual e toma o emba-
samento histórico como fulcro deste trabalho, ao voltar no tempo por
um período de longos anos e observar que a mulher sempre ocupou um
lugar na sociedade. Um lugar determinado pelos homens, não por elas
próprias. Que lugar é esse?
Através da fundamentação teórica, a pesquisa tem encontrado mui-
tas respostas para tal problemática. Com a contribuição do pensamento
de Antoine Prost e Gerard Vincent, em História da vida privada 5 (2009),
analisa-se a vivência histórica da mulher na sociedade na França. Antônio
Risério em Mulher, casa e cidade (2015) analisa a escassez da literatura
feminina por conter apenas intimidades domésticas e conexões interpes-
soais. Trata a monopolização masculina dos espaços urbanos e arquitetô-
nicos e avalia a presença e a posição da mulher na arquitetura, urbanismo
e design atual. Faz uma contribuição que começa na Antiguidade, passa
pela Idade Média europeia, pontua situações nas comunidades indígenas
da América pré-colombiana e faz análises em cidades modernas. Ana
Gabriela Godinho em Arquitetas e Arquiteturas na América Latina do
século XX (2014) aborda a temática com pioneirismo no Brasil e trata o
tema detalhadamente contemplando as questões históricas, a presença
em projetos de habitação e em espaços coletivos. Hannah Arendt em A
condição humana (2007) faz análise dos limites das esferas pública e pri-
vada e propulsiona a luta feminista contra a opressão e submissão.
Segundo Prost e Vincent em História da vida privada, no início do
século XX na França, havia a divisão do poder, ou melhor, a monopoli-
zação do poder nas mãos dos homens.

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 405
A família exercia um controle bastante rigoroso sobre seus próprios
membros. O marido era o chefe da família; a mulher casada preci-
sava ter sua autorização por escrito para abrir uma conta no banco
ou para administrar seus próprios bens. Era ele que exercia o pátrio
poder. E apenas com as leis de 1965 sobre os regimes matrimoniais e
de 1970 sobre o pátrio poder que desaparece a inferioridade jurídica
da mulher em relação ao marido. (PROST, VINCENT – 2009. p. 64)

Uma das principais motivações das mulheres a se emanciparem era a


divisão sexual dos trabalhos. A separação entre o espaço de trabalho
produtivo e o espaço de trabalho doméstico gerava uma hierarquia entre
homem e mulher e criava uma relação de patrão e servo.
Além de não ter autonomia diante do homem, a mulher que traba-
lhava fora de casa era vista na sociedade por ter uma condição financeira
familiar pobre e desprezível. Vê-se até os dias atuais no nordeste brasi-
leiro episódios similares, homens que trabalham enquanto suas esposas
se encarregam de se dedicar aos afazeres e administração do lar, por
possuírem condição econômica estável. A mulher abastada só trabalha
caso seja de sua vontade ou do seu marido e desta forma o trabalho femi-
nino ainda carrega uma visão facultativa. Exemplo claro disto foi visto
na capa da revista Veja de abril de 2016, que estampava o título “Bela,
recatada e do lar” para caracterizar Marcela Temer, esposa do atual
presidente do Brasil, que não trabalha e cuida dos afazeres domésticos.
Encarada de forma bastante crítica por todas as mulheres brasileiras,
em especial as que lutam diariamente pelo seu espaço na sociedade e
que almejam reconhecimento profissional, a reportagem se transfor-
mou em piada de mau gosto nacional.
Já Hannah Arendt, considerada uma das grandes pensadoras polí-
ticas da sociedade do século XX, trata a temática ao situá-la em esfe-
ras caracterizadas como esfera pública e privada. Nesse sentido, Arendt
caracteriza a esfera privada como o reino da subordinação e opressão,
considerada também como a esfera das necessidades da vida, onde o
chefe de família detinha o poder e subjugava mulheres, crianças e escra-
vos. Os conceitos de liberdade e igualdade constituíam a esfera pública,
exclusiva dos homens. Em sua obra A condição humana, ela compara

406 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
mulheres a escravos, visto que ambos se mantinham sempre afastados,
despercebidos, porque eram tidos como propriedades de alguém.
O que caracterizaria a esfera pública? É no público que se veem e se
ouvem notícias, acontecimentos, pessoas. É o local de dar voz as ideias
e teorias. Pensando desta forma entende-se porque as mulheres eram
subalternas somente à esfera privada, eram excluídas do pensamento
crítico da sociedade.
Seguindo a mesma linha de pensando de Arendt, Josep Montagner e
Zaida Muxi enveredam pela delimitação do público e do privado tal como
uma conceitualização básica para a evolução contínua da sociedade, uma
relação dialética e conflituosa onde o encontro da mulher na esfera pri-
vada soa como uma submissão, uma subordinação ao poder do homem.
Devemos insistir que – tal como insistiu o pensamento feminista –
com a modernidade, houve uma construção social dos gêneros que
deixou a mulher reclusa na esfera limitada do privado e alheia ao
mundo do público, do comunicável, do trabalho produtivo e repre-
sentativo, terreno exclusivo do homem. Relegada, sem escolha, à vida
privada e excluída da vida pública, a mulher, na verdade, também não
conseguiu desfrutar do privado, que tem sentido como contraponto
do desfrute do público. (MONTAGNER, MUXI, 2014. p. 6)

E é fazendo um paralelo desse raciocínio que se enquadram as primeiras


transformações sociais no final do século XIX e começo do século XX,
onde movimentos sociais de classes operárias, dirigidos por mulheres,
acarretaram em contribuições e mudanças no sentido de libertação e
transformações dos espaços arquitetônicos. Apesar de revolucionárias,
essas modificações não eliminaram completamente a sociedade patriar-
cal. Tendo como referência a moradia moderna, por exemplo, o que acon-
teceu não foi nada mais que a redução do modelo burguês. As contribui-
ções domésticas feitas por mulheres foram integradas de maneira muito
lenta e filtrada. Nada que não possa ser sentido ainda na atualidade.
Até o século XX a mulher, para ser bem vista na sociedade, era desig-
nada a frequentar espaços específicos fora e até mesmo dentro de casa.
As áreas sociais do lar só poderiam contar com a presença feminina em
ocasiões especiais. Fora isso, o território era masculino. Homens rece-

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 407
biam homens e mulheres ocupavam o setor de serviços da residência
(cozinha e área de serviço), de modo que trabalhassem para servir os
patriarcas. Ou então situavam-se nas áreas íntimas para oferecer cui-
dados as crianças.
O século XXI aponta uma nova realidade, as mulheres firmaram voz
ativa no contexto social, se inseriram no mercado de trabalho, conquista-
ram um espaço na esfera pública e lutam por essa liberdade de forma inces-
sante. Apesar desse novo quadro, a contenda feminista persiste de modo ir
ao encontro de um espaço linear, sem disputas pelo poder, sem hierarquias.

2. Sobre as mulheres na arquitetura


Voltando-se o olhar para o universo arquitetônico, vê-se que apesar de todas
as questões sociais levantadas aqui até então, o espaço da arquitetura e da
construção civil era um campo estritamente masculino por longos anos.
Como nos conta Antônio Risério em Mulher, casa e cidade, os homens
se detinham do pensamento da cidade e de sua arquitetura, bem como
a projetavam e a executavam. A mulher era apenas inserida nesse uni-
verso masculino.
À mulher, cabia habitar. Construir, não. E menos ainda conceber
o que deveria ser um templo público ou uma habitação particular.
O seu direito de povoar se resumia ao lá dentro, ao espaço interior,
onde, às vezes, poderiam ter permissão para desatar alguma fantasia
decorativa. Mulheres não definiam alicerces. Não estabeleciam pare-
des. Nem desenhavam fachadas. Limitavam-se a habitar o ambiente
previamente delimitado, riscado e construído. A aceitar desenhos e
prédios masculinos. E a palavra pedreira, aliás, em nossos dicioná-
rios, não designa mulher que opere em obras de pedra e cal, ou de
tijolos, mas um lugar de onde se extrai pedra. (RISÉRIO, 2015. p. 44)

Apesar da luta feminista alcançar atualmente um avanço constante, no


mundo há diversas batalhas por igualdade, seja de gênero, cultura, língua,
religião ou orientação sexual. Foi em 1960 que eclodiu a luta feminista,
quando transformações sociais importantes marcaram o cenário mun-
dial. Esse movimento é um exemplo relevante deste período, que surgiu
nos Estados Unidos e foi fortemente marcado pelo episódio emblemático

408 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
da queima dos sutiãs. Nesse mesmo período, apontando para as mudan-
ças que deveriam advir, surgiram as pílulas anticoncepcionais e o divórcio
foi legalizado no Brasil. Tais fatores levaram as mulheres a enveredarem
por uma busca de um novo espaço no mundo: um espaço físico e social,
que não fosse, desta feita, generalizado e restrito ao cuidado dos filhos e
do lar. A partir de então, novas perspectivas e horizontes se abriram e em
busca deles a mulher vem empreendendo uma contenda incessante. “O
feminismo se reforça quando tenta dar voz aos subalternos, quando des-
constrói a oposição entre gênero feminino e masculino e não exacerba
esta rivalidade. ” (MONTAGNER, MUXI, 2014, P. 28)
Fazendo-se um breve histórico sobre o ingresso das mulheres na arqui-
tetura, vê-se que ainda hoje a mulher arquiteta é bastante ligada ao lar e,
desta forma, seu ato de projetar é comumente relacionado a decoração de
interiores ou projetos residenciais. Edifícios de maiores proporções ou pro-
jetos de urbanismo estão, geralmente, associados a figuras masculinas.
Em pesquisas realizadas pelo CAU/BR (Conselho de Arquitetura e
Urbanismo do Brasil), números comprovam que no Brasil, no ano de
2012, 61% dos profissionais de arquitetura eram compostos por pessoas
de gênero feminino. Na faixa etária de 20 a 25 anos a taxa de mulheres
equivale a 78,3%. Enquanto que nas profissionais com idades entre 41
e 50 anos as mulheres correspondem a 57,4%. Os homens são maioria
quando chegam acima de 61 anos, onde compõem um percentual de 71%
do total. Porém, mesmo diante de um percentual expressivo, percebe-
-se que desde o período modernista, o mainstream arquitetônico é for-
mado principalmente por homens. Alguns nomes comumente citados
nas escolas de arquitetura evidenciam este fato: Le Corbusier, Walter
Gropius, Frank Lloyd Wright, Mies Van der Rohe, dentre outros. Tal fato
comprova que a questão de gênero também permeia todo o âmbito aca-
dêmico. As referências usadas, ainda hoje, nas escolas de Arquitetura e
Urbanismo continuam sendo estreitamente masculinas. As mulheres,
apesar de se fazerem maioria no contexto brasileiro, ainda têm pouco
reconhecimento. Tal hipótese, que norteia este trabalho, confirma o que
foi dito ao se fazer uma breve análise do prêmio americano Pritzker,
que há 38 anos elege um nome do cenário arquitetônico internacional.
Neste período apenas 3 mulheres obtiveram triunfo com a premiação: a

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 409
iraquiana Zaha Hadid, a japonesa Kazuyo Sejima, que venceu junto a seu
sócio no escritório SANAA, Rye Nishizawa e a espanhola Carme Pigem,
junto a seus sócios do escritório RCR Arquitectes.

Figura 01 | Zaha Hadid, Kazuyo Sejima e Carme Pinge. Fonte: Casa Abril/ Um dia
uma arquitecta / Dream idea machine

Pode-se chamar essa luta pela quebra da lógica setorial, por se fazer um
processo em andamento, com o objetivo final de alcançar uma arquite-
tura e urbanismo sem gêneros. Seria isso possível? De certo modo, seria
inevitável conceber arquitetura e urbanismo dissociando-os das ques-
tões políticas. As questões de gênero também são levantadas a partir da
maneira pela qual edificações e cidades são construídas, levando-se em
consideração um lugar pré-estabelecido às mulheres. O desafio atual
das mulheres arquitetas, portanto, consiste em quebrar parâmetros que
evidenciem distinções e desigualdades, a partir da criação de espaços
sem a marca do gênero e livre de hierarquizações.
Desse modo, esta pesquisa objetiva traçar um breve panorama histo-
riográfico no Brasil e especialmente em Alagoas, nordeste do país, sobre
o lugar ocupado pela mulher em espaços arquitetônicos do século XX
até a contemporaneidade, além de fazer um paralelo com a atuação de
grandes nomes de arquitetas brasileiras e alagoanas atuantes, tanto na
área de produção teórica como também na prática de projetos, com a
finalidade de perceber como esses dois aspectos influenciaram de forma
contundente a concepção da arquitetura brasileira.
Fernando Serapião revela em seu artigo Mulheres, cadeiras e almofa-
das bordadas a curiosa frase que a arquiteta Charlotte Perriand ouviu
ao se candidatar a trabalhar no escritório de Le Corbusier, no ano de

410 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
1927: “A senhora bem sabe, nós não bordamos almofadas aqui”, onde
posteriormente foi contratada. Aino Aalto,casada com Alvar Aalto, Ray
Eames, casada com Charles Eames, Lilly Reich, que trabalhava no escri-
tório de Mies Van der Rohe são nomes de mulheres que atuaram vigo-
rosamente na arquitetura e no design mas que passaram de maneira
despercebida, quase que invisível, a história da arquitetura.
Italiana que adotou território brasileiro, junto ao seu marido, para
manifestar toda sua expressão artística e arquitetônica, Lina Bo Bardi se
tornou uma das grandes referências femininas em se tratando de arqui-
tetura no Brasil e até mesmo sob o âmbito do feminismo e da nova posi-
ção social da mulher. Dentre suas obras destacam-se o ícone da Avenida
Paulista, em São Paulo, o MASP e várias residências.
A paixão pela arte e cultura popular brasileira fizeram da arquiteta
Janete Costa, nascida em Garanhuns – PE, uma referência nacional.
Exemplo e referência da arquitetura feminina no nordeste brasileiro, a
arquiteta enobreceu a arte popular e a trouxe para seus projetos de inte-
riores. Promoveu exposições em Portugal, França e Estados Unidos e
recebeu por três anos consecutivos o título de melhor arquiteta do país
pelo IAB – Instituto de Arquitetos do Brasil.
Fundadora do curso de Arquitetura e Urbanismo na UFAL - Univer-
sidade Federal de Alagoas, Zélia Maia Nobre, arquiteta pernambucana
radicada em Alagoas, executou vários projetos residenciais e instituições
de saúde, como o Centro Psiquiátrico Judiciário Pedro Marinho Suruagy,
a antiga Escola de Engenharia Civil da Universidade Federal de Alagoas,
atual Espaço Cultural da Ufal, em substituição ao Lyceu de Artes e Ofícios.

Figura 02| Lina Bo Bardi, Janete Costa e Zélia Maia Nobre. Fonte: Instituto Lina Bo
Bardi/ Inventário Janete Costa/ CAU-AL

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 411
2. Conclusão
Ao enveredar pela história da arquitetura feminina no Brasil vai-se de
encontro a esse paradoxo inexplicável: mulheres atuantes e que marca-
ram todo o cenário nacional e internacional que continuam, em contra-
ponto as referências masculinas, caminhando despercebidas ou à som-
bra de seus maridos e sócios. A verdade é que nomes femininos e
atuantes existem e a competência dos mesmos é indiscutível. A mudança
desse aspecto vem atrelada à expectativa dos novos coletivos de estu-
dantes e arquitetas feministas que desejam ver mudanças no meio em
que vivem e no âmbito acadêmico e profissional. Essa nova saga de
jovens mulheres carrega em si o poder de transformar colegas de classe,
professores, profissionais e consequentemente as mulheres ao redor.
Uma boa dose de ânimo, um alento e coragem para o que há de vir.

3. Referências
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412 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
O papel dos espaços livres urbanos
na conformação e definição de dentralidades
no município do Rio de Janeiro
V ER A R EGINA TÂ NGA R I
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Resumo
Esse artigo apresenta a pesquisa em andamento e seus resultados prelimi-
nares sobre o papel dos espaços livres de edificação na configuração
urbana do Município do Rio de Janeiro. Esses espaços tem função impor-
tante no processo de constituição da forma, na caracterização de tecidos
urbanos e na definição de centralidades que se concentram em torno e ao
longo dos espaços livres de circulação e permanência: ruas, avenidas, pra-
ças, largos. Baseia-se em pesquisas anteriores realizadas pelo Grupo de
Pesquisas Sistema de Espaços Livres no Rio de Janeiro da Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo da UFRJ que se dedica a investigar aspectos da
ocupação, dos espaços livres e dos tecidos urbanos na escala da quadra
urbana presentes nos diversos bairros e regiões administrativas. A carto-
grafia utilizada é processada em sistema de georeferenciamento com base
em ortofotos, imagens aéreas e consulta a cadastros municipais.

Palavras-Chave
Paisagem urbana; espaços livres; tecidos urbanos; Rio de Janeiro

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Introdução
Ocupando uma superfície de 1.199,828 km2, com uma população de
6.320.446 habitantes e uma densidade bruta de 53 hab./ha em 2010,
segundo IBGE (2011), o município do Rio de Janeiro, sede da Região
Metropolitana do Rio de Janeiro (RMRJ), tem a ocupação de seu territó-
rio caracterizada por uma urbanização compacta, entremeada por uni-
dades de conservação do domínio montanhoso (Maciços da Tijuca e
Pedra Branca) e lagunar (lagoas Rodrigo de Freitas, Tijuca, Camorim e
Marapendi) e limitadas pelo Oceano Atlântico e baías de Guanabara e
Sepetiba (TÂNGARI et al., 2012). Seu território se configura por setores
urbanos com graus diversificados de consolidação, com padrões distin-
tos de ocupação e de densidade construída e com algumas regiões reser-
vadas para expansão.
O Município é conurbado de oeste a leste com os municípios de Ita-
guaí, Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis, São João de Meriti e Duque de
Caxias. É separada pela Baía da Guanabara dos outros municípios que
compõem a região: Niterói e São Gonçalo (Figura1).

Figura 1 | Região Metropolitana do Rio de Janeiro – Divisão Municipal. Fonte:


CEPERJ, 2014.

Apresenta renda concentrada nas populações que se localizam em


determinados setores da cidade (sul, sudeste, sudoeste e na área cen-
tral), onde estão situados os bairros residenciais com maior valor imobi-

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liário do solo. As rendas médias se distribuem pelas regiões a norte e
nordeste, com menores rendas a noroeste e oeste (Figuras 2 e 3).
Devido à histórica pressão por ocupação de setores com elevado
índice de valorização da terra urbana, localizados em áreas servidas por
infraestrutura e dotadas de investimentos públicos em transporte, sane-
amento e serviços, foram crescentes as pressões pela alteração de parâ-
metros da legislação urbanística, especialmente na direção de investi-
mentos em mobilidade urbana, em locais disponíveis à urbanização por
preços acessíveis ao mercado (CARDEMAN, 2014).

Figura 2 | Padrão de renda - Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Mapa


produzido por Jonathas Magalhães Pereira da Silva, 2015.

Além de revisões no Plano Diretor, sendo a última aprovada em 2011,


foram promulgados diversos Planos de Estruturação Urbana para setores
urbanos específicos da cidade, visando à regulamentação urbanística
condicionada às características locais de cada setor (CARDEMAN, 2014).
A partir da década de 1980, junto a esses planos locais para conjunto
de bairros da cidade, convivem um zoneamento municipal geral em
vigor desde 1976 (Decreto 322) e algumas normas específicas de cunho
federal (lei de loteamento e parcelamento) e estadual (leis de proteção
ambiental) (SCHLEE; TÂNGARI, 2008).

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Figura 3 | Padrão de renda - Município do Rio de Janeiro. Mapa produzido por
Jonathas Magalhães Pereira da Silva, 2015.

A superposição dessas sucessivas alterações normativas, condicionada


pela valoração seletiva do solo urbano, pelos processos históricos de
segregação social e pelo perfil de suporte físico característico de áreas
costeiras entremeadas por maciços, manguezais, baías e mangues,
gerou a conformação de tecidos urbanos em diversos estágios de conso-
lidação, no seu perfil horizontal e vertical (densidade construtiva e ver-
ticalização) (MACEDO, 2009).
A partir desse contexto e visando contribuir para a discussão pro-
posta pela sessão temática em tela, propõe-se nesse trabalho relacio-
nar a configuração dos diferentes sistemas de espaços livres públicos e
privados e os diferentes graus de consolidação dos tecidos urbanos do
município do Rio de Janeiro e das suas bordas metropolitanas, visando
compará-lo a situações observadas em outros municípios brasileiros em
contexto similar: sedes metropolitanas em área costeiras.
Propõem-se para debate as seguintes questões: Qual o papel que os
sistemas de espaços livres urbanos exercem na estruturação dos teci-
dos urbanos e na configuração da paisagem? Como se relacionam a:
aspectos do suporte físico, processos de históricos e contemporâneos de
expansão urbana, características socioeconômicas da população, condi-

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ções de mobilidade urbana, definição de centralidades? Como se classi-
ficam e de que forma são apropriados? Quais os padrões recorrentes de
ocupação do traçado urbano, na escala da quadra, quando se analisa a
conjugação entre espaços livres públicos (ruas e praças) e espaços livres
privados (intra-lotes)? Que importância os espaços livres e a paisagem
assumem nas decisões de planejamento e gestão municipal?

Articulação entre o sistema viário, funções urbanas


e centralidades
As conexões viárias são condicionadas às condições de relevo confor-
mando-se às planícies costeiras e de fundos de vale ou aos terrenos
resultantes de aterros. Apresentam também túneis que interligam os
setores isolados pelos maciços montanhosos. Além dos túneis, as cone-
xões transversais atravessam encostas e interligam os diversos setores
urbanos através de vias de circulação expressa.
As centralidades, ilustradas na Figura 4, se concentram ao longo
dos eixos viários principais, que apresentam a maior concentração de
comércio, serviços e atividades industriais. As ocupações residenciais
se concentram nos miolos de tecidos urbanos, segregados por renda e
condições de valorização do solo urbano.
De forma geral, a cidade apresenta uma mancha urbana descontínua,
limitada a norte por cadeia de morros que pertencem a Serra do Mar, e a
sul e leste, pelo Oceano Atlântico e Baía da Guanabara. A mancha urbana é
entrecortada por maciços montanhosos florestados (Tijuca e Pedra Branca) e
é definida por uma área central, situada a partir da localização do porto junto
a Baía da Guanabara, e de setores urbanos que se desenvolvem ora marge-
ando a Baía e o Oceano, a nordeste, sudeste e sudoeste, ora se espraiando em
planícies costeiras e fundos de vale entre maciços, a oeste e noroeste.
Tem como principais vetores de crescimento vias urbanas que cir-
cundam os maciços e, em alguns bairros, os cruzam, interligando-se
a rodovias na direção do Estado de São Paulo, a oeste, na direção do
interior do Estado do Rio de Janeiro, a nordeste, e na direção da orla
litorânea de Niterói, a leste. As áreas de expansão localizam-se a oeste,
noroeste e nordeste, impulsionadas por investimentos representados
por complexos industriais, portuários e de transportes.

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A mancha urbana se distribui de forma diferenciada nos setores des-
critos acima e apresenta distintos tecidos e densidades. Devido às condi-
ções do suporte físico, as áreas planas são compostas em diversas situa-
ções de solo arenoso e brejoso e são resultantes, em determinas situações,
de solos muito transformados por desmontes e aterros. São ocupadas, de
forma geral, de forma intensiva, com tecidos diferenciados, e usos mistos,
devido a distintos índices de valorização do solo e a normas urbanísticas.
Em bairros muito valorizados do centro e da zona sul, se observam teci-
dos verticalizados com taxas elevadas de ocupação dos lotes e quadras. Nos
bairros da zona sul, praticamente não há mais lotes vazios para serem edifi-
cados, e a legislação urbanística é restritiva quanto à verticalização.
Nas zonas norte e nordeste, cuja legislação urbanística está em pro-
cesso de grandes mudanças favorecendo intensa verticalização, predo-
minam tecidos urbanos horizontais, com ocupação intensiva dos lotes
e quadras e a incidência em grande escala de conjuntos habitacionais.
Na zona sudoeste junto à faixa oceânica, em setores com leis urbanís-
ticas mais recentes oriundas do Plano para a Baixada da Tijuca e Jacare-
paguá desenvolvido por Lucio Costa na década de 1970, ocorrem padrões
de ocupação bastante diferentes dos demais setores da cidade: condomí-
nios residenciais multi-familiares de ocupação horizontal e vertical e
complexos comerciais e de serviços, com taxas baixas de ocupação das
quadras. Nessa região, a diversidade de traçados é relativa ao histórico
de ocupação, pois bairros como o Jardim Oceânico e Recreio dos Ban-
deirantes, cujos loteamentos foram originados antes do Plano citado,
apresentam tecidos mais horizontais e com maiores taxas de ocupação.
Na zona noroeste e oeste, nas planícies entre os Maciços da Pedra
Branca e Gericinó, a ocupação é de baixa intensidade, com tecidos hori-
zontais e grande incidência de áreas urbanizadas, mas ainda não ocupa-
das, incluindo também terrenos com uso agrícola e a instalações militares.
Essa área encontra-se em processo de transformação gradual na medida
em que grandes complexos industriais e de logística de armazenamento e
de transportes, voltados à exportação, são instalados na região, como por
exemplo é o caso do bairro de Santa Cruz, no limite do município.
Cabe acrescentar que em todos os setores ocorrem ocupações em fave-
las, que seguem o padrão dos setores onde se inserem: nos setores com
suporte físico mais acidentado (encostas) e maior valor do solo, as fave-

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las apresentam tecidos verticalizados; nos setores com terrenos planos e
menor valor do solo, os tecidos das favelas tem predominância horizontal.
Em todos os casos, entretanto, de forma geral, a ocupação do solo é inten-
siva, com tecidos compactos e com pouca incidência de espaços livres.

A relação entre o suporte biofísico (relevo, hidrografia,


vegetação) e a morfologia urbana
A morfologia do tecido urbano foi condicionada pela leitura das condi-
ções de suporte geo-biofísico, resultando numa ocupação compacta,
fragmentada pela incidência dos maciços que cortam o tecido urbano.
Para demonstrar a relação entre suporte e morfologia, foi feita uma aná-
lise detalhada, na escala da quadra urbana, com base na pesquisa coor-
denada pelo Laboratório QUAPA-SEL da FAUUSP (CAMPOS et al., 2011
e 2012) e de acordo com a classificação baseada nos seguintes aspectos:
Tecidos urbanos consolidados, Tecidos urbanos não consolidados, Espa-
ços com densa cobertura arbórea, Espaços com predominância de forra-
ções, Centralidades e Espaços livres de uso especial.
Os referidos aspectos são descritos abaixo e apresentados na Figura 4:

Figura 4 | Tecidos urbanos e centralidades – Fonte: SEL-RJ, 2016

– Quadras caracterizadas como quadras com tecido urbano consolidado


aquelas resultantes de loteamento ou parcelamento e que apresentam
ocupação com edificações em mais do que 50% de sua superfície.

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– Quadras com tecido urbano não consolidado correspondem às quadras
que sofreram processo de loteamento ou parcelamento, mas que apresen-
tam ocupação com edificações em menos do que 50% de sua superfície.
– Espaços com densa cobertura arbórea são terras não parceladas e que
apresentam mais do que 50% de sua superfície cobertos por vege-
tação arbórea, destacando-se de forma relevante na paisagem, geral-
mente inseridos em Áreas de Preservação Ambiental-APA, Áreas de
Preservação Ambiental e Recuperação Urbana-APARU’s, Parques ou
demais unidades de conservação.
– Espaços com predominância de forrações são terras não parceladas
que sofreram algum processo de desmatamento ou processamento e
que apresentam mais do que 50% de sua superfície cobertos por veg-
etação rasteira, correspondendo a áreas passíveis de ocupação.
– Centralidades foram definidas criticamente com base na partir da
legislação vigente, que identifica setores e vias urbanos como Centro
de Bairros (CB), sendo estabelecidas a partir dos seus usos, relevância
viária e fluxo de pessoas e veículos, e consideradas a identidades ref-
erenciais para a Região Administrativa.
– Espaços Livres de Uso Especial são aqueles que merecem uma análise
individual devido às suas características específicas de parcelamento,
de definição legal, correspondendo na maioria das vezes como espa-
ços institucionais, portos, aeroportos, faixas de domínio de ferrovias
e rodovias, áreas militares, cemitérios, dentre outros.
Pelo mapeamento realizado (Figura 4), observa-se uma maior consoli-
dação do tecido a nordeste, com ocupação horizontal, a sudeste, com
ocupação vertical, e maior heterogeneidade a oeste, com incidência de
verticalização se concentra junto à orla e ocupação horizontal se espraia
nos setores interioranos. A oeste verifica-se a incidência de tecidos não
consolidados com maior vacância fundiária sendo um fator indicativo
de expansão horizontal. Os maciços montanhosos e florestados em
forma de arco são os elementos condicionantes do perfil do tecido
urbano e incidem com expressiva presença.

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Características gerais do sistema de espaços livres
de edificação
O sistema atual de espaços livres de edificação do Rio de Janeiro,
segundo a conceituação de Magnoli e Macedo (MAGNOLI, 2006;
Macedo et al., 2009), de forma geral é fragmentado e diversificado. Em
relação aos espaços livres públicos, sua distribuição na malha urbana
não obedece, de maneira geral, às reais necessidades do conjunto da
população, concentrando-se pelas áreas de moradia mais abastada, nos
setores sudeste e sudoeste da cidade. Nesses setores, o sistema se estru-
tura principalmente ao longo da orla do oceano e das lagoas, e ao longo
das vias de penetração nos bairros, sendo resultado, nesse caso dos lote-
amentos que os originaram. Quanto aos espaços livres privados, resul-
tam dos distintos tecidos urbanos, descritos anteriormente, do suporte
físico natural e da legislação urbanística.
Em relação à classificação, para efeito de análise e conforme pesqui-
sas anteriormente desenvolvidas (TÂNGARI et al., 2012), foram divididos
em três categorias: espaços livres de caráter urbano, públicos e privados,
espaços livres de caráter ambiental, e espaços livres de caráter rural.
Dentre os espaços livres de caráter urbano, públicos e privados, são con-
siderados os espaços passíveis de parcelamento e loteamento baseadas na
legislação urbanística; os espaços de caráter ambiental são aqueles restritos
a parcelamento e loteamento regidos por legislação de proteção ambiental
– Unidades de Proteção Integral e Unidades de Uso Sustentável, os espaços
de caráter rural são aqueles não passíveis de loteamento e parcelamento
localizados fora do perímetro urbano. Dentro da delimitação do Município
do Rio de Janeiro não são encontrados espaços livres de caráter rural.

3.1. Classificação de espaços livres por categoria e tipo


A análise, apresentada na Figura 5, foi realizada para os espaços livres
públicos, ou seja, aqueles situados fora das quadras e lotes urbanos. Foi
estudada a escala da quadra urbana e por Região Administrativa, sendo
usada a seguinte classificação:
a-Categoria: espaço livre de caráter ambiental, onde também podem
ocorrer atividades de lazer e recreação:
Tipos identificados:

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 421
– Unidade de conservação – corresponde nesta pesquisa às áreas abran-
gidas pelos maciços montanhosos da Tijuca, Pedra Branca e Gericinó.
– Orla – zona costeira continental, correspondente a espaço livre de pre-
servação permanente adjacente a corpos hídricos e com tratamento com
vegetação, areia, pedra e afins. Inclui praias e demais faixas marginais.
b- Categoria: espaço livre de caráter urbano, relacionado à circulação de
veículos ou pedestres, onde também podem ocorrer atividades de recrea-
ção, comércio, esportes, cultura, educação, ações políticas e festividades.
Tipos identificados:
– Acostamento – área de refúgio lateral localizada na faixa de domínio
de uma rodovia ou via urbana
– Calçadão – calçada desenhada com projeto específico ou proveniente
de alterações significativas com dimensões acima dos padrões. Inclui
as calçadas e áreas pavimentadas, marginais às faixas de praia e
demais corpos hídricos.
– Canteiro viário – ou central ou lateral ou residual de acerto viário
localizada nas vias ou junta a vias públicas – com ou sem vegetação
– Ciclovia - via destinada à circulação exclusiva de bicicletas e veículos
não motorizados e vedada a veículos motorizados.
– Deque – superfície suspensa sobre um corpo hídrico, inclui cais e marinas.
– Estacionamento – área pública de estacionamento de veículos – bol-
são ou similar – que não se refere a vagas de estacionamento nas vias.
– Passarela – via elevada para circulação preferencial de pedestres e
vedada a veículos motorizados.
– Rotatória – ilha, geralmente em forma circular, cercada por vias para
retorno e cruzamentos, com ou sem vegetação.
– Rua e avenida – caixa de rolamento entre alinhamentos das edifica-
ções, inclui, de forma geral, as calçadas laterais.
– Terminal rodoviário – conjunto de baias de ônibus faixa de rolamento da
rua localizado fora da para parada com abrigos para proteção de pedestres.
– Via de pedestre – via destinada à circulação preferencial de pedestres
e vedada a veículos motorizados. Inclui rua fechada ao tráfego de
veículos, escadarias e servidões públicas.
– Viaduto – pista de veículos elevada marcada visualmente do início ao
fim da rampa.

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c- Categoria: espaço livre de caráter urbano, relacionado à permanência
de pedestres podendo ocorrer atividades de recreação, comércio, espor-
tes, cultura, educação, ações políticas e festividades:
Tipos identificados:
– Campo de futebol – espaço livre informal isolado onde se joga bola.
Não inclui campos de futebol em praças e parques.
– Parque – espaço livre público decretado especialmente como parque.
Definido visualmente, vegetado ou não, com dimensão superior a uma
quadra urbana, confrontado com o mapa de uso do solo da prefeitura.
– Praça – área determinada em projeto de loteamento como espaço
livre público para atividades recreativas.
– Praça não implantada - área determinada em projeto de loteamento como
espaço livre público para atividades recreativas e que não foi executada.
– Praça ocupada - área determinada em projeto de loteamento como
espaço livre público para atividades recreativas e que foi usada para
construção de equipamento público para saúde, educação ou similar.

d- Categoria: espaço livre de caráter urbano, relacionado à infraestru-


tura administrativa, de transportes, saneamento, educacional, cultural,
onde também podem ocorrer atividades de comércio, serviços, recrea-
ção, esportes, cultura, educação:
Tipo identificado:
– Espaço livre de uso dominial – espaços não edificados de propriedade
pública e concedidos a usos especiais – ferrovias, portos, aeroportos,
campi universitários, cemitérios, etc.

e-Categoria: espaço livre de caráter urbano, relacionado à reserva para


expansão:
Tipo identificado:
– Área vegetada – área com predominância de cobertura vegetal (ras-
teira ou arbórea) passível de ocupação, não loteada, não pertencente
aos maciços, aos espaços privados nem aos espaços dominiais.

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Figura 5 | Mapa dos espaços livres públicos – Rio de Janeiro – Fonte: SEL-RJ, 2016

A análise realizada por Região Administrativa do Município do Rio de Janeiro,


analisando os tecidos urbanos e cruzando essa informação com as categorias
e tipos acima descritos com a sua localização levou a uma conclusão prelimi-
nar sobre a distribuição geral dos espaços livres públicos na cidade:
– nos setores urbanos a norte e a nordeste, onde incidem elevadas den-
sidades habitacionais e populações com faixas de renda média a
baixa, incide pouca quantidade de praças, parques, campos de fute-
bol, e sobressai a densa malha viária e ferroviária;
– no centro, que concentra a parte histórica da cidade, incidem praças,
calçadões e parques com incidência de atividades de comércio e ser-
viços e concentração residencial inexpressiva;
– nos setores urbanos a sudeste e a sudoeste, que concentram as faixas de
população de renda média alta e alta situadas entre os maciços monta-
nhosos e a orla, distribuem-se parques de diversas modalidades (recre-
ativo, de conservação, esportivo, cultural), ocorrem poucas praças mas
destaca-se a faixa de orla marítima que de fato é utilizada pela popula-
ção de forma intensa como um grande parque linear e contínuo;
– nos setores urbanos a oeste, com populações localizadas de forma
mais esparsa e com faixas de renda média e media alta, ocorre a maior
quantidade de praças, campos de futebol, e também de praças ocupa-

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das e não implantadas, correspondendo a setores loteados mas recen-
temente e pouco investimento ou fiscalização do poder público.

Conclusão
O trabalho apresentado pretende contribuir para ampliar os instrumentos
metodológicos de análise morfológica, buscando incorporar aspectos físi-
co-urbanísticos e socioambientais a questões de traçado e desenho urbano.
Oferece-se para demais pesquisadores que busquem associar estudos
de morfologia, paisagem e planejamento com foco no objeto constituído
pelos espaços livres de edificação urbanos.
Planeja-se como desdobramento efetuar, através das ferramentas de
geo-referenciamento, quantificações que permitam comparar os graus
de adensamento urbano, incidência de centralidades e distribuição de
espaços livres públicos, dentre as regiões, setores e bairros do Município
do Rio de Janeiro.
Almeja-se, a partir desses resultados preliminares e com as metas pro-
postas, contribuir para as políticas públicas de planejamento e desenho,
assim como para melhor equilíbrio de investimentos a serem realizados
no âmbito municipal para melhoria dos ambientes e lugares urbanos.

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Rio de Janeiro, 2014.
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A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 425
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TÂ NGARI, Vera R. et al. Morfologia urbana, suporte geo-biofísico e o sistema de
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426 | A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S
Os Coletivos, corpo a corpo com a cidade
ENEIDA DE A LMEIDA
M A R I A C A ROLINA M A ZI V IERO

Universidade São Judas Tadeu

Resumo
Nos últimos anos grandes mobilizações de resistência diante da subtra-
ção de direitos sociais e de espaços de representação política, desenvol-
vidas em várias partes do mundo, alteraram temporariamente situações
de imobilidade e quietude. Esses fenômenos de dimensão política, social
e tecnológica, tiveram alguns elementos comuns, dentre os quais aque-
les ligados a políticas de austeridade financeira, que inevitavelmente
reproduzem lógicas de segregação econômica e social. O Brasil não ficou
imune a esse fenômeno. Este trabalho dedica-se à repercussão dessas
manifestações na propagação dos coletivos, concentrando-se especifica-
mente nas ações do coletivo Arrua associadas à ocupação da Praça Roo-
sevelt, um espaço emblemático de disputa situado na área central de São
Paulo. O estudo apoia-se em contribuições de autores dedicados à inves-
tigação das relações sócio-políticas e econômicas da sociedade global
contemporânea, entrecruzando-as com reflexões ligadas à conjuntura
nacional e com investigações vinculadas à antropologia do espaço. Par-
tindo de questionamentos sobre os possíveis benefícios da atividade dos
coletivos, espera-se contribuir para o entendimento da produção recente
da cidade, considerando que o nosso habitar é uma atividade de conhe-
cimento e de apropriação do espaço que nos circunda, uma atividade
equivalente àquela da linguagem, como uma conversa ininterrupta
entre a presença das pessoas e aquela dos lugares.

Palavras-Chave
Espaço público; ativismo; experiência coletiva; mobilização política;
formas de apropriação do espaço.

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Introdução
Diante da subtração de direitos sociais e de espaços de representação
política, nos últimos anos, chamaram a atenção internacional grandes
mobilizações de resistência que se desenvolveram em várias partes do
mundo, alterando temporariamente situações de imobilidade e quie-
tude. Esses fenômenos de dimensão política, social e tecnológica, foram
desencadeados por diferentes motivos, mas com alguns elementos
comuns. Dentre os possíveis aspectos coincidentes estão os mecanismos
excludentes ligados a políticas de austeridade financeira, que colocam
em risco conquistas sociais históricas, até mesmo políticas urbanas que
reproduzem lógicas de segregação econômica e social, limitando o
acesso aos direitos urbanos.
A partir da repercussão dessas manifestações nas redes sociais e
na cobertura dos meios de comunicação, os coletivos se propagaram
em larga proporção pelo Brasil, pautados por intervenções no espaço
urbano com caráter de denúncia social. Por sua postura crítica ao sta-
tus quo e às formas limitadoras de direito à cidade, esses modelos asso-
ciativos têm conduzido ações regidas pelo lema da cultura maker do
“Faça-Você-Mesmo”, defendendo o protagonismo cidadão para produzir
a transformação da realidade com criatividade, atitude crítica e autono-
mia (GERSHENFELD, 2012).
Em junho de 2013, milhares de pessoas foram às ruas de doze capitais
brasileiras e diversas cidades de médio porte, num protesto inicialmente
organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o aumento das
passagens de ônibus municipais, mas que a seguir teve sua repercussão
ampliada por outras pautas coletivas, todas marcadas pela comunicação
em massa nas redes sociais da internet, simbolizando uma nova forma de
fazer política, não a convencional partidária, mas de mobilização e ocupa-
ção do espaço público, baseada nos princípios do apartidarismo, da hori-
zontalidade e autonomia em relação a entidades tradicionais de represen-
tação. Essas mobilizações obtiveram grande visibilidade e surpreenderam
pela rapidez com que aglutinaram multidões (GOHN, 2014, p.75).
Nos anos seguintes outras manifestações reuniram grupos numero-
sos e canalizaram reivindicações ligadas à fruição não só de serviços,
mas também dos espaços urbanos. Uma delas envolveu moradores e fre-

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quentadores da região central de São Paulo, representados pelo Movi-
mento Parque Augusta, criado em 2015, associado à reivindicação da
desapropriação de um terreno de aproximadamente 25 mil m² dotado
de uma expressiva vegetação em uma cidade carente de áreas verdes.
Tratava-se de uma disputa entre o desejo da população local de destinar
o terreno a parque público e o dos proprietários de propor uma fun-
ção economicamente mais rentável, com a construção de torres de uso
misto voltadas para as classes média e alta.
Esses movimentos vinculados a coletivos urbanos correspondem
a uma nova onda de ativismo que agrupa cidadãos de média e baixa
renda, colocando em discussão o processo de construção e apropriação
do espaço urbano.
Este trabalho, tomando por base uma pesquisa em andamento, con-
centra-se nas ações do coletivo urbano Arrua, associadas à ocupação
da Praça Roosevelt, um emblemático espaço de disputa situado na área
central de São Paulo. Através de proposições alternativas de discutir,
propor, construir e habitar, esse coletivo vem lançando luz a temas sobre
sociabilidade e construção coletiva da cidade. O estudo se propõe explo-
rar alguns questionamentos sobre os benefícios proporcionados pela
atividade dos coletivos: seriam essas táticas capazes de contribuir com
propostas e procedimentos alternativos àqueles observados no campo
institucional?
Apoiando-se em contribuições de autores dedicados à investigação
das relações sócio-políticas e econômicas da sociedade global contem-
porânea, do uso das tecnologias digitais, entrecruzando-as com refle-
xões de estudiosos interessados na conjuntura social e política nacio-
nal, e com observações ligadas à antropologia do espaço, espera-se
contribuir para a ampliação do entendimento sobre a produção recente
da cidade, pontuando a relação existente entre tecnologia e território,
entre memória e representação social, considerando que o nosso habitar
é uma atividade de conhecimento e de apropriação do espaço que nos
circunda, uma atividade equivalente àquela da linguagem, como uma
conversa ininterrupta entre a nossa presença e aquela dos lugares (LA
CECLA, 1993).

A E AU L P · A L Í N G U A Q U E H A B I T A M O S | 429
Sobre Coletivos, origens e práticas
A revolução tecnológica centrada nas tecnologias da informação, con-
forme Castells (1999), ao propiciar a remodelação das formas de comu-
nicação e das bases materiais da sociedade, provoca uma considerável
reformulação do espaço urbano. Evidência disso é a experiência dos
coletivos na condução e divulgação de suas iniciativas que, ativando
processos de conexão entre o espaço virtual e tecido vivo da cidade,
fazem dessa interação a possibilidade de intervenção.
Paim (2009) sugere algumas aproximações dessas estratégias de atua-
ção dos coletivos contemporâneos, que se apropriam da compressão espa-
ço-tempo, típica dos dias atuais, marcada pela volatilidade e nomadismo
das estruturas e dos processos de produção, com as de movimentos artís-
ticos do início do século XX, como os Dadaístas (Berlim e Zurique, 1916)
e grupos como o Fluxus (Alemanha, 1962). O autor indica, contudo, uma
distinção essencial: o ponto central ao redor do qual gravitam as inter-
venções dos coletivos é o espaço urbano e suas dinâmicas de apropriação.
A Internacional Situacionista, cujas táticas se difundiram em vários
países da Europa por meio de doze edições da revista IS (1958-1969),
podem ser mencionadas pelas associações que estabeleciam entre a arte
e o urbanismo, deslocando-as para as esferas políticas (JACQUES, 2003).
Convém aqui aproximar a estratégia da IS, relacionada a experimen-
tações perceptivas e cognitivas no espaço como formas de avaliar as rela-
ções dos habitantes com o lugar, ao exercício de perder-se no território,
para descobri-lo e decifrá-lo, indicado por Franco La Cecla (1993). Con-
forme o antropólogo e urbanista italiano, a reflexão acerca das cidades
contemporâneas procura privilegiar experiências personalizadas, subs-
tituindo as grandes ações pelas pequenas, pontuais e de breve duração.
Segundo essa perspectiva, a desorientação seria desejável. “Uma vivida
representação pode criar um efeito de ressonância num indivíduo, num
grupo, numa inteira nação,