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Abolicionismo e imprensa em Pelotas*

Beatriz Ana Loner**

O surgimento do sentimento abolicionista acelerou-se ao longo da década de 1880


no estado, com a formação de uma opinião pública que denunciava a instituição escravista e
era particularmente refratária a cenas de escravos sendo castigados ou mortos por
senhores cruéis. A imprensa, em variados matizes, passou a combater a escravidão,
através de artigos, propostas abolicionistas e, especialmente, apresentando denúncias de
maus tratos ou morte de escravos. Da mesma forma, ela dava espaço a todas as atitudes
favoráveis ao fim dessa instituição, auxiliando a formar um sentimento antiescravista entre
as camadas letradas da população.
Era através dos jornais que se veiculava a idéia de que a substituição do trabalho
escravo pelo assalariado seria uma etapa necessária para o ingresso do país na civilização
moderna, cujo modelo era a sociedade européia, vista como a antecipação do futuro do
Brasil. Nessa perspectiva, a eliminação do trabalho cativo era vital para o progresso da
sociedade, pois propiciaria a vinda do trabalhador imigrante, a formação de um mercado
interno e a dinamização dos negócios, aprofundando o processo de modernização do país.
m o 6fai*t% foi a primeira cidade do estado a fundar uma sociedade abolicionista, a
Sociedade Liberdade a Escravatura, ainda em junho de 1850. Ela pretendia, através da
quotização de seus sócios, libertar cativos pela compra da liberdade. 1 Trinta anos depois,
surge outra proposta de clube abolicionista na mesma cidade, este agora lançado por Alfredo
L. Mello, com o nome de Nabuco e idéias ainda muito moderadas, visando auxiliar a
emancipação via criação de um fundo para isso, além de difundir o abolicionismo . Entretanto,
embora tenha um inicio auspicioso, não prospera e seu articulador, frustrado, deixa a cidade
logo após2. A cidade vai ser uma das últimas a aderir à campanha emancipacionista de 1884
e a criar sociedades abolicionistas, como a "28 de novembro" criada em dezembro do mesmo
ano, só de mulheres, tendo como inspiradqras as poetisas Revocata de Mello e Julieta
Monteiro, (A Federação 13/12/1884). Contudo, já desde 1880 Rio Grande apresentava J Ü N M M F
cemavâlescg# que faziam a imitação de costumes e trajes africanos, como o Mina, ou, através
do Diógenes e do Saca- Rolha, promovia a critica e a discussão sobre os males do sistema
escravista, ao longo da década. amadores também s^ dispunham a fazer
espetáculos em prol da libertação de famílias escravas3 e a folha literária A Luz, difundia o
ideal abolicionista em fervorosos artigos durante o ano de 1884. Se ela logo deixou de existir,
isso não impediu que, através de jornais diários, a idéia da necessidade de superação do
escravismo se fizesse sentir na cidade4.

f ' Pesquisa feita com apoio financeiro da FAPERGS e contando com bolsistas do CNPq e da FAPERGS: Ana
Paula Calderan; Gilso Coelho, Silvia Tarouco e Magda de Abreu Vicente.
1
" Professora do Depto. de História e Antropologia da UFPel. Doutora em Sociologia.
1
Alfredo Ferreira Rodrigues, Almanaque Literário e Estatístico do Rio Grande do Sul para o ano de 1903, p. 138.
2
Diário de Pelotas, 18/5/1880 e A Voz do Escravo, de 24 de junho de 1881.
3
Benefício da S. D. P. Hebe para a libertação de uma escrava e seus dois filhos, em Diário de Pelotas,
28/4/1880.
4
Sobre a maçonaria e sua importância na luta abolicionista em Rio Grande, existe a dissertação de SCHIAVON,
Mas é em ÉɧpÉg9 que a campanha abolicionista vai realmente acirrar os ânimos e
influenciar a cena política e social da cidade, desde inícios da década de 1880. Na verdade,
o que ocorre é que a campanha pela Abolição levantava problemas diversos, de difícil
resolução numa cidade em que o motor do seu desenvolvimento econômico estava atrelado
ao charque, o qual necessitava de escravos para sua produção e ainda tinha o agravante de
ter seu mercado de consumo também condicionado pela escravidão, pois era comprado
para alimentação de escravos. Então, criando problemas nos dois lados do mercado, tanto
no de oferta de trabalho, quanto no de consumo, é natural que o clima na cidade sempre
fosse muito tenso em relação à campanha abolicionista, e os esforços dos seus
simpatizantes tenderão a ter um tom mais moderado e legalista do que, por exemplo, em
São Paulo, devido exatamente ao vigor explosivo dâ posição dos escravagistas. As idas e
vindas da campanha abolicionista na cidade podem ser acompanhadas através dos jornais
locais, que também refletem as posições políticas dos diversos agentes da abolição.
Alguns trabalhadores tiveram diversos graus de envolvimento com a questão
abolicionista na cidade. Muitos intelectuais vinham de famílias tradicionais, mas outros eram
jovens profissionais, vinculados a profissões urbanas, como artesãos e jornalistas. Muitos já
possuíam idéias republicanas, outros as desenvolveram ao longo da evolução dos
acontecimentos. Organizavam-se de diversas formas para a luta pela abolição e então
temos associações profissionais libertando escravos em datas festivas; a criação de clubes
carnavalescos, até de brancos fantasiados de negros: Nagô (Pel), Congo (PoA), Mina (RG),
auxiliando também com lista de subscrições em busca de apoio para a libertação.
Na cidade de Pelotas, eles se reuniam em associações literárias, ou em pequenos
jornais semanais, de caráter eclético, normalmente critico e literário, que passaram a ter um
regular público por estes anos. Alguns, inclusive, publicavam seus trabalhos nos jornais
diários, que também reservavam um bom espaço para estas contribuições literárias ou para
crônicas políticas. Publicações como a Ventarola, Cabrion, A Pena, Progresso Literário e
O Invisível em Pelotas, o Bisturi e A Luz de Rio Grande e, em várias outras cidades, estes
jornais traziam novas idéias, divulgavam peças e romances abolicionistas, e faziam crônicas
nas quais verberavam contra variados aspectos do cotidiano escravista de suas cidades.
Cabe aos jornais diários, o mais importante papel nesta luta, pois as redações de
muitos deles funcionavam como verdadeiros comitês políticos de lideranças ou grupos,
coordenando a ação dos seus prosélitos. Na medida em que a campanha abolicionista
prosperou, e a escravidão foi cada vez mais sendo vista como nefasta, corruptora dos
princípios morais e, especialmente, uma instituição que contribuía para impedir o avanço do
país na busca da tão sonhada modernidade e do progresso, quase todos os jornais diziam
ser favoráveis a sua extinção. Contudo, variava bastante a forma X£mG_£ropunham sua
superação, as criticas feitas aos escravagistas ou a determinadas atitudes dos
abolicionistas. Também havia alguns que criticavam apenas os "excessos" da instituição,
configurando-se muito mais numa posição> de defesa da mesma devido às injunções
econômicas e sociais decorrentes de sua extinção.

para tanto, utilizava-se de jornais diários como instrumento de defesa de seus interesses.
Diário de Pelotas - órgão oficial do partido liberal, na maior parte dessa década e direção de
Ernesto Gerngross; A Discussão, jornal da dissidência liberal; A Nação- jornal do Partido
Conservador. Havia também o Onze de Junho, da família Moncorvo, com posição política
conservadora, mas um perfil abolicionista que se intensifica ao longo dos anos. Outros

Carmen. Maçonaria, escravidão e festas: o caso do Brasil Meridional. Dissertação (Mestrado em História)
PUCRS.
5
O estudo desses jornais já foi feito para algumas cidades, como Porto Alegre e Rio Grande, especialmente com
relação a jornais representativos de posições políticas. Sobre Rio Grande, existem os trabalhos de ALVES,
Francisco. O mundo do trabalho na cidade de Rio Grande. Rio Grande: EDFURG, 2001 e especialmente A Luz:
uma folha abolicionista na cidade de Rio Grande. Rio Grande: EDFURG, 2002. Para Porto Alegre, ver BAKOS,
Margareth. RS: escravismo e abolição. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982 e MONTI, Verônica. O abolicionismo:
1884, sua hora decisiva no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1985. Sobre Pelotas, apresentei
comunicação sobre os jornais pelotenses, no / encontro sobre Liberdade e Escravidão no Brasil Meridional, em
Castro, no Paraná, em 2003, intitulada : Ação e reação: a luta pela abolição em Pelotas.
jornais estiveram presentes apenas em alguns anos, como o Jornal do Comércio, que pouco
se envolve nas questões abolicionistas, pois termina em 1882. Para o final da década,
aparecem XrPátria, propriedade de Albino Costa e depois do republicano Ismael Simões
Lopes, que fará a defesa dos interesses dos charqueadores e estancieiros nessa questão, e
o Rio Grandense, que substitui o Onze de Junho em seu impedimento.
Mas um outro jornal atravessa toda a década e se ressalta no conjunto geral, o
Correio Mercantil, de propriedade de Antonio Joaquim Dias, que se declarava apartidário e
"órgão de interesses gerais" e é normalmente apresentado pela historiografia dessa forma,
enfatizando-se sua neutralidade e seu perfil moderno e empresarial6. Contudo, a forte
personalidade e atuação de seu dono, figura polêmica e que entrou em vários conflitos,
personagem também de vários episódios não muito bem esclarecidos7, levou a que seu
jornal oscilasse entre a declaração formal de apoio a campanha abolicionista e uma prática
de denúncias radicais e, por vezes, caluniosas, aos seus principais defensores na cidade;
ao mesmo tempo em que assumia, esporadicamente, posições contraditórias de defesa de
interesses de alguns escravocratas. Nesses momentos, não hesitava em tripudiar e
desqualificar pessoas, especialmente aquelas mais pobres ou vulneráveis e muitos dos
abolicionistas sofreram com suas campanhas na cidade.
Em maio de 1884, por exemplo, ele incrimina os membros do clube, nesse momento
reduzido aos setores mais conseqüentes, de "abolicionistas intransigentes e logo a seguir,
faz campanha para que escravos que tenham depositado pecúlio em mãos de membros do
clube, e ainda não tenham sido libertados, venham ao jornal contar seus dramas. Assim,
com base em alguns episódios, começa a levantar suspeita e calúnias de que estes estão
se apropriando de pecúlios dos escravos, o que faz com que um por um dos integrantes do
grupo, inclusive Piratinino de Almeida, (ex-presidente e já sem atuação no mesmo) venham
a público colocar suas versões, todos negando as acusações e coincidindo em acusar esse
jornalista de estar a soldo dos escravagistas. Ironicamente, deve ter sido o seguimento
dessa campanha contra o Clube Abolicionista, quando Dias começa a propor-se ele mesmo
como advogado dos libertandos, que fez com que seu nome passasse a posteridade como
abolicionista. Quanto aos reais abolicionistas, estes o expulsam do clube, em maio de 1884.
Toda esta polêmica pode ser acompanhada, passo a passo pelos jornais de abril e maio
daquele ano, especialmente nas edições do Diário de Pelotas, Correio Mercantil e Onze de
Junho. Embora aqui se vá privilegiar apenas a primeira fase da campanha, adverte-se que
boa parte desta pesada artilharia contra os abolicionistas é porque estes não aceitaram
colocar o clube a serviço dos contratos de prestação de serviços, para o que será formado,
pouco depois, o Centro Abolicionista, a partir do jornal A Penna e reunindo, em sua
composição, alguns dos maiores detentores de escravos do município.

A campanha em Pelotas

A abolição na cidade contou com três momentos, resumidamente os seguintes:


quando se cria um jornal, A Voz do Escravo, que nasce de
uma associação de três pessoas paradigmáticas: um jornalista, João José Cezar; um literato
e professor, Bernardo Taveira Jr. e um construtor negro livre, Manoel Conceição da Silva
Santos^_A eles se agrega ainda o vigário da cidade, Cónego Canabarro. O jornal só dura
poucos meses e sucumbe devido a seu envolvimento político-eleitoral com a dissidência do
partido Liberal. O Clube Abolicionista, fundado na mesma época, consegue subsistir,
embora enfrente situações adversas na cidade, em parte devido aos acontecimentos dessa
conjuntura que presidiu seu nascimento, em parte pela rigidez da elite social e econômica
da cidade, que teve muita dificuldade em absorver sua atuação. Este momento é singular
também porque, nele, estão se organizando várias categorias e classes, em associações
mutualistas e/ou de representação de interesses, configurando um despertar associativo

6
RÜDIGER, Francisco. Tendências do jornalismo.Porto Alegre: EDUFRGS,1993, p. 47, 'compra' esta idéia
referindo-se ao jornal como: "Em Pelotas, o Correio Mercantil .... consagrou-se como "catedral do saber e da
evangelização moral"" (.. .) "Um dos poucos jornais a manter posição independente no interior do Rio Grande do
sul, tentando montar uma estrutura empresarial..." Na verdade, apenas após sua morte e graças aos esforços de
seu filho, é que essa imagem generosa de sua figura se consolidou.
7
CALDERAN, Ana Paula. Antonio Joaquim Dias: uma figura polêmica. 2001. UFPel, ICH, Monografia
(Graduação em História).
presente também nas demais cidades do país e resultado tardio da busca pela
modernização e pelo progresso, que dominava as camadas letradas daquela sociedade.

pensa resolver a questão da escravidão apelando aos contratos. Esta é uma atuação
demarcada a poucos meses do ano de 1884, embora seus resultados continuem
repercutindo por alguns anos. Como resultado dessa emancipação, há uma desorganização
política do grupo abolicionista, pois este, erroneamente, considera extinta a escravidão no
município e extingue o Clube. Contudo, na realidade a tensão se se agrava
consideravelmente na cidade nos anos seguintes, com as fugas de contratados e o
acirramento de conflitos entre os defensores da idéia e os escravagistas, enquanto ainda
existem quase duas mil pessoas sob os grilhões da escravatura. Um jornal, o Onze de
Junho, é forçado a deixar de circular por ameaças, dçvidas, em parte a sua atuação na
campanha pela abolição, embora seu envolvimento politico também o torne vulnerável.
Por fim, o aquele de por uma
grande tensão e ansiedade, especialmente por parte de setores escravagistas, que reagem
explosivamente frente à atuação abolicionista, provocando conflitos e matando cativos ou
contratados fugitivos, além da agressiva mobilização dos defensores dos interesses
escravistas, em episódio de suposta revolta escrava em 1887.®
Permeando estas três fases, temos a atuação de várias pessoas devotadas à causa,
engajadas em algumas das sociedades e clubes, ou jornais e na campanha abolicionista em
geral. Até agora, ao estudar estas associações, deu-se ênfase a presença dos homens da
elite, grandes estancieiros ou ricos negociantes. Contudo, tem-se dentro desse grande
espectro também outras vozes, vozes negras, como Manoel Conceição da Silva Santos e
seus dois filhos, que participaram de formas variadas do esforço abolicionista, ele como
tesoureiro do Clube Abolicionista e seus filhos como participantes de diretorias de
sociedades de artistas negros, também fazendo parte do Centro Ethiópico, que coordenava
a atividade dos setores negros da cidade. E vários outros, como João Faria dos Santos,
dono do Hotel Abolicionista, local em que ocorreram as primeiras reuniões do Clube9. Vozes
mestiças, como Serafim Antônio Alves, que foi sempre da direção do clube Abolicionista e
trabalhou como jornalista e depois solicitador do foro, defendendo os interesses de escravos
e contratados naquela década. Vozes brancas, como os integrantes do clube Carnavalesco
Nagô, que desfilavam disfarçados de negros durante o carnaval, ou vários editores e
redatores de jornais, que chegaram a serem ameaçados pelas suas posições e práticas
anti-escravagistas naqueles anos.
A partir de agora, vou me ater apenas à primeira fase, tratando do desenvolvimento
da campanha abolicionista e seu envolvimento com jornais e partidos na cidade de Pelotas.
A pesquisa foi feita exclusivamente através de jornais djários, semanários ou
hebdomanários. Num 1o momento, a luta pela abolição vai envolver-se com as disputas
poíítico-partidárias e isso vai ser a causa do relativo fracasso das associações criadas e de
parte da debilidade do Clube abolicionista na cidade.
No ano de 1880, surgem algumas das primeiras entidades mutualistas étnicas,
inclusive uma de artesãos negros, a'Fraternidade Artística. Articulado em fins daquele ano e
publicado no início do seguinte, surge o jornal A Voz do Escravo, tendo por proprietário o
negro livre Manoel Conceição da Silva Santos, de profissão construtor, e contando, na sua
redação, com alguns abolicionistas brancos, jornalistas, professores e outros profissionais:
Cónego Canabarro, Francisco de Paula Pires, Ferreira da Silva, Bernardo Taveira Jr.,
Licurgo de Menezes e J.J. Cezar10. Logo ao início desse ano de 1881, a morte de um
escravo menor de idade (16 anos) no tronco, numa charqueada, desencadeia ampla
mobilização na cidade, contrapondo defensores e opositores da escravidão. Nesse
momento, o grupo de artistas e trabalhadores livres negros se mobiliza, depondo sobre a
alteração de depoimentos de testemunha do caso, (que foi comprada) e iniciando campanha

8
LONER, Beatriz . 1887: A revolta que oficialmente não houve, ou de como abolicionistas se tornaram zeladores
da ordem escravocrata. História em Revista, v. 3, Pelotas, novembro 1997, p. 29-52.
9
Havia também, do mesmo dono, o Café Abolicionista. Diário de Pelotas, 23 de julho de 1881 e 25 de agosto de
1881. O hotel tinha sua sala principal batizada como "Nabuco". Seu dono participara, anteriormente, da direção
da Irmandade da Virgem do Rosário, irmandade de negros.
10
Manoel Conceição da Silva Santos.," aos abolicionistas e meus amigos". Onze de Junho, 13/2/1885.
para erigir um monumento a esse escravo na cidade11.
A fundação do Clube Abolicionista, em 21 de agosto de 1881, é obra desse grupo
abolicionista, que busca o concurso de políticos como padrinhos, oferecendo-lhes cargos na
direção da nova entidade. Ela visa conseguir a abolição pela propaganda e compra da
liberdade de escravos, preferencialmente daqueles que já possuíssem pecúlio próprio e cujo
dono não se opusesse à sua libertação. É uma entidade com orientação moderada, com
uma diretoria repleta de pessoas de posses, e cuja presidência, por ironia, é ocupada
justamente pelo advogado que conseguiu a absolvição dos implicados na morte do escravo
Jerônimo. Sua composição sempre será motivo de discórdia na cidade e não faltarão, entre
seus críticos, aqueles que levantarão a idéia de que sua diretoria não é representativa dos
"verdadeiros abolicionistas", pois muitos de seus membros ainda possuíam escravos e não
eram reconhecidos como lutadores pelo abolicionismo. Ernesto Gerngross, ele mesmo
abolicionista, saiu da reunião de fundação do clube já apregoando sua inutilidade, pois foi
qualificada como "extemporânea", a idéia de que dele só fizessem parte às pessoas que não
mais possuíssem escravos12.
Pouco depois, estampa uma crítica demolidora no Diário de Pelotas 13, no qual ele
analisa criticamente cada um dos dirigentes, denunciando que possuem e compram
escravos e tentando demonstrar que as pessoas contempladas nos altos postos do clube
pouco fizeram pela causa abolicionista ou se venderam aos escravagistas, como era o caso
do presidente, que foi advogado dos acusados na tortura e morte do escravo Jerônimo.
Esse crime da morte de um escravo é emblemático da contradição existente na
atuação de alguns ditos abolicionistas. Piratinino de Almeida apresenta-se como advogado
de defesa do acusado, charqueador Paulino Leite, que chama para si o crime, o qual
ocorreu em sua ausência, pois sabe que, por ser rico, terá mais chances de ser inocentado
que seu irmão, o verdadeiro mandante.
Por slsó, o crime presta-se a versões contraditórias, com alguns asseverando que o
castigo não foi de molde a matar ninguém e que outra doença foi a causadora. Aparecem
laudos de exames físicos, feitos em outro escravo, como se fosse o morto. As testemunhas
pobres são coagidas e/ou perdem o emprego, mas outros, a quem estas contaram o
acontecido, vêm a público denunciar as pressões que elas sofreram. Os médicos que o
atenderam dizem que morreu de tétano ou peritonite e que a causa não foi o espancamento.
Quando se procede a exumação do corpo, os médicos negam-se a examiná-lo, dizendo que
o estado do corpo impede a autopsia. O Cónego Canabarro muda seu depoimento, dizendo
nada ter visto das equimoses no cadáver e que considera Paulino um bom patrão.
Èm relação aos jornais, a situação é um pouco diversa. Inicialmente, o episódio
auxilia bastante a propaganda da causa abolicionista, pois é fartamente agitado pelo A Voz
do Escravo e alguns dos outros jornais publicam com destaque os primeiros laudos e a
descrição do estado lastimável do cadáver, bem como a primeira versão das testemunhas.
Contudo, o Jornal A Discussão amaina sua cobertura, a partir do envolvimento de seu dono,
Piratinino, na defesa. Os demais, pouco a pouco, vão abandonando o caso, com o Correio
Mercantil, de Antonio Joaquim Dias, tomando partido ao lado de Paulino Leite,
desqualificando testemunhas e afirmando que é muito grande a grita para pouco assunto.
Enquanto isso, seus opositores, como o Diário de Pelotas, insinuam que se vendeu a
Paulino, e Bernardo Taveira Jr. publica um longo poema sobre o julgamento dos implicados
no caso Jerônimo, no outro mundo, entre os quais, um dos principais acusados é justamente
Antonio Joaquim Dias, por ter vendido a opinião de seu jornal.14
O desfecho»do caso é risível :o próprio promotor faz recair a culpa no capataz e nos
três escravõsT"que cumpriram a ordem de chicoteá-lo. Depois, apenas o capataz é
incriminado, considerado o mandante do crime, com o charqueador inocentado e seu irmão
saindo da cidade15.

11
D. Pelotas, 8/5/1881. O fato mobilizou a toda a intelectualidade, motivando poemas em homenagem ao jovem
morto, inclusive com Lobo da Costa colocando anúncio em jornais, de uma publicação sobre o mesmo, que
provavelmente não deve ter sido publicada, pois não encontrada: " O Escravo Jerônimo".
2
Diário de Pelotas, 23/8/1881.
13
Diário de Pelotas, 30/8/1881.
14
O poema sai sob pseudônimo, contudo, no arquivo pessoal de Bernardo Taveira Jr., encontra-se arrolado este
poema, como de sua autoria. Ver: Arquivo Histórico da Biblioteca Pública de Pelotas, fundo Bernardo Taveira Jr.
Esse charqueador parece ser muito severo em seus castigos, pois há outro caso de excessos em castigos a
Èm 1881, na cidade de Pelotas, a campanha abolicionista começou a se desenvolver
com a formação do jornal A Voz do Escravo. Nascido em janeiro de 1881, no mesmo mês e
ano está nascendo um jornal A Discussão, que tem como proprietários, políticos dissidentes
do Partido Liberal como Fernando Osório e os irmãos Saturnino e Epaminondas Piratinino
de Almeida, além de Marçal Pereira Escobar. Este jornal também se coloca como
abolicionista, embora de linha moderada. Certamente há relação entre estes fatos, pois os
dois jornais têm elementos em comum e também com o Clube Abolicionista. Francisco de
Paula Pires, um dos redatores da Voz do Escravo, era cunhado de Saturnino e Piratinino de
Almeida, o qual será convidado a presidir o Clube Abolicionista. Fazia parte do A Discussão,
Serafim Antonio Alves, que será um dos principais militantes da causa na cidade.
Provavelmente mulato, ele é jornalista, advogado sem diploma e terá cargos na Biblioteca
Pública e em alguns dos vários clubes abolicionistas da cidade, normalmente como
secretário dos mesmos.
Além disso, alguns dos primeiros números de A Voz do Escravo foram impressos na
tipografia do A Discussão. Conforme se desencadeia o processo Jerônimo, ele passa a ser
impresso na tipografia do Diário de Pelotas. Provavelmente, mais tarde mude novamente de
casa impressora, embora não consigamos observar isso.
Já em maio, julgando fortalecida a causa com a repercussão do caso Jerônimo. A
!
Voz do Escravo lança a idéia do Clube Abolicionista, que alcança rápida unanimidade entre
a imprensa local. Contudo, já em sua sessão de lançamento, a associação começa a
enfrentar críticas, não pelas suas propostas, com as quais todos os periódicos apresentam
concordância, mas por sua composição interna, pela ótica do Diário de Pelotas.
Contudo, conforme evolui a definição de nomes para a candidatura a deputado, as
divergências políticas se explicitam. Em 17 de julho de 1881, Fernando Osório tem
prejudicado seu desejo de ser o candidato do partido, pelas lideranças estaduais16, tendo
sido escolhido Francisco Maciel para concorrer pelo Partido Liberal. Ele e seu grupo
começam a reclamar publicamente, através de A Discussão, abrindo dissidência e
mantendo sua candidatura. Osório perde a eleição no primeiro escrutínio, mas não apóia o
candidato liberal, da família Antunes Maciel e sim o candidato Conservador, Dr. Tavares,
que termina sendo eleito em10 de dezembro17. Como se pode imaginar, e§sajírise política
do Partido Liberal na cidade é forte e alimentada pelos jornais de um ou outro grupo,
polarizando a atuação de diversos agentes sociais, em níveis muito acima daquele da
disputa interpartidária e refletindo-se, de variadas formas, nos movimentos e associações
que tem por norte o fim da escravatura.
Infelizmente, a crise política termina contaminando todo o ambiente, envolvendo
completamente A Voz do Escravo, que abandona sua atuação discreta na questão
abolicionista, para entrar de rijo na campanha eleitoral, seja acusando Maciel de nada ter
feito para defender os interesses da cidade quando eleito, seja elegendo Fernando Osório
como o "campeão da abolição ao elemento servil" e único candidato do abolicionismo na
cidade18. Essa posição, manifestada em editoriais, seguramente não contempla os
elementos mais reconhecidos de sua redação, como o Cónego Canabarro, João José Cezar
e Bernardo Taveira Jr., que saem rapidamente da mesma. A partir de então, o jornal tem
pouco tempo de vida, pois vai envolver-se cada vez mais com a questão político partidária,
sendo inclusive acusada pelo Diário de Pelotas19 de ser "órgão da dissidência liberal", até
parar de ser publicado.
Uma das pessoas chaves nessa sua trajetória foi Manoel da Silva Santos, seu
proprietário. Anos depois, em prestação de contas pública sobre o Clube Abolicionista, do
qual foi tesoureiro, ele continuava a defender seu procedimento, embora naquele momento
não tivesse se dado conta das possíveis repercussões negativas que a vinculação político-

escravos, denunciado poucos anos antes pelos jornais.


16
Ele critica principalmente Silveira Martins pelo fato.
17
A Discussão, 22 de novembro e 12 de dezembro de 1881. Osório comemora a vitória de Tavares, mas talvez
depois o resultado tenha sido modificado, pois algumas urnas foram anuladas e a diferença era muito pequena.
18
A Voz do Escravo, 19 de setembro de 1881.
19
Diário de Pelotas, 22/9/1881
partidária poderia trazer ao jornal e à própria campanha abolicionista.
"Os serviços que esse periódico prestou, o público que o julgue. Dai para cá foi minha política o
abolicionismo, visto que esta necessitava e era a personificação do elemento conservador e liberal; não
tentei transigir de política arredando-me do meu partido, mas sim para bem acompanhar a evolução que
ora se levantava: como liberal tinha que bater-me com os grandes chefes abolicionistas..." 20

A simpatia desse grupo abolicionista a Osório não era nada discreta. Nesses mesmos
dias eles participam de uma espécie de passeata com comício pelas ruas a favor de seu
candidato , e há outros desdobramentos ainda em andamento. De fato, na mesma época
ocorre a renúncia do presidente da Fraternidade Artística, entidade mutualista negra, já
antes comentada, com seu presidente demissionário manifestando-se pelos jornais,
inconformado com os rumos da entidade. Pouco depois, Manoel Conceição da Silva Santos
concorre a presidência da entidade e termina sendo eleito, sendo homenageado com
publicamente nas ruas da cidade pelos seus seguidores.
Inconformada com a eleição de Manuel Conceição da Silva Santos como novo
presidente, em 1881, parcela significativa dos sócios fundadores retira-se, publicando
apedido, de caráter político, em jornal e criando nova associação, a Harmonia cfós Artistas,
cujo primeiro presidente é negro, mas que também tem sócios brancos e cuja festa de
inauguração oficial da sociedade, em março de 1882 contou com a presença de várias
associações importantes da cidade, algumas completamente estranhas ao próprio conteúdo
do evento como os clubes carnavalescos Tire-Bouchon e Satélites de Momo,
representativos da elite pelotense. Ainda mais, houve a presença em peso das lojas
maçónicas e o primeiro convidado a fazer uso da palavra foi o político Dr. Joaquim Jacintho
de Mendonça, que havia sido presidente (governador) da Província de Sergipe e
Conselheiro de Estado de D. Pedro II e naquele momento, estava de volta a Pelotas22.
Os jornais dedicaram ampla cobertura a festa, especialmente o jornal oficial do
Partido Liberal na cidade e o fato do presidente, Francisco de Paula Sacramento ser negro,
foi minimizado, em outro periódico, nos seguintes termos "que entre seus sócios dispõe do
mais subido apreço, não só pelos grandes serviços com que assinalou sua administração
como pela galhardia com que defende e ampara os descendentes de sua raça. É um homem
de cor, de cor pouco clara, mas distingue-se por um grão de sua superioridade moral"23. Em
contraste, a festa de instalação da Fraternidade Artística, um ano antes, pouco interesse
mereceu dos jornais e, menos ainda, da sociedade pelotense.
Dessa situação extraem-se duas lições: primeiro, a organização dos trabalhadores na
cidade não era imune as questões político-partidárias, como fica claro na situação descrita
acima e segundo, o grupo negro também era sensível a luta político-eleitoral, ou seja, nestes
dois momentos, a reação dos atores foi pautada pela causa da liberdade, mas também
reagiram como cidadãos, que é como se consideravam24.
Em setembro, o jornal A Voz% do Escravo declara formalmente seu apoio à
candidatura de Fernando Osório, apresentado em 17 de setembro, como o campeão do
abolicionismo e o único candidato das forças abolicionistas na cidade. Com esta
radicalização na orientação do jornal, os abolicionistas mais reconhecidos se retiram da
redação e o jornal é atacado pelos periódicos de outras tendências, perdendo apoio e
sustentação financeira e vindo a se extinguir antes do final daquele ano. O clima de tensão
se eleva consideravelmente na cidade, com os jornais adversários25 alertando sobre a
temeridade de insuflar esperanças dificilmente concretizadas na massa escrava, e
manifestando temor ante ao perigo de proceder-se a eleições com "escravos desesperados
rondando as urnas". Outros jornais fazem coro ao medo de que se usasse a questão servil
nas eleições, o temor que se inutilizasse o voto do homem livre pela proximidade das urnas
de legiões de escravos iludidos por candidatos irresponsáveis.

20
Onze de Junho, 13/2/1885
21
Diário de Pelotas, 15 de setembro
22
Diário de Pelotas 28 de março de 1882. Cumpre notar que a festa deveria ter acontecido em dezembro de
1881 e foi adiada para março.
23
Pervigil, 10/9/1882.
24
Sobre esta questão, ver Loner, Beatriz. Trabalhadores e cidadania, a recusa a segregação. História, Debates e
tendências, v4, n.1, julho 2003, Passo Fundo, p.. 55-64
25
Ver especialmente o Diário de Pelotas, voz oficial do Partido Liberal, de setembro a novembro de 1881.
O Clube Abolicionista é fundado em meio a essa crise (21 de agosto) e já vem
marcado desde seu nascimento por ela, pois sua diretoria contém muitos dos apoiadores de
Osório, como seu presidente Piratinino de Almeida, seu secretário Serafim Alves, o
procurador Manoel Conceição da Siiva Santos e Francisco de Paula Pires26. Conforme fica
clara esta situação, outros componentes da diretoria, principalmente assustados com o
barulho feito pelo Diário de Pelotas, terminam retirando-se do clube e de suas comissões,
com o que, nesse primeiro momento, ele fica reduzido em seu poder de atuação. Nota-se
isso no retardamento da sua festa de inauguração que/narcada para sete de setembro, só
vai ocorrer bem mais tarde e no pouco impacto das primeiras alforrias que consegue, em
número ridículo para uma cidade importante como Pelotas. Mesmo assim, ele consegue
sobreviver, desvinculando-se em parte dessa situação, mas permanecendo sempre sob
ataque, devido tanto à implicação política de seu nascimento, quanto a conflitos sobre sua
atuação. Só teve 24 sócios fundadores e, dois anos depois, apenas mais 90 sócios haviam
se somado a seus esforços. Ainda mais importante, com o passar do tempo, os políticos
vinculados ao partido Liberal e outras pessoas de destaque vão se afastando de sua direção
e seus cargos são preenchidos por outros menos abonados e que fazem parte daquele
grupo inicial já referenciado.
Como meio de contrapor-se a sua atuação, o Diário de Pelotas impulsiona a criação
de outro clube, o Clube Emancipador 27 de Agosto, que surge uma semana depois dele, e
que tinha sócios mais modestos, provenientes do comércio ou pequenos negócios (seu
presidente era um ourives), funcionando na base de venda de quotas a preços baixos, para
seus associados, as quais depois seriam investidos na compra de bilhetes de loteria. O
resultado dos prêmios, se houvesse, é que seria utilizado na compra da alforria de escravos.
Deve-se considerar que, na fase seguinte, da emancipação dos escravos em Pelotas,
ou seja, da transformação dos escravos em contratados, o Clube Abolicionista foi
propositalmente deixado de lado pelo jornal que lidera a campanha, A Penna, o qual apóia a
fundação de outra associação, o Centro Abolicionista,, este formado por grandes estancieiros
e charqueadores e que comandará os esforços emancipacionistas na cidade, extinguindo-se
posteriormente. Este também é o destino do Clube Abolicionista em 1885, pretexto que o
município não possui mais escravos . Contudo, seus antigos militantes são obrigados a formar
outro clube em 1887, o Clube*Abolicionista São Sebastião, de melancólica memória, pois
formado para resolver um conflito (físico e moral) entre abolicionistas e escravagistas na
cidade, será forçado a vigiar o comportamento dos contratados.
Concluindo, este episódio desvenda o importante papel da imprensa na abolição. Na
verdade, pode-se considerar que ela age como o verdadeiro ator político, pois como a
maioria dos jornais servia de instrumento de propaganda e ataque de um grupo ou proposta
política, torna-se evidente que o apoio que eles dão ao desenrolar da campanha, ao mesmo
tempo em que os limites que impõe a mesma, são filtrados pela sua ótica particular de
promoção de interesses.
No primeiro episódio, vimos como a formação de dois jornais procurou alavancar
determinadas candidaturas a deputação e, não conseguindo, levou com ela a proposta de
um jornal exclusivamente abolicionista no estado para o insucesso. Depois, em 1884, tem-
se que o recrudescimento da campanha abolicionista no primeiro semestre, é restringido
através do uso do jornal Correio Mercantil contra o clube Abolicionista, preparando o
caminho para a entrada em cena do Centro Abolicionista. Nesse mesmo momento, a
atuação de um juiz que toma partido contra a escravidão e seus agentes, é verberada
publicamente por quatro entre os cinco jornais da região, levando ao refluxo da atuação do
juiz e sua saída da cidade.
Assim, vê-se que as marchas e contramarchas da abolição em Pelotas tem como um
dos seus meios principais de atuação os jornais, bem como são eles os mais importantes
testemunhos de que dispomos hoje sobre essa campanha, pois quero voltar a frisar que
esta pesquisa, que ora exponho, foi feita apenas a partir da fonte jornalística.

26
Depois, ele vai tornar-se republicano.