Você está na página 1de 3

Lição 3: O Reino de Deus sobre o Pano de Fundo

da Literatura Judaica
O REINO DOS CÉUS NO JUDAÍSMO POSTERIOR
Se por um lado o reinado é atribuído a Deus no AT por meio de
declarações pessoais e verbais, nos escritos rabínicos e apocalípticos dos
judeus após o tempo do exílio, encontramos com frequência a expressão
mais abstrata reino dos céus. É importante salientar que a expressão “dos
céus” é associada à “reino” devido ao costume judaico de evitar
referências diretas a Deus. No NT, reino de Deus e reino dos céus terão o
mesmo sentido. Outra observação importante diz respeito ao fato de que
na literatura rabínica essas expressões são usadas, comparativamente,
com uma frequência e um grau de importância muito menores do que
aquilo que encontramos no NT. Se no período Interbíblico essa expressão
é cunhada e se torna padrão, nem de longe tem a importância da qual é
revestida no NT. Para a Igreja cristã e os apóstolos, a realidade do reino de
Deus ganha absoluta centralidade em seu pensamento e teologia.
A. O sentido de “reino dos céus” na literatura judaica
A expressão “reino dos céus” é usada pelos judeus do período
“Interbíblico” em dois sentidos. O primeiro sentido se refere ao domínio
moral que Deus tem sobre os homens, implícito na criação, e ao qual a
raça humana renunciou pela transgressão. Esse domínio moral, contudo,
foi novamente reconhecido e mantido na raça de Abraão, pelo povo de
Israel. Em especial, o reino dos céus é manifesto por meio do
assentimento do povo judeu à Torá. Assim, torna-se comum na literatura
e religião judaica a expressão “tomar sobre os ombros o jugo do reino dos
céus”, o que significa viver segundo a Torá. Circunstancialmente, essa
expressão se tornou sinônimo de ler ou recitar a Torá, em especial seu
resumo na oração do Shemá (Dt 6.4-8).
Paralelamente a esse uso técnico e restrito, um sentido muito mais
amplo é atribuído pelos judeus à expressão reino dos céus. A expressão
indica o domínio mundial de Deus que se aproxima, que libertará Israel
dos poderes pagãos e sujeitará as nações a Deus. A manifestação desse
reino dos céus é repetidamente objeto das orações judaicas.
Quando se analisa, porém, o conteúdo dessa expectativa futura em
torno da vinda do reino, chega-se a conclusão que há uma diversidade
muito grande em torno daquilo que se esperava que viesse a acontecer
quando o reino dos céus finalmente se estabelecesse. Os escritos judaicos
apocalípticos e pseudoepígrafos são de uma importância impar para
conhecermos a perspectiva escatológica dos judeus que viviam poucos
anos antes do nascimento de Cristo. Porém, perceberemos que a
escatologia deles está longe de ser unânime. Consideremos alguns
exemplos.
No escrito chamado “Odes de Salomão” (pseudoepígrafo), as
expectativas futuras são de natureza terrena e nacional. O reino
messiânico seria terreno, e implicaria na libertação de Israel dos seus
inimigos e das bênçãos que decorreriam disso.
Outra obra, chamada Testamento dos Doze Patriarcas, além de uma
restauração futura para a nação, o reinado messiânico traria também
outros efeitos de natureza sobrenatural: a redenção do cosmos, a
ressurreição dos mortos, o julgamento universal e a vida eterna no
paraíso de Deus.
Nas obras Apocalipse de Enoque e Ascenção de Moisés, a
expectativa em torno da vinda do reino não guarda relação com a
situação terrena do povo. Espera-se um reino messiânico futuro
relacionado a um mundo celestial vindouro. O Messias no pseudoepígrafo
de Enoque é apresentado como o Filho do Homem (relação provável com
Daniel 7) e seu reino se opõe drasticamente ao mundo presente. Seu
domínio não se revela na terra, mas no céu.
Outras duas obras desse período, o Apocalipse de Baruque e
4Esdras, apresentam uma “síntese” dessas duas visões. Num primeiro
momento o Messias se revela na terra, para um governo nacional, mas
esse aparecimento é apenas uma transição para uma escatologia
transcendente, pois após a ressurreição dos mortos e do julgamento do
mundo, seu reino será então um governo eterno, celestial. Em 4Esdras,
contudo, o lugar da nova era do governo messiânico será essa mesma
terra, renovada e renascida. Essa perspectiva escatológica apresentada
por 4Esdras parece ser a predominante também nas fontes rabínicas que
temos a nossa disposição.
Assim, não há uma forma de expressão escatológica padronizada na
literatura judaica pós-exílica quanto a expectativa em torno da
manifestação do reino dos céus, muito embora haja uma tendência de
cristalização em torno da visão sintética apresentada na obra 4Esdras.
Além disso, não há também um tratamento proposital uniforme quanto a
posição que o Messias ocupará no reino dos céus. Em algumas obras mais
antigas, como por exemplo as Odes de Salomão e o Testamento dos
Patriarcas, o estado de bênção final, seja terreno e nacional, seja em um
reino celestial, será trazido pelo Messias. Nesse caso, o reino dos céus é o
reino do Messias, seguindo os passos do AT. Nos escritos judaicos
apócrifos posteriores, contudo, o estado de bênção final somente será
experimentado no mundo do futuro, que ocorrerá depois da ressurreição
dos mortos e o fim do mundo atual. Nesse sentido, o reinado do Messias é
uma realidade relacionada ao fim do mundo presente, e traz a Israel uma
libertação apenas provisória. Assim, o reino dos céus, nessa visão, não
coincide com o reinado messiânico. É uma realidade muito maior,
cósmica, posterior ao reino messiânico, da qual este é apenas uma
transição.
Como vimos, o quadro escatológico construído no período do
judaísmo posterior é extremamente diversificado. Ainda que tenhamos
que reconhecer que é nesse contexto histórico que se insere a pregação
de Jesus, e que não podemos artificialmente separar a expressão “reino
dos céus” de seu quadro geral, temos que reconhecer também que esse
quadro é muito confuso. Não havia um consenso em torno da forma de
manifestação do “reino dos céus” entre os contemporâneos de Jesus, nem
entre os rabinos, nem entre os judeus apocalípticos. Assim, não podemos
tentar enquadrar Jesus nesses esquemas escatológicos, até porque esses
esquemas, pelo que foi mostrado, não são bem definidos, nem estanques.
Acima de tudo, não se deve assumir um a priori escatológico para
Jesus principalmente devido ao fato de, em sua proclamação, Jesus não ter
feito referência clara a nenhum desses apocalipses ou pseudoepígrafos.
Jesus recorre, por outro lado, com frequência, a totalidade da escatologia
esboçada no Antigo Testamento.
A resposta ao que Jesus quis dizer quando proclamou a chegada do
reino dos céus, portanto, não pode ser encontrada na literatura
apocalíptica judaica. Essa resposta será encontrada nas próprias palavras
de Jesus nos evangelhos, em seu caráter singular, em conexão estreita
com suas referências ao Antigo Testamento.