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Uso do ensaio de compressão diametral para determinação dos

parâmetros de resistência de solos não saturados.


Marcos Aires Albuquerque Santos, Yamile Valencia González e Márcio Muniz de Farias
Universidade de Brasília, Departamento de Engenharia Civil, Brasília, Distrito Federal

Gilson de F. N. Gitirana Jr., PhD.


Universidade Federal de Goiás, Departamento de Engenharia Civil, Goiânia, Goiás.

José Camapum de Carvalho, PhD.


Universidade de Brasília, Departamento de Engenharia Civil, Brasília, Distrito Federal

RESUMO: Este trabalho descreve o procedimento para a realização do ensaio de compressão diametral em
amostras com variação de umidade e sucção matricial, para um solo de Brasília, caracterizado física e
mecanicamente. A resistência à tração, obtida do ensaio de compressão diametral, e o ângulo de atrito φ´,
obtido de um ensaio de resistência ao cisalhamento ou triaxial, são utilizados de forma rápida e simples na
determinação dos parâmetros de resistência (coesão total e φb), para um solo não saturado.

PALAVRAS-CHAVE: compressão diametral, resistência ao cisalhamento, sucção, e solo não saturado.

1 INTRODUÇÃO 2 MATERIAIS E MÉTODOS

O ensaio de compressão diametral, 2.1 Caracterização do Material Ensaiado


conhecido no exterior como “ensaio brasileiro”,
foi desenvolvido pelo professor Fernando Luis O solo em estudo é um solo típico da região
Lobo B. Carneiro para determinação da do Distrito Federal. Este solo apresenta um alto
resistência à tração de corpos de prova grau de intemperismo e lixiviação no seu
cilíndricos de concreto de cimento Portland. processo de formação o que conduziu a uma
Inspirado neste trabalho pioneiro, o professor estrutura bastante porosa e metaestável, com
Icarahy da Silveira sugeriu a utilização do altos índices de vazios e conseqüentemente com
ensaio de compressão diametral em amostras baixos pesos específicos (Camapum de
compactadas de solo coesivo (Medina 1997). Carvalho et al. 1996).
Para amostras de solo, este ensaio tem Com o intuito de conhecer as propriedades
especial interesse na determinação de valores de do solo a ser ensaiado e fornecer dados
coesão total para amostras com valores de adicionais para verificação dos resultados do
umidade variando da condição saturada à seca. ensaio de compressão diametral, foram
Ou seja, para avaliar a coesão total com a realizados os seguintes ensaios: ensaios de
variação de sucção matricial (Valencia et al. caracterização (determinação da umidade,
2005). massa especifica dos grãos, granulometria das
Neste trabalho, pretende-se oferecer uma partículas), ensaio de determinação da curva de
alternativa simples e eficaz de medição dos retenção de água, e ensaio triaxial convencional
parâmetros de resistência de solos não saturados do tipo consolidado drenado (CD).
a partir do ensaio de compressão diametral, em Na Tabela 1 são apresentados os resultados
conjunto com a técnica de determinação da dos ensaios de caracterização e os ensaios de
curva característica de retenção de água pelo resistência para o perfil de solo com a
método do papel filtro. profundidade. Os resultados do ensaio de papel
filtro são apresentados na Figura 1, cuja análise
será comentada no próximo item.
Nota-se que os valores de peso específico
natural, γnat, não variam muito ao longo da 100

profundidade, entre 12 e 15kPa. Os valores do 90


80
índice de vazios são altos e diminuem com a 2,4m

Grau de Saturação, Sr
70
profundidade. Quanto ao grau de saturação das 60 5,0m
camadas de solo observa-se que a amostra 50
retirada a 2,4m de profundidade possui o grau 40 7,7m

de saturação em torno de 52%, enquanto o 30


11,7m
restante permanece acima dos 70%. Esses 20

valores são justificados pela posição do nível de 10


0
água, na cota 8,0m. 0,01 1 100 10000 1000000
Os parâmetros de resistência apontam para Sucção matricial do solo, kPa

um pequeno acréscimo de ângulo de atrito Figura 1. Curva característica do material ensaiado.


efetivo, φ', com a profundidade, permanecendo
na faixa de 30°. No entanto, não se pode dizer o Granulometria
100
mesmo do valor da coesão efetiva. Pode-se 90
afirmar que para todos os níveis o valor da 80
2,4m
coesão não ultrapassa 10 kPa. Portanto, estas 70
60
amostras revelam um comportamento de 50
5,0m

%
material granular. Isto é confirmado pelas 40 7,7m

curvas granulométricas (Figura 2) e pelos 30


11,7m
20
valores de limite de liquidez, wL e IP. 10
0
2.1.2 Ensaio de Papel Filtro para obtenção da 0,0010 0,0100 0,1000 1,0000 10,0000 100,0000
Diâmetro (mm)
Curva Característica.
Figura 2. Curvas granulométricas, sem defloculante.
São apresentados neste item os resultados do
ensaio de papel filtro para obtenção da curva Para esta pesquisa utilizou-se a técnica do
característica. papel filtro a fim de medir a sucção matricial.
A curva característica do solo é uma As amostras foram retiradas dos blocos
representação da capacidade do solo de indeformados, utilizando-se discos de
armazenar água em seus vazios, expressa por moldagem de PVC de 20mm de altura e 53mm
meio da relação entre sucção e o grau de de diâmetro, sendo a seguir submetidas à
saturação ou umidade (gravimétrica ou secagem prévia até a umidade higroscópica ao
volumétrica). As principais características que ar livre. Após a secagem, as mesmas eram
influem na forma da curva característica são a umedecidas até as umidades desejadas.
textura, estrutura e a mineralogia da fração fina Após 15 dias, os papéis filtros eram
do solo (Oliveira 2003). removidos, um a um com uso de pinça e
pesados em balança de precisão. Ao fim da
pesagem dos papéis filtro, os mesmos eram
levados à estufa por um período de 2 horas, a
uma temperatura de 105°C, em seguida eram
pesados novamente.
Tabela 1. Propriedades do solo ensaiado.
Amostra γnat IP Triaxial
Gs e w (%) Sr (%) wL (%) wP (%)
(m) (kN/m³) (%) c´(kPa) φ'(°)
2.40 2.60 12.33 1.83 36.9 52.4 48.6 35.7 12.9 4.0 27
5.00 2.57 14.23 1.49 40.9 70.5 60.7 40.7 20.0 5.4 26
7.70 2.59 15.23 1.24 35.6 74.3 66.9 43.4 23.5 9.0 34
11.70 2.58 15.89 1.10 30.5 71.5 56.3 41.3 15.0 4.5 33
Para a determinação dos valores de sucção
foram utilizadas as equações 1 e 2, propostas
por Chandler et al. (1991).
Para w > 47%
sucção = 10 (6,05-2,48⋅log w ) (1)
Para w ≤ 47%
sucção = 10 (4,84-0,062⋅log w ) (2)
onde: w = umidade relativa da amostra.
Desta forma foram obtidas as curvas
características apresentadas na Figura 1. Pode-
se observar que para as profundidades de 5,0m
e 7,7m o comportamento e o formato das curvas
características são semelhantes. Já para as
profundidades de 2,4m e 11,7m há
comportamentos diferenciados, principalmente
para a profundidade de 2,4m, onde o valor de
entrada de ar é bem menor que para os demais.
Estes resultados podem ser explicados pelas
diferentes características mineralógicas e de
intemperização.
Para o ajuste das curvas características
bimodais foram usadas as proposições de
Gitirana Jr. & Fredlund (2004) que basicamente
usam coordenadas dos pontos de inflexão para Figura 3. Fluxograma Para cálculo de coesão total.
ajustá-las através de hipérboles.
ƒ Mede-se as alturas e os diâmetros dos
2.2 Ensaio de Compressão Diametral. corpos de prova com um paquímetro e
adota-se as respectivas médias aritméticas
O objetivo deste ensaio é a obtenção dos das leituras;
valores do parâmetro de resistência para solos ƒ Colocam-se frisos curvos metálicos. O
não saturados em diferentes umidades. primeiro é colocado na base, entre o pistão
Pretende-se obter a variação dos valores do da prensa e o corpo de prova na posição
intercepto coesivo relacionado com a variação horizontal. O outro friso é colocado no topo,
de sucção. entre a célula de carga e o corpo de prova.
Para isso é necessário seguir algumas etapas Deve ser observado se não há
propostas no fluxograma a seguir, representado excentricidade durante a aplicação de carga.
na Figura 3, descrevendo o procedimento para o ƒ A prensa é ajustada até que seja obtida uma
cálculo da coesão total. pequena compressão que prenda o corpo de
prova na posição. Aplica-se a carga
2.2.1 Procedimentos do Ensaio de Compressão progressivamente, fazendo leitura de carga e
Diametral. deslocamento, até que se observe a ruptura
com a separação das duas metades do corpo
Para a execução do ensaio de compressão de prova, ao longo do plano diametral;
diametral são usados os mesmos corpos de ƒ Anota-se a carga de ruptura, F, e o
prova utilizados na determinação da curva de deslocamento vertical na ruptura.
retenção de água. O ensaio consiste das A Figura 4 apresenta os componentes deste
seguintes etapas: ensaio.
carga na ruptura; D = diâmetro do corpo de
Célula de prova; H = altura do corpo de prova.
carga
Haste 2.2.3 Resultado da Coesão total.

Contato Após a conclusão da etapa anterior de


Friso superior Rotulado obtenção das tensões de compressão e tração,
foi utilizada a equação 5, para a obtenção da
coesão total.
Amostra
qf
c= − p f ⋅ tan φ´
cos φ´
(5)
Friso inferior
(σ 1 − σ 3 ) f
onde: c = coesão total; qf = ;
2
σ1 + σ 3
pf⋅=( − ua ) f e φ´ = ângulo de atrito
2
efetivo.
Figura 4. Representação do ensaio de compressão As tensões de compressão e tração são
diametral. respectivamente as tensões principais σ 1 e σ 3 .
Esta formulação foi deduzida utilizando o
2.2.2 Análise numérica do estado de tensões na critério de ruptura de Mohr-Coulomb, conforme
amostra no momento da ruptura. proposto por Fredlund & Rahardjo (1993).

A partir de dados obtidos, como carga de A partir desta formulação percebe-se a


ruptura e deslocamento vertical na ruptura, foi necessidade da definição dos valores de tensão
possível simular o ensaio com um programa que de tração e de compressão, como também o
usa o método dos elementos finitos e obter a valor do ângulo de atrito efetivo do solo, que
distribuição das tensões de compressão e tração. pode ser obtido ou pelo ensaio de cisalhamento
As condições reais do ensaio foram impostas direto inundado ou pelo ensaio triaxial. Desta
gerando soluções analíticas mais reais que as forma, pode-se calcular os valores das coesões
propostas por Medina (1997), já que este para diversos valores de sucção e de grau de
considerou a aplicação de uma carga pontual saturação.
teórica, enquanto que o ensaio de compressão
diametral utiliza carregamento distribuído de 3 RESULTADOS DOS ENSAIOS
acordo com as dimensões dos frisos. As
equações a seguir (Eqs. 3 e 4), obtidas por meio A partir dos procedimentos sugeridos foram
de análises numéricas (Santos 2006), fornecem realizados ensaios para 4 camadas de solo, nas
os valores de tensão, admitindo o carregamento profundidades de 2,4m, 5,0m, 7,7m e 11,7m.
distribuído. Tendo em vista que durante os ensaios de
compressão diametral houve pouca perda de
1,6 ⋅ F umidade, devido à velocidade do ensaio, pode-
σt = (3) se admitir que o grau de saturação obtido no
π ⋅D⋅H
ensaio de papel filtro foi o mesmo usado em
− 5,5 ⋅ F cada amostra para o ensaio de compressão
σy= (4) diametral.
π ⋅D⋅H
A Figura 5 apresenta a relação coesão total e
onde:σt = resistência à tração estática; F = sucção. Esta relação permite a obtenção do
parâmetro φ b , que representa a taxa de secas. Valores elevados de sucção, como os
acréscimo de resistência ao cisalhamento com o apresentados na Figura 7, são comuns.
aumento de sucção. Devido à não linearidade
dos resultados, o parâmetro φ b não pode ser 140
2,4m
120
considerado constante.
100

C o e s ã o (k P a )
5,0m
Os resultados apresentados indicam uma 80
tendência em que, inicialmente, para um 60 7,7m

pequeno aumento de sucção há um grande 40 11,7m


20
aumento de resistência para a amostra de solo. 0 CPS
A partir de um determinado valor de sucção 0 5000 10000 15000
matricial, o aumento de sucção não contribui Sucção (kPa)
significativamente para o aumento de
resistência ao cisalhamento. Portanto, são Figura 5. Acréscimo de coesão devido aumento de
sucção.
verificados dois trechos com inclinações
distintas. A única exceção foi para a
y = 0 ,3 6 0 8 x + 4 ,5
30

profundidade de 7,7m, onde se observou uma 25

única reta.

Coesão(kPa)
20

Buscando um melhor entendimento quanto a 15

esta tendência, mostra-se nas Figuras 6 e 7 os 10

trechos de variação de coesão para faixas 5

inferiores e superiores de sucção matricial, 0

considerando apenas a profundidade de 11,7m.


0 10 20 30 40 50 60

S ucçã o (kP a )
No primeiro trecho (Figura 6), observa-se
que a taxa de ganho de resistência ao Figura 6. Acréscimo de coesão devido ao aumento inicial
cisalhamento com a sucção matricial, φ b1 , de sucção.

corresponde a 19°, até um valor limite de


y = 0,0023x + 24,331
sucção matricial de aproximadamente 60 kPa. A 100

partir deste valor é iniciado o segundo trecho 80

(Figura 7), onde se nota que para um grande 60

aumento de sucção matricial há pouco ganho de 40

resistência. Observou-se um valor de φ b 2


20

0
equivalente a 0,13°. 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000

São apresentados na Figura 7 valores de


S uc ç ã o (k P a )

coesão obtidos em ensaio de compressão não


11,7m CP S

confinada para 11,7m (CPS). A partir dos dados Figura 7. Acréscimo de coesão devido a grande aumento
de tensão calculados no ensaio e utilizando a de sucção.
equação 5, obtiveram-se os valores
apresentados. Os resultados apresentados estão
próximos dos obtidos com a compressão
diametral. A compressão não confinada requer 3.1 Resumo dos resultados
um excessivo tempo de equilíbrio para medição
da sucção. O resumo dos resultados de acréscimo de
É importante ressaltar que o baixo valor de resistência para o solo estudado é apresentado
φ b2
não significa que o solo não possa na Tabela 2. Observa-se um valor de φ b1 maior
apresentar acréscimos significativos de que o de φ b 2 , exceto para a profundidade de
resistência ao cisalhamento. Poderão ser 7,7m.
observados acréscimos consideráveis se o solo
estiver sendo submetido a secagem, como
ocorre com o solo superficial durante estações
Tabela 1. Acréscimo de resistência para os trechos 1 e 2. Oliveira, D.(2003). Análise da interação solo atmosfera
b1 b2 durante a Secagem para a Argila Porosa de Brasília.
Profundidade (m) φ (°) φ (°)
Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-
2,4 11 0,06 Graduação em Geotecnia, Departamento de
5,0 16 0,3 Engenharia Civil, Universidade de Brasília, 168 p.
7,7 0,4 0,4 Valencia, Y. G., M´rquez, M. A., Carvalho, J. C. Y
11,7 19 0,13 Villarraga, M. R. (2005). La meteorización y los
mecanismos de inestabilidad de taludes naturales en
suelos residuales metamórficos. IV Conferência
4. CONCLUSÕES Brasileira sobre Estabilidade de Encostas, Vol. I,
Salvador-Bahia, p 315-328.
Tendo em vista os dados apresentados
conclui-se que o ensaio de compressão
diametral é de grande valia para obtenção de
valores de acréscimo de resistência para solos
devido à variação de sucção. Os resultados são
muito semelhantes aos obtidos em ensaios de
compressão não confinada e os interceptos
coesivos para sucção matricial nula são
semelhantes aos valores obtidos em ensaios
triaxiais saturados, CD.
Deve-se observar os procedimentos de
ensaio de forma a minimizar imperfeições, além
de atentar para o procedimento correto para o
cálculo da coesão utilizando as equações 3 e 4
para cada amostra ensaiada.
Embora se tenha apresentado neste trabalho
uma metodologia para correta avaliação dos
valores de coesão para solos não saturados,
estes ensaios foram realizados para uma
quantidade limitada de amostras de solo do
Distrito Federal. É necessário dar continuidade
a estes estudos a fim de consolidar o método
para uma maior gama de dados.

REFERÊNCIAS

Camapum de Carvalho et. al.(1996). Proposta de uma


nova metodologia para ensaio de sedimentação. 30º
Reunião anual de pavimentação, ABPv, Salvador, Ba,
2:520-531.
Chandler, R.J.& Gutierrez, C.I. (1991). The Filter-Paper
Method for Suction Measurement” – Geotechnique,
vol.36, n.2 – pp. 265-268.
Fredlund, D.G. & Rahardjo, H. (1993). Soil Mechanics
for Unsaturated Soil. John Wiley & Sons, Inc. New
York, USA, 571p.
Gitirana Jr., G.F.N., & Fredlund, D.G. (2004). Soil-water
characteristic curve equation with independent
proprieties. Jornal of Geotechnical and
Geoenvarionmental Engineering, 130(2): 209-212.
Santos, M.A.A.(2006).Dissertação de Mestrado (em
preparação).
Medina, J. (1997). Mecânica dos Pavimentos. UFRJ, Rio
de Janeiro, RJ, 380 p.