Você está na página 1de 1

Esboço de Projeto Filosofia e suas relações com o cotidiano

As discussões filosóficas tem apresentado uma íntima relação com a vida cotidiana. Desde

o

seu início a filosofia pretendia estabelecer significações para as realidades observadas no cotidiano.

O

mundo, que em sua complexidade, apresentava-se aos humanos como novidade, passa a ser

racionalizado, metrificado e interpretado a partir de modelos que se revestem da cotidianidade. Para melhor visualizarmos as intenções filosóficas do início na Grécia Antiga, por volta do século VII a.C.,

os filósofos queriam saber sobre a natureza das coisas, tentando identificar o que unia toda a realidade. Uma explicação racional das coisas passa a ter interesse quando o universo se torna um problema. Então procurou-se a razão que orientava, regia e ordenava o universo Cosmologia tentando encontrar explicações causais para acerca de todos os fenômenos.

A primeira forma encontrada para explicar os fenômenos naturais foi identificar um princípio

que desse origem a tudo. As explicações mitológicas que regiam a cultura grega fundamentaram muitas explicações das ocorrências da vida cotidiana, no entanto, Parmênides e Platão passaram a explicar em forma estritamente racional, o que antes ocorria no nível mitológico. A identificação de um princípio originário, aprofundada pela explicação racional iniciada por Tales de Mileto que interpretou como a água, dá o ponto de partida para a compreensão do mundo com explicações formais.

Cabe aqui alguns questionamentos acerca das relações entre as explicações teórico-

filosóficas e o cotidiano. Como entender que ao questionar sobre o mundo os filósofos visavam também a realidade cotidiana? Quais passos foram mais preponderantes para entender isso de maneira objetiva? O problema identificado no mundo, quanto à possibilidade de possuir uma origem, fornece algum destaque para a compreensão da vida cotidiana? Que sentido tem olhar para o universo e refletir sobre ele? É possível que seja um interesse que esteja associado a algum aspecto da vida cotidiana?

A tendência da reflexão filosófica sobre o mundo refere-se a uma visualização cotidiana que

protagonizou interesses cada vez mais profundos. As explicações dos mitos serviram para a filosofia compreender algumas características filosóficas da natureza ( Physis). No entanto essas explicações tornaram-se insuficientes em relação ao entendimento do cotidiano. Interpretar o mundo seria então, não apenas um processo de reflexão, mas uma ampliação da exposição do real imediato. Enquanto que o princípio da natureza a ser alcançado estava distante, o real tornou-se mais próximo com as exposições contundentes dos Pré-socráticos. A distância entre a vida cotidiana e a explicação do

mundo torna-se menor na medida em que as explicações filosóficas se aprofundam. Os fundamentos objetivos das explicações filosóficas acerca do mundo refletem-se no

cotidiano como possibilidade de demonstração de si mesmos. Ao olhar o mundo estão, em certo sentido, observando a si próprios e buscando interpretar a partir das sensibilidades, desejos, interesses

a realidade mundana e transportando-a para a vida cotidiana. O espelho do mundo é o reverso do que ocorre no cotidiano. Buscar um princípio de tudo já não é mais ele mesmo, mas já é o reflexo do

espelho que demonstra o mundo para que os humanos possam visualizá-lo e daí olhar a si próprios enquanto olham para o mundo. O reflexo espelhado do mundo refere-se ao cotidiano, pois nele, que aparece diferente do que é a realidade, o olhar humano o retrata de forma objetiva. Relacionar o cotidiano com alguma realidade objetiva observada, como por exemplo a busca de um princípio originário, faz os humanos observarem sua própria cotidianidade. Não há, neste sentido, o humano separado do processo de interpretação, mas ambos estão associados, imbricados, relacionados.

A reflexão sobre o universo fornece um olhar diferente sobre si mesmos, no sentido de que

quando os humanos observam o mundo é para se encontrarem. O interesse do filósofo está associado

às condições pelas quais buscam e interagem com o seu cotidiano. Há, desta forma, um processo de

retroalimentação: ver o mundo é refletir um espelho sobre o cotidiano, o que revela um processo de

interação e integração do mundo com o cotidiano, pois o cotidiano e a interpretação do mundo são humanos e é desta forma que existe o interesse pela explicação do mundo.