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Sociologia da violência,

do crime e da punição
Sociologia da violência,
do crime e da punição

Pablo Ornelas Rosa;


Humberto Ribeiro Junior;
Carmen Hein de Campos;
Aknaton Toczek Souza

Vol. 2

Coleção
Percursos Criminológicos

Gustavo Noronha de Ávila


Marcus Alan Gomes
[Coords.]

editora
Copyright © 2017, D’Plácido Editora. Editora D’Plácido
Copyright © 2017, Pablo Ornelas Rosa. Av. Brasil, 1843, Savassi
Copyright © 2017, Humberto Ribeiro Junior.
Copyright © 2017, Carmen Hein de Campos. Belo Horizonte – MG
Copyright © 2017, Aknaton Tokzec Souza. Tel.: 31 3261 2801
CEP 30140-007
Editor Chefe
Plácido Arraes W W W. E D I TO R A D P L A C I D O. C O M . B R

Produtor Editorial
Tales Leon de Marco Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida,
Capa, projeto gráfico por quaisquer meios, sem a autorização prévia
Letícia Robini do Grupo D’Plácido.

Diagramação
Enzo Zaqueu Prates

Catalogação na Publicação (CIP)


Ficha catalográfica
ROSA, Pablo Ornelas; JUNIOR, Humberto Ribeiro; CAMPOS, Carmen Hein de;
SOUZA, Aknaton Tokzec.
Sociologia da violência, do crime e da punição. -- Belo Horizonte: Editora
D’Plácido, 2017.

Bibliografia.
ISBN: 978-85-8425-542-9

1. Direito 2. Direito Penal. I. Título. II. Autor

CDU343 CDD341.5
Sumário

Apresentação 9
1. Nascimento da sociologia da violência, do
crime e da punição:  11
1.1. O crime na história e a
história do crime 11
1.2. O Estado moderno e o evolucionismo 24
1.3. O crime na sociologia clássica 37
1.4. Referências 48
2. A Primeira Geração da “Escola Sociológica
de Chicago”: Ecologia Criminal e Teoria da
Desorganização Social 51
2.1. A formação da Universidade de Chicago  51
2.2. Uma sociologia da cidade 54
2.3. Pesquisas sobre gangues e delinquência
juvenil 62
2.4. Associação diferencial de Sutherland 66
2.5. O legado da “Escola de Chicago” 69
2.6. Referências 71
3. Um Segundo Momento da “Escola Sociológica
de Chicago”: Howard Becker e Erving
Goffman 73
3.1. Uma segunda escola de Chicago 73
3.2. Etnometodologia e Interacionismo 77
3.3. Howard Becker 81
3.4. Carreira criminal 87
3.5. Erving Goffman 93
3.6. Principais obras 94
3.7. Referências 102
4. A Criminologia Crítica a partir do olhar de
Alessandro Baratta 105
4.1. Desconstruindo a ideologia da
defesa social 105
4.2. A criminologia crítica e o novo método de
aproximação do fenômeno do crime 110
4.3. Do labeling approach à criminologia
crítica: a seletividade do sistema de
justiça criminal 116
4.4. Referências 124
5. Gênero e Criminologia Feminista: uma revisão
das críticas feministas às criminologias 127
5.1. Ponderações sobre gênero e a(s)
criminologia(s) 127
5.2. Teoria das subculturas criminais 129
5.3. A teoria das associações diferenciais 134
5.4. As teorias do controle 136
5.5. A teoria do controle de Garland 140
5.6. As teorias do desvio 146
5.7. A criminologia crítica 148
5.8. Referências 155
6. Uma Genealogia do Poder em Foucault 159
6.1. Atravessamentos do poder  159
6.2. Diferentes contextos e operacionalidades do
poder 164
6.3. Biopolítica e racismo de Estado  174
6.4. Referências 180
7. O Homo Sacer e o Estado de Exceção em
Giorgio Agamben 181
7.1. Homo Sacer 183
7.2. O estado de exceção: vigência sem significado
e força de lei  189
7.3. Contribuições de Agamben para a análise
das políticas de controle dos crimes e das
violências no Brasil 201
7.4. Referências 204
8. Loïc Wacquant: Encarceramento em
Massa e Criminalização da Pobreza
no Neoliberalismo 207
8.1. As transformações do capitalismo do século
XX e a ascensão do neoliberalismo  209
8.2. Do Estado Providência ao
Estado Penitência 216
8.3. Encarceramento em massa e criminalização
da pobreza no Brasil 231
8.4. Referências 237
9. Abolicionismo Penal: Uma Reviravolta no
Sistema de Justiça Criminal 239
9.1. Problematizações acerca da perpetuação de
linguagens punitivas  239
9.2. Hulsman e as penas perdidas 246
9.3. Christie e um outro abolicionismo penal 253
9.4. Tendências abolicionistas no Brasil 257
9.5. Referências  262
Apresentação

Temos a alegria de apresentar o segundo volume


da coleção “Percursos Criminológicos”, “Sociologia da
Violência, do Crime e da Punição”. Aliando densidade de
análise, com uma linguagem direta e objetiva, os autores
nos trazem uma obra original e que representa a discussão
das principais e atuais questões da crítica criminológica.
Evitando a obviedade das análises meramente histori-
cistas-cronológicas, os(as) autores(as) se mostram preocu-
pados com aspecto essencial às sustentações das “everyday
theories”: a ideia de permanência. Isto é feito através da
incomum aproximação de campo fundamental das hu-
manidades, a história das ideias, um entrelugar entre a
filosofia e a história.
Recuperando autores clássicos, como La Boetié, os
autores demonstram a continuidade das discussões entre os
defensores das teorias do consenso e aqueles preocupados
com liberdades não outorgadas, regradas, quantificadas e
medidas. É montado verdadeiro caleidoscópio a partir do
qual podemos identificar as matrizes que sustentam os
castigos diários.
Temos uma verdadeira obra de referência para quem
quer compreender as escolas sociológicas do crime. Não
apenas por constituir os percursos dos controles sociais,
bem como por vincular constantemente estes itinerários
à realidade brasileira. Se há uma certeza em relação ao

9
crime como experiência humana é a de que ele não pode
ser compreendido em sua vasta amplitude – abrangidas
também, nesse universo, as agências formais e informais de
controle e sua dinâmica de reação a quem é tomado por
desviante – sem o suporte teórico fornecido pelo pensa-
mento sociológico, que rompe paradigmas e questiona a
lógica legitimadora construída pela dogmática.
Todas estas características nos proporcionam um texto
riquíssimo, cuja utilização é recomendada não apenas aos
iniciantes nos estudos das criminologias, bem como aos
pesquisadores mais experientes. Compreender o crime
também é compreender as estruturas que o sustentam. A
leitura de “Sociologia da Violência, do Crime e da Punição”
auxilia de forma determinante nesta tarefa.

Uma ótima leitura!

Gustavo Noronha de Ávila


Marcus Alan Gomes

10
Nascimento da sociologia
da violência, do crime
e da punição:
uma introdução 1
1.1. O crime na história e a
história do crime
A existência de situações-problemas, conflitos, rela-
ções de poder, violências em suas mais distinta formas, ou
mesmo as guerras, dentre outros aspectos que pressupõe a
tentativa de exercício da força de um sujeito ou grupo sobre
outro, é algo presente em praticamente todas as sociedades
existentes. Portanto, embora ao longo dos anos se tenha
buscado tratar de tais inconvenientes que habitam nossas
relações cotidianas, dificilmente conseguiremos evitar a
incidência desse tipo de tortuosidade.
O que ocorre é que, no decorrer das histórias das
civilizações, cada sociedade passou a se fundar inicialmente
de uma determinada forma, com suas organizações sociais,
regras, estruturas, hierarquias, composições políticas, admi-
nistrativas, etc., inclusive tratando daqueles atos entendidos
como violentos por uns e não por outros de maneira distin-
ta, no sentido de contê-los e/ou minimizá-los. No entanto,
foi a partir da constituição das sociedades modernas que
passamos a racionalizar - de maneira mais precisa e através
da compleição de ordenamentos jurídicos – sobre quais
seriam as condutas aceitas socialmente e quais deveriam
ser recusadas, uma vez que estas poderiam ofender os inte-
resses de alguém ou algum grupo. As recusadas, poderiam

11
ser entendidas como violência e, de acordo com o seu
hipotético potencial ofensivo, transformadas em crimes,
na medida em que foram se estabelecendo legalmente
diferentes tipos de sanções de acordo com uma escala
hierárquica racionalizada visando a repressão, contenção
e, sobretudo, a punição daquele sujeito que violou aquilo
que foi estabelecido como regra social. Há ainda alguns que
poderiam argumentar na defesa de pontos de vista menos
realistas que adicionariam a essa lista de características a
chamada ressocialização.
A palavra “violência”, assim como nas demais línguas
latinas e no inglês, por exemplo, é oriunda do latim violentia,
que significava a “força que se usa contra o direito e a lei”,
conforme mostrou Misse (2011). Desse modo, “violento”
(violentus) eram aqueles sujeitos que agiam de maneira
impetuosa, intensa, excessiva e exagerada, tendo o emprego
retórico dessa palavra possibilitado lhe conferir significados
cada vez mais amplos que vão desde expressões cunhadas no
senso comum ou atribuições a condições naturais como a
violência dos ventos, até mesmo construções teóricas mais
recentes, a exemplos da violência simbólica (BOURDIEU;
PASSERON, 2010), violência de gênero (BUTLER, 2008),
violência epistêmica (SPIVAK, 2010), dentre outras.
É importante destacar que foi somente com o advento
da modernidade, principalmente, a partir da consolidação
dos Estados modernos, que parte daquelas condutas tidas
socialmente como violentas passaram a ser judicializadas
e, portanto, tratadas penalmente como delito através da
criação e implementação das leis. Assim, ao criminalizar o
uso da força nas situações-problemas encontradas cotidia-
namente, o Estado moderno passou a exercer a violência
de maneira legítima, ao mesmo tempo em que os cidadãos
foram abandonando o recurso hodierno da força, inclusive,
do uso de armas.

12
No entanto, antes de darmos início a apresentação dos
primeiros autores e escolas que desenvolveram distintos
entendimentos sobre o crime e da punição, faremos uma
espécie de exposição acerca do primeiro processo de racio-
nalização do tratamento dado aquelas condutas não aceitas
socialmente que, na tentativa de serem contidas, passaram a
racionalizar os castigos físicos e mentais, sobretudo, a partir
da emergência dos Estados modernos. Também é impor-
tante destacar que todos os fundamentos utilizados na pro-
dução das leis nesse contexto seguiam condicionamentos
e, principalmente, determinações daqueles que ocupavam
inquestionavelmente as maiores posições na hierarquia
como ocorria, por exemplo, nos soberanos dos Estados
absolutistas ou mesmo no próprio período inquisitorial.
Embora se possa argumentar que é possível localizar
outros tipos de tratamento dado aquelas condutas que
poderíamos chamar de crime em outros momentos da
história que precedem a Inquisição como, por exemplo,
a Lei de Talião encontrado no Código de Hamurabi de
1780 a.C. localizado no Reino da Babilônia, ou mesmo o
Código Ur-Nammu que provavelmente tenha vigorado
entre os Sumérios da Mesopotâmia de 4000 a.C. à 1900
a.C., Anitua (2008) justifica a localização do tratamento
dado ao crime no período inquisitorial por entender que
foi naquele contexto que surgiram as primeiras agências
que passaram a racionalizar a aplicação dos castigos em
decorrência da localização de uma suposta verdade, visando
localizar o ato violador a ordem social dominante.
Segundo o autor, o primeiro modelo integrado de
tratamento formal daquilo que paulatinamente passou a se
chamar no Ocidente de “crime” se deu através da Inqui-
sição. Esse sistema penal e processual penal genuíno que
emergiu no ano de 1215, no quarto Concílio de Latrão,
tinha como finalidade a perseguição dos hereges de cáta-
ros do Languedoe. “É interessante observar que o poder

13
punitivo hoje existente surgiu a partir da necessidade da
Igreja e de certos corpos políticos nascentes de coibir (ou
‘reagir’) a ação de certas interpretações religiosas” (ANI-
TUA, 2008, p. 52).
A repressão utilizada pelo tribunal jurídico-teológico
da Inquisição contra os hereges possibilitou o aparecimento
das primeiras equipes integradas por especialistas em con-
seguir arrancar a verdade através da imposição deliberada
da dor e dos sofrimentos físicos e mentais decorrentes do
uso de técnicas de tortura. Desse modo, não se buscava mais
castigar um sujeito com sua expulsão da comunidade em
decorrência de uma suposta infração cunhada na prática
herege, mas visava a integração desse dissidente através
da força eclesiástica. “A Inquisição foi a primeira agência
burocratizada dominante destinada à aplicação de castigos
e à definição de verdades, e por isso a primeira a formular
um discurso criminológico” (ANITUA, 2008, p. 54).

O sistema penal que nasceu nessa época tomou


essa como referência do “outro” como um in-
ferior e também como um inimigo, ideia que
existia na Idade Média, e ainda lhe adicionou
uma maquinaria capaz de tornar esse tratamento
extensivo aos habitantes do mesmo solo, os quais
podem ser mudados – “convertidos” – e utili-
zados. Este modelo de usar o poder, de aplicar
penas e de averiguar verdades é consubstancial,
igualmente, a uma política fundamental – e
fundamentalista -, impulsionada desde então,
e mais uma vez, pela Igreja Católica. Como
objetivo de impedir as lutas entre reinos cris-
tãos, e para poder assim expandir os terrenos
necessários para o desenvolvimento capitalista a
outras zonas, ganharia impulso nesses anos aque-
le gigantesco movimento chamado “Cruzada”.
Esse movimento se mostraria útil para reforçar
uma ideia de cristandade unificada, mas também
se revelaria fundamental para ampliar o merca-

14
do nascente, com novas conquistas e empresas
para realiza-las, e solidificar os jovens Estados
nacionais, com a criação da ideia de “franceses”
e de outros grupos organizados para a guerra
(ANITUA, 2008, p. 51).

Para Anitua (2008), o tribunal jurídico-teológico da


Inquisição foi integrado inicialmente por sacerdotes juristas
letrados que agiam como fanáticos religiosos e que passa-
ram a ser paulatinamente substituídos por funcionários que
continuaram cumprindo com certa frieza despersonalizada
a finalidade repressora de tal organização. Todavia, tudo
isso só foi possível porque houve certo deslocamento das
ações desse tribunal que passou da repressão - estabelecida
na Provença e no Russilhão através da coroa de Aragão em
1238 - à luta contra o pecado, identificado com o crime
de lesa-majestade e, portanto, heresia.
O processo penal que nascia com a Inquisição se
iniciava com a prisão preventiva do acusado de heresia,
tendo seus bens confiscados e sendo destinado, em seguida,
a um interrogatório que visava a confissão. Caso negasse
ter cometido o “crime” do qual era acusado, seria tratado
como “obstinado”, podendo acarretar consequências mais
graves, tanto do ponto de vista do sofrimento físico quanto
psíquico. A utilização da tortura visava averiguar a verdade,
além de purificar os pecados com a aplicação do tormento
que levava a morte, significativamente, apresentada sob a
imagem da fogueira.
Não obstante, esse método de averiguação da “verda-
de” presente nas práticas dessa corporação clerical passou
a ser incorporado pela justiça real durante todo o período
em que vigorou o absolutismo na Europa. É importante
destacar que o período chamado de “Renascimento”, que
precede o momento da Inquisição, corroborou a consoli-
dação do absolutismo monárquico, bem como incentivou

15
a unidade, centralismo e organização burocrática de al-
guns Estados nos séculos XV e XVI como, por exemplo,
na Espanha, com Fernando, o católico; em Portugal, com
Henrique, o navegador; na Inglaterra, com a Henrique
VII e a família Tudor; na Rússia, com Ivan, o terrível; na
Áustria, sob os Habsburgo, dentre outros. Assim, embora
se buscasse justificar a autoridade, não era qualquer tipo
de exercício de poder que era validado e exercido nessas
relações, mas sim um novo tipo, monárquico estatal.

Enfim, todos esses monarcas trabalhariam para


afirmar os Estados centrais, os que teriam mais
cotas de poder sobre os nobres, os bispos e
as comunidades locais. Foram estes monarcas
absolutistas, e não os revolucionários que vie-
ram depois, que fundaram os Estados fortes
e centralizados mediante poderosas burocra-
cias. O rei e suas burocracias encarregadas de
reprimir e cobrar tributos oscilariam durante
todo o período entre a manutenção de dois
grupos opostos entre si por seus interesses: a
nobreza e a burguesia. A busca e a satisfação de
riqueza de status de uma e de outra, às custas
dos pobres e dos colonizados, seriam a carac-
terística social do absolutismo monárquico
(ANITUA, 2008, p. 90).

Foi no final desse período, que se convencionou cha-


mar de Idade Média e início da Idade Moderna, que visu-
alizou-se com mais veemência o enfraquecimento do que
restava do poder feudal, concomitantemente ao crescimento
da burguesia comercial. A emergência de uma nova for-
ma de racionalizar a política e, sobretudo, o poder estatal,
pode ser encontrada com mais intensidade nas monarquias
absolutistas e nas estratégias que visavam naturalizar o
exercício do poder do Estado nas mãos de um soberano.
Todavia, as primeiras explicações que apareceram acerca

16
da ordem e do conflito, possibilitaram com que houvesse
certa governamentalização do Estado1, conforme ponderou
Foucault (2007).

Desde o século XVIII, vivemos na era da gover-


namentalidade. Governamentalização do Estado,
que é um fenômeno particularmente astucioso,
pois se efetivamente os problemas da governa-
mentalidade, as técnicas de governo se tornaram
a questão política fundamental e o espaço real
da luta política, a governamentalização do Es-
tado foi o fenômeno que permitiu ao Estado
sobreviver. Se o Estado é hoje o que é, é graças
a esta governamentalidade, ao mesmo tempo
interior e exterior ao Estado. São as táticas de
governo que permitem definir a cada instante
o que deve ou não competir ao Estado, o que
é público ou privado, o que é ou não estatal,
etc.; portanto, o Estado, em sua sobrevivência
e em seus limites, deve ser compreendido a
partir das táticas gerais da governamentalidade
(FOUCAULT, 2007, p. 292).

A partir do momento em que os Estados modernos


passaram a se consolidar, surgiu a necessidade de construir

Foucault (2007) entende por governamentalidade: 1 – o conjunto


1

instituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões,


cálculos e táticas que permitem exercer esta forma bastante es-
pecífica e complexa de poder, que tem por alvo a população, por
forma principal de saber a economia política e por instrumentos
técnicos essenciais os dispositivos de segurança. 2 – a tendência que
em todo o Ocidente conduziu incessantemente, durante muito
tempo, à preeminência deste tipo de poder, que se pode chamar
de governo, sobre todos os outros – soberania, disciplina, tec. – e
levou ao desenvolvimento de uma série de aparelhos específicos de
governo e de um conjunto de saberes. 3 – o resultado do processo
através do qual o Estado de justiça da Idade Média, que se tornou
nos séculos XV e XVI Estado administrativo, foi pouco a pouco
governamentalizado (FOUCAULT, 2007, p. 291-292).

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estratégias que visassem manter essa suposta ordem social,
reprimindo quaisquer ações que viessem a questionar o
exercício do poder por parte do soberano. Nesse contex-
to, era extremamente necessário produzir determinados
saberes incorporados a reflexões de cunho teórico que
garantisse a perpetuação do poder dos Estados localizados
inicialmente na figura do soberano, sendo que os conflitos
sociais questionadores dessa ordem vigente deveriam ser
contidos de alguma forma, sobretudo, a partir de certa
violência estatal. Assim, a forma mais conveniente para o
Estado a ser empregada do ponto de vista da contenção
dessas situações-problemas era utilizar aquelas mesma téc-
nicas de contenção e extermínio dos hereges encontradas
no período da Inquisição, entretanto, desprendendo-se
paulatinamente da tutela da Igreja.

Talvez se possa assim, de maneira global, pouco


elaborada e portanto inexata, reconstruir as
grandes formas, as grandes economias de po-
der no Ocidente: em primeiro lugar, o Estado
de justiça, nascido em uma territorialidade de
tipo feudal e que corresponderia grosso modo
a uma sociedade da lei; em segundo lugar, o
Estado administrativo, nascido em uma terri-
torialidade de tipo fronteiriço nos século XV-
-XVI e que corresponderia a uma sociedade
de regulamento e de disciplina; finalmente,
um Estado de governo que não é mais essen-
cialmente definido por sua territorialidade,
pela superfície ocupada, mas pela massa da
população, com seu volume, sua densidade, e
em que o território que ela ocupa é apenas
um componente. Este Estado de governo que
tem essencialmente como alvo a população, e
utiliza a instrumentalização do saber econômi-
co, corresponderia a uma sociedade controlada
pelos dispositivos de segurança (FOUCAULT,
2007, p. 292-293).

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Contudo, não foram pouco aqueles que escreveram
obras fundamentadas na observação e participação ativa da e
na política estatal. Certamente um dos pensadores de maior
destaque acerca dessas questões foi Nicolau Maquiavel
(2007). Considerado por grande parte dos pesquisadores
como o fundador de um campo do conhecimento cien-
tífico chamado de ciência política, justamente por propor
certa racionalização da política de um ponto de vista real,
e portanto científico, e não conforme faziam os filósofos
antigos gregos que pensavam esse campo de um ponto de
vista ideal, o pensador florentino visava estudar o poder e
suas manifestações.
Embora reconhecesse que a teoria política trata de
questões pertinentes a ideia de ordem, o que nos levaria
considera-la como um elemento fundamental no tratamen-
to do crime, Maquiavel (2007), mesmo enquanto teórico
do absolutismo, acabou produzindo em seus textos ideias
que fugiam do dogmatismo e das teorias justificadoras
morais ou espirituais, conforme mostrou Anitua (2008).
No entanto, embora tenha escrito O Príncipe propondo
ensinamentos acerca de práticas de governo, é nesse livro
que localizamos a primeira utilização do termo “Estado”
que, segundo o autor, centralizaria todas as atividades da
organização política separada da sociedade no líder político
que encarnaria a soberania.
Ainda que Anitua (2008) argumente que em ou-
tra grande obra política de Maquiavel (2004) intitulada
Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio, seja possível
encontrar certa inclinação do autor florentino pela forma
republicana devido a sua convicção de que nas mãos do
povo a liberdade de todos estaria mais segura e estável, é
importante lembrar que ao tratar da fortuna e, principal-
mente, da virtú, em sua obra O Príncipe, Maquiavel (2007)
apresenta aqueles elementos que considera importantes
para o indivíduo renascentista: inteligência, habilidade e

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capacidade de decisão, ou seja, características encontradas
naqueles príncipes que acreditava serem bem sucedidos.
No entanto, é preciso destacar a controvérsia apresentada
por Rousseau acerca da obra de Maquiavel (2004; 2007)
argumentando que, ao fingir dar lições aos príncipes, o
autor acabou dando grandes lições ao povo sobre técnicas
de governo.
Apesar de ser tratado como um teórico do absolutis-
mo, essas ponderações apresentadas por Rousseau revelam
certa imprecisão das intenções de Maquiavel (2004; 2007)
acerca dos propósitos de sua obra mais célebre, ou seja, não
é possível dizer se o autor escreveu uma obra destinada
ao príncipe ou ao povo. Não obstante, certamente foi o
contratualista inglês Thomas Hobbes (2015) quem mais se
destacou como representante de certo pensamento político
tributário do absolutismo monárquico.
Segundo o autor, a sociedade precisava de um Estado
forte, necessário para manter a ordem e a segurança. Em seus
textos mostrava que já não era mais o conflito que explicava
a natureza política do Estado, mas sim a ordem. Hobbes
(2015) argumentava que os indivíduos, em seu estado de
natureza, seguiam os seus impulsos e desejos, provocando
a luta de todos contra todos, na medida em que levava a
insegurança e ao medo.Visando evitar esse inconveniente,
o autor acreditava na necessidade do estabelecimento de
um contrato social que criaria a figura do Estado como
um ente artificial chamado por ele de Leviatã, título de sua
obra mais célebre, que protegeria os seus súditos na medida
em que eles abrissem mão de sua liberdade em decorrência
de uma suposta condição de segurança.
É importante esclarecer que o fato de Maquiavel
(2004; 2007) ter se tornado o fundador da ciência políti-
ca e Hobbes (2015) ser identificado como um dos mais
importantes defensores do absolutismo monárquico de
sua época, só foi possível pelo fato de terem ocupado um

20
espaço fundamental nas sociedades em que viveram, tendo
a possibilidade de pensar, escrever e difundir suas ideias,
em uma época bastante arriscada já que que não era regi-
da por elementos legais presentes na contemporaneidade
como, por exemplo, a garantia da liberdade de expressão.
Isso nos permite argumentar que, de alguma forma, as suas
preleções não apenas eram os discursos da época como
certamente contribuíram com a governamentalização do
Estado, conforme mostrou Foucault (2007).
Após termos naturalizado, ou melhor, governamen-
talizado o Estado através da produção de certas verdades
fundamentadas no estabelecimento dele como algo im-
prescindível para a nossa existência enquanto sociedade,
passamos a governamentalizar também a sua própria ra-
cionalidade e a forma com que trata das relações sociais,
inclusive daquelas condutas que passamos a tratar como
violência e, posteriormente, como crime. Contudo, é in-
teressante questionar o motivo pelo qual uma obra extre-
mamente crítica tanto a monarquia absolutista quanto ao
republicanismo, como Discurso da Servidão Voluntária de
Étienne de La Boétie (2010), escrito entre os períodos
que viveram Maquiavel (2007) e Hobbes (2015), não teve
o mesmo impacto que as obras O Príncipe e Leviatã, por
exemplo. Certamente o texto produzido pelo autor francês
não potencializou a libertação das amarras de certa verdade
amparada no exercício de um tipo de poder centralizado
e repressivo encontrado no Estado moderno, conforme
podemos verificar no trecho abaixo em que La Boétie
(2010) questiona a submissão humana ao soberano:

Por enquanto, gostaria somente de entender


como tantos homens, tantos burgos, tantas cida-
des e tantas nações suportam às vezes um tirano
só, que não tem mais poder que o que lhe dão,
que só pode prejudica-los enquanto quiserem

21
suportá-lo, e que só pode fazer-lhes mal se eles
preferirem tolerá-lo a contradizê-lo. Coisa real-
mente admirável, porém tão comum, que deve
causar mais lástima que espanto, ver um milhão
de homens servir miseravelmente e dobrar a
cabeça sob o jugo, não que sejam obrigados a
isso por uma força que se imponha, mas porque
ficam fascinados e por assim dizer enfeitiçados
somente pelo nome de um, que não deveriam
temer, pois ele é só um, nem amar, pois é de-
sumano e cruel com todos. Esta é, entretanto,
a fraqueza dos homens: forçados a obedecer,
obrigados a contemporizar, nem sempre podem
ser os mais fortes (LA BOÉTIE, 2010, p. 30).

Como estamos apresentando inicialmente uma espécie


de abordagem historiográfica, embora crítica, acerca da de-
finição de crime, é imprescindível destacarmos as primeiras
escolas que visavam tratar do delito e de suas consequências
racionalizáveis de uma forma mais sistematizada e, portanto,
mais próximo daquilo que se convencionou a chamar de
ciência. Embora o pensamento clássico tenha sido identi-
ficado de forma acabada somente no século XIX, é com
Cesare Beccaria (1999), a partir de sua obra Dos Delitos
e Das Penas, publicado em 1764, que nasce o arcabouço
teórico da escola clássica ou classismo, conforme mostrou
Schecaira (2004).
A busca por certa legitimidade encontrada posterior-
mente naquilo que se convencionou a chamar no campo
acadêmico de criminologia, sociologia criminal e/ou an-
tropologia criminal se deu a partir do nascimento da obra
de Beccaria (1999) que propôs à investigação criminal a
utilização do conhecimento racional bem fundamentado
acerca da verificação das distintas nuances que abarcam essa
questão. O autor argumentava que a procura do conhe-
cimento científico acerca do fenômeno criminal é gerida
através da ocorrência de três circunstâncias que deveriam

22
acompanhar o processo de investigação: Primeiramente,
haveria certa necessidade racional de se colocar em dúvi-
da as ideias que dominaram anteriormente a questão do
entendimento do crime e o seu consequente tratamento;
em segundo lugar, era necessário o estabelecimento de uma
crítica à situação dos sistemas processuais; e por fim, haveria
certa necessidade de se comprovar o nascimento de um
novo paradigma da ciência fundamentado na racionalidade.
Embora tenha produzido uma espécie de síntese das
ideias penais iluministas que estavam em curso, a concepção
filosófico-penal de Beccaria (1999) passou a ser entendida
por diversos autores, dentre eles Schecaira (2004), como
a maior expressão da hegemonia da burguesia no campo
das ideias penais. Tudo isso motivado pela necessidade de
transformações políticas e econômicas, uma vez que o autor
argumentava que era imperativo a existência de leis simples,
conhecidas pelo povo e obedecidas por todos.
Além de argumentar que somente as leis poderiam
fixar penas, Beccaria (1999) acreditava que não deveria ser
permitido ao juiz aplicar sanções de maneira arbitrária. Ao
propor o término do confisco e das penas infamatórias
direcionadas a família do condenado, além de sugerir o fim
das sanções cruéis, dentre elas, a morte, o autor racionalizou
a pena, defendendo que o rigor do castigo tem um efeito
muito menor acerca do espírito humano do que a duração
da pena, uma vez que a sensibilidade do julgador pode ser
operada de maneira imprecisa potencializando violências
desproporcionais advindas do próprio Estado.
Beccaria (1999) não apenas acreditava que a efetivi-
dade da lei era mais importante do que o seu rigor, como
também foi um dos primeiros pensadores a questionar a
equivocada dinâmica do sistema de provas que não admitia
o testemunho de mulheres, nem dava a devida importância
as palavras proferidas pelo condenado em sua defesa. O seu
pensamento esteve marcado pelas mais distintas lutas como,

23
por exemplo, pelo fim da tortura, contra o testemunho
secreto e os juízos de Deus, ou seja, métodos que não per-
mitiam a obtenção da verdade, senão por meio de violências
físicas e mentais legitimadas pelo Estado e capitaneadas por
representantes daqueles que exercem esse tipo de poder
soberano. “Dos delitos e das penas é a pedra fundamental do
direito penal liberal e da própria criminologia clássica, razão
porque também foi a maior fonte de críticas dos pensadores
positivistas (SCHECAIRA, 2004, p. 93).

1.2. O Estado moderno e o evolucionismo


Pouco mais de 100 anos após a publicação da obra
Dos Delitos e das Penas de Cesare Beccaria, Cesare Lom-
broso (2013) apresenta o seu livro O Homem Delinquente
em 1876, inaugurando assim um novo período na crimi-
nologia que passou a se estabelecer como “científico”. É
importante salientar que o pensamento desse autor nasce
em um contexto fortemente influenciado pelos escritos de
Charles Darwin (2008), naturalista britânico que teve o seu
reconhecimento hegemônico no campo científico através
da publicação em 1859 de sua obra intitulada A Origem das
Espécies, em que o autor propõe uma teoria evolucionista
amparada na seleção natural e sexual das espécies.
A influência que a obra de Darwin (2008) exerceu no
contexto intelectual europeu e mundial foi tamanha que
acabou atingido as mais diversas matizes teóricas, abarcando
áreas extremamente distintas do campo científico, indo
desde a biologia até as ciências sociais. A criminologia cien-
tífica ou positivista proposta por Lombroso (2013), assim
como a física social - que mais tarde passou a se chamar
sociologia - apresentada por Auguste Comte (1983) em
suas obras publicadas a partir da primeira metade do século
XIX; são dois exemplos de saberes que buscavam certo
prestígio decorrente da sua afirmação como uma forma

24
de racionalização específica que se dá pela legitimidade do
campo científico.

Pode-se dizer que Lombroso foi produto do seu


tempo. Assim como Beccaria não foi um “inova-
dor”, enfeixando em sua obra o pensamento do-
minante da filosofia iluminista aplicada ao direito
penal, também Lombroso não foi um “criador”
de uma novíssima teoria; foi, sim, alguém que
teve a capacidade de recolher o pensamento
esparso que vicejava à sua volta para articulá-lo
de forma inteligente e convincente. Se para o
olhar dos nossos dias seu pensamento pode ser
considerado um tanto quanto bizarro, suas idéias
eram muito aceitas entre os seus contemporâ-
neos. Lombroso emprestou algumas idéias dos
fisionomistas para fazer seu próprio retrato do
delinquente. Examinava profundamente as ca-
racterísticas fisionômicas com dados estatísticos
que verificava desde a estrutura do tórax até o
tamanho das mãos e das pernas. A quantidade de
cabelo, estatura, peso, incidência maior ou menor
de barba, enfim, tudo era circunstancialmente
analisado. Alguns detalhes eram verdadeiramente
precisos (SCHECAIRA, 2004, p. 95).

Lombroso (2013) não apenas adotou diversificados


parâmetros frenológicos na utilização de exames que visa-
vam pesar e medir cabeças humanas na busca por elementos
que pudessem conferir sentido científico às suas pesquisas
sobre o que chamou de “criminoso nato”, como também
se utilizou discurso científico dos psiquiatras da época na
análise daquilo que era entendido como degeneração dos
loucos morais. Embora o seu trabalho tenha consistido em
verificar a capacidade craniana, cerebral, sua as medidas de
sua circunferência, formato, diâmetro, feição, índices nasais,
detalhes da mandíbula, fossa occipital, etc., tratando-se, por-
tanto, de elementos de cunho fisiológico, o autor também se

25
utilizou-se da antropologia evolucionista da época que abar-
cava os conceitos de atavismo e de espécie não evolucionada.
Apesar de Lombroso (2013) ter sido questionado
posteriormente por meio de críticas apontadas por Gabriel
Tarde (1907; 2005) acerca do modelo evolutivo organicis-
ta do século XIX, conforme mostraremos adiante, o seu
genro, Enrico Ferri (1900; 1996), atuou como seu sucessor,
na medida em que buscou adaptar a noção de “criminoso
nato” à mais outras quatro categorias de delinquentes que
elaborou: louco, delinquente habitual, delinquente ocasional
e criminoso passional.
Além da categoria apresentada por Lombroso (2013),
que identificava o criminoso através da verificação de de-
terminados traços físicos que mostrariam o quão propenso
era aquele sujeito para a prática de delitos, Ferri (1900;
1996) mostrou a especificidade das demais categorias de
delinquentes, apresentando uma maior complexidade ana-
lítica, se comparado ao seu sogro. No entanto, sua grande
contribuição para o campo da sociologia se deve ao fato de
reconhecer que o fenômeno da criminalidade é bastante
complexo e atravessado por fatores antropológicos, físicos
e sociais, inaugurando, assim, uma sociologia criminal. “A
ele [Enrico Ferri] devem a criminologia e o direito penal,
se mais não for por ser o criador da chamada sociologia
criminal” (SCHECAIRA, 2004, p. 99).
Assim, ao mesmo tempo em que o evolucionismo
presente nos estudos de Darwin passou a se afirmar como
verdade no campo das ciências biológicas de todo o mundo
ocidental a partir do final da primeira metade do século
XIX incidindo diretamente nos estudos criminológicos de
Lombroso (2013) e seu genro Ferri (1996; 1900); naquele
mesmo período, outros campos científicos fundamentados
em uma perspectiva bastante próxima também estavam
sendo utilizadas ou passaram a serem usadas no campo
social tanto para explicar o desenvolvimento da sociedade

26
europeia em relação às populações indígenas, conforme po-
demos verificar na antropologia evolucionista apresentada
no livro Cultura Primitiva de Edward Tylor (1958) publicado
em 1871, quanto no incremento da sociologia positivista
de Auguste Comte (1983), que passou a publicar suas obras
de física social a partir de 1839, alterando posteriormente
esse nome para o que o consagrou como fundador do
campo científico ou disciplina, chamando-a de sociologia.
A influência de Tylor (1958) foi tamanha que alcançou
espaços para além da antropologia evolucionista, uma vez
que o conceito de “cultura”, ao menos o que é utilizado
atualmente por boa parte dos antropólogos, advém da
junção dos termos germânicos Kultur, que simbolizava os
aspectos espirituais de certa comunidade, e Civilization,
que se referia principalmente à realização material de de-
terminado grupo social. O trabalho de Tylor (1958) con-
sistia em mostrar que a cultura pode ser objeto de análises
sistemáticas, já que se trata de um fenômeno natural que
possui supostamente certas causas e regularidades que pro-
porcionarão uma análise capaz de possibilitar a formulação
de leis sobre o processo cultural e a evolução.

Mais do que preocupado com a diversidade cultu-


ral,Tylor a seu modo preocupa-se com a igualdade
existente na humanidade.A diversidade é explicada
por ele como o resultado da desigualdade de es-
tágios existentes no processo de evolução. Assim,
uma das tarefas da antropologia seria a de “esta-
belecer, grosso modo, uma escala de civilização”,
simplesmente colocando as nações europeias em
um dos extremos da série e em outro as tribos
selvagens, dispondo o resto da humanidade entre
os dois (LARAIA, 2003, p. 32-33).

Assim, quando estabeleceu uma “escala de civilização”


para pensar de uma maneira supostamente científica a

27
antropologia de sua época, justamente por se fundamentar
em práticas discursivas amparadas em uma perspectiva evo-
lucionista que operava historicamente de forma unilinear,
Tylor (1958) possibilitou que a ciência se direcionasse para
uma abordagem etnocêntrica. Esse mesmo problema resul-
tante da influência do evolucionismo pode ser encontrado
da sociologia positivista de Comte (1983), quando o autor
propõe o princípio dos três estados históricos diferentes:
teológico, metafísico e positivo. Comte (1983) ainda argu-
mentava que no interior do campo científico existia certa
hierarquia na qual a matemática se encontrava no nível
mais baixo desta escala, porém, a biologia, naquela época
chamada de fisiologia e, sobretudo, a sociologia ocupavam
os postos mais altos.
Embora seja composta por diferentes concepções
políticas, teóricas e conceituais, a sociologia é um campo
do conhecimento científico criado recentemente, em me-
ados do século XIX. O grande responsável pela atribuição
deste nome a este campo do conhecimento foi Auguste
Comte (1983), que em sua obra Curso de Filosofia Positiva,
publicada em 1839, propõe que o termo física social, em-
pregado pelo autor em 1830, mas já utilizado anteriormente
por Saint-Simon e Thomas Hobbes, seja substituído por
sociologia. No entanto, sua grande preocupação ao propor
esta nova disciplina se situava na formulação das bases deste
campo de saberes sobre a sociedade moderna que emergia,
se fundamentado na utilização de métodos validados pelo
conhecimento científico da época. Assim, o autor propôs
que fossem utilizados às ciências sociais métodos seme-
lhantes aqueles reconhecidos como validos pelas ciências
naturais e exatas daquele período, sobretudo, amparando-se
no evolucionismo de Darwin (2008).
É interessante observar que ao mesmo tempo em que o
evolucionismo de Darwin (2008) influenciou e foi influen-
ciado pelos pensamentos de Comte (1983) na sociologia

28
positivista, Lombroso (2013) na antropologia criminal
ou criminologia positivista, Tylor (1983) na antropologia
evolucionista, com cada um desses autores se apropriando
de alguns aspectos que já estavam presentes nas diversas
práticas discursivas dos campos científicos da época, tam-
bém existiam outros pensadores que questionavam essas
concepções que, de alguma forma, visavam encontrar na
realidade social regras que pudessem classificar certo nível
de desenvolvimento da sociedade, naturalizando a sua con-
dição como a mais bem dotada de racionalidade, enquanto
as demais não se encontravam tão evoluídas, principalmente,
por não serem neutras, objetivas, explicativas, dentre outras
características presentes na chamada ciência positiva e sua
incidência na produção de certo perfil de criminoso.

No princípio do século XX ganhariam noto-


riedade os experimentos de polinização cruzada
de ervilhas do monge tcheco Gregor Mendel
(1822-1884) e vários biólogos como August
Weismann (1843-1914) e Huig de Vries (1848-
1935) fariam observações e melhorias nas teses
de Darwin. A partir de então, seriam nume-
rosos os trabalhos de árvores genealógicas dos
condenados com a finalidade de encontrar o
“gene” da delinquência, algo que, no entanto, já
se intuía em trabalhos do positivismo como se
exemplificou no de Dugdale. O trabalho do já
mencionado primo de Darwin, o inglês Francis
Galton (1822-1911), teve igualmente grande
sucesso no período do apogeu do positivismo.
Esse autor fundou, ou deu nome, à “eugenia”,
que vem do grego “bem nascido”. A eugenia,
enquadrada no marco teórico do darwinismo
social dominante, foi a ciência que aplicaria as
leis biológicas de Darwin da seleção natural da
herança ao aperfeiçoamento da espécie huma-
na. Isso “melhoraria” os futuros indivíduos e,
deste modo, forjaria sociedades mais saudáveis

29
e nações mais ricas, pois Galton acreditava que
a herança seletiva derivaria um Gênio hereditário
que afetaria umas e outras – este seria o título
de sua obra de 1869 (ANITUA, 2008, p. 383).

Contudo, toda essa atribuição valorativa acerca da


sociedade europeia acabou levando essas tradições a ado-
tarem uma leitura voltada para o consenso, na medida em
que ele passou a ser associado com a civilidade, a ordem, o
progresso, a governamentalização do Estado, à naturalização
de certas concepções, desigualdades, segregações, etc.Tudo
isso legitimado não apenas pelo Estado, mas pelo campo
científico, prática discursiva que passou a ser operada como
verdade na modernidade.
Embora todos esses autores tenham construído suas
análises fundamentando-se no evolucionismo de Darwin
(2008) como base para os seus estudos, aproximadamente
meio século depois desse autor ter escrito sobre a seleção
natural mostrando que os animais vão se amoldando pau-
latinamente a partir da necessidade adaptativa de acordo
com o contexto em que estão inseridos, o geógrafo russo
Piotr Kropoktin (2009) publica Ajuda Mútua: Um fator de
evolução, apresentando uma abordagem bastante crítica e
paradigmática acerca dessas perspectivas epistemológica.
Ao mostrar que a seleção natural não é uma possibilida-
de evolutiva única e exclusiva, Kropoktin (2009) questiona
veementemente o determinismo presente no evolucionismo
de Darwin (2008), mostrando como a cooperação também
foi outro fator chave no processo evolutivo que ocorreu
paralelamente à competição. Em Ajuda Mútua: Um fator de
evolução, o autor se coloca contrário àquelas ideias evolu-
cionistas que foram deslocadas das ciências biológicas para
as ciências sociais possibilitando a ascensão daquilo que foi
chamado “darwinismo social”, a exemplo de certas inter-
pretações realizadas acerca das obras de Herbert Spencer

30
(1864; 1907) que, ao se fundamentar no evolucionismo de
Darwin (2008) e na seleção natural, defendeu a necessidade
de competição entre indivíduos e grupos sociais para o
processo de evolução de uma sociedade.
Ao reconhecermos que só foi possível Maquiavel
(2004; 2007) e Hobbes (2015) se tornarem os represen-
tantes políticos dos discursos de sua época justamente por
terem sido, de alguma forma, protetores de uma ordem
fundamentada no Estado moderno, ao passo que a crítica
ácida da servidão voluntária à estrutura estatal apresentada
por La Boétie (2010) permaneceu marginal na literatura
política da época; e, ao ponderarmos sobre os impactos
do evolucionismo apresentado por Darwin (2008) em
relação ao alcance das críticas assinaladas pertinentemente
por Kropoktin (2009) em relação ao determinismo da
seleção natural, sem levar em consideração a ajuda mútua
no processo evolutivo; podemos localizar a presença de
uma luta por certa legitimidade científica que passa a ser
colocada enquanto verdade.
Nessa explanação foi possível localizar aquilo que
Nietzsche (2009) chamou de genealogia, uma vez que nos
deparamos com forças que operam de maneiras e em situa-
ções distintas em busca de sua afirmação enquanto verdade.
Embora na compreensão desse autor não haja “começos”
nem “origens” exatas, já que o que interessa à investigação
das descontinuidades de um movimento histórico não li-
near é procurar aquelas intenções que engendram embates
de forças sociais e fluxos de poder, a interdição histórica
proposta pelo autor rebate veementemente a identificação
de um “início verdadeiro”, uma vez que propõe uma sub-
mersão meticulosa nas reentrâncias do processo histórico,
apresentando não uma “história verdadeira”, mas uma
“história efetiva” que resiste à metafísica em seu sentido
universal, buscando sempre analisar os fatos históricos de
maneira parcial e localmente.

31
No entanto, a partir dessas ponderações poderíamos
nos perguntar o que o crime tem a ver com tudo isso que
foi apresentado até agora acerca das concepções de Estado,
ciência, verdade, por exemplo? Seguramente essa pergun-
ta pode ser respondida de uma forma mais complexa se
utilizarmos o método genealógico nietzscheano que visa
localizar quais as forças que se digladiaram em busca de sua
afirmação enquanto verdade de uma época.
Ao reconhecermos que a primeira forma de racionali-
zação do crime sistematizada por Beccaria (1999) na segunda
metade do século XVIII só foi possível com a precedente
criação do Estado moderno na segunda metade do século
XV, em que Maquiavel (2004; 2007) e Hobbes (2015), ainda
que de maneiras distintas, se apresentaram como os prin-
cipais representantes e defensores dessa organização social
estatal; ao averiguarmos que o evolucionismo de Darwin
(2008) advindo das ciências biológicas determinou certos
condicionamentos, sobretudo, acerca das ciências sociais,
na produção de verdades amparadas na seleção natural que
passou a incidir na legitimação das mais variados tipos de
segregação, isso sem falar da governamentalização paulatina
de certa natureza humana fundamentada da competitividade,
principal característica das sociedades capitalistas; ao cons-
tatarmos que não nos constituímos apenas como objetos
passivos em meio a produção da realidade social, mas também
somos sujeitos ativos na medida em que governamentali-
zamos verdades a partir de práticas discursivas que operam
em diferentes épocas construindo necessidades e formas de
lidar com várias situações-problemas; verificaremos que não
apenas o Estado e a ciência enquanto dispositivo de verdade
da nossa época, mas também a sociologia, o crime e a forma
de trata-lo por meio da punição, são construções históricas
produzidas a partir de distintos interesses e por meio de
forças que se conflitavam em busca de certa consolidação
enquanto verdade.

32
Assim, da mesma forma que crítica de La Boétie se
apresentava como oposição à busca por certo consenso
em que o Estado moderno se colocava no centro do de-
bate, conforme argumentavam Maquiavel (2004; 2007) e
Hobbes (2015); da mesma forma que Kropoktin (2009)
questionou a seleção natural e o consenso decorrente da
naturalização das desigualdades sociais presentes em certas
interpretações realizadas a partir da publicação da obra
Origem das Espécies de Darwin (2008), principalmente a
partir dos escritos de Herbert Spencer (1864; 1907); da
mesma forma que a antropologia evolucionista de Tylor
acreditava que a sociedade se desenvolveria a partir de
uma unilinearidade história universal e foi questionado
veementemente pela antropologia cultural de Franz Boas
(2008), que argumentava que as culturas humanas não
percorriam o continuum simples-complexo presente nas
teorias ortogenéticas, mostrando justamente que existem
diferentes histórias, processos, fatores, acontecimentos cul-
turais e não culturais, dentre outros aspectos que incidem
na peculiaridade histórica de cada sociedade; tudo isso que
apresentamos serviu para mostrarmos como as distintas
verdades são produzidas e apresentadas acerca desses jogos
de poder que transcorrem a partir daquilo que Nietzsche
(2002) chamou de agonística.

Incessantemente uma qualidade se cinde em si


mesma e se divide nos seus contrários: perma-
nentemente esses contrários tendem de novo
um para o outro. O vulgo, é verdade, julga re-
conhecer algo de rígido, acabado, constante; na
realidade, em cada instante, a luz e a sombra, o
doce e o amargo estão juntos e ligados um ao
outro como dois lutadores, dos quais ora a um,
ora a outro cabe a supremacia. O mel é, segundo
Heráclito, simultaneamente amargo e doce, e o
próprio mundo é um jarro cheio de mistura que

33
tem de agitar-se constantemente. Todo o devir
nasce do conflito dos contrários; as qualidades
definidas que nos parecem duradouras só ex-
primem a supremacia momentânea de um dos
lutadores, mas não põem termo à guerra: a luta
persiste pela eternidade afora.Tudo acontece de
acordo com essa luta, e é esta luta que manifesta
a justiça eterna (NIETZSCHE, 2002, p. 42).

Em Diferença e Repetição, Deleuze (1988) desenvol-


ve análises influenciadas pelo pensamento de Nietzsche
(2002), argumentando que nós apenas buscamos a verdade
quando estamos motivados a fazê-lo em função de uma
situação concreta, principalmente, quando sofremos uma
espécie de violência que nos leva a essa procura. Desse
modo, o pensar não é uma tendência natural, mas efeito
de uma força externa que nos violenta, na medida em
que se retira certa razão cognitiva. Tanto para Nietzsche
(2009) quanto para Deleuze (1988), a verdade não é en-
contrada por semelhança, nem boa vontade, mas sim por
signos involuntários, uma vez que o aprender diz respeito
essencialmente ao tratamento dado à esses signos que são
múltiplos e divergentes.
Contudo, ao verificarmos a complexidade dos mais
distintos atravessamentos do evolucionismo nas mais di-
versificadas áreas do conhecimento científico, podemos
localizar certa incorporação, naturalização, ou melhor,
governamentalização de uma compreensão fundamen-
tada na ideia de que os escritos de Darwin (2008) acerca
da seleção natural, pensada não a partir do princípio da
adaptabilidade, conforme mostrou o autor, mas, sobretudo,
a partir da competição e da evolução, em decorrência disso,
potencializou certa verdade acerca de hipotéticos condi-
cionamentos humanos que talvez pudessem ser entendidos
ainda dentro da racionalidade contratualista amparada na
existência de uma suposta natureza humana.

34
Um fato importante a ser destacado é que a perspec-
tiva evolucionista apresentada por Darwin (2008) passou
a ser utilizada de maneira inadequada em outras áreas do
conhecimento científico, sendo incorporada como verdade
pelas pessoas enquanto senso comum. Isso acabou possibi-
litando certa governamentalização da seleção natural como
condicionamento humano, fomentando, assim, os mais
diversos tipos de segregação que vão desde perseguições
aos hereges no período inquisitorial, quanto no tratamento
inferiorizado dado em outros momentos da história aos
negros, escravos, estrangeiros, mulheres, índios, dentre ou-
tros sujeitos entendidos como sub-humanos por políticas
colonizadoras nos seus mais amplos aspectos e que, portanto,
passaram a ocupar uma condição subalterna nas sociedades
não porque são de fato inferiores cognitivamente, mas por-
que foi construída toda uma verdade por essa tradição do
pensamento científico que passou a dominar esse campo.
Ao vislumbrarmos as guerras mundiais na primeira
metade do século XX é possível constatarmos os impactos
e a perpetuação de certa ordem social fortemente amparada
em uma concepção hierárquica sobre o entendimento das
distintas condições humanas iniciadas a partir dessa segrega-
ção iniciada com a governamentalização de certo modelo
de Estado, de sociabilidade, de ciência, de ser humano e do
entendimento acerca do crime e de como supostamente
contê-lo através da punição.
No caso do modelo nazista alemão, podemos encon-
trar nos arianos a reivindicação da superioridade étnica
em relação aos demais subalternos pertencentes à outros
grupos sociais. Da mesma forma, podemos encontrar esse
mesmo modelo de seletividade e segregação nascido de
certa compreensão do evolucionismo de Darwin (2008)
nos atuais discursos neoliberais que conseguiram transfor-
mar uma suposta estratégia de contenção dos conflitos por
meio das criminalizações tratadas através das mais distintas

35
formas de punição, com a transformação de um sistema
de justiça criminal que coloca o preso em uma condição
humana subalterna que resulta em ganhos econômicos
com a criação de situações-problema, conforme mostrou
o sociólogo francês Loïc Wacquant (2001; 2003) ao tratar
da ascensão do que chamou de Estado penal.
Ao ponderarmos sobre a forma com que o evo-
lucionismo manifestado na obra de Darwin (2008) foi
interpretado na sociedade europeia do século XIX, pode-
ríamos nos questionar se essa produção enquanto verdade,
fundamentada na governamentalização exclusiva da sele-
ção natural de maneira universal ao invés da ponderação
acerca do princípio da adaptabilidade ou sobre o mutua-
lismo apresentado por Kropoktin (2009), verificando se a
ambição, a competição, o pensar em termos de ganhos, o
tirar sempre vantagens em quaisquer relações comerciais,
o investimento, a meritocracia, dentre outros aspectos
presentes na racionalidade neoliberal estadunidense, não
teriam suas bases amparadas nesse sujeito que produzimos
na contemporaneidade.
Sendo assim, poderíamos questionar se a hodierna
eliminação dos menos inadaptados pelas leis do mercado
teria seus alicerces no extermínio dos hereges no período
inquisitorial, por exemplo. Isso nos levaria a verificar que
enquanto alguns autores defendem a ordem estabelecida,
benéfica para aqueles que ocupam certos espaços na hierar-
quia social, outros se colocam combatentes a ela, mostrando
como essa ordem garante melhores condições para uns e
as piores sortes para outros.
A verdade produzida no século XIX se fundamentava
veementemente na teoria da seleção natural que passou a
ser deslocada das ciências biológicas às ciências sociais, pos-
sibilitando uma compreensão distorcida da obra de Darwin
(2008) que nos levou a governamentalizar a segregação
como algo praticamente intrínseco à nossa condição hu-

36
mana e, portanto, como verdade da nossa época. Entretanto,
não foi Darwin que “inventou” o evolucionismo, ele apenas
expressou um devir, uma força, uma verdade presente em
sua época e que ainda incide sobre nós de forma soberana
tanto no senso comum quanto no campo científico e,
consequentemente, na sociologia.

1.3. O crime na sociologia clássica


Uma forma bastante corriqueira de se apresentar
a sociologia clássica é situá-la como verdade através da
agonística nieztscheana pensada a partir das noções de
conflito, ou situação-problema, e consenso. Esse tipo de
ponderação pode muito bem ser localizada nos escritos
de dois autores contemporâneos que recorrentemente
são reivindicados pelos pesquisadores desse campo como
precursores da sociologia, Auguste Comte e Karl Marx,
que teve parte de sua obra escrita à quatro mãos com
Friedrich Engels.
Enquanto Comte (1983), ainda na primeira metade
do século XIX, se colocou contrário às revoluções que
ocorriam na França em sua época, acreditando que o
progresso seria inevitável, caso as sociedades estivessem
com as suas instituições operando em ordem, onde cada
sujeito deveria aceitar a condição que lhe foi atribuída na
sociedade, respeitando, portanto, as relações estabelecida
entre os poderes que chamou temporal e espiritual; Karl
Marx e Friedrich Engels (1986; 1998), ainda nesse mesmo
período, passaram a questionar as premissas desse e demais
autores, entendidos por eles como conservadores, argu-
mentando que a sociedade é dividida em classes sociais
que se encontram em lutas constantes estabelecidas a partir
da propriedade e do Estado, que existem para defender os
interesses da classe dominante, que na sociedades modernas
são chamadas de burguesia.

37
A história de todas as sociedades até hoje é a
história das lutas de classes. Homem livre e es-
cravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo,
mestre de corporação e companheiro, em suma,
opressores e oprimidos, estiveram em constante
antagonismo entre si, travando uma luta inin-
terrupta, umas vezes oculta, outras aberta – uma
guerra que sempre terminou ou com uma trans-
formação revolucionária de toda a sociedade ou
com a destruição das classes em luta. Nas épocas
anteriores da história encontramos, quase por
toda parte, uma completa estruturação da socie-
dade em estados ou ordens sociais, uma múltipla
gradação das posições sociais. Na Roma antiga,
temos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na
Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres
das corporações, aprendizes, servos e, além disso,
gradações particulares no interior dessas classes.
A sociedade burguesa moderna, que surgiu do
declínio da sociedade feudal, não aboliu os an-
tagonismos de classes. Limitou-se a estabelecer
novas classes, novas condições de opressão, novas
formas de luta em lugar das anteriores. A nos-
sa época, a época da burguesia, caracteriza-se,
porém, por ter simplificado os antagonismos
de classe. Toda a sociedade está se dividindo,
cada vez mais, em dois grandes campos hostis,
em duas grandes classes em confronto direto: a
burguesia e o proletariado (MARX; ENGELS,
1986, p. 04-05).

Embora não tivesse a mesma preocupação de Comte


(1983) em inaugurar uma disciplina científica que reivin-
dicasse a sua supremacia em relação não apenas aos demais
saberes, mas também em relação às outras ciências como a
matemática, a física, a química, a astronomia e a biologia, por
exemplo, Marx e Engels (1986; 1998) produziram uma ampla
teoria social através da utilização de elementos da filosofia,
história, economia, política, etc. Portanto, por mais esses

38
autores, diferentemente de Comte (1983), não tenham sido
sociólogos de profissão, reivindicando tal condição, Marx e
Engels (1986; 1998) são exemplos de pensadores que sou-
beram unificar a teoria com a prática ao propor estratégias
de superação da sociedade conflituosa em que viviam, pois
tanto as suas vidas quanto suas obras estiveram marcadas pelo
pensamento voltado para os interesses da classe proletária,
buscando construir um novo tipo de sociedade.
O ponto de partida do pensamento de Marx e Engels
(1986) foi à crítica radical tanto ao idealismo de Hegel,
quanto aos filósofos da esquerda hegeliana, em particular
Feuerbach, que partia de uma concepção materialista, no
entanto, não levava tanto em consideração a história. Marx e
Engels (1986) buscaram situar o pensamento humano sobre
novos alicerces, rompendo com o pensamento filosófico,
na medida em que propuseram que estes possuem bases
ideológicas, tratadas por ele como falsas representações.
Como estavam influenciados por certa concepção de
evolucionismo presente na época, Marx e Engels (1986)
argumentavam que o primeiro pressuposto básico da histó-
ria é que os seres humanos precisam estar em condições de
viver para fazer história, pois a primeira realidade histórica
é a produção da vida material; o segundo pressuposto é
que tão logo a primeira necessidade é satisfeita, a ação de
satisfazê-la e o instrumento já adquirido para essa satisfação
produzem novas necessidades. E essa produção de necessida-
des novas é o primeiro ato histórico; o terceiro pressuposto
existente desde o início da evolução histórica é a de que
os indivíduos, que renovam diariamente sua própria vida,
se põem a criar outros, a se reproduzirem – é a relação
entre homem e mulher, pais e filhos; o quarto pressuposto
é de que um modo de produção ou um estágio industrial
está sempre ligado a um modo de cooperação. Assim, a
massa das forças produtivas determinaria o estado social; o
quinto e último pressuposto é que se pode constatar que o

39
indivíduo tem uma consciência que nasce da necessidade
e da existência de trocas com outros indivíduos. Portanto,
a consciência é, desde o seu início, um produto social.
Segundo Marx e Engels (1986), o ponto de partida em
busca da compreensão do real não é mais o pensamento
conforme propunha Hegel através do seu idealismo dialé-
tico, mas sim a vida material, daí o materialismo dialético.
Ao apontarem críticas veementes ao método dialético de
Hegel, os autores buscavam aplicar os seus esquemas de
estudo a partir de um viés histórico.Também acreditavam
que o trabalho era o elemento central para se entender o
desenvolvimento da sociedade, ou seja, seria a expressão
da ação do indivíduo sobre a matéria.
Se a matéria, ou seja, o mundo natural, representa a
tese, temos o trabalho que representa a antítese da matéria,
que uma vez alterada pelo ser humano gera a sociedade,
que é a síntese; a sociedade é justamente a síntese do eter-
no processo dialético pelo qual o indivíduo atua sobre
a natureza e a modifica. Segundo Marx e Engels (1986;
1998), o trabalho é um processo em que o indivíduo com
sua própria ação, impulsiona, regula e controla as trocas
materiais com a natureza, modificando-a, ao mesmo tempo
modifica a sua própria natureza.
Portanto, o trabalho não é apenas uma condição in-
dispensável da vida social, mas também é o elemento de-
terminante para a formação do ser humano, seja como
indivíduo, seja como ser social. Sem trabalho não haveria
ser humano, nem relações sociais, nem sociedade e nem
história. Desse modo, podemos constatar que para Marx e
Engels (1986) a categoria trabalho é o conceito fundante e
determinante de toda construção teórica marxista, também
conhecida por “materialismo histórico e dialético”.
Não obstante, é importante destacar que o méto-
do dialético permitiu à teoria marxista repensar um dos
principais dilemas enfrentados no campo da epistemologia

40
sociológica: a relação entre indivíduo e sociedade, já que
na teoria marxista, a relação do indivíduo com a sociedade
não é reduzida a um ou outro dos polos, como fazia a so-
ciologia positivista de Comte (1983), ou seja, o indivíduo
não é fruto exclusivo da sociedade, nem esta resulta apenas
da ação humana.
Na perspectiva do materialismo histórico e dialético
de Marx e Engels (1986; 1998), há uma relação externa
existente entre o indivíduo e a sociedade que faz com
que ambos se alterem, resultando em um processo his-
tórico-social, no qual os seres humanos fazem a história,
mas não como querem. Mas, de acordo com as condições
herdadas do passado. Deste modo, Marx e Engels (1986;
1998) deixam bastante claro o peso que as estruturas sociais
exercem sobre os indivíduos. No entanto, mostram que
mesmo fazendo parte destas mesmas estruturas, podemos
recriá-las através da ação possível de acordo com as cir-
cunstâncias dadas.
Diferentemente de Marx e Engels (1986; 1998), para
Comte (1983), as revoluções que ocorriam em toda a
Europa capitaneadas pelo proletariado a partir de certo
entendimento acerca da luta de classes atrasaria o progresso
inevitável que se encontrava presente na sua conhecida lei
dos três estágios. Segundo Comte (1983), a modernidade
possibilitou que migrássemos de uma sociedade teológica
e militar para uma sociedade industrial e científica em
que os indivíduos deveriam aceitar as condições que lhes
foram atribuídas na sociedade. No entanto, para esse autor
o crime não era entendido como recusa à arbitrariedade
imposta pela hierarquia social, mas como o descumpri-
mento daquelas regras que deveriam incidir sobre todos.
Por mais que tenham sido influenciados pelo evolu-
cionismo, verdade científica da época, tanto Comte quanto
Marx e Engels não estudaram o crime diretamente, tra-
tando-o apenas de maneira tangencial, conforme também

41
fizeram os outros principais autores clássicos e consagrados
da precedente sociologia francesa e alemã, respectivamente,
Émile Durkheim (1974; 2010) e Max Weber (1991). No
entanto, foi Simmel (1983) - autor alemão que, embora te-
nha sido consagrado na sociologia alemã, sobretudo, a partir
de sua influência na sociologia estadunidense que nascia
com a chamada Escola Sociológica de Chicago, acabou
não tendo a mesma visibilidade que Max Weber (1991) –
que, ao apresentar a noção de sociação, mostrou que tanto
as interações quanto como os conflitos estão presentes em
quaisquer relações sociais. Assim, ao evidenciar a matéria
subjetiva presente na sociologia, Simmel (1983) encontrou
certa positividade sociológica do conflito.

Em princípio, a importância sociológica do con-


flito (Kampf) nunca foi questionada. Admite-se
que o conflito produza ou modifique grupos de
interesse, uniões, organizações. Por outro lado,
sob um ponto de vista comum, pode parecer
paradoxal se alguém perguntar, desconsiderando
qualquer fenômeno que resulte no conflito ou
que o acompanhe, se ele, em si mesmo, é uma
forma de sociação. À primeira vista, essa parece
uma questão retórica. Se toda interação entre
os homens é uma sociação, o conflito – afinal,
uma das mais vívidas interações e que, além
disso, não pode ser exercida por um indivíduo
apenas – deve certamente ser uma sociação. E
de fato, os fatores de dissociação – ódio, inveja,
necessidade, desejo – são as causas do conflito;
este irrompe devido a essas causas. O conflito
está assim destinado a resolver dualismos diver-
gentes; é um modo de conseguir algum tipo de
unidade, ainda que através da aniquilação de uma
das partes. Isso é aproximadamente paralelo ao
fato do mais violento sintoma de uma doença
ser o que representa o esforço do organismo ara
se livrar dos distúrbios e dos estragos causados
por eles (SIMMEL, 1983, p. 122-123).

42
Outro autor clássico, embora marginal, e possível
precursor daquilo que poderíamos chamar de sociologia
do crime que precisa ser destacado é Gabriel Tarde (1907;
2005). Mencionado anteriormente como uma espécie de
opositor aqueles que acreditavam no modelo evolutivo
organicista do século XIX, do qual Darwin (2008), Comte
(1983) Lombroso (2013), Ferri (1900; 1996), dentro outros
eram tributários, Tarde (1907; 2005) não teve o mesmo
reconhecimento na sociologia de sua época que Émile
Durkheim (1974; 2010) que, ao pressupor que a sociedade
funcionaria como um corpo vivo em que cada um e cada
instituição ocuparia uma função social nesse organismo que
é a sociedade, acabou fundando a sociologia funcionalista,
apresentando uma espécie de sofisticação metodológica
em relação a sociologia positivista fortemente influenciada
pelo evolucionismo.
É importante destacar que, ao defender a sociologia
funcionalista a partir de fortes influências do pensamento
de Comte (1983), Durkheim (1974; 2010) possibilitou que
a sociologia fosse reconhecida e inserida no meio acadê-
mica como disciplina científica presente nas universidades
de todo o mundo. No entanto, o autor foi um primeiros a
constatar que o crime não existe nessa ou naquela socie-
dades em especial, mas em todas, também mostrando que
o crime opera como regra nas sociedades.
Durkheim (1974; 2010) argumentava que o crime
era necessário justamente por estar ligado às condições
fundamentais de toda vida social, pois a sua utilidade estava
relacionada as condições indispensáveis à evolução normal
da moral e do direito. Ao colocar-se de maneira contrárias
às idéias correntes, acreditava que o criminoso não era um
ser radicalmente insociável, uma espécie de parasita, corpo
estranho e não assimilável pela sociedade. Para o autor, ele
era apenas um agente que agia na regulação da vida social.
Por sua vez, o crime não deveria mais ser tratado como

43
um mal que não podia ser evitado dentro de certos limites
demasiadamente estreitos; o crime não era apenas algo
normal e funcional às sociedades, como também necessário
e útil, na medida em que possivelmente poderia constituir
uma antecipação da moral futura.
Embora Durkheim (1974; 2010) tenha tido uma maior
visibilidade e reconhecimento na sociologia, já que foi o
responsável por sua inserção no campo acadêmico francês,
foi com Tarde (1907; 2005) que essa área do conhecimento
naquele país passou a enfatizar o estudo do crime e da
punição. Segundo o autor, a vida social se fundamenta em
dois atos individuais: a invenção e a imitação. Ao partir da
ideia de que as sociedades são sistemas complexos de crenças
e de desejos inseridos na vida social através da invenção e
da propagação decorrente da imitação,Tarde (1907; 2005)
acaba propondo uma sociologia da opinião que incidiu
diretamente em estudos acerca da criminalidade. Assim,
enquanto a invenção possibilitaria que a renovação e a
mudança pudessem ocorrer, a imitação permitiria a con-
tinuidade e a estabilidade desse engenho inicial.

As leis da imitação, livro de 1890 que condensa


todas as obras anteriores de conteúdo principal-
mente jurídico, e por isso, mesmo explicativas de
fenômenos sociológicos. As três leis da imitação
indicam que, em primeiro lugar, o ser humano
imita outro na proporção da proximidade do
contato, em segundo que o de posição inferior
tende a imitar o de posição mais elevada, e em
terceiro que quando as modas de comportamen-
to coincidem, a mais nova substitui a mais velha.
Como outros atos sociais, os delitos se realizam
então por conta destas regras de imitação. A
imitação seria, assim, um argumento elaborado
por Tarde para combater, num debate que o faria
famoso por sua redução ao absurdo das teorias
lombrosianas, a tese do atavismo e também do

44
evolucionismo social e do determinismo posi-
tivista (ANITUA, 2008, p. 434).

É importante conhecer um pouco da trajetória desse


autor que teve uma educação jesuíta bastante disciplinadora
que o levou a obter um diploma de jurista e atuar como
juiz de instrução em sua comunidade no sul da França
para depois alcançar certo reconhecimento a partir de
suas primeiras obras criminológicas, levando-o a chefiar
o Departamento de Estatísticas Criminais. Ao final de
sua vida, Tarde (1907; 2005) ocupou a cadeira de filosofia
moderna, em Paris, passando a difundir suas concepções
sociológicas amparadas em pressupostos que ainda perma-
neciam situados no campo jurídico, sobretudo, a partir de
relações chamadas de “permuta” ou resolução de conflitos,
conforme ponderou Anitua (2008).
Ao refletir sobre a questão identitária, exercendo
uma influência muito maior nos Estados Unidos que na
Europa de modo geral, Tarde (1907; 2005) argumentava
que as semelhanças, a imitação e os problemas de defini-
ção individual também estavam diretamente relacionados
com a questão do crime. Segundo o autor, era por meio da
imitação, e não por qualquer outro motivo, que as pessoas
cometiam delitos.
Nos artigos agrupados em sua obra A Opinião e as
Massas,Tarde (2005) apresentou a conceituação de público
e de massas como forma de associação, passando a serem
retomadas por dois autores que foram precursores na Escola
Sociológica de Chicago, Dewey e Robert Park, uma vez
que o autor argumentava que tanto a conversa quanto a
imprensa seriam elementos fundamentais dessa forma de
organização social. Embora tenha exercido forte influência
na sociologia estadunidense acerca de suas investigações
sobre a imitação,Tarde (2005) não se posicionou favorável
ao ideário democrático, dedicando-se a tratar dos aspectos

45
criminológicos ou criminógenos acerca da suposta delin-
quência organizada no delito anarquista.
A sociologia criminológica e penal apresentada por
Tarde (1907; 2005) pode muito bem ser justaposta àqueles
escritos conservadores presentes em outros autores da época
que se colocavam temerosos às mudanças que a emergência
do proletariado ao poder poderia representar. Ao deixar
claro que quando mencionava a “multidão criminosa”,
estava tratando dos trabalhadores e desempregados, Tarde
(1907; 2005) passou a defender que as “seitas criminosas”
eram bastante similares aos sindicatos anarquistas. Assim,
embora tenha questionado veementemente autores como
Lombroso e concepção de “criminoso nato”, por exemplo,
o autor não deixava de atribuir à polícia e ao Estado um
papel extremamente importante e fundamental, entenden-
do-as como “porções fortes e sadias” da sociedade.

Devemos reiterar que Tarde não era um pensa-


dor democrático, e que, ademais, até mesmo al-
guns pensadores liberais da época – e posteriores,
como Freud e a seguir, parcialmente, os membros
da Escola de Frankfurt – não seriam otimistas em
relação ao homem e à sociedade. Por isso, não
é de se estranhar que tarde afirmasse que “por
regra geral, por detrás das multidões criminosas
existem públicos ainda mais criminosos, e à fren-
te destes últimos estão os publicistas, que ainda
são muito mais perigosos”. No último artigo
dessa obra, ele faz uma criminalização acabada,
e que teria efeitos concretos, do pacifista – e
também partidário do abolicionismo – Piotr
Kropotkin (1842-1921), da mesma forma que
outros pensadores igualitaristas. Por esse motivo,
Tarde não hesitou em recorrer à linguagem dos
caçadores de bruxas, pois para ele Rousseau seria
um íncubo e Robespierre um súcubo, dentro
da sua crítica às multidões revolucionárias. Des-
sa forma, Tarde seria responsável pela possível

46
penalização que se faria no começo do século
XX de numerosos educadores, sindicalistas e
pacíficos propagadores de idéias – como o men-
cionado fuzilamento de Ferrer i Guardia, em
Barcelona. Por isso, seu pensamento reacionário
é evidentemente detestável. Mas, o que é real-
mente novidade, e iniciador de uma sociologia
criminal, é sua consideração do delito como uma
“obra coletiva” (ANITUA, 2008, p. 436-437).

Embora tenhamos procurado mostrar nesse capítulo


inicial algumas das principais nuances que atravessaram a
construção tanto da sociologia clássica quanto da sociolo-
gia do crime e da punição, situando os debates a partir de
uma perspectiva historiográfica, buscaremos apresentar a
seguir algumas das escolas sociológicas criminais que partem
dessa mesma premissa apresentada inicialmente por Tarde
(1907; 2005) acerca da condição do crime como uma “obra
coletiva”. Apesar das concepções políticas questionáveis
acerca da obra desse autor que se apresenta muitos vezes
de maneira autoritária, não podemos esquecer que a par-
tir dele foi possível situar o crime como uma construção
política, conforme veremos presente nas abordagens que
serão apresentadas doravante.
As críticas apresentadas por La Boétie, Karl Marx,
Friedrich Engels, Piotr Kropotkin, Simmel, dentre outros,
acerca da ideia de conflito perpassada pela desnaturalização
das hierarquias sociais e suas consequentes segregações e
violências oriundas de produções dos emergentes Estados
modernos e sua economia política, não tiveram o mesmo
impacto que aqueles supostas teorias que visavam conservar
a ordem social benéfica para aqueles grupos que ocupam
os patamares mais elevados da estrutura social. Portanto,
as verdades que passamos a governamentalizar em meio a
essa agonística ainda se fundamentam em uma concepção
de mundo baseada na conservação da ordem e não na

47
percepção de que essa ordem é atravessada por inúmeros
conflitos nos mais distintos campos da vida social que
existem para perpetuar os ganhos e preservar os interesses
de alguns grupos em decorrência da segregação e/ou cri-
minalização de outros.

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50
A Primeira Geração da
“Escola Sociológica de
Chicago”: Ecologia Criminal e
Teoria da Desorganização Social 2
2.1. A formação da Universidade de
Chicago
No final do século XIX, no embrião das ciências so-
ciais surge a Universidade de Chicago, fundada no mesmo
ano em que Durkheim inaugurava o primeiro departa-
mento de sociologia em Bordeaux na França. Em 1892,
apenas dois anos após sua fundação, abre suas portas para
as primeiras turmas e o primeiro departamento de Socio-
logia e Antropologia de Chicago e dos Estados Unidos da
América. A Universidade de Chicago contribuiu para o
desenvolvimento de diversos campos do saber científico,
tendo especial contribuição para as ciências sociais.
A Universidade de Chicago foi fundada a partir de
uma grande doação do milionário do ramo petroleiro John
D. Rockefeller, essa generosidade Howard Becker (1996)
atribuiu à consciência pesada do milionário, contanto
com vários departamentos e prédios. Diferente de outras,
a Universidade de Chicago foi organizada através de um
complexo plano educacional criado pelo Presidente Willian
Harper (GOODSPEED, 1916), que fora professor na Uni-
versidade de Yale (COULON, 1995). O novo plano dividiu
a Universidade de Chicago em três grupos (Goodspeed,
1916, p. 134): The University proper responsável pelas divi-
sões entre os diversos cursos e departamentais, criando já

51
no início da universidade uma Graduate School dedicada à
pesquisa e a formação de estudantes de doutorado (COU-
LON, 1995); The University Extension Division responsável
por abrir a universidade à vida social exterior, ofertando
grupos de leitura sobre Chicago e cursos noturnos na uni-
versidade com assuntos sobre Chicago para pessoas que não
poderiam cursar no horário regular, correspondências com
estudantes em outros países e uma biblioteca de extensão
que permitia o empréstimo de livro para estudantes que
residiam longe da Universidade. Também existiam cursos
de leitura científica bíblica em horários que não colidissem
com os trabalhos da universidade, situação em consonância
com o perfil do corpo docente da Universidade composta
majoritariamente por protestantes; por ultimo The Uni-
versity Publication Work que tinha a função de imprimir
e publicar todos os documentos oficiais da universidade,
entre eles sua variada produção acadêmica. (Goodspeed,
1916, p. 134 - 135)
Essa estrutura física da Universidade de Chicago vol-
tada à cidade e ao desenvolvimento de pesquisas,“em uma
época em que as universidades americanas privilegiavam
o ensino em detrimento da pesquisa, que nunca era va-
lorizada” (Coulon, 1995, p. 12), bem como a capacidade
de publicação e acesso a produções acadêmicas de outros
locais deram as condições para o que ficou conhecido
como Escola de Chicago.
Já no início do século XX a Universidade de Chicago
já tinha uma vasta produção acadêmica em sociologia e
antropologia. E o que se costuma chamar de “Escola de
Chicago” é um conjunto de pesquisas sociológicas reali-
zados entre 1915 e 1940 por professores e estudantes da
Universidade de Chicago (COULON, 1995). Howard
Becker (1996) alerta para a confusão que a palavra “Escola”
pode assumir nesses casos, apresentando uma divisão entre
“Escola de Pensamento” e “Escola de Atividade”, situando

52
a Escola de Chicago nessa ultima. De fato, mais do que
ideias e teorias semelhantes, o que marcou a Escola de
Chicago são as atividades e a forma de realizar pesquisas.

Nem sempre se trata, é claro, de uma corrente de


pensamento homogênea, com uma abordagem
teórica comum, mas, apesar disso, a Escola de
Chicago apresenta diversas características que
sem dúvida lhe conferem uma grande unidade
e lhe atribuem um lugar particular e distinto na
sociologia americana. (COULON, 1995, p. 7)

A sociologia produzida em Chicago traz a marca da


pesquisa empírica e a insistência na produção de conheci-
mentos úteis para solução de problemas sociais concretos.
Até então a sociologia as pesquisas eram marcadas pelo
moralismo, mais próxima do jornalismo investigativo do
que da investigação científica (COULON, 1995). Os
sociólogos de Chicago estavam olhando para a cidade e
seus problemas, sobretudo, a imigração, delinquência e a
pobreza, utilizando um amplo rol de métodos originais
de investigação orientados para o que chamamos hoje de
pesquisa qualitativa, entre eles o trabalho de campo siste-
mático, utilização de fontes documentais, fontes pessoais,
entre outros.
O professor Albion Small teve papel decisivo no de-
senvolvimento da “Escola de Chicago” e na sociologia
americana, talvez menos pelos seus escritos e desenvolvi-
mentos teóricos e mais pela organização e administração
institucional. Também pelas suas influências intelectuais e
diálogo com outras áreas do saber. Albion Small dirigiu o
departamento de sociologia desde sua fundação até 1924
quando se aposentou. Foi responsável pela primeira revista
de sociologia do mundo em 1985 o American Journal of
Sociology – um ano antes da famosa revista fundada por

53
Durkheim L`année sociologique –, ele também contribuiu
para fundação da American Sociological Society.
As influências intelectuais de Albion Small marcam
profundamente as pesquisas desenvolvidas em Chicago.
O debate com as áreas da filosofia e da psicologia social
marcaram mutuamente os três campos de conhecimento.
O Pragmatismo, desenvolvido principalmente por John
Dewey, sendo “uma filosofia da ação, mas também pode ser
chamado de filosofia da intervenção social” (COULON,
1995, p. 18). De fato Albion Small recomendava aos alunos
do departamento de sociologia fizessem os cursos de John
Dewey ou o de Georg Mead sobre psicologia social, este
também foi uma grande influência para a “Escola de Chi-
cago” através do interacionismo simbólico. Georg Simmel,
que pode ser considerado uma grande influência para a
sociologia produzida em Chicago, foi colega de Albion
Small em Berlim e teve suas obras traduzidas e publicadas
pelo American Journal of Sociology antes de 1900. Simmel
ainda foi professor de R.E. Park que veio a ser um dos
mais importantes sociólogos de Chicago, que por sua vez
orientou E. Hughes que por fim orientou Howard Becker
(1996).
2.2. Uma sociologia da cidade
O estimulo para uma sociologia urbana através de
pesquisas de campo e observações diretas, evitando uma
sociologia de “poltrona”, pesquisas nas comunidades em
que viviam, instigando a analisar esse “mosaico de peque-
nos mundos”; a insistência sobre a objetividade para qual
deveria tender as pesquisas sociológicas; a proposta de usar
a cidade de Chicago como objeto e como campo de pes-
quisas, foram traços deixados por Albion Small. Essas marcas
configuravam princípios de pesquisas que continuaram a
ser seguidos por outros professores e alunos, de forma mais
sistemática por R.E. Park e E. Burgess. (COULON, 1995)

54
Logo em seus primeiros tempos em Chicago,
Park escreveu um ensaio sobre a cidade, encaran-
do-a como um laboratório para a investigação
da vida social. Ele tinha uma idéia central sobre
a história do mundo naquela época, sobre o que
estava ocorrendo, idéia que resumiu ao dizer:
“hoje, o mundo inteiro ou vive na cidade ou
está a caminho da cidade; então, se estudarmos as
cidades, poderemos compreender o que se passa
no mundo”. (BECKER, 1996, p. 180)

Essa sociologia da cidade traz como uma de suas carate-


rística um laboratório particular que é a cidade de Chicago.
A capital do Estado de Illinois foi fundada em 1833 próximo
da baia do rio Mississipi, nessa época contava com apenas 200
habitantes (COMMUNICATIONS, 2003), em 1840 havia
4.470 habitantes e 60 anos depois, em 1900 a população era
de 1.698,575. Dado a sua posição geográfica e aos esforços
políticos em ampliar a malha de transporte, Chicago ainda
no século XIX se tornou um dos principais centros de
transportes dos Estados Unidos o que propiciou um rápido
avanço industrial e comercial. Com isso uma explosão popu-
lacional pela migração a partir da segunda metade do século
XIX da população rural vinda do Middle West, e forte onda
imigratória de estrangeiros das mais diversas localidades como
alemães, escandinavos, irlandeses, poloneses, italianos, lituanos,
checos, judeus, entre outros (BECKER, 1996; BURGESS;
C. NEWCCOMB, 1931; COULON, 1995). Diante dessa
conjuntura, a cidade de Chicago tornou-se a cidade mais
pesquisada do mundo, Howard Becker (1977) comenta que
os estudantes sempre podiam recorrer ao Local Community
Fact Book que possuía todos os tipos de estatísticas das áreas
locais de Chicago, e da surpresa que encontrou quando se
mudou para São Francisco onde não existia tal organização.
Essas transformações e a supercrescimento popula-
cional na cidade de Chicago, bem como as características

55
da produção acadêmica da “Escola de Chicago”, entre elas
a busca por um conhecimento útil para os problemas da
cidade, fez com que alguns objetos de pesquisa fossem os
principais alvos de trabalhos. A imigração, relações étnicas,
pobreza, criminalidade foram os principais objetos, trazendo
discussões importantes como: atitudes individuais e valores
sociais, desorganização social, desmoralização e assimilação,
ciclo das relações étnicas, aculturação e assimilação, dis-
tância cultural, gangues de Chicago, o crime organizado,
a delinquência juvenil, o ladrão profissional, entre outros.
A imigração aparece como um dos principais temas
e também como um das principais questões políticas dos
Estados Unidos no começo do século XX. Os professores
de Chicago tinham uma postura progressista em relação
as imigrações, crendo na capacidade da sociedade norte
americana em assimilar minorias étnicas, de tal modo que
os trabalhos desenvolvidos representam o cume da tradição
assimilacionista (COULON, 1995). Um dos responsáveis
por esses estudos foi Willian I. Thomas, um dos primeiros
professores da Universidade de Chicago, muito famoso
pela sua frase sobre a “definição de situação”, peça chave
para o estudo da sociedade e da ação social:“se um homem
define uma situação como real, ela se torna real em suas
consequências”. Essa noção foi apropriada e utilizada de
diversas formas, inclusive para pensar a criminalidade e o
criminoso através das noções de rotulação e estigmatização
social (BARATTA, 2002; BECKER, 2009).
Ao lado do polonês Florian Znaniecki realizaram um
dos primeiros grandes trabalhos de campo publicados.“The
Polish Peastan in Europe and America” reunião um grande
número de entrevistas e histórias de vida de pessoas que
vivam na Polônia e da que haviam emigrado para os Estados
Unidos” (BECKER, 1996, p. 179). Os dois assumiam uma
que a análise sociológica deve levar em conta os valores
coletivos e as atitudes individuais, subjetivas, assim, para

56
eles, o fato social seria uma cominação intima desses dois
elementos. “Ao contrário de Durkheim, que considerava
que só era preciso explicar os fenômenos sociais pela influ-
ência de outros fenômenos sociais e não pela intervenção
do nível individual”(COULON, 1995, p. 31).
Os valores sociais seriam elementos culturais objetivos,
ou seja, qualquer dado empírico acessível para algum grupo
social, sendo ou podendo ser objeto de alguma atividade,
como um instrumento, a moeda, uma peça de poesia, uma
universidade, um mito, uma teoria científica. Para os pes-
quisadores as coisas naturais quando assumem sentidos se
tornam valores sociais e os sentidos desses valores se tornam
explícitos quando assumem conexão com atos humanos.
As atitudes por sua vez são os processos individuais de
consciência que determina uma real ou possibilidade de
atividade individual com o mundo social, por exemplo, a
decisão de um trabalhador em usar a ferramenta (THO-
MAS; ZNANIECKI, 1918).

O conceito de “atitude” desenvolvido em The


Polish peasant teve um papel particularmente
importante no estudo dos fenômenos ligados à
imigração, na compreensão e na explicação dos
problemas dos imigrantes, (...). Thomas e Zna-
niecki contribuíram grandemente para rejeitar
esse reducionismo biológico, mostrando que o
estado mental dos imigrantes não estava ligado
a um problema fisiológico e sim, diretamente,
às transformações sociais ocorridas em sua vida
cotidiana. (COULON, 1995, p. 32)

Assim, Thomas foi um dos primeiros intelectuais a


criticar teorias que explicavam as diferenças intelectuais e
mentais pela raça, todavia, talvez a principal contribuição
tenha sido o estudo dos processos sociais de desorganização
e reorganização social. Para o autor a organização social cor-

57
responde a um conjunto de convenções, atitudes e valores
que se impõem sobre os interesses individuais, enquanto a
desorganização seria o declínio da influência dos grupos
sobre os indivíduos, enfraquecendo os valores coletivos e
fortalecimento das práticas individuais. Dito de outra forma
a desorganização existe quando as atitudes individuais não
se satisfazem nas instituições. “A desorganização, portanto,
não provém da imigração, mas é a imigração que é um
indício do estado de desorganização da sociedade polonesa.
Em seguida, o fato de emigrar para a América provoca uma
reorganização”(COULON, 1995, p. 34). Esse processo entre
organização, desorganização e reorganização é continuo,
e tais categorias podem ser tomadas como tipos ideais e,
portanto, abstratos.
A noção de desorganização ainda pode ser divida
em familiar e da comunidade. A desorganização familiar
seria caracterizada pela mudança nas práticas, consumos e
valores que modificam os comportamentos econômicos,
enquanto na desorganização da comunidade é um declínio
da solidariedade comunitária. Por isso frente a essa desor-
ganização o grupo social reorganiza suas atitudes, uma vez
que para os imigrantes se trata de adequar a conduta ao seu
novo mundo. A noção de desorganização social chegou a
ser o conceito principal, a partir da qual uma geração de
pesquisadores utilizou para investigar a cidade. (THOMAS;
ZNANIECKI, 1918)
As pesquisas realizadas nesse período em Chicago eram
essencialmente empíricas, com um forte traço etnográfico,
o que faz com que os conceitos desenvolvidos em uma
determinada realidade ou situação, precisam ser testados,
modificados e muitas vezes refutados para analisar outras
realidades. Por isso, muito embora, a noção de desorga-
nização tenha perdurado por gerações de pesquisadores,
em alguns casos ela foi modificada, todavia, Willian Foote
Whyte ao realizar sua pesquisa sobre uma comunidade

58
italiana em Boston (WHYTE, 2005) problematiza e refuta
a noção de desorganização. Para Whyte ao olhar para o
imigrantes e suas relações com as instituições da sua socie-
dade (recém-estabelecida) com o que se esperava de uma
sociedade americana, certamente o olhar seria relacionado
a desorganização, todavia, em sua pesquisa ele demonstra
que as sociedades tidas como desorganizadas, possuíam sua
própria organização complexa, com estruturas, relações
pessoais hierarquizadas, sistema de obrigações recíprocas.
Assim, o que era visto como desorganização, para o autor
era uma organização social diferente.

A história de Cornerville é contada aqui em


termos de sua organização, pois assim parece ser
o lugar para as pessoas que lá vivem e atuam. Elas
concebem a sociedade como uma organização
hierárquica de partes intimamente entremeadas,
na qual são definidas e reconhecidas as posições
das pessoas e suas obrigações mutuas.(...)
O problema das áreas pobres e degradas, dizem
alguns, é que são comunidades desorganizadas.
No caso de Cornerville, esse diagnóstico é extre-
mamente equivocado. É claro que há conflitos
no distrito. Os rapazes da esquina e os rapazes
formados têm diferentes padrões de compor-
tamento e não se entendem. Há um choque
de gerações. Com o suceder das gerações, a
sociedade encontra-se em estado de fluxo – mas
até esse fluxo é organizado. (WHYTE, 2005, p.
273–276)

O problema então não é a falta de organização, mas


sim o fracasso da organização social em se relacionar com
a estrutura da sociedade que a rodeia. Assim, com a in-
capacidade da organização social se interconectar com
algumas comunidades de imigrantes, faz como que se
desenvolva organizações políticas e mafiosas locais, bem

59
como a lealdade e valorização da raça e do local de origem.
Cornerville era vista como uma comunidade caótica e fora
da lei, e os italianos eram visto pelas pessoas das classe da
classe alta como os imigrantes menos desejáveis, situação
que se degradou ainda mais com as guerras, sendo assim,
tiveram que construir suas próprias hierarquias de negócios
(WHYTE, 2005).
Robert E. Park tido por muitos (BECKER, 1996;
COULON, 1995) como um dos mais importantes so-
ciólogos americanos, “ele e Thomas foram, sem dúvida,
os membros mais influentes e autorizados do grupo que
organizou as atividades do Departamento e as manteve
de pé” (BECKER, 1996, p.179). Uma de suas pesquisas
foi referente ao ciclo das relações étnicas, onde o processo
de desorganização/reorganização conduzia as interações
entre os grupos de imigrantes, distinguindo o processo de
interação em quatro grande etapas: A rivalidade, conflito,
adaptação e assimilação. (PARK; BURGESS, 1921)
A rivalidade para Park é estritamente a interação sem
contato. Todavia isso não significa que não exista uma in-
fluência entre os grupos rivais. Essa interação em contato
social contribui para o surgimento do conflito e das etapas
seguintes, não é através da rivalidade que a sociedade se
organiza, pois a rivalidade é o próprio processo que orga-
niza a sociedade, estabelecendo divisão de trabalho, divisão
geográfica da sociedade. Diante da rivalidade o conflito é
inevitável ao contato entre populações diferentes arrostam-
-se. É preciso lembrar Park foi profundamente influenciado
por Georg Simmel2 e a noção de conflito deve ser tomada
a partir dele.
Enquanto a rivalidade e o conflito são formas de inte-
ração, todavia, enquanto a rivalidade prescinde de contato
social, o conflito é uma competição onde o contato é

Cf. Capítulo anterior


2

60
indispensável. É os processos através do quais o individuo
ou grupo ocupam seu lugar na sociedade, enquanto a
rivalidade, é o processo que acompanha os indivíduos na
instalação em seu novo ambiente.

Rivalidade, sem ressalvas é incontrolavel como


com plantas, e na grande impessoal luta da vida
do homem com a sua espécie e com toda a
natureza animada , é inconsciente. O conflito
é sempre consciente, de fato, ela evoca as mais
profundas emoções e paixões mais fortes e pede
a maior concentração de atenção e de esforço.
Ambas, rivalidade e os conflitos são formas de
luta. Rivalidade , no entanto, é contínuo e im-
pessoal, o conflito é intermitente e pessoal. (tra-
dução livre) (PARK; BURGESS, 1921, P. 574)

A adaptação é o esforço que os grupos fazem para se


adequar as situações criadas pela rivalidade e pelo conflito.
É através da adaptação que a organização social ocorre,
quando as gangues se tornam clubes, organizações de tra-
balho se tornam classes sociais. É um adaptação a cultura,
hábitos sociais, práticas e técnicas utilizadas por um grupo,
aproximando os grupos conflitantes conseguem coexistir
– embora rivais em potencial – aceitando suas diferenças,
organizando suas relações sociais com a finalidade de di-
minuir os conflitos e aumentar a segurança. A assimilação
seria uma sequencia natural, onde as diferenças dos grupos
são diminuídas e os valores misturados e fundidos, com-
partilhando histórias, mitos, sentimentos e atitudes um do
outro gerando uma vida cultural em comum.
Para Park a assimilação não é um processo de aceitação
comum e de homogeneidade, justamente ao contrário, é
um processos de interação onde os indivíduos participam
do funcionamento da sociedade sem perder suas particu-
laridades. Considerava também que o preconceito racial

61
era originário na desigualdade econômica, sobretudo pela
obrigação dos imigrantes em aceitarem salários mais baixos,
gerando uma rivalidade com os grupos locais que temem
perder seus empregos pela concorrência desleal. Os pre-
conceitos raciais seriam originários mais do conflito de
interesses do que da ignorância que poderia ser corrigida
pela educação.
Parker era professor da Universidade em 1919 quando
ocorreram diversos tumultos em Chicago resultando na
morte – entre centenas de feridos – de 28 negros. Após os
conflitos foi instaurada uma comissão para estudar os con-
flitos raciais, dirigida por um ex-aluno de Park e Burguess,
que também acabaram por influenciar e orientar diversos
pesquisadores negros. (COULON, 1995)

2.3. Pesquisas sobre gangues e


delinquência juvenil
Profundamente relacionada as noções e conceitos
utilizados para pesquisar a imigração, o estudo da crimina-
lidade, desvio e delinquência juvenil aparecem um objetos
privilegiados da Escola de Chicago. “A história da crimi-
nalidade em Chicago foi marcada pelas sucessivas ondas
de imigrantes que ali se instalaram. Primeiramente alemã e
irlandesa no início do século XIX, depois polonesa e italiana
nos anos 1920, tornou-se hispano-americana e negra 30
anos depois (COULON, 1995, p. 61)”. Considerando a
história da lei seca norte americana pode-se ver que Chi-
cago foi um dos principais alvos dos traficantes de bebida
da época, justamente pela sua proximidade com o Canada
e sua ampla malha de transportes, com o florescimento de
uma criminalidade organizada, gangues e mafiosos.
As gangues em Chicago em 1920 mobilizavam ao
menos 25 mil adolescentes e jovens. Park sugeria que a
as gangues deveriam ser estudadas como uma sociedade,

62
uma sociedade específica, e como as demais associações
humanas deveriam ser estudadas em seu habitat particular.
A tese de doutorado de Frederic Thrasher sobre as gangues
de Chicago também possui a noção de desorganização
social. Para Thrasher o espaço das gangues era intersticial
não só na geografia mais também no plano social, como
se fossem fissuras e fraturas na estrutura social, ocupando o
cinturão de pobreza. As gangues seriam elas mesmos ele-
mentos intersticiais, como uma manifestação da fronteira
econômica, moral e cultural que marca o interstício, uma
resposta à desorganização social, sendo um substituto para
aquilo que a sociedade não consegue dar, suprindo carências
e oferecendo escapatórias. (COULON, 1995)

A origem das gangues parece espontânea. Ao


contrário de um clube ou de um sindicato, não
existe um projeto bem definido de formar uma
gangue. Ela nasce dos encontros de uma rua en-
tre adolescentes desocupados que passam a maior
parte do tempo perambulando, jogam e bebem
juntos, são solidários, ajudam-se mutuamente e
estimulam-se. Mas a característica decisiva que
transforma esse grupo em gangue é o fato de
que ele se desloca e encontra outros grupos
hostis que precipitam o conflito. O grupo de
organiza-se, toma consciência de si mesmo e
batiza-se como “clube”, no início bem inocente,
mas que com frequência degenera em grupo
delinquente. Esses grupos são muito instáveis,
novos grupos aparecem, os antigos desaparecem
ou reestruturam-se. Uma gangue possui um
território próprio, que conhece bem do qual
não se afasta muito. (COULON, 1995, p. 64)

Não existe uma forma específica de gangue, elas são


de uma variedade infinita, e de certo modo cada gangue
é única. Estabelecem diversas formas de aliança, relações

63
políticas, em diversas formas de atuação.Todavia, nenhuma
resiste ao desgaste do tempo. A obra Sociedade de Esquina do
Whyte faz uma análise da formação dos grupos – muitas
vezes gangues –, muito embora a questão da criminalidade
não seja o principal foco, todavia, apresenta muito bem o
deslocamento dos agentes através do tempo.
Em 1924 Chicago estava sofrendo uma guerra entre
as gangues, aumentando todas as estáticas criminais. Diante
da situação organizaram uma ampla pesquisa sobre o crime
organizado, onde se procurou demonstrar que o número
de crimes não era consequência da falência do Sistema
de Justiça, mas sim que há uma ligação entre o crime e
a organização da cidade. A “Escola de Chicago” também
produziu diversas pesquisas sobre a delinquência juvenil,
entre elas, investigação realizada por Clifford Shaw (1966),
sobre o jovem Stanley, um ladrão de bêbados – jack-roller
–, adolescente que ele acompanhou ao longo de seis anos.
Nessa pesquisa o autor incentivou o jovem delinquen-
te a escrever um relato autobibliográfico, descrevendo sua
carreira na delinquência, utilizando-se assim da história
de vida para sua pesquisa, que para o autor deveria ser
verificado, cruzado como outros dados. Esse é um ponto
importante, pois Shaw permite ver a delinquência através
do ponto de vista do delinquente, e claro, certamente não
se espera que essa narrativa seja objetiva. Porém é justa-
mente isso que lhe interessava, que a história refletisse as
experiências, interpretações, suas racionalizações, invenções,
preconceitos e exageros que podem ser consideradas válidos
quanto uma descrição objetiva.

Em nosso estudo e tratamento de meninos


delinquentes em Chicago, descobrimos que
a “própria história”, revela informações úteis
sobre, pelo menos, três importantes aspectos
da conduta delinquente: (1) o ponto de vista

64
do delinquente; (2) a situação social e cultural
a que o delinquente é suscetível; e (3) a sequ-
ência de experiências e situações do passado
na vida do marginal. (Tradução livre) (SHAW,
1966, P. 3)

Como era recorrente na Universidade de Chicago,


Shaw considerava necessário adentrar no mundo social do
delinquente, e para conservar tal “objetividade” não se deve
“traduzir” para a linguagem acadêmica, é por isso que os
relatos deveriam ser realizados em primeira pessoa. Shaw
ainda publica outra pesquisa sobre outro rapaz delinquente
nomeado de Sidney, e com outros três pesquisadores, Frede-
ric Zorbaugh, Henry McKay e Leonard Cottrell publicaram
uma obra sobre delinquência urbana, onde recensearam
milhares de residências na Cidade de Chicago, mapeando
a criminalidade em diversas localidades.
Em outra pesquisa importante desenvolvida por
Shaw e McKay analisando a delinquência juvenil nas
áreas urbanas dos Estados Unidos, associa a criminalidade
à estrutura física da cidade, sendo que a taxa de crimi-
nalidade era mais alta nas sociedades com a ordem social
mais desorganizada. Assim a delinquência deveria ser
explicada pelos fatores sociais. Ele também aponta para o
prognóstico que indiciava delinquência apenas por morar
em determinadas regiões.

Com efeito, constataram que, nessas regiões de


delinquência urbana, as taxas de desemprego e de
suicídio eram mais elevadas, a população era mais
doente, a mortalidade infantil mais frequente, as
famílias mais dissociadas e a criminalidade adulta
muito disseminada. O simples fato de morar
em certas partes da cidade, aliás, constituía um
indício ou um prognóstico de delinquência.
(COULON, 1995, p. 75)

65
Todavia, a delinquência não poderia ser vista apenas
pela chave da economia e pela estrutura da sociedade. Os
valores e as normas sociais variavam conforme a região,
e aquelas com alta criminalidade, a delinquência aparece
como uma forma de tradição social, inseparável modo de
vida da comunidade. A delinquência aparece nesses lugares
como prestígio pelas vantagens econômicas alcançadas pelos
seus autores. (COULON, 1995)

2.4. Associação diferencial de Sutherland


Talvez um dos pesquisadores que mais tenham mar-
cado esse período foi Edwin Sutherland, duas de suas pes-
quisas foram muito importantes para o estudo da criminali-
dade. The Profissional thief e White Collar Crime – traduzido
recentemente para o português – apresentam uma serie
de questões que sobre a criminalidade até então ignoradas
pela sociologia, considerando a criminalidade como um
processo social, através de um processo de aprendizagem
que ele chamou de associação diferencial. Ele também revela
a criminalidade de “colarinho branco”, cometido por di-
versas empresas norte americanas, situação que o obrigou
a censurar parte de sua obra durante décadas.
Em seu estudo sobre o ladrão profissional publicado
em 1937, Sutherland utilizou de um relato autobiográfico
de um ladrão que atuará por mais de 20 anos em se ofício.
Para ele a profissão de ladrão é tão real quanto a “língua
inglesa”, e poderia ser estudada como um mínimo de
empenho por qualquer aprendiz, ou seja, não se trata de
uma sequencia de atos isolados, mas sim de uma vida de
grupo, uma instituição social, com técnica, códigos, esta-
tutos, tradições e organização. Essa tendência de analisar as
práticas humanas tidas como ilegais, considerando a mesma
complexidade que existe em outras atividades profissionais
já era apontada por Park que:

66
(...) observava que “na cidade, todos os tipos de
trabalho tendem a se tornar uma profissão, quer
dizer, a ser extremamente organizados, a incluir
posições socialmente definidas, a ter regras de
conduta que regulam o trabalho nessa ocupa-
ção”. Park cita especificamente a mendicância
como uma forma de trabalho muito organizada
nas cidades, resumindo sua posição ao sustentar
que “é muito importante e interessante co-
nhecer a maneira como todos os trabalhos são
organizados na cidade segundo esse modelo”.
(BECKER, 1996, p. 180–181)

Sutherland ainda realizou uma síntese dos dados et-


nográficos apresentado em sua observação e na autobi-
bliografia, acentuando a socialização do ladrão que para ser
profissional necessitava do reconhecimento e recebimento
pelos outros ladrões profissionais, afinal, o roubo é uma
vida em grupo e para tal para adentrar e permanecer é
necessário consentimento do grupo. Não apenas o reco-
nhecimento, mas também é necessário aceitar o conjunto
de estatutos da profissão e as leis do grupo, traçando assim
um quadro da ordem social onde essa profissão poderia se
desenvolver. O autor apontava não só para a repressão que
os ladrões eram alvo, mas também dos benefícios e favores
que tinham, como por exemplo, as propinas pagas pelos
ladrões aos advogados, banqueiros, policiais e às vezes aos
juízes. (COULON, 1995)
Para Sutherland a desorganização social em deter-
minados locais e grupos permitem o criminoso navegar à
vontade, onde não há trabalho para suprimir o crime, pelo
contrário, os funcionários cooperam com os criminosos
para que possam atuar em segurança. Essa forma de desor-
ganização social não se dá necessariamente pela segregação
econômica e social, sendo esse um dos pontos importan-
tes da obra, mostrar para à burguesia um meio social que

67
ela ignorava, onde não só era possível estudar o quadro
e caraterísticas do grupo social de ladrões, mas também
contribuir com a sociologia ao pensar no funcionamento
das instituições sociais e no relaxamento moral dessas. Ele
também aponta para a incapacidade e impotência dos mé-
todos punitivos e reformas administrativas para acabar com
o crime (COULON, 1995). Dessa pesquisa abriu diversos
pontos para pesquisas futuras mais aprofundadas, o que foi
realizado em outra grande obra (SUTHERLAND, 2009)
sobre os crimes de colarinho branco.

Sutherland, verdadeiro fundador da sociologia


da delinquência, considerava a criminalidade
como, antes de mais nada, resultado de uma
processo social. Segundo ele, a delinquência não
é provocada por um comportamento psicoló-
gico ou patológico; mesmo havendo, é claro,
um componente individual na criminalidade,
a influência da organização social e da herança
cultural sobre o indivíduo são fatores determi-
nantes. (COULON, 1995, p. 79)

Esse foi um grande salto, ao descartar os determinismos


biológicos e a visão psicologista individual – que eram as
visões dominantes na época –, mas, sobretudo, a associação
entre crime e pobreza (ALLER, 2009). A pessoa não nasce
criminosa, tão pouco, a segregação econômica seja um fator
determinantes, mas se aprende a ser criminoso, quando
exposto a um meio onde se considerada como natural essa
atividade, impondo ao indivíduo uma carga de significados
sociais. E diante desse mundo social o indivíduo se torna
desviante, não por afinidade, mas por filiação, situação
que Sutherland chamou de associação diferencial. Assim o
comportamento criminal se aprende, e se aprende em um
processo de interação mediante comunicação, ocorrendo
principalmente em contatos pessoais em grupos íntimos.

68
A aprendizagem abarca as técnicas para cometer o
crime, que podem ser complexas ou simples, e os motivos,
tendências, razões e atitudes. Essas orientações específicas
sobre motivos e tendências envolvem desde as definições
legais tidas como favoráveis ou desfavoráveis. Assim, o su-
jeito filiasse a profissão, se converte em delinquente, com-
porte existem excessos de definições favoráveis à violação
da lei. A intensidade da associação diferencial varia em sua
frequência, duração, prioridade e intensidade, mas a apren-
dizagem do comportamento criminal incluem os mesmos
mecanismos que qualquer outra aprendizagem, inclusive
para comportamentos anticriminais. Sendo assim, o com-
portamento criminal é uma expressão de necessidades e
valores gerais, porém não se explica por essas necessidades
e valores, uma vez que o comportamento que não é cri-
minal é uma expressão das mesmas necessidades e valores.
(ALLER, 2009)
Embora Sutherland utilize a noção de desorganização
social, procura superá-la através de seu conceito de asso-
ciação diferencial, pois considera que a criminalidade se
produz em função da organização social, é uma manifes-
tação dessa organização. Sutherland sofreu críticas por não
analisar os fatores individuais dos criminosos, ou mesmo
de ignorar os aspectos relacionados ao capitalismo e a luta
de classes como um elemento gerador da criminalidade.
Não obstante as críticas, suas teorias e pesquisas foram
fundamentais para o desenvolvimento das teorias modernas
da criminalidade e desvio, em particular a labeling approach
theory – teoria da rotulação/etiquetamento – que, ainda que
tenha ultrapassado as orientações iniciais de Sutherland, se
fundou em seus trabalhos.

2.5. O legado da “Escola de Chicago”


Talvez o principal legado da “Escola de Chicago”
tenha sido a sua forma de fazer pesquisa. Claro que as te-

69
orias e pesquisas nesse período foram fundamentais para
o desenvolvimento da sociologia, porém, a forma de fazer
a pesquisa e olhar para a cidade são as principais heranças
para as gerações futuras – que alguns chamam de “segunda
geração da Escola de Chicago”.
Os métodos de pesquisa desenvolvidos nessa época
primavam por uma abordagem empírica, estudando a ci-
dade como um conjunto, utilizando de um rol de técnicas
para pesquisa de campo, que atualmente são agrupadas
como métodos qualitativos, utilizando tanto da análise de
documentos pessoais, autobiografias, correspondências,
diários, entrevistas, e outras diversas técnicas para obser-
vação participativa. Porém é necessário reconhecer que
a principal preocupação era conhecer a cidade, para tal
os métodos fixos, ou pensados por metodólogos profis-
sionais, não davam conta das complexidades que envol-
vem as relações humanas, portanto, mesmo essa divisão
atual entre pesquisa qualitativa e quantitativa soa falsa e
inútil. Pesquisa é pesquisa. De tal forma que havia nesse
período a utilização de dados estatísticos, por exemplo,
e também houve o desenvolvimento, marginal, de uma
sociologia quantitativa que veio aflorar após a segunda
guerra mundial.
Park também anunciava a possibilidade de utilizar os
métodos da etnologia nos estudos das relações urbanas, e
dava a recomendação explicita para utilizar diversos méto-
dos, passando pesquisa em biblioteca à pesquisa de campo.
Construindo uma abordagem que se adequasse à comple-
xidade da vida social moderna, que aceitasse as mudanças
e a interação que moldam a vida social. Os sociólogos de
Chicago tinham uma postura metodológica interacionista
bem definida por Blumer:

(...) Em suma, a pessoa teria que assumir o papel


de ator e ver seu mundo e seu ponto de vista.

70
Esta abordagem metodológica está em contraste
com a chamada abordagem objetiva, hoje tão
dominante, ou seja, que vê o ator e sua ação a
partir da perspectiva de um fora, observador im-
parcial. É desnecessário acrescentar que as ações
em seu mundo tem como base o que ele vê e
não baseado em como o mundo aparece para o
observador externo. (Tradução livre) (BLUMER
, 1966 , p.542)

Essa supremacia da “Escola de Chicago” acabou com a


rebelião de 1935 na American Sociological Society quando um
grupo de oponentes ao domínio de Chicago, conseguiram
derrubar os dirigentes e implementar uma sociologia mais
quantitativa e positivista, estabelecendo um realinhamento
da sociologia americana. Dois anos depois,Talcott Parsons
publicaria seu famosos livro The strucure of social action, con-
firmado a nova orientação teórica, complemente diferente
da sociologia empírica de Chicago, mesclando teoria e
pesquisa quantitativa. A partir de 1940 a sociologia ameri-
cana assumiu o desenvolvimento de técnicas quantitativas,
estimulado pelos enormes contratos e financiamentos do
exercito americano, estabelecendo através dos dirigentes
dessas pesquisas um “imperialismo” teórico e metodológico.
Na década de 50 quase todos os professores influentes da
“Escola de Chicago” tinham morrido ou se aposentado,
todavia, através de suas lições continuadas por Blumer e
Everett Hughes foi possível garantir a transição para uma
nova cepa de pesquisadores que deram origem a um se-
gundo momento, uma retomada (BECKER, 2009), da
sociologia feita na “Escola de Chicago”.

2.6. Referências
ALLER, G.White Collar Crime: Edwin Sutherland y “el delito
de cuello blanco”. In: El delito de cuello blanco. Buenos
Aires: Bdef, 2009.

71
BARATTA, A. Criminologia Crítica e Crítica do Direito
Penal: introdução à sociologia do direito penal. Rio de Janeiro:
Revan: Instituto Carioca de Criminologia, 2002.
BECKER, H. Uma teoria da ação coletiva. Rio de Janeiro:
Zahar, 1977.
BECKER, H. A escola de Chicago. Mana, v. 2, n. 2, p. 177–188,
out. 1996.
BECKER, H. Outsiders: hacia una sociología de la desviación.
1a. ed. Buenos Aires: Siglo XXI, 2009.
BURGESS, E.; C. NEWCCOMB. Census data of the City
of Chicago. Chicago: University of Chicago Press, 1931.
COMMUNICATIONS, W. E. F. A. W. TO THE W. Chicago:
City of the Century. Disponível em: <http://www.pbs.org/
wgbh/amex/chicago/timeline/index.html>.
COULON, A. A Escola de Chicago. Campinas: Papirus, 1995.
GOODSPEED,T.W. A history of University of Chicago:The
first quarter-century. Chicago: University of Chicago Press, 1916.
PARK, R. E.; BURGESS, E. Introduction to the science of
sociology. 1o. ed. Chicago: University of Chicago Press, 1921.
SHAW, C. R.The Jack-Roller: A delinquent boy`s own story.
2a. ed. Chicago: University of Chicago Press, 1966.
SUTHERLAND, E. H. El delito de cuello blanco. Buenos
Aires: Bdef, 2009.
THOMAS, W. I.; ZNANIECKI, F. The polish peasant in
Europe and America. 2a ed ed.Boston: Badger, 1918.
WHYTE, W. F. Sociedade de Esquina: A estrutura social de
uma área urbana pobre e degradada. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

72
Um Segundo Momento
da “Escola Sociológica de
Chicago”: Howard Becker e
Erving Goffman 3
3.1. Uma segunda escola de Chicago
A rebelião de 1935 fez a sociologia americana dar
uma guinada para pesquisas de caráter mais quantitativo,
optando por métodos e técnicas que privilegiavam grandes
números, estatísticas e surveys, adotando uma postura ma-
crossociológica. Com o final da segunda guerra mundial, a
sociologia americana estava mais quantitativa e mais diversa
no plano teórico (COULON, 1995a), todavia, a sociologia
desenvolvida na “Escola de Chicago” não foi abandonada,
continuou exercendo influência considerável sobre a so-
ciologia americana. Alguns professores foram os principais
responsáveis pela transmissão direta das lições da “Escola
de Chicago” para uma nova geração de pesquisadores que
estavam surgindo no pós-guerra, entre esses professores
destaca-se Everett Hughes que lecionou em Chicago de
1938 até 1961.
Hughes fora professor de Howard Becker e Erving
Goffman, dois expoentes da sociologia americana pós-se-
gunda guerra mundial e principais autores do foi chamado
de “segunda geração da escola de Chicago”. Hughes foi
aluno de Park e Burgess, sendo assim, a principal ponte
entre a primeira geração da “Escola de Chicago” e a segun-
da geração “Escola de Chicago”. Howard Becker (1977, p.
16) recorrentemente ressalta a importância de Hughes: “o

73
homem com quem trabalhei mais intimamente foi Everett Hughes.
Ele me ensinou muitas coisas. Essencialmente, ensinou-me a como
pensar sociologicamente”.
As pesquisas desenvolvidas em Chicago por essa nova
geração traziam as lições sobre o trabalho de campo desen-
volvido pela “Escola de Chicago”, podendo assim realizar
uma verdadeira reflexão metodológica sobre a sociologia
qualitativa. Essa reflexão marca os trabalhos de Howard
Becker (1993; 1977a;) e Aaron Cicourel (1980), primeiro
rechaçando a metodologia apartada da pesquisa empírica,
criticando a precupação na construção de métodos e técni-
cas de pesquisas por metodólogos e a sua pretensa neutrali-
dade. “A metodologia é importante demais para ser deixada aos
metodólogos (BECKER, 1993, p.17)”. Também construiram
uma crítica contra as teorias abstratas e descoladas do em-
pírico, Cicourel (1980) produz uma importante reflexão
sobre o trabalho de campo, a observação participante e a
necessidade de se problematizar os constructos do senso
comum, todavia, ao observar deve abandonar a racionali-
dade científica, todavia, mantendo uma atitute científica ao
descreve as condutas e interações dos atores. A produção
intelectual dessa segunda geração também negava a utili-
zação de conceito apenas pelo conceito, permitindo que
o trabalho de campo apresente novas relações, problema-
tizações e conceitos que permitam compreender aquela
realidade. Por fim, vale a pena ressaltar um das lições que
Howard Becker aprendeu com Everett Hughes, apontado
como uma das qualidades do livro Outsiders:

Uma delas é que foi escrito de forma um pouco


mais clara que os textos academicos habituais.
Não me atribuo o crédito por isso. Tive bons
mestres, e meu mentor, Everett Hughes, que
supervisionou minha disertação de doutorado
e com quem trabalhei com uma estreita co-
laboração em meus projetos de investigação

74
posteriores, era um fanático dos textos claros.
Ele pensava que era totalmente desnecessário
utilizar termos vazios e abstratos quando exis-
tiam palavras simples para expressar o mesmo.
(BECKER, 2009, p. 11, tradução livre)

Essa geração participou de umas das periódicas “re-


voluções” da sociologia, durante a qual se criticaram e
reavaliaram os marcos teóricos vigentes. As pesquisas até o
começo da década de 60, por exemplo, sobre a crimina-
lidade e outras formas de comportamentos considerados
como problemáticos, perguntavam por que as pessoas
agiam assim, violavam as normas de conduta que eram
comumente aceitas pelas pessoas “normais”, procurando
identificar causas para esses comportamentos. Alguns cul-
pavam a psique dos desobedientes seja para apontar falhas
de personalidade, outros culpavam a situação que gerava
desigualdade social, assim os jovens crendo no sonho ame-
ricano mas sem condições para alcançar a ascensão social
desejada, podiam voltar-se para métodos desviados de as-
censão social, como o crime. Os novos pesquisadores não
se interessavam por essas teorias e tão pouco acreditavam
nas instituições sociais. (BECKER, 2009)
As pesquisas sobre as condutas consideradas desviadas
foi dominada por pessoas cuja a profissão era resolver pro-
blemas sociais, assim, o crime muitas vezes tornou-se um
problema a ser resolvido – mas nem sempre e nem todos
os crimes, pois muitos eram tolerados. As pessoas que inves-
tigavam normalmente pertenciam a uma organização que
se dedicava integralmente ao problema, como o sistema de
justiça criminal – policiais, juízes, promotores, defensores
públicos e etc... – e que como todo grupo de profissionais,
essas organizações possuem seus próprios interesses e pontos
de vistas a defender. Davam como certo a responsabilidade
do delito ao delinquente, não tendo dúvidas sobre quem

75
eram eles: as pessoas que haviam sido capturadas e presas
por essas instituições. Esse ponto de vista fez com o que
muitos sociólogos acreditassem cegamente nas estatísticas
criminais produzidas por essas mesmas instituições para
compreender o delito, tendo como índice de criminalidade
os delitos reportados pela polícia, “e não de maneira precisa:
muitas vezes as pessoas não reportavam o crime e muitas vezes
a polícia ‘ajustava’ as cifras para mostrar à opinião pública, às
companhias de seguro e aos políticos que estavam fazendo bem seu
trabalho” (H. BECKER, 2009, p. 13, tradução livre)

Porém essas teorias já não interessavam as novas


gerações de sociólogo, que eram menos confor-
mistas e mais críticas das instituições sociais de
então, e não estavam tão dispostos a crer que o
sistema de justiça criminal nunca se equivocava,
e que todos os delinquentes eram pessoas más
que haviam cometido o fato que lhe acusavam,
e assim sucessivamente. Esses jovens sociólogos
buscaram o apoio teórico de uma grande varie-
dade de fontes. Muitos encontraram explicações
em abordagens marxistas da análise dos efeitos
patológicos do capitalismo. Outros, entre eles
eu, encontramos uma base firme em antiquadas
teorias sociológicas que por uma razão haviam
sido renegadas quando os investigadores come-
çaram a abordar o tema do delito e a até então
chamada “desorganização social” (H. BECKER,
2009, p. 13, tradução livre)

As antiquadas teorias que Becker se refere, diz respeito


ao trabalho e reflexões produzidas pela “Escola de Chica-
go”, cuja raiz remonta a famosa frase de Willian Thomas3,
ou seja, que as pessoas atuam com base na compreensão
que tem do mundo e não do que existe nele. Utilizando

Cf. Capítulo 2 desta obra.


3

76
dessa perspectiva nas ciências sociais, implica refletir sobre
o modo que as coisas são formuladas como problemáticas e
isso conduz as pessoas que definem quais são essas condutas
e como as definem, negando aceitar que todos aqueles que
as instituições definam como delinquentes eram realmente.
Outra consequência dessa tradição sociológica é que todos
que estavam envolvidos com a situação contribuíam para
ela e a investigação sociológica deve se atentar para a ação
de todos envolvidos. Desta forma, aquele cujo negócio
era definir o crime e lidar com ele, é parte do “problema
do delito”, por isso, o pesquisador não pode simplesmente
aceitar como válido o que diziam, tão pouco basear suas
pesquisas nisso. Os sociólogos que buscaram explicações
nas teorias marxistas seguiram seu próprio caminho através
do que no Brasil foi chamado de criminologia crítica4, in-
fluenciados, sobretudo, por Rusche & Kirchheimer (2004).

3.2. Etnometodologia e Interacionismo


Entre as duas principais influências a produção inte-
lectual da segunda geração da “Escola de Chicago” estão o
interacionismo simbólico e a etnometodologia. O intera-
cionismo simbólico, cuja as raízes filosóficas remontam ao
pragmatismo de John Dewey, foi desenvolvido, sobretudo,
por Georg Mead que exerceu bastante influência na for-
mação da “Escola de Chicago”, todavia, o termo foi cria-
do e utilizado pela primeira vez por Herbert Blumer em
1937. A etnometodologia é uma corrente de pensamento
e de pesquisa desenvolvida na década de 60 e tem Harold
Garfinkel como seu principal teórico. A etnometodologia
não pode ser diretamente associada a “Escola de Chica-
go”, Garfinkel estudou em Harvard com Talcot Parsons,
porém ao contrário dele, desenvolvia pesquisas com forte

Cf. Capítulo 4 desta obra.


4

77
cunho empírico e microsociológico. A expressão etnome-
todologia, desenvolvida pro Garfinkel, não diz respeito aos
procedimentos e métodos utilizado pelo pesquisador, mas
sim, para definir o campo de investigação. Desta forma a
etnometodologia se relaciona com diversas outras corren-
tes – entre ela o interacionismo simbólico – que ajudam a
compreender a sociedade contemporânea, pois tem como
objeto os métodos que os sujeitos utilizam para dar sentido
as suas práticas cotidianas. (COULON, 1995a)

“A etnometodologia é a pesquisa empírica dos


métodos que os indivíduos utilizam para dar
sentido e ao mesmo tempo realizar as suas ações
de todos os dias: comunicar-se, tomar decisões,
raciocinar. Para os etnometodólogos, a etnome-
todologia será, portanto, o estudo dessas ativi-
dades cotidianas, quer sejam triviais ou eruditas,
considerando que a própria sociologia deve ser
considerada como uma atividade prática.”(Cou-
lon, 1995b, p. 30)

Tanto o interacionismo simbólico quanto a etnometo-


dologia trazem um ponto de vista contrário as concepções
durkheimiana de sujeito. Ambas assumem a capacidade
de reflexividade e racionalidade, onde os fatos sociais não
são objetivos, mas construções dos próprios indivíduos,
fenômenos produzidos pela interação entre os sujeitos. A
concepção que o agente do mundo e de suas ações práticas
e rotineiras constitui o objeto essencial da sociologia, ou
seja, “analisar os processos pelos quais os agentes determi-
nam suas condutas, com base em suas interpretações do
mundo que os rodeia” (COULON, 1995a, p. 20).
Na realidade através do interacionismo simbólico é
quando o agente social assume, pela primeira vez na história
da sociologia, um lugar teórico como interprete do mundo
que o cerca, pondo em prática métodos que favoreçam o

78
ponto de vista do agente. A relação com o senso-comum
e as pré-noções assumem outra forma, pois aqui,

a pesquisa (...) deve se esforçar-se para não des-


naturalizar o mundo social, nem escamotear as
interações sobre as quais se apoia toda avida so-
cial. É preciso preservar a integridade do mundo
social para poder estuda-lo, e levar em conta o
ponto de vista dos agentes sociais, pois é através
do sentido que atribuem a objetos, indivíduos e
símbolos que os rodeiam, que eles fabricam seu
mundo social (COULON, 1995a, p. 22)

A influência do interacionismo simbólico é visível


nas obras de Howard Becker e Erving Goffman, e embora
não assumissem o título de “interacionistas”, suas pesquisas
são marcadas pela preocupação com a posição e fala dos
atores sociais e com a interação entre eles. Os sentidos,
práticas, atuações e representações são construídas dentro
de um processo de interação entre sujeitos que definem e
são definidos. Tamanha a preocupação com o processo de
interação, que ele se torna objeto de pesquisa, ou seja, o
próprio processo de interação face à face foi alvo de pes-
quisa (GOFFMAN, 2011). Por outro lado, é possível ver a
influência da etnometodologia em suas investigações que
por diversas vezes trazem situações rotineiras como objeto
de estudo, mas não só, trazem a racionalidade e reflexivi-
dade dos atores sociais e seus métodos para dar conta de
suas práticas cotidianas. Seja na representação do eu no
cotidiano (GOFFMAN, 1985) ou na análise processual
do uso de maconha entre os músicos de jazz (BECKER,
2009), existe sempre o elemento dos sentidos atribuídos
pelos atores sociais, suas práticas cotidianas e como eles
atribuem e dão sentido a suas ações.
Seria uma injustiça limitar a segunda geração da “Es-
cola de Chicago” a apenas esses autores, existiram muitos

79
outros amplamente reconhecidos pelas suas produções
intelectuais. Após a segunda guerra mundial havia cerca
de 200 estudantes de pós-graduação em sociologia na
faculdade de Chicago, por isso, é importante reforçar o
caráter coletivo da produção científica (BECKER, 1977a).
Muito embora a autoria das obras seja individualizado,
não se pode esquecer e menosprezar o clima acadêmico
como um dos elementos determinantes para a produção
científica, Howard Becker em diversos textos posiciona
e faz uma análise da vida acadêmica e dos pesquisadores
com quem conviveu e demonstra muito bem a situação
acadêmica da época:

Não posso nem começar a lhe dizer todas as


pessoas da minha turma – Erving Goffman,
David, Gold, Bill Kornhauser, Eliot Freidson,
Jim Short – pois passaria metade de um dia re-
citando seus nomes. Estávamos todos excitados
com a Sociologia e conversávamos sobre ela
muito seriamente, de tal forma que se aprendia
muito entre os próprios estudantes. Era um bom
grupo profissional também, e alguns deles me
impressionavam mais que outros. (BECKER,
1977ª, p. 16)

Não obstante, Howard Becker e Erving Goffman fo-


ram os pesquisadores dessa geração que mais contribuíram
com o estudo da violência, criminalidade e desvio social,
muitos de seus conceitos são utilizados até os dias de hoje,
bem como, suas pesquisas são referencias no estudo do
crime. Por isso, vamos concentrar análise nesses autores
que também foram os que mais influenciaram a sociologia
americana após a segunda guerra mundial, e acabaram in-
fluenciando diversos sociólogos em outros países. No Brasil
um dos mais influenciados por esse geração foi Gilberto Ve-
lho que chega a estudar com Howard Becker, construindo

80
uma relação de amizade que ambos reconhecem em suas
obras (BECKER, 2009;VELHO, 1976, 2002).
A análise interacionista agregada aos objetos de estudo
valorizados pela Universidade de Chicago foi responsável
pela famosa teoria do labeling approach, conhecido também
como teoria do etiquetamento ou da rotulagem.“Esta teoria
insistiria mais nos processos pelos quais os desviantes são definidos
pelo resto da sociedade do que na natureza do próprio ato desviante
(COULON, 1995a, p. 124)”. Passando a observar o desvio
como um processo de interação entre atores, onde um é
capaz de acusar, e de fazer tal acusação ser aceita pelos de-
mais, outro. A violação da norma, o desvio e o crime não
são coisas ontológicas, são sentidos simbólicos atribuídos
em um processo interacional entre os atores, e disso resulta
toda uma imensa gama de acontecimentos sociais influen-
ciados por aqueles que podem impor a classificação, entre
eles fazer com que as pessoas assumam seus rótulos, o que
ficou conhecido como – self-fulfilling prophecy – profecia
autocumprível: “tornamo-nos tais como nos descrevem (COU-
LON, 1995a, p. 125)”.Talvez a principal contribuição para
essas teorias tenha sido a obra Outsider (BECKER, 2009).

3.3. Howard Becker


Nascido em Chicago, Howard Becker tem uma longa
e produtiva carreira acadêmica, tendo começado a estudar
sociologia em 1946 na Universidade de Chicago, onde
concluiu o mestrado pesquisando músicos profissionais.
Becker não tinha a intenção de continuar sua carreira como
sociólogo, casou logo após o mestrado e pensou e abando-
nar a universidade para “ganhar a vida”, todavia, conduzido
pelo seu mentor Everett Hughes passou a pesquisar escolas
públicas e seus professores – Hughes pagava ao Becker um
dólar para cada professor entrevistado –, o que acabou se
tornando sua tese de doutorado. (BECKER, 1977a).

81
Passei pela pós-graduação muito rapidamente.
Atribuo isso ao fato de ter continuado na música,
ou seja: como eu realmente não me preocupava
em fazer carreira na Sociologia, não a levava
muito a sério. Estudava sociologia como um pas-
satempo e tinha muito pouca ansiedade. Tinha
muitas ansiedades em relação a tocar piano, por
que isso era sério, era o trabalho da minha vida.
Estudava muito e trabalhava no piano muito
intensamente. (BECKER, 1977a, p. 14)

Musico de jazz, o pianista Howard Becker sonhava em


seguir a carreira de músico, acabou indo fazer faculdade por
incentivo do seu pai, e com o apoio de seu mentor passou
rapidamente pela pós-graduação e aos 23 anos de idade
obteve o doutorado, porém, pela jovialidade teve dificuldade
de arrumar empregos condizentes com a sua formação,
permaneceu trabalhando como músico em Chicago, foi
quando começou seu estudo sobre a maconha, o que mais
tarde resultou na obra Outsiders: por uma sociologia do desvio.
Nessa obra é possível ver um processo, uma construção
processual e relacional de etiquetas que naturaliza sujeitos
e grupos dentro de categorias, entre elas a de “anormais”.
Ao considerar os sujeitos tidos como desviados, loucos
e criminosos não como um resultado de suas ações, mas
como resultado de um processo de interação que resulta na
construção de símbolos. Essas etiquetas ajudam a classificar
o mundo segundo os critérios daqueles que tem o poder de
classificação. Com isso, a obra Outsiders traz consequências
políticas e sociológicas importantes, entre eles a desnatu-
ralização dos desviados, loucos e criminosos, tendo como
efeito a retirada do debate sobre a criminalização questões
como a anomia, desorganização social e a atitudes inatas.
Ao pensar o processo de criminalização como algo
interacional e simbólico, não guardando relação direta com
determinada ação que desvie da norma social estabelecida,

82
permite por um lado compreender as convenções e as
etiquetas como algo relacional entre grupos que possuem
status social distinto; e por outro, o efeito processual da car-
reira criminal. De tal modo, que não cabe compreender o
desvio como algo que se deve moralizar ou lamentar a falta
de integração social; mas sim compreender que as regras
morais e as formas de classificação social são mobilizada
por criadores e promotores de norma, o que ele chama
de “empreendedores morais”, e que a autoidentificação
se constrói através de uma socialização progressiva, que
com o tempo e a frequência força a criatividade da ação
individual. (BENZECRY, 2009)
De fato todos os grupos sociais estabelecem regras
que procuram definir situações e comportamentos consi-
derados como adequados e corretas, diferenciando daquelas
tidas como equivocadas e proibidas. Quando alguém viola
alguma norma social, e a regra deve ser aplicada sobre o
infrator, que passa a ter uma classificação diferente, negativa,
passando a ser considerado um marginal, um outsider. Cer-
tamente tal sujeito pode ter uma ideia bem diferente sobre
esse tema, podendo não aceitar as regras, nem tão pouco
as normas sociais impostas, pode desacreditar os julgadores
e aplicadores das leis, considerando eles como os outsiders.
Assim, Howard Becker sugere duas situações distintas, uma
é a situações de infração e aplicação da regra e outra são os
mecanismos que fazem com que alguns rompam as regras
e outros a imponham.
A infração o desviante foram abordas por diversas
teorias e estudos científicos, que normalmente aceitavam
a premissa que existe algo de inato no desvio. “Os cientistas
não tem o costume de questiona a etiqueta de desviado quando
se aplica a ações ou a pessoas em particular, senão que as aceitam
como algo dado. Ao fazer isso, adotam os valores do grupo que
estabeleceu esse juízo” (BECKER, 2009, p. 23). É possível
ver durante toda a obra uma crítica severa a forma de se

83
pesquisa criminalidade, procurando definir o desvio através
de um conceito que permita lidar com situações ambíguas
ou não. O desvio não pode ser tido como a infração de
uma norma acordada pela sociedade, pois isso levaria a
questões como quem rompe as regras? Como vivem, como
é sua personalidade e situação de vida, por que razão se
desviou? O que implica considerar que aqueles que violam
as normas são uma categoria homogênea, pois cometeram
o mesmo ato.Todavia, essa visão esquece algo fundamental,
esclarecido por Becker (2009), que o desvio é criado pela
sociedade.
O desvio surge dos grupos sociais que criam as nor-
mas cujo a infração corresponde a um desvio, e ao aplicar
a norma passa a etiquetar pessoas como marginais. Assim o
desvio não é uma qualidade do ato que uma pessoa comete,
mas sim a aplicação da regra sobre o sujeito que passa a
ser etiquetado como uma marginal, veja, que o desviado,
o marginal é aquele que conseguiu ser etiquetado como
tal. O pesquisador não pode supor que todas as pessoas
que cometeram alguma infração a uma norma social sejam
rotulado como desviado, tão pouco, que todos que foram
rotulados como desviados cometeram o ato que lhe acu-
sam, pois o processo de acusação não é infalível. Um ato
ser considerado desviado ou não depende da forma que
os outros de relacionam com ele, pois o fato de alguém
ter cometido alguma infração não implica necessariamente
na aplicação da regra. Assim como alguém que não tenha
feito infração alguma, não possa ser tratado pelos demais
como se tivesse feito.
A reação diante de um ato considerado desviado varia
muito, mas basicamente depende de quem cometeu e quem
se sentiu prejudicado. A aplicação legal não é homogênea,
sendo aplicado com mais peso sobre grupos sociais que
possuem determinadas características, assim como, a aplica-
ção da pena e processo penal. Diversas pesquisas ao longo

84
do século XX deixam clara essa seletividade do sistema de
justiça criminal.

Os processo legais contra jovens de classe media


não vão tão longe como os processo contra
jovens de bairros pobres. Quando é detido, é
menos provável que o jovem de classe media seja
levado até a estação de polícia; se é levado a estão
de polícia, é menos provável que seja fichado
e, finalmente, é extremamente improvável que
seja condenado e sentenciado (...). Do mesmo
modo que a lei é aplicada de forma diferente a
negros e brancos (...). Este é, por suposto, um
dos argumentos principais da análise de Su-
therland sobre o delito de “colarinho branco”:
os ilícitos cometidos pelas corporações quase
sempre são julgados como casos civis, quando
os delitos cometidos por um indivíduo são no
geral tratados como delitos penais. (BECKER,
2009, p. 32. Tradução livre)

Se o objeto de análise é os comportamentos que rece-


bem o rótulo de desviado, este só poderá ser caracterizado
como desviante após se produzir a resposta dos outros. “O
desvio não é uma qualidade intrínseca ao comportamento em si,
mas sim a interação entre a pessoa que atua e aqueles que res-
pondem a sua ação” (BECKER, 2009, p. 34, tradução livre).
Essa interação ocorre segundo um processo de acusação
(VELHO, 1976) onde o rótulo de marginal passa a referir
as pessoas que são julgadas como desviadas, a margem do
circulo de pessoas “normais”, todavia, retomando a reflexão
de Becker, pode ser que aos olhos daqueles que estão sendo
julgados os marginais sejam as pessoas que ditam as regras.
É importante destacar o caráter político e simbólico
das regras sociais, pois elas são uma construção social criada
por grupos sociais específicos. E certamente em socieda-
des modernas com seu alto nível de complexidade não há

85
um consenso em torno de quais regras devem existir. As
sociedades atuais são altamente diferenciadas em diversos
níveis, em classes, grupos étnicos, ocupações, cultura, e esses
grupos podem não compartilhar das mesmas regras. Os
usuários de maconha e de outras substâncias consideradas
ilícitas certamente se opõem a política proibicionista, assim
como, os imigrantes italianos durante a lei seca nos Estados
Unidos seguiram produzindo vinho.
Os grupos que conseguem criar e impor regras aos
demais, e ainda mais, fazer isso com êxito, garantem seu
sucesso pelo poder político e econômico que possuem. Essa
diferença de poder é o que permite a capacidade de impor
e criar as regras sociais, e as diferenças de idade, sexo, etnia
e classe social estão relacionadas com a diferença de poder,
e explicam esse processo de interação através da acusação.

Além de reconhecer que o desvio é um produto


da resposta das pessoas a certos tipos de conduta
que tem a etiqueta de desviadas, tão pouco,
devemos perder de vista que as regras que esses
rótulos geram e sustentam não respondem a
opinião de todos. Pelo contrário, são objeto de
conflitos e desacordos: são parte do processo
político da sociedade. (BECKER, 2009, p. 37.
Tradução livre)

A reflexão de Becker é condizente com a tradição


que herdou da “Escola de Chicago”, que desde a fun-
dação possui uma grande influência do Georg Simmel,
primeiro através de Albion Small que fora seu colega,
posteriormente R. E. Park que fora seu aluno e professor
de Everett Hughes. Como um dos principais responsáveis
pelo surgimento de uma visão microsociológica, Simmel
(1983) tem uma visão do conflito como um elemento
fundamental no processo sociabilização, inerente a socie-
dade. Por isso a divergência de ideias e opiniões é algo

86
muito mais frequente que o consenso, que em ultimo caso,
a sua tentativa pertence apenas que podem estabelecer as
regras sobre os outros.

3.4. Carreira criminal


Entre outras rupturas presente nas análises de Howard
Becker é a reflexão sobre a carreira do usuário de drogas,
que segundo ele, não pode ser explicado suficientemente
através da psicologia. Assim, afasta as explicações que jus-
tificam o consumo através de uma psique desviada, com
necessidade de fantasia ou ainda para fugir da realidade
que o sujeito não é capaz de aguentar. Becker identificou,
naquela época, que a forma de consumo mais frequente era
o recreativo, sem elementos ligados a uma psique “anor-
mal”. Para refletir sobre a gênese do consumo de maconha
Becker realizou cinquenta entrevistas com consumidores,
aproveitando sua carreira de musico para facilitar o contato
com o campo, e a partir dai trabalhando com um efeito
bola de neve para entrevistar outros usuários. Com isso,
Becker estabelece um processo para se converter em um
usuário de maconha, que envolve aprender a técnica de
fumar, perceber os efeitos e aprender a desfrutar eles. Ele
ainda analisa o controle social sobre o consumo de maconha
que o usuário vai ultrapassando progressivamente.
Entre os consumidores principiantes, ocasionais e
habituais, existe limitadores referentes aos provedores de
maconha, é necessário uma fonte de abastecimento pe-
rene para manter um consumo regular. Outro limitador
é o segredo, a etiqueta social sobre o usuário como um
sujeito desviado, faz com que o consumo deseja ministrado
conforme a capacidade dele manter em segredo seu con-
sumo. Desta forma, o usuário desenvolve estratégias para
manter o consumo diante de não fumantes, apreendendo
por exemplo a controlar os efeitos.

87
Resumindo, as pessoas limitam seu consumo de
maconha de maneira proporcional ao seu temor,
seja realista ou não, de ser descoberta pelos não
consumidores a quem consideram importantes
e que, descobrir seu segredo, poderiam castigar
lhes de alguma maneira. (BECKER, 2009, p. 92.
Tradução livre)

Por fim, temos a questão da moralidade é muito pre-


sente no controle do consumo, onde o usuário diante das
noções da moral convencional procura controlar o uso
de maconha, reagindo ao estereotipo do usuário como
um sujeito incontrolável. Assim, se o usuário leva a sério
os estereótipos presentes no consumo de drogas será um
obstáculo para o consumo, porém, com o aumento na
participação dos grupos de usuário é provável que ele
assuma uma postura mais emancipada das visões comuns
a respeito do usuário.

A medida que sua participação em grupos de


consumidores aumenta sua experiência, o novato
incorpora uma série de racionalizações e justi-
ficações que permitem responder as objeções
que podem surgir se ele decide converter-se
em um fumador ocasional. (BECKER, 2009, p.
94. Tradução livre)

A questão que envolve a moralidade é realmente


interessante se compreendermos as leis como iniciativa
morais, ou seja, atrás de uma conduta considerada como
desviada está um empreendedor moral em uma cruzada
contra o mal. Para tal estabelece todo um rol de argumen-
tos e noções moralizantes sobre os comportamentos tidos
como desviados, e que acabam servindo como justificativa
de seu desejo de proibir. É possível encontrar ao longo da
proibição das drogas toda uma construção do usuário como

88
um sujeito criminoso ou louco, quase sempre atrelado a
elementos étnicos e raciais. Assim, por exemplo no Brasil
a maconha era associada a população negra e tida como a
“vingança dos derrotados”, referindo-se a população negra
escravizada (MACRAE; SIMÕES, [s.d.]).
O empreendedor moral, aquele que cria as normas,
tem um sentimento de que se não corrigir o mundo esta-
mos perdidos. “Sente que nada estará bem no mundo até
que haja normas que corrijam esse mal” (BECKER, 2009,
p. 166. Tradução livre). Trata com uma ética absoluta em
sua cruzada contra o mal, que é absolutamente e totalmente
mal, que dever ser eliminado a qualquer custo, sente-se
moralmente superior. Possuem um sentimento humanitário,
procura “salvar” os outros, muitas vezes de si mesmos. Esse
sentimento, de agir em “defesa da sociedade” é o que move
o empreendedor moral, os que agiam em nome do proi-
bicionismo, por exemplo, “não sentiam que simplesmente
estavam impondo sua própria moral aos outros, mas sim
que tentavam geram melhores condições de vida para as
pessoas a quem a bebida poderia impedir de levar uma boa
vida” (BECKER, 2009, p. 168. Tradução livre).
Para Becker (2009) entre os empreendedores morais
é possível destacar duas modalidades os criadores de re-
gras e os aplicadores das regras. O criador de regras é o
empreendedor moral por excelência, aquele que não vai
descansar até que uma regra que proibia o comportamento
visto como mal. Muitas vezes atuam com uma ética ab-
soluta, todavia, em muitos casos atuam hipocritamente. É
possível hoje relacionar essa análise de Becker com atores
sociais que lutam para emplacar novas regras, claro que não
podemos limitar isso ao campo legislativo – quem de fato
cria as regras –, mas sim todos aqueles que mobilizam seus
capitais nessa cruzada. Assim, os diversos apresentadores
de telejornais policiais que exaltam a necessidade maior
severidade, mais direito penal, prisão e outras formas de

89
penas que violam os direitos humanos, atuam como em-
preendedores morais. Mas podemos enquadrar professores,
atores, músicos, políticos, no fim, qualquer um que lute
arduamente “em defesa da sociedade” e dos “homens de
bens” acaba atuando como um empreendedor moral. Com
a ampla utilização das redes sociais e a facilidade de proferir
verdades através delas faz como que esse empreendedoris-
mo cresça, muitas vezes apoiado por aqueles que de fato
acreditam estar atuando em uma causa nobre, entre eles os
aplicadores das regras.
Os aplicadores das regras são aqueles que para Becker
(2009) tem pouco interesse no conteúdo da regra, está
preocupado em aplica-la, essa é sua função. O aplicador
vive em função da regra, pois a consequência esperada pelo
“cruzado moral” é a criação de uma nova lei, todavia, em
conjunto com esse novo arcabouço legal temos um novo
conjunto de agencias, instituições e funcionários para sua
aplicação. Assim, ao se estabelecer um novo fronte de bata-
lha – agora assumido legalmente pelo Estado – é necessário
criar aqueles que lutarão a guerra – os inimigos já estavam
definidos na cruzada moral –, desta forma, por exemplo, a
Lei Harrison responsável pela lei seca nos Estados Unidos
necessitou da criação do escritório federal de narcóticos.
Finalmente, a cruzada moral está institucionalizada, con-
tando com um corpo de funcionários e agências específicas
para assegurar o seu cumprimento. E agora temos também
o outsiders institucionalizado.
Ainda que muitos aplicadores de regras atuem apai-
xonadamente no combate do mal, agindo como também
como empreendedores morais (SOUZA, 2015) – situação
vista com frequência as redes sociais –, existem aqueles
que veem de forma objetiva e neutra sua atividade, não se
interessando com a “causa”, mas apenas com seu oficio de
aplicador de regras (SOUZA; ROSA; MORAES, 2016).
Esses se interessam apenas com a existência da norma, pois

90
é a sua existência que garante seu trabalho, sua profissão
e sua razão de ser. A eles não importa o castigo aplicado a
uma conduta antes considerada normal, ou deixar de apli-
car o castigo a uma conduta que até então era considerada
desviada, o que importa é a existência de uma norma que
lhe de sentido de vida. Esses sujeitos, típicos burocratas, exi-
mem protegem sua consciência pelo fato de apenas aplicar
a regra, como um juiz ou desembargador que prende um
jovem – mesmo sabendo das condições da prisão – por
tráfico de drogas por apenas poucas gramas, afinal não
responsabilidade dele cuidar da prisão, tão pouco da lei, a
ele interessa apenas aplica-la. É impossível não comparar
esses aplicadores ao Adolf Eichmann (Cf. ROSA, 2012),
oficial nazista responsável pelo extermínio de judeus no
que ficou conhecido como a solução final, após preso e
julgado em Jerusalém, defendia-se de seus atos afirmando
apenas estar obedecendo regras.
Uma cruzada moral possui êxito máximo com a cria-
ção de um novo conjunto de normas, e complementando
as reflexões de Becker com a visão foucaultiana (1999)
do campo jurídico como veículos permanentes de rela-
ções de dominação e de técnicas de sujeição polimorfas,
esses saberes que assumem o status de norma jurídica,
fundamentando formas específicas de controle social são
empreendimento de indivíduos, o que Howard Becker
(2009) chamou de empreendedorismo moral (SOUZA;
ROSA; MORAES, 2016).
Howard Becker, diferentemente de Michel Foucault,
enfatiza os indivíduos e suas interações, procurando com-
preender o sentido simbólico atribuído a essas interações.
Desta forma, Foucault estaria mais preocupado com a
identificação dos jogos de poder e técnicas utilizadas para
regulamentar as ações dos indivíduos por meio de práticas
classificatórias que estabeleceriam normas saudáveis aos
demais, enquanto que Becker (2009) nos possibilita pen-

91
sarmos sobre quem determina os tipos de comportamentos
que são considerados anormais e/ou problemáticos, ou
seja, quem acusa quem? De que estão acusando? E em que
circunstâncias essas acusações tem êxito? (SOUZA; ROSA;
MORAES, 2016)
Por exemplo, a política antidrogas que após a alteração
da lei 11.343/06 passa a tratar o usuário com menos rigor,
não podendo ser preso em nenhuma hipótese.Todavia, ao
pensar quais critérios utilizados para diferenciar traficantes
de usuários, vê-se que são todos critérios subjetivos, não
havendo critério objetivo. (SOUZA; MORAES, 2014)

Para determinar se a droga destinava-se a con-


sumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à
quantidade da substância apreendida, ao local
e às condições em que se desenvolveu a ação,
às circunstâncias sociais e pessoais, bem como
à conduta e aos antecedentes do agente. (Lei
11.343/06, Artigo 28, § 2º )

A quantidade e a natureza da droga são elementos


avaliados, entretanto não determinantes, mas sim “o local
e as condições em que se desenvolveu a ação, as circuns-
tâncias sociais e pessoais, bem como a conduta e aos ante-
cedentes do agente.” Assim, da intervenção policial sobre
um indivíduo portando drogas é difícil prever o resultado,
todavia, basicamente, vai depender de como é construído
o processo de interação, que na falta de elementos mais
profundos para construção das representações sociais acaba
sendo formado pelos elementos externos, características
visíveis (GOFFMAN, 1985) que nos casos analisados pode
ser resumidas em: onde, quem e o que. A abordagem de
um policial a um grupo de usuários de drogas segue essa
lógica, o trato – “sacolejo”, violência e abuso ou “vistas
grossas”, aconselhamento, apreensão da droga e liberação
dos usuários – ao usuário vai depender de onde foi feita

92
abordagem, em quem foi feita e qual a droga encontrada.
(SOUZA; ROSA; MORAES, 2016)
Desta forma o determinante para configuração do
uso de drogas e o tráfico de drogas são as características
socioeconômicas do agente, baseando-se em estigmas.

(...) os estereótipos que os policiais têm do crimi-


noso ou do infrator contumaz das leis constituem
referencias importantes para sua atuação; e, como
os indivíduos de status socioeconômico baixo são
aqueles que mais se ajustam a tais estereótipos, são eles
que constituem os alvos por excelência da repressão
policial. (COELHO, 2005, p. 276)

Esse processo de representação e fachada nas interações


humanas foi explorado com profundidade por Erving Gof-
fman, que compartilhava com Becker o conceito de desvio
que não se limitava apenas as condutas delitivas. Goffman
se apoiou no estudo das interações na vida cotidiana, ex-
plorando espaços como conventos, prisões, manicômios e
hospitais, mas também, rituais de interação face a face em
diversos espaços sociais.

3.5. Erving Goffman


A história de Erving Goffman na academia é semelhante
em certo sentido à de seu colega Howard Becker, pois ambos
filhos de imigrantes judeus de origem modesta, ascenden-
do socialmente através do trabalho intelectual alcançando
grande prestígio e notoriedade na academia.Ambos sofreram
diversos embaraços e dificuldades na carreira e nenhum dos
dois começou na Sociologia, Goffman começou estudando
química no Canadá, seu país de origem, mas logo mudando
de interesse, passando a estudar sociologia em Toronto, e em
seguida seguindo para Universidade de Chicago realizar a
pós-graduação. (VELHO, 2002)

93
Goffman era apontado por seus colegas como um
exímio observador, que sempre permanecia aguçado, ana-
lisando e registrando. “Goffman era tão sensível aos mais
rotineiros tipos de interação social que muitas vezes deixa
atônitos seus amigos e conhecidos com suas observações
perspicazes e imparciais sobre a estrutura de sua interação”
(BERGER, 2012, p. 15). Ganhou reputação no início da
carreira observando e ouvindo o que os outros diziam e
faziam relatando suas reflexões em diversos ensaios, foca-
do nas microestruturas dos significados gerados nas ações
rotineiras. Suas descrições, feitas sempre de modo seco
e inexpressivo compreendia mesmo as ações rotineiras
que permitem ao sujeito um desempenho competente e
irrefletido foram obtidos através de processos complexos
(BERGER, 2012). Como um grande observador, em sua
visita ao Brasil manteve uma postura cordial e um tanto
excêntrica, ficando impressionado com a atuação gestual
dos brasileiros que comparou com a dos italianos, preocu-
pando-se com as etiquetas e rituais de interação para não
cometer gafes e impropriedades (VELHO, 2002).

3.6. Principais obras


Duas obras marcaram e informaram toda a carreira de
Goffman, uma pesquisa sobre as interações sociais realizada
nas Ilhas Shetland que resultou no livro “as representações
do Eu na vida cotidiana” (1985) e o estudo que realizou em
um hospital psiquiátrico, que dentre outras análises, gerou
o livro “Manicômios, Prisões e Conventos” (2005), e ainda,
“Estigma” (2008). Essas obras passaram a ser conhecidas no
Brasil no final dos anos 60, época em que o país passava
por violenta repressão política e com isso a radicalização
teórica nas ciências sociais profundamente influenciada pelo
estruturalismo e marxismo, que apenas eram aliviadas com
a sociologia norte-americana, especificamente da “Escola
de Chicago” (VELHO, 2002).

94
O primeiro livro de Goffman, resultado de sua tese de
doutorado, foi um sucesso de vendas, traduzido no Brasil
como a “representação do Eu na vida cotidiana” o que gera
um certo embaraço (GASTALDO, 2008), pois ocultou e
modificou dois sentidos importantes para a sociologia de
Chicago que é a noção de Self que vem sendo veio sendo
desenvolvida a partir de Georg Mead (1934) e presentation
– apresentação – que foi traduzida como representação. A
análise de Georg Mead o self – o “eu” – é constituído em
um processo de interação entre os diversos sujeitos, sendo
assim, um objeto do estudo sociológico que deveria con-
siderar o mundo que vivemos ao mesmo tempo simbólico
e físico. Desta forma o processo pelos quais os sujeitos
determinam suas condutas é composta pelo mundo físico
e pelas construções de significações do mundo, de nossas
ações, dentro de uma cultura comum, com um conjunto de
valores e sentidos orientam a maior parte de nossas ações
e, em certa medida, permitem prever o comportamento
de outros indivíduos (COULON, 1995a).
Ainda nesta obra Goffman trata da noção de “defi-
nição de situação”, noção originaria da obra de Willian
Thomas onde se analisa o processo do qual atribui-se
sentido “ao contexto vivido, da resposta que cada um dá à
seguinte pergunta: o que está acontecendo aqui agora?”(-
GASTALDO, 2008, p. 150).

Um exemplo atual dessa tradição pode ser en-


contrado em algumas doutrinas da psicologia
social e no dito de W.I. Thomas: “se as pessoas
definem as situações como reais, elas são reais em
suas consequências”. Esta afirmação é verdadeira
em sua formulação literal, mas falsa na maneira
como é interpretada. Definir situações como
reais tem certamente consequência, mas estas
só podem ter incidência muito marginal sobre
os acontecimentos em curso; em alguns casos,

95
apenas um ligeiro constrangimento sobrevoa
o cenário como expressão de uma moderada
inquietação para os que tentaram definir a si-
tuação erroneamente. Presumivelmente deve-se
quase sempre buscar uma “definição de situa-
ção”, mas normalmente os que estão envolvidos
na situação não criam esta definição, embora
frequentemente se possa dizer que a sociedade
a que pertencem o faz; ordinariamente, tudo
que eles fazem é avaliar corretamente o que
a situação deveria ser para eles e então agir de
acordo. (GOFFMAN, 2012, p. 23)

Definir a situação que está passando é fundamental


para vida em sociedade, a definição equivocada da situação
pode gerar, entre outras coisas, constrangimento para os
envolvidos, de tal modo, que cada situação espera-se um
comportamento. Diante de uma situação de velório, um
comportamento jocoso e festivo será visto como inade-
quada.Todavia, existem diferentes maneiras de definir uma
mesma situação, por isso ela permeada por relações de
poder, ou seja, quem tem o poder definir qual é a situação.
Por exemplo, a venda e consumo de maconha pode ser
tratada e definida de diversos modos pelos diversos sujeitos
envolvidos nessa prática, os médicos podem definir de um
modo, o sistema de justiça criminal de outro, o policial
diante da situação particular de outro. A forma legitima da
definição da situação dependerá de uma luta pelo poder de
definição no caso em concreto, pois diante de uma roda de
usuários de maconha, a fala moralista de um médico seria
vista como um comportamento inadequado.

A ordem interacional possuía uma substância real


e concreta, uma vez que situa-se empiricamente
entre a invisível vida mental dos indivíduos e os
padrões abstratos da estrutura social.A vida social
para Goffman possui uma rotina cotidiana na

96
qual os indivíduos se encontram constantemente
expostos uns diante dos outros, propiciando a
partir dos encontros de co-presença situações de
amizade, cortesia, animosidade, conflito, atração,
repulsão, formação de impressão sobre os outros
e constante controle do próprio comportamento
nas situações interacionais. (MARTINS, 2011,
p. 234)

Essa perspectiva in_teracional ressaltando a natureza


simbólica da vida social está presente em toda a obra de
Goffman, dedicada a observar as pequenas relações que
ocorrem no cotidiano, com seus interlocutores produzindo
significações sociais dessas interações, enfim, os métodos
que os indivíduos utilizam para dar sentido a sua vida. Go-
ffman utilizou criativamente diversos autores das ciências
sociais (GASTALDO, 2008), como o resgate e aprimora-
mento noção de “coerção social”, categoria fundamental
de Durkheim, especialmente na ideia de “punição indireta”
para pensar o constrangimento. Quando por exemplo o
sujeito comete uma gafe, “perder a face” (GOFFMAN,
2011), que nas categorias de Goffman significa perder a
fachada que sustenta os indivíduos em cada situação. Essa
criatividade é o que permite o amplo uso de suas catego-
rias e análises, pois como veremos, ela não desconsidera
os aspectos estruturais, todavia, lhe interessa refletir através
do olhar etnometodológico, tratando as situações rotinei-
ras como verdadeiros universos sociais de análise. Com
isso permitem informar elementos e relações estruturais,
pois, ao atribuir os sentidos das interações face a face em
situações definidas – por exemplo: abordagem policial ou
audiência criminal –, ou ainda, pensando a subjetivação
e as diversas transformações e apresentações do “eu” em
processos interacionais, institucionalizados – instituições
totais (GOFFMAN, 2005) –, com estigma (GOFFMAN,
2008) ou no cotidiano (GOFFMAN, 1985).

97
Assim, Goffman (1985, p.11) ao estudar as represen-
tações do “eu” na vida cotidiana afirma: “A informação a
respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando
os outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele
esperará deles e o que dele podem esperar.” Aí incide um
dos elementos a serem analisados na chamada “seletivi-
dade” do sistema de justiça criminal e de seus operadores
– aplicadores de regras (BECKER, 2009), pois, as regras
a serem aplicadas, fundadas em moralidades empreendidas
por diversos interesses, são recorrentemente associadas a
populações especifica. Por isso que se o indivíduo for
desconhecido, os elementos utilizados para informar sobre
o sujeito poderão ser obtidos pela conduta e aparência.
Os sujeitos rotulados como outsiders são desconheci-
dos no nível físico, todavia, não no nível simbólico, pois os
operadores dessas regras podem a partir de diversas indi-
cações – de periculosidade – estabelecidas pelas demandas
empreendidas por uma determinada ordem e moralidade.
Assim, por exemplo, no processo de proibição das drogas,
os alvos dos empreendedores morais para a proteção da
vida e proteção bons costumes eram sempre grupos étni-
cos minoritários relação de poder. Assim, a maconha vista
como a “vingança da África” no Brasil, e de forma muito
semelhante em relação aos mexicanos nos Estados Unidos,
ou ainda, em relação aos chineses e negros com o ópio
e a heroína (MACRAE; SIMÕES, [s.d.]; ROSA, 2012;
SOUZA; MORAES, 2014). E a partir da observação de
comportamentos e estereótipos baseado nas experiências –
simbólicas – anteriores que permitam a aplicação da norma
através de um processo automático fundado no estigma.

Se o indivíduo lhe for desconhecido, os obser-


vadores, podem obter, a partir da sua conduta e
aparência, indicações que lhes permitam utilizar
a experiência anterior que tenham tido com

98
indivíduos aproximadamente parecidos com este
que está diante deles ou, o que é mais impor-
tante, aplicar-lhe estereótipos não comprovados.
(GOFFMAN, 1985, p.11)

Através dessa reflexão, estabelecendo a abordagem


policial como uma situação definida por um processo de
interação constituído por diversos elementos e fachadas
específicas para os sujeitos que ali estão. A forma de abor-
dagem dependendo exatamente desse processo que se tem
uma previsão da atuação e dos sujeitos envolvidos, e, assim
como ao entrar em um velório estabelecerá uma série de
comportamentos específicos, ao abordar jovens consumindo
maconha em uma praça, será surpreendido se entre os jo-
vens estiver o “filho de Coronel”, situação que gerará uma
quebra de fachada e constrangimento pela má definição da
situação, mas também estratégias e práticas para recuperar
a fachada e terminar adequadamente essa interação.
As formas de identificação e classificação das pessoas
em uma sociedade passam por um processo de saber e
exercício de poder que estabelece um padronização do
que é o normal e o indesejado, problemático, o outsider.
Neles o desvio apontado se torna um traço principal e ao
confrontar o normal – ou seja aqueles que não frustram
negativamente as expectativas que estão em discussão – com
essa pessoa que possui um estigma, podem ocorrer diversas
formas de discriminação.

São bem conhecidas as atitudes que nós, os nor-


mais, adotamos para uma pessoa que possuí algum
estigma, (...). Cremos, por definição, desde logo,
que a pessoa que tem um estigma não é totalmente
humana.Valendo-nos desta suposição praticamos
diversos tipos de discriminação, que reduzimos
na prática, ainda que um pouco sem pensar, suas
possibilidades de vida. Construímos uma teoria do

99
estigma, uma ideologia para explicar sua inferio-
ridade e dar conta do perigo que representa essa
pessoa, racionalizando as vezes uma animosidade
que baseia outras diferenças, como por exemplo, a
classe social. Em nosso discurso cotidiano utiliza-
mos como fonte de metáforas e imagens definições
especificamente referidos ao estigma, tal como
inválido, bastardo e tarado, sem notar, em geral,
do seu significado real. (GOFFMAN, 2008, p.17)

Para a pessoa estigmatizada existe uma insegurança


acerca do modo como os outros vão identifica-los e re-
cebê-los, assim o estigma que gera a insegurança relativa
ao status social, somado a insegurança laboral, acaba por
prevalecer sobre uma grande variedade de interações sociais.
A incerteza do estigmatizado existe não só porque desco-
nhece em que categoria ele será classificado, mas também
porque desconhece a reação ao seu estigma, deste modo,
pode defini-lo em função de seu estigma. Assim, embora,
estigmatizado possa em uma interação não ser discriminado
pelo estigma, este ainda pode acompanha-lo, pois ele ainda
pode sentir, em seu foro íntimo, que, no fundo, os outros o
veem pelo estigma. Deste modo o estigmatizado pode exi-
lar-se da sociedade, passando a ser uma pessoa desacreditada
frente a um mundo que não o aceita. (GOFFMAN, 2008)
Como o mesmo olhar aguçado Goffman olha para
as situações de desvios em locais fechadas, em instituições
como hospitais, prisões e conventos que ele define como
instituições totais. Instituições “muradas” que possuem
como característica que “parte das obrigações do indiví-
duo é participar visivelmente, nos momentos adequados,
da atividade da organização, o que exige uma mobilização
da atenção e de esforço muscular, certa submissão do eu à
atividade considerada” (GOFFMAN, 1987, p. 150).
Com suas análises Goffman permite pensar diversas
instituições, não só as que nomeiam o livro, mas também

100
o exercito, polícia militar e as atuais clinicas de recupera-
ção de usuários de drogas. Essa imersão nas atividades de
organização são tidas como um símbolo do compromisso,
produzindo sujeitos por meio de coerção, o poder age
sobre o corpo e subjetividade do indivíduo.(BENELLI;
COSTA-ROSA, 2003)

usar a atividade de seus participantes (...), tam-


bém delineia quais devem ser os padrões oficiais
de bem-estar, valores conjuntos, incentivos e
castigos. Tais concepções ampliam um simples
contrato de participação numa definição da
natureza ou do ser social do participante. (...)
Portanto, nas disposições sociais de uma orga-
nização, se inclui uma concepção completa do
participante - e não apenas uma concepção
dele como e enquanto participante - mas, além
disso, uma concepção dele como ser humano
(GOFFMAN,1987, p. 152-153).

Assim, as instituições totais formam os indivíduos pela


concepção que criam sobre as suas identidades: colabo-
rar motivados por prêmios ou castigos, independente de
identificarem ou não com os objetivos da instituição. Da
mesma forma que alguns aplicadores de regras, que inde-
pendente da sua opinião sobre a norma, vai defende-la, pois
é a sua existência que garante o sentido de sua atividade. E
fará isso muitas vezes incorporando uma razão de Estado
(FOUCAULT, 2008), naturalizando suas visões do que é
correto e aceitável a ponto de se tornarem imperceptíveis,
invisíveis, todavia, reais e efetivas (BENELLI; COSTA-
-ROSA, 2003), podendo observar “nos pequenos atos da
vida” (GOFFMAN, 1987, p. 153), no nível microfísico
(FOUCAULT, 2013) que podemos verificar sua incidência.
Isso que faz a “Escola de Chicago” perdurar, os autores
compartilhando de uma agenda de pesquisa, caracterizan-

101
do-se por uma “escola de atividade” (BECKER, 1996),
ainda que com teorias diferentes, atuaram sobre objetos
semelhantes o que possibilita uma reflexão em conjunto
de suas pesquisas. Esse segundo momento da “Escola de
Chicago” ofereceu um passo importante para o estudo
do crime em seus diversos âmbitos, principalmente pela
qualidade das análises e pesquisas que possibilitam pensar
situações contraditórias, naturalizadas e imperceptíveis,
o que permitiu dialogar com diversos outros autores das
ciências sociais, sendo até hoje suas pesquisas e conceitos
uteis para se pensar a sociedade, processos de acusação, ro-
tulação, estigmatização, desvio, as instituições e operadores
do sistema de justiça criminal.

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104
A Criminologia Crítica
a partir do olhar de
Alessandro Baratta 4
4.1. Desconstruindo a ideologia da
defesa social
Ainda hoje o sistema penal é construído e legitimado,
em grande medida, tendo como base os argumentos da
ideologia da defesa social. Este ainda é o sistema de ideias
dominante, não apenas na ciência jurídica contemporânea,
como nas opiniões comuns. Ela parte da compreensão de
que a criminologia é uma ciência causal-explicativa da
criminalidade, assumindo como tarefas a explicação das
causas da criminalidade e a necessidade de prever os remédios
para combatê-la, segundo um método científico experi-
mental e com o auxílio das estatísticas criminais oficiais
(ANDRADE, 2003, p. 35).
Neste sentido, o desvio criminal seria um mal a ser
evitado por meio de uma reação legítima da sociedade:
a política criminal. Portanto, a ideologia da defesa social
compreende a criminalidade como uma realidade onto-
lógica e anterior ao Direito Penal, cabendo a este apenas
identificá-la e positivá-la (princípio do delito natural),
sendo possível descobrir as causas do crime e colocar a
ciência a serviço do seu combate, em defesa da sociedade
(ANDRADE, 2003, p. 35).
Historicamente este sistema de pensamento serviu
para justificar e racionalizar o sistema de controle social em

105
geral – e o repressivo em particular – concedendo a eles
seu status de cientificidade e de legitimidade, na medida
em que serviria para proteger os “interesses sociais gerais”
contra a violência perpetrada por uma “minoria criminosa
e patologicamente orientada” (PAVARINI, 2002, p. 50).
Ainda que a filosofia política liberal clássica na Europa
no século XVIII e até meados do século XIX tenha con-
tribuído para a fundação principiológica do direito penal
e, portanto, da ideologia da defesa social, o ápice desta se
deu com a emergência da criminologia positivista como
um discurso científico autônomo dotado de um objeto (o
indivíduo delinquente) e um método (experimental-in-
dutivo) próprios.
Desta maneira, a criminologia positivista se dedicou a
investigar as causas da delinquência por meio de extensivas
pesquisas realizadas em indivíduos recolhidos em institui-
ções de reclusão como prisões, manicômios judiciários e
delegacias de polícia.
Cesare Lombroso foi o primeiro cientista de uma
longa linhagem de criminólogos positivistas. Partindo de
métodos de observação e experimentação que envolviam
a comparação entre características bioantropológicas – tais
como dimensões e formato do crânio, rosto, olhos, orelhas,
dentre outros órgãos e membros – presentes em grupos de
pessoas consideradas criminosas e grupos de pessoas con-
sideradas não criminosas, ele chegou ao resultado de que
as causas da criminalidade estariam na natureza biológica
do próprio ser humano.
O avanço deste modelo teórico permitiu que a ideo-
logia da defesa social se desenvolvesse solucionando dois de
seus possíveis impasses ao mesmo tempo: primeiro, conferir
racionalidade e cientificidade a seu discurso; e, segundo,
garantir legitimidade ao sistema de repressão criminal.
Isso porque, para que o sistema repressivo fosse legi-
timado, era necessário que a ação criminal fosse valorada

106
como uma ação social moralmente negativa. No momento
em que a criminologia positivista, por meio de seu método
científico, afirma o caráter patológico do crime, ela retira
desta conduta qualquer racionalidade que ela possa ter5.
O autor de crime não é mais visto como um ser dotado
de vontade racional, mas sim como portador de um dese-
quilíbrio, uma doença que o torna socialmente perigoso
(PAVARINI, 2002, p. 50-51).
Deste modo, a ideologia da defesa social assume o
papel de justificar e racionalizar o sistema normativo e
dogmático do direito penal moderno, criando a imagem
de que este sistema de ideias representaria um grande pro-
gresso frente às concepções mistificantes e teologizantes
que dominavam o direito penal pretérito. Todavia, ainda
que esta imagem não seja falsa, ela esconde o fato de que
a defesa social nasceu contemporaneamente à revolução
liberal e se sustentou como correlativo ideológico do sis-
tema jurídico-penal burguês.
Isto se verifica claramente com a análise dos princí-
pios que orientam e sustentam o conteúdo da ideologia
da defesa social. Estes princípios foram sumariados por
Alessandro Baratta (2002 p. 42) da seguinte maneira: 1)
princípio da legitimidade, segundo o qual o Estado, como
expressão da sociedade, por meio de suas instâncias oficiais
de controle social, é o ente legitimado para reprimir a
criminalidade (defender a sociedade); 2) princípio do bem e
do mal, que toma o desvio criminal (crime e criminoso)
como o mal, enquanto a sociedade constituída é o bem
(figura do “cidadão de bem”, por exemplo); 3) princípio da

Por exemplo, até mesmo delitos que envolvam uma ação política,
5

como aqueles atribuídos a grupos anarquistas, sindicalistas, movi-


mentos sociais, etc., passam a ser vistos pela criminologia positivista
como desprovidos de qualquer natureza racional ou intencionali-
dade política, sendo apenas fruto da ação de um indivíduo louco
ou desequilibrado (PAVARINI, 2002, p. 50).

107
culpabilidade, para o qual o delito é expressão de uma atitude
interior reprovável contrária a valores sociais mesmo que
ainda não transformados em lei; 4) princípio da finalidade
ou prevenção, que trata a pena como tendo não apenas uma
função retributiva, mas também uma função de preven-
ção de outros crimes, seja pela contramotivação da norma
penal em abstrato (prevenção geral), seja pelo processo de
ressocialização (prevenção especial); 5) princípio do interesse
social e do delito natural, segundo o qual os interesses prote-
gidos pelo direito penal são interesses comuns a todos os
cidadãos e condições essenciais à existência da sociedade,
são uma realidade ontológica anterior ao direito penal, que
nada mais faz que positivá-la.
Um último princípio que ainda deve ser destacado é
o da igualdade. A ideologia da defesa social propõe que o
direito penal protege igualmente todos os cidadãos contra
as ofensas aos interesses sociais e que a aplicação do direi-
to penal é igual para todos, na medida em que quaisquer
violadores das normas jurídicas teriam a mesma chance
de se tornarem sujeitos dos processos de criminalização
(BARATTA, 2002, p. 42, 162). Isso significaria dizer, por
exemplo, que ricos e pobres são igualmente atingidos
pelo direito penal e que criminosos de colarinho branco
e pequenos delinquentes de rua têm as mesmas chances
de serem submetidos aos rigores da lei penal, processual
penal e de execução penal.
Estes princípios – ou mitos – são aqueles que expres-
sam o núcleo central da ideologia da defesa social e que
embalam uma parcela considerável dos discursos oficiais e
extraoficiais sobre políticas criminais6. A crença na capaci-

“Esse paradigma, com a qual nasceu a Criminologia como ciência


6

no final do século XIX, liberta-se assim, se suas condições originárias


de nascimento para se transnacionalizar em grande escala, perma-
necendo, não apenas na Europa, na base de posteriores desenvolvi-
mentos da disciplina, inclusive os mais modernos que, à indagação

108
dade, atual ou futura, de punir igualmente todos os crimes;
a crença na capacidade preventiva da pena; na naturalidade
do direito penal; na maldade intrínseca aos violadores das
leis penais; dentre outras são peças chave para os discursos
punitivistas que ainda ecoam na sociedade.
Todavia, há alguns anos surgiu no âmbito da sociolo-
gia jurídica um novo paradigma criminológico, orientado
pelo método materialista, que procurava uma resposta
diferenciada aos modelos liberais, tais como o da defesa
social.Talvez o principal representante desta mudança sejam
as teses da chamada criminologia crítica iniciadas a partir de
estudos publicados nos Estados Unidos e Inglaterra desde
a década de 19607.

sobre as causas da criminalidade, forneceram respostas diferentes


das antropológicas e sociológicas do positivismo originário e que
nasceram, em parte, da polêmica com ele (teorias explicativas de
ordem psicanalítica, psiquiátrica, multifatoriais, etc.)” (ANDRADE,
2003, p. 39).
7
Como bem resumido por Shecaira (2014, p. 284-285), “A teoria
crítica – também denominada por muitos como radical – tem sua
origem mediata no livro Punição e estrutura social de Georg Rusche
e Otto Kichheimer. O livro veio a lume em Nova York, já que seus
autores tinham sido obrigados a emigrar em função da perseguição
nazista. [...] Em 1967 o livro de Rusche e Kirchheimer é republicado
nos Estados Unidos, servindo de referência para os autores que o
mencionariam em seus estudos nos anos [19]70. A partir daí, con-
comitantemente nos Estados Unidos e na Inglaterra, muitos autores
começam a reescrever a criminologia de matiz etiológica, criando
aquilo que também seria denominado de “nova criminologia”. O
movimento anglo-americano irradia-se, quase de imediato, por toda
Europa. Os dois primeiros movimentos dessa retomada do livro de
Rusche e Kirchheimer que nasceram foram: o da Universidade de
Berkeley (Califórnia, EUA), surgido precipumenteentre professores
e alunos da sua escola de criminologia e que se denominou Union
of Radical Criminologists (URC), com grande influência de H. E
J. Schwendinger e T. Platt; e o movimento inglês, organizado em
torno da National Deviance Conference (NDC), encabeçados por
I. Taylor, P. Walton e J. Young, autores dos mais conhecidos livros
sobre o assunto (The new criminology: for a social theory of deviance,
de 1973 e Critical criminology, de 1975)”.

109
4.2. A criminologia crítica e o novo
método de aproximação do fenômeno
do crime
A principal transformação proposta pela criminologia
crítica foi a mudança de olhar que o método materialista
permitiu: todo sistema penal é fruto de uma estrutura eco-
nômico-social correspondente. Em outras palavras, nem o
crime, nem os processos de criminalização e de punição
devem ser vistos fora do modo de produção determinado
no qual estão inseridos – no caso do direito penal liberal,
do modo de produção capitalista.
Contudo, como alerta Baratta (2002, p. 159), isso
não significa uma recepção direta e acrítica do enfoque
materialista que se resuma a uma interpretação direta dos
textos marxianos sobre o tema. O trabalho da criminologia
crítica envolve um profundo trabalho de observação empí-
rica que consiga, ao mesmo tempo, perceber construção e
operacionalização do sistema penal no interior do sistema
econômico capitalista. Em suas palavras,

Quando falamos de “criminologia crítica” e,


dentro deste movimento tudo menos que ho-
mogêneo do pensamento criminológico con-
temporâneo, colocamos o trabalho que se está
fazendo para a construção de uma teoria mate-
rialista, ou seja, econômico-política, do desvio,
dos comportamentos socialmente negativos e da cri-
minalização, um trabalho que leva em conta ins-
trumentos conceituais e hipóteses elaboradas no
âmbito do marxismo, não só estamos conscientes
da relação problemática que subsiste entre crimi-
nologia e marxismo, mas consideramos, também,
que uma semelhante construção teórica não
pode, certamente, ser derivada somente de uma
interpretação dos textos marxianos, por outro
lado muito fragmentários sobre o argumento

110
específico, mas requer um vasto trabalho de
observação empírica, na qual já se podem dizer
adquiridos dados assaz importantes, muitos dos
quais foram colhidos e elaborados em contextos
diversos do marxismo (p. 159).

Mais do que isso, o aporte materialista não signi-


ficaria, também, ignorar o desenvolvimento que teve a
sociologia criminal burguesa ao longo do século XX.
Pelo contrário, muitas hipóteses e instrumentos teóricos
da teoria marxista foram empregados pela criminologia
crítica para ultrapassar os limites teóricos de determinadas
abordagens, reinterpretando seus resultados (BARATTA,
2002, p. 160).
Neste sentido, merecem destaque dois deslocamentos
teóricos incorporados pela criminologia crítica por meio
desta leitura materialista da sociologia criminal dos anos
1930 em diante, quais sejam: 1) em vez da tradicional
abordagem visando o indivíduo criminoso, o enfoque nas
condições objetivas, estruturais e funcionais que estão na origem
do desvio; 2) o deslocamento do interesse nas causas do
desvio, para o debate em torno dos mecanismos por meio
dos quais são criadas as definições de desvio e de crime,
bem são operacionalizados os processos de criminalização
(BARATTA, 2002, p. 160).
A criminologia crítica, deste modo, constrói seu mo-
delo analítico não buscando as causas da criminalidade e
suas respostas, mas sim compreender os chamados processos
de criminalização, ou seja, os processos a partir dos quais de-
terminadas condutas são definidas como criminosas e outras
não, e determinados sujeitos são criminalizados enquanto
outros não – o enfoque, ou paradigma, da reação social.
Esta abordagem deve-se, em grande parte, às con-
tribuições recebidas pelas teses do labeling approach, ou
enfoque do etiquetamento. Esta teoria, modelada a partir

111
do interacionismo simbólico e pela etnometodologia8, não
centra suas análises no comportamento desviante, mas sim no
comportamento rotulado como desviante.
O labeling approach demonstra que importa menos a
ação que o status atribuído à ela. Em suma, o desvio não
é uma qualidade intrínseca da conduta, mas uma etiqueta
atribuída a determinados sujeitos através de complexos pro-
cessos de interação social. Portanto, trata-se de uma teoria
que se preocupa mais com os processos de definição dos
desviantes do que pela própria natureza do ato desviante.
Nas palavras de Becker (2008, p. 21-22)

Grupos sociais criam desvio ao fazer as regras cuja


infração constitui o desvio e, ao aplicar essas regras
a pessoas particulares e rotulá-las como outsiders.
Desse ponto de vista, o desvio não é uma qualidade
do ato que a pessoa comete, mas uma consequên-
cia da aplicação por outros de regras e sanções a
um “infrator”. O desviante é alguém a quem esse
rótulo foi aplicado com sucesso; o comportamento
desviante é aquele que as pessoas rotulam como tal.

Assim, por exemplo, ao considerarmos, lado a lado,


uma pessoa que praticou um furto e uma que praticou um
crime contra a ordem financeira, o primeiro é rotulado
como criminoso ao passo que o segundo não. Do mesmo
modo, em dois casos idênticos de furto praticados por pes-
soas de classes sociais diferentes, poderíamos ter o indivíduo
de classe mais baixa rotulado como delinquente, enquanto
o de classe mais alta como cleptomaníaco. Os tratamentos
conferidos pela legislação penal e pelo sistema de justiça
criminal são completamente distintos nos dois casos.
Outro exemplo, mais significativo, é percebido na
pesquisa de Laura Frade (2007) sobre as representações do

Cf. Capítulo 3 desta obra.


8

112
legislativo federal brasileiro acerca do crime e criminalidade.
Segundo os dados analisados, a visão dos congressistas é
a de que crime está relacionado com baixa escolaridade,
sujeira, inferioridade, indisciplina, desocupação, doença,
desordem, etc.
Deste modo, verifica-se que quando pensam em crime,
eles não pensam em crimes de colarinho branco, corrupção,
enfim, crimes praticados pela elite, ainda que esteja previsto
em lei. Nas palavras da pesquisadora:

A baixa instrução figurou como o principal


atributo dos criminosos. Considerando-se que
[...]: 1) os elaboradores da lei, objeto da amostra,
possuem em sua maioria uma alta instrução; 2)
que apenas dois projetos de lei sobre os “crimes
do colarinho branco” foram apresentados duran-
te a legislatura sob exame e que nesses crimes
prevalece a atuação de profissionais graduados
e que 3) praticamente nenhuma referência foi
feita nas entrevistas sobre os crimes praticados
dentro do próprio Congresso Nacional, é razo-
ável supor que os parlamentares não vinculem
a eles próprios a ideia de criminalidade. Parece
haver uma correlação indireta do crime com as ca-
madas menos favorecidas, não com a elite – com a
qual os parlamentares parecem se identificar. Ou
seja, crime é coisa “de pobre”. (2007, p. 101-102)
(grifos nossos)

Fica evidente, portanto, que a caracterização do que


seja considerado crime ou criminalidade depende de uma
rotulação, um etiquetamento, daquele que passa a ser um
cliente constante do sistema penal. Por isso, a teoria do la-
beling approach é classificada como uma teoria da reação social
por buscar compreender as razões pelas quais a sociedade
reage negativamente diante de determinadas condutas e,
especialmente, pessoas.

113
Neste sentido, Baratta afirma que

esta direção de pesquisa [labeling approach] parte da


consideração de que não se pode compreender a
criminalidade se não se estuda a ação do sistema
penal, que a define e reage contra ela, começando
pelas normas abstratas até a noção de instâncias
oficiais (polícia, juízes, instituições penitenciárias
que as aplicam), e que, por isso, o status social de
delinquente pressupõe, necessariamente o efeito
da atividade das instâncias oficiais de controle
social da delinquência, enquanto não adquire esse
status aquele que, apesar de ter realizado o mesmo
comportamento punível, não é alcançado, todavia,
pela ação daquelas mesmas instâncias (2002, p. 86).

Desta maneira, o labeling approach ultrapassa os ques-


tionamentos acerca das causas do crime e dos mecanismos
para seu controle e prevenção (defesa social), para chegar a
um debate acerca do modo pelo qual o sistema penal reage
de maneira diferente conforme o status daquele rotulado
como criminoso (reação social). Como sintetiza Andrade,

Desta forma, ao invés de indagar, como a cri-


minologia tradicional, “quem é criminoso?”,
“por que é que o criminoso comete crime?”, o
labeling [approach] passa a indagar “quem é defi-
nido como desviante?”,“por que determinados
indivíduos são definidos como tais?”, “em que
condições um indivíduo pode se tornar objeto
de uma definição?”, “que efeito decorre desta
definição sobre o indivíduo?”, “quem define
quem?” e, enfim, com base em que leis sociais
se distribui e concentra o poder de definição?
(2015, p. 207-208)

Diante desta completa ruptura epistemológica e me-


todológica com a criminologia tradicional, os estudos do

114
labeling approach se desenvolveram em dois níveis de inves-
tigação: um relativo ao impacto da atribuição do status de
criminoso na “identidade desviante”, ou seja, o efeito da
aplicação da etiqueta de “criminoso” sobre a identidade
do indivíduo etiquetado; e o segundo com vistas a inves-
tigar o processo de atribuição da qualidade de criminoso
a determinados tipos de comportamentos, bem como da
distribuição do poder social de definição da conduta des-
viada (BARATTA, 2002, p. 89).
Especialmente a partir deste segundo nível de inves-
tigação que se estabelece a conexão entre as análises do
labeling approach e as propostas da criminologia crítica. Neste
âmbito são debatidos os processos de definição de determi-
nada conduta como criminosa (criminalização primária),
bem como os processos de definição de uma pessoa, cujo
comportamento corresponda à conduta tida como crimi-
nosa, como desviante (criminalização secundária). Ambos
fazem parte de um processo amplo de interpretação social
da conduta desviante e do indivíduo considerado desviante,
um tipo de análise que deixa claro que estes processos de
interpretação são muito mais decisivos para a produção
da delinquência que a própria conduta individual em si.
Como demonstra Andrade,

A “criminalidade” se revela, principalmente,


como um status atribuído a determinados indiví-
duos, mediante uma dupla seleção: em primeiro
lugar, pela seleção dos bens jurídicos penalmente
protegidos e dos comportamentos ofensivos a
estes bens, descritos nos tipos penais; em segundo
lugar, pela seleção dos indivíduos estigmatizados
entre todos aqueles que praticam tais compor-
tamentos (2015, p. 218)

Todavia, o ponto central que promoveria a virada entre


o enfoque do etiquetamento para uma criminologia crítica

115
seria a sua incapacidade de teorizar a reação social a partir do
estudo das razões estruturais que sustentam o processo de defi-
nição e rotulação em meio a uma sociedade de classes.Assim,
a utilização do paradigma da reação social, mesmo sendo uma
condição necessária, não é suficiente para qualificar como
crítica uma criminologia (ANDRADE, 2002, p. 47-48).
Entretanto, reconhecer os limites das teorias do labeling
approach não conduziu à sua negação pela criminologia
crítica, mas à reafirmação de seus resultados e à sua comple-
mentação na direção de suprir os déficits da compreensão
acerca dos condicionamentos estruturais dos crimes e das
punições (ANDRADE, 2015, p. 216).

4.3. Do labeling approach à criminologia


crítica: a seletividade do sistema de
justiça criminal
Nesta direção, um dos enfoques centrais da crimino-
logia crítica foi a negação radical do princípio (mito) de
igualdade que rege o direito penal liberal e a ideologia da
defesa social. Se vivemos em uma sociedade de classes na
qual vigora uma desigualdade estrutural, como imaginar
um direito igualitário que proteja todos os cidadãos sem
distinção e que trate todos os violadores de normas da
mesma maneira e com as mesmas chances?
De fato, o que irá afirmar a criminologia crítica, nota-
damente a partir da releitura de pesquisas empíricas sobre
o sistema de justiça criminal a partir de pressupostos ma-
terialistas, é que a lei penal não é igual para todos e nem
atinge a todos igualmente. Muito menos os bens jurídicos
tutelados seriam representações dos interesses sociais co-
muns a todos os indivíduos.

O sistema penal de controle do desvio revela,


assim como todo o direito burguês, a contradi-

116
ção fundamental entre a igualdade formal dos
sujeitos de direito e [a] desigualdade substancial
dos indivíduos, que, neste caso, se manifesta em
relação às chances de serem definidos e controla-
dos como desviantes. Em relação a este setor do
direito a ideologia jurídica da igualdade é ainda
mais radicada na opinião pública, e também na
classe operária, do que ocorre com outros setores
do direito (BARATTA, 2002, p. 164)

Inicialmente algumas pesquisas realizadas sob o en-


foque da reação social9 já demonstravam dois pontos que
dizem muito sobre o sistema penal burguês: a investigação
sobre a chamada cifra oculta da criminalidade e as pesquisas
sobre a criminalidade de colarinho branco.
No primeiro caso demonstrou-se que a criminalidade
real é muito maior que a oficialmente registrada. Ou seja,
para cada crime registrado existem possivelmente centenas
de outros que não o são e que fazem parte do cotidiano das
sociedades ocidentais. Desta forma, o crime não pode ser
mais visto como um fenômeno de uma minoria patológica
e violenta, mas sim algo que faz parte do comportamento
das maiorias.
Com relação aos crimes de colarinho branco, perce-
beu-se que na maior parte das vezes estes não são subme-
tidos a um processo de criminalização deixando impunes
aqueles que os praticam. São crimes que, em larga escala,
fazem parte da cifra oculta da criminalidade10.
Estes dois exemplos dizem muito sobre a lógica de
operação sistemática do direito penal capitalista. A partir
destas noções, a criminologia crítica percebe que o sistema
penal criminaliza seletivamente determinados grupos so-

Cf. BARATTA, 2002, P. 101 e segs.


9

Para uma análise mais aprofundada deste tema cf. Capítulo 2 desta
10

obra e SUTHERLAND, 2015.

117
ciais. Assim, não é possível considerá-lo como um sistema
que atua de maneira isonômica sobre todas as pessoas e
delitos, ao contrário, ele protege os interesses sociais das
classes dominantes e também contribui para a reprodução
dessa relação – constituindo-se esta sua verdadeira finali-
dade, ainda que não declarada (BATISTA, 2002, p. 116).
Neste sentido, Baratta (2002, p. 162) afirma que “o
status de criminoso é distribuído de modo desigual entre os
indivíduos” e conclui que, contrariamente a toda aparência,
o direito penal “é o direito desigual por excelência”.
Diante disso, fica evidente que existe um elemento
estrutural mais profundo que afeta os processos de cri-
minalização – ou seja, de interpretação de uma conduta
como criminosa e de um indivíduo como praticante desta
conduta – descritos pelo labeling approach. Estes processos
operam por meio de uma seleção desigual de indivíduos
tendo como referência o seu status social.
Andrade (2003, p. 51) destaca que esta seletividade do
sistema penal – que mantém uma maioria criminal regu-
larmente impune, especialmente das classes altas, enquanto
garante regular criminalização para a minoria criminal po-
bre – se deve fundamentalmente a duas variáveis estruturais.
Em primeiro lugar, à incapacidade estrutural de o
sistema operacionalizar, por meio das agências do sistema
de justiça criminal, toda a programação da Lei penal – dada
a extensão de sua abrangência, atrelada à possível catástrofe
social11 que seria caso o sistema penal concretizasse todo o
seu poder criminalizante. Deste ponto de vista a impuni-
dade, e não a criminalização, é a regra no funcionamento
do sistema penal (ANDRADE, 2003, p. 51)

“Se todos os furtos, todos os adultérios, todos os abortos, todas as


11

defraudações, todas as falsidades, todos os subornos, todas as lesões,


todas as ameaças, etc. fossem concretamente criminalizados, prati-
camente não haveria habitante que não fosse, por diversas vezes,
criminalizado” (ZAFFARONI, 2001, p. 26).

118
[...] se o sistema penal tivesse realmente o poder
criminalizante programado, provocaria uma ca-
tástrofe social. [...] Diante da absurda suposição
– não desejada por ninguém – de criminalizar
reiteradamente toda a população, torna-se óbvio
que o sistema penal está estruturalmente montado
para que a legalidade processual não opere e, sim,
para que exerça seu poder com um altíssimo
grau de arbitrariedade seletiva dirigida, natural-
mente, aos setores vulneráveis. (ZAFFARONI,
2001, p. 27)

A segunda variável estrutural da seletividade diz res-


peito ao fato de que se os processos de impunidade e
criminalização, não são orientadas pela incriminação igua-
litária de condutas objetiva e subjetivamente consideradas
em relação ao fato crime, são na verdade orientadas pela
seleção desigual de pessoas de acordo com seu status social.
Como afirma Andrade,

Enquanto a intervenção do sistema geralmente


subestima e imuniza as condutas às quais se rela-
cionam com a produção dos mais altos, embora
mais difusos danos sociais (delitos econômicos,
ecológicos, ações da criminalidade organizada,
graves desvios dos órgãos estatais), superestima
infrações relativamente menos danosidade so-
cial, embora de maior visibilidade, como delitos
contra o patrimônio, especialmente os que têm
como autor indivíduos pertencentes aos estratos
sociais mais débeis e marginalizados (2003, p. 52).

Este processo de intervenção seletiva do direito penal


manifesta-se primordialmente me dois momento: 1) pri-
meiramente no momento em que o legislador define quais
os bens que serão tutelados pelo direito penal (seletividade
da criminalização primária, ou seletividade primária); 2) no mo-

119
mento em que as agências de controle social formal (polícia,
ministério público e judiciário) selecionam, por meio de
estereótipos sociais12, os indivíduos que serão submetidos a
um inquérito policial, a um processo penal e a uma con-
denação criminal (seletividade da criminalização secundária, ou
seletividade secundária). (SANCHES, 2002, p. 16).
Este processo atua nos campos da quantidade e da
qualidade. A seletividade quantitativa diz respeito ao número
de condutas rotuladas como criminosas e ao de autores em
relação aos quais é atribuída a condição de criminoso. Já
a seletividade qualitativa relaciona-se com a não inclusão de
todas as condutas socialmente nocivas como criminosas, e
com a não classificação (rotulação) de todos os sujeitos que
praticam atos delituosos como pessoas criminosas (BISSOLI
FILHO, 2002, p. 78-79).
Portanto, ao contrário do que propunham os teóri-
cos do positivismo criminológico, a clientela do sistema
penal é constituída principalmente de pobres não porque
tenham uma maior tendência a delinquir, mas porque possuem
as maiores chances de serem criminalizados e rotulados como
delinquentes (ANDRADE, 2003, p. 54). Algo que, para a
criminologia crítica, possui um nexo direto com o sistema

“A regularidade a que obedece a distribuição seletiva da crimina-


12

lidade tem sido atribuída à leis de um código social (second code,


basic rules) latente e integrado por mecanismos de seleção dentre
os quais tem se destacado a importância central dos ‘estereótipos’
de autores e vítimas além de ‘teorias de todos os dias’ (teorias do
senso comum) dos quais são portadores os agentes do controle social
formal e informal (a opinião pública) além de processos derivados
da estrutura organizacional e comunicativa do sistema penal. E sem
dúvida um mecanismo fundamental dessa distribuição desigual da
criminalidade são os estereótipos de autores e vítimas que, tecidos
por variáveis geralmente associadas aos pobres (baixo status social,
cor, etc.), torna-os mais vulneráveis à criminalização: é ‘o mesmo
esteriótipo epidemiológico do crime que aponta a um delinquente
as celas da prisão e poupa a outro de seus custos’.” (ANDRADE,
2003, p. 53)

120
de dominação de classes e com a desigualdade estrutural
das sociedades capitalistas.

As maiores chances de ser selecionado para fa-


zer parte da “população criminosa” aparecem,
de fato, concentradas nos níveis mais baixos da
escala social (subproletariado e grupos margi-
nais). A posição precária no mercado de trabalho
(desocupação, subocupação, falta de qualificação
profissional) e defeitos de socialização familiar
e escolar, que são características dos indivíduos
pertencentes aos níveis mais baixos, e que na
criminologia positivista e em boa parte da cri-
minologia liberal contemporânea são indicados
como as causas da criminalidade, revelam ser,
antes, conotações sobre a base das quais o status
de criminoso é atribuído (BARATTA, 2002,
p. 165).

Diante disso, deve-se estabelecer a crítica a todos os


princípios basilares à ideologia da defesa social, em especial
os do delito natural e da igualdade. A criminologia crítica
tenta, em primeiro lugar, desnaturalizar a noção de crime
demonstrando que o modo pelo qual determinadas con-
dutas são definidas como crime dependem de interesses
concretos de classe e não são simplesmente afrontas a “in-
teresses e valores sociais majoritários”. Estes são, na verdade,
interesses das classes dominantes com vistas a operar um
controle sobre as classes dominadas.
Ademais, a definição dos crimes, a aplicação e a exe-
cução do direito penal são orientadas por um critério de
seleção desigual dos sujeitos de acordo com seu status social
e não por um princípio de igualdade. A lei penal não é igual
para todos e a qualidade de criminoso não é distribuída igualmente.
A principal variável determinante para a atribuição ou não
do rótulo de delinquente passa a ser a posição ocupada pelo
acusado na escala social.

121
O sistema penal, portanto, não funciona para reprimir a
criminalidade, não visa punir atitudes socialmente prejudiciais, não
previne a prática de novos crimes, nem protege bens jurídicos tidos
como importantes para toda a sociedade e, muito menos, protege ou
atinge a todos igualmente (BARATTA, 2002, p. 162).Antes, este
sistema funciona seletivamente como um instrumento de
proteção e reprodução das relações de dominação de classe.
Portanto, por meio de uma análise mais detida deste fe-
nômeno, percebe-se que, uma vez operando seletivamente, a
conclusão inevitável é que o sistema penal não apenas viola
todos os princípios do Estado de Direito liberal, como ele
está estruturalmente preparado e programado para fazê-lo.
Todavia, se isso é verdade, para que serve então o direito
penal? Quais as funções que ele cumpre?
Para compreender a funcionalidade do sistema penal
tal como colocado na ordem capitalista, é necessário dife-
renciar as suas funções declaradas das funções latentes (ou
não- declaradas). Com base no que já foi demonstrado, há
atualmente uma crise de legitimidade do sistema penal
resultante do déficit do cumprimento das promessas ofi-
cialmente declaradas no seu discurso oficial. No entanto,
na prática este sistema cumpre funções latentes ou não
declaradas inversas às declaradas. Por esta razão é possível
afirmar que o sistema penal se caracteriza por uma eficá-
cia instrumental invertida, à qual uma eficácia simbólica
confere sustentação (ANDRADE, 2012, p. 135).

Enquanto suas funções declaradas ou promessas


apresentam uma eficácia meramente simbólica
(reprodução ideológica do sistema), porque não
são e não podem ser cumpridas, o sistema penal
cumpre, de modo latente, outras funções reais,
não apenas diversas, mas inversas às socialmente
úteis declaradas por seu discurso oficial, que in-
cidem negativamente na existência dos sujeitos
e da sociedade (ANDRADE, 2012, p. 135).

122
Todavia, é precisamente a sua reprodução ideológica que
confere sustentação e justifica socialmente a importância da
existência de um sistema penal, que oculta suas reais e inverti-
das funções, quais sejam: em vez de combater a criminalidade,
geri-la e controlá-la seletivamente; em vez de proteger bens
jurídicos universais, proteger de forma seletiva alguns bens
jurídicos essenciais ao controle de classe; e, neste processo,
reproduzir material e ideologicamente as assimetrias sociais
de classe, gênero, raça, etc. (ANDRADE, 2003, p. 89-91).
Diante destas proposições, um dos papeis que a cri-
minologia crítica assume é o de construir um discurso de
deslegitimação do sistema penal tendo em vista que, não
apenas ele não consegue cumprir as funções e objetivos que
declara, mas acaba sendo extremamente eficiente ao cumprir
objetivos não declarados que imunizam comportamentos
nocivos praticados por membros dos altos estratos sociais,
ao mesmo tempo em que violam direitos, estigmatizam e
encarceram grandes parcelas das camadas mais populares.
No caso da América Latina, como bem sustentou Za-
ffaroni, tal processo de eficácia invertida ainda possui tons
mais radicais pois os órgão do sistema de justiça criminal,
à margem do que a racionalidade do discurso jurídico-pe-
nal propõe, opera sob o signo do extermínio em massa.
“Trata-se de uma deslegitimação que está além dos limites
teóricos porque atinge diretamente a consciência ética,
não requerendo qualquer demonstração científica porque
é ‘perceptível’: ninguém seria tolo de negar que os mortos
estão mortos” (2001, p. 38).13
Portanto, a partir da função desveladora da crítica e da
constatação indiscutível da crise de legitimidade que atinge
o sistema penal, necessário se faz discutir quais caminhos
13
Ressalte-se que a primeira edição desta obra é de 1989, distante mais
de um quarto de século dos dias atuais. Este intervalo de tempo,
entretanto, serviu para reafirmar, a cada chacina, a cada morte, a
cada auto de resistência, a força do argumento de Zaffaroni.

123
podem ser trilhados como substituição ao estado atual de
coisas. Os debates contemporâneos sugerem dois eixos: um
de continuidade e um de descontinuidade.
No eixo de continuidade surgem propostas de eficien-
tismo penal que entende a crise do sistema penal como
uma crise de eficiência, propondo uma ampliação ainda
maior do direito penal, tendo em vista que, para esta linha
de interpretação, estaríamos diante de um déficit quantita-
tivo de controle do crime (ANDRADE, 2012, p. 288). São
representantes desta linha as propostas de Lei e Ordem e
Tolerância Zero bastante em voga atualmente e que serão
tematizadas no capítulo 8.
De outro lado, surge um eixo de descontinuidade
que realmente vê esta crise como uma crise estrutural de
legitimidade que demandaria, no mínimo, um processo de
relegitimação ou, no máximo, uma ruptura total com o sis-
tema penal vigente. Neste caso, temos como exemplos tanto
as posturas minimalistas quanto as abolicionistas, ambas sob
diferentes roupagens. Algumas posturas abolicionistas serão
discutidas no capítulo final desta obra.

4.4. Referências
ANDRADE, Vera Regina P. de. A ilusão da segurança
jurídica: do controle penal da violência à violência do controle
penal. 3. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2015.
_______. Pelas mãos da criminologia: o controle penal para
além da desilusão. Rio de Janeiro: Revan, 2012.
_______. Sistema penal máximo x cidadania mínima:
códigos da violência na era da globalização. Porto Alegre: Livraria
do Advogado, 2003.
BARATTA, Alessandro. Criminologia crítica e crítica do
direito penal. 3 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2002.
BATISTA, Nilo. Introdução crítica ao direito penal
brasileiro. 8 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2002.

124
BECKER, Howard S.. Outsiders: estudos de sociologia do
desvio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
BISSOLI FILHO, Francisco. Punição e divisão social: do mito da
igualdade à realidade do apartheid social. in: ANDRADE,Vera
Regina Pereira de. (Org.). Verso e Reverso do Controle
Penal: (Des)Aprisionando a Sociedade da Cultura
Punitiva. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2002. p.78-79.
FRADE, Laura. O que o congresso brasileiro pensa sobre
a criminalidade. 2007. Tese (Doutorado em Sociologia).
Departamento de Sociologia, Universidade de Brasília, 2007.
PAVARINI, Massimo. Control y dominación: teorías
criminológicas burguesas y proyecto hegemónico. Buenos Aires:
Siglo XXI Editores, 2002.
SANCHES, Samyra Haydêe Dal Farra N. Os direitos humanos
como fundamento do minimalismo penal de Alessandro Baratta.
in:ANDRADE,Vera Regina Pereira de. (Org.) Verso e Reverso
do Controle Penal: (Des) Aprisionando a Sociedade da
Cultura Punitiva. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2002. p.16.
SHECAIRA, Sérgio Salomão. Criminologia. 6. ed. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2014.
SUTHERLAND, Edwin H. Crime de colarinho branco.
Rio de Janeiro: Revan, 2015.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl. Em busca das penas perdidas:
a perda de legitimidade do sistema penal. Rio de Janeiro: Revan,
2001.

125
Gênero e Criminologia
Feminista: uma revisão
das críticas feministas às
criminologias 5
5.1. Ponderações sobre gênero e a(s)
criminologia(s)
A discussão sobre gênero e criminologias (particular-
mente crítica e pós-crítica) tem ganhando atenção cres-
cente especialmente pela força da(s) teoria(s) feminista(s)
e dos impactos dos estudos de gênero em diversos cam-
pos, incluindo a(s) criminologia(s) e o direito. Contudo,
é importante destacar que a categoria gênero nasce com
o feminismo, ganhando popularidade na medida em que
passou a repercutir em diversos estudos amparados em
perspectivas críticas. Não obstante, a utilização dos estudos
feministas nem sempre valoriza a produção feminista.
Teresa de Lauretis (1994) em seu artigo A tecnologia
de Gênero refere-se a uma nova onda da crítica feminista
feita por homens. Filósofos escrevendo no feminino, críti-
cos lendo no feminino, o homem no feminismo. E o que
seria isso? Obviamente é uma homem-nagem (trocadilho
feito pela autora), mas com que finalidade? Utilizar o fe-
minismo, valorizar e legitimar certas posições dentro do
feminismo acadêmico que acomodam os interesses pessoais
do crítico, ou as preocupações teóricas androcêntricas, ou
ambas, já que, na maioria das vezes, há pequenas menções
ou trabalhos ocasionais que não apoiam ou valorizam o
projeto feminista dentro da academia (LAURETIS, 1994).

127
Isso também pode ser observado em várias críticas
não feministas e antifeministas, sobre a relação entre a cri-
minologia e o feminismo. Neste capítulo, discutiremos a
inversão que o discurso criminológico crítico hegemônico
(malestream14) promoveu acerca da relação entre o feminismo
e a criminologia, através de uma breve revisão das principias
críticas feministas às criminologias.
É incontestável que a entrada do feminismo na cri-
minologia foi responsável por uma das maiores contribui-
ções teóricas contemporâneas à criminologia, conforme
argumentou Larrauri (1991). Assim, a forte crítica femi-
nista iniciada na década de 1970 documentou a repetida
omissão, a falsa representação das meninas, adolescentes
e mulheres na pesquisa criminológica e nas tradicionais
metodologias masculinas, conforme mostrou Messers-
chmidt (1995).
No entanto, apesar disso, o pensamento feminista con-
tinuou silente nos discursos criminológicos. A ausência da
crítica feminista às criminologias pode ser exemplificada nas
publicações da área: o clássico livro de Carol Smart Women,
Crime and Criminology: a feminist critique (1976), onde a au-
tora critica a criminologia positivista vigente na Inglaterra
nos anos 1970 e ainda propõe uma criminologia feminista
que dialogue com a criminologia da classe trabalhadora que
nascia naquele país nessa mesma década, até hoje não possui
tradução para o português. Sequer o livro de Rosa del Olmo
Criminalidad y criminalización de la mujer na região andina (1998)
foi traduzido, em contraste com as diversas publicações de
livros clássicos de criminologia crítica da mesma autora.
Ou seja, o discurso criminológico crítico no Brasil ainda é
fortemente masculino e a ausência de publicações feministas
é uma forma de apagamento dessa crítica.

A expressão é de Carol Smart e refere-se à hegemonia masculina


14

no campo criminológico na Inglaterra nos anos setenta e oitenta.

128
São inúmeras as criminólogas feministas que fizeram
significativas contribuições às teorias criminológicas a
exemplo de Carol Smart, Ngaire Naffine, Eileen Leonard,
Meda Chesney-Lind, Loraine Gelsthorpe, Katheelyn Daly,
Maureen Cain, apenas para citar algumas delas. Mas, em
geral, não há menção sobre a existência dessas (e outras
feministas), cuja ausência nos textos e discursos criminoló-
gicos - do malestream - revela o androcentrismo que ainda
permeia o pensamento e a literatura criminológica. Nesse
sentido, o discurso criminológico é também um discur-
so de poder, de uma fala masculina. E, como as feministas
demonstraram que todas as correntes críticas dos anos 1950 aos
anos 1980 reforçaram estereótipos de gênero, destacaremos aqui,
algumas das principais teorias criminológicas e as correspondentes
críticas feministas.

5.2. Teoria das subculturas criminais


As teorias das subculturas criminais foi pensada a partir
dos estudos sobre as gangues de jovens pobres ou de classes
trabalhadoras mais pobres.
Conforme a teoria das subculturas de Cohen (1955),
os jovens trabalhadores pobres sofrem de um status de
frustração porque eles não conseguem atingir os padrões
de sucesso dos jovens de classe média. Mal equipados para
competir na escola com seus companheiros de classe média,
eles rejeitam os valores da classe média e desenvolvem uma
subcultura da delinquência que enfatiza o não utilitarismo, a
malícia e o negativismo. Estes valores alternativos justificam
sua agressão e hostilidade e são a base para a solidariedade
do grupo (JOE; CHESNEY-LIND, 1998). No entanto, esses
valores estão associados ao modo de vida estadunidense
de sucesso masculino, não feminino. Autonomia, racio-
nalidade, ambição e contenção das emoções são atributos
de uma pessoa que constrói a “américa”, mas essa pessoa

129
é o homem, conforme afirma Naffine (1987). Assim, a
delinquência dos membros da gangue é celebrada como
uma afirmação da masculinidade da cultura dominante.
Portanto, “a subcultura da delinquência é uma solução
masculina exclusivamente para um problema masculino”
(NAFFINE, 1987, p.11).
As mulheres não são nem pressionadas para realizar
os objetivos de sucesso da sociedade e nem a delinquência
é uma saída para as suas frustrações. Na visão de Cohen
(1955), a criminalidade feminina é insignificante porque
as mulheres estão preocupadas apenas em conseguir um
casamento, ou seja, seu stress está dirigido às relações afetivas
e não às pressões por trabalho ou independência econômica.
Por outro lado, Walter Miller (1958) que também dirigiu
seus estudos para os grupos de jovens pobres (adolescente
street corner groups), entende que os valores de resistência,
esperteza, astúcia e emoção atribuídos às subculturas ju-
venis de classes economicamente mais pobres podem estar
relacionados a sua luta para manter sua autonomia em casas
dominadas por mulheres.
Segundo Joe e Chesney-Lind (1998), como a lower
class estrutura-se sobre a mulher, o lar está baseado exa-
tamente nela (female-based household), já que esse grupo
unissexual (one-sex peer group) seria uma forma estrutural
e altamente prevalente nas comunidades de classe baixa.
Assim, haveria uma forte probabilidade de prevalência e
de estabilidade deste tipo de unidade na educação infantil,
devido a casamentos poucos duradouros, pois nessa unida-
de nuclear, o progenitor masculino estaria ausente do lar,
ou esporadicamente presente ou, quando presente, estaria
minimamente ou inconsistentemente envolvido no apoio
à família e criação de filhos. Essa ausência masculina não
ofereceria aos filhos uma imagem consistente de homem
a ser seguida, ocasionando problemas de identidade sexu-
al. Com isso, os jovens teriam uma obsessão por valores

130
próprios da masculinidade, com a correspondente procura
dos grupos unissexuais que afirmariam os seus valores
(MILLER, 1958; DIAS e ANDRADE, 1992).
Já para Cloward and Ohlin (1960), a “cultura da po-
breza” deve ser entendida dentro de uma análise estrutural.
Os jovens de classes mais baixas (lower-class) são impedidos
de legitimamente alcançarem oportunidades e como re-
sultado, racionalmente escolhem, dentre limitadas opções,
participarem em alguns tipos de crime (JOE; CHESNEY-
-LIND, 1998). Nesse sentido, a sociedade estadunidense não
apenas fornece diferentes oportunidades para homens de
diferentes classes realizarem o sucesso material, sendo que
os jovens de classes mais baixas estão na posição menos
privilegiadas, como também fornece diferentes níveis de
acessibilidade a soluções delinquentes. Portanto, há uma
“oportunidade diferencial” para os jovens. Assim, essas
análises acabam se apresentando de maneira problemática
na medida em que todos estes pesquisadores presumem
que as gangues são unicamente respostas de jovens do sexo
masculino que respondem à pressão e à tensão da pobreza
em que vivem (JOE; CHESNEY-LIND, 1998) e reforçam
a visão masculina do suposto “sucesso” americano.
Essas análises desconstroem as perspectivas de uma
“cultura da pobreza” ou de uma reação rebelde contra a
mulher chefe de família, já que adotam uma perspectiva
estrutural onde os atos de virilidade situam-se em um
contexto econômico e social mais amplo e de disputa
com a masculinidade hegemônica de domínio, controle
e independência, conforme mostrou Messerschmidt
(1995). No entanto, as análises de masculinidades tomam
como pressuposto a delinquência masculina e não ex-
plicam a experiência das garotas que vivem na mesma
situação que os garotos delinquentes, compartilhando,
portanto, da mesma comunidade e das mesmas restrições
econômicas.

131
A ausência de pesquisas envolvendo gangues de garotas
levou a uma simplificação do entendimento da participação
feminina na criminalidade juvenil. Em geral, as meninas
são retratadas como auxiliares ou “satélites” dos garotos,
conforme argumentaram Jo e Chesney-Lind (1998). Ou
seja, elas são entendidas a partir do papel masculino, o que
demonstra nitidamente o androcentrismo das análises das
subculturas criminais.
Estudos etnográficos feministas demonstraram que
as garotas que participam em gangues vivem igualmente
em comunidades onde as possibilidades de inclusão em
empregos melhores, não apenas como trabalhadoras do-
mésticas, particularmente para jovens negras, são bastante
reduzidas. Muitas jovens são oriundas de famílias com
muitas dificuldades econômicas e têm que ajudar suas mães
na subsistência familiar. Outras tiveram que abandonar os
estudos e não estão preparadas para o mercado de trabalho.
A situação dessas garotas é agravada pela estrutura
patriarcal das comunidades, onde os homens, mesmo não
sendo provedores, ainda representam uma oportunidade
para elas. Em geral, elas tornam-se mães muito jovens,
muitas em virtude do abuso sexual que sofreram, vivem
sem companheiro, abandonam as famílias, vivem nas ruas
e são novamente vitimizadas sexualmente. Outras, apesar
de viverem com a família, são agredidas com maior frequ-
ência que os meninos. Assim, segundo Joe e Chesney-Lind
(1998), estes fatores revelam que a participação feminina nas
gangues envolve as relações de gênero, raça/etnia e classe,
além de ser muito mais complexa do uma simples rebeldia
contra a noção tradicional de feminilidade. Isto é, há uma
natureza multifacetada no envolvimento das garotas em
gangues e diferenciada das razões masculinas.
Nesse sentido, a pesquisa realizada por Joe e Chesney-
-Lind (1998) com garotos e garotas envolvidas em gangues
no Havai revelou que ambos encontram nesses grupos um

132
apoio para lidar com os problemas da vida diária de suas
comunidades marginalizadas. Ou seja, diferentemente do
entendimento de Cohen (1955) de que as subculturas
juvenis representam a “resposta não adaptada dos jovens
das classes trabalhadoras aos valores das classes médias”, o
racismo, a falta de oportunidades de emprego, as relações
de gênero permeiam as implicadas razões para o ingresso
feminino e masculino em gangues.
Além disso, a gangue é também uma saída social
para as jovens e os jovens contra a “chatice” da vida de
poucos recursos econômicos que os impede de usufruir
dos bens sociais, tendo em vista que ela fornece amigos e,
para as garotas, constrói uma espécie de proteção contra
o abuso físico e sexual dentro das suas casas. No entanto,
há diferenças de gênero interessantes, pois para os garotos
a violência (brigas) é parte da vida da gangue, mas para
as garotas não necessariamente. A venda de drogas é mais
frequente em gangues masculinas, para ganhar dinheiro, do
que em femininas (CHESNEY-LIND, 1995, p. 102-103).
Desta forma, as análises devem ter em conta as relações
estruturais de gênero, classe, etnia para um entendimento
mais complexo das razões pelas quais garotos e garotas
ingressam em gangues.
Por outro lado, as “delinquências” masculina e fe-
minina foram consideradas idênticas em violar o toque
de recolher, ficar bêbado e fumar maconha, ou ainda
“vadiar dentro de casa” ou “em lugar deserto”, embora
a frequência com que os atos são cometidos possa variar
entre garotos e garotas. Outro aspecto desenvolvido pelas
análises feministas está relacionado ao envolvimento em
brigas, pois a briga entre os jovens ajudaria a construir uma
imagem de virilidade dos homens em relação às mulheres.
Ser o “mais forte” também é um atrativo sexual para as
meninas que quando saem com o mais forte, afirmam
essa masculinidade.

133
5.3. A teoria das associações diferenciais
A teoria das associações diferenciais de Edwin Su-
therland (1940) rompeu com o padrão de pesquisar as
classes mais pobres e dirigiu seus estudos para o crime do
colarinho branco e sua relação com a política. No entanto,
apesar de inovar e romper com as perspectivas das pato-
logias individuais e sociais, as feministas não pouparam
críticas ao autor.
Sutherland (1940) afirma que os indivíduos aprendem
a definir os códigos legais como favoráveis e desfavoráveis
e que a sociedade estadunidense possui normas conflitivas,
possibilitando aos indivíduos cumprirem ou não cumpri-
rem a lei.
Conforme o princípio da associação diferencial, a
pessoa se torna delinquente em virtude da maior expo-
sição a comportamentos criminais em oposição aos não
criminais. Desse modo, as mulheres seriam mais expostas
a normas, definições e padrões desfavoráveis à violação da
lei. O autor afirma que provavelmente a maior diferença é
que as meninas são supervisionadas mais cuidadosamente e
se comportam de acordo com padrões de comportamento
anti-criminal (anti-criminal behaviour patterns) ensinados a elas
com mais cuidado e consistência que no caso dos meninos
(NAFFINE, 1987).
Assim, enquanto que as meninas são ensinadas a se-
rem boas, os meninos, são construídos para serem rudes
e resistentes. Sutherland (1940) ainda sugere que essas
diferenças podem ter nascido do fato de que as mulheres
ficam grávidas e requerem mais cuidado (LEONARD,
1982). No entanto, parece ser difícil sustentar que a grande
diferença comportamental entre homens e mulheres possa
ter essa origem.
A associação criminal e não criminal varia em frequ-
ência, duração, prioridade e intensidade, enquanto que as

134
estatísticas criminais entre homens e mulheres variam ainda
que pertençam a mesma comunidade, casa ou vizinhança. Já
a posição social altera, determinando a frequência e a inten-
sidade dos padrões de delinquência e de não delinquência
ou a frequência de oportunidades para cometerem crimes.
Sendo assim, as meninas seriam mais isoladas de padrões
criminais e controladas por um período mais longo que
os meninos. No entanto, a crítica feminista aponta que as
mulheres tendem a cometer crimes em idade mais tardia
que os homens, quando se sentem mais livres da supervisão
que costuma prevalecer (NAFFINE, 1987). Ou seja, a tardia
criminalidade feminina não seria explicada pela associação
diferencial. Por isso, Naffine (1987) afirma que “Sutherland
is neither general nor gender-neutral in his depiction of
crime and society”.
Conforme argumenta Eileen Leonard (1982), a pers-
pectiva da teoria da associação diferencial considera que
a criminalidade feminina decorre da socialização das mu-
lheres para o casamento, homogeneizando as mulheres em
contrapartida à diversidade de oportunidade masculinas. Se
a criminalidade é aprendida com um grupo pessoal íntimo,
a família é o grupo mais próximo das mulheres, mesmo
durante a adolescência. Assim, segundo Sutherland (1940), a
socialização comum das mulheres em um único papel, que
demanda delas atributos opostos aos valores da sociedade
em geral, revela a hegemonização cultural feminina, pois,
desde a infância as meninas são ensinadas que elas devem
ser boas enquanto os meninos são ensinados que devem
ser rudes e duros.
A homogeneidade feminina contrasta com a diversi-
dade da cultura geral [masculina]. O altruísmo feminino
ou “ser boa” diverge do egoísmo [masculino]. As restrições
da experiência feminina contrastam com a persecução ili-
mitada dos ganhos do resto da sociedade [masculina]. Isto
é, a perspectiva de Sutherland (1940) reforçaria as noções

135
estereotipadas do masculino e feminino, pois as mulheres,
pelo seu comportamento conformista aprendido desde
a infância, não participariam da vida criminal devido às
diferenças na socialização de gênero.
A teoria criminológica oferecida por Sutherland
(1940) para explicar o diferente comportamento dos sexos
implica a simples afirmação de que sempre que o indivíduo
é do sexo feminino a diversidade cultural é extinta e os
padrões anticriminais são incentivados. Isso sem falar da
liberdade de movimento que também é reduzida quando
o sujeito é do sexo feminino. Assim, quando o indivíduo
é do sexo masculino uma vasta gama de padrões criminais
e anticriminais estão disponíveis para o aprendizado, mas
as mulheres são banidas das culturas masculina e do crime,
pois o seu lugar é na família (NAFFINE, 1987).
No entanto, independentemente do sexo, as pesquisas
feministas tem demonstrado que seria a proximidade com
amigos delinquentes que conduziria a um comportamento
ilegal, conforme mostrou Nafinne (1987). Da mesma for-
ma, as variáveis de cor, raça/etnia, condição social, também
podem influenciar diretamente no comportamento delin-
quente, razão pela qual a socialização diferenciada não pode
explicar a diferenciação do desvio entre as próprias mulheres,
segundo as argumentações proferidas por Leonard (1982).
Desse modo, podemos verificar que tanto as perspectivas
teóricas apresentadas tanto por Cohen (1955) quanto por
Sutherland (1940) reforçariam os estereótipos de gênero.

5.4. As teorias do controle


As teorias do controle também foram objeto da crítica fe-
minista, em especial as formuladas por Travis Hirschi (1969)
e John Haggan (1979). Hirschi (1969) inverte a questão
até então perguntada pelos criminólogos de “porque as
pessoas [os homens] cometem crimes?” para “porque elas

136
não cometem?” O que é problemático e problematizado
é, portanto, aquilo que passou a ser chamado de compor-
tamento normal (DIAS; ANDRADE, 1992).
Para as criminólogas feministas a inversão da pergunta
deveria tomar como base o comportamento feminino,
já que as mulheres são tidas como mais cumpridoras das
normas, pois quanto mais a pessoa está comprometida e
envolvida em comportamentos e instituições convencionais
(emprego, estudos, carreira), mais irá calcular os custos-be-
nefícios de viver em sociedade e usufruir das gratificações
esperadas. No entanto, esse comportamento tradicional-
mente feminino é agora visto como racional e inteligente
para os homens, enquanto que as mulheres continuam a
ser vistas como passivas.
A tarefa dos criminólogos supracitados era explicar
o comportamento em conformidade com a lei, isto é, a
natureza e a força dos vínculos que ligam o indivíduo à
sociedade convencional e as resistências interiores e ex-
teriores que os levam a refrear os impulsos e obedecer a
lei. Por conseguinte, explicar o desvio significa explicar as
hipóteses de ruptura do vínculo social ou das resistências
que asseguram o controle da força dos instintos, conforme
argumentaram Dias e Andrade (1992).
Para Hirschi (1969), a sociedade desenvolve várias
maneiras de controlar seus membros e impedir sua ten-
dência natural ao desvio. Estas formas de controle são de
quatro tipos: apego (attachment), compromisso (commitment),
envolvimento (involvement) e crença (belif). Neste sentido,
quanto mais uma pessoa está vinculada (apegada) a pessoas
convencionais (pais, amigos, professoras), mais sensível às
suas opiniões e expectativas e menos provável a conduta
desviante. Quanto mais comprometida e envolvida em
comportamentos e instituições convencionais (emprego,
estudos, carreira), mais irá calcular os custos-benefícios de
viver em sociedade e usufruir das gratificações esperadas.

137
E se a pessoa acreditar e validar as regras da sociedade con-
vencional sua escolha será não cometer crimes. Conforme
as teorias anteriores - tanto de Cohen (1955) quanto de
Sutherland (1940) -, as mulheres são mais adaptadas, obe-
decem mais às regras sociais e não cometem crimes.
Desta forma, a teoria de Hirschi (1969) sendo uma
teoria da conformidade às regras, levaria, como consequ-
ência, a estudar a conformidade feminina para explicar a
masculina. No entanto, essa não foi a perspectiva seguida
pelo autor, que assim como os demais criminólogos, ten-
tou provar sua tese através do estudo da conformidade
masculina. Segundo Hirschi (1969), a obediência às regras
implica em um cálculo racional e sensível para não colocar
em risco os ganhos de uma carreira ao ser considerado
criminoso. Por conseguinte, a conformidade aparece com
um admirável traço de caráter masculino, na medida em
que o homem passa a ser tratado como um ser racional,
inteligente e enérgico, conforme ponderou Naffine (1987).
Nas perspectivas dos criminólogos, a mulher é o ser
conformista. A conformidade feminina é considerada passi-
va, não criativa, dependente e ausente de faculdades críticas.
Todavia, como Hirschi (1969) muda o campo do estudo do
homem criminoso para o homem conformista, transmutam
também as qualidades masculinas agora identificadas com a
convencionalidade, só que de maneira positiva. Desse modo,
o comportamento criminoso passa a ser tratado como um
sintoma de imaturidade emocional, conforme argumentou
Naffine (1987), uma vez que a conformidade feminina
passou a ser vista como ausência de realização e iniciativa
e, portanto, uma clara expressão da passividade feminina.
Já para Haggan (1979) a conformidade será compre-
endida na perspectiva do maior controle informal (familiar)
sobre as mulheres, enquanto que os meninos estão sujeitos
a um controle formal (legal). Na teoria do controle do
poder (power-control theory) apresentado pelo autor, as mães

138
são os primeiros agentes de socialização que ocorrem na
instituição familiar. Assim, nas famílias com um equilíbrio
maior de poder no trabalho entre mãe e pai – famílias equi-
libradas –, as mães exercerão um controle maior sobre as
filhas. O maior controle exercido sobre as mulheres deriva
da estrutura patriarcal da família que diferencia o controle
sobre meninos e meninas; quanto mais patriarcal a família,
maior o controle sobre as meninas e menor a possibilidade
de um comportamento desviante.
Desta forma, há maior diferença de gênero na delin-
quência quanto mais patriarcal a família, conforme ponde-
raram Bates, Bade e Mencken (2003). O problema é que
a perspectiva de Haggan (1979) considera apenas a família
tradicional formada por esposa e esposo para concluir que
onde há um equilíbrio de poder, há menor diferença de
gênero em comportamentos desviantes.Além disso, também
coloca sobre as mulheres mães, o peso da responsabilidade
da socialização.
Diferentemente de Hirschi (1969), para Haggan (1979)
a delinquência envolve um espírito de liberação, ou seja,
presume a oportunidade de arriscar diante de uma pos-
sibilidade, assim como a chance de buscar publicamente
alguns dos prazeres que são símbolo do macho adulto fora
da família (NAFFINE, 1987). Segundo Haggan (1979),
a delinquência passa a ser sinônimo de independência e
afirmação, enquanto que a conformidade feminina é tra-
tada como passividade, queixa, dependência e obediência.
O cumprimento da lei por parte das mulheres é visto
como obediência e não como responsabilidade. Nessa linha,
a obediência das mulheres é fruto da maior socialização e do
maior controle a que estão sujeitas. No entanto, pesquisas
que tentaram associar os vínculos sociais mais fortes das
meninas com a sua conformidade e vínculos sociais frágeis
dos meninos à criminalidade, não apresentaram resultados
conclusivos. Por isso, Naffine (1987) afirma que: primeiro,

139
tornar-se mais masculino não enfraquece os laços sociais
das meninas ou conduz à delinquência. Ao contrário, a
masculinidade parece fortalecer os compromissos conven-
cionais das garotas e militam contra a criminalidade. Uma
forte feminilidade, entretanto, parece não estar relacionada
a fortes vínculos sociais e à maior conformidade.
Em segundo lugar, Naffine (1987) afirma que garotas
que não são nem particularmente femininas nem masculi-
nas em suas expectativas, têm os mais frágeis laços sociais e
estão entre as mais delinquentes. Em resumo, as garotas não
se enquadram nas expectativas femininas, e tampouco nas
masculinas. Isto parece dizer que as expectativas femininas
respondem, parcialmente, para a conformidade feminina
na medida em que estão associadas à tendência de maior
compromisso e apego aos outros. Isto indica que as pes-
quisas que tentam associar à conformidade das mulheres a
menor criminalidade não produziram resultados satisfató-
rios. Por isso, Naffine (1987) afirma que “although there is a
considerable evidence of the greater ‘bonding’ of females to society,
this has yet to be linked consistently with either femininity, as
conventionally conceived, or to conformity”.15

5.5. A teoria do controle de Garland


Mais recentemente, a teoria do controle na moderni-
dade tardia ou à análise de Garland (2008) foi escrutinada
por Gelsthorpe (2004).A autora chama a atenção para o fato
de Garland (2008) não incorporar a contribuição feminista
para entender o tratamento das mulheres que cometem
e que são vítimas de crimes. Como o gênero entra nesta
nova abordagem da cultura do controle?

“Embora haja uma evidência considerável do maior “vínculo” das


15

mulheres com a sociedade, isso ainda deve ser ligado de forma con-
sistente ou com a feminilidade, como convencionalmente concebido,
ou à conformidade”. Tradução livre.

140
O livro intitulado “A cultura do controle” de David
Garland16 (2008) oferece uma detalhada análise históri-
co-cultural do desenvolvimento do controle do crime
no final do século XX, quando ocorreu a substituição do
estado do bem estar penal (previndenciarismo penal) pelo
moderno controle penal (criminologia cotidiana – every day
criminology – e gestão de risco, dentre outras características
presentes na modernidade tardia).
No entanto, o tratamento das mulheres dentro do
sistema de justiça criminal está relacionado a uma noção
‘familista’ de justiça, que tanto tem persistido como retro-
cedido, ilustrando as políticas penais dualistas e polarizadas
do chamado ‘punitivismo populista’, descrito por Garland
(2008). O tratamento convencional das mulheres (ao lado
do tratamento convencional de jovens) resume as ideologias
de bem-estar penais que foram amplamente deslocadas
por estratégias de controle da criminalidade. Além disso,
os recentes aumentos no número de mulheres condenadas
à prisão são inexplicáveis e apontam para um paradoxo,
conforme avaliou Gelsthorpe (2008).
A segunda onda do feminismo emergiu no final dos
anos 1960 e início dos anos 1970, coincidindo com a crise
da modernidade e o estabelecimento do previdenciarismo
penal e da penalogia progressista. Contudo, na metade da
década de 1970, o apoio ao previdenciarismo começa a
ruir em virtude de forte pressão contra suas premissas e
práticas, conforme ponderou Garland (2008). Esse processo
de mudança foi precedido pela crítica ao correcionalismo
e pelo ataque às penas indeterminadas e ao tratamento
individualizado. Isso levou a alterações importantes nas leis
relativas ao julgamento, nas práticas prisionais, no livramen-
to condicional, na liberdade vigiada e no discurso político

A publicação original do autor na língua inglesa é de 2002. Neste


16

artigo, utiliza-se a versão em língua portuguesa publicada em 2008.

141
e acadêmico sobre o crime, uma vez que as críticas contra
o correcionalismo nos Estados Unidos na década de 1970
tinham por objeto o uso discriminatório do poder punitivo
pelo sistema de justiça criminal, particularmente através do
encarceramento de negros, pobres, jovens e minorias cul-
turais, o que era escamoteado pelo modelo do tratamento
individualizado, conforme descreveu Garland (2008), em
seu livro intitulado “A cultura do controle”.
No final dos anos 1970, a criminologia positivista (nos
EUA e Grã-Bretanha) sofreu um forte ataque da crítica
acadêmica, oriunda tanto da teoria rotulacionista e da
etnometolodologia, como do marxismo e da filosofia da
ciência (GARLAND, 2004). E é exatamente neste período
que começam as críticas feministas à criminologia, atacando
seu caráter androcêntrico e as explicações positivistas para
a criminalidade das mulheres. Esse é o ponto acentuado
por Gelsthorpe (2008) que leva a autora a perguntar: Por
que Garland não apresentou as análises feministas na ca-
racterização da crítica ao positivismo? Por que não foram
consideradas como parte da crítica radical ou mesmo de
forma independente? Ao que tudo indica, a inclusão pode-
ria alterar fundamentalmente a crítica da criminologia feita
por Garland (2008), da transição do previdenciarismo-penal
para uma cultura de controle (GELSTHORPE, 2004).
O tratamento que as mulheres recebem do sistema
de justiça criminal é ilustrativo, pois, segundo Garland, o
axioma básico do previdenciarismo penal se fundamenta
na seguinte afirmação:

[...] medidas penais devem, sempre que possível,


se materializar mais em intervenções reabi-
litadoras do que na punição retributiva [...]
incluindo leis que permitiam a condenação
a penas indeterminadas, vinculada à liberda-
de antecipada e à liberdade vigiada; varas de
crianças e adolescentes informadas pela filosofia

142
do bem-estar infantil; o uso da investigação
social e de relatórios psiquiátricos; a individu-
alização de tratamento baseada na avaliação e
classificação específica; pesquisa criminológica
focada em questões de fundo etiológico e na
efetividade do tratamento; trabalho social com
os condenados e suas famílias; e regimes de
custodia que ressaltavam o aspecto socializador
do encarceramento e, após a soltura, a impor-
tância do amparo no processo de reintegração.
(GARLAND, 2008. p. 104).

Gelsthorpe (2004) alerta que discurso patológico so-


bre o comportamento das mulheres criminosas existente
na década de 1970 serviu ao previdenciarismo penal, já
que a diferenciação no tratamento dos delinquentes mas-
culinos e femininos acarretou em uma série de mudanças
significativas no século XIX – que vão desde as disposi-
ções especiais para o serviço das mulheres na polícia para
tomar depoimentos de mulheres e crianças, aos planos
para a reforma do sistema prisional feminino de modo a
acomodar as suas ‘necessidades especiais’ (GELSTHORPE,
2004, p.84). Desse modo, os arranjos institucionais para as
mulheres, a condenação de mulheres e o conteúdo dos
regimes institucionais previstos para mulheres e meninas
refletem o conteúdo do previdenciarismo penal descrito
por Garland (2008).
As pesquisas feministas têm demonstrado que o trata-
mento penal dado às mulheres assentava-se na patologia, na
domesticidade e na respeitabilidade. Essas características do
tratamento feminino não eram observadas no tratamento
dado aos homens, pois a criminalidade masculina inseria-se
no discurso da normalidade e da racionalidade. Portanto, o
tratamento dado às mulheres nas prisões durante o previ-
denciarimo penal evidenciava a disciplina, a infantilização,
a medicalização, a feminização e a domesticidade.

143
Essas caracterizações que informam o tratamento
dado às mulheres nas prisões não fazem parte do relato de
Garland (2008). Se as políticas penais de reabilitação do
previdenciarismo penal deram lugar a práticas mais puniti-
vas, parece que isto não ocorreu com as mulheres. Segundo
Gelsthorpe (2004), as duas estratégias (reabilitação e práticas
punitivas mais severas), particularmente nas sentenças de
mulheres à prisão, coexistiram. Assim como o aumento
da punitividade sobre as mulheres, contraditoriamente ao
risco que elas oferecem, é reflexo da cultura do controle
que estaria omitida na análise de Garland (2008).
Outro aspecto importante do novo controle social se
dá a partir do ressurgimento da vítima, ou o “victimological
turn”. Segundo Garland (2008), até a década de 1970, o
papel das vítimas no sistema de justiça criminal limitava-se
a ser denunciante e testemunha, em vez de ser parte ativa
do processo. Desta forma, os danos sofridos pelas vítimas
passavam despercebidos ou não eram ressarcidos. Até re-
centemente, a resposta padrão do sistema era de que os in-
teresses das vítimas se confundiam com o interesse público
e que, a longo prazo, as políticas correcionalistas estatais
atenderiam tanto o interesse público quanto o do ofensor.
Segundo Garland (2008), essa resposta viria a ser con-
siderada lacônica e de credibilidade duvidosa, tendo em vista
que nos anos 1980 e 1990, as vítimas passam a ter outro tra-
tamento das agências policiais e do sistema de justiça crimi-
nal, incentivadas pelos movimentos organizados das vítimas.
Assim, desde os anos 1980, as agências policiais, acusatórias e
judiciais incorporaram às suas políticas a prestação de infor-
mações às vítimas, o tratamento mais sensível, o oferecimento
de apoio e a recompensa pelos danos sofridos, possibilitando
o surgimento de novas formas de justiça restaurativa, media-
ção entre o criminoso e a vítima e programas de tratamento;
às vítimas foram conferidos direitos e a participação ativa no
processo (GARLAND, 2008).

144
Os estudos e preocupações feministas deram uma nova
atenção às vítimas e estabeleceram uma nova agenda voltada
para as características das vítimas de crimes, as atitudes da
sociedade para o crime, bem como os efeitos da crimina-
lidade na comunidade. Na década de 1960 e 1970, durante
a segunda onda do movimento feminista, foram criados
os Movimento de Mulheres Refugiadas (Women’s Refuge
Movement) e os Centros de Crise de Estupro (Rape Crisis)
cujo objetivo era atender as mulheres “sobreviventes”.
Contudo, conforme ponderou Gelsthope (2004), Garland
faz silêncio a respeito desse assunto.
O feminismo tem uma importante contribuição no
“aparecimento da vítima” e consequentemente, no diferen-
ciado entendimento das agências do sistema penal. Desta
forma, talvez as respostas à “cultura do controle” descritas
por Garland (2008) tenham sido forjadas de outra maneira,
conforme sustenta Gelsthorpe (2004).
Ao justapor a discussão das vítimas com o medo do
crime, Garland (2008) parece sugerir que por trás do au-
mento da preocupação com as vítimas está o medo do crime,
pelo menos refletido pelos políticos e pelas mídias corporati-
vas. De fato, o medo do crime é um problema político, assim
como a própria sensação desse medo que é perceptível pelo
aumento do número de grades nas casas, pelos sistemas de
segurança privados, etc.. Ou seja, o medo de “estranhos”.
No entanto, essa preocupação não é a mesma quando se
trata do reconhecimento do “medo privado”, das vítimas
de violência doméstica e crianças vítimas de abuso sexual.
O perigo maior para as mulheres e crianças não é externo,
mas vem do interior de suas casas, é de homens da família
ou familiares homens.
Todavia, algumas medidas pró-prisão (pro-arrest), uni-
dades de polícia especializadas, depoimentos em vídeo
(ou ‘depoimento sem dano’) para crianças e o trabalho
das feministas com a polícia no desenvolvimento dessas

145
políticas contradizem um pouco a noção predominante
do controle do crime e deveriam ser melhor analisadas
por Garland (2008), já que o autor sustenta que há uma
redefinição na responsabilidade do controle do crime,
pois com o reconhecimento da capacidade limitada do
estado, a comunidade aparece como uma solução para
os problemas do controle do crime, conforme ponderou
Gelsthope (2004).
Nesse sentido, as iniciativas de parcerias público-
-privadas e de policiamento comunitário com agências e
organizações não estatais, formam uma rede informal de
controle do crime que atuaria em parceria com o sistema
estatal, redefinindo uma estratégia de responsabilização. No
entanto, quando se analisa se essas estratégias atingem as mu-
lheres vítimas de violência dentro de suas casas verifica-se
que não estão desenhadas para tal. Em decorrência disso,
a análise de Garland (2008) diz respeito ao controle dos
homens estranhos, já que a análise do controle produzida
pelo autor não supera a dicotomia “público x privado” (há
muito denunciada pelas feministas) e mantém tanto o olhar
quanto as investigações sobre os processos que envolvem
homens em atuação pública, reificando a tradicional visão
da criminologia.

5.6. As teorias do desvio


As teorias do desvio, em especial a teoria do labeling appro-
ach (etiquetamento) também não ficou imune à crítica
feminista. Desenvolvida por Howard Becker, a perspectiva
do labeling consiste no reconhecimento do processo de
aplicação e recepção da etiqueta “desviante” aplicada pelos
“empreendedores morais” a certos grupos sociais que, de
modo geral, se submetem ou exercem menos poder nos
mais distintos contextos da sociedade. A etiqueta é inter-
nalizada eficazmente a ponto de os “etiquetados” recons-

146
truírem sua imagem, recorrentemente se comportando de
acordo com a expectativa atribuída pelo rótulo recebido.
Em seu livro Outsiders, Becker (2008) analisa os mú-
sicos de jazz etiquetados como desviantes, embora nada
em sua vida pudesse levar a esse rótulo. Mas, como não
se enquadram na cultura convencional, são considerados
diferentes pelos outros e também se consideram diferente
dos outros.
A crítica feminista centrou-se na visão que Becker
tem das mulheres dos músicos, ao retratá-las como esposas
“quadradas”, sem nenhum atrativo. As mulheres são con-
vencionais e, por isso, podem ameaçar a carreira do mú-
sico. Mesmo as mulheres músicas não são consideradas na
análise de Becker (2008). Como observa Naffine “the voice
or perspective of the women as musician or as wife of musician is
entirely absent”17. E como esposa, ela é invariavelmente sem
“colorido” e conformista (NAFFINE, 1987).
Segundo Naffine (1987), a aplicação da teoria do
labeling às mulheres abriu duas perspectivas em crimino-
logia: a primeira, seria empregar a observação de perto
(participante) utilizada por Becker (2008) na sua análise dos
músicos masculinos para o desenvolvimento de relatos da
vida das mulheres. A segunda, seria adotar a atitude do autor
ao descrevê-las como apegadas à sociedade convencional,
isto é, inertes, sem colorido e não atraentes.
Para a autora, os poucos esforços da criminologia em
aplicar a teoria do labeling às mulheres tomaram a segunda
opção. Por isso, Naffine (1987) aponta como maior pro-
blema da teoria do labeling approach na sua aplicação às
mulheres, o modo como tem sido usada para estereotipar
e desvalorizar seu sujeito. Uma abordagem ao comporta-
mento social explicitamente concebida para impregnar o

“A voz ou perspectiva da mulher como música ou como esposa de


17

músicos é inteiramente ausente”. Tradução livre.

147
indivíduo com a racionalidade, com um sentido de pro-
pósito e intenção subjetiva, que perversamente, expurgou
o agenciamento feminino.
Segundo a autora, na ‘versão feminina’ da teoria do
labeling, as mulheres não são autoras de críticas sociais como
são os músicos de jazz na investigação de Becker (2008).
Não há interesse em analisar os relatos das mulheres, pois
elas não são ‘interessantes’ ou não tem capacidade de desa-
fiar ou questionar sua própria posição na sociedade, sendo
concebidas como objeto ao invés de sujeitos.

5.7. A criminologia crítica


E por fim, a criminologia crítica18, cuja preocupação inicial
com a classe trabalhadora ou com as classes subalternas ex-
cluiu as mulheres trabalhadoras. O recorte dado pela incorpo-
ração do marxismo entendeu o crime como materialmente
construído, cujos elementos produtores no capitalismo con-
temporâneo estariam ligados às inequidades e às divisões na
produção material e na propriedade. Nesse sentido, o direito
asseguraria o privilégio das classes favorecidas, na medida
em que impediria que os subalternos mudem de posição.
A lógica que permeia a criminologia é a sua preocu-
pação com o processo estrutural da definição do crime. A
criminalidade feminina, com o ingresso feminino tardio na
força de trabalho feminina, era considera “complementar”.
Assim, as mulheres só secundariamente interessariam às
análises da nova criminologia. Por outro lado, o exame a
partir de uma perspectiva de classe deveria ser mais refinada
para incluir as mulheres.
Leonard (1982) argumenta que o sexismo tem um
papel diferenciado sobre o processo de criminalização. Ho-
mens e mulheres têm diferentes posições sociais dentro do

Sob a denominação de criminologia crítica reúno diversas pers-


18

pectivas críticas que tiveram o marxismo como base teórica.

148
capitalismo e a opressão sexual é suportada pelas mulheres
em todas as classes ao contrário da opressão econômica
de homens (e mulheres) e isto deveria figurar em uma
compreensão da criminalidade.
Quando analisado o entendimento do crime de rua
como um acerto com as relações capitalistas, as mulheres
encontravam dificuldade para aparecer em cena, pois não
“acertam” as contas com o capitalismo. Mesmo os pequenos
furtos femininos não poderiam ser diagnosticados como
“rebeldia feminina ao capitalismo”, pois elas não eram a força
motriz da produção, conforme ponderou Leonard (1982 ).
As formulações iniciais de Baratta também não incor-
poraram a perspectiva das mulheres, conforme podemos lo-
calizar na crítica de Marcelo Aebi (2004) que paralelamente
aponta que essa criminologia crítica apresentada ignora
por completo as vítimas. No entanto, esse autor também
se conduz pelo padrão masculino, pois ao criticar Baratta,
afirma que este não identificou que as primeiras vítimas da
delinquência são as da própria classe trabalhadora porque
moram em bairros perigosos e não podem receber medidas
de proteção adequadas. Nesse sentido, as vítimas são para
Aebi (2004) os homens da classe trabalhadora, embora o
esquecimento das vítimas não seja apenas da criminologia
crítica, mas de todas as criminologias, conforme afirma
Larrauri (2006).
A análise marxista da nova criminologia ignora que
as estruturas econômicas também são erigidas e sustenta-
das por relações de gênero. A sua redefinição do crime que
reconhece as divisões de poder e privilégio está intimamente
ligada ao modo como a sociedade define e controla a ex-
ploração. Portanto, tratar da exploração sexual, do aborto e
do comportamento sexual das jovens como crime permite a
sociedade manter o controle sobre as mulheres.
As perspectivas radicais iniciais da nova criminologia
tanto em Taylor,Walter e Young, quanto em Quinney tam-

149
bém foram cegas às mulheres e não conseguiram distinguir
entre as condições de homens e mulheres na sociedade
capitalista. Contudo, foi em decorrência dessa constatação
que Leonard (1982) argumentou sobre a impossibilidade de
aplicação da criminologia crítica a qualquer entendimento
sobre as mulheres e o crime.
As perspectivas latino-americana também foram pou-
co abertas à criminologia feminista, embora não haja dúvida
de que há em andamento um genocídio contra jovens na
América Latina, conforme apontou Zaffaroni (2012) ao
argumentar que “a criminologia está cercada de cadáveres”.
Mas, atrás de cada cadáver, há uma mãe em sofrimento e
em luta por justiça, em que a criminologia ou ignora ou
analisa perifericamente.
O impacto da violência genocida na vida dessas mu-
lheres e o seu papel na busca de justiça também deve ser
objeto de análise da criminologia. O genocídio em massa
deixa atrás de si, não apenas os corpos dos jovens, mas cor-
pos em luta e luto de mulheres negras, pobres e faveladas,
em sofrimento eterno na busca pela justiça. Todavia, essas
mulheres são pouco vistas pela criminologia crítica.
Mesmo a tentativa de Alessandro Baratta (1999) de
incorporar o gênero no direito penal e na criminologia
pode ser questionada, tendo em vista que o autor argu-
menta que o paradigma da definição ou da reação social
foi introduzido cronologicamente na criminologia antes do
paradigma do gênero, portanto, uma criminologia feminista
só pode desenvolver-se, científica e adequadamente, dentro
do paradigma da criminologia crítica. Para Baratta está-se
diante de uma criminologia crítica

quando a consideração dos processos de defi-


nição e de reação social vem acompanhada da
desigual distribuição do poder de definição e
de reação, e, paralelamente, os sistemas da justiça

150
penal interpretados no contexto dos relaciona-
mentos sociais de iniquidade e em conflito, po-
demos dizer, segundo os critérios de classificação
por mim utilizados, que estamos diante de uma
criminologia crítica. (BARATTA, 1999, p. 41).

Na criminologia crítica esses processos operam dentro


de uma relação social de poder, materialmente dada, onde
o sistema de justiça criminal é um soto-sistema que contri-
bui para a produção material e ideológica da desigualdade.
Assim, a construção social da criminalização depende de
variáveis gerais, tais como as posições de vantagem e des-
vantagem, de força e vulnerabilidade, dominação e explo-
ração, que influenciam na repartição desigual dos recursos
do sistema criminal diante da proteção de bens e interesses,
bem como na divisão dos riscos e das imunidades face ao
processo de criminalização (BARATTA, 1999).
As variáveis, são representadas, no plano material,
pelas posições sociais e no plano simbólico, pelos papéis
interpretados, e são variáveis independentes (que condi-
cionam a seletividade do sistema) e variáveis dependentes
(condicionadas pela seletividade do sistema). O sistema de
justiça criminal reflete a realidade social e concorre para a
sua reprodução. Esta interdependência entre o sistema pu-
nitivo e a estrutura social constitui uma relação complexa.
Essa complexidade é expressa pela dimensão material e
simbólica de cada um dos elementos da relação (sistema
punitivo e estrutura social), que se entrecruzam e se con-
dicionam mutuamente.
A complexidade ainda é constatada na localização das
variáveis posições sociais (gênero, etnias, instrução, etc.) que
entrecruzam-se nas mais distintas formas, fragmentando as
lutas específicas dos grupos avantajados, tanto no campo
da justiça criminal como no do poder social. Por fim, a
complexidade dessa relação também é revelada pela hetero-

151
geneidade dos grupos em desvantagem, tanto em relação à
sua posição social, quanto ao seu “papel” social. Ressalta-se
que, segundo Baratta (1999), essa perspectiva se desenvolve
dentro de uma teoria científica da sociedade, que entende
ser a teoria materialista-história e dialética (marxista), razão
pela qual insiste que “a questão da mulher no sistema de
justiça criminal” ou da “criminologia feminista” só pode
ser desenvolvida, de modo cientificamente correto, dentro
desta teoria da sociedade.
Baratta (1999) posiciona-se contra a proposta des-
construtivista do conceito de criminalidade e da crimi-
nologia propugnado por Carol Smart (1976) e Maureen
Cain (1990), pois se estas tivessem utilizado o paradigma
da reação social entenderiam o conceito de criminalidade
da criminologia e não tentariam ‘corrigir’ a criminalidade
etiológica tradicional. Para Baratta (1999), o que falta na
perspectiva destas teóricas é o questionamento do direito
penal em si, pois é este o tema central da criminologia. Por
isso, o autor afirma que

Somente uma teoria sociológica do direito pe-


nal, como a fornecida pela criminologia crítica,
aliada ao uso correto do paradigma de gênero
neste contexto, podem permitir a compreensão
das “vantagens” e das desvantagens das mulheres,
enquanto objeto de controle e de proteção por
parte do sistema de justiça criminal (BARATTA,
1999, p. 45). (grifo nosso).

As afirmações de Baratta (1999) são problemáticas por-


que se uma criminologia feminista só pode se desenvolver
corretamente dentro do paradigma da criminologia crítica
significa dizer que ela não pode questionar este paradigma
ou ainda, que se desenvolver uma perspectiva de gênero
fora dele, não será cientificamente correta. Nesse sentido,
o paradigma de gênero deve “integrar-se” ao paradigma da

152
reação social e não o contrário, conforme sugeriram Carol
Smart (1976) e Maureen Cain (1990).
O gênero é uma categoria instável, conforme argu-
menta Harding (1993), porque é ele mesmo um conceito
em desconstrução por várias perspectivas feministas. Portan-
to, não há um conceito “correto” de gênero, mas diferentes
perspectivas que podem ser úteis em um momento e não
serem aplicáveis em outros. Ou ainda, o uso da categoria
depende da perspectiva adotada teoricamente. No obstante,
há ainda outro problema que encontramos na proposta de
Baratta (1999) que se dá a partir do entendimento de que
o direito penal é um instrumento de controle do desvio
masculino, enquanto que o controle informal dirige-se às
mulheres, conforme afirma o autor:

O direito penal é um sistema de controle es-


pecífico das relações de trabalho produtivo, e,
portanto, das relações de propriedade, da moral
do trabalho, bem como da ordem pública que o
garante. [...] O direito penal, como supra-anali-
sado, é dirigido especificamente aos homens, en-
quanto operadores de papéis na esfera (pública)
da produção material. O seu gênero, do ponto
de vista simbólico, é masculino. Mas também o
sistema de controle informal, especificamente
dirigido às mulheres, enquanto possuidoras de
papéis no âmbito (privado) da reprodução natu-
ral, é de gênero masculino sob o ponto de vista
simbólico (BARATTA, 1999, p. 45-46).

O problema desta análise trazida por Baratta (199) é


que ela reifica a distinção público (controle formal) e pri-
vado (controle informal). Isto é, a análise não sai dos limites
da “casa patriarcal”, para usar a expressão de Lauretis (1994).
No entanto, essas fronteiras já foram desconstruídas pelas
feministas, uma vez que o controle informal explica apenas
em parte a menor criminalidade das mulheres.

153
Baratta (1999) ainda afirma que a criminologia pode
sim, desconstruir a noção de crime sem renunciar a ela
própria enquanto disciplina, isto é, “é possível sair do re-
ducionismo criminológico e estudar a posição da mulher
no sistema de controle penal em uma perspectiva multidis-
ciplinar” e desconstruir o conceito de criminalidade sem
renunciar à função crítica da criminologia e incorporando
o paradigma de gênero.
Contudo, ao incorporar o gênero, a criminologia
como sociologia crítica do direito penal pode caminhar
além da criminologia concebida enquanto ciência dos
comportamentos problemáticos, isto é, sem negar a possibi-
lidade de comportamentos que possam colocar em perigo
bens e direitos. No entanto, admitindo uma pluralidade de
construções sociais desses comportamentos, sob a ótica da
interdisciplinaridade e da multidisciplinariedade parece
estar concordando com Smart (1976). Em primeiro lugar,
porque a criminologia passaria a ser uma sociologia do
direito penal, isto é, não seria mais uma criminologia. Se-
gundo porque se instruiria de saberes de outras disciplinas,
o que já faz parte de sua natureza multidisciplinar e assim,
o fazendo, suas preocupações poderiam deslocar-se para
esses outros campos de saber.
No entanto, a concordância é aparente, porque na
proposta de Baratta (1999), a sociologia do direito penal
tem a centralidade na sua relação com poder punitivo,
enquanto que para Smart (1976), os problemas com as
mulheres (incluindo as violências) podem ser pensados a
partir de outras disciplinas, ou seja, para Smart (1976) o
feminismo não necessita da criminologia.
Como se observa, em quase todas as teorias analisadas,
as mulheres e as questões postas pelo feminismo estão au-
sentes. Desse modo, como responder ao questionamento
sobre a violência doméstica, da violência sexual, das mortes
de mulheres (feminicídio), e mesmo do aborto? O aborto,

154
diz Smart (1976), era crime em 1962 na Inglaterra e nem
por isso foi preocupação dos criminólogos radicais.
Nota-se então, que o pensamento criminológico dos
autores aqui estudados não reconheceu a existência das
mulheres e da especificidade da violência de gênero desde
a sua fundação e só o fez recentemente e por pressão femi-
nista. Por isso, afirma Smart (1976), a pergunta que deve ser
feita é o que a criminologia tem a oferecer ao feminismo
e não o contrário, pois a criminologia necessita mais do
feminismo do que o reverso.
Assim, observa-se que a crítica que alguns criminó-
logos e criminólogas tem feito ao feminismo de não in-
corporar a perspectiva da criminológica é falsa, pois quem
de fato esqueceu as mulheres foi a criminologia em sua
vertente tradicional.
A criminologia feminista há muito entendeu os limites
do direito penal na proteção das mulheres ao mesmo tempo
em que denunciou as consequências e efeitos da ausência do
direito penal.A criminologia feminista pós-crítica ou pós-mo-
derna oferece perspectivas teóricas para discutir a relação entre
as mulheres e o direito penal que prescindem da criminologia,
a exemplo dos estudos de gênero, dos feminismos negro e
queer. Assim, apropriando-nos de Smart (1976) talvez seja
possível repetir que a mulher pós-moderna (o feminismo)
possa abandonar o homem atávico (a criminologia) sem
comprometer a crítica à utilização do sistema penal.

5.8. Referências
AEBI, M.F. Crítica à criminologia crítica: uma leitura esceptica de
Baratta. In PEREZ-ALVAREZ, F. (Ed.). Serta in Memoriam
Alessandri Baratta. Salamanca: Ediciones Universidad de
Salamanca, 2004.
BARATTA, A. O paradigma de gênero: da questão criminal à
questão humana. In CAMPOS, C.H. (Org.) Criminologia e
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155
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158
Uma Genealogia do Poder
em Foucault 6
6.1. Atravessamentos do poder
Possivelmente Foucault (2000) foi o primeiro autor
a apresentar uma crítica ao modo tradicional de tratar o
poder como sinônimo de algo que se possui e cuja acepção
de seu exercício era a repressão. Ele assinalou que a noção
de repressão era parcialmente inadequada para dar conta
do que existe justamente de produtor de positividade no
poder, uma vez que a acepção dos efeitos do poder através
da repressão resulta de uma concepção meramente jurídica
deste mesmo poder que era aceito por todos.
Uma das principais características da nossa atual so-
ciedade ocidental, chamada por Foucault ora de sociedade
de normalização19 ora de sociedade de segurança20, funda-
19
Ao manter seu foco nos dispositivos de poder que centram suas
análises nas especificidades estratégicas e nas diferentes táticas utili-
zadas como tecnologias de poder – jurídica, disciplinar e biopolítica
de segurança -, Foucault propôs que as articulações constituídas em
cada sociedade são dadas por suas épocas históricas particulares.
Deste modo, o autor constatou que os dispositivos de segurança
funcionam, sob suas próprias táticas, configurando em sua con-
temporaneidade aquilo que ele denominou de uma “sociedade de
segurança” (FOUCAULT, 2008a, p.15).
20
Segundo Foucault (2000), existe um elemento comum que transita
entre o poder disciplinar e o biopoder, entre a disciplina e a regu-
lamentação, possibilitando o exercício do poder através da ação de

159
menta-se no fato de que só conseguimos exercer o poder
através da produção da verdade constituída, sobretudo, a
partir de dispositivos, tecnologias e mecanismos abalizados
em conflitos permeados por relações entre saber e poder.
Todos nós somos coagidos a produzir verdade pelo poder,
pois ele a exige e necessita dela para poder funcionar. Como
temos que dizer a verdade, somos não apenas violentados,
mas condenados a encontrá-la e confessá-la.
Sendo assim, o poder não para de questionar, de in-
quirir, de registrar; ele institucionaliza a busca pela verdade,
ele a profissionaliza e a recompensa. Determina que se pro-
duza a verdade da mesma maneira com que se produzem
riquezas. Ele aconselha que se produzam verdades para se
produzir riquezas. Portanto, não apenas verifica-se que
população vive sob a égide da verdade justamente porque
ela é a norma, como também é o discurso verdadeiro que,
ao menos em parte, delibera e a propaga propulsando
efeitos de poder. Em resumo, ele julga, condena, classifica,
obriga a tarefas, destinadas a não apenas viver, mas também
a morrer de determinada forma, em função de discursos
verdadeiros que apresentam consigo efeitos específicos do
poder (FOUCAULT, 2000, p. 28-29).
A estrutura estatal do direito e seu campo jurídico são
entendidos na perspectiva foucaultiana, como constantes
veículos das relações de dominação e das técnicas de su-
jeição polimorfas. Para compreender a operacionalidade
dessas relações é necessário examinar o direito não sob

certa ordem disciplinar do corpo que culmina com a ordem de toda


a população. Esse elemento é chamado de norma, uma vez que ele
pode tanto se aplicar a um corpo que se quer disciplinar quanto
a uma população que se quer regulamentar. Portanto, a norma da
disciplina e a norma da regulação dão origem ao que Foucault
chama de sociedade de normalização, uma sociedade regida pela
norma ambivalente, na qual coexistem indivíduo e população, corpo
e vida, individualização e massificação, disciplina e regulamentação.

160
o aspecto de uma legitimidade a ser afixada, mas sob o
aspecto dos procedimentos de sujeição que ele põe em
prática. É somente dessa forma que seria possível evitar o
problema central do direito e da obediência dos indivíduos
submetidos a essa soberania, fazendo com que apareça, em
seu lugar, o problema da dominação e da sujeição.
A abordagem apresentada pela analítica foucaultiana
não procura analisar necessariamente as formas regula-
mentadas e legitimadas pelo poder em seu centro e no que
podem ser seus mecanismos gerais ou seus efeitos conjuntos.
Ao contrário, versa sobre a apreensão do entendimento
acerca do funcionamento do poder em suas extremidades,
em seus últimos esboços, onde ele se torna capilar, ou seja,
tomar o poder em suas formas e instituições mais locais e,
portanto, para além das regras do direito que o organizam
e o delimitam.
Foucault (2000) não tratou do poder como um fenô-
meno de dominação espesso e homogêneo, compreendido
como o exercício da superioridade de um indivíduo, de
um grupo ou de uma classe sobre outra. O autor o analisou
como algo que circula, trabalhando em cadeia, como algo
que jamais estará circunscrito nas mãos de alguns e jamais
será confiscado como riqueza ou bem. Para ele, o poder
funciona e se exerce em rede. Nela, os indivíduos não
somente o circundam como também podem se submeter
a esse poder, além de exercê-lo ocasionalmente. Portanto,
os indivíduos, que são concomitantemente os efeitos e os
intermediários do poder, jamais são o alvo inerte que con-
sente o poder, são sempre os seus mediadores na medida
em que o poder não se aplica a eles, mas transita por eles.
A análise foucaultiana sobre a dominação global que se
intensifica e repercute até embaixo, mostra como esses pro-
cessos se deslocam, se estendem, se modificam e, sobretudo,
como são investidos e anexados por fenômenos globais.
No entanto, ao invés de orientar sua pesquisa genealógica

161
sobre o poder por meio de análises exclusivamente situadas
no âmbito jurídico da soberania, dos aparelhos do Estado
e das ideologias que o seguem, Foucault (2000) buscou
construir sua investigação para além das margens do direito
na medida em que passou a orientar seus trabalhos para o
nível da dominação que ultrapassa a soberania, ou seja, para
o plano das formas de sujeições resultantes dos operadores
materiais e imateriais, das conexões e utilizações locais
permeadas pelos dispositivos de saber.
Segundo o autor, era de fundamental importância que
nos desvencilhássemos da exclusividade do modelo Leviatã
de Hobbes envolvido por um modelo de homem artificial,
autômato, fabricado e unitário igualmente, que trata dos
indivíduos reais, que tem o corpo como cidadãos e a alma
como soberania; era preciso estudar o poder fora do campo
delimitado pela soberania jurídica e pela instituição do
Estado; trata-se de analisá-lo a partir das técnicas e táticas
de dominação (FOUCAULT, 2000, p. 40).
Embora o poder seja exercido nas sociedades moder-
nas por meio de um jogo de heterogeneidade perpassado
não apenas pela disciplina, mas pela soberania mecânica e
polimorfa presente no direito público, não é possível com-
provar sua atuação através destes dois elementos de maneira
isolada. Ele não é exercido nem por um direito soberano
explícito e nem por disciplinas obscuras que agem de ma-
neira discreta e profunda. Para Foucault (2000), a mecânica
do poder é resultado da atuação concomitante de distintas
forças que são equalizadas dependendo das conjunturas,
posições e necessidades particulares de seu exercício.
As disciplinas não somente têm o seu discurso próprio,
como também criam aparelhos de saber, de saberes e de
campos múltiplos de conhecimento, na medida em que
levam consigo discursos que transpõem o campo jurídico,
já que o discurso da disciplina muitas vezes é estranho ao
da lei, ou seja, é alheio ao da regra que opera como efeito

162
da vontade soberana. As disciplinas apresentam um discur-
so que não trata daquele usado na letra da regra jurídica
derivada da soberania, mas o de regras móveis, efêmeras e
fluidas decorrentes da incorporação à norma. Assim, elas
demarcam um código que não é necessariamente ampa-
rado na lei, mas na normalização, aludindo a um edifício
teórico que não será o edifício do direito, mas o campo
das ciências humanas fundamentadas principalmente em
um saber clínico.

(...) não foi através de um progresso da racio-


nalidade das ciências exatas que se foram cons-
tituindo aos poucos as ciências humanas. Eu
creio que o processo que tornou possível o
discurso das ciências humanas foi a justaposição,
o enfrentamento de dois mecanismos e de dois
tipos de discursos absolutamente heterogêneos:
de um lado, a organização do direito em torno
da soberania, do outro a mecânica das coerções
exercidas pelas disciplinas. Que, atualmente o
poder se exerça ao mesmo tempo através desse
direito e dessas técnicas, que essas técnicas da
disciplina, que esses discursos nascidos da disci-
plina invadam o direito, que os procedimentos
de normalização colonizem cada vez mais os
procedimentos da lei, é isso, acho eu, que pode
explicar o funcionamento global daquilo que
eu chamaria uma “sociedade da normalização”
(FOUCAULT, 2000, p. 45-46).

Ao constatar que nas sociedades de normalização e


de segurança o poder atua concomitantemente através
do direito e das técnicas de disciplina, promovendo pro-
cedimentos de normalização que cada vez mais incidem
sobre as leis, é possível verificar que ele não foi tratado por
Foucault (2010) meramente como o sentido do discurso,
uma vez que o discurso está perpassado por uma série de

163
elementos que atuam no interior dos mecanismos gerais
do poder. No entanto, é imprescindível considerá-lo como
uma sequência de acontecimentos também políticos atra-
vés dos quais o poder é vinculado e orientado; todos estes
elementos pertencem a um sistema de poder, no qual o
discurso não é senão um componente que se relaciona a
outros, ou seja, elementos de um conjunto (FOUCAULT,
2010, p. 254).

6.2. Diferentes contextos e


operacionalidades do poder
Foucault (2010) não somente foi o primeiro a apontar
de forma sistematizada à estreita relação entre o cristianis-
mo e a obediência integral, como também discutiu sobre
o conhecimento de si mesmo e da verbalização, alocados
em circulação através da introdução das técnicas de exame,
disciplina, controle de consciência e confissão, conforme
expôs em seu texto de 1979 intitulado “Omnes et Singu-
latim”: Uma Crítica da Razão Política (FOUCAULT, 2010).
Além disso, o autor ainda mostrou que as técnicas introdu-
zidas e difundidas pelo cristianismo tinham como objetivo
fazer com que os indivíduos renunciassem ao mundo e a
si mesmos através da busca pela vida eterna, resultando na
produção de certa ética constitutiva dessa identidade cris-
tã. Deste modo, a alteração das práticas cristãs em antigos
pastorados somente se tornou possível em decorrência do
desenvolvimento das tecnologias de poder que passaram a
incidir intimamente na vida dos indivíduos que interiori-
zavam certas verdades em suas relações sociais.
O enfatizar a existência de outras diferentes técnicas
políticas e práticas pastorais usadas na história da criação,
desenvolvimento e aperfeiçoamento das relações de poder
que resultaram na produção do Estado Moderno, Foucault
realizou uma espécie de deslocamento das perspectivas que

164
tratavam da questão do governo, analisando não apenas as
formas de exercício do poder político e gestão do Estado,
como também outros demais importantes assuntos que
implicavam no governo dos outros e de si. Enquanto o
governo dos outros foi apresentado pelo autor a partir da
conduta dos indivíduos e, sobretudo, das populações, o
governo de si foi compreendido como uma relação ética
estabelecida com e a partir dos próprios indivíduos e não
pressupunha necessariamente a reflexão, a autonomia e a
liberdade destes, contudo, implicava o reconhecimento de
si mesmos como sujeitos morais produzidos por técnicas
modernas de sujeições decorrentes do governo de si pela
verdade.
Em decorrência da busca pela identificação dos jogos
de poder e das técnicas utilizadas para regulamentar as
ações dos indivíduos por meio do estabelecimento de quais
práticas seriam consideradas normais e “saudáveis” pelas
sociedades ocidentais, objetivando garantir a manutenção da
ordem social já instaurada, Foucault constatou a existência
de processos de normalização essenciais para a compreensão
das relações sociais e das tecnologias de poder existentes
na contemporaneidade que passaram a ser utilizadas como
procedimentos de separação, comparação e classificação
dos indivíduos em relação à população a que pertencem.
Essas tecnologias de identificação social – que certa-
mente têm seus alicerces situados tanto nas remotas prá-
ticas cristãs quanto nos antigos pastorados, sucedendo por
transformações fundamentais nos séculos XVII e XVIII
- decorreram por todos esses anos e ainda hodiernamen-
te contam com o pleno apoio dos próprios indivíduos
que incorporam e reproduzem essas tecnologias de poder
geradas por meticulosos e sutis processos de subjetivação
que atingem todas às práticas sociais, fazendo com que
estes não somente aceitem e incorporem as identidades
que lhes foram e ainda lhes são atribuídas socialmente

165
como também se inspirem e se reconheçam moralmente
nelas na medida em que vivenciam socialmente distintas
e diferentes relações.
As principais ponderações realizadas por Foucault
(2000) acerca da política contemporânea estão situadas
em suas investigações sobre os mecanismos, procedimen-
tos, técnicas e tecnologias de poder individualizantes e
totalizantes circunscritas não apenas pelo aparelho estatal,
mas também por outras relações de poder que ultrapassam
os limites jurídicos apresentados pelo Estado. Segundo o
autor, a sobrevivência política dos Estados só foi possível
devido conservação e propagação de técnicas cotidianas de
poder concomitantemente totalizantes e individualizantes
garantidos pela verdade. Como julgava que a questão da
soberania era apenas o resultado extremo do agenciamento
antepassado de domínios capilares dos poderes disseminados
pelas redes sociais, Foucault (2000) acabou ampliando as
suas investigações acerca da política partindo de análises
sobre as relações de poder que ultrapassavam as barreiras
interpretativas fundamentadas no poder soberano e em sua
razão de Estado.
O conceito de sociedade disciplinar, elaborado de
forma mais sofisticada e precisa em Vigiar e Punir:A História
das Prisões, apareceu primeiramente na quarta conferência
de A Verdade e as Formas Jurídicas. Para Foucault (2005), a
formação da sociedade disciplinar começou a ocorrer no
final do século XVIII e princípio do século XIX, marcada
por dois importantes aspectos: reforma e reorganização do
sistema judiciário. Já o panóptico de Bentham, elemento
característico da sociedade disciplinar, foi apresentado ini-
cialmente na quinta e última conferência proferida na Pon-
tifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC/RJ.
Para Foucault (2005), o panoptismo era tratado como
uma forma de poder que incidia sobre os indivíduos como
certa forma de vigilância individual e contínua, controlan-

166
do, punindo, recompensando e corrigindo-os, na medida
em que constituía e modificava os indivíduos em função
de determinadas normas. Portanto, vigilância, controle e
correção, apresentadas como elementos fundamentais do
tríplice aspecto do panoptismo, eram dimensões essenciais
e características primordiais das relações de poder presentes
naquelas sociedades em que operavam.
Uma característica do panoptismo que merece ser
destacada refere-se a percepção da vigilância sobre os indi-
víduos que não se exercia ao nível do que se fazia, mas do
que se era e do que se poderia fazer. A vigilância pretendia
possibilitar a individualização do autor do ato, deixando
de classificar a natureza jurídica e a qualificação penal do
próprio ato, colocando-se de maneira oposta à antecessora
teoria legalista. Com o surgimento do panoptismo ocorreu
um deslocamento de forças a partir do século XVII, obs-
curecendo certo ponto da teoria do direito penal.

Na época atual, todas essas instituições – fábri-


ca, escola, hospital psiquiátrico, hospital, pri-
são – têm por finalidade não excluir, mas ao
contrário, fixar os indivíduos. A Fábrica não
exclui os indivíduos; liga-os a um aparelho de
produção. A escola não exclui os indivíduos;
mesmo fechando-os; ela os fixa a um aparelho
de transmissão do saber. O hospital psiquiátrico
não exclui os indivíduos; liga-os a um aparelho
de correção, a um aparelho de normalização dos
indivíduos. O mesmo acontece com a casa de
correção ou a prisão. Mesmo se os efeitos dessas
instituições são exclusão do indivíduo, elas têm
como finalidade primeira fixar os indivíduos
em um aparelho de normalização dos homens.
A fábrica, a escola, a prisão ou os hospitais têm
por objetivo ligar o indivíduo a um processo
de produção, de formação ou de correção dos
produtores. Trata-se de garantir a produção ou

167
produtores em função de determinada norma
(FOUCAULT, 2005, p. 114).

No entanto, para Foucault (2005), era importante


esclarecer a oposição entre a reclusão do século XVIII,
que excluía os indivíduos do círculo social, à reclusão que
aparece no século XIX, tendo por finalidade a ligação dos
indivíduos a certos aparelhos de produção, formação, refor-
mação ou correção dos produtores, apresentando-se como
uma inclusão decorrente da exclusão. Segundo o autor, a
sociedade industrial só pôde se formar porque o tempo
dos indivíduos foi sendo disponibilizado no mercado e
ofertado aos que quisessem comprá-lo em troca de salário,
sendo o tempo transformado em tempo de trabalho. Um
importante exemplo desse caso decorre do surgimento das
cidades operárias que visavam fixar a população operária
no mesmo corpo do aparelho de produção.
Além disso, Foucault (2005) também constatou que a
reclusão do século XIX seria resultado de uma combinação
de controle moral e social de origem inglesa com a insti-
tuição propriamente francesa e estatal da reclusão em um
local específico, edifício, instituição, com certa arquitetura.
No sistema inglês do século XVIII o controle era exerci-
do pelo grupo sobre um indivíduo ou sobre indivíduos
pertencentes a um grupo. Já no modelo francês, quando
alguém era internado, tratava-se sempre de um indivíduo
marginalizado em relação à família, ao grupo social, à co-
munidade local a que pertencia justamente descumprir as
regras estabelecidas através de condutas marginais resultan-
do em irregularidades e desordens sociais. Desse modo, o
internamento seria uma espécie de resposta aos processos
de marginalização que procuravam se “humanizar”.
Foi em seu livro Vigiar e Punir: A História das Pri-
sões que Foucault (1997) demonstrou o deslocamento das
repressões penais abalizadas nos suplícios, em que o corpo

168
supliciado era esquartejado, amputado e, muitas vezes,
marcado simbolicamente no rosto ou ombro, exposto vivo
ou morto para a sociedade, para aplicação das emergentes
e contemporâneas penas privativas de liberdade.

A marca a ferro quente foi abolida na Inglaterra


(1834) e na França (1832); o grande suplício dos
traidores já a Inglaterra não ousava aplicá-lo ple-
namente em 1820 (Thistlewood não foi esquar-
tejado). Unicamente o chicote ainda permanecia
em alguns sistemas penais (Rússia, Inglaterra,
Prússia). Mas, de modo geral, as práticas punitivas
se tornaram pudicas. Não tocar mais no corpo,
ou o mínimo possível, e para atingir nele algo
que não é o corpo propriamente. Dir-se-á: a
prisão, reclusão, os trabalhos forçados, a servidão
de forçados, a interdição de domicílio, a depor-
tação – que parte tão importante tiveram nos
sistemas penais modernos – são penas “físicas”:
com exceção da multa, se referem diretamente
ao corpo. Mas a relação castigo-corpo não é
idêntica ao que ela era nos suplícios. O corpo
encontra-se aí em posição de instrumento ou
de intermediário; qualquer intervenção sobre
ele pelo enclausuramento, pelo trabalho obri-
gatório visa privar o indivíduo de sua liberdade
considerada ao mesmo tempo como um direito
e como um bem. Segundo essa penalidade, o
corpo é colocado num sistema de coação e
de privação, de obrigações e de interdições. O
sofrimento físico, a dor do corpo não são mais
os elementos constitutivos da pena. O castigo
passou de uma arte das sensações insuportáveis
a uma economia dos direitos suspensos (FOU-
CAULT, 1997, p. 14).

Para Foucault (1997), o poder sobre os corpos existiu


até meados do século XIX, momento quem que o suplício
deixou de ser a técnica exclusiva de sofrimento. Ao pres-

169
supor que os castigos como os trabalhos forçados e/ou as
prisões operavam apenas se estivessem somados a outros
complementos punitivos aplicados sobre os corpos, tais
como a redução alimentar, a privação sexual, a expiação
física e a masmorra, etc., o autor verificou que a história
do encarceramento sempre esteve associado ao fundamento
do suplício, uma vez que as aplicações de medidas baseadas
nos sofrimentos físicos jamais deixaram de existir, perpe-
tuando-se nos modernos mecanismos de justiça criminal.
Esse tipo de conduta amparada no suposto afrouxamento
da severidade penal ocorrido nos últimos séculos acabou
sendo compreendido pelas sociedades ao longo da história
como um fenômeno quantitativo que considerava certa
minimização e humanização da pena proveniente da am-
pliação de discursos sobre a redução do sofrimento e da dor.
Todavia, essas alterações só puderam ocorrer no sé-
culo XVIII, momento em que houve certo investimento
na docialização dos corpos por meio da disciplina. Ao
reconhecer que o corpo humano estava entrando em uma
maquinaria de poder que o esquadrinhava, desarticulava e
o recompunha, Foucault (1997) constatou a emergência
de uma anatomia política resultante de uma mecânica do
poder motivada por minuciosas técnicas disciplinadoras
que produziam corpos submissos, exercitados e dóceis. Essa
disciplina suscitava a incidência das forças do corpo em
termos de utilidade econômica, na medida em que reduzia
essas mesmas forças em termos políticos de obediência.
Assim, se a exploração provocada pela economia capitalista
separou a força e o produto do trabalho, possivelmente a
coerção disciplinar instalou no corpo um elo coercitivo
entre a competência ampliada e um controle exacerbado.
Em Vigiar e Punir: A História das Prisões, Foucault
(1997) demonstrou que não estava em busca de fazer uma
história das instituições disciplinares e suas especificida-
des, mas de encontrar uma série de exemplos de técnicas

170
essenciais que ao longo dos anos foram se generalizando
prontamente. Essas, por sua vez, agiam intimamente e de
maneira meticulosa por meio do investimento político e
delineado do corpo promovendo uma “micro-física” do
poder que, desde o século XVII, não cessou de ganhar
espaço com a tendência de acobertar plenamente o corpo
social. Foram essas penetrações portadoras de um poder
de propagação que obedecia à economia capitalista através
de certas coerções, que possibilitaram a mutação de certa
racionalidade punitiva na contemporaneidade.

O poder disciplinar é com efeito um poder que,


em vez de se apropriar e de retirar, tem como
função maior “adestrar”; ou sem dúvida adestrar
para retirar e se apropriar ainda mais e melhor.
Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura
ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo.
Em vez de dobrar uniformemente e por massa
tudo o que lhe está submetido, separa, analisa,
diferencia, leva seus processos de decomposição
até às singularidades necessárias e suficientes.
“Adestra” as multidões confusas, móveis, inúteis
de corpos e forças para uma multiplicidade de
elementos individuais – pequenas células sepa-
radas, autonomias orgânicas, identidades e con-
tinuidades genéticas, segmentos combinatórios.
A disciplina “fabrica” indivíduos; ela é a técnica
específica de um poder que toma os indivíduos
ao mesmo tempo como objetos e instrumentos
de seu exercício (FOUCAULT, 1997, p. 143).

A difusão bem sucedida do poder disciplinar implicou


na utilização de instrumentos como o olhar hierárquico,
a sanção normalizadora e suas combinações fundamenta-
das em um procedimento bastante peculiar chamado de
exame. Embora tenha situado as sociedades disciplinares
nos séculos XVIII e XIX procedentes à organização dos

171
grandes meios de confinamento, Foucault (1997) averi-
guou que o seu auge foi alcançado somente no início do
século XX, no momento em que os indivíduos passaram
a transitar por diferentes espaços fechados detentores de
regras bastante peculiares: da família a escola, a caserna, a
fábrica, o hospital e, em alguns momentos, a prisão – meio
de confinamento por excelência.
No entanto, foi em A História da Sexualidade: 1:
Vontade de Saber que Foucault (1999) apresentou o desen-
volvimento dessas tecnologias de sujeições, reconhecendo
que o poder do discurso de medicalização da vida coti-
diana, desde a reflexão sobre o processo de histerização
da mulher, da pedagogização do sexo da criança até a
psquiatrização do prazer perverso, possibilitou a instau-
ração de práticas discursivas que se constituíram em pa-
tologizações iniciadas a partir dos séculos XVIII e XIX.
Nesta obra, o autor evidencia as bases do que chamou
biopoder, mostrando não apenas que o poder pode operar
como uma espécie de teia, através de ramificações e de
forma muito mais horizontal que vertical, mas também
introduzindo um conceito fundamental em suas investi-
gações, a biopolítica.
Durante séculos uma das principais prerrogativas
constitutivas do poder soberano era o direito de vida e de
morte derivada da remota patria potestas, que conferia ao
pai de família romana a capacidade de dispor da vida de
seus filhos e de seus escravos, pois como suas vidas eram
provenientes dele, ele poderia extraí-las. Segundo Foucault
(1999), o direito de vida e de morte estabelecido pelos
teóricos políticos clássicos se baseava em um modelo bem
definido de poder onde já não se permitia que ele fosse
exercido entre o soberano e o súdito de maneira plena e
incondicional, exceto naqueles casos em que o soberano
se encontrava sujeitado em sua própria existência através
de um tipo de direito de réplica.

172
Para o autor foi a partir da época clássica que o oci-
dente conheceu a transformação destes mecanismos de
poder onde o “confisco” deixou de ser sua forma prin-
cipal, tornando-se somente uma, dentre outras que se
fundamentavam na incitação, no reforço, no controle, na
vigilância, na majoração e na organização de forças que
lhes eram submetidas. O direito de morte acabou se des-
locando e passando a se sustentar nas reivindicações de
um poder gerador de vida e a se organizar a partir de seus
reclamos. A morte, que se amparava no direito do soberano
de se resguardar ou de convocar seus súditos para que o
defendessem, insurgiu como um simples avesso do direito
do corpo social que buscava assegurar sua própria vida,
mantê-la ou desenvolvê-la.
Ao ponderar sob o fato de que as guerras nunca ha-
viam sido tão sangrentas quanto àquelas nascidas a partir
do século XIX, já que os Estados existentes até aquele
momento jamais haviam praticado tamanhas violências
físicas e simbólicas com suas próprias populações, Foucault
(1999) constatou que o poder de morte que começava a
aparecer em sua época se apresentava como o complemento
de um poder que se exercia sobre a vida, empreendendo
sua gestão, difusão, exercício e controles precisos, bem
como suas regulações. Desse modo, as guerras acabaram
deixando de serem travadas em nome do soberano prote-
gido, na medida em que passaram a ser tomadas em nome
das populações. Para o autor, os regimes só puderam travar
esta quantidade de guerras que provocou a morte de tantos
indivíduos através da gestão da vida e da sobrevivência dos
corpos e das raças.

(...) o poder de expor uma população à morte


geral é o inverso do poder de garantir a outra
sua permanência em vida. O princípio: poder
de matar para poder viver, que sustentava a tática

173
dos combates, tornou-se princípio de estratégia
entre Estados; mas a existência em questão já
não é aquela – jurídica – da soberania, é outra
– biológica – de uma população. Se o genocídio
é, de fato, o sonho dos poderes modernos, não é
por uma volta, atualmente, ao velho direito de
matar; mas é porque o poder e situa e se exerce
ao nível da vida, da espécie, da raça e dos fenô-
menos maciços da população (FOUCAULT,
1999, p. 149-150).

A pena de morte, bem como a guerra, durante certo


tempo foram os pressupostos constituintes da resposta do
soberano aqueles sujeitos que atacavam sua vontade, sua
lei ou sua pessoa propriamente. Entretanto, foi somente a
partir do momento em que o poder começou a gerir a
vida através de sua razão de ser e da lógica de seu exercí-
cio que a aplicação da pena de morte passou a se tornar
cada vez mais difícil de ser aceita, uma vez que ela era ao
mesmo tempo o limite, o escândalo e a contradição, con-
forme avaliou Foucault (1999). Para o autor, a pena capital
não seria possível se não houvesse a exposição da eventual
monstruosidade do criminoso, visto como uma espécie de
perigo biológico, e sua incorrigibilidade que colocava em
risco toda a sociedade. “Pode-se dizer que o velho direito
de causar a morte ou deixar viver foi substituído por um
poder de causar a vida ou devolver à morte” (FOUCAULT,
1999, p. 150).

6.3. Biopolítica e racismo de Estado


Segundo Foucault (1999) o poder começou a cons-
tituir seus alvos de demarcação sobre a vida, uma vez que
a morte passou a ser o limite, o limiar que a escapava. Esse
poder sobre a vida se iniciou no século XVII sob dois
pólos de crescimento interligados por todo um feixe in-
termediário de relações. O primeiro se focalizou no corpo

174
como máquina, em seu adestramento, na intensificação
de suas aptidões, na extorsão e extração de suas forças, na
ampliação de sua utilidade e docilidade e, principalmente,
na sua integração em sistemas de controle eficazes e econô-
micos, garantidos por mecanismos de poder que assinalam
as disciplinas: anátomo-política do corpo humano; o segundo,
criado posteriormente, a partir da metade do século XVIII,
enfatizou o corpo-espécie, ou seja, um corpo atravessado
pela mecânica do ser vivo que tinha como suporte para
seus processos biológico a proliferação, os nascimentos,
as mortalidades, os níveis de saúde, a duração da vida, a
longevidade e suas demais condições cambiantes, onde
tais técnicas eram construídas através de uma série de in-
tervenções e controles reguladores: uma biopolítica da população.
Foi a partir destes dois pólos constituídos, de um
lado, das disciplinas do corpo e, de outro, das regulações da
população, que a organização do poder sobre a vida pôde
se tornar possível. A disposição da anatômica e biológica,
individualizante e específica, destas tecnologias de poder
durante a época clássica, voltadas para os desempenhos dos
corpos caracterizou um poder cuja principal função não era
mais extrair a vida, mas investi-la e capturá-la de cima para
baixo. Portanto, o velho direito de matar simbolizado pelo
poder soberano passou a ser paulatinamente substituído pela
gestão dos corpos e pela administração cada vez mais árdua
e calculada da vida, conforme ponderou Foucault (1999).
A constatação de que o capitalismo utilizou métodos
de poder capazes de elevar as forças, aptidões e a vida em
geral, sem torná-las mais difíceis de sujeitar, fez com que
este biopoder se tornasse um fator imprescindível para o
desenvolvimento deste modo de produção, que só conse-
guiu garantir seu espaço por meio do controle dos corpos
nos aparelhos de produção, decorrentes de ajustamentos
da população aos processos econômicos. Ou seja, para
que o capitalismo pudesse se desenvolver de maneira tão

175
veemente foi necessária a intensificação de certo tipo de
poder sobre os corpos fundamentado tanto no seu reforço
quanto na sua utilização e docilidade.
Por mais que o desenvolvimento dos aparelhos estatais
como instituições de poder tenham garantido a manutenção
das relações de produção no capitalismo, foram os rudi-
mentos de anátomo e de biopolítica, iniciados no século
XVIII como tecnologias de poder presentes em todas as
instâncias do corpo social na medida em que operava por
meio de diversas instituições - família, Exército, escola,
polícia, medicina, administração das coletividades - que
possibilitaram a ação em nível dos processos econômicos
e de seus desdobramentos. Os mecanismos de poder que
resultavam destas relações de produção também operavam
como fatores de segregação e de hierarquização social inci-
dindo sobre determinadas forças estabelecidas por relações
de dominação; “a articulação do crescimento dos grupos
humanos à expansão das forças produtivas e a repartição
diferencial do lucro, foram, em parte, tornados possíveis pelo
exercício do bio-poder com suas formas e procedimentos
múltiplos” (FOUCAULT, 1999, p. 154).
Segundo Foucault (1999), os acontecimentos asso-
ciados ao capitalismo a partir do século XVIII em deter-
minados países ocidentais, resultam da entrada da vida na
história, ou seja, do aparecimento dos fenômenos pró-
prios da vida da espécie humana nos campos do saber e
do poder que jaziam circunscritos por técnicas políticas.
O desenvolvimento de conhecimentos acerca da vida, a
melhora na utilização das técnicas agrícolas, as observações
e as medidas visando à sobrevivência dos seres humanos,
acabaram possibilitando a intensificação deste domínio
sobre a vida que afastava algumas das iminências de morte.
Progressivamente, os ocidentais foram reconhecendo e
atribuindo importância ao que era ser uma espécie viva em
um mundo vivo, tendo o corpo, as condições de existências,

176
as probabilidades de vida, as saúdes individuais e coletivas,
através de forças modificáveis que poderiam ser repartidas
em determinados espaços.

Pela primeira vez na história, sem dúvida, o


biológico reflete-se no político; o fato de viver
não é mais esse sustentáculo inacessível que só
emerge de tempos em tempos, no acaso da mor-
te e de sua fatalidade: cai, em parte, no campo de
controle de saber e de intervenção do poder. Este
não estará mais somente a voltas com sujeitos
de direito sobre os quais seu último acesso é a
morte, porém com seres vivos, e o império que
poderá exercer sobre eles deverá situar-se no
nível da própria vida; é o fato do poder encar-
regar-se da vida, mais do que a ameaça de mor-
te, que lhe dá acesso ao corpo. Se pudéssemos
chamar de “bio-história” as pressões por meio
das quais os movimentos da vida e os processos
da história interferem em si, deveríamos falar de
“bio-política” para designar o que faz com que
a vida e seus mecanismos entrem no domínio
dos cálculos explícitos, e faz do poder-saber um
agente de transformação da vida humana; não é
que a vida tenha sido exaustivamente integrada
em técnicas que a dominem e gerem; ela lhes
escapa continuamente (FOUCAULT, 1999, p.
157-158).

Foucault (1999) ainda nos alerta sobre os outros efeitos


do desenvolvimento do biopoder baseado na relevância
cada vez maior da atuação da norma, sobretudo, a par-
tir do sistema jurídico amparado na lei. Àqueles que a
transgrediam, poderiam ter como resposta um conjunto
de mecanismos ou armas, tendo a possibilidade de morte
como uma de suas ferramentas. Como não se tratava mais
de colocar a morte no campo da soberania, mas sim de
distribuir a vida dos seres humanos em um domínio de

177
valor e utilidade, o emergente (bio)poder passou a ter como
objetivo a missão de tratar da vida através de mecanismos
contínuos, reguladores e corretivos. Este poder ascendente
procurava qualificar, medir, avaliar, hierarquizar, não distin-
guindo necessariamente os súditos obedientes dos inimigos
do soberano, conforme ocorria em outras épocas.
Conforme mostramos anteriormente (ROSA, 2014),
é importante destacar que Foucault (1999) não propõe
que a lei ou as instituições de justiça desaparecerão pro-
gressivamente na medida em que intensificam a captura
dos indivíduos por meio do controle sobre suas vidas, mas
sim que ela tem funcionado cada vez mais como norma,
fazendo com que as instituições jurídicas passem a se
integrar num contínuo de aparelhos médicos, administra-
tivos, políticos, etc., cujas atribuições fundamentam-se na
regulação. Para ele, a sociedade normalizadora é um efeito
histórico das tecnologias de poder fundamentadas na vida
que, por mais que ainda operem em todo o mundo por
meio de Constituições e Códigos desenvolvidos a partir
da Revolução Francesa, não conseguem atuar efetivamente
sem a presença de um poder normalizar.
Entre a publicação de Vigiar e Punir: A História das
Prisões, em 1975, e A História da Sexualidade: 1: Vontade
de Saber, em 1976, Foucault (2000) ministrou no Còllege
de France o curso intitulado Em Defesa da Sociedade, onde
também tratou do biopoder como a aplicação do poder à
população, à vida e aos vivos de forma global, mostrando
que era possível analisar concretamente essas relações por
meio do abandono dos modelos jurídicos de soberania,
passando a investigá-las através dos processos de sujeição
pela verdade.
Já as noções de biopolítica e governamentalidade
foram tratadas de forma mais intensa em dois de seus pos-
teriores cursos no Còllege de France intitulados Segurança,
Território, População, ministrado em 1978, e Nascimento da

178
Biopolítica, proferido em 1979. No primeiro deles, Foucault
(2008a) ampliou a compreensão da biopolítica, inscreven-
do-a a partir do que chamou de arte de governar, tratando
mais especificamente daquilo que designou de governa-
mentalidade. Entretanto, foi somente no segundo que o
autor (Foucault, 2008b) desenvolveu de forma ainda mais
aprofundada a noção de biopolítica, entendendo-a não
como ideologia21 ou representação social, mas como uma
tecnologia de governo dos corpos, situada no pensamento
liberal e no neoliberalismo, tratando da governamentalidade
liberal a partir de suas versões alemãs e estadunidenses.
Essas noções são sintetizadas a partir do momento
em que o autor afirma que o Estado, além de não possuir
essência, não é ele próprio fonte autônoma de seu poder,
sendo, nada mais que a sua perpétua estatização. Portanto,
a existência do Estado está fundamentada em uma espé-
cie de governamentalização de sua própria necessidade.
Certamente uma das grandes contribuições trazidas pela
analítica foucaultiana acerca do entendimento do crime e
de suas estratégias de contenção se dá através da utilização
das noções de governamentalidade e biopolítica, pois através
delas é possível analisar não apenas as formas com que são
elaborados os discursos político-institucionais decorrentes

Foucault verificou que a ideologia é uma noção que não se pode


21

utilizar sem precaução por três motivos: Em primeiro lugar, porque


ela está sempre em oposição a algo que seria a verdade, pois para o
autor, o problema não é fazer a divisão entre o que, em um discur-
so, provém da cientificidade e da verdade e aquilo que provém de
outra coisa, mas sim ver historicamente como se produzem efeitos
de verdade dentro do discurso que não são em si mesmos nem
verdadeiros nem falsos; em segundo, porque ele se refere necessa-
riamente a algo assim como o sujeito; e em terceiro, porque ela está
em uma posição secundária em relação a algo que funciona para ela
como infraestrutura ou determinante econômico e material. Em
decorrência disso que a história do saber ou das formas de exercício
do poder, tal como concebe Foucault, é uma história de práticas, e
não de ideologia (CASTRO, 2009, p. 223).

179
de certa razão de Estado, mas também compreender como
certas técnicas de sujeição atuam sobre a população por
meio de uma razão governamental, que faz com que os
indivíduos assimilem e reproduzam verdades, dentre elas
a crença de que a única forma de se conter as violências
presentes no nosso cotidiano é por meio de práticas re-
pressivas presentes na linguagem da punição, da dor e do
sofrimento.

6.4. Referências
CASTRO, Edgardo. Vocabulário de Foucault. Belo Horizonte:
Ed. Autêntica, 2009.
FOUCAULT, Michel. A Verdade e as Formas Jurídicas. Rio
de Janeiro: Ed. Nau, 2005.
_______. Estratégia, Poder-Saber. (Ditos e Escritos IV). Rio
de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 2010.
_______. Em Defesa da Sociedade. São Paulo: Ed. Martins
Fontes, 2000.
_______. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio
de Janeiro: Ed. Graal, 1999.
_______. Nascimento da Biopolítica. São Paulo: Ed. Martins
Fontes, 2008b.
_______. Segurança, Território, População. São Paulo: Ed.
Martins Fontes, 2008a.
_______. Vigiar e Punir. Petrópolis: Ed.Vozes, 1997.
ROSA, Pablo O. Drogas e a Governamentalidade Neoliberal.
Florianópolis: Ed. Insular, 2014.

180
O Homo Sacer e o Estado de
Exceção em Giorgio Agamben 7
A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de
exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral.
Precisamos construir um conceito de história que cor-
responda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos
que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de
exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta
contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de
que seus adversários o enfrentam em nome do progresso,
considerado como uma norma histórica. O assombro
com o fato de que os episódios que vivemos no século
XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro
filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não
ser o conhecimento de que a concepção de história da
qual emana semelhante assombro é insustentável.
Walter Benjamin, 8ª tese sobre o conceito de história.

Giorgio Agamben (1942-) é um filósofo contempo-


râneo responsável por uma obra extensa não apenas em
volume, mas também na variedade de temas que ela aborda.
Como afirma Alex Murray (2010),

O volumoso corpo da obra de Agamben cobre


variados campos como a filosofia continental con-
temporânea, poesia, literatura do holocausto, crítica
bíblica, estudos de cinema, literatura medieval, filo-
sofia do direito ‒ antiga e moderna ‒, filosofia da
linguagem, comentários sobre a política italiana e

181
mundial, teorias da amizade, arte e estética, história
da filosofia, bem como escritos especulativos críti-
cos que utilizam a forma de fragmentos[Tradução
livre] (MURRAY, 2010, p. 01).

No entanto, em meio a toda essa vastidão teórica, a


partir de 1995 ele deu início a publicação de um imenso
projeto com profundas reflexões sobre o Estado contempo-
râneo. Nelas, a teoria política tradicional é reinterpretada a
partir da noção de que o estado de exceção, e não o Estado
de direito, é o verdadeiro paradigma da política que po-
tencializa um novo olhar sobre não apenas o crime, mas as
demais condutas violentas resultantes de ações do Estado.
Esta que ficou conhecida como a série Homo Sacer,
apesar de não possuir uma cronologia correspondente à
estrutura pensada pelo autor, até o momento é composta
pelas obras: Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua
(1995); Estado de Exceção – homo sacer II, 1 (2003); O
Reino e a Glória: uma genealogia teológica da economia
e do governo – homo sacer II, 2 (2007); Stasis. A guerra civil
como paradigma político ‒ homo sacer II, 2 (2015);22 O Sa-
cramento da Linguagem – homo sacer II, 3 (2008); Opus Dei:
arqueologia do ofício – homo sacer II, 5 (2012); O que resta
de Auschwitz – homo sacer III (1998); Altíssima Pobreza:
regra e forma de vida no monaquismo ‒ homo sacer IV, I
(2011); O Uso dos Corpos ‒ homo sacer IV, II (2014)23. Esta

22
Este foi o último livro da serie homo sacer publicado até o momento,
ainda sem versão em português. Em sua edição original italiana ele
foi anunciado como homo sacer II, 2, lugar antes ocupado por O
Reino e a Glória. Discute-se, assim, se este último passará a ocupar
a posição do homo sacer II, 4 ou se a sequencia de Agamben passará
a ter outra estrutura. Todavia, o fato de o autor tê-lo designado
como homo sacer II, 2 pode indicar sua proximidade com os debates
propostos em Estado de Exceção.
23
Apesar da maior parte destes livros já terem sido traduzidos para
o português, as datas mencionadas se referem à publicação de suas

182
série parte do pressuposto foucaultiano de que, ao longo
da era moderna, a vida, o corpo biológico do ser humano,
tornou-se o objeto central dos dispositivos de poder. Da
ideia de que a vida e a morte deixam de ser eventos naturais
exteriores ao universo político para se tornarem a própria
centralidade das racionalidades governamentais.24
Neste sentido, o projeto de Agamben se inicia com
a investigação de uma figura jurídica do direito romano
arcaico conhecida como homo sacer. Para ele, este instituto
seria o paradigma25 a partir do qual poder-se-ia compre-
ender a relação originária entre vida nua e o poder so-
berano. Assim, a implicação da vida nua na esfera política
constituiria o próprio núcleo originário do poder sobe-
rano e, neste ponto, estaria a “intersecção entre o modelo
jurídico-institucional e o modelo biopolítico do poder”
(AGAMBEN, 2002, p. 14).
Todavia, mais do que isso, para Agamben a análise do
homo sacer como estrutura política originária permitiria
trazer a lume a zona de indiscernibilidade na qual a presença
desta vida nua, como vida desprovida de proteção jurídica
é possível: o estado de exceção. Portanto, neste capítulo
transitaremos por entre estes dois conceitos que podem
ser tomados como os dois eixos centrais a partir do qual a
obra política deste autor se desenvolve: de um lado o homo
sacer e, de outro, o estado de exceção.

7.1. Homo Sacer


Agamben inicia sua análise acerca da figura do homo
sacer citando o gramático romano do século II d.C., Sex-

versões originais em italiano.


24
Cf. Capítulo 6 desta obra.
25
Para uma visão mais profunda de como Agamben compreende
e utiliza o conceito paradigma, ver Signatura rerum: sobre o método
(2009).

183
to Pompeu Festo, que resume seu conceito da seguinte
maneira:

Homem sacro é, portanto, aquele que o povo


julgou por um delito; e não é lícito sacrificá-lo,
mas quem o mata não será condenado por ho-
micídio; na verdade, na primeira lei tribunícia
se adverte que “se alguém matar aquele que por
plebiscito é sacro, não será considerado homici-
da”. Disso advém que um homem malvado ou
impuro costuma ser chamado sacro (AGAM-
BEN, 2002, p. 196).

Esta, que para alguns teria sido a mais antiga pena do


direito romano, apresenta um aparente paradoxo interno que
provocou muitas discussões entre os historiadores e linguis-
tas ao longo do tempo. Afinal, como a sacralidade de uma
pessoa autoriza seu homicídio e ao mesmo tempo proíbe
seu sacrifício? De fato, o indivíduo sobre o qual se imputava
a condição de homo sacer tornava-se, naquele momento, um
ser matável, na medida em que a sua morte não constituiria
crime de homicídio, e insacrificável, já que também a ela não
poderia ser dada a forma ritual do sacrifício.
Desta forma, o homo sacer estava, ao mesmo tempo, fora
da proteção do ordenamento jurídico, já que ele poderia
ser morto impunemente, bem como do ordenamento re-
ligioso, uma vez que sua morte não poderia ser oferecida
em sacrifício. Uma vida sem proteção e uma morte signi-
ficado. Assim, diante desta dupla exclusão, Agamben (2002)
se distancia dos interpretes clássicos e busca reconhecer a
figura da sacratio não em sua dimensão religiosa, tentando
compará-la ao tabu ou ao sagrado – e, por isso, em sua
“intocabilidade” –, mas sim como uma estrutura política
originária que precede as distinções entre sacro e profano
ou entre religioso e político e que traz em si a própria
concretização da exceção.

184
Na medida em que a estrutura da sacratio suspende a
aplicação da norma que proíbe o homicídio, ela se confi-
gura como uma exceção ao direito dos homens; do mesmo
modo como configura também uma exceção ao direito
divino em virtude da igual proibição do sacrifício e de
qualquer outra forma de morte ritual.26 Assim, o homo sacer
é colocado para fora da jurisdição humana sem ultrapassar
os limites da barreira divina.

Se isto é verdadeiro, a sacratio configura uma


dupla exceção, tanto do ius humanum quanto do
ius divinum, tanto do âmbito religioso quanto
do profano. A estrutura topológica, que esta
dupla exceção desenha, é aquela de uma dúplice
exclusão e uma dúplice captura, que apresenta
mais do que uma simples analogia com a es-
trutura da exceção soberana. [...] Assim como,
na exceção soberana, a lei se aplica de fato ao
caso excepcional desaplicando-se, retirando-se
deste, do mesmo modo o homo sacer pertence a
Deus na forma da insacrificabilidade e é incluído
na comunidade na forma da matabilidade. A
vida insacrificável e, todavia, matável, é a vida sacra
(AGAMBEN, 2002, p. 90).

26
Neste sentido, Agamben (2004) demonstra que mesmo as execuções
antigas eram muito mais próximas dos ritos de purificação que do
mero ato de retirar a vida de um condenado. Em suas palavras: “As
formas mais antigas de execução capital de que temos notícia (a
terrível poena cullei, na qual o condenado, com a cabeça coberta
por uma pele de lobo, era encerrado em um saco com serpentes,
um cão e um galo, e jogado n’água; ou a defenestração da Rupe
Tarpea) são, na realidade, antes ritos de purificação que penas de
morte no sentido moderno: o neque fas est eum immolari [não é lícito
sacrificá-lo] serviria justamente para distinguir a matança do homo
sacer das purificações rituais e excluiria decididamente a sacratio do
âmbito religioso em sentido próprio” (AGAMBEN, 2004, p. 89).

185
O retorno à figura arquetípica do homo sacer serve,
para Agamben, como uma forma de perceber a inclusão
da vida sem proteção nenhuma – da pura vida biológica,
a vida nua – na ordem jurídico-política como uma relação
política originária a partir da qual soberania e exceção
se tornam intimamente relacionadas. O espaço político
da soberania se constitui nesta zona de indiferença entre
sacrifício e homicídio. (AGAMBEN, 2002, p. 91)
Portanto, para Agamben (2002), a gênese política da
soberania exprime a sujeição da vida do homo sacer a um
poder de morte que está fora da ordem jurídica. Trata-se
da inclusão na ordem jurídica de uma vida que, por defi-
nição, está excepcionada à proteção jurídica; é a captura,
pelo poder soberano, de uma vida sem qualquer proteção
jurídica, matável e insacrificável.
Deste modo, a hipótese de Agamben (2002, p. 92),
construída em diálogo com a tese de Carl Schmitt (2006)
sobre a soberania, é a de que se “soberano é aquele quem
decide sobre o estado de exceção” e se o homo sacer é aquele
que se situa nesta esfera, então o soberano e o homo sacer
se apresentam como duas figuras simétricas e correlatas:
soberano será aquele em relação ao qual todos os seres são
potenciais hominis sacri e homo sacer aquele perante o qual
todos são soberanos. Isso significa que, ao mesmo tempo
em que abaixo do soberano todos podem ser considerados
hominis sacri, por estarem submetidos ao seu poder de vida
e de morte; acima do homo sacer todos são soberanos na
medida em que todos têm o poder de decidir sobre sua
morte.
Por estas razões, Agamben rejeita a interpretação re-
ligiosa dada à sacratio para pensá-la em sua função como
estrutura política embrionária, em sua relação simbiótica
com o próprio conceito de soberania régia desde a anti-
guidade. Neste sentido, a gênese da biopolítica ocidental
já estaria presente desde este período, sendo visível pelo

186
modo a partir do qual a vida nua do homo sacer é incluída
pelo soberano na ordem jurídica através de uma forma
amparada na matabilidade27.
De fato, o homo sacer, apesar de ter suspensa a prote-
ção jurídica sobre sua vida – que deixa de ser, portanto,
politicamente relevante –, não perde de modo algum sua
relação com o direito e com a cidade. Paradoxalmente
ele habita os dois mundos, do direito e da exceção, sem
pertencer a nenhum. Ele não é cidadão, mas também não
é o estrangeiro, o inimigo; não goza de proteção jurídica,
mas também não é submetido ao ritual da pena de morte.
Portanto, é a partir disso Agamben constata a permanên-
cia desta vida sem nenhuma proteção, vida nua, em vários
outros institutos ao longo da história ocidental, tais como
o wargus (homem-lobo) e o friedlos (“sem paz”) do antigo
direito germânico (2002, p. 111 e segs.), até mesmo os
refugiados contemporâneos e os prisioneiros dos campos
de concentração nazistas (2002, 133 e segs.) ou dos campos
de detenção de Guantánamo (2004, p. 14 e segs.).
O elo que une todos estes exemplos é fundamentado
justamente na presença de uma vida que será classificada
como ausente de proteção jurídica (matabilidade), mas
sem que, com isso, ela seja sancionada pelo ritual da pena
de morte (insacrificabilidade). Assim, o “sem paz” era ba-
nido da comunidade e podia ser morto sem que isso fosse
homicídio; o refugiado vê desconectada a relação entre
humanidade e cidadania28; o prisioneiro do campo de con-

27
Neste ponto Agamben se distancia de Foucault que, além de romper
com a própria lógica da soberania e do contrato, enxerga na ascensão
do Estado Moderno o nascimento dos dispositivos de segurança
que visam o controle biopolítico da população.
28
Processo que chega ao máximo com a criação de “campos de re-
fugiados” que concentra os indivíduos que não são protegidos pela
ordem jurídica do Estado que os recebe, mas que também não são
reconhecidos como cidadãos pelo Estado que os expulsou ou do

187
centração tem despojado todo o seu estatuto político de
cidadania; e o acusado de terrorismo se torna um detainee
que não é nem um prisioneiro civil submetido às leis na-
cionais dos Estados Unidos, nem um prisioneiro de guerra
protegido pelos regramentos internacionais. Esses são alguns
dos exemplos da permanência da vida nua do homo sacer.
Ao recuperar a penalidade do direito romano, Agam-
ben (2002) mostrou como ela continuou sendo uma reali-
dade presente inclusive nos (supostos) estados democráticos
contemporâneos. Desta forma, na medida em que a política
atual permaneceu uma política sobre a vida, aquele con-
tingente incontável de pessoas que são classificadas como
vidas que não merece viver (AGAMBEN, 2002, p. 143 e segs.)
ou como vidas desperdiçadas, lixo humano da sociedade de
consumo (BAUMAN, 2005), continuaram sendo tratadas
como os homines sacri: matáveis e extermináveis, sem que
isso seja considerado homicídio; mas também não sujeitas
à forma ritual das penas de morte29.
Entretanto, em cada um desses casos apresentados é
possível verificar a existência de uma estrutura, uma certa
racionalidade, que permanece: de um lado apresenta-se
uma situação entendida como crítica, caótica (seja ela a

qual eles fugiram. Como afirma Agamben,“um local aparentemente


anódino [...] delimita na realidade um espaço no qual o ordenamento
normal é de fato suspenso, e que aí se cometam ou não atrocidades
não depende do direito, mas somente da civilidade e do senso ético
da polícia que age provisoriamente como soberana” (2002, p. 181).
29
Exemplos variados disso poderiam ser citados, como a política de
segurança dos Estado do Rio de Janeiro e de São Paulo em sua
política de extermínio de indivíduos “suspeitos de envolvimento
com o tráfico” (MISSE et. al., 2013; ZACONNE, 2015), e a po-
lítica internacional de combate ao terrorismo que, sob as mesmas
justificativas, mantém centenas de detentos em Guantánamo, e
executou, sem direito a julgamento, um sem número de indivíduos
que vão desde o brasileiro anônimo Jean Charles de Menezes até
tão perseguido Osama Bin Laden.

188
possibilidade de um atentado terrorista, do golpe comu-
nista, a insegurança generalizada, a invasão do território,
etc.), e, de outro, a aceitação e implementação de uma
solução drástica, emergencial, que normalmente suspende
os direitos fundamentais (como os campos de concentração,
Guantánamo, o AI-5, ou os planos de segurança no Brasil).
Assim, mesmo em supostas democracias, o poder soberano
continua se manifestando pela decisão sobre o caso excep-
cional, tal qual na soberania régia romana, e não sobre a
“vontade geral” democrática como quiseram alguns. Por
isso a necessidade de retomarmos a intuição de Benjamin
quando disse que “o estado de exceção em que vivemos
é, na verdade, a regra geral” (1994, p. 226).
Atualmente temos presenciado permanentes operações
de suspensão dos direitos básicos que constituem o estado
de direito deixando no lugar um vazio, ou uma zona de
indeterminação, unicamente pautada pela decisão sobera-
na no caso emergencial. As constituições viraram palavras
vazias – ou, como diz Agamben, “vigência sem significa-
do” – ao passo que as “não-leis”, as normas ilegais, ou os
atos executivos concretos, passaram a assumir força de lei.
Esta é a figura do estado de exceção em que vivemos
– por isso ele virou regra. As normas legais, as liberdades
básicas, que formavam a base do estado de direito na me-
dida em que elas poderiam ser sempre oponíveis contra o
Estado, tornaram-se obsoletas frente a força (de lei) que a
ilegalidade oficial possui. Por isso, torna-se necessário nos
aprofundarmos no segundo eixo básico de análise da série
do homo sacer: o estado de exceção.

7.2. O estado de exceção: vigência sem


significado e força de lei
Na obra Estado de Exceção (2004) o autor mostrou, a
partir da experiência dos judeus exterminados durante a

189
Segunda Guerra e a dos prisioneiros de Guantánamo, como
a técnica de governo que orientará as práticas políticas con-
temporâneas se fundamenta na exceção. Segundo o autor,

O totalitarismo moderno poder ser definido,


nesse sentido, como a instauração, por meio do
estado de exceção, de uma guerra civil legal que
permite a eliminação física não só dos adversá-
rios políticos, mas também de categorias inteiras
de cidadãos que, por qualquer razão, pareçam
não integráveis ao sistema político. Desde então,
a criação voluntária de um estado de emergên-
cia permanente (ainda que, eventualmente, não
declarado no sentido técnico) tornou-se uma
das práticas essenciais dos Estados contempo-
râneos, inclusive dos chamados democráticos
(AGAMBEN, 2004, p. 13).

Todavia, para que seja possível verificar como Agam-


ben compreende o problema da exceção, iniciaremos por
um dos fios condutores de sua série do Homo Sacer, qual
seja a discussão iniciada pelo pensador alemão Carl Schmitt
sobre as relações entre soberania, direito e exceção30. Para o
autor, Schmitt foi um dos poucos juristas que verdadeira-
mente se preocupou com a questão da exceção no âmbito
da teoria do direito31.
30
Ressalte-se que não pretendemos elaborar uma análise exausti-
va ou uma interpretação direta dos textos de Carl Schmitt, mas
simplesmente recuperar o modo como Agamben trabalha com o
pensamento deste autor.
31
Segundo a interpretação tradicional, a exceção não poderia ter
forma jurídica e, consequentemente, não poderia ser pensada pelo
direito, uma vez que a situação de necessidade sobre a qual ela se
baseia seria algo da esfera política ou que, no máximo, estaria no
limite entre a política e o direito. Agamben acredita, no entanto, que
mesmo com as contribuições de Schmitt, até hoje não existe uma
verdadeira teoria do estado de exceção no direito público, uma vez que os
juristas tendem a considerar este problema mais como uma questão

190
Agamben (2004) parte, inicialmente, da pergunta
schmittiana sobre o lugar que a exceção ocupa em relação
ao direito. Ou seja, o estado de exceção pertenceria ao
universo jurídico ou ao domínio dos fatos? Ele seria um
elemento interno ao direito ou pertenceria ao âmbito da
política? Afinal, se a exceção é o momento em que o direito
normal não se aplica, mas que ainda assim mantém uma
determinada ordem, ela poderia ser vista como algo que
ainda possui um caráter jurídico ou uma forma legal?32.
Tentando oferecer sua resposta a estes problemas,
Schmitt anuncia, logo na abertura de sua Teologia política
(2006, p. 07), que “soberano é quem decide sobre o estado
de exceção”. Em sua visão, o fundamento da ordem jurídica
não pode ser encontrado em seu interior, mas está locali-
zado nesta decisão soberana sobre o estado de exceção. Por
isso, ele afirma que “a ordem jurídica, como toda ordem,
repousa em uma decisão, não em uma norma” (SCHMITT,
2006, p. 11). Sendo assim, a decisão soberana é aquilo que,
mesmo estando fora do direito, cria as condições concretas
para a vigência do mesmo. Ela cria uma situação normal,
com certo grau de estabilidade e previsibilidade, na qual o
direito pode existir. É a decisão que define um determinado
sentido de ordem em detrimento de outras possibilidades
alternativas33. Segundo o jurista alemão,

de fato do que como um genuíno problema jurídico (AGAMBEN, 2004,


p. 11). Talvez essa seja uma das razões pelas quais a epígrafe deste
livro seja, em tradução livre,“Por que vocês juristas silenciam sobre
aquilo que lhes diz respeito?”.
32
“Sendo o estado de exceção algo diferente da anarquia e do caos,
subsiste, em sentido jurídico, uma ordem, mesmo que não uma or-
dem jurídica. A existência do Estado mantém, aqui, uma supremacia
indubitável sobre a validade da norma jurídica”. (SCHMITT, 2006.
p. 13).
33
Conforme a leitura de Bernardo Ferreira (2004. p. 276-277): “No
nada normativo do estado de exceção, o estabelecimento de uma
situação normal está associado à exclusão das decisões alternativas e,

191
Não existe norma que seja aplicada ao caos. A
ordem deve ser estabelecida para que a ordem
jurídica tenha sentido. Deve ser criada uma si-
tuação normal, e soberano é aquele que decide,
definitivamente, sobre se tal situação normal é
realmente dominante. [...] O estado de exceção
revela o mais claramente possível a essência da
autoridade estatal. Nisso, a decisão distingue-se
da norma jurídica e (para formular parado-
xalmente), a autoridade comprova que, para
criar o direito, ela não precisa ter razão/direito
(SCHMITT, 2006, p. 13-14).

Desta maneira, Schmitt apresenta certo paradoxo ao


mostrar que a decisão soberana sobre a exceção está, ao mesmo
tempo, dentro e fora do ordenamento jurídico, na medida
em que ela funda o ordenamento ao suspendê-lo e ignora o
direito para poder realizá-lo34.A exceção “[...] não só confirma
a regra, mas esta vive da exceção” (SCHMITT, 2006, p. 15).
Por isso, a simples oposição topográfica (dentro/fora)
não seria suficiente para dar conta da complexidade deste
fenômeno. Mesmo que o estado de exceção represente a
suspensão total ou parcial do ordenamento jurídico, isso
não significa que o que é excluído esteja absolutamente
fora de relação com a norma. Pelo contrário,

[...] o que caracteriza propriamente a exceção


é que aquilo que é excluído não está, por cau-

portanto, das possibilidades conflitantes de ordem. A constituição da


normalidade implica a determinação de um sentido para o interesse
público e, portanto, a conformação da realidade a partir de uma
determinada ideia de ordem”
34
Na interpretação de Agamben (2002, p. 23): “A especificação ‘ao
mesmo tempo’ não é trivial: o soberano, tendo o poder legal de
suspender a validade da lei, coloca-se legalmente fora da lei. Isto
significa que o paradoxo pode ser formulado também deste modo:
‘a lei está fora dela mesma’ ou então:‘eu, o soberano, que estou fora
da lei, declaro que não há um fora da lei’.”

192
sa disto, absolutamente fora de relação com a
norma; ao contrário, esta se mantém em relação
com aquela na forma da suspensão. A norma se
aplica à exceção desaplicando-se, retirando-se desta
(AGAMBEN, 2002, p. 25).

Neste sentido, com o resgate de Schmitt, Agamben


(2004) demonstra que estamos diante de uma relação topoló-
gica complexa em que a decisão soberana está fora da ordem
jurídica ao mesmo tempo em que pertence a ela. É uma
situação em que a separação entre interno e externo deixa
de existir, e, por isso, o próprio limite do ordenamento
jurídico é colocado em questão.

Na verdade, o estado de exceção não é nem


exterior nem interior ao ordenamento jurídico
e o problema de sua definição diz respeito a um
patamar, ou a uma zona de indiferença em que
dentro e fora não se excluem, mas se indetermi-
nam. A suspensão da norma não significa sua abolição
e a zona de anomia por ela instaurada não é (ou,
pelo menos não pretende ser) destituída de qualquer
relação com a ordem jurídica. Donde o interesse das
teorias que, como a de Schmitt, transformam a oposição
topográfica em uma relação topológica mais complexa,
em que está em questão o próprio limite do ordena-
mento jurídico. Em todo caso, a compreensão do
problema do estado de exceção pressupõe uma
correta determinação de sua localização (ou de
sua deslocalização) [grifo nosso] (AGAMBEN,
2004, p. 39).

Por isso, a exceção não pode ser definida nem como


uma situação de fato, já que é criada pela suspensão da
norma, nem tampouco como uma situação de direito, já
que convive com esta suspensão, mas ela institui entre estas
duas um paradoxal limiar de indiferença que, não apenas

193
não distingue a situação normal do caos, dentro e fora, fato
e direito, mas, ao contrário, faz com que ambos entrem em
complexas relações topológicas que tornam possível a pró-
pria validade do ordenamento (AGAMBEN, 2002, p. 26).
Porém, neste momento a interpretação agambeniana
do estado de exceção se torna particularmente incisiva.
Se, para ele, o ordenamento normal só se constitui como
tal por meio de sua relação com a exceção, e se isto é, in-
clusive, o que permite a validade do ordenamento, está-se
afirmando que o Estado de direito e o estado de exceção coincidem
em absoluta indistinção e, mais do que isso, que a exceção é a
forma originária do direito (AGAMBEN, 2002, p. 34 e 44).
Assim, “[...] um dos paradoxos do estado de exceção quer
que nele seja impossível distinguir a transgressão da lei e
a sua execução, de modo que o que está de acordo com
a norma e o que a viola coincidem, nele, sem resíduos”
(AGAMBEN, 2002, p. 65).
Por este motivo é possível constatar que a suspensão
da norma não significa sua abolição. Ao demonstrar que é na
exceção que a norma suspensa se mantém em estado de
latência como pura forma na sua própria privação que
Agamben (2004) constata que ela só existe com referência
à norma suspensa que se aplica, desaplicando-se, possibi-
litando que o Estado de direito e o estado de exceção se
tornem um todo indissolúvel. Todavia, o autor sugere que
devíamos nos questionar sobre como a situação normal po-
deria conviver com a situação excepcional? Como direito e
exceção coincidem nesta zona de indiscernibilidade? Para
compreender esse fenômeno Agamben recorreu a dois
conceitos complementares: a vigência sem significado a força de
lei, sem lei ‒ ou, na forma proposta pelo autor, a força de lei.
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que, segundo
o autor, a lei não é abolida no estado de exceção, mas sim
suspensa. Ela se mantém íntegra em sua forma, existe como
referência, mas não possui capacidade de se concretizar. Nas

194
palavras de Agamben (2004), é uma norma que vigora, mas
não significa. É uma lei que só possui forma, que existe na
sua própria inexequibilidade. Mas, com isso, ele não quer
dizer simplesmente que se trata de uma lei que não possui
eficácia. Ao contrário, este conceito jurídico é insuficiente
e inadequado para compreender a exceção. No momento
em que a norma é suspensa, ela jamais poderia ter eficácia,
na medida em que se constitui como forma pura, como
uma referência abstrata sem nenhuma significação real
(AGAMBEN, 2002, p. 58-59).
O filósofo italiano chegou a esta compreensão a partir
da análise de algumas interpretações do conto Diante da
lei, que Franz Kafka descreve no final de sua famosa obra
O processo (2005, p. 214-215), feitas por Jaques Derrida,
Massimo Ciacciari e Gershom Scholem. A ideia de um
camponês que passa a vida impedido de adentar a porta
da lei, aberta só para ele, demonstra claramente esta lei
que vigora apenas como forma, mas que não significa. De
acordo com Agamben (2002),

Vista sob esta perspectiva, a lenda kafkaniana


expõe a forma pura da lei, em que ela se afirma
com mais força justamente no ponto em que
não prescreve mais nada, ou seja, como puro
bando. O camponês é entregue à potência da lei,
porque esta não exige mais nada dele, não lhe
impõe nada além da própria abertura. Segundo
o esquema da exceção soberana, a lei aplica-se-
-lhe desaplicando-se, o mantém em seu bando
abandonando-o fora de si. A porta aberta, que
é destinada só para ele, o inclui excluindo-o
e o exclui incluindo-o. E este é precisamente
o fastígio supremo e a raiz primeira de toda a
lei. Quando o padre, no Processo, compendia a
essência do tribunal na forma: “O tribunal não
quer nada de ti.Te acolhe quando vens, te deixa
ir quando te vais”, é a estrutura original do nómos

195
que ele enuncia com estas palavras (AGAMBEN,
2002, p. 58).

Diante desta lei que vigora sem significar temos, por-


tanto, a vida submetida ao estado de exceção, a vida sem
nenhuma proteção jurídica, aquela na qual o menor gesto,
o mais inocente esquecimento, a sua própria aparência, ou
o simples ato de “estar no lugar errado na hora errada”,
podem desencadear reações das mais extremas, como se
tornou frequente nos Estados totalitários contemporâneos
(AGAMBEN, 2002, p. 60). A lei permanece em vigor, mas
sua aplicação é suspensa. Uma fratura entre a vigência e o
significado que é preenchida pelo estado de exceção. Por
outro lado, o espaço aberto por esta forma sem conteúdo que
a lei se torna não fica vazio de ordem. Ele é preenchido por
uma ordem pautada unicamente pela decisão soberana que,
apesar de não demandar nenhum fundamento normativo (já
que ela é, em si, fundante), atua como se o possuísse. Abre-se
o espaço para uma força de lei, sem lei.
Este conceito se relaciona com a figura jurídica da
força de lei que se refere, especialmente, àqueles decretos
do executivo que possuem força de lei ainda que não sejam
leis em sentido formal. É o caso, por exemplo, na Itália,
dos famosos decretos-lei, assim como, no Brasil, das medidas
provisórias35, ou, na situação limite do regime nazista, das
próprias palavras do Führer.Todos, apesar de não serem leis
em seu sentido estrito, por não atenderem os requisitos do
processo legislativo, possuem força de lei.
Porém, em um sentido mais profundo, o estado de
exceção nos mostra, em uma forma pura, o isolamento
da força de lei com relação à lei. Cada vez mais estes atos,

Sobre as quais o texto constitucional de 1988 dispõe que: “Art. 62.


35

Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá


adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de
imediato ao Congresso Nacional” [grifos nossos].

196
que não possuem valor de lei e nem são leis em sentido
estrito, adquirem sua força e ocupam o espaço aberto pela
norma que vigora, mas não significa. Sendo assim, o estado
de exceção se apresenta como um espaço anômico em que
temos, de um lado, a vigência sem significado, e, de outro, a
força de lei, sem lei. Assim, o direito continua existindo na
forma de sua inaplicabilidade ao passo que a realidade é
regida pela força de lei.

O estado de exceção é, nesse sentido, a abertura


de um espaço em que aplicação e norma mos-
tram sua separação e em que uma pura força
de lei realiza (isto é, aplica desaplicando) uma
norma cuja aplicação foi suspensa. Desse modo,
a união impossível entre norma e realidade, e a
consequente constituição do âmbito da norma,
é operada sob a forma da exceção, isto é, pelo
pressuposto de sua relação. Isso significa que,
para aplicar uma norma, é necessário, em última
análise, suspender sua aplicação, produzir uma
exceção. Em todos os casos, o estado de exceção
marca um patamar onde lógica e práxis se inde-
terminam e onde uma pura violência sem logos
pretende realizar um enunciado sem nenhuma
referência real (AGAMBEN, 2004, p. 63).

Diante disso, importa conhecer o significado imedia-


tamente biopolítico que esta relação de exceção coloca,
pois na medida em que o direito se encontra em estado
de permanente suspensão, o poder exercido sobre a vida
se dá como uma pura dominação de fato, sem nenhuma
limitação jurídica, ainda que se apresente como possuindo
força de lei. Perante a suspensão da norma, a vida é exposta
a esta relação de força absoluta36.

Esta estrutura a partir da qual o direito se refere à vida e a inclui em


36

si por meio de sua própria suspensão, Agamben chama de relação de

197
Conforme argumentamos anteriormente, um dos
exemplos disto, da exposição da vida à relação de força
sem limites, seria a situação dos prisioneiros de Guantá-
namo acusados de terrorismo pelos Estados Unidos após
os atentados de 11 de setembro de 2001. Desde essa data,
as forças estadunidenses e suas aliadas vêm capturando
indivíduos suspeitos de envolvimento com terrorismo,
majoritariamente em países estrangeiros, e transferindo-os
para os campos de detenção de Guantánamo, sem qualquer
acusação formal e sem qualquer direito de defesa (AGAM-
BEN, 2002, p. 14).
Porém, muito além das frequentes denúncias de que
muitos destes prisioneiros foram “vendidos” em troca das
grandes compensações financeiras, mesmo sem nenhuma
prova de seu envolvimento com atividades criminosas37,

bando. Em suas palavras:“Retomando a sugestão de Jean-Luc Nancy,


chamemos bando (do antigo termo germânico que designa tanto a
exclusão da comunidade quanto o comando e a insígnia do sobera-
no) a esta potência (no sentido próprio da dynamis aristotélica, que é
também sempre dynamis mè energeîn, potência de não passar ao ato)
da lei de manter-se na própria privação, de aplicar-se desaplicando-se.
A relação de exceção é uma relação de bando. Aquele que foi banido
não é, na verdade, simplesmente posto para fora da lei e indiferente a
esta, mas é abandonado por ela, ou seja, exposto e colocado em risco
no limiar em que vida e direito, externo e interno se confundem.
Dele não é literalmente possível dizer que esteja fora ou dentro do
ordenamento (por isso sua origem, in bando, a bandono significam em
italiano tanto ‘à mercê de’ quanto ‘a seu talante, livremente’, como
na expressão correre a bandono, e bandito quer dizer tanto ‘excluído,
posto de lado’ quanto ‘aberto a todos, livre’, como em mensa bandita
e a redina bandita). É neste sentido que o paradoxo da soberania pode
assumir a forma: ‘não existe um fora da lei’. A relação originária da lei
com a vida não é a aplicação, mas o Abandono. A potência insuperável do
nómos, a sua originária ‘força de lei’, é que ele mantém a vida em seu
bando abandonando-a. E é esta estrutura do bando que trataremos
de compreender aqui, para podermos, eventualmente, reinvocá-la
à questão” [grifos conforme o original] (AGAMBEN, 2002, p. 36).
37
Como demonstra o livro escrito pela advogada Mahvish Rukhsana
Khan (2008) a partir de seu contato com os detentos de Guantánamo.

198
o que Agamben procura mostrar é que eles constituem
hoje um grupo que está fora de qualquer classificação ju-
rídica, seja do direito pátrio estadunidense, seja do direito
internacional38. A maior parte dos presos nos campos de
detenção de Guantánamo nunca foram ouvidos por Cortes
de Justiça ou por um Tribunais Militares, mas apenas pelas
military commissions [comissões militares] que não possuem
estatuto jurídico formal em lugar nenhum do mundo.
Contra muitos deles nunca existiram provas concretas ‒
ou, quando muito, apenas testemunhos obtidos a partir de
tortura (KHAN, 2008).
Esta situação exemplifica de maneira ímpar a estrutura
da exceção descrita por Agamben. De um lado, existe um
sistema jurídico de garantias fundamentais que deveriam ser
asseguradas aos cidadãos estadunidenses e aos estrangeiros ‒ seja
com base no direito pátrio ou no direito internacional ‒ que
simplesmente vigoram mas não significam, encontrando-se, assim,
em um estado de permanente suspensão. De outro, existe uma
força de lei, sem lei representada por essas military commissions e
pelos outros órgãos repressivos dos Estados Unidos, que não
possuem base constitucional, mas que exercem uma relação
de poder ilimitada sobre a vida daqueles detentos.
Esta é a representação pura do estado de exceção
contemporâneo. As normas legais, as liberdades básicas,
que formavam a base do Estado de direito tornaram-se
obsoletas frente a força de lei que a ilegalidade oficial
possui. Neste sentido,

Por exemplo, “[...] o USA Patriot Act, promulgado pelo Senado no


38

dia 26 de outubro de 2001, permite ao Attorney general ‘manter preso’


o estrangeiro (alien) suspeito de atividades que ponham em perigo
‘a segurança nacional dos Estados Unidos’; mas, no prazo de sete
dias, o estrangeiro deve ser expulso ou acusado de violação da lei
sobre imigração ou de algum outro delito. A novidade da ‘ordem’
do presidente Bush está em anular radicalmente o estatuto jurídi-
co do indivíduo, produzindo, dessa forma, um ser juridicamente
inominável e inclassificável” (AGAMBEN, 2004, p. 14).

199
Podemos então definir o estado de exceção na dou-
trina schmittiana como o lugar em que a oposição
entre a norma e a sua realização atinge a máxima
intensidade.Tem-se aí um campo de tensões jurídi-
cas em que o mínimo de vigência formal coincide
com o máximo de aplicação real e vice-versa. Mas
também nessa zona extrema, ou melhor, exatamente
em virtude dela, os dois elementos do direito mos-
tram sua íntima coesão (AGAMBEN, 2004, p. 58).

Diante disso, é importante destacar que uma das gran-


des preocupações de Agamben (2004) ao reconstruir o de-
bate sobre o estado de exceção e sua relação com o direito
é justamente a de permitir-nos pensar nele não só como um
estado de coisas, mas, acima de tudo, como sendo o para-
digma de governo dos Estados contemporâneos. Agamben
(2004), em sua obra Estado de exceção, remonta a origem
do estado de exceção moderno à tradição revolucionária
francesa (e não à absolutista, ressalte-se) que instituiu, na
Constituição de 22 de frimário, a possibilidade de “sus-
pender o império da constituição” em casos de revoltas ou
desordens que ameaçassem a segurança do Estado (2004,
p.16). Evidentemente essa possibilidade de suspensão da
constituição foi incorporada pela legislação do Império
Napoleônico e, mesmo com todas as reviravoltas políticas
que ocorreram após seu fim, ela foi mantida até hoje.
Ao longo deste período destacam-se ao menos dois
momentos em que ela foi utilizada: o primeiro que compre-
ende os anos de 1914 a 1919, em que o presidente Poincaré
emitiu um decreto que colocou toda a França em estado de
sítio durante a Primeira Guerra Mundial; e, posteriormente,
quando De Gaulle recorreu à suspensão da constituição
em 1961 em virtude da crise argelina (AGAMBEN, 2004,
p. 25-26). Contudo, em nossa história recente, a mais mar-
cante utilização do mecanismo do estado de exceção foi
na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

200
Naquele país, o instituto da exceção remonta à sua
unificação com a Constituição bismarkiana. Entretanto, seria
com o art. 48 da Constituição de Weimar que ele ganharia
notoriedade já que foi a partir dele que, em 1932, foi de-
cretado o estado de exceção que só teria fim após a queda
do nazismo (AGAMBEN, 2004, p. 28-29). Todavia, o mais
relevante é que a utilização da exceção como prática de
governo, justificada como forma de “defender a democracia
e o Estado”, não se encerrou com os horrores do nazismo.
Pelo contrário, ela permaneceu como técnica concreta, cons-
tantemente reeditada, ainda que não em sua forma clássica.
Agamben (2004) demonstra que o dispositivo da
exceção não demanda mais necessariamente de uma de-
claração formal para ser utilizado – as técnicas usadas na
guerra contra o terror ou na guerra às drogas são exemplos
disso. Nas democracias ocidentais esta necessidade foi sen-
do gradativamente substituída por uma generalização sem
precedentes do paradigma da segurança como técnica normal
de governo que, em nome da defesa da sociedade, suspen-
de a todo o tempo as garantias jurídico-constitucionais
dos indivíduos (AGAMBEN, 2004, p. 27-28). Assim, na
medida em que os grandes perigos contemporâneos vão
sendo reeditados, a exceção passa a ser a principal técnica
de governo. Em suma, o estado de exceção se tornou, na
perspectiva de Agamben, um verdadeiro paradigma de governo
dominante na política contemporânea, e, neste sentido, a regra
geral tal como antecipava Walter Benjamin (1994).

7.3. Contribuições de Agamben para a


análise das políticas de controle dos
crimes e das violências no Brasil
O modo como Giorgio Agamben produz suas refle-
xões, a profundidade e o rigor filosófico presentes em suas
análises, podem, por vezes, nos distanciar do elemento mais

201
importante que este autor traz: a demonstração de que
nem o estado de exceção nem o homo sacer são institutos
que fazem parte apenas de nossa história pretérita, de um
passado que pretendemos não repetir em virtude de sua
violência extrema e de suas consequências nefastas para a
humanidade. Ao contrário, é provável que a maior contri-
buição deste autor se dê ao demonstrar que o homo sacer e
o estado de exceção estão desde o início internalizados na
gestão biopolítica dos corpos presente na governamentali-
dade moderna. E, além disso, não seria demais dizer que a
matabilidade e a constante suspensão da ordem jurídica são
instrumentalizados por discursos que circulam livremente
e que fazem parte do nosso atual vocabulário comum.
A demanda pelo extermínio é constante e perceptí-
vel por meio de expressões enunciadas a todo momento,
tais como “bandido bom é bandido morto”. O que mais
significa isso senão a demanda pelo extermínio de pesso-
as consideradas indesejáveis? Se o ordenamento jurídico
brasileiro não prevê a pena de morte, o que é isso senão a
enunciação do fato de que o suspeito pela prática de um
crime torna-se matável e, assim, que sua morte não pode
ser considerada homicídio?
O trágico é que esta demanda pelo extermínio en-
contra eco nas políticas de segurança pública e pode ser
verificada, por exemplo, através dos dados apresentados
pela Anistia Internacional que colocam a polícia brasileira
como aquela que mais mata civis no mundo39 ou, mais
precisamente, no fato de que somente a polícia militar do
Estado do Rio de Janeiro matou mais de 10 mil civis em
confronto entre 2001 e 2011 justificando-as como autos
de resistência (MISSE, et. al. 2013).

39
Site http://g1.globo.com/globo-news/noticia/2015/09/forca-po-
licial-brasileira-e-que-mais-mata-no-mundo-diz-relatorio.html ,
acessado no dia 21 de fevereiro de 2016.

202
Diante disso, quanto mais aumenta esta contagem de
corpos e quanto mais se demanda a permanência desta políti-
ca40, mais evidente fica a hipótese de Agamben (2004) de que
no interior dos chamados Estados Democráticos de Direito,
como deveria ser o caso brasileiro, mais se torna visível a
presença da lógica da exceção e da vida nua do homo sacer.
Estas conclusões já vem sendo alcançadas por diversos
sociólogos e juristas brasileiros, a exemplo dos dois impor-
tantes estudos sobre os autos de resistência feitos por Michel
Misse (2013) e Orlando Zaccone (2015), o primeiro com
uma análise minuciosa dos procedimentos apuratórios e dos
julgamentos dos casos identificados como autos de resistên-
cia na cidade do Rio de Janeiro e o segundo com um foco
maior nos pedidos de arquivamento de inquéritos policiais
realizados pelo Ministério Público também na cidade do
Rio de Janeiro. No entanto, não é só nos autos de resistência
que podemos verificar as políticas de exceção no contexto
brasileiro. O populismo punitivo, que se consolida diante de
uma parcela da população mantida atemorizada pelo sen-
sacionalismo midiático, tem se afirmado em uma constante
demanda por um direito penal mais rigoroso, por leis penais
mais severas e até mesmo da possibilidade de se flexibilizar
direitos fundamentais em favor da segurança pública.
Nesta esteira, diversas alterações legais foram intro-
duzidas no ordenamento jurídico pátrio mesmo quando
em total desrespeito aos direitos fundamentais previstos
na Constituição e em Tratados Internacionais, tais como
o Regime Disciplinar Diferenciado na execução penal,
a criminalização de movimentos sociais, a tipificação
do crime de terrorismo, a aprovação da lei das organi-
40
Vera Malaguti Batista (2012) consegue demonstrar com clareza esta
demanda popular pela violência homicida contra os suspeitos de
envolvimento em tráfico de drogas no texto O Alemão é muito mais
complexo redigido a propósito da chamada ocupação do Complexo
do Alemão e da Vila Cruzeiro em 2010.

203
zações criminosas e até mesmo a política de “tolerância
zero” relacionada aos crimes de trânsito. São inúmeras
a situações em que há a suspensão da ordem jurídica (a
vigência sem significado) para a execução de medidas
que possuem apenas uma suposta aparência de legalidade
mesmo quando em total violação à ordem jurídica (a
força de lei). Tratam-se da execução pura e simples da
força soberana sob a égide da qual indivíduos podem se
tornar, no limite, seres matáveis.
Retomando o argumento inicial, é possível verificar
a presença de um espaço da exceção no qual de nada
vale qualquer regulamento ou limite normativo uma vez
que estes se encontram em permanente suspensão. Assim,
aqueles que estão submetidos a este espaço como hominis
sacri são expostos à possibilidade limite do extermínio pelo
poder soberano. Afinal, “um dos paradoxos do estado de
exceção quer que, nele, seja impossível distinguir a trans-
gressão da lei e a sua execução, de modo que o que está
de acordo com a norma e o que a viola coincidem, nele,
sem resíduos” (AGAMBEN, 2002, p. 65).
Desta forma, as hipóteses de Agamben parecem en-
contrar eco na instrumentalização da biopolítica contem-
porânea, notadamente quando o que está em jogo são as
políticas de controle dos crimes e das violências. Assim,
uma investigação cada vez mais ampla destes mecanismos,
em tudo aquilo que eles buscam esconder por detrás da
máscara da “defesa da sociedade”, se torna fortemente
necessária a fim de que se possam localizar as estratégias,
muitas vezes sutis, que nos ocultam certa verdade histórica,
no sentido benjaminiano, de que o estado de exceção em
que vivemos se tornou regra geral.

7.4. Referências
AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. São Paulo: Ed.
Boitempo, 2004.

204
_______. Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua. Belo
Horizonte: Ed. UFMG, 2002.
_______. Signatura rerum: sobre el método. Buenos Aires:
Adriana Hidalgo Ed., 2009.
BATISTA,Vera Malaguti (org.). Paz armada. Rio de Janeiro:
Ed. Revan, 2012.
BAUMAN, Zygmunt. Vidas Desperdiçadas. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2005.
BENJAMIN,Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios
sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Ed. Brasiliense,
1994.
FERREIRA, Bernardo. O risco do político: crítica ao
liberalismo e teoria política no pensamento de Carl Schmitt.
Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.
KAFKA, Franz. O processo. São Paulo: Ed. Companhia das
Letras, 2005.
KHAN, Mahvish Rukhsana. Diário de Guantánamo: os
detentos e as histórias que eles me contaram. São Paulo: Ed.
Larousse do Brasil, 2008.
MISSE, Michel et. al. Quando a polícia mata: homicídios
por “autos de resistência” no Rio de Janeiro (2001-2011). Rio
de Janeiro: NECVU / Ed. Booklink, 2013.
MURRAY, Alex. Giorgio Agamben. Routledge critical
thinkers. New York: Routledge, 2010.
SCHMITT, Carl. Teologia Política. Belo Horizonte: Ed. Del
Rey, 2006.
ZACCONE, Orlando. Indignos de vida: a forma jurídica da
política de extermínio de inimigos na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro: Ed. Revan, 2015.

205
Loïc Wacquant:
Encarceramento em Massa e
Criminalização da Pobreza no
Neoliberalismo 8
A pena privativa de liberdade sempre esteve, desde o
seu nascimento, atrelada às demandas impostas pelo siste-
ma capitalista em suas constantes transformações. Serviu
como forma de impor a disciplina do trabalho assalariado
em camponeses, como controle do exército de reserva
de trabalhadores e da precificação da mão de obra, como
dispositivo de adestramento da força de trabalho, enfim,
esteve continuamente apta a manter o controle da classe
proletária da maneira necessária para atender aos interesses
do sistema produtivo. A prisão figura, assim, como institui-
ção auxiliar da fábrica.
Isto deixa claro como a prisão não é uma instituição
estanque, que se organiza da mesma maneira desde sua
criação, muito menos possuiu as mesmas funções como
o pensamento liberal faz crer. Seus mecanismos, táticas,
instrumentos, possuem uma grande capacidade de se me-
tamorfosear de acordo com as necessidades do sistema
econômico vigente.
Neste sentido, por exemplo, a ausência, percebida em
larga escala, de programas que visam a chamada “ressociali-
zação” nas prisões contemporâneas deve ser entendido mais
como um sintoma destas transformações que de um mero
déficit de gestão. Afinal, será que a disciplinarização da mão
de obra, que se apresenta na forma de “ressocialização”, é
a principal necessidade do capitalismo neoliberal atual?

207
Em um período em que há excedente de mão de obra
qualificada, com altas taxas de desemprego, um enorme
exército de reserva, para que a prisão deveria se ocupar do
adestramento do proletariado?
Este tipo de pergunta traz a necessidade de trilhar
dois caminhos: o primeiro visando compreender, de fato, as
principais mudanças recentes no capitalismo, notadamente a
transição do Estado de Bem-estar Social (Welfare State) para
o neoliberalismo; e o segundo com vistas a verificar quais
impactos destas transformações sobre os sistemas penais.
Contemporaneamente, o sociólogo Loïc Wacquant
desponta como um dos principais pesquisadores a inves-
tigar o modo como se organizam as políticas criminais
e de segurança pública no neoliberalismo. Professor na
Universidade da Califórnia, em Berkeley, e pesquisador do
Centree Europeen de Sociologie et de Science Politique, em Paris,
teve o seu livro As prisões da miséria (2001) traduzido para
mais de 20 idiomas, com ampla circulação pelo mundo
(Cf. WACQUANT, 2012c).
Segundo este autor, “o mundo vem sendo de fato
assolado por uma tempestade de ‘lei e ordem’, que trans-
formou o debate público e a política sobre crime e punição
de maneiras que nenhum observador da cena penal poderia
ter previsto 12 anos atrás” (WACQUANT, 2012c, p. 10).
Uma parte importante do trabalho de Wacquant foi
dedicada à análise da ascensão de determinadas práticas
punitivas nos Estados Unidos e Europa, que se fortaleciam
na medida em que a desregulamentação econômica, de-
corrente do neoliberalismo, expandia. Sua tese, desenvol-
vida principalmente nas obras As prisões da miséria (2001)
e Punir os pobres (2007), é a de que existe uma correlação
direta entre a retração do Estado de Bem-estar e de seus
mecanismos de seguridade social e a dilatação desenfreada
do controle punitivo do Estado ‒ que se manifesta pelo
consenso formado em torno da “lei e ordem” e da neces-

208
sidade de ampliação do encarceramento. Entretanto, antes
de passar a análise desta tese, resgataremos brevemente a
história das transformações do capitalismo no último século.

8.1. As transformações do capitalismo


do século XX e a ascensão do
neoliberalismo
O século XX foi marcado por, ao menos, duas trans-
formações radicais no curso sistema econômico capitalista:
o surgimento do Estado de Bem-estar Social (ou Inter-
vencionista) entre as décadas de 1930 e 1950 e as reformas
neoliberais ocorridas após a década de 1970. Entre 1900 e
1929 os Estados Unidos da América experimentaram uma
onda incomparável de crescimento econômico, fazendo
com que o país se tornasse a maior potência industrial do
mundo. Porém, uma década após o fim da Primeira Guerra
Mundial, com a gradativa retomada econômica dos países
da Europa, esta onda de crescimento se tornou insusten-
tável, culminando em uma das maiores crises econômicas
do capitalismo: a Grande Depressão.
Segundo os dados do período,

Entre 1929 e 1932, registraram-se 85.000 falên-


cias de empresas; mais de 5.000 bancos suspen-
deram suas operações; o valor das ações da Bolsa
de Nova Iorque caiu de 87 bilhões de dólares
para 19 bilhões de dólares; 12 milhões de pessoas
ficaram desempregadas e cerca de um quarto da
população se viu privada dos meios para garantir
a própria subsistência; a renda agrícola redu-
ziu-se a menos da metade; o produto industrial
diminuiu cerca de 50% (HUNT; SHERMAN,
2008, p. 165).

A resposta para a Grande Depressão viria do econo-


mista inglês John Maynard Keynes, que não compartilhava

209
da crença do liberalismo clássico de que o equilíbrio econô-
mico seria atingido espontaneamente. Para ele, é papel do
Estado intervir diretamente na economia a fim de corrigir
suas falhas e, principalmente, assegurar o pleno emprego.
O modelo keynesiano do Estado Intervencionista em
pouco tempo se tornou a política institucional do governo
de Franklin D. Roosevelt nos Estados Unidos da América,
como também foi abraçado pelos países europeus que
estavam em colapso após a Segunda Guerra Mundial. Esta
nova política econômica não apenas foi responsável pela
retomada dos países devastados pela crise e pela guerra,
como também elevou os índices de emprego e ampliou a
rede de políticas de bem-estar social fazendo com que o
sistema capitalista mais uma vez representasse uma alter-
nativa eficaz ao socialismo real.
Do mesmo modo, o Estado Intervencionista foi res-
ponsável por um aumento considerável do poder e da
participação da classe trabalhadora sobre as políticas relativas
a salário, emprego, investimentos e lucros empresariais. Em
outras palavras, os trabalhadores, por meio dos sindicatos
e dos partidos operários, estavam modificando profunda-
mente as relações entre capital e trabalho.
No final da década de 1960 e ao longo da década de
1970 as reformas trabalhistas construíram uma legislação que
intervinha diretamente: “1) na regulamentação do processo
do trabalho (através de legislação em previdência e assistência
médica e regulamentação do meio ambiente) e na divisão
de responsabilidades no local de trabalho entre o capital e
o trabalho; e, 2) no poder de investimento do capital” (NA-
VARRO, 2002, p. 93). No entanto, justamente a partir deste
momento é o Estado Social que começa a entrar em colapso.
Dentre as razões para tanto, a mais comumente aceita é a de
que houve uma crise fiscal, ou seja, para realizar sua política
econômica e social o Estado teve de gastar muito além de
um orçamento não-inflacionário (TOLEDO, 2002, p.76).

210
Todavia, outra explicação gira em torno do crescimen-
to das demandas e da participação popular, bem como da
proteção dos trabalhadores. Esses fatores limitavam a livre
atuação dos empresários e, com isso, reduziam seus lucros
(TOLEDO, 2002, p.76).

Esse crescimento contínuo do movimento ope-


rário nos âmbitos da produção e do Estado
converteu-se numa clara ameaça para a classe
capitalista, o que explica as mudanças ocorridas
em fins dos anos 70 e princípio da década de
80. Claramente, foi a força da classe trabalhadora
que determinou essas mudanças (NAVARRO,
2002, p. 98).

Assim, a resposta do capital foi, de um lado, a redução


dos investimentos e, de outro, a pressão para as reformas
no sistema econômico. Desta forma, estariam construí-
das as bases sobre as quais seriam legitimadas as reformas
neoliberais. Efetivamente, as primeiras experiências des-
sas reformas se deram com a implantação das Ditaduras
Militares na América Latina, com especial atenção para o
Chile comandado por Pinochet. Nos países desenvolvidos
isso só ocorreria no final dos anos 1970, dentre os quais
são exemplos o governo Thatcher na Inglaterra em 1979,
o governo Reagan nos Estados Unidos da América em
1980, o governo Khol na Alemanha em 1982, e o governo
Schluter na Dinamarca em 198341.
Deve-se considerar, contudo, que as teses neoliberais já
vinham sendo construídas, ao menos desde 1944 quando foi
41
Apesar de haver certo consenso entre os estudiosos do neoliberalismo
ao situar a ascensão desde sistema econômico no período citado,
autores como Foucault (2008) identificam as primeiras experiências
de implementação da lógica neoliberal nas reformas implementa-
das por Ludwig Erhard na Alemanha ao fim da Segunda Guerra
Mundial.

211
publicada a obra O Caminho da Servidão de Friedrich A. von
Hayek e, principalmente, após 1947, com a constituição da
Sociedade de Mont Pèlerin42. Ou seja, se, para alguns, o fim da
guerra significava a necessidade de políticas intervencionistas,
para outros, esta crise seria o momento ideal para implemen-
tar reformas de livre mercado. Esta corrente de pensamento
econômico gira em torno de dois aspectos complementares:
a superioridade do livre mercado como uma ordem social
espontânea e o individualismo metodológico. Isto significa
que os interesses egoístas dos indivíduos se ajustam dentro
de uma ordem social de mercado, que ninguém é capaz de
prever ou de compreender em sua totalidade43.
Como consequência, o neoliberalismo se orienta por
um forte anti-estatismo44. Na medida em que, para ele, o
Estado não tem capacidade de prever todos os movimentos
do mercado, qualquer intervenção sua na economia será
prejudicial e, por isso, este assume a responsabilidade de
todos os resultados negativos: é o causador de crise, cobra
altos impostos, é inflacionário, alimenta uma burocracia
ineficiente, etc. (TOLEDO, 2002, p. 81). Em um nível mais
amplo, o pensamento neoliberal se caracteriza como uma
visão de mundo que, no entender de Toledo,

tem-se disposto a conformar um ethos sem raízes


tradicionais precisas: o mito da mobilidade pelo
esforço pessoal; as generosidades da livre empresa

42
A Sociedade de Mont Pèlerin, como ficou conhecida, era composta
por um grupo de teóricos contrários ao Estado Intervencionista que
se reuniam anualmente em uma estação de esqui em Mont Pèlerin,
na Suíça. Dentre seus membros destacam-se Milton Friedman,
Ludwig Von Mises, Karl Popper, Michael Polanyi, dentre outros
(ANDERSON, 2008, p. 9-10).
43
Posteriormente veremos que o neoliberalismo como prática ainda
demanda a desestruturação das políticas do Estado de Bem-estar
Social e a expansão do aparato penal.
44
No âmbito econômico, mas não no âmbito punitivo.

212
(“somos todos empresários”); o direito à diferen-
ciação; a liberdade como valor máximo, embora
com autodisciplina; e uma solidariedade não
problemática para aqueles que não são beneficia-
dos pelo mercado (são um custo necessário dos
ajustes, não causam dor, são uma percentagem
que é preciso diminuir) (TOLEDO, 2002, p. 81).

Assim, apesar de teoricamente estar orientado pela


ideia de liberdade de ação individual – sendo contra qual-
quer tipo de coerção –, a implementação prática do modelo
neoliberal nunca foi pacífica nem abriu mão de um Estado
forte. Afinal, como nos ensina Perry Anderson, para superar
a crise do Estado Social,

O remédio, então, era claro: manter um Estado


forte, sim, em sua capacidade de romper o poder
dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas
parco em todos os gastos sociais e nas inter-
venções econômicas. A estabilidade monetária
deveria ser a meta suprema de qualquer governo.
Para isso seria necessária uma disciplina orça-
mentária, com a contenção dos gastos com o
bem-estar, e a restauração da taxa “natural” de
desemprego, ou seja, a criação de um exército
de reserva de trabalhadores para quebrar os sin-
dicatos (ANDERSON, 2008, p. 11).

Neste sentido, é interessante notar quanto o processo


de consolidação do capitalismo neoliberal é acompanhado
de medidas antidemocráticas e violentas. Como recorda
Naomi Klein (2008, p.19), a reforma econômica do Chi-
le ao longo da ditadura militar, orientada pela chamada
Escola Econômica de Chicago, veio acompanhada do
desaparecimento forçado de milhares de pessoas, especial-
mente ativistas de esquerda, torturas, mortes, perseguição
a sindicatos, etc. Do mesmo modo, a Guerra das Malvinas

213
serviu como elemento que permitiu à Margaret Thatcher
derrotar os mineiros em greve na Inglaterra e deslanchar
a primeira onda de privatizações. Em 1989, o massacre da
Praça da Paz Celestial na China, com a subsequente pri-
são de inúmeros manifestantes, também serviu ao Partido
Comunista para implantar seu “capitalismo com feições
chinesas” (HARVEY, 2005). No entender de Klein,

Algumas das violações mais infames dos di-


reitos humanos de nossa era, que tenderam a
ser encaradas como atos sádicos perpetrados
por regimes antidemocráticos, foram cometidas
com a intenção clara de aterrorizar o público,
ou ativamente empregadas a fim de preparar o
terreno para a introdução das “reformas” radicais
de livre mercado (KLEIN, 2008, p. 19).

Estes últimos exemplos servem para demonstrar um


ponto crucial para as análises que serão construídas por
Wacquant: o neoliberalismo não se resume apenas à sua
dimensão econômica. Como ele afirma,

O neoliberalismo é uma noção escorregadia e


contestada, um termo híbrido, estranhamente
suspenso entre o linguajar simplório do debate
político e a terminologia técnica das ciências
sociais, e que, além do mais, é quase sempre
invocado sem um referencial claro. Singular
ou polimorfa, evolucionária ou revolucioná-
ria, a noção predominante de neoliberalismo
é essencialmente econômica: enfatiza um arranjo
de políticas favoráveis ao mercado, tais como a
desregulamentação do trabalho, a mobilidade do
capital, a privatização, a agenda monetarista da
deflação e autonomia financeira, a liberação do
comércio, concorrência entre as zonas e a redu-
ção da taxação e dos gastos públicos. Mas essa
concepção é estreita e incompleta, bem como

214
excessivamente associada ao discurso moralista
dos defensores do neoliberalismo. Precisamos ir
além desse núcleo econômico e elaborar uma
noção mais sólida que identifique o mecanismo
institucional e os limites simbólicos através dos
quais os princípios neoliberais estão sendo atu-
alizados (WACQUANT, 2012b, p. 31).

Neste sentido, para Wacquant o neoliberalismo é um


“projeto político transnacional que visa refazer o nexo entre
mercado, estado e cidadania a partir de cima” (2012b, p.31)
e que é articulado intimamente a quatro lógicas institucio-
nais, quais sejam, 1) a desregulamentação econômica; 2) a
delegação, retração e recomposição do Estado de Bem-Estar
social; 3) um aparato penal em expansão, invasivo e proa-
tivo individual; e 4) a alegoria cultural da responsabilidade
(WACQUANT, 2012b, p. 32). Em suma, a dimensão de
desregulamentação da economia pela promoção do chama-
do Estado mínimo é apenas uma das quatro identificadas
pelo sociólogo francês.
Mesmo que estas quatro lógicas sejam interdependen-
tes, foi seguindo a trilha da terceira, a expansão do aparato
penal, que as pesquisas de Wacquant se centraram. Para ele,
é necessário perceber como o Estado mínimo econômico,
em defesa do qual alardeiam os apologistas do neoliberalis-
mo, vem em conjunto com um Estado máximo punitivo
sem o qual o primeiro não sobrevive. Uma formação que
ele dá o nome de Estado-centauro, uma cabeça liberal e um
corpo autoritário45.

“O princípio ideológico central do neoliberalismo é que ele inclui


45

a implantação do ‘governo mínimo’, ou seja, o encolhimento do


supostamente flácido e inflado estado do bem-estar keynesiano e
sua transformação em um estado social, seco e ágil, que ‘investe’
em capital humano e ‘ativa’ fontes comunais e apetites individuais
em relação ao trabalho e à participação cívica através de ‘parcerias’
que enfatizam a autossuficiência, o comprometimento com o

215
8.2. Do Estado Providência ao Estado
Penitência
Não é difícil compreender como nos últimos 20
anos os discursos sobre crime, punição e segurança vêm
adquirindo cada vez mais centralidade na gestão da coisa
pública. Debates sobre o medo da criminalidade, sensação
de insegurança, acompanhados de demandas por incremen-
to de leis penais, aumento dos gastos públicos e privados
com segurança, reforço do aparato policial, dentre outros,
são a base a partir da qual se edifica toda uma racionalidade
punitiva operacionalizada pela produção da grande mídia
corporativa, pela burocracia estatal e pela opinião pública.
Na esteira – e como correlativo – deste fenômeno
segue um crescimento avassalador das populações carcerá-
rias ao redor do globo. Nos Estados Unidos, por exemplo,
segundo os dados do Bureau of Justice Statistics, em 1980
havia 503.600 encarcerados, em 1989 este numero ul-
trapassou a marca de um milhão de pessoas, em 2002 já
eram 2.033.100, chegando a 2013 com 2.220.300. Um
aumento de mais de 300% em três décadas. No Brasil tal
realidade não é diferente, pois, de acordo com o Ministério
da Justiça, em 1990 a população carcerária estava na marca
de 90.000 pessoas, em 2000 eram 232.800, chegando a
607.700 em 2014. Ou seja, houve um aumento de 575%
em duas décadas e meia.

trabalho remunerado e o gerencialismo. [Punir os pobres:] Onda


punitiva demonstra que, na realidade, o estado neoliberal se revela
muito diferente: enquanto, no topo, abraça o laisser-faire, liberando
o capital de restrições e ampliando as oportunidades de vida para os
detentores de capital econômico e cultural, nos estratos inferiores
ele é tudo, menos laisser-faire. Na verdade, quando tem que lidar
com a turbulência social gerada pela desregulamentação e de im-
por a disciplina do trabalho precarizado, o novo Leviatã mostra-se
ferozmente intervencionista, autoritário e caro” (WACQUANT,
2012b, p. 33).

216
Atento a este tipo de fenômeno, Loïc Wacquant ini-
ciou uma série de pesquisas com vistas a identificar o que
teria provocado, ao contrário do que as análises da década
de 1970 apontavam,46 o uso tão massivo do encarceramento
nas sociedades contemporâneas. A sua hipótese era a de
que existe um nexo direto entre a crise do Estado Social
e a ascensão do neoliberalismo com a ampliação do apetite
punitivo do Estado.
O autor verificou, pelo menos desde a administração
de Richard Nixon (1969-1974)47, como houve nos Estados
Unidos um atrofiamento gradual das redes de seguridade
social que haviam sido instaladas nos anos que sucederam
a Grande Depressão. Deste modo, seguindo a orientação
neoliberal de redução das intervenções, das atividades e
dos gastos estatais, cada vez mais o Estado diminuía seus
orçamentos destinados ao bem-estar social e, com isso,
gradativamente ampliavam-se as desigualdades sociais e a
insegurança econômica (WACQUANT, 2007, p. 89-96).
Os indivíduos foram intimados a “assumir a respon-
sabilidade por suas próprias vidas” e a assistência social
passava a ser vista como algo que estimula a preguiça e
o vício ‒ o argumento era o de que seus beneficiários se
tornavam dependentes dela, assim como os toxicômanos
dependem de suas drogas, razão pela qual a assistência pre-
cisava ser eliminada (WACQUANT, 2007, p. 97 e 263). O
benefício conhecido como Aid to Families with Dependent
Children (AFDC)48, por exemplo, destinava para uma família
46
Cf. nota 50.
47
Nixon foi o primeiro presidente aconselhado diretamente pelo
economista neoliberal Milton Friedman. No entanto, este criticou
o presidente por entender que ele abriu mão de fazer todas as re-
formas neoliberais por receio de serem impopulares (FRIEDMAN;
FRIEDMAN, 1998, p. 375-396).
48
Benefício destinado à assistência de crianças filhas de pais solteiros
ou de famílias com baixa renda.

217
de quatro pessoas sem nenhuma fonte de renda US$ 221
por mês em 1970; ao passo que em 1980 o valor era US$
350 ‒ porém, levando em conta a inflação do período, em
valores constantes, isso seria equivalente a US$ 165. Em
1990 benefício era de US$ 128 em valores constantes e em
1995 de US$ 110 ‒ uma queda real de mais de 50% em
25 anos. Finalmente, o AFDC foi extinto, por definitivo,
em 1996 (WACQUANT, 2007, p. 97)49.
Além disso, o recuo dos instrumentos de bem-estar se
deram em várias outras frentes, como o seguro-desemprego
e o auxílio para a invalidez ocupacional. No primeiro caso,
a cobertura caiu de 76% dos assalariados que perderam
seus empregos em 1935 para cerca de 30% em 1995. No
segundo, a taxa de cobertura caiu de 7,1 trabalhadores em
cada mil no ano de 1975 para 4,5 em mil em 1995 (WA-
CQUANT, 2007, p. 101).
Segundo as estatísticas oficiais, em 1991 uma em cada
três famílias estadunidenses era incapaz de dar conta, ao
mesmo tempo, de suas necessidades básicas e dos custos de
moradia. No final de 1994 o número de pobres nos Estados
Unidos ultrapassava 40 milhões de pessoas ‒ o equivalen-
te a 15% da população da época. Isso sem contar com o
aumento significativo do desemprego entre 1980 e 1990
decorrente da política de “enxugamento” (downsize) que
se tornou o instrumento privilegiado de gestão financeira
das empresas (WACQUANT, 2007, p. 102-103). Todavia,
conjuntamente a essas medidas de redução dos papéis sociais

Isso sem contar a “técnica administrativa” utilizada ao longo desse


49

período para dificultar o acesso este benefício. Segundo Wacquant


diversos empecilhos burocráticos foram criados com o objetivo
declarado de identificar os abusos e os fraudadores do sistema.
Deste modo, os formulários a serem preenchidos, os documentos
exigidos, e a frequência das reavaliações aumentaram consideravel-
mente fazendo com que entre 1972 e 1984 as recusas administrativas
aumentassem em um milhão (WACQUANT, 2007, p. 98-99).

218
do Estado e do aumento da insegurança social em geral,
outra série de fenômenos chamou a atenção de Wacquant
neste mesmo período: o incremento considerável da ca-
pacidade e da extensão da punição nos Estados Unidos.
Segundo ele, ao longo de toda a década de 1960 até o
início da década de 1970, a população prisional diminuía
regularmente a ponto dos especialistas da época dizerem
que, após ter ocupado um papel central no capitalismo in-
dustrial, nas sociedades avançadas a prisão estaria destinada
a desempenhar uma função menor50. Em 1973 o número
de encarcerados chegou ao seu nível mais baixo desde o
final da Segunda Guerra (WACQUANT, 2007, p. 206).
Contudo, contra todas as avaliações possíveis, após
1973 houve uma reviravolta brutal na demografia carcerária
nos Estados Unidos: sua população dobrou em dez anos e
quadruplicou em vinte, como demonstramos acima. Mesmo
levando em consideração o aumento populacional, este
crescimento ainda é assustador: em 1970 eram 96 presos
por 100 mil habitantes, já em 2000 eram 478, chegando a
698 por 100 mil em 2013 ‒ mais de sete vezes mais (WA-
CQUANT, 2007, p. 207).
Mesmo com o grau de independência que cada unida-
de da federação possui no âmbito penal nos Estados Unidos,

Como afirma Wacquant: “Vale lembrar que [...] por volta de meados
50

dos anos 1970 a população carcerária dos EUA estava declinando de


forma acelerada há aproximadamente duas décadas, atingindo um total
de aproximadamente 360.000 detentos em 1973. Os principais analistas
da questão penal, de David Rothman a Michel Foucault e a Alfred
Blumstein, foram então unânimes em prever a iminente marginalização
da prisão como instituição de controle social ou, no pior dos cenários,
a estabilidade a longo prazo do confinamento penal num nível his-
toricamente moderado. Ninguém previa a iminente quadruplicação
da população prisional estadunidense nos 20 anos seguintes, que faria
com que a marca de dois milhões de presos fosse atingida em 2000,
mesmo tendo a taxa de crimes estagnado e depois regredido durante
esse período” (WACQUANT, 2007, p. 344, nota vi).

219
Wacquant demonstra que essa foi uma “tendência nacional
de fundo” que independia das características individuais
de cada Estado, do seu nível de criminalidade e da orien-
tação política do executivo local (WACQUANT, 2007, p.
213). Porém, outro dado ainda mais surpreendente é que
este aumento vertiginoso da população carcerária se deu
durante um período de estagnação e depois de recuo da
criminalidade. Entre 1975 e 1995 os níveis de homicídio,
roubos qualificados, lesões corporais e delitos de proprie-
dade permaneceram praticamente os mesmos, quando não
diminuíram (WACQUANT, 2007, p. 222).
Portanto, como demonstra Wacquant, este hiperencar-
ceramento visto nos EUA não se explica por uma escalada
da criminalidade violenta, mas especialmente pela extensão
do recurso ao aprisionamento para uma série de delitos de
rua que até então não acarretavam a privação de liberdade,
tais como algumas infrações relativas aos entorpecentes e
comportamentos tidos como atentatórios à ordem pública.
Sem contar, é claro, a “guerra à drogas” iniciada na década
de 1970 e intensificada a partir de 1983. Em resumo, um
conjunto cada vez maior de autores de atos infracionais,
fossem eles criminosos profissionais e violentos ou de oca-
sião e não-violentos eram agora submetidos a penas cada
vez mais intensas. Portanto o encarceramento não surge
como uma resposta ao aumento da insegurança criminal,
mas da insegurança social imposta pelo sistema neoliberal
(WACQUANT, 2007, p. 222).
Além disso, outros dois fatores foram determinantes
para o aumento da população carcerária: o alongamento das
detenções e o volume de aprisionados. Em primeiro lugar, o
maior recurso ao aprisionamento, com penas cada vez maiores,
traduz o endurecimento da política criminal e judiciária nos
Estados Unidos. Afinal, no conjunto, houve a multiplicação
das infrações que acarretam o aprisionamento; o aumento
das penas impostas tanto aos delitos violentos como aos sem

220
gravidade; instauração de penas irredutíveis para certas causas
como tráfico de entorpecentes e atentados aos costumes;
perpetuidade automática do terceiro crime (“three strikes and
you’re out”); endurecimento generalizado das sanções em caso
de reincidência; aplicação do Código Penal adulto aos menores
de 16 anos; redução ou supressão da liberdade condicional;
dentre outros (WACQUANT, 2007, p. 226).
Por outro lado, ademais do aumento do tempo de
encarceramento, a estrutura policial e judiciária ampliou sua
persecução aos supostos criminosos. No início da década de
1980, a polícia nos Estados Unidos efetuava em torno de
10,4 milhões de detenções, das quais cerca de 69% foram
seguidas de condenação e aprisionamento. Por volta de
1995 o número de detenções já chegava a 15,2 milhões, das
quais cerca de 94% resultaram em aprisionamento (WA-
CQUANT, 2007, p. 227). Para Wacquant tudo isso indica,
na verdade, que a penalização, antes de tudo, visa conter
as desordens urbanas alimentadas pela desregulamentação
econômica e disciplinar de frações precarizadas da classe
trabalhadora pós-industrial pobre e negra. Em suas palavras,

O que mudou durante este período não foi a natu-


reza e a frequência da atividade criminosa, mas sim
a atitude dos poderes públicos ‒ e da classe média
branca que constitui o grosso dos contingentes
eleitorais ‒ para com o proletariado e o subprole-
tariado negro, escolhidos para se constituírem no
principal alvo e junto aos quais o Estado penal se
encarrega de reafirmar os imperativos cívicos do
trabalho e da moralidade com tão mais vigor, que a
precarização do emprego e a contração da caridade
do Estado os colocam cada vez mais vulneráveis
(WACQUANT, 2007, p. 225).

A este processo Wacquant deu o nome de criminalização


da pobreza, uma vez que o que está em questão era o fato de

221
a punição ser direcionada a determinados indivíduos pelo
simples fato de serem pobres. Tratam-se de medidas que
se destinam a transformar em crime as formas de vida e as
estratégias de sobrevivência das camadas inferiores do proletariado,
notadamente seus integrantes negros e hispânicos. Deste
modo, segundo o autor,

O recurso sistemático às instituições policial e


judiciária para conter as desordens da vida co-
tidiana nas famílias e nos bairros pobres explica
por que as prisões estadunidenses estão hoje
cheias, não de “predadores violentos”, como
alardeiam os partidários do “tudo pelo carce-
rário”, mas sim por criminosos não violentos
e delinquentes vulgares do direito comum, os
quais, como já se destacou anteriormente, são
essencialmente egressos das frações precarizadas
da classe operária (WACQUANT, 2007, p. 228).

Isso se confirma com a forma seletiva como este rigor


penal é distribuído sobre os diferentes grupos sociais. Assim,
são ampliadas as táticas legais de coação destinadas exclusi-
vamente aos distritos decadentes das classes pobres, como
o “policiamento para a manutenção da ordem” (conhecido
também como “tolerância zero” a partir das experiências
ocorridas em Nova York a partir dos anos 1990); batidas
policiais intensivas em conjuntos habitacionais ou escolas
públicas; normas destinadas a coibir ações de gangues; e, até
mesmo, toques de recolher para jovens em guetos e bairros
pobres. (WACQUANT, 2007, p. 123). Por outro lado, não
foram detectadas mudanças expressivas nos mecanismos
para coibir, por exemplo, os crimes de colarinho branco.
Toda essa racionalidade punitiva de lei e ordem tiveram
seu ápice na “experiência” da cidade de Nova York durante
a gestão de Rudolph Giuliani (1994-2002) por meio da
política de tolerância zero, cujo fundamento se encontrava na

222
teoria das janelas quebradas. Este modelo foi posteriormente
exportado para diversos cantos do globo como um dos
“melhores instrumentos de combate ao crime”51.
A política de tolerância zero se destina a penalizar os
pequenos delitos tomando como premissa que sua mera
existência é aquilo que estimula a ocorrência de delitos
maiores. Desta maneira, como foi o caso em Nova York, a
política de penalização é destinada aos sem teto que acossam
os motoristas em sinais de trânsito em troca de dinheiro (o
que, para Rudolph Giuliani, era o “símbolo amaldiçoado
da decadência social e moral da cidade”), aos pequenos
passadores de drogas, aos moradores de rua, profissionais
do sexo, grafiteiros, pichadores, etc. Em resumo, é uma
criminalização destinada aos estratos sociais mais baixos
que “sujam” e “ameaçam” a “qualidade de vida” das classes
média e alta das cidades (WACQUANT, 2001, p. 26-27).
A base teórica desta política é a chamada teoria das
janelas quebradas, formulada por James Q.Wilson e George
Kelling em 1982, segundo a qual seria lutando contra os
pequenos distúrbios cotidianos que se evitariam as grandes
patologias criminais. O título se inspira na máxima de que,
imaginando um edifício com janelas quebradas, se elas
não forem consertadas rapidamente, a tendência é a de
que vândalos partam mais janelas, podendo eventualmen-
te entrar no edifício e, se ele estiver desabitado, ocupá-lo
definitivamente.
Neste sentido, como demonstra Wacquant,

Essa teoria, jamais comprovada empiricamente,


serve de álibi criminológico para a reorganização
do trabalho policial empreendida por William
Bratton, responsável pela segurança do metrô de
Nova York promovido a chefe da polícia mu-

51
Sobre a exportação da política de tolerância zero cf.WACQUANT,
2012c.

223
nicipal. O objetivo dessa reorganização: refrear
o medo das classes médias superiores ‒ as que
votam ‒ por meio da perseguição permanente
dos pobres nos espaços públicos (ruas, parques,
estações ferroviárias, ônibus e metrô etc.) Usam
para isso três meios: aumento em 10 vezes dos
efetivos e dos equipamentos das brigadas, res-
tituição das responsabilidades operacionais aos
comissários de bairro com obrigação quan-
titativa de resultados, e um sistema de radar
informatizado (com arquivo central sinalético e
cartográfico consultável em microcomputadores
a bordo dos carros de patrulha) que permite a
redistribuição contínua e a intervenção quase
instantânea das forças de ordem, desembocando
em uma aplicação inflexível da lei sobre delitos
menores tais como a embriaguez, a jogatina, a
mendicância, os atentados aos costumes, simples
ameaças e “outros comportamentos anti-sociais
associados aos sem-teto” [...] (WACQUANT,
2001, p.26).

Por esta razão, pode-se dizer que, se o modelo do Estado


de bem-estar social empreendia uma guerra contra a pobreza por
meio de políticas caritativas, o modelo neoliberal empreende
uma verdadeira guerra contra os pobres por meio de suas políticas
criminais e de segurança pública (WACQUANT, 2007, p.
275). Mais do que isso, pode-se dizer que esta é a característica
chave do processo de retração do Estado social e ascensão do
neoliberalismo: um governo mínimo no campo econômico e
um governo máximo no campo punitivo, o Estado-centauro52.
Por isso que, a galope, este centauro trouxe uma consequência
52
“Esse Estado-centauro, guiado por uma cabeça liberal, montada num
corpo autoritário, aplica a doutrina do laissez-faire et laissez-passer
a montante, com relação às desigualdades sociais, aos mecanismos
que as geram (o livre jogo do capital, desrespeito do direito do
trabalho e desregulamentação do emprego, retração ou remoção
das proteções coletivas), mas mostra-se brutalmente paternalista e

224
devastadora para o sistema carcerário dos Estados neoliberais:
o encarceramento em massa ou hiperencarceramento53 das frações
negras e pobres do subproletariado.
Em suma, em suas investigações Wacquant constata
que nos EUA, o centro pulsante das reformas neoliberais,
a taxa de encarceramento (por 100 mil habitantes) no final
da década de 1990 já era de seis a doze vezes maior que a
registrada nos países da União Europeia – uma diferença
que por volta do ano de 1970 não chegava a três vezes.
Como ele demonstra, mesmo a África do Sul, ao final da
guerra civil contra o apartheid, prendia duas vezes menos
que os Estados Unidos (WACQUANT, 2007, p. 213-214).
A consequência mais visível desta hiperinflação carce-
rária está na superlotação carcerária. O apetite devorador
do Estado penal não consegue encontrar resposta tão ágil
na expansão das vagas em presídios. O resultado inevitável
é a superlotação. Segundo o autor, a degradação carcerá-
ria nos EUA foi tão grande que em 1999, 33 Estados da
União foram colocados sob tutela dos tribunais, sendo que
9 tiveram o conjunto do seu sistema carcerário declarado
contrário à Constituição por se equipararem a castigos
“cruéis e não habituais” (2007, p. 214).
No entanto, para dar resposta a taxas de ocupação que
chegaram a 150% em alguns Estados, estratégias cada vez
mais absurdas foram sendo utilizadas. Em Nova York, uti-

punitivo a jusante, quando se trata de administrar suas consequências


no nível cotidiano” (WACQUANT, 2007, p. 88-89).
53
Por conta do sentido dúbio da expressão mass incarceration em inglês,
que pode significar encarceramento em massa ou encarceramento de
massa,Wacquant tenta evitar esta segunda acepção do termo (que leva-
ria a uma interpretação equivocada já que não há um encarceramento
de toda a massa, mas apenas de suas parcelas negras e pobres) utilizando
hiperencarceramento.Todavia, como em português há a possibilidade de
distinguir o encarceramento de massa do encarceramento em massa,
utilizaremos tanto esta última expressão como hiperencarceramento
sem distinções (Cf. WACQUANT, 2012a, p. 25)

225
lizaram prisões flutuantes no rio Hudson; em Los Angeles,
foram ônibus de transportes de presos que serviram como
dormitórios para os detentos; em Nashville, utilizaram um
túnel subterrâneo que liga a cadeia local ao tribunal; em
Phoenix, instalaram, no deserto, tendas militares cercadas
de arame farpado; em Arpaio, retomaram o uso das bolas de
ferro presas aos pés dos detentos e criaram um dormitório
ao ar livre (WACQUANT, 2007, p. 217-218).
Todavia, deve-se destacar que se o aumento dos nú-
meros e taxas de encarceramento cresceram drasticamente,
os outros meios indiretos de controle e vigilância judi-
cial encontraram um crescimento ainda mais alarmante.
Segundo o Bureau of Justice Statistics, em 1980, 1.338.500
pessoas estavam cumprindo medidas de suspensão con-
dicional da pena (probation) ou liberdade condicional
(parole). Dez anos depois já eram 3.201.600. Em 2007,
atingiu-se o pico com 5.199.300 pessoas submetidas a
estas medidas. Portanto, somando-se o número de deten-
tos com aqueles cumprindo parole ou probation, chega-se
ao extremo de, em 2007, os EUA contar com 7.415.700
pessoas submetidas ao seu sistema penal – cerca de 2,5%
de toda a população do país, uma em cada 40 pessoas,
estava sob o jugo do sistema penal.
Por outro lado, sem levar em consideração o recorte
racial do aprisionamento estadunidense não é possível,
mesmo diante destes números alarmantes, ter em vista
toda a extensão do que significa o hiperencarceramento
neste país. Inicialmente, ao contrário do que geralmente
se pensa, a predominância de negros na composição étni-
ca do sistema carcerário estadunidense não é um padrão
observável há muito tempo. Nas décadas de 1940 e 1950
os brancos correspondiam a cerca de 70% dos presos. Ao
longo do tempo houve uma verdadeira inversão destas
estatísticas, sendo que atualmente menos de 30% da po-
pulação carcerária é composta por brancos, mesmo que os

226
negros representem apenas 12% da população total do país
(WACQUANT, 2007, p. 333).
O ponto de virada se deu em 1989 quando a popu-
lação negra pela primeira vez ultrapassou a marca de 50%
dos detentos. Desde então as diferenças proporcionais não
pararam de crescer, atualmente um em cada 21 negros
nos Estados Unidos está preso, contra um branco em cada
138. Com relação às taxas de encarceramento, em 2010,
entre a população branca havia 678 presos para cada 100
mil habitantes, ao passo que entre a população negra eram
4.347 presos para cada 100 mil habitantes54.
Estes dados apontam para o caráter profundamente
discriminatório das práticas policiais e judiciais imple-
mentadas no contexto do Estado punitivo neoliberal. As
políticas de lei e ordem e a tolerância zero possuem como
alvo preferencial as parcelas negras do subproletariado dos
EUA, a ponto de Wacquant falar em uma política de “ação
afirmativa carcerária” (WACQUANT, 2001, p. 93). Segundo
o autor, a prisão funciona hoje como o principal dispositivo
de controle e confinamento da população negra, posição
que já fora antes ocupada pelos guetos, pelo sistema Jim
Crow55 e pela escravidão.
Todavia, como alerta o autor,

O que torna a intercessão racial do sistema car-


cerário diferente nos dias de hoje é que, ao
contrário da escravidão, do sistema de Jim Crow

54
Dados do Bureau of Justice Statistics.
55
O sistema Jim Crow consistia em um conjunto de lei que obrigavam
a segregação racial em todas as instituições públicas como escolas,
espaços públicos, transporte, bem como restaurantes, banheiros,
bebedouros, etc. Estas leis também condenavam o casamento in-
ter-racial, coabitação ou relaxes sexuais entre brancos e negros. Este
sistema, por óbvio, também impunha uma forte precarização das
condições de trabalho e ascensão social (Cf. WACQUANT, 2007,
p. 335-349).

227
e do gueto de meados do século XX, ela não
desempenha nenhuma missão econômica po-
sitiva de recrutamento e disciplinamento de
uma mão-de-obra ativa. Serve sobretudo para
armazenar as frações precarizadas e desploreta-
rizadas da classe operária negra, seja porque elas
não encontram trabalho devido a uma combi-
nação de déficit de qualificação, discriminação
do empregador e concorrência dos imigrantes,
seja porque se recusam a submeter-se à indigni-
dade dos empregos de baixo padrão dos setores
periféricos da economia de serviços – que os
moradores do gueto qualificam comumente de
“trabalho escravo” (slave jobs) (WACQUANT,
2007, p. 349).

Com isso destaca-se outro efeito desta política de


encarceramento em massa e criminalização da pobreza,
qual seja a falência do ideal ressocializador. Ao promover este
encarceramento massivo do subproletariado pobre e negro,
constata-se que aprisionamento cada vez menos se dedica
à lógica disciplinar, mas serve apenas como instrumento
de armazenamento e neutralização dos grupos sociais mais
vitimados pelo processo precarização da vida e do trabalho.
Esta conclusão pode ser comprovada, nos Estados Uni-
dos, com os debates relacionados à necessidade de redução
custos do aprisionamento. Somente nos Estados Unidos,
este big government carcerário fez com que as despesas em
estabelecimentos penais saltassem de US$ 6,9 bilhões, em
1980, para US$ 46,2 bilhões, em 1995 ‒ um gasto que os
eleitores estadunidenses não estavam dispostos a assumir
(WACQUANT, 2007, p. 274). Sendo assim, assumindo a
lógica mercantil, a primeira etapa do processo de redução
de gastos foi a restauração da possibilidade “exploração deste
mercado” pela iniciativa privada com o objetivo de lucro.
A partir disso isso, surgiram figuras como a exploração do

228
trabalho dos presos e, até mesmo, a cobrança de aluguéis
dos presos e de suas famílias56.
Todavia, uma das principais estratégias de redução
dos custos foi a de abaixar o nível de vida e dos serviços
oferecidos aos presos no interior das casas de detenção até
os mínimos tolerados. Desta forma, estruturas “caras” des-
tinadas à reabilitação (disciplinarização) como o acesso à
educação, às bibliotecas, à saúde e a diversos outros direitos
dos detentos, foram sistematicamente suprimidas.
Porém, muito além disso, para Wacquant esse corte
de gastos foi fácil de justificar pelo fato de que a própria
racionalidade penal em voga nos Estados Unidos nova-
mente pensa o encarceramento como algo que objetiva
a neutralização dos internos e a expiação de suas faltas
por meio do sofrimento. Uma racionalidade que orienta,
dos discursos políticos, às demandas da mídia majoritária,
chegando às práticas dos diretores de presídios. Desta for-
ma, fica evidente como esta lógica de encarceramento em
massa não desempenha nenhuma função de recrutamento
ou disciplinamento de uma mão de obra ativa, mas busca
fundamentalmente armazenar e segregar as frações preca-
rizadas da classe operária negra.

56
“[...] os detentos da penitenciária de alta segurança de Fort Madison,
em Iowa, que apodrecem 23 horas por dia num cubículo de concreto
de dois metros por três, têm que pagar um ‘aluguel’ de US$ 5 por
mês. Além disso, desde 1996, e sempre em Iowa, uma visita ao den-
tista da prisão custa US$ 3. Essas quantias não têm nada de modestas
se comparados com os rendimentos irrisórios dos interessados. Os
detentos que têm a oportunidade de trabalhar dentro da peniten-
ciária ‒ nas cozinhas, na lavanderia ou na manutenção ‒ recebem
‘salários’ que variam de US$ 10 a US$ 60 por mês. E seus ganhos
já são amputados por diversas retenções, a título de ‘restituição’ às
vítimas por suas más ações e de apoio alimentar a seus filhos, se
eles os tiverem” (WACQUANT, 2007, p. 274).Wacquant relata em
seguida que já existem empresas especializadas na cobrança desses
débitos dos presos.

229
Diante disso, as pesquisas de Wacquant conseguem
demonstrar, com clareza que, para a racionalidade neoli-
beral, a exigência de um governo mínimo (less government)
sobre a economia é plenamente compatível com um
governo máximo (big government) sobre a sociedade. Mais
do que isso, que o governo econômico mínimo demanda
um governo punitivo e autoritário máximo que busca
gerir a pobreza por meio da exclusão e do confinamento.
Em suas palavras,

[...] com o advento do governo neoliberal da


insegurança social, que junta o trabalho restri-
tivo com a prisão expansiva, não são apenas as
políticas do estado que não são liberais, mas sua
própria arquitetura. Analisar o surgimento e o
funcionamento da política punitiva da pobreza
nos Estados Unidos após a dissolução da ordem
fordista-keynesiana e a implosão do gueto negro
revela que o neoliberalismo ocasiona, não o en-
colhimento do governo, mas a formação de um
estado-centauro, liberal no topo e paternalista na
base, que apresenta faces radicalmente diferentes
nas duas extremidades da hierarquia social: um
rosto simpático e gentil para as classes média e
alta, e uma cara medonha e carrancuda para a
classe baixa (WACQUANT, 2012b, 37).

Portanto,Wacquant consegue desnudar com precisão


as consequências sociais da implementação das reformas
neoliberais. A redução das vantagens e dos direitos sociais
do estado Providência, longe de produzirem um ambiente
de liberdade de produção e de “desinchaço da máquina
pública” que sonham os defensores do neoliberalismo, na
verdade abrem espaço para o surgimento de um verdadeiro
Leviatã punitivo, pesado e caro, que visa conter as parcelas
da população atingidas pela precariedade dos empregos,
pobreza em massa e insegurança social.

230
8.3. Encarceramento em massa e
criminalização da pobreza no Brasil
Pensar no contexto brasileiro a partir dos argumentos
de Wacquant exige alguns cuidados. O principal deles é o de
que nunca tivemos aqui implantado um verdadeiro Estado
Social nos moldes europeus. Por mais que a Constituição da
República de 1988 tenha sido fortemente inspirada pelo ideal
da social democracia, ela sempre encontrou dificuldades para
ser efetivada, uma vez que o caminho trilhado pela política
e pela economia do país após a sua promulgação foi bastante
diverso daquele que o texto previa. Sendo assim, a Constituição
nasce influenciada por um ideário que, naquele momento, já
rumava para a sua derrocada nos países ocidentais e que, por
consequência, nunca seria implementado no Brasil.
É certo também que o neoliberalismo chega ao país
com um pouco de atraso em comparação com outros países
ocidentais, mas a partir do governo de Fernando Collor de
Melo, em 1990, ele começa a dar seus primeiros passos – um
processo que se consolidaria a partir do governo de Fernando
Henrique Cardoso, entre 1994 e 2003. No entanto, os dados
mostram que independente da ausência de consolidação de
um Estado Social prévio, os efeitos do neoliberalismo foram
tão ou mais fortes no Brasil, que nos Estados Unidos ou Eu-
ropa. A penalidade neoliberal já encontrou campo fértil em
uma sociedade extremamente desigual, sem uma democracia
consolidada após anos de ditadura civil-militar e com um
sistema penal herdeiro direto do estatuto escravista57.
Em sua “Nota aos leitores brasileiros: rumo a uma
ditadura sobre os pobres?” que serve de introdução para a
tradução brasileira de As Prisões da Miséria,Wacquant afirma:

Com relação à história do racismo institucional sedimentado no


57

campo penal brasileiro, recomenda-se a leitura da obra Corpo negro


caído no chão (FLAUZINA, 2008).

231
[...] a penalidade neoliberal é ainda mais seduto-
ra e mais funesta quando aplicada em países ao
mesmo tempo atingidos por fortes desigualdades
de condições e de oportunidades de vida e des-
providos de tradição democrática e de instituições
capazes de amortecer os choques causados pela
mutação do trabalho e do indivíduo no limiar do
novo século (WACQUANT, 2001, p. 07).

De fato, após décadas de enraizamento da ideologia


de mercado nas instituições, os resultados das políticas de
encarceramento em massa saltam aos olhos. Conforme os
dados do Ministério da Justiça (2015), em 2014 o Brasil
tinha uma população prisional de 607.731 presos, a quarta
maior do mundo, perdendo apenas para Estados Unidos,
China e Rússia. No entanto, tendo em vista o ritmo ace-
lerado de encarceramento no Brasil, diante de um leve
decréscimo do número de encarcerados nos últimos anos
nos três países que lideram a contagem, estima-se que em
2018 a nossa população carcerária ultrapasse numerica-
mente a da Rússia58.
Acrescente-se a isso, o fato de nossa taxa de ocupação
dos presídios ser de 161%, o que significa que há um déficit
de 231.062 vagas nas instituições. Entre os 20 países com
maior número de presos no mundo, nossa taxa de ocupa-
ção só é menor que das Filipinas (316%), Peru (223%) e
Paquistão (177,4%). Ficamos em quarto lugar empatados
com o Irã. Com relação aos presos sem condenação, figu-
ramos em sexto lugar com 41% dos presos nesta situação
(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2015).
No entanto, são as variações das taxas de aprisiona-
mento (por 100 mil) e do número de encarcerados que

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, nós já ocuparía-


58

mos a terceira posição no ranking se as estatísticas considerassem


os presos em regime de prisão domiciliar.

232
podem ajudar a compreender como as políticas neolibe-
rais, implementadas a partir do início da década de 1990,
transformaram a lógica do encarceramento.
Entre 1995 e 2010 o Brasil foi o segundo país, dentre
os 50 com maior população carcerária, com a maior varia-
ção da taxa de aprisionamento, com 136% de crescimento,
perdendo apenas para a Indonésia com 145%59. Neste pe-
ríodo, como já havia passado a parte mais incisiva do boom
carcerário dos EUA, este país ficou em 21 lugar com 23%
de variação positiva. Ressalte-se que entre os dez primeiros
colocados, sete são países latino-americanos.
Com relação à população prisional, como dissemos
anteriormente, o aumento foi de 575% entre 1990 e 2014,
saindo de 90 mil para 607,7 mil presos. O número de
pessoas privadas de liberdade em 2014 é 6,7 vezes maior
que em 1990. Apenas entre 2000 e 2014 o crescimento
da população carcerária foi de 161%, o que corresponde
a dez vezes o crescimento da população total no período.
Este crescimento abrupto do número de presos foi
acompanhado, como consequência, de uma grave crise:
o déficit de vagas em 2014 já representa quase o número
total de presos no ano de 2000. Enquanto nesta data o
Brasil contava com 232.755 presos e com um déficit de
97.045 vagas, em 2014 a população carcerária chegou a
607.731 presos alcançando um déficit de 231.062 vagas
(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2015).
Considerando a relação entre ingressos e saídas do sis-
tema prisional, tudo leva a crer que estes números têm uma
forte tendência a piorar. Apenas no primeiro semestre de
2014, quando entraram 155.821 pessoas no sistema, apenas

Deve-se considerar, entretanto, que a taxa de aprisionamento na


59

Indonésia é de 66 pessoas por cada 100 mil habitantes, contra


299,7 no Brasil, e sua população carcerária é de 167.163 pessoas
(MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2015).

233
118.282 foram liberadas, o que significa que para cada 100
ingressantes, apenas 75 pessoas saem do sistema. Quando
analisado este dado por tipo de unidade, os resultados ficam
ainda piores: nas unidades destinadas a presos provisórios,
para cada ingresso de 100 pessoas, 68 são liberadas; ao passo
que no regime semiaberto, para cada 2 pessoas que saem
apenas uma entra (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2015).60
Outro elemento que demonstra o crescimento
vertiginoso do recurso ao aprisionamento nas duas últimas
décadas é a idade dos estabelecimentos prisionais brasileiros.
21% deles possui até 5 anos de idade, 18% entre 5 e 9 e 20%
entre 10 e 19 anos (MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, 2015).
Ou seja, 59% dos estabelecimentos prisionais existentes no
Brasil atualmente foram construídos após 1995 – ano em
que se iniciava o governo de Fernando Henrique Cardoso.
Estes dados demonstram como após a implementação
da racionalidade neoliberal no Brasil o encarceramento em massa
tem atingido índices difíceis de serem acompanhados mesmo
pelos países que compartilham o encargo de serem os maiores
encarceradores do mundo. Mais do que isso, o Brasil supera,
em muito, os países que foram os pioneiros na implementação
das políticas punitivas neoliberais61. Assim, parece que neste
ponto, invertendo lógica universalmente aceita do colonial
e da periferia como “pré-desenvolvimento”, a extensão da
violência do neoliberalismo parece aqui ser mais realizada
que nos chamados países de centro. É o Ocidente realizado,
somos mais europeus que a Europa e mais estadunidenses
que os EUA (BRITO JUNIOR, 2001, p. 160).
60
Isso demonstra a preferencia clara de nosso sistema pelas medidas
de privação de liberdade mais drásticas. Enquanto a população
carcerária em geral aumenta, há uma redução do aprisionamento
em regime semiaberto.
61
A título de comparação, a variação da taxa de encarceramento entre
1995 e 2010 foi de 53% no Reino Unido, 21% dos Estados Unidos,
10% na França e 9% na Alemanha.

234
Como constatou-se ser impossível dar conta do apetite
devorador da penalidade neoliberal no Brasil, assim como
nos Estados Unidos, cenas bárbaras e surreais de violações
de direitos insistem em se repetir. Desde o massacre do
Carandiru (SP) em 1992, passando pelos casos dos presídios
de Urso Branco (RO), Pedrinhas (MA), Presídio Central de
Porto Alegre (RS),Anísio Jobim (AM), Monte Cristo (RR),
Alcaçuz (RN), repetem-se os mesmos problemas de super-
lotação, estrutura física deficitária, graves déficits de gestão,
descaso com as garantias básicas dos detentos, dentre outros.
Por lembrar os absurdos do encarceramento em massa
citados anteriormente, tais como as prisões flutuantes de
Nova York, as celas-ônibus de Los Angeles, os túneis de
Nashville ou os acampamentos militares de Phoenix, um
caso merece destaque no Brasil. O Espírito Santo chegou
a utilizar contêineres de carga para o aprisionamento de
indivíduos, como forma de tentar resolver rapidamente o
problema da superlotação de seus presídios. Em virtude das
altas temperaturas desta unidade da federação e do rápido
e contínuo preenchimento de tais carceragens, elas ficaram
conhecidos como “celas micro-ondas” e foram responsá-
veis, dentre outras coisas, por um pedido de intervenção
federal no Estado feito pelo Conselho Nacional de Política
Criminal e Penitenciária (CNPCP) em 2009 (RIBEIRO
JUNIOR, 2012).
Por fim, deve-se ressaltar como o fenômeno da crimi-
nalização da pobreza também pode ser identificado no con-
texto do hiperencarceramento brasileiro. Os destinatários
do sistema penal também são aqui as parcelas mais atingidas
pela precarização imposta pelas reformas neoliberais: o
subproletariado pobre e negro. Esta afirmação pode ser
demonstrada ao analisarmos o perfil da população carcerária
em comparação com o perfil da população geral.
Assim, temos que 55% da população carcerária é
composta por jovens entre 18 e 29 anos e 67% por ne-

235
gros.62 Com relação à escolaridade, 6% são analfabetos,
9% alfabetizados sem cursos regulares, 53% com ensino
fundamental incompleto e 12% com ensino fundamental
completo. Apenas 1% possui ensino superior incompleto e
o número de presos com ensino superior completo é tão
irrisório que ele chega a marca estatística de 0% (MINIS-
TÉRIO DA JUSTIÇA, 2015).
Com relação a estes dados, convém recordar que
se nossa população geral é composta por 48% de brancos
e 51% de negros; de 49% sem instrução ou ensino fun-
damental incompleto e 11,3% de pessoas com o ensino
superior completo; e por 26% de jovens entre 15 e 29 anos,63
restando evidente que as políticas prisionais são dirigidas
seletivamente para um determinado grupo da sociedade,
como pode ser visto na tabela abaixo:
Tabela 1
Comparativo entre as estatísticas da população geral e da população encarcerada
População geral População encarcerada

População negra 51% 67%


População jovem 26% (15-29 anos) 55% (18-29 anos)
Sem instrução ou ensino 49% 68%
fundamental incompleto

Ensino médio completo e 24,6% 8%


ensino superior incompleto

Ensino superior completo 11,3% 0%


Fonte: INFOPEN e IBGE.

62
Se considerarmos que esta é justamente a população que aparece
como vítima preferencial dos crimes de homicídio (52,53% das
vítimas de homicídio em 2012 eram jovens entre 15 e 29 anos,
sendo que destes 77% eram negros e 93,3% homens), não é absurdo
inferir que o destino de boa parte da população jovem e negra do
Brasil são ou a prisão ou o óbito.
63
Dados do Censo de 2010 do IBGE. Disponível em: <http://www.
ibge.gov.br/apps/snig/v1/index.html?loc=0>. Acesso em: agosto
de 2015.

236
Estes dados nos dão a ideia de como a racionalidade
neoliberal consegue estender seus tentáculos também para
a gestão da miséria nos países em desenvolvimento, como
o Brasil.Vendidos como projetos bem-sucedidos, tanto as
reformas econômicas neoliberais, quanto os programas de
lei e ordem e tolerância zero, são vistos como pertencentes a
universos completamente distintos, quando eles fazem parte
de um projeto transnacional comum que visa a redução das
garantias do Estado de Bem-estar Social sem deixar-nos
perceber como isso corresponde a um necessário Estado
máximo punitivo. Da redução da pobreza por meio de
direitos sociais, passa-se à gestão dos pobres por meio da
instituição carcerária.

8.4. Referências
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Emir; GENTILI, Pablo (orgs.). Pós-Neoliberalismo: políticas
sociais e o Estado democrático. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
BRITO JUNIOR, Bajonas Teixeira de. Lógica do Disparate.
Vitória: Edufes, 2001.
FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. São Paulo:
Martins Fontes, 2008.
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chão: sistema penal e o projeto genocida do Estado brasileiro.
Rio de Janeiro: Contraponto, 2008.
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people: memoirs. Chicago: University of Chicago Press, 1998.
HARVEY, David. Brief history of neoliberalism. Nova York:
Oxford University Press, 2005.
HUNT, E. K.; SHERMAN, Howard J. História do pensamento
econômico. Petrópolis:Vozes, 2008.
KLEIN, Naomi. A doutrina do choque: a ascensão do
capitalismo de desastre. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

237
NAVARRO, Vicente. Produção e Estado do bem-estar: o
contexto das reformas. In: LAURELL, Asa Cristina (org.).
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Cortez, 2002.
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de informações penitenciárias. Brasília. 2015. Disponível
em: http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-
relatorio-do-infopen-nesta-terca-feira/relatorio-depen-versao-
web.pdf. Acesso em: agosto de 2016.
RIBEIRO JUNIOR, Humberto. Encarceramento em massa
e criminalização da pobreza no Espírito Santo: as políticas
penitenciárias e de segurança pública do governo de Paulo
Hartung (2003-2010).Vitória: Editora Cousa, 2012.
TOLEDO, Enrique de la Garza. Neoliberalismo e Estado. In:
LAURELL, Asa Cristina (org.). Estado e políticas sociais no
neoliberalismo. São Paulo: Cortez, 2002.
WACQUANT, Loïc. A política punitiva da marginalidade:
revisitando a fusão entre workfare e prisionfare. Revista EPOS,
Rio de Janeiro, vol. 03, p. 01-28, jan-jun 2012a. Disponível em:
http://goo.gl/aLT68. Acesso em: fevereiro de 2016.
_______. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
2001.
_______. Forjando o estado neoliberal: trabalho social, regime
prisional e insegurança social. In: BATISTA. Vera Malaguti
(org.). Loïc Wacquant e a questão penal no capitalismo
neoliberal. Rio de Janeiro: Revan, 2012b.
_______. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados
Unidos [a onda punitiva]. Rio de Janeiro: Revan, 2007.

238
Abolicionismo Penal: Uma
Reviravolta no Sistema de
Justiça Criminal 9
9.1. Problematizações acerca da
perpetuação de linguagens punitivas
A relação entre uma simples ação e o seu entendimento
enquanto violência, entre esse ato qualquer entendido como
violência e a sua transformação em crime, entre essa conduta
transformada em crime e a responsabilização de seu autor,
entre a responsabilização de seu causador e a punição dada
a ele, entre a punição dada e o seu entendimento enquanto
castigo, entre a aplicação de um castigo e o seu entendimento
enquanto aspecto pedagógico, entre a educação e a moral, a
moral e o direito, dentre outras possibilidades relacionais que
existem em nossa realidade interacional, são apenas constru-
ções sociais em que atribuímos significados e valores distintos
a determinadas condutas articuladas por certos indivíduos em
exatos contextos, épocas e lugares. Partindo dessa perspectiva
é possível reconhecer que o crime e o tratamento dado a
ele são meras criações sociais e políticas, conforme apontam
os mais diversos autores disso que para alguns seria uma
nova tradição da criminologia ou da sociologia do crime e
para outros uma espécie de anti-criminologia comumente
chamada de abolicionismo penal64.

Sobre esse debate acerca dos distintos entendimentos e alcances do


64

abolicionismo penal, sobretudo, na américa latina, sugerimos não

239
Não são poucos os exemplos que podemos dar acerca
da tipificação de determinadas condutas como crimes
em certos lugares e épocas que deixaram de ser tratados
como delitos em outras ocasiões. Como exemplo desse
fenômeno podemos citar as políticas de controle sobre as
drogas que passaram a criminalizar a produção, o comércio
e o consumo de determinadas substâncias psicoativas com
a justificativa de que esses produtos selecionados fazem
mal a saúde. Dentre as substâncias selecionadas pelas po-
líticas proibicionistas, podemos citar a cannabis, um dos
alimentos mais proteicos do mundo e também utilizado
há alguns milênios para o tratamento de determinadas
enfermidades, conforme mostraram Malcher-Lopes e
Ribeiro (2007). Não obstante, outras dessas mercadorias
reconhecidamente mais prejudiciais segundo a comuni-
dade científica como, por exemplo, o álcool e o tabaco,
são permitidas.
Em pesquisas anteriores (ROSA, 2014), verificamos
que consumo daquelas substâncias que de alguma forma
atuam no sistema nervoso proporcionando certa alteração
da capacidade cognitiva sempre estiveram presentes nas
práticas cotidianas de toda a humanidade, existindo uma
literatura bastante variada e extensa que revela as diversas
formas com que estes produtos passaram a ser elaborados,
utilizados e representados socialmente pelas mais distintas
civilizações. Ao constatarmos que a seleção restritiva de
certas substâncias psicoativas não está relacionada direta-
mente com questões referentes à saúde humana, uma vez
que as políticas proibicionistas selecionaram certos produ-
tos independente dos seus impactos em nossos corpos e
mentes, conseguimos verificar que a proibição da produção,
do comércio e do consumo de drogas se fundamenta em

apenas o oportuno livro El abolicionismo penal em América Latina:


imaginación no punitiva y militância organizado por Max Postay (2012),
mas a resenha precisa apresentada de Salete Oliveira (2015).

240
questões de cunho moral, tratando-se, portanto de uma
governamentalização das drogas.
As plantas que hoje possuem sua produção, comércio
e consumo marginalizados ou criminalizados como a can-
nabis65 e da folha de coca66, dentre outras, durante muito
tempo fizeram parte do patrimônio histórico e cultural de
diversas populações minoritárias que hoje são socialmente
marginalizadas e culturalmente discriminadas por grupos
dominantes que consideram arcaicos os seus consumos
tanto rituais quanto terapêuticos e nutricionais. No en-
tanto, foi a partir da segunda metade do século XIX que
a Europa presenciou uma expansão farmacológica criada

65
A cannabis não somente era considerada uma planta importante
para a cultura popular do nordeste brasileiro entre os séculos XIX
e XX, como também era uma mercadoria extremamente lucrativa
nos agronegócios estadunidenses, tendo os presidentes Benjamin
Franklin e Thomas Jefferson como dois de seus principais produ-
tores. Como o consumo da maconha no Brasil era constantemente
associado à cultura oculta, os seus estigmas acabaram orientando as
políticas proibicionistas que ultrapassaram todos os governos deste
país. O óleo de cânhamo, derivado da cannabis que não possui o
potencial psicoativo presente na cannabis sativa, conhecida popu-
larmente como maconha, era extraído daquela planta e utilizado
como combustível na produção da luz elétrica que chegava às ruas
de algumas das grandes cidades dos Estados Unidos da América
(DÓRIA, 1986).
66
A incidência da cultura da coca na identidade dos autóctones que
viviam nos planaltos andinos, por exemplo, se iniciou há pelo menos
5 mil anos. Contudo, o encorajamento da produção desta planta por
parte dos colonizadores espanhóis, que tratavam da folha sagrada
dos incas como talismã do diabo, só se tornou possível após a cons-
tatação de suas propriedades estimulantes que poderiam contribuir
com a intensificação do trabalho tanto dos camponeses quanto dos
mineiros na Bolívia e no Perú, pois parte daqueles trabalhadores
braçais as consumia buscando aliviar o cansaço e a dor física. Na
Colômbia, ao contrário destes países, as culturas de coca estiveram
reservadas, até os anos 1970, para o consumo da população indígena
que representa atualmente 3% de sua população (LABROUSSE,
2010).

241
e legitimada pelo cientificismo médico que buscava so-
lucionar os problemas referentes tanto à saúde biológica
quanto à saúde psíquica, elegendo os opiáceos e a cocaína
como substâncias essenciais para o tratamento de uma
infinidade de males.
Foi no século XX que presenciamos a intensificação
da medicalização da sociedade potencializada pelo modelo
médico, fortemente marcado pelos conhecimentos psicoló-
gicos que impuseram através de definições e tratamentos
de outros numerosos problemas sociais e públicos con-
temporâneos. Essa questão pode muito bem ser localizada
nas pesquisas de Conrad e Schneider (1985), que demons-
traram como as condutas consideradas desviantes como,
por exemplo, o chamada alcoolismo, homossexualidade,
doenças mentais, abusos de crianças, drogas, dentre outras,
foram contemporizadas, ao longo do tempo, de condena-
ções religiosas ou criminais para os registros médicos. Foi
desse modo que o que era considerado um ato condenável
(badness) passou ser tratando como uma doença (sickness).
Assim como as relações homossexuais, que ainda em
meados do século XX, eram criminalizadas em diversos
países europeus, sendo esses sujeitos considerados des-
viantes; muitas das drogas, antes lícitas em determinados
lugares, tornaram-se ilícitas e aquelas que eram lícitas,
tornaram-se ilícitas (KARAM, 2004, p. 73). Assim como
hoje, ao contrário, advoga-se a criminalização de condutas
de quem pratique discriminação motivada pela rejeição a
tal orientação sexual. Portanto, o que é crime ou o que se
considera desviante em certo lugar, pode não ser em outro;
o que é crime ou o que é tratado uma atitude desviante,
amanhã pode deixar de ser.
Em se tratando de substâncias psicoativas, é possível
verificar que algumas passaram a ser classificadas como lí-
citas e outras ilícitas, entretanto, durante todo esse processo
não houve nenhum critério preciso e objetivo na escolha

242
destes. O que vimos emergir foi uma arbitrariedade que,
em nome da saúde pública expressa pelo corporativismo
médico e legitimada pelo direito, passou a matar, aprisionar
e desgraçar a vida das pessoas de uma forma jamais vista
na história.
A história das políticas criminais que tratam do con-
trole sobre as drogas não apenas no Brasil, mas em toda a
América Latina, a partir das direcionamentos diplomáticos
estadunidenses, pode ser utilizada como um excelente
exemplo na compreensão dos processos de criação tanto de
inimigos internos quanto externos. Foi a partir da promul-
gação da chamada Lei Seca ou 18 Emenda Constitucional
dos Estados Unidos, em 1919, que localizamos os primeiros
indícios do proibicionismo moderno da produção, consumo
e comércio de substâncias psicoativas, em que o Estado
daquele país passou a criminalizar determinadas práticas
culturais, associando diretamente grupos etnicos à certos
habitos e condutas.
No entanto, é importante salientar que mesmo antes da
elaboração das primeiras leis proibicionistas estadunidenses,
o moralismo organizado e não organizado já associava o
uso de substâncias psicoativas que alteravam os estados de
consciência a certos hábitos de minorias estigmatizadas: os
negros eram recorrentemente associados ao consumo de
cocaína; os chineses, eram tratados como dependentes do
ópio; os irlandeses, tidos como crônicos bebedores de álcool;
os mexicanos, assim como os demais povos colonizados por
espanhóis, sobretudo, a população latino-americana, eram
tratados como lascivos fumadores de maconha. Portanto,
em nome da garantia da saúde de toda a população, os Es-
tados ao redor do planeta passaram a criar arbitrariamente
leis que visavam prender, isolar e até mesmo matar aqueles
indivíduos que produziam, comercializavam ou consumiam
aquelas substâncias psicoativas estabelecidas como ilícitas.
Ou seja, em nome da prevenção criamos um genocídio

243
étnico jamais visto na história amparando na contenção
de práticas culturais.
Será a partir de argumentos como estes, que mostram
como o crime é fabricado, que os tributários do abolicio-
nismo penal partirão, não apenas mostrando que o enten-
dimento acerca do delito é uma produção social67, como
também a forma de contê-lo ou tratar daqueles que violam
certas regras sociais também é construído socialmente e
governamentalizado pela população.

O abolicionismo penal é uma prática libertária


interessada na ruína da cultura punitiva da vingan-
ça, do ressentimento, do julgamento e da prisão.
Problematiza e contesta a lógica e a seletividade
sócio-política do sistema penal moderno, os efeitos
da naturalização do castigo, a universalidade do

Em nossa sociedade, a população mais abastada, e excluída da


67

seletividade penal, permanence desfrutando a mesma boa sorte,


produzindo, por meio de politicos e funcionários competentes, as
leis universais atreladas às práticas ilegais que sustentam interesses
particulares. Este universalismo particularista da lei e do direito
penal se robustece e se perpetua pela capacidade de penalizar, de
vez em quando e por diversos motivos, um indivíduo privilegiado.
Quando isso acontece, aumentam as agitações em favor da série
punitiva, propiciando ao indivíduo midiatizado satisfazer sua ânsia
por participar e se sentir vigiado. Sob este conforto efêmero, ele rei-
tera a crença na moral da pena, fundada em sua aplicação universal
e igualitária, incluindo o poderoso. Contudo, cedo ou tarde, vem a
decepção, quando ele constatar que o castigos imposto ao outro, e
que o regozijou, foi minimizado ou suprimido mediante a revisão
processsual. Perturbado ou conformado, assimila o fato, e surpre-
endentemente legítima a prática da seletividade, consolando-se na
utopia do fim da impunidade e da corrupção, refugiando-se na
esperança de uma verdadeira reforma penal e na doutrina do castigos
apocalíptico advindo do julgamento de Deus. Por omissão, esperan-
ça, crença no sobrenatural ou desejo de garantir a universalização
da punição, cada indivíduo midiático, ao clamar por mais castigos,
colabora para a continuidade das penas e ampliação da corrupção
(PASSETTI, 2006, p. 92).

244
direito penal, e a ineficácia das prisões. Refuta a
natureza ontológica do crime, ao mostra-lo como
criação histórica, na qual a criminalização de com-
portamentos, em maior ou menor quantidade, de-
pende das épocas e das forças sociais em confronto.
O abolicionismo revira o consenso a respeito da
naturalização do castigo, que fundamenta o princí-
pio da punição no direito penal. O abolicionismo
penal opera fora da órbita da linguagem punitiva
e da aplicação geral das penas, para lidar com a
infração como situação-problema, considerando
cada caso como uma singularidade. Propõe novas
práticas, relacionando as partes envolvidas e a justiça
pública, com base na continuidade da vida livre de
punições, ao visar, de um lado, reduzir e anular a
reincidência e, de outro, obter do Estado uma inde-
nização para a vítima.Atua pela via da conciliação
entre as partes, como ocorre no direito civil. Re-
aliza uma reviravolta no atual sistema penal e abre
possibilidades para um percurso experimental de
respostas à situação-problema. Desta maneira, abole
a concepção criminológica de indivíduo perigoso,
norte do direito penal contemporâneo, e propicia
a expansão da educação livre do castigo. Diante do
velho, repetitivo, fracassado e inoperante itinerário
punitivo de sentenciamentos consolidados pelo
direito penal, o abolicionismo propõe percursos
experimentais para lidar com cada infrator em
liberdade (PASSETTI, 2006, p. 83-84).

Antes de dar continuidade a esta apresentação, ressalta-


mos que o abolicionismo penal resulta de desdobramentos
e escolas criminológicas que se colocaram distintamente
contrários ao modelo de tratamento dado a situações-pro-
blemas68 estabelecidos pelo sistema de justiça criminal criado

A introdução da noção situação-problema, como maneira de se


68

afastar das definições que estabelecem um comportamento cri-


minoso ou criminalizável, não está direcionada para soluções, mas

245
na modernidade. Em decorrência disso, podemos encontrar
diferentes perspectivas teóricas de autores que muitas vezes
apresentam distintos pensamentos acerca da punição. No en-
tanto, é a inconformidade com um sistema que trata de certas
condutas estabelecidas como indevidas por meio das punições
aplicadas sob a forma de privação de liberdade, que os autores
abolicionistas direcionarão suas ponderações e críticas.

Os diferentes abolicionistas mencionam, resumi-


damente, que o sistema penal opera na ilegalidade;
atua a partir da seleção de seus clientes, atribuin-
do-lhes rótulos estigmatizantes dificilmente des-
cartáveis após o primeiro contato com o sistema;
afasta os envolvidos no conflito e os substitui por
técnicos jurídicos, para que busquem uma solução
legal para a situação problemáticas; produz mais
problemas do que soluções; dissemina uma cultura
– punitiva – que propaga a ideia de que com um
castigo (pena de prisão) é possível fazer justiça em
eventos considerados oficialmente como crime
(ACHUTTI, 2015, p. 94).

9.2. Hulsman e as penas perdidas


Certamente Louk Hulsman figura como o nome
mais importante do abolicionismo penal. Como professor

por um interesse em levanter questões acerca de um evento que,


no âmbito da justice criminal, seria apenas enquadrado na lei para
o estabelecimento de uma vítima e de um criminoso passível de
punição. Nesse sentido, o desfecho de uma situação-problema busca
sempre uma conciliação das vontades e interesses dos diretamente
envolvidos num evento.Acontece sem a necessidade de se buscar um
agressor e uma vítima – que tem sempre sua vontades sequestrada
pela justice criminal -, mesmo porque a noção não é substitutive
do que a lei define como crime. Tal desfecho em direção a uma
conciliação pode lancer mão, segundo cada caso específico, de um
estilo punitivo, que aparece apenas como uma das possibilidades, ao
lado de outros modelos como o conciliatório, o compensatório, o
terapêuticos e o educacional (AUGUSTO, 2012, p. 160).

246
de direito penal na Universidade de Erasmus, na cidade de
Roterdã, na Holanda, Hulsman defendia a abolição plena
do sistema penal, sem nenhuma exceção. A sua obra mais
significativa do ponto de vista do seu impacto no campo
acadêmico, Penas Perdidas, foi escrita com Jacqueline Bernat
de Celis (HULSMAN; CELIS, 1997). A questão que mais
motivava Hulsman e Celis (1997) nessa obra, era descontruir
a linguagem jurídica convencional acerca do sistema de
justiça criminal, visando uma nova forma de compreender
e tratar daqueles eventos tipificados como delito.“Hulsman
critica a sedução das instituições e seus símbolos sobre as
pessoas, desviando a atenção dos elementos do mundo para
o exercício do poder pelo discurso e pela prática dessas
instituições” (ÁVILA; GUILHERME, 2015, p. 77).
Ao acreditar que não bastava buscar uma solução in-
terna aos conflitos, ou melhor, situação-problema, Hulsman
e Celis (1997) argumentavam acerca da necessidade de
questionar veementemente tanto a noção de crime quanto
de autor. Segundo os autores, “não conseguiremos superar
a lógica da sistema penal, se não rejeitarmos o vocábulo
que a sustenta. As palavras crime, criminoso, criminalidade,
política criminal, etc... pertencem ao dialeto penal, refle-
tindo os a priori do sistema punitivo estatal” (HULSMAN;
CELIS, 1997, 95-96).
A grande reviravolta apresentada por Hulsman e Ce-
lis (1997) sobre o sistema penal se deu, sobretudo, pelo
entendimento de que o delito não seria o objeto, mas o
produto dessa linguagem que emerge de um sistema de
política criminal que tem a pretensão de justificar a criação
e permanência do exercício do poder punitivo de incidir
severamente sobre a liberdade daqueles sujeitos que prati-
caram uma conduta tipificada como crime69. Assim, com a

No passado, foi pelo jogo politico das reformas que o sistema pe-
69

nal alimentou sua burocracia e fortaleceu a prisão. Consolidou-a

247
adoção de uma nova linguagem no tratamento das situa-
ções-problemas, poderíamos potencializar a emergência de
maiores possibilidades de tratar de condutas inconvenientes
à sociedade através de formas que escapam a racionalidade
punitiva.

Segundo estudiosos do assunto, a expansão dos


costumes abolicionistas levaria a uma drástica
redução de gastos governamentais com o sis-
tema penal e também dos lucros da indústria
do controle do crime. Este duplo movimento
anti-reformista estabelece um novo e diferente
âmbito do querer político e explicita que o
abolicionismo penal, com o fim da punição,
da prisão e do direito penal, não desconhece o
aparecimento de novos problemas, que exigirão
das partes envolvidas inventivas maneiras de lidar
com cada evento (PASSETTI, 2006, p. 84).

Além de argumentarem que a simples substituição


da linguagem penal não seria suficiente na mudança das
formas de lidar com as situações-problemas, caso as antigas
categorias e tratamentos permanecessem independente
das alterações com os vocábulos, Hulsman e Celis (1997)
questionavam o fato de que os envolvidos nos conflitos não
participavam como protagonistas do processo de sua suposta
resolução decorrente da via institucionalizada pelo Estado
através do sistema de justiça criminal. Portanto, não bastava
abolir os conceitos, era necessário inserir outra gramática

como local para onde devia ir o imoral, o desordeiro, o repugnante,


refazendo no cidadão obediente e responsável a crença na justiça
pelo medo da prisão – local onde cabiam todos os ilegalismos e seu
complemento, as rebeliões por liberdade e demolição da prisão. Foi
assim que todo sentenciado pelo sistema penal acabava sendo tratado
com um preso politico, um perigo para a ordem, pois deixava de
haver a distinção entre infração material e ideológica (PASSETTI,
2006, p. 96-97)

248
que se iniciaria com a própria abolição da justiça criminal
em cada um de nós, em cada uma de nossas percepções e
comportamentos, extraindo os sentimentos de vingança,
penalidade, punição, além de ultrapassar o atual modelo
pedagógico fundamentado na relação castigo/recompensa.

Hulsman, em mais de um escrito, alertava para


o fato de que o abolicionismo penal começa,
antes de qualquer coisa, em cada um: é um estilo
de vida. Retomar essa afirmação é uma maneira
de lembrar aos reformadores da sociedade, mes-
mo os revolucionários, que a política começa
em cada um. Uma política abolicionista é uma
atitude pessoal, que ocorre no presente, como
convite aberto a outros interessados em poten-
cializar liberdades, sem esperar pela redenção
futura ou por uma situação política favorável
(AUGUSTO, 2012, p. 167).

Ao estabelecermos e rotularmos uma conduta como


crime, é possível verificarmos certa limitação da percepção
que se apropria da situação impedindo plenamente que ou-
tras formas de compreensão do contexto sejam percebidas,
reconhecidas e possivelmente interpretadas, levando em
consideração aspectos advindos de cada caso em especial.
Para Hulsman e Celis (1997), as interpretações simplistas,
abstratas e redutores em que se fundamenta o sistema penal
deveriam ser substituídas por compreensões mais amplas
e, principalmente, fundamentadas nas interpretações dos
próprios indivíduos que participaram daquela situação-
-problema, ou seja, o tratamento não deveria se dar por
meio da estrutura estatal punitiva, uma vez que deveríamos
evitar o modelo jurídico penal, mas através de ações que
escapariam à racionalidade punitiva.
Hulsman e Celis (1997) argumentavam que as análises
acerca das situações-problemas deveriam se apresentar como

249
o princípio do encontro de uma solução efetiva para cada
caso. No entanto, isso se tornaria possível, por exemplo, caso
houvesse um encontro cara a cara daqueles que estivessem
envolvidos em determinado acontecimento.Ao acreditarem
que cada situação sempre se apresenta de maneira singular
e única, os autores acreditavam que esses casos precisavam
ser interpretados através das mais distintas formas, pois “o
certo, porém, é que a opção ‘crime’ jamais será fecunda”
(HULSMAN; CELIS, 1997, 103).
Hulsman e Celis (1997) acreditavam que a partir do
momento em que a situação-problema passa a ser deslocada
do cotidiano comunitário para administração estatal através
de seu sistema penal, os seus protagonistas, ou seja, aqueles
únicos sujeitos a quem interessa a resolução do conflito,
deixariam de fazer parte do processo que visa trata-lo. No
entanto, é a partir da aplicação de certa linguagem jurídica
punitiva que opera no sistema penal que se atribuirá certa
condição a um sujeito por ter cometido um ato inaceitável
do ponto de vista legal, consagrando-lhe a qualidade de
“criminoso”, enquanto que o indivíduo que sofreu essa
suposta agressão passa a ser tratado como “vítima”.
Ao questionarem a existência de uma natureza ontoló-
gica do crime, mostrando que o conceito de crime é uma
construção social, Hulsman e Celis (1997) apresentaram
uma proposta que se tornou uma legítima reviravolta no
tratamento dado pelo sistema de justiça criminal as situ-
ações-problemas. Argumentavam que a forma com que a
justiça criminal trata dos conflitos é somente uma, dentre
outras possíveis formas não punitivas que poderiam ser
aceitadas nas resoluções desses casos.
Hulsman e Celis (1997) partiam da premissa de que
a adoção de outros mecanismos de controle social que
operariam para além de uma racionalidade punitiva seriam
possíveis através da incorporação de um novo vocabulário
que contribuiria com a desconstrução das atuais catego-

250
rias que vigoram, a exemplo, de “delito”. Acreditavam
que a atual linguagem jurídica que se ampara na punição
para tratar de suas situações-problemas delimita o sistema,
inviabilizando qualquer tentativa de utilização de outros
mecanismos, além daqueles estabelecidos oficialmente pelo
Estado. Outra questão extremamente relevante apontada
por ambos autores trata da definição dos conflitos que não
são abordados através das perspectiva dos envolvidos, mas
a partir de sua estruturação legal previamente estabelecida
pelo Estado através de suas leis.
Ao argumentarem que a estruturação legal que passou a
tratar das situações-problemas como crimes não conseguem
alcançar nitidamente a resolução dos desses casos de manei-
ra satisfatória a todos os envolvidos, uma vez que a justiça
penal recorrentemente age de acordo com uma realidade
que muitas vezes existe somente dentro sistema, sendo raros
os casos que considera o mundo exterior, Hulsman e Celis
(1997) questionaram a operacionalidade de toda uma racio-
nalização do conflito que tem na punição sua força motriz.
Assim, se por um lado o Estado pode tratar de certas
situações-problemas como ofensas à ordem pública ou
à segurança, violações às regras que vigoram, etc. trans-
formando-as em crime, na medida em buscará localizar
e punir o seu causador, pelo outro, as partes envolvidas
podem atribuir a essas condutas significados bastante dis-
tintos daqueles estabelecidos pelo rigor da lei. Nesse caso,
a aplicação da punição pela via jurídica não condiz com a
tentativa de resolver o conflito de uma maneira em que a
parte ofendida se sentirá contemplada com a resolução do
caso, mas sim mostrará sua face fundamentada na racionali-
zação do conflito e de seu tratamento pela vida do castigo.

A partir de tais críticas, Hulsman busca demonstrar


que, ao contrário do que parece, a racionalidade do
sistema de justiça criminal apresenta incoerências e

251
que, por tal razão, não permite que os eventos que
lhe são encaminhados sejam efetivamente resolvidos,
mas que recebem apenas uma resposta jurídico-penal
sem qualquer relação com a percepção que os prin-
cipais envolvidos possuem sobre o que aconteceu.
A resposta jurídica, por sua vez, além de não incluir
as considerações das partes, ainda determina que a
pessoa considerada culpada deve ser afastada do seu
ambiente e relegada a um outro lugar – cadeia – para
que, isolado do resto da sociedade, possa aprender,
paradoxalmente, a viver em sociedade. O paradig-
ma punitivo, conforme ainda Hulsman, além de
irracional e contraproducente, produz sempre mais
violência, ao aplicar uma forma de punição que não
apenas atenta contra a dignidade do acusado, mas
cujo resultado final não apresentará qualquer efeito
positivo social e individualmente. Novas formas de
perceber, interpretar e lidar com os conflitos: essa a
proposta de Hulsman (ACHUTTI, 2014, p. 103).

Embora não tenham apresentado uma proposta ela-


borada, detalhada e completa acerca da abolição plena do
sistema de justiça criminal, Hulsman e Celis (1997) mostra-
ram alguns importantes caminhos a serem trilhados. Dentre
os percursos a serem percorridos, os autores apontam que
devemos iniciar com os eventos não criminalizados, evi-
tando, assim, a emergência de novas criminalizações. Além
disso, não apenas apontaram para a necessidade de criação
de estratégias que visem reduzir a aplicação do sistema
penal visando descriminalizar o maior número de condutas
possível, como também destacaram a necessidade de elabo-
ração de táticas que operem como alternativas ao sistema
de justiça criminal no tratamento de situações-problemas.
Contudo, tudo isso somente se tornará possível para os
autores caso ocorra uma mudança do meio simbólico dos
eventos criminalizados decorrentes da inserção de novas
técnicas de prevenção do delito resultantes da substituição

252
do atual sistema de justiça criminal por outras formas de
controle social como, por exemplo, a partir da incorporação
de práticas fundamentadas nos modelos compensatórios,
terapêuticos ou conciliatórios.

9.3. Christie e um outro abolicionismo


penal
Como acreditamos que talvez seja melhor falarmos
em abolicionismos penais, no plural, ao invés de abolicio-
nismo penal, no singular, uma vez que estamos tratando de
uma corrente do pensamento criminológico que possui
distintos autores que recorrentemente apresentam diferen-
tes perspectivas, achamos necessário apresentarmos outro
autor de extrema importância para essa vertente, uma vez
que foi através dele que algumas das práticas abolicionistas
passaram a ser experimentadas. Nils Christie, que atuou
como professor do departamento de criminologia e de
sociologia do direito na Universidade de Oslo, na Noruega,
foi autor de obras de extrema relevância para esse campo70,
tendo o artigo Conflitos como propriedade, publicado em 1977
(CHRISTIE, 1977), consagrado como o mais importante
desde a década de 1960 até 2000, segundo o corpo editorial
da Revista Britânica de Criminologia (ACHUTTI, 2014).
O fato de Nils Christie não advogar a abolição plena
do sistema penal, acreditando que em certos casos excepcio-
nais, não há o que fazer a não ser afastar o agressor do meio

Christie opõe o modelo tradicional de justiça criminal uma forma


70

diversa de trabalhar os conflitos, com estruturas descentralizada e


cujos protagonistas não seria terceiras pessoas – ou profissionais da
administração de conflitos - mas as próprias partes (direta ou indire-
tamente) envolvidas no conflito. Elas deveriam buscar soluções
possíveis para os problemas em que estiveram envolvidas, com o
objetivo de buscar reparar o dano causado àqueles que se sentirem,
de uma forma ou de outra, afetados pela situação (ACHUTTI,
2014, p. 105).

253
social em que se encontra, fez com que certos abolicionistas
tributários de uma crítica estrutural do sistema de justiça
criminal entendessem como reformismo às perspectivas
apresentadas pelo autor norueguês. Como acreditava que
em momentos de dúvida, a conduta correta seria não pu-
nir e quando o fizesse, que fosse da forma menos dolorosa
possível, questionando, portanto, o que chamou de imposição
intencional da dor, Christie (1981) acabou defendendo a in-
serção de práticas abolicionistas sem alterar a estrutura e a
linguagem com que o poder punitivo opera, o que acabou
o levando a receber críticas por sua conduta supostamente
reformista, diferentemente da perspectiva apresentada por
Hulsman e Celis (1997).

O abolicionismo penal é um discurso que emer-


ge da sociedade de controle, e é neste senti-
do que Louk Hulsman aparece como o seu
instaurador, apartando-se dos desdobramentos
herdados da crítica marxista revolucionária ou
reformista da sociedade capitalista, expressa em
pensadores como Nils Christie e Thomas Ma-
thiesen. O abolicionismo penal de Hulsman
é diferente dos marxistas, relembrando não só
sua aversão ao intelectual condutor de cons-
ciências como também sua preocupação em
demolir incondicionalmente o direito penal,
sem direito a negociações de aprisionamentos
transitórios, mas também por não condicionar
a sua situação-problema a uma determinação
sócio-econômica. O abolicionismo penal de
Hulsman responde às inquietações provocadas
pela sociedade de controle: está apartado da
centralidade do tribunal, da aplicação universal
da lei, do domínio acadêmico do direito penal,
da baboseira fétida daqueles que dizem ser o
abolicionismo penal uma belíssima utopia, e
daqueles que o combatem, descabelando-se e ba-
bando ensandecidos, em qualquer rodinha, que

254
o abolicionismo penal dissemina impunidades
e anomias, bradando o surrado jargão burguês
que associa anarquia a baderna. O abolicionis-
mo penal como amplificador de resistências na
sociedade de controle atua em fluxos incorpo-
radores, mas não uniformizadores, e é assim que
reconhece e convive com os vieses marxistas
em seu interior (PASSETTI, 2006, p. 100-101).

Embora tenha inserido práticas abolicionistas dentro


do atual sistema de justiça criminal que opera por meio
de mecanismos punitivos não alterando estruturalmente
a linguagem do castigo, alvo de Hulsman e Celis (1997),
Christie (1977) acreditava que a resolução dos conflitos
não viria com o seu o foco no agressor, mas na vítima e
em suas necessidades resultantes daquela situação-problema
inicial. Ao argumentar que as conflitos foram substituídos
das partes e entregues ao Estado para que esse pudesse
averiguar o caso de maneira simplória, responsabilizando
e punindo o suposto agressor, Christie (1977) acabou pro-
pondo um modelo de justiça comunitária caracterizado por
uma orientação voltada parava vítima, na medida em que
respeitaria um procedimento constituído em quatro etapas.
Primeiramente, averiguaria-se a possibilidade da acu-
sação no intuito de evitar que certas pessoas sejam res-
ponsabilizadas pelas condutas de outras, além de impedir
que sejam violados os direitos do acusado; em segundo
lugar, seria necessário a confecção de um relatório com-
pleto referente as efetivas necessidades da vítima, tendo
ela presente na formulação de suas próprias demandas,
considerando os prejuízos causados, assim como as formas
como ele pode ser reparado ou minimizado; em terceiro,
os tribunais comunitários realizariam uma análise precisa
acerca da possibilidade de punição do suposto agressor; em
quarto e último lugar, seria necessário um debate acerca da
situação pessoal e social do ofensor realizado pelos mesmos

255
participantes das etapas anteriores, visando verificar suas
necessidades contingentes.“Tal perspectiva, que abrange os
propósitos de reduzir o sofrimento e aumentar as respostas
positivas, foi considerada, por alguns como a concretização
de “ideias abolicionistas” e, por outras, como iniciativas de
“descarcerização” ou “descriminalização” de condutas”
(ACHUTTI, 2014, p. 111).
Apesar do debate sobre a condição atribuída à Chris-
tie (1977; 1981) como reformista - entendendo que suas
propostas não desconstroem a linguagem punitiva mostrada
por Hulsman e Celis (1997) - ou como potencializador de
práticas abolicionistas – já que estas possibilitariam a mini-
mização da dor proveniente das criminalizações e castigos71
-, o autor norueguês potencializou a emergência de ações
fundamentadas na minimização de conflitos através daquilo
que passou a se chamar de justiça restaurativa72, conforme
mostramos em outras ocasiões (ROSA, 2013; 2015).
71
Ruggiero (2011, p. 100) argumentou que os abolicionistas penais
“propõem a inserção de novas formas de tratar daqueles compor-
tamentos indesejados, e ao agir dessa maneira, se colocam em uma
posição inédita acerca do debate sobre a justiça restaurativa”.
72
Segundo o site do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, que há
cerca de 10 anos no Brasil, a prática da Justiça Restaurativa tem
se expandido pelo país. Conhecida como uma técnica de solução
de conflitos que prima pela criatividade e sensibilidade na escuta
das vítimas e dos ofensores, a prática tem iniciativas cada vez mais
diversificadas e já coleciona resultados positivos. Contudo, ainda de
acordo com o Conselho Nacional de Justiça – CNJ, Justiça Res-
taurativa é uma prática que está buscando um conceito. Em linhas
gerais poderíamos dizer que se trata de um processo colaborativo
voltado para resolução de um conflito caracterizado como crime,
que envolve a participação maior do infrator e da vítima. Surgiu no
exterior, na cultura anglo-saxã. As primeiras experiências vieram do
Canadá e da Nova Zelândia e ganharam relevância em várias partes
do mundo. Aqui no Brasil ainda estamos em caráter experimental,
mas já está em prática há dez anos. Na prática existem algumas
metodologias voltadas para esse processo. A mediação vítima-ofen-
sor consiste basicamente em colocá-los em um mesmo ambiente

256
Considerando que a justiça restaurativa propõe
minimizar a dor das partes envolvidas no delito –
vítima e réu -, torna possível ponderar que tam-
bém contribuirá para a saúde de ambas as partes
envolvidas. Apesar de não trazerem mudanças
estruturais do ponto de vista jurídico, trazendo
somente do ponto de vista da saúde, ambas as
propostas [redução de danos e justiça restau-
rativa] possibilitam a ampliação de discussões
acerca da possibilidade tanto do abolicionismo
penal quanto do anti-proibicionismo (ROSA,
2013, p. 166).

Embora ainda não se tenha experimentando o abo-


licionismo de forma plena, conforme sugeriu Hulsman e
Celis (1997) ao propor uma alteração na linguagem jurídica
punitiva do sistema de justiça criminal, tendo apenas sido
possível a utilização de elementos práticos extraídos de
experiências oriundas do modelo de justiça comunitária
apresentado por Christie (1977; 1981), estamos vendo
emergir tanto no Brasil quando nos demais países do globo
experiências que visam a minimização dos conflitos através
de ações descriminalizantes, assim como nas aplicações
de medidas privativas de liberdade somente em casos de
suposta necessidade.

9.4. Tendências abolicionistas no Brasil


Certamente a relevância dos abolicionismos penais
para a compreensão do crime, do castigo, da violência e da
punição se dá principalmente porque algumas das práticas

guardado de segurança jurídica e física, com o objetivo de que se


busque ali acordo que implique a resolução de outras dimensões
do problema que não apenas a punição, como, por exemplo, a re-
paração de danos emocionais (site http://www.cnj.jus.br/noticias/
cnj/62272-justica-restaurativa-o-que-e-e-como-funciona, acessado
no dia 07 de fevereiro de 2016.)

257
que nasceram com os autores tributários dessa tradição,
como a justiça restaurativa, por exemplo, passaram a serem
incorporadas não apenas por agências internacionais, a
exemplo, da Organização das Nações Unidas – ONU73,
como também passaram a estar presente na agenda de asso-
ciações de profissionais da área jurídica, como a Associação
dos Magistrados Brasileiros – AMB74.
Segundo o site da Associação dos Magistrados Brasilei-
ros – AMB75, o coordenador da campanha favorável à justiça
restaurativa, Leoberto Brancher, representou o Brasil no II
Encontro Ibero-Americano de Justiça Juvenil Restaurativa
que ocorreu nos dias 21 e 22 de novembro de 2014, no
centro de formação da Agência Espanhola de Coopera-
ção Internacional – AECID. No documento apresentado
naquela ocasião consta sugestões, normas e diretrizes para
o funcionamento do sistema de justiça e das execuções
de medidas referentes ao tratamento dado aos jovens em
conflito com a lei76. Além disso, estão incluídos princípios,
normas e regras que já se encontram contemplados nos
documentos internacionais relativos aos padrões mínimos
de qualidade de serviço.
A novidade apresentada nesse congresso se deu a par-
tir do enfoque restaurativo, que introduziu o conceito de
73
Site http://www.justica21.org.br/j21.php?id=366&pg=0#.Vrhw-
QjYrLsE, acessado no dia 07 de fevereiro d 2016.
74
Site http://www.amb.com.br/novo/?p=18828, acessado no dia 07
de fevereiro de 2016.
75
Não obstante, é importante destacar que em novembro de 2015,
a Associação dos Magistrados Brasileiros – AMB trouxe para o
Brasil Howard Zehr, provavelmente um dos maiores estudiosos das
experiências de justiça restaurativa com o propósito de ministrar
uma vídeo conferência para mais de 100 salas de todo o Brasil (site
http://www.amb.com.br/novo/?p=24508, acessado no dia 07 de
fevereiro de 2016).
76
Site http://www.amb.com.br/novo/?p=18828, acessado no dia 07
de fevereiro de 2016.

258
“justiça restaurativa” como conteúdo que possivelmente
melhoraria a estrutura de funcionamento do sistema de
justiça juvenil.Todavia, é importante destacar que as práticas
restaurativas apresentadas à área da justiça juvenil se fun-
damentariam em quatro dimensões: evitar a judicialização
dos conflitos envolvendo adolescentes em conflito com a
lei; evitar a privação de liberdade favorecendo as medidas
penais alternativas; reduzir o tempo de cumprimento da
privação de liberdade; apoiar a reintegração quando os
jovens saem da prisão.
Ao enfatizar que apesar da justiça restaurativa também
ser tratada como uma espécie de desdobramento de práticas
abolicionistas uma vez que opera a partir de estratégias bas-
tante próximas a elas, embora mantenha-se fundamentada
no modelo punitivo, só que reduzido, é nítida a sua ascensão
como possibilidade de minimização dos conflitos e dos so-
frimentos decorrentes de situações-problemas. No entanto,
embora os princípios do programa de justiça restaurativa
promovido pela Organização das Nações Unidas – ONU e
financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimen-
to – BID, apresentado na Resolução 2002/201277, tenham
operado na minimização de eventuais castigos aplicados à
jovens em conflito com a lei, ainda assim ela reconhece a
superioridade de uma autoridade que passou a ser deslocada
do campo judicial para o comunitário78.Todavia, o abolicio-

77
Site http://www.justica21.org.br/j21.php?id=366&pg=0#.Vrhw-
QjYrLsE, acessado no dia 07 de fevereiro de 2016.
78
Os princípios do programa de Justiça Restaurativa, promovido
pela ONU e financiado pelo BID, “(...) procuram privilegiar a
conciliação, restauração ou a cura, prescindindo em muitos casos
das autoridades judiciais, em favor das comunidades dos locais em
que ocorreram as infrações. Os valores que parametram a Justiça
Restaurativa dividem-se entre os direitos como o diálogo respeitoso,
o republicano e o de não dominação; e os indiretos como o perdão,
a clemência e o remorso. A aplicação da justiça restaurativa no Brasil
delineia-se com o objetivo de formação de um domínio que seja,

259
nismo penal apresentado inicialmente por Hulsman e Celis
(1997), visa suprimir a autoridade superior, abolindo certa
linguagem jurídica amparada na punição e, não construir
reformas que darão continuidade à práticas amparadas no
castigo, ainda que de maneira reduzida.
O reconhecimento da importância de exemplos de
ações extraídas a partir dos escritos de autores abolicionistas
penais está se intensificando cada vez mais, na medida em
que passou a ser difundido por todo o planeta. É bastante
provável que o recente fenômeno do fechamento de pri-
sões que ocorreu na Holanda79 tenha se dado não apenas
pela inserção de novas técnicas de controle decorrentes da
utilização de tornozeleiras eletrônicas e demais tecnologias
do poder presentes naquilo que Deleuze (2008) chamou
de sociedade de controle, como também pela própria con-
tenção da criminalidade resultante da descriminalização da
produção, comércio e consumo de drogas e da inserção de
políticas de redução de danos80.
O impacto dos escritos acerca do abolicionismo penal
- e sua potencia não apenas enquanto estratégia minimiza-
dora da cultura do castigo, mas enquanto possibilidade de
mudança de uma linguagem jurídica que opera motivada

simultaneamente, preventivo do ponto de vista penal e instrumen-


talizado de programas acoplados à reforma do sistema judiciário.
Fica uma questão: como é possível suprimir modelos punitivos se
a justiça restaurativa pressupõe modelo alternativo que de antemão
reconhece a superioridade de alguém? Então, suprime-se em parte as
autoridades judiciais para pôr em seu lugar a comunidade. Desloca-se
o risco da exceção para o do fascismo”. O Abolicionismo penal
pretende suprimir a autoridade superior (PASSETTI, 2006, p. 104).
79
Site http://g1.globo.com/planeta-bizarro/noticia/2013/06/go-
verno-holandes-estuda-fechar-prisoes-devido-falta-de-criminosos.
html, acessado no dia 07 de fevereiro de 2016.
80
As políticas de redução de danos, visam, sobretudo, executar ações
destinadas à prevenção das possíveis consequências danosas à saúde
decorrentes do consumo de substâncias psicoativas sem necessaria-
mente interferir na redução da oferta e da demanda (Brasil, 2001)

260
pela punição -, é tamanho, que em 2015, um dos maiores
prêmios da literatura brasileira consagrou o livro Justiça
Restaurativa e Abolicionismo Penal, de Daniel Achutti (2014),
com o segundo lugar na área do direito81. Isso nos revela
que, embora possamos vislumbrar a ascensão de um Estado
penal e toda a sua racionalidade econômica que coloca o
crime e o criminoso como objetos de ganhos financeiros,
conforme mostrou Wacquant (2003); há também uma
emergente potencia contrária à essa cultura do castigo e
da punição que propõe uma reviravolta na forma com que
tratamos seletivamente os indivíduos em sociedade, é essa
tradição que chamamos de abolicionismos penais.
O grande questionamento apresentado pelos abolicio-
nistas penais tributários das perspectivas de Hulsman e Celis
(1997) se dá, sobretudo, acerca da impossibilidade de uma
efetiva mudança estrutural do sistema penal na medida em
que a linguagem punitiva permanece com as atuais incor-
porações de práticas advindas de construções de pensadores
dessa matriz teórica, a exemplo da justiça restaurativa. No
entanto, o processo de descriminalização, bem como as prá-
ticas entendidas como reformistas por parte dos defensores
dessa tradição genuína tem contribuído fortemente para com
a redução dos índices de encarceramento, assim como passa-
ram a fomentar a diminuição de condutas criminalizáveis, a
exemplo das movimentos pela legalização de determinadas
substâncias psicoativas estabelecidas como ilícitas. Esse é um
debate bastante atual e, em decorrência disso, necessita de
reflexões, ponderações e avaliações enquanto projeto para
novas possibilidades de se pensar o crime e a punição, bem
como alternativas que visem aboli-los enquanto linguagem
técnica, visando minimizar os impactos decorrentes de quais-
quer situações-problemas.

Site http://premiojabuti.com.br/vencedores-2015/todas-catego-
81

rias-3/, acessado no dia 07 de fevereiro de 2016.

261
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editora

Este livro foi impresso em papel Off-Set 75g,


com tipografia Bembo Std 12/14.