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Título: Um corpo em questão: considerações psicanalíticas sobre a obesidade

Autora: Cristiane Marques Seixas


Currículo: Psicanalista, Escola Letra Freudiana, mestre em Saúde Coletiva pela UERJ,
doutoranda em Teoria Psicanalítica pela UFRJ.

RESUMO: O objetivo deste trabalho é lançar luz sobre aspectos clínicos do tratamento de pessoas
obesas, tendo em vista os impasses que se apresentam no decorrer do tratamento. Por sua complexa
singularidade, a obesidade como condição orgânica da contemporaneidade demanda um tratamento
multidisciplinar, e assim sendo, procuraremos pensar as contribuições da psicanálise ao mesmo,
procurando construir elementos que nos orientem no manejo clínico e transferencial desses casos.
Contextualizando a cultura na pós-modernidade procuraremos analisar o estatuto do corpo na
psicanálise, corpo sobre o qual a linguagem incide criando novas modalidades de sofrimento,
indicando as mudanças que se operaram sobre o sujeito do nascimento da psicanálise e aquele que
chega aos consultórios solicitando uma cura para o seu sofrimento. Serão utilizados como referência
os textos de Freud e Lacan, pra pensar o momento em que esse tipo de paciente abandona o
tratamento, questionando a possibilidade de sustentar um trabalho de subjetivação e de associação
livre.

Palavras-chaves: Obesidade, Psicanálise, Corpo, Contemporaneidade.

“Minha alma decerto se mostra no corpo,


esse confortável corpo, que passou, por excesso,
a ser tão incômodo. Um estorvo. Chegar ao peso
adequado é penoso. A dor também pesa. Atiçada
pelas lembranças pesa mais ainda. Se a dor for
embora, será que emagreço?”

Nas cartas endereçadas a sua mãe, a personagem de Cíntia Moscovich questiona-se dos
acontecimentos em sua vida que a levaram a acumular, ao longo dos anos, 22 quilos extras. A
pergunta que finaliza essa passagem do livro ilustra o ponto discursivo de onde partem os
questionamentos que tecerei a respeito da clínica psicanalítica com pacientes obesos, clínica esta
que enfatiza ainda mais a evidência que o corpo vem ganhando nas últimas décadas. Seria possível
emagrecer sem dor?
A exibição dos corpos vem paulatinamente tornando-se lugar comum, ao passo que a
exigência estética de perfeição e magreza se radicaliza. Nas bancas de jornal vemos a proliferação
de revistas voltadas a oferecer novas fórmulas para emagrecer de forma fácil e rápida, bem como a
banalização dos procedimentos cirúrgicos para a aquisição das formas ideais. Na contra mão dessa
tendência de embelezamento vemos surgir uma série de sintomas alimentares relativos ao excesso
de peso e o conseqüente sofrimento a eles associado. Estudar os sintomas alimentares, em especial a
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obesidade, sob qualquer aspecto é um grande desafio àquele que pesquisa. Nesses sintomas vemos
um enodamento singular onde identidade, corpo e cultura se inscrevem num espaço de dor e
urgência. Nada mais paradigmático dos tempos atuais do que a condição corporal onde excesso
convoca o olhar.
A questão da obesidade se coloca na experiência clínica como um impasse por não oferecer
um resultado que atenda as expectativas médicas de emagrecimento no longo prazo, ou mesmo às
expectativas dos pacientes em relação ao sofrimento suscitado pelo excesso de peso. O tratamento
dispensado aos pacientes obesos e com sobrepeso está alicerçado no binômio saúde-doença
buscando através do emagrecimento o restabelecimento de um estado suposto inicial onde a saúde
estaria associada ao corpo magro. Como conseqüência dessa perspectiva, identificamos o
crescimento de algumas atitudes e crenças naturalizadas tanto no meio médico quanto no social
como a idéia de que o obeso não emagrece por preguiça, desleixo ou falta de ‘força de vontade’,
bem como a distorcida e conseqüente desimplicação no tratamento, uma vez que por ser uma
doença deve ser tratada por um médico, seja pelo uso de medicamentos, seja pela utilização de uma
dieta mais eficaz. Essa forma predeterminada de encarar o problema da obesidade seja em relação
ao manejo do tratamento, seja em relação aos efeitos sócio-culturais causados pela propagação da
idéia de uma epidemia em curso – termo que por si só já está impregnado de significações nefastas
– é a reedição de antigos modelos de controle social e repressão dos corpos que subjaz à
permanente busca pela saúde.
Essa dupla determinação em que a obesidade é tomada como uma doença implicando um
tratamento específico se apresenta como um obstáculo para o dispositivo analítico, pois não facilita
que o obeso construa um questionamento acerca do seu sofrimento e, consequentemente, assuma a
responsabilidade pelo encaminhamento do próprio tratamento. A dificuldade surge inicialmente a
partir de um conjunto de posicionamentos, quais sejam, a localização do sofrimento como uma
conseqüência da falta de controle e disciplina em relação à comida, o ressentimento em relação ao
outro que tudo pode e a postura refratária frente à imposição de limites rígidos na dieta. Assim, a
principal característica subjetiva que se apresenta na maioria dos casos é a dificuldade em subjetivar
seu sofrimento quer seja em tornar discursiva a queixa e o sofrimento que permanecem referidos ao
corpo, quer seja de forma mais radical no próprio esvaziamento discursivo que não veicula uma
abertura onde possa se inscrever um questionamento direcionado ao outro, mas sim a eterna
expectativa de que um novo tratamento, remédio ou médico possa livrá-lo desse estorvo que é a
gordura. O corpo, assim destituído de seu estatuto simbólico, retorna como uma cena onde se pode
verificar sem dificuldades a precariedade da simbolização que compromete a entrada no dispositivo
analítico, dispositivo cuja eficácia se sustenta na operação sob transferência do par associação livre
e interpretação.

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Essa evidência dada ao corpo na atualidade e o conseqüente movimento de dessimbolização
que vimos testemunhando de forma radical nos últimos 20 anos são tomados como indícios da
rapidez com que nosso contexto social vem mudando. Com efeito, na atualidade verificamos uma
permanente sensação de inadequação e de insuficiência frente a um ideal de corpo socialmente
definido e de saúde cientificamente determinada. O corpo do outro que circula nos editorias de
moda, nas academias e nos discursos sobre as (im)possibilidades corporais, figura como a
ostentação de um déficit corporal – está-se sempre aquém do esperado.
Como as toxicomanias, a obesidade é evidentemente marcada pela insistente evitação do
mal-estar associado, neste caso, à sensação de fome ou mesmo de vazio no estômago. Nos casos
mais graves a presença da compulsão alimentar faz com que essa sensação seja abolida rapidamente
sem que haja por parte do compulsivo qualquer preocupação com o gosto do alimento ou mesmo
com o prazer obtido através da alimentação. O que importa é sentir-se cheio, podendo muitas vezes
levar ao desenvolvimento de outras condutas compulsivas como a bulimia por purgação ou por
outras práticas compensatórias. A comida seria repetidamente utilizada como um recurso de
contenção do sofrimento, sendo revestida imaginariamente como o objeto capaz de aplacar a
angústia suscitada pelo vazio corporificado. Ora, o próprio sintoma compulsivo denuncia a
impossibilidade de realizar o preenchimento, remetendo sempre a um novo objeto a possibilidade
de satisfação – tratar-se-ia, pois, da denúncia da própria impossibilidade de fechamento do circuito
pulsional.
Se torna essencial, portanto, a investigação da relação do sujeito com o objeto para sustentar
que na obesidade não se trata da fome fisiológica, mas de uma colagem do objeto da demanda a um
objeto da necessidade, desdobrando, a respeito da dinâmica da obesidade, a questão da tentativa de
inscrição psíquica da pulsão, para pensar a especificidade clínica desses tratamentos. Nesse sentido,
a dinâmica que surge da tentativa de preenchimento desse vazio comparece na cena clínica como
uma resposta do sujeito ao imperativo da performance, onde a materialidade do preenchimento e da
completude obtura a formulação da própria demanda clínica que se dá a partir da constatação de que
algo falta.
Para Lacan, diferentemente de outros analistas pós-freudianos, a experiência de satisfação é
marcada pela disjunção entre necessidade e demanda, diferenciação necessária para desvincular os
registros somático e corporal, uma vez que na psicanálise, quando falamos de corpo dizemos do
corpo pulsional, inserido no campo da linguagem do qual não se pode isolar o puro organismo vivo
e instintual.
No seminário 4, Lacan dedica-se a analisar a relação de objeto, tomando-a como a mola da
relação do sujeito com o mundo. A construção disso que move o sujeito na relação com o mundo
passa por 3 termos, a saber a frustração, a privação e a castração, esta última tão abordada nos

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textos freudianos. A decomposição do que chamamos castração em 3 vertentes se faz necessária a
Lacan para apontar o singular enodamento que se dá entre os 3 registros – Real, Simbólico e
Imaginário – nos movimentos do sujeito em relação ao outro, tendo como outro primordial a mãe.
Nesse trabalho abordaremos a frustração, que Lacan subdivide em duas vertentes em função da
posição materna em relação ao apelo do sujeito.
O ponto nodal da relação de objeto é o falo que se constitui como significante a partir da
mais arcaica reivindicação do sujeito, onde não há mediação simbólica, ou mesmo qualquer
referência à alteridade. Estamos no que Lacan denomina como frustração, onde dominam
“exigências desenfreadas e sem lei” (Lacan, 1995, p. 36). Nosso interesse pela frustração se deve à
possibilidade de situar nos primórdios do sujeito a dinâmica de uma reivindicação de algo que é
desejado, mas sem referência à possibilidade de ser obtido – na operação da frustração trata-se de
um objeto real que é visado e de um dano imaginário que é causado, configurando a anatomia
imaginária do desenvolvimento do sujeito (p. 63). Lacan insiste que no que diz respeito à frustração
não se trata de uma frustração real, pois mesmo sendo o seio materno o objeto real visado
miticamente pelo infans, é na medida em que este desempenha uma função significante que ele abre
a dimensão do desejo, apontando a disjunção entre demanda e necessidade mesmo no domínio da
alimentação.
Nesse sentido afirma que a mãe não é o objeto real, mas ela surge a partir dos jogos de
domínio do sujeito sobre o objeto, tão bem explicitado no Fort-da freudiano. Lacan fala que “este
acoplamento de presença-ausência, articulado de modo extremamente precoce na criança, conota a
primeira constituição do agente da frustração, que é originariamente a mãe” (Lacan, 1995, p. 67). É
propriamente no registro do apelo que o sujeito faz quando o objeto materno está ausente, que a
presença-ausência é articulada pelo sujeito, que se coloca a condição fundamental da ordem
simbólica posterior. Essa é primeira vertente da frustração.
A passagem para a segunda vertente da frustração se dá a partir do momento em que o
objeto real, a mãe, não responde mais ao apelo do sujeito. Nessa virada em que a figura materna
decai por não entrar construção lógica da presença-ausência e se constitui, então, como real se
produz uma inversão na posição do objeto. Se antes os objetos eram objetos de satisfação, se a mãe
podia dá-los, quando ela os recusa ao sujeito, esses passam a ser objetos de dom, ou seja, os objetos
passam a ser simbólicos e a figurar como a potência materna que pode dar ou recusar algo,
estabelecendo a ordem da troca.

“Em outras palavras, a posição se inverteu – a mãe se tornou real e o


objeto simbólico. O objeto vale como o testemunho do dom oriundo da
potência materna. O objeto tem, a partir daí, duas ordens de propriedade
satisfatória, ele é duas vezes objeto possível de satisfação – como

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anteriormente, ele satisfaz a uma necessidade, mas também simboliza
uma potência favorável”. (Lacan, 1995, p.69)

Esse momento em que a mãe sai de sua onipotência e passa à realidade a partir de uma
simbolização é, para Lacan, decisivo. Pois a frustração não é de modo algum a recusa por parte da
mãe de um objeto de satisfação, mas a recusa de um símbolo (símbolo do amor) sobre o qual se
fecharia o apelo. Essa recusa, para além da recusa de um objeto, é a introdução prematura do sujeito
no ciclo da troca, na própria ordem simbólica. Lacan chama de dom o que vem da mãe em resposta
ao apelo quando o objeto não está, mas esse dom não é nada além do signo daquilo que falta à mãe,
uma vez que o que lhe falta não é passível de doação. Ora, se em algum momento a mãe responde
como real – e no domínio da neurose ela logicamente responde – a potência de poder responder ou
não ao apelo demonstra o caráter propriamente decepcionante da ordem simbólica em que se trocam
símbolos, em que toda satisfação é sempre substituta de algo que falta.
Esse momento inaugural da entrada na simbolização pelo viés da relação com a mãe é
também marcada pelos restos imaginários do objeto. Se nesse primeiro momento o objeto pode
revestir-se imaginariamente pelo seio materno, é pela recusa do símbolo do amor que se introduz a
dialética segundo a qual o sujeito poderá constituir uma demanda. Porém na obesidade é no campo
da oralidade que devemos pensar a disjunção necessária entre demanda e necessidade, pois no
sintoma que se apresenta é evidente que algo não se satisfaz, mas, diria, não é a fome fisiológica
que não se satisfaz. É na medida em que o ato de comer, a própria fome é erotizada é que a
demanda se cola a uma satisfação específica.
Entramos aqui no campo da pulsão. É nesse percurso da entrada do infans no campo da
linguagem, ao mesmo tempo que constitui sua primeira unidade identitária referida eminentemente
ao corpo, que se estabelecem os circuitos pulsionais e os destinos das pulsões. A esse respeito
destaco duas citações que tem orientado minha leitura.

“O movimento inicial da força pulsional inequivocadamente conduz para


a descarga. Entretanto, à medida que o Outro puder acolher esse
movimento originário, isto é, nomeá-lo e lhe fornecer um campo possível
de objetalidade, a força pulsional estabelecerá uma ligação que a fará
retornar ao organismo.” (Birman, 2005, p. 62)

É esse movimento originário da pulsão que vai ao Outro e retorna só após ter encontrado um
objeto com o qual retém uma satisfação possível, ainda que parcial, que irá marcar o aparelho
psíquico, sem que haja, no entanto, um eu separado do objeto. É apenas ao registro do auto-
erotismo que se restringe essa inscrição, sobre a qual irão sobrepor-se as futuras percepções e
satisfações, até mesmo a construção do fantasma neurótico. Birman prossegue:

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“Apenas nesse momento se constituiria um circuito pulsional em que se
articulariam a força e o objeto, pela mediação da regulação da experiência
de satisfação. Além disso, por esse retorno da força pulsional e pela
ligação inicial desta a um campo de objetalidade, se estabeleceria uma
marca originária, um traço, simultaneamente corporal e psíquico.”
(Birman, 2005, p.62)

Mais uma vez somos levados a assinalar que algo fica de fora do circuito pulsional, pois é a
ligação a um campo de objetalidade que torna a satisfação parcial, ao mesmo tempo em que
paradoxalmente faz com que algo do objeto buscado “caia”, produzindo no percurso o objeto
perdido. Na parcialidade da satisfação pulsional, o objeto ganha a consistência imaginária à qual o
sujeito fica atado, demandando, ao fim e ao cabo, um longo trabalho de análise para destituí-lo das
vestes imaginárias e fazê-lo resto.
Mas poderíamos pensar que na obesidade não há essa passagem da demanda ao desejo que
se dá pela instauração do objeto perdido. Se na veiculação do dom como o símbolo daquilo que
falta à mãe algo ocorre de modo precário, e se não se constitui o que Birman chama de ‘campo
possível de objetalidade’ que acolhe o ‘movimento originário da pulsão’, podemos pensar que só
resta ao obeso buscar insistentemente na concretude do objeto a satisfação perdida. O sujeito
permanece atado à permanente demanda ao outro primordial, só podendo suportar essa hiância por
meio do sintoma alimentar.
Seguindo as indicações de Recalcati (2002) a respeito da obesidade neurótica, quando
afirma que a acumulação obesa não é de peso, mas de objeto, bem como a idéia de que o alimento
serve para compensar a ausência do signo (signo da falta no Outro), retomamos a leitura lacaniana
sobre a angústia e seu objeto para pensar que o alimento só acede ao status de objeto de
investimento libidinal na medida em que suplanta imaginariamente a falta. Na clínica o que
denuncia que algo do desejo não está operando é a angústia, sinal de que algo da pulsão não se
inscreveu demandando um trabalho de ligação. Contudo, nos pacientes obesos esse sinal raramente
se apresenta. O que eles trazem muitas vezes é uma queixa referida ao registro somático, um pedido
de emagrecimento vinculado a questões estéticas e quando não o encontram ali, não tardam em
buscar outro profissional que possa atender a esse pedido. Quando esse pedido é imaginariamente
atendido, tudo parece a princípio funcionar, mas basta um obstáculo na efetivação das orientações
dadas pelo profissional, que algo ‘caia’, para que se coloque tudo a perder. É preciso, então, insistir
no aspecto significante do pedido que nos é endereçado por pacientes obesos, para que se possa
restituir-lhes a possibilidade de que algo do desejo volte a deslocar-se.
A clínica nos mostra que à medida que as entrevistas preliminares avançam o paciente
começa a elaborar um primeiro questionamento a respeito de seu sofrimento se coloca um momento

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crítico. É nesse momento que a comida ou a gordura deixa de tamponar a angústia que pode, enfim,
aparecer na transferência e ser trabalhada. Entretanto, muitas vezes é nesse momento que o
tratamento é interrompido, nos indicando a extrema fragilidade do Eu.
Para Recalcati, a angústia na obesidade não refere-se, portanto, ao vazio ou à falta, mas ao
constante preenchimento que obstaculiza a fluidez do desejo. Nesse sentido, afirma que o corpo
obeso é um ‘demasiado cheio’ que o sujeito, vive como um ‘vazio infinito’. A compreensão de que
na obesidade não se trata da fome fisiológica é fundamental, desvinculando primeiramente demanda
e necessidade, para apontar que no campo da neurose o circuito pulsional opera pela referência a
falta de um objeto que venha satisfazer o demanda. Essa impossibilidade de satisfação é o que faz
com que o desejo opere deslizando de um objeto ao outro, de um significante ao outro, num
encadeamento metonímico. Quando esse movimento desejante está estancado é devido a uma
fixidez em que o desejo se cola a um determinado objeto. A clínica psicanalítica visa fazer com que
esse deslizamento desejante volte a funcionar e, para tanto, é preciso que o sujeito abra mão do
gozo relativo ao objeto.
No que diz respeito à clínica psicanalítica podemos recolocar essa questão da seguinte
forma: se apontamos que na constituição do sujeito o Outro parece não comparecer podendo acolher
o impacto pulsional produzindo o objeto perdido e fazendo o desejo operar, como podemos pensar a
possibilidade de fazer operar a falta, que em última análise é a falta no campo do Outro? É
importante lembrar que toda questão clínica prescinde de generalizações, pois só pode ser
respondida na especificidade de cada caso. Mesmo assim devemos pensar teoricamente para balizar
a própria clínica. Nesse sentido, devemos pensar primeiramente na transferência como conceito
fundamental e o campo onde se dá a experiência psicanalítica. Inicialmente é preciso garantir que se
construa uma suposição de saber que não seja mais referida ao saber médico que viria oferecer um
objeto definitivo, mas à suposição de que se possa responder a uma primeira pergunta sobre seu
sofrimento, podendo, assim, novamente ser dirigida ao outro, no caso ao analista para que se possa
reintroduzir numa certa dialética a força pulsional que se coloca sem mediação. É preciso, portanto,
que a angústia possa brotar dando sinal de que há algo a se inscrever uma vez que o alimento não
possa mais cumprir o papel de calar a angústia.
Isso coloca um novo limite ao trabalho analítico, pois trata-se primeiramente de ampliar o
campo de possibilidades subjetivas, ampliar o próprio acesso ao campo dos significantes, para que
se amplie juntamente a possibilidade de subjetivar o sofrimento, descolando de significantes que
são eminentemente referidos ao corpo para novos significantes aos quais o sujeito está
impossibilitado de acessar. Antes disso não podemos falar num processo analítico em que se aposte
no par associação livre e interpretação, pois caso essa ampliação não se dê e se antecipe a entrada
em análise corre-se o risco de que o tratamento seja abandonado prematuramente, não restando ao

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psicanalista qualquer possibilidade terapêutica. É preciso reintroduzir o sujeito no ciclo da troca,
para que a satisfação venha substituir algo que falta.
O dispositivo analítico só poderá manter sua eficácia na medida em que ressalte, nesses
casos, o papel fundamental das entrevistas preliminares, ocupando um tempo privilegiado do
tratamento, abrindo a possibilidade do analista entrar na dinâmica subjetiva, afrouxando certezas e
introduzindo novas dúvidas. Ainda assim sustentar o trabalho analítico com pacientes obesos,
fazendo emergir no lugar da certeza da dor pelo excesso do objeto, o sofrimento pela sua falta
coloca-se como um desafio.

BALBI, L. O traçado significante da pulsão. In: Revista da Escola Letra Freudiana – O corpo da
psicanálise. Ano XIX n. 27. Rio de Janeiro: Contracapa, 2000, 187-192.
BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. (O corpo, o afeto e a intensidade em psicanálise)
FREUD, S. A guisa de introdução ao Narcisismo. In: Escritos sobre a psicologia do inconsciente –
Vol. 1. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2004.
LACAN, J. O seminário, livro 4: A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
MOSCOVICH, C. Por que sou gorda, mamãe? Rio de Janeiro: Record, 2007.

RECALCATI, M. “O ‘demasiado cheio’ do corpo: por uma clínica psicanalítica da obesidade”. In:
Latusa. Rio de Janeiro, no 7, 2002.