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A revolução cruza o Atlântico

Aproveitando-se da frouxa vigilância, franceses fizeram circular ideais libertários


no fértil terreno da sociedade baiana
Luiz Carlos Villalta
1/7/2015
O alerta foi disparado pela Intendência Geral de Polícia de Lisboa, em
1792: uma expedição francesa estava a caminho do Brasil com o
objetivo de “republicanizar a colônia portuguesa na América”. Expediu-
se então uma Ordem Régia de D. Maria ao governador da Bahia, D.
Fernando José de Portugal e Castro, recomendando-lhe vigilância sobre
o navio Le Diligent, que teria sido armado para “introduzir nas colônias
estrangeiras o mesmo espírito de liberdade” que reinava na França e
“dividir as forças dos soberanos do Novo Mundo”. A embarcação, que
passaria pelo Rio de Janeiro e pela Bahia, trazia a bordo a Constituição
francesa traduzida em espanhol e em português.

D. Fernando, no entanto, tinha fama de frouxo e inepto, governante de


poucas realizações. Não agia com prevenção e não desenvolvia a
contento as funções repressivas que lhe cabiam para refrear as rebeldias
dos escravos e a quebra da disciplina entre os militares. Nas tropas,
reinavam a dissolução dos costumes e o desrespeito. Na administração
A riqueza das nações, de
da justiça, o governador atuava sempre em defesa dos interesses dos
Adam Smith. O padre
desembargadores da Bahia. Tal inércia facilitaria a propagação das
Francisco Agostinho Gomes
ideias francesas de revolução nos anos seguintes.
era leitor do economista
liberal e lamentou que o seu
Em 30 de novembro de 1796, chegou à capitania o comandante da nau
“sistema” não fosse seguido
francesa La Preneuse, Antoine René Larcher. Bem recebido pelo alto
no Brasil. (Imagem:
escalão do poder em Salvador, Larcher encontrou-se com jovens da elite
Reprodução)
baiana ativos e radicais do ponto de vista político, livres das “velhas
superstições” e ávidos na leitura de livros franceses. Supõe-se que, em
serões secretos na casa do farmacêutico João Ladislau Figueiredo de Melo, o comandante francês
tenha desfiado a filosofia dos enciclopedistas e suas teorias políticas diante de pessoas como o padre
Francisco Agostinho Gomes, o cirurgião Cipriano Barata de Almeida, o aristocrata canavieiro Inácio
Siqueira Bulcão e o professor Francisco Moniz Barreto. Essa movimentação escandalizou a maior parte
da elite local. O tenente Hermógenes Francisco de Aguilar Pantoja, escalado para vigiar o francês,
chegou a ser repreendido pelo governador em razão do seu excesso de entusiasmo com o visitante.

Larcher partiu da Bahia em janeiro do ano seguinte. Em agosto, submeteu à aprovação do Diretório,
que dirigia a República francesa, um projeto de invasão de Salvador. Ele havia recolhido informações
sobre os recursos de defesa da cidade, como munições e a localização dos fortes. Afirmava existir um
poderoso sentimento antiabsolutista em parte da elite local, traçando um projeto de aliança política
entre luso-americanos e franceses, que contaria com a sublevação de parte da tropa aquartelada na
Bahia. Os franceses cuidariam da proteção da capitania até a organização do aparelho de Estado
soberano em moldes republicanos, ao que se seguiria a independência.

Deste lado do Atlântico, o coronel José de Mattos Ferreira e


Lucena alertava o governador baiano sobre a ocorrência de
conversas sediciosas. A providência de D. Fernando foi advertir
os participantes sobre os perigos que corriam, fazendo com que
alguns deles saíssem de circulação. Em outra atitude tolerante,
satisfez-se em chamar a atenção do tenente Hermógenes Pantoja
por seu envolvimento em conversas sediciosas, que por isso ficou
recolhido em casa e foi dado como doente. Em maio de 1798, o
governador escreveu para a Corte mostrando-se tranquilo quanto
à situação da capitania. Dizia que a “lição de papéis públicos” –
como as gazetas inglesas, que não eram proibidas – estimularia a
curiosidade de algumas pessoas – “especialmente entre a
mocidade menos cordata e leve de entendimento”. Elas ficavam
animadas para falar com “mais alguma liberdade ou leveza”
sobre os acontecimentos europeus, sem que com isso se
introduzissem, porém, “princípios Jacobinos” ou se dessem
“ajuntamentos perniciosos”. A postura tolerante do governador
comprova sua inépcia política – ou dá margem para que hoje se
pense em seu possível envolvimento com a ebulição insurgente.

Embora o governo francês tenha refutado a proposta de invasão


da Bahia, não desistiu de acompanhar o que se passava na
Cipriano Barata, outro envolvido que América portuguesa, onde continuou a atuar para desenvolver o
estava em dia com as novidades contrabando e semear a revolta. Nessa iniciativa, contava com
europeias. (Imagem: Fundação parceiros internacionais: agentes privados e alguma cobertura da
Biblioteca Nacional) embaixada da Espanha em Lisboa. Segundo a Intendência de
Polícia portuguesa, madame Joana Entremeuse, que estava entre
os passageiros trazidos por Larcher em 1796, fez depois
repetidas viagens ao Brasil, “talvez por ser encarregada de fazer algumas indagações ou dispor os
ânimos de alguns habitantes daquelas duas Cidades [Rio de Janeiro e Salvador] e ganhar amizades
com algumas famílias para outros fins” – ou seja, misturava atividades de contrabando com
espionagem.
O governo português parecia ter consciência do perigo, ainda que não pudesse radiografá-lo com
precisão. Em junho de 1798, o governador D. Fernando recebeu um ofício de D. Rodrigo de Souza
Coutinho, ministro do príncipe regente D. João, com uma avaliação negativa a respeito de sua gestão,
criticando-lhe e falta de firmeza. As críticas do ministro prosseguiram mesmo depois que o
governador ordenou a investigação sobre os pasquins afixados em Salvador, em agosto daquele ano.
Em outubro, mencionou os murmúrios que haviam chegado a Lisboa sobre o comportamento e as
ideias de figuras importantes da sociedade soteropolitana, que estariam afetadas por “abomináveis”
princípios franceses.

Era o caso do padre licenciado Francisco Agostinho Gomes. Nascido em Salvador, filho de um rico
comerciante, ele foi enviado cedo para Portugal a fim de abraçar a vida eclesiástica. Com a morte do
pai, herdou uma fortuna, voltou ao Brasil e passou a se dedicar à ciência, particularmente à botânica.
Na biblioteca de Agostinho em Salvador havia títulos em francês e inglês, sobretudo de história
natural, economia política, viagens e estudos de filosofia. Ao viajante inglês Thomas Lindley, o padre
elogiou a História da América, de William Robertson, que critica a colonização europeia no
continente. Quanto a A riqueza das nações, de Adam Smith, lamentou por “quão pouco do seu
sistema” ser “observado no Brasil”, possivelmente referindo-se ao monopólio comercial e à defesa do
livre-comércio. De acordo com Lindley, Agostinho Gomes estava familiarizado com as disputas
políticas do mundo anglo-saxão, pois discorreu sobre os estudos de Thomas Paine, enfatizando, ao que
parece, a defesa da independência da América inglesa. Percebe-se o quanto o padre se afinava com
as ideias mais radicais do Iluminismo, uma perspectiva crítica que se somava ao seu profundo
interesse pela ciência – segundo Lindley, ele era uma exceção no panorama intelectual do Brasil em
pleno século das Luzes. Em sua vida privada, o padre licenciado não seguia as regras estabelecidas
pela Igreja: mantinha relações ilícitas com uma viúva, com a qual teve sete filhos, e foi acusado de
promover jantares de carne em dias de preceito religioso. Nos anos de 1797 e 1798, Agostinho
envolveu-se nas discussões relacionadas à conjuração que eclodiu na Bahia.
Vista de Salvador por Luís dos Santos Vilhena, em 1801. (Imagem: Fundação Biblioteca Nacional)

Outro suspeito de D. Rodrigo era o cirurgião Cipriano Barata, que retornou à Bahia no fim do século
XVIII após estudar na Universidade de Coimbra. Segundo documentos da Inquisição, o médico
articulou proposições heréticas e de sedição num sistema coerente de ideias. Fazia uso de
manuscritos trasladados, copiados por letrados e postos em circulação entre os rústicos, com
argumentos contra as autoridades religiosas e monárquicas. “Afirmam e mostram crer que (...) não há
Inferno, nem Purgatório; que a morte do homem é igual à de outro qualquer Bruto e que, por isso,
aquele pode usar livremente da sua vontade e gozar das delícias que o Mundo produz; que tudo o que
se vê criado sobre a Terra se deve ao Homem, e não a Deus”, registrou a Inquisição sobre Cipriano
Barata e Marcelino Veloso, companheiro de sedição.

Para o comissário da Inquisição de Lisboa, João Lobato de Almeida, essas “francesias” disseminavam
desobediências. E o governador da Bahia continuava omisso. Quando a rainha mandou que D.
Fernando prendesse o padre Agostinho e seus amigos, ele não cumpriu a ordem. Abriu uma devassa,
que se limitou a ouvir pessoas que nada sabiam.

Luiz Carlos Villalta é professor da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de Usos do livro no
mundo luso-brasileiro sob as Luzes: reformas, censura e contestações (Fino Traço, 2015).

Saiba mais

JANCSÓ, István. Na Bahia, contra o império: história do ensaio de sedição de 1798. São
Paulo/Salvador: Hucitec/UFBA, 1996.
MOTTA, Carlos Guilherme. Ideia de Revolução no Brasil (1789-1801): estudo das formas de
pensamento. Petrópolis: Vozes, 1979.
RUY, Affonso. A Primeira Revolução Social Brasileira (1798). São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1942.
TAVARES, Luís Henrique Dias. História da sedição intentada na Bahia em 1798: a conspiração dos
alfaiates. São Paulo: Pioneira, 1975.