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A União com Cristo nas Epístolas de Paulo (J.V.

Fesko)

Uma das passagens mais espantosas da Escritura aparece na abertura da epístola de Paulo aos efésios, onde o apóstolo
literalmente começa do início de tudo quando escreve: “E amor [isto é, Deus] nos predestinou para ele, para a adoção de
filhos, por meio de Jesus Cristo” (1:4-5). Conforme Paulo revela todas as bênçãos que os crentes recebem, ele ancora a
salvação em Cristo com a repetição de uma frase: “Nele…” Paulo escreve, “Nele temos a redenção, pelo seu sangue, a
remissão dos pecados […] de fazer convergir nele […] todas as coisas […], nele […] fomos também feitos herança, […]
tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa” (vv. 7-13, ênfase minha). Paulo repete o
refrão “nele,” que nos aponta para a doutrina da união com Cristo. Mas o que exatamente é união com Cristo?
Em sua Teologia Sistemática, Louis Berkhof define a união com Cristo como “aquela união íntima, vital e espiritual entre
Cristo e seu povo, em virtude do que ele é a fonte da vida e da força de seu povo; de sua bendição e salvação.” Há diversas
passagens ao longo das Escrituras que revelam que os crentes são unidos a Cristo: Nós somos os ramos e Jesus é a vinha
(João 15:5); Jesus é a cabeça e nós somos seu corpo (1Co. 6:15-19); Cristo é o fundamento e nós somos as pedras vivas
unidas ao fundamento (1Pe. 2:4-5); e o casamento entre o marido e a mulher aponta derradeiramente para a união entre
Cristo e os crentes (Ef. 5:25-31). Além dessas imagens bíblicas, a específica frase “em Cristo” ocorre umas vinte e cinco
vezes nas epístolas de Paulo. Podemos dizer que a união com Cristo ocasiona todos os benefícios de nossa redenção. A
questão 69 do Catecismo Maior de Westminster, por exemplo, pergunta: “Que é a comunhão em graça que os membros
da Igreja invisível têm com Cristo?” E então responde: “A comunhão em graça que os membros da igreja invisível têm
com Cristo é a participação da virtude da sua mediação, na justificação, adoção, santificação e tudo o que nesta vida
manifesta a união com Ele .”
A resposta do Catecismo Maior é facilmente verificada a partir da Escritura. Por exemplo, como vimos acima, somos
escolhidos “nele” antes da fundação do mundo (Ef. 1:4). Paulo escreve à igreja em Roma que “não há condenação para
aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm. 8:1), que é outra maneira de dizer que aqueles que estão unidos a Cristo são
justificados. Qualquer um que está “em Cristo Jesus” é um filho de Deus através da fé (Gl. 3:26). Além disso, se os Cristãos
habitam em Cristo, eles dão muito fruto; eles produzirão boas obras (João 15:5). Somente Cristo nos dá nossa salvação,
quer seja considerado como um todo ou como diferentes benefícios individuais, como a justificação e a santificação.
Qual é a significância do fato que os crentes são unidos a Cristo? Teólogos reformados têm argumentado historicamente
que há diversos aspectos diferentes da nossa união com Cristo. Por exemplo, somos unidos a Cristo em termos de nossa
eleição “nele.” Não fomos habitados pelo Espírito Santo neste ponto e unidos a Cristo pela fé porque nem sequer
existíamos exceto na mente de Deus. Todavia, somos unidos a Cristo em termos da decisão do Pai de eleger pecadores
caídos individuais e redimi-los através de seu Filho. Consequentemente, nesse sentido, somos unidos a Cristo no decreto
da eleição.
Há um segundo aspecto da união com Cristo, que alguns chamaram de nossa união representativa ou federal. No
ministério terreno de Cristo, tudo o que ele fez, ele fez em nome de sua noiva, a igreja. Quando ele foi batizado no Rio
Jordão, que era um batismo de arrependimento, ele não estava confessando pecado pessoal, visto que era um cordeiro
sem mácula — ele não tinha pecado (Marcos 1:4; 1 Pedro 1:19). Ao invés disso, como representante do povo, ele estava
agindo em nome do povo. Consequentemente, não apenas em seu batismo, mas em seu cumprimento de toda vírgula e
til da lei, em seu perfeito sofrimento, sua ressurreição e sua ascensão — tudo o que Cristo fez foi em nome de sua noiva.
Os perfeitos sofrimento e guardar a lei de Cristo se tornam nossos através da fé — eles são imputados, ou creditados, a
nós. A ressurreição de Cristo é representativa, em que conforme a cabeça é levantada, também o corpo, a igreja, será
levantado precisamente da mesma maneira. Agora, como Cristo se assenta em sessão real à destra de seu Pai celestial,
nós estamos assentados com Cristo e governamos com ele nos lugares celestiais (Ef. 1:20-21).
Um terceiro aspecto de nossa união com Cristo é o que alguns chamam de união mística ou pessoal. Esta é a habitação
pessoal do crente pela fé através da pessoa e da obra do Espírito Santo. Várias passagens falam dessa dimensão de nossa
união com Cristo, incluindo Efésios 2, onde o apóstolo Paulo explica que somos membros da casa de Deus, edificada na
fundação dos apóstolos e profetas, com Cristo como a pedra angular. Sobre esse grandioso e definitivo templo, Paulo
escreve que nós crescemos “para santuário dedicado ao Senhor,” e nele nós estamos “juntamente sendo edificados para
habitação de Deus no Espírito” (v. 22).
Durante a cerimônia de casamento, quando um homem e uma mulher ficam diante do ministro, eles são dois indivíduos
separados. No fim da cerimônia, contudo, eles são declarados “marido e mulher.” São unidos; e ambos se tornam “uma
só carne” (Gn. 2:7; Ef. 5:25-31). A propriedade de cada indivíduo se torna a propriedade de ambos. Mas em nossa união
matrimonial com Cristo, a gloriosa troca é muito maior. Nosso pecado e nossa culpa são imputados a Cristo, e sua perfeita
guarda da lei e seu sofrimento são imputados a nós — o que é nosso se torna dele, e o que é dele se torna nosso. Por
causa da união representativa que compartilhamos com Cristo, o Pai não mais olha para nós como pecaminosos, mas vê
apenas a justiça e a santidade de Cristo.
A Questão 60 do Catecismo de Heidelberg pergunta: “Como você é justo diante de Deus?” O catecismo, então, dá uma
resposta muito tranquilizante:
Apenas por uma genuína fé em Jesus Cristo; isto é, embora minha consciência me acuse de que pequei gravemente contra
todos os mandamentos de Deus e não guardei nenhum deles, e ainda sou inclinado a todo mal, ainda assim Deus, sem
qualquer mérito meu, por pura graça, concede e imputa a mim as perfeitas satisfação, justiça e santidade de Cristo, como
se eu nunca tivesse tido ou cometido qualquer pecado, e como se eu mesmo tivesse cumprido toda a obediência que Cristo
transmitiu a mim; se eu apenas aceitar tal benefício com um coração crente.
E quanto a santidade pessoal e boas obras? Elas não são mais necessárias? Os crentes estão livres da necessidade de fazer
boas obras por causa de sua justificação? Eles são livres para pecar?
Estas são perguntas que Paulo enfrentou após falar das glórias de nossa justificação pela graça somente, através da fé
somente e em Cristo somente em Romanos 3 a 5. Paulo responde com seu conhecido e enfático “De maneira nenhuma!”
à pergunta de se os cristãos são livres para pecar por causa de sua justificação. A realidade para qual ele aponta como a
razão pela qual não podemos mais viver em pecado, é nossa união com Cristo:
Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela
glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua
morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição. (Rm. 6:4-5)
Em outras palavras, em nossa união com Cristo, recebemos não apenas o benefício da justificação, mas também temos o
benefício da santificação. Muitas pessoas pensam que sua santificação, sua transformação espiritual e conformação à
imagem santa de Cristo, é simplesmente uma questão de tentar com mais vontade, vestir toda sua armadura moral — de
decidir ser mais santo. Contudo, uma coisa que deveria estar clara é que Jesus claramente nos diz que a única maneira de
produzirmos fruto é se habitarmos nele: “Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá
muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (João 15:5).
Devemos perceber que não devemos viver para a vida, mas a partir dela — fomos crucificados com Cristo e não somos
mais nós que vivemos, mas Cristo que vive em nós (Gl. 2:20). Cristãos têm a grande certeza de que quando somos unidos
a Cristo pela fé, nós recebemos a Cristo plenamente e todos os benefícios da redenção, não apenas alguns deles.

Sinais e Selos de União (Joel Beeke)

Assim como ele chamou o mundo à existência pelo poder de sua Palavra (Sl. 33:6-9; Hb. 11:3), assim também Deus traz
sua igreja à existência pelo poder do chamado do evangelho (2Ts. 2:13-14; 1Pe. 2:9-10). Tal chamado nos invoca à união
com Cristo pela fé, como um povo sob o Deus trino (Ef. 4:4-6). A igreja é definida por nosso chamado à comunhão com
Cristo e uns com os outros, como Paulo lembra aos coríntios: “À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em
Cristo Jesus, chamados para ser santos. […] Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo,
nosso Senhor” (1Co. 1:2a, 9; e ao longo do capítulo).
A comunhão com Deus em Cristo está no âmago do cristianismo empírico. A plenitude da alegria da igreja é ter comunhão
uns com os outros e com o Pai e o Filho (1 João 1:3-4). Por causa de nossa união com Cristo como membros de seu corpo,
a igreja (Ef. 1:22-23), o Espírito de Cristo que habita em Cristo como cabeça, habita em todos os seus membros (Rm. 8:9).
O Espírito que habita é a essência de nossa comunhão com o Pai e com o Filho (2Co. 13:14; Ef. 2:18). João Calvino disse:
“O Espírito Santo é o elo pelo qual Cristo eficazmente nos une a si mesmo” (Institutas 3.1.1). Como marido e mulher são
“uma só carne,” nós somos “um só espírito” com o Senhor Jesus (1Co. 6:16-17). Imagine o quão próximo você seria de
um amigo se sua própria alma pudesse habitar nele. Tal é a intimidade de Cristo com cada um de seus membros através
da habitação do Espírito Santo. Esse mesmo Espírito nos batiza em um único corpo de Cristo, nos unindo em fé, adoração
e serviço (1 Co. 12:12-13; Confissão Belga, Artigo 27).
Portanto, não deveria ser surpresa que os sacramentos da igreja confirmam e manifestam nossa união com Cristo e uns
com os outros. Gálatas 3:26-28 diz:
Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo
vos revestistes. Dessarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque
todos vós sois um em Cristo Jesus.
Gálatas 3:26 diz claramente que somos salvos pela fé, não por qualquer uma de nossas obras, quer sejam obras morais
como guardar os Dez mandamentos, ou obras cerimoniais como a circuncisão, o batismo ou a Ceia do Senhor (veja
também 2:16; 5:2). Ainda assim, o versículo 27 diz que aqueles que foram batizados, se revestiram de Cristo e, portanto,
são “um em Cristo.” Como isso deve ser entendido? Eles devem olhar para seu batismo não como uma causa, mas como
um sinal de sua união com Cristo pela fé e, nele, uns com os outros. Em seu Catecismo de 1545, Calvino estabelece esta
definição:
O que é um sacramento? Uma atestação da graça de Deus que, por sinal visível, representa coisas espirituais para cunhar
as promessas de Deus mais firmemente em nossos corações, e tornar-nos mais certos delas. (Q. 310)
Se o próprio sacramento do batismo nos uniu a Cristo e nos salvou, seria inconcebível para Paulo escrever que “Porque
não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho” (1Co. 1:17). Por que pregar o evangelho se os resultados
desejados poderiam ser obtidos simplesmente ao batizar todas as pessoas? O evangelho, não o batismo, é “o poder de
Deus para a salvação” (Rm. 1:16). Calvino disse:
Não devemos ser tomar o sinal terreno de maneira a buscar nossa salvação nele, nem devemos imaginar que ele tem um
poder peculiar incluso nele. Pelo contrário, devemos empregar o sinal como uma ajuda, para nos levar diretamente ao
Senhor Jesus, para que encontremos nele nossa salvação e […] felicidade. (Catecismo Q. 318)
Assim, Paulo nos adverte em 1 Coríntios 10:1-5 que nós podemos receber os sacramentos, mas ainda sermos incrédulos,
não-convertidos e, derradeiramente, rejeitados por Deus:
Ora, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e todos passaram pelo mar, tendo sido
todos batizados, assim na nuvem como no mar, com respeito a Moisés. Todos eles comeram de um só manjar espiritual e
beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo.
Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram prostrados no deserto.
Note como ele faz alusão aos sacramentos da nova aliança falando do batismo, de comida e de bebida. Sacramentos não
salvam e nem podem salvar.
Isso significa que o batismo e a Ceia do Senhor são apenas cerimônias de recordação? De maneira nenhuma. Os apóstolos
frequentemente exortaram os crentes a olhar para trás para seu batismo como um sinal de sua união com aquele que
morreu e ressuscitou (Rm. 6:3-4; Gl. 3:27; Ef. 5:25-26; Cl. 2:12; 1Pe. 3:21-22). O pão que partimos e o cálice que
abençoamos são a comunhão do corpo e do sangue de Cristo (1Co. 10:16). Utilizados em fé, são meios de aproximar-se
de Cristo, acessar os benefícios de sua obra expiatória aplicando-a a nós mesmos e encontrando graça para viver para
Deus (Rm. 6:1-14).
Os sacramentos são meios pelos quais Cristo, através da obra de seu Espírito, oferece as si mesmo a nós para ser recebido
por fé. É por isso que Paulo falou de receber comida e bebida “espirituais” de Cristo (1Co. 10:3-4), de ser batizado pelo
Espírito e beber do Espírito (12:13), assim como ser cheio do Espírito (Ef. 5:18).
Calvino escreveu: “Se falta o Espírito, os sacramentos não podem efetuar nada.” (Institutas 4.14.9). E mais:
O Espírito verdadeiramente é o único que pode tocar e mover nossos corações, iluminar nossas mentes e encorajar nossas
consciências; para que tudo isso seja julgado como sua própria obra, que louvor seja atribuído a ele somente. Não
obstante, o próprio Senhor faz uso dos Sacramentos como instrumentos inferiores como lhe convém, sem que eles de
maneira nenhuma depreciem o poder de seu Espírito. (Catecismo Q. 312)
Quando a igreja se reúne em nome de Cristo e celebra a Santa Ceia em memória dele, temos real comunhão ou comunhão
espiritual com Cristo. Note a repetição da palavra “comunhão” (do gregokoinōnia: “comunhão, participar ou partilhar em
comum”) de várias formas em 1 Coríntios 10:16-20:
Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a
comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos
participamos do único pão. Considerai o Israel segundo a carne; não é certo que aqueles que se alimentam dos sacrifícios
são participantes [koinōnoi] do altar? Que digo, pois? Que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Ou que o próprio ídolo
tem algum valor? Antes, digo que as coisas que eles sacrificam, é a demônios que as sacrificam e não a Deus; e eu não
quero que vos torneis associados [koinōnous] aos demônios.
O que Paulo quis dizer ao falar que participar do pão e do cálice é a “comunhão” do corpo e do sangue de Cristo? Em
parte, ele quis dizer que somos através disso unidos como “um corpo” (v. 17). Temos comunhão uns com os outros. Mas
há mais. Calvino disse: “Mas de onde, lhes pergunto, vem essa koinōnia(comunhão) entre nós, senão pelo fato de que
somos unidos a Cristo?” (comentário em 1Co. 10:16).
Paulo usa a mesma linguagem de koinōnia com respeito aos adoradores do Antigo Testamento. Comendo os sacrifícios,
eles tinham comunhão no altar. Eles compartilharam uma refeição com Deus na base do sacrifício de sangue e através de
um sacerdócio ordenado. A igreja compartilha uma refeição pactual com o Senhor, banqueteando em sua presença
mediante graça comprada por sangue.
Paulo também usou a mesma linguagem para adoradores pagãos: eles têm comunhão com demônios. Eles adoram na
presença de espíritos imundos. Paulo está dizendo que os adoradores de fato se conectam com os seres caídos que
adoram. Se tomamos parte com demônios, esta é uma forma de adultério espiritual que provoca o ciúme de Deus (v. 22).
Obviamente tal “comunhão” é uma realidade espiritual de grande significado. Paulo define essa adoração pagã em direto
contraste com a Ceia do Senhor, obviamente querendo que as vejamos como paralelas (v. 21).
Assim, vemos o que Paulo quer dizer com “a comunhão do sangue de Cristo.” Nós renunciamos os poderes de Satanás e
temos comunhão espiritual com o próprio Cristo, crucificado por nós, e agora ressurreto e exaltado como nosso Cabeça
e Sumo Sacerdote espiritual. Nós banqueteamos nos benefícios de sua morte expiatória e no poder de sua vida infinita.
Calvino disse que a Ceia é “um banquete espiritual, em que Cristo afirma a si mesmo como sendo o pão que dá vida, no
qual nossas almas se alimentam de verdadeira e bendita imortalidade [João 6:51]” (Institutas 4.17.1).
Valorizemos os sacramentos como “preciosas ordenanças de Deus” para serem usados através da fé em Cristo. Se os
usarmos como “hipócritas, nos quais o mero símbolo desperta orgulho,” nossa confiança é colocada no lugar errado, e os
símbolos físicos são vazios. Mas se os recebermos como aqueles que são unidos a Cristo através de verdadeira fé, vemos
“as promessas que eles exibem da graça do Espírito Santo” (comentário de Calvino em Gl. 3:27), e, através da fé, Cristo
habitará cada vez mais em nossos corações (Ef. 3:16-17).

União com o Deus Trino (Sinclair Ferguson)

Você já imaginou como seria estar há horas de distância da morte — não como um idoso, mas como alguém condenado
a morrer, embora inocente de qualquer crime? O que você iria querer dizer àqueles que vocês conhecem e que mais
amam você? Você, certamente, lhes diria o quanto você os amava. Você poderia esperar ser capaz de dar-lhes algum
conforto e confiança — apesar do pesadelo que você mesmo estava encarando. Você iria querer abrir seu coração e dizer
as coisas que são mais importantes para você.

Tal atitude seria certamente digna de louvor. É claro, seria pura natureza humana — porque foi isso que Jesus fez, como
o apóstolo João relata no Discurso do Cenáculo (João 13-17).
Há vinte e quatro horas de sua crucificação, o Senhor Jesus expressou seu amor de maneira rara e delicada. Ele levantou
da mesa da ceia, amarrou uma toalha de servo em sua cintura, e lavou os sujos pés de seus discípulos (incluindo,
aparentemente, os de Judas Iscariotes; João 13:3-5, 21-30). Foi uma parábola ativa, como João explica: “Tendo amado os
seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (v. 1).
Ele também falou palavras de profundo conforto a eles: “Não se turbe o vosso coração” (14:1).
Ainda assim, Jesus fez muito mais. Ele começou a mostrar a seus discípulos “as profundezas de Deus” (1 Coríntios 2:10).
Quando lavou os pés de Pedro, lhe disse que ele entenderia suas ações apenas “depois” (João 13:7). Igualmente para o
que ele disse, pois ele começara a revelar a seus discípulos a natureza interior de Deus. Ele é Pai, Filho e Espírito Santo —
a Santa Trindade.

A Glória do Mistério Revelada

Muitos cristãos tendem a pensar na Trindade como uma doutrina antiprática e especulativa. Mas o Senhor Jesus não
pensa assim. Para ele, ela não é especulativa nem antiprática — mas exatamente o contrário. Ela é o fundamento do
evangelho. Sem o amor do Pai, a vinda do Filho, e o poder regenerador do Espírito Santo, simplesmente não poderia haver
salvação. (Unitarianos, por exemplo, não podem ter expiação feita por Deus para Deus).
Durante seu Discurso de Despedida, Jesus explicou a Filipe que vê-lo é ver o Pai (João 13:8-11). Ainda assim, ele mesmo
não é o Pai; do contrário, ele não poderia ser o caminho para o Pai (João 14:6). Ele também está “no” Pai, e o Pai está
“nele.” Esta mútua habitação é, como os teólogos dizem, “inefável” — além de nossa habilidade de compreender. E ainda
assim, não está além da habilidade da fé de crer.
Além disso, o Espírito Santo reside no âmago deste vínculo entre o Pai e seu Filho. Mas agora, o Pai enviou seu Filho (que
está “no” Pai). Tal é o amor do Pai e do Filho pelos crentes, que eles virão e farão dos crentes sua morada.
Como assim? O Pai e o Filho vêm habitar no crente através da habitação do Espírito Santo (14:23). Ele glorifica a Cristo
(16:14). Ele toma o que pertence a Cristo, dado a ele pelo Pai, e mostra a nós. Mais tarde, quando temos o privilégio de
ouvir de longe a oração de nosso Senhor, Jesus semelhantemente fala sobre a íntima comunhão com Deus que o
sustentou tão maravilhosamente: “tu, ó Pai, [estás] em mim e eu em ti” (João 17:21).
De fato, isso é teologia profunda. Ainda assim, virtualmente a mais profunda afirmação que podemos fazer sobre Deus é
que o Pai está “no” Filho e o Filho “no” Pai. Parece tão simples que uma criança pode ver. Pois, qual palavra pode ser mais
simples que no?
Ainda assim, isso também é tão profundo que as melhores mentes não podem sondar. Pois, sempre que buscamos
contemplar a pessoa do Pai, descobrimos que não podemos fazê-lo sem pensar em seu Filho (pois ele não pode ser um
pai sem um filho). Nem podemos contemplar este filho à parte do Pai (pois ele não pode ser um filho sem pai). Tudo isso
é possível porque o Espírito ilumina quem o Filho de fato é, como Aquele único através de quem podemos vir ao Pai.
Assim, nossas mentes simultaneamente dilatam de prazer nesta trindade em unidade, e ainda assim são esticadas além
de suas capacidades pela noção da unidade na trindade. Quase tão atordoante é o fato de que Jesus revela e ensina tudo
isso para ser a verdade do evangelho que mais firma a vida, conforta o coração, dá equilíbrio e alegria (15:11).
A Trindade é tão vasta em significância porque pode trazer conforto a homens levados ao limite pela atmosfera de tristeza
prestes a submergi-los. O Um trino é maior em glória, mais profundo em mistério, e mais belo em harmonia do que todas
as outras realidades na criação. Nenhuma tragédia é grande demais para oprimi-lo; nada que é incompreensível para nós
o é para ele, cujo próprio ser é incompreensível para nós. Não há trevas mais profundas do que as profundezas do interior
de Deus.
Talvez seja compreensível, então, que Jonathan Edwards pudesse escrever em sua Narrativa Pessoal:
Deus apareceu glorioso para mim, por causa da Trindade. Ela me fez ter pensamentos exaltantes sobre Deus, que ele
subsiste em três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. As mais doces alegrias e deleites que experimentei, não foram aquelas
que surgiram de uma esperança em meu próprio bom estado; mas em uma direta visão das coisas gloriosas do evangelho.
Quando desfruto dessa doçura, ela parece me carregar acima dos pensamentos de meu próprio estado; parece em tais
momentos uma perda que não posso suportar, desviar meus olhos do glorioso e prazeroso objeto que contemplo sem
mim, e voltar os olhos para mim mesmo, e meu próprio bom estado.
Mas a revelação da Trindade está de fato relacionada com nosso “próprio bom estado.”

A Maravilha da União revelada

O objetivo do ensino de Jesus não é meramente chocar nossas mentes ou agitar nossas imaginações. É nos dar um senso
do vasto privilégio da união com ele.
Desde o princípio destas poucas horas de ministério, Jesus falou sobre seus discípulos terem uma “parte” com ele (João
13:8). Ele também explicou que o Espírito revela aos cristãos que eles estão “em Cristo” e que ele está neles (14:20). Esta
é uma união tão real e maravilhosa que sua única analogia real — assim como seu fundamento — é a união do Pai e do
Filho através do Espírito. Os discípulos desfrutariam a união com o Filho e, portanto, teriam comunhão com o Pai através
do Espírito. “Vós o conheceis,” disse Jesus, “porque ele habita convosco e estará em vós” (v. 17). Estas enigmáticas
palavras não se referem ao contraste do relacionamento entre o Espírito e os crentes da antiga aliança (“convosco”) e da
nova aliança (“em vós”). Elas são frequentemente entendidas dessa maneira, mas Jesus está na verdade dizendo: “Vocês
conhecem o Espírito, porque ele está com vocês em mim, mas ele virá (no Pentecostes) para estar em vocês como
justamente Aquele que tem sido meu constante companheiro (e nesse sentido, ‘em vocês’). Assim, ele não é outro senão
Aquele que é o vínculo de comunhão entre o Filho e o Pai desde toda a eternidade.”
Assim, ser unido com Cristo é ter parte em uma união criada pela habitação do Espírito do Filho encarnado que está ele
mesmo “no” Pai como o Pai está “nele.” União com Cristo significa nada menos que comunhão com todas as três pessoas
da Trindade. Não é que a natureza divina esteja infundida nos crentes. Nossa união com Cristo é espiritual e pessoal —
efetuada pela habitação do Espírito do Filho do Pai.
Note, então, o raro e delicado quadro que Jesus pinta para expressar a beleza e a intimidade dessa união: ela envolve
nada menos que o Pai e o Filho fazendo morada no coração do crente (v. 23).
Significativamente, Jesus não exige que os crentes façam uma dúzia de coisas — exceto crer e amar. Pois esta é a
percepção (“naquele dia vós conhecereis”; v. 20) da realidade e da magnitude dessa união com Deus Trino através da
união com Cristo que transforma o pensamento, o sentimento, a disposição, o amor e, consequentemente, as ações do
crente. Nessa união, o Pai apara os ramos da vinha para dar mais fruto (15:2). Na mesma união, o Filho guarda todos
aqueles que o Pai lhe deu (17:12).
Não me surpreende que John Donne tenha orado:
Invade meu coração, Deus trino; pois fazes tudo, menos bater; respire, brilhe, e busque consertar; Que eu levante e
permaneça, me derrube, e empenhe Tua força para quebrar, soprar, queimar, e fazer-me novo. Eu, como uma cidadela
usurpada por outros, Trabalho para deixa-lo entrar, mas ah, sem resultado; Razão, vosso vice-rei em mim, eu deveria
defender, Mas está cativo e se prova fraco ou falso. Ainda assim em estima te amo, e seria alegremente amado, Mas estou
noivo de teu inimigo; Divorcie-se de mim, desate ou quebre o nó novamente, Leve-me contigo, me aprisione, pois eu, a
menos que me encantes, nunca serei livre, Nem nunca serei puro, a menos que me arrebates. (Holy Sonnets XIV – Santos
Sonetos XIV)
Em Cristo (Burk Parsons)

Repetitio mater studiorum est. “A repetição é a mãe de todo aprendizado.” O apóstolo Paulo entendeu isso. Sob a
inspiração e a superintendência do Espírito Santo, Paulo constantemente repetia as verdades fundamentais da doutrina
bíblica, e ele fazia isso não apenas dentro de cada uma de suas epístolas, mas às vezes dentro da mesma frase. O mais
claro exemplo disso é encontrado na epístola de Paulo aos efésios. Conforme ele desenrola o glorioso mistério de nossa
salvação, Paulo reitera a frase “em Cristo” ou “nele” continuamente ao longo do primeiro capítulo, e quase dez vezes nos
versos 3 a 14, que é uma longa frase na língua original. Há muitos anos atrás, enquanto eu pregava em Efésios capítulo 1,
eu expliquei à nossa congregação que se eles fossem lembrar de apenas uma verdade de nosso estudo de Efésios, que
fosse a frase “em Cristo”, que é uma maneira curta de se lembrar de um dos mais fundamentais aspectos da salvação —
nossa união com Cristo.
A união do crente com cristo há tempos vem sido uma doutrina negligenciada em muitas igrejas, embora seja uma
doutrina central da Escritura. A Palavra de Deus nos ensina que somos escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo
e que somos unidos com Cristo pela graça justificadora de Deus através da nossa fé somente por causa da morte expiatória
de Cristo somente (João 15:4-7; 1 Coríntios 15:22; 2 Coríntios 12:2; Gálatas 3:28; Efésios 1:4, 2:10; Filipenses 3:9; 1
Tessalonicenses 4:16; 1 João 4:13). A natureza dessa união não é apenas que estamos em Cristo, mas que ele está em nós
(João 6:56; Romanos 8:10; 2 Coríntios 13:5; Gálatas 2:20; Efésios 3:17; Colossenses 1:27). As implicações teológicas de
nossa união com Cristo são espantosas, e é o próprio Cristo quem nos ensinou que elas são. Em João 15, Jesus disse: “Eu
sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis
fazer” (v. 5). Na raiz de nossa santificação está nossa união com Cristo. Como ramos, nós damos frutos precisamente
porque estamos unidos a Cristo, a videira, e estamos conectados à videira por causa da obra de Deus Pai, que é “o
agricultor” (15:1). Além disso, em sua oração sumo-sacerdotal, Jesus expressou a profunda união que ele tem com os
crentes, dizendo: “… eu neles, e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça
que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim” (17:23). Nesta gloriosa oração, jesus revela a absoluta
majestade desta doutrina quando expressa que nossa união com ele — o eterno Logos, o Filho de Deus, a segunda pessoa
da Divindade, Deus conosco — tem a direta implicação que, em Cristo, o pai nos ama como ele ama seu Filho unigênito.
E visto que estamos unidos com Cristo, estamos unidos com ele em sua morte e, portanto, também seremos unidos com
ele em sua ressurreição (Romanos 6:5).